Caderno Virtual de Turismo ISSN: 1677-6976 Vol. 8, N° 2 (2008) Do “turismo predatório” ao “turismo sustentável”: uma revisão sobre a origem e a consolidação do discurso da sustentabilidade na atividade turística Nathália Körössy* Resumo O turismo surgiu, na última década, como uma das atividades econômicas de maiores índices de crescimento, estando hoje espacializado nos territórios mais remotos. Durante muito tempo, o discurso de desenvolvimento turístico enfatizou, quase que exclusivamente, os contributos que a atividade poderia fornecer ao Produto Interno Bruto (PIB). Contudo observa-se, mais recentemente, a emergência de outra visão para o setor, pautada na idéia do desenvolvimento sustentável. Sob essa perspectiva, o presente artigo se propõe a fazer uma revisão bibliográfica das origens e evolução deste novo paradigma, buscando compreender como o turismo deixou de ser encarado como uma atividade massificada, predatória e meramente econômica e passou àquilo que hoje se costuma chamar de turismo sustentável. Palavras-chave: Turismo; desenvolvimento sustentável; turismo sustentável. Abstract Tourism appeared in the last era, as one of the most important economic activities, being nowadays presented in the most remote territories. For a long time, development tourism discourses has been emphasizing its economic aspects and contributes for the Gross Domestic Product (GDP). However, most recently has been emerging another perspective based on the sustainable development paradigm. Under this perspective, this study does a review about the origins and evolution of the sustainable development concept and tries to explain how the tourism has changed of a massive activity for that called sustainable tourism. Keywords: Tourism; sustainable development; sustainable tourism. 56 Caderno Virtual de Turismo ISSN: 1677-6976 Vol. 8, N° 2 (2008) Introdução O que busca o presente artigo é resgatar, mais importantes, se não a mais importante (Trumbic, 1999), dos últimos anos. De acordo com SIPRI Yearbook e United Nations (apud Saarinen, 2006), em termos econômicos, só perde para o comércio internacional de armas e provavelmente se equipara ao tráfico inter- e a evolução deste paradigma, de forma a esclarecer alguns conceitos importantes e melhor compreender como o turismo deixou de ser encarado como uma atividade de massas e meramente econômica e passou àquilo que hoje se costuma chamar de turismo sustentável. nacional de drogas e seres humanos (incluindo a prostituição). Seja em ambientes de montanha, seja em costeiros, insulares, ou mesmo em ambientes urbanos, o fato é que a atividade turística encontra-se, hoje, amplamente difundida pelo globo terrestre, de modo que “não existe prati- Nos tempos do pós-guerra, com a redução camente lugar de nossa geografia onde não se do tempo de trabalho – e o conseqüente au- observe a influência desse fenômeno em maior mento do tempo livre – e a instituição das férias ou menor intensidade” (Beni, 2002, p.77). remuneradas, foram geradas as condições Durante muito tempo, a ênfase sobre a propícias para o ser humano viajar. A partir atividade direcionou-se, quase que exclusiva- deste momento, o planeta Terra passou a ser mente, aos aspectos econômicos e aos contri- acessível ao ser humano comum e é neste butos que o turismo poderia desempenhar no instante que “nasce” o turista de massas. De Produto Interno Bruto (PIB). No entanto, mais acordo com a Organização Mundial do Turismo recentemente, observa-se a emergência de (OMT, 2003, p.23): um outro tipo de visão para o setor. O turismo, O século XX trouxe novas tecnologias, tais para além de ser associado aos indicadores como aviões mais velozes e confortáveis, econômicos, está fortemente ligado a fatores computadores, robôs, e comunicações ambientais e sociais. O que se constata, na por satélite, que transformaram o modo das pessoas viverem, trabalharem e se atualidade, é que vários destinos turísticos em divertirem. Credita-se à tecnologia o de- todo o mundo estão fortemente empenhados senvolvimento do turismo de massa por em alcançar aquilo que se convencionou uma série de razões: ela proporcionou o chamar de “turismo sustentável”. Mas o que significa exatamente um turismo ser sustentável? A que, mais especificamente, * Turismóloga (Universidade Federal de Pernambuco), Especialista em Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Universidade de Pernambuco), mestranda em Gestão e Políticas Ambientais (Universidade Federal de Pernambuco), mestranda em Geografia – Urbanização e Ordenamento do Território (Universidade de Lisboa), bolsista do Programa AlBan. A expansão da atividade turística: dos fatores condicionantes da difusão do turismo às conseqüências do seu desenvolvimento em larga escala aumento do tempo de lazer, propiciou renda adicional, intensificou as telecomunicações e criou modos mais eficientes de transportes. se refere o termo “sustentável”: ao turismo ou Para Krippendorf (2003), a necessidade de ao destino turístico? Há diferenças entre os ter- lazer demandada pelas sociedades pós-mo- mos “turismo sustentável” e “sustentabilidade dernas constitui uma espécie de válvula de do turismo”? Turismo sustentável e ecoturismo escape; uma “fuga” sistemática (ainda que são sinônimos? Como surgiu este fenômeno temporária) da rotina; fuga esta que permite e por que ele é tão significativo para o turis- ao trabalhador recompor suas energias, a fim mo? Quais as causas que fizeram com que o de que possa desempenhar suas funções a paradigma da sustentabilidade alcançasse o contento. Depois da fuga, ainda segundo o setor do turismo? Quais foram suas influências autor, o trabalhador volta de bom grado às e conseqüências? condições estáveis e familiares do universo 57 Nathália Körössy taca-se como uma das atividades econômicas através de revisão de literatura, as origens Do “turismo predatório” ao “turismo sustentável”: uma revisão sobre a origem e a consolidação do discurso da sustentabilidade na atividade turística Em um contexto internacional, o turismo des- Caderno Virtual de Turismo ISSN: 1677-6976 cotidiano. Neste mesmo sentido, Adorno (2002, destinos, descanso físico, formação social p.106) vai afirmar que “o tempo em que se está e política, desporto, excursionismo, co- Assim, embora se possa afirmar que não países; bilhetes pagos pelas empresas, colónia de férias do patronato, parques de campismo. existe um único motivo na hora de realizar uma Cavaco (2006, p.310) se refere, ainda, ao viagem (Sousa, 1994; Mattos, 2004), o fato é desenvolvimento do setor de transportes como que, lato sensu, as pessoas viajam para relaxar, um fator condicionante da expansão do turis- fugir do cotidiano estressante e, assim, retornar mo pelo globo: às atividades laborais do dia-a-dia. Em suma, Os novos transportes colectivos possibili- pode-se afirmar que os grandes fluxos turísti- taram a difusão espacial e social dos flu- cos da atualidade despontam como reflexo xos de férias e favoreceram as primeiras das características do capitalismo industrial, o qual criou as condições necessárias à “fuga temporária em massa”. massificações ao nível da classe média que dispunha de tempo livre (mães domésticas, crianças e avós), pela baixa dos custos das deslocações. Nesse sentido, ressalta Krippendorf (2003, A comercialização intensa de pacotes p.15) que “a sociedade forneceu simultanea- turísticos1 favoreceu o desenvolvimento do tu- mente aos seus membros os meios de realizar rismo, enquanto atividade econômica, devido tal evasão: dinheiro, sob a forma de salários aos baixos preços praticados. A partir desse mais elevados e tempo, graças a horários de momento, a viagem de lazer não estaria mais trabalho cada vez mais reduzidos.” Segundo restrita unicamente aos mais abastados, mas Nicolás (apud Rodrigues, 2006, p.248) “na fase às diversas classes sociais. fordista, o espaço turístico foi o que apresentou Dessa forma, nos últimos anos, o turismo maior expansão no processo de globalização tem se mostrado uma atividade econômica da economia”. Dentro dessa perspectiva, Ca- em franca expansão, assumindo importante vaco (2006, p.310) descreve o cenário no qual papel enquanto fonte de renda para diversos a função turística começou a se difundir: países. De acordo com dados da Organiza- As condições de vida foram alteradas ção Mundial do Turismo (OMT, 2003), o turismo com a expansão da revolução indus- internacional possui uma taxa de crescimento trial e o assumir o trabalho como valor anual de 4 a 4,5%, estimando-se um número universal: no início desta o tempo livre era apenas consagrado à recuperação de 659 milhões de chegadas de turistas inter- quotidiana da força de trabalho (dormir, nacionais e prevendo-se para até 2020 que descansar); depois deu lugar a férias, esse total seja de 1,6 bilhão de chegadas, tempo anual contínuo realmente livre e podendo atingir uma receita de cerca de 2 remunerado como o de trabalho, mas não necessariamente turístico, já que trilhões de dólares. a maioria dos trabalhadores ficava em Contudo, uma análise mais apurada remete casa e limitava-se a passear nos arredo- para reflexões que vão além do simples cres- res, pelo campo e beira-mar próximas, ou a visitar familiares e amigos, com retorno às regiões de origem quando acessíveis. cimento econômico. Ao analisar a atividade turística de forma qualitativa, constata-se que, Nos anos 30 ocorreram mudanças que ao mesmo tempo em que o turismo é capaz de tiveram grande impacto na democrati- trazer benefícios, sobretudo econômicos, para zação do turismo, em particular a difusão as localidades onde se desenvolve, também das férias pagas e a programação de viagens para esse tempo novo, por or- tem a capacidade de provocar conseqüên- ganizações sindicais ou com orientação cias negativas nesses locais, principalmente patronal quanto às boas formas e aos do ponto de vista ecológico. O contraponto 58 Nathália Körössy força do trabalho”. nhecimento de outros lugares e de outros Do “turismo predatório” ao “turismo sustentável”: uma revisão sobre a origem e a consolidação do discurso da sustentabilidade na atividade turística livre do trabalho tem por função restaurar a 1. Os pacotes turísticos são os serviços essenciais a uma viagem (por exemplo: transportes, hospedagem e alimentação) organizados e compilados pelas operadoras/agências de viagens e vendidos a um preço competitivo no mercado. Vol. 8, N° 2 (2008) Caderno Virtual de Turismo ISSN: 1677-6976 como impactos da atividade turística desorde- que, dependendo da área visitada e do nada: desagregação social, perda de identi- comportamento do visitante, o turismo pode dade cultural das comunidades autóctones, apresentar acentuados níveis de degradação prostituição, além das alterações no equilíbrio do meio natural que não compensam o retorno dos ecossistemas. financeiro percebido. Ainda de forma mais Assim, fica evidente a necessidade em se pormenorizada: considerando que o turismo se trabalhar no sentido de minimizar os impactos desenvolve sobre o próprio comprometimento negativos e maximizar os positivos. É neste con- da dinâmica territorial poderá reduzir os benefícios econômicos a médio/longo prazo. Mire-se, texto que surge e se afirma a idéia de turismo sustentável. por exemplo, o caso de Galápagos2. Deve-se levar em consideração que, para a efetivação do turismo, há a deslocação do “consumidor” (o turista) até o “produto” (a O conceito de turismo sustentável deriva do destinação) (Cunha, 1997; Beni, 2002), o que de Desenvolvimento Sustentável introduzido implica num contato do turista com os habitan- pelo Relatório Brundtland em 1987 (Saarinen, tes locais (mesmo que seja de forma indireta). 2006; UNWTO, 2004; Hardy & Beeton, 2001; To- Essa característica inerente à atividade turística sun, 1998). De acordo com Bell & Morse (2000), necessariamente causará alterações no coti- nem mesmo a ampla gama de definições diano da localidade visitada, seja através de acerca do que é desenvolvimento sustentável contatos dos visitantes com os autóctones, seja foi capaz de reduzir a popularidade do con- pela geração de divisas, seja pela interferên- ceito, de modo que, segundo Sadler (1999), cia no ambiente natural. Diante do exposto, pode-se afirmar que o turismo interfere e altera as dinâmicas locais, produzindo impactos ora positivos, ora negativos. 2. Embora o turismo seja a principal atividade econômica do arquipélago de Galápagos (Baine et al., 2007), foi o crescimento acelerado da atividade que levou ao comprometimento do mesmo. De tal modo que o governo equatoriano declarou, em 2007, situação de risco nas ilhas, cogitando-se, até mesmo, a possibilidade de fechá-las ao turismo. Com efeito, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO, a crise ecológica que se observa em Galápagos decorre de vários fatores, sendo o aumento descontrolado do turismo um dos mais significativos. Disponível em: <http://www. bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/ story/2007/04/070411_galapagosequadorg.shtml>. Acesso em: 13 abr. 2007. 3. Nos primórdios da história humana, segundo Montibeller Filho (2005), a natureza era vista como algo sagrado, fruto do Criador, algo que o referido autor denomina de visão teológica da natureza. Além dessa visão, Montibeller Filho cita: teleológica (a natureza é vista como obra divina, porém a serviço do homem) e a visão cartesiano-científica (iniciada com René Descartes). A questão do desenvolvimento sustentável na atividade turística o paradigma transformou-se no grande tema da atualidade e tem sido aplicado em todos os campos da atividade econômica (Farsari & Prastacos, 2000). O turismo, enquanto uma das Por impactos do turismo, entende-se que atividades humanas mais marcantes do séc. seja o conjunto de intervenções e modifica- XXI, não foi exceção (Hunter, 2002). Contudo, ções decorrentes do desenvolvimento turístico o entendimento do que vem a ser turismo sus- nos núcleos receptores; ou como define Rus- tentável passa necessariamente pelo entendi- chmann (1997, p.34): “são a conseqüência de mento do que é o desenvolvimento sustentável um processo complexo de interação entre os que, por sua vez, está em estreita associação turistas, as comunidades e os meios recepto- com a emergência das preocupações relativas res”. Os impactos podem ser de duas naturezas: ao meio ambiente (Guattari, 1990). Tendo em positivos e negativos (Partidário & Jesus, 2003). vista este encadeamento, faz-se a seguir uma Entre os principais impactos positivos estão: breve reflexão sobre a evolução do pensamen- geração de empregos, desenvolvimento local, to ambientalista. construção de infra-estruturas e dinamização da economia local. Já entre os efeitos negativos, segundo a OMT (2003), os mais relevantes são: pressões especulativas; ocupação desor- Das concepções ocidentais de natureza à emergência do paradigma ambiental denada do espaço; práticas incompatíveis Ao longo da história da humanidade, a re- com a utilização do solo; conflitos com valores lação entre o homem e a natureza passou por tradicionais consolidados e estandardização diversas transformações. A relação primitiva dos padrões de consumo. Pode-se citar, ainda, de não-separação homem-natureza3, passou 59 Nathália Körössy do discurso economicista-otimista observa Do “turismo predatório” ao “turismo sustentável”: uma revisão sobre a origem e a consolidação do discurso da sustentabilidade na atividade turística Vol. 8, N° 2 (2008) Caderno Virtual de Turismo ISSN: 1677-6976 p.36) ressalta que “tendo alicerces morais na culturais) a estar cada vez mais dissociada e teologia, em determinado período histórico, ou distante. Assim, o homem começou se ver de na ciência quando esta passa a predominar, fora da natureza. o homem todavia jamais deixou de buscar o A oposição entre o homem e a natureza, en- domínio sobre a natureza”. Nesse sentido, a tre o sujeito e o objeto, se consolida com René separação homem-natureza, característica Descartes (1596-1650), o qual vê a natureza marcante do pensamento ocidental, conduziu como um recurso a serviço do homem, como a humanidade à exploração desenfreada dos ressalta Gonçalves (2004, p.33): “O homem, recursos naturais. E as conseqüências da degra- instrumentalizado pelo método científico, pode dação ambiental já se fazem sentir. penetrar os mistérios da natureza e, assim, tor- Foi em meados dos anos 70 do século pas- na-se ‘senhor e possuidor da natureza’”. O ho- sado que fatores como o grande crescimento mem, acreditando que todas as coisas existem populacional, o maciço desenvolvimento das para servi-lo, passa a ver a natureza, não como indústrias e os conseqüentes efeitos negativos algo sagrado, mas como algo para ser usado, na natureza – poluição atmosférica, destruição como coloca Passmore (1974, p.93): da camada de ozônio, aquecimento global, A visão de que todas as coisas existem desmatamento, entre outros problemas am- para servir o homem encorajou o de- bientais – fizeram despertar na sociedade uma senvolvimento de um modo particular maior preocupação com os rumos da explora- de ver a natureza, não como algo a ser respeitado, mas sim como algo a ser utilizado. A natureza não é, em sentido nenhum, sagrada. (...) o cristianismo ensinou aos homens que não havia sacrilégio nem em analisar, nem em modificar a natureza. ção dos recursos naturais e suas conseqüências nos ecossistemas. Estudos pioneiros como os de Rachel Carson (“Primavera Silenciosa”, 1962) e de Dennis & Donella Meadows (“Os Limites do Crescimen- Afirma Montibeller Filho (2005) que, princi- to”, 1972) associaram o nível de degradação palmente com Descartes, cria-se uma visão ambiental às conquistas tecnológicas e à ânsia científica antropocêntrica, já que só o homem do lucro em curto prazo das sociedades indus- tem matéria e intelecto ao mesmo tempo. Não triais. Como pontua Santos (2004, p.62): sendo mais vista como divina, a natureza passa Em sua versão contemporânea, a tecno- a ser um mecanismo orientado por leis, como logia se pôs ao serviço de uma produção as da física e da matemática. Montibeller Filho à escala planetária, onde nem os limites (2005, p.37) fala, ainda, sobre a visão marxista dos Estados, nem os dos recursos, nem os dos direitos humanos são levados em da natureza, segundo a qual o uso dos recursos conta. Nada é levado em conta, exceto naturais se embasou na propriedade privada a busca desenfreada do lucro, onde e na economia, e não na religião: quer que se encontrem os elementos capazes de permiti-lo. Segundo a interpretação marxista, não foi a religião – em sua concepção de que O documento “Os Limites do Crescimento”, o Universo foi criado por Deus para servir preparado por um grupo interdisciplinar do ao homem –, mas sim o surgimento da Massachusetts Institute of Technology (MIT) em sociedade fundamentada na propriedade privada e na economia monetária, à 1972, a pedido do Clube de Roma, já alertava qual se subjuga o conhecimento científi- para o crescimento populacional e consumo co, que conduziu à exploração ilimitada insustentável dos recursos naturais. Tal relatório do mundo natural afirmava que, mantidos os níveis de industriali- Concluindo sobre a questão do domínio zação, da exploração dos recursos naturais e do homem sobre a natureza, esse autor (2005, das taxas de poluição, em um período de cem 60 Nathália Körössy (com as mudanças sociais, econômicas e Do “turismo predatório” ao “turismo sustentável”: uma revisão sobre a origem e a consolidação do discurso da sustentabilidade na atividade turística Vol. 8, N° 2 (2008) Caderno Virtual de Turismo anos seria atingido o limite de desenvolvimento da 21 surge como marco conceitual norteador da Terra, acarretando numa brusca diminuição para líderes políticos interessados em elabora- da capacidade industrial. rem modelos sustentáveis de gestão. Ainda em 1972, outro acontecimento mar- Na seqüência dos grandes eventos mundiais cou decisivamente a história do movimento sobre meio ambiente, seguiram-se: a Cúpula ambientalista: a Conferência das Nações da Terra em 1997 (Nova Iorque), a Cúpula do Unidas sobre Meio Ambiente Humano (CNU- Milênio em 2000 (Nova Iorque) e a Cúpula Mun- MAH), realizada em Estocolmo (Suécia). dial sobre o Desenvolvimento Sustentável (RIO Ao discutir os direitos da humanidade a um +10, em Joanesburgo, 2002). Destes encontros ambiente saudável, tal evento tornou-se o mundiais, o consenso foi sempre o mesmo: o marco do ambientalismo contemporâneo. ser humano está degradando o planeta e, Ao compreender a necessidade de mudar caso o desenvolvimento sustentável não for a visão dos recursos naturais como infinitos, a efetivamente adotado em escala planetária, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu, tendência é o caos, decorrente de um colapso em 1984, a Comissão Mundial sobre Meio Am- nas fontes de energia e da poluição global. biente e Desenvolvimento, sob coordenação Mais recentemente, a “Avaliação Ecossis- da então Primeira-Ministra norueguesa Gro têmica do Milênio” (ONU, 2005), documento Harlem Brundtland. E, em 1987, este comitê elaborado a pedido do então Secretário Geral apresentou o relatório final, intitulado “Nosso das Nações Unidas (Kofi Annan), que reconhe- Futuro Comum” (Our Common Future). ce que as alterações provocadas pelos seres Tal documento delineou a noção de humanos nos ecossistemas “ajudaram a melho- sustentabilidade ao apresentar o termo “de- rar a vida de bilhões de pessoas”, ao mesmo senvolvimento sustentável”, o qual é definido tempo em que comprometeram a qualidade como o “desenvolvimento que atende às ne- dos ecossistemas que as suportam. O estudo cessidades do presente sem comprometer as conclui que “as atividades humanas estão possibilidades das gerações futuras atenderem exaurindo as funções naturais da Terra de tal às suas próprias” (Comissão Mundial sobre Meio modo que a capacidade dos ecossistemas do Ambiente e Desenvolvimento, 1991, p.46). Essa planeta de sustentar as futuras gerações já não idéia baseia-se na prerrogativa de que a exis- é mais uma certeza” (ONU, 2005, p.36). tência de uma ética intra e intergeracional é Diante de um cenário alarmante de degra- fundamental para o desenvolvimento humano. dação do meio ambiente (escassez de recur- Segundo o relatório, o crescimento econômi- sos naturais, sobrecarga na capacidade dos co deveria acontecer de forma ecológica e ecossistemas de se auto-regularem, emissões socialmente igualitária, ou seja, centrado no maciças de poluentes atmosféricos, contami- tripé: crescimento econômico, proteção dos nação dos recursos hídricos etc.), a utilização recursos naturais e eqüidade social. parcimoniosa dos recursos naturais deixa de Foi realizada em 1992, no Rio de Janeiro ser uma possibilidade para ser uma necessi- (Brasil), a Conferência das Nações Unidas sobre dade. E para tanto, governos, sociedade civil Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD) e empresariado devem pensar em ações que que, dentre outros documentos, apresentou a promovam a sustentabilidade na Terra. Agenda 21 Global. Trata-se de um plano estratégico de ação com o intuito de promover um novo padrão de desenvolvimento – entenda-se O turismo no contexto da questão ambiental e da sustentabilidade sustentável –, de modo a garantir a qualidade Desde meados das décadas de 80 e 90 de vida das atuais e futuras gerações. A Agen- do século passado, a questão ambiental tem 61 Nathália Körössy Vol. 8, N° 2 (2008) Do “turismo predatório” ao “turismo sustentável”: uma revisão sobre a origem e a consolidação do discurso da sustentabilidade na atividade turística ISSN: 1677-6976 Caderno Virtual de Turismo ISSN: 1677-6976 exercido influência em diversos segmentos e, • Deverá haver a participação dos atores com o turismo, não foi diferente. No momento sociais envolvidos nos níveis local, regional, em que a atenção do mundo volta-se para a nacional e internacional; delicada situação de degradação ambiental • O planejamento do turismo deve ser elabo- do planeta, novas formas de pensar e praticar rado por governos e autoridades compe- a atividade turística começam a surgir. Eis a tentes, contando com a participação das idéia de turismo sustentável. do ao turismo, o conceito de desenvolvimento sustentável não foi objeto de nenhuma Do “turismo predatório” ao “turismo sustentável”: uma revisão sobre a origem e a consolidação do discurso da sustentabilidade na atividade turística comunidades locais e de organizações não Embora esteja hoje estreitamente associa- governamentais, de forma integrada; • Defende a adoção de códigos de conduta; referência significativa à indústria turística no Relatório Brundtland (SREA/DREM/ISTAC, 2006, p.8). Apesar do seu peso nas trocas comer- • Promoção de formas alternativas de turismo. ciais internacionais, o turismo não aparecia Posteriormente, por iniciativa da Organiza- como uma preocupação aos olhos dos que ção Mundial do Turismo (OMT), do World Travel iniciaram a reflexão em torno da “sustentabi- & Tourism Council (WTTC) e do Earth Council, lidade”. Para remediar esta omissão, a OMT é elaborada a “Agenda 21 para Viagens e decidiu investir na preparação da Cimeira da Turismo: Rumo ao Desenvolvimento”, a qual Terra no Rio de Janeiro, em 1992, conseguindo estabelece áreas e ações prioritárias para o inscrever o turismo na Agenda 21. Em 1995, desenvolvimento sustentável do turismo. Tra- nas Ilhas Canárias (Lanzarote – Espanha), é ta-se de uma iniciativa voltada à promoção celebrada a Conferência Mundial de Turismo da prática do turismo sustentável ao definir Sustentável, durante a qual foi elaborada objetivos distintos para os diversos atores da a Carta do Turismo Sustentável (Charter for sociedade. Tais objetivos podem ser observa- Sustainable Tourism). Entre outras coisas, o dos no quadro 1 (OMT, 2003). documento chamava a atenção para o Mais tarde, o Sétimo Encontro da Comissão fato de que: da União Européia sobre Desenvolvimento Sus- • O desenvolvimento da atividade turística tentável, em 1999, foi exclusivamente dedicado não deve ultrapassar os limites do ambiente aos desafios da sustentabilidade no setor do tu- natural, deve ser economicamente viável e rismo. Ainda em outubro de 1999, em Santiago eqüitativo para as comunidades locais; do Chile, a OMT adotou o Código Mundial de Quadro 1 – Objetivos da Agenda 21 para Viagens e Turismo para os atores envolvidos no turismo ATORES OBJETIVOS Departamentos governamentais, associações, entre outros. Estabelecer sistemas e procedimentos para incorporar as considerações sobre o desenvolvimento sustentável ao centro do processo de tomada de decisão e identificação das ações necessárias à criação do turismo sustentável. Empresas Estabelecer sistemas e procedimentos para incorporar as questões do desenvolvimento sustentável, como parte da função gerencial central; identificar ações necessárias à criação do turismo sustentável. Fonte: OMT, 2003 (adaptado pela autora). 62 Nathália Körössy Vol. 8, N° 2 (2008) Caderno Virtual de Turismo ISSN: 1677-6976 (Cernat & Gourdon, 2005; Trumbic, 1999), mes- ca do desenvolvimento sustentável. Todo este mo apresentando uma aparente harmonia en- trabalho culminou com a inclusão do turismo tre acadêmicos e instituições governamentais nas preocupações da Cimeira Mundial sobre (McCool & Moisey, 2001). Desenvolvimento Sustentável de Joanesburgo Com efeito, podem-se encontrar várias e do Ano Internacional do Ecoturismo, ambos interpretações para o termo “turismo sustentá- realizados em 2002. vel”, a começar pela OMT (2003), para quem Na esfera privada, também houve a o turismo sustentável é aquele que atende às preocupação em desenvolver iniciativas de necessidades dos turistas de hoje e das regiões promoção da sustentabilidade no turismo, prin- receptoras, ao mesmo tempo em que protege cipalmente no que diz respeito à implantação e amplia as oportunidades para o futuro. É vis- de Sistemas de Gestão Ambiental (SGA) nos to como um condutor ao gerenciamento de estabelecimentos hoteleiros. todos os recursos, de tal forma que as necessidades econômicas, sociais e estéticas possam Turismo sustentável: origem e evolução De acordo com Saarinen (2006), as origens do termo turismo sustentável estão relacionadas com o interesse acadêmico sobre os impactos negativos do turismo no início ser satisfeitas sem desprezar a manutenção da integridade cultural, dos processos ecológicos essenciais, da diversidade biológica e dos sistemas que garantem a vida. Para Butler (apud Partidário, 1999, p.81): Turismo sustentável é o turismo que se de- dos anos 60 e as pesquisas relacionadas à senvolve e mantém numa área (ambien- capacidade de carga. No decurso de duas te, comunidade) de tal forma e a uma décadas, a idéia de capacidade de carga tal escala que garante a sua viabilidade formou a base da abordagem e da gestão por um período indefinido de tempo sem degradar ou alterar o ambiente (humano dos impactos negativos da atividade, porém, ou físico) em que existe e sem pôr em após este período, tornou-se um conceito causa o desenvolvimento e bem-estar de problemático tanto em termos operacionais outras actividades e processos. como teóricos. Das diversas contestações Para Swarbrooke (2000), trata-se daquele sobre a capacidade de carga e sua utilidade tipo de turismo que é economicamente viá- enquanto conceito, amadurece, durante as vel, mas que não destrói os recursos dos quais décadas de 80 e 90, o conceito de turismo a atividade no futuro dependerá, principal- sustentável. Assim, de forma sintética, tal mente, o ambiente físico e o tecido social da como Swarbrooke (2000), pode-se dizer que o comunidade local. conceito de turismo sustentável é o ápice de No Acordo de Mohonk (Instituto ECOBRASIL, um amadurecimento teórico que tem início 2000) lê-se que é aquele que busca minimizar na década de 1960, com o reconhecimento os impactos ecológicos e socioculturais, en- dos impactos potenciais do turismo de massa; quanto promove benefícios econômicos para segue-se através da década de 1970, com as comunidades locais e países receptores. Já as primeiras preocupações com a gestão de Pearce (apud Beni, 2002, p.61) entende turismo visitantes; e culmina com a emergência do sustentável como: conceito de turismo verde (green tourism), na Maximização e otimização da distribui- década de 1980. ção dos benefícios do desenvolvimento No entanto, tal como o termo que lhe deu econômico baseado no estabelecimento e na consolidação das condições de origem, a definição de “turismo sustentável” segurança com as quais serão oferecidos também está longe de ser algo consensual os serviços turísticos, para que os recursos 63 Nathália Körössy Ética do Turismo, largamente inspirado na lógi- Do “turismo predatório” ao “turismo sustentável”: uma revisão sobre a origem e a consolidação do discurso da sustentabilidade na atividade turística Vol. 8, N° 2 (2008) Caderno Virtual de Turismo ISSN: 1677-6976 apresentadas é a existência de três diferentes melhorados. interpretações para o conceito. A primeira O Relatório Commonwealth of Australia de delas refere-se à sustentabilidade da atividade 1991 (apud Driml & Common, 1996, p.4) não bus- propriamente dita, no sentido de como manter ca uma definição do termo, mas aponta para funcionando e gerando lucros indefinidamente uma série de princípios e características que um as empresas que trabalham com o turismo. turismo sustentável deve atender, tais como: Uma segunda interpretação relaciona-se com • Melhoria do bem-estar material e não- a idéia de sustentabilidade das condições que material; • Equidade intra e inter-geracional; dão suporte à atividade, nomeadamente ao meio ambiente e às condições culturais das comunidades receptoras. Por fim, uma última • Proteção da diversidade biológica e manutenção dos sistemas e processos ecológicos. Também sem apontar para uma definição conceitual, Partidário (1999) destaca que, no conceito de desenvolvimento sustentável, está expressa uma filosofia fundamentada em três princípios: • Respeito pelo ambiente natural, cultural e social das áreas de destino; • Desenvolvimento econômico e social das comunidades locais; interpretação identificada pelos autores tem a ver com a sustentabilidade dos recursos, ou seja, entende o turismo como uma ferramenta para proteger o capital natural e social sobre o qual a atividade se sustenta. O que estas interpretações suscitam é a existência de dois conceitos que também devem ficar esclarecidos: “turismo sustentável” e “sustentabilidade do turismo”. Turismo sustentável, conforme já discutido, é um modelo de se desenvolver a atividade turística que utiliza o tripé da sustentabilidade como pres- • Satisfação das necessidades (materiais e suposto. Mantido o equilíbrio entre estes três imateriais) dos visitantes e da população pilares, estão, ao menos em tese, assegurados local. os meios para a perpetuação da atividade Da mesma forma, Cater (apud Liu, 2003), identifica três objetivos-chave para o turismo sustentável: • Observar os interesses das populações locais em termos de melhoria dos padrões de vida, tanto em curto como em longo prazo; e o contínuo recebimento de benefícios daí decorrentes. A sustentabilidade do turismo, por sua vez, relaciona-se com a garantia da prática da atividade no longo prazo, o que não necessariamente implica que seja de forma sustentável, nos termos do Relatório Brundtland. Em determinadas realidades como Las Vegas, • Satisfazer as demandas de um crescente número de turistas; • Salvaguardar o patrimônio natural. por exemplo, a sustentabilidade do turismo está relacionada não com a proteção do meio ambiente ou com a justiça social, mas com a Por fim, segundo Saarinem (2006), vários au- capacidade de manter uma boa estratégia tores têm insistido na idéia de que não existem de marketing e de imagem de um destino de definições exatas acerca do que seja turismo luxo e prazer. sustentável; ao passo que Clarke (1997) afirma Independentemente do tipo de sustenta- tratar-se de um conceito ainda em evolução. bilidade em causa (se da atividade, se das condições que dão suporte à atividade, se Discussão dos recursos), entende-se, tal como Partidário Tal como McCool & Moisey (2001), o que (2004), que o turismo sustentável não é uma se pode depreender das várias definições tipologia de turismo (como o são o turismo 64 Nathália Körössy naturais sejam mantidos, restaurados e Do “turismo predatório” ao “turismo sustentável”: uma revisão sobre a origem e a consolidação do discurso da sustentabilidade na atividade turística Vol. 8, N° 2 (2008) Caderno Virtual de Turismo ISSN: 1677-6976 das por processos que lhes atribuem vida e mas, sim, uma forma diferente de promover dinamismo. O turismo pode ser classificado turismo. Isso significa que o ecoturismo, costu- como um destes processos que alimentam meiramente associado à sustentabilidade, não e criam diálogos entre as formas e funções é o mesmo que turismo sustentável; o que, por existentes. Disto se pode concluir que, se os sua vez, significa que o ecoturismo (se não for processos que se desenrolam no espaço não baseado nos princípios da sustentabilidade) forem sustentáveis, este último, ao menos em pode se constituir numa prática turística insus- tese, dificilmente também o será. Ou seja, tentável (Gössling et al., 2002). para se falar em destino turístico sustentável Em muitas das vezes, o termo “ecoturismo” é é necessário que a atividade turística seja, utilizado como uma forma de chamar atenção ela mesma, também sustentável. Assim, o que para o destino. Em sentido estrito, o ecoturismo se pode afirmar é que o termo “sustentável” significa o turismo em contacto com a natureza pode tanto ser aplicado ao destino quanto (Swarbrooke, 2000) e não necessariamente à atividade, mas só se pode falar em destino tem a ver com a sustentabilidade. A sustenta- sustentável em acordo com uma prática bilidade de uma prática turística está, isto sim, turística sustentável. relacionada com o atendimento aos critérios de justiça social, crescimento econômico e Considerações finais proteção do patrimônio natural. Aliás, até Ao longo desse ensaio, verificou-se que o mesmo planos e programas de turismo auto- turismo de massas, baseado em um enfoque denominados sustentáveis, que inclusive re- estritamente econômico (entenda-se numéri- conhecem e mencionam explicitamente este co), traz uma série de conseqüências negativas tripé da sustentabilidade, acabam por falhar para os respectivos destinos turísticos. Isso por- na hora da aplicação, conforme evidenciado que é praticado em larga escala, sem limites por Ruhanem (2004) e Simpson (2001). Isto é um ao crescimento, sem respeito às capacidades indicador claro da dificuldade e complexidade de suporte das destinações receptoras, com em se trabalhar com o conceito de turismo sus- vistas essencialmente ao lucro e incapaz de tentável; dificuldades e complexidades estas contemplar os anseios da própria comunida- que se ampliam se não se tiver claro o que o de residente na destinação. Neste cenário conceito representa de fato. insatisfatório emerge o conceito de turismo Mas, assumindo que todos os entraves teóricos relativos ao turismo sustentável te- sustentável, baseado nas mesmas premissas do desenvolvimento sustentável. nham sido superados, a que, efetivamente, A idéia de sustentabilidade no turismo passa se refere o termo “sustentável”: ao turismo então a se afirmar como condição sine qua ou ao destino turístico? Antes de qualquer non à manutenção da atividade em um longo coisa, é preciso ter claro que o turismo é um prazo. Não obstante, o conceito surge em meio fenômeno, ao passo que o destino turístico a outro conceito igualmente em voga: o eco- é um espaço geográfico. Segundo Santos turismo. O que se buscou deixar claro ao longo (2004), o espaço é um conjunto indissociável deste estudo foi que o ecoturismo não constitui, de sistemas de objetos e sistemas de ações e necessariamente, um turismo sustentável; ou propõe quatro categorias de apreensão do seja, turismo sustentável e ecoturismo não são espaço: forma, função, estrutura e processo. sinônimos. Apenas sob determinadas circuns- De certa forma, a estrutura é composta pelas tâncias é que o ecoturismo pode ser conside- relações entre as formas e suas funções; ao rado como uma forma de turismo sustentável. mesmo tempo, estas estruturas são alimenta- Se determinada prática ou empreendimento 65 Nathália Körössy rural, ecoturismo, turismo de aventuras etc.), Do “turismo predatório” ao “turismo sustentável”: uma revisão sobre a origem e a consolidação do discurso da sustentabilidade na atividade turística Vol. 8, N° 2 (2008) Caderno Virtual de Turismo ISSN: 1677-6976 para se interrogar: por que o termo turismo do ambiente e no crescimento econômico do sustentável está tão associado à questão PIB de uma região, mas, por outro lado, oprime ambiental? Por que a dimensão social (em ou marginaliza comunidades locais sobre a particular) é tão negligenciada? qual a atividade se desenvolve, não se pode b) Ainda que a discussão teórica sobre turismo falar, a rigor, que seja sustentável. O mesmo é sustentável seja deveras importante e signi- válido para outras denominações igualmente ficativa, é preciso desenvolver mecanismos difundidas como: turismo alternativo, turismo que atestem se a sustentabilidade está de ecológico, turismo verde, turismo rural etc. fato acontecendo. Neste sentido, seriam As raízes dessa confusão entre turismo relevantes pesquisas que se ocupassem em sustentável e ecoturismo não são claras na discorrer sobre instrumentos de avaliação literatura especializada. Dado que a afirma- da sustentabilidade do turismo. ção do conceito de sustentabilidade trouxe a questão ambiental para um nível onde antes ela não existia (a esfera política), o que pode ter ocorrido é que o florescimento do conceito de sustentabilidade coincidiu com o leitmotiv do ecoturismo: a preocupação com o meio ambiente. Em outras palavras, o que se pode especular é que aconteceu com o conceito de turismo sustentável o mesmo que ocorreu com o próprio conceito de desenvolvimento sustentável: foi mal interpretado; maximizou-se a dimensão ambiental em detrimento dos aspectos sociais e econômicos. Haja vista a vocação do ecoturismo para a preocupação ambiental, tão logo o que ocorreu foi uma confusão entre os dois termos e, em alguns casos mais extremos, foram interpretados como sinônimos. Referências bibliográficas ADORNO, T. Indústria cultural e sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002. BELL, S.; MORSE, S. Sustainability indicators: Measuring the immeasurable. Earthscan: London, 2000. BENI, M.C. Análise estrutural do turismo. 7.ed. São Paulo: Ed. SENAC, 2002. CAVACO, C. Práticas e lugares de turismo. In: FONSECA, M.L. (coord). Desenvolvimento e território: espaços rurais pós-agrícolas e novos lugares de turismo e lazer. Lisboa: CEG, 2006. CERNAT, L.; GOURDON, J. 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