Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva Agentes Locais no Vale do Ribeira: Adriana de Souza Lima, Carlos Alberto Domingues, Carolina Funari Lucio, Edilaine de Paiva Mendes Ribeiro, Edson Rodrigues Bastos, Eliana Cléia dos Santos, Fabian Santana Theodoro, Jurandir Pereira dos Santos, Maria Ilma do Nascimento Miura, Maria Silvia Muller de Oliviera, Rosana Aparecida Rocha, Selma Scharmann, Teresinha Teixeira Ramos da Silva e Walkíria Tércia Siqueira Cardoso Ministro de Estado do Turismo Luiz Eduardo Pereira Barretto Filho Coordenadora do Programa Turismo Sustentável e Infância do Ministério do Turismo Elisabeth Parronchi Borges Bahia Figueiredo Realização Instituto Ing_Ong de Planejamento Socioambiental Curso Técnico em Turismo da Escola Técnica Eng. Agrônomo Narciso de Medeiros – Centro Paula Souza Núcleo de Estudos e Prevenção da Aids da Universidade de São Paulo – NEPAIDS / USP Apoio Associação de Monitores Ambientais de Cananéia (AMOANCA) Associação Serrana Ambientalista (ASA) Associação Vidas Verdes (AVV) Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) Coordenação Estadual de DST/Aids - Secretaria de Estado da Saúde de SP Centro Vergueiro de Atenção à Mulher Divisão Regional de Saúde XVII – Secretaria de Estado da Saúde de SP Fórum de ONG/Aids do Estado de São Paulo Grupo Ecológico Guaraú Instituto Chico Mendes - IBAMA Instituto Cultural Barong Instituto para o Desenvolvimento Sustentável e Cidadania do Vale do Ribeira Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Prefeitura Municipal de Iguape Prefeitura Municipal de Iporanga Prefeitura Municipal de Registro Rede de Monitores Ambientais do Vale do Ribeira Facilitadores das Oficinas: André de Jesus Antônio, Bianca Thais Manzari Pascoal, Cely Blessa, Lisa Trazzi, Marcelo Peixoto, Renata Bellenzani, Valéria Nancy Silva e Will Damas Editoração Eletrônica: André de Camargo Almeida Projeto Gráfico: Eté Design e Tecnologia Ltda. Revisão: Mariana Lebrão Lisboa Fotos: Marcos Moura Impresso no Brasil Tiragem desta edição: 5.000 exemplares Este material faz parte das atividades realizadas pelo projeto Promoção de Direitos de Crianças e Adolescentes em Comunidades Turísticas no âmbito do Convênio Ministério do Turismo / Instituto Ing_Ong de Planejamento Socioambiental / Número 700136/2008. Creative Commons 2009 – Instituto Ing_Ong de Planejamento Socioambiental/Ministério do Turismo A reprodução do todo ou parte deste documento é permitida para fins não lucrativos desde que citada à fonte Promovendo os direitos de mulheres, crianças e jovens de comunidades anfitriãs de turismo do Vale do Ribeira / Alessandra Blengini Mastrocinque Martins, Alessandro de Oliveira dos Santos e Vera Paiva. São Paulo: Instituto Ing_Ong de Planejamento Socioambiental, 2009. 56p.: Il. color.; 28 cm ISBN: 978-85-63132-00-0 1. Turismo. 2. Direitos Humanos. 3. Violências. 4. Educação. 5. Vale do Ribeira. I. Título. Nasce como um menino Franzino e perdido Aos poucos toma corpo, toma forma Rega histórias, rega vidas e rega gentes Carrega restos de vidas, recomeços Cresce, acompanha o fluxo sobre espaços, sob estradas Alaga e acalma Permeia indígenas, caiçaras, quilombolas e ribeirinhos Acalenta e amaldiçoa Silencioso e estrondoso Segue sua sina, com vida própria Acompanha céu, terra e verde Este é o Rio Ribeira Majestoso, poético, que constrói, destrói e alimenta a vida desta gente Apresenta seu cenário, sendo o ator principal deste Vale Walkíria Tércia Siqueira Cardoso Apresentação A região do Vale do Ribeira, localizada no sul do Estado de São Paulo, tem a maior área contínua remanescente de Mata Atlântica do Brasil, apresentando diversos atrativos como praias, cachoeiras, cavernas, patrimônio histórico e arqueológico e grande diversidade cultural. A área integra a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica criada pela UNESCO em 1991, sendo protegida por diferentes categorias de Unidades de Conservação como, por exemplo: Parques Estaduais e Municipais, Estações Ecológicas e Áreas de Proteção Ambiental. Em contraposição ao seu rico patrimônio ambiental e cultural, a região apresenta altos índices de mortalidade infantil, analfabetismo e trabalho informal. Além disso, a legislação ambiental rigorosa das Unidades de Conservação impõe à população restrições em relação ao manejo da terra, o que acaba por desenhar um quadro de exclusão no qual, especialmente aos jovens, são reservadas poucas perspectivas de trabalho ou renda. A pobreza tem sido um fator preponderante no Brasil para o aliciamento e ingresso de pessoas na prostituição e na exploração sexual comercial. No Vale do Ribeira, as imediações de postos de combustível, e pequenos bares, comércios e hotéis, localizados em algumas estradas e cidades, são os principais pontos de prostituição e exploração sexual. As poucas oportunidades e a dificuldade de acesso ao trabalho, ao lazer, e ao consumo, bem como o insuficiente investimento nas políticas sociais e de proteção dos direitos das crianças e jovens, têm contribuído para que mulheres e adolescentes de baixa renda ou carentes realizem “programas” com caminhoneiros, trabalhadores em trânsito, turistas ou moradores dos próprios municípios. A constatação dessa realidade motivou a produção desse material educativo visando subsidiar iniciativas de promoção e proteção dos direitos na região. Na primeira seção é possível encontrar informações sobre o processo de trabalho que deu origem ao material educativo e sobre o Vale do Ribeira e a cadeia produtiva do turismo na região. Na segunda seção os textos focalizam a proteção e a violação de direitos de mulheres, crianças e jovens. E, na terceira seção são abordados os temas mercado do sexo, exploração sexual e o uso de drogas no contexto do turismo. A quarta seção apresenta informações e contatos para articulação com organizações que trabalham com esses temas. Agradecemos a todos aqueles que, direta ou indiretamente, apoiaram a produção do material educativo. Esperamos que ele possa contribuir para sensibilizar e instrumentalizar os profissionais da cadeia produtiva de turismo e das administrações públicas do Vale do Ribeira em relação ao trabalho de promoção e proteção dos direitos das mulheres, crianças e jovens que vivem na região. Alessandra Blengini Mastrocinque Martins Coordenadora do Curso Técnico em Turismo da Escola Técnica Engenheiro Agrônomo Narciso de Medeiros – Centro Paula Souza Alessandro de Oliveira dos Santos Coordenador do Projeto Promoção de Direitos de Crianças e Adolescentes em Comunidades Turísticas. Depto. de Psicologia Social e do Trabalho do IP/USP (PRODOC/CAPES) e Inst. Ing_Ong de Planejamento Socioambiental Vera Paiva Coordenadora do Núcleo de Estudos e Prevenção da Aids (NEPAIDS) e professora do Instituto de Psicologia da USP Sumário Seção 1 - Contexto do projeto Comunidades interpretativas e protagonismo social no Vale do Ribeira: breve histórico de um projeto de promoção de direitos __________________pág 6 Lisa Trazzi, Adriana de Souza Lima, Bianca Thais Manzari Pascoal e Alessandro de Oliveira dos Santos Vale do Ribeira, São Paulo: uma história de conflitos socioambientais________pág 9 Carina Inserra Bernini Produção do turismo no Vale do Ribeira ___________________________pág 14 Alessandra Blengini Mastrocinque Martins Comunidades quilombolas do Vale do Ribeira_________________________pág 18 Paulo Silvio Pupo Seção 2 - Violação e proteção de direitos de mulheres, crianças e jovens Proteção e promoção dos direitos das crianças e jovens de comunidades anfitriãs de turismo_______________________________pág 20 Renata Bellenzani e Vera Paiva Violências sexuais contra mulheres, adolescentes e crianças ______________pág 26 Maria Cecília Rossi de Almeida O Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) e o papel do Conselho Tutelar na proteção e promoção dos direitos das crianças e adolescentes___________pág 29 Adilson Guimarães Tecendo a rede: ações do projeto RI-Vida no Vale do Ribeira ____________pág 36 Eliana Cléia dos Santos Seção 3 - Exploração sexual, mercado do sexo e uso de drogas Turismo e comunidade litorânea: contatos afetivo-sexuais e vulnerabilidade__pág 38 Regina Figueiredo e Marta McBritton Exploração sexual e prostituição na Rodovia Régis Bittencourt (BR-116) no trecho entre Miracatu e Barra do Turvo__________________________pág 41 João Carlos Ferreira, Eliana Cléia dos Santos e Alessandro de Oliveira dos Santos O uso de álcool e outras drogas em comunidades anfitriãs de turismo ______pág 44 Valéria Nancy Silva e Alessandro de Oliveira dos Santos Seção 4 - Articulação com a sociedade civil e com o poder público Informações e contatos para articulação com organizações públicas e da sociedade civil que desenvolvem ações de proteção e promoção dos direitos______________pág 48 Comunidades interpretativas e protagonismo social no Vale do Ribeira: breve histórico de um projeto de promoção de direitos Lisa Trazzi1 Adriana de Souza Lima2 Bianca Thais Manzari Pascoal3 Alessandro de Oliveira dos Santos4 No presente artigo fazemos um breve histórico do projeto que deu origem a este material educativo. O projeto Promoção de Direitos de Crianças e Adolescentes em Comunidades Turísticas foi realizado entre 10 de outubro de 2008 e 19 de novembro de 2009, pelo Instituto Ing_Ong de Planejamento Socioambiental em convênio com o Programa Turismo Sustentável e Infância (TSI) do Ministério do Turismo, e parceria com o Curso Técnico em Turismo da Escola Técnica Engenheiro Agrônomo Narciso de Medeiros – Centro Paula Souza e Núcleo de Estudos e Prevenção da Aids da Universidade de São Paulo. O projeto teve como objetivos: (a) Promover o aumento do conhecimento na área de Direitos Humanos entre os profissionais da cadeia produtiva de turismo e das administrações públicas municipais do Vale do Ribeira; (b) Estimular ações programáticas do poder público e da sociedade civil visando a redução da vulnerabilidade de mulheres, crianças e jovens à exploração sexual; (c) Produzir um material educativo para subsidiar iniciativas de promoção e proteção dos direitos na região. 1 - Programa de Intercâmbio Internacional Internship Agreement. Faculdade de Trabalho e Estudos Sociais, Universidade de Paris 01, Panthéon – Sorbonne e Instituto Ing_Ong de Planejamento Socioambiental. 2 - Grupo Ecológico Guaraú (GREG) – Peruíbe/SP. 3 - Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. 4 - Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP (PRODOC/CAPES) e Instituto Ing_Ong de Planejamento Socioambiental. 6 O processo de trabalho Para o cumprimento dos objetivos foram realizadas as seguintes atividades: (a) Seminário de Mobilização em 13,14 e 15 de março de 2009; (b) Oficinas de Discussão do conteúdo do material educativo em 21 e 22 de maio de 2009 (oficina I), 02, 03 e 04 de julho (oficina II) e 20, 21 e 22 de agosto de 2009 (oficina III); (c) Evento de Apresentação do conteúdo final do material educativo em 07 de novembro de 2009. Todas as atividades foram realizadas em Iguape na Escola Técnica Engenheiro Agrônomo Narciso de Medeiros – Centro Paula Souza. Os alunos do Curso Técnico em Turismo cuidaram do receptivo dos participantes dos eventos e oficinas do projeto. O Seminário de Mobilização Desafios para Promoção dos Direitos das Crianças e Jovens de Comunidades Anfitriãs de Turismo reuniu 127 participantes entre conselheiros tute- lares, profissionais das administrações públicas municipais das áreas de saúde, educação, turismo e assistência social, monitores ambientais e alunos e técnicos de turismo. Durante o seminário foram realizadas conferências, mesas redondas e oficinas, ministradas por técnicos e estudiosos das áreas de saúde, turismo e infância e juventude, com foco nas experiências de trabalho do poder público, da universidade e de organizações da sociedade civil no campo da promoção e proteção de direitos. As atividades foram gravadas em áudio e sistematizadas em um relatório final do evento. Durante o seminário também houve a identificação de pessoas da região interessadas em atuar como agentes locais do projeto, realizando um mapeamento (pesquisa de campo) em seu município e participando das oficinas de discussão do conteúdo do material educativo. ➲ Seção 1 - Contexto do projeto A participação comunitária é imprescindível no enfrentamento dos problemas sociais. Síntese do processo de trabalho realizado nas oficinas: Reconhecendo essa realidade muitos projetos e pes- tório do seminário e da cartilha do TSI; sistematização e apresentação dos principais conceitos trabalhados e recomendações; treinamento para realização da pesquisa de campo nos municípios (sensibilização dos informantes, observação de cenas e cenários, e realização de entrevistas e levantamento de dados). instrumentalizar representantes das comunidades beneficiadas por eles para lidar melhor com os problemas sociais, ampliando a capacidade de reflexão crítica e de reivindicação dessas comunidades. quisas têm buscado Trata-se iniciativas que buscam estimular o ou seja, a capacidade de ação dos atores que compõem um determinado grupo social para superação dos seus próprios problemas e melhoria das condições de vida. O termo protagonismo social designa os atores do grupo capazes de configurar as ações de um movimento social (Gohn, 2005). Oficina I - Leitura e discussão em grupos do rela- de protagonismo social, A estratégia de trabalho com agentes locais tem sido utilizada nessa perspectiva. Segundo Fonseca (2003) e Almeida, Santos e Paiva (2009) os agentes locais funcionam como representantes das comunidades na equipe técnica dos projetos e pesquisas, atuando como mediadores de conhecimentos e de processos de tomada de decisão entre as comunidades e as iniciativas propostas pelas organizações públicas, universidades ou ONG's. Por meio da utilização dessa estratégia de trabalho no projeto buscou-se reconhecer e valorizar a comunidade como espaço de exercícios e experiências de compartilhamento de saberes, superando um sistema de distribuição de informações e produção do conhecimento não dialógico. Em média 14 agentes locais de 07 municípios (Iporanga, Cananéia, Pariquera Açú, Registro, Ilha Comprida, Peruíbe e Iguape) participaram das oficinas de discussão do conteúdo do material educativo. Nas oficinas ocorreram grupos de trabalho, sessões de treinamento dos agentes para realização de mapeamento nos municípios, plenárias de apresentação dos resultados do mapeamento e plenárias de decisão sobre o material educativo. As atividades foram conduzidas por facilitadores do NEPAIDS e da Ing_Ong que, junto com os agentes locais, discutiram: o relatório final do seminário de mobilização; a cartilha produzida em 2007 pelo Programa Turismo Sustentável e Infância (TSI) sobre proteção de direitos de crianças e jovens (Ministério do Turismo, 2007); e os resultados do mapeamento nos municípios. Oficina II - Leitura e discussão em grupos do relatório do seminário; apresentação da primeira parte dos resultados do mapeamento; apresentação da primeira versão do boneco do material educativo (tamanho, espaço dos textos, imagens, figuras e conteúdos); orientação para consolidação dos relatórios do mapeamento nos municípios. Oficina III - Apresentação da segunda parte dos resultados do mapeamento; apresentação da segunda versão do boneco do material educativo; plenária de aprimoramento do boneco do material educativo. Nas oficinas os agentes locais aprofundaram a compreensão sobre os temas que seriam abordados no material educativo, ao mesmo tempo em que disponibilizaram seus conhecimentos acerca da relevância desses temas em seu município, cidade, bairro ou comunidade. Durante todo o processo buscou-se a comunicação, de forma a identificar preocupações comuns e entendimentos possíveis entre o saber comunitário e técnico/científico reunidos. Esta maneira compartilhada de construir conhecimento sobre os fenômenos e objetos do mundo, favorecendo uma compreensão mais ampla da realidade social, tem sido chamada de comunidades interpretativas (Schmidt, 2006; Avanzi e Malagodi, 2005); noção que integra conhecimentos e visões de mundo do saber comunitário em projetos e pesquisas, conferindo a eles a mesma relevância interpretativa que recebem os conhecimentos científicos. Nesse sentido, o encontro entre organizações públicas, universidades ou ONG's e comunidades locais seria um encontro de experts ao reunir saberes de diferentes naturezas, mas de igual importância na compreensão da realidade. Schmidt (2006) e Avanzi e Malagodi (2005) destacam a utilização desta noção em ações políticas de grupos organizados e no desenvolvimento de políticas públicas nas áreas sociais, afirmando que o trabalho na perspectiva das comunidades interpretativas é capaz de fortalecer o potencial emancipatório dos contextos de interação social. 7 Mapeando vulnerabilidades Outro aspecto que merece destaque nas oficinas foi a reflexão propiciada pelo mapeamento de informações dos municípios. O mapeamento consistiu em entrevistas com profissionais de assistência social, turismo, saúde e justiça, levantamento de dados secundários nas administrações públicas e observação de campo em estradas, cidades e comunidades. Os agentes locais organizaram-se em equipes com a tarefa de coletar informações em seu município sobre: • Os atrativos e atividades turísticas e a perspectiva dos profissionais da cadeia produtiva do turismo sobre os temas tratados no material educativo; • O perfil sóciodemográfico das crianças e jovens (distribuição etária, sexo, raça/cor, escolaridade, religião e formas de lazer); • Os programas e equipamentos do município voltados para a infância e juventude, ligados à administração pública ou não; • O funcionamento e as demandas do Conselho Tutelar; • Os casos de abuso e exploração sexual; • Os casos de DST e de uso abusivo de álcool e outras drogas; • A prostituição e o mercado do sexo. As informações produzidas foram sistematizadas em relatórios pelos agentes locais e apresentadas nas oficinas. Elas serviram para subsidiar a construção dos textos e seções do material educativo, mas também o poder público e a sociedade civil da região na formulação de ações programáticas e iniciativas visando a redução da vulnerabilidade de mulheres, crianças e jovens à exploração sexual, às DST/Aids e ao uso abusivo de álcool e outras drogas. O evento de apresentação do conteúdo final do material educativo reuniu 50 pessoas entre agentes locais, téc- nicos da Ing_Ong, pesquisadores do NEPAIDS, profissionais das administrações públicas municipais, e alunos e professores do Curso Técnico em Turismo. No evento a interação entre “saber popular” e “saber técnico/científico” ocorreu mais uma vez. Os participantes foram divididos em 06 grupos de trabalho que procederam à leitura e avaliação dos textos produzidos para o material educativo, contribuindo para tornar sua linguagem mais acessível e destacar as informações importantes para a diagramação final do material. Principais resultados alcançados pelo projeto: • Produziu 05 mil exemplares de um material de referência sobre promoção e proteção de direitos para o Vale do Ribeira. • Formou 14 agentes locais de 07 municípios, que atuaram como mediadores entre a comunidade e as organizações envolvidas na execução técnica do projeto, fomentando a 8 reflexão crítica e a busca de repertórios co-produzidos. Os agentes também atuaram como multiplicadores, levando para seus municípios os resultados do mapeamento de informações e as experiências e conteúdos debatidos no material educativo, ampliando o diálogo sobre promoção e proteção de direitos dentro dos municípios. • Contribuiu na consolidação de uma rede social de promoção de direitos de mulheres, crianças e jovens do Vale do Ribeira ao favorecer espaços de encontro, articulação, produção de conhecimento e tomada de decisão, reunindo representantes dos poderes públicos (estadual e municipal), ONG's e instituições de ensino e pesquisa (Escola Técnica Engenheiro Agrônomo Narciso de Medeiros e NEPAIDS/USP). • Propiciou espaço de articulação técnica entre IDESC, Ing_Ong, GREG e NEPAIDS para elaboração e aprovação da proposta do evento Seminário Regional de Promoção e Defesa dos Direitos da Infância e Juventude em edital da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, abrindo caminho para continuidade da mobilização técnica e das ações de promoção de direitos iniciadas pelo projeto. O projeto Promoção de Direitos de Crianças e Adolescentes em Comunidades Turísticas mostrou que é possível produzir materiais de Informação, Comunicação e Educação (IEC) de forma participativa, integrando representantes do público alvo desses materiais no processo de elaboração dos mesmos; e garantido que a construção dos conteúdos e a linguagem utilizada sejam acessíveis e significativos para o público ao qual o material se destina. Referências Bibliográficas Almeida, A. C.; Santos, A. O e Paiva. V. Protagonismo em cena: como o trabalho com agentes locais fortalece a prevenção e a promoção da saúde na comunidade. NEPAIDS, 2009, 17p. (mimeo). Avanzi, M. R. e M. Malagodi. Comunidades interpretativas. In: Ferraro Junior, L.A. (Org.) Encontros e Caminhos: formação de educadoras(es) e coletivos educadores. Brasília, Diretoria de Educação Ambiental, 2005, p.93-102. Fonseca, V. N. Mediações e saúde: o trabalho de prevenção à Aids de agentes locais. II Seminário Internacional Educação Intercultural, Gênero e Movimentos Sociais, UFSC, Florianópolis, 2003. Gohn, M. G. M. Movimentos sociais e educação. São Paulo, Cortez, 2005. Ministério do Turismo. Programa Turismo Sustentável e Infância: colocando na prática. Ministério do Turismo, Universidade de Brasília, 2007, 28p. (Disponível em: http//www.unb.br/cet/turismoeinfancia). Schmidt, M. L. S. Pesquisa participante: alteridade e comunidades interpretativas. Psicologia USP, 2006, volume 17, número 2, p. 11-41. Vale do Ribeira, São Paulo: uma história de conflitos socioambientais Carina Inserra Bernini1 Para entender a situação atual das populações residentes nas comunidades do Vale do Ribeira é interessante retomar o processo de ocupação desta região e a sua relação com as demais porções do Estado de São Paulo. O Vale do Ribeira tem sido um lugar de conflitos desde a época da colonização portuguesa - conflitos estes derivados da luta pelo domínio e utilização dos recursos naturais da região. A bacia hidrográfica do rio Ribeira tem aproximadamente 25 mil quilômetros. E esta extensa área de Mata Atlântica, devido à história de sua ocupação, ainda encontra-se bastante preservada. O domínio da Mata Atlântica estende-se por todo litoral brasileiro e foi extremamente devastado devido ao processo intenso de utilização dos recursos naturais e a implantação dos ciclos de exploração agrícola (cana de açúcar e café) durante a colonização portuguesa, e após a independência do Brasil. A Mata Atlântica abriga diversos ecossistemas associados que apresentam características específicas e diferenciadas. No Vale do Ribeira esses ecossistemas subdividem a região em: Alto Ribeira, na serra de Paranapiacaba, onde existem formações rochosas repletas de cavernas e minerais; Médio Ribeira, caracterizado pela presença do rio Ribeira, que recebe vários afluentes como o rio Juquiá e o rio Jacupiranga, e por regiões de mata encharcada; e Baixo Ribeira, no litoral, que abriga o Complexo Estuarino Lagunar de Iguape-Cananéia-Paranaguá, um importante centro de pesca e considerado um dos principais locais de reprodução de espécies marinhas no planeta. 1 - Mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo e professora do Curso de Bacharelado e Licenciatura em Geografia do Centro Universitário FIEO-Osasco/SP. A colonização do Vale do Ribeira teve início muito cedo, com a fundação de um povoado por Martim Afonso de Souza, em 1531, que pouco depois veio a se chamar Cananéia. Entretanto, o povoamento da baixada do Ribeira é bem mais antigo, já que há fortes indícios da presença humana na região antes do século XVI. Estima-se que, no período entre 4.000 anos a.C. e 1.000 anos d.C., o Vale do Ribeira foi habitado por grupos de coletores. Os sambaquis, que existem até hoje no litoral e têm sido alvo de proteção e interesse turístico, são vestígios da atividade desses grupos. Os sambaquis são formados pelo acúmulo de materiais orgânicos e inorgânicos, como moluscos, conchas, ossos e objetos de valor arqueológico. Petrone (1960), em seu clássico estudo sobre a Baixada do Ribeira, destaca a existência dos “homens dos sambaquis” ao longo dos rios e lagunas da região e explica como seu modo de vida era adaptado às condições dessa paisagem. Posteriormente, a região também foi habitada por povos indígenas, sendo um dos terminais do caminho do Peabiru, trilha indígena transcontinental que ligava o oceano Atlântico ao Pacífico (Carvalho, 2001). Alguns povos indígenas, especialmente os guarani, vivem até hoje na região, em lugares como a Ilha do Cardoso e Pariquera-Açú. No início da colonização portuguesa, a existência do ouro de aluvião foi logo descoberta e a atividade mineradora se tornou central na região durante o século XVI. O povoamento se estendia, então, ao longo dos rios, seguindo as descobertas de novas jazidas. O escoamento do ouro e o tráfico de negros escravizados eram feitos pelo porto de Iguape, povoado fundado em 1538. O surgimento dos povoados mais antigos da região está ligado à atividade mineradora, como é o caso de Xiririca (Eldorado), Iporanga e Apiaí, fundadas no século XVI pelo movimento das bandeiras, que adentrava o interior margeando os rios da bacia do Ribeira em direção ao sul. A inserção de negros escravizados no Vale foi realizada por meio desse movimento e se tornou a mão-de-obra de sustentação para o desenvolvimento da mineração. É por isso que as comunidades remanescentes de quilombo mais antigas da região se encontram nesses municípios. 9 A atividade mineradora teve seu auge em meados do século XVIII e, a partir daí, passa a ser gradativamente substituída pela agricultura, principalmente pela lavoura de arroz. A diminuição da mineração se deu pela descoberta do ouro de Minas Gerais e pela escassez do ouro de aluvião. No início do século XIX, o cultivo do arroz se torna a principal atividade econômica da região. As extensas áreas fluviais de inundação ao longo do Baixo e Médio Ribeira e seus afluentes, são ideais para o cultivo do produto. Nesse período, Iguape transforma-se no maior produtor e exportador de arroz do Brasil. Na segunda metade do século XIX a cultura do arroz entra em crise, já que se intensifica a concorrência com outras áreas de produção do país. Além disso, a política econômica volta-se para a cafeicultura nas demais regiões do Estado. Desse modo, o Vale fica à margem dos investimentos na rede de transportes ferroviários e na implantação do trabalho assalariado por meio da imigração estrangeira, mergulhando num período de estagnação econômica no qual ficou conhecido como o “Sertão do litoral”. A decadência do sistema produtivo do arroz, a extinção da possibilidade de mineração e a marginalização em relação à economia cafeeira transformaram o Vale em uma região do Estado de São Paulo considerada atrasada e estagnada economicamente. Ao mesmo tempo, essa situação colaborou para a manutenção de grandes áreas de terras devolutas e de uma estrutura fundiária onde predominava a posse. O desinteresse do capitalismo mercantilista pela região favoreceu a formação de bairros rurais caracterizados pela presença de agricultores posseiros, que exploram a terra de forma familiar. Essas famílias penetraram por áreas mais interioranas, iniciando assim o desbravamento e a ocupação das encostas dos morros e grotões, dedicando-se quase sempre à agricultura de subsistência e ao extrativismo de recursos da mata. Essa exploração familiar da terra também facilitou a preservação de grandes trechos da Mata Atlântica. 10 Durante as últimas décadas do século XIX e as primeiras décadas do século XX, boa parte do Vale do Ribeira se caracterizava pela presença de comunidades rurais que viviam dos recursos da mata e do cultivo de gêneros alimentícios para sobrevivência. Uma economia baseada, muitas vezes, na troca simples de mercadorias, com pouco ou nenhum uso de dinheiro. Esse período ajudou no processo de caipirização do Vale, com o aprofundamento e continuidade de relações tradicionais, já presentes entre os pequenos produtores na época do arroz e no ciclo da mineração. Além disso, a abolição da escravidão proporcionou que o contingente de negros ocupasse os bairros e comunidades rurais da região. É estabelecida, então, uma conjuntura histórica propícia à continuidade de relações tradicionais no Vale, relações marcadas pela manutenção da agricultura de subsistência – sobretudo o cultivo de arroz, mandioca e milho, e a criação de porcos. Combinava-se ainda o extrativismo de espécies florestais – a exemplo do palmito Juçara, para consumo próprio, da madeira para a confecção de canoas, além da utilização de ervas para o tratamento de doenças – e caça e pesca de animais como complementação da dieta familiar. A economia no Vale do Ribeira, nesta época, tendia a ser fechada, mas não podemos esquecer que sempre houve relações com o mercado local, sobretudo na venda do excedente. Essa relação de trocas com os núcleos urbanos dos municípios permitia ainda que as comunidades rurais adquirissem aqueles produtos que não podiam produzir (sobretudo o sal, o querosene, o tecido para confecção de roupas, entre outros). A partir da década de 1940 ocorre uma mudança no papel do Vale do Ribeira em relação à economia de São Paulo, com a região passando a ser incorporada aos fluxos urbano-industriais que cresciam no Estado. Esse novo papel se intensifica principalmente a partir da década de 1950 e perdura durante todo o governo militar. A incorporação econômica do Vale do Ribeira nesse período está intimamente relacionada com o processo mais amplo de desenvolvimento do país, baseado na maximização do lucro por meio da aceleração da industrialização, do investimento em projetos de infraestrutura e de agropecuária para exportação. ➲ Seção 1 - Contexto do projeto A partir da década de 1940 configura-se na região um cinturão mercantilizado composto por sítios, fazendas e pequenas empresas próximas das estradas e cidades. Contribui para isso a imigração japonesa para Registro, responsável pela introdução do chá e da banana como culturas comerciais na região, e a melhoria e expansão do sistema viário, principalmente com a pavimentação da rodovia BR 116 (na década de 1960), ligando São Paulo ao Sul do país. A abertura da rodovia favoreceu também a implantação de indústrias para exploração de minérios em Cajati e facilitou o acesso da produção agrícola e da pesca ao planalto paulista e ao Paraná. Com a melhoria do sistema viário e a expansão da agricultura comercial ocorre a intensificação dos conflitos de terra na região. A nova rodovia exerceu forte influência sobre a ocupação do Vale, gerando especulação imobiliária e “grilagem” de terras2. O processo de aquisição das terras nesse período era bastante duvidoso pois, na maioria das vezes, ignorava a presença de posseiros e o fato de muitas terras serem públicas. Para Müller (1980), a especulação imobiliária revelava o interesse do próprio Estado nesse processo - que, ao manter-se negligente à situação de ilegalidade da aquisição das terras, fazia prevalecer grandes interesses privados. A economia extrativista e agrícola, baseada no cultivo da banana, na pesca e no palmito, mantiveram o Vale do Ribeira numa situação de periferia na economia do Estado. Principalmente porque são atividades que não conseguiram gerar grande rentabilidade para o capital privado e, por isso, não atraíram muitos investimentos para a região. Assim, o próprio Estado deixou em segundo plano a viabilização de infraestrutura e a disponibilização de serviços básicos para o Vale do Ribeira. O estímulo ao desenvolvimento da região pelo Estado revela-se intermitente e precário. significativa de sua realidade social, dando origem a um verdadeiro paradoxo: sua presença marcada por inúmeros planos de desenvolvimento, estudos, criação de órgãos para atuar diretamente na região e, ao mesmo tempo, sua ausência velada pela execução sempre parcial dos planos, como também pela ineficiência dos órgãos estaduais para viabilizar, sobretudo financeiramente, as políticas e planejar o desenvolvimento do Vale” (p. 91). Não por acaso, ao lado da aceleração da industrialização no país, do investimento em projetos de infraestrutura e de agropecuária para exportação, ocorre o incremento da política ambiental por meio da criação de legislação específica, como é o caso dos Códigos Florestal, de Pesca e de Águas, todos de 1934. Na década de 1960 também são criadas muitas áreas naturais protegidas, principalmente parques nacionais. Em São Paulo a política ambiental ganha força a partir do governo de André Franco Montoro, na década de 1980. Nessa época é criada a Secretaria do Meio Ambiente do Estado. No Vale do Ribeira, a política ambiental passa a ser um novo fator a interferir na territorialidade das comunidades rurais. Além da perda do território para a agricultura extensiva, os camponeses passam a perder suas terras com a criação de Unidades de Conservação3 (UC’s) em áreas ocupadas por comunidades, como é o caso dos Parques Estaduais Turísticos: do Alto Ribeira, criado em 1958, Jacupiranga, em 1969, Ilha do Cardoso, em 1962, Carlos Botelho, em 1982, e da Estação Ecológica Juréia-Itatins, em 1986. Se a situação de economia periférica já proporcionava uma atuação insuficiente Todesco (2007) chama essa relação do poder do Estado na região, a implantação de público estadual com o Vale do Ribeira de uma presença ausente: “No Vale do Ribeira o Estado UC’s irá agravar ainda mais a situação inicia em 1959 uma série de estudos, planos, programas das populações residentes nas comunie projetos visando o desenvolvimento socioeconômico dades do Vale do Ribeira. da região, mas que não culminaram com uma alteração 2 - Criação de falsos títulos de propriedades de terra. 3 - No Brasil as Áreas Naturais Protegidas são chamadas de Unidades de Conservação (UC). Existem atualmente 19 UC’s no Vale do Ribeira. 11 Isso porque, além de terem suas práticas de caça e de manejo da terra proibidas, os moradores do interior e entorno das áreas protegidas ficam desassistidos em relação aos serviços de transporte, educação, saúde, saneamento, já que a presença de populações nessas áreas torna-se ilegal. A grande concentração de recursos naturais (cachoeiras, praias, trilhas terrestres e aquáticas, cavernas, abismos, fauna e flora) e culturais (centros históricos, sítios arqueológicos, festas típicas) e a implantação de estruturas de visitação pública (principalmente nas UC’s), foram decisivas para atrair turistas para a região. A partir da década de 1980 o Vale passou a rece- A condição de economia periférica do Vale do Ribeira em relação ao resto de São Paulo proporcionou a preservação de áreas naturais e a presença de comunidades tradicionais. ber turistas de forma mais intensa, vindos na maioria de São Paulo (capital, ABC e interior), Curitiba e de outros países. Esse potencial turístico também trouxe um fluxo de pessoas interessadas no investimento de infraestrutura turística (hotéis, pousadas, restaurantes, bares), e despertou a atenção de ONG’s para a necessidade de organização da atividade turística. Na década de 1990, os governos Estadual e Federal começaram a incentivar o desenvolvimento do turismo no Vale do Ribeira, estabelecendo parcerias com ONG’s e Prefeituras. Esse incentivo resultou em ações de planejamento turístico e de capacitação das populações locais para o trabalho na cadeia produtiva do turismo. Ações de desenvolvimento do turismo no Vale do Ribeira • O projeto Pólo Ecoturístico do Lagamar: que, no período de 1995 a 1998, realizou ações para a estruturação do turismo nos municípios de Cananéia, Ilha Comprida, Iguape e Pariquera Açú (levantamento de informações sobre infraestrutura, atrativos naturais e culturais, cursos gerenciais e técnicos para pousadas e restaurantes, implantação de Centro de Informações Turísticas). O “Pólo” foi desenvolvido através de parceria entre a Fundação SOS Mata Atlântica, uma ONG, e a Empresa Brasileira de Turismo (EMBRATUR), do governo Federal. • A Agenda de Ecoturismo do Vale do Ribeira: que, em 1998, fez um levantamento dos atrativos naturais e culturais da região, bem como da infraestrutura de acesso e recepção de turistas. A “Agenda” foi desenvolvida através de parceria entre a Fundação Prefeito Faria Lima, uma autarquia, e a Fundação Florestal da Secretaria de Estado do Meio Ambiente. • Os Cursos Básicos de Monitores Ambientais: que, a partir de 1998, começaram a formar moradores da região para atuar na condução dos turistas nas UC’s e entorno. A maioria dos cursos foi realizada pela Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, organização ligada à UNESCO, e pelo Instituto Ing_Ong de Planejamento Socioambiental, uma ONG, através de parceria com as Prefeituras, Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Ministério do Trabalho. No período de 1998 a 2002 os cursos formaram aproximadamente 500 monitores ambientais, além de contribuir para o fortalecimento e criação de associações da categoria, que também desenvolvem trabalhos de educação ambiental e de organização comunitária. • O Projeto de Desenvolvimento do Ecoturismo na Região da Mata Atlântica: que teve início em 2005 e visa aprimorar a visitação pública em Unidades de Conservação no Vale do Ribeira e no Alto Paranapanema, nos parques estaduais de Carlos Botelho, Ilha do Cardoso, Intervales, Caverna do Diabo e Turístico do Alto Ribeira (PETAR); e, no litoral norte, no Parque Estadual de Ilhabela. Visa também consolidar o turismo sustentável como forma de desenvolvimento socioeconômico regional, aliado à estratégia de conservação da natureza. O Projeto é uma iniciativa do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e parceria com o BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento. Fontes: Santos (2004) e Secretaria de Estado do Meio Ambiente - SMA/SP (2009) 12 Foto: Caetano Brasil ➲ Seção 1 - Contexto do projeto Frente às dificuldades da economia regional, agravadas pelas restrições ambientais e de acesso à terra, o turismo desponta, sobretudo a partir do final dos anos 1990, como alternativa de trabalho e renda para as comunidades do Vale do Ribeira. Referências Bibliográficas O desenvolvimento desta atividade gera oportunidades de renda aos moradores das áreas mais procuradas por turista (principalmente municípios litorâneos e do Alto Ribeira), mas também provoca impactos negativos sociais e ambientais (especulação imobiliária, pressão sobre ecossistemas, incremento da produção do lixo, do mercado do sexo e do tráfico de drogas); tornadose mais um fator no cenário de conflitos vividos pelas populações residentes nessas comunidades. Carvalho, J. P. O. Visões do Lagamar. Cananéia, Hammer, 2001. No final da primeira década dos anos 2000, os desafios que se apresentam para o Vale do Ribeira ainda dizem respeito aos conflitos gerados pelos diferentes interesses e formas de utilização dos seus recursos naturais e culturais. E o turismo, dentro deste contexto, precisa ser uma atividade planejada para colaborar com a diminuição da situação de precariedade e vulnerabilidade em que vivem as populações das comunidades do Vale do Ribeira. Conscientes desta história de disputas socioambientais, os profissionais da cadeia do turismo podem contribuir para que esta atividade seja mais promotora de direitos e menos causadora de conflitos. Bernini, C. I. Guapiruvu (Sete Barras-SP): um encontro contraditório entre ambientalismo e luta pela terra. 2005. Trabalho de Graduação Individual – Departamento de Geografia, FFLCH/USP, São Paulo, 2005. Müller, G. Estado, estrutura fundiária e população: ensaio sobre estagnação e incorporação regional. Petrópolis, Vozes/CEBRAP, 1980. Petrone, P. A Baixada do Ribeira: Estudo de Geografia Humana. 1961. Tese (Doutorado em Geografia Humana) - Dep. de Geografia, FFLCH/USP, São Paulo, 1961. Santos, A. O. Turismo e Saúde Comunitária: intervenção e pesquisa no Vale do Ribeira, São Paulo, Brasil. 2004. Tese (Doutorado em Psicologia) - IP/USP, São Paulo, 2004. SMA/SP. Projeto de Desenvolvimento do Ecoturismo na Região da Mata Atlântica (Disponível em http://homologa. ambiente.sp.gov.br/ecoturismo/mataatlantica). Todesco, C. Estado e Terceiro Setor na Organização do Espaço para o Turismo no Vale do Ribeira. 2007. Dissertação (Mestrado em Geografia) - Dep. de Geografia, FFLCH/USP, São Paulo, 2007. 13 Produção do turismo no Vale do Ribeira Alessandra Blengini Mastrocinque Martins1 O Vale do Ribeira é uma região de enorme potencial turístico devido à diversificação e qualidade de atrativos encontra- dos, como: a mata atlântica preservada, praias, cachoeiras, cavernas, patrimônio histórico e arqueológico e grande diversidade cultural. Os principais segmentos turísticos presentes na região são: o Turismo Pedagógico; o Ecoturismo; Turismo de Aventura no Alto Ribeira, principalmente em Iporanga e Eldorado; Turismo de Pesca na região do Lagamar, em Cananéia, Iguape e Ilha Comprida; Turismo de Sol e Praia nas cidades litorâneas; Turismo Religioso, com destaque para Iguape; e o Turismo Rural com foco na agricultura familiar. O Turismo Pedagógico consiste na visita de alunos de escolas e faculdades com objetivos educacionais, tendo como temas de estudo a mata atlântica e seus ecossistemas associados (manguezal, restinga e costão rochoso) e a história do Brasil. Para servir a este tipo de turismo, a região conta com ho- téis e pousadas com estrutura para o atendimento de crianças e jovens, com serviço de hospedagem, alimentação e atividades de lazer (piscina, salão de jogos etc) e monitores ambientais locais que acompanham o grupo durante todos os dias. O tempo de permanência deste tipo de turista é de 3 a 4 dias, no período de aulas. Estas excursões são organizadas por agências de turismo emissivo2 de São Paulo e Curitiba, ou pela própria instituição de ensino. O Ecoturismo é praticado por jovens e adultos que apreciam o contato com a natureza e com a cultura local. Para servir a este público, a região oferece hotéis e pousadas que servem principalmente o café da manhã; restaurantes, que incluem em seu cardápio comidas típicas; trilhas pela Mata Atlântica, que dão acesso a cavernas, praias desertas, cachoeiras, piscinas naturais e sambaquis3; serviços de monitores ambientais; e transportes de barco e escuna, no caso das cidades litorâneas. Trata-se, na maioria das vezes, de turistas independentes que planejam seu próprio roteiro e viajam aos finais de semana e feriados. Também já ocorre a presença de estrangeiros interessados neste tipo de turismo. Entre as atividades de aventura praticadas na região encontramos principalmente o espeleo-turismo4, o bóiacross5 e o rapel6. Muitos dos turistas que procuram estas atividades têm idade entre 20 e 40 anos, são de cor branca em sua maioria e provenientes da Capital e do interior (principalmente Campinas e Sorocaba) e de Curitiba. Visitam a região em grupos de amigos e possuem um alto poder aquisitivo. Convém ressaltar que, para a realização destas atividades, as localidades oferecem instrutores capacitados e equipamentos de segurança. 1 - Bacharel em Turismo. Coordenadora do Curso Técnico em Turismo da Escola Técnica Engenheiro Agrônomo Narciso de Medeiros. 14 2 - Envio de turistas para localidades diferentes de sua residência. 3 - Sítio arqueológico formado por montões de conchas, restos de utensílios e esqueletos deixados por tribos pré-históricas. 4 - Consiste em 'explorar' ou somente visitar cavernas. 5 - Descida sobre bóias pelas corredeiras de rios. 6 - Técnica de descida vertical através de cordas. ➲ Seção 1 - Contexto do projeto O Turismo de Pesca é aquele no qual a motivação da visita está na pesca. No Vale do Ribeira existe grande incidência de robalos (peixe muito visado pelos pescadores ama- dores) no Estuário Lagunar do Mar Pequeno, transformando a região do Lagamar em um destino de pesca amadora. Para atender este público, a região conta com meios de hospedagem que, além de oferecer serviços de acomodação e alimentação, apresentam toda a estrutura necessária para a pesca, como: barcos, motores, piloteiros e iscas. Estes turistas são, em grande parte, do sexo masculino, adultos e senhores que viajam em pequenos grupos ou em família, provenientes de São Paulo - Região Metropolitana e interior do Estado. As visitas são realizadas de acordo com o período adequado para a pesca, regido pela lua, e não necessariamente aos finais de semana e feriados. É grande o número de pescadores amadores que possuem segunda residência na região. Convém ressaltar que, apesar dos diversos tipos de turismo presentes e a proximidade de São Paulo e Curitiba, o fluxo de turistas é bastante inferior à potencialidade e riqueza da região; e, ainda hoje, o turismo não se consolidou como uma alternativa efetiva de desenvolvimento para o Vale do Ribeira. A Cadeia produtiva do turismo da região do Vale do Ribeira é formada, predominante- mente, por estabelecimentos familiares de pequeno porte. Também tem a presença marcante do poder público, uma vez que os atrativos turísticos estão localizados, principalmente, em áreas públicas administradas pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Núcleos de visitação das Unidades de Conservação) ou pelas Prefeituras Municipais (parques municipais e museus). As relações de parcerias e complementaridade de serviços ainda ocorrem de forma tímida e incipiente. Na maioria dos municípios os empreendimentos e prestadores de serviços atuam de forma isolada e sem articulação. O Turismo de Sol e Praia ocorre principalmente nas férias de verão e feriados, é caracterizado por um público de casais e famílias de classes média, média baixa e baixa, advindos da capital, Região Metropolitana de São Paulo e Sorocaba, que procuram a região para descansar. Para atender estes turistas existem pousadas e apartamentos equipados com cozinha completa, sendo que muitos turistas possuem casas de veraneio. Também ocorre na região o turismo de um dia, organizado em excursões e com forte presença de pessoas negras7. Os Meios de Hospedagem caracterizam-se por: pousadas, hotéis, apartamentos para locação, pesqueiros, acantonamentos e campings. Entre os Meios de Alimentação encontram-se: os restaurantes, quiosques, pizzarias, lanchonetes, bares, sorveterias, padarias e cafés (em pequeno número), na sua maioria com cardápios simples. Os municípios de Cananéia e Peruíbe destacam-se pela oferta de restaurantes especializados em frutos do mar. Os Meios de Transporte, mesmo que limitados, consistem na oferta de: linha regular de ônibus, táxis, serviços de balsa, escuna e voadeiras (pequenas embarcações de alumínio). Destaca-se a atuação de cerca de 200 monitores ambientais (locais) responsáveis pela condução O Turismo Religioso acontece na cidade de Iguape, tendo como principal atrativo a Festa em Louvor ao Senhor Bom Jesus de Iguape. Considerada a segunda maior festa religiosa de São Paulo, recebe romeiros de algumas regiões do Estado e do Sul do Brasil. Por fim, temos o Turismo Rural com foco na agricultura familiar, no qual famílias de agricultores recebem visitantes em suas propriedades para conhecer a sua produção e terem contato com o seu modo de vida peculiar e com a natureza. A fim de obter uma complementação de renda, durante as visitas também são comercializados produtos artesanais e agroecológicos, bem como refeições caseiras. Isso ocorre, por exemplo, no município de Barra do Turvo e no Circuito de Turismo da Agricultura Familiar de Cananéia. 7 - Cores preta e parda. de visitantes nos Núcleos de visitação das Unidades de Conservação da região, principalmente nos municípios de Iporanga, Apiaí, Eldorado, Pariquera-açú, Cananéia, Iguape e Peruíbe. No Lagamar atuam também cerca de 160 guias-piloteiros, responsáveis pela condução de 60% dos pescadores amadores que visitam a região8. Nos municípios de Peruíbe, Eldorado, Iporanga e Apiaí já existem operadoras de turismo receptivo, de propriedade de moradores locais, que organizam a recepção de visitantes e operam roteiros locais e regionais. 8 - Dado do Projeto Mata Atlântica & Pesca, abril de 2009. Inst. Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Fundação SOS Mata Atlântica, Inst. de Pesca, Plano Nacional de Desenvolvimento da Pesca Amadora – PNDPA (IBAMA), ETEC Eng. Agrônomo Narciso de Medeiros e Biologus ONG. 15 Cadeia Produtiva do Turismo no Vale do Ribeira Entende-se por cadeia produtiva do turismo o conjunto de empreendimentos e prestadores de serviços envolvidos diretamente com a atividade turística em uma determinada localidade ou região e as relações de complementaridade e fluxos que estes estabelecem entre si, a fim de atender as necessidades e expectativas dos visitantes. Algumas associações de monitores ambientais atuam com a organização da recepção e operação de roteiros locais e regionais. Operadoras e agências de turismo emissivo, principalmente de São Paulo, organizam viagens para a região. Escolas, universidades, Ong´s e outros grupos também atuam como organizadores de excursões. Cabe ressaltar que também fazem parte da cadeia produtiva do turismo do Vale do Ribeira: artesãos, propriedades rurais, grupos culturais e comunidades tradicionais como Ivaporunduva (Eldorado), Guapiruvu (Sete Barras), Marujá e Mandira (Cananéia) e Aldeia Guarani MBYA-PINDOTY (Pariquera-Açú), que atuam com o turismo como uma atividade complementar de renda e já possuem uma organização para recepção de visitantes. 16 Exemplos de turismo de base comunitária no Vale do Ribeira Nós esperamos que nossas comunidades possam prosperar e viver com dignidade, melhorando as condições de vida e de trabalho de seus membros. O turismo pode contribuir na concretização desta aspiração na medida em que fizermos dele uma atividade socialmente solidária, ambientalmente responsável, culturalmente enriquecedora e economicamente viável. Com esta finalidade, exigimos uma distribuição justa dos benefícios que gera o turismo entre todos os atores que participam de seu desenvolvimento. Declaração de San José sobre o Turismo Rural Comunitário, Arts. 1 e 2. ➲ Seção 1 - Contexto do projeto No turismo de base comunitária, os empreendedores, os gestores e os maiores beneficiários da atividade são os membros da comunidade – que, organizados de forma coletiva ou em núcleos familiares, na localidade onde vivem, prestam diferentes serviços aos visitantes. Este tipo de turismo tem como principais características: • Participação, cooperação e autogestão • Valorização da cultura regional • Valorização do modo de vida • Conservação da natureza • Distribuição dos recursos gerados As viagens são realizadas em pequenos grupos que buscam experiências pessoais originais e enriquecedoras, combinando vivências culturais autênticas e desfrute de cenários naturais. O fator humano e cultural da experiência é o que cativa o turista e precede a simples motivação de imersão na natureza9. É crescente o número de escolas que procuram oferecer este tipo de vivência como prática pedagógica. No Vale do Ribeira encontramos experiências de turismo de base comunitária protagonizadas pelos caiçaras e quilombolas. Na comunidade do Marujá, localizada na Ilha do Cardoso, em Cananéia, o Turismo de Base Comunitária ocorre por meio da AMOMAR - Associação dos Moradores do Marujá. Segundo o senhor Ezequiel de Oliveira da AMOMAR, trata-se de uma proposta que vêm dando certo de uma maneira sustentável, pois mantém o controle rígido e absoluto do turismo na alta temporada, conseguindo com isso uma melhoria na seleção do turista e a socialização dos recursos gerados de forma gradativa. O Quilombo Ivaporunduva, em Eldorado, apresenta o Ecoetnoturismo como uma alternativa. Al- gumas atividades já vêm sendo realizadas como o atendimento de grupos de visitantes, principalmente escolas. 9 - Maldonado, C. O turismo rural comunitário na América Latina: gênesis, características e políticas. In: Bartholo, R., Sansolo, D. G. e Bursztyn, I. Turismo de Base Comunitária. Diversidade de Olhares e Experiências Brasileiras, Rio de Janeiro, Ed. Letra e Imagem, 2009. O texto de Paulo Silvio Pupo, da Associação Quilombo de Ivaporunduva, a seguir, mostra como a comunidade pretende melhorar a qualidade de vida das famílias quilombolas através do Ecoetnoturismo. O lado bom e o lado ruim do desenvolvimento do turismo no Vale do Ribeira Para finalizar, apresento a seguir alguns comentários coletados junto aos moradores da região a respeito do desenvolvimento do turismo no Vale do Ribeira. Fica evidente que os impactos positivos dessa atividade estão associados às oportunidades econômicas e os impactos negativos aos problemas socioculturais. O lado bom do turismo • “Aumento de arrecadação local”. • “benefícios nos comércios, renda, dinheiro e giro financeiro”. • “Investimento em construções”. • “Geração de empregos”. • “Incentivo para área cultural e realização de eventos no município”. • “Contatos com outras culturas”. • “Envolvimento com questões ambientais”. • “Melhora a auto-estima da população e a cidade fica mais viva”. O lado ruim do turismo • “Poluição sonora”. • “Problemas de saneamento básico”. • “Tudo aquilo que eles não fazem em seu próprio lar, vêm fazer aqui”. • “(...) aumenta o uso de álcool e drogas, há muita liberdade na praia, aumenta o lixo, a violência (atropelamentos, agressões), o trânsito, o custo de vida para o morador, os roubos, as doenças em geral e os casos de afogamentos”. • “(...) aumenta o índice de gravidez no município”. • “Mudança de característica e comportamento da comunidade. Desperta desejos para viver uma realidade totalmente diferente. Desperta interesses materiais que não condiz com a realidade local”. 17 Comunidades quilombolas do Vale do Ribeira Paulo Silvio Pupo1 O Vale do Ribeira é a região que concentra o maior número de comunidades remanescentes de quilombos do Estado de São Paulo. Esse número significativo de comunidades negras decorre, em parte, da mineração, que em meados do século XVIII predominou na região. Com a abolição da escravatura, os escravos permaneceram na área como lavradores, ocupando as terras e desenvolvendo a agricultura de subsistência. Um importante processo de organização das comunidades negras foi alavancado no final da década de 1980, através do movimento desencadeado para dar aplicabilidade ao art. 68 da Constituição Federal de 1988, que estabelece o direito de propriedade definitiva de suas terras aos remanescentes de quilombos. A partir daí, as comunidades se uniram em torno de objetivos mais amplos, discutindo questões concernentes à sua identidade e seus direitos, no sentido de preservar sua cultura. Em contato direto com a natureza e extraindo dela todos os meios para sua subsistência e reprodução cultural, os quilombolas acumularam, ao longo das várias gerações, conhecimentos tradicionais e profundos sobre os ecossistemas da região. Além disso, os territórios quilombolas, em circunvizinhança com importantes Unidades de Conservação, formam o único corredor biológico ainda preservado que interliga o Alto e Médio Vale do Ribeira (Região Serrana) - onde estão situados os Parques Estaduais de Jurupará, Intervales, Carlos Botelho, Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (Petar) e a Estação Ecológica de Xitué e o Baixo Vale do Ribeira (Planície Sedimentar e Litorânea), onde se situam os Mosaicos de Unidades de Conservação de Jacupiranga e Parque Estadual Ilha do Cardoso - garantindo a migração de espécies entre os ambientes. O Quilombo Ivaporunduva O Quilombo Ivaporunduva é considerado a comunidade mais antiga do Vale do Ribeira e relaciona-se a ele a formação de outros quilombos como São Pedro, Sapatu, 1 - Monitor ambiental do quilombo Ivaporunduva. 18 Pilões, Maria Rosa, André Lopes e Nhunguara, ambos na APA Quilombos do Médio Ribeira. Ivaporunduva está situado no município de Eldorado e abrange uma área de 3.158,11 ha. Recentemente, Ivaporunduva conquistou o título de reconhecimento de domínio de seu território, conforme despacho da Presidência da Fundação Cultural Palmares, em cumprimento ao art. 68 da Constituição Federal. Deste modo, Ivaporunduva tornou-se a primeira comunidade quilombola do Estado de São Paulo a conseguir a propriedade definitiva de suas terras, após uma luta de doze anos, iniciada com a promulgação da Constituição Federal de 1988. Atualmente, 85 famílias - em torno de 320 pessoas - vivem na comunidade, organizadas através da “Associação Quilombo de Ivaporunduva”, associação civil de base comunitária, sem fins lucrativos, fundada em 1994, que congrega as famílias do Quilombo. Associação Quilombo de Ivaporunduva Tem como missão lutar pelos interesses e direitos sociais, culturais e territoriais assegurados às comunidades remanescentes de quilombo através da Federal de 1998. Constituição Desenvolve, autonomamente ou com apoio de parceiros, ações e iniciativas voltadas à manutenção e valorização da identidade cultural, à conservação ambiental e ao desenvolvimento quilombolas do sustentável Vale do Ribeira. das comunidades A comunidade de Ivaporunduva tem como principais atividades econômicas a produção e comercialização da banana (atividade exercida por praticamente todas as famí- ➲ Seção 1 - Contexto do projeto Instituto de Terras (ITESP), viabilizou a construção de um centro de visitantes com capacidade para até 60 pessoas na comunidade. lias da comunidade), a prática do artesanato da palha da bananeira (em fase de estruturação, mas que já tem signifi- Foto: Romario Jr. cado importante como atividade de geração de renda para algumas famílias) e o turismo sustentável, voltado a grupos específicos. Além disso, tem investido no desenvolvimento de outras atividades econômicas, como o manejo de plantas medicinais e a recuperação do palmiteiro Juçara (Euterpe edulis), para o futuro manejo sustentado da espécie. Com o desenvolvimento da atividade turística, a comunidade de Ivaporunduva deseja: • Melhoria da qualidade de vida das famílias quilombolas, através do aprimoramento e potencialização das atividades econômicas locais; • Geração de novos postos de trabalho na comunidade, através da diversificação das atividades econômicas locais; • Diminuição do êxodo da população quilombola, em função do aumento das oportunidades de trabalho e renda, bem como da auto-estima das pessoas da comunidade; • Maior autonomia e independência da comunidade na sua relação com o mercado dos diversos produtos e serviços desenvolvidos, assim como no acesso a mercados mais justos e rentáveis economicamente para os produtos das atividades econômicas locais. Aproveitamento do potencial turístico do quilombo Ivaporunduva (Ecoetnoturismo) Embora a atividade turística encontrese em fase de estruturação, algumas atividades já vêm sendo realizadas constantemente, como o atendimento de grupos de visitantes (principalmente escolas), para os quais são apresentadas palestras sobre temas específicos (história e modo de vida dos quilombos, conflitos socioambientais na região, entre outros), além do fornecimento de refeições, comercialização de artesanatos, passeios e jogos. O governo estadual, através da Fundação 19 Proteção e promoção dos direitos das crianças e jovens de comunidades anfitriãs de turismo Renata Bellenzani1 Vera Paiva2 Considerar crianças e adolescentes, garotas e garotos, como sujeitos de direitos nos remete na atualidade, além da Constituição Federal Brasileira, ao Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) - uma conquista social desde 1990 em termos legislativo, mas que representa ainda um horizonte ético-político a ser perseguido diariamente no que concerne à experiência dos sujeitos na vida cotidiana. Ou seja, a garantia dos direitos e a doutrina da proteção integral precisam ser construídas enquanto realidade prática na vida de crianças e jovens. Principalmente em algumas das regiões e municípios brasileiros marcados pela pobreza e desigualdade social e pela insuficiência ou ausência de ações e políticas públicas capazes de promover e proteger seu conjunto de direitos, de acordo com as realidades sociais, culturais, econômicas e políticas em que vivem junto aos seus familiares. ECA, a lei que desde 1990 define os direitos das Crianças e Adolescentes no Brasil, considera como: Crianças: sujeitos de 0 a 12 anos incompletos. Adolescentes: sujeitos entre 12 e 18 anos. A Organização das Nações Unidas (ONU) considera como jovens os sujeitos de 15 a 24 anos. 1 - Professora do Curso de Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. 2 - Coordenadora do NEPAIDS e professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. 20 No caso desse material educativo, sobre crianças, adolescentes e jovens que vivem em comunidades anfitriãs de turismo, algumas pesquisas têm mostrado que o turismo “de massa” cria determinadas condições desfavoráveis às suas vidas, embora gere trabalho, trocas culturais, renda e aquecimento da economia local. Dentre esses “efeitos colaterais” do turismo, estariam: o incremento do consumo de álcool e drogas ilícitas, a vulnerabilidade às DST/HIV e à gravidez não planejada, o aliciamento para o mercado do sexo, o turismo sexual e o tráfico de pessoas, entre outros prejuízos à dignidade humana, à saúde e à qualidade de vida. Por isso, o poder público local, a cadeia produtiva do turismo e a comunidade como um todo devem se mobilizar para a proteção das meninas, meninos, rapazes e moças, e contra quaisquer circunstâncias que desrespeitem sua integridade, sua dignidade, sua saúde e sua vida. E a forma mais contundente e ética de se fazer isso, por parte dos poderes públicos, é assumindo a responsabilidade pela construção da cidadania “real” - garantindo, por meio de ações e programas, seus direitos civis, políticos e sociais, em especial o direito à educação, à cultura, à profissionalização e ao trabalho. Proteger o conjunto dos direitos sociais é, em última instância, proteger a saúde e promover a vida desses cidadãos em desenvolvimento. O que já sabemos pelas pesquisas e pela experiência cotidiana sobre a relação entre Saúde, Direitos e Qualidade de Vida de crianças e jovens? 1) O acesso de crianças e adolescentes aos direitos sociais reduz sua vulnerabilidade aos agravos ou a determinadas condições ligadas à saúde que são mais frequentes na fase da vida em que se encontram, dentre essas as doenças sexualmente transmissíveis, a gestação não planejada, as diferentes formas de violência, entre outras. ➲ Seção 2 - Violação e proteção de direitos de mulheres, crianças e jovens 2) A exploração e o abuso da sexualidade infanto-juvenil, a negligência, os maus tratos e as opressões constituem violências e, portanto, violações de direitos humanos. E devem ser não só coibidas, como também prevenidas, se os contextos em que vivem as crianças e jovens forem favorecedores dessas práticas - como é o caso dos grandes centros urbanos, cujo desenvolvimento social não “acompanha” o crescimento econômico; das regiões rurais com pouca presença do Estado; e, por vezes, o caso das comunidades anfitriãs de turismo, cuja atividade turística não é planejada e monitorada para a “correção” de seus “efeitos colaterais”, em especial a dependência econômica, a fragilidade social e a subserviência da população local aos turistas e ao mercado turístico, onde muitas vezes a exploração e o abuso da sexualidade destas crianças e jovens locais acaba sendo incorporada como mais um produto, serviço ou atrativo local. 3) As instituições de saúde, as ações de assistência social e os cidadãos adultos têm dificuldades para reconhecer que crianças e adolescentes são sujeitos de direitos. Mais ainda, no que concerne à vivência da sexualidade, adolescentes não são percebidos como sujeitos sexuais - que, por sua vez, têm direitos sexuais que devem ser promovidos. Isso implica no respeito ao seu corpo, no acesso à informação, aos insumos e aos serviços de saúde para poderem se prevenir, à vivência do prazer sexual, à proteção de sua sexualidade frente aos interesses de mercado (exploração sexual, turismo sexual) e à proteção de sua sexualidade frente aos desejos de alguns adultos de obter prazer a partir do uso indevido do seu corpo e da sua sexualidade, assim como de crianças (abuso sexual). Bom, para essa idéia ser mais bem compreendida seria relevante que todos nós conhecêssemos melhor os direitos das crianças e adolescentes, segundo o Estatuto da Criança e Adolescente- ECA3. Direito: À vida e à saúde Art.7º: “Têm direito à proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência.” À convivência familiar e comunitária À educação Art. 54º: “O não oferecimento do ensino obrigatório pelo poder Público ou sua oferta irregular importa responsabilidade da autoridade competente. Incluindo ações suplementares que viabilizam o direito à educação: material didático, transporte, alimentação e assistência à saúde.” “Às informações adequadas à sua fase de desenvolvimento.” À cultura, ao esporte, ao lazer Art. 59º: “Os municípios, com apoio dos Estados e da União, devem estimular e facilitar a destinação de recursos e espaços para programações culturais, esportivas e de lazer voltadas para infância e juventude.” À profissionalização Art. 69º: “Capacitação profissional adequada ao mercado de trabalho. À proteção no trabalho.” Quem deve se responsabilizar por efetivar políticas que garantam os direitos? Art.86º: “A política (...) far-se-á através de um conjunto articulado de ações governamentais e não governamentais, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.” Art. 4 do ECA: É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. Art. 70 do ECA: É dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente. À liberdade Art. 15º e 16º: “Ir e vir”; “Opinião e expressão”; “Crenças e cultos religiosos”; “Brincar, praticar esportes, diversão em geral”; “Vida familiar e social sem discriminação”; “Participar da vida política, na forma da lei”; “Refúgio, auxílio e orientação.” Ao respeito Art. 17º: “Inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral”; “Preservação da imagem”; “Preservação da identidade”; “Preservação da autonomia”; “Preservação dos valores, idéias e crenças”; “Preservação de seu espaço e objetos pessoais.” À dignidade Art.18º: “Proteção a qualquer tipo de tratamento desumano”; “Violência”; “Constrangimento”; “Situações vexatórias.” 3 - BRASIL. Estatuto da Criança e Adolescente. São Paulo, Cortez, 1999. Qual é o problema então, se os direitos são previstos em leis? O que acontece com a maioria das crianças, adolescentes e jovens no Brasil? Infelizmente, e isso deve mudar, o plano normativo, as leis, não se revertem imediatamente no gozo de direitos pelas pessoas “na vida vivida”, na experiência cotidiana de cidadania das crianças - principalmente nos países em desenvolvimento, que ainda apresentam fortes descompassos entre desenvolvimento social, capitalismo financeiro mundial e economia globalizada. 21 Promover e respeitar os direitos humanos constitui um processo histórico-social, uma conquista - que depende da relação estabelecida entre prefeituras, governos estaduais, governo federal e população, por meio da implementação de políticas públicas e sociais viabilizadas (ou não) pela aplicação de recursos públicos. O respeito aos direitos civis (liberdade, igualdade e dignidade) e aos direitos sociais não depende somente das instituições públicas; cada pessoa, por meio de suas ações, falas e atitudes, têm consigo, na relação que estabelece com os outros, a possibilidade de agir de modo a respeitar ou a violar um direito humano (ou seu conjunto) daquela pessoa com quem está interagindo ou convivendo nos espaços sociais. Por exemplo, quando uma criança negra ou portadora de alguma doença é discriminada no espaço escolar o professor não dá a devida atenção a seu aprendizado - não é somente a instituição “escola” que está violando o direito da criança, mas também a pessoa do professor. Agora, quando uma secretaria municipal de educação ou de assistência social não cria vagas suficientes em creches, é o poder público que não está trabalhando pela proteção de um direito humano das crianças em determinada fase ou condição de desenvolvimento. a serem consideradas para que as desigualdades sejam corrigidas. Ou seja, a noção de equidade não é explicitamente norteadora dessa legislação. Crianças e adolescentes com até 14 anos representam 28% da população mundial segundo a ONU, algo em torno de 1,82 bilhões. No Brasil elas são mais de 50 milhões! Nas regiões Norte e Centro-Oeste: em oito estados, a população entre 0 e 14 anos supera os 40%. No Amapá, em Rondônia e em Roraima, as crianças representam mais da metade da população. As regiões brasileiras mais populosas, a Sudeste e a Nordeste, concentram a maior população infantil, em termos absolutos: juntas, somam mais de 36 milhões de crianças. Crianças e adolescentes até 14 anos estão presentes em quase 50% das famílias brasileiras. Vejamos alguns dados brasileiros de 2008, segundo o IBGE4, para termos uma idéia mais objetiva do (não) acesso a alguns dos direitos sociais previstos pelo ECA: Desigualdades no acesso à educação Somente 10% das crianças pobres de 0 a 3 anos vão à escola, comparados com as 43,6% das crianças ricas. 77,6% das crianças de 4 a 6 anos estão na escola. 97,6% dos sujeitos entre 7 e 14 anos estão na escola. Embora o ECA seja um avanço e constitua a referência legal para que a sociedade respeite a infância e a juventude, ele possui algumas fragilidades e lacunas: •• Infância e adolescência são concebidas como uma “coisa única”, sem considerar por vezes as especificidades da condição de ser criança e de ser adolescente. A necessidade de proteção e o grau de autonomia não são os mesmos para uma criança de 06 anos, se comparados com um adolescente de 16 anos. Como equilibrar tutela/proteção e autonomia/liberdade nas ações de adultos e nas instituições direcionadas a crianças e adolescentes? •• As diferenças de sexo/gênero, cor/etnia ou condições socioeconômicas se convertem em situações de desigualdade no acesso aos direitos. O ECA é silencioso quanto às necessidades ou prioridades 22 Acesso significa necessariamente educação de qualidade? Um milhão e 300 mil crianças e adolescentes (5,4%) estão na escola, mas não sabem ler e escrever ! No caso dos jovens, é comum a permanência na escola ou na universidade concorrer com a necessidade de trabalhar e prover seu sustento. O dilema entre estudar e se sustentar Somente 25,8% dos jovens entre 18 e 19 anos conseguem ter o estudo como única atividade, ou seja, a grande maioria estuda e trabalha. 32% dos jovens nessa faixa etária não estudam. Conforme a idade aumenta, a dificuldade de permanecer estudando também aumenta. Somente 10% daqueles que têm entre 20 a 24 anos só estudam e não trabalham. 4 - Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, ano 2008 (Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/ populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/) ➲ Seção 2 - Violação e proteção de direitos de mulheres, crianças e jovens 50,4%, metade dos jovens entre 20 e 24 anos, não estudam. Juventude e o problema do desemprego: o direito de jovens ao trabalho no Brasil Jovens de 16 a 24 anos representam 44,5% do total de desempregados. Somente 17% dos que trabalham são jovens. Agora você,leitor e cidadão mobilizado a reivindicar e a promover os direitos das crianças e jovens, terá a oportunidade de conhecer a experiência cotidiana de alguns jovens caiçaras no exercício de seus direitos e algumas das tensões presentes na interação entre eles e os turistas. E o Direito à Educação e à Profissionalização? “Parei de estudar lá na sétima série. Porque estava em construção a casa, então muito trabalho. Chegava da escola umas duas horas da tarde e quando saia pra escola era umas seis horas da manhã. Chegava umas duas horas da escola e já emendava no serviço, acordava cansado no dia seguinte pra ir pra escola. Cansado, muito cansado, aí já... Tinha dia que eu nem acordava, aí, nem ia estudar... Eu era pedreiro, era servente de pedreiro”. (jovem do sexo masculino, 24 anos, ensino fund. incompleto, pardo). “Ah, é legal, é boa (a vida onde ela mora, numa praia na região rural, onde não há acesso por estrada), só que falta muita oportunidade também, de trabalho, de estudo, de... Ah, deixa eu ver... Ah, mas é legal. A gente vive bem, só o que falta mesmo é estudo, oportunidade de o pessoal estudar... Que aqui, termina a 5ª série, ninguém vai mais pra escola, isso é um absurdo. Porque é falta de oportunidade também do pessoal ter um... Sei lá, se tivesse uma estrada, talvez o pessoal, as crianças iam estudar”. (jovem do sexo feminino, 20 anos, ensino fund. completo, negra, moradora de uma comunidade cujo acesso ao centro é somente por trilha). Direito a lazer e cultura Vida nas comunidades pode ser percebida como restrição de horizontes e possibilidades: “mundinho”, “mesmice”... Os trechos5 a seguir constituem narrativas dos próprios sujeitos e nos dão a dimensão da distância a ser encurtada entre a cidadania “no papel” e a cidadania “real” dos jovens que moram em comunidades anfitriãs de turismo. Como está o Direito ao Trabalho e à Renda? “Trabalhamos com a pesca. E baixa temporada é assim, o que a gente tem a gente ganha com a pesca. E alta temporada a gente deixa a pesca um pouco de lado e vai trabalhar com turismo que tem mais, mais recurso, né? Eu moro com a minha mãe, com meu pai, com minhas irmãs, ainda não tenho casa própria (risos), moro com a família ainda, né? Não sou muito independente ainda apesar de ter quase 25 anos já”. (jovem do sexo masculino, 24 anos, ensino fund. incompleto, pardo). 5 - Os trechos apresentados foram extraídos de entrevistas realizadas com jovens de comunidades anfitriãs de turismo do litoral sul de SP e RJ, para a pesquisa “Cenários de Vulnerabilidade no contexto do turismo”, realizada entre 2006 e 2007 pelo NEPAIDS e Ing_Ong. “Eu vejo isso como uma coisa boa (o contato com turistas e o turismo). Eu acho legal, que é uma oportunidade para as pessoas que moram, que ficam só ali naquele mundinho, sem muitas coisas, só vivem ali, daí acabam passeando, trocando passeio. Eu vou morar na sua casa, você vai na minha (...) poder ir pra outros países... Acho legal, eu acho bom... Porque pra gente, falta muita coisa, diversão, conhecimento...” (jovem do sexo feminino, 21 anos, ensino médio completo, branca). Como podemos perceber a partir das narrativas acima, dos rapazes e das garotas, eles vivenciam a sensação de “falta de oportunidades” nas áreas de educação, cultura, formação profissional e trabalho. Ao refletirem sobre as interações sociais e os contatos que estabelecem com as pessoas “de fora” de suas comunidades, turistas de ambos os sexos, os jovens percebem a vida dos turistas como uma vida que contrasta com a sua, sendo essa desfavorável. O turista é “mais rico”, “têm mais coisas”, “faz mais coisas”, “pode mais”! A narrativa a seguir, da mesma jovem que percebe sua comunidade “sem oportunidades de estudo”, nos ajuda a compreender como muitas das garotas que residem em comunidades anfitriãs de turismo constróem seus planos sobre relacionamento sexual, namoro, casamento, filhos e família atravessados por essas percepções e pelas restrições reais experimentadas na vida social. 23 Preferência pelo turista como parceiro “(...) Eu não tenho namorado aqui (...). Homens daqui, assim, eu não fico. Eu costumo mais ficar com cara de fora mesmo, assim, né? Porque, sei lá, não me interessa nenhum caiçara daqui, não me interessa assim... de ficar. Já fiquei, assim, mas... Não de querer casar, de ter filhos aqui, não sei”. (jovem do sexo feminino, 20 anos, ensino fund. completo, negra). Há um interesse das garotas pelos rapazes ou homens mais velhos que estão em sua comunidade na condição de turistas, e uma espécie de fascínio pelo seu mundo “cheio de oportunidades”, que contrasta com sua falta de possibilidades de lazer, educação, cultura e trabalho. Esta falta é vivenciada por muitas jovens de comunidades que recebem investimentos insuficientes nessas áreas. E essas circunstâncias de desigualdade social impedem ou dificultam a experiência de sentirem-se igualmente sujeitos de direitos, quando se comparam às “pessoas de fora”. Essa sensação subjetiva de inferioridade, de “ter menos” ou de “ser menos”, vivenciada em contextos onde os indicadores sociais são baixos, favorece relações de subserviência e submissão e compromete o exercício da cidadania. Por vezes, parece estar na base de algumas problemáticas ligadas à sociabilidade entre turistas e moradores locais. Na tentativa de se relacionar com homens turistas, muitas vezes as circunstâncias ganham uma conotação de exposição a situações opressivas e de caráter exploratório, ou mesmo ofensivas do ponto de vista das garotas, colocando em risco seus direitos civis. Os turistas ocupam então a posição de violadores de seus direitos, mesmo não cientes disso no contexto da sociabilidade. Essas considerações nos auxiliam a compreender a vulnerabilidade das garotas, principalmente negras e pobres, ao mercado sexual e à exploração sexual, ilustrado pela narrativa a seguir: “Ele achou que a gente era mulher de programa porque a gente estava paquerando e olhando ele, sabe? E ele tava sozinho no bar (...) e chamou a gente para ir na pousada, e a gente foi! (...) Não era muito novinho não (...) já mais para coroa. Ele achou que a gente tava paquerando ele, nós três juntas, ele achou que a gente queria, não sei, dinheiro... (...) Ele falou que dava o dinheiro que a gente quisesse pra ficar com ele. As três juntas. (...) Tava a fim de pagar o dinheiro que a gente quisesse... Ofereceu dinheiro mesmo”. (jovem de 20 anos, sexo feminino, ensino fund. completo, negra). Há indicativos de que a vivência contínua por parte de alguns sujeitos (e isso não acontece somente com as garotas, mas com os rapazes também) de interações sociais semelhantes 24 à situação descrita acima, caracteriza uma maior exposição a situações mais graves do ponto de vista do risco à integridade física e moral. É o caso em que pessoas são transformadas em produtos ou objetos em redes sociais mais complexas, como a do tráfico de pessoas. Vulnerabilidade das garotas à violação do direito à liberdade, dignidade e proteção contra a violência. O problema do tráfico de mulheres para fins sexuais “Tem uma menina (...), conheceu um italiano e foi pra lá, pra Itália; conheceu um mês, aí no outro mês ele prometeu mundos e sonhos pra ela. Aí ela foi pra lá e era mentira. Chegou lá, ele prendeu o passaporte dela... batia nela, batia... E ela ficava com vergonha de voltar pra cá por causa que... Saiu achando que ia se dá bem, chegar aqui sem nada assim, assim... E ela ficou um tempão nessa situação, dele bater nela, não deixava sair de casa, não deixava conversar com ninguém. Até que ela tomou coragem assim, a mãe dela deu uma força, aí ela voltou”. (jovem do sexo feminino, 21 anos, ensino médio completo, negra). O turista pode “facilitar” o acesso ao lazer valorizado pela sociedade de consumo e não disponível igualmente para todas as camadas sociais. Desigualdade social entre brasileiros e estrangeiros “Tem umas amigas que, nossa! Só fica, só se for gringo (...). Tem que falar enrolado (...) vai vê que é porque... Ah, elas gostam porque leva pra jantar... Talvez seja mais romântico né, toma bons vinhos. Talvez interesse de ir embora também, né? (...) Tive várias amigas assim que também começaram a namorar com gringo e foram embora. Então... A galera se ilude, né”? (jovem de 21 anos, sexo feminino, ensino médio completo, definiu-se como “morena pra negra”). Sociedade de consumo: “ser sujeito-consumidor” é mais relevante socialmente do que “ser sujeito-sexual”? “Eu acho que acontece bastante (prostituição nas comunidades). Rola, porque dá dinheiro. Às vezes a menina não tem trabalho, não tem pai ou a mãe que dá dinheiro, e ela precisa desesperadamente, porque ela viu uma coisa que gosta e ela quer, e ela fica pensando: “Ah, vou me prostituir, porque eu ganho dinheiro fácil” (...) tem uma menina que tem uma fama de que ela só pega dinheiro de velho pra poder comprar as coisas. Só que ela não é pobre. Ela tem pai, tem mãe, tem dinheiro. Só que, mesmo assim, ela quer algo mais do que a mãe e o pai podem dar, então ela se prostituiu”. (jovem de 21 anos, sexo feminino, ensino médio completo, branca). ➲ Seção 2 - Violação e proteção de direitos de mulheres, crianças e jovens Quando discutimos sobre a tensão entre cidadania, ser sujeito sexual e sujeito de direitos versus ser objeto de manipulação ou desprovido de cidadania real, um tema imprescindível ao conhecimento dos leitores, além dos direitos sociais, são os direitos sexuais e reprodutivos das pessoas, incluindo as crianças e jovens de ambos os sexos. Este tema constitui referência central àqueles que estão mobilizados a fortalecer a cultura dos direitos humanos em suas vidas. Com base nas Conferências e Tratados internacionais, o Ministério da Saúde elaborou uma cartilha com a explicitação dos direitos reprodutivos e direitos sexuais. Os direitos reprodutivos consistem em: • Direito das pessoas decidirem, de forma livre e responsável, se querem ou não ter filhos, quantos filhos desejam ter e em que momento de suas vidas; • Direito a informações, meios, métodos e técnicas para ter ou não ter filhos; • Direito de exercer a sexualidade e a reprodução livre de discriminação, imposição e violência. Os direitos sexuais consistem em: • Direito de viver e expressar livremente a sexualidade, sem violência, discriminação e imposições e com respeito pleno pelo corpo do parceiro(a); • Direito de escolher o (a) parceiro (a) sexual; • Direito de viver plenamente a sexualidade, sem medo, vergonha, culpa e falsas crenças; • Direito de viver a sexualidade independentemente de estado civil, idade ou condição física; • Direito de escolher se quer ou não quer ter relação sexual; • Direito de expressar livremente sua orientação sexual (heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade, entre outras); • Direito de ter relação sexual independente da reprodução; • Direito ao sexo seguro para prevenção da gravidez indesejada e de DST/HIV/AIDS; • Direito a serviços de saúde que garantam privacidade, sigilo e atendimento de qualidade e sem discriminação; • Direito à informação e à saúde sexual e reprodutiva. Como vocês podem ver, as situações apresentadas variam em termos de circunstâncias e agentes envolvidos na proteção ou violação dos direitos dos jovens em questão. Como já mencionado, esse “agente” pode ser o Estado, representado pelas suas Secretarias e Ministérios ou seja, um agente coletivo e institucional. Isso pode erroneamente nos levar a crer que, ao considerarmos os dados do IBGE sobre indicadores sociais nas áreas de educação, habitação e trabalho, então somente instituições públicas violam ou respeitam os direitos. Embora as instâncias públicas sejam as principais responsáveis pela garantia dos direitos sociais - que incidem diretamente sobre a melhoria dos padrões de saúde-doença e da qualidade de vida dos grupos sociais -, elas não são as únicas responsáveis pela proteção dos direitos de crianças e jovens. Os depoimentos dos jovens ilustram como sujeitos, individualmente falando, também protegem, promovem ou violam direitos no cenário da sociabilidade das comunidades anfitriãs. Os/as turistas, sem pretensão generalizadora, são potenciais violadores dos direitos dos moradores locais, a depender dos graus de: desigualdade, assimetria de poder, desrespeito e mercantilização nas interações sociais, como nos mostram as narrativas em que turistas violam o direito à dignidade e integridade, em especial das jovens. As experiências de gozo dos direitos humanos ou de seu impedimento são mediadas por ações individuais nos cenários mais variados de sociabilidade, seja no interior das instituições, na praia, em um bar ou hotel. Isso precisa ser reconhecido e debatido nas comunidades para que possamos promover uma cultura de ética e respeito mútuo nestes contextos. Com o intuito de proteger e promover os direitos de crianças, adolescentes e jovens que vivem nas comunidades anfitriãs de turismo, nós esperamos que esse material educativo contribua com o debate, a fim de melhorar ou efetivar as ações cotidianas da própria comunidade e dos profissionais nas áreas: jurídica, de educação, saúde, assistência social, desenvolvimento social e, em especial, por parte das instâncias que integram a cadeia produtiva de turismo (hotéis, agências, sindicatos de bares e restaurantes, guias e monitores ambientais, entre outras). 25 Violências sexuais contra mulheres, adolescentes e crianças Maria Cecília Rossi de Almeida1 A violência de forma geral, mas principalmente a sexual, apresenta grandes problemas no que se refere à denúncia, uma vez que poucos casos são efetivamente comunicados e notificados aos órgãos competentes. Alguns dados mostram um panorama do Estado de São Paulo sobre esta situação. Em 2004, por exemplo, apenas 2% dos casos de agressão sexual intra-familiar de meninos e meninas foram notificados, assim como 6% das agressões sexuais extrafamiliar e 5% a 8% das agressões sexuais a adultos (Ministério da Saúde, 2004). Isto revela um índice extremamente baixo de notificações em função do conhecimento extraoficial que se tem, além da necessidade de melhorá-los, para que se possa pensar em ações efetivas contra essa situação. O Grupo de Vigilância Epidemiológica XXIII – Registro (GVE XXIII – Registro) trabalha com 15 municípios do Vale do Ribeira na área da Saúde. Dentre seus campos de atuação, estão as questões relacionadas à violência contra mulheres, adolescentes e crianças. Neste texto apresento uma descrição dos principais problemas que impedem a notificação dos casos de violências sexuais contra mulheres, adolescentes e crianças, bem como as iniciativas em curso no Vale do Ribeira visando o enfrentamento da problemática. Mulheres em Perigo A violência sexual contra a mulher enfrenta um problema que chamamos de muro do silêncio, ou seja, a denúncia normalmente não é realizada em função do medo que as pessoas sentem. Um temor associado a inúmeros fatores: • Medo do interrogatório policial: esta condição ocorre porque a pessoa que sofreu a violência comumente não é vista como vítima e sim como quem deu oportunidade 1- Bióloga, técnica da Divisão Regional de Saúde XVII – Secretaria de Estado da Saúde – Grupo de Vigilância Epidemiológica (GVE) XXIII – Registro/SP. 26 para que o ato violento acontecesse. É julgada por seu comportamento, modo de vestir, andar, falar e olhar. Neste caso, a vítima passa a ser ré no momento que senta na cadeira junto ao delegado, com direito a julgamento e condenação, causando a sensação de ser novamente vitimizada; • Pavor do exame de Corpo de Delito/IML: a visão integral do ser humano não existe, porque em geral a vítima é tratada como se fosse simplesmente parte de um corpo que deve ser examinado para constatar se foi realmente violentado; • Perda da confidencialidade: é causada pelo medo de “perder” sua intimidade ou privacidade quando é exposta pelos meios de comunicação, por quem a atendeu nos diversos setores em que passou ou por conhecidos que souberam do caso. Todos se sentem no direito de olhar, julgar, falar, comentar e dar opinião a respeito do motivo que levou à agressão; • Medo de vingança do violador: uma vez que ela não tem garantia de proteção após o reconhecimento de quem a agrediu, o temor de que a pessoa que a violentou possa voltar e a agressão acontecer novamente, com ela ou com algum familiar seu, a deixa estanque, sem coragem de realizar a denúncia; • Medo de não ser acreditada: pela própria família, conhecidos, autoridades competentes, dependendo do tipo de agressão sofrida; • Discriminação: muitas vezes a vítima recebe esse tipo de atitude por parte da sociedade, seja dentro de casa, na vizinhança ou outro local de convívio. É apontada, falada, julgada e, não raramente, condenada; • Prejuízos: a questão engloba todos os prejuízos que ela terá, desde o moral até financeiro, como perda do emprego por incapacidade de voltar ao trabalho por um período; • Humilhação: por tudo o que lhe aconteceu e pelo longo caminho que sabe que terá que enfrentar. Essa situação demonstra que não se tem acolhimento para quem sofre o abuso, mas sim uma revitimização todas as vezes que precisa contar sua história nos locais por onde passa. O acolhimento é fundamental quando se pensa em trabalhar com qualquer questão relacionada à violência sexual. Perda da inocência A ausência de denúncia dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes ocorre por outros motivos e abrange questões bastante diferentes das encontradas nos casos de violência contra a mulher. Dentre os que se pode destacar, está o envolvimento de familiares. Uma das grandes dificuldades na notificação de abuso contra crianças está no fato de a violência normalmente envolver familiares ou amigos muito próximos. O poder que a mãe tem de fazer a denúncia deixa de existir com o medo da represália e, principalmente, por causa das dificuldades financeiras que essa atitude pode reverter para sua família, uma vez que o violador quase sempre é o pai, padrasto ou irmão, que também é aquele que é responsável pelo sustento da casa. Não são incomuns casos de mães que realizam a denúncia e que depois retiram a queixa por não terem como garantir o sustento do restante da família. Outro fato que ocorre nesses casos é que muitas vezes a criança é usada como uma moeda corrente da família, que a leva à exploração sexual. Os pontos de exploração sexual são conhecidos nos locais onde isto acontece. Normalmente o familiar não fica à vista, somente aparecendo para estabelecer preço quando o “cliente” interessado no “menor” chega até o mesmo. A criança abusada sofre um desequilíbrio emocional ligado ao medo que sente de seu opressor, o que comumente fecha-lhe a fala. Muitas vezes a criança passa a defender o agressor no sentido de proteção própria, com receio de ser morta, espancada, desacreditada pela mãe e/ou ainda levar alguma repreensão mais severa se falar alguma coisa. Assim, ela fica quieta e continua sendo violentada até que alguém tenha o bom senso de ver que seu comportamento não está normal. Se isso não ocorrer, essa criança será violentada até a adolescência, quando, muitas vezes, terá coragem de falar alguma coisa ou sair de casa. Silêncio O silêncio em tantos casos de violência nos leva a deficiências importantes. A subnotificação dos casos dificulta a coleta de dados para se construir ações eficientes. Quando temos os casos de violência sexual notificados em uma região, a localidade onde se tem maior ocorrência e o perfil do agressor, que nem sempre é um desconhecido, tornam-se visíveis. Isto permite a construção de um plano de enfrentamento, com ações bem definidas. Quan- do ficamos no silêncio, apenas um caso ou outro torna-se conhecido e somente ações pontuais são estabelecidas. Em decorrência desses fatores tem-se um atendimento clínico não adequado, principalmente pela pouca estrutura do Sistema de Saúde que, na sua maioria, não está preparado para lidar com esta situação, variando desde o desconhecimento ou ausência de um protocolo de atendimento e adequado acolhimento à vitima, até o medo do profissional em denunciar e sofrer represálias contra si ou sua família. A maioria dos serviços não conta com psicólogos para o apoio inicial à vítima de abuso ou para a continuidade de atendimento até o reequilíbrio da mesma. Todavia, devese lembrar que o acolhimento durante todo o processo inicial e o apoio terapêutico posterior são fundamentais para sua reintegração à sociedade. Nesta circunstância, o silêncio remete a um círculo vicioso, no qual temos a violência urbana, doméstica, a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes, a violência no campo e na floresta, a feminização da epidemia de Aids e outras DST e o tráfico de pessoas. Um círculo que gira em torno da violência sexual, a violência mais silenciosa que temos. Para se trabalhar questões relacionadas ao abuso sexual deve-se pensar em uma atuação intra e interinstitucional. A atuação em um único setor ou, pior ainda, em um único local de determinado setor não dará conta de todas as implicações que existem no contexto da violência. As parcerias tanto dentro de uma instituição como entre as várias instituições devem ser claras, com papéis bem definidos e com fluxos estabelecidos. O “eu” sozinho nunca funcionará porque essa mulher, essa adolescente, essa criança será um caso na delegacia de polícia, um caso na saúde, um caso no Conselho Tutelar, um caso por cada lugar pelo qual passar. Será sempre um caso picado e nunca uma pessoa inteira, vista realmente como uma pessoa que sofreu violência. O Vale do Ribeira e as Redes de Enfrentamento às Violências Sexuais Na região de abrangência do GVE XXIII, a notificação de casos de violência pela área da saúde ocorre apenas em alguns municípios, uma vez que nem sempre as denúncias chegam à saúde municipal, restringindo-se a outros campos de entrada de casos pela inexistência de rede interinstitucional formada. As ações de enfrentamento às violências sexuais são desenvolvidas por alguns órgãos, de forma ainda desarticulada, tanto na esfera estadual quanto na municipal. Existem vários projetos, como: Sentinela, Tráfico de Seres Humanos, Rede Social e outros que envolvem o tema violência, mas também estão desarticulados. Assim, temos várias pessoas olhando para o mesmo lugar, tentando fazer suas ações e não chegando a um ponto concreto, pela desarticulação existente. Todavia, a questão da formação de uma rede de enfrentamento está bastante clara para todas as instâncias, que estão trabalhando para sua constituição por meio da articulação real, o que permitirá ações mais consistentes. Atualmente, em nível regional, esta articulação, embora realizada de forma lenta, abrange Saúde, Educação, Sociedade Civil, Polícias Militar e Civil, Assistência e Desenvolvimento Social, Instituto Médico Legal, Ordem dos Advogados do Brasil, Delegacia de Mulher (que existe em um único município) e associações de monitores ambientais. suas redes e inclusão no fluxo de encaminhamento e assistência regional. Para que este processo tenha início, é necessário que a rede regional já esteja preparada e em funcionamento. Tanto as referências hospitalares estaduais quanto os hospitais municipais contam ou têm acesso a insumos de atendimento como medicação para DST, pílula do dia seguinte, vacina contra hepatite B e imunoglobulina. Os antiretrovirais para profilaxia contra o HIV ficam em pólos de distribuição que são ligados a esses hospitais. Essa é uma das formas de estabelecer o sistema de referência-contrareferência na rede formada em nível regional, municipal e regional-municipal, de forma que se garanta a continuidade no atendimento da pessoa vitimizada tanto no hospital de referência quanto no município. A assistência ética no serviço de saúde em casos de violência sexual pressupõe alguns passos a serem dados: o acolhimento correto da vítima, sendo este o primeiro e mais importante passo – acolher é vê-la como uma pessoa, ela deve ser orientada sobre seus direitos enquanto vítima; o aconselhamento sobre o impacto que essa violência terá junto a ela e a sua vida; acesso à contracepção de emergência; acesso à profilaxia contra DST/HIV; atenção aos traumas genitais e extragenitais; interrupção da gestação decorrente de violência sexual; internação e tratamento em situações específicas. A proposta atual é a concretização das Redes Regional e Municipais de Enfrentamento às Violências Sexuais. As Redes Municipais são fundamentais a partir do momento em que captam a maioria dos casos, além de darem continuidade aos atendimentos às vítimas de violência que tenham tido seu primeiro atendimento em nível regional. Assim, é extremamente importante que estas duas redes estejam perfeitamente interligadas. Para isso, torna-se necessário a implantação de um fluxo de encaminhamento e atendimento às vitimas de violência sexual, evitando que ela tenha de contar a mesma história várias vezes. Este fluxo deve ter uma lógica, permitindo que a pessoa seja vista de uma forma integral. Propõe-se ainda a interligação dos projetos existentes, mantendo-se as características de cada um. Na área de saúde, foi formalizada a referência hospitalar junto aos Hospitais São João e Regional do Vale do Ribeira, permitindo assim que os municípios tenham fluxo de encaminhamento para qualquer caso de abuso sexual. Houve ainda a implantação de ficha de notificação de violências no SINAN (Sistema Nacional de Agravos de Notificação) em alguns municípios. Todavia, é intenção do GVE XXIII que todos os municípios notifiquem sempre por meio do SINAN e não de um banco de dados paralelo, questão que está sendo vista junto ao nível central da Secretaria de Saúde do Estado (Coordenadoria de Controle de Doenças). Elaborou-se também um cronograma de visitas aos municípios, com o intuito de ajudar na formação de 28 “As vítimas de violência sexual esperam mais que simples aplicação de protocolos. Esperam receber um trato digno, respeitoso e acolhedor. E que possamos protegê-las da revitimização. Cabe aos profissionais de saúde [e não só aos profissionais de saúde, mas sim a todos os profissionais] o reconhecimento de seu importante papel no destino dessas mulheres [crianças e adolescentes]. E o exercício ético e responsável de medidas protetoras de sua saúde e de seus direitos humanos” (Rosas, 2008). Referências Bibliográficas Lima, C. A. Atenção Integral à Saúde de Mulheres e Adolescentes em Situação de Violência Sexual – Respostas Institucionais ao Problema na Perspectiva do Ministério da Saúde. Iº Encontro Estadual para Atenção à Saúde de Mulheres Vítimas de Violência Sexual, 18 a19 de Setembro de 2008. Ministério da Saúde. Violência faz mal a saúde. In: Claudia Araújo de Lima (Coord.) et al. Brasília, Ministério da Saúde, 2004. Rosas, C. Aspectos Éticos e Legais da Interrupção da Gravidez Pós-Estupro. Iº Encontro Estadual para Atenção à Saúde de Mulheres Vítimas de Violência Sexual, 18 a 19 de Setembro de 2008. Schraiber, L. B. Violência Sexual contra a Mulher. Iº Encontro Estadual para Atenção à Saúde de Mulheres Vítimas de Violência Sexual, 18 a19 de Setembro de 2008. O Estatuto da Criança e Adolescente e o papel do Conselho Tutelar na proteção e promoção dos direitos das crianças e adolescentes Adilson Guimarães1 O Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), ou seja, a Lei Federal nº 8.069/90, de 13/7/1990, estabeleceu significativas modificações em relação à legislação anterior denominada Código de Menores (Lei nº 6.697, de 10/10/1979) que se aplicava apenas aos “menores” em situação irregular, em conflitos com a lei ou privados de assistência. O ECA trouxe novas diretrizes em relação à legislação anterior, começando pelo nome: antes crianças e adolescentes eram denominadas “menores”. Ainda hoje muita gente usa esse termo, inclusive autoridades judiciárias e, especialmente, a mídia. O ECA definiu criança como aquela até doze anos de idade incompletos e adolescente como aquele entre 12 e 18 anos de idade. Essas distinções de nomes têm relevantes implicações jurídicas, em conduta caracterizada como ato infracional: •• A criança estará sujeita as medidas de proteção previstas no art. 101 do ECA, cabendo ao Conselho Tutelar a sua aplicação, •• O adolescente estará sujeito às medidas sócio-educativas previstas no art. 112 do mesmo Estatuto, podendo, inclusive, ser encaminhado à delegacia, fórum, promotor e até ser privado de sua liberdade, ou seja, ser encaminhado para a Fundação CASA - Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (antiga FEBEM). Princípios estabelecidos pelo ECA: O ECA estabeleceu o princípio da proteção integral, dentre outros princípios, e mudou completamente o enfoque em relação às crianças e adolescentes no País 1 - Comissão da Criança e Adolescente – Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Sede Registro/SP, Vale do Ribeira. - começando por sua abrangência, ao estender sua aplicação a todas as crianças e adolescentes, independente do espaço onde vivam, como escola, comunidade ou sociedade, família constituída ou não, privados de assistência ou não, enfim, todas estão subordinadas ao Estatuto da Criança e Adolescente. Diferentemente de antes, quando as crianças e adolescentes em família constituída eram regidas pelo Código Civil, enquanto outras em situação irregular estavam sujeitas ao Código de Menores. Além disso, o principio da proteção integral visa proteger a criança e o adolescente em todos os seus aspectos, tais como: a proteção da sua integridade física, direito a sobreviver, aspecto psicológico, social, moral e espiritual. Assim, esse princípio tem por objetivo proteger esse ser humano em todas as suas necessidades, para que tenha um desenvolvimento pleno e satisfatório até os dezoito anos de idade. Nesse sentido, embora sejam assegurados à criança e ao adolescente muitos dos direitos fundamentais dos adultos, para atender ao princípio da proteção integral, o artigo 227 da Constituição Federal estabeleceu no seu início (“caput”) que a criança e o adolescente têm alguns direitos fundamentais que devem ser garantidos, com absoluta prioridade, em primeiro lugar pela família, depois pela sociedade e, por último, pelo próprio Estado. Trata-se de direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, à profissionalização, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. No artigo consta uma regra expressa que diz que essa criança e adolescente tem que ser colocada a salvo de 29 qualquer forma de discriminação, abuso, negligência, exploração, crueldade ou opressão. Esses mesmos direitos fundamentais foram reproduzidos, estampados, no art. 4º do Estatuto da Criança e Adolescente. A criança e o adolescente passaram a ser sujeitos de direitos e os responsáveis pela garantia de seus direitos passaram a ser num primeiro momento a família e depois a sociedade e o poder público em geral. O ECA estabeleceu mecanismos de proteção desses direitos fundamentais: • Primeiro discriminou cada direito fundamental, por exemplo, o que entende por vida, por liberdade, por profissionalização, por convivência familiar e comunitária, o que é família natural; Na esfera municipal, para efetivação das políticas de atendimento, foi criado o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente (CMDCA), órgão deliberativo e controlador de ações, composto por membros do poder público, com participação popular paritária por meio de organizações representativas da sociedade civil. O ECA também criou o Conselho Tutelar: • Órgão colegiado composto por cinco pessoas escolhidas na comunidade, para mandato de três anos, que atende a casos de violação ou ameaça aos direitos da criança e do adolescente, ou seja, aos seus direitos fundamentais; • Depois de relacionar os direitos fundamentais, passou a estabelecer como garantia de proteção a política de atendimento, que abrange a promoção, prevenção, proteção e defesa dos direitos fundamentais da criança e do adolescente, através de uma multiplicidade de ações específicas de natureza diferente e complementar na área das políticas sociais básicas, serviços de prevenção, assistência supletiva, proteção jurídico-social e defesa de direitos. Nesse sentido, as organizações governamentais e as entidades não governamentais assumem a responsabilidade pelo oferecimento destes serviços, através de um conjunto articulado de ações na esfera municipal, estadual e federal, conforme preconiza o ECA; ininterruptos, 24h por dia; • Os responsáveis pela efetivação das políticas de atendimento em relação à criança e adolescente passaram a ser o Governo em quaisquer de suas esferas (federal, estadual e municipal) e a sociedade civil organizada. Dessa forma, o ECA mudou o enfoque na proteção, trazendo a responsabilidade para a sociedade também pela efetivação dos direitos fundamentais. do promotor de justiça e nem do juiz de direito. O Conselho tem autonomia dentro das regras previstas na legislação não jurisdicional da sociedade - ou seja, não aplica a lei, não julga, mas encaminha os casos ao Poder Judiciário para que sejam decididos. O ECA criou alguns princípios dentro dessa política de atendimento, e um deles foi trazer para o município a execução das políticas de atendimento em relação à criança e adolescente, cabendo na esfera federal (União) estabelecer apenas as regras gerais, as normatizações, as diretrizes principais de âmbito nacional, através de seus órgãos deliberativos compostos de forma paritária com membros da sociedade civil e do poder público, como o CONANDA Assim, com a criação do Conselho Tutelar, foi transferida para a comunidade a responsabilidade de zelar pelos direitos de suas crianças e adolescentes. Composto por cidadãos da comunidade, tem como função executar as decisões da política de atendimento, prevenção, proteção e defesa dos direitos fundamentais preconizados na Constituição Federal. (Conselho Nacional dos Direitos das Crianças e Adolescentes). E, na esfera estadual, também estabelecer as diretrizes estaduais e as normatizações, como o CONDECA (Conselho Estadual dos Diretos das Crianças e Adolescentes). Hoje, compete aos municípios a execução das políticas de atendimento, cabendo à União e aos Estados-Membros 30 estabelecerem regras gerais, diretrizes, repasses de recursos financeiros e técnicos aos municípios. • Órgão permanente, autônomo, de serviços • Tem autonomia para conduzir seus trabalhos e compete a ele atuar sempre que acontecem violações em relação aos direitos fundamentais das crianças e adolescentes; • Não se confunde com a prefeitura, não é extensão O Conselho Tutelar passa a exercer uma parcela do poder público, conforme preconizado no art. 1º parágrafo único da Constituição Federal, segundo o qual todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representante eleito ou diretamente, nos termos ➲ Seção 2 - Violação e proteção de direitos de mulheres, crianças e jovens da Constituição. Trata-se da participação comunitária na proteção integral da criança e adolescente, de tal forma que cada brasileiro possa ter assegurado seu pleno desenvolvimento físico, mental, moral e espiritual, em condições de liberdade e dignidade. O Conselho Tutelar é um órgão inovador na sociedade brasileira e com o potencial de contribuir para mudanças profundas no atendimento à infância e à adolescência. Para utilização plena do potencial transformador do Conselho Tutelar e para que se exerça seus papéis e atribuições com competência é imprescindível que o conselheiro conheça bem sua organização, as características básicas, atribuições legais e competências. O Conselho Tutelar nasceu para garantir novos hábitos e costumes no trato da infância e juventude. Não foi previsto para fazer o que outros deveriam fazer. É comum agentes do poder público que deveriam prestar serviço nessa área não o fazerem, seja por imprudência ou negligência, seja porque não há vontade de fazer, seja porque simplesmente mantêm antigos hábitos, usos e costumes. Como exemplo, podemos citar que ainda há juízes e promotores que trabalham sob a “égide” do antigo Código de Menores, “determinando” e “requisitando” ao Conselho Tutelar serviços que são próprios dos profissionais de serviço social, de outras especialidades, ou de outras instâncias públicas. Alguns consideram que os conselheiros são seus subordinados e, na fala de algumas dessas autoridades, “seus olhos e ouvidos”. Também na área de proteção à maternidade, à família e à adolescência, o poder público (Prefeituras, Delegacias, Polícia civil e Militar, Ministério Público, Vara Judiciais, área da Educação, da Saúde, entre outras instâncias) e a sociedade civil organizada (organizações não governamentais – ONG's) têm encaminhado casos ao Conselho Tutelar para atendimento. No entanto, através de programas próprios, são essas entidades que devem fazê-lo. O Conselho Tutelar deve ser acionado quando tais programas deixam de oferecer regularmente os serviços por eles devidos. Ao Conselho não cabe executar e nem criar programas, mas requisitar serviços (na área de saúde, educação, serviço social, previdência, trabalho e segurança) aos programas públicos de caráter obrigatório. Corre-se o risco de transformar o Conselho Tutelar em executor de programas, o que já vem ocorrendo em muitos municípios, especialmente aqueles pequenos como do Vale do Ribeira. Isso fere o próprio espírito do ECA, além dos conselheiros exercerem funções que não lhes são próprias, ocupando ilegalmente o papel de outras profissões regulamentadas como assistente social e psicólogo. O Estatuto da Criança e Adolescente precisa ser mais bem entendido e utilizado pelos conselheiros, até para fazer frente aos diversos ofícios que eles recebem, para se opor às “requisições” sem amparo legal de Promotores de Justiça que os “manda” entregar ofícios à criança ou adolescente, ou às suas respectivas famílias, situação essa absolutamente descabida. CIDADÃO: Hoje, muitos conselheiros tutelares são “coagidos” a atuar como mero executor de autoridades judiciais que não vêm respeitando a autonomia do Conselho Tutelar disposto no ECA. Além dessas ingerências, os conselheiros enfrentam problemas na realização do seu trabalho - pois, muitas vezes, falta infraestrutura (computadores, carro, motorista, combustível para as visitas domiciliares), possuem precárias manutenções financeiras, dependem da boa vontade política da Secretaria a qual estão vinculados e do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente; além de terem, em geral, péssima remuneração, pouca capacitação e demanda excessiva de trabalho, além de falta de pessoal técnico e administrativo de apoio. Todas essas deficiências influenciam na qualidade das informações repassadas pelo Conselho, dificultando uma análise real que melhor ampare as decisões e atividades da rede de atendimento. Por outro lado, às vezes o próprio Conselho Tutelar pratica abusos, ao fazer justiça com as próprias mãos e usar arbitrariamente das próprias razões, ou quando não respeita a presunção de inocência 31 e o direito à ampla defesa, violando garantias constitucionais do cidadão. Isso ocorre, por exemplo, quando retiram a criança dos pais sem ordem do juiz de direito, desrespeitando o poder familiar (antes chamado de pátrio poder). O Conselho Tutelar foi criado para superar os velhos hábitos, usos ou costumes no trato dos interesses da criança e adolescente, e implantar novos usos e costumes de acordo com o Estado de Direito. Quando age corretamente, evita praticar qualquer arbítrio, combate todas as suas formas e não se subordina a ninguém, senão à lei, em suas decisões. O Conselho Tutelar integra o mundo da solução de conflitos humanos. Assim como o promotor de justiça depende do Poder Judiciário para obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer coisas (mesmo a promotoria tendo autonomia funcional e administrativa constitucional), também o Conselho Tutelar depende de um poder - no caso, o Poder Executivo municipal - para os efeitos de sua existência como órgão público (embora tenha autonomia em suas decisões). E depende do Poder Judiciário se quiser obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer algo que a pessoa não quer ou acha que não pode ser obrigada a fazer (com amplo direito à defesa de quem está sendo obrigado). O Conselho Tutelar não depende da Prefeitura para decidir, mas depende da Prefeitura para o que tem a ver com sua instalação física, com a destinação de recursos públicos para essa instalação, com a prestação de contas de suas funções, com o exercício de cargo público. No âmbito de suas decisões o Conselho: • Não se subordina às pessoas, senão ao texto da lei (do ECA), que é a fonte da cidadania e de sua autoridade pública (autoridade pública do Conselho Tutelar e não do conselheiro). Como qualquer autoridade pública o Conselho Tutelar só pode e deve praticar o uso das regras da lei. Quando praticar qualquer forma de omissão (ficar aquém do uso) ou de abuso (ir além do uso, com danos a pessoas, com dano à cidadania) deve ser controlado e levado a responder por isso; • Não pode ser constrangedor (não pode constranger pessoas), não pode ser autoritário, coercitivo, repressor, inquisidor e arbitrário. O cidadão tem, portanto, o direito de se defender de eventuais abusos e eventuais omissões do Conselho Tutelar. O ECA atribuiu ainda ao Conselho Tutelar o papel de órgão centralizador das notificações compulsórias de casos suspeitos ou confirmados de maus-tratos em relação à criança e ao adolescente, conforme previsto nos artigos 13 e 245 do ECA. E o que vem a ser esses maus-tratos? É definido no Código Penal, em seu art. 136, como expor a perigo a vida ou a saúde da pessoa sob sua autoridade, guarda ou vigilância, para fim de educação, ensino, tratamento ou custódia, quer privando-a de alimentação ou cuidados indispensáveis, quer sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado, quer abusando de meios de correção ou disciplina. No entanto, é comum a utilização do termo “maustratos” para se referir à violência cometida contra as crianças e adolescentes no âmbito familiar, âmbito institucional ou pela própria sociedade, sendo sinônimo de violência social. Os principais tipos de maus-tratos são: violência física, violência sexual, negligência, abandono e violência psicológica. A violência física, onde há o emprego de força física intencional ou não, com o objetivo de ferir, lesar ou destruir a criança ou adolescente, envolve desde tapas, beliscões até traumas e deve ser levado 32 ➲ Seção 2 - Violação e proteção de direitos de mulheres, crianças e jovens ao conhecimento do Conselho Tutelar. Da mesma forma se aconteceram situações de negligência, ou seja, omissões dos pais ou responsáveis que deixaram de prover os cuidados necessários básicos para o desenvolvimento físico, emocional e social da criança ou adolescente, também o caso deve ser levado ao conhecimento do Conselho Tutelar. A violência sexual refere-se ao jogo sexual em que há uma relação (hetero ou homossexual) cujo agressor está num estágio mais avançado psicológica e sexualmente do que a criança e adolescente, e sua finalidade ali é instigar a criança e adolescente ou utilizá-la para sua satisfação sexual. Dentro dessa situação podem acontecer tipos de abuso sexual sem contato físico - por exemplo, apenas verbal ou no olhar, como nos casos do exibicionista que tira a roupa apenas para chocar a criança e adolescente, ou do voyeurismo, no qual a pessoa fica observando o ato sexual em local que não a vejam. Também existe a hipótese da violência sexual em que há o contato físico do agressor com a criança ou com o adolescente; nesse caso esse contato físico pode ser com ou sem penetração, então pode ser a relação vaginal, anal, a masturbação, o sexo oral. Se a criança ou jovem, por exemplo, tiver menos de quatorze anos, mesmo que haja vontade de sua parte em participar do ato sexual, haverá presunção da violência e estará caracterizado o crime sexual contra vulneráveis, crime considerado hediondo. Nos casos de favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual da criança ou adoles- cente, respondem por esses crimes as pessoas que as submetem a esta condição, podendo ser responsabilizados os pais e os terceiros, inclusive o proprietário, o Então como podem ser provados? Podem ser provados por meio da fala da vítima, ou às vezes há o comprometimento da mãe ou de outro protetor que acaba denunciando. No entanto, quando os próprios protetores negam o fato, então o único meio de prova é somente a palavra da vítima em face do agressor. Mas, quando a mãe ou protetor se calam, a criança também provavelmente vai se calar. Nessa situação fica muito difícil a punição; nesse caso, deve-se agir rapidamente, assim que é revelada a violência sexual. E os órgãos de atuação, a rede de atendimento, têm que estar muito bem preparados para efetuar a intervenção imediata naquela situação, para não dar tempo da família se organizar e construir esse “muro do silêncio”, negando o fato. A negligência, por sua vez, refere-se à omissão dos em prover as necessidades básicas para o desenvolvimento físico, emocional e social da criança e adolescente, tais como: descuido com pais ou responsáveis a higiene e alimentação, privação de medicamentos, entre outros. A violência psicológica rejeição, depreciação, desrespeito, discriminação, punições humilhantes que causam danos ao crescimento e desenvolvimento biopsicossocial da criança ou diz respeito à adolescente - sendo a mais difícil de identificação. gerente ou o responsável pelo local em que se verifiquem as práticas referidas. Quem são os violadores dos direitos fundamentais das crianças e adolescentes? Há ainda outros crimes como: praticar, na presença de algum menor de 14 anos, ou induzi-lo a presenciar, conjunção carnal ou outro ato libidinoso, a fim de satisfazer lascívia própria ou de outrem; bem como a corrupção de menores de 14 anos, ou seja, quando ele é induzido a satisfazer a lascívia de outrem. O próprio Estado, quando deixa de cumprir as políticas sociais básicas - por exemplo, de educação, saúde, esporte, cultura, lazer, segurança, trabalho, assistência social, profissionalização. A própria família, no caso de ações, omissões, negligências ou abuso dos pais ou responsáveis. A própria criança e adolescente, quando se coloca numa condição de risco - por exemplo, usando drogas ou esmolando. O abuso sexual é uma das espécies de maus-tratos mais difíceis de proteção porque geralmente acontece dentro do lar, cercado de ameaças. Os protetores são os maiores Fonte: Love sa violadores dos direitos da criança e adolescente no aspecto sexual, tornando a questão mais difícil de provar, principalmente nos atos diversos de penetração: uma passada de mão, um ato libidinoso, ou o sexo oral não deixam vestígios. Nesses casos, compete ao Conselho Tutelar agir. Não indo na rua retirar a criança, pois este não é o seu papel, mas acionando os órgãos locais para que disponibilizem profissionais, programas e políticas efetivas no município para fazer o atendimento dessa criança. A notificação compulsória dos casos passou a ser um instrumento de prevenção aos 33 maus-tratos em relação à criança e adolescente, servindo para promover a proteção dos seus diretos fundamentais, sendo um direito da criança e adolescente e um dever dos profissionais responsáveis. Como se faz essa comunicação ao Conselho Tutelar? A notificação normalmente é feita por meio de uma ficha padronizada, que pode ser elaborada pelo próprio Conselho Tutelar, relatando um caso suspeito ou confirmado de maus-tratos, mas nada impede que se faça até verbalmente. A notificação cabe a qualquer cidadão que tenha testemunhado ou teve conhecimento dessa situação, e se disponha a denunciá-la. Determinados profissionais são obrigados a fazer esta notificação compulsória ao Conselho Tutelar, sob pena de se sujeita- rem a uma sanção. É o caso dos profissionais da saúde, que são obrigados à este tipo de notificação, sob pena de responsabilidade prevista no art. 245 do Estatuto da Criança e Adolescente, e sujeitos a uma multa de três a vinte salários de referência, aplicando-se o dobro em caso de reincidência. Vale esclarecer que também a Portaria nº 1968, de 25/10/2001, do Ministério da Saúde, determina aos responsáveis técnicos das entidades de Saúde integrantes do Sistema Único de Saúde (SUS) que façam a notificação compulsória nestes casos. Os profissionais de educação também são obrigados a fazer a notificação compulsória de maus-tratos, cabendo ao professor ou responsável da escola de ensino fundamental, pré-escola, creche, essa tarefa. Além da obrigação prevista no ECA, sob pena de responsabilidade, em São Paulo temos a Lei Estadual nº 10.498, de 05/01/2000, que determina aos responsáveis pela unidade de educação em geral, inclusive profissionais de saúde e segurança pública, a obrigatoriedade da notificação compulsória ao Conselho Tutelar e, na sua falta, à Vara da Infância e Juventude ou ao Ministério Público. Portanto, a polícia civil é obri- 34 gada a fazer a notificação compulsória, assim como a polícia militar. Eles não estão fazendo, mas deveriam, estando sujeitos a responsabilidades disciplinares em suas respectivas legislações próprias. Por que a escolha do Conselho Tutelar como responsável pelo recebimento da notificação compulsória? O Conselho Tutelar passou a ser o órgão centralizador do recebimento das notificações compulsórias, recebendo essa demanda e direcionando-a, dando os encaminhamentos. Se o caso já estiver constatado, então será aplicada pelo Conselho medida em caráter emergencial para interromper a situação de risco imediatamente - como, por exemplo, encaminhar ao Ministério Público notícia do fato, para que constitua infração administrativa ou penal; ou, então, para perda ou suspensão do poder familiar; encaminhar à autoridade policial, quando for o caso de abertura de inquérito policial ou termo circunstanciado, dentre outras medidas previstas no art. 136 do ECA. Se for um caso que chegou ao Conselho Tutelar e que ainda não foi constatado - por exemplo, quando a diretora ou a professora da escola ficou sabendo, através da própria criança, que em sua casa o seu pa- Se o conselheiro tiver dúvidas se houve abuso sexual, precisa ter mais elementos de convicção, devendo fazê-lo por meio de um estudo de caso. Até porque drasto, ou seu pai, ou seu tio, “mexia” com ela. fica prejudicado o encaminhamento de imediato à polícia do fato, para não imputar falsamente a alguém um delito; ademais, sabemos que na polícia a criança dificilmente falará sobre o assunto, haja vista que, assim que o abusador ficar sabendo da “revelação” dessa situação, imediatamente constrangerá a vítima por vários meios para se manter em silêncio - levantandose, então, o chamado “muro do silêncio” que mantém a impunidade. Mas não é papel do Conselheiro Tutelar fazer esse estudo de caso, pois não tem formação para isso, devendo ser feito o estudo psicossocial dessa situação por profissional competente, como um psicólogo ou assistente social, cujos serviços podem ser requisitados pelo Conselho Tutelar. Uma vez constatada a situação de abuso, o Conselho Tutelar aplicará, dentro das suas competências, as medidas previstas pelo ➲ Seção 2 - Violação e proteção de direitos de mulheres, crianças e jovens ECA, na intenção de cessar aquela situação notificada. Quem mais faz a notificação compulsória é a rede pública de saúde e educação. Para isso pode, entre outras ações, requisitar serviços públicos nas áreas de saúde, educação, serviço social, previdência, trabalho e segurança, além do encaminhamento à delegacia policial, Ministério Público e autoridade judiciária, conforme o caso. Quem mais procura esses serviços gratuitos são as pessoas mais pobres, incidindo essa notificação sobre essa classe social. O Conselho Tutelar deve estabelecer todos os mecanismos de proteção em relação a essa criança, porque, a partir do momento em que a notificação for levada adiante, haverá consequências. Então tem que ser estabelecida uma estratégia de atendimento. Caso não seja constatada violência sexual, o Conselho poderá fazer o encaminhamento da criança ou adolescente a um serviço especializado de tratamento. Em relação a todas as medidas aplicadas, deve o Conselho Tutelar acompanhar sua evolução e, se for o caso, aplicando novas medidas mais adequadas, até cessar a ameaça de violação, ou que sejam restaurados os direitos da criança ou adolescente. A criação de um Sistema de Notificação para os maus-tratos é importante para manter um registro de dados: Fornecendo estatísticas sobre os diversos tipos dessa violência na municipalidade de cada região; • Permitindo o planejamento de ações e políticas públicas para restaurar os direitos ou cessar sua violação; • Mas as classes sociais mais ricas também praticam maus-tratos em relação à criança e adolescente, ficando mascarados esses dados nas estatísticas, permanecendo escondidos entre as quatro paredes da vida familiar. O médico em geral não faz a notificação compulsória. Tem receio de fazê-lo por medo de se expor. Não acredita na efetivação das medidas aplicadas pelo Conselho Tutelar, não acredita nos profissionais que vão atuar. Existe uma gama de fatores em jogo, incluindo o medo de ameaça por parte do agressor. Nos consultórios médicos particulares é comum não se fazer a notificação compulsória, abafando-se a situação de maus-tratos em relação à criança e adolescente, especialmente quando se trata de abuso sexual. O Conselho Tutelar tem função importante, não sendo um programa de atendimento, tampouco uma extensão do Promotor, do Juiz ou da Prefeitura. O Conselho tem autonomia nos trabalhos que dirige e tem um poder muito grande, que é a requisição de serviços públicos (saúde, educação, segurança, assistência social, entre outros) para promover e proteger os direitos das crianças e adolescentes. • Estimulando a organização e planejamento do atendimento em rede; • Fomentando a participação e implicação dos diversos segmentos sociais que atuam no atendimento direto de crianças e adolescentes; • Dando visibilidade epidemiológica e social ao problema. 35 Tecendo a rede: ações do projeto RI-Vida no Vale do Ribeira Eliana Cléia dos Santos1 O Vale do Ribeira tem apresentado nos últimos anos uma evasão populacional crescente devido à sua pouca infraestrutura e oportunidades de emprego e ocupação da mão-de-obra, favorecendo o surgimento de bolsões de pobreza, tanto nas áreas rurais quanto urbanas. Tais bolsões vêm se tornando atrativos para o aumento do mercado do sexo na região, envolvendo mulheres e adolescentes, ao longo de bares e pequenos hotéis, boates e bordéis da Rodovia BR-116, estrada por onde trafegam centenas de caminhoneiros, trabalhadores e turistas em direção aos municípios da região ou ao Sul do Brasil. Este fenômeno tem preocupado e mobilizado o Vale do Ribeira, em função da vulnerabilidade às violências sexuais e às DST/Aids em que coloca mulheres e adolescentes. prevenção às DST/Aids, prostituição, exploração sexual e violência; A realização de oficinas de geração de renda para mulheres e adolescentes, visando produzir e comercializar artesanato regional em tecido, material reciclável e fibra de bananeira; • • A realização de um mapeamento da prostituição e da exploração sexual no Vale do Ribeira, para levantamento de dados e informações sobre a ocorrência desses fenômenos na região e sobre as ações de prevenção e controle realizadas pelos poderes públicos e a sociedade civil organizada; Com o objetivo de reduzir essa vulnerabilidade, o Instituto • A realização de campanhas de prevenção para o Desenvolvimento Sustentável e Cidadania do Vale do Ribeira (IDESC) realiza o projeto Rede de Integração pela às DST/Aids e de proteção dos direitos em Vida (RI-Vida), em convênio com o Programa Estadual de datas comemorativas como o carnaval, o dia DST/AIDS da Secretaria Estadual da Saúde. O IDESC é uma dos namorados, o dia mundial de combate à Organização Não Governamental (ONG) fundada em 2001, exploração sexual e o dia mundial de combate voltada para a promoção da melhoria da qualidade de vida à Aids. e do desenvolvimento sustentável no Vale do Ribeira. O projeto RI-Vida iniciou suas ações em janeiro de 2008. Com 24 meses previstos de duração, seu foco de atuação é o município de Registro, embora também desenvolva ações em âmbito regional. Dentre as ações do projeto cabe destacar: A realização de treinamentos para profissionais das áreas de saúde e assistência social de Registro, visando a articulação e o trabalho integrado no enfrentamento da violência e da exploração sexual nos bairros próximos da BR-116; • •A realização de oficinas de arte-educação para mulheres e adolescentes, visando sensibilizar e aumentar o nível de informação sobre autoestima, sexualidade, relações de gênero, 1 - Assistente Social e Coordenadora do Projeto RI-Vida no IDESC - Instituto para o Desenvolvimento Sustentável e Cidadania do Vale do Ribeira. 36 O primeiro treinamento foi realizado em Registro nos dias 04 e 05 de março de 2009, contando com técnicos do projeto e profissionais de saúde e assistência social do município. Através de dinâmicas de grupo e exposições dia- logadas foram discutidos temas como: DST/Aids e relações de gênero, estratégias para realização de ações socioeducativas junto às mulheres e adolescentes e a importância da integração do RI-Vida às ações de proteção e promoção da saúde e dos direitos em andamento no município e na região. É fundamental que os projetos realizados nessa área busquem a integração com os serviços de segurança pública, saúde e assistência social locais e regionais, inteirandose das ações que já vêm sendo desenvolvidas e buscando compor e contribuir com elas. Nesse sentido, reuniões de planejamento de ações conjuntas e de troca de experiências são estratégias importantes para o estabelecimento de parcerias e a integralidade das ações. No dia 06 de março de 2009, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, o projeto promoveu um curso sobre ➲ Seção 2 - Violação e proteção de direitos de mulheres, crianças e jovens o Teatro do Oprimido e uma apresentação do Teatro Fórum, no Centro Cultural KKKK, ambos enfocando as diversas violências enfrentadas pelas mulheres. Participaram: os educadores do projeto, profissionais de saúde e assistência social do município e lideranças comunitárias. Na ocasião, os participantes puderam conhecer métodos e técnicas de trabalho do Teatro do Oprimido que podem ser úteis para sua atuação junto às mulheres e adolescentes. O segundo treinamento foi realizado em Registro, no período de 17 a 24 de abril de 2009, focalizando o tema da prostituição e da exploração sexual, bem como o funcionamento do fluxo de atendimento da rede pública às pessoas vítimas de violência sexual. O treinamento teve como objetivo sensibilizar os participantes para esses temas, além de fortalecer as propostas de ação baseadas no Plano Municipal de Enfrentamento à Violência contra Crianças e Adolescentes. Durante o treinamento também foi construída a estratégia de trabalho para as atividades de campo do projeto nos bairros próximos à BR-116, com a discussão de técnicas de observação e registro de dados. Federal, o Comitê de Combate ao Tráfico de Pessoas, o NEPAIDS e a Ing_Ong. Seu objetivo é investigar o mercado do sexo na região de modo a subsidiar o trabalho de campo com as mulheres e adolescentes. O Projeto RI-Vida tem atuado para sensibilizar e aumentar o conhecimento das mulheres e adolescentes em relação ao corpo e à sexualidade, às relações de gênero, à prevenção das DST/Aids e às violências a que estes grupos estão expostos no âmbito do mercado do sexo organizado na BR-116. No momento estamos realizando oficinas de arte-educação e de geração de renda nesses bairros, atraindo mulheres e adolescentes para a discussão sobre saúde e direitos. Até o final do projeto pretende-se realizar 20 oficinas envolvendo aproximadamente 500 mulheres e 500 adolescentes. Nas oficinas de arte-educação os participantes exercitam a expressão corporal através de exercícios físicos, dança e teatro, ao mesmo tempo em que são estimulados a discutir sobre higiene e auto-cuidado, relações de gênero, sexualidade e prevenção às DST/Aids. Nessas oficinas notase o forte interesse e disposição das mulheres e dos adolescentes em aprender e multiplicar o conhecimento que estão recebendo entre amigos e familiares. Nas oficinas de geração de renda, os participantes aprendem a confeccionar bonecas, bolsas, acessórios, tapetes, luminárias, mobiliário, papéis de fibra, além de receberem noções básicas de economia solidária e cooperativismo. Os recursos obtidos através da comercialização dos produtos em feiras, exposições e no comércio local são destinados à reposição do material (30%), ao transporte e custeio de comercialização (20%) e à remuneração dos produtores (50%). O mapeamento da prostituição e exploração sexual no Vale do Ribeira conta com a colaboração e apoio de diversas organizações, tais como: a Direção Regional de Saúde, a Polícia Rodoviária Também tem atuado no sentido de estimular a articulação de uma Rede de Proteção Social no município, que sirva de referência para a região no enfrentamento das violências sexuais contra as mulheres, crianças e adolescentes, envolvendo: Conselho Tutelar, Programa Saúde da Família, Comitê Regional de Tráfico de Seres Humanos, Polícia Rodoviária, Direção Regional de Saúde, Juizado da Infância e Adolescência, Centro de Referência de Assistência Social e pastorais. O projeto traz como principal lição aprendida a evidência de que, para um trabalho de redução da vulnerabilidade às violências sexuais e agravos em saúde dar certo, ele precisa ser feito em rede - ou seja, precisa envolver as organizações públicas e da sociedade civil em processos de trabalho articulados de promoção e proteção da saúde e dos direitos. 37 Turismo e comunidade litorânea: contatos afetivo-sexuais e vulnerabilidade Regina Figueiredo1 Marta McBritton2 O turismo proporciona contato de grupos distintos: turistas e moradores locais de comunidades. A Antropologia nos ensina que nos contatos entre “tribos” entram em questão: •• Concepções de mundo diversas (alteridade de imaginários); •• Formas de agir diversas (alteridade de comportamentos); •• Formas de ser e de pensar diversas (alteridade de identidades); •• Formas de nomear, comunicar e entender diversas(alteridade de comunicação). Se, em princípio, os movimentos humanos no espaço e seus fluxos tinham uma forte motivação econômica de busca por terras, comunicação, troca de bens e bus- a Modernidade adiciona, desde o século XIX, as viagens para passeio e lazer. ca de trabalho, Por procura de enriquecimento cultural, contato com o exótico, conhecimento das “belezas naturais” ou, até, para descanso ou lazer, o turismo passa a ter um peso fundamental na sociedade atual, representando, inclusive, uma fonte de 1 - Mestre em Antropologia da Saúde pela USP e pesquisadora do Instituto de Saúde – Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. 2 - Formação em Artes Cênicas e Presidente do Instituto Cultural Barong. 38 renda para várias comunidades que dele se beneficiam. Essa realidade faz com que as situações de contato entre turistas e moradores locais tornem-se cada vez mais frequentes, abrangendo comunidades urbanas, rurais e povoados litorâneos tradicionalmente ligados à pesca. No Brasil, as comunidades anfitriãs de turismo recebem pessoas vindas, geralmente, das grandes cidades, sejam brasileiras ou estrangeiras. Como a con- centração humana e de capital se dá nessas metrópoles, é comum que as populações das comunidades estejam numa situação socioeconômica menos favorável que os turistas que as visitam. A princípio, todas as relações estabelecidas nos contatos entre turistas e moradores de comunidade local são duais, ou seja, são trocas comunicacionais ou materiais entre os dois grupos. No entanto, cabe salientar que essa dualidade não é absolutamente igualitária, pois o desnível socioeconômico das populações residentes que recebem o turismo se configura em desvantagem, uma vez que esta, muitas vezes, “precisa” da geração de recursos e rendas da atividade turística, vista como “oportunidade” de melhoria e ascensão socioeconômica. Ao mesmo tempo, muitas vezes, por inabilidade na valorização de suas riquezas naturais, inclusive da terra, várias dessas comunidades anfitriãs foram invadidas por especuladores que adquiriram terras a preços irrisórios e passaram a explorar a região e seus moradores nativos, “empurrando-os” para as periferias de suas localidades. O turista é cliente e co-participante dessa situação de troca desigual, que “explora” os potenciais locais para seu próprio prazer. Por isso, não é incomum que, como apontaram alguns estudiosos (Ross, 2001; Burns, 2002), os comportamentos dos turistas durante suas viajens ➲ Seção 3 - Exploração sexual, mercado do sexo e uso de drogas sejam mais permissivos, uma vez que se encontram longe das restrições e compromissos do cotidiano. Tal situação “anômala” permite o relaxamento e o gozo, através do brincar/jogar mais, dormir mais, não ter horários, encontrar pessoas voluntariamente (amigos, parentes, parceiros). E, na cultura brasileira: beber mais, procurar mais sexo e, para alguns, também consumir drogas ilícitas, visando aumentar a sensação de recreação. Por isso, locais turísticos são inequivocamente associados à prática sexual e ao consumo de álcool e outras drogas, principalmente no nosso país, onde a maior parte do turismo se concentra nas proximidades de praias, rios e cachoeiras – que permitem, ao mesmo tempo, situações de concentração e de privacidade. Isso oferece às populações locais das comunidades anfitriãs um encontro permanente, ou pelo menos sazonal, com contatos afetivo-sexuais e de uso de álcool e outras drogas promovidos por turistas, que potencializam as ocorrências locais desses fenômenos. Cabe lembrar que várias empresas de turismo ou de produtos ligados a este setor (como o setor de bebidas) utilizam e reforçam essa associação em suas mensagens publicitárias, associando as situações de viagem- lazer com consumo de bebida alcoólica e conquistas sexuais, apesar dos códigos de ética publicitária re- Contatos afetivo-sexuais no contexto do turismo Em pesquisa que realizamos durante o Carnaval de 2006 no Guarujá, município litorâneo do Estado de São Paulo, foi possível comprovar a exposição aos agravos à saúde sexual na situação de turismo-lazer (Figueiredo; McBritton, 2006). Aplicando 439 questionários com turistas e 341 questionários com moradores, os dois grupos na faixa etária de 19 a 26 anos, verificou-se que 12,5% dos sujeitos alegaram ter trocado abraços e beijos na boca durante a festa, sendo que destes 28,3% alegaram ter trocado carícias e até mantido prática sexual com pessoas de fora. Com relação às pessoas “de fora”, constatou-se que têm, em geral, nível escolar e socioeconômico maior (praticamente o dobro) do que os moradores locais: entre os turistas, 34,5% tinham mãe com ensino superior, em oposição aos 17,5% dos moradores da comunidade. A camisinha masculina é adotada por 80,4% dos sujeitos, porém seu uso é desigual entre os membros dos dois grupos: 76,9% dos turistas utilizam o método e apenas 48,1% dos membros da comunidade o adotam. Essa frequência de uso cai drasticamente em ambos os grupos durante o Carnaval. Entre os participantes da pesquisa, apenas 37,6% afirmaram ter utilizado camisinha no sexo praticado durante o Carnaval e outros 10,4% mantiveram relações sem o uso de nenhum método contraceptivo, expondo-se ao risco de contraírem DST/Aids e Hepatites, e também da ocorrência de gravidez não-planejada. criminarem tal prática, principalmente de exploração da imagem da mulher como objeto. 39 Vale ressaltar que, do público que manteve relações sexuais durante o Carnaval, 63,4% haviam utilizado bebidas alcoólicas, sendo que 37,5% dos que não tiveram esta prática também consumiram bebidas. Desse modo, pode-se dizer que os principais fatores que influenciam o aumento da exposição aos agravos em saúde sexual e em saúde em geral, são: •• “Inchaço populacional” de mais de 200% nas comunidades anfitriãs durante períodos de festas, feriados e férias; •• Interações afetivo-sexuais entre turistas e moradores locais; •• Maior prática de sexo sem proteção, aumentando o risco de infecção por Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), incluindo a Aids; •• Maior prática de sexo sem proteção contraceptiva e, consequentemente, maior vulnerabilidade à gestação não-planejada e à necessidade de uso da contracepção de emergência; •• Maior uso de álcool e outras drogas, inclusive associadas a práticas sexuais nãoprotegidas. Alternativas para a redução de vulnerabilidade no contexto do turismo O turismo constitui um enorme desafio para a promoção da saúde e para o controle de endemias. E requer formulações de políticas públicas relacionadas especificamente à saúde dos grupos populacionais envolvidos neste movimento humano. Neste sentido, são colocadas como recomendações: •• Estabelecer comunicação entre as secretarias de turismo, saúde, educação e assistência social, com a finalidade de desenvolver ações educativas e de encaminhamento preventivo em prol da saúde sexual na agenda de eventos dos municípios turísticos; •• Promover a integração entre organizações da sociedade civil e associações comunitárias no desenvolvimento de estratégias e ações educativas e preventivas com relação à saúde sexual e uso de álcool e drogas; 40 •• Estabelecer ações preventivas contínuas entre a população local relativas à prevenção de DST/Aids e abuso de álcool e outras drogas, baseadas em seus hábitos, códigos culturais e formas de organização; •• Criar ações dirigidas aos turistas na sua diversidade, de forma a promover o comportamento sexual preventivo em saúde sexual e no uso de álcool e outras drogas; •• Distribuir materiais educativos e preservativos durante eventos e períodos de festividades; •• Disponibilizar a contracepção de emergência em plantões de atendimento, tal como as experiências exitosas adotadas em Recife e Salvador (Figueiredo; McBritton, 2006); •• Favorecer e estimular que comerciantes locais ofertem preservativos a preços populares em locais variados, além do setor farmacêutico e mais ligados ao lazer, como bares, sorveterias, barracas de praia, entre outros. Todas essas ações conjuntas têm amplo potencial para minimizar os agravos em saúde no contexto do turismo, ampliando a proteção dos membros das comunidades anfitriãs e também dos turistas que com eles estabelecem contatos. Pautam-se, sem hipocrisias, nas demandas advindas dos comportamentos e ocorrências já observados nesse contexto e no encontro entre comunidades anfitriãs e visitantes, procurando precaver-se de impactos e sequelas que causem dano à saúde individual e coletiva. Referências Bibliográficas Burns P. M. Turismo e antropologia: uma introdução. São Paulo, Chronos, 2002. Figueiredo, R.; McBritton, M. Cultura de Turismo e População Litorânea: contatos afetivo-sexuais de Verão. Boletim do Instituto de Saúde, nº 41, abril de 2007. Figueiredo, R.; McBritton, M. Comportamento sexual e reprodutivo e de uso de álcool, pelos jovens no carnaval – Guarujá- SP, 2006: relato de pesquisa e proposta de intervenção. Instituto Cultural Barong, 2006 (Disponível em: http:// www.redece.org/livrobarong.pdf - Acesso em: 01 fev.2007). Ross G. F. Psicologia do Turismo. São Paulo, Contexto, 2001. Exploração sexual e prostituição na Rodovia Régis Bittencourt (BR-116) no trecho entre Miracatu e Barra do Turvo João Carlos Ferreira1 Eliana Cléia dos Santos2 Alessandro de Oliveira dos Santos3 No ano de 2004, a Secretaria Especial de Direitos Humanos do Gabinete da Presidência da República divulgou a pesquisa Matriz Intersetorial de Enfrentamento da Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes mostrando que, até aquele ano, 930 municípios brasileiros já tinham notificado casos de exploração sexual, dentre estes: Barra do Turvo, Cajati, Iguape e Registro, localizados na região do Vale do Ribeira (SEDH, 2004). Em 2007, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) em parceria com a Polícia Rodoviária Federal (PRF) divulgou o Guia para a Localização dos Pontos Vulneráveis à Exploração Sexual Infanto-Juvenil ao Longo das Rodovias Federais Brasileiras, mapeando 26 locais de ocorrência de exploração sexual e prostituição no trecho entre Miracatu e Barra do Turvo, da Rodovia Regis Bittencourt (BR-116), no Vale do Ribeira. Trata-se de pátios de postos de combustível, bares, boates e pequenos hotéis e bordéis às margens da Rodovia (OIT/PRF, 2007). Todos esses locais servem como pontos de encontro para o estabelecimento de “programas” com trabalhadores (as) do sexo em situação de exploração sexual ou prostituição. O envolvimento de crianças e adolescentes na troca de sexo por dinheiro, para si próprios ou para ganhos de terceiros, corresponde a uma das modalidades da Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes – ESCCA – juntamente com o turismo sexual, a pornografia e o tráfico de seres humanos para fins sexuais. A prostituição, por sua vez, corresponde a uma troca de sexo por dinheiro, percebida como um trabalho, e praticada por mulheres e homens adultos, com idade acima de 18 anos. Entre abril e outubro de 2009 o projeto Rede de Integração pela Vida (RI-Vida) e o projeto Promoção dos Direitos 1 - Especialista em Saúde Pública pela USP. Assistente Social Judiciário do Tribunal de Justiça de São Paulo – Jacupiranga/SP. 2 - Assistente Social e Coordenadora do Projeto RI-Vida no IDESC. 3 - Depto. de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP (PRODOC/CAPES) e Instituto Ing_Ong de Planejamento Socioambiental. das crianças e adolescentes em comunidades turísticas do Vale do Ribeira, realizaram em parceria novo levantamento de informações (mapeamento) sobre a exploração sexual e a prostituição na BR-116, através de agentes locais treinados em oficinas para realizar entrevistas e observação de campo. Foram entrevistados conselheiros tutelares, policiais, profissionais de saúde, de assistência social e da cadeia produtiva do turismo nos municípios. Houve observação dos locais identificados pela OIT/PRF e entrevistas com mulheres e adolescentes trabalhadoras do sexo. As informações foram coletadas principalmente em Miracatu, Juquiá, Registro, Pariquera-Açú, Jacupiranga, Cajati e Barra do Turvo, por serem os municípios entrecortados pela BR-116. Posteriormente, foram levantadas informações em Peruíbe, Itariri, Pedro de Toledo, Ilha Comprida, Iguape, Cananéia, Sete Barras e Iporanga, visando mapear a ocorrência da exploração sexual e da prostituição em todo o Vale do Ribeira. Os dados ainda estão em fase de sistematização. Este texto apresenta alguns resultados preliminares do mapeamento a partir de uma análise transversal de informações coletadas nos municípios entrecortados pela BR-116. Na BR-116 encontramos os (as) trabalhadores (as) do sexo principalmente no período noturno. Durante o dia, foi possível observar a movimentação discreta de mulheres que se expõem no acostamento da Rodovia, visando chamar atenção principalmente dos caminhoneiros. Durante a noite, ao visitar alguns locais identificados pela PRF foi possível verificar a presença de mulheres adultas, jovens e adolescentes, homens jovens e travestis disponíveis para realização de “programas” com potenciais clientes caminhoneiros, trabalhadores em trânsito, turistas ou moradores dos próprios municípios. Para se proteger, ou por afinidade, an- dam em grupos formados de três até cinco pessoas. Os diferentes grupos frequentam os mesmos pontos, havendo disputa pelos locais de trabalho. 41 Algumas jovens e adolescentes usam crack e realizam “programas” como forma de obter recursos para adquirir a droga. O valor dos “programas” varia conforme o grupo. As mulheres adultas cobram entre R$40,00 e R$50,00, mas se forem jovens e adolescentes usuárias de crack o “programa” pode sair entre R$10,00 e R$20,00; já os homens jovens e travestis costumam cobrar entre R$20,00 e R$40,00. outras drogas pelos clientes. Houve relatos de casos de ameaça e de agressão física durante ou após o “programa”. Elas também destacaram a necessidade da realização de projetos de prevenção às DST/Aids para os caminhoneiros e de acolhimento e cuidado com relação às trabalhadoras do sexo por parte dos serviços de saúde dos municípios. Com base na observação dos locais identificados pela OIT/PRF, em dias e horários alternados, é possível estimar que no trecho da BR-116 entre Miracatu e Barra do Turvo existam aproximadamente 114 trabalhadores (as) do sexo, entre estes 38 meninas adolescentes e 02 meninos adolescentes em situação de exploração sexual. As entrevistas indicaram que a maioria dos (as) trabalhadores (as) reside atualmente nos municípios entrecortados pela BR-116, embora boa parte deles (as) seja originária de outras regiões de São Paulo e do Paraná e Santa Catarina. Eles (as) percorrem a rodovia de Miracatu até Cajati frequentemente, concentrandose: nos bares e imediações de postos de combustível da Serra do Cafezal, em Miracatu; nas imediações e bares da Rodoviária Intermunicipal e da Avenida Castelo Branco e na ponte do Rio Ribeira, em Registro; e nas imediações de postos de combustível e bares de Pariquera Açú e Cajati, localizados na rodovia. Como a permanência de trabalhadores (as) do sexo nos postos de combustível é “proibida”, fixam ponto nas imediações. Também há mulheres e adolescentes que fazem “programas” em bares e bordéis das cidades da região. As mulheres pertencem em geral aos bairros próximos à estrada. Muitas têm filhos, sendo comum a circulação de crianças pequenas na rodovia durante a noite, levadas por familiares para verem suas mães. As entrevistas mostraram que a necessidade financeira é o maior motivo para ingressarem na prostituição. São mulheres provedoras de família e que têm conhecimento das práticas de sexo seguro e formas de prevenção das DST/Aids; algumas inclusive realizam consultas e exames e retiram preservativos nas Unidades Básicas de Saúde. Elas chamam atenção para a importância da realização de projetos que ajudem a diminuir a violência a que estão expostas na BR-116, em função das quadrilhas de contrabando e roubo de cargas e do uso abusivo de álcool e 42 Convém chamar atenção para essa última recomendação, uma vez que foi possível identificar entre alguns profissionais de saúde, de assistência social e de turismo que foram entrevistados, a percepção de que os (as) trabalhadores (as) do sexo constituem uma população flutuante e não residente nos municípios – e, por conseguinte, sem prioridade no atendimento público local. As informações coletadas mostram justamente o A grande maioria reside nos municípios do Vale do Ribeira e trabalha no trecho da BR-116 entre Miracatu e Barra do Turvo. Em Cajati e Registro já ocorreram inclusive experiências de atendimento específico a grupos de mulheres trabalhadoras do sexo pelos serviços de saúde, em reconhecimento a essa realidade. Tais experiências merecem ser re- contrário. tomadas e implantadas em outros municípios da região. ➲ Seção 3 - Exploração sexual, mercado do sexo e uso de drogas As meninas adolescentes que circulam pela BR-116 têm entre 14 e 17 anos, em geral são de bairros próximos à Rodovia e algumas têm filhos. Elas podem ser encontradas principalmente nos bares e imediações dos postos de combustível da Rodovia, interagindo com caminhoneiros e moradores dos municípios. Quando abordadas costumam negar a idade, afirmando ser maior de 18 anos, embora não tenham muita explicação para o que fazem de noite nesses locais. Estas observações nos levam a crer na premente necessidade de realizar-se uma intensa campanha de combate à exploração sexual na BR-116, com distribuição de material informativo e educativo nos pedágios, nos postos de pesagem e fiscalização e nos locais de alimentação, hospedagem e abastecimento de combustível, além da realização de blitz e da busca ativa de adolescentes nesses locais, feita de forma articulada pelos serviços de saúde, de assistência social, de segurança e do setor judiciário da região. Do mesmo modo, é necessário o investimento em programas sociais de educação, cultura, esporte e cidadania para as crianças e adolescentes do Vale do Ribeira. A dificuldade em reconhecer a existência da exploração sexual e da prostituição na BR-116 e a responsabilidade do poder público frente a essa situação, tem prejudicado a coleta e sistematização de informações e a formulação de ações e políticas específicas para os (as) trabalhadores do sexo nos municípios, ampliando a vulnerabilidade desses grupos às violências e às DST/Aids. Em Registro, foi possível identificar algumas adolescentes que já haviam sido atendidas pelo Conselho Tutelar em casos relacionados à violência familiar. Em Peruíbe a presença de meninas na pista é um fato conhecido da população. Elas são chamadas de “meninas de R$1,99” e procuradas por moradores e turistas. Os homens jovens e travestis, por sua vez, estão entre aqueles que mais sofrem violência na rodovia, de acordo com a percepção dos profissionais de saúde e policiais entrevistados. Eles são difíceis de ser acessados e mostraram-se refratários ao contato. Segundo informações coletadas nas entrevistas estima-se que existam em torno de 14 travestis e 08 homens jovens fazendo “programas” na BR-116, sendo entre eles 02 adolescentes e os demais maiores de 18 anos. Todos residentes na região, principalmente nos municípios de Registro, Juquiá e Cajati. Na Rodovia tem sido comum adolescentes, sobretudo meninos, manterem contato com caminhoneiros através da atividade de passar o “pretinho” nos pneus do caminhão (mistura de produtos químicos). Essa atividade acaba facilitando, algumas vezes, situações de exploração sexual, ao abrir espaço para outros pedidos de serviço e ofertas de gorjeta. Neste sentido, a realização deste mapeamento serviu para interpelar os poderes públicos e as lideranças do Vale do Ribeira, no sentido de se organizarem para enfrentar a problemática apresentada e reconhecer a necessidade de ações de prevenção e controle. Após a sistematização e análise de todas as informações coletadas, pretende-se divulgar um relatório e fazer um amplo debate, através de seminários e audiências públicas, junto às Secretarias Municipais de Saúde, Assistência Social e Turismo dos municípios, junto aos Conselhos Tutelares e de Saúde e às organizações da sociedade civil, motivando assim a proposição de ações que visem a proteção dos direitos e a promoção da saúde das pessoas em situação de exploração sexual ou prostituição na BR-116. Referências Bibliográficas Organização Internacional do Trabalho e Polícia Rodoviária Federal. Guia para a Localização dos Pontos Vulneráveis à Exploração Sexual InfantoJuvenil ao Longo das Rodovias Federais Brasileiras/ Mapeamento 2007. OIT/PRF, Brasília, 2007, 132p. (Disponível em: http://www.oitbrasil.org.br/). Secretaria Especial de Direitos Humanos do Gabinete da Presidência da República. Matriz Intersetorial de Enfrentamento da Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes. SEDH, Brasília, 2004, 30p. (Disponível em: www. direitosdacrianca.org.br/midia/publicacoes). 43 O uso de álcool e outras drogas em comunidades anfitriãs de turismo Valéria Nancy Silva1 Alessandro de Oliveira dos Santos2 As drogas são substâncias psicoativas ou substâncias psicotrópicas que provocam alterações no sistema nervoso central, modificando a percepção, o humor, as sensações, o pensamento e a consciência. Elas perturbam a noção de tempo e espaço, induzem a sensação de prazer e euforia, aliviam o medo e a dor, e podem ocasionar alucinações e dependência (Seibel e Toscano, 2001). Seus efeitos variam conforme a quantidade utilizada, a associação com outras substâncias psicoativas, as características do organismo do usuário e a expectativa social em torno do consumo. O uso de drogas sempre esteve presente na história da humanidade e segue sendo determinado por questões culturais, econômicas e políticas. Por exemplo, o álcool atualmente é responsável por 1,8 milhões de mortes e aproximadamente 4% da mor- bidade mundial (lesões, violências, problemas de saúde mental, acidentes de trânsito, acidentes nos locais de trabalho, problemas na gestação), atinge especialmente jovens e mulheres, e está relacionado ao uso de outras drogas e às práticas sexuais de risco (UNODC, 2005). 1 - Mestre em Medicina Preventiva pela USP. Técnica da Assessoria de Planejamento da Coordenação Estadual de DST/Aids. 2 - Depto. de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP (PRODOC/CAPES) e Instituto Ing_Ong de Planejamento Socioambiental. 44 Apesar disso, o álcool está liberado para venda e consumo, sendo a droga mais ingerida no Brasil (Carlini e colaboradores, 2005). Associado em geral ao prazer, seu uso está inserido na celebração de datas festivas, nas refeições e eventos aos finais de semana, nas situações de lazer e descanso do cotidiano. Com base Com base em relatos de moradores e profissionais de turismo coletados pelos agentes locais durante o mapeamento nos municípios e em relatos de profissionais de turismo coletados em estudos anteriores (Santos e Paiva, 2007; Paiva, Santos e colaboradores, 2007; Bellenzani, 2008); é possível afirmar que o turismo contribui para maior oferta de álcool e outras drogas nas comunidades anfitriãs, como maconha, cocaína e crack. Trata-se de substâncias psicoativas conhecidas como drogas ilícitas e cujo uso e a venda são criminalizados no Brasil. De acordo com o depoimento de um morador local: Nós não tínhamos aqui a uso de drogas pesadas, que vieram com os turistas. Aqui nós tínhamos as drogas permitidas, que são umas das piores: o álcool que é a porta para as outras, e o cigarro, basicamente; aí depois chegou a maconha e tal, mas as drogas pesadas, que são o crack, a cocaína, isso tudo veio com os turistas. ➲ Seção 3 - Exploração sexual, mercado do sexo e uso de drogas A oferta de drogas ilícitas nas comunidades anfitriãs provém de uma rede de relações envolvendo intermediários do turismo local (funcionários de hotéis, bares e restaurantes, guias, taxistas), turistas e agenciadores externos. Existem turistas que levam drogas ilícitas para seu consumo durante as viagens e turistas que estabelecem uma ponte com o comércio local de drogas ilícitas por meio dos moradores e intermediários, como mostram os relatos dos moradores a seguir: (...) já vi turista em feriado, perguntando se a gente queria doce, ou droga que põe na língua, de baixo da língua. O que ocorre é o morador local, que não é nem traficante (...) é o cara que passa, que chamam de avião, laranja, enfim, é o cara que fica com o negócio no bolso. E esses caras estão na frente dos clubes, estão na praça, de olho nos barzinhos (...). Muitas vezes, os intermediários do turismo são os atores que facilitam o acesso aos locais de venda de drogas. Mas também é importante levar em conta a atuação de agenciadores externos do tráfico de drogas nas comunidades para atender a demanda intensificada pelo turismo. Nas comunidades anfitriãs as drogas podem ser encontradas e são amplamente utilizadas em locais como: praças, calçadão, praias, cachoeiras. Turistas e moradores compartilham situações de uso num contexto de interação e sociabilidade, evidenciando que não há dificuldade para a inclusão de novas drogas pelo consumo local. Segundo um profissonal de turismo: (...) maconha a galera fuma normalmente nos cantos das pedras, nas praias, na cachoeira, no carro, como fosse fumar cigarro, como fosse beber né? (...) - Agora é uma droga nova (...) é uma tal LSD, o tal do doce, o ácido, que todo mundo toma para dançar de noite. O uso abusivo de álcool, maconha, crack, cocaína, solventes e drogas sintéticas (LSD, ecstasy), por parte dos turistas, têm sido responsável por um número considerável de acidentes de trânsito, acidentes físicos, brigas, afogamentos e crises de overdose nas comunidades anfitriãs. O uso abusivo de álcool está associado com violência e brigas envolvendo grupos de turistas ou entre turistas e moradores locais, algumas motivadas pela tendência masculina de disputar uma mulher. Os acidentes ocorrem, em geral, após a ingestão de grande quantidade de álcool, o que contribui para a diminuição da percepção de risco e a realização de brincadeiras como mergulhos. As crises de overdose, por sua vez, ocorrem por conta do uso de drogas combinadas e de forma abusiva, sendo muito comum no verão os atendimentos de casos de overdose de álcool (coma alcoólico) nos serviços de saúde. Vejamos os relatos dos profissionais de turismo: Acontecia vários acidentes aí na cachoeira (...) as pessoas que iam bêbados lá, escorregavam e batiam a cabeça na pedra, morriam afogados lá (...) os moradores ia lá para tentar socorrer, tirar a pessoa, às vezes conseguia, às vezes não (...). (...) lembro de um cara bêbado na praia e ele se afogou (...) Teve um cara que ficou drogado e se perdeu no meio da mata teve que vir o helicóptero pra procurar (...) já vi gente que teve que tomar glicose, excesso de álcool, que acontece muito (...). Álcool e outras drogas também costumam fazer parte das interações afetivo-sexuais entre turistas e moradores locais, sendo percebidos muitas vezes como elemento do jogo de sedução. É comum homens mais velhos e com maior poder aquisitivo buscarem jovens da comunidade local para a prática sexual, oferecendo drogas durante as preliminares para facilitar a conquista sexual, ou mesmo como forma de pagamento. Também ocorre a troca de sexo por drogas entre as jovens e os turistas, como mostram os relatos dos moradores: (...) tem lá as meninas que ficam na pista (...) elas se organizam entre elas, fazem o programa delas, pra poder comprar a droga (...). Elas são conhecidas como “R$1,99”, você vai lá com um e noventa e nove e faz o programa, mas não é bem assim, elas cobram dez reais. As meninas eu acho que com elas é pior, porque elas acabam se perdendo geral. Elas gostam da droga, acabam se viciando, e acabam se vendendo pra comprar aquilo (...). Acabam trocando por sexo porque pra mulher é mais fácil o sexo do que o roubo. E os meninos acabam roubando ao invés do sexo. 45 O que é possível fazer para auxiliar no enfrentamento do uso abusivo de álcool e outras drogas nas comunidades anfitriãs? Para quem/onde recorrer? • Da capacitação dos profissionais da cadeia produtiva do turismo no tema das drogas e no socorro de emergências médicas associadas ao uso abusivo dessas substâncias (acidentes físicos e de trânsito, afogamentos e overdoses, violência doméstica). É importante lembrar os proprietários de estabelecimentos comerciais que Referências Bibliográficas a venda de bebidas alcoólicas para Bellenzani, R. Sexualidade entre jovens das menores de dezoito anos é ilegal. comunidades anfitriãs de turismo: desafios para a Além disso, ao presenciar cenas de uso abusivo de álcool e/ou outras drogas entre adolescentes, é fundamental chamar os pais ou responsáveis. Ou, na falta dos mesmos (ou quando verificado negligência), acionar os serviços de proteção de crianças e adolescentes do município. Ainda não existem serviços de saúde para lidar com o uso abusivo de drogas e a dependência química na maioria dos municípios no qual se encontram as comunidades anfitriãs de turismo. Os atendimentos se restringem aos casos de emergência médica e encaminhamentos para centros de recuperação de origem religiosa, no caso dos moradores locais. As principais referências nas comunidades para tratamento do uso abusivo de álcool e drogas são: Alcoólicos Anônimos, fazendas religiosas e igrejas evangélicas. O uso abusivo de álcool e outras drogas nas comunidades anfitriãs requer a prevenção aos agravos em saúde específicos, como a infecção pelo HIV e outras DST e a proteção dos direitos das crianças e jovens das comunidades. Os dados do mapeamento e das pesquisas apontam para a importância: • Do fortalecimento das políticas públicas de esporte e lazer, saúde, educação e cultura; • Do desenvolvimento de práticas socioeducativas para fortalecer os vínculos familiares; • Da criação de serviços no município voltados para o tratamento da dependência química; 46 prevenção das DST/HIV e o Programa Saúde da Família. 2008. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, USP, 2008. Carlini, E. A. e colaboradores. II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil: estudo envolvendo as 108 maiores cidades do país – 2005. São Paulo, Brasília, CEBRID/SENAD, 2005 (Disponível em: www.obid.senad.gov.br). Paiva, V., Santos, A. e colaboradores. Cenários de vulnerabilidade no turismo: mercado do sexo, uso de álcool e outras drogas e DST/Aids em comunidades caiçaras do litoral de Sul de SP e RJ. São Paulo, NEPAIDS/ USP, 2007, 47p. (Relatório de Pesquisa). Santos, A. e Paiva, V. Vulnerabilidade ao HIV: turismo e uso de álcool e outras drogas. Revista de Saúde Pública, Volume 41, Suplemento 2, 2007, p. 80-86. Seibel, S. D. e Toscano, J. A. Dependência de Drogas. São Paulo, Atheneu, 2001. UNODC - Nações Unidas – Escritório Contra Drogas e Crimes. Relatório do Escritório Regional do UNODC no Brasil. UNODC, Brasília, 2005 (Disponível em: www.unodc.org). ➲ Seção 3 - Exploração sexual, mercado do sexo e uso de drogas Para saber • Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) Central de Atendimento – 0800 510 0015 www.senad.gov.br • Observatório Brasileiro de Informações Sobre Drogas (OBID) www.obid.senad.gov.br • Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS/AD) • Alcoólicos Anônimos (AA) Disque Saúde: 0800 61 1997 www.saude.gov.br Central de Atendimento 24 hs: (11) 3315 9333 www.alcoolicosanonimos.org.br • Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID/UNIFESP) Telefone: (11) 2149-0161 www.cebrid.epm.br • Grupo Interdisciplinar de Estudos do Alcoolismo e Drogas (GREA/HC-FMUSP) Telefone: (11) 3069.6960/3069-7891 www.grea.org.br 47 Articulação com o poder público e a sociedade civil Esta seção apresenta informações e contatos para articulação com organizações públicas e da sociedade civil que desenvolvem ações de proteção e promoção dos direitos das mulheres, crianças e adolescentes Conselho Tutelar: Órgão público municipal que zela pelo cumprimento dos Direitos da Criança e do Adolescente definidos em lei. Suas principais atribuições são: encaminhar ao Ministério Público notícia de infrações contra os direitos da criança ou adolescente; fiscalizar as entidades que atentem a esse público, apurando irregularidades e infrações às normas de proteção à criança e ao adolescente; e orientar a construção da política municipal de atendimento. É controlado pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, pela Justiça da Infância e da Juventude, Ministério Público e sociedade civil. Conselhos Tutelares no Vale do Ribeira Apiaí: Rua 21 de Abril, 58 - Centro CEP: 18320-000 - Fone: (15) 3552-1489 Barra do Turvo: Av. 21 de Março, 304, Centro CEP: 11955-000 - Fone: (15) 3577-1661 Cananéia: Av. Beira Mar, 287 - Centro CEP: 11990-000 - Fone: (13) 3851-1477 Eldorado: Praça N. S. da Guia, 311 - Centro CEP: 11960-000 - Fone: (13) 3871-1699 Iguape: Rua Major Rebello, 198 - Beira do Valo CEP: 11920-000 - Fone: (13) 3841-1248 Ilha Comprida: Rua Batatais, 110 - Icaraí CEP 11925-000 / Fone: (13) 3842-1672 Iporanga: Rua Barão de Jundiaí, 89 CEP: 18330-000 / Fone: (15) 3556-1260 Jacupiranga: Av. 23 de Junho - Term Rodov. CEP: 11940-000 / Fone: (13) 3864-3264 Juquiá: Pça Manoel Soares da Costa, s/ nº - Centro CEP: 11800-000 / Fone: (13) 3844-1833 Pariquera Açú: Av. Olímpica, s/ nº - Vila Maria CEP: 11930-000 Fone: (13) 3856-1552 Peruíbe: Rua Almirante Barroso, 705 - Centro CEP: 11750-000 / Fone: (13) 3455-7849 Registro: Rua São Franc. Xavier, 165 - Centro CEP: 11900-000 - Fone: (13) 3821-5306 48 Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA): É um órgão formado por representante do governo municipal e da sociedade civil, que tem a função de decidir sobre medidas que garantam a execução das políticas de atendimento à criança e ao adolescente, fazendo com que o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) seja cumprido. CMDCA no Vale do Ribeira Apiaí: Rua XV de Novembro, 04, Centro. CEP: 18320-000. Fone: (15) 3552-4197 Barra do Turvo: Av. 21 de Março, 304, Centro. CEP: 11955-000. Fone: (15) 3577-1661 Cajati: Rua Bico de Pato, 800, Bico de Pato. CEP: 11950-000. Fone: (13) 3854-4087 Cananéia: Rua Juvenal da Silva Fraga, 420, Rocio. CEP: 11990-000. Fone: (13) 3851-3373 Eldorado: Praça Nossa Senhora da Guia, 311, Centro. CEP: 11960-000. Fone: (13) 3871-1387 Iguape: Rua Tenente Acelino Cunha, 58, Guaricana. CEP: 11920-000. Fone: (13) 3841-5943 Itariri: Rua Nossa Senhora do Monte Serrat, 133, Centro. CEP: 11760-000. Fone: (13) 3418-7300 Iporanga: Rua Barão de Jundiaí, 89. CEP: 18330-000. Fone: (15) 3556-1260 Jacupiranga: Av. Hilda Mohring de Macedo, 777, Vila Elias. CEP: 11940-000. Fone: (13) 3864-1421 Juquiá: Rua Duque de Caxias, 30, Vila Industrial. CEP: 11800-000. Fone: (13) 3844-1004 Juquitiba: Rua Jorge Victor Vieira, 63, Centro. CEP: 06950-000 Fone: (13) 4681-4311 Pariquera Açú: Rua Marcelo Kozikoski, Vila São João. CEP: 11930-000. Fone: (13) 3856-4461 Peruíbe: Rua Tucuruvi, 153, Centro. CEP: 11750-000. Fone: (13) 3455-3707 Registro: Rua São Francisco Xavier, 165. CEP: 11900-000. Fone: (13) 3821-5306 ➲ Seção 4 - Articulação com o poder público e a sociedade civil Centro de Referência de Assistência Social (CRAS): Organização pública de política de assistência social, integrante do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), localizado em áreas com maiores índices de vulnerabilidade e risco social, destinado à prestação de serviços e programas de proteção social básica às famílias e indivíduos. CRAS no Vale do Ribeira Cajati: Av. Claudino Novaes, 138, Inhunguvira. CEP: 11950-000. Fone: (13) 3854-1328 Cananéia: R. Francisco das Chagas Soares, s/nº, Acaraú. CEP: 11990-000. Fone: (13) 3851-3373 Eldorado: R. Maestro Hermínio Hermelindo Ferreira, s/nº. CEP: 11960-000. F.: (13) 3871-3314 Iguape: Rua Antônio Filadelfo Colaço, 31, Rocio. CEP: 11920-000. Fone: (13) 3841-1487 Ilha Comprida: Rua Sorocaba, 47, Icaraí. CEP: 11925-000. Fone: (13) 3842-3850 Itariri: R. Flávio Trigo, 235, Centro. CEP: 11760-000. Fone: (13) 3418-1673 e Rua Ver. José Nashiro, 249, Distrito de Ana Dias. CEP: 11770-000. Fone: (13) 3416-8247 Jacupiranga: Largo da Saudade, 60, Centro. CEP: 11940-000. Fone: (13) 3864-3091 Juquiá: R. Kuno Hase, 126, Estação. CEP: 11800-000. Fone: (13) 3844-1374 Pariquera Açú: Rua Viriato Leão Moura, 465, Vila Clementina. CEP: 11930-000. Fone: (13) 3856-4629 Núcleo de Prevenção e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas de São Paulo (NETP): Organização pública da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo voltada para articulação de outras organizações públicas e de organizações da sociedade civil, visando o combate e redução da incidência do Tráfico de Pessoas. Atua por meio da conscientização e capacitação de agentes públicos e de possíveis vítimas e para desarticulação das redes de tráfico. Organiza plantões com vistas a oferecer suporte às blitz realizadas pelas polícias Civil, Federal e Interpol e presta assistência integral às vítimas. Assistência às Vítimas de Tráfico de Pessoas Atendimento de Caso Uma equipe recebe a denúncia e: 1. Faz o acolhimento e o abrigamento, quando necessário; 2. Oferece suporte psicossocial e jurídico; 3. Encaminha para a rede de atendimento (saúde, educação, trabalho, assistência social, segurança); 4. Promove o contato com familiares quando não existem riscos à vítima; 5. Oferece suporte para o retorno ao local de origem, quando não existem riscos à vítima. Pedro de Toledo: Avenida Brasil, 216, Centro. CEP: 11790-000. Fone: (13) 3419-1376 Registro: Rua Vivaldo Pereira 20, Eiji Matsumura. CEP. 11900-000 - Fone: (13) 3821-8072 e Rua Rafael Gonçalves de Freitas, 345, Vila Nova. Fone: (13) 3821-6153 Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS): Organização pública de política de assistência social, integrante do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), responsável pela oferta de apoio, orientação e acompanhamento a indivíduos e famílias. Seu objetivo é assegurar proteção social imediata e atendimento às pessoas em situação de violência, prevenir o abandono e a institucionalização. CREAS no Vale do Ribeira Cajati: Avenida Fernando Costa, 925, Centro. CEP: 11950-000. Fone: (13) 3854-1727 Registro: Rua Jerônimo Monteiro Lopes, 95, Centro. CEP: 11900-000. Fone: (13) 3822-2369 Núcleo de Prevenção e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo Endereço: Pátio do Colégio, 148, 2º andar, Centro. CEP: 01016-040. São Paulo/SP Tel/Fax: (11) 3241-4291 - 3291-2691 Celular de plantão 24hs: (11) 7818.9418 E-mail: [email protected] Comitê Regional de Enfrentamento ao Tráfico de Seres Humanos do Vale do Ribeira Endereço: Rua Vitória, 465, Jd. América. CEP: 11900-000. Registro/SP Tel. (13) 3821.3000 ramal: 47. Celular contato (13) 9702.1164. E-mail: [email protected] 49 49 Programa Turismo Sustentável e Infância do Ministério do Turismo (TSI): Lançado em 2004 pelo Ministério do Turismo, o TSI têm como objetivos a prevenção e o enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes nos equipamentos turísticos e como princípios o desenvolvimento sustentável, a responsabilidade social corporativa e os direitos da criança. Atua por meio da sensibilização dos agentes que integram a cadeia produtiva do turismo visando o pleno desenvolvimento de crianças e adolescentes, sem risco de se tornarem vítimas de qualquer tipo de violência ou exploração. Participam das ações agentes públicos federais, estaduais e municipais, empresários, profissionais do turismo e segmentos da universidade e da sociedade civil. Ações do Programa Turismo Sustentável e Infância •Campanhas publicitárias focadas na temática, em grandes eventos e feiras regionais; •Seminários de sensibilização dirigidos a empresários e profissionais do setor; •Capacitações com o propósito de implementar uma cultura de respeito à infância e à juventude no setor turístico; •Formação de multiplicadores por meio de campanhas publicitárias e seminários de sensibilização; •Projetos de inclusão social com capacitação profissional junto aos jovens que vivem em situação de vulnerabilidade social. Para o futuro o Programa planeja a continuidade das campanhas publicitárias de mobilização e dos seminários de sensibilização para formação de multiplicadores, bem como a implementação do projeto de inclusão social de jovens no segmento do turismo em todo o país. Contatos: Elisabeth Bahia - Coordenadora-Geral Email: [email protected] Maria Aurélia de Sá Pinto - Coordenadora Tel: (61) 2023.7404. Email: [email protected] Programa Turismo Sustentável e Infância Ministério do Turismo Tel: (61) 2023-7407, 2023-7405, 2023-7402, 2023-7403 Email: [email protected] Endereço: Shopping ID, setor Comercial Norte, qd. 06, Conj A. Edifício Venâncio 3.000, entrada Sul, 10º andar, sala 1004. CEP: 70716-900 – Brasília – DF 50 Instituto para o Desenvolvimento Sustentável e Cidadania do Vale do Ribeira (IDESC): Organização da sociedade civil formada por cidadãos, lideranças, empresários e profissionais com extensa atuação nos movimentos social, sindical, popular e ambiental. O IDESC desenvolve estudos, pesquisas e projetos visando a melhoria da qualidade de vida da população do Vale do Ribeira e o desenvolvimento sustentável da região. Endereço: Av. Prefeito Jonas Banks Leite, 258, Conjunto 02, Centro. CEP: 11900-000. Registro/SP. Telefone (13) 3822-2787. Portal eletrônico: www.idesc.org.br Fórum de ONG's/Aids do Estado de São Paulo: Organização da sociedade civil que tem como missão articular e fortalecer politicamente as ações das ONG's que trabalham com DST/Aids, defendendo seus interesses, promovendo a melhoria da qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV/Aids e desenvolvendo a consciência social sobre a importância da prevenção. Reúne 98 ONG's associadas, sendo um espaço para informes e escolha de representantes para participação em instâncias de controle social nos níveis federal e estadual, como conselhos e comissões. Também indica delegados para as conferências de saúde e outros encontros. Endereço: Av. São João, 324, Sala 701, Centro. CEP: 01036-000. São Paulo/SP. Telefone: (11) 3334-0704. Fax: (11) 3331-1284. E-mail: [email protected]. Portal eletrônico: www.forumaidssp.org.br Instituto Cultural Barong: Organização da sociedade civil que promove a responsabilidade sexual por meio de: ações de rua com uma unidade móvel (aconselhamento, encaminhamentos para exames em serviços públicos, oficinas de uso correto de preservativo e performances teatrais); mercado social do preservativo (venda de preservativos a preços populares em pontos alternativos como lanchonetes, bancas de jornal, cabeleireiros, entre outros); capacitações em escolas, empresas e comunidades. Endereço: Rua Antonio Bicudo, 75, Pinheiros. CEP: 05418-010. São Paulo/SP. Tel.: (11) 30818406. E-mail: [email protected]/icbarong@ gmail.com. Portal Eletrônico: www.barong.org.br Instituto Ing_Ong de Planejamento Socioambiental: Organização da sociedade civil que reúne indivíduos e organizações e tem como missão promover a inclusão social e a conservação ambiental. Promove a geração de renda e a melhoria das condições de vida em áreas naturais e de relevante interesse histórico-cultural, através da formação de jovens das populações tradicionais (índígenas, caiçaras, ribeirinhos e quilombolas) para o desenvolvimento de atividades como ecoturismo, educação ambiental, educação em saúde e apoio a pesquisa científica. Endereço: Rua Dr. José Queiroz Aranha, 155, apto 1512, V. Mariana. CEP: 04106-061. São Paulo/SP. Tel.: (11) 96322228. E-mail: [email protected] ➲ Seção 4 - Articulação com o poder público e a sociedade civil Núcleo de Estudos e Prevenção da Aids (NEPAIDS): Grupo de Pesquisa que reúne professores, alunos de graduação e de pós-graduação, ativistas de organizações não governamentais e profissionais do Instituto de Psicologia, das Faculdades de Saúde Pública e Medicina da USP e da Secretaria de Estado da Saúde de SP. Dedica-se à produção de tecnologias inovadoras de prevenção ao HIV e ao debate sobre a promoção da saúde em contextos de vulnerabilidade. As iniciativas têm focalizado jovens, mulheres, pessoas que vivem encarceradas, em comunidades pobres ou isoladas, e pessoas estigmatizadas pela cor ou orientação sexual. Endereço: Avenida Professor Mello Moraes, 1721, Cidade Universitária. CEP: 05508-030. São Paulo/SP. Tel.: (11) 30914184. E-mail: [email protected] Portal Eletrônico: www.usp.br/nepaids Grupo Ecológico Guaraú (GREG): Organização da sociedade civil com atuação no município de Peruíbe que tem como objetivos: desenvolver a educação ambiental interativa, estimulando a conservação dos recursos naturais e inclusão social das comunidades locais; incentivar o desenvolvimento socioeconômico da região através do turismo de base comunitária; e atuar na defesa dos direitos das mulheres crianças e adolescentes em situação de risco social através de programas educativos, de prevenção em saúde, economia solidária e organização comunitária. Endereço: Rua Um, 408, Guaraú. CEP: 11750-000. Peruíbe/ SP. Tel: (13) 3457-9203. Email: [email protected]. Portal Eletrônico: http://fabianamn.sites.uol.com.br Telefones de Emergência 100 - Denúncia de abuso ou exploração sexual. 180 - Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher 181 - Disque Denúncia 190 - Polícia Militar 191 - Polícia Rodoviária Federal 192 - Ambulância 194 - Polícia Federal 197 - Polícia Civil 198 - Polícia Rodoviária Estadual (13) 3455-7665 - Delegacia da Mulher de Peruíbe www.promenino.org.br - Portal da Fundação Telefônica que disponibiliza conteúdos e informações sobre os direitos de crianças e adolescentes e trabalhos de organizações públicas e da sociedade civil nessa área. www.presidencia.gov.br/estrutura_ presidencia/sedh - Portal da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR) que disponibiliza conteúdos sobre os direitos de crianças, adolescentes, jovens, idosos, deficientes físicos, além de informações e campanhas de proteção e garantia dos direitos humanos. www.andi.org.br – Portal da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI) que diariamente traz notícias sobre infância e juventude, organiza fóruns de debate e enquete sobre assuntos relacionados ao tema, além de fornecer contatos dos serviços de denúncia a todo tipo de agressão feito a crianças e adolescentes. www.unicefkids.org.br – Portal do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) no Brasil que disponibiliza informações sobre os direitos das crianças e adolescentes através de jogos, desenhos, testes, vídeos, enquetes, fóruns. Também aborda temas como: violência, DST/Aids e políticas públicas. www.presidencia.gov.br/estrutura_presidencia/ sepm - Portal da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República que disponibiliza conteúdos e informações sobre os direitos das mulheres e sobre políticas públicas e programas direcionados para elas. www.violenciamulher.org.br – Portal do Instituto Patrícia Galvão que visa promover a integração de conteúdos de diversas organizações, trazendo informações qualificadas e atualizadas sobre as violências contra as mulheres no Brasil. www.unifem.org.br – Portal do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM) que disponibiliza conteúdos sobre relações de gênero e direitos das mulheres na Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. 51 51 Vale do Ribeira