As Implicações do Trabalho e da Cultura na Mobilidade da População dos Projetos de Irrigação do Sertão Paraibano.* Ramonildes Alves Gomes UFPE Palavras-chave: Trabalho, cultura, perímetros –irrigados, mobilidade. Introdução O presente ensaio consiste num estudo empírico à cerca do processo de mobilidade e da relação desta, com a cultura(saber-fazer) e o trabalho (atividades ligadas a produção) do colono. Nesse sentido, o foco do estudo são os 03 Perímetros Irrigados do DNOCS no Estado da Paraíba. Tal estudo indica que a política de modernização do meio rural nordestino, via implantação de projetos públicos de irrigação, não tem sido um processo homogêneo do espaço econômico rural e tampouco do espectro social da agricultura nordestina. Pelo contrário, esta modernização se baseou numa concepção de desenvolvimento que desconsiderou a auto-representação dos atores, a lógica de reprodução da unidade familiar e de produção inerentes ao homem do sertão. Pode-se inferir que tal concepção de desenvolvimento corrobora para a mobilidade das famílias beneficiadas, aumenta a desigualdade no interior dos projetos e, por fim faz com que ocorra uma intensa diferenciação das situações. I – O processo de modernização da agricultura nordestina. A partir de 1964, a Política Econômica adotada pelo estado Brasileiro, orientou o desenvolvimento da agricultura no sentido de um audacioso processo de * Trabalho apresentado no XIII Encontro da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, realizado em Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil de 4 a 8 de novembro de 2002. modernização, tendo este, entre outros, o objetivo de ampliar a oferta de alimentos, através do desenvolvimento de uma agricultura intensiva que serviria de suporte para a sustentação da industrialização brasileira, para isso seria necessário atender duas condições básicas: Primeiro, a transferência de parte da população rural para as cidades, de modo a constituírem a força de trabalho a baixo custo para as indústrias; e segundo, produzir alimentos em quantidade elevada e a preços baixos, de modo a constituírem a manutenção de uma população predominantemente urbana. O momento favorecia a abertura do capital internacional, assim as políticas governamentais priorizaram um modelo de produção agrícola, que segundo Graziano da Silva (1987:12) com objetivo de: “Financiar o esforço de substituição de importações (fornecendo as receitas cambiais necessárias via exportação de produtos primários), prover matérias primas para a indústria nacional e alimentar a crescente população do país”. As mudanças provocadas por este modelo intensificaram os movimentos migratórias campo-cidade. Em 1950, cerca de 70% da população brasileira vivia no meio rural, em 1990, este percentual caiu pelo menos 20%, o resultado deste processo é que a agricultura brasileira nos anos 90 caracterizou-se por uma estrutura complexa, heterogênea e multideterminada. A complexidade do processo migratório ou, do êxodo rural e regional contribuiram para o agravamento e o crescimento dos bolsões de pobreza e miséria, nas periferias das grandes cidades, a maior parte desse contingente era formada por pessoas desqualificadas, sem instrução e subempregadas. Os critérios de avaliação utilizados neste modelo de desenvolvimento agrícola, não consideraram em suas metas a estrutura sócio-econômica e fundiária, a criação de empregos e a distribuição de renda gerada no setor, o atendimento da demanda interna de alimentos, a eficiência energética da agricultura e sua dependência externa, nem mesmo à viabilidade da agroquímica nos ecossistemas tropicais e subtropicais, priorizaram especialmente, a produtividade das explorações e o volume físico e financeiro das exportações. Assim sendo, a agricultura passou por diferentes estágios de transformação. Kageyama (1990:113) destaca três movimentos importantes que marcaram 2 diferentemente o meio rural brasileiro, quais sejam: a modernização da agricultura, a industrialização da agricultura e a formação dos complexos agroindustriais, embora, muitas vezes se tenha a impressão de que ambos os termos sejam sinônimos, mas a que se distinguir; por ‘modernização’ entende-se o processo de mudança na base técnica com a introdução de novas variedades, técnicas de produção e uso dos insumos modernos. ‘A industrialização da agricultura’ seria o processo de integração da agricultura ao ritmo da indústria, expandindo-se enquanto ramo industrial e, quanto aos CAIs (Complexos agro-industriais) Muller (1982:48) assinala que é o conjunto de processos técnicos-econômicos, sócio-políticos que envolvem a produção agrícola, o beneficiamento e sua transformação, a produção de bens industriais para a agricultura e os serviços financeiros e comerciais correspondentes. Percebe-se que, no caso brasileiro, as transformações que ocorreram na base técnica e todo o processo de modernização serviu muito mais para fortalecer a propriedade latifundiária e os setores a ela ligados, não implicando em nenhuma mudança nas relações de trabalho, nas desigualdades regionais, tampouco mitigou os efeitos do êxodo rural, nem propiciou a inserção dos camponeses e pequenos produtores no mercado moderno e/ou globalizado. É importante colocar que durante estes estágios supracitados o Estado foi o principal agente do desenvolvimento econômico, garantindo seu financiamento e montando a estrutura produtiva e institucional necessária. Obviamente que as formas de intervenção variaram em cada um deles. Destaca-se que a partir dos anos sessenta, alem de intervir diretamente sobre o setor, o Estado sutilmente, passa a determinar ‘o que e quanto produzir’, através da nova orientação dos instrumentos oficiais para o ensino agronômico, a extensão rural e assistência técnica. Mas, prioritariamente, com intuito de integrar à indústria a agricultura, que era o pilar do modelo de desenvolvimento econômico do país, via transformação do agricultor tradicional em empresário rural, haja vista, que a agricultura empresarial é potencialmente, demandante de máquinas e instrumentos industriais. Diante disso, a política de irrigação no Nordeste passa a ser incentivada, enquanto elemento de consolidação de um Projeto de Política Pública mais amplo, qual seja a criação de um moderno parque industrial e, conseqüentemente de um emergente 3 mercado consumidor, sobretudo nas regiões marcadas pelo atraso econômico e social, a exemplo do Norte e Nordeste. II – A política de irrigação no Nordeste e a implantação dos perímetros irrigados. Desde a criação da SUDENE (Superintendência para o desenvolvimento da região Nordeste), a idéia de que o desenvolvimento da região só seria viabilizado quando está se tornasse resistente aos efeitos da seca, foi levada a cabo, passando a ser considerada uma política efetiva de desenvolvimento regional. Assim sendo, o estudo da irrigação como a principal estratégia para solucionar os problemas sócio-econômicos e culturais de uma ampla faixa da região semi-árida nordestina, segundo Lopes & Mota (1997: 23) passa a ser orientado por uma política pública de irrigação, sistematizada a luz de uma perspectiva de mudança social1 e para uma categoria específica de produtores rurais – os agricultores familiares. O planejamento, execução e implementação desta política ficaram sob a responsabilidade das seguintes instituições: CODEVASF (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco) e o DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), a lógica que perpassava esta política, em linhas gerais, era que no caso do semi-árido teria de ser dada uma atenção particular ao problema do uso dos recursos hídricos, pois a água nesta região é o elemento crítico necessitando de um direcionamento das ações, no sentido de desenvolver a região através de um programa acelerado de irrigação. (Lopes; 1998:52). A irrigação se constituiria numa estratégia, de certo eficaz no combate ao êxodo rural, promovendo a fixação do homem no campo, além de modernizar a agricultura familiar nordestina, uma vez que, aumentaria a oferta de emprego e trabalho durante o ano inteiro nas áreas irrigadas, inclusive nos períodos de estiagem. Mas, estudiosos como Marcel Bursztyn (1984:85) discorda da pressuposição de que agricultura irrigada absorve força de trabalho e adverte que: 1 Mudança social entendida ‘como um campo de ações ou sistemas de relações objetivas nos quais as próprias posições de inovador ou conservador podem ser assumidas relacionalmente e a partir das quais os efeitos dessa contraposição podem ser apreendidos’ (Neves ;1995:51) 4 “De uma maneira geral, um ‘perímetro irrigado’ emprega diretamente menos trabalhadores do que a mesma área ocupava, antes da sua implantação. Isso se dá devido ao fato de que terras irrigáveis situadas à jusante dos açudes são, tradicionalmente, densamente ocupadas por pequenos produtores. Além disso, a maior parte dos colonos escolhidos por um projeto não é, em geral oriundos das terras desapropriadas pelo DNOCS (...)”. Durante toda a década de 70, precisamente em meados da década de 80 o governo federal envidou esforços com intuito de acelerar a política de irrigação no Nordeste, criou o PROINE (Programa de Irrigação do Nordeste), cujo objetivo era aumentar a produção e a produtividade do setor agrícola, especialmente os alimentos básicos e irrigar um milhão de hectares de terras no semi-árido nordestino. Esperava-se que os Programas de Incentivo a Irrigação lograssem êxito, já que não se tratavam apenas de medidas emergências, de caráter assistencialista. A execução dos projetos de irrigação, via Perímetros Irrigados, implicou na construção de obras de infra-estrutura hidráulica, como também em desapropriação de terras, construções de habitações e de equipamentos comunitários. Além do treinamento em técnicas agrícolas com as quais os colonos não estavam acostumados. Desse modo, o Estado propiciou aos agricultores, “oportunidades” para que estes, abandonando a tradição, se transformassem em pequenos produtores modernos verdadeiros agentes da integração do meio rural nordestino ao mercado nacional. As análises dos dados à cerca dos 03 perímetros irrigados, que estão sob a jurisdição do DNOCS na Paraíba, PISG (Perímetro Irrigado de São Gonçalo), PIEA (Perímetro Irrigado Engenheiro Arcoverde) e o Perímetro Irrigado de Sumé revelam que, de forma alguma o desenvolvimento destes perímetros ocorreu de forma generalizada, às diversidades e especificidades culturais de cada localidade guardam razões que ajudam a entender a realidade de cada um deles, mas o fato é que a introdução da irrigação em áreas do semi-árido nordestino, certamente implicaria em transformações do ponto de vista técnico e sócio-cultural. Portanto, considera-se, como 5 objetivo primeiro deste ensaio discutir a questão da mobilidade2 existente nestes perímetros irrigados, considerando a lógica própria dos sujeitos beneficiados, e mais ainda, a complexidade das suas relações sociais. III – A mobilidade como estratégia de sobrevivência das famílias nos Perímetros Irrigados. A política de modernização conservadora da agricultura brasileira, ao mesmo tempo, que modificou o perfil do setor agrícola nordestino, incentivando a produção de frutas frescas em áreas como o Vale do São Francisco, disseminou e reproduziu outras contradições inerentes as relações sociais dos diferentes grupos atingidos por estes programas. Para efeito deste estudo buscou-se romper com a dicotomia entre produtores tecnificados e tradicionais, considerando todos colonos/irrigantes denominação usada no decorrer do texto. Assim, explicita-se que o objetivo deste ensaio é analisar quais os elementos trazidos na bagagem destes agricultores que limitam sua inserção e permanência, como agricultores familiares autônomos nos projetos públicos de irrigação e, por outro lado impulsionam o processo do mobilização (troca, abandono e saída) dos lotes? A hipótese sugerida para conduzir a compreensão deste fenômeno é que todo referencial material e imaterial que perfaz a cultura, especificamente nos perímetros irrigados, é que o pilar de sustentação recai sobre uma forma de vida grupal, uma comunidade. Acredita-se que existe um elo de identificação entre os membros dessa população, a qual na concepção de Barth (1969) pode ser denominada de “substância cultural3”, que se traduz no esforço produtivo, na forma como o colono organiza o trabalho, a produção de alimentos, produz categorias sociais e encadeia as ações simbólicas, tendo como aporte a terra. Woortmann (1997:17) reforça estas análises, assinalando que para os sitiantes, trabalho, terra e família são indissociáveis e falar de um é falar do outro. 2 Neste trabalho, o termo mobilidade está sendo empregado com sentido de qualidade ou propriedade do que é móvel, facilidade de mover-se ou de ser movido (Dic Aurélio do Séc XXI), ou seja, o movimento de entrada e saída dos colonos dentro dos Perímetros. 3 A expressão “substância cultural” é utilizada para reforçar a idéia de uma base concreta sobre a qual a comunidade é construída, ao tempo que reforça o ethos camponês. Sobre este sentido da expressão substância cultural ver Grünevald. 6 O abandono, ou a não valorização da cultura, apresenta-se como fator limitante da reprodução dos colonos/irrigantes e compromete a busca da “autonomia’ que, teoricamente, a condição de proprietário da terra lhes proporcionava, e a construção da coletividade que de alguma forma, pode representar um resgate, ou uma invenção da tradição”. Sobre esta relação cultura e comunidade vale lembrar Cohen (1985:98) “(...) a cultura – a comunidade como experimentada por seus membros – não consiste em uma estrutura social ou no fazer do comportamento social. Ela é inerente ao” pensar “sobre ela. É nesse sentido que podemos falar de comunidade como um construto simbólico, antes que estrutural. Ao se procurar compreender o fenômeno da comunidade, temos que considerar suas relações sociais constituintes como repositório de significados para seus membros, não como um conjunto de elos mecânicos”. A situação atual dos irrigantes, nos Perímetros Irrigados do semi-árido paraibano revela a permanência das relações de dominação, agora numa outra dimensão que se configura, entre outras conseqüências, na mobilidade local e regional, em diferentes formas de apropriação do excedente que lhes são correspondentes, conforme registrou Lorza (1991:80) num estudo sobre o Perímetro Irrigado de Sumé. “Este processo de subordinação, a partir da imposição do preço do produto, do planejamento da produção, da dependência de insumos, da água do perímetro, do trator, do crédito é um processo contraditório com a própria lógica camponesa. Estas determinações marcantes mudam a especificidade do trabalho agrícola destas unidades familiares aí presentes. Podemos também afirmar que é um processo inevitável para os agricultores participantes do perímetro” Diante destas análises surge a hipótese, que as atitudes e o comportamento social do irrigante interage com a maneira como ele pensa sua própria relação com a terra, relação esta que passa necessariamente por um mínimo de autonomia, em que não cabe 7 qualquer tipo de sujeição, seja de Órgãos de administração (DNOCS), seja de outros saberes que não considere a sua representação das formas de trabalhar e viver. Neste item pretende-se fazer uma descrição física dos Perímetros Irrigados do Estado da Paraíba, localizados, especificamente na micro-região semi-árida4, a fim de proporcionar ao leitor uma visualização mais ampla da área objeto da investigação. Os dados mencionados aqui foram obtidos através de pesquisa bibliográfica em teses e dissertações e pesquisa documental realizadas na sede do DNOCS em João Pessoa e ainda, conversas informais com técnicos do DNOCS e colonos dos 03 perímetros. Os 03 Perímetros Irrigados da Paraíba, Engº Arcoverde, São Gonçalo e Sumé, tiveram suas operações iniciadas na década de 70. Sobre a caracterização física destes pode-se inferir que o Perímetro irrigado Engº Arcoverde (PIEA) está localizado no município de Condado, na bacia hidrográfica do Rio Piranhas/Timbaúba, tendo como fonte hídrica o açude de Engº Arcoverde, com capacidade de 35.000.000m³. Entrou em operação em 1972, possui área total de 858,39ha, área irrigável 282,92ha. Número de lotes 55 e de irrigantes é de 52. O Perímetro Irrigado de São Gonçalo (PISG), localiza-se no município de Souza, na bacia hidrográfica do Rio Piranhas, tem como fonte hídrica os açudes Engº Ávidos e São Gonçalo com capacidade de 255.000.000m³ e 44.600.000m³ respectivamente. Entrou em operação em 1973. Possui área total de 5.548,00ha e área irrigável de 2.634,93ha. O número de lotes é de 550 e de irrigantes é de 481. O Perímetro Irrigado de Sumé está localizado no município de Sumé, na bacia hidrográfica dos Rios Paraíba/Sucuru, tendo como fonte hídrica o açude público de Sumé com capacidade de 44.800.000m³, tendo iniciado suas atividades em 1973. Possui área total de 709.00ha, área irrigável 273,65ha. Número de lotes 55 e de irrigantes 47. No início das atividades nos perímetros foram lotados, sob a jurisdição do DNOCS, equipes multidisciplinares (engenheiros agrônomos, veterinários, assistentes 4 Na região semi-árida, os limites impostos pelas adversidades climáticas tornam vulneráveis a sustentabilidade da agricultura familiar, as irregularidades das estações chuvosas, associada à pobreza dos solos freqüentemente rasos e arenosos, propensos à salinização, constituem fatores que fragilizam a pequena produção, além das formas de produzir, caracterizadas pela subsistência em lotes de tamanho insuficiente, haja vista que há muita área de sequeiro, inapta para agricultura irrigada. 8 sociais, técnicos agrícolas, pessoal de apoio), além do apoio logístico (veículos, máquinas, combustível e material de expediente). As equipes multidisciplinares atuavam na prestação de assistência técnica diretamente aos irrigantes, na capacitação de técnicos e irrigantes para absorção e emprego de tecnologias para agricultura irrigada. Incentivaram a organização dos colonos em cooperativas, as quais eram administradas integralmente pelos próprios técnicos do DNOCS. Todas estas medidas visavam promover o desenvolvimento local, através da agricultura familiar irrigada. De acordo com as opiniões dos técnicos do DNOCS, fatores como: as estiagens, a ausência de demandas pelos produtores e as possibilidades de comercialização dos produtos com a indústria, não podem ser considerados entraves para a fixação dos colonos nos perímetros, tampouco para o desenvolvimento local. Estes aspectos são recorrentes, atualmente no debate sobre a sustentabilidade, especialmente no semi-árido, as discussões apontam para a criação de estratégias de convivência com o fenômeno da seca, corroborando com esta idéia Sabourin (2000: 54) esclarece que, a noção de desenvolvimento sustentável não pode ser reduzida à apropriação de tecnologia tendo em vista atender competitivamente às exigências do mercado global, mas deve ser entendida, sobretudo, como forma de organização social das estruturas produtivas e manejo dos fatores técnicos. As análises das informações parecem indicar que a pouca importância dada à “substância cultural” dos irrigantes, compromete o desenvolvimento local, através dos projetos de irrigação uma vez que, os fatores já citados anteriormente não se configuram como empecilhos para o desenvolvimento da agricultura moderna, mas de fato o problema está na dificuldade de interação entre o saber moderno paramentado de tecnologias inerentes à agricultura irrigada e, o saber tradicional do agricultor sertanejo acostumado à produção de subsistência em área de sequeiro. O papel da tradição, nestas novas formas de trabalho agrícolas deveria ser como bem coloca Thomas (1997:187) em seus estudos sobre invenção de tradição, “a tradição não é simplesmente uma substância a ser carregada, mas também uma coisa que pode ser exibida ou disposta para diversos fins”. Para técnicos e colonos, a postura paternalista e autoritária empregada pelo DNOCS no gerenciamento das atividades do perímetro impedia a participação dos 9 irrigantes nas decisões e inibia qualquer iniciativa individual ou coletiva dos mesmos, inclusive com ameaças de expulsão e tomada dos lotes. Mais uma vez é recorrente a discussão da viabilidade sócio-econômica associada à cultura da coletividade local, em se tratando da agricultura familiar. Constata-se que nos perímetros irrigados, principalmente no Perímetro Irrigado de São Gonçalo o intenso repasse dos lotes para segundos e terceiros e até casos de abandono de lotes agrícolas, destaca-se também, a existência de muitos lotes ociosos cerca de 22% da totalidade dos perímetros, o que significa um número relevante de famílias irrigantes totalmente excluídas do sistema de produção e do mercado. O que faz com que muitas delas procurem outras fontes de renda alternativas, por exemplo, comércio, serviços, prefeitura, aposentadoria, frentes de trabalho (emergência) e outros. A Coordenadora Regional dos Perímetros Irrigados na Paraíba assinala que o fluxo de entrada e saída dos colonos deve-se a escolha dos critérios utilizados no processo de seleção (triagem) pelo DNOCS, segundo ela, os critérios eram paternalistas, por isso observa-se nos perímetros a existência de colonos, que não possuem qualquer afinidade real com a agricultura, colonos que apresentam um caráter passivo, sem ambição, individualista, irrigantes em idade avançada, aposentados e intensa migração dos filhos, sobretudo os jovens para os grandes centros urbanos regionais e nacionais. O discurso difundido no senso comum sobre a agricultura familiar no Brasil, como sinônimo de precariedade e a imagem caricatural do camponês como o “preguiçoso”, o “Jeca Tatu” é algo que oportunamente é apropriado pelos órgãos executores das políticas públicas e até pela academia, haja vista, que as palavras da própria Coordenadora do DNOCS de que o colono não produz, abandona ou repassa o lote no Perímetro porque não tem ambição, Sabourim (2000:58) apoiado nas idéias de Mendras vai dizer que a proximidade das relações de comunicação interpessoal é uma necessidade vital para permanência deste modelo de agricultura no semi-árido, a confiança recíproca, solidária, a certeza de poder contar com os vizinhos são princípios básicos para se pensar qualquer plano de sustentabilidade para esta realidade territorial. O contra-argumento, assinalado pelos colonos na justificativa sobre o fenômeno da mobilidade é que isto ocorre por causa da ausência de mão-de-obra familiar para tocar a produção, a falta de alternativas de renda que possibilite o envolvimento da 10 família em outras atividades ligadas ao lote, ou a produção. Percebe-se que a dificuldade de manutenção dos membros da família, dos vínculos da família com a terra como garantia de reprodução da unidade familiar e produtiva acaba gerando um sentimento de falta de objetividade, de perspectiva de futuro, de sentido no emprego dos frutos do trabalho que se encerra na situação do êxodo da localidade. Outra questão que vai de encontro aos valores dos colonos/irrigantes e que tira a motivação para permanecer no perímetro, segundo eles é a precariedade do processo de comercialização, feita por atravessadores inescrupulosos que lesaram os irrigantes, assim como técnicos que elaboraram projetos mal feitos, mal instalados, utilizando material de péssima qualidade tudo isso concorreu para o atual quadro de endividamento por que passam a cooperativa e os irrigantes. Hoje eles assinalam que, “embora, não tendo domínio de nenhuma tecnologia, nem cultura, mas acham que é preferível agir por conta própria, tomando decisões entre eles mesmos, porque é mais confiável”, sobre às dívidas os irrigantes falam constrangidos. Conclui-se a partir desta fala que a invenção dos valores que estão simbolicamente impregnados na cultura destes colonos, não podem ser descartados, mas devem sim, interagir com o significado da relações familiares, a necessidade de manter a proximidade física da família, quase sempre extensas, esta é uma abordagem bastante subjetivista, mas cada vez mais peculiar entre as famílias que vivem no meio rural nordestino e representa também, uma estratégia econômica de subsistência. IV – Considerações Finais A situação destes Perímetros Irrigados tem se revelado bastante diferente daquilo que se esperava. Pode-se dizer que houve distorção dos objetivos propostos inicialmente, quais sejam, proporcionar o desenvolvimento da região, criando vínculo entre os agricultores e a terra, assim, evitando que estes migrassem para outras regiões ou para grandes centros, aumentando os bolsões de pobreza. 11 A pesquisa, que se encontra na fase inicial5, aponta para a existência de falhas, desde a concepção do projeto, seleção dos colonos e implantação do sistema de produção. Estas falhas, a priori, têm levado os perímetros a uma situação de fracasso econômico, empobrecimento e exclusão social, por causa da impossibilidade de transformar um espaço que deveria ser pólo de desenvolvimento da fruticultura no semiárido nordestino, com produção agrícola capaz de permitir aos colonos qualidade de vida, dignidade e cidadania Mas, contrariamente, à medida que a população não se fixa no local, não cria raízes, não combina terra, trabalho e família, vão se esgotando também, as oportunidades de concretizar um projeto de desenvolvimento sustentável. Constata-se que a intervenção do Estado, através do DNOCS não conduziu os colonos à modernização esperada muito menos, proporcionou à emancipação das famílias que pressupõem organização coletiva, autonomia financeira e capacidade de reprodução familiar. Portanto, a política de irrigação pensada pelos aparelhos de Estado remete a uma lógica das políticas públicas, estritamente aliada à classe política do País, sem qualquer preocupação com a racionalidade do agricultor sertanejo. Todavia, acredita-se ainda, que projetos com grande infra-estrutura hidrológica como: o “Canal da Redenção” em Sousa-PB, o “Plano das Águas” e o mega projeto de “Transposição das Águas do São Francisco”, possam sob a mesma lógica, promover melhoria de condições de vida para o agricultor nordestino. É possível pensar que ações dessa natureza consigam viabilizar a agricultura irrigada no semi-árido, desde que sejam invocadas as vozes dos atores envolvidos no processo, que a sustentabilidade dos sistemas de produção articule esforços privados e públicos, estaduais e locais e, ainda um suporte técnico-científico que considere o saberfazer e o tempo de adaptação dos agricultores, tendo em vista que um fator importante em qualquer projeto centrado numa agricultura moderna deve valorizar a capacidade reflexiva dos seus códigos e da sua cultura tradicional, tornando acessível os conhecimentos que os mesmos devem adquirir para exercer sua atividade de forma competitiva e competente. 5 A referida pesquisa trata-se do trabalho de tese em nível de doutorado, que no momento está em fase de levantamento bibliográfico, reconhecimento e definição do campo para elaboração do Projeto de Tese. 12 Os argumento que nortearam as idéias colocadas, neste ensaio, tiveram como pedra de toque a intersubjetividade dos estilos de vida calcados na cultura dos colonos/irrigantes, uma vez, que estes se refletem nas possibilidades de produzir, trabalhar e permanecer num determinado local. Assim sendo, torna-se necessário que os idealizadores das políticas de desenvolvimento da agricultura considerem nos seus planejamentos fatores como: aptidões, formas de comportamento e trabalho do sertanejo, bem como, seus traços culturais que são sui generis em cada região e em cada povo. O desenvolvimento da agricultura familiar, principalmente no semi-árido, não pode ter como prioridade o mercado e a produção, mas, sobretudo, a reprodução da vida social (família, terra e trabalho). Referências Bibliográficas. BARTH, Frederik. “Introduction” in : Rtnic groups and boundaries. London:George Allen & Unwin 1969. BURSZTYN, M. O poder dos donos: planejamento e clientelismo no Nordeste. Petrópolis, Vozes/CNPQ. 1984. COHEN, Erik. Authentecity and commoditization in tourism, Annals of Tourism Research, vol. 15. 1988. FREITAS, Kátia Gonçalves de. Agricultura Irrigada e (DES) construção de Territórios – O caso de São Gonçalo, Sousa/PB, Campina Grande: 1999. p.156. 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