AZIMUTE
]
REVISTA MILITAR DA INFANTARIA
EPI
12
N.º 187 – Agosto 2009
Colóquio D. Nuno Álvares Pereira
Director:
Comandante da EPI
COR INF João Manuel de Sousa Meneses Ormonde Mendes
Coordenação e Redacção:
COR INF REF Nelson de Sousa Figueiredo
TCOR INF João Pedro Rato Boga de Oliveira Ribeiro
TCOR INF Sebastião Joaquim Rebouta Macedo
MAJ Álvaro Manuel Tavares de Carvalho Campeão
Relações Públicas:
MAJ Álvaro Manuel Tavares de Carvalho Campeão
Capa:
SCH INF Jorge M. M. Miranda
Desenho D. Nun’ Álvares:
Maj Inf Álvaro Campeão
Composição/Paginação:
SOLD RC Lino Filipe Marques da Rocha
Impressão:
Rolo & Filhos II, S.A. (Mafra)
Tel. 261 816 500
O Portal da Arma da Infantaria
51
Propriedade:
EPI - Alameda da Escola Prática de Infantaria
2640 - 777 MAFRA
Tel. Civil - 261 81 21 05
Fax Civil - 261 81 16 01
Tel. Mil. (Central) - 420 400
Fax Mil. - 420 505
Tel. Relações Públicas - 420 456
Fax Relações Públicas - 420 455
www.exercito.pt
[email protected]
[email protected]
[email protected]
Tiragem:
1000 Exemplares
Depósito Legal n.º 4510/84
2
Nº 187 AGO09
53
Jornadas de Infantaria 2009
]
3
4
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Indíce
Editorial
Mensagem do Director-Honorário da Arma de Infantaria
Temas Gerais
5
7
10
25 Anos na EPI
Tirocínio Para Oficial de Infantaria “Train As You Fight”
O Batalhão de Formação Militar Geral - Um Ano de Actividade
Tema - O Patrono da Infantaria
12
14
22
25
28
33
39
45
50
51
O Colóquio D. Nuno Álvares Pereira
D. Nuno Álvares Pereira - O Homem
D. Nuno Álvares Pereira - O Militar
São Nuno de Santa Maria - Um Santo Condestável e Carmelita
A Situação Político-Militar na Guerra dos Cem Anos (1337-1453)
O Armamento da Época Medieval
A Crise de 1383-1385 e a Batalha de Atoleiros
A Invasão Castelhana e a Batalha de Aljubarrota
As Patrulhas Nun’ Álvares Pereira - Edição 2009
O Portal da Arma de Infantaria
Tecnicamente Falando
52
57
64
67
71
73
Jornadas de Infantaria - “As Pequenas Unidades de Infantaria no Combate em Áreas Edificadas”
O Batalhão de Infantaria Mecanizado virado para o Futuro
As Armas Anticarro num contexto de evolução
O Morteiro - Fundamental no Passado, Decisivo no Futuro
A Formação de Jornalistas em Zona de Conflito
Maneuver Captain’s Career Course
Actividades
75
77
Juramento de Bandeira do 3º CFGCPE/2009 na Ericeira
Visitas e Notícias
Cultural
86
88
Higiene e Segurança Alimentar na Escola Prática de Infantaria
In memorium
Os artigos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores,
e não vinculam as opiniões do Corpo Editorial.
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3
AZIMUTE
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Editorial
Dois elementos marcantes assinalam esta edição: a canonização
de D. Nuno Álvares Pereira, em 26 de Abril do corrente ano, por sua
Santidade o Papa Bento XVI, e o aniversário comemorativo dos quarenta e cinco anos da Revista Azimute, 1964-2009.
Ilustre personalidade da nossa História, com inegável projecção
arreigado no coração de todos os Infantes portugueses, o Patrono
da Arma de Infantaria foi, este ano, objecto de um vasto programa
de comemorações, sendo de destacar, no âmbito da Infantaria, por
ordem cronológica da sua realização, as tradicionais Patrulhas Nun’
Álvares, abertas à participação de todas as Unidades de Infantaria; o
da sobre o Homem, o Militar e o Santo; o Concerto em sua homenagem, conduzido pela Banda Sinfónica do Exército, na Biblioteca do
Palácio Nacional de Mafra; e, por último, o tradicional cerimonial militar, em 14 de Agosto, antecedido por uma missa de acção de graças
na Basílica, com a presença das relíquias de S. Nuno de Santa Maria, e sucedido por uma exposição
sobre o seu legado, as suas representações e as principais vitórias militares em que foi protagonista,
a que quiseram associar-se inúmeras entidades, instituições e organizações para as quais D. Nuno
Este foi o ano do Santo Condestável, em que igualmente foi relembrado o Portugal de Aljubarrota,
inspirador nos momentos de crise, de dúvida, de incerteza, com a certeza de que tudo é possível, tendo como paradigma os princípios enformadores da nossa existência soberana, baseada numa vontade nacional determinada, no sacrifício heróico e patriótico dos nossos antepassados, agigantando-se
perante a liberdade e a independência em perigo, na defesa do solo pátrio, superiormente liderados
por um chefe militar exímio.
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O outro elemento que igualmente assinalamos neste número: quarenta e cinco anos de história da Revista Azimute – um marco de inequívoca maturidade, de experiência empreendedora, de
informação útil, de divulgação de ideias precursoras de mentalidades vanguardistas, de conceitos
inovadores, de evolução doutrinária, organizacional, táctica e operacional, e dos seus equipamentos
e armamento. Um instrumento privilegiado na preservação da memória colectiva, do historial, das
tradições e dos símbolos da Arma da Infantaria, bem como no aprofundamento dos mais sublimes
valores éticos e morais, pilares perenes e incontornáveis da Instituição Militar, verdadeiros multiplicadores do seu potencial e da acção de todos quantos nela servem, no cumprimento dos superiores
desígnios da Nação.
Quarenta e cinco anos de atitude determinada, de ambição construtiva, de primazia ao reforço
%
'
%
*
Que o seu caminho continue a ser o da procura permanente da excelência e da modernidade, em
prol dos Infantes e da Arma de Infantaria.
Termino, citando a mais nobre página da histórica primeira edição do “Jornal Azimute”, cujo “responsável e iniciador” foi o mui ilustre Coronel de Infantaria Vaz Antunes: “Esta é a nossa Revista,
espero que se Perpetue no tempo!” - Escola Prática de Infantaria, 15 de Março de 1964 – …
4
Nº 187 AGO09
AZIMUTE
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Mensagem do
Director-Honorário da Arma de Infantaria
A canonização em 26 de Abril de 2009 do Condestável, D. Nuno Álvares Pereira,
Patrono da Arma de Infantaria, foi pretexto para intervenções de vária ordem que versaram
o Homem, o Militar e o Santo.
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*
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após ano o celebramos em 14 de Agosto, vimo-nos desta vez acompanhados por várias
correntes de pensamento que praticamente de forma unânime concluíram sobre a sua
grandeza como Homem cujo comportamento e atitude ultrapassaram as questões materiais e terrenas para se passarem a situar no patamar da espiritualidade.
Em várias dessas ocasiões discutiu-se se a sua condição de cavaleiro do Rei se coadunava com a sua referência actual como Infante, ao ponto de se ter constituído como
Patrono da Arma.
A educação de D. Nuno na corte do Rei D. Fernando iniciou-se cedo, ainda adolescente. Parte dessa educação centrou-se, conforme uso da época, no ensino das coisas da
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?
dos Cem Anos, que envolvendo praticamente todos os Reinos de então opunha principalmente o Reino de Inglaterra ao de França.
França e Inglaterra tinham concepções diferentes na forma de a fazer.
Os franceses continuavam imbuídos do espírito cavaleiro típico do feudalismo. O seu
principal elemento de combate continuava a ser a cavalaria, protegida pela armadura metálica e pesada que sufocava os homens e limitava a sua mobilidade. Esta força valia-se
do seu espírito guerreiro, bravura, coragem, e baseava a sua manobra na procura da superioridade numérica para alcançar a vitória.
Já para o Ingleses os cavaleiros tinham que estar preparados para apear e combater
adaptando o dispositivo às características do terreno, conjugando assim o obstáculo com
'
K
%
*
Não despiciente é o facto dos Ingleses terem instituído o serviço militar obrigatório, o
que trouxe o povo aos combates e como ele é normalmente, despojado de meios, apenas
fortalecido pela sua própria convicção.
D. Nuno, apesar da sua juventude foi capaz de com inteligência e pragmatismo, fazer
a simbiose perfeita entre estes dois sistemas, sendo um dos mais notáveis da sua época
na concepção da manobra tirando todo o partido dos meios de que dispunha, aplicandoos onde melhor podia potenciar o seu valor e dirigindo-os evidenciando uma capacidade
' '
impondo-se naturalmente pelo seu próprio exemplo.
Essa manobra assente na judiciosa escolha do dispositivo adaptado ao terreno, combi
W
[
K
mas assente na consulta prévia dos mais velhos sem que nunca se sentisse dúvida na
tomada de decisão, é a referência da manobra de Infantaria.
É esta curiosidade no saber, esta convicção, esta sagacidade e atitude que deve constituir o modelo do Soldado de Infantaria.
Tendo existido D. Nuno Álvares Pereira, só ele podia ser o Patrono dos Infantes.
O Director
Honorário da Arma de Infantaria
Director-Honorário
Mário de Oliveira Cardoso
Tenente-General
Nº 187 AGO09
5
AZIMUTE
25 Anos na EPI
SMor Amadeu Figueiredo
Falar da vivência de 25 anos na Casa-Mãe da
Infantaria é, sem dúvida, um desenrolar de senti
'\
'
diferente e que por isso mesmo me marcaram de
forma natural e perspicaz.
Natural de Lamego, a vida militar foi o percur
]^
uma opção decidida em consciência e para concretizar; assim sendo, frequentei a 1ª parte do Curso,
na Escola de Formação de Sargentos em Lamego,
e após ter escolhido a Arma de Infantaria, prepareime para a 2ª parte em Mafra.
No dia 27 de Fevereiro de 1981 e após cerca
de 12 horas de transporte alternado entre comboio
e camioneta cheguei a Mafra para completar o objectivo a que me propusera inserido no 8º Curso de
Formação de Sargentos de Infantaria.
Não conhecia a vila, apenas tinha ouvido falar no
célebre e imponente Convento de Mafra e, quando
ao longe o avistei, senti uma sensação estranha.
Às iniciais da EPI não era dado o seu verdadei _ designado como a “ Entrada para o Inferno ” , pois
conjugando uma série de factores desde a imponência do Convento, a dureza da instrução e as
próprias condições meteorológicas adversas, com
vam toda a instrução, parecia ter alguma razão de
ser e que em nada abonava a favor dos que, não
conhecendo, para aqui vinham.
Fui-me apercebendo, ao longo do Curso, que
de facto a exigência e dureza da instrução eram
evidentes, mas ao mesmo tempo apanágio do lema
da Escola Prática de Infantaria – “é dever da EPI
saber fazer”. Apesar de tudo restava a esperança e
*
W
do curso, poderia haver a possibilidade de regressar a Lamego.
Mas quis o destino que Mafra não fosse apenas
um local de passagem e o facto de aqui ter casado
e constituído família, alterou os planos que inicialmente tinha traçado.
Após terminar o curso, a 17Jul81, ter sido promovido a 2º Sargento e ter feito o Juramento de
Fidelidade na tão emblemática Sala Elíptica, fui
colocado em Tomar no 1º BIMoto/Regimento de
Infantaria nº 15 onde permaneci durante três anos
e meio, tendo nessa altura solicitado a alteração da
mudança da GMP, por motivos familiares, e regressei a Mafra.
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6
Nº 187 AGO09
i
E
l Prática
P áti de
d Infantaria,
I f t i sem
apresentei-me
na Escola
a convicção de que se iria tornar numa tão longa
permanência.
Fui então colocado na 1ª CAT/BEOp como
Sargento de Pelotão do 2º Pelotão de Atiradores
e desde logo integrei a equipa representativa da
Escola na Patrulha D. Nuno Álvares Pereira, que
logrou sair vencedora.
Ao longo de todos estes anos outras funções me foram sendo atribuídas, como foram as
de instrutor dos vários Cursos de Formação de
Sargentos, tendo sido inclusivé nomeado Adjunto
dos 14º e 15º Curso de Formação de Sargentos de
Infantaria, Sargento de Operações e Informações
no Gabinete do Adjunto do Comandante, Adjunto
do Comandante da 2ª Companhia de Instrução do
]
^' Apoio da Direcção de Instrução e Encarregado do
Museu da Escola onde permaneci durante quatro
anos e meio, Sargento de Pessoal onde permaneci
durante três anos e meio, Adjunto do Comandante
do Batalhão de Apoio à Instrução e, após a promoção a Sargento Mor, as de Adjunto do Comandante
e Chefe da Secretaria de Comando e após a alteração dos QOP em Set06, apenas as de Adjunto do
Comandante.
Por aqui se pode constatar que desempenhei
uma multiplicidade de funções que considerei e
_ cantes, honrosas e muito enriquecedoras que me
permitiram obter muitos conhecimentos, ensinamentos e bastante experiência e às quais tentei
sempre corresponder com todo o meu entusiasmo, dinamismo, empenhamento e dedicação, mas
tenho que destacar duas delas, a de Adjunto dos
Acompanhei de perto as grandes melhorias
que foram sendo feitas ao nível dos alojamentos,
da canalização e do sistema de aquecimentos de
águas, num esforço permanente entendido pelos
Comandantes para criar as melhores condições de
habitabilidade, trabalho e alimentação, num bem
que julgo pertinente e salutar. Saliento com satisfação a construção do novo campo de lançamento
'
forma a permitir a formação e treino nas melhores
condições de segurança. Considero esta infra-estrutura muito importante que, por força de não garantir as condições de segurança, esteve inactiva
durante muito tempo.
Com a aprovação do novo QOP de 2006, que
reduziu e em muito o efectivo da Escola, e face
às missões atribuídas para além de outras que se
executam, cumpre-me dizer que nunca tão poucos
K
%to, voluntariedade, dinamismo e iniciativa de todos
_
]
^
Praças e Funcionários Civis é possível fazer bem
e bem feito.
É também com agrado que tenho assistido a
uma maior abertura e apoio da Escola à comunidade civil, quer participando conjuntamente na realização de eventos, quer promovendo visitas aos espaços conventuais nela existentes, quer apoiando
várias instituições do concelho e não só, permitindo
desta forma um estreitamento das boas relações já
existentes.
Consequência dos tempos e da modernização,
a Escola Prática de Infantaria não estagnou, evoluiu bastante em todos os domínios, em especial
no da formação, missão central da Escola, e no das
novas tecnologias de informação, e pela dinâmica
que tem sido dada pelos sucessivos Comandos,
posso garantir que é hoje uma Unidade muito diferente daquela que há vários anos conheci.
Destes 25 anos na Escola faço um balanço
positivo: garantiu-me estabilidade familiar e pro
K amizades. Apesar disso sinto que o facto de ter
permanecido aqui todos estes anos me impossibilitou de ter tido contacto com outras gentes, o conhecimento de outros locais e experiências vividas
em outras situações, em particular integrando FND
ou mesmo assessoria na CTM, mas não se pode
querer tudo na vida, existem outros valores bem
mais importantes e o da família tem sido para mim
preponderante.
A Escola Prática de Infantaria foi uma casa a que
me dediquei de alma e coração e da qual aprendi
a gostar, podendo considerá-la mesmo como a minha segunda casa e pela qual nutro muito carinho,
porque só gostando muito é que se consegue permanecer durante tantos anos.
AZIMUTE
14º e 15º CFSI e Adjunto do Comandante da 2ª
CI, talvez pela ainda minha juventude de então
me permitiram, a primeira, um contacto muito próximo daqueles que iriam ser os futuros Sargentos
do Quadro Permanente a quem ajudei a formar e
transmiti e incuti os valores e virtudes militares que
norteiam a nossa instituição, e a segunda também
um contacto muito próximo daqueles jovens que,
sendo civis e que por força da obrigatoriedade do
Serviço Militar, eram incorporados para aqui cumprirem um dever de cidadania e a quem eu também
aconselhava e orientava.
Este longo período de permanência na CasaMãe da Infantaria permitiu que aqui fosse promovido em todos os postos e que para mim constitui
motivo de um grande orgulho.
Permitiu-me também o conhecimento de treze
Comandantes que por aqui passaram, todos eles
com diferentes personalidades e visões diferentes
de Comando, sendo que com os últimos três, pelas
funções que desempenho, privei de muito perto e
aos quais sempre respeitei e usei da máxima lealdade, honestidade e frontalidade e também dos
quais recebi apoio, consideração e que em muito
K
'
também lhes estou grato.
Foi no contacto das pessoas com quem me relacionei, durante todo este tempo, que cresci como
pessoa e como militar; a aprendizagem foi uma
constante escutando os camaradas mais antigos,
ouvindo os seus conselhos e as suas experiências
de vida, das quais retirei muito dos princípios e
valores morais e éticos que sempre tentei passar
àqueles que me foram sucedendo e a quem ajudei
a formar.
Também vivi e senti as transformações, que
>
to, num passado longínquo: as incorporações que
se efectuavam e que chegavam a atingir efectivos
na ordem dos 2 mil homens, por turno, existiam
dois Batalhões de Instrução com três Companhias
cada, o II Batalhão de Instrução destinado ao COM/
CSM e o I Batalhão de Instrução ao CFP, enquanto
que hoje existe apenas o Batalhão de Formação
Militar Geral, destinado ao Curso de Formação de
Praças RV/C, que incorpora em média um efectivo
de cerca de 130 militares por curso.
A incorporação dos primeiros militares voluntários do sexo feminino na Escola, em 1993, no
3ºT/93 na 3ª Companhia de Instrução, do I Batalhão
de Instrução.
Com o processo de Transformação do Exército
dá-se a extinção do Serviço Efectivo Normal em
Novembro de 2004 e a completa implementação
do Regime de Voluntariado e Contrato, isto é, a
K
' >
a Escola, pois face à missão e tarefas a executar
houve necessidade de uma reestruturação interna, que algum tempo depois acabou por entrar na
normalidade.
Azimute
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7
Cap Inf Pedro Ferreira
1. Situação
Pode ainda subsistir alguma dose de dúvida no
que concerne às consequências futuras da implementação prática, por parte da Academia Militar
(AM), do Processo de Bolonha. Todavia, para as
Escolas Práticas, essa é já uma realidade com a
qual terão de se confrontar nos tempos mais próxi
*
'\
directivas provenientes da AM, que revelam o aparentemente modelo único a seguir para o tirocínio.
Assim, se do ponto de vista formal, e acreditando, de facto, que todo o processo de mudança
atingirá dividendos positivos, materializáveis num
verdadeiro processo de evolução para melhor, importa, pois, encontrar o ponto de equilíbrio necessário à sustentabilidade do processo de formação
planeado e executado pelas escolas, pois já é incontornável o facto de que o modelo de tirocínio que
até há bem pouco tempo estava em prática mudou,
Para a Infantaria, o ano lectivo de 2007/2008
marca, sem dúvida, essa mudança, onde se veri
'\ tando evitar a duplicação desnecessária de matérias entre a AM e o programa do tirocínio. No ano
`}}|~`}}{  _%>
decorrente de dois anos lectivos que até podem ser
considerados de anos experimentais e de aprenK
conseguir encontrar um modelo de formação que
vá ao encontro das necessidades operacionais das
unidades, e que cumpra, de uma forma exequível e
racionalmente lógica, o maior dos condicionamentos impostos pela AM, que diz respeito ao período
máximo de formação atribuído às escolas práticas,
y€
comportamental, indispensável a todos os futuros
da Arma de Infantaria.”1 Tem como objectivo
_
am as competências mínimas necessárias ao desempenho das funções de 2º Comandante de uma
Companhia, Comandante de Pelotão de Atiradores,
Comandante de Pelotão de Apoio, Comandante de
Pelotão de Morteiros Pesados, Comandante de
Pelotão Anti-Carro e Comandante de Pelotão de
Reconhecimento. Tendo em conta a dimensão, necessidades e realidade do Exército, revela-se de
todo útil e lógica esta capacidade inicial de sustentar os jovens quadros com a formação geral das
várias áreas de especialidade da arma. Se por um
lado a formação no âmbito dos atiradores é fulcral,
até porque permite, mais do que qualquer outra,
exercitar e evidenciar as características individuais
de comando e liderança, por outro, deve continuar
a dar-se a ênfase necessária às áreas do apoio de
combate, sob pena de se prejudicar o processo de
integração nas unidades. Numa lógica de forma' ]<‚ \ „ sa Escola reside na sua capacidade de entender o
presente, de ver o futuro, de ser objectiva e de agir
de uma forma pragmática.
2. Análise
"] % nar aos alunos a formação orientada para a prática e consolidação de conhecimentos teóricos
apreendidos, relevar e exercitar a sua aptidão no
âmbito do comando e liderança, adquirir competências no âmbito da pesquisa e investigação em
* a su
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%
%
8
Nº 187 AGO09
Partindo de uma base de formação modular semanal, foram “levantados” os grupos de matérias
„ ' so formativo. Assim, a estrutura tipo já conhecida
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AZIMUTE
AZIMUTE
A
ZIMUTE
“Train As You Fight”
as condições para que todos os alunos reforcem
'
_
no acompanhado, é de apostar, especialmente,
na parte de táctica de morteiros e de técnica de
tiro. A lógica é preparar para a função, com todo o
trabalho extra a que ao aluno será exigido fora de
horas, ao longo do tirocínio, bem como mais tarde,
aquando da sua entrada no quadro permanente,
sempre que venha a ocupar funções deste âmbito
%
A prática do Tiro, individual e colectivo, é outra
componente na qual incidirá uma maior relevância.
Tentando aproveitar os conhecimentos dos alunos
nesta área trazidos da AM, fruto do aumento da
carga horária durante os 4 anos iniciais, quer seja
AZIMUTE
A
ZIMUTE
AZIMUTE
mantém-se, e daí não provêm quaisquer novidades. No entanto, a sequência tida como lógica
das matérias nucleares assume agora uma maior
relevância, realçando um encadeamento capaz de
evidenciar os mais actuais ambientes operacio
*
*
permitindo garantir uma real marcação em termos
' =
W disponível, a componente do curso efectivamente
prática aumenta, isto devido à diminuição dos ob_ % presencial, em sala, apostando-se mais na aprendizagem presencial em campo e nos exercícios
tácticos, semanais. A título de exemplo, poderá o
tirocínio seguir a seguinte sequência; Organização
e Procedimentos de Comando, Tarefas Críticas
de Pelotão de Atiradores, Pelotão de Atiradores
nas Operações Ofensivas, Pelotão de Atiradores
nas Operações Defensivas, Pelotão de Atiradores
*
‡
>
! Atiradores em Patrulhas, etc.
Para alcançar, sem sobressaltos, o que acima
foi referido, a utilização de novos métodos pedagógicos, que sejam adequados e que permitam
*_%%
ˆ
K
utilização da componente não presencial revelarse-á de uma substancial importância, pois irá permitir ganhar tempo e responsabilizar o aluno no seu
próprio processo de evolução e de aprendizagem.
O racional não será ministrar tudo, mas será, isso
sim, fornecer as ferramentas tidas como necessárias à compreensão do que vai sendo ministrado.
Aqueles que não entenderem isso como fulcral,
cairão no risco de não conseguirem acompanhar
a dinâmica do curso, arriscando-se a reprovar em
matérias consideradas críticas. Exigir-se-á, então,
uma maior capacidade de organização e método
de estudo aos alunos, bem como que, a partir de
agora, entendam o dinamismo do processo, desde a altura que a matéria é apresentada, ao tempo
de estudo, à necessidade de esclarecer dúvidas,
'
Este é um processo já validado com resultados
aceitáveis, que se quer expedito, e que seja ajustado aos períodos de empenhamento/descanso, de
‰
*_%
compreensão, que se insiram, especialmente, no
âmbito do domínio do conhecimento.
Com certeza que, a partir de agora, os alunos
começarão a sentir a necessidade de possuírem os
conhecimentos mínimos e indispensáveis trazidos
da AM, pois vão aperceber-se, seguramente, que
o tirocínio assim o exige. O módulo de Morteiros
*<
programa do tirocínio a carga de instrução de serventes. Situação já experimentada de forma super
‰
*
*
em
trazida da AM neste domínio. Garantindo, depois,
t ã militar,
ilit quer seja
j em estágios
tá i
no bl
bloco d
de iinstrução
de formação geral, a prática do tiro em ambiente de
combate, espingarda e pistola, será uma priorida!
W%%
reais, todos os outros terão, igualmente, tempo reservado para a execução de tiro real, em sessões
ajustadas ao tipo de exercício, executadas em período diurno e/ou nocturno. A fazer crer pelas restrições e limitações de espaço e de infra-estruturas
actuais, este é um dos módulos onde, porventura,
a Escola terá de se socorrer do apoio de unidades
externas, de forma a não deixar comprometer alguns exercícios onde a capacidade de recriar um
ambiente próximo do real é deveras importante,
como por exemplo, no exercício de fogos reais de
pelotão de atiradores.
Pelas próprias características da arma, e fru W '\ * centes e actuais, a componente física manter-seá transversal às 15 semanas. A intenção é a de
continuar a conferir aos alunos a capacidade física
necessária ao cumprimento das diferentes provas,
nas suas mais variadas vertentes de preparação:
trem inferior, trem superior, resistência mental, potência, etc. Necessariamente, ainda assim, haverá um ajustamento do número de provas na sua
componente avaliativa, sem ferir de forma decisiva
alguns aspectos tradicionais do curso mas, todavia,
Nº 187 AGO09
9
AZIMUTE
tentando equilibrar o peso da avaliação neste domínio com os outros tirocínios.
Aspecto importante é a manutenção do Exercício
de Liderança, senão mesmo, aumentar a sua importância em todo este contexto de diminuição do
tempo do tirocínio, pois é uma ferramenta essencial
na formação dos jovens infantes e que, de uma forma plena, consegue transmitir os valores da arma,
ao mesmo tempo que põe em evidência situações
impossíveis de avaliar em contexto diferente. A este
exercício em particular, como é habitual, aquilo que
se exige são as condições de segurança necessárias e os meios de apoio julgados adequados. Já
que os objectivos e os princípios que sustentam o
exercício, esses, mantêm-se de todo ajustados do
ponto de vista lógico e da sua aplicabilidade, e são
um garante e um reforço moral das tradições e da
'
tos, também, a ser capazes de nos adaptarmos a
novos paradigmas que podem ir contra outros que
ao longo dos anos têm sido válidos e aos quais
_
'
Assim, e nos últimos dois anos, o tirocínio avançou para um modelo de divisão do ano lectivo em
“três” grandes fases, contrariamente às “duas” a
que estávamos habituados2. Ainda que do ponto
de vista operacional possamos dizer que a fase
de FMGTTA, Prática de Comando (PC) e Trabalho
de Investigação Aplicado (TIA) devem ter uma sequência igual de ano para ano (seja ela qual for),
a verdade é que, fruto de vários factores externos
ao controlo da Escola, e talvez até da própria AM,
a sequência pode variar de ano para ano, facto que
pouco contribui para a estabilização do sistema.
Decorrentes desta constatação advêm algumas
modalidades de acção possíveis, partindo do pressuposto que a fase de PC não é viável realizar-se
< FMGTTA, e que, idealmente, haverá um trabalho
de equipa na fase de PC com os alunos do Curso
de Formação de Sargentos de Infantaria. Tudo isto
pode parecer não relevante, mas pode fazer toda
a diferença, em termos de articulação do tirocínio.
Queremos que o tirocínio mantenha a sua espinha dorsal. Queremos que continue a focar as
áreas críticas do saber no seio da Infantaria e que
não abandone as suas principais características
_
%
„ ção ou derivadas da cultura operacional da arma.
Sabemos, todavia, que para o conseguirmos teremos de realizar alterações lógicas e introduzir métodos que o viabilizem. Sabemos que teremos de
ser pragmáticos no planeamento, bem como asser
'*_*
perdermos agarrados ao passado e de não conseguirmos compreender o presente nem o futuro.
= W
também importante focar que, cada vez mais, o tirocínio será uma parceria aberta entre a EPI e as
várias unidades de infantaria, que devem ver-se a
si próprias como verdadeiros parceiros no apoio à
execução.
O racional de planeamento do TPOI deverá assentar na importância da formação prática, composto pelas matérias adequadas, e que forneçam a
visão certa tendo em conta a realidade operacional
A formação deve ser orientada para a função,
privilegiando aspectos do domínio táctico e que
permita evidenciar as qualidades de comando e liderança dos formandos, ao serviço das pequenas
unidades de infantaria.
3. Conclusão
Fazendo crer na necessidade de adopção do
Processo de Bolonha por parte da AM, visualizando-o até como uma ferramenta de credibilização
'_
W
te a sociedade civil, importa encontrar um modelo
que melhor cumpra as necessidades de todos os
intervenientes.
2 Ainda que no plano teórico o TPO esteja dividido em duas
fazes (1ªFase-Formação Militar Geral Técnica e Táctica da
<
`І
> K
!
‹ a divisão é feita em três fases, pois o Estágio de natureza
!
W*!

*
de Investigação Aplicado.
10
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Estou convencido que a importância do tirocínio
'_
irá continuar. E que à semelhança do que sempre
aconteceu, continuará este a ser o ponto de char
<
a formação orientada para a função, conduzida na
Escola.
Azimute
TCor Inf Mário Bastos
O volume e tipo de exércitos, em sentido lato,
determina-se em função das ameaças, para fazer
face às que são levantadas.
Algumas das ameaças podem exigir o emprego
de forças militares. Quando o poder político resolve enfrentar certas ameaças que exigem o emprego de meios militares, está a optar por dispor de
Forças Armadas.
A partir daqui desenvolve-se toda uma problemática técnica de cálculo dos sistemas de forças,
pela qual se determinam os vários patamares de
meios necessários e dos riscos correspondentes.
Estes meios são basicamente equipamentos e homens em condições de os utilizar. O número calculado de homens em condições de utilizar os equipamentos necessários para operar e manter uma
estrutura militar em tempo de paz susceptível de
gerar forças capazes de resolver os vários níveis
*
da intensidade, coloca-nos, entre outras, a questão
dos efectivos.
É nesta questão que a Escola Prática de
Infantaria, como Centro de Formação Militar Geral,
na sequência da Directiva Nº 12 do General Chefe
do Estado-Maior do Exército, do ano transacto,
através do Batalhão de Formação Militar Geral, dá
o seu contributo, procurando maximizar a retenção
do efectivo incorporado, sem afectar a qualidade
'"$
K
a ser utilizado no sistema de forças.
Este contributo perfez um ano no passado dia 26
de Maio, data em que no ano de 2008 se efectuou
a incorporação do 3º Curso de Formação Geral
Comum de Praças do Exército (3ºCFGCPE08),
o primeiro dos nove cursos já incorporados na
Escola, dos quais sete já foram concluídos. Surge
pectos da actividade desenvolvida, deixando para
* *
resultados alcançados.
O Batalhão de Formação Militar Geral, com uma
capacidade para 420 militares, entre elementos
masculinos (360) e femininos (60), é constituído
por duas Companhias de Formação que efectuam as incorporações de modo alternado, cabendo
AZIMUTE
O Batalhão de Formação Militar Geral
Um Ano de Actividade
até à data quatro incorporações à 1ª Companhia
de Formação (1ªCForm) e três à 2ª Companhia de
Formação (2ªCForm). O número de incorporações
e a duração de cada curso, 60 dias úteis (DU), faK%
o início do curso seguinte, na mesma Companhia,
seja reduzido ou inexistente (Quadro1).
(*) O 7ºCFGCPE08 concluiu-se em 27Fev09 e o 2ºCFGCPE09 foi incorporado em 09Fev09.
‘
y[#
’
início do seguinte na mesma Companhia de Formação
O número de candidatos incorporados tem va
dependendo do número de candidatos mandados
apresentar na Escola pela Direcção de Obtenção
de Recursos Humanos versus capacidade máxima
em alojamento do Batalhão, atingida em Fevereiro
do corrente ano, sendo a média de elementos incorporados de 123 candidatos por curso.
Quadro 2 – Quantidade de militares em cada Curso de Formação
A quantidade de formandos possibilitaram a
constituição de 45 pelotões, numa média de 25 militares por pelotão, em que os elementos masculinos constituem 81,2% do universo e os femininos
18,8%.
Após a incorporação, os formandos iniciam um
período experimental, correspondente à instrução
Nº 187 AGO09
11
AZIMUTE
básica (1ª parte) e instrução complementar (2ª
parte), durante o qual qualquer das partes pode
rescindir unilateralmente o contrato, mediante comunicação escrita com a antecedência mínima de
cinco dias. Em resultado do direito que lhes assiste, registam-se até ao momento 130 desistências,
correspondendo a 11,77% do efectivo (Quadro 3).
Tropas Comandos, Presídio Militar, Regimento de
Artilharia Antiaérea Nº 1, Regimento de Infantaria
Nº 3 e Regimento de Transportes.
Se a estes dados juntarmos os nove militares que
Quadro 5 – Contribuintes do processo formativo e Formandos
K~K
–
Companhias, atingimos o número de 1270 militares.
É um número expressivo, tão mais quando se apoia
numa estrutura permanente reduzida, obrigada a
planear, preparar e executar de acordo com as condições referidas no quadro 1, fazendo deste modo
jus ao lema “É DEVER DA EPI SABER FAZER”.
Azimute
(1) À 10ª semana de formação.
(2) À 5ª semana de formação.
Quadro 3 – Desistências
A par das desistências, também as exclusões
afectam o número de militares que concluem com
aproveitamento o Curso. Estas devem-se essencialmente ao facto dos militares excederem o nú _
k“ se considerar que não reúnem condições para ob
”

W
quinze exclusões (Quadro 4).
ESCOLA PRÁTICA DE INFANTARIA
Revista «Azimute»
2640-492 MAFRA
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1. A reserva do espaço para inserção de publicidade deverá ser feita
até um mês antes da data da saída da revista e os fotolitos terão
de ser entregues se possível em suporte informático, em data a
combnar posteriormente.
2. Os textos para os anúncios de composição devem ser fornecidos
em suporte informático, com a indicação bem legível da dimensão.
Quadro 4 – Exclusões
Em todo o processo formativo, o Batalhão regista o empenhamento de um elevado número
e sargentos alunos que frequentam o último ano
dos cursos da Academia Militar e Escola dos
Sargentos do Exércitos, que aqui efectuam a
“Prática de Comando” inserida no “Estágio de
‚
K
!
$
‰
"†
'
Militar Geral Técnica e Táctica” da respectiva arma
'>
'

meiros cursos do ano, tendo os restantes vindo a
•”~• Escola Prática de Infantaria e adidos do Centro de
12
Nº 187 AGO09
1 Página
250 €
1/2 Página:
125 €
2 meias colunas
75 €
Meia coluna
50 €
3. As campanhas de publici
*
desconto de 10% quando
contemplarem um mínimo
de 3 publicações.
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omissão não responsabiliza a “AZIMUTE”, para
além da repetição do
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5. À revista assiste o direito de adiar, não publicar
ou suspender qualquer
anúncio por razões técnicas ou que seja considerada de alguma forma
contrária ao seu ideário.
6. As Notas de Débito têm
que ser liquidadas até
30 dias após a saída da
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7. As selecções de cor, fotolitos e preparação dos
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ao cliente quando não forem por este fornecidos.
8. Todos os assuntos poderão ser tratados via email, através dos endereços acima referidos.
Cap Inf Rocha e Silva
Comissão de Honra
D. Nuno
A 24 de Junho de 1360,
em Cernache do Bonjardim,
nasceu Nuno Álvares Pereira,
! #
Álvaro Gonçalves Pereira e de
Iria Gonçalves do Carvalhal.
Durante a infância, através de seu pai e das histórias
por ele relatadas, D. Nuno
cimentou os seus ideais de
Cavalaria, inspirado pelas lendas do Rei Artur e dos seus
cavaleiros, em particular,
Galaaz, cavaleiro puro, casto,
escolhido por Deus para cumprir a sua demanda e encontrar o Graal.
É este fascínio por aqueles
ideais nobres que cimentam o
carácter de D. Nuno, que ao
mesmo tempo em que desenvolve os seus atributos bélicos, não se desleixa na preparação eclesiástica. Naquele
génitos e ilegítimos poucas
dúvidas se colocavam quando
era necessário escolher uma
ocupação: ou seguiam a carreira das armas ou enveredavam pelo clero. D. Nuno optou
por não escolher, tendo na
realidade desempenhado as
duas.
Aos 13 anos de idade o seu
pai leva-o a viver na corte, local onde rapidamente se notabiliza, chamando à atenção
da Rainha Dona Leonor que
o chama para seu escudeiro.
Neste período tem a possibilidade de conviver com os podres e as intrigas da corte, que
K da sua vocação de Cavaleiro
casto, destinado a cumprir,
pelas armas os desígnios do
Senhor.
A sua ideia de permanecer
casto em acções e pensamentos sofreu um duro revés
quando, aos 17 anos, o seu
pai decide arranjar-lhe casamento com Leonor de Alvim,
’
— ! <
única, D. Beatriz Pereira de
AZIMUTE
O Colóquio D. Nuno Álvares Pereira
Alvim, nascida em 1380, que
A
„ ccasa de Bragança.
É já casado e a viver no
Minho que, em 1383, recebe
M
a notícia da morte do Rei D.
Fernando deixando o Reino
F
numa grave crise dinástica.
n
#
#
sse coloca ao lado do Mestre
de Avis, tendo sido a seu lado
d
que o seu génio de brilhante
q
Comandante se revela. A sua
C
acção, durante o período de
a
2 anos em que o país mergulhou numa grave crise, foi vital
lh
#—
ccomo Rei de Portugal.
Após a vitória perante os
Castelhanos, D. Nuno dedica
a sua vida à consolidação do
reino, tendo estado sempre do
lado do seu Rei em defesa de
Portugal e dos seus interesses, tendo-lhe o Rei retribuído
com grandes regalias e propriedades, tornando-o o mais
poderoso homem do País.
TGen Oliveira Cardoso
Nº 187 AGO09
13
AZIMUTE
anos, o Santo Condestável,
rodeado do Rei e amigo e de
todos os infantes, fecha os
olhos pela última vez, na sua
cela fria e inóspita, deixando
um enorme legado que ofereceu a todos nós, Portugal.
“B. Nonii a S. Maria Ex Calce Sepulcri”
Nos anos que se seguiram
à feitura da paz com Castela,
em 1411, D. Nuno passa a
ter uma vida mais recatada,
dedica-se à causa social, para
onde dirigiu grande parte da
sua fortuna, também já partilhada com os seus familiares,
afastando-se cada vez mais
da vida na corte.
D. Nuno e a Igreja
Em 1423, já viúvo, e dando seguimento a algo previsível desde a sua juventude,
despoja-se de todos os bens
que lhe restavam, e entra
para Ordem dos Carmelitas,
no Convento do Carmo, cuja
fundação se lhe devia.
Com o nome de Nuno de
Santa Maria, adoptado em
Honra da mãe de Jesus, de
quem era devoto, assume
uma vida de pobreza extrema, não dispondo de qualquer
bem para além do modesto
hábito que o vestia. Ali, à fama
e respeito granjeados como
Condestável do Reino, juntou
a santidade, pois assim o viam
todos quantos por ele eram
recebidos, e por ele eram confortados e alimentados. Ali, no
Convento do Carmo, nasceu o
Santo Condestável.
Ao primeiro dia de Novembro do ano de 1431, com 71
14
Nº 187 AGO09
De Beato a Santo
Ainda antes da sua morte,
p
p
D. Nuno, era já visto pelo
povo
anto,,
como um Homem Santo,
ade,
tal a sua generosidade,
ntraantes e depois da entrada no convento. Apóss a
ssua morte, o mito eso
palhou-se, passando
desde esse ano de
1431 a ser venerado como tal.
Foram precisos,
ra
quase 500 anos para
e,
que a igreja visasse,
o culto que até ai se
m
havia praticado em
apa
Portugal, tendo o Papa
do
Bento XV, procedido
„ –
' 18,,
23 de Janeiro de 1918,
consagrando o dia 6
a
de Novembro para
seu louvor.
do
Em 1940 foi iniciado
nonium processo de canonib t em
zação, entretanto reaberto
2004. A 26 de Abril de 2009, o
Papa Bento XVI, formalmente, declarou D. Nuno como
Santo, algo que na realidade
já o era, há vários séculos.
Colóquio
No âmbito da canonização
de D. Nuno Álvares Pereira,
a 26 de Abril do corrente ano,
a Escola Prática de Infantaria
(EPI) promoveu, no passado
dia 26 de Junho, um colóquio
com o objectivo de assinalar
aquela efeméride.
O referido evento, que teve
lugar no auditório da EPI, foi
realizado com recurso a dois
painéis:
O primeiro, moderado pelo
Sr. Tenente-Coronel Boga
•* contribuir para o aprofundamento do conhecimento do
patrono da Infantaria portuguesa como Homem, Militar
e Santo, tendo estas três facetas de D. Nuno sido respectivamente abordadas pelo
Sr. Tenente-coronel António
Pires Nunes, pelo Sr. Coronel
Américo Henriques e pelo
Bispo Auxiliar de Lisboa, D.
Neste painel
Carlos Azevedo.
Azev
invocadas as qualifforam in
dades humanas e militad
que levaram
res ímpares
ímp
que, reconhecidaa q
mente, o patrono da
men
Infantaria Portuguesa
Infan
ência que teve na
ên
cconsolidação da soberania de Portugal
b
e da importância
que deu às causas
q
sociais.
so
O segundo painel,
desta feita moderade
do pelo Sr. TenenteCoronel
Rebouta
Co
dade de enquadrar as
dad
acções de D. Nuno no
acçõ
tentando-se
seu tempo,
t
compreender o porquê
comp
de D. Nuno,
das acções
ac
com o
tendo tal acontecido
a
contributo do Sr. TenenteCoronel Barroso que abordou
o ambiente estratégico-militar
da época, fortemente marcado pela Guerra dos cem anos,
relevando a importâncias das
Batalhas de Crecy e Poitier,
pelo Sr. Capitão de Infantaria
Dias Afonso, que detalhou a
crise dinástica de 1383-1385
e a Batalha de Atoleiros, referindo as acções de D. Nuno
nessa importante batalha,
e pelo Sr. Tenente-Coronel
Lemos Pires, que apresentou
os aspectos que, decorrentes da invasão de Castela em
1385, levaram à batalha Real
de Aljubarrota, demonstrando
a capacidade de persuasão
numa primeira fase, planeamento cuidado e brilhante
execução.
Azimute
TCor Art Pires Nunes
AZIMUTE
D. Nuno Álvares Pereira
O Homem
Introdução
As Crónicas de D. Fernando
e de D. João I, de Fernão Lopes,
e a Crónica do Condestável, de
autor desconhecido, parcialmente inserida nas primeiras,
são as fontes essenciais para o
conhecimento da personalidade
e da acção dos dois principais
chefes da Revolução de 138385 – D. João I e D. Nuno Álvares
Pereira. Contudo, nem sempre o
leitor de apercebe dos pormenores da narração ou dá conta de
que o cronista elegeu D. Nuno
como seu preferido, ao ponto de,
na Crónica de D. João I, exarar
palavras dirigidas ao seu herói,
como não faz ao Rei. Nela, escreve Fernão Lopes “... podendo nós
largamente ordenar seus prudentes feitos (de D. Nuno), isto seria
a nós graciosa lembrança e cousa mais doce que ligeireza de fazer. Mas quem puder dignamente
contar os louvores deste virtuoso
varão cujas obras e discretos actos, sendo todos postos em escrito, ocupariam grande parte deste
livro...”. Desta forma, e com grande subtileza, ao longo da crónica,
Tenente-Coronel Pires Nunes
#‚™‡
Pereira, apagando frequentemente a de D. João I, exactamen
sua especial atenção. Por isso,
é necessária toda a prudência
ao avaliar aspectos panegíricos
exagerados do Condestável, enquanto nos merece mais crédito
quando relata os seus defeitos.
Ele próprio adianta: “Alguns, sem
limpo desejo, podem dizer que
nós o louvámos mais do que os
seus feitos merecem (...) agrava
vando
nele algumas
lev cousas”.
leves
Acresce que trata do Homem, numa
tar
#
Nu
Nuno,
obriga necessa
sariamente
a abordar
o Militar e o Religioso,
o que farei com o cui
nã interferir na innão
te
tervenção
dos outros
co
conferencistas.
Os Primeiros Tempos
D. Nuno nasceu provavelmente em Cernache do Bom
Jardim, nos Paços de Bonjardim,
24 de Junho de 1360, festa litúrgica de S. João Baptista. Há,
porém, quem defenda ter ele
nascido em Flor da Rosa, sede
da Ordem dos Hospitalários,
nos arredores do Crato, no Alto
<_ >
*
Álvaro Gonçalves Pereira, prior
da Ordem do Hospital, e de Iria
Gonçalves do Carvalhal, um dos
š`
Prior, que lhe proporcionou uma
educação primorosa, segundo os
ditâmes da época medieval.
Quando tinha pouco mais do
que um ano foi legitimado por D.
Pedro e segundo a Crónica do
Condestável, era “criado a grão
viço”. A sua educação fora entregue pelo Prior, seu pai, ao tio,
Martim Gonçalves de Carvalho,
irmão da mãe, solicitando-lhe
Nº 187 AGO09
15
AZIMUTE
16
que fosse seu aio, “o criasse e
ensinasse bem, o que faria certo” e, no dizer do cronista, “que
tão boas andanças que em todas as batalhas em que entrasse
sairia sempre vencedor”, como
lhe teria profetizado um vidente
que consultara quando D. Nuno
nasceu.
Pouco mais se sabe da infância de D. Nuno, que viveu alguns
anos na Corte, onde foi certamente lendo e ouvindo romances de cavalaria e adestrando-se
com a espada e com a lança e na
arte de bem cavalgar para disputar torneios e justas, arte militar
em que se tornou exímio.
Desprovido de bens, era pelo
seu próprio esforço que ambicio
 *'
tê-lo-ia levado à leitura dos feitos

•
ciaram o seu destino.
Sonhava ser um novo Galaaz
(herói imaculado da Távola
Redonda, o único digno de procurar o Santo Graal) e a História
atesta que tentou aproximar-se
desse homem ideal.
Em Santarém, onde estava
a Corte por motivo das desastrosas guerras fernandinas, foi
encarregado por D. Fernando
de fazer um reconhecimento às
forças castelhanas que se dirigiam a Lisboa e regressou com
a informação de que “os castelhanos lhe pareciam muita gente mal acaudelada e que pouca
gente com um bom capitão os
poderia desbaratar” (Crónica do
Condestável). A audácia desta
resposta ao rei, que implicava elevada responsabilidade e grande
'
como rapidamente se apercebeu
das fraquezas do exército castelhano e a importância que atribui
ao chefe militar na condução de
uma batalha, tendo apenas treze
anos de idade, não deixam dúvidas que D. Nuno era já alguém
com vocação acentuada para a
Nº 187 AGO09
< induzem-nos implicitamente a
pensar que, tão novo, se considerava esse capitão capaz de se
opor ao inimigo mesmo com um
exército menos numeroso. Não
admira, pois, que D. Leonor de
 '
do jovem, o tomou ao seu serviço e o armou cavaleiro, utilizando
na cerimónia o arnez do Mestre
de Avis. Assim se iniciava entre
os dois jovens uma ligação sentimental e provavelmente uma
amizade, que viria a ser decisiva
para o destino de Portugal.
Até 1376, D. Nuno, agora com
16 anos de idade, continua na
Corte. O rei e o prior, D. Álvaro,
seu pai, que morreu esse ano,
resolvem casá-lo e escolheram
para sua noiva uma rica viúva,
!
'
# ›
de Alvim, senhora possuidora de
grande fortuna. O prior enviou
o comendador da Flor da Rosa
contactar a senhora, que respondeu se desse conhecimento ao rei que ela faria como ele
desejasse. Assim se faziam os
casamentos da nobreza nessa
Idade Média e D. Nuno não fugiu
à regra. Importa, todavia, salientar que a interferência do rei no
casamento mostra que D. Nuno
era tido em grande consideração
por D. Fernando.
Avisado das perspectivas do
casamento, o rapaz pediu ao
!
leitura dos livros da cavalaria, em
especial pela história de Galaaz,
o qual, por se ter conservado em
virgindade, cometera extraordinárias proezas, que a outros não
fora possível, não se preocupava senão em cavalgar e andar à
caça. D. Nuno resistiu ao casamento, que o impedia de concretizar os seus sonhos e nem o pai
e a mãe o conseguiram convencer acabando, todavia, por ceder
a rogo de dois amigos.
Depois de casado, retirouse para a terra da esposa, em
Entre Douro e Minho, onde se
manteve até 1379 ou seja durante três anos. Desse casamento
reram à nascença e D. Beatriz,
de cujo parto faleceu a mãe. D.
Nuno, agora viúvo, ainda muito jovem, não consente em ca
que ele idolatrava, veio a casar
a 8 de Novembro de 1401, com
D. Afonso que foi duque de
–
'
*
#
João I, dando origem à Casa de
Bragança e a laços familiares
com o rei.
Segundo a Crónica de D.
Fernando, em 1381 encontravase em Lisboa, cercada pelos castelhanos que, de vez em quando,
faziam saques na capital. Uma
noite, D. Nuno faz-lhes uma espera, emboscado na ponte de
Alcântara e caiu sobre eles obrigando-os a recolher apressadamente aos navios. Porém, uma
força inimiga com que não contava apareceu-lhe subitamente em
Santos. Nun’Álvares não hesitou
e lançou-se imediatamente sobre
ela o que podia ter-lhe custado a vida, pois os seus homens
hesitaram e só quando o viram
isolado acabaram por ir à luta e
salvaram-no.
Esta acção revela-nos um D.
Nuno temerário e um tanto inconsciente chegando a confundir-se a sua temeridade com pura
bravata, mas mostra-nos também que tinha grande espírito de
iniciativa, que constantemente
o impelia à acção. Intimorato ao
extremo nada o detendo, risco no
limite, agressivo contra o inimigo
_ K do, são os seus atributos mais
evidentes. Este voluntarismo excessivo haveria de o colocar de
novo em apuros quando, após a
sua brilhante vitória em Atoleiros,
soube que os castelhanos se estavam a concentrar no Crato. Vai
A Crise em Perspectiva.
D. Nuno Adere ao Mestre
Voltou a Pedraça e ali estava
quando, em 1383, D. Fernando
faleceu.
Passado um mês foi a Lisboa
para assistir às exéquias do 30º.
dia da morte do monarca e apercebeu-se da conjura que se tramava já contra D. Leonor e conde Andeiro, seu amante.
Segundo Fernão Lopes, D.
Nuno era, nesse tempo: “pessoa
de pouca e branda palavra mas o
seu bom gasalhado (bom acolhimento) e doces razões contentavam muito a todos” e “nenhuma
coisa fazia com rancor e ódio”.
Apesar destes doces predicados
era um jovem fortalecido pelo
treino da vida de campo, a caça,
as cavalgadas e o exercício das
armas.
Vai a Santarém para convencer o seu irmão Pedro, Prior
do Crato, a aderir à causa do
Mestre, em vão como é sabido.
‚
um alfageme e vê uma espada
pendurada que muito lhe agradou e pede ao artesão que lhe
faça espada igual tendo como
resposta que, para ele, faria uma
ainda melhor. Assim sucedeu e,
quando D. Nuno lhe quer pagar,
o alfageme disse-lhe que receberia quando ele fosse conde
de Ourém. A profecia realizouse mas a resposta do alfageme
D. Leonor acabava de conceder
o título de conde de Ourém ao
conde Andeiro. As palavras do
%
raia miúda, a certeza que havia
de que D. Nuno, que ainda não
ganhara qualquer batalha, seria
aquele que, com a sua espada,
venceria o perigo que representava o valido da rainha. A dramaturgia portuguesa foi enriquecida
com este tema quando Almeida
Garrett escreveu “O Alfageme de
Santarém”.
Tinha 23 anos quando lhe
chegou a notícia da morte do
conde Andeiro e a sua opção estava tomada: combateria contra
Castela mesmo que tivesse que
o fazer contra amigos e o seu irmão. Parte para Lisboa, cheio de
patriotismo e vontade de combater e encontra-se com o Mestre,
a quem beijou a mão, como
se fosse já rei e, reunindo os
seus homens, manifestou-lhes
o pressentimento de que Deus
lhe reservava a incumbência
de defender a Pátria, apesar de
toda a família e sua mãe o aconselharem a não se meter nessa
tarefa, que seria inglória dada a
fraqueza do Reino. É esta a segunda vez, que referimos, em
que coloca sem qualquer hesitação a Pátria acima da família e
Deus no cume pelo que podemos
dizer que a sua trilogia de valores era “Deus, Pátria e Família”.
Mais lhes disse: “Deus o impelia
a lançar-se no grande poço cheio
de escuridão, que era a guerra
inevitável, de onde só se sairia
por milagre de Deus e que, apesar do perigo, o seu coração o
impelia a saltar nele” (Crónica de
D. João I, de Fernão Lopes). Ao
patriotismo junta-se a determina' ímpar. É talvez a primeira manifestação de uma fé inabalável
em Deus a Quem se entregava
e a Quem seguiu até à morte.
Naquele ano, a sorte futura do
país era, de facto, um poço negro
e fundo. Ninguém podia medir a
gravidade e a extensão da crise
que acabava de ser desencadeada. Aos seus homens disse ainda: “Aqueles que de vós a quem
prouver de saltar comigo terlho-ei a grande bem e extremado serviço” (Crónica de D. João
I, de Fernão Lopes). Um a um
mente, agrupando-se à sua volta. Estava traçado o seu destino.
Este jovem tinha já carisma em
elevado grau, capaz de arrostar
os seus homens para os maiores
perigos e revelava-se, ao contrário de outras ocasiões passadas,
bem consciente da tarefa em que
ia empenhar-se, mostrava-se de
uma lealdade inultrapassável ao
que considerava já ser o seu rei
mas continuava a permanecer
nele a “atracção do abismo”,
lançando-se no escuro conscientemente sem olhar para as
consequências do seu gesto. Na
sua cabeça tinha o mesmo que
D. Luísa de Gusmão em 1640,
aquando a Restauração: “Mais
vale morrer livre que viver servindo”. E os seus homens seguiamno cegamente.
O historiador Oliveira Martins
exprimiu com grande mestria a
simbiose de D. Nuno com Deus
quando escreveu: “A sua fé em
Deus era a chama em que ardia
a sua dedicação patriótica e a
sua energia militar. A religião era
a sua raiz; a virtude, a coragem, o
civismo, os ramos da sua vida iniciada pela resolução mística da
cavalaria” e acrescentava noutro
espaço: “Nun’Álvares tinha em si
o que levanta as montanhas: tinha fé e uma virtude imaculada,
'
indomável”.
Lançando-se com fé em Deus
no poço fundo que era a incerteza do desfecho de uma guerra
com Castela, avassaladoramente
Nº 187 AGO09
AZIMUTE
ao seu encontro com uma força
consideravelmente inferior mas
é cercado e, sem possibilidade
de receber reforços, retira com
o pretexto de ir a Évora buscar
mantimentos. Arriscava tudo
numa acção com grande facilidade e ânimo leve, seguindo a
máxima de Kipling: ”Um Homem
só é verdadeiramente Homem se
for capaz de arriscar tudo numa
cartada e continuar calmo”. Não
apenas em si próprio, mas é um
facto que a sorte nunca lhe foi
madrasta dando razão ao aforismo: “A sorte protege os audazes”.
17
AZIMUTE
mais poderosa, ao lado do
Mestre de Avis, começa a ser difícil distinguir o Homem do Militar
e do Místico, facetas de D. Nuno
que aparecem simultaneamente
e estão inter-ligadas. Por outro
lado, ligando o seu destino ao do
Mestre e andando frequentemente juntos, é também inevitável fazer uma comparação com este,
em tudo o que diga respeito aos
assuntos da guerra.
D. Nuno na Crise
Fernão Lopes deixa-nos, por
mais do que uma vez, a impressão de que, na época, haveria
militares tão ilustres ou até de
maior nomeada do que D. Nuno
e que, mesmo já durante os
acontecimentos da Crise, não
era aceite para cargos militares,
sem reservas. O cronista mal se
refere à batalha de Trancoso,
que assumiu grande importância para o desfecho da batalha
de Aljubarrota, talvez para não
ofuscar o seu herói, que lá não
esteve. O abade de Baçal refere, em escrito pouco conhecido,
*
de Simancas (em Espanha) com
o título “A insídia de Trancoso” e
aqui teria morrido grande número dos mais experimentados capitães de Castela, cujos nomes
constam do documento, que vieram a fazer falta em Aljubarrota.
A batalha de Trancoso foi ganha por D. Gonçalo Coutinho,

go que parece não nutria grande
simpatia por D. Nuno e que, apesar dos apelos para que estivesse em Aljubarrota, não o fez.
Quando foi necessário nomear um fronteiro para o Alentejo, a
escolha do Mestre recaiu em D.
Nuno mas encontra oposição de
alguns homens notáveis, como
D. João das Regras de quem o
cronista escreve: “O Doutor João
das Regras era muito contra esto
dizendo que tamanho encarrego
cumpria mandar um homem de
18
Nº 187 AGO09
madura autoridade”.
Decididamente que, pelo menos até este momento, D. Nuno
não seria visto como um militar
informado, competente, experiente e muito avisado; em suma,
ainda não se impusera. A passagem da Crónica indica,,
uma vez mais, haver outros
chefes militares considerados melhores do que ele,
que Fernão Lopes não note
meia, e que, não obstante
erior,
toda a actividade anterior,
va
D. Nuno não inspirava
'
responsáveis.
Talvez porque fosse muito novo (24
a
anos), porque sobressaia
eu
demasiadamente o seu
co
aventureirismo, pouco
compatível com a se-riedade e ponderação
que exigia o momento em que se jogava
o destino da Pátria
ou talvez e, sobretuo
do, porque tendo sido
armado cavaleiro porr
D. Leonor de Teles
com quem conviveu
e ter pelo menos um
irmão muito chegado
a si, que combatia por
Castela, seria olhado
'
Estas circunstâncias
pesariam mais na
sua avaliação do que
o patriotismo de que
dava
exuberantes
mostras e do que o
espírito ofensivo contra Castela que mostrava ostensivamente.
Também nestes tempos teria imperado a
inveja por D. Nuno ter
obtido uma amizade
quase fraternal do rei
e ser um incondicional
deste, o que teria sido o
caso do herói de Trancoso.
ticas
D. João não olhou às críticas
e nomeia-o fronteiro-mor do
Alentejo, onde D. Nuno desenvolve uma notabilíssima actividade militar que culminou
com a batalha de Atoleiros e o
\ <
mostra,
contrariamente
ao
D. Nuno é considerada um golpe
de génio, que arrastou o timorato rei, tese que muitos advogam,
ocorre perguntar de quem seria
a responsabilidade se tivessem
perdido a decisiva batalha de
Aljubarrota?
Analiso o Homem que foi indisciplinado mas seria estultícia
ser demasiado severo para com
D. Nuno, uma vez que se apercebeu logo e só ele que “indo a
Sevilha, como o Conselho parecia advogar, para cortar duas
oliveiras podres (palavras de
Fernão Lopes) equivalia a perder
Lisboa e, perdida Lisboa, estava
o reino perdido”. Viu também que
D. João I de Castela teria que
decidir ali os seus objectivos se
não queria ver cortada a sua linha de comunicações e que não
havia outra forma de neutralizar
o Conselho e abrir os olhos ao
seu real amigo senão como ele
fez. Teve razão e perdoamos-lhe
a atitude, o que não torna lícito o seu comportamento. Muito
naturalmente os membros do
do: “Tem soberba que mostrava
grande desprezo por el-rei e por
todos eles e que pretendia inimistá-los contra el-rei”, o que era
verdade.
Mas há outras situações bem
graves.
Revelando-se um condestável pleno de pujança e consciente das suas funções procurava
informar-se sempre sobre o inimigo. Tendo-lhe sido entregue um
prisioneiro ordenou-lhe que fosse
a el-rei e a todos os homens de
armas que ali estivessem e lhes
dissesse que as tropas castelhanas eram fracas, pouco numerosas e desunidas. Esta atitude
para com o comandante-chefe,
quando se decidia a batalha e a
forma de actuar, tentando levá-lo
ao engano só para que houvesse
batalha, para que se combatesse e ele tivesse o seu combate
também não é defensável. Que
queria combater pela Pátria te
K
’
se não também pela sua própria
'
E que dizer da impertinência
de D. Nuno que, por decisão própria, envia uma missiva aos castelhanos, em clara exorbitação
das suas funções e na ausência
do rei, na qual comunica que elrei de Portugal lhe daria batalha
se não abandonasse a sua terra,
que desvalorizou a mensagem
posterior de D. João, muito mais
prudente, em que diz ao rei de
Castela que poderá não haver
luta e lhe pede para abandonar
Portugal, em nome de um não
derramamento de sangue?
AZIMUTE
que os notáveis diziam, que era
mesmo um militar informado,
competente e sabedor da guerra.
As circunstâncias em que
se desenrolou a batalha de
Aljubarrota inicia um conjunto de
atitudes polémicas do condestável, ainda hoje discutidas e por
muitos historiadores consideradas manchas no carácter de
D. Nuno. D. João era o comandante-chefe, que pensa naturalmente a nível estratégico e D.
Nuno apenas o chefe militar táctico, que lhe estava subordinado.
Sucedeu, porém, que D. Nuno
esquece-se disso e, no Conselho
de Abrantes, mostra traços poucos aceitáveis da sua personalidade. Não concordando com os
conselheiros, que se inclinavam
para uma manobra de diversão
na Andaluzia, D. Nuno, com alguma arrogância e sobrepondose ao rei dirige-se ao Conselho
para o demover, dizendo “não o
fazendo (dar combate imediato)
mostraríamos grande míngua e
cobardia que quebraria o coração dos portugueses”. Dar batalha por motivos de honra, sentimento tão do agrado de D. Nuno,
é tipicamente medieval mas D.
João, muito mais ponderado, não
estava ali para arriscar por motivos de honra mas para decidir,
com segurança, o destino do
%
Obcecado com a ideia de
combater a todo o custo, D.
Nuno parece, por vezes, procurar o combate pelo combate o
que, de facto, podia ser perigoso
para as aspirações de Portugal.
O chefe táctico, D. Nuno, numa
atitude pouco aceitável, por mais
exaltada que seja, afasta-se do
Conselho e parte arrogantemente em direcção aos castelhanos.
Abusou da grande amizade do
'
tre eles e deixa-se levar pelo arrebatamento e voluntarismo quase cego, aliás na linha do que era
o seu caracter. Se a atitude de
Desde que é condestável, talvez pelo facto de o rei ser muito
seu amigo e também jovem e ser
rei não havia muito tempo que
nenhum deles interiorizara ainda
esse facto, D. Nuno está sempre
pronto a sobrepor-se a ele e a
ultrapassá-lo. Por seu lado, no
Conselho de Guerra de D. João
I de Castela, quem foi valorizado
muito naturalmente nas palavras
de João Afonso de Telo é D. João
I de Portugal e não D. Nuno.
“Vencido este homem (D. João
=‹ *
o reino desimpedido”. De facto,
esse era a pessoa a derrotar por
representar o poder político. Nas
principais batalhas da Guerra
< destável apaga-se perante as
do comandante-chefe, no caso
de Grécy, os reis Eduardo III e
Filipe de Valois. Em Aljubarrota
sucede o contrário muito pelo
protagonismo de D.Nuno, que
se pôs sempre em primeiro plano e muito pelo apagamento
que Fernão Lopes faz a D. João.
=
sido genial na condução da batalha, muito especialmente se a
manobra que foi executada tiver
sido premeditada e não fruto das
circunstâncias. As atitudes descritas ocorreram, a meu ver, não
Nº 187 AGO09
19
AZIMUTE
por circunstâncias fortuitas mas
pela personalidade do condestável. Após Aljubarrota, continuou a
proceder da mesma forma quando a guerra foi levada a Castela.
Em Cória, D. Nuno desobedece
ao rei e fez fracassar o ataque
à povoação com o argumento
de que não tinha engenhos de
assédio. Tendo o rei ordenado o
ataque geral concerteza procedido de um encontro com o seu
condestável, a inactividade deste
é intrigante. E o mesmo sucedeu noutras ocasiões das quais
me deterei apenas na batalha
de Valverde, nas margens do
Guadiana, que travou por conta
própria, prolongando as operações e arriscando demasiado escusadamente. D. Nuno, sempre
çara, arriscando sempre, pensando arrebatadoramente só por
si, como se não dependesse de
W nunca o abandonou, numa guerra travada por Portugal e que ele
parecia considerar a sua guerra.
O
medievalista,
António
Borges Coelho, sobre a batalha de Valverde, escreve: “Em
Valverde, quando se desenrolam já os primeiros combates, as
suas tropas estão sem comando
e ele, atrás de uns rochedos, a
implorar o favor divino. Esta atitude poderá emoldurar a cabeça do
herói com uma auréola de santidade mas, sob ponto de vista militar é desastrosa e Fernão Lopes
parece ter disso ideia clara” (A.
Borges Coelho, A Revolução de
1383).
O Humanista
Com as facetas da sua personalidade, já referidas, Fernão
Lopes apresenta-nos D. Nuno
como um verdadeiro cultor do
humanismo quando testemunha: “Como a estrela da manhã, resplandeceu entre os da
sua geração, com honesta vida
20
Nº 187 AGO09
e honrosos feitos, parecendo
que reluziam nele os avisados
costumes dos antigos e grandes varões. Na condução da
guerra mostrava tal autoridade,
que nenhum dos que o acompanhavam se atrevia a hostilizar
os inimigos além do que por ele
lhes era mandado, dispondo-se
cada um a cumprir os preceitos
que ele lhes dava e não lhe desobedecendo em caso algum. E,
no entanto, morava sempre nele
uma discreta mansidão que é a
alma dos bons costumes. Por
isso, no dizer de Oliveira Martins
“o próprio inimigo adorava esse
Capitão, a quem os seus obedeciam religiosamente”.
Trazer mulheres e jogar aos
dados a ninguém era consentido; e quando nascia entre alguns
dos seus qualquer desavença
pela qual deixavam de se falar,
logo tratava de os concordar e
fazer amigos e de guisa que o
seu acampamento não parecia
hoste de guerreiros mas honesta
ordem de defensores.
Em todas as cousas procedia
muito sagesmente, com proporcionado castigo e prémio àqueles
que dele dependiam; e quando
se zangava contra alguém o seu
castigo não dava lugar a rumor,
de modo que à sua grave quietação os homens tinham mais reverência que temor.
Sendo ainda moço e desviando-se do costume dos homens,
começou a assentar em si todas
as boas condições que podem ser
apontadas num louvado varão,
como se nele estivesse escondido o tesouro de toda a sabedoria.
Em virtuosos pensamentos e em
pô-los em execução, ocupava
muito mais tempo do que cumpria a sua tenra idade.
E porque semelhantes perfeições não eram habituais nos
outros homens, nele eram tidas
em muito grande conta. Por isso,
onde moravam tantas virtudes,
algum vício pudesse ser hóspede, nem alguém podia nele por
nódoa que não fosse tido por
malévolo pois, embora ele se esforçasse por encobrir a sua muito
louvada fama, os seus virtuosos
feitos eram pregoeiros dela.
Compadecia-se dos pobres e
necessitados, não os deixando
padecer injúria e a sua larga mão
estava sempre pronta a dar onde
quer que a honra humanal ou o
espiritual proveito atraíam o seu
dom. Dispunha a sua fazenda,
deixadas as despesas pomposas, que se devem evitar, de tal
modo que, por nenhuma necessidade de guerra ou outra, nunca em suas terras lançou tributo
ou serviço ou outra obrigação de
ajuda e tinha tais administradores em sua casa que pouca ou
nenhuma nódoa de erro havia
neles.
Na limpeza da sua verdade
* e a sua palavra não era menos
juramento. Punha os actos espirituais acima de todas as cousas.
Tanto foi de limpa consciência
que, para salvação da sua alma,
moderou de tal maneira a paixão
da ira, que em muitos parece
loucura, e por mais razão que
tivesse nunca a ninguém cortou
a fala…” (Fernão Lopes, Crónica
de D. João I).
O Herói
A imprevisibilidade de atitudes e a expectativa sobre o comportamento de D. Nuno, face aos
acontecimentos, deve ter generalizado a ideia de que ele era,
no mínimo, diferente. Daí, até à
sua aceitação como herói, vai
apenas a constatação de que
essa diferença conduzia a actos
superiores que não estavam no
alcance de qualquer, em favor
da sua Pátria em perigo. Foi um
herói consciente dos seus comportamentos, que jogou sempre
incondicionalmente a vida, e para
por ter de assistir a um casamento que representava tudo contra
o que iria lutar “com os joelhos
bateu violentamente no pé da
mesa e deu com ela em terra”
(Fernão Lopes). O rei de Castela
impressionado com este gesto de
audácia e de inconformismo, teria comentado para D. Fernando
“quem tal coisa cometeu (...) para
muito mais será seu coração”.
O episódio de Almada imprime-nos a ideia do herói pujante
e triunfante que aparece como
uma visão no outro lado do rio
em todo o seu esplendor, desa
'
mindo temor.
Noutro
episódio,
Fernão
Lopes dá-nos pretexto para desculparmos todas as desconsiderações descritas anteriormente
que D. Nuno teve para com o
rei que, aliás, nalguns casos, lhe
perdoou expressamente. O castelhano, conde de Maiorgas de
# — num ápice, D. Nuno apercebe-se
do perigo em que o seu rei estava colocado, aceitando ou não o
^
ria à altura de terçar armas com
%
aceitando, sairia desprestigiado.

Kdo: “Eu lhe poerei o corpo sobrelo e lhe farei combater quer um
por um ou dois por dois ou quantos ele quizer”. D. Nuno julga-se
capaz de tudo e sente-se apto a
adestrado da forma escolhida por
este, mesmo em luta individual.
Atendendo às provas que deu,
até então, não teria concerteza problemas comandando com
bravura dezenas de homens num
torneio ou numa batalha mas lutar com qualquer faz dele um herói, à maneira grega e leva-nos
a pensar que D. Nuno era certamente um combatente com destreza individual pouco comum.
Oliveira Martins em “A vida
de Nun’Álvares” refere que, em
1382, reúne-se em Évora e Elvas
com o duque de Cambridge e
pede a intervenção do duque junto do rei para que este lhe permi
*

^
Recuemos séculos à Pátria dos
Heróis - a Grécia Antiga, e detenhamo-nos brevemente na Ilídia
de Homero.
D. Nuno é o Aquiles português
do sec. XIV que, não temendo a
luta individual para resolver uma
contenda, como o fazia o herói
grego, não a pratica, contudo,
não porque o não desejasse ou
fugisse a isso mas porque os
tempos eram outros.
Também Diómedes, outro
herói que ataca os troianos na
ausência de Aquiles é corajoso,
cavalheiresco e valente mas impulsivo. Decididamente que a
caracterização de D. Nuno em
Fernão Lopes corresponde à do
modelo grego nomeadamente na
impulsividade que parece andarlhe ligada. As vitórias de D. Nuno
são quase sempre espectaculares e ser impulsivo e desobediente, em consequência disso, entra
em nós como uma qualidade,
associada à sua grande capacidade de decisão, que arrastava
tudo e todos e que lhe permitia
não deixar perder as oportunidades. Acresce que essa qualidade/defeito transmite-nos sempre a ideia de que se não fosse
assim (leia-se que, se não fosse
ele) os grandes êxitos da Crise
não teriam ocorrido.
Em 1415, tinha 55 anos, chegou-lhe imprevistamente a notí
# ‚
mostra com toda a intensidade
a sua faceta humana. D. Beatriz
era o único afecto humano que
lhe restava no mundo e, tão forte
foi o abalo que a sua morte lhe
provocou, que os íntimos recearam que lhe faltasse ânimo para
<
que muitos ainda assim o olhavam era agora um homem como
os outros e sofria muito quando
Nº 187 AGO09
AZIMUTE
quem a timidez, o medo e a hesitação o levavam frequentemente
à exasperação. Determinado a
tudo e denunciando sempre um
caracter muito forte, compreende-se que possa ter sido alvo de
incompreensão ou mesmo reprovação, em especial quando as
suas atitudes se confundiam com
falta de prudência e soberba ou
quando afrontava pessoas e posições estabelecidas e de inveja.
Ele viveu, sem nunca ter sido
derrotado, não obstante ter estado próximo de o ser, por mais do
que uma vez, riscos constantes
e procurados por sua iniciativa
invulgar, numa série de façanhas tão ampla que a História
de Portugal raramente descreve
para outro personagem.
Em Almada “moveu a um
monte sobre o mar, e fez os
poer em az ordenado com sua
bandeira no meio tendida, dando às trombetas... e isto à vista
dos da cidade e do arraial dos
castelãos”. Chegara a Almada,
subira a um monte e mostravase às gentes de Lisboa para lhes
incutir ânimo e desorientar os invasores. A surpresa foi grande e
o rei de Castela pergunta quem
é aquele atrevido ao que o fronteiro de Almada, que estava com
ele, responde que lhe diz o coração que é Nuno Álvares. Para
ele, só D. Nuno seria capaz de tal
audácia. Desvalorizando o rei a
capacidade do chefe militar português, recebe como resposta:
“Agradecei a Deus e a este rio
que está antre vós e ele, ca se
este mar não fosse, aqui vos viria
buscar hu estais”.
E, no entanto, o rei de Castela
já tivera encontro, em Elvas, com
este atrevimento durante o seu
casamento com D. Beatriz. Tendo
lugares marcados para si e seu
irmão Fernão numa das mesas
„
aguardavam de pé a altura de se
sentarem para o repasto, viram
as suas cadeiras abusivamente
ocupadas por outros. Já irritado
21
AZIMUTE
22
o seu íntimo era agredido violentamente. Já iam longe os tempos de guerreiro, quando nada o
afectava mesmo a possibilidade
de morrer.
Em 1423, aos 63 anos de idade, entra na solidão de um convento e despoja-se de todos os
bens, revelando outro atributo
que ainda não sobressaira – uma
humildade extrema e desprezo
pelos bens materiais que, enquanto novo, não tinha. Quando
era senhor de enormes terras
D. João I, chegando ao ponto de
ameaçar exilar-se quando o rei,
pondo em execução uma reforma de redistribuição de terras,
doadas um pouco na euforia dos
tempos vividos anteriormente, o
ia prejudicar a si e aos companheiros a quem dera algumas
terras.
Foi admitido no Convento em
15 de Agosto, Festa da Assunção
ou Festa de Santa Maria de
Agosto como era conhecida.
Podemos pensar que a data
não teria sido escolhida ao acaso e que as datas marcantes da
sua vida bailavam na sua mente.
De facto, a batalha de Aljubarrota
ocorrera 38 anos antes; em meados de Agosto de 1415 integrarase na expedição a Ceuta e casara a 15 de Agosto de 1376.
Em 1431, no dia 1 de Abril,
domingo de Páscoa, ocorreu a
sua morte, com a idade de 71
anos incompletos.
D. Nuno acabou a vida despido de bens, depois de ter sido
o homem mais rico do país e de
se ter coberto de glória, que lhe
adveio como consequência dos
seus actos e não que a procurasse à maneira romana para ter a
sua coroa de louros. O Homem
dera lugar ao Militar e, depois,
ao Santo, sem que, desde cedo,
fosse possível distrinçar estas
facetas da mesma pessoa. Foi
sublimando os seus defeitos com
Nº 187 AGO09
a idade e mesmo os arrebatamentos da idade tenra,
que eram o mais visível do
seu carácter, desapareceram por completo. Morreu
calmo e feliz de uma felicidade que já não era deste
mundo mas da presença
do Pai, que adorava desde
novo, e com quem estava
prestes a conviver.
Conclusão
“Pátria – é um palmo de terra defendida.
A lança decidida
Risca no chão
O tamanho do nosso coração.
E todo o inimigo que vier
Tem de retroceder
T
Com a sombra da morte no pendão.
>
K
Surdo às razões da força e da fraqueza
(A
A liberdade não discute os meios
De se manter).
Mais difícil era a empresa
Que a seguir comecei:
Já sem cota de malha, combater
Por outro Reino e por outro Rei”
D. António dos Reis
Rodrigues, em Nun’Álvares,
Condestável e Santo, cita
Edgar Prestage no ponto
em que este anota: “as três
Torga
imagina o próprio
Miguel
T
o
virtudes primárias da cava
a falar de si próprio:
laria, no aspecto militar, eram a D. Nuno
O Tenente-Coronel de Art na
coragem, a lealdade e a generoRefª António Lopes Pires Nunes, é
licenciado em Ciências Militares pela
sidade. As três virtudes secundáAcademia Militar e em História pela
rias, relativas à religião, eram a
Universidade Católica.
Tem vários livros publicados, al
„ =_
*‰
guns deles premiados, nas áreas
e a castidade. As três virtudes
referidas, com destaque para cinco
terciárias, de natureza social,
referentes às Campanhas de África
(1971-74) e à Arquitectura Militar, seneram a cortesia, a humildade e
do autor do “ Dicionário de Arquitectura
*‰
$'\
Militar”. Escreveu também “ D. João e
meramente pontuais, que assiD. Nuno, Chefes Militares em Fernão
Lopes”.
nalámos, quanto à lealdade para
Leccionou no Instituto de Altos
com o rei e quiçá alguma falta de
Estudos Militares e da Universidade
Lusófona e colaborou em mestrahumildade, que foi desaparecendos de Estratégia na Universidade
do, tudo isto D. Nuno praticou em
Técnica de Lisboa e de História Militar
elevado grau. Merece pois, como
na Universidade Lusíada.
É membro do Plenário e do
ninguém da sua época, o belís % simo verso de Fernando Pessoa
Portuguesa de História Militar e sóem Mensagem, no qual o poeta
cio da Associação Portuguesa de
Arqueólogos, nas secções de Préo designa por “S. Portugal em
História e História.
ser “ ou, de forma mais clara, “S.
Reparte a sua actividade cultural pelas disciplinas de Antropologia
Portugal em pessoa”. Desta forCultural, História Militar e História da
Arte.
!
!
* Autor Anónimo; Crónica do Condestabre de
indestrutível.
Azimute
> do que pela espada de D. Nuno,
Portugal viu o seu caminho
aberto:
“Ergue a luz da tua espada,
para a estrada se ver”
E termino com “Nun’Álvares”,
in “Poemas Ibéricos, no qual
Portugal Dom Nuno Álvares Pereira.
Prefácio e notas de M. dos Remédios,
Coimbra, 1911.
BORGES COELHO, António; A Revolução
de 1383, Col. Seara Nova. 3ª. edição,1977.
CAETANO, Marcello; A Crise Nacional de
1383-1385, subsídios para o seu estudo.
LOPES, Fernão; História de uma
Revolução. Primeira Parte da Crónica de ElRei D. João I, de Boa Memória, Livros de Bolso
Europa-América, 1977.
Idem; Crónica del Rei Dom Joham I, de
boa memória e dos Reis de Portugal, o décimo, Parte Segunda, Ed. Imprensa Nacional,
MCMLXVIII, copiada por William J. Entwistle.
NUNES, António Lopes Pires, ten. coronel;
D. João e D. Nuno, chefes militares em
Fernão Lopes, EME, Lisboa, 1986.
Cor Inf Américo Henriques
Nuno Álvares Pereira foi um
extraordinário e invicto Chefe
Militar, um dos poucos chefes militares invictos em toda a
História Militar universal. Nuno
Álvares Pereira iniciou a sua
vida militar quando nasceu. E
falou-se da educação de Nuno
Álvares Pereira, dessa Ordem do
Hospital onde ele cresceu, essa
ordem do Hospital que lhe incutiu
os valores da Távola Redonda e
os valores do amor profundo ao
trono e ao altar. Se alguém na
nossa história é o zimbório desse
amor ao trono e ao altar que caracteriza o povo português é precisamente Nuno Álvares Pereira.
†*
Álvaro Gonçalves Pereira, que
Nuno Álvares Pereira criou o espírito, o amor e a lealdade, acima
de tudo, à terra que o viu nascer.
Porquê este exemplo de seu pai?
Um homem que na sua vida íntima conseguiu ter trinta e dois
Mas este homem, quem foi
ele? Porquê este símbolo na
vida de Nuno Álvares Pereira?
Porquê deste farol? Quem era
Álvaro Gonçalves Pereira, o Prior
da Ordem do Hospital? Pura e
simplesmente meus queridos
amigos, o verdadeiro vencedor
da Batalha do Salado. Foi ele
qu
que comandou a carga decisiva
da Batalha do Salado. Por arma,
lev
levava apenas a Vera Cruz de
M
Marmelar. Esse espírito do hom
mem que se lança no combate,
qu
que acredita que acima de todas
as forças, existe a força do seu
ide
ideal. E que a força do seu ideal
ve
vence fronteiras! É essa, a verda
dadeira alavanca do militar Nuno
Ál
Álvares Pereira. É o homem que
ac
acredita que tem o chamamento
div
divino dentro dele, e que esse
ch
chamamento divino se confunde
co
com a própria Pátria onde nasce
ceu. É isso que o leva a essas
ac
acções tão loucas, tão de arriscar
tu
tudo e todos, e ao mesmo tempo
es
este homem capaz de se lançar
AZIMUTE
D. Nuno Álvares Pereira
O Militar
nas façanhas mais temerárias,
temerárias
é simultaneamente um dos mais
escrupulosamente
seguros,
chefes de toda a história militar.
Aprendeu com os Cavaleiros da
Ordem do Hospital, a experiência
que vinha das Cruzadas, com os
Cavaleiros da Ordem do Hospital
a conhecer uma coisa fundamental em qualquer chefe - o
Terreno. E se há uma palavra a
que temos que ligar intimamente
„
‚‡
!
é ao conhecimento profundo do
terreno. Nuno Álvares Pereira impôs sempre a batalha. Aprendeu
como estruturar as suas forças
agarrado ao terreno, àquele que
lhe desse a máxima vantagem!
Há quem diga que o aprendeu
com os veteranos da guerra dos
100 anos. Há quem diga que foi
o conde de Cambridge num encontro em Elvas, uma pura conversa que tiveram os dois, pois
ele praticamente não teve qualquer contacto com o Conde de
Nº 187 AGO09
23
AZIMUTE
24
Cambridge. Talvez com o grande cavaleiro Gascão que morreu
na Batalha de Aljubarrota, Jean
de Monferrand, ele tenha aprendido a forma como os ingleses
adaptaram tudo quanto aprenderam à custa das muitas revezes que sofreram com galeses
e escoceses, no terreno em que
se batiam. Talvez Nuno Álvares
Pereira tenha aprendido com esses homens que nos vieram ajudar, depois do tratado celebrado
com Inglaterra. Na nossa Guerra
com Castela, talvez que ele tenha aprendido com eles a empregar a combinação do terreno, dos
obstáculos e do poder de fogo.
Porque aqui residiu o grande segredo de Nuno Álvares Pereira, o
terreno, os obstáculos e o poder
de Fogo. Não o esqueçam!
E se há algum sítio onde o terreno, os obstáculos e o poder de
fogo emergem do campo de batalha, agora que já passaram séculos sobre essa mesma batalha,
é precisamente em Aljubarrota.
Quero lembrar-vos um dos as tar de Nuno Álvares Pereira e
que ressalta como nenhum outro na sua acção na Batalha de
Aljubarrota. Acima de tudo este
homem que aparentemente é
um visionário, um apaixonado,
um homem com uma grande am*' ' homem capaz de pôr em risco
as suas forças, um homem que,
W*
cavaleiro lançado para a frente,
com o coração na ponta da espada. Tem uma virtude que desfaz esta ideia, desfaz esse mito
e põe-o na realidade no sítio que
lhe compete em todos os chefes
militares da história militar universal – Segurança! Se há batalha onde a palavra “segurança”
aparece sobre todas as outras
é precisamente na Batalha de
Aljubarrota.
Se há batalha onde parece
que o inimigo vai ganhar porque
não pode ser de outra maneira,
Nº 187 AGO09
porque a sua superioridade é tremenda, e novamente esse convi
necessário, aparente, cai pela
base no Campo de Batalha dos
Atoleiros. É a coberto de um obstáculo, que ele pela primeira vez
põe a sua tropa pé-em-terra e recebe o choque do inimigo, com o
seu próprio choque apoiado num
obstáculo e batido por um tremendo poder de fogo.
Numa guerra em como
confrontaram:
< *
la francesa, do poder de choque
da cavalaria nascida do apareci * *
pé-em-terra, agarrado ao terreno
e usando esse mesmo terreno.
Nesta guerra o Condestável encabeça sem dúvida nenhuma a
segunda posição.
Nesta guerra, ele mostra até
que ponto é que o chefe militar
é capaz de, aplicando as suas
forças convenientemente no teatro onde tem que se bater, não
é vencido pelo inimigo, por mais
forte que ele seja, pela simples
razão que toda a superioridade desse inimigo cai pela base,
quando choca com um menor número apoiado naquilo que a naK
[
a grande vantagem da defensiva.
Só há, na minha modesta opinião, um general na história que
nós possamos comparar, quase
como um espelho, com Nuno
Álvares Pereira: é o Duque de
Wellington. Nuno Álvares Pereira
diz, não vamos fazer uma guerra
guerreada, não vamos destruir
as oliveiras em Sevilha, vamos
direitos ao inimigo, porque temos
que vencer o inimigo numa batalha, uma batalha decisiva.
E como estava Portugal na
altura? Estava todo unido? Não
estava, estava dividido! Muitas
fortalezas tinham dado voz por
Castela, muitas outras tinham
dado voz por D. Beatriz. Havia
W
a D. Leonor Teles e, ainda, as
fortalezas que tinham dado voz
pelo Mestre. Não era num terreno coeso, um terreno compacto,
um terreno levantado com os alcaides dos castelos, que Nuno
Álvares Pereira contava. Não!
Nuno Álvares Pereira contava
com outra coisa! Contava com
um povo que tinha feito a revolução de 1383, contava com o germe da nação portuguesa. A sua
crescente burguesia, os homens
dos mesteres, era com esses
que ele contava.
Como chefe militar, para poder implementar e aplicar no
campo de batalha as ideias que
tinha não era fácil, porque ele era
um homem à frente do seu tempo! E por isso aplicou o antídoto
perfeito, a combinação do terreno, dos obstáculos e do poder
de fogo, por detrás de uma parede de lanças, de tropas apea
como se tratasse de uma falange
oblíqua.
Inventou alguma coisa Nuno
Álvares Pereira? Aplicou vários
conceitos e é muito difícil que um
homem do século XIV, por mais
que tivesse visto, por mais que tivesse falado, pudesse saber que
a primeira vez que tal aconteceu
foi em pleno século VI na Batalha
de Pagina, quando um General
bizantino chamado Narcés, destruiu a cavalaria Goda.
Era muito difícil que ele pudesse aplicar “ipsisverbis”, aquilo
que tinha sido feito em Créci! Era
muito difícil que ele pudesse aplicar de uma forma precisa o que
tinha sucedido em Poitiers. Era
extremamente difícil, tinha que
ser ele, por ele, no seu génio, na
sua extraordinária capacidade de
aplicar esses conceitos, porque
esses conceitos já existiam há
muito tempo.
Nuno
Álvares
Pereira
como chefe militar liderou pelo
Exemplo.
Se chefe militar houve que
entendemos, nasceu muito tempo depois. Aquilo que nasceu
com Nuno Álvares Pereira foi o
âmago da própria infantaria - o
combate de humildade, o combate onde o chefe e os seus subordinados estão ombro a ombro,
agarrados ao chão. O combate
da sobriedade, o combate da
aplicação de todas as armas,
mas acima de tudo o combate
do empenhamento da própria
Alma. E aí, nesse empenhamento da própria alma, Nuno Álvares
Pereira, o místico, aparecia como
mais ninguém; uma bandeira
palavra para cada um dos seus
homens, a forma de se dirigir
antes da batalha àqueles se iam
se bater sobre as suas ordens,
incentivando-os e incutindo-lhes
'
"
que sejam não nos vencem, não
só porque Deus está connosco
mas porque somos muito melhores do que eles”. Em Aljubarrota,
a forma como se dirige aos seus
homens antes da batalha é extraordinária! O querer, a certeza, a
renúncia à sua própria condição
de Contestável, que o levam à
primeira linha da batalha.
E a segurança? Contrariando
tanto daquilo que se diz de Nuno
Álvares Pereira, tantos dos seus
críticos sabem que depois da batalha de Aljubarrota Nuno Álvares
Pereira não caiu na tentação de
ordenar uma perseguição em
< Aljubarrota. Era um princípio
medieval?
Pois era, mas também era
princípio perseguir o inimigo.
A quem é que ele entregou a
perseguição? Onde é que ele pôs
causaram mais de quatro mil baixas ao exército de Castela e que
K
•
decretasse dois anos de luto?
Foi na ponte da Chiqueda, com a
' <*
'
por Dom João de Ornelas, que
era o Abade do Convento.
Nuno Álvares Pereira sabia
perfeitamente onde a batalha se
ia travar, não foi ao acaso. Tal
como nos Atoleiros, tal como em
Valverde, impôs o círculo, impôs o ritmo, marcou o passo e
venceu!
A causa mais culta, a causa
mais justa, a causa mais digna
pela qual um Homem de Bem se
pode e deve bater, essa causa é
a dignidade, a integridade, a liberdade, a independência e a soberania da terra onde nascemos.
E porque o representou como
ninguém é que Nuno Álvares
Pereira, muito antes de subir aos
altares de Deus, subiu aos altares da Pátria e garantiu, e Deus
queira que para sempre, a perenidade da Nação Portuguesa.
AZIMUTE
tivesse liderado pelo exemplo “Que eu seja o dianteiro” - ainda
hoje é o lema de uma unidade de
infantaria, - “Que eu seja o dianteiro”! Ele na frente, ele dando o
peito ao inimigo, ele assumindo
o lugar de maior perigo na vanguarda de Aljubarrota, ele assumindo o lugar de maior perigo
na vanguarda dos Atoleiros, ele
assumindo o lugar de maior perigo no cabeço de Valverde. E se
mais pudéssemos dizer que não
tivesse aqui sido mencionado, a
astúcia, a aplicação de todas as
vantagens que a defensiva traz.
A aplicação de tudo quanto o espírito medieval trazia ao campo
de batalha.Há em toda a executória de Nuno Álvares Pereira, a
estratégia ofensiva e a batalha
defensiva – vamos procurar o inimigo, vamos escolher o terreno e
vamos vencê-los nesse terreno!
Vamos aplicar as nossas armas
contra o poder deles, vamos sobretudo impedir, e aqui o génio
de Nuno Álvares, e aqui outro
dos pontos marcantes da sua faceta militar - vamos impedir que
o inimigo aplique contra nós toda
a sua força! “Eles vêm à Batalha
como nós queremos e não como
eles querem”!. Em Aljubarrota
isso é mais do que evidente, e
em Atoleiros.Castela não podia aplicar toda a sua força, era
completamente impossível em
Aljubarrota. Entre os Ribeiros de
Vale de Madeiros e do Curral da
Mata, entrarem por ali dentro trinta e dois mil homens? Isso era o
que eles traziam. Se eles tivessem conseguido atacar numa
frente com quatro mil ou cinco
mil era uma sorte! E mesmo assim vinham uns encostados aos
outros.
Vejamos agora o que Nuno
Álvares Pereira representa, no
meu conceito, como Patrono da
Arma de Infantaria. O militar patrono da arma de infantaria, porquê? Será que a infantaria nasceu com Nuno Álvares Pereira?
A infantaria, como nós a
Azimute
O COR Inf Refª Américo José
Guimarães Fernandes Henriques
é licenciado em
Ciências
Militares pela Academia Militar.
Prestou serviço, entre outras
unidades, na Escola Prática de
Infantaria como instrutor, dos
principais cursos da Escola,
no Batalhão de Comandos de
Moçambique, como professor
no Instituto de Altos Estudo
Militares e como Adido Militar
junto à Embaixada de Portugal
em Washington.
Tem no seu curriculum vários cursos de que se desta
=
ž ]<
Corse e o Curso Básico de Páraquedismo, nos EUA e o Curso de
Estado-Maior no Reino Unido
Após a sua passagem à situação de reserva e reforma a
sua actividade tem continuado
intensa desdobrando-se sobre
duas grandes paixões: A História
Militar, tendo sido conferencista
na Bélgica, França e EUA. e a
Tauromaquia.
Tem vindo a participar vários em programas de Rádio e
de Televisão, no âmbito das actividades referias, destacando-se
a autoria do programa “Reis de
Portugal”, editado em DVD pelo
Círculo de Leitores e o programa
“Três Andamentos” dedicado aos
cavalos e touros.
Nº 187 AGO09
25
AZIMUTE
São Nuno de Santa Maria
Um Santo Condestável e Carmelita
D. Carlos A. Moreira Azevedo
Bispo Auxiliar de Lisboa
Tinha Nuno Álvares Pereira 23
anos quando a notícia da morte
do rei D. Fernando lhe chegou ao
solar da sua mulher D. Leonor de
Alvim, da Quinta da Pedraça, em
Cabeceiras de Basto. As exéquias
reais seriam a 22 de Novembro. D.
Álvaro seu pai pressionara este ca
#‰–
K
tinha escapado. Viria esta a casar#<%
Mestre de Avis.
A notícia da morte do Rei caiu
no seu espírito pensativo como
um motor de consequências que o
abalavam. Um turbilhão de ideias
passou-lhe no espírito. A morte
• '
da rainha regente capaz de desmandos perversos, o perigo de cair
nas mãos de Castela, já que a úni
†
da com o rei de Castela D. João I,
agitavam a mente de Nuno. Ele conhecia a corte onde vivera e sabia
que a nobreza se tinha habituado à
ociosidade, à devassidão, à corrupção, cheia de intrigas. Aí
conhecera João, Mestre
de Avis, do qual se faria
grande amigo para toda a
vida. Partilharam os altos
ideias da independência
de Portugal. Como enfrentar um grave e terrível
problema ético-político.
%rito bem-razoado1.
O jovem Nuno entusiasmara-se pelo ideal dos
romances de cavalaria e
ambicionara ser um cavaleiro da Távola Redonda
<  1 Cf. CRONICA do Condestável de
Portugal D. Nuno Álvares Pereira.
Preparação do texto e introdução António
Machado de Faria. Lisboa: Academia
Portuguesa da História, 1972. Será de
ter em conta a edição crítica de Adelino
de Almeida Calado da Universidade de
Coimbra, de 1991 e os estudos recentes
de António Branco (Algarve) e de Gilberto
Moiteiro (mestrado FCSH - 2006).
26
Nº 187 AGO09
o cavaleiro Galaaz, o místico puro.
Quer em casa de seu pai, Prior do
Hospital, quer na corte criou-se
entre letrados e sabedores. Ele
próprio lia para escapar à frivolidade e aborrecimento do ambiente.
Eram estes heróis literários que
alimentavam a mente do jovem
Nuno. Desejava manter puro o
seu coração e o seu corpo. A formação que tivera junto dos freires
guerreiros da Ordem do Hospital
incutira-lhe o ideal da cavalaria.
Frei Álvaro Gonçalves Pereira ti
‚„
de Santarém, em 1373, e a rainha
D. Leonor tomou-o como seu escudeiro. De pequena estatura e
com treze anos mostrava coragem
e depressa foi investido cavaleiro, usando a mesma armadura do
Mestre de Avis, feito cavaleiro aos
seis anos.
Nuno percebe a sua missão,
como outrora o jovem Galaaz, capta o seu papel na difícil conjuntura
%
=
D. Carlos Azevedo
t f que a hora
h
lh destinava.
d ti
a tarefa
lhe
Importava encontrar uma solução
para a crise, percorrer as etapas
até alcançar os objectivos nobres
que norteavam o seu entusiasmo
' < sua missão de ser braço armado
do Mestre de Avis para abrir caminho ao destino de Portugal.
Pára para pensar e amadurece a intuição que lhe apareceu
caminho adequado para sair da
crise. Inaceitável ter uma barregã
como rainha, inaceitável o rei de
Castela como Rei, ou proclamar
como herdeiro o infante D. João
preso em Toledo, ou seu irmão
# # !
‘
Ÿ]‡
!
•W
que parece comandar da sua torre
lisboeta os passos a dar e Nuno
to do plano. Eliminar o Andeiro e
proclamar o Mestre de Avis, com
ampla simpatia popular, regedor
e defensor do reino. Ao Mestre de
Avis compete a missão de afastar
o tirano. A teoria medieval do tiranicídio como obra de Deus, nas
referências dos cronistas, relaciona-se, no dizer de António Ferreira
Gomes, com os mestres do pensamento teológico-político, como
João de Salisbúria. Este não só
defendeu o tiranicídio como preferiu as monarquias electivas2. Ora
Nuno Álvares, além das “estórias”
de cavalaria, contactava com táctica guerreiras e também com polícas
tic e diplomatas medievais.
ticos
Muitas vezes o que parece esto
touvado
é sábio, o que se apelida
de enlouquecido é o visionário. A
co
coragem
e a audácia, a determinaçã e o entusiasmo nascem-lhe de
ção
de
dentro
e contagiam-se. Só assim
po ser a alma de um movimento
pode
re
revolucionário.
O seu magnetismo
ve da pureza do seu ideal forte.
vem
Só assim pode avançar perante
*]
o Condestável e Mestre João das
Re
Regras
era sobretudo ideológico.
A entrada nas Cortes de Coimbra
2 GOMES, A.F. – Igreja na vida pública.
Porto: Fundação Spes, 2003, p. 355.
Foi publicada recentemente a peça de
teatro do mesmo autor, escrita em 1931.
GOMES, António Ferreira – Nuno de
Santa Maria Herói e santo. Introdução
de Guilherme d’ Oliveira Martins, estudo
crítico de Maria Luísa Malato Boralho.
Porto; Lisboa: Fundação Spes; Aletheia,
2009.
W
K
verdadeiro impulso da bravura autêntica. O sucesso da Batalha de
Atoleiros leva-o a agradecer e vai
descalço e a pé em peregrinação
a Santa Maria de Assumar, a duas
léguas de Monforte.
Convocadas as cortes para
Coimbra em ordem a consolidar
a escolha de um rei legítimo que
aguente uma segunda invasão
castelhana, congregam-se 134
pessoas, 72 representantes da
nobreza, 12 do clero e 50 das cidades e vilas. Nuno Álvares seguiu
com alguma impaciência aquela reunião que não via desfecho
após alguns dias. Finalmente o Dr.
João das Regras consegue expor
as razões e conduzir à decisão
desejada.
desejada
Impedir o invasor de chegar
Imp
a Lisboa
Lisbo foi a sua luta seguinte.
não seguiu os debates
T
Também
políticos para os quais não tinha paciência. Foi com os seus homens
c
para Tomar desobedecendo ao
p
Rei. O letrado Gil d’Ossem vai
ajudar o rei e mudar a agulha
aju
do Conselho do Governo e a
seguir o Condestável.
se
Como foi santo?
Soube ser chefe. Como
S
poderia ter transformado um
pode
p
bando de gente sem disciplina
band
estrutura em exército coee es
rente? Sendo intransigente nos
rente
princípios morais, duro na execuprincíp
na disciplina militar.
ção, rigoroso
rig
a guerra estava
Ao enfrentar
A
e
consciente da sua justiça e
cons
honra, na defesa da terra e dos
honr
bens, não como força contra
ben
ou contra Deus. Não
o direito
d
castigava com destempero,
cast
mas com brandura, de modo
ma
que os seus homens tinham
dele “mais reverência que tedel
(Crónica de D. João I, 425.).
mor” (Cr
Usava de fraternidade na relação
com os soldados no respeito pela
sua dignidade humana, independentemente da função. Criava com
os capitães e homens de armas
uma família, capaz de alegria serena, dado o seu carácter: “seu bom
gasalhado”, “seu ledo semblante”,
“suas doces palavras”.
Sabia repartir com generosidade, sem qualquer cobiça, o que
resultasse das incursões e fosse
tomado ao inimigo. Em 1393, acabaria por distribuir as abundantes
terras e rendas que o rei lhe oferecera pelos cavaleiros e escudeiros
que o seguiram. Quando terminada a guerra faz a distribuição das
terras, que soubera pedir, pelos
homens que o acompanharam nos
combates obedecia a uma concepção da sociedade, de um “povo
‰
económica, como vertebração de
uma pátria livre”3.
A sua benignidade brilhava
mesmo para com os inimigos, uma
vez que não odiava os adversários,
nem permitia que a paixão dominasse o ardor da luta. Por isso cuidava dos prisioneiros e feridos, não
deixava que destruíssem aldeias
ou campos cultivados. Amparava
as mulheres, crianças e pobres.
Em momento de especial carestia
distribuiu à sua custa pelos castelhanos 6400 alqueires de trigo. Era
manifesto o respeito que estas atitudes de ética cristã gerava.
Nuno era puro de coração.
Como competia a uma alma forte,
a integridade dos seus costumes
dava estabilidade à sua missão.
A clareza sincera da sua energia
espiritual desenvolvia-se em sólidas convicções. Nuno Álvares
não aceitava os desvarios dos soldados e não só os prevenia, mas
também castigava as desordens.
>
K
 contrariedades porque a tropa estava habituada aos abusos sexuais
'\<
a que obrigava as tropas contribuiu
para uma vida sadia.
Na base de toda as suas atitudes estava a fé profunda em Deus.
Todos os dias, mesmo em tempo
de guerra, cumpria os seus deveres religiosos. Sabia reconhecer a Deus as vitórias e sucessos
militares, enquanto os outros se
limitavam à festa. Fez erguer em
Aljubarrota a ermida a s. Jorge.
Deslocava-se em peregrinação
aos santuários vizinhos do lugar do
combate. Assim aconteceu depois
da batalha dos Atoleiros indo a pé
a Santa Maria de Assumar (perto
de Monforte) e após Aljubarrota
a Santa Maria de Seiça (Ourém).
Um facto se evidencia durante a
batalha de Valverde. Rezava serenamente em êxtase, apesar de ser
reclamado pelos companheiros de
armas. Sabia que a atenção orante
AZIMUTE
tarde contra o teólogo, conduz ao
absolutismo monárquico. Nuno
Álvares está preocupado e em ten
por ter aderido à “revolução social
da burguesia e conduzido as suas
acções militares” e não querer voltar ao “antigo regime”.
A cavalaria valorizava a coragem, a lealdade e a generosidade.
< „ promissos, à fé e à Igreja aliava-se
à cortesia nas relações sociais e à
responsabilidade, seja pelo empenho na defesa dos mais débeis e
humildes, seja no uso das armas
para honra da pátria e progresso
da liberdade dos povos.
À burguesia, que acolhia o
momento para com o espírito de
novas leis subir
ao poder, Nuno
ereira
Álvares Pereira
fazia notar que
ornão
importa fazer leiss
para um paíss
que não lhess
pertencia, pois
is
estava ainda
a
no
domínio
o
da
Rainha.
a.
Fundamental
era agir, vencer
cer os
obstáculos e não
prudências medrosas. São sempre
empre
acusados de
e ser
temerários oss que
tomam a dianteira
anteira
na construção
ão de
um futuro novo.
ovo. A
devolução da
a liberdade e da dignidanidade ao país exige
xige
riscos. Não pode
ode
ser traidor de
si próprio porque D e u s
o inspira no caminho
i h da
d justiça.
j i
Não cede a honras que lhe prometem para nada fazer, não cede aos
pequenos afectos diante do amor
da pátria. Diante da diferença numérica e da desigualdade de preparação dos exércitos não teme. A
causa nobre e justa que demanda
concentrava todas as energias. O
país inteiro carregava nele a sua
esperança.
A prece que realizava antes
dos grandes embates concedialhe a serenidade para as decisões
3 Ibid. p. 357.
Nº 187 AGO09
27
AZIMUTE
lhe daria a razão e a medida da
acção bélica. Em gratidão mandou
construir, no Carmo, o Convento
de Nossa Senhora do Vencimento
para os carmelitas, que conhecera
bem nas lides alentejanas.
Como Deus estava sempre presente nas grandes decisões da sua
vida, em grande unidade interior,
agora que estava feita a paz com
Castela a 31 de Outubro de 1411,
podia dedicar-se ao que desde
criança aspirava: a vida entregue
totalmente a Deus.
Pensou sair do Reino e juntou companheiros. D. João I enviou três mensageiros, cada vez
mais pesados e só o terceiro, o
arcebispo de Évora, conseguiu demover Nuno Álvares. Invocava o
Condestável que não tinha que fazer nada na guerra pela defesa do
reino, “mas no seu íntimo pensaria
antes que não tinha já que fazer na
paz”4. Não concordava com o rumo
político-social que o país levou.
> yky€ parto em Chaves e Nuno Álvares
vai de Vila Viçosa a Vila do Conde
sepultar o último laço afectivo.
Regressaria ao Alentejo e aí, em
Arraiolos, D. João I o consultaria
sobre a expedição a Ceuta, na qual
manifestou gosto em participar.
‚—%
Agosto de 1422, após repartir terras em favor dos netos, perdoar as
dívidas, dar todos os bens a cavaleiros, escudeiros e pobres, entrou no Convento do Carmo como
simples cristão. Seria admitido a
15 de Agosto de 1423, 38 anos depois de Aljubarrota. Passou a ser
Nuno de Santa Maria, com marca
extremamente simples e modesta,
nos últimos oito anos da sua vida.
A própria tença a que D. Duarte o
4 Ibid. p. 357.
28
Nº 187 AGO09
obriga distribui-a em esmolas e ele
mesmo pede para os pobres. Foi
esta atitude radical do que fora o
%
que conquistou o coração do povo
de Lisboa. Optar por viver numa
cela solitária e escura, com apenas mesa de pinho, catre e manta
lêncio e na contemplação, na humildade e no abandono a Deus era
prova de santidade.
O que o levou a esta decisão?
As tentativas puramente espirituais
e místicas ou as melancólicas não
explicam tudo. António Ferreira
Gomes aponta a necessidade de
ligar as duas decisões: a de sair do
país com a da opção pelo claustro.
Era a recusa em participar na administração e na política em virtude de uma diferente visão política
e social. Porque não a apresentou?
Os amigos, o Rei discordavam
de tanta severidade do
donato
carmelita e não
do
se lembravam que também
bé como combatente
ele
el era raro nas atitudes
de e despropositado
nas
na decisões. Ora a sua
profunda
amizade ao rei
pr
e aos infantes conduziao a calar, porque tinham
optado
pela ordem nova
op
do letrado. Por outro
lado
lad na sua profunda
penetração
intelectual
pe
convenceu-se
de que já
co
era
er tarde e impossível e
moralmente inadmissível.
por isso mora
Ao morrer a 1 de Abril de 1431,
dia de Páscoa, estavam presentes
•!
o evangelho de S. João e cerrou
as palavras de Jesus a Maria pronunciadas do alto da cruz: “Eis aí o
$<
\
apelidou Pai da Pátria, morre feliz
#
nos braços de Maria, por quem nutriu especial devoção.
Desde o dobrar dos sinos, a
anunciar a sua morte, a multidão
entendeu que tinha um santo a
quem recorrer porque já estava na
glória de Deus. Logo prestou culto.
O Papa Bento XV aprovou
esse culto a 23 de Janeiro de
1918, após longo processo. Ainda
que projectada a canonização logo
em 1437, como se prova por carta do rei D. Duarte ao beneditino
João Gomes, abade do mosteiro
de Florença, só a iniciada em
1914, obtém, em 1918, resultados
# '\
do século XV, houve longo silêncio
até 1674, quando se regista uma
súplica do episcopado português,
sem resultado. Novo espaço se
W W ¡=¡
e início do século XX. Não merecia
tanto desprezo quem tanto fez pela
pátria.
Raras vezes na história um
herói que alterou a história de um
povo, é um santo, que não precisa
de lenda para ser grande na integridade de carácter, na inteireza de
costumes, na unidade de vida. Têm
sido as lendas a reduzir a personagem a um sanhudo impetuoso, um
Orlando furioso, dado a intervalos
místicos. Estamos perante um extraordinário chefe militar, marcado
pela ética cristã. Estamos diante
de alguém com uma visão para o
país, pautado por valores cristãos.
Venceu nas armas por causas nobres, venceu-se a si mesmo pela
entrega a Deus. São assim os santos: deslumbrantes, a dar carne à
transcendência.
Azimute
Professor
da
Faculdade
de
Teologia desde 1987, foi Vice-Reitor
da Universidade Católica Portuguesa
entre 2000-2004, director do Centro
de Estudos de História Religiosa e
das revistas Lusitânia Sacra (19922000).
Humanística
e
Teologia
(1987-2000) e Museu (1993-1996),
do Museu Nacional de Soares dos
Reis e Cónego da Sé do Porto
(1996-2005).
É
membro
da
Academia
Portuguesa da História, desde 1996.
Bispo auxiliar de Lisboa, desde
2005, foi Secretário da Conferência
Episcopal Portuguesa (2005-2008) e
é Presidente da Comissão Episcopal
de Pastoral social desde 2008.
Entre perto de uma centena de
trabalhos publicados, importa destacar os seguintes, pela relação com
o tema a tratar: Explicação prévia.
In GOMES, António Ferreira, bispo
– Nuno de Santa Maria: herói e santo. Lisboa: Fundação Spes; Aletheia
> `}}{ €¢ =
de São Nuno de Santa Maria. in
Ecclesia 2009.
TCor Inf Luís Barroso
O objectivo deste texto é colocar em fase a
Batalha de Aljubarrota no âmbito da situação política e militar na Europa. Não se pretende descrever
a guerra dos cem anos, mas tão só fazer relevar os
factores políticos e militares que acabaram por in
'\
!
*
ram a batalha de Aljubarrota. Para focalizar o argumento, estabelecemos dois pontos de referência:
(1) A situação política, expressa numa crise inter
‰
entre reinos; e (2) os aparelhos militares em confronto: o feudal, puro, Francês; e o britânico, uma
síntese do feudal com o “software” desenvolvido
pelas experiências na Escócia.
A situação política na Europa do último quar W ¡=” 
francês que veio a ser conhecido pela Guerra dos
Cem Anos. Estava-se no alvor dos tempos modernos enquanto o sistema feudal agonizava por não
conseguir responder às necessidades da sociedade, nomeadamente ao desenvolvimento comercial
e à emergência de uma burguesia cada vez mais
*
] W movimentos dos bárbaros para Europa, que fez escassear a actividade comercial, nomeadamente a
relacionada com as especiarias, na bacia mediterrânica. As populações fugiram das cidades e orientam-se na exploração da terra. Este sistema político
foi particularmente evidente no centro da Europa,
especialmente em França e na actual Alemanha. A
guerra era assunto de senhores, nobres cavaleiros,
que gravitavam em torno do Rei, e lutava-se pela
posse de terra, honra e por sucessão dinástica.
A Situação Política na Europa
A nossa breve história inicia-se com a crise política entre a França e a Inglaterra. Pretensões territoriais, pretensões ao trono e o controlo do comércio no norte da Europa foram as razões principais
£
yy¢‹<
guerra iniciou-se no declínio do sistema feudal e
AZIMUTE
A Situação Político-Militar na Guerra dos Cem Anos
(1337-1453)
terminou nos
alvores
da
idade moderna. No âmbito político,
a guerra dos
cem anos tem
‰cia decisiva: a
consolidação
das
monar
do
sistema
feudal.
Os
dois
protagonistas
marcariam de forma indelével a história da Europa.
Europa
Por um lado, a França, de orientação europeia, potência continental, iniciou neste período a sua ca
'%
ria seriamente abalada após a derrota de Napoleão
frente a Wellington. A França era o país mais populoso da Europa, com 16 milhões de habitantes,
era o maior produtor de vinhos e cereais, e dispunha do exército mais numeroso. Todavia, por ser
constituído maioritariamente por “exércitos particulares” de senhores feudais que colocaram Filipe VI
no trono, tornou-o refém dos seus interesses. Por
outro, a Inglaterra, afastada do continente europeu
pelo Canal da Mancha, estava demasiado afastada
para ter acesso fácil a uma potência continental,
*W os acontecimentos no continente. Por conseguinte,
qualquer ponto de apoio no continente era um factor central na estratégia inglesa, onde a dimensão
económica seria factor chave. A Inglaterra tinha cerca de 5 milhões de habitantes, uma economia dependente do comércio de tecidos com a Flandres, e
um exército unido em torno do rei Eduardo III e com
experiência das campanhas da Escócia.
Historicamente, as causas da Guerra dos
Cem Anos remontam à conquista de Inglaterra
por Guilherme, o Conquistador, que manteve no
Nº 187 AGO09
29
AZIMUTE
continente extensos domínios senhoriais, nomeadamente em França, algo que ameaçava o projecto
de consolidação da monarquia francesa.
Em 1332, Eduardo III, o rei de Inglaterra, lançase numa campanha militar na Escócia mas, embora vencesse as batalhas “convencionais”, nunca
obteve o sucesso pretendido, devido às tácticas de
guerrilha dos escoceses. Neste âmbito, um ponto
importante nas relações anglo-francesas era a simpatia e o apoio da casa real francesa aos “rebeldes
escoceses”, já que, em 1331, tinham decorrido em
Paris as negociações franco-escocesas que estabeleceram o apoio francês à precária independência escocesa. Isto era um sério aviso a Eduardo III.
Também as conhecidas pretensões francesas sobre os feudos em França, a Guiena e a
Gosconha, territórios com elevada produção de
vinhos, pertença da casa real inglesa, eram motivo de preocupação para Eduardo III. O facto de
serem feudos, fazia com que o rei inglês não os
pudesse governar com toda a autonomia, porque
devia vassalagem a Filipe VI, rei de França. Este,
como senhor feudal, podia intervir judicialmente
para impor a sua autoridade. Para marcar a sua
'†”=
?
posta, Eduardo III reivindicou o trono de França, o
que obrigaria Filipe VI a devolver a região. Todavia,
o rei de França impôs o aumento de imposto sobre
os vinhos a comercializar em Inglaterra, causando
mal-estar aos comerciantes ingleses.
A pretensão de Eduardo III ao trono de França
advinha do facto de ser neto do rei Filipe IV, O Belo,
_
>
== 
Filipe VI, sobrinho de Filipe IV, acabou por lhe suceder, porque, numa reunião de grandes senhores
†
'
£yš`|‹†”=se coroado rei de França, por considerarem que o
direito de sucessão não podia advir de linhagem
materna – a Lei Sálica.
Mas nem as pretensões territoriais em França
e
eram
motivo de diferendo anglo-francês, onde a
*W le
levante.
A Flandres era um ducado cuja suserania
p
pertencia
ao rei de França. As grandes cidades do
c
condado
(Bruges, Gent, Ipres) tinham conseguido
u elevado grau de autonomia devido ao papel
um
c
cada
vez mais importante da sua burguesia. Na
†
†
n
nada
com as lãs e tecidos, que a ligava a Inglaterra,
o
onde
se produzia lã e não havia indústria de tec
celagem.
Eduardo III, para instigar a revolta dos
*
*
†
'
* e
exportação
de lãs para a Flandres para obrigar
 =
]
yšš“š|
in
iniciaram-se
um conjunto de revoltas nas principais
c
cidades
da Flandres e que as leva a aliarem-se a
E
Eduardo
III.
Com mais este foco de atrito entrava-se irrem
mediavelmente
no caminho da guerra. Eduardo III
e
estabelece
contactos diplomáticos com a Holanda,
A
Alemanha
e Itália para granjear apoios contra a
F
França.
Acaba com o embargo das lãs e jura apod
derar-se
do trono de França. A França foi apoiada
p
pela
Boémia, Castela, Escócia. A França estava
c
convencida
da vitória, porque a sua numerosa cav
valaria
lhe parecia invencível.
Figura 1 -Territórios ingleses em França
30
Nº 187 AGO09
O primeiro embate militar dá-se em 1340, a norte de Bruges, na batalha naval de L’Ecluse, que foi
a
aclamada
pelos inglese como a “Trafalgar da Idade
M
Média”
e que consumava a caminhada decisiva
p
para
o controlo do Canal da Mancha.
AZIMUTE
c
convenceu
o Papa Clemente V a mudar-se para
<
„ ‰
* !
<
às
à intrigas políticas em Roma, e às disputas sem
=
‚%
França
(1309-1378), sete papas e cerca de 1000
F
cardeais
eram originários de França. Considerando
c
a Igreja como um importante factor ordenador do
‰ ‰
†
'
sobre
a cristandade.
s
Entre 1379 e 1417, devido a lutas de poder
entre
cardeais, chega a haver dois papados, o de
e
Figura 2 - Batalha de L’Ecluse
Alguns combates de pequena envergadura iam
sendo travados em solo francês, demonstrando a
Filipe VI que os aguerridos ingleses, mesmo famintos e com frio, eram um temível adversário para a
sua cavalaria. Em 1346 trava-se a batalha de Crécy
com resultados que todos conhecem e que mais
adiante se voltará.
A 1 de Agosto de 1350, Filipe VI morre e é coroado João II, João-o-Bom. Tinha uma tarefa hercúlea pela frente: reerguer a França, exaurida pela
guerra, peste negra e fome, devido a sucessivas
más campanhas agrícolas.
>
=== *W W
dades domésticas, essencialmente devidas a excessos de cobrança de impostos para pagar os
empréstimos que tinha contraído junto de italianos
e holandeses. Por conseguinte, nada melhor que
um empenhamento em França para unir esforços
e levantar os ânimos da nação. Propôs a João II
que abdicava das suas pretensões ao trono se lhe
fosse concedida a soberania sobre os territórios em
França ocupados pelas suas tropas. João II recusa
terminantemente e Eduardo decide invadir a França.
Fê-lo por dois locais: ele próprio pela Normandia
!% ‚
pelo Sul, junto a Bordéus. Depois de algumas escaramuças, em 1356, junto a Poitiers, trava-se uma
batalha que tem como resultado mais importante a
captura do rei francês. Acaba por ser libertado pelo
tratado de Brétigny (1360) contra o pagamento de
3 milhões de escudos-ouro, a cedência do ducado
da Aquitânia e da cidade de Calais. Este momento
% ‰
=
em França.
Outro ponto de elevada importância na situa' %
>
como o Cisma do Ocidente: a existência simultânea dos papados de Avignon e de Roma. Filipe IV
Figura 3 - Alinhamentos com os papados de Avignon e de Roma
Avignon e o de Roma, que dividiu as principais potências quanto ao seu reconhecimento. A França,
Castela, Nápoles e Escócia deviam obediência ao
papa de Avignon. A Inglaterra, reinos escandinavos e Itália obedeciam a Roma. Portugal, durante
o reinado de D. Fernando obedecia a Avignon e o
mestre de Aviz, para marcar a sua diferença com
a política externa de D. Fernando, alinhou-se com
Roma.
A Situação Militar
Como foi apresentado, encontramo-nos na fase
descendente do sistema feudal. Este período tinha
visto renascer a importância da mobilidade, dos arreios e da lança que, em síntese, originava o poder
de choque, não sendo necessário ao cavaleiros
o arremesso de lanças. Num choque entre cavalarias, tal como num combate de forças blindadas
ou numa batalha naval, a vantagem advinha de um
misto de velocidade, protecção e alcance. O alcance provinha de lanças mais compridas. A protecção
advinha da utilização da armadura.
Quando as campanhas eram prolongadas eram
necessárias várias montadas. Além disso, o cavaleiro necessitava de quem lhe transportasse o
Nº 187 AGO09
31
AZIMUTE
escudo, de um moço de fretes, de um batedor a
cavalo e de uma ou duas sentinelas. Assim, o cavaleiro transformou-se numa lança, uma equipa de
meia dúzia de homens, que funcionava tal como
hoje a guarnição de um carro de combate. Além do
mais, esta parafernália tornou-se demasiado dispendiosa. Pegar em armas, ter brasão no elmo e
símbolos no escudo facilmente reconhecíveis em
combate, era sinónimo de nobreza. Ser cavaleiro
era, acima de tudo, uma forma de vida sancionada
e civilizada pelas cerimónias da igreja. Este era o
tributo da Igreja perante os serviços prestados pela
cavalaria à cristandade. Este era o típico aparelho
militar Francês, que defrontou inicialmente os ingleses em Crécy e Poitiers.
Os ingleses tinham combinado a cavalaria feudal com soldados de infantaria e, entre eles, sol-
essencialmente à cadência de tiro e ao alcance,
cinco a seis disparos por minuto e alcances da ordem dos trezentos metros.
No período que interessa para o objectivo deste
texto, duas batalhas deixaram uma marca indelével
na arte da guerra: a batalha de Crécy (1346) e a
batalha de Poitiers (1356). Nestas duas batalhas é
francamente notória a diferença entre os dois aparelhos militares em confronto.
Em Crécy (24 de Agosto de 1346), após algumas
escaramuças e perseguição de Filipe VI, Eduardo
decide-se a tomar posição, aproveitando o terreno para minimizar a sua vantagem numérica (1:2).
<
to para ocupar uma posição defensiva preparada.
Dispõe a infantaria em primeiro escalão e manda
apear a cavalaria para que combatam como tinham
fe nas campanhas da Escócia, entre os arqueifeito
ro para os encorajar a manter as suas posições.
ros,
O franceses, sem reconhecerem a posição ingleOs
s avançam em levas sucessivas, com a infantaria
sa,
g
genovesa
(mercenários) à frente, de forma dessin
K
<
K
a cordas das bestas, pelo que era muito difícil a
as
s utilização.
sua
Figura 4 - A cavalaria era o elemento central do
aparelho militar francês
dados arqueiros cujo valor militar tinha já sido de
?
W¡==£>
I), onde as montanhas eram o terreno típico, onde
a cavalaria, treinada para combate simétrico e em
* K >
utilizar batedores para arrancar os galeses dos
seus esconderijos e os arqueiros, que utilizavam o
arco longo, tinham substituído os besteiros devido
Figura 6 – Imagem da batalha de Crécy
Figura 5 – O sistema militar inglês era baseado na
combinação de efeitos da cavalaria com os arqueiros
32
Nº 187 AGO09
Os arqueiros ingleses obrigam os genoveses
' c
cavalaria
francesa, tornando-se alvo fácil para os
a
arqueiros
e para os cavaleiros ingleses apeados.
N
Não
obstante, o mais admirável de Crécy não foi
ta
tanto
o efeito produzido pelos arqueiros ingleses,
m a constatação de que os combatentes apeamas
d não fugiram à primeira carga da cavalaria. Na
dos
re
realidade,
a batalha põe em evidência o combate
a
apeado
a partir de uma posição bem escolhida e
p
preparada.
AZIMUTE
c
comando
das tropas inglesas, dispõe as suas forças
ç em terreno preparado e de difícil acesso, porque
q para aceder à posição era necessário passar
da
d posição, de onde era possível concentrar os
*
—==
K
o seu exército em 3 batalhas, dispostas em profundidade
e ordenou a um grupo de cerca de 300 cad
valeiros
que penetrasse a posição inglesa através
v
]
'
franceses
a recuar e o príncipe negro ordena de
fr
imediato
um contra-ataque frontal com a sua cavaim
laria,
formada por homens de armas e arqueiros a
la
cavalo.
Ao mesmo tempo executa um envolvimenc
to sobre a 2ª batalha, desorganizando a formação
francesa,
que, com os cavaleiros apeados, não refr
siste
ao choque inglês.
s
Conclusão
C
Figura 7 - Esquema do dispositivo inicial da batalha de Crécy
Em 13 de Setembro de 1356, em Poitiers, os
franceses são novamente derrotados, essencialmente devido à excelente escolha de terreno defensivo dos ingleses e ao efeito da concentração
das setas dos arqueiros. O Príncipe Negro, no
‘
*
‰
va
v em Aljubarrota, porque mostra a importância da
preparação
do terreno e a importância do combate
p
apeado.
A escolha do terreno serviu para compena
sar a inferioridade numérica e a mobilidade da cavalaria foi decisiva para tirar partido das circunstâncias favoráveis do combate.
<
 “software”: reduzir vulnerabilidades; explorar potencialidades; e aproveitar as circunstâncias do
c
combate.
O triunfo da ordem e da disciplina sobre a
coragem
cega da cavalaria.
c
Azimute
O TCor Inf Luís Fernando Machado Barroso é
Licenciado em Ciências Militares pela Academia
Militar e Mestre em História, Defesa e Relações
Internacionais pelo Instituto Superior de Ciências
do Trabalho e das Empresas.
Prestou serviço, entre outras unidades, na
Escola Prática de Infantaria como instrutor, dos
principais cursos da Escola e no Instituto de Altos
Estudos Militares, onde frequentou o Curso de
Estado-Maior entre 2003-2005, tendo de seguida sido ali colocado em 2005 como professor de
Técnicas de Estado-Maior e Táctica na Área de
>>%
>W
Presentemente é Doutorando em História,
Defesa, e Relações Internacionais no mesmo
Instituto.
Figura 8 – Esquema da batalha de Poitiers, onde se nota (ao
centro da imagem) o envolvimento da cavalaria inglesa
É colaborador frequente de várias publicações e
revistas, entre as quais a “Azimute”, Revista Militar
de Infantaria.
Nº 187 AGO09
33
AZIMUTE
O Armamento da Época Medieval
TCor Inf Mário Álvares
Da Pré-história à Idade Média
Paleolítico é o período de maior duração, com cerca de seiscentos mil anos, bem como o período de
' tores que obrigaram a adaptações funcionais daquilo que serão as primeiras armas de mão e de
arremesso.
Nesse período, a totalidade da Eurásia, com excepção da Europa mediterrânea, estava convertida
em campos desérticos e inabitáveis devendo ser
acrescentada a actividade de diversos fenómenos
tectónicos. Nessa altura o homem não tinha local
‰
W
vestuário. Ou seja, poucas características o distinguiam do animal comum. No entanto, é neste período que cria o primeiro utensílio, a pedra. Esse
simples instrumento, que até um animal com reduzida capacidade utiliza para quebrar cascas, foi
pela primeira vez empregue pelo homem. O Homo
Habilis, considerado como o verdadeiro ancestral
do homem moderno, manipulava esse objecto dando-lhe formas que
como pedaços de
pedra mal talhados
(ver Figura n.º1) com
uma ou mais arestas
A Pré-História tem o seu início com as primeiras
demonstrações de actividade humana.
Embora possam existir outras, a divisão mais
clássica e generalizada para partição desse período longo de evolução da humanidade, foi a criada
pelo dinamarquês Thomsen, no Século XIX, para
*_ Copenhaga.
Essa divisão engloba as seguintes áreas de
evolução:
¤Pedra Lascada ou Paleolítico (600.000 a.C.
a 10.000 a.C.) – Idade Antiga da Pedra;
¤Mesolítico ou Média Idade Média (10.000 a
5.000 a.C.) – Idade Média da Pedra;
¤Pedra Polida ou Neolítico (5.000 a 2000
a.C.) – Idade Nova da Pedra;
¤Período dos Metais (Cobre, Bronze e Ferro)
(2.000 a.C. a 400 d.C.).
De toda a Pré-História, indubitavelmente, o
Mais tarde, pró. ximo do Paleolítico
Médio (90.000 a.C.)
o homem aprendeu a rentabilizar o uso do fogo o
que lhe permitiu, para alem da protecção do frio,
cozinhar alimentos.
É então que se dá a transformação gradual para
uma comunidade de tipo mais avançada. O homem
desce das árvores, passa a habitar em cavernas e
desenvolve utensílios para apoio à caça e defesa
contra predadores.
— !
% rior (cerca de 10.000 a.C.), surge a pedra talhada
em pequenas dimensões dando lugar a machados
£
¥`‹ '
K
madeira para o fabrico de cabos (empunhaduras).
No Mesolítico (10.000 – 5.000 a.C.) o homem
passou a trabalhar o barro e embora continuando a
Introdução
Escrever sobre aquilo que foi o armamento da
época medieval é, também, escrever sobre o que
foi o progresso da humanidade.
Uma abordagem avulsa de características técnicas das diferentes fases do desenvolvimento das
armas, sem qualquer enquadramento histórico e
social, torna confusa e por vezes sem sentido esse
progresso.
Assim, neste artigo, abordarei a evolução do
armamento mas, também, os principais períodos
de crescimento da humanidade, onde evidenciarei,
W túcia do homem no fabrico e aperfeiçoamento das
armas face à sempre imperiosa necessidade da
reposição dos equilíbrios de poder. Pontualmente,
sempre que se revele oportuno, procurarei aprofundar a evolução da Infantaria e da Cavalaria, principais armas combatentes do período em análise
=
mente esta abordagem a partir de alguns sítios da
Internet e na publicação por mim compilada em
2003, enquanto professor da Academia Militar,
escola onde fui responsável pela Cadeira de
Elementos de Armamento.
34
Nº 187 AGO09
Figura n.º1. CANBY, Courtland – op. cit
Mas será o bronze (2.000 a. C. a 1.000 d.C),
liga de cobre e estanho, que irá obrigar o homem
a introduzir uma alteração profunda nos modelos
de armamento empregues até então, colocando um
=
!
até então empregue tão importante como viria a ser
a pólvora na Idade Média, que.
A partir desse período as armas como machados ou lanças passam a ligar-se às empunhaduras
por mangas (ver Figura n.º3). O desenvolvimento
do bronze só seria ultrapassado pelo ferro, essencialmente pelo seu baixo custo e, mais tarde, quando descoberta a metalurgia do aço.
AZIMUTE
utilizar a pedra, fabricava redes, machados, pontas
de lança ou anzóis.
Mas é no período da Pedra Polida que, ao nível
do armamento, se marca o crescimento que passaria a ser determinante para os estádios de desenvolvimento seguintes.
A arma, que até então tinha uma utilização voltada para a caça e trabalho doméstico, passa a ter
uma aplicação militar.
Nesse período, destaca-se o surgimento do arco
'
*
a alterar o seu conceito de luta. Com essa nova
arma de projecção de tiro o homem via-se obrigado
a barricar-se para protecção dos projécteis, bem
como a criar outros equipamentos de defesa individual de forma a permitir o lançamento de armas de
arremesso, como a lança.
Escudo em couro
>*
vegetal
Machado em pedra polida
Figura n.º3. CANBY, Courtland – op. cit.
Nasce
Pontas de setas e lanças em
bronze
Figura nº2. SEGRELLES, Vincent – op. cit.
assim o escudo e a armadura. O escudo, numa
* *
' eram feitos com um ramo esticado por uma corda,
W
„ ‚
%
K
bre que – pese embora as suas fracas qualidades
mecânicas (razão pela qual não contribuiu para a
demarcação de um estádio do desenvolvimento da
humanidade) quando comparado com a pedra (ver
Figura n.º2) –, veio a revelar-se muito útil no melhoramento de algumas armas, nomeadamente em
pontas de setas e lanças.
Já no Período dos Metais (2.000 a.C a 400 d.C.)
surge a roda (2.000 a.C.) que, conjugado com o
> % ' grandes civilizações do “Antigo Oriente” (que compreende o Irão, a Ásia Menor, a Síria e o Egipto)
como os Sumérios, os Hícsos, os Egípcios ou os
Assírios.
A sociedade Suméria era essencialmente urbana. O exército era composto por homens livres
"
$ ras de seis homens armados com arco e lança.
Usavam capacetes de couro e um pesado escudo.
Conheciam o uso dos carros de combate com tracção animal que eram extremamente pesados e de
difícil manejo.
Já os Egípcios eram uma grande potência militar, tendo conquistado a Síria, Palestina, Líbia e a
Núbia. Aprenderam a dominar o cavalo e a fabricar
o arco curto, mas cedo reconhecem que montar
a cavalo e disparar em simultâneo requeria muita
experiência, unicamente alcançável à custa de um
treino desenvolvido desde tenra idade (nesse período ainda não se conhecia o emprego generalizado
do estribo, do arreio e do freio sistemas que viriam
a facilitar o controlo dos animais). Assim, passaram
a adoptar e aperfeiçoar um tipo de carro com duas
rodas, herdado dos Hicsos, equipado com condutor
e archeiro, o que lhes conferia um notável poder de
choque e fogo.
Entretanto, nesse período, era a cavalaria que
decidia o combate, enquanto que a infantaria não
Nº 187 AGO09
35
AZIMUTE
passava de uma massa heterogénea que pouco
mais fazia do que desempenhar tarefas auxiliares.
A Infantaria, em tronco nu, mas com o abdómen
protegido por panos revestidos por placas de couro, transportava lanças de ponta curva e escudos
de madeira revestidos a couro. Eventualmente po
ou sílex. Entretanto e em consequência do maior
'

se vários tipos de defesas. Surgem as vestes a cobrir todo o corpo e, pela primeira vez, capacetes de
protecção metálicos com couro reforçado. Algumas
unidades de elite equipavam com couraças de lâminas de couro ou com couraças com cerca de dez
espessuras de linho prensado. Este tipo rudimentar
de armadura não garantia protecção contra armas
de estocada ou ponta mas garantia alguma defesa
contra armas de mão de punho, de corte ou gume.
Figura n.º4. Infantaria Egípcia - FUNCKEN, Liliane et Fred – op. cit.

=
† ção de três grandes civilizações: Grega, Persa e
Romana.
O auge da civilização Grega situou-se no Século
V a.C., nas Cidades-Estado de Atenas e Esparta.
Com os gregos as campanhas militares passaram
a ser desenvolvidas a partir de formações padroniK
sistemas de armas empregues, traduzindo assim
um exército organizado em:
Psilitas equipados com arco, funda ou azagaia e grevas metálicas;
Hoplitas equipados com couraça, escudo
oval, pique (4 a 6 metros) e grevas metálicas;
Peltastas equipados com couraça com placas de estanho e lâminas de couro, pique e
espada curta;
¤e Cavalaria a cavalo ou em carros de
combate.
36
Nº 187 AGO09
Figura n.º5. Infantaria Grega - SEGRELLES, Vincent – op. cit.
Mas no mesmo período, cerca de um Século mais
tarde, depois de Alexandre ter construído um
grande império no Oriente, Roma conquistou as
terras do Mediterrâneo Ocidental e quase todos os
Estados helénicos, a Oriente, incluindo a própria
Grécia.
O seu domínio, marcado por três períodos
díspares em organização e modo de governar
(Monarquia – até 509 a.C., República – até 32 a.C.
e Império – até 410 d.C.), era consubstanciado
num poderoso aparelho militar.
Em termos de equipamento o soldado romano utilizava capacete de ferro com argola na parte superior para que pudesse ser transportado ao
ombro durante as marchas (quando sem capacete
utilizavam um gorro de lã). Sobre a túnica colocavam uma couraça anatómica ou chapas de metal
que não afectassem os movimentos. Essa couraça, de tipo helénica, é característica dos soldados
de Túlio Hostílio (672 a.C. a 640 a.C.). A partir
de Mário (157 a.C. a 86 a.C.), político e general
da República Romana, os Legionários passam a
adoptar uma cota de malha, provavelmente imputada aos gauleses, e que se denominava lorega.
Da cintura pendiam tiras de couro endurecidas e
nas pernas usavam grevas metálicas ou sandálias.
Os escudos apresentavam as formas circulares ou
rectangulares com um depósito central onde guardavam objectos de valor. A cavalaria utilizava escudos redondos de pequenas dimensões. A partir da
época de Júlio César os escudos abandonaram a
tradicional forma oval e passaram a adoptar a forma rectangular.
Como armas ofensivas utilizavam uma espada
curta de dois gumes (gládio). Podiam ainda utilizar um pique ou uma pequena lança curta de arremesso, o pilum, que quando lançada contra um
%
tornava impossível ser retirada do corpo.
Porém, a partir de 400 d.C, a luta desenfreada
Nº 187 AGO09
AZIMUTE
Próximo Oriente. Para os Bizantinos a guerra era
uma ciência. O treino militar era intenso e vários
compêndios militares foram escritos.
Por seu turno, a Europa Ocidental, atingia o
“máximo de desorganização”.
O Ex-Império de Carlos Magno encontrava-se
dividido num grande número de reinos e ducados tribais auto-subsistentes. Todavia, e tal como
=
„
união, dando origem
a um novo Estado
antecessor da moderna
Alemanha,
o
Santo
Império
Romano-Germânico.
A Idade Média e as novas organizações
Entretanto,
nesmilitares
te período, conturbado para a Europa
A Idade Média foi um termo criado pelos
Ocidental, no Oriente,
Europeus no Século XVII para exprimir, no seu
uma grande civilização
ponto de vista, um longo e melancólico período
que tinha o seu cende interrupção da evolução civilizacional, marcatro, tal como hoje, no Figura n.º7. Militares e armamento árabe
do pela queda do Império Romano do Ocidente,
SEGRELLES, Vincent – op. cit.
mundo árabe, atingiu o
e que se prolongou até 1.500 d.C., ano em que
apogeu.
Constantinopla, capital do Império Romano do
A reunião de povos como os egípcios, árabes,
Oriente, foi conquistada pelos Turcos.
‚
=W•
] assírios e palestinos deu origem à criação de um
exército heterogéneo onde se destacava uma exe início da Idade Média o cristianismo era o único elo
celente cavalaria e archeiros de elevada precisão.
cultural que ligava os povos da Europa Ocidental.
O seu exército era modelado por persas e bizanMas em 800 d.C. um novo reino, reunindo vátinos. Cada divisão tinha duas alas de lanceiros a
rias populações Bárbaras, como os Francos e os
cavalo, as quais cobriam a vanguarda, e na retaLombardos, formou um novo Império restaurando o
guarda, uma infantaria ligeira e pesada equipada
antigo Império Romano do Ocidente. A sua exten
são era comparável àquela que o Império Ocidental
As armas ofensivas e defensivas dos Árabes
da antiga Roma tinha alcançado. O rei mais famoso
eram, no seu aspecto funcional, as mesmas que
desse Império foi Carlos Magno que governaria até
as dos seus opositores embora com mais ornatos e
cerca de 814 d.C., ano da sua morte.
!W^W=¡
*W
aço de melhor qualidade.
uma nova vaga de invasões Bárbaras que varreA sua arte na construção de material bélico foi
ram o litoral de muitos países. Esses novos invasomelhorando com o decorrer das conquistas sendo
res eram oriundos das terdisso exemplo a cota de
ras do Norte (Dinamarca,
malha, a utilização da ciSuécia e Noruega) e eram
mitarra e do sabre. Mais
conhecidos por Vikings
tarde passaram a adoptar
£ ‹ ]
espadas de lâmina direita
seu armamento e equipae de dois gumes.
mento era em todo idêntico às das restantes ciEntretanto, na Europa
vilizações Bárbaras suas
Ocidental, as diferenças
antecessoras.
do tipo de equipamento
Entretanto, no Oriente,
e armamento, que, em
o limiar do Século X maralguns casos, eram imacou o auge do Império
gem de marca de deterBizantino e Constantinopla
minadas civilizações, deitransformou-se no cenTORÍBIO, J. M. Cuenca – op. cit. p. 268.
tro do comércio de todo o
xaram de existir.
pelo poder e a corrosão do sistema
d controlo e gestão dos escravos
de
f responsável pela desorganização
foi
económica e, consequentemente,
pela desordem social que levou
à derrocada do Império Romano
e toda a sua organização militar.
A partir dessa data Roma passou a
ser uma cidade provinciana e todo o
Império Ocidental foi subjugado às
invasões de bárbaros provenientes
da Gália, Norte da Europa e
Figura n.º6. Soldado Romano SEGRELLES, Vincent – op. cit.
Ásia.
37
Lorega
Chicote de armas
AZIMUTE
Cota de malha em
anéis metálicos
Cota de malha
Fig n.º8 SEGRELLES, Vincent – op. cit.
A lorega – feita com pequenas chapas metálicas
cozidas a uma túnica de couro, que resultava numa
protecção pesada e rígida que terminava num capuz de couro, cobrindo a parte de trás do pescoço e a cabeça, sobre a qual assentava o capacete
que tinha então uma peça saliente para protecção
do nariz –, foi sendo aperfeiçoada dando origem à
!W
vo da “blindagem” do combatente, passaram a ser
utilizadas algumas armas, muitas delas herdadas
de outras civilizações, nomeadamente o chicote de
armas e o machado de mão ou de arremesso, sistemas que pela distância do centro de gravidade
à pega na empunhadora, desde que empregues
como à arma de mão de esmagamento e corte,
eram sempre animados de uma elevada energia
cinética.
Entretanto, o infante (soldado de infantaria), dotado de um armamento de defesa menos completo,
sendo as principais armas defensivas o escudo e o
capacete de ferro ou couro, foi aumentando a sua
protecção a ponto de adoptar, numa fase posterior,
armaduras tão pesadas e incómodas como a cavalaria do Século XIII.
Mas será no dealbar do Século XIV que o in
*
>
Num primeiro instante, passando a adoptar piques
de grandes dimensões, obriga a cavalaria a introduzir alterações profundas no seu armamento
defensivo. O elmo, até então parcialmente aberto
na parte frontal, passou a estar completamente fechado. E a armadura, até então em cota de malha,
passou a ser reforçada com chapas metálicas para
aumentar a resistência.
Mas será a introdução do arco longo, concebido
em madeira de olmo ou teixo, sistema que permitia
bater alvos às mais longas distâncias (400 metros)
com uma grande energia cinética, e a introdução
gradual da besta, também ela arma de projecção
de tiro mas que, ao contrário do arco, não neces
% *
38
Nº 187 AGO09
aram a condicionar,
imediato, que passaram
vel, o emprego
de forma irremediável,
ecurso a pesada cavalaria sem recurso
das armaduras.
ualquer
Hoje, não há qualquer
a e o
dúvida que a besta
arco, juntamente com
piques, marcaram a dearia
cadência da cavalaria
do
feudal. Acima de tudo
os homens equipa-dos com piques e
os arqueiros não
se bateram nem
como aliados nem Figura n.º 9. Arqueiro com arco longo e besta.
SEGRELLES, Vincent – op. cit.
como adversários
*%
'
arma criando um corpo com capacidade de projecção de fogo, capacidade para conduzir o combate próximo e capacidade para resistir ao poder de
choque da cavalaria.
Todavia, para além do emprego da besta, o século XIV foi marcado pelo emprego das armas de
fogo.
A tradição europeia menciona dois monges, um
inglês Roger Bacon (1212-1294) e outro alemão
Bertoldo Schwartz, como os criadores da pólvora
como sistema de projecção para armas de fogo.
No entanto, o que parece mais provável, é que os
inventores tenham sido os Árabes que, enquanto a
Europa ainda atravessava um período de recuperação algo obscuro, o período pós-romano, terão
traduzido trabalhos de sábios gregos e latinos que
se dedicavam à alquimia, considerando-os apenas
como uma curiosidade, até que, em meados do
século XIV, alguém lhes descobriu uma utilidade
prática, inventando o canhão. Como a combustão
dessa substância (pólvora) era muito brusca, a súbita expansão dos gases formados durante a combustão podia lançar um projéctil. Assim nasceu a
pólvora que se passou a usar para o lançamento
de pedras de grande volume destinadas a esmagarem, pelo seu peso, as muralhas.
As primeiras armas de fogo foram a bombarda,
p a r a tiro indirecto, e a colubrina, para tiro directo.
A Bombarda não era mais que uma tosca
peça de chapa de aço forjada em forma de tubo e
reforçada com cintas de metal que podia ou não
ser montada sobre um reparo rodado.
A colubrina, de menor calibre, podia ser carregada pela culatra por intermédio de uma cavilheta
(Figura n.º10) que se ajustava à pressão por intermédio de uma cunha. No entanto de ajustamento das diferentes peças levaram esse
AZIMUTE
Cavilheta
seus escalões, e modos de actuação.
!
peita, importa relevar que a Idade Média, herdeira
de grandes civilizações da Antiguidade Clássica
mas marcada por um retrocesso em termos civiK
% franca evolução da tecnologia do armamento, factor que veio a ser determinante na célere evolução
das armas de projecção de fogo individuais e colec
=
Azimute
ARMAS E ARMADURAS (s.d.) – Enciclopédia Visual.
Figura n.º10. Colubrina. SEGRELLES, Vincent – op. cit.
equipamento ao fracasso.
O primeiro emprego da pólvora numa arma de
projecção de fogo em campanha foi em Inglaterra
durante a Batalha de Crecy a 26 de Agosto de 1346.
> _ W ¡=” ros canhões de mão com um simples tubo em ferro
tendo no extremo posterior de uma das suas geratrizes um orifício para que pudesse ser comunicado o fogo à carga que se encontrava no interior da
arma.
Assim, no início do século XVI (início da Idade
Moderna) e até ao surgimento das armas de retrocarga com a introdução generalizada dos sistemas
semi-automáticos dos inícios do Século XX, a infantaria, apesar do emprego das primeiras armas
de fogo, passou a utilizar três tipos básicos de unidades de manobra: Alabardeiros equipados com
alabarda (composta por uma haste longa idêntica
ao pique é atravessada por uma lâmina em forma
de meia-lua (similar à de um machado), Piqueiros
equipados com pique, e Arcabuzeiros equipado
com arcabuz.
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yŠ!
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¨]
?
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SANTOS, General loureiro dos (2003). A idade imperial;
> _ a luta pelos equilíbrios de poder foi determinante
para evolução tecnológica do armamento.
Se numa fase inicial da humanidade as necessidades de sobrevivência levaram ao desenvolvimento de sistemas de armas para a caça e protecção
de predadores, cedo se constatou que os primeiros
grupos sociais, na procura da segurança colectiva
*
’
temporânea, arrastaram o homem para uma luta
desenfreada no desenvolvimento de sistemas de
protecção mas, também, em sistemas de projecção
do poder de fogo às mais longas distâncias.
#
_
a introdução de novos sistemas de armas teve um
' '
< © •\ * >
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Nº 187 AGO09
39
AZIMUTE
A Crise
C
de 1383-1385 e a Batalha de Atoleiros
Cap Inf Carlos Afonso
O Séc XIV Europeu
O Séc. XIV traduz-se na Europa por uma crise profunda. As causas exactas desta apelidada “crise” são ainda hoje difíceis de apontar com
precisão1.
Como resultado da crise frumentária2, ocorreram períodos de fome generalizada: na Europa do
Norte entre 1315 e 13173; na Europa do Sul entre 1346 e 13474. A sucessivos anos de colheitas
_
 *
'
mineira, com a consequente compensação imposta
W dade5. Por outro lado, a peste negra, entre 1346 e
1350, reduziu a população europeia em cerca de
um terço. Em Portugal o surto foi mais intenso em
13486. Esta epidemia não só foi um drama sanitário
como assumiu dois efeitos importantíssimos. Um,
no campo do místico-religioso e, portanto, moral,
entendido como castigo divino e um outro, muito
mais terreno, mas de repercussões prolongadas
no tempo: desbaratou a mão-de-obra agrícola de
*
golpe na produção das décadas seguintes.
« enfrentadas pelas então comunas autónomas da
Flandres, em que a produção de tecidos sofreu
*

%K
'\
mengos para Itália7. O Séc. XIV europeu viu ocorrer
frequentes revoltas localizadas, sobretudo protagonizadas pelo povo. As revoltas dos trabalhadores ingleses liderados por Watt Tyler, em França
os “Jacques”, na Flandres os “Unhas Azuis”, em
Florença os “Ciompi”
não ocorreram em
simultâneo,
não
se
trataram
de
movimentos
sociais combinados,
nem os propósitos
eram exactamente
iguais8. Nem sequer se pode falar
de uma consciência
popular ou nacional.
Dado que não há
ligação entre as dimos orientados a concluir que
ferentes revoltas, somos
estas eclodiram porque o ambiente e a situação
social e económica assim o determinaram. E este
dado, por sua vez, prova que o Séc. XIV foi profundamente diferente para pior, a uma grande escala,
do que os séculos que o antecederam e dos que o
sucederam.
Em 1337 os poderosos reinos de Inglaterra e
França envolvem-se na Guerra dos Cem Anos
(1337-1453), a “primeira guerra mundial fora do
Mediterrâneo”9. Logo no início, o rei Eduardo III de
Inglaterra, procurou aliar-se com a Flandres e com
o Sacro Império Romano-germânico, mas “não
'
estratégia e procurou antes alianças na Península
Ibérica”10. As décadas seguintes foram marcadas
pelo crescente envolvimento dos reinos peninsula
O Contexto Ibérico
1 Monteiro, 2003: 30.
2 Crise da produção de cereais.
3 Entre 1315 e 1317 registou-se pluviosidade excessiva por
toda a Europa.
4 Na Península Ibérica registaram-se secas e más colheitas,
que resultaram em fomes em 1302, 1333 e 1344-46 (Duarte,
2006:15).
5 Monteiro, 2003: 30-31.
6 Rodrigues, 1985: 15.
7 Desde 1270 que a Flandres era nominalmente pertença
da coroa francesa. No entanto, as associações urbanas
de tecelões nunca reconheceram verdadeiramente aquela
soberania, fazendo a situação degenerar numa série de
*
1304. A partir desta altura, a prosperidade flamenga foi
declinando, agravada durante todo o Séc. XIV por ocorrências
como a peste negra e a Guerra dos Cem Anos (1337 – 1453).
40
Nº 187 AGO09
O Séc XIV peninsular é, em certa medida, um
>
<
monarquias portuguesa e castelhana tiveram em
comum, por diversas ocasiões, lutas internas entre
a nobreza e elementos da própria família real, normalmente por questões sucessórias. Isto originou,
'
se iam cruzando. Em Portugal, o conhecido desfecho da relação amorosa entre o infante D. Pedro e
D. Inês de Castro (em 7 de Janeiro de 1355) acentuou uma clivagem já existente entre elementos da
8 Duarte, 2006: 17.
9 Martins, 2006: 33.
10 Martins, 2006:10.
AZIMUTE
alta nobreza. Por outro lado, a corte portuguesa pu
*K
lulava de linhagens castelhanas exiladas, ao mesnova nobreza. Após a subida ao trono de Castela
mo tempo que inúmeros nobres portugueses foram
de Henrique de Trastâmara, em 1369, o problema,
não era o da
acolhidos em Castela.
como interpreta Borges de Macedo, “não
Do lado castelhano, a subida
yš€} %
de Afonso XI, D. Pedro I, o “Cruel”,
provocou uma luta com um conjunto de herdeiros ilegítimos, fomentando a guerra civil11. Henrique de
Trastâmara, meio-irmão de D. Pedro
I, foi o pretendente que congregou
em redor de si a mais poderosa facção, constituída pela parte da nobreza ansiosa de mais representatividade e pelos comerciantes das cidades
da Galiza e Astúrias. Os reinos de
Aragão, Navarra, Portugal e até o reino mouro de Granada viram-se envolOs reis D. Fernando de Portugal e D. Juan I de Castela
vidos na contenda. Aragão e Navarra,
movidos por interesses próprios, alinhasucessão, mas o facto de ter sido colocado no trono
ram com Henrique e com os franceses. D. Pedro I
um rei com o apoio da França e o perigo que isso
de Castela e D. Fernando de Portugal procuraram
representava para todos os reinos independentes
o apoio de Inglaterra12. Granada, embora opositor
natural de todos os reinos cristãos da Península,
da Península”16. D. Fernando viu-se então obrigado
*
'
!
a entrar em guerra com Castela, numa sucessão
K nas vésperas da Primeira Guerra Fernandina, em
nhecidos como as três Guerras Fernandinas (1369136913.
1371, 1372-1373, 1381-1382).
Do ponto de vista social, a segunda metade do
século XIV é caracterizada pela drástica redução
Casou com D. Leonor Teles de Menezes (1350dos rendimentos senhoriais, situação que não é es1386), em 1372, no mosteiro de Leça do Bailio,
tranha à Península Ibérica. Isto veio a acentuar as
sede da Ordem do Hospital. D. Leonor pertencia à
*
tados do acesso ao património familiar por regras
‰
<
*
14.
muito querida pelo povo tendo recebido o epíteto
Foi este o quadro que o rei D. Fernando (1367de “a Aleivosa” porque foi considerada responsável
1383) encontrou quando ascendeu ao trono. Em
por um conjunto de conspirações, entre elas o da
Castela, a guerra civil prolongava-se. Em 1369, D.
morte da sua própria irmã (no episódio que se desPedro I de Castela foi morto em Montiel, fechando
creve a seguir), pelo aprisionamento de D. João,
um ciclo que durava desde 1350. Apesar da tentatiMestre de Avis e pelo seu relacionamento conheciva inicial de manter a neutralidade, D. Fernando de
#†
!
galego, o conde João Fernandes Andeiro.
Muitas cidades castelhanas, não se querendo subEncontramo-nos agora já na década de 70 do
meter a Henrique de Trastâmara, invocaram o pa^W¡=”­
rentesco do rei português com o falecido D. Pedro
agregar em sua volta um conjunto de descontenI, pressionando-o. Foram esta exigência política e o
>
#—
facto de ainda não ser ter casado, os dois factores
velho de Pedro e Inês. Casado com Maria Teles, a
que mais terão condicionado o início do reinado de
irmã da rainha, foi vítima de uma intriga que o levou
D. Fernando15. Embora sob o motivo aparente da
a assassinar a própria mulher, vindo a refugiar-se
questão do direito ao trono de Castela, era já clara,
depois em Castela17, onde foi aprisionado. Deste
modo, um dos principais pretendentes à sucessão
de D. Fernando, ‰
yy
"?

¬
$
colocado “fora de campo”.
y` 
>
_
' Na sequência da Terceira Guerra Fernandina, o
europeu era de certo modo análoga à de Portugal, negociar
Tratado de Salvaterra de Magos, celebrado em 2 de
alianças com os opositores do reino vizinho (naquele caso,
Abril de 1383, promoveu o casamento da princesa
alianças com a França que se opunha a Inglaterra) permitia
aguardar um balanço de forças favorável (Gomes, 2009: 32).
13 Gomes, 2009: 91.
14 Monteiro, 2003: 14.
15 Martins, 2006: 51.
16 Idem.
17 Crê-se que a fomentadora da intriga terá sido a própria
rainha, D. Leonor Teles.
Nº 187 AGO09
41
AZIMUTE
#–
K
’
‰#›
com o monarca de Castela, D. Juan I18 em 1383. D.
Fernando morreu em Outubro desse mesmo ano,
aos 38 anos de idade, sem deixar nenhum herdeiro directo masculino. Pelo tratado de Salvaterra, D.
Leonor Teles assumiria a regência do reino até que
#–
K—
=
gisse a maioridade de 14 anos19. D. Beatriz contava,
ao tempo da boda, com 10 ou 11 anos de idade.
Dado que o infante D. João de Castro se encontrava aprisionado em Castela, as famílias relegadas para segundo plano na corte durante o reinado
de D. Fernando apressaram-se a organizar-se em
*
W#!
e de uma outra dama, D. Teresa Lourenço. Era D.
João, Mestre da Ordem Militar de Avis, que viria a
ser o rei D. João I.
>
*
duas facções principais em oposição: o partido de
D. Beatriz, que defendia que o trono de Portugal
pertencia, por direito, ao monarca de Castela, seu
marido, e o partido de D. João Mestre de Avis. A
#–
K
*W
gente do reino, a rainha viúva, D. Leonor Teles, com
a sua conhecida relação amorosa com o Conde
João Fernandes Andeiro, ideólogo do partido que
apoiava Juan I de Castela e D. Beatriz.
Em torno de D. Beatriz encontrava-se boa par
*K
Wdeiros, senhores de vastas possessões. Em torno
#—<*
cundogénitos, boa parte deles com carreiras militares nas Ordens de Avis, de Cristo, Santiago e
do Hospital. Era uma elite militar. Prova-o a forma
como foi conduzida a campanha de 1383-1390 e
como se avançou para Ceuta em 1415. O próprio
D. João era precisamente o Mestre de uma das
Ordens.
A crise de 1383-1385 teve também uma dimensão popular muito importante explicável pelas circunstâncias sociais e económicas anteriormente descritas. Resta ainda referir que D. Juan
I de Castela apoiava um papa, Clemente VII, de
Avinhão. Os portugueses eram partidários do papa
de Roma, Urbano VI20. Este aspecto religioso assume alguma relevância quando pensamos nas
motivações e argumentos para a mobilização das
populações rurais21.
Atoleiros (6 de Abril de 1384), Trancoso (29
de Maio de 1385) e Aljubarrota (14 de Agosto de
1385), foram as três grandes batalhas entre 1383
e 1385 dignas desse nome. Houve inúmeros confrontos durante todo o tempo, mas os efectivos
presentes raramente ultrapassaram as escassas
centenas. Atoleiros foi essencial como catalisador moral, positivo para os partidários do Mestre
de Avis e negativo para Juan I. Demonstrou claramente que Castela não era invencível em campo
aberto, representando o maior revés sofrido pelos
castelhanos até então e um reforço extremamente
consistente da causa de D. João de Avis.
Em 8 de Fevereiro de 1384, estando já estacionado em Santarém, o rei de Castela colocou forças
em Lisboa, na zona do Lumiar, dando assim início
'
com a chegada de uma frota castelhana ao Tejo.
O Mestre d’Avis, ocupado com a defesa de
Lisboa, foi informado de que Juan I tinha solicitado
reforços para o cerco, que se dirigiam de Castela
pelo eixo mais directo – o Alto Alentejo. Em Março
de 1384 nomeou D. Nuno fronteiro da comarca de
Entre Tejo e Guadiana. Esta decisão teve alguma
oposição inicial de João das Regras, dado que este
alegava que os irmãos de D. Nuno vinham na hoste
castelhana. D. João manteve a sua intenção e autorizou D. Nuno a escolher, em Lisboa, 200 cavaleiros, dos quais 40 da primeira nobreza22. Deu-lhe
também autorização para juntar à sua hoste cerca
de 1.000 homens a pé. Nuno Álvares Pereira partiu
então para o Alentejo, em meados de Março, sendo acompanhado por D. João até Coina, onde se
despediram.
No mesmo dia, as gentes de Setúbal negaramlhe a entrada e a força acabou por bivacar em
Palmela. Naquela altura, D. Nuno, recém-nomeado, acalentava dúvidas acerca das convicções
daqueles que o acompanhavam. Ao mesmo tempo
tinha verdadeira consciência do pouco grau de treino da força. Na noite de Palmela terá aproveitado
a detecção à distância das fogueiras de um acampamento de almocreves para levantar a suspeita
de que se poderiam tratar de cerca de 300 lanças
castelhanas23. D. Nuno e os seus prepararam o
combate, mas a manhã veio a esclarecer o engano.
18 Filho de Henrique de Trastâmara.
servido de instrumento na mobilização das populações rurais,
dada a religiosidade medieval e o receio de excomunhão.
19 Lei “sálica” – costume antigo, passado a escrito no tempo
de Clóvis, rei dos Francos, em 490, e depois sucessivamente
reinterpretado. Destinava-se a regular o acesso a terras por
parte dos herdeiros. No Séc. XIV o conceito encontrava-se
mulheres ao trono (Duarte, 2006: 7).
42
A caminho dos Atoleiros
20 Tavares, 1985: 21. Em 1379, em Évora, D. Fernando
declarara o apoio ao papa de Avinhão, mas esta opção não
foi duradoura (Gomes, 2009: 121).
22 Entre os escolhidos encontravam-se bastantes homens
oriundos de Évora e Beja, cidades que tinham dado o seu apoio
à causa de D. João [Martins,(?): 4]. Este pormenor é importante
porque revela dois aspectos. Por um lado, a intenção destes
combatentes de estarem presentes junto das suas terras,
contribuindo para a sua defesa. Por outro lado, a decisão de
ter na hoste verdadeiros conhecedores da área de operações
que, para além de relevantes ao nível táctico, teriam um papel
importante no recrutamento da hoste ao longo do percurso.
21 É sabido que, entre os apoiantes do Mestre de Avis, se
encontravam as massas urbanas comerciantes e elementos da
baixa nobreza. No entanto, o argumento religioso deve bem ter
23 Correu o rumor de que Pedro Sarmento tinha vindo de
Santarém, por Coruche, para barrar o caminho à hoste que se
dirigia para o Alentejo (Crónica do Condestável, 53).
Nº 187 AGO09
Atoleiros
No dia seguinte, 6 de Abril de 1384, véspera de
Quinta-feira Santa, D. Nuno mandou tocar as trombetas de madrugada, ouviu missa e depois partiu
com a sua gente em direcção a Fronteira, que estava então a ser cercada pelos castelhanos, vindos
do Crato.
Ao encontro de Nuno Álvares Pereira veio um
escudeiro, de nome Rui Gonçalves29, trazendo-lhe
grandes propostas de honras e mercês, desde que
se passasse para o partido de Castela. Referiu também que seria inútil, com tão pouca gente, combater
contra tantos. D. Nuno tudo recusou, dizendo-lhe,
24 Fernão Lopes, 1ª Parte da Crónica de el-Rei D. João I, o
de Boa Memória, pp. 237 e 238.
25 Correu o rumor de que Pedro Sarmento tinha vindo de
Santarém, por Coruche, para barrar o caminho à hoste que se
dirigia para o Alentejo (Crónica do Condestável, 53).
26 D. Diego Gomez de Barroso viria a morrer nesta batalha.
27 Hoje o Largo Dragões de Olivença.
28 D. Diogo Álvares Pereira. Os irmãos eram quatro tendo
ainda D. Fernão ficado do lado de D. Nuno. A mãe, Iria
Gonçalves, tentou inicialmente demover D. Nuno, acabando
convertida à causa do Mestre.
29 Escudeiro, hospitalário, que tinha vivido com D. Nuno no
Crato, na infância.
contudo, “que fosse tão depressa quanto pudesse
ter com os seus companheiros, pois a hoste portuguesa estaria, mais depressa do que julgavam,
próxima de Fronteira e pronta para o combate”. Ao
ouvirem a mensagem de D. Nuno Álvares Pereira,
os castelhanos deixaram os preparativos do cerco
a Fronteira e deslocaram-se na direcção do exército português, pela estrada que ia para Estremoz
por Santo Amaro.
Nas imediações do local que é hoje a Herdade
dos Atoleiros, a 2,5 Km a sul de Fronteira, D. Nuno
fez alto ao deslocamento e escolheu o local apropriado para colocar a sua força. Optou por um terreno ligeiramente inclinado e que tinha em toda a
extensão, na zona mais baixa, uma linha de água30.
Tratou-se de um local extremamente bem escolhido, pois embora fosse aparentemente convidativo
para um ataque, tinha diante de si a ribeira, que
‰ temente larga e profunda para constituir um fosso.
Por outro lado, ao colocar os seus homens num
local ligeiramente mais elevado, proporcionava um
ângulo de tiro muito vantajoso para os besteiros.
O cabeço dos Atoleiros não tem mais do que 200
metros de largura, no sentido leste-oeste, e elevase cerca de 15 a 20 metros sobre as linhas de água
que o rodeiam, nomeadamente sobre a ribeira do
Carvalho, a norte. É ladeado, a leste e oeste, por
™
*ra. Para a retaguarda da posição (sul), o terreno é
relativamente plano.
Em primeiro lugar, D. Nuno mandou apear toda
a cavalaria, mal armada, e que seria incapaz de
resistir ao choque dos esquadrões castelhanos.
Seguidamente, organizou com eles a vanguarda
a duas linhas, mandando cravar compridas lanças
de madeira tosca no solo31, seguras obliquamente.
Colocou cerca de 50 cavaleiros montados na retaguarda32. Posicionou os besteiros em duas alas
e também por detrás da vanguarda, uma vez que
estavam mais elevados, de modo que podiam fazer tiro por sobre as cabeças das duas linhas da
frente. Finalmente, fez distribuir criteriosamente os
cerca de 1.100 homens a pé pela vanguarda e alas,
sem contudo deixar de misturar no meio deles al '
ou mesmo matar, caso dessem mostras de querer
retirar33. É importante salientar aqui que este procedimento revela que D. Nuno não tinha a certeza da prestação da sua peonagem, receando uma
AZIMUTE
D. Nuno tinha acabado de os submeter à primeira
prova. Nenhum desertara24. Foi também por esta
altura inicial da campanha que optou por formar
um “estado-maior”, constituído por representantes
das gentes de cada um dos concelhos que tinha na
hoste25.
De Setúbal dirigiu-se por Montemor até Évora,
onde tentou recrutamento, mas só conseguiu 30
lanças adicionais. Com 230 lanças avançou para
Estremoz, onde teve conhecimento que os castelhanos já estavam no Crato, comandados pelo
mestre da Ordem de Alcântara, Diego Gomez
Barroso26. Convocou as gentes dos arredores de
Estremoz e dos concelhos de Elvas e Beja. Juntou
estas forças no Rossio de São Braz, em Estremoz27
, onde passou revista à tropa, composta por cerca
de 300 cavaleiros, 1.100 homens a pé e 100 besteiros. Desde logo mostrou intenção de ir ao encontro dos castelhanos para lhes “dar peleja”, mas os
seus companheiros deram uma resposta negativa,
invocando duas razões: os castelhanos eram muitos e vinham comandados por grandes senhores –
a luta era desigual. Além disso vinha na hoste inimiga D. Pedro Álvares Pereira, prior do Crato e ainda
um outro irmão de D. Nuno28 #
D. Nuno os podia arrastar para uma cilada. Esta
última razão tê-lo-á exasperado a ponto de jurar ser
o primeiro a entrar em combate. Naquele momento
sabia que tinha de jogar o tudo ou nada. Intimou
aqueles que o quisessem seguir a atravessar uma
pequena ribeira que existia no local. A maioria fê-lo
instintivamente e os que hesitaram acabaram também por a atravessar, seguindo os primeiros.
30 A ribeira do Carvalho. Após a batalha o povo começou a
chamá-la das Águas Belas (Bessa, 1985: 19).
31 Pode tratar-se de um indício de que D. Nuno tinha intenção,
desde o início, de contrariar a cavalaria pesada inimiga com
recurso aos piques. Não é provável que as lanças de madeira
tosca ou estacas tivessem sido improvisadas no local, dado a
vegetação típica, de oliveiras e azinheiras, não ser adequada.
š`<
*
W ' #
Nuno não prescindiu de uma reserva com grande mobilidade.
33 Duarte, 2006: 83.
Nº 187 AGO09
43
AZIMUTE
44
abandonaram a hipótese de combater a pé e optaram por decidir a batalha numa carga de cavalaria
pesada. O terreno estava alagadiço, mas a desproporção era tal que mesmo uma infantaria bem
agarrada ao solo não poderia resistir a 1000 lanças.
Nenhuma das fontes consultadas refere que tenha
havido tiro dos besteiros castelhanos, o que sugere
que estes não se encontravam à distância de tiro
(pelo menos 100 metros, para obter alguma pre‹
'
o posicionamento destes combatentes. Sabemos
também que, como já foi dito, a opção do Mestre
de Alcântara, após avistar a força portuguesa, foi a
de efectuar um ataque frontal de cavalaria, embora
inicialmente tivesse considerado combater a pé34.
Es
Estes dois dados poderão contribuir para a tese de que, no excesso
bu
'
atacou na frente da infantaria, sem
ata
es
esperar que esta se posicionasse
co
convenientemente.
Foi por volta do meio-dia que os
ca
castelhanos iniciaram o seu ataque,
ca
carregando com as compridas lança
ças em riste e gritando “Por Castela
e por
p Santiago!”. À aproximação do
inim
inimigo, os besteiros portugueses
inic
iniciaram a descarga de virotões
em toda a frente. Há fontes que relat
latam que a curta distância começa
çaram os castelhanos igualmente
a ser
s atingidos por pedras atiradas
Dispositivo português aguardando o primeiro assalto castelhano.
pe
pela peonagem. O terreno junto à
Foto: Google Earth.
linha de água, fazendo jus à designação de “atoleiros”, contribuiu decisivamente para
to. Nos Atoleiros as linhas de água não são muito
atrasar e desorganizar a carga castelhana, provoprofundas ou recortadas, mas encontramo-nos em
cando, inclusive, a queda de inúmeros cavaleiros.
Abril, num terreno que alaga com facilidade. Nesta
Depois começou a passar-se o que normalmente
situação, os fracos declives favorecem o encharcaacontece, uma vez dada a ordem de carregar. Os
mento e saturação dos solos.
cavaleiros da retaguarda já não têm hipótese de
Antes do encontro, D. Nun´Álvares Pereira,
parar, pois são pressionados pelos que vêm atrás e
montado numa mula, referiu aos seus homens que
acabam por se precipitar sobre homens e cavalos
tivessem presentes quatro coisas: em primeiro lucaídos e atolados à sua frente. Ainda assim muigar, que se encomendassem a Deus e à Virgem
tos cavaleiros castelhanos chegaram ao contacMaria; em segundo lugar, que era ali que se servia
to com as lanças cravadas no solo da vanguarda
o seu senhor, D. João Mestre de Avis, e se alcanportuguesa.
çaria a honra dada por Deus; em terceiro lugar, que
O primeiro assalto foi muito mal sucedido e proali vinham para defender as suas famílias, as suas
vocou
enorme confusão e fúria na hoste castelhacasas e as suas terras, de modo a libertarem-se da
na.
Foi
efectuado um segundo assalto, comandado
sujeição que el-rei de Castela lhes queria impor; e,
pelo
próprio
Mestre de Alcântara. O resultado foi
semelhante
à
primeira investida, com a agravante
hora mas sim um dia ou mais.
de
que
o
solo
à frente da posição portuguesa esQuando os castelhanos se aproximaram, Nun’
tava
já
pejado
de
cadáveres de homens e cavalos
Álvares Pereira desmontou, beijou o solo e posicioe
de
moribundos.
Neste segundo ataque morreu o
nou-se na vanguarda, colocando um bacinete sem
Mestre
de
Alcântara.
viseira, e tomando nas mãos uma comprida lança.
Foram efectuados ainda um terceiro e quarTinha assim cumprido a promessa de ser o primeiro
to
ataques,
desta vez contra as alas. Crê-se que,
a iniciar o combate.
O exército castelhano era composto por cer34 Os castelhanos, que de início pensaram em atacar a pé,
ca de 1000 cavaleiros e 4000 peões. Ao avista
‰
rem a diminuta hoste portuguesa, os castelhanos
(Bessa, 1985: 21).
retirada. De modo diferente do que faria no ano
seguinte, em Aljubarrota, D. Nuno optou por posicionar primeiro um “xadrez” de homens d’armas
' que idealizou, preenchendo depois os espaços
com os peões. Há, por parte de alguns autores,
principalmente as fontes mais antigas, a tendência
# ‚ drado perfeito (tal como foi ideia corrente quanto
a Aljubarrota). Estamos em crer que esta hipótese
seria desadequada tanto num caso como no outro,
*
'\contravam bem protegidos por intermédio de linhas
de água, o que permitiria à retaguarda uma reacção em tempo oportuno, em caso de envolvimen-
Nº 187 AGO09
35 Duarte, 2005: 85.
36 Bessa, 1985: 22.
37 Crónica do Condestável: 58.
38 Bessa, 1985: 27.
a legitimidade e a justiça estavam do lado do
Mestre de Avis;
¤ Do ponto de vista militar, foi a primeira experiência portuguesa do que já vinha acontecendo
nos campos de batalha da Europa. A infantaria, armada de piques, em formação cerrada e
com um aproveitamento adequado do terreno,
conseguia ser um adversário à altura da cavalaria pesada;
¤ #
#‚
acção de comando saiu extremamente reforçada, conseguindo quebrar as opiniões mais
cépticas de que se tratava de um jovem inconsciente e um pouco “alucinado”, reforçando a sua imagem como comandante militar de
ciência e valor.
AZIMUTE
nestes assaltos, não tenha participado apenas o
que restava da cavalaria castelhana, mas sim que
tenham sido essencialmente combates de infantaria. No entanto, uma vez mais, o terreno difícil para
hom
W
atacante. A natureza do solo implicava que os movimentos fossem efectuados com muita lentidão, o
que converteu os peões castelhanos em alvos fáceis para os besteiros portugueses.
Calcula-se que a batalha tenha durado cerca
de uma hora. Os castelhanos acabaram por retirar,
tendo então sido perseguidos por diversos cavaleiros portugueses, montados já nos seus cavalos. Esta perseguição, na qual participou também
Nun’Álvares Pereira, durou até ao cair da noite, e
desenvolveu-se por uma área de aproximadamente uma légua a partir do campo de batalha, sobretudo nas direcções de Monforte e do Crato.
Este combate não originou também grande
número de mortes, e as que ocorreram advieram
sobretudo dos dois choques frontais entre as duas
vanguardas. Do lado castelhano são referidas algumas dezenas35, setenta e sete homens de armas,
de acordo com o Coronel Carlos Gomes Bessa36.
A tradição oral refere um valor da ordem das centenas. No entanto, nem Fernão Lopes, nem o autor
anónimo da Crónica do Condestável adiantam um
número, referindo apenas que do lado castelhano
morreram muitos37, entre os quais alguns destacados. Sabe-se que um dos irmãos de D. Nuno,
! « aceite, mas não crível, que do lado português não
tenha havido baixas. No entanto, a existirem, terão
sido mínimas.
No dia seguinte à batalha, D. Nuno Álvares
Pereira dirigiu-se a Assumar, descalço e a pé, em
agradecimento pelo resultado do combate e para
fazer oração a Santa Maria desta vila.
A Batalha dos Atoleiros representa um marco
histórico da maior relevância, não só no contexto da Crise de 1383-85, mas na vida de Portugal.
“Teve, a múltiplos títulos, um carácter precursor
para o destino nacional”38:
¤ Do ponto de vista político, Atoleiros foi o primeiro sinal claro da determinação de defender
Portugal e de que o partido do Mestre de Avis
não se tratava se um conjunto de revoltosos
desorganizados, mas sim uma força com identidade nacional;
¤ Do ponto de vista psicológico, provou aos portugueses que os castelhanos não eram invencíveis e contribuiu para reforçar a ideia de que
Azimute
O CAP Inf Carlos Filipe Nunes Lobão Dias
Afonso é Licenciado em Ciências Militares pela
Academia Militar.
Prestou serviço, entre outras unidades,
no 2BIMec, como Comandante de Pelotão
<
]
Informações e na Academia militar como
Adjunto da 1ª Companhia de Alunos, tendo mi
'
do Exército.
Possui textos publicados na revista
Atoleiros, da Brigada Mecanizada e na revista Azimute, da Escola Prática de Infantaria.
Efectuou diversas comunicações em unidades
militares no âmbito da História Militar.
BESSA, Carlos Gomes (1985). Batalha dos Atoleiros. Seu carácter
precursor em Portugal. In Aljubarrota 600 anos, Ciclo de conferências
da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Lisboa, Fundação
Calouste Gulbenkian
Crónica de D. Nun’Álvares Pereira. Actualização, introdução e notas
de Teresa Lacerda (2007). Porto, Fronteira do Caos.
DUARTE, Luís Miguel. 2006. Guerra pela Independência. Batalhas
da História de Portugal, Vol. 4. Coord. Prof.ª Doutora Manuela Mendonça.
Lisboa, Quid Novi.
GOMES, Rita Costa. 2009. D. Fernando. Reis de Portugal. Mem
Martins, Temas e Debates.
LOPES, Fernão, 1ª Parte da Crónica de el-Rei D. João I, o de Boa
Memória.
MARTINS, A. de Oliveira. 1968. A vida de Nun’Álvares. Lisboa,
Guimarães Editores.
MARTINS, Armando. 2006. Guerras Fernandinas, 1369-1371, 13721373, 1381-1382. Batalhas da História de Portugal, Vol. 3. Coord. Prof.ª
Doutora Manuela Mendonça. Lisboa, Quid Novi.
MARTINS, Miguel Gomes. (?). Nuno Álvares e a Arte da Guerra.
Inserido no colóquio D. Nuno Álvares Pereira, o Homem e a Memória.
Disponível na internet em http://www.icea.pt/Conferencias/Conferencia1/
Conf01_03.pdf [referência de 19 de Junho de 2009]
MONTEIRO, João Gouveia. 2003. Aljubarrota, 1385. A Batalha Real.
Lisboa, Tribuna da História.
RAGAGELES, Paula Cristina Branco e. 2004. A Batalha de Atoleiros.
Separata da Revista “Atoleiros” da BMI.
RODRIGUES, António dos Reis. 1985. Nun’Álvares, Condestável e
Santo. Lisboa, Direcção do Serviço Histórico-Militar.
TAVARES, Jorge Campos. 1985. Aljubarrota. Porto: Lello & Irmão.
Nº 187 AGO09
45
AZIMUTE
A Invasão Castelhana e a Batalha de Aljubarrota
TCor Inf Lemos Pires
“A batalha mais brilhante,
mais decisiva nos seus resultados e aquela que maior eco
teve em Portugal e no mundo”1
A batalha que iremos de seguida abordar é uma natural evolução das batalhas ocorridas nos
anos anteriores na Europa, com
a vantagem adicional de esta ter
sido genialmente conduzida por
D. Nuno Álvares Pereira.
Para não sermos demasiado
exaustivos referiremos em síntese algumas das inovações mais
importantes nessas batalhas e
que pudemos testemunhar o seu
uso posterior em Aljubarrota2:
¤ Courtrai
(11/7/1302)
que opôs Flamengos a
†
[ < menga deveu-se, entre outros factores, ao inteligente uso do terreno com as fossas, muitas
delas cheias de água, tirando partido do rio
que isolava e limitava o campo de batalha e os
cavaleiros apeados a combater;
¤ Bannockburn (24/6/1314) entre Escoceses e
Ingleses - Além do uso das linhas de água,
foi alargado o aproveitamento do terreno com
abatizes e covas de lobo (com estacas) além
de um dispositivo de forças inovador organizado em quatro conjuntos com a cavalaria a
combater apeada com uso de longas lanças
que sem dúvida foram um dos factores da vitória dos escoceses de Robert Bruce sobre
Eduardo II;
¤ Morgarten (15/11/1315) entre Suíços e
Austríacos – mais do que uma batalha esta foi
uma “emboscada” em que foi visível o esforço na pesquisa de informações, nos reconhecimentos ao terreno com o uso de batedores
e que permitiu escolher o melhor local para o
combate, além do aparecimento de um novo
'
[ denominados “quadrados suíços” e ainda uma
arma nova: a alabarda;
¤ Dupplin Moor (11/9/1332) entre Escoceses e
Ingleses – destaca-se o posicionamento dos
1 THEMUDO BARATA: 23
2 MONTEIRO, 37 e seguintes
46
Nº 187 AGO09
arqueiros equipados com “Long-Bow”
“Long-Bow”, com
uma cadência de tiro muito mais elevada do
que as tradicionais bestas, colocados nas alas
da batalha, o que veio desta vez levar à vitória
dos ingleses.
¤ Crecy (26/8/1346) entre Ingleses e Franceses
– uma das mais famosas batalhas da Guerra
dos Cem Anos – foi notório o despique e a
diferença de capacidades entre arqueiros e
besteiros, ganhando os primeiros em ritmo de
fogo. De destacar também o uso de “muralhas”
"fortalezas” feitas com
as carroças;
¤ Poitiers (19/9/1356) entre Ingleses e Franceses
– outra das mais famosas da Guerra dos cem
anos – em que foi possível utilizar de forma inteligente não só a cavalaria inglesa com explorar a mobilidade dos próprios arqueiros;
¤ Nájera (2/4/1367) entre D. Pedro I com
Ingleses contra Henrique Transtâmera com o
apoio Francês - de notar a oportunidade como
se explorou as fraquezas do adversário e de
novo o uso inteligente dos arqueiros.
Interessa ainda ressalvar três aspectos muito
importantes da forma de combater e da organiza'
‰
no decorrer da Batalha de Aljubarrota:
¤ Portugal, desde os tempos de Viriato, sabendo-se das reais capacidades em meios humanos e materiais que possuía sempre privilegiou combater usando a táctica da guerrilha
comunicações na retaguarda castelhanas e forçar
assim o monarca castelhano a movimentar as suas
forças nessa direcção “melhor seria entrar pela
rer ali, desviando-o de Lisboa”5.
D. Nun’Álvares Pereira tem opinião contrária. Já
não estamos em momento para guerrilhas. É fundamental travar uma batalha decisiva. Uma vitória
*
fronteira, D. João I como rei de Portugal. Pelo contrário, mover uma guerra de “guerrilha” neste momento da campanha daria azo a que D. João e a
sua causa fossem considerados como meros rebeldes, num reino que aparentava pertencer à coroa
de Castela. Perante a hesitação do rei, D. Nuno
parte de Abrantes com a sua parte da hoste em
direcção a Tomar, obrigando D. João a rever a sua
opção e a sua estratégia.
Na ideia de D. Nuno é importante travar essa
batalha num local em que os castelhanos já estivessem bem internados em território de Portugal,
›*
uma derrota permitisse algum tempo de reorganização. A 8 de Agosto todo o exército português está
em Tomar. D. Nuno terá, nesta altura, enviado um

batalha. Este regressa no dia 10 com notícias alarmantes: a hoste castelhana é constituída por mais
de 7000 lanças e 2000 ginetes, além de um número
incontável de besteiros e homens a pé. Consigo,
#—
K
*K
muitos senhores portugueses que a ele se aliaram.
D. Nuno opta então por esconder os verdadeiros valores às suas tropas, fazendo transmitir que
os castelhanos eram poucos e mal equipados. Era
não só importante executar uma boa estratégia de
ção como prover para que a mocontra-informação
ral se mantivesse elevada entre os
portugueses.
A hoste portuguesa contaria entre 5000
a 10000 combatentes, dependendo dos
autores. É certo que a hoste
castelhana a
sobrepassava
bastante
em
número, provavelmente acima dos 20000.
A 11 de Agosto
TCor Inf Lemos Pires
os portugueses avançam para Ourém e a 12 os castelhanos
AZIMUTE
“guerra guerreada” – ou seja, os soldados e os
comandantes portugueses estavam por isso
habituados ao uso de tácticas mais ligeiras,
com grande iniciativa, bom aproveitamento do
terreno, rapidez de actuação e uso inteligente
dos meios materiais à disposição (foi assim e
assim permaneceria quase sempre ao longo
da nossa história);
¤ Nuno Álvares Pereira, herdeiro desta forma de
combater era um verdadeiro adepto da mesma: executava deslocamentos longos, fazia
todo o seu planeamento em segredo, utilizava
judiciosamente um excelente serviço de espionagem e tinha uma elevadíssima preocupação
com a segurança dos acantonamentos;
¤ A mobilização para guerra assentou numa
base nacional e não regional: o Exército, mesmo havendo partidários de ambos os lados,
era um Exército do Rei e não a soma de pequenos exércitos feudais que deviam a sua
lealdade ao seu Senhor feudal, esta aparente
pequena diferença permitiu sempre ao comandante nacional organizar, dispor e combater
como um todo no uso das suas forças o que
somado ao inequívoco apoio das populações,
<*
'
_
vantagem táctica (lembremo-nos que as tropas
invasores precisavam do apoio da população
para sobreviverem e esse apoio praticamente
não existia).
Mas vamos directos ao ano de 1385 e à Batalha
de Aljubarrota:
D. Juan I de Castela concentrara-se com a
sua hoste em Ciudad Rodrigo e, após descartar a
possibilidade de optar por um outro tipo de guerra
(devastações fronteiriças, nomeadamente), entra
em Portugal por Almeida, na segunda semana de
Julho de 13853. Toma o itinerário das beiras em
direcção a Lisboa4 (Pinhel, Trancoso, Celorico,
Fornos, Mangualde, Mortágua, Mealhada, Coimbra
e Soure). O exército português, comandado pelo
rei D. João I, após ter assegurado que os castelhanos não cercariam Elvas, passa para a margem
norte do Tejo, vindo a estabelecer-se em Abrantes
—#‚
no Alentejo, em recrutamento, e viria a juntar-selhe em Abrantes, a 3 de Agosto.
Desde Junho desse ano que a frota castelhana voltara a ocupar o estuário do Tejo e D. Juan I
avança sobre a capital, para lhe levar novo cerco,
acreditando que, desta vez e depois da malograda tentativa do ano passado, seria muito difícil a
resistência portuguesa. Em Abrantes reúne-se um
#
João a optar pelas preferidas “acções de guerra
$*_
3 MONTEIRO, 80. e também BESSA: 44
4 “ganhada Lisboa, todo Portugal era cobrado” citado em
BESSA:36
5 BESSA: 46
Nº 187 AGO09
47
AZIMUTE
para Leiria. Informado dos movimentos do inimigo,
D. Nuno avança para Porto de Mós, onde estaciona
na noite de Sábado, dia 126.
O local exacto da batalha foi criteriosamente seleccionado. Ambos, D. João e D. Nuno, terão ponderado as vantagens daquela área, bem próxima
do couto e mosteiro de Alcobaça, onde o abade
D. João de Ornelas, com bastante rapidez, poderia conseguir recrutar mais homens para a hoste
e, ao mesmo tempo, fornecer mantimentos. Além
disso, D. Nuno, acompanhado por 100 cavaleiros,
aproveita o domingo dia 13 de Agosto, para um reconhecimento detalhado a todo o terreno que ia de
Porto de Mós às imediações de Leiria. O facto de levar uma tão grande força para um reconhecimento
deve-se, provavelmente, a dois aspectos: primeiro,
à necessidade de segurança, dada a proximidade
do inimigo e, segundo, tudo leva a crer que D. Nuno
terá gizado o plano de operações para o dia seguinte na companhia dos seus lugar-tenentes, ou
seja os seus subordinados directos. Ele quis que
eles vissem o terreno e ajudassem nas decisões
operacionais.
Ainda antes do alvorecer do dia 14 de Agosto
de 1385 (nesse dia o raiar da aurora deu-se à 3h37
e foi dia claro às 4h487), a hoste portuguesa levantou o arraial de Porto de Mós e percorreu os 7 a
8 km que a separavam do planalto de S. Jorge,
onde se veio a colocar, voltada a norte, num cabeço que hoje é sobranceiro à povoação da Batalha
(que na altura era somente um lugarejo chamado
Jardoeira). A enorme coluna castelhana, que se
calcula ter mais de 15 km, vinda de Leiria, atinge a
baixa da Jardoeira a meio da manhã. A vanguarda
pôde observar desse local a hoste portuguesa no
*'*
duas linhas de água profundas.
Em boa linguagem militar vamos descrever o
dispositivo, a composição e articulação das forças8:
“uma formação de quadrado a duas azes (batalhas) com uma Vanguarda Álvares Pereira) próprio comandava, a seiscentas lanças; uma Ala direita de duzentas lanças de
cavaleiros cujo comando seria atribuído a Mem
Rodrigues e coadjuvado por seu irmão Rui Mendes;
uma Ala esquerda de duzentos homens de armas
que Antão Vasques comandaria; e, recuada, uma
Retaguarda, com el-rei, de setecentas lanças,
montadas tanto quanto possível para maior mobilidade, como Reserva, pronta para contra-atacar ou
reforçar a Vanguarda, a Ala esquerda e a Ala direita por esta ordem; os arqueiros ingleses atribuídos
à Ala esquerda; os besteiros guarneciam todas as
faces do dispositivo, com prioridade para as Alas
Perante esta forte posição portuguesa a opção
castelhana foi a de envolver por oeste, passando
pela povoação da Calvaria, num longo movimento
que demoraria toda a tarde, acabando a vanguarda castelhana por se posicionar no Chão da Feira,
exactamente 5 km à retaguarda da posição inicial
portuguesa, entre as 16 e as 17 horas.
D. Nuno acompanha o movimento torneante
castelhano e faz mover o seu dispositivo cerca de
2 km mais para sul, invertendo-o. Encontrava-se,
agora, ainda no planalto de S. Jorge, entre as duas
linhas de água (embora menos acentuadas, pois
estava mais próximo das nascentes9), mas tem
tempo de organizar o terreno e reajusta, proporcionalmente, o dispositivo escolhido:
“Quanto à composição e articulação das forças,
pensara não serem necessárias grandes altera reforçar a Frente à custa da Reserva, aí com umas
oitenta a cem lanças, porque o terreno era mais
fraco e mais extensa a frente a cobrir mas, face
à possibilidade do inimigo empregar em qualquer
direcção, mesmo pela retaguarda, a sua cavalaria
ligeira sob o comando do Mestre de Alcântara (…)
optara por manter a Reserva forte (…) esta última
posição permitia-lhe também, criar um saco (uma
bolsa), uma zona de morte onde nos derradeiros
momentos antes do contacto, o inimigo aí entrado,
seria sujeito a um potencial de tiro das armas de
arremesso que queria devastador”10
Manda colocar abatises, abrir fossos e covas de
lobo a sul desta nova posição, numa frente que não
seria superior a 300 metros.
Uma das questões que sempre se tem colocado
aos vários investigadores da Batalha, após observação do campo de batalha e das escavações arqueológicas que revelaram até agora pelo menos
830 covas de lobo e fossos, um deles com 182 m
de comprimento e uma profundidade dos 40 aos 70
cm, é: de quanto tempo dispuseram os portugueses para os escavar? Estima-se que num tempo
de três horas e empenhando cerca de metade do
efectivo, tornariam possível a acção, mas não é de
descartar totalmente a possibilidade de D. Nuno ter
começado a organização do terreno mais cedo. Na
verdade há vários factores que levam a crer que
ele já sabia, desde o início, que o combate se iria
7 OLIVEIRA, Frederico Alcide de, Aljubarrota Dissecada,
Direcção do Serviço Histórico-Militar, Lisboa 1988
9 A oeste, o ribeiro de Vale de Madeiros (que corre para a
Azenha da Amieira) e, a leste, o do Carqueijal ou de Vale da
£
*
'
ao Lena). MONTEIRO, p. 87.
8 RODRIGUES: 90
10 RODRIGUES: 91
6 MONTEIRO, p. 82
48
e, juntamente com os peões montariam guarda à
carriagem, esta colocada por trás da Reserva, com
excepção de um reduzido trem de apoio ao combate dos arqueiros e besteiros que se situaria dentro
do quadrado”
Nº 187 AGO09
“A batalha, mais do que entre os exércitos em
presença, punha frente a frente os dois Reinos. Por
isso, nela participaram ambos os Reis, e muitos lhe
chamaram BATALHA REAL”11
Pelas 17h00, a vanguarda castelhana, constituída essencialmente por um a dois milhares de
cavaleiros franceses, carrega sobre a posição portuguesa. A enorme frente montada é muito mais
larga do que a frente portuguesa, mas, à medida
que a carga progredia, os cavaleiros, condicionados pelos abatises, pelas linhas de água e pela
natural procura de estabelecer o contacto com um
inimigo em frente mais estreita, vão afunilando. À
semelhança dos Atoleiros, as armas de projecção
(os besteiros portugueses reforçados por cerca de
300 arqueiros mercenários ingleses) fazem tiro sobre a massa de cavalaria que se precipita contra
eles. Em simultâneo, cavalos e cavaleiros abatidos
obrigam os seguintes a desviar-se e a cair com
mais facilidade nas covas de lobo e fossos (que
W%
dos com vegetação). Para aquela massa confusa
de homens e cavalos é impossível recuar. Muitos
perecem por esmagamento pelos próprios camaradas que os seguiam, como comprovam inúmeras
ossadas extraídas do local12. Os poucos cavaleiros
franceses que sobrevivem são capturados e enviados para a zona da carriagem portuguesa, onde
„
*
Talvez cerca de uma hora mais tarde entra em
posição a “batalha real castelhana”13. Mais uma vez
a frente castelhana sobrepassa enormemente a estreita frente portuguesa. O avanço inicia-se montado, mas mais uma vez as abatises e a própria
' < *
perar que o centro “encaixe” no corredor de 300
metros de largura que conduz à frente portuguesa.
< covas de lobo pejados de cadáveres e moribundos.
Os arqueiros ingleses e os besteiros portugueses
disparam chuvas contínuas de setas e virotões. Os
cavaleiros têm de apear. Mesmo assim chegam ao
contacto e tem início um feroz corpo a corpo, com
inúmeras baixas em ambos os lados.
Segundo Fernão Lopes, nesta fase, a frente
portuguesa acabaria por ceder, mas as alas, mais
libertas, dobram-se naturalmente para o interior,
criando uma bolsa e continuam a disparar projécteis. D. João I viu necessidade de reforçar a frente
com elementos da retaguarda. Mandou matar os
prisioneiros franceses, provavelmente para desempenhar o pessoal que lhes fazia guarda e, ao
da guerra pudessem aproveitar o empenhamento
da frente para eles próprios tentarem algo sobre os
peões e criados que permaneciam nos trens.
AZIMUTE
travar de sul para norte e não de norte para sul.
Aliás, uma das razões pelas quais os castelhanos
deram batalha foi o facto de estarem convencidos
de que, envolvendo a hoste portuguesa, se encontrariam numa posição de vantagem. É crível que D.
Nuno tivesse imaginado a manobra dessa forma e
com o apoio das populações envolventes tivesse o
terreno preparado antes da mudança de posição.
(Nota: Usámos para esta recolha de informação
*
**
%
mos de destacar que os autores referidos recorreram, para além das usuais crónicas de Fernão
Lopes, Pedro Lopes de Ayala e a do Condestabre,
a importantíssimas fontes coevas como as “entrevistas” recolhidas pelo cronista francês Froissart a
Jean de Rye – camareiro do rei de França e veterano das batalhas de Crecy e Poitiers - ou ao cavaleiro gascão Espan du Lion – do condado de Foix, no
sul de França que tinha combatido em Aljubarrota –
ou ao relato de João Fernandes Pacheco – um dos
heróis da Batalha de Trancoso e que também esteve em Aljubarrota - são por isso testemunhos importantíssimos que nos ajudam a compreender melhor a Batalha o que cruzado com a célebre carta
de D. Juan I de Castela à cidade de Múrcia poucos
dias após a Batalha Real nos ajudam a perceber
melhor o que se passou a 14 de Agosto de 1385).
!"#
O Rei contra-atacou decididamente (…) um cavaleiro castelhano enfrentou o Rei, que alçou a facha
para o abater. Ele, porém, parou o golpe, desarmou
$ %# &'* com a sua facha. O Rei, refazendo-se, aparou-o,
por sua vez, e desarmou o adversário. Quando ia
abatê-lo, já era tarde. Alguém se lhe tinha antecipado e o cavaleiro castelhano jazia morto. (...) este
episódio tendo-o como um dos momentos cruciais
da batalha. Se a sorte do Rei lhe houvesse sido
adversa, outro seria certamente o desfecho do
combate (…) e um novo acontecimento crucial - a
bandeira de Castela caiu derrubada.”14
Os castelhanos acabariam por ceder e começam
uma retirada desorganizada e tomada de pânico.
•
casos de lesões nos ossos frontal e occipital do crânio (que
indiciam agressões direccionadas e provavelmente desferidas
por trás ou quando o indivíduo se encontrava caído no chão)
e a frequência de fracturas remodeladas (ossos fracturados
que foram curados), que indiciam a presença de veteranos
de guerra, com ferimentos de outras batalhas aos quais
sobreviveram.
11 BESSA: 58
13 O corpo onde vinha o rei.
12 Há um grande número de ossadas encontradas com sinais
de esmagamento e não de cortes ou fracturas provocados
por lâminas de armas de corte. Além disso há ainda dois
aspectos que merecem a atenção: a existência de bastantes
14 BESSA: 60-61, na opinião do Coronel Américo Henriques
o combate do Rei com o Castelhano Álvaro Gonçalves de
Sandoval deu-se mais tarde na Batalha, provavelmente durante
a perseguição aos castelhanos
Nº 187 AGO09
49
AZIMUTE
(por Oeste era quase impossível devido ao declive
do terreno) e ataque à retaguarda portuguesa por
parque do Mestre de Alcântara e algumas centenas
de ginetes. O ataque começa por ser rechaçado por
alguns besteiros e pessoal que se encontra com os
trens, dado que os castelhanos se encontram a tentar atravessar o ribeiro do Carqueijal (e os silvados
que o ladeavam). D. Nuno e alguns dos seus montam nos poucos cavalos que se encontram disponíveis e acorrem à retaguarda, mas já o Mestre de
Alcântara retira pelo mesmo caminho.
A perseguição, desferida de imediato pela hoste portuguesa, é terrível, completada ainda pela
acção dos populares. No entanto D. Nuno acabou
por limitá-la, mandando regressar a S. Jorge, dado
que tinha consciência que o exército castelhano
era muito numeroso e podia reagrupar para voltar
a combater. Na realidade, isto não aconteceu. Só
na madrugada seguinte, com o levantar do dia, é
que D. João I tem verdadeira consciência da retumbante vitória. O exército português e os populares
do couto de Alcobaça tinham morto cerca de 6000
castelhanos e franceses. As baixas do lado portu‰
y}}}#—=
no terreno os tradicionais 3 dias que simbolizam a
vitória campal. No dia 17 de Agosto retira a hoste portuguesa sobre Alcobaça e “à passagem pela
*#++$%
e Nun’Álvares encontraram mortos muitos dos castelhanos que tinham logrado escapar na noite da
batalha”15. Mais uma vez se comprova o forte apoio
local que se produziu nos terrenos envolventes a
S. Jorge, em especial, pelo já referido Abade de
Alcobaça, D. João de Ornelas
Em síntese foram estas as principais causas da
vitória16:
¤ A ousadia de ir ao encontro de uma hoste muito
mais numerosa;
¤ A escolha judiciosa do terreno;
¤ O alongamento da coluna castelhana;
¤ A precipitação do ataque castelhano – os castelhanos sabiam o risco de, se seguissem em
'
›*
da com forças experientes na “guerra guerreada” e poderem ainda encontrar uma Lisboa
bem defendida;
¤ A rapidez da inversão do dispositivo português;
¤ A articulação entre vanguarda, retaguarda e as
alas;
¤ O impedimento da tentativa de envolvimento
castelhano;
¤ Superioridade do comando e disciplina
portuguesa
Na sequência do êxito de Aljubarrota, D. João
I ocupa Santarém, Leiria, Óbidos, Alenquer, Torres
Vedras, Sintra, Crato, Monforte, Vila Viçosa, Marvão
e outros lugares. Ainda no mesmo ano D. Nuno entra em Castela, para, mais uma vez, sair vitorioso
no recontro de Valverde, numa acção propositada
para manter a pressão militar. O monarca castelhano, com um exército desfeito e dois grandes revezes na memória, nunca mais teve condições de
discutir a sucessão de D. Fernando.
!/+2#*3
na vida dos portuguesas, a batalha por excelência.
Portugal, que se estava gerando como Pátria, desde os tempos de Afonso Henriques, vira chegada a
sua hora de surgir como Nação. Tinha condições e
gente. Teve chefe – e a história cumpriu-se”17
Azimute
O TCor Inf Nuno Correia Barrento de Lemos
Pires é Licenciado em Ciências Militares pela
Academia Militar, em Gestão de Recursos
Humanos pela Universidade Lusófona e possui uma Pós-graduação em História Militar
pela Universidade Lusíada.
Prestou serviço, entre outras unidades na
Escola Prática de Infantaria, como instrutor
dos principais cursos da Escola, no Instituto de
Altos Estudos Militares, leccionando a cadeira de História Militar, no Corpo de Intervenção
Rápida da NATO em Valência/Espanha
(NRDC – Spain) na área de informações e
desde Novembro de 2007 como Comandante
do 2º Batalhão de Infantaria Mecanizado da
Brigada Mecanizada em Santa Margarida.
Com várias obras publicadas, colaborou
em diversos livros e projectos em Portugal e
Espanha, especialmente no âmbito da história
militar, tendo igualmente publicado dezenas
de artigos em diversas revistas e jornais, e
conduzido diversas conferências em Portugal,
Espanha e Alemanha.
É sócio efectivo da Revista Militar, colaborador e revisor para assuntos militares do
Círculo de Leitores, membro do Conselho
%
!
­
Militar, membro do Foro para el Estudio de la
Historia Militar de España.
BESSA, Carlos Gomes, e BARATA, Themudo, Conferência
na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, 23 de
Maio de 1985, no Ciclo Comemorativo da Batalha de Aljubarrota.
MARTINS, A. de Oliveira, A vida de Nun’Álvares, Guimarães
Editores, Lisboa, 1968.
MONTEIRO, João Gouveia, Aljubarrota, 1385. A Batalha
Real, Lisboa, Tribuna da História, 2003.
OLIVEIRA, Frederico Alcide de, Aljubarrota Dissecada,
Direcção do Serviço Histórico-Militar, Lisboa 1988.
RODRIGUES, H.S. Castro, Aljubarrota ou a Fava de Terena,
Moinho Velho, Lisboa, 2002
15 MONTEIRO: 115
16 BESSA: 72-73
50
Nº 187 AGO09
17 RODRIGUES: 10
TCor Inf Mário Álvares
No período de 23 a 24 de Junho de 2009,
como é tradição, realizou-se mais uma edição das
Patrulhas D. Nun’ Álvares Pereira. A edição deste ano, repartida
por
po dois dias,
contou
com a
co
presença
de
pre
doze
Patrulhas.
do
Com
uma nova
Co
dinâmica
mas
din
que
qu mantém inalter
terável
o conceito subjacente a
evento os dois dias de prova permitiram
per
este evento,
desenvolver o espírito de corpo no seio das Patrulhas e,
também, desenvolver a responsabilidade individual
em função dos objectivos do grupo. Antecedendo
o primeiro dia e depois da cerimónia de recepção, os participantes e elementos da organização
o de assistir a uma palestra do
tiveram o privilégio
e
Sr. Coronel de
o
Infantaria Américo
Henriques
so-a
bre o patrono da
Infantaria e inspi-rador do evento,,
D. Nuno Álvaress
Pereira. No primei-ro dia, no interiorr
da Tapada Militar,,
as Patrulhas reali-zaram uma prova em estafeta que englobou a realização de uma Marcha/Corrida, Tiro com Espingarda
Automática, Tiro com Pistola, e a realização de
uma Pista de Combate no Complexo de Formação
*
‡
>
‚gun dia, enquagundo
dra
drados
por algu
'\
da segunda linha
de redutos defensivo das Linhas
sivos
de Torres Vedras,
rea
realizou-se
uma
AZIMUTE
As Patrulhas Nun’ Álvares
Á
Pereira
Edição 2009
ao longo da qual, a partir de um trabalho colectivo,
K
'
de técnicas e procedimentos expeditos de orientação e de avaliação de distâncias. Nesta edição saiu
vencedora a Patrulha da Unidade de Intervenção
?‚•
a EPI e o CTOE, respectivamente. Em termos das restantes equipas participantes
* ram os seguintes:
O tempo relativo à prestação da ETP traduz a impossibilidade de realização
das provas do primeiro dia,
em função das restrições
de segurança impostas pela
organização. Não obstante,
louve-se a sua participação!
Azimute
K
[!
Nº 187 AGO09
51
AZIMUTE
O Portal da Arma de Infantaria
TCor Inf Mário Álvares
As novas tecnologias de informação com as suas páginas na Internet abriram espaço a uma nova dinâmica
para a partilha do conhecimento.
Esta vertente, marcante no nosso quotidiano e ao alcance de um “click” num teclado, vem-se revestindo de
<
esta revolução digital mudou os nossos conceitos de espaço, de tempo, e de massa. Uma organização já não
precisa de ocupar muito espaço, pode mesmo ser virtual,
estar aqui ou em outro qualquer lugar. Pode receber e
enviar mensagens simultaneamente. E objectos como li’
em forma de “bits” sem necessitarem de embalagens ou
portes de correio.
Estes novos
recursos
tecnorec
lógicos
trazem a
lóg
possibilidade
de
pos
efectuar
activiefe
dades
de âmbito
dad
global,
oferecenglo
do níveis de interactividade
nunrac
ca antes vistos.
Depois, é dentro deste contexto que surge
sur o marketing
' têm possibilidade de atingir níveis de interacção com
seus clientes baseados em relações cada vez mais confortáveis e convincentes.
Mas este “veículo” privilegiado de partilha e transmissão de saber é também fundamental e indispensável em escolas e centros de aprendizagem, sendo hoje
um vector indissociável de qualquer percurso formativo
pois possibilita a transmissão do conhecimento, facilita
a acessibilidade, economiza tempo e recursos, permite
desenvolver trabalho cooperativo e permite constituir bibliotecas de dados passíveis de actualização on-line.
Hoje, a Internet deixou de ser um ambiente alternativo, onde apenas estudantes e curiosos navegavam.
Hoje, ela é o principal canal de comunicação, entre a organização e os colaboradores que lhe dão vida.
A organização e o seu sítio são a imagem institucional, da missão da organização no mundo virtual. Assim,
as páginas de web são uma espécie de montra para
apresentação de informação que suporta a actividade da
organização.
Foi nesta óptica que a Escola Prática de Infantaria,
nas recentes Jornadas da Arma, realizadas no passado mês de Junho, sugeriu a criação de um sítio sobre a
52
Nº 187 AGO09
Infantaria Portuguesa.
Indubitavelmente, envolvendo as Unidades de
Infantaria, procura-se com esse novo espaço consolidar
a identidade da Arma através de um trabalho colaborativo de partilha de conhecimento e de informação.
Todavia, a importância de credibilizar um “sítio” está
directamente relacionada com a
disponibilidade
de informação de
fácil de encontrar
sem
dispender
muito tempo, e
que vá ao encontro do universoalvo. Este novo
espaço, construído
o de forma objectiva, com conteúdos
sucintos ao nível da organização e desenho, procura dar
resposta às temáticas comuns à Arma e a áreas de saber de interesse à actividade operacional, doutrinária e
técnica da Infantaria.
A partir deste espaço será possível estudar e conhecer o armamento ligeiro, médio e pesado empregue pela
nossa Infantaria, conhecer muitos dos
d seus projectos de
investigação e deseninv
volvimento, ou debater
vo
e analisar assuntos de
interesse comum.
int
Também a partir
dele será possível acede
der e compreender mede
lhor a história, os símlho
bolos e as tradições
bo
da Infantaria portuguesa, conhecer instantaneamente a
acção dos infantes, em território nacional e no exterior,
na prossecução dos superiores interesses nacionais.
Será, também, um espaço em que todos os infantes, no
activo, na reserva ou na reforma, poderão melhor sentir o pulsar da instituição à qual estão interporalmente e
emocionalmente ligados. Também por isso esta é uma
iniciativa que vale a pena, que garanta a inclusão de toda
a Infantaria, em prol da sua coesão e espírito de corpo.
Entendendo a importância desta iniciativa, importa
apresentar um “sítio” actualizado. Um “sítio” com conte’ % '
utilizadores. Um “sítio” que seja a imagem da Infantaria
Portuguesa no mundo e critério de selecção utilizado por
milhares de pessoas.
Assim o faremos.
Azimute
Direcção de Formação
AZIMUTE
Jornadas de Infantaria
“As Pequenas Unidades de Infantaria no Combate em
a
A Escola Prática de Infantaria
(EPI) promove anualmente ass
—
=
-
ao nível da Arma, sobre temass
e assuntos que directa ou indi-
a Infantaria Portuguesa, nomea-damente sobre os aspectoss
doutrinários, técnicos e de em-prego das pequenas Unidadess
de Infantaria. Pretende-se en-quadrar as Jornadas no contex-to da modernidade operacional,,
designadamente quanto a orga-nização, treino, meios e equipa-mentos, liderança, pessoal, infra-Sessão de Abertura
estruturas e interoperabilidade.
MGen Pereira Agostinho e o Comandante da EPI
8
Assim, realizaram-se entre 18
e 22 de Junho de 2009 as Jornadas
boas-vindas a todos os presentes e fez a introdude Infantaria 2009 (JI09), subordinadas ao tema
ção ao tema das Jornadas de Infantaria 2009.
geral “As Pequenas Unidades de Infantaria no
*
‡
>
$>Seguidamente, o Exmo. Major-General António
tegrado no programa das Comemorações do Dia
Noé Pereira Agostinho usou da palavra para sada Arma de Infantaria e da EPI, tendo o dia do enlientar a actualidade e pertinência do debate sobre
cerramento coincidido com a inauguração de uma
*
‡
>
">'†
„=?
$ na Sala de Honra da Infantaria.
riamente tendo este ambiente como pano de fundo,
As JI09 foram iniciadas por um conjunto de pae as missões em que Portugal tem participado e
lestras que permitiram enquadrar o tema geral aciestá a participar não fogem a esta regra.
ma referido e posteriormente foram debatidos os
De seguida, o Tenente-Coronel de Infantaria
temas propostos no seio de Grupos de Trabalho
Sebastião Macedo, Director de Formação da EPI,
(GT), com representantes das diferentes Unidades,
apresentou as Jornadas de Infantaria 2009 no que
Estabelecimentos e Órgãos, na modalidade de
K„
*_
workshop!
tributos para a formulação de uma proposta consolidada sobre “As Pequenas Unidades de Infantaria
*
‡
>
$rentes subtemas tratados.
No dia 18 decorreu a sessão de abertura, presidida pelo Exmo. Presidente do Conselho da Arma
de Infantaria, Major-General António Noé Pereira
Agostinho, estando presentes inúmeros convidados, elementos participantes nos Grupos de
Trabalho, além de quatro conferencistas que em
muito engrandeceram estas Jornadas, permitindo
acompanhar o “estado da arte” de outros comandos e países. Os trabalhos iniciaram-se com a intervenção do Exmo. Comandante da EPI - Coronel
Conferencistas e participantes
de Infantaria João Ormonde Mendes que deu as
Nº 187 AGO09
53
AZIMUTE
Palestras Enquadrantes do Tema
Palestra nº1
Pelo 68 9 : - US Army, da
Embaixada dos EUA em Lisboa, foi apresentado o tema “The tactical Employment at
tica
Squad and Platoon
Squ
Level and the Infantry
Lev
Tactics
in
MOUT/
Tac
FIBUA”,envolvendo
as principais lições retiradas da Operação
tira
Phantom Fury em
Pha
Fallujah, Iraque - Novembro 200
2004. Na sua apresentação destacou quatro ensinamentos que o exército
americano tirou desta operação e que rapidamente
introduziu na doutrina e programa de cursos:
1. O combate urbano combina infantaria e
carros de combate (CC)
Além da necessidade, utilidade e complementaridade dos CC e da Infantaria, o orador alertou para um problema que os CC têm e que
só pode ser resolvido com o auxílio da infantaria. Trata-se dos ângulos mortos dos CC e
que são ainda mais evidentes quando estes
No entender do conferencista a solução encontrada para melhor combinar Infantaria e
CC é a que a seguir se expõe:
54
Nº 187 AGO09
De salientar, como conclusão deste ponto,
que o exército americano pretende transformar os seus agrupamentos (com unidades
de escalão Companhia), em subagrupamentos (constituídos por pelotões de Infantaria e
CC). O objectivo é fazer baixar o escalão de
integração da Infantaria com CC.
2. A Infantaria deve ser treinada para proceder à abertura de brechas com explosivos
Este ponto foi relacionado com a formação em
manejo de explosivos por parte dos militares
de infantaria, tendo em conta que do antecedente era matéria exclusiva da engenharia. A
necessidade cada vez maior destas perícias
veio impor que a formação nesta área deve
ser extensível a todos os militares em geral e
não só a especialistas.
3. O maior perigo para a infantaria é na passagem entre edifícios
‚ dade que o exército americano sentiu na pro < entre edifícios expõe a infantaria e transforma
o militar num alvo vulnerável. As técnicas de
transposição, de mascaramento do movimento devem ser aprofundadas e treinadas até à
exaustão.
Palestra nº2
O LTC Niels Windheuser do JALLC, a quem
foi proposto o tema
Th
The Interoperability
within NATO Urban
wit
Op
Operations at Small
tactical Units, organitac
zou a sua apresenzo
taç
tação nos seguintes
po
pontos:
1. O processo de liçõ
ções aprendidas do
JA
JALLC;
2. Um relatório sobre 8* Soldier System - DSS (Soldado
(S
do Futuro)
efectuado por militares do JALLC que acompanharam uma força do exército do Reino
Unido no Afeganistão;
3. Lições Aprendidas nas operações correntes
da NATO.
Da sua apresentação, que foi preparada em
coordenação com o TCor Inf Jorge Costa Campos
(que presta serviço no JALLC e que por motivos de
serviço não pôde estar presente), são de salientar
as seguintes conclusões:
¤ Com o DSS pretende-se a integração de tudo
o que o Soldado utiliza, transporta e consome
para potenciar as sua capacidades individuais
e colectivas (Pequenas Unidades) dentro da
sua estrutura nacional de Comando e Controlo;
¤ A Interoperabilidade é fundamental, com a
Infantaria Ligeira a desempenhar um papel
predominante;
¤ Combate conduzido praticamente sempre
apeado e em terreno complexo, com as áre
=>#£>>
Improvisados) sempre presentes, levando as
operações a caracterizarem-se por grande
intensidade;
¤ DSS não deverão estar dependentes da sua
ligação a veículos e deverão estar aptos para
*
©
¤ O peso dos equipamentos é um factor-chave
(o que hei-de transportar para esta Missão?).
No que se refere à multinacionalidade das
operações foram destacados os seguintes pontos,
como sendo os mais importantes:
¤ Aspectos culturais e linguísticos – críticos nos
baixos escalões;
¤ Nas actuais operações da NATO existem diferentes tácticas, técnicas e procedimentos
(TTP) nos diferentes países;
¤ ˆK
' #^^ ‡
>
melhora:
¤o Comando e Controlo aos baixos escalões;
¤a Designação de alvos e a Navegação.
¤
ˆK
' #^^ ‡
>
'
(Exemplo do GPS).
AZIMUTE
4. Técnicas de limpeza de compartimentos e
treino de tiro em ambiente urbano
No quarto ponto foram apresentadas algumas
técnicas de entrada em edifícios que, na sua
maioria, já são por nós ensinadas nos cursos
e treinadas nas unidades da FOPE, de onde
se realça o tiro como factor fundamental para
o sucesso de qualquer unidade de combate.
Palestra nº3
O Cap Inf Rafael
a ae Lopes,
opes, Co
Comandante
a da te da
Companhia
de Apoio à
a
Formação da
EPI, represen-tante
portu-n
guês no “Urban
Operations
p
Working Group
(UOWG)”,
a
abordou o tema
ação Actual e Perspectivas Futuras”.
Futuras”
“ UOWG - Situação
Foi apresentado:
1. O enquadramento do UOWG na estrutura da
NATO;
2. A origem e objectivos do UOWG;
3. Perspectivas de Futuro.
O GT depende directamente do Army SubGroup (ASG) que está subordinado ao NATO
Training Group (NTG) e :
¤ Recebe das nações representadas no GT
apoio no treino e documentação relativa ao
CAE.
¤ Analisa TTP e equipamentos de forma a criar
um conceito comum e integrado de CAE.
¤ Assegura que a formação e treino do CAE se
mantêm actualizados de acordo com as mais
recentes missões e ameaças.
No que diz respeito às perspectivas de futuro,
foi feito um resumo do que o GT está a desenvolver
e que se destaca:
¤ O CAE como base da formação do Infante;
¤ Promover a discussão do emprego de armas
combinadas no CAE (já iniciado);
¤ Apoiar o desenvolvimento do Projecto de
Ampliação do “ALDEIA CAMÕES” e contribuir
para a actualização dos programas de instrução dos cursos ministrados na EPI;
¤ Análise do Cap. V do Urban Operations Tactical
Handbook (UOTH), no que diz respeito às funções de Combate;
Nº 187 AGO09
55
AZIMUTE
¤ Aprovação do Vol. II do UOTH e passagem do
Vol I a ATP;
Decorrerá em Portugal a Reunião do UOWG no
âmbito das “Informações no CAE”, de 26 a 30 de
Abril de 2010.
Palestra nº4
O Capitão de Infantaria Alexandre
Ale
Capote, da
Brigada Mecanizada,
Bri
foi proposto o
a quem
q
tem
tema: “As Pequenas
Un
Unidades
de
Inf
Infantaria no Combate
‡
>
Perspectiva do em- P
pre
prego de meios mecaniz
nizados e blindados”.
O Capitão Capote
*
*
em Portugal e no Reino Unido. Foi comandante da
2ªCAt / AgrMec / NRF 12 e é actualmente adjunto
'\
Da sua apresentação temos a destacar uma série de apontamentos que são o resultado do estudo
e da experiência operacional de um Agrupamento
em NRF. A apresentação, entre outros aspectos,
trouxe de relevante os seguintes:
¤ Emprego de meios mecanizados e blindados;
¤ ‡
>
O Emprego de meios mecanizados e blindados
K
_
W
uma fórmula que a seguir se descreve:
Efeito magnético das áreas urbanas +
Caracterização ameaça = Necessidade de protecção / Poder fogo
No que diz respeito ao treino, “o que treinar?”
foi a primeira questão a ser respondida, com uma
lista de temas explanados no PLANO DE TREINO
e de onde se retira a seguinte conclusão: o treino
deve abarcar todo o espectro de operações, deve
ser contínuo e com prioridade para as tarefas inerentes ao combate.
Quanto aos Objectivos do treino, estes devem
ser detalhados até ao escalão secção de atiradores.
Desenvolvimento dos Trabalhos
‚ '\ ? debate sobre os diferentes temas propostos.
Os GT contaram com a presença de diversos
W
que em muito contribuíram para as discussões entre o grupo e para as conclusões que foram apresentadas no dia 22Jun09.
56
Nº 187 AGO09
Conclusões das Jornadas
A Cerimónia de Encerramento das JI 09 contou
com a presença dos Comandantes das unidades
de infantaria e foi presidida pelo Exmo. Director
-Honorário da Arma de Infantaria, Tenente-General
Mário de Oliveira Cardoso.
Nesta sessão foi feita a apresentação das conclusões por parte dos GT, efectuadas pelos seus
coordenadores, que seguidamente se resumem:
Encerramento das Jornadas de Infantaria
GT 1 – pelo Tenente-Coronel de Infantaria Jorge
Gamito Torres, que coordenou o tema “A Condução
de Operações de Combate em Ambiente Urbano
– Requisitos de Capacidades de Informação nos
Baixos Escalões (Companhia, Pelotão e Secção)”,
e apresentou as seguintes conclusões:
¤ Doutrina – Técnicas, Tácticas e Procedimentos
*
_
com a doutrina ISTAR (impacto dos novos
meios);
¤ Treino – Aplicação dos meios – Impacto no treino individual e colectivo: integração e gestão
de sensores e C 2;
¤ Organização – Novos requisitos só alteram a
estrutura orgânica de material. As células de
gestão de sensores (UAV’s/UGV’s) são orgânicas da UEB;
¤ Meios – Requisitos de capacidades dos sistemas: actuar de forma autónoma; isolada do
apoio das principais plataformas e/ou sistemas
de armas; ligeiros;
¤ Liderança – Planeamento centralizado, execução descentralizada – maior exigência e responsabilidades na coordenação das operações
aos baixos escalões;
¤ Pessoal – Necessidades de novas competências: selecção; especialização; ambiente
multinacional/língua;
¤ Interoperabilidade – Uso do SICCE na integração de todos os meios C4ISR até ao escalão
secção.
¤ Quanto à organização a proposta vai no sentido de se criarem dois níveis de Simuladores:
o primeiro nível nas entidades que sejem iden
>!• acesso aos sistemas; o segundo nível, para
%
†]!>
zadora, destinado ao treino do pessoal;
¤ No que diz respeito às infra-estruturas, as recomendações vão no sentido de haver uma
'~
lação estar associado à infra-estrutura real, da
criação de instalações para acolher sistemas de
simulação e da rentabilização das infra-estruturas reais, permitindo o seu desenvolvimento;
¤ As propostas respeitantes ao pessoal vão no
sentido da criação de órgãos ou entidades responsáveis pela gestão da formação de quadros
£]
•
‹ vinculação/permanência dos militares e da contratualização de formação, manutenção e reuK
' ~
%
AZIMUTE
GT2 – pelo Major de Infantaria Jorge Varanda
Pinto, que se debruçou sobre o “Emprego Táctico
de uma Unidade de Escalão Companhia, em todo o
Espectro das Operações, num Cenário de Contrasubversão Urbana” apresentou as conclusões que
se destacam:
¤ Doutrina - proposto que fossem elaborados dois manuais pela EPI, coadjuvada pela
FOPE, sobre COMBATE URBANO. Propõem
para a organização base de um Batalhão de
Infantaria, com a constituição permanente de
Sub-Agrupamentos, com base nas companhias e esquadrões da BrigInt. E ainda a integração nesse batalhão de Lança Granadas
Automáticos, UAV e secções Cinotécnicas;
¤ Treino e material – proposta de algumas alterações e aquisições para fazer face às novas
tecnologias.
¤ Este GT considera a liderança como área essencial para os novos quadros. Este ponto tem
ligação directa ao seguinte, do pessoal, e onde
o GT salienta uma série de acções de formação
no TN e no estrangeiro que seriam necessárias
para fazer face ao tema proposto;
¤ Quanto às infra-estruturas a proposta vai no
sentido de se ampliar e melhorar as infra-estruturas existentes para o CAE, pois estas devem
permitir a execução de tiro real, a utilização de
viaturas mecanizadas/blindadas e alterar as situações de treino, para o tornar mais realista;
¤ No último ponto, a interoperabilidade, as propostas vão no sentido de a doutrina ser comum
ou, no mínimo, compatível e possibilitar o emprego combinado de forças.
¤ O treino deve ser do tipo Cross Training para
adaptação e integração. É, no entanto, no
material (Armamento, Transmissões, Etc.),
onde existem mais sistemas que requerem
compatibilidade.
¤ Quanto ao pessoal, deve ter as competências
para participar em operações combinadas
(Linguística).
GT3 – Coordenado pelo Tenente-Coronel de
Infantaria Rui Mendes Dias, que teve como objec*
"•]
e Técnicos de Simulação para os Sistemas de
Combate de Infantaria dos baixos escalões tácticos
(Companhia, pelotão e Secção) em ambiente urbano”, apresentou as seguintes conclusões:
¤ < ' %
' cional deve ser construída com base nos
conceitos basilares da OTAN (Simulação,
Interoperabilidade e Reutilização), bem como
nos seus princípios-guia, a normalização de
tácticas e procedimentos fruto das lições aprendidas, e a revisão dos diversos referenciais de
curso;
‚ >
sentado pelo comandante da EPI, à audiência, uma
proposta de “site” da arma de infantaria. Este sítio
terá como objectivo ser um repositório dos símbolos, das tradições e do historial da arma para além
de documentos relacionados com a infantaria portuguesa e estará disponível na internet. Foi com muito
agrado e receptividade que este assunto foi visto,
pois permite colmatar uma lacuna existente, constituindo-se igualmente como um local de debate e
encontro entre Infantes.
Como já anteriormente se aludiu, teve ainda lugar
uma visita inaugural, pelo Tenente-General DirectorHonorário da Arma de Infantaria, à Exposição sobre
a participação do Corpo Expedicionário Português
(CEP) na 2ª Guerra Mundial. A visita foi guiada
pelo Coronel Américo Henriques, especialista em
História Militar, que mostrou efectivamente o que foi
a digna e difícil participação portuguesa na IGM.
Azimute
>'†
¨>!
`Š?
Nº 187 AGO09
57
AZIMUTE
O Batalhão de Infantaria Mecanizado
virado para o Futuro
Maj Inf Rodrigues Dias
Com a realização deste trabalho pretendeu-se
d–
=
Mecanizado (BIMec) no futuro, tendo em conta
as funções de combate e, por outro lado, a consequente necessidade de adaptação do Exército
Português, no que concerne às suas forças mecanizadas, face a introdução dos novos Carros de
Combate (CC) - LEOPARD II A6.
Como factor condicionante, tendo em conta os
% das verbas afectas, constitui-se determinante para
o Exército o projecto de reequipamento e modernização das viaturas M113 e substituição dos CC
M60, sendo este aspecto fundamental para o desenvolvimento do respectivo parecer técnico.
<
*
[
para além da análise e determinação das principais
características tendo em conta o novo ambiente
operacional – o conjunto de capacidades necessárias que deverá possuir um BIMec, quando em
operações num teatro não linear1 , de forma a obter
uma linha de orientação para a concepção e organização de uma possível estrutura para a unidade
em estudo.
A metodologia adoptada para este estudo consistiu na sustentação de um conjunto de hipóteses, através da pesquisa de anteriores trabalhos,
efectuada em fontes abertas, para os quais concorreram diferentes modelos, como por exemplo o
Israelita, Brasileiro, Australiano e Italiano; as lições
aprendidas em operações, em especial pelas for'

tos que lançam os Exércitos na senda da transformação, como necessidade última de protecção e
sobrevivência no que concerne à abordagem rea
No entanto, pela sua natureza, este trabalho
foi limitado tendo em conta os sistemas de armas, equipamentos colectivos e protecção e a
1 O campo de batalha moderno é não-linear, com áreas de
operações contíguas ou não contíguas, incluindo, para além da
vertente aérea, terrestre e marítima, igualmente a componente
espacial, onde se desenrolarão os combates da informação,
e o espectro electromagnético. Inclui ainda as características
do terreno, a população, as forças amigas e o adversário. (RC
Operações – SET05)
58
Nº 187 AGO09
consequente necessidade de evolução.
!*
pela Organização do Tratado do Atlântico Norte
(OTAN) para este tipo de unidades, procurou-se
chegar à questão central.
A questão central: “A organização actualmente proposta para um Batalhão de Infantaria
Mecanizado é adequada ao seu emprego em “full
Spectrum2”? Como seria a aplicação dos actuais
BIMec portugueses em teatros de operações, de
natureza não linear, sem perder as características
básicas da arma de Infantaria.”?
Tal serviu de suporte a um conjunto de questões derivadas que regularam todo o processo de
investigação:
¤ O actual modelo preconizado para um BIMec,
consegue suportar o conjunto variado de capacidades (capability statements), no amplo
_\
guerra?
¤ O actual modelo suportado em viaturas da família M113 A1 e A2 cumpre todas as capability
statements?
¤ O actual modelo suportado em viaturas da
família M113 A1 e A2, em termos de manobra, apoio de combate e comando e controlo,
acompanha os CC LEOPARD II A6?
Tendo em conta que o Ambiente Operacional
W"_'\¬
ências que afectam o emprego de forças militares
\
$3, importa
pois ter bem presente que factores o condicionam
e caracterizam:
¤ Os objectivos nacionais a alcançar através dos
diversos elementos do poder nos quais está in%'
pela política, e que estão directamente relacionados com os interesses nacionais, constituindo assim a envolvente estratégica do ambiente
operacional;
¤ Os objectivos militares da operação, determinados pela estratégia e enquadrados pela doutrina de emprego de forças;
2 Operações em todo o espectro (FM 3-0 Operations FEB08)
3 Regulamento de Campanha 130-1 operações (1987)
Este novo ambiente operacional, caracterizado
por ameaças e riscos difusos, traz agregado um
conjunto de tendências, com destaque para a globalização, a proliferação de fenómenos regionais
associados ao alastramento de nacionalismos e
radicalismos.
Há que considerar também o maior protagonismo dos actores não-estatais, a descaracterização
das fronteiras físicas, a crescente vulnerabilidade
dos Estados, as intromissões externas e o aumento
das assimetrias entre países ricos e pobres, que
constituem igualmente elementos caracterizadores
da actual conjuntura internacional.
<
nal, face a este tipo de ameaças, caracterizam-se
essencialmente por serem assimétricos4 , onde o
mais fraco procura anular as vantagens do adversário tecnologicamente mais evoluído.
Perante este novo cenário internacional os países terão que determinar as modalidades de acção
para atingir os objectivos políticos e salvaguardar
os seus interesses5, modalidades essas que afectarão a atribuição das missões às forças militares, o
volume e a composição dessas forças, os recursos
postos à sua disposição e as linhas gerais de emprego operacional dos meios
Estas ameaças e riscos à segurança nacional e
internacional, assumem um carácter multi-facetado,
k W \ '
natureza similar, sendo característicos do ambiente operacional
da guerra-fria, condicionando ainda hoje a doutrina, treino e
'
] W
opõem forças armadas convencionais ou não, com estrutura,
volume, equipamento, tecnologia e doutrina muito díspares.
€>
básicas, fundamentais da nação, os objectivos nacionais
descrevem o que um país procura atingir. Os objectivos
nacionais são metas específicas que uma nação procura
alcançar a fim de promover, apoiar ou defender os seus
interesses nacionais.
imprevisível e transnacional que devem privilegiar
'\
'
%
prego num ambiente conjunto e combinado para faK
*
e elevada intensidade.
Para tal, tendo em conta as tarefas, localizar,
K

do combate, tais como a manobra, o fogo, a liderança, a protecção e a informação6. Ao combinar e
conjugar estes elementos com o objectivo de executar as tarefas fundamentais, temos os sistemas
operativos denominados por funções de combate,
que são7:
¤ Manobra;
¤ Apoio de Fogos;
¤ Informações;
¤ Protecção (Mobilidade, Contramobilidade e
Sobrevivência);
¤ Defesa Aérea;
¤ Apoio de Serviços;
¤ Comando e Controlo.
Por tudo o que foi referido até ao momento, é
dentro deste espírito que a modernização dos actuais equipamentos, e neste caso concreto a modernização das viaturas da família M113, assume
especial relevância, sem dúvida um salto qualitativo positivo e prova que aquilo que se pretende
é um “=>D # X>/# evidencie força, adaptado e adaptável ao ambiente
interno e externo, cada vez mais projectável, com
2$#2/vel de meios, pronto a ser empenhado em todo o
X#&+ta e combinada onde e quando for superiormente
determinado”8.
<*
K
guma pesquisa através das fontes abertas de forma
a tentar perceber o que fazem os outros exércitos
no domínio das forças mecanizadas, dos quais se
destacam os Estados Unidos (EUA), Israel, Itália,
<

apresentam características comuns:
¤ Alta mobilidade estratégica, tendo em vista a aplicação dos mesmos em Teatros de
Operações (TO) muito afastados do país de
origem;
¤ Preparados para operar em ambientes complexos em que as Áreas de Operações (AO)
são dominadas pelo ambiente urbano (prepon-
AZIMUTE
¤ A ameaça, referida ao tipo de forças e seu po
prego das suas forças, bem como qual o tipo
©
¤ A área de operações, de onde importa considerar as suas características e a forma como
afecta o emprego de forças;
¤ A informação, tendo em vista a forma como ela
pode condicionar o desenrolar das operações;
¤ A tecnologia e contributos inerentes ao desenvolvimento e aplicação da mesma no emprego
de forças;
¤ A unidade de esforço como componente fun
K '
militar.
6 Regulamento de Campanha – Operações (2005).
7 Idem.
8 Visão – Directiva 90/CEME/2007.
Nº 187 AGO09
59
AZIMUTE
derância de TTP9 para o combate urbano);
¤ Possuem sistemas operacionais fortemente
apoiados na capacidade C3I, para recolha e
tratamento de notícias para além de possuírem
unidades especializadas em ISR (Intelligence,
Surveillance and Reconnaissance);
¤ Armamento e viaturas com um grande incremento tecnológico e protecção;
¤ Uma grande aposta na indústria de defesa nacional, com ligações aos grandes fornecedores
internacionais;

as forças mecanizadas devem estar aptas a enfrentar as condicionantes operacionais do moderno
campo batalha.
Relativamente
às
Forças
Mecanizadas
Portuguesas e quando confrontadas com outros
exércitos, demo-nos conta desde logo, de uma
acentuada diferença em termos de comparação,
com as nossas forças mecanizadas, onde interessa salientar, ao contrário de outros exércitos, que a
unidade táctica fundamental assenta no Batalhão
ou Agrupamento.
Dito isto, uma questão que de imediato se coloca é qual será a verdadeira realidade, em termos
operacionais e tácticos, das nossas forças mecanizadas, entenda-se a composição e articulação
de forças com Viaturas Blindadas de Transporte
Pessoal (VBTP) e Carros de Combate (CC):
¤ #
' *
continuado10;
¤ As nossas VBTP M113 têm mais de 30 anos,
pouca ou nenhuma tecnologia, fraca blinda CC. Este aspecto será mais notório quando
os agrupamentos forem articulados com CC LEOPARD II A6;
¤ Pouca ou nenhuma capacidade de produção
de Informações, capaz de auxiliar o comandante a perceber o campo de batalha – capacidade
“Common Operational Picture”11;
¤ Inexistência de viaturas blindadas leves de
rodas, para o desempenho de tarefas espe%
=^• £Intelligence,
9 Técnicas, Tácticas e Procedimentos
10 O conceito de combate continuado visa a máxima utilização
K
]
'\
criar janelas de oportunidade.
11 A Imagem Operacional Comum (COP – Common Operational
Picture) é uma imagem no tempo de forças amigas (azuis),
neutras (verdes ou brancas), adversárias (vermelhas) e, do
campo de batalha (castanho). É formada através da base de
dados das operações, das notícias e informações comuns a
todos os escalões de comando e é disseminada ao seu escalão
de comando. (PDE 2-00 Informações e Segurança)
60
Nº 187 AGO09
Surveillance and Reconnaissance), o que dimi
*
combate;
¤ < ção das actuais viaturas M113 A1 e A2 pois, já
não se fabricam;
¤ A dependência de meios de comunicações e
tando a capacidade destas unidades em operar isoladamente;
¤ !
em operarem em ambientes complexos conjugados com o ambiente urbano.
Desta forma, todo o processo de modernização
das viaturas M113 deverá ser orientado pelo conjunto de capacidades requeridas pela OTAN.
É certo que este estudo teve em conta a probabilidade de emprego dos BIMec, desde situações
W
~
]
'\
de Resposta a Crises (CRO), onde se torna urgente dotar estas unidades de sistemas modernos de
protecção, poder de fogo e comando e controlo, de
forma a colmatarem as limitações/problemas levantados durante o estudo em apreço.
Neste contexto foram assumidas como referência as capacidades exigidas pela OTAN referentes
a um Batalhão Mecanizado:
¤ Actuar como agrupamento (quando reforçado
com carros de combate);
¤ Participar
em
operações
Conjuntas/
Combinadas;
¤ Capacidade para observar, negar o acesso,
ocupar e defender pontos fortes;
¤ Capacidade de empenhamento decisivo, excepto em terreno montanhoso e selva;
¤ Capacidade para receber e integrar o apoio de
combate, apoio de fogos e apoio de serviços de
outras unidades (engenharia, reconhecimento,
artilharia, ISTAR - Intelligence, Surveillance
Target Acquisition and Reconnaissance, GE –
Guerra Electrónica, etc);
¤ Capacidade para atacar, defender ou executar
operações de retardamento com outras unidades amigas em apoio
¤ Capacidade para desenvolver operações militares em áreas urbanizadas;
¤ Capacidade de combate próximo com o armamento orgânico e quando reforçado com carros
de combate;
¤ Capacidade de garantir um nível adequado de
protecção da força (incluindo NBQ e protecção contra engenhos explosivos improvisados
accionados remotamente) para todo o pessoal, armamento e equipamento orgânico da
¤ As viaturas devem possuir canhões com calibre superior a 20mm e sistemas de mísseis
anti-carro guiados.
Como facilmente se pode depreender, a BrigMec
Portuguesa, face à obsolescência dos seus meios
K
critérios operacionais acima mencionados. Acresce
que esta brigada, e os seus batalhões em particular deve garantir um grande poder de choque, fogo
' média/alta intensidade12. Como tal, tem como principais elementos de manobra dois BIMec, um Grupo
de Carros de Combate (GCC) e um Esquadrão de
Reconhecimento (ERec).
Desta forma, tendo subjacente o conjunto de
princípios anteriormente referidos, urge a introdução de “upgrades” que tenham em atenção a protecção, a capacidade de vigilância e combate próximo para toda a família de viaturas VBTP M113.
Face às exigências do moderno campo de batalha, as viaturas de combate com lagartas precisarão de andar mais rapidamente, carregar cargas
mais pesadas, fornecer à tripulação equipamento
e protecção aumentada e possuir sistemas digitais
próprios da denominada Força XXI.
Actualmente os governos e indústrias de defesa detêm um conjunto de iniciativas no sentido de
assegurar estas capacidades às viaturas da família
M113A3. A estrutura de força para as forças blindadas do século XXI manterá muitas das viaturas
blindadas de lagartas que existem nos diferentes
Exércitos, assumindo desta forma a necessidade
de constantes “upgrades$ ] W nanciamentos para melhorar as capacidades das
mesmas e reduzir as limitações do actual parque
de viaturas blindadas.
Esta tem sido uma tónica constante de outros
exércitos que têm viaturas da família M113. Sendo
que, em todos eles, o objectivo prioritário de modernização é garantir o estado de operacionalidade
das unidades, de modo a não comprometer o treino
das subunidades e os compromissos internacionalmente assumidos.
Para além do anteriormente referido, a manutenção elevada de índices de disponibilidade, a
redução de custos e o tempo de manutenção preventiva e a extensão do ciclo de vida das mesmas
por mais 15 ou 20 anos encerram em si o objectivo
deste mesmo projecto.
AZIMUTE
Unidade;
¤ *~
''
tres para evitar o fratricídio;
¤ Capacidade para actuar integrado num ambiente em rede (NNEC – NATO Network
Enabled Capability);
¤ Capacidade para obter / partilhar informação
em “tempo real / próximo do real” que contribua
para o BFSA (Blue Force Situation Awareness
– Percepção Situacional das Forças Amigas);
¤ Capacidade para actuar sem reabastecimentos ou recompletamentos por um período até 3
dias (excepto classe V);
¤ Capacidade para manter actualizada, de forma
automática, a rede de Comando e Operações
e Logística relativamente à situação da classe
III e V, bem como os danos existentes relativos
a combate e não combate;
¤ Capacidade para fornecer apoio sanitário e logístico integral;
¤ Capacidade de fornecer apoio a forças blindadas fazendo uso da mobilidade e protecção;
¤ Capacidade de conduzir operações de contrasubversão, apoio à paz e outras tarefas como
sejam execução de patrulhamentos, controlo
de tumultos, em ambientes pouco permissivos
usando outros sistemas ou doutrinas;
¤ Capacidade de conquistar, controlar, segurar e
organizar o terreno;
¤ Capacidade de participar em operações conjuntas e combinadas como força expedicionária e emprego táctico em condições climatéricas extremas de calor e frio e condução de
operações em terrenos austeros;
¤ Capacidade de integração dentro do sistema JISR - Joint Intelligence, Surveillance and
Reconnaissance;
¤ Capacidade de partilha da COP – Common
Operational Picture – com as suas subunidades até ao escalão Secção;
¤ Capacidade de obter de dia, noite e em condições de visibilidade reduzida, imagens de
objectos ou de actividades de interesse e
disseminar essa informação e dados complementares (por ex: GDH, localização) para um
sistema de exploração e tratamento em tempo
oportuno e de forma segura;
¤ Capacidade de adquirir e bater alvos de dia /
noite quer estacionária quer em movimento;
¤ Capacidade de conduzir operações apeado;
¤ Capacidade de fornecer apoio próximo a forças blindadas fazendo uso da mobilidade,
fogo, protecção;
12 Entenda-se alta intensidade como a Guerra Global Ilimitada,
Guerra Regional Ilimitada ou o Terrorismo ataques Nucleares
Biológicos Químicos ou Radioactivos (NBQR) ou Endémico
(relativo a um povo ou a uma região) (Collins, 2002, 22).
Nº 187 AGO09
61
AZIMUTE
Como exemplo, seguiu-se o projecto de modernização das viaturas M113 do exército Brasileiro
que têm sofrido constantes “upgrades” relativamente ao projecto básico da VBTP M113 BR. Para
que se tenha uma noção mais adquada, estes
foram os sistemas contemplados em termos de
modernização:
¤ Sistemas de força: motor/transmissão;
¤ Sistemas de arrefecimento;
¤ Sistema de suspensão e conjunto de lagarta;
¤ Sistemas de direcção e comando para o
condutor;
¤ Sistemas de observação;
¤ Sistemas de comunicações;
¤ Sistemas eléctricos;
¤ Porta, escotilha, dobradiças, dispositivos de
retenção e trincos;
¤ Sistemas de navegação;
¤ Sistema de armas;
¤ ^
*
'©
¤ Sistemas de ventilação interna;
¤ Sistemas de alimentação;
¤ Sistema de combate a incêndios.
Devido à sua durabilidade, baixo custo e peso
leve, o projecto para as viaturas M113 é um ponto
de partida ideal para o desenvolvimento de veículos blindados pouco pesados (abaixo das 20Ton).
Os conceitos variam desde viaturas de apoio até
viaturas guarnecidas com torres, ou seja, as mais
pequenas alternativas são todas possíveis dado o
tipo de chassis e respectivos componentes que são
a linha de base das viaturas M113. Os conceitos
recentes para o M113 no futuro incluem:
¤ O suporte universal XM1 10813;
¤ O sistema de alta mobilidade do M113A3, e o
M577A3 CPC “Stretch”.
Estes conceitos, assim como outras iniciativas
em curso de melhoramento, fornecem os alicerces
para a modernização futura e contínua viabilidade
e utilidade dos sistemas M113.
Não obstante a necessidade e os prazos envolvidos, estes conceitos fornecem uma alternativa
K
'
' = mento dos programas se concentre nos sistemas
de aquisição de alvos, sobrevivência, e nas necessárias tecnologias referente às comunicações.
As possibilidades de evolução das viaturas da
família M113 são imensas. Países como o Brasil,
Canadá, Austrália e Israel, têm feito diversos
13 The XM1108 Universal Carrier is a classic example of
how technological advances within the M113 FOV can lead to
*ž
62
Nº 187 AGO09
Fig. 01 – Evolução das viaturas M113
“upgrades$ „ < este artigo demasiado extenso apenas serão referenciados mais alguns aspectos como complemento a tudo o que foi escrito até ao momento.
Actualmente as viaturas da família M113, que
equipam os Batalhões de Infantaria Mecanizados
da Brigada Mecanizada Portuguesa, estão dotadas de uma Metralhadora Pesada (MP) Browning
de calibre 12,7mm. Esta arma garante à viatura a
capacidade de efectuar fogos de supressão. No
entanto, o berço onde a arma se encontra não é
estabilizado e além do que, expõe por completo o
apontador da arma aos fogos directos, e não permite que o mesmo execute fogos ajustados quando a
viatura está em movimento.
Para tal, existe a possibilidade de dotar a viatura
com um conjunto de escudos protectores da arma e
do apontador, que se podem acoplar entre a escotilha do chefe de viatura e escotilha de carga, bem
como dotar esta última com escudos protectores.
Existe também a possibilidade de dotar as viaturas com sistemas de protecção NBQR (Nuclear,
Biológico, Quimico e Radiológico) que fornecem
protecção contra ataques nucleares, biológicos e químicos.
Todos os sistemas
NBQR
consistem num
nos conjuntos
de mangueiras
que transportam
até às máscaras de gás,
Fig. 02 – Reparo para a Metralhadora
num disjuntor, Pesada
(MP) browning com protecção
visão nocturna e de um controlo remoto.
AZIMUTE
num interruptor, e respectivos cabos eléctricos.
Além disto, o sistema básico denominado por NBC
M8A3, pode ainda ser dotado com o sistema NBC
yš as temperaturas são mais baixas, tendo ainda a
*
de manterem aquecidos eventuais tripulantes que
se encontrem feridos.
Fig. 4 - Exemplo de uma torre para MP e sistema de controlo
remoto
Fig. 03 – Sistemas de protecção NBQR
À semelhança das Viaturas Blindadas de Rodas
(VBR) PANDUR 8X8, também as VBTP M113 deverão ser dotadas de dispositivos lançadores de
granadas de fumos, de forma a garantir a neutralização de possíveis ameaças. Estes deverão ser
capazes de lançar fumígenos a distancias entre os
180 a 200mts, tendo em conta que a maior parte
**
Possibilidade de adaptação do reparo da MP
browning, de forma a garantir a colocação de uma
Metralhadora Ligeira (ML) de calibre 7,62mm. Esta
solução permite diminuir o poder de destruição
causado por munições 12,7mm para além do que,
estas estão proibidas de serem usadas contra pessoas, pela convenção de genebra.
« W
oriente vieram provar que a utilização do calibre
y`“
'\'*
das ou mesmo contra viaturas é muito útil no entanto, a sua utilização contra pessoal apeado ou em
apoio das forças de manobra pode causar muitos
problemas por isso, deverá também ser equacionada a possibilidade de colocação de um reparo
lateral que permita a utilização de uma ML 7,62mm.
Outra capacidade que deverá ser conferida a
quando do “upgrade” às viaturas M113, é possibilitar que o apontador da Browning possa fazer tiro a
partir do interior da viatura, ou seja, o reparo da MP
terá que ser convertido numa torre, possibilitando
que o apontador possa continuar a fazer tiro, quer
seja diurno ou nocturno. Para tal o apontador deverá dispor no interior da viatura de um visor ligado a
um dispositivo exterior, dotado de capacidade para
A utilização massiva de IED (Improvised
=>), em Teatro de Operações (TO)
como o Afeganistão ou o Iraque, tem demonstrado
que a possibilidade dos mesmos causarem sérios
danos a viaturas blindadas é enorme bem como, a
*
‰ das viaturas é igualmente elevada. A solução passará por adaptar sistemas de combate a incêndio
no interior da viatura que possibilitem o seu accionamento manual ou automático, que através de tubos perfurados permitam “banhar” a tripulação da
viatura, dando desta forma a hipótese que a mesp
g de imediato à ameaça.
ç
ma possa
reagir
Fig.5 – Exemplo da aplicação de um sistema de
combate a incêndio no interior da viatura
†
„
„mação o domínio e o uso da mesma em tempo
oportuno fazem toda a diferença durante o processo de planeamento e tomada de decisão bem como
na fase de execução da missão. Para tal foi proposto que as viaturas da família M113 sofressem
o necessário “upgrade” de modo a possuírem um
Nº 187 AGO09
63
AZIMUTE
sistema de Comando, Controlo e Comunicações
(C3I) idêntico ao das VBR PANDUR II.
A digitalização já não é uma necessidade mas
uma consequência dos inúmeros factores que caracterizam o moderno campo de batalha. Hoje existem sistemas digitais de controlo de tiro, capazes
%
K
capacidade de integração horizontal e que consolidam vários programas de controlo de tiro e respectivas tecnologias, optimizando desta forma os
sistemas existentes e consequentemente reduzem
a duplicação da tecnologia, permitindo ao longo do
tempo, e quando necessário, o mais fácil “upgrade”
dos mesmos.
Estes sistemas permitem que o controlo de tiro
seja feito a partir de uma única viatura, não necessitando de apear a respectiva guarnição, conferindo a possibilidade de a mesma executar fogos
dentro da viatura.
variado de blindagens, que vão desde as blindagens compostas, em aço, alumínio, titanium, do tipo
“Ceramic-faced” e “sanduíche” às do tipo “gaiola”.
Como corolário da investigação efectuada e
atendendo à questão central e respectivas questões derivadas, procurou-se ao longo deste parecer técnico dar resposta às mesmas, procurando
da mesma forma a solução para cada uma delas.
O Exército Português continua a considerar
'nização e actualização das unidades das FOPE.
O conjunto de projectos desencadeados, durante
2008/2009, provam exactamente esta preocupação. No entanto, sabemos que os mesmos têm
custos associados muito elevados mas, necessário. O actual ambiente operacional, assim como as
condicionantes operacionais decorrentes do mes K
*
W
bilidade, fazendo com que as forças mecanizadas
se adaptem às constantes variações do mesmo,
para cumprirem as missões que lhes forem
As propostas efectuados neste mesmo
parecer, foram fundamentadas com a análise
das condicionantes operacionais do combate
moderno e na análise das forças mecanizadas de outros países que actualmente se debatem com o mesmo problema.
No entanto, deverá ser equacionado se
Fig. 6 – Sistema de Controlo de Tiro para Morteiros Pesados
' alização e modernização das viaturas M113
Um outro aspecto muito importante prende-se
não serão demasiado onerosos obrigando a levancom a blindagem, tendo em conta a protecção netar a hipótese de aquisição de novas viaturas
<
mente onde proliferam todo o tipo de ataques, quer
dições necessárias que as nossas forças mecanisejam com recurso às Armas Anticarro (AACar) ou
K
a quaisquer outro tipo de explosivos.
tes a um campo de batalha difuso onde a ameaça
Para que se tenha uma noção mais exacta uma
faz uso de técnicas, tácticas e procedimentos (TTP)
viatura blindada, por mais blindada que seja, nunca
difíceis de combater.
é totalmente invulnerável.
O actual modelo preconizado para os nossos
Para tal, o mercado oferece um leque muito
B
BIMec, não é adequado às operações em “Full
S
Spectrum”14, muito menos conseguirá cumprir com
o conjunto variado de capacidades requeridas e
<
ccom os CC LEOPARD II A6.
Assim, modernizar e tornar mais aptas as viatu
turas M113 é uma exigência da necessidade
o
operacional.
Azimute
Staff Officer/Ops Div
no
JALLC/ACT (Monsanto)
Fig. 7 – Viatura M113 A3 com blindagem tipo “Gaiola”
64
Nº 187 AGO09
14 Operações em todo o espectro (FM 3-0 Operations – FEB08)
Maj Inf Rodrigues Dias
Desde sempre as Forças Armadas têm feito um
esforço de adaptação aos novos contextos de segurança, e o Exército Português não é excepção.
O empenhamento do Exército, na última década e
meia, em diversos Teatros de Operações, alguns
deles a milhares de quilómetros de Portugal obrigaram à necessária mudança.
Nesses teatros os militares portugueses são
confrontados com ameaças multifacetadas, reaK
’ em contacto com novas tecnologias. Todos estes
factores têm obrigado a mudanças, que vão da formação dos seus recursos humanos, a novas estruturas organizacionais, novos equipamentos e
novos métodos de treino, passando pela doutrina
de emprego das unidades.
A 15 de Maio de 2008, realizou-se uma reunião
de trabalho na DPF/EME (Divisão de Planeamento
†'
>

>W‹ cou estabelecido a responsabilidade da EPI
£>
!
=
‹]<•£]
Coordenador de Área de Reequipamento) para as
Armas Anticarro (AACar) a equipar num futuro próximo as Unidades de Infantaria.
Neste sentido, a 02 de Outubro de 2008
constituiu-se um GT (Grupo de Trabalho), envolvendo representantes da EPI, BrigMec (Brigada
Mecanizada), BrigInt (Brigada de Intervenção),
BRR (Brigada de Reacção Rápida) e CTC (Centro
de Tropas Comando), dentro da área técnica em
apreço - AACar.
>
*
dar, analisar e propor o reequipamento da Infantaria
no respeitante às AACar e o seu correspondente
‰
são da actual LPM (Lei de Programação Militar),
nomeadamente:
¤ Ponto de Situação em relação aos
equipamentos;
¤ Necessidades para cada sistema/subsistema
de AACar;
¤ Capacidades requeridas para cada sistema e
respectivo emprego táctico;
¤ Requisitos operacionais;
¤ Custos envolvidos;
¤ Calendarização em termos de aquisição para
cada sistema.
AZIMUTE
As Armas Anticarro num contexto de evolução
Tendo por base o anteriormente referido, o
Objectivo do Projecto visava o reequipamento e
modernização das unidades da Força Operacional
Permanente do Exército (FOPE), no respeitante às
AAcar, tendo em vista assegurar os meios necessários à sua prontidão, segundo um conjunto de
Capacidades e Requisitos Operacionais que lhe
permitam actuar em todo o espectro das operações militares, no cumprimento de missões e tarefas de interesse nacional ou no âmbito das Missões
>
†'
<
£=†<}k‹
meios necessários à prontidão de forças, através
da materialização de capacidades militares necessárias para actuar em qualquer parte do Espaço
Estratégico de Interesse Nacional (EEIN) tendo em
conta os compromissos assumidos com as organizações do qual Portugal faz parte.
Para tal, o GT orientou os seus estudos tendo
em conta o Plano Médio e Longo Prazo (PMLP)
conjugado com as Fichas de Proposta de Força/
Medidas (EC – Exército Capacidade) e as Force
Proposal 2008, Blue Book, ACT (Allied Command
Transformation), Staff Element Europe.
Após ter sido efectuado o ponto de situação relativo às AACar que equipam as Subunidades das
diferentes Brigadas, chegou-se à conclusão que os
equipamentos/tecnologias existentes se encontram
obsoletos e completamente desajustados da realidade bem como, pelo facto de existirem diferentes
sistemas de armas, desde mísseis a canhões, de
‰
manutenção, actualização de software e hardware,
aquisição de munições, deixando que os equipamentos entrassem no conceito de “descontinuado”.
A título de exemplo este OCAR chegou à conclusão que o Canhão (Cnh) de 30mm, que irá equipar as viaturas VBR (Viaturas Blindadas de Rodas)
com destino às SecACar (Secções Anticarro) do
PelAp (Pelotão de Apoio) das CAt (Companhia de
Atiradores), e de acordo com os dados técnicos recolhidos sobre o Cnh 30 mm, os mesmos indicam
que esta arma se destina a apoiar com fogos directos, à defesa anti-aérea e ao reconhecimento de
combate, não referindo explicitamente a luta anticarro. Desta forma o GT colocou algumas dúvidas
Nº 187 AGO09
65
AZIMUTE
Fig 1 - Pandur-II A/IFV
quanto à capacidade de penetração/destruição
do seu projéctil sobre VBR e Carros de Combate.
Para complementar as capacidades do Cnh 30 mm
fez-se uma proposta no sentido de incluir futuramente um SLM (Sistema de Lança-Míssil) do tipo
MR (Medium Range), acoplado na torre da viatura, à semelhança das viaturas que irão equipar
as Unidades de Fuzileiros Portuguesas. A título
de exemplo, as viaturas que equipam o exército
da Republica Checa possuem para além do Cnh
š}^›•^!=±>£
y‹
Outro exemplo, prende-se com a actual situação
do SLM MILAN que equipa algumas das nossas
unidades da FOPE, que se encontra completamente desactualizado não podendo o mesmo sofrer as
necessárias actualizações pois, já se encontra na
situação de “descontinuado”.
Tendo em conta que a probabilidade de empre
ˆ
*
_
'\W
~
a Operações de Resposta a Crises (CRO), torna-se
urgente dotar estas unidades de sistemas e subsistemas de AACar modernos, de forma a colmatarem
as limitações/problemas levantados relativamente
ao ponto de situação actual dos equipamentos desta natureza.
De forma a consubstanciar o anteriormente
referido, as AACar deverão ser encaradas como
um factor multiplicador do Potencial Relativo de
Combate (PRC), garantindo desta forma uma
Capacidade efectiva de Aplicação de Força em
Neste contexto, a aquisição de novos equipamentos e correspondente modernização dos exis_

Capacidade de
Intervenção, Capacidade de Reacção Rápida e
Capacidade Mecanizada.
É certo que a aquisição de novos equipamentos
e modernização dos existentes deverá ser efectuada de forma faseada no âmbito da revisão da Lei
de Programação Militar (LPM), tendo em conta os
compromissos assumidos em sede do Force Goal
Cycle 2008 (FGC 2008).
66
Nº 187 AGO09
No entanto, todo este processo
xibilidade
às unidades AntiCarro
x
(ACar),
orgânicas da Infantaria, fa(A
c
cilidade
de montagem, utilização,
transporte,
e acima de tudo, pertr
m
mitir
a interoperabilidade com difere
rentes
viaturas e garantir a capacidade
de C4I (Command, Control,
d
Communications,
Computers, and
C
Intelligence).
In
=
m geral, ainda que resumidamenma
te,
te o conceito geral de emprego das
A
AACar:
¤Os sistemas de AACar de Infantaria
disponíveis deverão ser capazes de
providenciar fogos ACar (longa, média e curta distância) contra forças blindadas e alvos
'\ em apoio à manobra das forças de Infantaria,
Carros de combate (CC) e Auto-Metralhadoras
(AM).
¤ Em termos de Capacidade Ofensiva, uma
unidade ACar providencia inicialmente, no
*
xar ou destruir posições inimigas. As unidades ACar devem também ser empregues para
empenhar unidades blindadas em Áreas de
Empenhamento (AE) planeadas, para isolar
objectivos e destruir o inimigo e/ou ameaça em
possíveis contra-ataques, ou destruí-lo em retirada. Estas unidades são também adequadas
*
com a consequente destruição ou para repelir

W
¤ Em termos de Capacidade Defensiva, as unidades ACar podem ser posicionadas, no sector defensivo, bem à frente para participarem
em operações de segurança, em operações
de reconhecimento ou cobrir obstáculos com
os seus fogos. Terão de ser capazes de canaK
*
<> facilitar a destruição das mesmas. As unidades
ACar podem ser posicionadas em toda a profundidade do sector de forma a baterem com
os seus fogos os Eixos de Aproximação (EA)
mais prováveis para forças blindadas. Durante
o contra-ataque terão que ser capazes de executar fogos ACar em apoio aos elementos de
manobra.
¤ Como Capacidades Adicionais, dependendo do tipo de armamento as unidades ACar
deverão ser capazes de integrar os seus fogos garantindo as mesmas capacidades de
>
permitir que os diferentes sistemas ACar se
adaptem rapidamente às mudanças resultantes dos factores de decisão MITM-TC (Missão,
Outro aspecto de extrema importância e que
foi observado pela GT é a interoperabilidade, sendo fundamental que o Exército Português cumpra
os critérios de convergência no plano do emprego
de forças militares no âmbito da Organização do
Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que actualmente são baseados em operações combinadas e/ou
conjuntas. Deste conceito surge o imperativo de interoperabilidade de forças, onde os novos equipamentos têm um papel fulcral, requisito fundamental
para a condução de variadíssimas actividades baseado no novo espectro de operações.
No que respeita à sustentação é previsível que
surjam necessidades de sobressalentes ou de manutenção programada dos SLM. Por outro lado,
importa destacar que as AACar deverão sofrer nos
anos mais próximos contínuas transformações,
com a introdução de novas tecnologias, novos sistemas de aquisição de objectivos, factores estes
que tornarão os nossos equipamentos ACar obsoletos, não estando assim garantida a completa operacionalidade dos mesmos.
Como facilmente se poderá depreender, o processo de reequipamento visa, basicamente, a atribuição dos meios materiais indispensáveis para
que o Exército, e neste caso particular as unidades
da FOPE cumpram as missões que lhes estão atribuídas, prioritizando, naturalmente, a supressão ou
'
‰
durante este processo de estudo.
>
? <
traçar linhas orientadoras para cada uma das unidades da FOPE tendo sempre em mente uma clara
sinergia de esforços no que concerne à modernização e aquisição de novas AACar. A existência de
linhas orientadoras, o tratamento integrado de todo
o processo de modernização e aquisição e o seu
enquadramento numa perspectiva de longo prazo,
abrangendo todo o ciclo de vida do material, são
elementos indispensáveis para uma correcta ponderação das opções de reequipamento.
Daqui se poderá inferir que a actualização dos
equipamentos a adquirir bem como a modernização dos existentes deverá ser alvo de um constante
acompanhamento.
AZIMUTE
Inimigo, Terreno, Meios, Tempo disponível e
Considerações de natureza civil), ou seja, garantir uma Capacidade efectiva de Aplicação
de Força <tegração dos diferentes sistemas deverá continuar a permitir a destruição de veículos blinda
'\
*!
qualquer dos sistemas deverá ter a capacidade
para executar fogos em viatura e no solo.
¤ Em resumo, tendo em conta o anteriormente
exposto, as AACar, em termos de capacidades
genéricas, letalidade, sobrevivência e sustentabilidade devem garantir:
¤Elevada probabilidade de bater alvos (consequente redução de custos);
¤Elevada probabilidade de destruir um alvo
£
‹©
¤Cadência de fogo;
¤Sustentação dos fogos;
¤Sobrevivência das armas e das unidades.
Desta forma, e decorrente do acima referido, foi
produzida uma lista de capacidades e requisitos
operacionais por alcances (curto, médio e longo).
Como corolário de tudo o que foi referido até ao

%
nização não se prevêem alterações substanciais, a
aquisição de novos equipamentos e a modernização dos existentes previsivelmente não provocará
'
no que concerne ao conceito de emprego destas
armas. O mesmo não poderá ser dito ao nível do
treino operacional, equipamentos complementares
e sustentação dos mesmos. No entanto, nos casos
da BrigInt e da BrigMec, a nova organização e estrutura das suas unidades, em particular daquelas
que irão possuir AAcar, obrigaram a uma reformulação da táctica de emprego deste tipo de unidades,
nomeadamente com a introdução do Can 30 mm e
de um SLM MR (Sistema de Lança Míssil Medium
Range), e na possibilidade das viaturas da família
M113 A2, receberem um canhão de 30mm.
Por outro lado, as necessidades em AACar irão
obrigar a um reajustamento no compartimento de
carga das VBR PANDUR II e à colocação de dispositivos que permitam posicionar/armazenar os SLM
e os mísseis/ munições no interior do mesmo, bem
como em arrecadação.
A aquisição de equipamentos tecnologicamente
evoluídos a todos os níveis, desde a sua constituição até ao seu sistema de armas, exige o levantamento de novos conceitos de formação e treino,
'\
'\
* ' todo o processo de sustentação.
Ainda sobre o parágrafo anterior, importa realçar a necessidade de aquisição de sistemas de simulação e treino dos apontadores em sala e em
campanha.
Azimute
Staff Officer/Ops Div
no
JALLC/ACT (Monsanto)
Nº 187 AGO09
67
AZIMUTE
O Morteiro
Fundamental no Passado, Decisivo no Futuro
Cap Inf Rafael Lopes
1.Uma arma antiga reinventada
A ideia de permanecer seguro enquanto se ataca à distância tem sido a génese para o fabrico e
consequente utilização de armamento.
A utilização dos morteiros remonta ao Séc XIV
(logo após a invenção da Pólvora), tendo sido a
bombarda (Pumhart Von Steyr1) a sua antecessora, que não era mais
do que uma chapa de
aço forjada em forma
de tubo e reforçada
com cintas metálicas.
Desde o séc XVIII
até ao início do Séc
XX, os morteiros,
tacticamente
concebidos para operações de cerco, eram
caracterizados
por
elevados calibres e
pesos, podendo ir até
calibres de 915mm Fig 1. Bombarda Pumhart Von Steyr
(Mallet’s Mortar).
No início do Séc XX, e com o eclodir da Iª Guerra Mundial, novas necessidades de emprego táctico eram exigidas ao armamento. Vários foram os
esforços de diversas nações (Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos da América), em reduzir o
peso destas armas, bem como adequá-las às reais
necessidades do combate. Era para isso vital,
reduzir-lhes o peso, aumentar a mobilidade e diminuir consequentemente a carga logística para as
forças.
Os primeiros passos foram dados pelos alemães. Enquanto observadores, e após as lições retiradas da Guerra Russo-Japonesa (1904 – 1905),
anteviram a necessidade de a
apoiar o combate na
“trin
“trincheira”.
Entre 1908
e 1909, conceberam
ent
então
um morteiro design
signado
“Minenwerfer”,
esp
especialmente
concebido para a “Guerra
de Trincheira”, atingido
Fig.2 – Morteiro “Minenwerfer
alvo que não podiam
alvos,
ser batidos pela Artilharia.
Este morteiro, entrou pela primeira vez em combate, na França, mais precisamente na Batalha de
Neuve Chapelle, em Outubro de 1914, tendo obtido
68
excelentes resultados para a época, o que provocou que estes morteiros passassem a ser produzidos em massa.
Em Janeiro de 1915, Sir Wilfred Stokes2, inspirando-se numa arma desenvolvida no séc XVII
pelo Baron Menno van Coehoorn3 , criou o “Stokes
Mortar”. Este morteiro rapidamente se tornou referê
rência e foram inicialmente produzidas 1000 armas
(A
(Agosto de 1915) e mais tarde 304 (4º Trimestre de
1915), das quais 200 foram servir em escolas de
1
fo
ação.
formação.
Fig.3 – Stoke Mortar
Este morteiro de concepção bastante simples,
não era mais do que um tubo assente num prato
base e apoiado por um bipé. Os projécteis, disparados por esta nova arma (ou reinventada), de ferro
fundido, tinham como princípio de funcionamento o
actual sistema, ou seja, a granada, com as cargas
adequadas ao alcance desejável, era introduzida
na boca do cano, e deslizava sobre ele em virtude
do seu peso e do seu calibre ligeiramente inferior
ao do tubo. A granada, ao deslizar ao longo da alma
do tubo, vai de encontro ao percutor, o que provoca a detonação da cápsula fulminante e origina a
' ] nientes da combustão das cargas, expandem-se e
colidindo com a base da granada provocam a saída
desta à boca da arma.
Outros modelos se seguiram, e outros países,
especialmente a França, também produziram a
2
Sir Wilfred Stokes, foi o inventor do Stokes Mortar, principal morteiro utilizado
pelos britânicos na Iª GM.
3
1 Bombarda capaz de lançar a 600m uma bola de pedra de 690Kg utilizando 15Kg
Engenheiro militar holandês, líder oficial nas forças de William III (rei da
Inglaterra, depois de 1689), que fez um sem número de inovações em matéria de
armamento e de técnicas de guerra de cerco. O Morteiro Coehoorn, de cano curto
e antecarga, conseguia grandes trajectórias e alcances máximos de 275 metros
de pólvora e uma elevação até 10º.
com uma elevação de 45º
Nº 187 AGO09
2. Importância dos Morteiros
As unidades de morteiros existentes apenas até
ao nível Batalhão e portanto originalmente direccionada para o apoio a este, constituem-se com um
meio orgânico fundamental de apoio de fogos indirectos, aos comandantes das unidades de manobra. A sua elevada cadência de tiro aliada à sua
capacidade única de bater ângulos
mortos, resultado das altas trajectórias de tiro que pode conseguir, bem
como os alcances mínimos possíveis faz dos morteiros um elemento
fundamental de apoio ao conceito
operacional dos comandantes das
unidades de manobra.
abrigado, é passado. Hoje e amanhã, o fogo de
morteiros passa por bater objectivos precisos e
localizados, utilizando poucas munições e “inteligentes”, diminuindo os danos colaterais.
As exigências do combate urbano, centram-se
objectivamente em dois pilares fundamentais, o
Soldado e o Armamento. Para o presente artigo,
ir-nos-emos focar apenas no Armamento.
Para o cumprimento da sua função as unidades
de morteiros, têm diversas áreas que poderão e
deverão ser automatizadas, são elas: Armamento, Aquisição e Processamento de informações do
Objectivo, Controlo de Trajéctoria, Desenvolvimento de Sistemas de C2, Munições, Diminuir a carga logística, Utilização de sistemas de simulação
AZIMUTE
sua própria versão da arma. Durante a Iª GM, os
Estados Unidos da América, França e Itália utilizaram a versão Francesa “Brandt” do Morteiro, e os
Alemães, Ingleses e Japoneses adoptaram a tecnologia “Stokes”.
Durante a IIª GM, e desde os primeiros combates
de 1939, até aos últimos momentos desesperantes
–£<*
y{k€‹Kram parte integrante da frente de combate, sendo
um aliado de vital importância para os Infantes.
3. O Futuro
As características actuais do
moderno campo de batalha, assente no novo ambiente operacional e
a própria conjuntura internacional,
impõe para além das restrições
orçamentais próprias de cada nação,
restrições ao nível do emprego táctico do armamento. Por outro lado, a
vez mais gerações de armamento e equipamento
de emprego cirúrgico, não só em termos de localização, mas também ao nível dos efeitos desejados
no objectivo.
A execução de fogo de morteiros para bater
objectivos de área, em áreas abertas, recorrendo
a granadas de Alto Explosivo, executando salvas
em elevados regimes de tiro para suprimir pessoal
Fig.4 –Dispersão do tiro de morteiro
Fig.5 – O Futuro do sistema de armas - Morteiro
a. Armamento
O Morteiro, como arma do sistema de apoio
de fogos de uma unidade, deve necessariamente acompanhar as exigências tácticas
que vão sendo colocadas pelas unidades de
manobra. Para responder as estas exigências
tácticas, devem as unidades de morteiros, ter
capacidade de:
¤=
'
*
K
©
¤Quais os efeitos desejados no objectivo –
Supressão, neutralização, destruição;
¤Qual o alcance máximo e mínimo da arma?
¤Qual o regime de tiro?
¤Que tipo de munições pode a arma utilizar?
¤Guarnição para operar a arma?
¤Qual o sistema de controlo de tiro?
Compatibilidade e interoperabilidade com
outros sistemas?
¤Mobilidade (Apeado, MecanHizado ou
Motorizado)
¤Qual o tempo de entrada em posição?
Nº 187 AGO09
69
AZIMUTE
mantendo as mesmas dimensões de granadas standard utilizadas pelas actuais
armas
Esta granada utiliza um laser semi-ativo
de alinhamento que é activado na fase
' W objectivo (Fig5).
Fig.6 – Requisitos de Capacidades dos morteiros
b. Aquisição
b
A i i ã e P
Processamento
t d
de iinforf
mações do objectivo
Actualmente a aquisição e Processamento
de informações do objectivo pode ser
obtida com recurso a Observadores Avançados, Radares de contra-bateria, Reconhecimento e Unmanned Aerial Vehicules (UAV’s). Estes sistemas como pontos
de recolha de informações, catapultam
a informação para diversos sistemas de
processamento. Assim que a informação
é obtida e após ser processada deve ser
imediatamente disponibilizada aos intervenientes do Sistema de apoio de fogos.
Hoje, sem um sistema comum de apoio de
fogos, capaz de receber, analisar e difundir todas as informações, o cumprimento
da missão das unidades de morteiros é
c. Controlo de trajectória
A necessidade cada vez mais premente
de um controlo efectivo da trajectória de
uma granada, desde a origem de tiro até
ao ponto de queda decorre de uma das
características do moderno campo de
batalha – presença de civis. Nesse sentido o controlo de danos deve ser uma
preocupação permanente quando se faz
uso da força.
Muitas têm sido as evoluções, tendo em
vista dotar os sistemas de apoio de fogos
com dispositivos que permitam implementar um controlo permanente da trajectória da granada. As granadas PGMM4,
permitem ao comandante táctico dispor
de capacidade cirúrgica de bater alvos,
4 Precision Guided Mortar Munition
70
Nº 187 AGO09
d. Desenvolvimento de sistemas C2
As características exigidas às forças que
actualmente são empregues nos diversos teatros de operações, implica que,
seja disponibilizada através do Sistema
de Comando, Controlo, Comunicações,
Computadores, Informações, Vigilância
e Reconhecimento (C4ISR) a Common
Operational Picture (COP). O Exército
tem já à sua disposição, um sistema de
gestão da informação (AFATDS - Advan : [ 8 \[).
Outro sistema, consubstanciado no programa de aquisições da viatura PANDUR,
é a Estação de Controlo de Tiro BEACON,
da empresa ELBIT SYSTEMS, de Israel.
Este sistema, concebido para computorizar e automatizar todos os procedimentos executados no Posto de Controle de
Tiro, sendo interoperável com o sistema
AFATDS, será certamente uma mais valia
para a partilha permanente da COP entre
os diversos escalões de comando.
e. Munições e Espoletas
O desenvolvimento da tecnologia inerente
à utilização de granadas de morteiros e
espoletas, assenta em quatro vectores
de abordagem fundamentais, são eles:
Precisão, Letalidade, carga logística e
maneabilidade. Hoje, o número de granadas existentes é diversa, no entanto, nem
todos os morteiros têm as características
para as utilizarem. Dando como exemplo
o Sistema Autónomo de tiro de Morteiro
120mm que irá equipar a PANDUR, pode
utilizar 3 tipos de munições: HE (normal
e Longo Alcance), Fumos (normal e longo
alcance) e iluminação (normal e longo
alcance)5.
Muitos têm sido os desenvolvimentos
nesta área, tendo em vista aprimorar
os 4 vectores anteriormente referidos,
5 Informação retirada do manual de utilização do sistema
autónomo de tiro de morteiro 120mm SOLTAM, da ELBYT
SYSTEMS. Por uma questão de síntese vamos focar o objecto
do artigo, no que a munições diz respeito no Morteiro 120mm
AZIMUTE
permitam actuar e desenvolver operações em torno
de um largo espectro de operações militares trabalhando, se necessário, numa óptica conjunta e/ou
combinada.
Esta realidade preconiza um “campo de batalha” em que os sistemas operativos de informação
e forças terão que ser sustentados numa óptica
transnacional, e em que o quadro de ameaças à
segurança, para além de exigirem uma actuação
¤Diminuir a vulnerabilidade das plataformas
da componente militar pela antecipação, exigem
de combate;
¤Diminuição de custos associados;
uma complexidade crescente de capacidades.
¤Aumento da performance dos sistemas de
Ou seja, no que aos Morteiros respeita, será
tiro;
exigida:
¤Assegurar total segurança a pessoal e
¤Adaptação às Tecnologias de Informação
material.
pois a superioridade nesse domínio proporciona ao sistema em si uma vantagem comf. Instrução e Treino
petitiva que se materializa numa capacidade
Os custos e riscos associados à execude reacção oportuna e adequada;
ção de tiro de morteiros, na fase de for¤Formação técnica dos operadores do sismação dos militares e posteriormente na
tema porque a diversidade de operações
fase do treino orientado e treino operaciomilitares e os novos requisitos tecnológicos
nal, são extremapa
passam
a impor uma nova dimente elevados,,
nâ
nâmica
ao nível da componenpelo que, é funda-te humana, exigindo adaptabilie
mental permitir de
da
dade,
inovação, discernimento
base aos militares,,
e conhecimento multifuncional;
automatizar pro-¤ Interoperabilidade dos sis¤
o
cedimentos de tiro
em
emas
de armas pois só esta
antes de a execu-lin
linha
de acção norteia toda a
ção de tiro real. A
es
estratégia
de uma força cone
simulação é hoje
jun nacional ou multinacional
junta
uma
realidade,,
(c
(combinada);
e
uma possibilidade
¤ Letalidade pois a comple¤
m
e certamente um
m
mentaridade
dos factores fogo,
o Fig.7 Transporte de munições de AT 4 (Forças Holandesas no Afeganistão)
caminho prioritário
m
manobra,
protecção comando
‰
controlo conti
e controlo,
continuam a ser as chaves para o
técnico-táctica do soldado e da sua unisucesso nas operações militares.
nomeadamente, no que diz respeito aos
2 primeiros (Precisão e Letalidade), sem
nunca esquecer os outros 2. A aposta,
no desenvolvimento de munições insensíveis, tendo em vista diminuir os acidentes
com munições militares desde a produção até à utilização6, tem sido o projecto
pioneiro, e permite garantir às forças o
seguinte:
Azimute
dade. Existem já sistemas que permitem a
simulação de todo o sistema de comando,
controlo e execução de tiro, nomeadamente no Reino Unido o Phoenix artillery
and mortar trainer e nos Estados Unidos o
& (CFFT).
4. Conclusões
A nova tipologia de operações militares apresenta hoje um corte com uma organização tradicional do sistema de forças, única e exclusivamente
orientada para o cumprimento de missões de guerra pelo que, a força militar da actualidade, a par
das ditas operações clássicas, de carácter ofensivo e defensivo, deverá reunir capacidades que lhe
6 13 Incidentes relatados entre Julho e Agosto de 2003
Manual de Morteiros, Escola Prática de Infantaria,
2008;
Norris, John, Infantry Mortars of World War II, 2002;
Kalberer, James, Apresentação em Power Point de
PGMM Case Study, 2007;
Internet:
http://www.cannonsuperstore.com/mortars.htm, acedido em 23 Junho de 2009, 09h35;
http://www.scribd.com/doc/7026422/Weapons-ofWar, acedido em 23 Junho de 2009, 09h35;
¨~~²²²²²
~²
ž~
acedido em 23 Junho de 2009, 12h00;
¨~~²²²²²
~*~³ em 24 Junho de 2009, 12h20;
http://defense-update.com/products/x/xm395.htm,
acedido em 25 Junho de 2009, 12h20;
Nº 187 AGO09
71
AZIMUTE
!"#$!%&'
TCor Sebastião Macedo
A vontade e a necessidade de dar a conhecer,
a audiências cada vez mais vastas, as notícias que
diariamente se passam no nosso mundo, tem-se
constituído num imperativo cuja origem é difícil de
determinar. Foi, no entanto, na Guerra da Crimeia,
y|€}
K
W
guerra.
#
ciando tantas vezes o rumo dos acontecimentos,
tornou-se incontornável e tem levado a que os jor
'
K
onde a instabilidade, a insegurança, a ausência de
ordem e regras, exige o conhecimento de técnicas
e procedimentos para minimizar esse factor tão
aleatório quanto imprevisível e sempre presente: o
risco.
Sentindo a necessidade de proteger os seus
"
$
K
as audiências exigem conhecer cada vez mais e
com a maior rapidez possível, a Rádio Televisão
Portuguesa (RTP) estabeleceu um protocolo com
o Exército Português no sentido de formar adequa
O modelo encontrado para cada acção de formação, que tem evoluído ao longo dos anos, resulta de reuniões de coordenação entre o Centro de
Formação da RTP, o Gabinete do Chefe do EstadoMaior do Exército e a Escola Prática de Infantaria
(EPI). A EPI tem-se constituído como entidade coordenadora, essencialmente devido ao facto das
acções de formação decorrerem na Tapada Militar.
No entanto, é importante realçar que grande parte
das capacidades do Exército têm sido aplicadas e
demonstradas nestas acções de formação e não
seria possível um curso tão completo e interessante se não estivessem aplicadas as sinergias das
unidades representadas vindas da componente
operacional e da estrutura de base do exército.
Este ano a formação decorreu em três fases.
Uma primeira fase com uma acção de formação
em Media Training, em Mafra; uma segunda constituída por um workshop na Tapada Militar; e uma
terceira fase constituída por uma palestra sobre
72
Nº 187 AGO09
terrorismo nas instalações da RTP.
1. Acção de formação em Media Training
em Mafra
Esta acção de formação em Media Training des
]
taram o Curso de Promoção a Capitão de Infantaria
2009 (CPCI 09). O objectivo foi, através de formação teórica e prática em frente às câmaras de te K
com os órgãos de comunicação social, aperfeiçoando a sua conduta quando solicitados a intervir
em situações de reportagem ou noticiário, através
da entrevista directa ou gravação. Os conteúdos
!= nais destacados para o efeito pela RTP, abordaram
a atitude em frente às câmaras, a imagem, a voz,
passando pelo vestuário e formas verbais.
Os ensinamentos transmitidos, essencialmente práticos, impõem-se como fundamentais para
os militares do Exército, que cada vez mais são
chamados a desempenhar missões externas (mas
também em território nacional), com a consequente
maior probabilidade de ter que falar para as câmaras de televisão. As futuras edições destas acções
de formação em Media Training poderão ser a um
são manifestada pelos futuros capitães.
2. Workshop para Jornalistas
Esta acção de formação foi planeada, organizada, e conduzida pela EPI em coordenação
com a Direcção de Formação da RTP e contou
com a presença de doze formandos/jornalistas da
Sessão de “Media Training”
AZIMUTE
RTP (Televisão e Rádio), do Jornal Público e da
Agência Lusa. Participaram também na execução
deste Workshop, os formandos do CPCI, militares
da EPI, da Brigada Mecanizada e do Regimento
de Lanceiros nº2 (Controlo de Tumultos e Equipa
Cinotécnica).
Neste tipo de workshop pretendeu-se apresentar um conjunto de capacidades do Exército, que
envolvem a apresentação de engenhos explosivos,
de procedimentos p
práticos a aplicar
nos deslocap
mentos, de ges-tão do stress,,
de técnicas de
e
sobrevivência, e
onde também se
e
as
diferentess
visões e per-cepções
tidass
por militares e
jornalistas.
No
caso
o
concreto deste
e
workshop, o ob-jectivo foi, atra-vés de formação
o
teórica e prática,,
*
_
_
cimentos práticos em situações embedded, nomeadamente na forma como a Imprensa, a Rádio e
a Televisão actuam quando integrados em Forças
K
‚


Mafra,
a imMaf
previsibilidaprev
de d
das situações foi uma
constante,
tendo
tend os formandos
parman
ticipado
inticip
tegrados
em
tegr
forças
militaforç
res, a actuar
% proporcionando assim um treino realista e exigente, que permitiu a militares e jornalistas perceber
’
\
A execução de trabalhos jornalísticos na modalidade de embeded (em que o jornalista ou uma
equipa de reportagem vive durante um período de
tempo integrado dentro de uma força militar) é muito complexa e difícil. É nesta situação que se torna
mais nítida a possibilidade de tensão entre os objectivos militares e jornalísticos, pois, por um lado,
se o jornalista pretende colocar no ar a informação
que recolhe o mais rapidamente possível, por outro
lado,
la
ado quer por motivos de segurança das operações
çõ em curso ou futuras, quer por motivos da segurança
física da força e mesmo dos jornalistas,
g
podem
existir restrições à divulgação das notícias.
p
Se
S por um lado o jornalista gostaria de localizar no
tempo
e no espaço o seu trabalho (a sua notícia!),
te
imagine-se
qual seria a sensação dos militares saim
bendo
que acabava de ser revelada a localização
b
dessa
força, a sua missão actual ou futura…
d
Foi neste sentido que a experiência entre militares
re e jornalistas permitiu conhecer melhor e mutuamente
as suas deontologias e obrigações.
m
3. Palestra sobre Terrorismo e visita às
instalações da RTP
Coube ao Centro de Tropas de Operações
Especiais a responsabilidade de conduzir esta
acção, com o objectivo de dar a conhecer a perspectiva do terrorismo à escala global, alertar para
os perigos inerentes a estas acções no terreno, e
nível internacional e nacional, tendentes a minorar
esta ameaça.
A acção de formação contou com a presença de
vários jornalistas e repórteres do grupo RTP (rádio
e televisão), da Agência Lusa e do Jornal Público,
assim como dos alunos do CPCI09, que no âmbito
da temática do relacionamento com os órgãos de
comunicação social, realizou também uma visita às
instalações da RDP e da RTP.
Azimute
Nº 187 AGO09
73
AZIMUTE
Maneuver Captain’s Career Course
Cap Inf Hélder Parcelas
Introdução
O Maneuver Captain’s Career Course (MCCC),
é um curso ministrado nos Estados Unidos da
América (EUA), destinado aos jovens capitães
e que se assemelha ao Curso de Promoção a
Capitão de Infantaria (CPCI) português.
Esta acção de formação tem como pólo de
formação por excelência a Escola Prática de
Infantaria Americana (Infantry School), situada em
Fort Benning, Columbus, Geórgia, onde são ministrados quatro cursos por ano, com uma média de
Alunos Internacionais - MCCC 02-08
150 alunos por curso.
O curso, conhecido do antecedente como
Infantry Captains Career Course (ICCC), combina
agora parte do programa de formação da componente dos carros de combate (CC) oriunda do
“Armor Captains Career Course” (ACCC) ministrado em Fort Knox (Armor School), pelo que o MCCC
não é mais que uma combinação do ICCC+ACCC.
Devem-se estas alterações ao programa do
curso, entre diversos factores os seguintes:
¤ Lições Apreendidas do Afeganistão e Iraque,
procurando fazer face às novas ameaças;
¤ Alterações ao treino e doutrina, decorrente da
*
K terrorismo e insurgentes;
¤ Fusão da Escola Prática de Infantaria e de
Cavalaria num único centro de formação, passando a denominar-se “Escola da Manobra”
(Maneuver Center of Excellence);
Processo de selecção
A nomeação para a frequência do curso é
74
Nº 187 AGO09
'
*
!' £!‹ nomeado após a frequência do curso colocado por
um período de 2 anos na EPI.
‚
terá de realizar um teste de admissão de Inglês na
>*
>ˆ<
*
cação igual ou superior a 75%.
Com vista à frequência do curso ainda existe
todo o processo legal conduzido pelo EME, processo este que consiste na Credenciação NATO,
Passaporte, Visto e Guia de Marcha. Por seu
Pa
turno a embaixada Americana é responsável
tu
para além da execução do teste de admissão
pa
linguístico, pelo fornecimento da passagem
lin
W
*
W
so
sobre aspectos culturais e legais, bem como,
sobre Fort Benning e o Exército dos EUA.
so
Após a admissão, e uma vez chegado a
†–
*
†
mente à realização de um teste de Inglês a
m
%%
do aluno. Este facto deve-se essencialmente
„
*„
tid
tidos, uma vez que na sua maioria os alunos
in
internacionais, já frequentaram um curso de
in
inglês no Estado do Texas, por 6 a 9 meses,
à excepção de alguns países.
Generalidades
G
No que se refere a material e equipamento para
a frequência do curso, os militares internacionais
podem utilizar os uniformes de trabalho dos respectivos países, sendo apenas obrigatório o uso do
uniforme de ginástica do Exército Americano.
Por seu turno, em termos de documen ' =
' >W >
Unidos, onde consta o número da segurança social
£
‹*
'
'
em que se encontra. Outro documento tido como
importante, é a Carta de Condução, que poderá ser
obtida do Automóvel Clube de Portugal, ou tirada
na cidade mais próxima. Por último, para quem estiver interessado será aberta uma conta bancária, a
%
'\
e pagamentos nos EUA.
Fort Benning
Em Fort Benning está localizada a Escola
Prática de Infantaria Americana e da sua organização fazem parte: 192º Brigada de Infantaria, 197º
Brigada de Infantaria, 198º Brigada de Infantaria,
O Curso
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>

£>‹ Batalhão.
Com uma duração de cerca de 186 dias (6 meses), o curso está dividido em duas fases. Numa
primeira fase onde de aborda a componente
Companhia, com principal incidência para as três
principais tipologias de Brigadas existentes, Heavy
Brigade Combat Team (HBCT), Stryker Brigade
Combat Team (SBCT) e Infantry Brigade Combat
Team (IBCT). Numa segunda fase é abordado então o Batalhão, com incidência no desempenho
das funções EM de Batalhão. Decorre também e
em simultâneo um curso de combate de corpo a
corpo (Combatives Course), visando este dotar os
futuros comandantes de companhia de técnicas
de combate corpo a corpo – Nível 1, possibilitando
aos futuros capitães ministrar aos seus soldados
técnicas de combate. Este curso tem uma média
de 150 alunos Americanos e cerca de 16 alunos
internacionais, sendo que no MCCC 02-08, os
alunos internacionais eram na sua grande maioria Europeus. A classe é dividida em grupos mais
pequenos de 20 elementos, sendo as aulas ministradas por um instrutor (capitão ou major), denominado de SGI (Small Group Instructor), responsável
pelas aulas em sala e educação física.
O Programa de Formação está elaborado por
forma a que a aprendizagem seja conduzida de
de aumentado com o decorrer do curso. Durante
o curso são tratados temas tácticos de companhia
(Fase 1), em que os alunos são colocados na função de comandantes de companhia e elaboram as
respectivas Ordens de Operações de forma individual, onde as componentes terrorismo e insurgend
tes estão sempre presentes. Na fase do Batalhão
te
(Fase 2) desenvolve-se o trabalho em grupos, em
(F
que cada aluno desempenha uma das funções de
q
EM.
E
No que se refere ao dia “tipo”, este começa sempre com a sessão de educação física antes do pep
queno-almoço pelas 06h00m, sendo que as aulas
q
ccomeçam às 08h00 e terminam às 16h30m. As aulas são na sua maioria de cariz prático, onde o dela
bate e a troca de experiências são constantes, uma
b
vvez que cerca de 85% dos alunos Americanos têm
experiência de combate no Iraque ou Afeganistão
e
(m
(mínimo 15 meses).
No que se refere à componente avaliação, inccide essencialmente nos seguintes pontos: tes
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65%), Ordem de Operações e respectiva exposi''"–
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obtida nos testes realizados semanalmente (média
de 2 por semana) e, por último, o desempenho e
d
participação do aluno.
AZIMUTE
199º Brigada de Infantaria (Escola Pára-quedista
- MCCC), Ranger Training Brigade e a 3rd Heavy
Brigade Combat Team.
Em termos de formação, passaram no presente
ano 108000 militares num total de 61 cursos, sendo
a sua ocupação média na ordem das 120000 pessoas incluindo familiares e civis.
No que se refere a regras de conduta, fumar,
ingerir álcool e exceder os limites de velocidade
expressamente proibidos, implicando o desrespeito
das mesmas, severas punições, podendo mesmo
levar à expulsão do Exército e no caso dos alunos
internacionais à exclusão do curso.
res internacionais
cada aluno possui
um “Sponsor”, estes procuram auxiliar na integração
cultural, formação
e
constituem-se
como “embaixadores” do Exército
dos
Estados
Unidos. Por outro
lado, existe também o “Sponsor”
civil, que é um civil americano da
cidade mais próxima, que de forma
voluntária procura
acolher e auxiliar
os alunos internacionais. No caso
dos alunos interCap Inf Parcelas com seu Sponsor
nacionais
portugueses os “sponsor” são por norma a Sr.ª Truman e
o Sr. Herb hà muito conhecidos por todos os alunos
portugueses.
Visitas
Também os aspectos culturais dos EUA não foram deixados ao acaso, pelo que no decorrer do
curso efectuaram-se duas viagens, uma à cidade
de Atlanta e a segunda a Washington D.C., sendo
a última de elevado interesse, onde se pôde visitar a Casa Branca, Capitólio, Pentágono e diversos
museus e monumentos. Por seu turno, a viagem
a Atlanta, assentou basicamente na visita à CNN
’*
organizações
Conclusões
A ida a Fort Benning, constitui uma experiência
muito valiosa, na medida em que possibilita conhecer o que de mais moderno se encontra disponível aos mais baixos escalões, conjugado com a
actualização de métodos e técnicas de emprego.
Pelo que, julgo ser de elevada importância a nome
'
‰
MCCC, permitindo aos jovens capitães, para além
de viverem a experiência de trabalhar junto de um
dos melhores exércitos do mundo, a possibilidade
de contribuírem para a actualização do programa
de formação do CPCI.
Azimute
Nº 187 AGO09
75
AZIMUTE
Juramento de Bandeira do 3º CFGCPE/2009 na Ericeira
“Cheio de Deus não temo o que virá
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.”
Pelo TCor Inf Mário Bastos
Fernando Pessoa
Os soldados recrutas do 3º Curso de Formação
Geral Comum de Praças do Exército de 2009 juraram bandeira no dia 29 de Maio, num espaço público da Vila da Ericeira – o Largo de S. Sebastião,
recinto fronteiro ao Oceano Atlântico.
Esta cerimónia, acontecimento repleto de simbolismo e relevância na tradição castrense, mo na vida dos jovens que, um dia, decididamente,
optaram por servir Portugal como militares do
Exército, tem as suas origens, no que nos diz respeito, na Idade Média, no espírito da Cavalaria e
—
• ‚ *
ao certo, quando e como se deu origem à “liturgia” actual, sendo contudo um hábito enraizado e
antigo.
O Juramento de Bandeira realiza-se em parada
militar, perante o Estandarte Nacional, constituin
marcando de forma indelével um compromisso em
que o cidadão transformado em militar assume um
compromisso de honra e de sangue, a sua honra
e o seu sangue, ao repetir a fórmula:
“JURO,
Como Português e como Militar,
Servir as Forças Armadas,
Cumprir os deveres Militares,
Guardar e fazer guardar a Constituição
E as Leis da República.
JURO,
Defender a minha Pátria,
E estar sempre pronto a lutar,
Pela sua Liberdade e Independência
Mesmo com o sacrifício da própria vida.”
76
Nº 187 AGO09
O Juramento tem uma particularidade que não
nem em qualquer código ético-deontológico: é que
a defesa daquilo que se jura pode implicar a doação da própria vida. Daí a transcendência do acto.
O quadro legal vigente é caracterizado pela pro
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para os regimes de voluntariado e de contrato, pelo
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de Bandeira é assim uma opção consciente de um
homem livre, que o acompanha ao longo da vida,
esperando-se que cada um saiba cumprir o seu
Dever, conforme expresso no Juramento. Por isso,
o compromisso é público e ritualizado.
Tradicionalmente efectuado no quartel ou na
vila de Mafra, foi desta vez conduzido na vila da
Ericeira, iniciativa da Escola Prática de Infantaria
que permitiu promover um relacionamento de maior
proximidade com a população, uma presença mais
efectiva junto da sociedade, reforçando a abertura
da Instituição Militar ao exterior e a divulgação da
imagem pública do Exército, saindo, assim, reforçada a sua visibilidade, com dividendos que poderão
vir a traduzir-se numa maior atracção de recursos
O seu planeamento, programação e organização implicou um vasto conjunto de coordenações
com diversas entidades, da Câmara Municipal
de Mafra à Junta de Freguesia da Ericeira, do
Gabinete do CEME à Direcção de Obtenção de
Recursos Humanos, passando pela Escola Prática
de Engenharia (disponibilização, montagem e desmontagem da Tribuna), Regimento de Lanceiros
2 (escoltas e segurança próxima), Regimento de
Director do Palácio Nacional de Mafra, o MajorGeneral Alfredo Piriquito, Director da Formação do
Comando da Instrução e Doutrina e outros convidados militares e civis.
AZIMUTE
Transportes (reforço de meios auto), Regimento
de Transmissões (disponibilização, montagem e
desmontagem do som para a cerimónia), Centro
de Recrutamento de Lisboa (stand de divulgação), Regimento de Infantaria 3
(disponibilização, montagem e
desmontagem da Torre de escalada/Slide) e Guarda Nacional
Republicana (segurança e gestão da circulação), que culminaram num treino geral em 28 de
Maio, véspera do evento, num
assinalável esforço colectivo.
À cerimónia, que foi presidida pelo Exmo. tenente-general
Alves dos Reis, assistiram diversas entidades civis e militares,
além de familiares e amigos dos
militares que juraram bandeira e
da população em geral.
Desde o campo de S.
Mamede, em 1128, muitos foram
gal. Por isso os
os que caíram na defesa de Portugal.
evocamos em todas as cerimónias militares, tendo sido lembrado o Fuzileiro Especial Eduardo
Henriques Pereira, o “Ericeira”, natural desta vila.
Após o acto solene do juramento a Portugal e
à Bandeira Nacional e na sequência da imposição
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–
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Antes de se encerrar a Cerimónia Militar, o
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pados e armados para o moderno combate e com o
“Pelotão 1810”, equipado e armado à época.
Após o encerramento da
C
Cerimónia
foi possibilitado à popu
pulação
em geral a utilização da
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To
Torre
de Escalada e do Slide, que
co
contou
com o apoio de militares
da Escola Prática de Infantaria,
di
disponibilizando
o Centro de
R
Recrutamento
de Lisboa, através
do seu Stand de divulgação, inform
mação
útil e actualizada sobre o
E
Exército.
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das boinas aos Soldados que o efectuaram, as
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Nacional, passando em frente à Tribuna de Honra
onde se encontravam o Eng. José Ministro dos
Santos, Presidente da Câmara Municipal de
Mafra, o Sr. Joaquim Casado, Presidente da Junta
de Freguesia da Ericeira, o Dr. Mário Pereira,
Desta forma conjugou-se tradi
dição
e modernidade, objecto de
ra
rasgados
elogios por parte das
m
mais
altas entidades, civis e mi
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Sargentos,
Praças e Funcionários
C
Civis
que, de forma inequivocamente competente, altamente abnegada, e com
% % %cio”, nas palavras do Exmo. Comandante, CorInf
Ormonde Mendes, prestam serviço na Escola
Prática de Infantaria e “deste modo muito contribuíram para o reforço do prestígio e da imagem da
Casa-Mãe da Infantaria.”
Azimute
Nº 187 AGO09
77
AZIMUTE
Visitas e Notícias
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Na sequência de uma solicitação da Escola Básica
nº1 Hélia Correia, decorreu em 29Jun09, na parada TCor
Magalhães Osório, a festa de finalistas do 4º ano, com a
presença de 1200 pessoas, incluindo 200 crianças. Do programa constou uma apresentação, na Sala Elíptica, sobre o
Santo Condestável, D. Nuno Álvares Pereira, para além da
entrega de diplomas aos alunos finalistas e da apresentação
de peças teatrais, musicais e de dança, seguindo-se o jantar
no refeitório dos Frades.
Visita dos Adidos Militares
No âmbito do plano de actividades do Grupo de Adidos Militares Acreditados em Portugal – 2009, visitaram
a EPI em 17JUN09 os Adidos de Defesa Militar dos EUA,
Alemanha, Brasil, Espanha e Colômbia. Do programa da
visita constou a tradicional homenagem aos mortos, ao
que se seguiu um briefing pelo Exmo. Cmdt sobre a EPI,
na Sala de Honra da Infantaria, e uma visita histórica pelo
convento e pelo Palácio Nacional de Mafra, culminando
com um almoço servido na sala das bicas.
“O Exército Napoleónico em Mafra. Um Convento Ocupado (1808)”
As figuras históricas regressaram ao Palácio
Nacional de Mafra, numa recriação intitulada “O
Exército Napoleónico em Mafra. Um Convento
Ocupado (1808)”. O evento realizou-se no dia 21
de Junho, organizado pela Câmara Municipal de
Mafra, com o apoio da Escola Prática de Infantaria.
Este evento permitiu conhecer um período conturbado, quando o exército napoleónico ocupou
o Convento de Mafra. Foram recriados episódios
desta ocupação com o povo de Mafra, os frades
que ocupavam o convento e o exército francês.
Mais de cem participantes (actores e voluntários)
constituiram19 cenas.
O histórico refeitório dos frades, neste dia assumiu-se como uma máquina de viajar no tempo e
os visitantes puderam assistir a uma refeição fielmente reproduzida por actores profissionais e figurantes voluntários da Vila de Mafra.
78
Nº 187 AGO09
Visita da Escola Secundária
da Venda do Pinheiro
Visitou a EPI, em 19 de Fevereiro, o
Exmo. Presidente da Comissão Nacional
da UNESCO, o Sr. Embaixador Fernando
Andresen de Guimarães, tendo percorrido
os espaços históricos do convento.
Em 26MAR09 visitaram a EPI os alunos da Escola Secundária da Venda do
Pinheiro. tendo percorrido os seus espaços
históricos após o que foi servido o almoço
no refeitório dos Frades.
Protocolo com a Escola José Saramago
AZIMUTE
Visita do Presidente da Comissão
Nacional da UNESCO
Visita de Cadetes da Croácia
Inserida no programa de intercâmbio com
a Academia Militar, em 19 de Junho visitou
a EPI uma delegação de 4 cadetes da Croácia, dos três Ramos das FA. A delegação
foi acompanhada por um Capitão da Força
Aérea Croata, tendo visitado os espaços
históricos do convento, culminando a visita
no gabinete do Exmo. Cmdt da EPI.
A Escola Prática de Infantaria, no âmbito
da Directiva 174/CEME/07, celebrou um
protocolo com o Centro de Novas Oportunidades (CNO) da Escola Secundária José
Saramago de Mafra. A cerimónia de assinatura decorreu no gabinete do Exmo. Cmdt da
EPI, tendo assinado o Cor Ormonde Mendes
e a Profª Margarida Branco na qualidade
de representantes das duas organizações.
Missa pelos Combatentes da Guerra de Ultramar
Incluído no programa de inauguração do monumento em honra dos
Combatentes da Guerra de Ultramar, realizou-se no dia 24 de Maio de 2009
uma missa no Turcifal, na Igreja de Santa Maria Madalena. O BF enviou 5
militares da CAF para a execução da Guarda de Honra no Altar ao Santo e
Patrono da arma de Infantaria.
Nº 187 AGO09
79
AZIMUTE
Canonização de D.Nuno Álvares Pereira, em Roma
Em 26ABR09 deslocou-se a Roma a fim de participar na
cerimónia de canonização do Beato Nuno de Santa Maria, D.
Nuno Álvares Pereira Patrono da Infantaria, uma delegação
do Exército composta pelo Cmdt da BrigMec MGen Pereira
Agostinho, o Cmdt da EPI Cor Inf Ormonde Mendes, o Capelão da EPI Maj Rui Peralta, SMor Inf Manuel Martins, CadeteAluno Adriano Afonso e Furriel-Aluno Ricardo Gonçalves.
A cerimónia decorreu na Praça de São Pedro, no Vaticano.
Juramento de Bandeira 4ºCFGCPE09
Em 01 de Julho de 2009 decorreu a Cerimónia do Juramento de Bandeira do 4º Curso de Formação Geral Comum
de Praças do Exército de 2009, num total de 85 militares.
A Escola recebeu ainda um Pelotão de cadetes (17), da
Escola Prática de Artilharia, que juraram bandeira com o 4º
CFGCPE09.
Presidiu à cerimónia o Exmo. Major-General, Alfredo Nunes da Cunha Piriquito, que incluiu a participação da Banda
Militar de Évora.
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Integrada nas “Jornadas da Juventude”, organizadas
pela Câmara Municipal de Mafra, que decorreram de 21
a 22 de Março nos claustros contíguos à porta das palmeiras, a Feira das Profissões, permitiu aos alunos das
escolas do concelho de Mafra recolherem informações
sobre as diversas profissões existentes, no sentido de
os auxiliar a fazerem as suas escolhas profissionais de
uma forma mais consciente.
A EPI montou um Stand por onde passaram mais de
duas centenas de jovens e que também tiveram oportunidade de visitar o Museu da Infantaria.
Futurália
A Escola Prática de Infantaria participou naquele que
é considerado o maior evento nacional de educação e
formação. O evento decorreu entre os dias 10 e 13 de
Dezembro na Feira Internacional de Lisboa (Parque das
Nações).
A participação da EPI, contou com a presença de um
Sargento e duas Praças com a Viatura Blindada de Rodas
PANDUR.
80
Nº 187 AGO09
Em colaboração com a empresa de eventos éter produções,
empresa responsável pela peça de Teatro “ O Memorial do Convento” em cena na capela do Campo Santo do Palácio Nacional
de Mafra, a Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho
visitou a EPI em 23MAR09. O grupo era composto por cerca de
256 alunos e 8 professoras.
AZIMUTE
Visita da Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho
Macau - 10 anos depois
A Fundação Jorge Álvares quis assinalar os 10
anos do fim da administração portuguesa em Macau, tendo, para o efeito, reuniu na Escola Prática
de Infantaria, em Mafra, cerca de duas mil pessoas
de alguma forma ligadas a Macau. O encontro
constituiu um grande e forte abraço de saudade.
Nesta iniciativa estiveram presentes alguns antigos
governadores de Macau: General Garcia Leandro
(1974-1979), Joaquim Pinto Machado (1986-1987),
Engº Carlos Melancia (1987-1991) e o General
Vasco Rocha Vieira (1991-1999).
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Iniciou-se a 13 de Julho de 2009 na Escola Prática de Infantaria o
Curso Elementar de Combate em Áreas Edificadas – 2009 (CECAE),
tendo términus a 31 de Julho de 2009, constituído por 26 Formandos
(10 Oficiais, 16 Sargentos). Este curso tem por finalidade habilitar os
formandos a desempenhar as funções de Comandante de Secção e
Pelotão, nas tarefas de formação e treino, planeamento e conduta de
operações de combate em áreas edificadas.
10.º CLOM
Visita da Escola Secundária de Gouveia
Teve início, em 18 de Fevereiro de 2009,
na Escola Prática de Infantaria, o 10.º Curso
de Ligação e Observação Militar, constituído
por oito formandos. O objectivo do curso é
o de habilitar os formandos a desempenhar
funções no âmbito de uma missão de Ligação
e Observação Militar.
Por solicitação da Escola Secundaria José
Saramago, a EPI alojou uma turma do 9º ano
da escola secundária de Gouveia. A sua estada
incluiu a visita aos espaços históricos e as 1ª
e 3º refeições. A vivência no interior de uma
unidade militar e em especial no refeitório dos
frades foi do agrado geral.
Nº 187 AGO09
81
AZIMUTE
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82
Iniciou-se a 14 de Abril de 2009 na Escola
Prática de Infantaria o Curso de Formação de
Oficiais e o Curso de Formação de Sargentos 1.º
Turno 2009 com um efectivo de 131 elementos (18
Aspirantes Graduados e 113 Furriéis Graduados).
O curso destina-se a habilitar os formandos com
as aptidões técnico-tácticas, perícias e atitudes
exigidas no de desempenho das funções próprias
da respectiva categoria e posto.
Visita de Cadetes da Academia
Militar Brasileira
Visita da Escola Secundária de
Santa Maria da Feira
Em 01JUN09 visitou a EPI uma delegação de alunos da Academis Militar das Agulhas Negras do Brasil, inserida no programa
de intercâmbio de Academias Militares. A
delegação era composta por dois cadetes
Brasileiros. Após um briefing sobre a EPI, os
alunos visitaram alguns espaços históricos
do Convento de Mafra.
Em 14MAR09 a Escola Secundaria de
Santa Maria da Feira visitou a EPI, após ter
assistido à peça de Teatro o Memorial do
Convento. O grupo era composto de cerca
de 30 alunos adultos e acompanhado por
8 professores das áreas de história, artes
e ciências..
Nº 187 AGO09
6º, 7º e 8º CFPIF09
AZIMUTE
“Paulo Combatente contra Cristo e por Cristo”
Em 25MAR09 decorreu no auditório da EPI
a conferência intitulada “Paulo Combatente
contra Cristo e por Cristo” proferida por D.
Anacleto de Oliveira. O Exmo. 2º Cmdt e o
Capelão da Escola Prática de Infantaria acompanharam o Bispo Auxiliar de Lisboa ao longo
da sua palestra, perante uma audiência com
cerca de 170 militares da EPI e convidados
da paróquia de Mafra.
Visita de S. Ex.ª a Secretária de
Estado da Cultura
Inserida no programa da visita Oficial ao
Palácio Nacional de Mafra, S. Exª a Secretária de Estado da Cultura (SEC), Mestre
Maria Paula Fernandes dos Santos, visitou
a EPI em 11FEV09, tendo sido recebida pelo
Exmo. Cmdt da Instrução e Doutrina, TGen
Vaz Antunes. A visita decorreu ao longo dos
espaços históricos da EPI, sendo de salientar
o interesse e a satisfação com que percorreu
corredores como o La Couture, o Museu da
Infantaria e a Sala Elíptica. A visita terminou
com a assinatura do livro de honra e troca de
lembranças.
De acordo com o Plano de Formação
Anual 2009, iniciou-se em 24 de Abril de
2009 o 6º, 7º e 8º Cursos de Formação
Pedagógica Inicial de Formadores, constituída por 44 militares distribuídos da
seguinte forma: 15 Sargentos da EPC;
12 Sargentos da EPT; 16 Sargentos da
EPS; 01 Oficial da Compº Info, Seg Militar
Durante 3 semanas os formandos
receberam as ferramentas necessárias
ao incremento da qualidade da formação,
através da aquisição de competênciaschave no domínio pedagógico-didático.
Juramento de Bandeira do 3ºCFGCPE09
Em 29 de Maio de 2009 decorreu a Cerimónia do Juramento de Bandeira do 3º Curso
de Formação Geral Comum de Praças do
Exército de 2009, num total de 274 militares.
A Cerimónia teve lugar na vila da Ericeira, visando uma maior interligação entre a
Escola e a Comunidade, configurando uma
abertura da instituição castrense à sociedade. Presidiu à cerimónia o Exmo. TenenteGeneral, Alves dos Reis. As actividades de
divulgação incluiram um Stand do Exército,
uma torre de escalada, e ainda, um Simulador de tiro.
Nº 187 AGO09
83
Directo para o Jornal da SIC
AZIMUTE
“Challenger”
Realizou-se no dia 20 de Fevereiro de
2009, um “Challenger” do Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança
Interna (ISCPSI), com o apoio da EPI e
do CMEFD.
A prova realizada na Tapada Militar,
Aldeia de Camões e CMEFD foi composta
por várias provas entre as quais o Lançamento de Granada, Rappel, Slide, Pista
Internacional, Tiro, entre outras.
Em 02MAR09 o comando da EPI recebeu uma equipa de reportagem da SIC,
com o objectivo de realizar um directo
para o jornal da tarde daquele canal, entrevistando alguns recrutas para aferir da
relação de casualidade entre o aumento
da adesão de cidadãos para servir nas
Forças Armadas e o aumento de desemprego.
A jornalista Sara Antunes de Oliveira,
atendendo à hora do directo, escolheu o
refeitório dos frades para a condução da
entrevista a dois militares do BFMG.
Juramento de Bandeira do 2ºCFGCPE de 2009
Em 27 de Março teve lugar a Cerimónia do Juramento de
Bandeira dos Formandos do 2º Curso de Formação Geral
Comum de Praças do Exército de 2009.
A cerimónia foi presidida pelo Exmo. MGen Aníbal Alves
Flambó, Director de Doutrina do Comando da Instrução e
Doutrina. No fim da cerimónia, as duas Companhias do
Batalhão de Formação Militar Geral fizeram uma demonstração de actividades de treino físico militar, ao que seguiu
um almoço-convívio. A RTP fez uma reportagem alusiva
ao evento.
Visita do Comandante das Forças Terrestres da República Democrática e Popular da Argélia
Em 18FEV09 visitou a EPI o Comandante das Forças Terrestres da República Democrática e Popular da Argélia, MajorGeneral Ahcéne TAFER. A delegação argelina era composta
por dois Coronéis e um Tenente-Coronel, acompanhada pelo
Major-General Henrique Dinis e um oficial de ligação do EME.
Receberam a delegação Argelina o Exmo. Comandante de
Instrução e Doutrina, TGEN Vaz Antunes e o Exmo. Director
de Formação Major-General Alfredo Piriquito. O programa da
visita contemplou uma apresentação pelo Cmdt da EPI, na Sala
de Honra da Infantaria, seguida de uma visita aos espaços
históricos da Escola, após o que se deslocaram para a Aldeia
de Camões, onde puderam assistir a uma demonstração Three
Block War, a cargo do Batalhão de Formação. O almoço foi servido na sala das colunas, tendo-se
seguido a assinatura do livro de honra no gabinete do Cmdt da EPI.
84
Nº 187 AGO09
A Escola Prática de Infantaria participou nas comemorações do Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas, em Santarém, de 06 a 12 de Junho,
com 5 militares e um simulador de tiro.
AZIMUTE
Comemorações do dia 10 de Junho
Militar da EPI dá formação de Informática na Universidade Sénior de Mafra
Na sequência da solicitação à Escola Prática de Infantaria para ministrar formação na
área da informática na Universidade Sénior de
Mafra, o Alferes Caridade teve o grato prazer
em colaborar nesta actividade, tendo abordado
temas sobre internet, Microsoft Office, correio
electrónico, entre outros. O objectivo foi o de
proporcionar aos formandos um primeiro contacto com esta tecnologia.
O Alferes Caridade foi incorporado em Março
de 2008 na Escola Prática de Artilharia onde
frequentou o Curso de Formação de Oficiais. Em
Janeiro de 2009, após conclusão da especialidade, foi colocado na EPI, onde desempenhou
as funções de comandante de pelotão no Batalhão de Formação, sendo mais tarde colocado na
Secção de Informática, onde desempenha funções actualmente. O Alferes Caridade é licenciado
em Radiologia pela Escola Superior de Saúde do Alto Ave.
Visita de S. Ex.ª o Gen CEME de Espanha
Em 24JUN09, S. Exa. o Gen CEME de Espanha, General-de-Exército D. Fulgencio Coll Bucher,
visitou a Escola Prática de Infantaria. Do Programa
constou um Briefing na Sala de Honra de Infantaria,
Pelo Cmdt da Escola, e uma demonstração de 3BW
na “Aldeia Camões”.
A visita terminou no gabinete do Exmo. Cmdt,
onde se procedeu à troca de lembranças e à assinatura do Livro de Honra, de que se transcrevem algumas palavras de S. Ex.ª o Gen. CEME de Espanha:
“ É uma grande honra e satisfação visitar a EPI,
berço de valores morais, militares e exemplo de
serviço à sociedade, à Pátria.
Como General do Exército Espanhol e Presidente da Academia de Infantaria quero felicitar e agradecer a qualidade dos exercícios que pude ver,
a atitude e disponibilidade dos oficiais e soldados, que se instruem como podem combater, com os
sacrifícios que nos formam e endurecem para os sacrifícios necessários (...)”.
Nº 187 AGO09
85
AZIMUTE
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No âmbito do Protocolo entre o Exército Português e
a RTP, decorreu no dia 07 de Maio de 2009 na Escola
Prática de Infantaria um workshop para jornalistas em
zona de conflito. Esta acção de formação foi planeada,
organizada, e conduzida pela EPI, em coordenação
com a Direcção de Formação da RTP, e contou com a
presença de doze formandos/jornalistas da RTP, RDP,
do Jornal Público e Agência Lusa. Participaram, também, os formandos do Curso de Promoção a Capitão
de Infantaria, a Companhia de Apoio à Formação do
Batalhão de Formação, um Pelotão do Batalhão de
Formação Militar Geral, um Pelotão de Atiradores do 2º
BIMec/BRIGMEC, um Pelotão de Controlo de Tumultos
e uma Equipa Cinotécnica do RL2. O Objectivo deste workshop foi, através de formação teórica e
prática, habilitar os profissionais de jornalismo com conhecimentos pluridisciplinares e transversais
em situações “Embedded”, integrados em Forças Militares numa zona de conflito.
“Sons da Primavera”
A liga dos Amigos de Mafra realizou um encontro na EPI designado “Sons da Primavera”,
com os seus associados. O evento reuniu cerca
de 300 elementos oriundos das diversas partes
do País, tendo-se iniciado na praça D. João V
e culminando com um almoço convívio servido
no refeitório dos Frades.
86
Nº 187 AGO09
Visita da Escola Secundária da
Senhora da Hora
Em 16MAR09 a Escola Secundária da
Senhora da Hora visitou a EPI. O grupo era
composto por 116 alunos e acompanhado por
6 professores das áreas de história e artes.
A visita contemplou os espaços históricos
da EPI.
AZIMUTE
Higiene e Segurança Alimentar
na Escola Prática de Infantaria
Alferes RC Tiago Bispo
Enquadramento
Os estabelecimentos de restauração têm sido
frequentemente associados a surtos de infecções
alimentares. De modo a reduzir a incidência de
tais surtos, a contaminação dos alimentos por perigos biológicos, químicos ou físicos deve ser prevenida, reduzida e/ou eliminada. Isso poderá ser
conseguido mediante a implementação de práticas
'
K ] de segurança alimentar
podem
ser subdivididos
em pré-requisitos
como a manutenção, limpeza,
higiene pessoal,
etc., e Análise de
Perigos e Pontos
de
Controlo
Críticos (HACCP).
De forma a garantir a qualidade e
segurança do pro sequentemente, a
segurança e satisfação do consumidor, as empresas
agro-alimentares
têm vindo progressivamente a adoptar sistemas de segurança
alimentar/HACCP. O sistema HACCP é um sistema preventivo e a sua implementação baseia-se na
cação de pontos críticos de controlo.
Historicamente, desde 1972 que os alimentos
fornecidos à NASA para os tripulantes em voos
espaciais são controlados por este sistema de segurança alimentar, tendo igualmente durante este
ano, iniciado a sua aplicação à indústria conserveira americana. A sua implementação é obrigatória
em Portugal, em todas as etapas de processamento do produto alimentar, desde 01 de Janeiro de
2006, com a entrada em vigor do Regulamento
(CE) nº 852/2004 de Parlamento Europeu e do
Conselho de 29 de Abril.
Com objectivo de dar cumprimento a estes requisitos legais, é necessário que as empresas tenham
previamente implementado um
n
programa
de pré-requisitos, sem os
p
q
quais
é impossível desenvolver de for
K
­<!
Estes pré-requisitos passam por:
¤
¤ Requisitos gerais das instalações
do
d estabelecimento
¤
¤ Higiene pessoal e estado de saúde
d manipuladores
dos
¤ Plano de higienização das instala¤
ç
ções
e equipamentos
¤ Controlo de pragas
¤
¤ Controlo de equipamentos
¤
¤ Gestão, recolha e eliminação de
¤
re
resíduos
¤ Sistema de rastreabilidade
¤
¤ Formação dos manipuladores
¤
¤ Controlo analítico – análises
¤
m
microbiológicas
Situação da Escola Prática de Infantaria
A Escola Prática de Infantaria já cumpriu neste
momento a maior parte destes pré-requisitos e tem
desenvolvido esforços no sentido de dar cumprimento a todos. Entre outros é de salientar:
¤ Plano de Higienização implementado;
¤ †
' produtores de alimentos relativamente à sua
especialidade e em boas práticas de higiene
pessoal;
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AZIMUTE
¤ Áreas de preparação diferenciadas e aplicação de tábuas e facas de cores diferentes para
as várias categorias de produtos, de forma a
evitar contaminações cruzadas;
¤ Boas condições e capacidade de armazenamento tanto à temperatura ambiente como em
frio positivo e frio negativo;
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'
das temperaturas no centro térmico dos alimentos, o que permite
* namento dos sistemas
de armazenamento em
frio;
¤ Equipamento adequado
ao controlo frequente da
qualidade dos óleos de
fritura e reciclagem do
óleo de fritura;
¤ Estufas de banho-maria com termómetro na
distribuição;
¤ Contentores de resíduos de cores diferentes
e com tampa accionada
com pedal;
¤ Plano de controlo de pragas instaurado e revisto
periodicamente.
Pré-requisitos por cumprir
¤ Fardamento adequado – o uniforme deve ser
de cor clara, de uso exclusivo no local de laboração, não deve possuir bolsos exteriores
ou botões, devendo os bolsos interiores estar
posicionados abaixo da cintura para que, caso
algum objecto salte de um bolso, caia directamente no pavimento. Idealmente, todo o vestu
ou mais frequentemente, caso a natureza das
_
¤ Portas de acesso sem molas de retorno e imperfeito ajuste das portas às ombreiras e pa
prevenção de pragas;
¤ ^
*ga a que as janelas estejam abertas durante a
confecção;
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Perspectivas
Estes e outros pré-requisitos que ainda não
estejam totalmente cumpridos, inviabilizam a im
' K ­<! ‚ tanto, os visíveis esforços do chefe da Secção
de Alimentação, 1º Sargento do Serviço de
Administração Militar, Luís Rodrigues e do
Excelentíssimo 2º Comandante da EPI, TenenteCoronel de Infantaria, João Pedro Ribeiro, para se
informarem e preencherem
to
todas as lacunas que posssam existir, têm sido devera
ras recompensados através
d
da manutenção da salub
bridade dos alimentos que
d
diariamente são servidos e,
cconsequentemente, da saúd
de e satisfação de todos os
m
militares da EPI.
Muitas das lacunas referi
ridas devem-se sem dúvida
a
ao facto da nossa Escola
sse situar no Convento de
M
Mafra, o que impossibilita a
re
realização de obras, que seri
riam indispensáveis para o
sseu preenchimento. Sendo
a
assim, na nossa realidade,
q
quase tudo o que podia ter
ssido feito já o foi, ganhando
relevância na manutenção do bom trabalho que se
tem desenvolvido na cozinha, o papel individual
de cada trabalhador. Todos os trabalhadores manipuladores de alimentos devem ter consciência
da responsabilidade e da importância de evitar a
contaminação dos alimentos durante a sua manipulação/produção, assumindo os comportamentos
adequados durante o desempenho das suas tarefas. Diariamente a saúde de centenas de pessoas
depende das acções e cuidados que tomam. Se
não se conseguir a motivação dos trabalhadores,
não importa a formação que lhes seja fornecida,
será difícil que estes mantenham os essenciais elevados padrões de higiene. Até ao momento, é sem
dúvida de louvar todo o trabalho feito por todos
os militares da Secção de Alimentação da Escola
Prática de Infantaria.
Azimute
- Guidelines for Food Safety Control in European Restaurants; DECLAN, Bolton;
MAUNSELL, Bláithín; The Food Safety Department, Teagasc – The National Food
Center, Ashtown Dublin 15, Republic of Ireland
In memorium
Falecimento do Furriel-Aluno
Agostinho Carvalho
No dia 16 de Janeiro de 2009, faleceu com vinte e
nove anos de idade, no Hospital Militar Principal, o
Furriel-Aluno Agostinho Alves de Carvalho. Frequentava o 36º CFSI, tinha como esposa D. Maria Alcina
Pinto de Teixeira e era pai de Mariana Teixeira de
Carvalho. Era natural de Canedo de Basto, Celorico
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decorreu na capela da Escola Prática de Infantaria a
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A Família da Escola Prática de Infantaria apresenta sentidas condolências e
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prematura partida do camarada Agostinho.
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