O TURISMO DE SEGUNDA RESIDÊNCIA:
INTERAÇÕES, IMPACTOS E CONTRADIÇÕES NO BALNEÁRIO
ESCARPAS DO LAGO - CAPITÓLIO – MINAS GERAIS
Luiz Neves de Souza- Centro Universitário UNA
Mestre em Turismo e Meio Ambiente
[email protected]
Nelson Antônio Quadros Vieira Filho –
Coordenador do Mestrado em Turismo e Meio Ambiente
do Centro Universitário UNA
Phd Universidade de Manchester
Introdução
O turismo é uma das atividades de maior crescimento em todo o mundo. Numa
sociedade globalizada, ele ocorre das mais variadas formas, dinamizando vários setores da
economia e se configura como uma das atividades que apresentam os mais altos índices de
crescimento nos dias atuais, movimentando anualmente cerca de US$ 3,5 trilhões e tendo
expandido em 57% suas atividades na última década. É uma das forças centrais da economia
mundial, com importantes significados globais, responsável por mais de 10% do Produto
Interno Bruto e equivalente a mais de 10% da força de trabalho do mundo (MTUR, 2005).
Como alternativa às rotinas das pessoas que vivem nos grandes conglomerados urbanos
e em pequenos espaços físicos, cresce a cada dia uma nova forma de lazer relacionada ao
deslocamento do homem: o turismo de segunda residência.
Essa é uma modalidade de turismo em plena expansão, sobretudo nas proximidades dos
grandes centros urbanos, regiões de litorais e de lagos. Segundo Weagraff (2004), o turismo
de segunda residência nos Estados Unidos cresceu a partir da década de 60 do século passado,
época em que as pessoas com maior poder de compra iniciam o processo de aquisição de
áreas rurais para transformá-las em destinos de suas viagens em períodos de fins de semana e
férias, com a finalidade de recreação, lazer e descanso (WEAGRAFF, 2004).
Os grandes lagos que foram construídos com o objetivo de suprir a demanda por
energia elétrica, necessária ao crescimento industrial e desenvolvimento das regiões e países
onde estão situados, frequentemente compõem o cenário dessa prática de turismo. Em Minas
Gerais, o turismo de segunda residência “lacustre” ganhou grande impulso com o advento das
construções de represas e hidrelétricas a partir da década de 60.
Por outro lado, o turismo surge, em muitos casos, como a principal atividade
econômica para o desenvolvimento da região onde há o represamento de rios, dada a mudança
na paisagem e a melhoria na infra-estrutura de acesso, que possibilitam opções da prática de
diversas atividades econômicas ligadas ao lazer. Soma-se a isso o aparecimento de
propriedades de veraneio às margens desses lagos, inclusive, com a formação de condomínios
ou balneários municipais equipados para a prática de atividades náuticas e para o lazer de um
modo geral.
É objetivo deste artigo, portanto, analisar em que medida e de que forma o turista de
segunda residência impacta a comunidade receptora, bem como analisar como são
eventualmente impactados por residentes, por turistas convencionais e pelo próprio turista de
segunda residência, em suas relações socioculturais e ambientais, a partir das percepções de
representantes de segmentos da população de Capitólio – Minas Gerais, município onde está
localizado o Balneário Escarpas do Lago, dando ênfase às contradições do próprio modelo de
turismo de segunda residência.
Os Impactos do Turismo
Alguns autores vêm chamando a atenção, em encontros e debates, sobre o conceito de
impacto aplicado nas análises sobre o turismo. O termo impacto presente na literatura
tradicional, muitas vezes sugere a existência de uma força externa atuando sobre uma
realidade interna, remetendo a certa conotação de passividade desta última. Os debates atuais
acerca desse tema sugerem que na verdade, esse encontro se dá através de processos que se
imbricam, em uma rede de efeitos contrários e em processos interativos entre o interno e o
externo (VIEIRA FILHO, 1999).
Embora haja essa discussão atual sobre o conceito, o termo será utilizado nas análises
aqui propostas, dado a ausência de um conceito que o substitua adequadamente e por tratar-se
de um conceito bastante utilizado na literatura de meio ambiente. A utilização deste termo
impacto não implicará que será considerada nas análises uma dicotomia entre o externo e o
interno e uma postura passiva da população impactada. Pelo contrário, considerar-se-á os
processos interativos e os efeitos derivados do encontro entre as populações estudadas, na
percepção das mesmas.
Dessa forma, serão considerados como impactos locais do turismo neste trabalho, o
conjunto de modificações derivadas do desenvolvimento da atividade nas regiões de destino,
percebidas pelos atores em questão. Esses impactos são a conseqüência da interação entre
turistas, os anfitriões e o meio ambiente.
Especificamente em relação aos impactos causados pela atividade turística em
comunidades receptoras, independente da modalidade, existe um conjunto de obras
disponíveis na literatura, o que demonstra uma preocupação dos estudiosos com o reflexo do
crescimento da atividade turística em todo mundo. Vieira Filho (2005 a) entende que os
estudos relativos aos impactos do turismo não devam se restringir apenas aos benefícios
gerados em termos econômicos pelo binômio emprego e renda e nem pelos fatores negativos
advindos de crescimento desordenado, que normalmente provoca sérios danos ambientais.
“O fenômeno do turismo pode impactar as sociedades locais
de diferentes formas e trazer como conseqüência tanto a
degradação como a conservação e revitalização do ambiente e
patrimônio das regiões de destino (...). Os impactos e sua
magnitude dependem de uma série de fatores ligados às
particularidades da população e do meio ambiente do destino
turístico, do perfil, características e comportamentos dos
fluxos turísticos que se estabelecem e das formas de
intervenção do Estado, da indústria turística e outros agentes
nesse processo” (VIEIRA FILHO, 2005 a, p.3).
O fato de a literatura de turismo tender a focalizar apenas os impactos sofridos pela
comunidade receptora, deixando de analisar os impactos da atividade também nos turistas,
reflete-se até no próprio conceito de impactos socioculturais da Organização Mundial do
Turismo. Para a entidade maior do turismo no mundo:
“Os impactos sociais, como regra geral, estão relacionados à
transformação nas vidas das pessoas que moram em
comunidades-destino, e estão mais associados ao contato
direto entre moradores e visitantes. Os impactos culturais
estão ligados a mudança nas artes, artesanato, costumes,
rituais e arquitetura de um povo, constituindo-se em mudanças
de longo prazo, que resultam mais do desenvolvimento
turístico. Como a maior parte das conseqüências do turismo
envolve mudanças na vida cotidiana e na cultura, o termo
impactos socioculturais é utilizado para referir-se a mudanças
nas experiências no dia-a-dia dos residentes, bem como em
seus valores, estilo de vida e produtos intelectuais e artísticos”
(OMT, 2003, p. 159).
Como se vê, na definição oficial da OMT há uma ênfase apenas nas “mudanças das
experiências do dia-a-dia dos residentes”, incluindo os valores, estilo de vida e produtos
intelectuais e artísticos, não especificando, em nenhum momento, o outro lado da interação
que são os impactos sofridos pelos turistas.
Nessa linha de pensamento, Vieira Filho (2005 b) destaca que os turistas de segundaresidência, normalmente, são colocados na literatura como “impactantes”, porém podem ser
vistos como um dos maiores impactados e vítimas de um processo de desenvolvimento
turístico.
No Brasil, destacam-se as obras que abordam os impactos ambientais do turismo
convencional como Seabra (2001), Ruschmann (2001), Ferreti (2002), Dias (2003), Fonteles
(2004), Vieira Filho (2005 a), Lage e Milone (1998), dentre outros. Essas obras que abordam
os impactos do turismo servirão para consubstanciar as análises do presente estudo acerca dos
impactos do turismo de segunda residência, no qual se amplia o foco de análise também para
os impactos da comunidade receptora e do turista convencional nos turistas de segunda
residência.
Algumas vertentes na literatura de turismo convencionalmente estabelecem uma divisão
conceitual ao discutirem e refletirem sobre os impactos causados pela atividade. Geralmente,
esses impactos são separados pelos aspectos econômico, ambiental e sociocultural.
O Turismo de Segunda Residência
O turismo de segunda residência ainda é uma modalidade pouco estudada no Brasil,
mesmo com a presença marcante dessa forma de viagem nos arredores dos grandes centros
urbanos e regiões serranas e nos ambientes lacustres e litorâneos. Os turistas de segunda
residência, segundo a maioria dos autores pesquisados (Girard e Gartner, 1993; Tulik, 2001;
Boyer, 1972; Pearce, 1988) são aqueles que adquirem uma segunda moradia para fins
recreacionais e para descanso nessas localidades, denominando essa atividade como “turismo
de segunda residência”.
Girard e Gartner (1993) entendem que os proprietários de casas de temporada não
podem ser considerados como “não-turistas”, já que eles representam uma fatia importante da
atividade, não só nos Estados Unidos, como em qualquer lugar.
O IBGE (2005) identifica as segundas residências ou domicílios de uso ocasional
como “os domicílios particulares usados para descanso de fim de semana, férias ou outro
fim”. Qualquer que seja o termo aplicado ao domicílio ou imóvel que serve como residência
secundária ou alojamento turístico, esse apresenta aspectos conceituais que merecem ser
analisados à luz da realidade brasileira. Os termos mais utilizados na literatura, além de
“segunda residência”, são “domicílios de uso ocasional”, “residência turística”, “residência
secundária”, “casa de campo”, “casa de temporada”, “residências de lazer” e “residência de
férias” (TULIK, 2001, p. 6).
A evolução desse conceito ocorre há algumas décadas. Ragatz (1970) enfatiza a
utilização da segunda residência para férias ao chamá-la de “residência de férias” e afirmar
que seus ocupantes devem ter algum outro lugar como residência principal, reforçando que a
construção tenha sido pensada previamente com o propósito de realizar atividades no tempo
de lazer.
Boyer (1972), no espectro de sua definição, ao chamar a segunda residência de
“residência de lazer”, amplia o conceito de Ragatz (1970), destacando apenas que o
proprietário seja, habitualmente, um morador de área urbana que utiliza a residência
secundária para passar férias, total ou parcialmente, e para fins de semana.
Pearce, (apud Tulik, 2001), por sua vez, moderniza o conceito de residência
secundária ao lhe dar o elemento “turismo” e ressaltar que esse tipo de alojamento contribui
para a composição da oferta de meios de hospedagem da destinação turística e integra a oferta
turística que está compreendida nas estruturas e nos processos do desenvolvimento turístico.
Burby, Donnely e Weiss (apud Girard e Gartner, 1993) constataram, em pesquisa nos
Estados Unidos, que a escolha determinante para a compra de uma casa de temporada está
relacionada à localização da água, à distância da residência primária, à presença de amigos e
família, além de outras características físicas como topografia e paisagens.
Jordan (apud Girard e Gartner, 1993) investigou a interação de visitantes e anfitriões
em Vermont (EUA) e afirmou que os “locais tidos como simples e aconchegantes costumam
ter como características habitantes simples e seletivos, e com a vinda dos turistas, o cotidiano
que era simples se torna tumultuado”.
Vieira Filho (2005 b) sugere que todas as definições e tipologias do turismo e turistas
conhecidas devam ser vistas com mais ceticismo. Para ele, as definições e tipologias
necessitam de especificações e limites, que só podem ser arbitrariamente definidos de acordo
com os objetivos do pesquisador.
“Os conceitos de ‘turismo’ e ‘turista’, bem como os
conceitos que estão normalmente contidos neles a fim
de defini-los tais como a referência a ‘lazer’ e ‘prazer’
possuem potencialmente diferentes significados para
as pessoas em diferentes contextos” (VIEIRA FILHO,
2005b, p. 4).
Neste trabalho, para fins de definição, a priori, dos sujeitos de pesquisa, serão
considerados os conceitos de Girard e Gartner (1993), Boyer (1972), Ragatz (1970), Pearce
(1988), Silva, Teixeira, Bahia (2005) que, dentre outros aspectos, enfatizam a noção de
proprietário para caracterizar o turista de segunda residência e o conceito de Tulik (2001)
ancorado no dicionário de Geografia Humana, que define a segunda residência como “a
propriedade que pode ser própria, alugada para fins de segunda residência ou arrendada por
uma família, cuja residência principal está situada em outro local” (JOHNSTON apud Tulik,
2001).
Apesar do locatário, neste caso, ter evidentes diferenças com os proprietários, optou-se
pela inclusão dos locatários na categoria de turistas de segunda residência nesse artigo, em
função do mesmo apresentar muitas características similares ao turista proprietário, em termos
de finalidade da locação, motivação e freqüência nas viagens. Para efeito prático, considerouse o aluguel para fins de segunda residência, aquele igual ou superior a um ano de locação do
imóvel. Por isso, por turista de segunda residência entender-se-á os proprietários de residência
(incluindo os membros da familia nuclear que também visitam a segunda residência), além
daqueles que possuem residência turística alugada para longo prazo.
É fundamental captar as percepções e vozes dos atores sociais envolvidos nas relações
sociais dentro da própria comunidade ou nas interações com os turistas acerca dos aspectos
negativos e positivos decorrentes do turismo. Por isso, os residentes devem ser inseridos no
processo de planejamento, nas discussões e transformações da comunidade e, sobretudo, nos
benefícios que a atividade pode proporcionar a todos em todos os níveis.
O caso de Escarpas do Lago é um exemplo em que as diretrizes do planejamento do
turismo não foram cumpridas a contento. Em função disto, muitos impactos negativos da
atividade que poderiam ter sido evitados são visíveis.
Caracterização da Cidade de Capitólio e do Balneário Escarpas do Lago
A cidade
Em termos geográficos, a cidade está situada na porção sudoeste de Minas Gerais, na
microrregião polarizada por Passos e faz divisa com os municípios de Piumhi, Vargem
Bonita, Pimenta, São João Batista do Glória, São José da Barra e Guapé.
A cidade é banhada pelos ribeirões do Grotão e do Turvo, que pertencem à Bacia do
Rio Grande, além das águas do Lago de Furnas. Está situada a 284 quilômetros de Belo
Horizonte, Capital do Estado de Minas Gerais, com acesso pela rodovia MG-050
(IGA/CETEC, 2005).
A história de Capitólio, segundo dados oficiais, inicia-se em 1893, quando atraído pela
fertilidade do solo, Pedro Messias da Cunha instalou-se nas imediações com alguns colonos,
formando a povoação no local, que passou a receber novos habitantes. A localidade recebeu o
primeiro nome de Casa de Pedras, nome proveniente das formas arquitetônicas utilizadas com
um tipo de pedra existente na região. Em seguida, passou a se chamar Arraial dos Cabeças,
em referência aos principais fazendeiros ali instalados (ALVES e MELO, 2002).
O nome da cidade foi sugerido pelo padre local, mas coube ao membro da comissão de
moradores, Dr. Abel de Moraes Bello, comunicar à população a origem do nome, que não tem
nenhuma referência com o Capitólio de Roma (BARROS, 1993):
O Balneário
A construção do Balneário Escarpas do Lago deriva da obra de represamento do Rio
Grande pelo seu potencial hidrelétrico, que culminou com a construção da Barragem de
Furnas, no Governo de Juscelino Kubitscheck. O projeto foi idealizado pelo engenheiro
Marcos Mendes Júnior e com a ajuda de técnicos da construtora as obras no Escarpas do Lago
iniciaram-se em 1978 e consistiram na construção de barragens de contenção de nascentes,
lagos artificiais, estações de piscicultura, além de conjunto social, esportivo, comercial e
residencial.
O conjunto residencial conta com 525 casas construídas, todas em ruas pavimentadas e
iluminadas, água tratada, vigilância 24 horas, 2.600 metros quadrados de praças e áreas de
lazer e, atualmente, possui mais de 600 lotes disponíveis para venda e construção de novas
residências (ESCARPAS DO LAGO, 2005).
Não se trata, portanto, de um condomínio fechado, embora seja considerado pelas
pessoas que visitam o local, haja vista a instalação de uma cancela, pela associação do clube,
com porteiros 24 horas todos os dias, implantada para inibir o acesso das pessoas e efetuar o
controle de acesso ao balneário.
Ao possuir o status jurídico de Bairro, o Escarpas do Lago é submetido à política do
município de Capitólio, que é responsável pela pavimentação de ruas, serviços de saúde,
transporte público, dentre outras obrigações do governo municipal. Para tratar dos interesses
dos turistas de segunda residência, comerciantes e empresas do local, foi criada uma
associação dos moradores do Balneário Escarpas do Lago.
Foi criada também uma entidade civil com representantes dos turistas de segunda
residência, que cuida dos interesses dos associados do Clube Campestre Escapas do Lago,
como arrecadação, eventos, administração de áreas sociais, manutenção e programação
cultural no local.
ASPECTOS METODOLÓGICOS
A abordagem realizada para esta pesquisa é do tipo qualitativa, exploratória e
apropriada aos objetivos propostos e à estratégia formulada. A opção pela realização de uma
pesquisa qualitativa, para se analisar os impactos do turismo de segunda residência no
Balneário Escarpas do Lago, permitiu a descrição e análise dos processos vividos pela
comunidade estudada, em maior nível de profundidade.
A pesquisa exploratória realizada em janeiro, fevereiro e março de 2005, quando
foram entrevistados representantes de organizações de referência para informações sobre a
implementação do Balneário Escarpas do Lago às margens do Lago de Furnas, na Cidade de
Capitólio em Minas Gerais. No rol de entrevistados figuraram representantes da Associação
dos Municípios do Lago de Furnas – ALAGO, o Administrador do Clube Campestre Escarpas
do Lago, a proprietária do Hotel Escarpas do Lago, localizado dentro do Balneário,
representante da Diretoria de Turismo do município e do poder público municipal, além de
empresários das áreas de turismo, comércio e serviços da região. Nessa etapa, as entrevistas
foram abertas e objetivaram a identificação dos seguintes aspectos: histórico, organização e
estrutura do Balneário e do Clube Campestre Escarpas do Lago, indicação de pessoas
representantes dos principais segmentos da população local e de turistas de segunda
residência para compor o rol de escolhidos para as entrevistas em profundidade como
informantes-chaves.
Foram realizadas entrevistas em profundidade com representantes de segmentos da
população local. O formulário semi-estruturado que norteou essas entrevistas, foi dividido em
dois blocos de questões e focou-se perguntas específicas para o grupo pesquisado. No
primeiro bloco, buscou-se informações relacionadas ao perfil dos respondentes, incluindo
idade, atividade profissional principal, escolaridade, tempo de residência em Capitólio,
conhecimento e relação do entrevistado com o Balneário Escarpas do Lago. Nesse bloco
ainda foi perguntado ao entrevistado qual o seu segmento de atuação em Capitólio e se sua
profissão tem alguma relação com a atividade turística ou com o balneário. O segundo bloco
focou-se nas questões relacionadas com a atividade turística, como a definição de turismo no
entendimento do entrevistado, se ele considera os proprietários de residências como turistas,
se se relaciona com os proprietários e como avalia esses contatos. Foi perguntado também o
que mais lhe agrada ou desagrada nesses relacionamentos. Ao final, o formulário centra-se
nas questões relacionadas aos impactos, relacionamentos, contradições e percepções do
entrevistado.
A entrevista em profundidade, com os representantes de segmentos da população de
Capitólio, partiu de dois pressupostos revelados pela pesquisa exploratória: a) que há uma
forte influência do Balneário Escarpas do Lago na vida social, política, econômica e cultural
da comunidade de Capitólio; b) que a sociedade civil na localidade não está organizada o
suficiente, através de entidades e organizações, para que se extraísse de seus líderes opiniões
generalizáveis a toda a comunidade local. Diante disso, necessário seria, para se alcançar de
forma segura e inquestionável tal representatividade, a definição de uma amostra baseada em
toda a população de Capitólio e com instrumentos específicos, tempo e recursos financeiros
suficientes para essa modalidade de pesquisa.
Não sendo possível realizar a pesquisa com esse formato, pela falta de uma base de
dados adequada, limitações de recursos e tempo, buscou-se, então, uma diversidade de atores
de referência cujas opiniões representassem, qualitativamente, segmentos importantes da
população local. Como critério de seleção, procurou-se um conjunto de 25 pessoas,
selecionadas entre 50 nomes indicados pelos entrevistados na fase exploratória da pesquisa,
por se destacarem como bons informantes e formadores de opinião na localidade. Levou-se
em conta ainda para a seleção de 25 nomes a disponibilidade para as entrevistas, níveis de
escolaridade, faixa etária e área de atuação diversificados.
Dentre os segmentos da população representados estão: empresários dos setores de
turismo, hotelaria, supermercados, negócios imobiliários, construção civil, alimentos e
bebidas, lideranças comunitárias, funcionários de empresas turísticas em níveis operacionais,
táticos, estratégicos, funcionalismo público, profissionais liberais, segurança pública,
entidades religiosas, setor agrícola, representantes de organização não-governamental, donas
de casas e estudantes.
Obviamente, essa amostra não abrange todos os possíveis segmentos da população
local nem esgota o leque de questões que poderiam ser levantadas. Todavia, a diversidade da
amostra trabalhada permitiu explorar e trazer à tona importantes aspectos e percepções
relativas ao tema em questão na perspectiva da população local.
Considerando o tamanho da cidade de Capitólio, qualquer referência feita nos
depoimentos e diálogos, estabelecidos nas entrevistas, relacionadas aos nomes dos atores de
referência, seria de fácil identificação pelo leitor da localidade. Para se evitar
constrangimentos e se preservar as identidades dos entrevistados, na sistematização e análise
dos dados, foram omitidos os nomes dos entrevistados, representantes de segmentos da
população local, conforme solicitado por alguns deles ao responderem questões que
consideraram polêmicas e que poderiam prejudicá-los de alguma forma pela autoria dos
depoimentos. Com isso, foram utilizados apenas a profissão, cargo ou função social do
entrevistado na discussão e análise dos dados no quarto capítulo.
A análise de conteúdo do material coletado nas entrevistas se baseou nos objetivos da
pesquisa, passando por três momentos: pré-análise, que implica, principalmente, em leitura do
material coletado e na escolha dos documentos e sua adequação, análise do material que
requer a categorização e quantificação da informação e, por último, promoveu-se o tratamento
dos resultados.
Representantes de segmentos da população de Capitólio e suas percepções
sobre o turismo de segunda residência no Balneário Escarpas do Lago e
seus impactos
A partir das entrevistas realizadas foi possível detectar que a comunidade de
Capitólio, representada nesse trabalho por representantes de segmentos da população, mantém
sólidos laços com a atividade turística e com o Balneário Escarpas do Lago e que a dinâmica
social e econômica da localidade está centrada no turismo. Todos os entrevistados são
moradores de Capitólio e conhecem ou já ouviram falar no Balneário.
Nas entrevistas realizadas com esses representantes de segmentos da população local,
percebeu-se que o Balneário Escarpas do Lago faz parte do dia-a-dia da comunidade, haja
vista que todos conhecem ou já viram falar do local e grande parte mantém algum tipo de
relacionamento profissional ou pessoal com o local ou com pessoas diretamente envolvidas
com o Escarpas do Lago. Todos os entrevistados são moradores de Capitólio e conhecem ou
já ouviram falar no Balneário.
As entrevistas com esses representantes da comunidade abordaram inicialmente a
opinião do entrevistado sobre o que é turismo e procurou captar se os proprietários são
considerados como turistas.
As respostas sobre o que é turismo apresentaram elementos que se interligam às
definições da literatura do turismo de um modo geral. Parte do grupo entrevistado tem o
turismo como atividade econômica e oportunidade de negócio. Um grupo vê a atividade
centrada na oferta de atrativos naturais, culturais ou de localidades específicas e outro grupo
de respostas define o turismo com ênfase no turista e suas motivações e no sistema receptivo.
Ao serem perguntados se identificam os proprietários de residências no Escarpas do
Lago como turistas, os atores pesquisados procuraram justificar suas respostas sempre
considerando o que eles entendem como turismo. Houve um equilíbrio nesses entendimentos,
uma vez que do total de entrevistados, 53,3% responderam que identificam os proprietários
como turistas, justificando o fato de possuírem residências e pagarem impostos, enquanto
46,7% não os identificam como tais já que esses deslocam e viajam para se chegar até
Capitólio.
Os entrevistados ainda foram perguntados se percebem algum impacto nos níveis
socioculturais, econômicos e ambientais, causados pela presença das residências no Escarpas
do Lago na comunidade de Capitólio, de forma positiva ou negativa. Como impactos
positivos destacados pelos entrevistados, predominou o econômico, citado por todos os
informantes, tendo sido ressaltados, na oportunidade, os aspectos de geração de renda e o
expressivo número de empregos gerados no Balneário, evidenciando o grande respeito que a
comunidade tem pelos turistas de segunda residência.
Os impactos culturais positivos também foram muito citados, muito embora essa
percepção tenha figurado nos diálogos e respostas de forma não intencional em certos casos.
“Escarpas mudou a arquitetura de Capitólio. Agora qualquer
jardineiro e empregado da Escarpas do Lago têm casas
diferentes dos outros moradores. Elas parecem com as casas
de seus patrões, com recortes, vidros e não tem nada a ver
com casas do interior e como era antigamente” (Empresário).
Doxey (1976) relata que o problema mais comum para os residentes é o medo da
perda de identidade. Seus estudos interpretam os efeitos da atividade turística nos residentes
locais que alteram a vida normal da comunidade. Em alguns diálogos, foi possível perceber a
preocupação com esse impacto cultural, ilustrado por um entrevistado:
“Capitólio perdeu a cultura própria e sofre uma influência
externa grande. Capitólio absorveu a cultura deles e perdeu a
que tinha” (Artesão).
No que diz respeito aos impactos ou influências negativas causadas na cidade de
Capitólio, a priori percebeu-se uma certa inquietação entre alguns emtrevistados que receiam
relatá-los devido à importância que se dá à presença do Balneário na cidade.
Para contrapor às percepções dos impactos causados pelo turismo de segunda
residência na comunidade de Capitólio, os entrevistados foram perguntados também sobre
suas percepções sobre a outra face da interação no ambiente turístico, que são os impactos
causados pelos residentes e pelo turismo convencional no turismo de segunda residência nos
níveis socioculturais, econômicos e ambientais.
Um fato que ficou evidente nas entrevistas é a preocupação dos entrevistados em
relação aos impactos daqueles que se hospedam em hotéis ou aqueles que alugam casas de
turista de segunda residência – Aqui denominados como turistas convencionais.
No comentário abaixo, percebe-se que não há distinção entre o turista convencional,
que utiliza hotel, e o turista convencional, que aluga casa no balneário, mas é destacado que o
impacto mais agressivo é derivado dos aluguéis irresponsáveis que ocorrem no Balneário por
grupos de turistas. Veja o que diz um entrevistado.
“Os turistas do hotel e os ‘alugados’ afetam o sossego alheio. É
o que mais dá pepino. O que mais implica é o caso dos aluguéis
irresponsáveis de casas. As pessoas alugam casas e trazem até
50 pessoas, mesmo falando que o aluguel seria só para um
casal. E ai como ficam os vizinhos deles que são donos de
casas?” (Estudante).
O turismo convencional, constituído pelos hóspedes do hotel, localizado no interior do
Balneário, mesmo tendo sido citado em algumas entrevistas, foi defendido em alguns
depoimentos, como no exemplo abaixo:
“Os turistas do hotel não dão muito trabalho. São bons
para mexer com eles. Agora, os que alugam as casas
dão problemas e às vezes o próprio dono de casa
aluga o hotel para hospedar amigos que não cabem
nas casas” (Porteiro).
Em alguns casos, foi possível perceber que os entrevistados, além de apontar com
veemência os impactos causados pelo turismo convencional, também procuram traçar o perfil
do turista de segunda residência, e mesmo com sutileza, ensaiam a sua defesa relatando seus
hábitos e atitudes nos períodos de maior impacto.
“O dono de casa é muito reservado e gosta de pouco
movimento. Então, não gosta de turista e não gosta do
condomínio cheio porque se incomoda muito com o turista
nessas épocas” (Corretor de Imóveis).
Em relação a outras modalidades de impactos negativos causados pelos residentes e
relacionados com o turismo convencional nos turistas de segunda residência, destacaram-se as
percepções dos atores entrevistados em torno de preços abusivos no comércio local, o que de
certa forma prejudica tanto os proprietários de residências, que sofrem o impacto na
percepção dos atores de referência, como também a própria comunidade. A seguir um relato
nesse sentido:
“O próprio dono de casa já se sente explorado pelo comércio
local e sentindo-se lesado, já está trazendo tudo de Belo
Horizonte como compras e bebidas” (Empresário).
Esta pesquisa abordou a percepção dos representantes de segmentos da população de
Capitólio sobre os impactos causados pelo turismo de segunda residência, tendo como objeto
de análise questionários de entrevistas em profundidade.
Foi possível perceber nesta etapa, que os impactos causados pelo turista de segunda
residência são evidentes e perceptíveis aos olhos dos entrevistados. Destaca-se, contudo, os
aspectos levantados em termos de impactos sofridos pelo turismo de segunda residência,
sobretudo, aqueles inerentes à presença do turismo convencional, em suas relações
estabelecidas no ambiente turístico e ainda, a falta de investimentos adequados e justos pela
iniciativa pública em prol dos turistas de segunda residência, como melhorias nas vias de
acesso, ruas e praças no interior do Balneário e manutenções em geral.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo teve como objeto o turismo de segunda residência, relacionado ao
Balneário Escarpas do Lago em Capitólio (Minas Gerais). As análises se basearam em
levantamento bibliográfico e pesquisa documental sobre o turismo de segunda residência e a
questão dos impactos do turismo no balneário e Capitólio.
Buscou-se nesta pesquisa contribuir para as reflexões e debates sobre o turismo de
segunda residência, uma forma de viagem muito pouco estudada no mundo e em especial no
Brasil.
A pesquisa buscou captar a percepção dos entrevistados sobre os impactos do turismo
de segunda residência na comunidade de Capitólio e também sobre os turistas de segunda
residência enquanto impactados pelos residentes e pelo turismo convencional. Para isso,
procurou-se identificar inicialmente o entendimento dos atores pesquisados sobre o turismo
de uma forma geral e sobre quem é turista naquele contexto, bem como as dimensões dos
relacionamentos e contatos existentes no ambiente turístico.
Em relação aos impactos positivos dos turistas de segunda residência na comunidade
de Capitólio, constatou-se que o impacto econômico na comunidade é percebido
positivamente por todos os atores de referência entrevistados, demonstrando que o turismo de
segunda residência é a mola condutora da localidade.
Em termos negativos, ficou evidente nas análises e discussões que o impacto mais
preocupante para os residentes é a escalada da prostituição e movimentação de drogas em
Capitólio, influenciados pelas transformações do município nas temporadas de férias, feriados
e eventos na cidade ou no balneário. Mas percebe-se também que pelo entendimento e
percepção dos representantes de segmentos da população local que esse é um “mal menor” e a
comunidade deve entender que os benefícios advindos da presença dos turistas de segunda
residência são maiores do que as mazelas trazidas para o seio da localidade.
Ao analisar os impactos dos residentes e do turismo convencional no turismo de
segunda residência, através das percepções dos atores entrevistados, nota-se que os impactos
positivos geralmente estão relacionados aos residentes enquanto os impactos negativos nos
turistas de segunda residência recaem, quase sempre, nos turistas convencionais (barulho,
perturbação, tumultos), que alugam residências no Escarpas do Lago e aqueles que se
hospedam no hotel, localizado no interior do balneário.
Analisar o turista de segunda residência não só como impactante mas também como
impactado a partir das percepções oriundas da comunidade local, ao contrário do que se vê
convencionalmente, é talvez a contribuição mais relevante deste estudo para a literatura.
É recomendação desse trabalho que haja um debate aberto sobre as situações de
entraves que cercam as relações existentes no Balneário Escarpas do Lago, possibilitando uma
maior participação dos formuladores de políticas públicas na localidade, em relação às
questões inerentes às normas e regulamentações nas áreas públicas da Escarpas do Lago.
É preciso, ainda, a adoção de um programa de sensibilização de toda comunidade e em
especial da população de turistas de segunda residência e de turismo convencional sobre os
problemas advindos das drogas, prostituição e roubos no local.
E, por fim, é preciso que o poder público local insira o turismo no âmbito dos projetos
estruturantes da municipalidade e contribua para maior organização e participação da
sociedade civil nas discussões e reflexões sobre o turismo de segunda residência no Balneário
Escarpas do Lago, porém colocando em primeiro plano de suas ações mitigadoras o ser
humano e o meio ambiente, elementos essenciais para que o turismo se realize.
Não será tarefa fácil implementar as ações aqui recomendadas por diversos fatores.
Primeiro, por que se têm no local, contradições do próprio modelo de turismo de segunda
residência, haja vista que quanto mais barulho e perturbação mais aumenta a evasão dos
turistas de segunda residência que alugam suas residências para o turismo convencional,
modalidade apontada pelos entrevistados como a maior causadora dos impactos negativos no
local, o que dificultará, até certo modo, a adoção de medidas para mitigar os impactos do
turismo. Segundo, pela própria constituição jurídica do local que ao ter status jurídico de
bairro, dificulta a criação de instrumentos que regulem a atividade no local. Terceiro, tem-se a
existência de interesses divergentes entre turistas de segunda residência que nem sempre
caminham para a harmonia e tranqüilidade no local.
É preciso, contudo, dar o primeiro passo para a implantação de um modelo de turismo
menos agressivo e mais saudável do ponto de vista do lazer, descanso e de recreação,
atingindo os objetivos do projeto e sonho da segunda residência de cada um.
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O TURISMO DE SEGUNDA RESIDÊNCIA: