AZIMUTE ] REVISTA MILITAR DA INFANTARIA EPI 12 N.º 187 – Agosto 2009 Colóquio D. Nuno Álvares Pereira Director: Comandante da EPI COR INF João Manuel de Sousa Meneses Ormonde Mendes Coordenação e Redacção: COR INF REF Nelson de Sousa Figueiredo TCOR INF João Pedro Rato Boga de Oliveira Ribeiro TCOR INF Sebastião Joaquim Rebouta Macedo MAJ Álvaro Manuel Tavares de Carvalho Campeão Relações Públicas: MAJ Álvaro Manuel Tavares de Carvalho Campeão Capa: SCH INF Jorge M. M. Miranda Desenho D. Nun’ Álvares: Maj Inf Álvaro Campeão Composição/Paginação: SOLD RC Lino Filipe Marques da Rocha Impressão: Rolo & Filhos II, S.A. (Mafra) Tel. 261 816 500 O Portal da Arma da Infantaria 51 Propriedade: EPI - Alameda da Escola Prática de Infantaria 2640 - 777 MAFRA Tel. Civil - 261 81 21 05 Fax Civil - 261 81 16 01 Tel. Mil. (Central) - 420 400 Fax Mil. - 420 505 Tel. 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Nuno Álvares Pereira - O Militar São Nuno de Santa Maria - Um Santo Condestável e Carmelita A Situação Político-Militar na Guerra dos Cem Anos (1337-1453) O Armamento da Época Medieval A Crise de 1383-1385 e a Batalha de Atoleiros A Invasão Castelhana e a Batalha de Aljubarrota As Patrulhas Nun’ Álvares Pereira - Edição 2009 O Portal da Arma de Infantaria Tecnicamente Falando 52 57 64 67 71 73 Jornadas de Infantaria - “As Pequenas Unidades de Infantaria no Combate em Áreas Edificadas” O Batalhão de Infantaria Mecanizado virado para o Futuro As Armas Anticarro num contexto de evolução O Morteiro - Fundamental no Passado, Decisivo no Futuro A Formação de Jornalistas em Zona de Conflito Maneuver Captain’s Career Course Actividades 75 77 Juramento de Bandeira do 3º CFGCPE/2009 na Ericeira Visitas e Notícias Cultural 86 88 Higiene e Segurança Alimentar na Escola Prática de Infantaria In memorium Os artigos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores, e não vinculam as opiniões do Corpo Editorial. Nº 187 AGO09 3 AZIMUTE ] Editorial Dois elementos marcantes assinalam esta edição: a canonização de D. Nuno Álvares Pereira, em 26 de Abril do corrente ano, por sua Santidade o Papa Bento XVI, e o aniversário comemorativo dos quarenta e cinco anos da Revista Azimute, 1964-2009. Ilustre personalidade da nossa História, com inegável projecção arreigado no coração de todos os Infantes portugueses, o Patrono da Arma de Infantaria foi, este ano, objecto de um vasto programa de comemorações, sendo de destacar, no âmbito da Infantaria, por ordem cronológica da sua realização, as tradicionais Patrulhas Nun’ Álvares, abertas à participação de todas as Unidades de Infantaria; o da sobre o Homem, o Militar e o Santo; o Concerto em sua homenagem, conduzido pela Banda Sinfónica do Exército, na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra; e, por último, o tradicional cerimonial militar, em 14 de Agosto, antecedido por uma missa de acção de graças na Basílica, com a presença das relíquias de S. Nuno de Santa Maria, e sucedido por uma exposição sobre o seu legado, as suas representações e as principais vitórias militares em que foi protagonista, a que quiseram associar-se inúmeras entidades, instituições e organizações para as quais D. Nuno Este foi o ano do Santo Condestável, em que igualmente foi relembrado o Portugal de Aljubarrota, inspirador nos momentos de crise, de dúvida, de incerteza, com a certeza de que tudo é possível, tendo como paradigma os princípios enformadores da nossa existência soberana, baseada numa vontade nacional determinada, no sacrifício heróico e patriótico dos nossos antepassados, agigantando-se perante a liberdade e a independência em perigo, na defesa do solo pátrio, superiormente liderados por um chefe militar exímio. ! "# ! $ O outro elemento que igualmente assinalamos neste número: quarenta e cinco anos de história da Revista Azimute – um marco de inequívoca maturidade, de experiência empreendedora, de informação útil, de divulgação de ideias precursoras de mentalidades vanguardistas, de conceitos inovadores, de evolução doutrinária, organizacional, táctica e operacional, e dos seus equipamentos e armamento. Um instrumento privilegiado na preservação da memória colectiva, do historial, das tradições e dos símbolos da Arma da Infantaria, bem como no aprofundamento dos mais sublimes valores éticos e morais, pilares perenes e incontornáveis da Instituição Militar, verdadeiros multiplicadores do seu potencial e da acção de todos quantos nela servem, no cumprimento dos superiores desígnios da Nação. Quarenta e cinco anos de atitude determinada, de ambição construtiva, de primazia ao reforço % ' % * Que o seu caminho continue a ser o da procura permanente da excelência e da modernidade, em prol dos Infantes e da Arma de Infantaria. Termino, citando a mais nobre página da histórica primeira edição do “Jornal Azimute”, cujo “responsável e iniciador” foi o mui ilustre Coronel de Infantaria Vaz Antunes: “Esta é a nossa Revista, espero que se Perpetue no tempo!” - Escola Prática de Infantaria, 15 de Março de 1964 – … 4 Nº 187 AGO09 AZIMUTE ] Mensagem do Director-Honorário da Arma de Infantaria A canonização em 26 de Abril de 2009 do Condestável, D. Nuno Álvares Pereira, Patrono da Arma de Infantaria, foi pretexto para intervenções de vária ordem que versaram o Homem, o Militar e o Santo. < * = após ano o celebramos em 14 de Agosto, vimo-nos desta vez acompanhados por várias correntes de pensamento que praticamente de forma unânime concluíram sobre a sua grandeza como Homem cujo comportamento e atitude ultrapassaram as questões materiais e terrenas para se passarem a situar no patamar da espiritualidade. Em várias dessas ocasiões discutiu-se se a sua condição de cavaleiro do Rei se coadunava com a sua referência actual como Infante, ao ponto de se ter constituído como Patrono da Arma. A educação de D. Nuno na corte do Rei D. Fernando iniciou-se cedo, ainda adolescente. Parte dessa educação centrou-se, conforme uso da época, no ensino das coisas da > ? dos Cem Anos, que envolvendo praticamente todos os Reinos de então opunha principalmente o Reino de Inglaterra ao de França. França e Inglaterra tinham concepções diferentes na forma de a fazer. Os franceses continuavam imbuídos do espírito cavaleiro típico do feudalismo. O seu principal elemento de combate continuava a ser a cavalaria, protegida pela armadura metálica e pesada que sufocava os homens e limitava a sua mobilidade. Esta força valia-se do seu espírito guerreiro, bravura, coragem, e baseava a sua manobra na procura da superioridade numérica para alcançar a vitória. Já para o Ingleses os cavaleiros tinham que estar preparados para apear e combater adaptando o dispositivo às características do terreno, conjugando assim o obstáculo com ' K % * Não despiciente é o facto dos Ingleses terem instituído o serviço militar obrigatório, o que trouxe o povo aos combates e como ele é normalmente, despojado de meios, apenas fortalecido pela sua própria convicção. D. Nuno, apesar da sua juventude foi capaz de com inteligência e pragmatismo, fazer a simbiose perfeita entre estes dois sistemas, sendo um dos mais notáveis da sua época na concepção da manobra tirando todo o partido dos meios de que dispunha, aplicandoos onde melhor podia potenciar o seu valor e dirigindo-os evidenciando uma capacidade ' ' impondo-se naturalmente pelo seu próprio exemplo. Essa manobra assente na judiciosa escolha do dispositivo adaptado ao terreno, combi W [ K mas assente na consulta prévia dos mais velhos sem que nunca se sentisse dúvida na tomada de decisão, é a referência da manobra de Infantaria. É esta curiosidade no saber, esta convicção, esta sagacidade e atitude que deve constituir o modelo do Soldado de Infantaria. Tendo existido D. Nuno Álvares Pereira, só ele podia ser o Patrono dos Infantes. O Director Honorário da Arma de Infantaria Director-Honorário Mário de Oliveira Cardoso Tenente-General Nº 187 AGO09 5 AZIMUTE 25 Anos na EPI SMor Amadeu Figueiredo Falar da vivência de 25 anos na Casa-Mãe da Infantaria é, sem dúvida, um desenrolar de senti '\ ' diferente e que por isso mesmo me marcaram de forma natural e perspicaz. Natural de Lamego, a vida militar foi o percur ]^ uma opção decidida em consciência e para concretizar; assim sendo, frequentei a 1ª parte do Curso, na Escola de Formação de Sargentos em Lamego, e após ter escolhido a Arma de Infantaria, prepareime para a 2ª parte em Mafra. No dia 27 de Fevereiro de 1981 e após cerca de 12 horas de transporte alternado entre comboio e camioneta cheguei a Mafra para completar o objectivo a que me propusera inserido no 8º Curso de Formação de Sargentos de Infantaria. Não conhecia a vila, apenas tinha ouvido falar no célebre e imponente Convento de Mafra e, quando ao longe o avistei, senti uma sensação estranha. Às iniciais da EPI não era dado o seu verdadei _ designado como a “ Entrada para o Inferno ” , pois conjugando uma série de factores desde a imponência do Convento, a dureza da instrução e as próprias condições meteorológicas adversas, com vam toda a instrução, parecia ter alguma razão de ser e que em nada abonava a favor dos que, não conhecendo, para aqui vinham. Fui-me apercebendo, ao longo do Curso, que de facto a exigência e dureza da instrução eram evidentes, mas ao mesmo tempo apanágio do lema da Escola Prática de Infantaria – “é dever da EPI saber fazer”. Apesar de tudo restava a esperança e * W do curso, poderia haver a possibilidade de regressar a Lamego. Mas quis o destino que Mafra não fosse apenas um local de passagem e o facto de aqui ter casado e constituído família, alterou os planos que inicialmente tinha traçado. Após terminar o curso, a 17Jul81, ter sido promovido a 2º Sargento e ter feito o Juramento de Fidelidade na tão emblemática Sala Elíptica, fui colocado em Tomar no 1º BIMoto/Regimento de Infantaria nº 15 onde permaneci durante três anos e meio, tendo nessa altura solicitado a alteração da mudança da GMP, por motivos familiares, e regressei a Mafra. < `k <* y{|k 6 Nº 187 AGO09 i E l Prática P áti de d Infantaria, I f t i sem apresentei-me na Escola a convicção de que se iria tornar numa tão longa permanência. Fui então colocado na 1ª CAT/BEOp como Sargento de Pelotão do 2º Pelotão de Atiradores e desde logo integrei a equipa representativa da Escola na Patrulha D. Nuno Álvares Pereira, que logrou sair vencedora. Ao longo de todos estes anos outras funções me foram sendo atribuídas, como foram as de instrutor dos vários Cursos de Formação de Sargentos, tendo sido inclusivé nomeado Adjunto dos 14º e 15º Curso de Formação de Sargentos de Infantaria, Sargento de Operações e Informações no Gabinete do Adjunto do Comandante, Adjunto do Comandante da 2ª Companhia de Instrução do ] ^' Apoio da Direcção de Instrução e Encarregado do Museu da Escola onde permaneci durante quatro anos e meio, Sargento de Pessoal onde permaneci durante três anos e meio, Adjunto do Comandante do Batalhão de Apoio à Instrução e, após a promoção a Sargento Mor, as de Adjunto do Comandante e Chefe da Secretaria de Comando e após a alteração dos QOP em Set06, apenas as de Adjunto do Comandante. Por aqui se pode constatar que desempenhei uma multiplicidade de funções que considerei e _ cantes, honrosas e muito enriquecedoras que me permitiram obter muitos conhecimentos, ensinamentos e bastante experiência e às quais tentei sempre corresponder com todo o meu entusiasmo, dinamismo, empenhamento e dedicação, mas tenho que destacar duas delas, a de Adjunto dos Acompanhei de perto as grandes melhorias que foram sendo feitas ao nível dos alojamentos, da canalização e do sistema de aquecimentos de águas, num esforço permanente entendido pelos Comandantes para criar as melhores condições de habitabilidade, trabalho e alimentação, num bem que julgo pertinente e salutar. Saliento com satisfação a construção do novo campo de lançamento ' forma a permitir a formação e treino nas melhores condições de segurança. Considero esta infra-estrutura muito importante que, por força de não garantir as condições de segurança, esteve inactiva durante muito tempo. Com a aprovação do novo QOP de 2006, que reduziu e em muito o efectivo da Escola, e face às missões atribuídas para além de outras que se executam, cumpre-me dizer que nunca tão poucos K %to, voluntariedade, dinamismo e iniciativa de todos _ ] ^ Praças e Funcionários Civis é possível fazer bem e bem feito. É também com agrado que tenho assistido a uma maior abertura e apoio da Escola à comunidade civil, quer participando conjuntamente na realização de eventos, quer promovendo visitas aos espaços conventuais nela existentes, quer apoiando várias instituições do concelho e não só, permitindo desta forma um estreitamento das boas relações já existentes. Consequência dos tempos e da modernização, a Escola Prática de Infantaria não estagnou, evoluiu bastante em todos os domínios, em especial no da formação, missão central da Escola, e no das novas tecnologias de informação, e pela dinâmica que tem sido dada pelos sucessivos Comandos, posso garantir que é hoje uma Unidade muito diferente daquela que há vários anos conheci. Destes 25 anos na Escola faço um balanço positivo: garantiu-me estabilidade familiar e pro K amizades. Apesar disso sinto que o facto de ter permanecido aqui todos estes anos me impossibilitou de ter tido contacto com outras gentes, o conhecimento de outros locais e experiências vividas em outras situações, em particular integrando FND ou mesmo assessoria na CTM, mas não se pode querer tudo na vida, existem outros valores bem mais importantes e o da família tem sido para mim preponderante. A Escola Prática de Infantaria foi uma casa a que me dediquei de alma e coração e da qual aprendi a gostar, podendo considerá-la mesmo como a minha segunda casa e pela qual nutro muito carinho, porque só gostando muito é que se consegue permanecer durante tantos anos. AZIMUTE 14º e 15º CFSI e Adjunto do Comandante da 2ª CI, talvez pela ainda minha juventude de então me permitiram, a primeira, um contacto muito próximo daqueles que iriam ser os futuros Sargentos do Quadro Permanente a quem ajudei a formar e transmiti e incuti os valores e virtudes militares que norteiam a nossa instituição, e a segunda também um contacto muito próximo daqueles jovens que, sendo civis e que por força da obrigatoriedade do Serviço Militar, eram incorporados para aqui cumprirem um dever de cidadania e a quem eu também aconselhava e orientava. Este longo período de permanência na CasaMãe da Infantaria permitiu que aqui fosse promovido em todos os postos e que para mim constitui motivo de um grande orgulho. Permitiu-me também o conhecimento de treze Comandantes que por aqui passaram, todos eles com diferentes personalidades e visões diferentes de Comando, sendo que com os últimos três, pelas funções que desempenho, privei de muito perto e aos quais sempre respeitei e usei da máxima lealdade, honestidade e frontalidade e também dos quais recebi apoio, consideração e que em muito K ' também lhes estou grato. Foi no contacto das pessoas com quem me relacionei, durante todo este tempo, que cresci como pessoa e como militar; a aprendizagem foi uma constante escutando os camaradas mais antigos, ouvindo os seus conselhos e as suas experiências de vida, das quais retirei muito dos princípios e valores morais e éticos que sempre tentei passar àqueles que me foram sucedendo e a quem ajudei a formar. Também vivi e senti as transformações, que > to, num passado longínquo: as incorporações que se efectuavam e que chegavam a atingir efectivos na ordem dos 2 mil homens, por turno, existiam dois Batalhões de Instrução com três Companhias cada, o II Batalhão de Instrução destinado ao COM/ CSM e o I Batalhão de Instrução ao CFP, enquanto que hoje existe apenas o Batalhão de Formação Militar Geral, destinado ao Curso de Formação de Praças RV/C, que incorpora em média um efectivo de cerca de 130 militares por curso. A incorporação dos primeiros militares voluntários do sexo feminino na Escola, em 1993, no 3ºT/93 na 3ª Companhia de Instrução, do I Batalhão de Instrução. Com o processo de Transformação do Exército dá-se a extinção do Serviço Efectivo Normal em Novembro de 2004 e a completa implementação do Regime de Voluntariado e Contrato, isto é, a K ' > a Escola, pois face à missão e tarefas a executar houve necessidade de uma reestruturação interna, que algum tempo depois acabou por entrar na normalidade. Azimute Nº 187 AGO09 7 Cap Inf Pedro Ferreira 1. Situação Pode ainda subsistir alguma dose de dúvida no que concerne às consequências futuras da implementação prática, por parte da Academia Militar (AM), do Processo de Bolonha. Todavia, para as Escolas Práticas, essa é já uma realidade com a qual terão de se confrontar nos tempos mais próxi * '\ directivas provenientes da AM, que revelam o aparentemente modelo único a seguir para o tirocínio. Assim, se do ponto de vista formal, e acreditando, de facto, que todo o processo de mudança atingirá dividendos positivos, materializáveis num verdadeiro processo de evolução para melhor, importa, pois, encontrar o ponto de equilíbrio necessário à sustentabilidade do processo de formação planeado e executado pelas escolas, pois já é incontornável o facto de que o modelo de tirocínio que até há bem pouco tempo estava em prática mudou, Para a Infantaria, o ano lectivo de 2007/2008 marca, sem dúvida, essa mudança, onde se veri '\ tando evitar a duplicação desnecessária de matérias entre a AM e o programa do tirocínio. No ano `}}|~`}}{ _%> decorrente de dois anos lectivos que até podem ser considerados de anos experimentais e de aprenK conseguir encontrar um modelo de formação que vá ao encontro das necessidades operacionais das unidades, e que cumpra, de uma forma exequível e racionalmente lógica, o maior dos condicionamentos impostos pela AM, que diz respeito ao período máximo de formação atribuído às escolas práticas, y comportamental, indispensável a todos os futuros da Arma de Infantaria.”1 Tem como objectivo _ am as competências mínimas necessárias ao desempenho das funções de 2º Comandante de uma Companhia, Comandante de Pelotão de Atiradores, Comandante de Pelotão de Apoio, Comandante de Pelotão de Morteiros Pesados, Comandante de Pelotão Anti-Carro e Comandante de Pelotão de Reconhecimento. Tendo em conta a dimensão, necessidades e realidade do Exército, revela-se de todo útil e lógica esta capacidade inicial de sustentar os jovens quadros com a formação geral das várias áreas de especialidade da arma. Se por um lado a formação no âmbito dos atiradores é fulcral, até porque permite, mais do que qualquer outra, exercitar e evidenciar as características individuais de comando e liderança, por outro, deve continuar a dar-se a ênfase necessária às áreas do apoio de combate, sob pena de se prejudicar o processo de integração nas unidades. Numa lógica de forma' ]< \ sa Escola reside na sua capacidade de entender o presente, de ver o futuro, de ser objectiva e de agir de uma forma pragmática. 2. Análise "] % nar aos alunos a formação orientada para a prática e consolidação de conhecimentos teóricos apreendidos, relevar e exercitar a sua aptidão no âmbito do comando e liderança, adquirir competências no âmbito da pesquisa e investigação em * a su ' W % % 8 Nº 187 AGO09 Partindo de uma base de formação modular semanal, foram “levantados” os grupos de matérias ' so formativo. Assim, a estrutura tipo já conhecida y=" >% $#~>!= AZIMUTE AZIMUTE A ZIMUTE “Train As You Fight” as condições para que todos os alunos reforcem ' _ no acompanhado, é de apostar, especialmente, na parte de táctica de morteiros e de técnica de tiro. A lógica é preparar para a função, com todo o trabalho extra a que ao aluno será exigido fora de horas, ao longo do tirocínio, bem como mais tarde, aquando da sua entrada no quadro permanente, sempre que venha a ocupar funções deste âmbito % A prática do Tiro, individual e colectivo, é outra componente na qual incidirá uma maior relevância. Tentando aproveitar os conhecimentos dos alunos nesta área trazidos da AM, fruto do aumento da carga horária durante os 4 anos iniciais, quer seja AZIMUTE A ZIMUTE AZIMUTE mantém-se, e daí não provêm quaisquer novidades. No entanto, a sequência tida como lógica das matérias nucleares assume agora uma maior relevância, realçando um encadeamento capaz de evidenciar os mais actuais ambientes operacio * * permitindo garantir uma real marcação em termos ' = W disponível, a componente do curso efectivamente prática aumenta, isto devido à diminuição dos ob_ % presencial, em sala, apostando-se mais na aprendizagem presencial em campo e nos exercícios tácticos, semanais. A título de exemplo, poderá o tirocínio seguir a seguinte sequência; Organização e Procedimentos de Comando, Tarefas Críticas de Pelotão de Atiradores, Pelotão de Atiradores nas Operações Ofensivas, Pelotão de Atiradores nas Operações Defensivas, Pelotão de Atiradores * > ! Atiradores em Patrulhas, etc. Para alcançar, sem sobressaltos, o que acima foi referido, a utilização de novos métodos pedagógicos, que sejam adequados e que permitam *_%% K utilização da componente não presencial revelarse-á de uma substancial importância, pois irá permitir ganhar tempo e responsabilizar o aluno no seu próprio processo de evolução e de aprendizagem. O racional não será ministrar tudo, mas será, isso sim, fornecer as ferramentas tidas como necessárias à compreensão do que vai sendo ministrado. Aqueles que não entenderem isso como fulcral, cairão no risco de não conseguirem acompanhar a dinâmica do curso, arriscando-se a reprovar em matérias consideradas críticas. Exigir-se-á, então, uma maior capacidade de organização e método de estudo aos alunos, bem como que, a partir de agora, entendam o dinamismo do processo, desde a altura que a matéria é apresentada, ao tempo de estudo, à necessidade de esclarecer dúvidas, ' Este é um processo já validado com resultados aceitáveis, que se quer expedito, e que seja ajustado aos períodos de empenhamento/descanso, de *_% compreensão, que se insiram, especialmente, no âmbito do domínio do conhecimento. Com certeza que, a partir de agora, os alunos começarão a sentir a necessidade de possuírem os conhecimentos mínimos e indispensáveis trazidos da AM, pois vão aperceber-se, seguramente, que o tirocínio assim o exige. O módulo de Morteiros *< programa do tirocínio a carga de instrução de serventes. Situação já experimentada de forma super * * em trazida da AM neste domínio. Garantindo, depois, t ã militar, ilit quer seja j em estágios tá i no bl bloco d de iinstrução de formação geral, a prática do tiro em ambiente de combate, espingarda e pistola, será uma priorida! W%% reais, todos os outros terão, igualmente, tempo reservado para a execução de tiro real, em sessões ajustadas ao tipo de exercício, executadas em período diurno e/ou nocturno. A fazer crer pelas restrições e limitações de espaço e de infra-estruturas actuais, este é um dos módulos onde, porventura, a Escola terá de se socorrer do apoio de unidades externas, de forma a não deixar comprometer alguns exercícios onde a capacidade de recriar um ambiente próximo do real é deveras importante, como por exemplo, no exercício de fogos reais de pelotão de atiradores. Pelas próprias características da arma, e fru W '\ * centes e actuais, a componente física manter-seá transversal às 15 semanas. A intenção é a de continuar a conferir aos alunos a capacidade física necessária ao cumprimento das diferentes provas, nas suas mais variadas vertentes de preparação: trem inferior, trem superior, resistência mental, potência, etc. Necessariamente, ainda assim, haverá um ajustamento do número de provas na sua componente avaliativa, sem ferir de forma decisiva alguns aspectos tradicionais do curso mas, todavia, Nº 187 AGO09 9 AZIMUTE tentando equilibrar o peso da avaliação neste domínio com os outros tirocínios. Aspecto importante é a manutenção do Exercício de Liderança, senão mesmo, aumentar a sua importância em todo este contexto de diminuição do tempo do tirocínio, pois é uma ferramenta essencial na formação dos jovens infantes e que, de uma forma plena, consegue transmitir os valores da arma, ao mesmo tempo que põe em evidência situações impossíveis de avaliar em contexto diferente. A este exercício em particular, como é habitual, aquilo que se exige são as condições de segurança necessárias e os meios de apoio julgados adequados. Já que os objectivos e os princípios que sustentam o exercício, esses, mantêm-se de todo ajustados do ponto de vista lógico e da sua aplicabilidade, e são um garante e um reforço moral das tradições e da ' tos, também, a ser capazes de nos adaptarmos a novos paradigmas que podem ir contra outros que ao longo dos anos têm sido válidos e aos quais _ ' Assim, e nos últimos dois anos, o tirocínio avançou para um modelo de divisão do ano lectivo em “três” grandes fases, contrariamente às “duas” a que estávamos habituados2. Ainda que do ponto de vista operacional possamos dizer que a fase de FMGTTA, Prática de Comando (PC) e Trabalho de Investigação Aplicado (TIA) devem ter uma sequência igual de ano para ano (seja ela qual for), a verdade é que, fruto de vários factores externos ao controlo da Escola, e talvez até da própria AM, a sequência pode variar de ano para ano, facto que pouco contribui para a estabilização do sistema. Decorrentes desta constatação advêm algumas modalidades de acção possíveis, partindo do pressuposto que a fase de PC não é viável realizar-se < FMGTTA, e que, idealmente, haverá um trabalho de equipa na fase de PC com os alunos do Curso de Formação de Sargentos de Infantaria. Tudo isto pode parecer não relevante, mas pode fazer toda a diferença, em termos de articulação do tirocínio. Queremos que o tirocínio mantenha a sua espinha dorsal. Queremos que continue a focar as áreas críticas do saber no seio da Infantaria e que não abandone as suas principais características _ % ção ou derivadas da cultura operacional da arma. Sabemos, todavia, que para o conseguirmos teremos de realizar alterações lógicas e introduzir métodos que o viabilizem. Sabemos que teremos de ser pragmáticos no planeamento, bem como asser '*_* perdermos agarrados ao passado e de não conseguirmos compreender o presente nem o futuro. = W também importante focar que, cada vez mais, o tirocínio será uma parceria aberta entre a EPI e as várias unidades de infantaria, que devem ver-se a si próprias como verdadeiros parceiros no apoio à execução. O racional de planeamento do TPOI deverá assentar na importância da formação prática, composto pelas matérias adequadas, e que forneçam a visão certa tendo em conta a realidade operacional A formação deve ser orientada para a função, privilegiando aspectos do domínio táctico e que permita evidenciar as qualidades de comando e liderança dos formandos, ao serviço das pequenas unidades de infantaria. 3. Conclusão Fazendo crer na necessidade de adopção do Processo de Bolonha por parte da AM, visualizando-o até como uma ferramenta de credibilização '_ W te a sociedade civil, importa encontrar um modelo que melhor cumpra as necessidades de todos os intervenientes. 2 Ainda que no plano teórico o TPO esteja dividido em duas fazes (1ªFase-Formação Militar Geral Técnica e Táctica da < ` > K ! a divisão é feita em três fases, pois o Estágio de natureza ! W*! * de Investigação Aplicado. 10 Nº 187 AGO09 Estou convencido que a importância do tirocínio '_ irá continuar. E que à semelhança do que sempre aconteceu, continuará este a ser o ponto de char < a formação orientada para a função, conduzida na Escola. Azimute TCor Inf Mário Bastos O volume e tipo de exércitos, em sentido lato, determina-se em função das ameaças, para fazer face às que são levantadas. Algumas das ameaças podem exigir o emprego de forças militares. Quando o poder político resolve enfrentar certas ameaças que exigem o emprego de meios militares, está a optar por dispor de Forças Armadas. A partir daqui desenvolve-se toda uma problemática técnica de cálculo dos sistemas de forças, pela qual se determinam os vários patamares de meios necessários e dos riscos correspondentes. Estes meios são basicamente equipamentos e homens em condições de os utilizar. O número calculado de homens em condições de utilizar os equipamentos necessários para operar e manter uma estrutura militar em tempo de paz susceptível de gerar forças capazes de resolver os vários níveis * da intensidade, coloca-nos, entre outras, a questão dos efectivos. É nesta questão que a Escola Prática de Infantaria, como Centro de Formação Militar Geral, na sequência da Directiva Nº 12 do General Chefe do Estado-Maior do Exército, do ano transacto, através do Batalhão de Formação Militar Geral, dá o seu contributo, procurando maximizar a retenção do efectivo incorporado, sem afectar a qualidade '"$ K a ser utilizado no sistema de forças. Este contributo perfez um ano no passado dia 26 de Maio, data em que no ano de 2008 se efectuou a incorporação do 3º Curso de Formação Geral Comum de Praças do Exército (3ºCFGCPE08), o primeiro dos nove cursos já incorporados na Escola, dos quais sete já foram concluídos. Surge pectos da actividade desenvolvida, deixando para * * resultados alcançados. O Batalhão de Formação Militar Geral, com uma capacidade para 420 militares, entre elementos masculinos (360) e femininos (60), é constituído por duas Companhias de Formação que efectuam as incorporações de modo alternado, cabendo AZIMUTE O Batalhão de Formação Militar Geral Um Ano de Actividade até à data quatro incorporações à 1ª Companhia de Formação (1ªCForm) e três à 2ª Companhia de Formação (2ªCForm). O número de incorporações e a duração de cada curso, 60 dias úteis (DU), faK% o início do curso seguinte, na mesma Companhia, seja reduzido ou inexistente (Quadro1). (*) O 7ºCFGCPE08 concluiu-se em 27Fev09 e o 2ºCFGCPE09 foi incorporado em 09Fev09. y[# início do seguinte na mesma Companhia de Formação O número de candidatos incorporados tem va dependendo do número de candidatos mandados apresentar na Escola pela Direcção de Obtenção de Recursos Humanos versus capacidade máxima em alojamento do Batalhão, atingida em Fevereiro do corrente ano, sendo a média de elementos incorporados de 123 candidatos por curso. Quadro 2 – Quantidade de militares em cada Curso de Formação A quantidade de formandos possibilitaram a constituição de 45 pelotões, numa média de 25 militares por pelotão, em que os elementos masculinos constituem 81,2% do universo e os femininos 18,8%. Após a incorporação, os formandos iniciam um período experimental, correspondente à instrução Nº 187 AGO09 11 AZIMUTE básica (1ª parte) e instrução complementar (2ª parte), durante o qual qualquer das partes pode rescindir unilateralmente o contrato, mediante comunicação escrita com a antecedência mínima de cinco dias. Em resultado do direito que lhes assiste, registam-se até ao momento 130 desistências, correspondendo a 11,77% do efectivo (Quadro 3). Tropas Comandos, Presídio Militar, Regimento de Artilharia Antiaérea Nº 1, Regimento de Infantaria Nº 3 e Regimento de Transportes. Se a estes dados juntarmos os nove militares que Quadro 5 – Contribuintes do processo formativo e Formandos K~K Companhias, atingimos o número de 1270 militares. É um número expressivo, tão mais quando se apoia numa estrutura permanente reduzida, obrigada a planear, preparar e executar de acordo com as condições referidas no quadro 1, fazendo deste modo jus ao lema “É DEVER DA EPI SABER FAZER”. Azimute (1) À 10ª semana de formação. (2) À 5ª semana de formação. Quadro 3 – Desistências A par das desistências, também as exclusões afectam o número de militares que concluem com aproveitamento o Curso. Estas devem-se essencialmente ao facto dos militares excederem o nú _ k se considerar que não reúnem condições para ob W quinze exclusões (Quadro 4). ESCOLA PRÁTICA DE INFANTARIA Revista «Azimute» 2640-492 MAFRA Telef. 261 81 21 05/261 81 12 24 [email protected] [email protected] Espaço publicitário Tabela de Preços: Verso Capa/Contra Capa: 300 € (Aos valores indicados acresce o IVA à taxa legal em vigor) CONDIÇÕES GERAIS: 1. A reserva do espaço para inserção de publicidade deverá ser feita até um mês antes da data da saída da revista e os fotolitos terão de ser entregues se possível em suporte informático, em data a combnar posteriormente. 2. Os textos para os anúncios de composição devem ser fornecidos em suporte informático, com a indicação bem legível da dimensão. Quadro 4 – Exclusões Em todo o processo formativo, o Batalhão regista o empenhamento de um elevado número e sargentos alunos que frequentam o último ano dos cursos da Academia Militar e Escola dos Sargentos do Exércitos, que aqui efectuam a “Prática de Comando” inserida no “Estágio de K ! $ " ' Militar Geral Técnica e Táctica” da respectiva arma '> ' meiros cursos do ano, tendo os restantes vindo a ~ Escola Prática de Infantaria e adidos do Centro de 12 Nº 187 AGO09 1 Página 250 € 1/2 Página: 125 € 2 meias colunas 75 € Meia coluna 50 € 3. As campanhas de publici * desconto de 10% quando contemplarem um mínimo de 3 publicações. 4. Qualquer erro, lapso ou omissão não responsabiliza a “AZIMUTE”, para além da repetição do anúncio. 5. À revista assiste o direito de adiar, não publicar ou suspender qualquer anúncio por razões técnicas ou que seja considerada de alguma forma contrária ao seu ideário. 6. As Notas de Débito têm que ser liquidadas até 30 dias após a saída da revista. 7. As selecções de cor, fotolitos e preparação dos anúncios serão debitados ao cliente quando não forem por este fornecidos. 8. Todos os assuntos poderão ser tratados via email, através dos endereços acima referidos. Cap Inf Rocha e Silva Comissão de Honra D. Nuno A 24 de Junho de 1360, em Cernache do Bonjardim, nasceu Nuno Álvares Pereira, ! # Álvaro Gonçalves Pereira e de Iria Gonçalves do Carvalhal. Durante a infância, através de seu pai e das histórias por ele relatadas, D. Nuno cimentou os seus ideais de Cavalaria, inspirado pelas lendas do Rei Artur e dos seus cavaleiros, em particular, Galaaz, cavaleiro puro, casto, escolhido por Deus para cumprir a sua demanda e encontrar o Graal. É este fascínio por aqueles ideais nobres que cimentam o carácter de D. Nuno, que ao mesmo tempo em que desenvolve os seus atributos bélicos, não se desleixa na preparação eclesiástica. Naquele génitos e ilegítimos poucas dúvidas se colocavam quando era necessário escolher uma ocupação: ou seguiam a carreira das armas ou enveredavam pelo clero. D. Nuno optou por não escolher, tendo na realidade desempenhado as duas. Aos 13 anos de idade o seu pai leva-o a viver na corte, local onde rapidamente se notabiliza, chamando à atenção da Rainha Dona Leonor que o chama para seu escudeiro. Neste período tem a possibilidade de conviver com os podres e as intrigas da corte, que K da sua vocação de Cavaleiro casto, destinado a cumprir, pelas armas os desígnios do Senhor. A sua ideia de permanecer casto em acções e pensamentos sofreu um duro revés quando, aos 17 anos, o seu pai decide arranjar-lhe casamento com Leonor de Alvim, ! < única, D. Beatriz Pereira de AZIMUTE O Colóquio D. Nuno Álvares Pereira Alvim, nascida em 1380, que A ccasa de Bragança. É já casado e a viver no Minho que, em 1383, recebe M a notícia da morte do Rei D. Fernando deixando o Reino F numa grave crise dinástica. n # # sse coloca ao lado do Mestre de Avis, tendo sido a seu lado d que o seu génio de brilhante q Comandante se revela. A sua C acção, durante o período de a 2 anos em que o país mergulhou numa grave crise, foi vital lh # ccomo Rei de Portugal. Após a vitória perante os Castelhanos, D. Nuno dedica a sua vida à consolidação do reino, tendo estado sempre do lado do seu Rei em defesa de Portugal e dos seus interesses, tendo-lhe o Rei retribuído com grandes regalias e propriedades, tornando-o o mais poderoso homem do País. TGen Oliveira Cardoso Nº 187 AGO09 13 AZIMUTE anos, o Santo Condestável, rodeado do Rei e amigo e de todos os infantes, fecha os olhos pela última vez, na sua cela fria e inóspita, deixando um enorme legado que ofereceu a todos nós, Portugal. “B. Nonii a S. Maria Ex Calce Sepulcri” Nos anos que se seguiram à feitura da paz com Castela, em 1411, D. Nuno passa a ter uma vida mais recatada, dedica-se à causa social, para onde dirigiu grande parte da sua fortuna, também já partilhada com os seus familiares, afastando-se cada vez mais da vida na corte. D. Nuno e a Igreja Em 1423, já viúvo, e dando seguimento a algo previsível desde a sua juventude, despoja-se de todos os bens que lhe restavam, e entra para Ordem dos Carmelitas, no Convento do Carmo, cuja fundação se lhe devia. Com o nome de Nuno de Santa Maria, adoptado em Honra da mãe de Jesus, de quem era devoto, assume uma vida de pobreza extrema, não dispondo de qualquer bem para além do modesto hábito que o vestia. Ali, à fama e respeito granjeados como Condestável do Reino, juntou a santidade, pois assim o viam todos quantos por ele eram recebidos, e por ele eram confortados e alimentados. Ali, no Convento do Carmo, nasceu o Santo Condestável. Ao primeiro dia de Novembro do ano de 1431, com 71 14 Nº 187 AGO09 De Beato a Santo Ainda antes da sua morte, p p D. Nuno, era já visto pelo povo anto,, como um Homem Santo, ade, tal a sua generosidade, ntraantes e depois da entrada no convento. Apóss a ssua morte, o mito eso palhou-se, passando desde esse ano de 1431 a ser venerado como tal. Foram precisos, ra quase 500 anos para e, que a igreja visasse, o culto que até ai se m havia praticado em apa Portugal, tendo o Papa do Bento XV, procedido ' 18,, 23 de Janeiro de 1918, consagrando o dia 6 a de Novembro para seu louvor. do Em 1940 foi iniciado nonium processo de canonib t em zação, entretanto reaberto 2004. A 26 de Abril de 2009, o Papa Bento XVI, formalmente, declarou D. Nuno como Santo, algo que na realidade já o era, há vários séculos. Colóquio No âmbito da canonização de D. Nuno Álvares Pereira, a 26 de Abril do corrente ano, a Escola Prática de Infantaria (EPI) promoveu, no passado dia 26 de Junho, um colóquio com o objectivo de assinalar aquela efeméride. O referido evento, que teve lugar no auditório da EPI, foi realizado com recurso a dois painéis: O primeiro, moderado pelo Sr. Tenente-Coronel Boga * contribuir para o aprofundamento do conhecimento do patrono da Infantaria portuguesa como Homem, Militar e Santo, tendo estas três facetas de D. Nuno sido respectivamente abordadas pelo Sr. Tenente-coronel António Pires Nunes, pelo Sr. Coronel Américo Henriques e pelo Bispo Auxiliar de Lisboa, D. Neste painel Carlos Azevedo. Azev invocadas as qualifforam in dades humanas e militad que levaram res ímpares ímp que, reconhecidaa q mente, o patrono da men Infantaria Portuguesa Infan ência que teve na ên cconsolidação da soberania de Portugal b e da importância que deu às causas q sociais. so O segundo painel, desta feita moderade do pelo Sr. TenenteCoronel Rebouta Co dade de enquadrar as dad acções de D. Nuno no acçõ tentando-se seu tempo, t compreender o porquê comp de D. Nuno, das acções ac com o tendo tal acontecido a contributo do Sr. TenenteCoronel Barroso que abordou o ambiente estratégico-militar da época, fortemente marcado pela Guerra dos cem anos, relevando a importâncias das Batalhas de Crecy e Poitier, pelo Sr. Capitão de Infantaria Dias Afonso, que detalhou a crise dinástica de 1383-1385 e a Batalha de Atoleiros, referindo as acções de D. Nuno nessa importante batalha, e pelo Sr. Tenente-Coronel Lemos Pires, que apresentou os aspectos que, decorrentes da invasão de Castela em 1385, levaram à batalha Real de Aljubarrota, demonstrando a capacidade de persuasão numa primeira fase, planeamento cuidado e brilhante execução. Azimute TCor Art Pires Nunes AZIMUTE D. Nuno Álvares Pereira O Homem Introdução As Crónicas de D. Fernando e de D. João I, de Fernão Lopes, e a Crónica do Condestável, de autor desconhecido, parcialmente inserida nas primeiras, são as fontes essenciais para o conhecimento da personalidade e da acção dos dois principais chefes da Revolução de 138385 – D. João I e D. Nuno Álvares Pereira. Contudo, nem sempre o leitor de apercebe dos pormenores da narração ou dá conta de que o cronista elegeu D. Nuno como seu preferido, ao ponto de, na Crónica de D. João I, exarar palavras dirigidas ao seu herói, como não faz ao Rei. Nela, escreve Fernão Lopes “... podendo nós largamente ordenar seus prudentes feitos (de D. Nuno), isto seria a nós graciosa lembrança e cousa mais doce que ligeireza de fazer. Mas quem puder dignamente contar os louvores deste virtuoso varão cujas obras e discretos actos, sendo todos postos em escrito, ocupariam grande parte deste livro...”. Desta forma, e com grande subtileza, ao longo da crónica, Tenente-Coronel Pires Nunes # Pereira, apagando frequentemente a de D. João I, exactamen sua especial atenção. Por isso, é necessária toda a prudência ao avaliar aspectos panegíricos exagerados do Condestável, enquanto nos merece mais crédito quando relata os seus defeitos. Ele próprio adianta: “Alguns, sem limpo desejo, podem dizer que nós o louvámos mais do que os seus feitos merecem (...) agrava vando nele algumas lev cousas”. leves Acresce que trata do Homem, numa tar # Nu Nuno, obriga necessa sariamente a abordar o Militar e o Religioso, o que farei com o cui nã interferir na innão te tervenção dos outros co conferencistas. Os Primeiros Tempos D. Nuno nasceu provavelmente em Cernache do Bom Jardim, nos Paços de Bonjardim, 24 de Junho de 1360, festa litúrgica de S. João Baptista. Há, porém, quem defenda ter ele nascido em Flor da Rosa, sede da Ordem dos Hospitalários, nos arredores do Crato, no Alto <_ > * Álvaro Gonçalves Pereira, prior da Ordem do Hospital, e de Iria Gonçalves do Carvalhal, um dos ` Prior, que lhe proporcionou uma educação primorosa, segundo os ditâmes da época medieval. Quando tinha pouco mais do que um ano foi legitimado por D. Pedro e segundo a Crónica do Condestável, era “criado a grão viço”. A sua educação fora entregue pelo Prior, seu pai, ao tio, Martim Gonçalves de Carvalho, irmão da mãe, solicitando-lhe Nº 187 AGO09 15 AZIMUTE 16 que fosse seu aio, “o criasse e ensinasse bem, o que faria certo” e, no dizer do cronista, “que tão boas andanças que em todas as batalhas em que entrasse sairia sempre vencedor”, como lhe teria profetizado um vidente que consultara quando D. Nuno nasceu. Pouco mais se sabe da infância de D. Nuno, que viveu alguns anos na Corte, onde foi certamente lendo e ouvindo romances de cavalaria e adestrando-se com a espada e com a lança e na arte de bem cavalgar para disputar torneios e justas, arte militar em que se tornou exímio. Desprovido de bens, era pelo seu próprio esforço que ambicio *' tê-lo-ia levado à leitura dos feitos ciaram o seu destino. Sonhava ser um novo Galaaz (herói imaculado da Távola Redonda, o único digno de procurar o Santo Graal) e a História atesta que tentou aproximar-se desse homem ideal. Em Santarém, onde estava a Corte por motivo das desastrosas guerras fernandinas, foi encarregado por D. Fernando de fazer um reconhecimento às forças castelhanas que se dirigiam a Lisboa e regressou com a informação de que “os castelhanos lhe pareciam muita gente mal acaudelada e que pouca gente com um bom capitão os poderia desbaratar” (Crónica do Condestável). A audácia desta resposta ao rei, que implicava elevada responsabilidade e grande ' como rapidamente se apercebeu das fraquezas do exército castelhano e a importância que atribui ao chefe militar na condução de uma batalha, tendo apenas treze anos de idade, não deixam dúvidas que D. Nuno era já alguém com vocação acentuada para a Nº 187 AGO09 < induzem-nos implicitamente a pensar que, tão novo, se considerava esse capitão capaz de se opor ao inimigo mesmo com um exército menos numeroso. Não admira, pois, que D. Leonor de ' do jovem, o tomou ao seu serviço e o armou cavaleiro, utilizando na cerimónia o arnez do Mestre de Avis. Assim se iniciava entre os dois jovens uma ligação sentimental e provavelmente uma amizade, que viria a ser decisiva para o destino de Portugal. Até 1376, D. Nuno, agora com 16 anos de idade, continua na Corte. O rei e o prior, D. Álvaro, seu pai, que morreu esse ano, resolvem casá-lo e escolheram para sua noiva uma rica viúva, ! ' # de Alvim, senhora possuidora de grande fortuna. O prior enviou o comendador da Flor da Rosa contactar a senhora, que respondeu se desse conhecimento ao rei que ela faria como ele desejasse. Assim se faziam os casamentos da nobreza nessa Idade Média e D. Nuno não fugiu à regra. Importa, todavia, salientar que a interferência do rei no casamento mostra que D. Nuno era tido em grande consideração por D. Fernando. Avisado das perspectivas do casamento, o rapaz pediu ao ! leitura dos livros da cavalaria, em especial pela história de Galaaz, o qual, por se ter conservado em virgindade, cometera extraordinárias proezas, que a outros não fora possível, não se preocupava senão em cavalgar e andar à caça. D. Nuno resistiu ao casamento, que o impedia de concretizar os seus sonhos e nem o pai e a mãe o conseguiram convencer acabando, todavia, por ceder a rogo de dois amigos. Depois de casado, retirouse para a terra da esposa, em Entre Douro e Minho, onde se manteve até 1379 ou seja durante três anos. Desse casamento reram à nascença e D. Beatriz, de cujo parto faleceu a mãe. D. Nuno, agora viúvo, ainda muito jovem, não consente em ca que ele idolatrava, veio a casar a 8 de Novembro de 1401, com D. Afonso que foi duque de ' * # João I, dando origem à Casa de Bragança e a laços familiares com o rei. Segundo a Crónica de D. Fernando, em 1381 encontravase em Lisboa, cercada pelos castelhanos que, de vez em quando, faziam saques na capital. Uma noite, D. Nuno faz-lhes uma espera, emboscado na ponte de Alcântara e caiu sobre eles obrigando-os a recolher apressadamente aos navios. Porém, uma força inimiga com que não contava apareceu-lhe subitamente em Santos. Nun’Álvares não hesitou e lançou-se imediatamente sobre ela o que podia ter-lhe custado a vida, pois os seus homens hesitaram e só quando o viram isolado acabaram por ir à luta e salvaram-no. Esta acção revela-nos um D. Nuno temerário e um tanto inconsciente chegando a confundir-se a sua temeridade com pura bravata, mas mostra-nos também que tinha grande espírito de iniciativa, que constantemente o impelia à acção. Intimorato ao extremo nada o detendo, risco no limite, agressivo contra o inimigo _ K do, são os seus atributos mais evidentes. Este voluntarismo excessivo haveria de o colocar de novo em apuros quando, após a sua brilhante vitória em Atoleiros, soube que os castelhanos se estavam a concentrar no Crato. Vai A Crise em Perspectiva. D. Nuno Adere ao Mestre Voltou a Pedraça e ali estava quando, em 1383, D. Fernando faleceu. Passado um mês foi a Lisboa para assistir às exéquias do 30º. dia da morte do monarca e apercebeu-se da conjura que se tramava já contra D. Leonor e conde Andeiro, seu amante. Segundo Fernão Lopes, D. Nuno era, nesse tempo: “pessoa de pouca e branda palavra mas o seu bom gasalhado (bom acolhimento) e doces razões contentavam muito a todos” e “nenhuma coisa fazia com rancor e ódio”. Apesar destes doces predicados era um jovem fortalecido pelo treino da vida de campo, a caça, as cavalgadas e o exercício das armas. Vai a Santarém para convencer o seu irmão Pedro, Prior do Crato, a aderir à causa do Mestre, em vão como é sabido. um alfageme e vê uma espada pendurada que muito lhe agradou e pede ao artesão que lhe faça espada igual tendo como resposta que, para ele, faria uma ainda melhor. Assim sucedeu e, quando D. Nuno lhe quer pagar, o alfageme disse-lhe que receberia quando ele fosse conde de Ourém. A profecia realizouse mas a resposta do alfageme D. Leonor acabava de conceder o título de conde de Ourém ao conde Andeiro. As palavras do % raia miúda, a certeza que havia de que D. Nuno, que ainda não ganhara qualquer batalha, seria aquele que, com a sua espada, venceria o perigo que representava o valido da rainha. A dramaturgia portuguesa foi enriquecida com este tema quando Almeida Garrett escreveu “O Alfageme de Santarém”. Tinha 23 anos quando lhe chegou a notícia da morte do conde Andeiro e a sua opção estava tomada: combateria contra Castela mesmo que tivesse que o fazer contra amigos e o seu irmão. Parte para Lisboa, cheio de patriotismo e vontade de combater e encontra-se com o Mestre, a quem beijou a mão, como se fosse já rei e, reunindo os seus homens, manifestou-lhes o pressentimento de que Deus lhe reservava a incumbência de defender a Pátria, apesar de toda a família e sua mãe o aconselharem a não se meter nessa tarefa, que seria inglória dada a fraqueza do Reino. É esta a segunda vez, que referimos, em que coloca sem qualquer hesitação a Pátria acima da família e Deus no cume pelo que podemos dizer que a sua trilogia de valores era “Deus, Pátria e Família”. Mais lhes disse: “Deus o impelia a lançar-se no grande poço cheio de escuridão, que era a guerra inevitável, de onde só se sairia por milagre de Deus e que, apesar do perigo, o seu coração o impelia a saltar nele” (Crónica de D. João I, de Fernão Lopes). Ao patriotismo junta-se a determina' ímpar. É talvez a primeira manifestação de uma fé inabalável em Deus a Quem se entregava e a Quem seguiu até à morte. Naquele ano, a sorte futura do país era, de facto, um poço negro e fundo. Ninguém podia medir a gravidade e a extensão da crise que acabava de ser desencadeada. Aos seus homens disse ainda: “Aqueles que de vós a quem prouver de saltar comigo terlho-ei a grande bem e extremado serviço” (Crónica de D. João I, de Fernão Lopes). Um a um mente, agrupando-se à sua volta. Estava traçado o seu destino. Este jovem tinha já carisma em elevado grau, capaz de arrostar os seus homens para os maiores perigos e revelava-se, ao contrário de outras ocasiões passadas, bem consciente da tarefa em que ia empenhar-se, mostrava-se de uma lealdade inultrapassável ao que considerava já ser o seu rei mas continuava a permanecer nele a “atracção do abismo”, lançando-se no escuro conscientemente sem olhar para as consequências do seu gesto. Na sua cabeça tinha o mesmo que D. Luísa de Gusmão em 1640, aquando a Restauração: “Mais vale morrer livre que viver servindo”. E os seus homens seguiamno cegamente. O historiador Oliveira Martins exprimiu com grande mestria a simbiose de D. Nuno com Deus quando escreveu: “A sua fé em Deus era a chama em que ardia a sua dedicação patriótica e a sua energia militar. A religião era a sua raiz; a virtude, a coragem, o civismo, os ramos da sua vida iniciada pela resolução mística da cavalaria” e acrescentava noutro espaço: “Nun’Álvares tinha em si o que levanta as montanhas: tinha fé e uma virtude imaculada, ' indomável”. Lançando-se com fé em Deus no poço fundo que era a incerteza do desfecho de uma guerra com Castela, avassaladoramente Nº 187 AGO09 AZIMUTE ao seu encontro com uma força consideravelmente inferior mas é cercado e, sem possibilidade de receber reforços, retira com o pretexto de ir a Évora buscar mantimentos. Arriscava tudo numa acção com grande facilidade e ânimo leve, seguindo a máxima de Kipling: ”Um Homem só é verdadeiramente Homem se for capaz de arriscar tudo numa cartada e continuar calmo”. Não apenas em si próprio, mas é um facto que a sorte nunca lhe foi madrasta dando razão ao aforismo: “A sorte protege os audazes”. 17 AZIMUTE mais poderosa, ao lado do Mestre de Avis, começa a ser difícil distinguir o Homem do Militar e do Místico, facetas de D. Nuno que aparecem simultaneamente e estão inter-ligadas. Por outro lado, ligando o seu destino ao do Mestre e andando frequentemente juntos, é também inevitável fazer uma comparação com este, em tudo o que diga respeito aos assuntos da guerra. D. Nuno na Crise Fernão Lopes deixa-nos, por mais do que uma vez, a impressão de que, na época, haveria militares tão ilustres ou até de maior nomeada do que D. Nuno e que, mesmo já durante os acontecimentos da Crise, não era aceite para cargos militares, sem reservas. O cronista mal se refere à batalha de Trancoso, que assumiu grande importância para o desfecho da batalha de Aljubarrota, talvez para não ofuscar o seu herói, que lá não esteve. O abade de Baçal refere, em escrito pouco conhecido, * de Simancas (em Espanha) com o título “A insídia de Trancoso” e aqui teria morrido grande número dos mais experimentados capitães de Castela, cujos nomes constam do documento, que vieram a fazer falta em Aljubarrota. A batalha de Trancoso foi ganha por D. Gonçalo Coutinho, go que parece não nutria grande simpatia por D. Nuno e que, apesar dos apelos para que estivesse em Aljubarrota, não o fez. Quando foi necessário nomear um fronteiro para o Alentejo, a escolha do Mestre recaiu em D. Nuno mas encontra oposição de alguns homens notáveis, como D. João das Regras de quem o cronista escreve: “O Doutor João das Regras era muito contra esto dizendo que tamanho encarrego cumpria mandar um homem de 18 Nº 187 AGO09 madura autoridade”. Decididamente que, pelo menos até este momento, D. Nuno não seria visto como um militar informado, competente, experiente e muito avisado; em suma, ainda não se impusera. A passagem da Crónica indica,, uma vez mais, haver outros chefes militares considerados melhores do que ele, que Fernão Lopes não note meia, e que, não obstante erior, toda a actividade anterior, va D. Nuno não inspirava ' responsáveis. Talvez porque fosse muito novo (24 a anos), porque sobressaia eu demasiadamente o seu co aventureirismo, pouco compatível com a se-riedade e ponderação que exigia o momento em que se jogava o destino da Pátria ou talvez e, sobretuo do, porque tendo sido armado cavaleiro porr D. Leonor de Teles com quem conviveu e ter pelo menos um irmão muito chegado a si, que combatia por Castela, seria olhado ' Estas circunstâncias pesariam mais na sua avaliação do que o patriotismo de que dava exuberantes mostras e do que o espírito ofensivo contra Castela que mostrava ostensivamente. Também nestes tempos teria imperado a inveja por D. Nuno ter obtido uma amizade quase fraternal do rei e ser um incondicional deste, o que teria sido o caso do herói de Trancoso. ticas D. João não olhou às críticas e nomeia-o fronteiro-mor do Alentejo, onde D. Nuno desenvolve uma notabilíssima actividade militar que culminou com a batalha de Atoleiros e o \ < mostra, contrariamente ao D. Nuno é considerada um golpe de génio, que arrastou o timorato rei, tese que muitos advogam, ocorre perguntar de quem seria a responsabilidade se tivessem perdido a decisiva batalha de Aljubarrota? Analiso o Homem que foi indisciplinado mas seria estultícia ser demasiado severo para com D. Nuno, uma vez que se apercebeu logo e só ele que “indo a Sevilha, como o Conselho parecia advogar, para cortar duas oliveiras podres (palavras de Fernão Lopes) equivalia a perder Lisboa e, perdida Lisboa, estava o reino perdido”. Viu também que D. João I de Castela teria que decidir ali os seus objectivos se não queria ver cortada a sua linha de comunicações e que não havia outra forma de neutralizar o Conselho e abrir os olhos ao seu real amigo senão como ele fez. Teve razão e perdoamos-lhe a atitude, o que não torna lícito o seu comportamento. Muito naturalmente os membros do do: “Tem soberba que mostrava grande desprezo por el-rei e por todos eles e que pretendia inimistá-los contra el-rei”, o que era verdade. Mas há outras situações bem graves. Revelando-se um condestável pleno de pujança e consciente das suas funções procurava informar-se sempre sobre o inimigo. Tendo-lhe sido entregue um prisioneiro ordenou-lhe que fosse a el-rei e a todos os homens de armas que ali estivessem e lhes dissesse que as tropas castelhanas eram fracas, pouco numerosas e desunidas. Esta atitude para com o comandante-chefe, quando se decidia a batalha e a forma de actuar, tentando levá-lo ao engano só para que houvesse batalha, para que se combatesse e ele tivesse o seu combate também não é defensável. Que queria combater pela Pátria te K se não também pela sua própria ' E que dizer da impertinência de D. Nuno que, por decisão própria, envia uma missiva aos castelhanos, em clara exorbitação das suas funções e na ausência do rei, na qual comunica que elrei de Portugal lhe daria batalha se não abandonasse a sua terra, que desvalorizou a mensagem posterior de D. João, muito mais prudente, em que diz ao rei de Castela que poderá não haver luta e lhe pede para abandonar Portugal, em nome de um não derramamento de sangue? AZIMUTE que os notáveis diziam, que era mesmo um militar informado, competente e sabedor da guerra. As circunstâncias em que se desenrolou a batalha de Aljubarrota inicia um conjunto de atitudes polémicas do condestável, ainda hoje discutidas e por muitos historiadores consideradas manchas no carácter de D. Nuno. D. João era o comandante-chefe, que pensa naturalmente a nível estratégico e D. Nuno apenas o chefe militar táctico, que lhe estava subordinado. Sucedeu, porém, que D. Nuno esquece-se disso e, no Conselho de Abrantes, mostra traços poucos aceitáveis da sua personalidade. Não concordando com os conselheiros, que se inclinavam para uma manobra de diversão na Andaluzia, D. Nuno, com alguma arrogância e sobrepondose ao rei dirige-se ao Conselho para o demover, dizendo “não o fazendo (dar combate imediato) mostraríamos grande míngua e cobardia que quebraria o coração dos portugueses”. Dar batalha por motivos de honra, sentimento tão do agrado de D. Nuno, é tipicamente medieval mas D. João, muito mais ponderado, não estava ali para arriscar por motivos de honra mas para decidir, com segurança, o destino do % Obcecado com a ideia de combater a todo o custo, D. Nuno parece, por vezes, procurar o combate pelo combate o que, de facto, podia ser perigoso para as aspirações de Portugal. O chefe táctico, D. Nuno, numa atitude pouco aceitável, por mais exaltada que seja, afasta-se do Conselho e parte arrogantemente em direcção aos castelhanos. Abusou da grande amizade do ' tre eles e deixa-se levar pelo arrebatamento e voluntarismo quase cego, aliás na linha do que era o seu caracter. Se a atitude de Desde que é condestável, talvez pelo facto de o rei ser muito seu amigo e também jovem e ser rei não havia muito tempo que nenhum deles interiorizara ainda esse facto, D. Nuno está sempre pronto a sobrepor-se a ele e a ultrapassá-lo. Por seu lado, no Conselho de Guerra de D. João I de Castela, quem foi valorizado muito naturalmente nas palavras de João Afonso de Telo é D. João I de Portugal e não D. Nuno. “Vencido este homem (D. João = * o reino desimpedido”. De facto, esse era a pessoa a derrotar por representar o poder político. Nas principais batalhas da Guerra < destável apaga-se perante as do comandante-chefe, no caso de Grécy, os reis Eduardo III e Filipe de Valois. Em Aljubarrota sucede o contrário muito pelo protagonismo de D.Nuno, que se pôs sempre em primeiro plano e muito pelo apagamento que Fernão Lopes faz a D. João. = sido genial na condução da batalha, muito especialmente se a manobra que foi executada tiver sido premeditada e não fruto das circunstâncias. As atitudes descritas ocorreram, a meu ver, não Nº 187 AGO09 19 AZIMUTE por circunstâncias fortuitas mas pela personalidade do condestável. Após Aljubarrota, continuou a proceder da mesma forma quando a guerra foi levada a Castela. Em Cória, D. Nuno desobedece ao rei e fez fracassar o ataque à povoação com o argumento de que não tinha engenhos de assédio. Tendo o rei ordenado o ataque geral concerteza procedido de um encontro com o seu condestável, a inactividade deste é intrigante. E o mesmo sucedeu noutras ocasiões das quais me deterei apenas na batalha de Valverde, nas margens do Guadiana, que travou por conta própria, prolongando as operações e arriscando demasiado escusadamente. D. Nuno, sempre çara, arriscando sempre, pensando arrebatadoramente só por si, como se não dependesse de W nunca o abandonou, numa guerra travada por Portugal e que ele parecia considerar a sua guerra. O medievalista, António Borges Coelho, sobre a batalha de Valverde, escreve: “Em Valverde, quando se desenrolam já os primeiros combates, as suas tropas estão sem comando e ele, atrás de uns rochedos, a implorar o favor divino. Esta atitude poderá emoldurar a cabeça do herói com uma auréola de santidade mas, sob ponto de vista militar é desastrosa e Fernão Lopes parece ter disso ideia clara” (A. Borges Coelho, A Revolução de 1383). O Humanista Com as facetas da sua personalidade, já referidas, Fernão Lopes apresenta-nos D. Nuno como um verdadeiro cultor do humanismo quando testemunha: “Como a estrela da manhã, resplandeceu entre os da sua geração, com honesta vida 20 Nº 187 AGO09 e honrosos feitos, parecendo que reluziam nele os avisados costumes dos antigos e grandes varões. Na condução da guerra mostrava tal autoridade, que nenhum dos que o acompanhavam se atrevia a hostilizar os inimigos além do que por ele lhes era mandado, dispondo-se cada um a cumprir os preceitos que ele lhes dava e não lhe desobedecendo em caso algum. E, no entanto, morava sempre nele uma discreta mansidão que é a alma dos bons costumes. Por isso, no dizer de Oliveira Martins “o próprio inimigo adorava esse Capitão, a quem os seus obedeciam religiosamente”. Trazer mulheres e jogar aos dados a ninguém era consentido; e quando nascia entre alguns dos seus qualquer desavença pela qual deixavam de se falar, logo tratava de os concordar e fazer amigos e de guisa que o seu acampamento não parecia hoste de guerreiros mas honesta ordem de defensores. Em todas as cousas procedia muito sagesmente, com proporcionado castigo e prémio àqueles que dele dependiam; e quando se zangava contra alguém o seu castigo não dava lugar a rumor, de modo que à sua grave quietação os homens tinham mais reverência que temor. Sendo ainda moço e desviando-se do costume dos homens, começou a assentar em si todas as boas condições que podem ser apontadas num louvado varão, como se nele estivesse escondido o tesouro de toda a sabedoria. Em virtuosos pensamentos e em pô-los em execução, ocupava muito mais tempo do que cumpria a sua tenra idade. E porque semelhantes perfeições não eram habituais nos outros homens, nele eram tidas em muito grande conta. Por isso, onde moravam tantas virtudes, algum vício pudesse ser hóspede, nem alguém podia nele por nódoa que não fosse tido por malévolo pois, embora ele se esforçasse por encobrir a sua muito louvada fama, os seus virtuosos feitos eram pregoeiros dela. Compadecia-se dos pobres e necessitados, não os deixando padecer injúria e a sua larga mão estava sempre pronta a dar onde quer que a honra humanal ou o espiritual proveito atraíam o seu dom. Dispunha a sua fazenda, deixadas as despesas pomposas, que se devem evitar, de tal modo que, por nenhuma necessidade de guerra ou outra, nunca em suas terras lançou tributo ou serviço ou outra obrigação de ajuda e tinha tais administradores em sua casa que pouca ou nenhuma nódoa de erro havia neles. Na limpeza da sua verdade * e a sua palavra não era menos juramento. Punha os actos espirituais acima de todas as cousas. Tanto foi de limpa consciência que, para salvação da sua alma, moderou de tal maneira a paixão da ira, que em muitos parece loucura, e por mais razão que tivesse nunca a ninguém cortou a fala…” (Fernão Lopes, Crónica de D. João I). O Herói A imprevisibilidade de atitudes e a expectativa sobre o comportamento de D. Nuno, face aos acontecimentos, deve ter generalizado a ideia de que ele era, no mínimo, diferente. Daí, até à sua aceitação como herói, vai apenas a constatação de que essa diferença conduzia a actos superiores que não estavam no alcance de qualquer, em favor da sua Pátria em perigo. Foi um herói consciente dos seus comportamentos, que jogou sempre incondicionalmente a vida, e para por ter de assistir a um casamento que representava tudo contra o que iria lutar “com os joelhos bateu violentamente no pé da mesa e deu com ela em terra” (Fernão Lopes). O rei de Castela impressionado com este gesto de audácia e de inconformismo, teria comentado para D. Fernando “quem tal coisa cometeu (...) para muito mais será seu coração”. O episódio de Almada imprime-nos a ideia do herói pujante e triunfante que aparece como uma visão no outro lado do rio em todo o seu esplendor, desa ' mindo temor. Noutro episódio, Fernão Lopes dá-nos pretexto para desculparmos todas as desconsiderações descritas anteriormente que D. Nuno teve para com o rei que, aliás, nalguns casos, lhe perdoou expressamente. O castelhano, conde de Maiorgas de # num ápice, D. Nuno apercebe-se do perigo em que o seu rei estava colocado, aceitando ou não o ^ ria à altura de terçar armas com % aceitando, sairia desprestigiado. Kdo: “Eu lhe poerei o corpo sobrelo e lhe farei combater quer um por um ou dois por dois ou quantos ele quizer”. D. Nuno julga-se capaz de tudo e sente-se apto a adestrado da forma escolhida por este, mesmo em luta individual. Atendendo às provas que deu, até então, não teria concerteza problemas comandando com bravura dezenas de homens num torneio ou numa batalha mas lutar com qualquer faz dele um herói, à maneira grega e leva-nos a pensar que D. Nuno era certamente um combatente com destreza individual pouco comum. Oliveira Martins em “A vida de Nun’Álvares” refere que, em 1382, reúne-se em Évora e Elvas com o duque de Cambridge e pede a intervenção do duque junto do rei para que este lhe permi * ^ Recuemos séculos à Pátria dos Heróis - a Grécia Antiga, e detenhamo-nos brevemente na Ilídia de Homero. D. Nuno é o Aquiles português do sec. XIV que, não temendo a luta individual para resolver uma contenda, como o fazia o herói grego, não a pratica, contudo, não porque o não desejasse ou fugisse a isso mas porque os tempos eram outros. Também Diómedes, outro herói que ataca os troianos na ausência de Aquiles é corajoso, cavalheiresco e valente mas impulsivo. Decididamente que a caracterização de D. Nuno em Fernão Lopes corresponde à do modelo grego nomeadamente na impulsividade que parece andarlhe ligada. As vitórias de D. Nuno são quase sempre espectaculares e ser impulsivo e desobediente, em consequência disso, entra em nós como uma qualidade, associada à sua grande capacidade de decisão, que arrastava tudo e todos e que lhe permitia não deixar perder as oportunidades. Acresce que essa qualidade/defeito transmite-nos sempre a ideia de que se não fosse assim (leia-se que, se não fosse ele) os grandes êxitos da Crise não teriam ocorrido. Em 1415, tinha 55 anos, chegou-lhe imprevistamente a notí # mostra com toda a intensidade a sua faceta humana. D. Beatriz era o único afecto humano que lhe restava no mundo e, tão forte foi o abalo que a sua morte lhe provocou, que os íntimos recearam que lhe faltasse ânimo para < que muitos ainda assim o olhavam era agora um homem como os outros e sofria muito quando Nº 187 AGO09 AZIMUTE quem a timidez, o medo e a hesitação o levavam frequentemente à exasperação. Determinado a tudo e denunciando sempre um caracter muito forte, compreende-se que possa ter sido alvo de incompreensão ou mesmo reprovação, em especial quando as suas atitudes se confundiam com falta de prudência e soberba ou quando afrontava pessoas e posições estabelecidas e de inveja. Ele viveu, sem nunca ter sido derrotado, não obstante ter estado próximo de o ser, por mais do que uma vez, riscos constantes e procurados por sua iniciativa invulgar, numa série de façanhas tão ampla que a História de Portugal raramente descreve para outro personagem. Em Almada “moveu a um monte sobre o mar, e fez os poer em az ordenado com sua bandeira no meio tendida, dando às trombetas... e isto à vista dos da cidade e do arraial dos castelãos”. Chegara a Almada, subira a um monte e mostravase às gentes de Lisboa para lhes incutir ânimo e desorientar os invasores. A surpresa foi grande e o rei de Castela pergunta quem é aquele atrevido ao que o fronteiro de Almada, que estava com ele, responde que lhe diz o coração que é Nuno Álvares. Para ele, só D. Nuno seria capaz de tal audácia. Desvalorizando o rei a capacidade do chefe militar português, recebe como resposta: “Agradecei a Deus e a este rio que está antre vós e ele, ca se este mar não fosse, aqui vos viria buscar hu estais”. E, no entanto, o rei de Castela já tivera encontro, em Elvas, com este atrevimento durante o seu casamento com D. Beatriz. Tendo lugares marcados para si e seu irmão Fernão numa das mesas aguardavam de pé a altura de se sentarem para o repasto, viram as suas cadeiras abusivamente ocupadas por outros. Já irritado 21 AZIMUTE 22 o seu íntimo era agredido violentamente. Já iam longe os tempos de guerreiro, quando nada o afectava mesmo a possibilidade de morrer. Em 1423, aos 63 anos de idade, entra na solidão de um convento e despoja-se de todos os bens, revelando outro atributo que ainda não sobressaira – uma humildade extrema e desprezo pelos bens materiais que, enquanto novo, não tinha. Quando era senhor de enormes terras D. João I, chegando ao ponto de ameaçar exilar-se quando o rei, pondo em execução uma reforma de redistribuição de terras, doadas um pouco na euforia dos tempos vividos anteriormente, o ia prejudicar a si e aos companheiros a quem dera algumas terras. Foi admitido no Convento em 15 de Agosto, Festa da Assunção ou Festa de Santa Maria de Agosto como era conhecida. Podemos pensar que a data não teria sido escolhida ao acaso e que as datas marcantes da sua vida bailavam na sua mente. De facto, a batalha de Aljubarrota ocorrera 38 anos antes; em meados de Agosto de 1415 integrarase na expedição a Ceuta e casara a 15 de Agosto de 1376. Em 1431, no dia 1 de Abril, domingo de Páscoa, ocorreu a sua morte, com a idade de 71 anos incompletos. D. Nuno acabou a vida despido de bens, depois de ter sido o homem mais rico do país e de se ter coberto de glória, que lhe adveio como consequência dos seus actos e não que a procurasse à maneira romana para ter a sua coroa de louros. O Homem dera lugar ao Militar e, depois, ao Santo, sem que, desde cedo, fosse possível distrinçar estas facetas da mesma pessoa. Foi sublimando os seus defeitos com Nº 187 AGO09 a idade e mesmo os arrebatamentos da idade tenra, que eram o mais visível do seu carácter, desapareceram por completo. Morreu calmo e feliz de uma felicidade que já não era deste mundo mas da presença do Pai, que adorava desde novo, e com quem estava prestes a conviver. Conclusão “Pátria – é um palmo de terra defendida. A lança decidida Risca no chão O tamanho do nosso coração. E todo o inimigo que vier Tem de retroceder T Com a sombra da morte no pendão. > K Surdo às razões da força e da fraqueza (A A liberdade não discute os meios De se manter). Mais difícil era a empresa Que a seguir comecei: Já sem cota de malha, combater Por outro Reino e por outro Rei” D. António dos Reis Rodrigues, em Nun’Álvares, Condestável e Santo, cita Edgar Prestage no ponto em que este anota: “as três Torga imagina o próprio Miguel T o virtudes primárias da cava a falar de si próprio: laria, no aspecto militar, eram a D. Nuno O Tenente-Coronel de Art na coragem, a lealdade e a generoRefª António Lopes Pires Nunes, é licenciado em Ciências Militares pela sidade. As três virtudes secundáAcademia Militar e em História pela rias, relativas à religião, eram a Universidade Católica. Tem vários livros publicados, al =_ * guns deles premiados, nas áreas e a castidade. As três virtudes referidas, com destaque para cinco terciárias, de natureza social, referentes às Campanhas de África (1971-74) e à Arquitectura Militar, seneram a cortesia, a humildade e do autor do “ Dicionário de Arquitectura * $'\ Militar”. Escreveu também “ D. João e meramente pontuais, que assiD. Nuno, Chefes Militares em Fernão Lopes”. nalámos, quanto à lealdade para Leccionou no Instituto de Altos com o rei e quiçá alguma falta de Estudos Militares e da Universidade Lusófona e colaborou em mestrahumildade, que foi desaparecendos de Estratégia na Universidade do, tudo isto D. Nuno praticou em Técnica de Lisboa e de História Militar elevado grau. Merece pois, como na Universidade Lusíada. É membro do Plenário e do ninguém da sua época, o belís % simo verso de Fernando Pessoa Portuguesa de História Militar e sóem Mensagem, no qual o poeta cio da Associação Portuguesa de Arqueólogos, nas secções de Préo designa por “S. Portugal em História e História. ser “ ou, de forma mais clara, “S. Reparte a sua actividade cultural pelas disciplinas de Antropologia Portugal em pessoa”. Desta forCultural, História Militar e História da Arte. ! ! * Autor Anónimo; Crónica do Condestabre de indestrutível. Azimute > do que pela espada de D. Nuno, Portugal viu o seu caminho aberto: “Ergue a luz da tua espada, para a estrada se ver” E termino com “Nun’Álvares”, in “Poemas Ibéricos, no qual Portugal Dom Nuno Álvares Pereira. Prefácio e notas de M. dos Remédios, Coimbra, 1911. BORGES COELHO, António; A Revolução de 1383, Col. Seara Nova. 3ª. edição,1977. CAETANO, Marcello; A Crise Nacional de 1383-1385, subsídios para o seu estudo. LOPES, Fernão; História de uma Revolução. Primeira Parte da Crónica de ElRei D. João I, de Boa Memória, Livros de Bolso Europa-América, 1977. Idem; Crónica del Rei Dom Joham I, de boa memória e dos Reis de Portugal, o décimo, Parte Segunda, Ed. Imprensa Nacional, MCMLXVIII, copiada por William J. Entwistle. NUNES, António Lopes Pires, ten. coronel; D. João e D. Nuno, chefes militares em Fernão Lopes, EME, Lisboa, 1986. Cor Inf Américo Henriques Nuno Álvares Pereira foi um extraordinário e invicto Chefe Militar, um dos poucos chefes militares invictos em toda a História Militar universal. Nuno Álvares Pereira iniciou a sua vida militar quando nasceu. E falou-se da educação de Nuno Álvares Pereira, dessa Ordem do Hospital onde ele cresceu, essa ordem do Hospital que lhe incutiu os valores da Távola Redonda e os valores do amor profundo ao trono e ao altar. Se alguém na nossa história é o zimbório desse amor ao trono e ao altar que caracteriza o povo português é precisamente Nuno Álvares Pereira. * Álvaro Gonçalves Pereira, que Nuno Álvares Pereira criou o espírito, o amor e a lealdade, acima de tudo, à terra que o viu nascer. Porquê este exemplo de seu pai? Um homem que na sua vida íntima conseguiu ter trinta e dois Mas este homem, quem foi ele? Porquê este símbolo na vida de Nuno Álvares Pereira? Porquê deste farol? Quem era Álvaro Gonçalves Pereira, o Prior da Ordem do Hospital? Pura e simplesmente meus queridos amigos, o verdadeiro vencedor da Batalha do Salado. Foi ele qu que comandou a carga decisiva da Batalha do Salado. Por arma, lev levava apenas a Vera Cruz de M Marmelar. Esse espírito do hom mem que se lança no combate, qu que acredita que acima de todas as forças, existe a força do seu ide ideal. E que a força do seu ideal ve vence fronteiras! É essa, a verda dadeira alavanca do militar Nuno Ál Álvares Pereira. É o homem que ac acredita que tem o chamamento div divino dentro dele, e que esse ch chamamento divino se confunde co com a própria Pátria onde nasce ceu. É isso que o leva a essas ac acções tão loucas, tão de arriscar tu tudo e todos, e ao mesmo tempo es este homem capaz de se lançar AZIMUTE D. Nuno Álvares Pereira O Militar nas façanhas mais temerárias, temerárias é simultaneamente um dos mais escrupulosamente seguros, chefes de toda a história militar. Aprendeu com os Cavaleiros da Ordem do Hospital, a experiência que vinha das Cruzadas, com os Cavaleiros da Ordem do Hospital a conhecer uma coisa fundamental em qualquer chefe - o Terreno. E se há uma palavra a que temos que ligar intimamente ! é ao conhecimento profundo do terreno. Nuno Álvares Pereira impôs sempre a batalha. Aprendeu como estruturar as suas forças agarrado ao terreno, àquele que lhe desse a máxima vantagem! Há quem diga que o aprendeu com os veteranos da guerra dos 100 anos. Há quem diga que foi o conde de Cambridge num encontro em Elvas, uma pura conversa que tiveram os dois, pois ele praticamente não teve qualquer contacto com o Conde de Nº 187 AGO09 23 AZIMUTE 24 Cambridge. Talvez com o grande cavaleiro Gascão que morreu na Batalha de Aljubarrota, Jean de Monferrand, ele tenha aprendido a forma como os ingleses adaptaram tudo quanto aprenderam à custa das muitas revezes que sofreram com galeses e escoceses, no terreno em que se batiam. Talvez Nuno Álvares Pereira tenha aprendido com esses homens que nos vieram ajudar, depois do tratado celebrado com Inglaterra. Na nossa Guerra com Castela, talvez que ele tenha aprendido com eles a empregar a combinação do terreno, dos obstáculos e do poder de fogo. Porque aqui residiu o grande segredo de Nuno Álvares Pereira, o terreno, os obstáculos e o poder de Fogo. Não o esqueçam! E se há algum sítio onde o terreno, os obstáculos e o poder de fogo emergem do campo de batalha, agora que já passaram séculos sobre essa mesma batalha, é precisamente em Aljubarrota. Quero lembrar-vos um dos as tar de Nuno Álvares Pereira e que ressalta como nenhum outro na sua acção na Batalha de Aljubarrota. Acima de tudo este homem que aparentemente é um visionário, um apaixonado, um homem com uma grande am*' ' homem capaz de pôr em risco as suas forças, um homem que, W* cavaleiro lançado para a frente, com o coração na ponta da espada. Tem uma virtude que desfaz esta ideia, desfaz esse mito e põe-o na realidade no sítio que lhe compete em todos os chefes militares da história militar universal – Segurança! Se há batalha onde a palavra “segurança” aparece sobre todas as outras é precisamente na Batalha de Aljubarrota. Se há batalha onde parece que o inimigo vai ganhar porque não pode ser de outra maneira, Nº 187 AGO09 porque a sua superioridade é tremenda, e novamente esse convi necessário, aparente, cai pela base no Campo de Batalha dos Atoleiros. É a coberto de um obstáculo, que ele pela primeira vez põe a sua tropa pé-em-terra e recebe o choque do inimigo, com o seu próprio choque apoiado num obstáculo e batido por um tremendo poder de fogo. Numa guerra em como confrontaram: < * la francesa, do poder de choque da cavalaria nascida do apareci * * pé-em-terra, agarrado ao terreno e usando esse mesmo terreno. Nesta guerra o Condestável encabeça sem dúvida nenhuma a segunda posição. Nesta guerra, ele mostra até que ponto é que o chefe militar é capaz de, aplicando as suas forças convenientemente no teatro onde tem que se bater, não é vencido pelo inimigo, por mais forte que ele seja, pela simples razão que toda a superioridade desse inimigo cai pela base, quando choca com um menor número apoiado naquilo que a naK [ a grande vantagem da defensiva. Só há, na minha modesta opinião, um general na história que nós possamos comparar, quase como um espelho, com Nuno Álvares Pereira: é o Duque de Wellington. Nuno Álvares Pereira diz, não vamos fazer uma guerra guerreada, não vamos destruir as oliveiras em Sevilha, vamos direitos ao inimigo, porque temos que vencer o inimigo numa batalha, uma batalha decisiva. E como estava Portugal na altura? Estava todo unido? Não estava, estava dividido! Muitas fortalezas tinham dado voz por Castela, muitas outras tinham dado voz por D. Beatriz. Havia W a D. Leonor Teles e, ainda, as fortalezas que tinham dado voz pelo Mestre. Não era num terreno coeso, um terreno compacto, um terreno levantado com os alcaides dos castelos, que Nuno Álvares Pereira contava. Não! Nuno Álvares Pereira contava com outra coisa! Contava com um povo que tinha feito a revolução de 1383, contava com o germe da nação portuguesa. A sua crescente burguesia, os homens dos mesteres, era com esses que ele contava. Como chefe militar, para poder implementar e aplicar no campo de batalha as ideias que tinha não era fácil, porque ele era um homem à frente do seu tempo! E por isso aplicou o antídoto perfeito, a combinação do terreno, dos obstáculos e do poder de fogo, por detrás de uma parede de lanças, de tropas apea como se tratasse de uma falange oblíqua. Inventou alguma coisa Nuno Álvares Pereira? Aplicou vários conceitos e é muito difícil que um homem do século XIV, por mais que tivesse visto, por mais que tivesse falado, pudesse saber que a primeira vez que tal aconteceu foi em pleno século VI na Batalha de Pagina, quando um General bizantino chamado Narcés, destruiu a cavalaria Goda. Era muito difícil que ele pudesse aplicar “ipsisverbis”, aquilo que tinha sido feito em Créci! Era muito difícil que ele pudesse aplicar de uma forma precisa o que tinha sucedido em Poitiers. Era extremamente difícil, tinha que ser ele, por ele, no seu génio, na sua extraordinária capacidade de aplicar esses conceitos, porque esses conceitos já existiam há muito tempo. Nuno Álvares Pereira como chefe militar liderou pelo Exemplo. Se chefe militar houve que entendemos, nasceu muito tempo depois. Aquilo que nasceu com Nuno Álvares Pereira foi o âmago da própria infantaria - o combate de humildade, o combate onde o chefe e os seus subordinados estão ombro a ombro, agarrados ao chão. O combate da sobriedade, o combate da aplicação de todas as armas, mas acima de tudo o combate do empenhamento da própria Alma. E aí, nesse empenhamento da própria alma, Nuno Álvares Pereira, o místico, aparecia como mais ninguém; uma bandeira palavra para cada um dos seus homens, a forma de se dirigir antes da batalha àqueles se iam se bater sobre as suas ordens, incentivando-os e incutindo-lhes ' " que sejam não nos vencem, não só porque Deus está connosco mas porque somos muito melhores do que eles”. Em Aljubarrota, a forma como se dirige aos seus homens antes da batalha é extraordinária! O querer, a certeza, a renúncia à sua própria condição de Contestável, que o levam à primeira linha da batalha. E a segurança? Contrariando tanto daquilo que se diz de Nuno Álvares Pereira, tantos dos seus críticos sabem que depois da batalha de Aljubarrota Nuno Álvares Pereira não caiu na tentação de ordenar uma perseguição em < Aljubarrota. Era um princípio medieval? Pois era, mas também era princípio perseguir o inimigo. A quem é que ele entregou a perseguição? Onde é que ele pôs causaram mais de quatro mil baixas ao exército de Castela e que K decretasse dois anos de luto? Foi na ponte da Chiqueda, com a ' <* ' por Dom João de Ornelas, que era o Abade do Convento. Nuno Álvares Pereira sabia perfeitamente onde a batalha se ia travar, não foi ao acaso. Tal como nos Atoleiros, tal como em Valverde, impôs o círculo, impôs o ritmo, marcou o passo e venceu! A causa mais culta, a causa mais justa, a causa mais digna pela qual um Homem de Bem se pode e deve bater, essa causa é a dignidade, a integridade, a liberdade, a independência e a soberania da terra onde nascemos. E porque o representou como ninguém é que Nuno Álvares Pereira, muito antes de subir aos altares de Deus, subiu aos altares da Pátria e garantiu, e Deus queira que para sempre, a perenidade da Nação Portuguesa. AZIMUTE tivesse liderado pelo exemplo “Que eu seja o dianteiro” - ainda hoje é o lema de uma unidade de infantaria, - “Que eu seja o dianteiro”! Ele na frente, ele dando o peito ao inimigo, ele assumindo o lugar de maior perigo na vanguarda de Aljubarrota, ele assumindo o lugar de maior perigo na vanguarda dos Atoleiros, ele assumindo o lugar de maior perigo no cabeço de Valverde. E se mais pudéssemos dizer que não tivesse aqui sido mencionado, a astúcia, a aplicação de todas as vantagens que a defensiva traz. A aplicação de tudo quanto o espírito medieval trazia ao campo de batalha.Há em toda a executória de Nuno Álvares Pereira, a estratégia ofensiva e a batalha defensiva – vamos procurar o inimigo, vamos escolher o terreno e vamos vencê-los nesse terreno! Vamos aplicar as nossas armas contra o poder deles, vamos sobretudo impedir, e aqui o génio de Nuno Álvares, e aqui outro dos pontos marcantes da sua faceta militar - vamos impedir que o inimigo aplique contra nós toda a sua força! “Eles vêm à Batalha como nós queremos e não como eles querem”!. Em Aljubarrota isso é mais do que evidente, e em Atoleiros.Castela não podia aplicar toda a sua força, era completamente impossível em Aljubarrota. Entre os Ribeiros de Vale de Madeiros e do Curral da Mata, entrarem por ali dentro trinta e dois mil homens? Isso era o que eles traziam. Se eles tivessem conseguido atacar numa frente com quatro mil ou cinco mil era uma sorte! E mesmo assim vinham uns encostados aos outros. Vejamos agora o que Nuno Álvares Pereira representa, no meu conceito, como Patrono da Arma de Infantaria. O militar patrono da arma de infantaria, porquê? Será que a infantaria nasceu com Nuno Álvares Pereira? A infantaria, como nós a Azimute O COR Inf Refª Américo José Guimarães Fernandes Henriques é licenciado em Ciências Militares pela Academia Militar. Prestou serviço, entre outras unidades, na Escola Prática de Infantaria como instrutor, dos principais cursos da Escola, no Batalhão de Comandos de Moçambique, como professor no Instituto de Altos Estudo Militares e como Adido Militar junto à Embaixada de Portugal em Washington. Tem no seu curriculum vários cursos de que se desta = ]< Corse e o Curso Básico de Páraquedismo, nos EUA e o Curso de Estado-Maior no Reino Unido Após a sua passagem à situação de reserva e reforma a sua actividade tem continuado intensa desdobrando-se sobre duas grandes paixões: A História Militar, tendo sido conferencista na Bélgica, França e EUA. e a Tauromaquia. Tem vindo a participar vários em programas de Rádio e de Televisão, no âmbito das actividades referias, destacando-se a autoria do programa “Reis de Portugal”, editado em DVD pelo Círculo de Leitores e o programa “Três Andamentos” dedicado aos cavalos e touros. Nº 187 AGO09 25 AZIMUTE São Nuno de Santa Maria Um Santo Condestável e Carmelita D. Carlos A. Moreira Azevedo Bispo Auxiliar de Lisboa Tinha Nuno Álvares Pereira 23 anos quando a notícia da morte do rei D. Fernando lhe chegou ao solar da sua mulher D. Leonor de Alvim, da Quinta da Pedraça, em Cabeceiras de Basto. As exéquias reais seriam a 22 de Novembro. D. Álvaro seu pai pressionara este ca # K tinha escapado. Viria esta a casar#<% Mestre de Avis. A notícia da morte do Rei caiu no seu espírito pensativo como um motor de consequências que o abalavam. Um turbilhão de ideias passou-lhe no espírito. A morte ' da rainha regente capaz de desmandos perversos, o perigo de cair nas mãos de Castela, já que a úni da com o rei de Castela D. João I, agitavam a mente de Nuno. Ele conhecia a corte onde vivera e sabia que a nobreza se tinha habituado à ociosidade, à devassidão, à corrupção, cheia de intrigas. Aí conhecera João, Mestre de Avis, do qual se faria grande amigo para toda a vida. Partilharam os altos ideias da independência de Portugal. Como enfrentar um grave e terrível problema ético-político. %rito bem-razoado1. O jovem Nuno entusiasmara-se pelo ideal dos romances de cavalaria e ambicionara ser um cavaleiro da Távola Redonda < 1 Cf. CRONICA do Condestável de Portugal D. Nuno Álvares Pereira. Preparação do texto e introdução António Machado de Faria. Lisboa: Academia Portuguesa da História, 1972. Será de ter em conta a edição crítica de Adelino de Almeida Calado da Universidade de Coimbra, de 1991 e os estudos recentes de António Branco (Algarve) e de Gilberto Moiteiro (mestrado FCSH - 2006). 26 Nº 187 AGO09 o cavaleiro Galaaz, o místico puro. Quer em casa de seu pai, Prior do Hospital, quer na corte criou-se entre letrados e sabedores. Ele próprio lia para escapar à frivolidade e aborrecimento do ambiente. Eram estes heróis literários que alimentavam a mente do jovem Nuno. Desejava manter puro o seu coração e o seu corpo. A formação que tivera junto dos freires guerreiros da Ordem do Hospital incutira-lhe o ideal da cavalaria. Frei Álvaro Gonçalves Pereira ti de Santarém, em 1373, e a rainha D. Leonor tomou-o como seu escudeiro. De pequena estatura e com treze anos mostrava coragem e depressa foi investido cavaleiro, usando a mesma armadura do Mestre de Avis, feito cavaleiro aos seis anos. Nuno percebe a sua missão, como outrora o jovem Galaaz, capta o seu papel na difícil conjuntura % = D. Carlos Azevedo t f que a hora h lh destinava. d ti a tarefa lhe Importava encontrar uma solução para a crise, percorrer as etapas até alcançar os objectivos nobres que norteavam o seu entusiasmo ' < sua missão de ser braço armado do Mestre de Avis para abrir caminho ao destino de Portugal. Pára para pensar e amadurece a intuição que lhe apareceu caminho adequado para sair da crise. Inaceitável ter uma barregã como rainha, inaceitável o rei de Castela como Rei, ou proclamar como herdeiro o infante D. João preso em Toledo, ou seu irmão # # ! ] ! W que parece comandar da sua torre lisboeta os passos a dar e Nuno to do plano. Eliminar o Andeiro e proclamar o Mestre de Avis, com ampla simpatia popular, regedor e defensor do reino. Ao Mestre de Avis compete a missão de afastar o tirano. A teoria medieval do tiranicídio como obra de Deus, nas referências dos cronistas, relaciona-se, no dizer de António Ferreira Gomes, com os mestres do pensamento teológico-político, como João de Salisbúria. Este não só defendeu o tiranicídio como preferiu as monarquias electivas2. Ora Nuno Álvares, além das “estórias” de cavalaria, contactava com táctica guerreiras e também com polícas tic e diplomatas medievais. ticos Muitas vezes o que parece esto touvado é sábio, o que se apelida de enlouquecido é o visionário. A co coragem e a audácia, a determinaçã e o entusiasmo nascem-lhe de ção de dentro e contagiam-se. Só assim po ser a alma de um movimento pode re revolucionário. O seu magnetismo ve da pureza do seu ideal forte. vem Só assim pode avançar perante *] o Condestável e Mestre João das Re Regras era sobretudo ideológico. A entrada nas Cortes de Coimbra 2 GOMES, A.F. – Igreja na vida pública. Porto: Fundação Spes, 2003, p. 355. Foi publicada recentemente a peça de teatro do mesmo autor, escrita em 1931. GOMES, António Ferreira – Nuno de Santa Maria Herói e santo. Introdução de Guilherme d’ Oliveira Martins, estudo crítico de Maria Luísa Malato Boralho. Porto; Lisboa: Fundação Spes; Aletheia, 2009. W K verdadeiro impulso da bravura autêntica. O sucesso da Batalha de Atoleiros leva-o a agradecer e vai descalço e a pé em peregrinação a Santa Maria de Assumar, a duas léguas de Monforte. Convocadas as cortes para Coimbra em ordem a consolidar a escolha de um rei legítimo que aguente uma segunda invasão castelhana, congregam-se 134 pessoas, 72 representantes da nobreza, 12 do clero e 50 das cidades e vilas. Nuno Álvares seguiu com alguma impaciência aquela reunião que não via desfecho após alguns dias. Finalmente o Dr. João das Regras consegue expor as razões e conduzir à decisão desejada. desejada Impedir o invasor de chegar Imp a Lisboa Lisbo foi a sua luta seguinte. não seguiu os debates T Também políticos para os quais não tinha paciência. Foi com os seus homens c para Tomar desobedecendo ao p Rei. O letrado Gil d’Ossem vai ajudar o rei e mudar a agulha aju do Conselho do Governo e a seguir o Condestável. se Como foi santo? Soube ser chefe. Como S poderia ter transformado um pode p bando de gente sem disciplina band estrutura em exército coee es rente? Sendo intransigente nos rente princípios morais, duro na execuprincíp na disciplina militar. ção, rigoroso rig a guerra estava Ao enfrentar A e consciente da sua justiça e cons honra, na defesa da terra e dos honr bens, não como força contra ben ou contra Deus. Não o direito d castigava com destempero, cast mas com brandura, de modo ma que os seus homens tinham dele “mais reverência que tedel (Crónica de D. João I, 425.). mor” (Cr Usava de fraternidade na relação com os soldados no respeito pela sua dignidade humana, independentemente da função. Criava com os capitães e homens de armas uma família, capaz de alegria serena, dado o seu carácter: “seu bom gasalhado”, “seu ledo semblante”, “suas doces palavras”. Sabia repartir com generosidade, sem qualquer cobiça, o que resultasse das incursões e fosse tomado ao inimigo. Em 1393, acabaria por distribuir as abundantes terras e rendas que o rei lhe oferecera pelos cavaleiros e escudeiros que o seguiram. Quando terminada a guerra faz a distribuição das terras, que soubera pedir, pelos homens que o acompanharam nos combates obedecia a uma concepção da sociedade, de um “povo económica, como vertebração de uma pátria livre”3. A sua benignidade brilhava mesmo para com os inimigos, uma vez que não odiava os adversários, nem permitia que a paixão dominasse o ardor da luta. Por isso cuidava dos prisioneiros e feridos, não deixava que destruíssem aldeias ou campos cultivados. Amparava as mulheres, crianças e pobres. Em momento de especial carestia distribuiu à sua custa pelos castelhanos 6400 alqueires de trigo. Era manifesto o respeito que estas atitudes de ética cristã gerava. Nuno era puro de coração. Como competia a uma alma forte, a integridade dos seus costumes dava estabilidade à sua missão. A clareza sincera da sua energia espiritual desenvolvia-se em sólidas convicções. Nuno Álvares não aceitava os desvarios dos soldados e não só os prevenia, mas também castigava as desordens. > K contrariedades porque a tropa estava habituada aos abusos sexuais '\< a que obrigava as tropas contribuiu para uma vida sadia. Na base de toda as suas atitudes estava a fé profunda em Deus. Todos os dias, mesmo em tempo de guerra, cumpria os seus deveres religiosos. Sabia reconhecer a Deus as vitórias e sucessos militares, enquanto os outros se limitavam à festa. Fez erguer em Aljubarrota a ermida a s. Jorge. Deslocava-se em peregrinação aos santuários vizinhos do lugar do combate. Assim aconteceu depois da batalha dos Atoleiros indo a pé a Santa Maria de Assumar (perto de Monforte) e após Aljubarrota a Santa Maria de Seiça (Ourém). Um facto se evidencia durante a batalha de Valverde. Rezava serenamente em êxtase, apesar de ser reclamado pelos companheiros de armas. Sabia que a atenção orante AZIMUTE tarde contra o teólogo, conduz ao absolutismo monárquico. Nuno Álvares está preocupado e em ten por ter aderido à “revolução social da burguesia e conduzido as suas acções militares” e não querer voltar ao “antigo regime”. A cavalaria valorizava a coragem, a lealdade e a generosidade. < promissos, à fé e à Igreja aliava-se à cortesia nas relações sociais e à responsabilidade, seja pelo empenho na defesa dos mais débeis e humildes, seja no uso das armas para honra da pátria e progresso da liberdade dos povos. À burguesia, que acolhia o momento para com o espírito de novas leis subir ao poder, Nuno ereira Álvares Pereira fazia notar que ornão importa fazer leiss para um paíss que não lhess pertencia, pois is estava ainda a no domínio o da Rainha. a. Fundamental era agir, vencer cer os obstáculos e não prudências medrosas. São sempre empre acusados de e ser temerários oss que tomam a dianteira anteira na construção ão de um futuro novo. ovo. A devolução da a liberdade e da dignidanidade ao país exige xige riscos. Não pode ode ser traidor de si próprio porque D e u s o inspira no caminho i h da d justiça. j i Não cede a honras que lhe prometem para nada fazer, não cede aos pequenos afectos diante do amor da pátria. Diante da diferença numérica e da desigualdade de preparação dos exércitos não teme. A causa nobre e justa que demanda concentrava todas as energias. O país inteiro carregava nele a sua esperança. A prece que realizava antes dos grandes embates concedialhe a serenidade para as decisões 3 Ibid. p. 357. Nº 187 AGO09 27 AZIMUTE lhe daria a razão e a medida da acção bélica. Em gratidão mandou construir, no Carmo, o Convento de Nossa Senhora do Vencimento para os carmelitas, que conhecera bem nas lides alentejanas. Como Deus estava sempre presente nas grandes decisões da sua vida, em grande unidade interior, agora que estava feita a paz com Castela a 31 de Outubro de 1411, podia dedicar-se ao que desde criança aspirava: a vida entregue totalmente a Deus. Pensou sair do Reino e juntou companheiros. D. João I enviou três mensageiros, cada vez mais pesados e só o terceiro, o arcebispo de Évora, conseguiu demover Nuno Álvares. Invocava o Condestável que não tinha que fazer nada na guerra pela defesa do reino, “mas no seu íntimo pensaria antes que não tinha já que fazer na paz”4. Não concordava com o rumo político-social que o país levou. > yky parto em Chaves e Nuno Álvares vai de Vila Viçosa a Vila do Conde sepultar o último laço afectivo. Regressaria ao Alentejo e aí, em Arraiolos, D. João I o consultaria sobre a expedição a Ceuta, na qual manifestou gosto em participar. % Agosto de 1422, após repartir terras em favor dos netos, perdoar as dívidas, dar todos os bens a cavaleiros, escudeiros e pobres, entrou no Convento do Carmo como simples cristão. Seria admitido a 15 de Agosto de 1423, 38 anos depois de Aljubarrota. Passou a ser Nuno de Santa Maria, com marca extremamente simples e modesta, nos últimos oito anos da sua vida. A própria tença a que D. Duarte o 4 Ibid. p. 357. 28 Nº 187 AGO09 obriga distribui-a em esmolas e ele mesmo pede para os pobres. Foi esta atitude radical do que fora o % que conquistou o coração do povo de Lisboa. Optar por viver numa cela solitária e escura, com apenas mesa de pinho, catre e manta lêncio e na contemplação, na humildade e no abandono a Deus era prova de santidade. O que o levou a esta decisão? As tentativas puramente espirituais e místicas ou as melancólicas não explicam tudo. António Ferreira Gomes aponta a necessidade de ligar as duas decisões: a de sair do país com a da opção pelo claustro. Era a recusa em participar na administração e na política em virtude de uma diferente visão política e social. Porque não a apresentou? Os amigos, o Rei discordavam de tanta severidade do donato carmelita e não do se lembravam que também bé como combatente ele el era raro nas atitudes de e despropositado nas na decisões. Ora a sua profunda amizade ao rei pr e aos infantes conduziao a calar, porque tinham optado pela ordem nova op do letrado. Por outro lado lad na sua profunda penetração intelectual pe convenceu-se de que já co era er tarde e impossível e moralmente inadmissível. por isso mora Ao morrer a 1 de Abril de 1431, dia de Páscoa, estavam presentes ! o evangelho de S. João e cerrou as palavras de Jesus a Maria pronunciadas do alto da cruz: “Eis aí o $< \ apelidou Pai da Pátria, morre feliz # nos braços de Maria, por quem nutriu especial devoção. Desde o dobrar dos sinos, a anunciar a sua morte, a multidão entendeu que tinha um santo a quem recorrer porque já estava na glória de Deus. Logo prestou culto. O Papa Bento XV aprovou esse culto a 23 de Janeiro de 1918, após longo processo. Ainda que projectada a canonização logo em 1437, como se prova por carta do rei D. Duarte ao beneditino João Gomes, abade do mosteiro de Florença, só a iniciada em 1914, obtém, em 1918, resultados # '\ do século XV, houve longo silêncio até 1674, quando se regista uma súplica do episcopado português, sem resultado. Novo espaço se W W ¡=¡ e início do século XX. Não merecia tanto desprezo quem tanto fez pela pátria. Raras vezes na história um herói que alterou a história de um povo, é um santo, que não precisa de lenda para ser grande na integridade de carácter, na inteireza de costumes, na unidade de vida. Têm sido as lendas a reduzir a personagem a um sanhudo impetuoso, um Orlando furioso, dado a intervalos místicos. Estamos perante um extraordinário chefe militar, marcado pela ética cristã. Estamos diante de alguém com uma visão para o país, pautado por valores cristãos. Venceu nas armas por causas nobres, venceu-se a si mesmo pela entrega a Deus. São assim os santos: deslumbrantes, a dar carne à transcendência. Azimute Professor da Faculdade de Teologia desde 1987, foi Vice-Reitor da Universidade Católica Portuguesa entre 2000-2004, director do Centro de Estudos de História Religiosa e das revistas Lusitânia Sacra (19922000). Humanística e Teologia (1987-2000) e Museu (1993-1996), do Museu Nacional de Soares dos Reis e Cónego da Sé do Porto (1996-2005). É membro da Academia Portuguesa da História, desde 1996. Bispo auxiliar de Lisboa, desde 2005, foi Secretário da Conferência Episcopal Portuguesa (2005-2008) e é Presidente da Comissão Episcopal de Pastoral social desde 2008. Entre perto de uma centena de trabalhos publicados, importa destacar os seguintes, pela relação com o tema a tratar: Explicação prévia. In GOMES, António Ferreira, bispo – Nuno de Santa Maria: herói e santo. Lisboa: Fundação Spes; Aletheia > `}}{ ¢ = de São Nuno de Santa Maria. in Ecclesia 2009. TCor Inf Luís Barroso O objectivo deste texto é colocar em fase a Batalha de Aljubarrota no âmbito da situação política e militar na Europa. Não se pretende descrever a guerra dos cem anos, mas tão só fazer relevar os factores políticos e militares que acabaram por in '\ ! * ram a batalha de Aljubarrota. Para focalizar o argumento, estabelecemos dois pontos de referência: (1) A situação política, expressa numa crise inter entre reinos; e (2) os aparelhos militares em confronto: o feudal, puro, Francês; e o britânico, uma síntese do feudal com o “software” desenvolvido pelas experiências na Escócia. A situação política na Europa do último quar W ¡= francês que veio a ser conhecido pela Guerra dos Cem Anos. Estava-se no alvor dos tempos modernos enquanto o sistema feudal agonizava por não conseguir responder às necessidades da sociedade, nomeadamente ao desenvolvimento comercial e à emergência de uma burguesia cada vez mais * ] W movimentos dos bárbaros para Europa, que fez escassear a actividade comercial, nomeadamente a relacionada com as especiarias, na bacia mediterrânica. As populações fugiram das cidades e orientam-se na exploração da terra. Este sistema político foi particularmente evidente no centro da Europa, especialmente em França e na actual Alemanha. A guerra era assunto de senhores, nobres cavaleiros, que gravitavam em torno do Rei, e lutava-se pela posse de terra, honra e por sucessão dinástica. A Situação Política na Europa A nossa breve história inicia-se com a crise política entre a França e a Inglaterra. Pretensões territoriais, pretensões ao trono e o controlo do comércio no norte da Europa foram as razões principais £ yy¢< guerra iniciou-se no declínio do sistema feudal e AZIMUTE A Situação Político-Militar na Guerra dos Cem Anos (1337-1453) terminou nos alvores da idade moderna. No âmbito político, a guerra dos cem anos tem cia decisiva: a consolidação das monar do sistema feudal. Os dois protagonistas marcariam de forma indelével a história da Europa. Europa Por um lado, a França, de orientação europeia, potência continental, iniciou neste período a sua ca '% ria seriamente abalada após a derrota de Napoleão frente a Wellington. A França era o país mais populoso da Europa, com 16 milhões de habitantes, era o maior produtor de vinhos e cereais, e dispunha do exército mais numeroso. Todavia, por ser constituído maioritariamente por “exércitos particulares” de senhores feudais que colocaram Filipe VI no trono, tornou-o refém dos seus interesses. Por outro, a Inglaterra, afastada do continente europeu pelo Canal da Mancha, estava demasiado afastada para ter acesso fácil a uma potência continental, *W os acontecimentos no continente. Por conseguinte, qualquer ponto de apoio no continente era um factor central na estratégia inglesa, onde a dimensão económica seria factor chave. A Inglaterra tinha cerca de 5 milhões de habitantes, uma economia dependente do comércio de tecidos com a Flandres, e um exército unido em torno do rei Eduardo III e com experiência das campanhas da Escócia. Historicamente, as causas da Guerra dos Cem Anos remontam à conquista de Inglaterra por Guilherme, o Conquistador, que manteve no Nº 187 AGO09 29 AZIMUTE continente extensos domínios senhoriais, nomeadamente em França, algo que ameaçava o projecto de consolidação da monarquia francesa. Em 1332, Eduardo III, o rei de Inglaterra, lançase numa campanha militar na Escócia mas, embora vencesse as batalhas “convencionais”, nunca obteve o sucesso pretendido, devido às tácticas de guerrilha dos escoceses. Neste âmbito, um ponto importante nas relações anglo-francesas era a simpatia e o apoio da casa real francesa aos “rebeldes escoceses”, já que, em 1331, tinham decorrido em Paris as negociações franco-escocesas que estabeleceram o apoio francês à precária independência escocesa. Isto era um sério aviso a Eduardo III. Também as conhecidas pretensões francesas sobre os feudos em França, a Guiena e a Gosconha, territórios com elevada produção de vinhos, pertença da casa real inglesa, eram motivo de preocupação para Eduardo III. O facto de serem feudos, fazia com que o rei inglês não os pudesse governar com toda a autonomia, porque devia vassalagem a Filipe VI, rei de França. Este, como senhor feudal, podia intervir judicialmente para impor a sua autoridade. Para marcar a sua '= ? posta, Eduardo III reivindicou o trono de França, o que obrigaria Filipe VI a devolver a região. Todavia, o rei de França impôs o aumento de imposto sobre os vinhos a comercializar em Inglaterra, causando mal-estar aos comerciantes ingleses. A pretensão de Eduardo III ao trono de França advinha do facto de ser neto do rei Filipe IV, O Belo, _ > == Filipe VI, sobrinho de Filipe IV, acabou por lhe suceder, porque, numa reunião de grandes senhores ' £y`|=se coroado rei de França, por considerarem que o direito de sucessão não podia advir de linhagem materna – a Lei Sálica. Mas nem as pretensões territoriais em França e eram motivo de diferendo anglo-francês, onde a *W le levante. A Flandres era um ducado cuja suserania p pertencia ao rei de França. As grandes cidades do c condado (Bruges, Gent, Ipres) tinham conseguido u elevado grau de autonomia devido ao papel um c cada vez mais importante da sua burguesia. Na n nada com as lãs e tecidos, que a ligava a Inglaterra, o onde se produzia lã e não havia indústria de tec celagem. Eduardo III, para instigar a revolta dos * * ' * e exportação de lãs para a Flandres para obrigar = ] y| in iniciaram-se um conjunto de revoltas nas principais c cidades da Flandres e que as leva a aliarem-se a E Eduardo III. Com mais este foco de atrito entrava-se irrem mediavelmente no caminho da guerra. Eduardo III e estabelece contactos diplomáticos com a Holanda, A Alemanha e Itália para granjear apoios contra a F França. Acaba com o embargo das lãs e jura apod derar-se do trono de França. A França foi apoiada p pela Boémia, Castela, Escócia. A França estava c convencida da vitória, porque a sua numerosa cav valaria lhe parecia invencível. Figura 1 -Territórios ingleses em França 30 Nº 187 AGO09 O primeiro embate militar dá-se em 1340, a norte de Bruges, na batalha naval de L’Ecluse, que foi a aclamada pelos inglese como a “Trafalgar da Idade M Média” e que consumava a caminhada decisiva p para o controlo do Canal da Mancha. AZIMUTE c convenceu o Papa Clemente V a mudar-se para < * ! < às à intrigas políticas em Roma, e às disputas sem = % França (1309-1378), sete papas e cerca de 1000 F cardeais eram originários de França. Considerando c a Igreja como um importante factor ordenador do ' sobre a cristandade. s Entre 1379 e 1417, devido a lutas de poder entre cardeais, chega a haver dois papados, o de e Figura 2 - Batalha de L’Ecluse Alguns combates de pequena envergadura iam sendo travados em solo francês, demonstrando a Filipe VI que os aguerridos ingleses, mesmo famintos e com frio, eram um temível adversário para a sua cavalaria. Em 1346 trava-se a batalha de Crécy com resultados que todos conhecem e que mais adiante se voltará. A 1 de Agosto de 1350, Filipe VI morre e é coroado João II, João-o-Bom. Tinha uma tarefa hercúlea pela frente: reerguer a França, exaurida pela guerra, peste negra e fome, devido a sucessivas más campanhas agrícolas. > === *W W dades domésticas, essencialmente devidas a excessos de cobrança de impostos para pagar os empréstimos que tinha contraído junto de italianos e holandeses. Por conseguinte, nada melhor que um empenhamento em França para unir esforços e levantar os ânimos da nação. Propôs a João II que abdicava das suas pretensões ao trono se lhe fosse concedida a soberania sobre os territórios em França ocupados pelas suas tropas. João II recusa terminantemente e Eduardo decide invadir a França. Fê-lo por dois locais: ele próprio pela Normandia !% pelo Sul, junto a Bordéus. Depois de algumas escaramuças, em 1356, junto a Poitiers, trava-se uma batalha que tem como resultado mais importante a captura do rei francês. Acaba por ser libertado pelo tratado de Brétigny (1360) contra o pagamento de 3 milhões de escudos-ouro, a cedência do ducado da Aquitânia e da cidade de Calais. Este momento % = em França. Outro ponto de elevada importância na situa' % > como o Cisma do Ocidente: a existência simultânea dos papados de Avignon e de Roma. Filipe IV Figura 3 - Alinhamentos com os papados de Avignon e de Roma Avignon e o de Roma, que dividiu as principais potências quanto ao seu reconhecimento. A França, Castela, Nápoles e Escócia deviam obediência ao papa de Avignon. A Inglaterra, reinos escandinavos e Itália obedeciam a Roma. Portugal, durante o reinado de D. Fernando obedecia a Avignon e o mestre de Aviz, para marcar a sua diferença com a política externa de D. Fernando, alinhou-se com Roma. A Situação Militar Como foi apresentado, encontramo-nos na fase descendente do sistema feudal. Este período tinha visto renascer a importância da mobilidade, dos arreios e da lança que, em síntese, originava o poder de choque, não sendo necessário ao cavaleiros o arremesso de lanças. Num choque entre cavalarias, tal como num combate de forças blindadas ou numa batalha naval, a vantagem advinha de um misto de velocidade, protecção e alcance. O alcance provinha de lanças mais compridas. A protecção advinha da utilização da armadura. Quando as campanhas eram prolongadas eram necessárias várias montadas. Além disso, o cavaleiro necessitava de quem lhe transportasse o Nº 187 AGO09 31 AZIMUTE escudo, de um moço de fretes, de um batedor a cavalo e de uma ou duas sentinelas. Assim, o cavaleiro transformou-se numa lança, uma equipa de meia dúzia de homens, que funcionava tal como hoje a guarnição de um carro de combate. Além do mais, esta parafernália tornou-se demasiado dispendiosa. Pegar em armas, ter brasão no elmo e símbolos no escudo facilmente reconhecíveis em combate, era sinónimo de nobreza. Ser cavaleiro era, acima de tudo, uma forma de vida sancionada e civilizada pelas cerimónias da igreja. Este era o tributo da Igreja perante os serviços prestados pela cavalaria à cristandade. Este era o típico aparelho militar Francês, que defrontou inicialmente os ingleses em Crécy e Poitiers. Os ingleses tinham combinado a cavalaria feudal com soldados de infantaria e, entre eles, sol- essencialmente à cadência de tiro e ao alcance, cinco a seis disparos por minuto e alcances da ordem dos trezentos metros. No período que interessa para o objectivo deste texto, duas batalhas deixaram uma marca indelével na arte da guerra: a batalha de Crécy (1346) e a batalha de Poitiers (1356). Nestas duas batalhas é francamente notória a diferença entre os dois aparelhos militares em confronto. Em Crécy (24 de Agosto de 1346), após algumas escaramuças e perseguição de Filipe VI, Eduardo decide-se a tomar posição, aproveitando o terreno para minimizar a sua vantagem numérica (1:2). < to para ocupar uma posição defensiva preparada. Dispõe a infantaria em primeiro escalão e manda apear a cavalaria para que combatam como tinham fe nas campanhas da Escócia, entre os arqueifeito ro para os encorajar a manter as suas posições. ros, O franceses, sem reconhecerem a posição ingleOs s avançam em levas sucessivas, com a infantaria sa, g genovesa (mercenários) à frente, de forma dessin K < K a cordas das bestas, pelo que era muito difícil a as s utilização. sua Figura 4 - A cavalaria era o elemento central do aparelho militar francês dados arqueiros cujo valor militar tinha já sido de ? W¡==£> I), onde as montanhas eram o terreno típico, onde a cavalaria, treinada para combate simétrico e em * K > utilizar batedores para arrancar os galeses dos seus esconderijos e os arqueiros, que utilizavam o arco longo, tinham substituído os besteiros devido Figura 6 – Imagem da batalha de Crécy Figura 5 – O sistema militar inglês era baseado na combinação de efeitos da cavalaria com os arqueiros 32 Nº 187 AGO09 Os arqueiros ingleses obrigam os genoveses ' c cavalaria francesa, tornando-se alvo fácil para os a arqueiros e para os cavaleiros ingleses apeados. N Não obstante, o mais admirável de Crécy não foi ta tanto o efeito produzido pelos arqueiros ingleses, m a constatação de que os combatentes apeamas d não fugiram à primeira carga da cavalaria. Na dos re realidade, a batalha põe em evidência o combate a apeado a partir de uma posição bem escolhida e p preparada. AZIMUTE c comando das tropas inglesas, dispõe as suas forças ç em terreno preparado e de difícil acesso, porque q para aceder à posição era necessário passar da d posição, de onde era possível concentrar os * == K o seu exército em 3 batalhas, dispostas em profundidade e ordenou a um grupo de cerca de 300 cad valeiros que penetrasse a posição inglesa através v ] ' franceses a recuar e o príncipe negro ordena de fr imediato um contra-ataque frontal com a sua cavaim laria, formada por homens de armas e arqueiros a la cavalo. Ao mesmo tempo executa um envolvimenc to sobre a 2ª batalha, desorganizando a formação francesa, que, com os cavaleiros apeados, não refr siste ao choque inglês. s Conclusão C Figura 7 - Esquema do dispositivo inicial da batalha de Crécy Em 13 de Setembro de 1356, em Poitiers, os franceses são novamente derrotados, essencialmente devido à excelente escolha de terreno defensivo dos ingleses e ao efeito da concentração das setas dos arqueiros. O Príncipe Negro, no * va v em Aljubarrota, porque mostra a importância da preparação do terreno e a importância do combate p apeado. A escolha do terreno serviu para compena sar a inferioridade numérica e a mobilidade da cavalaria foi decisiva para tirar partido das circunstâncias favoráveis do combate. < “software”: reduzir vulnerabilidades; explorar potencialidades; e aproveitar as circunstâncias do c combate. O triunfo da ordem e da disciplina sobre a coragem cega da cavalaria. c Azimute O TCor Inf Luís Fernando Machado Barroso é Licenciado em Ciências Militares pela Academia Militar e Mestre em História, Defesa e Relações Internacionais pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e das Empresas. Prestou serviço, entre outras unidades, na Escola Prática de Infantaria como instrutor, dos principais cursos da Escola e no Instituto de Altos Estudos Militares, onde frequentou o Curso de Estado-Maior entre 2003-2005, tendo de seguida sido ali colocado em 2005 como professor de Técnicas de Estado-Maior e Táctica na Área de >>% >W Presentemente é Doutorando em História, Defesa, e Relações Internacionais no mesmo Instituto. Figura 8 – Esquema da batalha de Poitiers, onde se nota (ao centro da imagem) o envolvimento da cavalaria inglesa É colaborador frequente de várias publicações e revistas, entre as quais a “Azimute”, Revista Militar de Infantaria. Nº 187 AGO09 33 AZIMUTE O Armamento da Época Medieval TCor Inf Mário Álvares Da Pré-história à Idade Média Paleolítico é o período de maior duração, com cerca de seiscentos mil anos, bem como o período de ' tores que obrigaram a adaptações funcionais daquilo que serão as primeiras armas de mão e de arremesso. Nesse período, a totalidade da Eurásia, com excepção da Europa mediterrânea, estava convertida em campos desérticos e inabitáveis devendo ser acrescentada a actividade de diversos fenómenos tectónicos. Nessa altura o homem não tinha local W vestuário. Ou seja, poucas características o distinguiam do animal comum. No entanto, é neste período que cria o primeiro utensílio, a pedra. Esse simples instrumento, que até um animal com reduzida capacidade utiliza para quebrar cascas, foi pela primeira vez empregue pelo homem. O Homo Habilis, considerado como o verdadeiro ancestral do homem moderno, manipulava esse objecto dando-lhe formas que como pedaços de pedra mal talhados (ver Figura n.º1) com uma ou mais arestas A Pré-História tem o seu início com as primeiras demonstrações de actividade humana. Embora possam existir outras, a divisão mais clássica e generalizada para partição desse período longo de evolução da humanidade, foi a criada pelo dinamarquês Thomsen, no Século XIX, para *_ Copenhaga. Essa divisão engloba as seguintes áreas de evolução: ¤Pedra Lascada ou Paleolítico (600.000 a.C. a 10.000 a.C.) – Idade Antiga da Pedra; ¤Mesolítico ou Média Idade Média (10.000 a 5.000 a.C.) – Idade Média da Pedra; ¤Pedra Polida ou Neolítico (5.000 a 2000 a.C.) – Idade Nova da Pedra; ¤Período dos Metais (Cobre, Bronze e Ferro) (2.000 a.C. a 400 d.C.). De toda a Pré-História, indubitavelmente, o Mais tarde, pró. ximo do Paleolítico Médio (90.000 a.C.) o homem aprendeu a rentabilizar o uso do fogo o que lhe permitiu, para alem da protecção do frio, cozinhar alimentos. É então que se dá a transformação gradual para uma comunidade de tipo mais avançada. O homem desce das árvores, passa a habitar em cavernas e desenvolve utensílios para apoio à caça e defesa contra predadores. ! % rior (cerca de 10.000 a.C.), surge a pedra talhada em pequenas dimensões dando lugar a machados £ ¥` ' K madeira para o fabrico de cabos (empunhaduras). No Mesolítico (10.000 – 5.000 a.C.) o homem passou a trabalhar o barro e embora continuando a Introdução Escrever sobre aquilo que foi o armamento da época medieval é, também, escrever sobre o que foi o progresso da humanidade. Uma abordagem avulsa de características técnicas das diferentes fases do desenvolvimento das armas, sem qualquer enquadramento histórico e social, torna confusa e por vezes sem sentido esse progresso. Assim, neste artigo, abordarei a evolução do armamento mas, também, os principais períodos de crescimento da humanidade, onde evidenciarei, W túcia do homem no fabrico e aperfeiçoamento das armas face à sempre imperiosa necessidade da reposição dos equilíbrios de poder. Pontualmente, sempre que se revele oportuno, procurarei aprofundar a evolução da Infantaria e da Cavalaria, principais armas combatentes do período em análise = mente esta abordagem a partir de alguns sítios da Internet e na publicação por mim compilada em 2003, enquanto professor da Academia Militar, escola onde fui responsável pela Cadeira de Elementos de Armamento. 34 Nº 187 AGO09 Figura n.º1. CANBY, Courtland – op. cit Mas será o bronze (2.000 a. C. a 1.000 d.C), liga de cobre e estanho, que irá obrigar o homem a introduzir uma alteração profunda nos modelos de armamento empregues até então, colocando um = ! até então empregue tão importante como viria a ser a pólvora na Idade Média, que. A partir desse período as armas como machados ou lanças passam a ligar-se às empunhaduras por mangas (ver Figura n.º3). O desenvolvimento do bronze só seria ultrapassado pelo ferro, essencialmente pelo seu baixo custo e, mais tarde, quando descoberta a metalurgia do aço. AZIMUTE utilizar a pedra, fabricava redes, machados, pontas de lança ou anzóis. Mas é no período da Pedra Polida que, ao nível do armamento, se marca o crescimento que passaria a ser determinante para os estádios de desenvolvimento seguintes. A arma, que até então tinha uma utilização voltada para a caça e trabalho doméstico, passa a ter uma aplicação militar. Nesse período, destaca-se o surgimento do arco ' * a alterar o seu conceito de luta. Com essa nova arma de projecção de tiro o homem via-se obrigado a barricar-se para protecção dos projécteis, bem como a criar outros equipamentos de defesa individual de forma a permitir o lançamento de armas de arremesso, como a lança. Escudo em couro >* vegetal Machado em pedra polida Figura n.º3. CANBY, Courtland – op. cit. Nasce Pontas de setas e lanças em bronze Figura nº2. SEGRELLES, Vincent – op. cit. assim o escudo e a armadura. O escudo, numa * * ' eram feitos com um ramo esticado por uma corda, W % K bre que – pese embora as suas fracas qualidades mecânicas (razão pela qual não contribuiu para a demarcação de um estádio do desenvolvimento da humanidade) quando comparado com a pedra (ver Figura n.º2) –, veio a revelar-se muito útil no melhoramento de algumas armas, nomeadamente em pontas de setas e lanças. Já no Período dos Metais (2.000 a.C a 400 d.C.) surge a roda (2.000 a.C.) que, conjugado com o > % ' grandes civilizações do “Antigo Oriente” (que compreende o Irão, a Ásia Menor, a Síria e o Egipto) como os Sumérios, os Hícsos, os Egípcios ou os Assírios. A sociedade Suméria era essencialmente urbana. O exército era composto por homens livres " $ ras de seis homens armados com arco e lança. Usavam capacetes de couro e um pesado escudo. Conheciam o uso dos carros de combate com tracção animal que eram extremamente pesados e de difícil manejo. Já os Egípcios eram uma grande potência militar, tendo conquistado a Síria, Palestina, Líbia e a Núbia. Aprenderam a dominar o cavalo e a fabricar o arco curto, mas cedo reconhecem que montar a cavalo e disparar em simultâneo requeria muita experiência, unicamente alcançável à custa de um treino desenvolvido desde tenra idade (nesse período ainda não se conhecia o emprego generalizado do estribo, do arreio e do freio sistemas que viriam a facilitar o controlo dos animais). Assim, passaram a adoptar e aperfeiçoar um tipo de carro com duas rodas, herdado dos Hicsos, equipado com condutor e archeiro, o que lhes conferia um notável poder de choque e fogo. Entretanto, nesse período, era a cavalaria que decidia o combate, enquanto que a infantaria não Nº 187 AGO09 35 AZIMUTE passava de uma massa heterogénea que pouco mais fazia do que desempenhar tarefas auxiliares. A Infantaria, em tronco nu, mas com o abdómen protegido por panos revestidos por placas de couro, transportava lanças de ponta curva e escudos de madeira revestidos a couro. Eventualmente po ou sílex. Entretanto e em consequência do maior ' se vários tipos de defesas. Surgem as vestes a cobrir todo o corpo e, pela primeira vez, capacetes de protecção metálicos com couro reforçado. Algumas unidades de elite equipavam com couraças de lâminas de couro ou com couraças com cerca de dez espessuras de linho prensado. Este tipo rudimentar de armadura não garantia protecção contra armas de estocada ou ponta mas garantia alguma defesa contra armas de mão de punho, de corte ou gume. Figura n.º4. Infantaria Egípcia - FUNCKEN, Liliane et Fred – op. cit. = ção de três grandes civilizações: Grega, Persa e Romana. O auge da civilização Grega situou-se no Século V a.C., nas Cidades-Estado de Atenas e Esparta. Com os gregos as campanhas militares passaram a ser desenvolvidas a partir de formações padroniK sistemas de armas empregues, traduzindo assim um exército organizado em: Psilitas equipados com arco, funda ou azagaia e grevas metálicas; Hoplitas equipados com couraça, escudo oval, pique (4 a 6 metros) e grevas metálicas; Peltastas equipados com couraça com placas de estanho e lâminas de couro, pique e espada curta; ¤e Cavalaria a cavalo ou em carros de combate. 36 Nº 187 AGO09 Figura n.º5. Infantaria Grega - SEGRELLES, Vincent – op. cit. Mas no mesmo período, cerca de um Século mais tarde, depois de Alexandre ter construído um grande império no Oriente, Roma conquistou as terras do Mediterrâneo Ocidental e quase todos os Estados helénicos, a Oriente, incluindo a própria Grécia. O seu domínio, marcado por três períodos díspares em organização e modo de governar (Monarquia – até 509 a.C., República – até 32 a.C. e Império – até 410 d.C.), era consubstanciado num poderoso aparelho militar. Em termos de equipamento o soldado romano utilizava capacete de ferro com argola na parte superior para que pudesse ser transportado ao ombro durante as marchas (quando sem capacete utilizavam um gorro de lã). Sobre a túnica colocavam uma couraça anatómica ou chapas de metal que não afectassem os movimentos. Essa couraça, de tipo helénica, é característica dos soldados de Túlio Hostílio (672 a.C. a 640 a.C.). A partir de Mário (157 a.C. a 86 a.C.), político e general da República Romana, os Legionários passam a adoptar uma cota de malha, provavelmente imputada aos gauleses, e que se denominava lorega. Da cintura pendiam tiras de couro endurecidas e nas pernas usavam grevas metálicas ou sandálias. Os escudos apresentavam as formas circulares ou rectangulares com um depósito central onde guardavam objectos de valor. A cavalaria utilizava escudos redondos de pequenas dimensões. A partir da época de Júlio César os escudos abandonaram a tradicional forma oval e passaram a adoptar a forma rectangular. Como armas ofensivas utilizavam uma espada curta de dois gumes (gládio). Podiam ainda utilizar um pique ou uma pequena lança curta de arremesso, o pilum, que quando lançada contra um % tornava impossível ser retirada do corpo. Porém, a partir de 400 d.C, a luta desenfreada Nº 187 AGO09 AZIMUTE Próximo Oriente. Para os Bizantinos a guerra era uma ciência. O treino militar era intenso e vários compêndios militares foram escritos. Por seu turno, a Europa Ocidental, atingia o “máximo de desorganização”. O Ex-Império de Carlos Magno encontrava-se dividido num grande número de reinos e ducados tribais auto-subsistentes. Todavia, e tal como = união, dando origem a um novo Estado antecessor da moderna Alemanha, o Santo Império Romano-Germânico. A Idade Média e as novas organizações Entretanto, nesmilitares te período, conturbado para a Europa A Idade Média foi um termo criado pelos Ocidental, no Oriente, Europeus no Século XVII para exprimir, no seu uma grande civilização ponto de vista, um longo e melancólico período que tinha o seu cende interrupção da evolução civilizacional, marcatro, tal como hoje, no Figura n.º7. Militares e armamento árabe do pela queda do Império Romano do Ocidente, SEGRELLES, Vincent – op. cit. mundo árabe, atingiu o e que se prolongou até 1.500 d.C., ano em que apogeu. Constantinopla, capital do Império Romano do A reunião de povos como os egípcios, árabes, Oriente, foi conquistada pelos Turcos. =W ] assírios e palestinos deu origem à criação de um exército heterogéneo onde se destacava uma exe início da Idade Média o cristianismo era o único elo celente cavalaria e archeiros de elevada precisão. cultural que ligava os povos da Europa Ocidental. O seu exército era modelado por persas e bizanMas em 800 d.C. um novo reino, reunindo vátinos. Cada divisão tinha duas alas de lanceiros a rias populações Bárbaras, como os Francos e os cavalo, as quais cobriam a vanguarda, e na retaLombardos, formou um novo Império restaurando o guarda, uma infantaria ligeira e pesada equipada antigo Império Romano do Ocidente. A sua exten são era comparável àquela que o Império Ocidental As armas ofensivas e defensivas dos Árabes da antiga Roma tinha alcançado. O rei mais famoso eram, no seu aspecto funcional, as mesmas que desse Império foi Carlos Magno que governaria até as dos seus opositores embora com mais ornatos e cerca de 814 d.C., ano da sua morte. !W^W=¡ *W aço de melhor qualidade. uma nova vaga de invasões Bárbaras que varreA sua arte na construção de material bélico foi ram o litoral de muitos países. Esses novos invasomelhorando com o decorrer das conquistas sendo res eram oriundos das terdisso exemplo a cota de ras do Norte (Dinamarca, malha, a utilização da ciSuécia e Noruega) e eram mitarra e do sabre. Mais conhecidos por Vikings tarde passaram a adoptar £ ] espadas de lâmina direita seu armamento e equipae de dois gumes. mento era em todo idêntico às das restantes ciEntretanto, na Europa vilizações Bárbaras suas Ocidental, as diferenças antecessoras. do tipo de equipamento Entretanto, no Oriente, e armamento, que, em o limiar do Século X maralguns casos, eram imacou o auge do Império gem de marca de deterBizantino e Constantinopla minadas civilizações, deitransformou-se no cenTORÍBIO, J. M. Cuenca – op. cit. p. 268. tro do comércio de todo o xaram de existir. pelo poder e a corrosão do sistema d controlo e gestão dos escravos de f responsável pela desorganização foi económica e, consequentemente, pela desordem social que levou à derrocada do Império Romano e toda a sua organização militar. A partir dessa data Roma passou a ser uma cidade provinciana e todo o Império Ocidental foi subjugado às invasões de bárbaros provenientes da Gália, Norte da Europa e Figura n.º6. Soldado Romano SEGRELLES, Vincent – op. cit. Ásia. 37 Lorega Chicote de armas AZIMUTE Cota de malha em anéis metálicos Cota de malha Fig n.º8 SEGRELLES, Vincent – op. cit. A lorega – feita com pequenas chapas metálicas cozidas a uma túnica de couro, que resultava numa protecção pesada e rígida que terminava num capuz de couro, cobrindo a parte de trás do pescoço e a cabeça, sobre a qual assentava o capacete que tinha então uma peça saliente para protecção do nariz –, foi sendo aperfeiçoada dando origem à !W vo da “blindagem” do combatente, passaram a ser utilizadas algumas armas, muitas delas herdadas de outras civilizações, nomeadamente o chicote de armas e o machado de mão ou de arremesso, sistemas que pela distância do centro de gravidade à pega na empunhadora, desde que empregues como à arma de mão de esmagamento e corte, eram sempre animados de uma elevada energia cinética. Entretanto, o infante (soldado de infantaria), dotado de um armamento de defesa menos completo, sendo as principais armas defensivas o escudo e o capacete de ferro ou couro, foi aumentando a sua protecção a ponto de adoptar, numa fase posterior, armaduras tão pesadas e incómodas como a cavalaria do Século XIII. Mas será no dealbar do Século XIV que o in * > Num primeiro instante, passando a adoptar piques de grandes dimensões, obriga a cavalaria a introduzir alterações profundas no seu armamento defensivo. O elmo, até então parcialmente aberto na parte frontal, passou a estar completamente fechado. E a armadura, até então em cota de malha, passou a ser reforçada com chapas metálicas para aumentar a resistência. Mas será a introdução do arco longo, concebido em madeira de olmo ou teixo, sistema que permitia bater alvos às mais longas distâncias (400 metros) com uma grande energia cinética, e a introdução gradual da besta, também ela arma de projecção de tiro mas que, ao contrário do arco, não neces % * 38 Nº 187 AGO09 aram a condicionar, imediato, que passaram vel, o emprego de forma irremediável, ecurso a pesada cavalaria sem recurso das armaduras. ualquer Hoje, não há qualquer a e o dúvida que a besta arco, juntamente com piques, marcaram a dearia cadência da cavalaria do feudal. Acima de tudo os homens equipa-dos com piques e os arqueiros não se bateram nem como aliados nem Figura n.º 9. Arqueiro com arco longo e besta. SEGRELLES, Vincent – op. cit. como adversários *% ' arma criando um corpo com capacidade de projecção de fogo, capacidade para conduzir o combate próximo e capacidade para resistir ao poder de choque da cavalaria. Todavia, para além do emprego da besta, o século XIV foi marcado pelo emprego das armas de fogo. A tradição europeia menciona dois monges, um inglês Roger Bacon (1212-1294) e outro alemão Bertoldo Schwartz, como os criadores da pólvora como sistema de projecção para armas de fogo. No entanto, o que parece mais provável, é que os inventores tenham sido os Árabes que, enquanto a Europa ainda atravessava um período de recuperação algo obscuro, o período pós-romano, terão traduzido trabalhos de sábios gregos e latinos que se dedicavam à alquimia, considerando-os apenas como uma curiosidade, até que, em meados do século XIV, alguém lhes descobriu uma utilidade prática, inventando o canhão. Como a combustão dessa substância (pólvora) era muito brusca, a súbita expansão dos gases formados durante a combustão podia lançar um projéctil. Assim nasceu a pólvora que se passou a usar para o lançamento de pedras de grande volume destinadas a esmagarem, pelo seu peso, as muralhas. As primeiras armas de fogo foram a bombarda, p a r a tiro indirecto, e a colubrina, para tiro directo. A Bombarda não era mais que uma tosca peça de chapa de aço forjada em forma de tubo e reforçada com cintas de metal que podia ou não ser montada sobre um reparo rodado. A colubrina, de menor calibre, podia ser carregada pela culatra por intermédio de uma cavilheta (Figura n.º10) que se ajustava à pressão por intermédio de uma cunha. No entanto de ajustamento das diferentes peças levaram esse AZIMUTE Cavilheta seus escalões, e modos de actuação. ! peita, importa relevar que a Idade Média, herdeira de grandes civilizações da Antiguidade Clássica mas marcada por um retrocesso em termos civiK % franca evolução da tecnologia do armamento, factor que veio a ser determinante na célere evolução das armas de projecção de fogo individuais e colec = Azimute ARMAS E ARMADURAS (s.d.) – Enciclopédia Visual. Figura n.º10. Colubrina. SEGRELLES, Vincent – op. cit. equipamento ao fracasso. O primeiro emprego da pólvora numa arma de projecção de fogo em campanha foi em Inglaterra durante a Batalha de Crecy a 26 de Agosto de 1346. > _ W ¡= ros canhões de mão com um simples tubo em ferro tendo no extremo posterior de uma das suas geratrizes um orifício para que pudesse ser comunicado o fogo à carga que se encontrava no interior da arma. Assim, no início do século XVI (início da Idade Moderna) e até ao surgimento das armas de retrocarga com a introdução generalizada dos sistemas semi-automáticos dos inícios do Século XX, a infantaria, apesar do emprego das primeiras armas de fogo, passou a utilizar três tipos básicos de unidades de manobra: Alabardeiros equipados com alabarda (composta por uma haste longa idêntica ao pique é atravessada por uma lâmina em forma de meia-lua (similar à de um machado), Piqueiros equipados com pique, e Arcabuzeiros equipado com arcabuz. Lisboa: Edições Verbo. BURNS, Edward Mcnall (1980). História da Civilização Ocidental (30ª Edição). Lisboa: Editora Globo. BULLOCK, Alan (1964). O MUNDO DO HOMEM:1º Volume (10). A História; A civilização desde as suas origens. Lisboa: Publicações Europa América, CANBY, Courtland (1965). História do Armamento. Lisboa: Morais Editora. GANDER, Terry (1997-98). Jane´s; Infantry Weapons (23 Edição). Inglaterra: Bidles Ltd. Guildford and King´s lynn. GUEDES, Coronel António Lourenço (1999). Armamen* ¨>'] ? < GUN, O MUNDO DA ARMA LIGEIRA (s.d.)– G & Z Edições, Lda. LAFFONT, Robert (s.d.). Histoire Universelle des Armées : Volume 1,2,3 e 4. Paris: Editions Robert Laffont.. MARTINS, General Ferreira (1945). História do Exército Português. Lisboa: Editorial INQUÉRITO Limitada. MARDEL, Luiz (1887). História da arma de fogo portátil. Lisboa: Imprensa Nacional. PASCHOA, Coronel Armando (1962). Armamento - Via * y! * ¨] ? da Academia Militar. SANTOS, General loureiro dos (2003). A idade imperial; > _ a luta pelos equilíbrios de poder foi determinante para evolução tecnológica do armamento. Se numa fase inicial da humanidade as necessidades de sobrevivência levaram ao desenvolvimento de sistemas de armas para a caça e protecção de predadores, cedo se constatou que os primeiros grupos sociais, na procura da segurança colectiva * temporânea, arrastaram o homem para uma luta desenfreada no desenvolvimento de sistemas de protecção mas, também, em sistemas de projecção do poder de fogo às mais longas distâncias. # _ a introdução de novos sistemas de armas teve um ' ' < © \ * > W === £k >' Lisboa: Publicações Europa-América, pp. 66 e 67 SEGRELLES,Vicent (1979) História universal das armas em mil imagens. Publicite Editora. THOMPSON, Sir Robert (s.d.). A Guerra no Mundo. Guerra e Guerrilhas desde 1945. Lisboa: Edições Verbo. TORÍBIO, J. M. Cuenca (1992). História Universal: Volume1 (3), Da Humanidade Pré-história ao Império Bizantino (século VII).Lisboa: LIARTE, Lda. TUNK, Prof. E. Von (s.d.). História Universal Ilustrada: Tomo1(3.) Do Antigo Oriente a Carlos Magno. O Extremo Oriente até 1600. Lisboa: Arcádia. WEEKS, Jonh and HOGG Ian V. (1977). Military Small Arms of the 20th century. Londres: Arms and Armour Press, Lionel Leventhal Limited. Nº 187 AGO09 39 AZIMUTE A Crise C de 1383-1385 e a Batalha de Atoleiros Cap Inf Carlos Afonso O Séc XIV Europeu O Séc. XIV traduz-se na Europa por uma crise profunda. As causas exactas desta apelidada “crise” são ainda hoje difíceis de apontar com precisão1. Como resultado da crise frumentária2, ocorreram períodos de fome generalizada: na Europa do Norte entre 1315 e 13173; na Europa do Sul entre 1346 e 13474. A sucessivos anos de colheitas _ * ' mineira, com a consequente compensação imposta W dade5. Por outro lado, a peste negra, entre 1346 e 1350, reduziu a população europeia em cerca de um terço. Em Portugal o surto foi mais intenso em 13486. Esta epidemia não só foi um drama sanitário como assumiu dois efeitos importantíssimos. Um, no campo do místico-religioso e, portanto, moral, entendido como castigo divino e um outro, muito mais terreno, mas de repercussões prolongadas no tempo: desbaratou a mão-de-obra agrícola de * golpe na produção das décadas seguintes. « enfrentadas pelas então comunas autónomas da Flandres, em que a produção de tecidos sofreu * %K '\ mengos para Itália7. O Séc. XIV europeu viu ocorrer frequentes revoltas localizadas, sobretudo protagonizadas pelo povo. As revoltas dos trabalhadores ingleses liderados por Watt Tyler, em França os “Jacques”, na Flandres os “Unhas Azuis”, em Florença os “Ciompi” não ocorreram em simultâneo, não se trataram de movimentos sociais combinados, nem os propósitos eram exactamente iguais8. Nem sequer se pode falar de uma consciência popular ou nacional. Dado que não há ligação entre as dimos orientados a concluir que ferentes revoltas, somos estas eclodiram porque o ambiente e a situação social e económica assim o determinaram. E este dado, por sua vez, prova que o Séc. XIV foi profundamente diferente para pior, a uma grande escala, do que os séculos que o antecederam e dos que o sucederam. Em 1337 os poderosos reinos de Inglaterra e França envolvem-se na Guerra dos Cem Anos (1337-1453), a “primeira guerra mundial fora do Mediterrâneo”9. Logo no início, o rei Eduardo III de Inglaterra, procurou aliar-se com a Flandres e com o Sacro Império Romano-germânico, mas “não ' estratégia e procurou antes alianças na Península Ibérica”10. As décadas seguintes foram marcadas pelo crescente envolvimento dos reinos peninsula O Contexto Ibérico 1 Monteiro, 2003: 30. 2 Crise da produção de cereais. 3 Entre 1315 e 1317 registou-se pluviosidade excessiva por toda a Europa. 4 Na Península Ibérica registaram-se secas e más colheitas, que resultaram em fomes em 1302, 1333 e 1344-46 (Duarte, 2006:15). 5 Monteiro, 2003: 30-31. 6 Rodrigues, 1985: 15. 7 Desde 1270 que a Flandres era nominalmente pertença da coroa francesa. No entanto, as associações urbanas de tecelões nunca reconheceram verdadeiramente aquela soberania, fazendo a situação degenerar numa série de * 1304. A partir desta altura, a prosperidade flamenga foi declinando, agravada durante todo o Séc. XIV por ocorrências como a peste negra e a Guerra dos Cem Anos (1337 – 1453). 40 Nº 187 AGO09 O Séc XIV peninsular é, em certa medida, um > < monarquias portuguesa e castelhana tiveram em comum, por diversas ocasiões, lutas internas entre a nobreza e elementos da própria família real, normalmente por questões sucessórias. Isto originou, ' se iam cruzando. Em Portugal, o conhecido desfecho da relação amorosa entre o infante D. Pedro e D. Inês de Castro (em 7 de Janeiro de 1355) acentuou uma clivagem já existente entre elementos da 8 Duarte, 2006: 17. 9 Martins, 2006: 33. 10 Martins, 2006:10. AZIMUTE alta nobreza. Por outro lado, a corte portuguesa pu *K lulava de linhagens castelhanas exiladas, ao mesnova nobreza. Após a subida ao trono de Castela mo tempo que inúmeros nobres portugueses foram de Henrique de Trastâmara, em 1369, o problema, não era o da acolhidos em Castela. como interpreta Borges de Macedo, “não Do lado castelhano, a subida y} % de Afonso XI, D. Pedro I, o “Cruel”, provocou uma luta com um conjunto de herdeiros ilegítimos, fomentando a guerra civil11. Henrique de Trastâmara, meio-irmão de D. Pedro I, foi o pretendente que congregou em redor de si a mais poderosa facção, constituída pela parte da nobreza ansiosa de mais representatividade e pelos comerciantes das cidades da Galiza e Astúrias. Os reinos de Aragão, Navarra, Portugal e até o reino mouro de Granada viram-se envolOs reis D. Fernando de Portugal e D. Juan I de Castela vidos na contenda. Aragão e Navarra, movidos por interesses próprios, alinhasucessão, mas o facto de ter sido colocado no trono ram com Henrique e com os franceses. D. Pedro I um rei com o apoio da França e o perigo que isso de Castela e D. Fernando de Portugal procuraram representava para todos os reinos independentes o apoio de Inglaterra12. Granada, embora opositor natural de todos os reinos cristãos da Península, da Península”16. D. Fernando viu-se então obrigado * ' ! a entrar em guerra com Castela, numa sucessão K nas vésperas da Primeira Guerra Fernandina, em nhecidos como as três Guerras Fernandinas (1369136913. 1371, 1372-1373, 1381-1382). Do ponto de vista social, a segunda metade do século XIV é caracterizada pela drástica redução Casou com D. Leonor Teles de Menezes (1350dos rendimentos senhoriais, situação que não é es1386), em 1372, no mosteiro de Leça do Bailio, tranha à Península Ibérica. Isto veio a acentuar as sede da Ordem do Hospital. D. Leonor pertencia à * tados do acesso ao património familiar por regras < * 14. muito querida pelo povo tendo recebido o epíteto Foi este o quadro que o rei D. Fernando (1367de “a Aleivosa” porque foi considerada responsável 1383) encontrou quando ascendeu ao trono. Em por um conjunto de conspirações, entre elas o da Castela, a guerra civil prolongava-se. Em 1369, D. morte da sua própria irmã (no episódio que se desPedro I de Castela foi morto em Montiel, fechando creve a seguir), pelo aprisionamento de D. João, um ciclo que durava desde 1350. Apesar da tentatiMestre de Avis e pelo seu relacionamento conheciva inicial de manter a neutralidade, D. Fernando de # ! galego, o conde João Fernandes Andeiro. Muitas cidades castelhanas, não se querendo subEncontramo-nos agora já na década de 70 do meter a Henrique de Trastâmara, invocaram o pa^W¡= rentesco do rei português com o falecido D. Pedro agregar em sua volta um conjunto de descontenI, pressionando-o. Foram esta exigência política e o > # facto de ainda não ser ter casado, os dois factores velho de Pedro e Inês. Casado com Maria Teles, a que mais terão condicionado o início do reinado de irmã da rainha, foi vítima de uma intriga que o levou D. Fernando15. Embora sob o motivo aparente da a assassinar a própria mulher, vindo a refugiar-se questão do direito ao trono de Castela, era já clara, depois em Castela17, onde foi aprisionado. Deste modo, um dos principais pretendentes à sucessão de D. Fernando, yy "? ¬ $ colocado “fora de campo”. y` > _ ' Na sequência da Terceira Guerra Fernandina, o europeu era de certo modo análoga à de Portugal, negociar Tratado de Salvaterra de Magos, celebrado em 2 de alianças com os opositores do reino vizinho (naquele caso, Abril de 1383, promoveu o casamento da princesa alianças com a França que se opunha a Inglaterra) permitia aguardar um balanço de forças favorável (Gomes, 2009: 32). 13 Gomes, 2009: 91. 14 Monteiro, 2003: 14. 15 Martins, 2006: 51. 16 Idem. 17 Crê-se que a fomentadora da intriga terá sido a própria rainha, D. Leonor Teles. Nº 187 AGO09 41 AZIMUTE # K # com o monarca de Castela, D. Juan I18 em 1383. D. Fernando morreu em Outubro desse mesmo ano, aos 38 anos de idade, sem deixar nenhum herdeiro directo masculino. Pelo tratado de Salvaterra, D. Leonor Teles assumiria a regência do reino até que # K = gisse a maioridade de 14 anos19. D. Beatriz contava, ao tempo da boda, com 10 ou 11 anos de idade. Dado que o infante D. João de Castro se encontrava aprisionado em Castela, as famílias relegadas para segundo plano na corte durante o reinado de D. Fernando apressaram-se a organizar-se em * W#! e de uma outra dama, D. Teresa Lourenço. Era D. João, Mestre da Ordem Militar de Avis, que viria a ser o rei D. João I. > * duas facções principais em oposição: o partido de D. Beatriz, que defendia que o trono de Portugal pertencia, por direito, ao monarca de Castela, seu marido, e o partido de D. João Mestre de Avis. A # K *W gente do reino, a rainha viúva, D. Leonor Teles, com a sua conhecida relação amorosa com o Conde João Fernandes Andeiro, ideólogo do partido que apoiava Juan I de Castela e D. Beatriz. Em torno de D. Beatriz encontrava-se boa par *K Wdeiros, senhores de vastas possessões. Em torno #<* cundogénitos, boa parte deles com carreiras militares nas Ordens de Avis, de Cristo, Santiago e do Hospital. Era uma elite militar. Prova-o a forma como foi conduzida a campanha de 1383-1390 e como se avançou para Ceuta em 1415. O próprio D. João era precisamente o Mestre de uma das Ordens. A crise de 1383-1385 teve também uma dimensão popular muito importante explicável pelas circunstâncias sociais e económicas anteriormente descritas. Resta ainda referir que D. Juan I de Castela apoiava um papa, Clemente VII, de Avinhão. Os portugueses eram partidários do papa de Roma, Urbano VI20. Este aspecto religioso assume alguma relevância quando pensamos nas motivações e argumentos para a mobilização das populações rurais21. Atoleiros (6 de Abril de 1384), Trancoso (29 de Maio de 1385) e Aljubarrota (14 de Agosto de 1385), foram as três grandes batalhas entre 1383 e 1385 dignas desse nome. Houve inúmeros confrontos durante todo o tempo, mas os efectivos presentes raramente ultrapassaram as escassas centenas. Atoleiros foi essencial como catalisador moral, positivo para os partidários do Mestre de Avis e negativo para Juan I. Demonstrou claramente que Castela não era invencível em campo aberto, representando o maior revés sofrido pelos castelhanos até então e um reforço extremamente consistente da causa de D. João de Avis. Em 8 de Fevereiro de 1384, estando já estacionado em Santarém, o rei de Castela colocou forças em Lisboa, na zona do Lumiar, dando assim início ' com a chegada de uma frota castelhana ao Tejo. O Mestre d’Avis, ocupado com a defesa de Lisboa, foi informado de que Juan I tinha solicitado reforços para o cerco, que se dirigiam de Castela pelo eixo mais directo – o Alto Alentejo. Em Março de 1384 nomeou D. Nuno fronteiro da comarca de Entre Tejo e Guadiana. Esta decisão teve alguma oposição inicial de João das Regras, dado que este alegava que os irmãos de D. Nuno vinham na hoste castelhana. D. João manteve a sua intenção e autorizou D. Nuno a escolher, em Lisboa, 200 cavaleiros, dos quais 40 da primeira nobreza22. Deu-lhe também autorização para juntar à sua hoste cerca de 1.000 homens a pé. Nuno Álvares Pereira partiu então para o Alentejo, em meados de Março, sendo acompanhado por D. João até Coina, onde se despediram. No mesmo dia, as gentes de Setúbal negaramlhe a entrada e a força acabou por bivacar em Palmela. Naquela altura, D. Nuno, recém-nomeado, acalentava dúvidas acerca das convicções daqueles que o acompanhavam. Ao mesmo tempo tinha verdadeira consciência do pouco grau de treino da força. Na noite de Palmela terá aproveitado a detecção à distância das fogueiras de um acampamento de almocreves para levantar a suspeita de que se poderiam tratar de cerca de 300 lanças castelhanas23. D. Nuno e os seus prepararam o combate, mas a manhã veio a esclarecer o engano. 18 Filho de Henrique de Trastâmara. servido de instrumento na mobilização das populações rurais, dada a religiosidade medieval e o receio de excomunhão. 19 Lei “sálica” – costume antigo, passado a escrito no tempo de Clóvis, rei dos Francos, em 490, e depois sucessivamente reinterpretado. Destinava-se a regular o acesso a terras por parte dos herdeiros. No Séc. XIV o conceito encontrava-se mulheres ao trono (Duarte, 2006: 7). 42 A caminho dos Atoleiros 20 Tavares, 1985: 21. Em 1379, em Évora, D. Fernando declarara o apoio ao papa de Avinhão, mas esta opção não foi duradoura (Gomes, 2009: 121). 22 Entre os escolhidos encontravam-se bastantes homens oriundos de Évora e Beja, cidades que tinham dado o seu apoio à causa de D. João [Martins,(?): 4]. Este pormenor é importante porque revela dois aspectos. Por um lado, a intenção destes combatentes de estarem presentes junto das suas terras, contribuindo para a sua defesa. Por outro lado, a decisão de ter na hoste verdadeiros conhecedores da área de operações que, para além de relevantes ao nível táctico, teriam um papel importante no recrutamento da hoste ao longo do percurso. 21 É sabido que, entre os apoiantes do Mestre de Avis, se encontravam as massas urbanas comerciantes e elementos da baixa nobreza. No entanto, o argumento religioso deve bem ter 23 Correu o rumor de que Pedro Sarmento tinha vindo de Santarém, por Coruche, para barrar o caminho à hoste que se dirigia para o Alentejo (Crónica do Condestável, 53). Nº 187 AGO09 Atoleiros No dia seguinte, 6 de Abril de 1384, véspera de Quinta-feira Santa, D. Nuno mandou tocar as trombetas de madrugada, ouviu missa e depois partiu com a sua gente em direcção a Fronteira, que estava então a ser cercada pelos castelhanos, vindos do Crato. Ao encontro de Nuno Álvares Pereira veio um escudeiro, de nome Rui Gonçalves29, trazendo-lhe grandes propostas de honras e mercês, desde que se passasse para o partido de Castela. Referiu também que seria inútil, com tão pouca gente, combater contra tantos. D. Nuno tudo recusou, dizendo-lhe, 24 Fernão Lopes, 1ª Parte da Crónica de el-Rei D. João I, o de Boa Memória, pp. 237 e 238. 25 Correu o rumor de que Pedro Sarmento tinha vindo de Santarém, por Coruche, para barrar o caminho à hoste que se dirigia para o Alentejo (Crónica do Condestável, 53). 26 D. Diego Gomez de Barroso viria a morrer nesta batalha. 27 Hoje o Largo Dragões de Olivença. 28 D. Diogo Álvares Pereira. Os irmãos eram quatro tendo ainda D. Fernão ficado do lado de D. Nuno. A mãe, Iria Gonçalves, tentou inicialmente demover D. Nuno, acabando convertida à causa do Mestre. 29 Escudeiro, hospitalário, que tinha vivido com D. Nuno no Crato, na infância. contudo, “que fosse tão depressa quanto pudesse ter com os seus companheiros, pois a hoste portuguesa estaria, mais depressa do que julgavam, próxima de Fronteira e pronta para o combate”. Ao ouvirem a mensagem de D. Nuno Álvares Pereira, os castelhanos deixaram os preparativos do cerco a Fronteira e deslocaram-se na direcção do exército português, pela estrada que ia para Estremoz por Santo Amaro. Nas imediações do local que é hoje a Herdade dos Atoleiros, a 2,5 Km a sul de Fronteira, D. Nuno fez alto ao deslocamento e escolheu o local apropriado para colocar a sua força. Optou por um terreno ligeiramente inclinado e que tinha em toda a extensão, na zona mais baixa, uma linha de água30. Tratou-se de um local extremamente bem escolhido, pois embora fosse aparentemente convidativo para um ataque, tinha diante de si a ribeira, que temente larga e profunda para constituir um fosso. Por outro lado, ao colocar os seus homens num local ligeiramente mais elevado, proporcionava um ângulo de tiro muito vantajoso para os besteiros. O cabeço dos Atoleiros não tem mais do que 200 metros de largura, no sentido leste-oeste, e elevase cerca de 15 a 20 metros sobre as linhas de água que o rodeiam, nomeadamente sobre a ribeira do Carvalho, a norte. É ladeado, a leste e oeste, por *ra. Para a retaguarda da posição (sul), o terreno é relativamente plano. Em primeiro lugar, D. Nuno mandou apear toda a cavalaria, mal armada, e que seria incapaz de resistir ao choque dos esquadrões castelhanos. Seguidamente, organizou com eles a vanguarda a duas linhas, mandando cravar compridas lanças de madeira tosca no solo31, seguras obliquamente. Colocou cerca de 50 cavaleiros montados na retaguarda32. Posicionou os besteiros em duas alas e também por detrás da vanguarda, uma vez que estavam mais elevados, de modo que podiam fazer tiro por sobre as cabeças das duas linhas da frente. Finalmente, fez distribuir criteriosamente os cerca de 1.100 homens a pé pela vanguarda e alas, sem contudo deixar de misturar no meio deles al ' ou mesmo matar, caso dessem mostras de querer retirar33. É importante salientar aqui que este procedimento revela que D. Nuno não tinha a certeza da prestação da sua peonagem, receando uma AZIMUTE D. Nuno tinha acabado de os submeter à primeira prova. Nenhum desertara24. Foi também por esta altura inicial da campanha que optou por formar um “estado-maior”, constituído por representantes das gentes de cada um dos concelhos que tinha na hoste25. De Setúbal dirigiu-se por Montemor até Évora, onde tentou recrutamento, mas só conseguiu 30 lanças adicionais. Com 230 lanças avançou para Estremoz, onde teve conhecimento que os castelhanos já estavam no Crato, comandados pelo mestre da Ordem de Alcântara, Diego Gomez Barroso26. Convocou as gentes dos arredores de Estremoz e dos concelhos de Elvas e Beja. Juntou estas forças no Rossio de São Braz, em Estremoz27 , onde passou revista à tropa, composta por cerca de 300 cavaleiros, 1.100 homens a pé e 100 besteiros. Desde logo mostrou intenção de ir ao encontro dos castelhanos para lhes “dar peleja”, mas os seus companheiros deram uma resposta negativa, invocando duas razões: os castelhanos eram muitos e vinham comandados por grandes senhores – a luta era desigual. Além disso vinha na hoste inimiga D. Pedro Álvares Pereira, prior do Crato e ainda um outro irmão de D. Nuno28 # D. Nuno os podia arrastar para uma cilada. Esta última razão tê-lo-á exasperado a ponto de jurar ser o primeiro a entrar em combate. Naquele momento sabia que tinha de jogar o tudo ou nada. Intimou aqueles que o quisessem seguir a atravessar uma pequena ribeira que existia no local. A maioria fê-lo instintivamente e os que hesitaram acabaram também por a atravessar, seguindo os primeiros. 30 A ribeira do Carvalho. Após a batalha o povo começou a chamá-la das Águas Belas (Bessa, 1985: 19). 31 Pode tratar-se de um indício de que D. Nuno tinha intenção, desde o início, de contrariar a cavalaria pesada inimiga com recurso aos piques. Não é provável que as lanças de madeira tosca ou estacas tivessem sido improvisadas no local, dado a vegetação típica, de oliveiras e azinheiras, não ser adequada. `< * W ' # Nuno não prescindiu de uma reserva com grande mobilidade. 33 Duarte, 2006: 83. Nº 187 AGO09 43 AZIMUTE 44 abandonaram a hipótese de combater a pé e optaram por decidir a batalha numa carga de cavalaria pesada. O terreno estava alagadiço, mas a desproporção era tal que mesmo uma infantaria bem agarrada ao solo não poderia resistir a 1000 lanças. Nenhuma das fontes consultadas refere que tenha havido tiro dos besteiros castelhanos, o que sugere que estes não se encontravam à distância de tiro (pelo menos 100 metros, para obter alguma pre ' o posicionamento destes combatentes. Sabemos também que, como já foi dito, a opção do Mestre de Alcântara, após avistar a força portuguesa, foi a de efectuar um ataque frontal de cavalaria, embora inicialmente tivesse considerado combater a pé34. Es Estes dois dados poderão contribuir para a tese de que, no excesso bu ' atacou na frente da infantaria, sem ata es esperar que esta se posicionasse co convenientemente. Foi por volta do meio-dia que os ca castelhanos iniciaram o seu ataque, ca carregando com as compridas lança ças em riste e gritando “Por Castela e por p Santiago!”. À aproximação do inim inimigo, os besteiros portugueses inic iniciaram a descarga de virotões em toda a frente. Há fontes que relat latam que a curta distância começa çaram os castelhanos igualmente a ser s atingidos por pedras atiradas Dispositivo português aguardando o primeiro assalto castelhano. pe pela peonagem. O terreno junto à Foto: Google Earth. linha de água, fazendo jus à designação de “atoleiros”, contribuiu decisivamente para to. Nos Atoleiros as linhas de água não são muito atrasar e desorganizar a carga castelhana, provoprofundas ou recortadas, mas encontramo-nos em cando, inclusive, a queda de inúmeros cavaleiros. Abril, num terreno que alaga com facilidade. Nesta Depois começou a passar-se o que normalmente situação, os fracos declives favorecem o encharcaacontece, uma vez dada a ordem de carregar. Os mento e saturação dos solos. cavaleiros da retaguarda já não têm hipótese de Antes do encontro, D. Nun´Álvares Pereira, parar, pois são pressionados pelos que vêm atrás e montado numa mula, referiu aos seus homens que acabam por se precipitar sobre homens e cavalos tivessem presentes quatro coisas: em primeiro lucaídos e atolados à sua frente. Ainda assim muigar, que se encomendassem a Deus e à Virgem tos cavaleiros castelhanos chegaram ao contacMaria; em segundo lugar, que era ali que se servia to com as lanças cravadas no solo da vanguarda o seu senhor, D. João Mestre de Avis, e se alcanportuguesa. çaria a honra dada por Deus; em terceiro lugar, que O primeiro assalto foi muito mal sucedido e proali vinham para defender as suas famílias, as suas vocou enorme confusão e fúria na hoste castelhacasas e as suas terras, de modo a libertarem-se da na. Foi efectuado um segundo assalto, comandado sujeição que el-rei de Castela lhes queria impor; e, pelo próprio Mestre de Alcântara. O resultado foi semelhante à primeira investida, com a agravante hora mas sim um dia ou mais. de que o solo à frente da posição portuguesa esQuando os castelhanos se aproximaram, Nun’ tava já pejado de cadáveres de homens e cavalos Álvares Pereira desmontou, beijou o solo e posicioe de moribundos. Neste segundo ataque morreu o nou-se na vanguarda, colocando um bacinete sem Mestre de Alcântara. viseira, e tomando nas mãos uma comprida lança. Foram efectuados ainda um terceiro e quarTinha assim cumprido a promessa de ser o primeiro to ataques, desta vez contra as alas. Crê-se que, a iniciar o combate. O exército castelhano era composto por cer34 Os castelhanos, que de início pensaram em atacar a pé, ca de 1000 cavaleiros e 4000 peões. Ao avista rem a diminuta hoste portuguesa, os castelhanos (Bessa, 1985: 21). retirada. De modo diferente do que faria no ano seguinte, em Aljubarrota, D. Nuno optou por posicionar primeiro um “xadrez” de homens d’armas ' que idealizou, preenchendo depois os espaços com os peões. Há, por parte de alguns autores, principalmente as fontes mais antigas, a tendência # drado perfeito (tal como foi ideia corrente quanto a Aljubarrota). Estamos em crer que esta hipótese seria desadequada tanto num caso como no outro, * '\contravam bem protegidos por intermédio de linhas de água, o que permitiria à retaguarda uma reacção em tempo oportuno, em caso de envolvimen- Nº 187 AGO09 35 Duarte, 2005: 85. 36 Bessa, 1985: 22. 37 Crónica do Condestável: 58. 38 Bessa, 1985: 27. a legitimidade e a justiça estavam do lado do Mestre de Avis; ¤ Do ponto de vista militar, foi a primeira experiência portuguesa do que já vinha acontecendo nos campos de batalha da Europa. A infantaria, armada de piques, em formação cerrada e com um aproveitamento adequado do terreno, conseguia ser um adversário à altura da cavalaria pesada; ¤ # # acção de comando saiu extremamente reforçada, conseguindo quebrar as opiniões mais cépticas de que se tratava de um jovem inconsciente e um pouco “alucinado”, reforçando a sua imagem como comandante militar de ciência e valor. AZIMUTE nestes assaltos, não tenha participado apenas o que restava da cavalaria castelhana, mas sim que tenham sido essencialmente combates de infantaria. No entanto, uma vez mais, o terreno difícil para hom W atacante. A natureza do solo implicava que os movimentos fossem efectuados com muita lentidão, o que converteu os peões castelhanos em alvos fáceis para os besteiros portugueses. Calcula-se que a batalha tenha durado cerca de uma hora. Os castelhanos acabaram por retirar, tendo então sido perseguidos por diversos cavaleiros portugueses, montados já nos seus cavalos. Esta perseguição, na qual participou também Nun’Álvares Pereira, durou até ao cair da noite, e desenvolveu-se por uma área de aproximadamente uma légua a partir do campo de batalha, sobretudo nas direcções de Monforte e do Crato. Este combate não originou também grande número de mortes, e as que ocorreram advieram sobretudo dos dois choques frontais entre as duas vanguardas. Do lado castelhano são referidas algumas dezenas35, setenta e sete homens de armas, de acordo com o Coronel Carlos Gomes Bessa36. A tradição oral refere um valor da ordem das centenas. No entanto, nem Fernão Lopes, nem o autor anónimo da Crónica do Condestável adiantam um número, referindo apenas que do lado castelhano morreram muitos37, entre os quais alguns destacados. Sabe-se que um dos irmãos de D. Nuno, ! « aceite, mas não crível, que do lado português não tenha havido baixas. No entanto, a existirem, terão sido mínimas. No dia seguinte à batalha, D. Nuno Álvares Pereira dirigiu-se a Assumar, descalço e a pé, em agradecimento pelo resultado do combate e para fazer oração a Santa Maria desta vila. A Batalha dos Atoleiros representa um marco histórico da maior relevância, não só no contexto da Crise de 1383-85, mas na vida de Portugal. “Teve, a múltiplos títulos, um carácter precursor para o destino nacional”38: ¤ Do ponto de vista político, Atoleiros foi o primeiro sinal claro da determinação de defender Portugal e de que o partido do Mestre de Avis não se tratava se um conjunto de revoltosos desorganizados, mas sim uma força com identidade nacional; ¤ Do ponto de vista psicológico, provou aos portugueses que os castelhanos não eram invencíveis e contribuiu para reforçar a ideia de que Azimute O CAP Inf Carlos Filipe Nunes Lobão Dias Afonso é Licenciado em Ciências Militares pela Academia Militar. Prestou serviço, entre outras unidades, no 2BIMec, como Comandante de Pelotão < ] Informações e na Academia militar como Adjunto da 1ª Companhia de Alunos, tendo mi ' do Exército. Possui textos publicados na revista Atoleiros, da Brigada Mecanizada e na revista Azimute, da Escola Prática de Infantaria. Efectuou diversas comunicações em unidades militares no âmbito da História Militar. BESSA, Carlos Gomes (1985). Batalha dos Atoleiros. Seu carácter precursor em Portugal. In Aljubarrota 600 anos, Ciclo de conferências da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian Crónica de D. Nun’Álvares Pereira. Actualização, introdução e notas de Teresa Lacerda (2007). Porto, Fronteira do Caos. DUARTE, Luís Miguel. 2006. Guerra pela Independência. Batalhas da História de Portugal, Vol. 4. Coord. Prof.ª Doutora Manuela Mendonça. Lisboa, Quid Novi. GOMES, Rita Costa. 2009. D. Fernando. Reis de Portugal. Mem Martins, Temas e Debates. LOPES, Fernão, 1ª Parte da Crónica de el-Rei D. João I, o de Boa Memória. MARTINS, A. de Oliveira. 1968. A vida de Nun’Álvares. Lisboa, Guimarães Editores. MARTINS, Armando. 2006. Guerras Fernandinas, 1369-1371, 13721373, 1381-1382. Batalhas da História de Portugal, Vol. 3. Coord. Prof.ª Doutora Manuela Mendonça. Lisboa, Quid Novi. MARTINS, Miguel Gomes. (?). Nuno Álvares e a Arte da Guerra. Inserido no colóquio D. Nuno Álvares Pereira, o Homem e a Memória. Disponível na internet em http://www.icea.pt/Conferencias/Conferencia1/ Conf01_03.pdf [referência de 19 de Junho de 2009] MONTEIRO, João Gouveia. 2003. Aljubarrota, 1385. A Batalha Real. Lisboa, Tribuna da História. RAGAGELES, Paula Cristina Branco e. 2004. A Batalha de Atoleiros. Separata da Revista “Atoleiros” da BMI. RODRIGUES, António dos Reis. 1985. Nun’Álvares, Condestável e Santo. Lisboa, Direcção do Serviço Histórico-Militar. TAVARES, Jorge Campos. 1985. Aljubarrota. Porto: Lello & Irmão. Nº 187 AGO09 45 AZIMUTE A Invasão Castelhana e a Batalha de Aljubarrota TCor Inf Lemos Pires “A batalha mais brilhante, mais decisiva nos seus resultados e aquela que maior eco teve em Portugal e no mundo”1 A batalha que iremos de seguida abordar é uma natural evolução das batalhas ocorridas nos anos anteriores na Europa, com a vantagem adicional de esta ter sido genialmente conduzida por D. Nuno Álvares Pereira. Para não sermos demasiado exaustivos referiremos em síntese algumas das inovações mais importantes nessas batalhas e que pudemos testemunhar o seu uso posterior em Aljubarrota2: ¤ Courtrai (11/7/1302) que opôs Flamengos a [ < menga deveu-se, entre outros factores, ao inteligente uso do terreno com as fossas, muitas delas cheias de água, tirando partido do rio que isolava e limitava o campo de batalha e os cavaleiros apeados a combater; ¤ Bannockburn (24/6/1314) entre Escoceses e Ingleses - Além do uso das linhas de água, foi alargado o aproveitamento do terreno com abatizes e covas de lobo (com estacas) além de um dispositivo de forças inovador organizado em quatro conjuntos com a cavalaria a combater apeada com uso de longas lanças que sem dúvida foram um dos factores da vitória dos escoceses de Robert Bruce sobre Eduardo II; ¤ Morgarten (15/11/1315) entre Suíços e Austríacos – mais do que uma batalha esta foi uma “emboscada” em que foi visível o esforço na pesquisa de informações, nos reconhecimentos ao terreno com o uso de batedores e que permitiu escolher o melhor local para o combate, além do aparecimento de um novo ' [ denominados “quadrados suíços” e ainda uma arma nova: a alabarda; ¤ Dupplin Moor (11/9/1332) entre Escoceses e Ingleses – destaca-se o posicionamento dos 1 THEMUDO BARATA: 23 2 MONTEIRO, 37 e seguintes 46 Nº 187 AGO09 arqueiros equipados com “Long-Bow” “Long-Bow”, com uma cadência de tiro muito mais elevada do que as tradicionais bestas, colocados nas alas da batalha, o que veio desta vez levar à vitória dos ingleses. ¤ Crecy (26/8/1346) entre Ingleses e Franceses – uma das mais famosas batalhas da Guerra dos Cem Anos – foi notório o despique e a diferença de capacidades entre arqueiros e besteiros, ganhando os primeiros em ritmo de fogo. De destacar também o uso de “muralhas” "fortalezas” feitas com as carroças; ¤ Poitiers (19/9/1356) entre Ingleses e Franceses – outra das mais famosas da Guerra dos cem anos – em que foi possível utilizar de forma inteligente não só a cavalaria inglesa com explorar a mobilidade dos próprios arqueiros; ¤ Nájera (2/4/1367) entre D. Pedro I com Ingleses contra Henrique Transtâmera com o apoio Francês - de notar a oportunidade como se explorou as fraquezas do adversário e de novo o uso inteligente dos arqueiros. Interessa ainda ressalvar três aspectos muito importantes da forma de combater e da organiza' no decorrer da Batalha de Aljubarrota: ¤ Portugal, desde os tempos de Viriato, sabendo-se das reais capacidades em meios humanos e materiais que possuía sempre privilegiou combater usando a táctica da guerrilha comunicações na retaguarda castelhanas e forçar assim o monarca castelhano a movimentar as suas forças nessa direcção “melhor seria entrar pela rer ali, desviando-o de Lisboa”5. D. Nun’Álvares Pereira tem opinião contrária. Já não estamos em momento para guerrilhas. É fundamental travar uma batalha decisiva. Uma vitória * fronteira, D. João I como rei de Portugal. Pelo contrário, mover uma guerra de “guerrilha” neste momento da campanha daria azo a que D. João e a sua causa fossem considerados como meros rebeldes, num reino que aparentava pertencer à coroa de Castela. Perante a hesitação do rei, D. Nuno parte de Abrantes com a sua parte da hoste em direcção a Tomar, obrigando D. João a rever a sua opção e a sua estratégia. Na ideia de D. Nuno é importante travar essa batalha num local em que os castelhanos já estivessem bem internados em território de Portugal, * uma derrota permitisse algum tempo de reorganização. A 8 de Agosto todo o exército português está em Tomar. D. Nuno terá, nesta altura, enviado um batalha. Este regressa no dia 10 com notícias alarmantes: a hoste castelhana é constituída por mais de 7000 lanças e 2000 ginetes, além de um número incontável de besteiros e homens a pé. Consigo, # K *K muitos senhores portugueses que a ele se aliaram. D. Nuno opta então por esconder os verdadeiros valores às suas tropas, fazendo transmitir que os castelhanos eram poucos e mal equipados. Era não só importante executar uma boa estratégia de ção como prover para que a mocontra-informação ral se mantivesse elevada entre os portugueses. A hoste portuguesa contaria entre 5000 a 10000 combatentes, dependendo dos autores. É certo que a hoste castelhana a sobrepassava bastante em número, provavelmente acima dos 20000. A 11 de Agosto TCor Inf Lemos Pires os portugueses avançam para Ourém e a 12 os castelhanos AZIMUTE “guerra guerreada” – ou seja, os soldados e os comandantes portugueses estavam por isso habituados ao uso de tácticas mais ligeiras, com grande iniciativa, bom aproveitamento do terreno, rapidez de actuação e uso inteligente dos meios materiais à disposição (foi assim e assim permaneceria quase sempre ao longo da nossa história); ¤ Nuno Álvares Pereira, herdeiro desta forma de combater era um verdadeiro adepto da mesma: executava deslocamentos longos, fazia todo o seu planeamento em segredo, utilizava judiciosamente um excelente serviço de espionagem e tinha uma elevadíssima preocupação com a segurança dos acantonamentos; ¤ A mobilização para guerra assentou numa base nacional e não regional: o Exército, mesmo havendo partidários de ambos os lados, era um Exército do Rei e não a soma de pequenos exércitos feudais que deviam a sua lealdade ao seu Senhor feudal, esta aparente pequena diferença permitiu sempre ao comandante nacional organizar, dispor e combater como um todo no uso das suas forças o que somado ao inequívoco apoio das populações, <* ' _ vantagem táctica (lembremo-nos que as tropas invasores precisavam do apoio da população para sobreviverem e esse apoio praticamente não existia). Mas vamos directos ao ano de 1385 e à Batalha de Aljubarrota: D. Juan I de Castela concentrara-se com a sua hoste em Ciudad Rodrigo e, após descartar a possibilidade de optar por um outro tipo de guerra (devastações fronteiriças, nomeadamente), entra em Portugal por Almeida, na segunda semana de Julho de 13853. Toma o itinerário das beiras em direcção a Lisboa4 (Pinhel, Trancoso, Celorico, Fornos, Mangualde, Mortágua, Mealhada, Coimbra e Soure). O exército português, comandado pelo rei D. João I, após ter assegurado que os castelhanos não cercariam Elvas, passa para a margem norte do Tejo, vindo a estabelecer-se em Abrantes # no Alentejo, em recrutamento, e viria a juntar-selhe em Abrantes, a 3 de Agosto. Desde Junho desse ano que a frota castelhana voltara a ocupar o estuário do Tejo e D. Juan I avança sobre a capital, para lhe levar novo cerco, acreditando que, desta vez e depois da malograda tentativa do ano passado, seria muito difícil a resistência portuguesa. Em Abrantes reúne-se um # João a optar pelas preferidas “acções de guerra $*_ 3 MONTEIRO, 80. e também BESSA: 44 4 “ganhada Lisboa, todo Portugal era cobrado” citado em BESSA:36 5 BESSA: 46 Nº 187 AGO09 47 AZIMUTE para Leiria. Informado dos movimentos do inimigo, D. Nuno avança para Porto de Mós, onde estaciona na noite de Sábado, dia 126. O local exacto da batalha foi criteriosamente seleccionado. Ambos, D. João e D. Nuno, terão ponderado as vantagens daquela área, bem próxima do couto e mosteiro de Alcobaça, onde o abade D. João de Ornelas, com bastante rapidez, poderia conseguir recrutar mais homens para a hoste e, ao mesmo tempo, fornecer mantimentos. Além disso, D. Nuno, acompanhado por 100 cavaleiros, aproveita o domingo dia 13 de Agosto, para um reconhecimento detalhado a todo o terreno que ia de Porto de Mós às imediações de Leiria. O facto de levar uma tão grande força para um reconhecimento deve-se, provavelmente, a dois aspectos: primeiro, à necessidade de segurança, dada a proximidade do inimigo e, segundo, tudo leva a crer que D. Nuno terá gizado o plano de operações para o dia seguinte na companhia dos seus lugar-tenentes, ou seja os seus subordinados directos. Ele quis que eles vissem o terreno e ajudassem nas decisões operacionais. Ainda antes do alvorecer do dia 14 de Agosto de 1385 (nesse dia o raiar da aurora deu-se à 3h37 e foi dia claro às 4h487), a hoste portuguesa levantou o arraial de Porto de Mós e percorreu os 7 a 8 km que a separavam do planalto de S. Jorge, onde se veio a colocar, voltada a norte, num cabeço que hoje é sobranceiro à povoação da Batalha (que na altura era somente um lugarejo chamado Jardoeira). A enorme coluna castelhana, que se calcula ter mais de 15 km, vinda de Leiria, atinge a baixa da Jardoeira a meio da manhã. A vanguarda pôde observar desse local a hoste portuguesa no *'* duas linhas de água profundas. Em boa linguagem militar vamos descrever o dispositivo, a composição e articulação das forças8: “uma formação de quadrado a duas azes (batalhas) com uma Vanguarda Álvares Pereira) próprio comandava, a seiscentas lanças; uma Ala direita de duzentas lanças de cavaleiros cujo comando seria atribuído a Mem Rodrigues e coadjuvado por seu irmão Rui Mendes; uma Ala esquerda de duzentos homens de armas que Antão Vasques comandaria; e, recuada, uma Retaguarda, com el-rei, de setecentas lanças, montadas tanto quanto possível para maior mobilidade, como Reserva, pronta para contra-atacar ou reforçar a Vanguarda, a Ala esquerda e a Ala direita por esta ordem; os arqueiros ingleses atribuídos à Ala esquerda; os besteiros guarneciam todas as faces do dispositivo, com prioridade para as Alas Perante esta forte posição portuguesa a opção castelhana foi a de envolver por oeste, passando pela povoação da Calvaria, num longo movimento que demoraria toda a tarde, acabando a vanguarda castelhana por se posicionar no Chão da Feira, exactamente 5 km à retaguarda da posição inicial portuguesa, entre as 16 e as 17 horas. D. Nuno acompanha o movimento torneante castelhano e faz mover o seu dispositivo cerca de 2 km mais para sul, invertendo-o. Encontrava-se, agora, ainda no planalto de S. Jorge, entre as duas linhas de água (embora menos acentuadas, pois estava mais próximo das nascentes9), mas tem tempo de organizar o terreno e reajusta, proporcionalmente, o dispositivo escolhido: “Quanto à composição e articulação das forças, pensara não serem necessárias grandes altera reforçar a Frente à custa da Reserva, aí com umas oitenta a cem lanças, porque o terreno era mais fraco e mais extensa a frente a cobrir mas, face à possibilidade do inimigo empregar em qualquer direcção, mesmo pela retaguarda, a sua cavalaria ligeira sob o comando do Mestre de Alcântara (…) optara por manter a Reserva forte (…) esta última posição permitia-lhe também, criar um saco (uma bolsa), uma zona de morte onde nos derradeiros momentos antes do contacto, o inimigo aí entrado, seria sujeito a um potencial de tiro das armas de arremesso que queria devastador”10 Manda colocar abatises, abrir fossos e covas de lobo a sul desta nova posição, numa frente que não seria superior a 300 metros. Uma das questões que sempre se tem colocado aos vários investigadores da Batalha, após observação do campo de batalha e das escavações arqueológicas que revelaram até agora pelo menos 830 covas de lobo e fossos, um deles com 182 m de comprimento e uma profundidade dos 40 aos 70 cm, é: de quanto tempo dispuseram os portugueses para os escavar? Estima-se que num tempo de três horas e empenhando cerca de metade do efectivo, tornariam possível a acção, mas não é de descartar totalmente a possibilidade de D. Nuno ter começado a organização do terreno mais cedo. Na verdade há vários factores que levam a crer que ele já sabia, desde o início, que o combate se iria 7 OLIVEIRA, Frederico Alcide de, Aljubarrota Dissecada, Direcção do Serviço Histórico-Militar, Lisboa 1988 9 A oeste, o ribeiro de Vale de Madeiros (que corre para a Azenha da Amieira) e, a leste, o do Carqueijal ou de Vale da £ * ' ao Lena). MONTEIRO, p. 87. 8 RODRIGUES: 90 10 RODRIGUES: 91 6 MONTEIRO, p. 82 48 e, juntamente com os peões montariam guarda à carriagem, esta colocada por trás da Reserva, com excepção de um reduzido trem de apoio ao combate dos arqueiros e besteiros que se situaria dentro do quadrado” Nº 187 AGO09 “A batalha, mais do que entre os exércitos em presença, punha frente a frente os dois Reinos. Por isso, nela participaram ambos os Reis, e muitos lhe chamaram BATALHA REAL”11 Pelas 17h00, a vanguarda castelhana, constituída essencialmente por um a dois milhares de cavaleiros franceses, carrega sobre a posição portuguesa. A enorme frente montada é muito mais larga do que a frente portuguesa, mas, à medida que a carga progredia, os cavaleiros, condicionados pelos abatises, pelas linhas de água e pela natural procura de estabelecer o contacto com um inimigo em frente mais estreita, vão afunilando. À semelhança dos Atoleiros, as armas de projecção (os besteiros portugueses reforçados por cerca de 300 arqueiros mercenários ingleses) fazem tiro sobre a massa de cavalaria que se precipita contra eles. Em simultâneo, cavalos e cavaleiros abatidos obrigam os seguintes a desviar-se e a cair com mais facilidade nas covas de lobo e fossos (que W% dos com vegetação). Para aquela massa confusa de homens e cavalos é impossível recuar. Muitos perecem por esmagamento pelos próprios camaradas que os seguiam, como comprovam inúmeras ossadas extraídas do local12. Os poucos cavaleiros franceses que sobrevivem são capturados e enviados para a zona da carriagem portuguesa, onde * Talvez cerca de uma hora mais tarde entra em posição a “batalha real castelhana”13. Mais uma vez a frente castelhana sobrepassa enormemente a estreita frente portuguesa. O avanço inicia-se montado, mas mais uma vez as abatises e a própria ' < * perar que o centro “encaixe” no corredor de 300 metros de largura que conduz à frente portuguesa. < covas de lobo pejados de cadáveres e moribundos. Os arqueiros ingleses e os besteiros portugueses disparam chuvas contínuas de setas e virotões. Os cavaleiros têm de apear. Mesmo assim chegam ao contacto e tem início um feroz corpo a corpo, com inúmeras baixas em ambos os lados. Segundo Fernão Lopes, nesta fase, a frente portuguesa acabaria por ceder, mas as alas, mais libertas, dobram-se naturalmente para o interior, criando uma bolsa e continuam a disparar projécteis. D. João I viu necessidade de reforçar a frente com elementos da retaguarda. Mandou matar os prisioneiros franceses, provavelmente para desempenhar o pessoal que lhes fazia guarda e, ao da guerra pudessem aproveitar o empenhamento da frente para eles próprios tentarem algo sobre os peões e criados que permaneciam nos trens. AZIMUTE travar de sul para norte e não de norte para sul. Aliás, uma das razões pelas quais os castelhanos deram batalha foi o facto de estarem convencidos de que, envolvendo a hoste portuguesa, se encontrariam numa posição de vantagem. É crível que D. Nuno tivesse imaginado a manobra dessa forma e com o apoio das populações envolventes tivesse o terreno preparado antes da mudança de posição. (Nota: Usámos para esta recolha de informação * ** % mos de destacar que os autores referidos recorreram, para além das usuais crónicas de Fernão Lopes, Pedro Lopes de Ayala e a do Condestabre, a importantíssimas fontes coevas como as “entrevistas” recolhidas pelo cronista francês Froissart a Jean de Rye – camareiro do rei de França e veterano das batalhas de Crecy e Poitiers - ou ao cavaleiro gascão Espan du Lion – do condado de Foix, no sul de França que tinha combatido em Aljubarrota – ou ao relato de João Fernandes Pacheco – um dos heróis da Batalha de Trancoso e que também esteve em Aljubarrota - são por isso testemunhos importantíssimos que nos ajudam a compreender melhor a Batalha o que cruzado com a célebre carta de D. Juan I de Castela à cidade de Múrcia poucos dias após a Batalha Real nos ajudam a perceber melhor o que se passou a 14 de Agosto de 1385). !"# O Rei contra-atacou decididamente (…) um cavaleiro castelhano enfrentou o Rei, que alçou a facha para o abater. Ele, porém, parou o golpe, desarmou $ %# &'* com a sua facha. O Rei, refazendo-se, aparou-o, por sua vez, e desarmou o adversário. Quando ia abatê-lo, já era tarde. Alguém se lhe tinha antecipado e o cavaleiro castelhano jazia morto. (...) este episódio tendo-o como um dos momentos cruciais da batalha. Se a sorte do Rei lhe houvesse sido adversa, outro seria certamente o desfecho do combate (…) e um novo acontecimento crucial - a bandeira de Castela caiu derrubada.”14 Os castelhanos acabariam por ceder e começam uma retirada desorganizada e tomada de pânico. casos de lesões nos ossos frontal e occipital do crânio (que indiciam agressões direccionadas e provavelmente desferidas por trás ou quando o indivíduo se encontrava caído no chão) e a frequência de fracturas remodeladas (ossos fracturados que foram curados), que indiciam a presença de veteranos de guerra, com ferimentos de outras batalhas aos quais sobreviveram. 11 BESSA: 58 13 O corpo onde vinha o rei. 12 Há um grande número de ossadas encontradas com sinais de esmagamento e não de cortes ou fracturas provocados por lâminas de armas de corte. Além disso há ainda dois aspectos que merecem a atenção: a existência de bastantes 14 BESSA: 60-61, na opinião do Coronel Américo Henriques o combate do Rei com o Castelhano Álvaro Gonçalves de Sandoval deu-se mais tarde na Batalha, provavelmente durante a perseguição aos castelhanos Nº 187 AGO09 49 AZIMUTE (por Oeste era quase impossível devido ao declive do terreno) e ataque à retaguarda portuguesa por parque do Mestre de Alcântara e algumas centenas de ginetes. O ataque começa por ser rechaçado por alguns besteiros e pessoal que se encontra com os trens, dado que os castelhanos se encontram a tentar atravessar o ribeiro do Carqueijal (e os silvados que o ladeavam). D. Nuno e alguns dos seus montam nos poucos cavalos que se encontram disponíveis e acorrem à retaguarda, mas já o Mestre de Alcântara retira pelo mesmo caminho. A perseguição, desferida de imediato pela hoste portuguesa, é terrível, completada ainda pela acção dos populares. No entanto D. Nuno acabou por limitá-la, mandando regressar a S. Jorge, dado que tinha consciência que o exército castelhano era muito numeroso e podia reagrupar para voltar a combater. Na realidade, isto não aconteceu. Só na madrugada seguinte, com o levantar do dia, é que D. João I tem verdadeira consciência da retumbante vitória. O exército português e os populares do couto de Alcobaça tinham morto cerca de 6000 castelhanos e franceses. As baixas do lado portu y}}}#= no terreno os tradicionais 3 dias que simbolizam a vitória campal. No dia 17 de Agosto retira a hoste portuguesa sobre Alcobaça e “à passagem pela *#++$% e Nun’Álvares encontraram mortos muitos dos castelhanos que tinham logrado escapar na noite da batalha”15. Mais uma vez se comprova o forte apoio local que se produziu nos terrenos envolventes a S. Jorge, em especial, pelo já referido Abade de Alcobaça, D. João de Ornelas Em síntese foram estas as principais causas da vitória16: ¤ A ousadia de ir ao encontro de uma hoste muito mais numerosa; ¤ A escolha judiciosa do terreno; ¤ O alongamento da coluna castelhana; ¤ A precipitação do ataque castelhano – os castelhanos sabiam o risco de, se seguissem em ' * da com forças experientes na “guerra guerreada” e poderem ainda encontrar uma Lisboa bem defendida; ¤ A rapidez da inversão do dispositivo português; ¤ A articulação entre vanguarda, retaguarda e as alas; ¤ O impedimento da tentativa de envolvimento castelhano; ¤ Superioridade do comando e disciplina portuguesa Na sequência do êxito de Aljubarrota, D. João I ocupa Santarém, Leiria, Óbidos, Alenquer, Torres Vedras, Sintra, Crato, Monforte, Vila Viçosa, Marvão e outros lugares. Ainda no mesmo ano D. Nuno entra em Castela, para, mais uma vez, sair vitorioso no recontro de Valverde, numa acção propositada para manter a pressão militar. O monarca castelhano, com um exército desfeito e dois grandes revezes na memória, nunca mais teve condições de discutir a sucessão de D. Fernando. !/+2#*3 na vida dos portuguesas, a batalha por excelência. Portugal, que se estava gerando como Pátria, desde os tempos de Afonso Henriques, vira chegada a sua hora de surgir como Nação. Tinha condições e gente. Teve chefe – e a história cumpriu-se”17 Azimute O TCor Inf Nuno Correia Barrento de Lemos Pires é Licenciado em Ciências Militares pela Academia Militar, em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade Lusófona e possui uma Pós-graduação em História Militar pela Universidade Lusíada. Prestou serviço, entre outras unidades na Escola Prática de Infantaria, como instrutor dos principais cursos da Escola, no Instituto de Altos Estudos Militares, leccionando a cadeira de História Militar, no Corpo de Intervenção Rápida da NATO em Valência/Espanha (NRDC – Spain) na área de informações e desde Novembro de 2007 como Comandante do 2º Batalhão de Infantaria Mecanizado da Brigada Mecanizada em Santa Margarida. Com várias obras publicadas, colaborou em diversos livros e projectos em Portugal e Espanha, especialmente no âmbito da história militar, tendo igualmente publicado dezenas de artigos em diversas revistas e jornais, e conduzido diversas conferências em Portugal, Espanha e Alemanha. É sócio efectivo da Revista Militar, colaborador e revisor para assuntos militares do Círculo de Leitores, membro do Conselho % ! Militar, membro do Foro para el Estudio de la Historia Militar de España. BESSA, Carlos Gomes, e BARATA, Themudo, Conferência na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, 23 de Maio de 1985, no Ciclo Comemorativo da Batalha de Aljubarrota. MARTINS, A. de Oliveira, A vida de Nun’Álvares, Guimarães Editores, Lisboa, 1968. MONTEIRO, João Gouveia, Aljubarrota, 1385. A Batalha Real, Lisboa, Tribuna da História, 2003. OLIVEIRA, Frederico Alcide de, Aljubarrota Dissecada, Direcção do Serviço Histórico-Militar, Lisboa 1988. RODRIGUES, H.S. Castro, Aljubarrota ou a Fava de Terena, Moinho Velho, Lisboa, 2002 15 MONTEIRO: 115 16 BESSA: 72-73 50 Nº 187 AGO09 17 RODRIGUES: 10 TCor Inf Mário Álvares No período de 23 a 24 de Junho de 2009, como é tradição, realizou-se mais uma edição das Patrulhas D. Nun’ Álvares Pereira. A edição deste ano, repartida por po dois dias, contou com a co presença de pre doze Patrulhas. do Com uma nova Co dinâmica mas din que qu mantém inalter terável o conceito subjacente a evento os dois dias de prova permitiram per este evento, desenvolver o espírito de corpo no seio das Patrulhas e, também, desenvolver a responsabilidade individual em função dos objectivos do grupo. Antecedendo o primeiro dia e depois da cerimónia de recepção, os participantes e elementos da organização o de assistir a uma palestra do tiveram o privilégio e Sr. Coronel de o Infantaria Américo Henriques so-a bre o patrono da Infantaria e inspi-rador do evento,, D. Nuno Álvaress Pereira. No primei-ro dia, no interiorr da Tapada Militar,, as Patrulhas reali-zaram uma prova em estafeta que englobou a realização de uma Marcha/Corrida, Tiro com Espingarda Automática, Tiro com Pistola, e a realização de uma Pista de Combate no Complexo de Formação * > gun dia, enquagundo dra drados por algu '\ da segunda linha de redutos defensivo das Linhas sivos de Torres Vedras, rea realizou-se uma AZIMUTE As Patrulhas Nun’ Álvares Á Pereira Edição 2009 ao longo da qual, a partir de um trabalho colectivo, K ' de técnicas e procedimentos expeditos de orientação e de avaliação de distâncias. Nesta edição saiu vencedora a Patrulha da Unidade de Intervenção ? a EPI e o CTOE, respectivamente. Em termos das restantes equipas participantes * ram os seguintes: O tempo relativo à prestação da ETP traduz a impossibilidade de realização das provas do primeiro dia, em função das restrições de segurança impostas pela organização. Não obstante, louve-se a sua participação! Azimute K [! Nº 187 AGO09 51 AZIMUTE O Portal da Arma de Infantaria TCor Inf Mário Álvares As novas tecnologias de informação com as suas páginas na Internet abriram espaço a uma nova dinâmica para a partilha do conhecimento. Esta vertente, marcante no nosso quotidiano e ao alcance de um “click” num teclado, vem-se revestindo de < esta revolução digital mudou os nossos conceitos de espaço, de tempo, e de massa. Uma organização já não precisa de ocupar muito espaço, pode mesmo ser virtual, estar aqui ou em outro qualquer lugar. Pode receber e enviar mensagens simultaneamente. E objectos como li em forma de “bits” sem necessitarem de embalagens ou portes de correio. Estes novos recursos tecnorec lógicos trazem a lóg possibilidade de pos efectuar activiefe dades de âmbito dad global, oferecenglo do níveis de interactividade nunrac ca antes vistos. Depois, é dentro deste contexto que surge sur o marketing ' têm possibilidade de atingir níveis de interacção com seus clientes baseados em relações cada vez mais confortáveis e convincentes. Mas este “veículo” privilegiado de partilha e transmissão de saber é também fundamental e indispensável em escolas e centros de aprendizagem, sendo hoje um vector indissociável de qualquer percurso formativo pois possibilita a transmissão do conhecimento, facilita a acessibilidade, economiza tempo e recursos, permite desenvolver trabalho cooperativo e permite constituir bibliotecas de dados passíveis de actualização on-line. Hoje, a Internet deixou de ser um ambiente alternativo, onde apenas estudantes e curiosos navegavam. Hoje, ela é o principal canal de comunicação, entre a organização e os colaboradores que lhe dão vida. A organização e o seu sítio são a imagem institucional, da missão da organização no mundo virtual. Assim, as páginas de web são uma espécie de montra para apresentação de informação que suporta a actividade da organização. Foi nesta óptica que a Escola Prática de Infantaria, nas recentes Jornadas da Arma, realizadas no passado mês de Junho, sugeriu a criação de um sítio sobre a 52 Nº 187 AGO09 Infantaria Portuguesa. Indubitavelmente, envolvendo as Unidades de Infantaria, procura-se com esse novo espaço consolidar a identidade da Arma através de um trabalho colaborativo de partilha de conhecimento e de informação. Todavia, a importância de credibilizar um “sítio” está directamente relacionada com a disponibilidade de informação de fácil de encontrar sem dispender muito tempo, e que vá ao encontro do universoalvo. Este novo espaço, construído o de forma objectiva, com conteúdos sucintos ao nível da organização e desenho, procura dar resposta às temáticas comuns à Arma e a áreas de saber de interesse à actividade operacional, doutrinária e técnica da Infantaria. A partir deste espaço será possível estudar e conhecer o armamento ligeiro, médio e pesado empregue pela nossa Infantaria, conhecer muitos dos d seus projectos de investigação e deseninv volvimento, ou debater vo e analisar assuntos de interesse comum. int Também a partir dele será possível acede der e compreender mede lhor a história, os símlho bolos e as tradições bo da Infantaria portuguesa, conhecer instantaneamente a acção dos infantes, em território nacional e no exterior, na prossecução dos superiores interesses nacionais. Será, também, um espaço em que todos os infantes, no activo, na reserva ou na reforma, poderão melhor sentir o pulsar da instituição à qual estão interporalmente e emocionalmente ligados. Também por isso esta é uma iniciativa que vale a pena, que garanta a inclusão de toda a Infantaria, em prol da sua coesão e espírito de corpo. Entendendo a importância desta iniciativa, importa apresentar um “sítio” actualizado. Um “sítio” com conte % ' utilizadores. Um “sítio” que seja a imagem da Infantaria Portuguesa no mundo e critério de selecção utilizado por milhares de pessoas. Assim o faremos. Azimute Direcção de Formação AZIMUTE Jornadas de Infantaria “As Pequenas Unidades de Infantaria no Combate em a A Escola Prática de Infantaria (EPI) promove anualmente ass = - ao nível da Arma, sobre temass e assuntos que directa ou indi- a Infantaria Portuguesa, nomea-damente sobre os aspectoss doutrinários, técnicos e de em-prego das pequenas Unidadess de Infantaria. Pretende-se en-quadrar as Jornadas no contex-to da modernidade operacional,, designadamente quanto a orga-nização, treino, meios e equipa-mentos, liderança, pessoal, infra-Sessão de Abertura estruturas e interoperabilidade. MGen Pereira Agostinho e o Comandante da EPI 8 Assim, realizaram-se entre 18 e 22 de Junho de 2009 as Jornadas boas-vindas a todos os presentes e fez a introdude Infantaria 2009 (JI09), subordinadas ao tema ção ao tema das Jornadas de Infantaria 2009. geral “As Pequenas Unidades de Infantaria no * > $>Seguidamente, o Exmo. Major-General António tegrado no programa das Comemorações do Dia Noé Pereira Agostinho usou da palavra para sada Arma de Infantaria e da EPI, tendo o dia do enlientar a actualidade e pertinência do debate sobre cerramento coincidido com a inauguração de uma * > ">' =? $ na Sala de Honra da Infantaria. riamente tendo este ambiente como pano de fundo, As JI09 foram iniciadas por um conjunto de pae as missões em que Portugal tem participado e lestras que permitiram enquadrar o tema geral aciestá a participar não fogem a esta regra. ma referido e posteriormente foram debatidos os De seguida, o Tenente-Coronel de Infantaria temas propostos no seio de Grupos de Trabalho Sebastião Macedo, Director de Formação da EPI, (GT), com representantes das diferentes Unidades, apresentou as Jornadas de Infantaria 2009 no que Estabelecimentos e Órgãos, na modalidade de K *_ workshop! tributos para a formulação de uma proposta consolidada sobre “As Pequenas Unidades de Infantaria * > $rentes subtemas tratados. No dia 18 decorreu a sessão de abertura, presidida pelo Exmo. Presidente do Conselho da Arma de Infantaria, Major-General António Noé Pereira Agostinho, estando presentes inúmeros convidados, elementos participantes nos Grupos de Trabalho, além de quatro conferencistas que em muito engrandeceram estas Jornadas, permitindo acompanhar o “estado da arte” de outros comandos e países. Os trabalhos iniciaram-se com a intervenção do Exmo. Comandante da EPI - Coronel Conferencistas e participantes de Infantaria João Ormonde Mendes que deu as Nº 187 AGO09 53 AZIMUTE Palestras Enquadrantes do Tema Palestra nº1 Pelo 68 9 : - US Army, da Embaixada dos EUA em Lisboa, foi apresentado o tema “The tactical Employment at tica Squad and Platoon Squ Level and the Infantry Lev Tactics in MOUT/ Tac FIBUA”,envolvendo as principais lições retiradas da Operação tira Phantom Fury em Pha Fallujah, Iraque - Novembro 200 2004. Na sua apresentação destacou quatro ensinamentos que o exército americano tirou desta operação e que rapidamente introduziu na doutrina e programa de cursos: 1. O combate urbano combina infantaria e carros de combate (CC) Além da necessidade, utilidade e complementaridade dos CC e da Infantaria, o orador alertou para um problema que os CC têm e que só pode ser resolvido com o auxílio da infantaria. Trata-se dos ângulos mortos dos CC e que são ainda mais evidentes quando estes No entender do conferencista a solução encontrada para melhor combinar Infantaria e CC é a que a seguir se expõe: 54 Nº 187 AGO09 De salientar, como conclusão deste ponto, que o exército americano pretende transformar os seus agrupamentos (com unidades de escalão Companhia), em subagrupamentos (constituídos por pelotões de Infantaria e CC). O objectivo é fazer baixar o escalão de integração da Infantaria com CC. 2. A Infantaria deve ser treinada para proceder à abertura de brechas com explosivos Este ponto foi relacionado com a formação em manejo de explosivos por parte dos militares de infantaria, tendo em conta que do antecedente era matéria exclusiva da engenharia. A necessidade cada vez maior destas perícias veio impor que a formação nesta área deve ser extensível a todos os militares em geral e não só a especialistas. 3. O maior perigo para a infantaria é na passagem entre edifícios dade que o exército americano sentiu na pro < entre edifícios expõe a infantaria e transforma o militar num alvo vulnerável. As técnicas de transposição, de mascaramento do movimento devem ser aprofundadas e treinadas até à exaustão. Palestra nº2 O LTC Niels Windheuser do JALLC, a quem foi proposto o tema Th The Interoperability within NATO Urban wit Op Operations at Small tactical Units, organitac zou a sua apresenzo taç tação nos seguintes po pontos: 1. O processo de liçõ ções aprendidas do JA JALLC; 2. Um relatório sobre 8* Soldier System - DSS (Soldado (S do Futuro) efectuado por militares do JALLC que acompanharam uma força do exército do Reino Unido no Afeganistão; 3. Lições Aprendidas nas operações correntes da NATO. Da sua apresentação, que foi preparada em coordenação com o TCor Inf Jorge Costa Campos (que presta serviço no JALLC e que por motivos de serviço não pôde estar presente), são de salientar as seguintes conclusões: ¤ Com o DSS pretende-se a integração de tudo o que o Soldado utiliza, transporta e consome para potenciar as sua capacidades individuais e colectivas (Pequenas Unidades) dentro da sua estrutura nacional de Comando e Controlo; ¤ A Interoperabilidade é fundamental, com a Infantaria Ligeira a desempenhar um papel predominante; ¤ Combate conduzido praticamente sempre apeado e em terreno complexo, com as áre =>#£>> Improvisados) sempre presentes, levando as operações a caracterizarem-se por grande intensidade; ¤ DSS não deverão estar dependentes da sua ligação a veículos e deverão estar aptos para * © ¤ O peso dos equipamentos é um factor-chave (o que hei-de transportar para esta Missão?). No que se refere à multinacionalidade das operações foram destacados os seguintes pontos, como sendo os mais importantes: ¤ Aspectos culturais e linguísticos – críticos nos baixos escalões; ¤ Nas actuais operações da NATO existem diferentes tácticas, técnicas e procedimentos (TTP) nos diferentes países; ¤ K ' #^^ > melhora: ¤o Comando e Controlo aos baixos escalões; ¤a Designação de alvos e a Navegação. ¤ K ' #^^ > ' (Exemplo do GPS). AZIMUTE 4. Técnicas de limpeza de compartimentos e treino de tiro em ambiente urbano No quarto ponto foram apresentadas algumas técnicas de entrada em edifícios que, na sua maioria, já são por nós ensinadas nos cursos e treinadas nas unidades da FOPE, de onde se realça o tiro como factor fundamental para o sucesso de qualquer unidade de combate. Palestra nº3 O Cap Inf Rafael a ae Lopes, opes, Co Comandante a da te da Companhia de Apoio à a Formação da EPI, represen-tante portu-n guês no “Urban Operations p Working Group (UOWG)”, a abordou o tema ação Actual e Perspectivas Futuras”. Futuras” “ UOWG - Situação Foi apresentado: 1. O enquadramento do UOWG na estrutura da NATO; 2. A origem e objectivos do UOWG; 3. Perspectivas de Futuro. O GT depende directamente do Army SubGroup (ASG) que está subordinado ao NATO Training Group (NTG) e : ¤ Recebe das nações representadas no GT apoio no treino e documentação relativa ao CAE. ¤ Analisa TTP e equipamentos de forma a criar um conceito comum e integrado de CAE. ¤ Assegura que a formação e treino do CAE se mantêm actualizados de acordo com as mais recentes missões e ameaças. No que diz respeito às perspectivas de futuro, foi feito um resumo do que o GT está a desenvolver e que se destaca: ¤ O CAE como base da formação do Infante; ¤ Promover a discussão do emprego de armas combinadas no CAE (já iniciado); ¤ Apoiar o desenvolvimento do Projecto de Ampliação do “ALDEIA CAMÕES” e contribuir para a actualização dos programas de instrução dos cursos ministrados na EPI; ¤ Análise do Cap. V do Urban Operations Tactical Handbook (UOTH), no que diz respeito às funções de Combate; Nº 187 AGO09 55 AZIMUTE ¤ Aprovação do Vol. II do UOTH e passagem do Vol I a ATP; Decorrerá em Portugal a Reunião do UOWG no âmbito das “Informações no CAE”, de 26 a 30 de Abril de 2010. Palestra nº4 O Capitão de Infantaria Alexandre Ale Capote, da Brigada Mecanizada, Bri foi proposto o a quem q tem tema: “As Pequenas Un Unidades de Inf Infantaria no Combate > Perspectiva do em- P pre prego de meios mecaniz nizados e blindados”. O Capitão Capote * * em Portugal e no Reino Unido. Foi comandante da 2ªCAt / AgrMec / NRF 12 e é actualmente adjunto '\ Da sua apresentação temos a destacar uma série de apontamentos que são o resultado do estudo e da experiência operacional de um Agrupamento em NRF. A apresentação, entre outros aspectos, trouxe de relevante os seguintes: ¤ Emprego de meios mecanizados e blindados; ¤ > O Emprego de meios mecanizados e blindados K _ W uma fórmula que a seguir se descreve: Efeito magnético das áreas urbanas + Caracterização ameaça = Necessidade de protecção / Poder fogo No que diz respeito ao treino, “o que treinar?” foi a primeira questão a ser respondida, com uma lista de temas explanados no PLANO DE TREINO e de onde se retira a seguinte conclusão: o treino deve abarcar todo o espectro de operações, deve ser contínuo e com prioridade para as tarefas inerentes ao combate. Quanto aos Objectivos do treino, estes devem ser detalhados até ao escalão secção de atiradores. Desenvolvimento dos Trabalhos '\ ? debate sobre os diferentes temas propostos. Os GT contaram com a presença de diversos W que em muito contribuíram para as discussões entre o grupo e para as conclusões que foram apresentadas no dia 22Jun09. 56 Nº 187 AGO09 Conclusões das Jornadas A Cerimónia de Encerramento das JI 09 contou com a presença dos Comandantes das unidades de infantaria e foi presidida pelo Exmo. Director -Honorário da Arma de Infantaria, Tenente-General Mário de Oliveira Cardoso. Nesta sessão foi feita a apresentação das conclusões por parte dos GT, efectuadas pelos seus coordenadores, que seguidamente se resumem: Encerramento das Jornadas de Infantaria GT 1 – pelo Tenente-Coronel de Infantaria Jorge Gamito Torres, que coordenou o tema “A Condução de Operações de Combate em Ambiente Urbano – Requisitos de Capacidades de Informação nos Baixos Escalões (Companhia, Pelotão e Secção)”, e apresentou as seguintes conclusões: ¤ Doutrina – Técnicas, Tácticas e Procedimentos * _ com a doutrina ISTAR (impacto dos novos meios); ¤ Treino – Aplicação dos meios – Impacto no treino individual e colectivo: integração e gestão de sensores e C 2; ¤ Organização – Novos requisitos só alteram a estrutura orgânica de material. As células de gestão de sensores (UAV’s/UGV’s) são orgânicas da UEB; ¤ Meios – Requisitos de capacidades dos sistemas: actuar de forma autónoma; isolada do apoio das principais plataformas e/ou sistemas de armas; ligeiros; ¤ Liderança – Planeamento centralizado, execução descentralizada – maior exigência e responsabilidades na coordenação das operações aos baixos escalões; ¤ Pessoal – Necessidades de novas competências: selecção; especialização; ambiente multinacional/língua; ¤ Interoperabilidade – Uso do SICCE na integração de todos os meios C4ISR até ao escalão secção. ¤ Quanto à organização a proposta vai no sentido de se criarem dois níveis de Simuladores: o primeiro nível nas entidades que sejem iden >! acesso aos sistemas; o segundo nível, para % ]!> zadora, destinado ao treino do pessoal; ¤ No que diz respeito às infra-estruturas, as recomendações vão no sentido de haver uma '~ lação estar associado à infra-estrutura real, da criação de instalações para acolher sistemas de simulação e da rentabilização das infra-estruturas reais, permitindo o seu desenvolvimento; ¤ As propostas respeitantes ao pessoal vão no sentido da criação de órgãos ou entidades responsáveis pela gestão da formação de quadros £] vinculação/permanência dos militares e da contratualização de formação, manutenção e reuK ' ~ % AZIMUTE GT2 – pelo Major de Infantaria Jorge Varanda Pinto, que se debruçou sobre o “Emprego Táctico de uma Unidade de Escalão Companhia, em todo o Espectro das Operações, num Cenário de Contrasubversão Urbana” apresentou as conclusões que se destacam: ¤ Doutrina - proposto que fossem elaborados dois manuais pela EPI, coadjuvada pela FOPE, sobre COMBATE URBANO. Propõem para a organização base de um Batalhão de Infantaria, com a constituição permanente de Sub-Agrupamentos, com base nas companhias e esquadrões da BrigInt. E ainda a integração nesse batalhão de Lança Granadas Automáticos, UAV e secções Cinotécnicas; ¤ Treino e material – proposta de algumas alterações e aquisições para fazer face às novas tecnologias. ¤ Este GT considera a liderança como área essencial para os novos quadros. Este ponto tem ligação directa ao seguinte, do pessoal, e onde o GT salienta uma série de acções de formação no TN e no estrangeiro que seriam necessárias para fazer face ao tema proposto; ¤ Quanto às infra-estruturas a proposta vai no sentido de se ampliar e melhorar as infra-estruturas existentes para o CAE, pois estas devem permitir a execução de tiro real, a utilização de viaturas mecanizadas/blindadas e alterar as situações de treino, para o tornar mais realista; ¤ No último ponto, a interoperabilidade, as propostas vão no sentido de a doutrina ser comum ou, no mínimo, compatível e possibilitar o emprego combinado de forças. ¤ O treino deve ser do tipo Cross Training para adaptação e integração. É, no entanto, no material (Armamento, Transmissões, Etc.), onde existem mais sistemas que requerem compatibilidade. ¤ Quanto ao pessoal, deve ter as competências para participar em operações combinadas (Linguística). GT3 – Coordenado pelo Tenente-Coronel de Infantaria Rui Mendes Dias, que teve como objec* "] e Técnicos de Simulação para os Sistemas de Combate de Infantaria dos baixos escalões tácticos (Companhia, pelotão e Secção) em ambiente urbano”, apresentou as seguintes conclusões: ¤ < ' % ' cional deve ser construída com base nos conceitos basilares da OTAN (Simulação, Interoperabilidade e Reutilização), bem como nos seus princípios-guia, a normalização de tácticas e procedimentos fruto das lições aprendidas, e a revisão dos diversos referenciais de curso; > sentado pelo comandante da EPI, à audiência, uma proposta de “site” da arma de infantaria. Este sítio terá como objectivo ser um repositório dos símbolos, das tradições e do historial da arma para além de documentos relacionados com a infantaria portuguesa e estará disponível na internet. Foi com muito agrado e receptividade que este assunto foi visto, pois permite colmatar uma lacuna existente, constituindo-se igualmente como um local de debate e encontro entre Infantes. Como já anteriormente se aludiu, teve ainda lugar uma visita inaugural, pelo Tenente-General DirectorHonorário da Arma de Infantaria, à Exposição sobre a participação do Corpo Expedicionário Português (CEP) na 2ª Guerra Mundial. A visita foi guiada pelo Coronel Américo Henriques, especialista em História Militar, que mostrou efectivamente o que foi a digna e difícil participação portuguesa na IGM. Azimute >' ¨>! `? Nº 187 AGO09 57 AZIMUTE O Batalhão de Infantaria Mecanizado virado para o Futuro Maj Inf Rodrigues Dias Com a realização deste trabalho pretendeu-se d = Mecanizado (BIMec) no futuro, tendo em conta as funções de combate e, por outro lado, a consequente necessidade de adaptação do Exército Português, no que concerne às suas forças mecanizadas, face a introdução dos novos Carros de Combate (CC) - LEOPARD II A6. Como factor condicionante, tendo em conta os % das verbas afectas, constitui-se determinante para o Exército o projecto de reequipamento e modernização das viaturas M113 e substituição dos CC M60, sendo este aspecto fundamental para o desenvolvimento do respectivo parecer técnico. < * [ para além da análise e determinação das principais características tendo em conta o novo ambiente operacional – o conjunto de capacidades necessárias que deverá possuir um BIMec, quando em operações num teatro não linear1 , de forma a obter uma linha de orientação para a concepção e organização de uma possível estrutura para a unidade em estudo. A metodologia adoptada para este estudo consistiu na sustentação de um conjunto de hipóteses, através da pesquisa de anteriores trabalhos, efectuada em fontes abertas, para os quais concorreram diferentes modelos, como por exemplo o Israelita, Brasileiro, Australiano e Italiano; as lições aprendidas em operações, em especial pelas for' tos que lançam os Exércitos na senda da transformação, como necessidade última de protecção e sobrevivência no que concerne à abordagem rea No entanto, pela sua natureza, este trabalho foi limitado tendo em conta os sistemas de armas, equipamentos colectivos e protecção e a 1 O campo de batalha moderno é não-linear, com áreas de operações contíguas ou não contíguas, incluindo, para além da vertente aérea, terrestre e marítima, igualmente a componente espacial, onde se desenrolarão os combates da informação, e o espectro electromagnético. Inclui ainda as características do terreno, a população, as forças amigas e o adversário. (RC Operações – SET05) 58 Nº 187 AGO09 consequente necessidade de evolução. !* pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para este tipo de unidades, procurou-se chegar à questão central. A questão central: “A organização actualmente proposta para um Batalhão de Infantaria Mecanizado é adequada ao seu emprego em “full Spectrum2”? Como seria a aplicação dos actuais BIMec portugueses em teatros de operações, de natureza não linear, sem perder as características básicas da arma de Infantaria.”? Tal serviu de suporte a um conjunto de questões derivadas que regularam todo o processo de investigação: ¤ O actual modelo preconizado para um BIMec, consegue suportar o conjunto variado de capacidades (capability statements), no amplo _\ guerra? ¤ O actual modelo suportado em viaturas da família M113 A1 e A2 cumpre todas as capability statements? ¤ O actual modelo suportado em viaturas da família M113 A1 e A2, em termos de manobra, apoio de combate e comando e controlo, acompanha os CC LEOPARD II A6? Tendo em conta que o Ambiente Operacional W"_'\¬ ências que afectam o emprego de forças militares \ $3, importa pois ter bem presente que factores o condicionam e caracterizam: ¤ Os objectivos nacionais a alcançar através dos diversos elementos do poder nos quais está in%' pela política, e que estão directamente relacionados com os interesses nacionais, constituindo assim a envolvente estratégica do ambiente operacional; ¤ Os objectivos militares da operação, determinados pela estratégia e enquadrados pela doutrina de emprego de forças; 2 Operações em todo o espectro (FM 3-0 Operations FEB08) 3 Regulamento de Campanha 130-1 operações (1987) Este novo ambiente operacional, caracterizado por ameaças e riscos difusos, traz agregado um conjunto de tendências, com destaque para a globalização, a proliferação de fenómenos regionais associados ao alastramento de nacionalismos e radicalismos. Há que considerar também o maior protagonismo dos actores não-estatais, a descaracterização das fronteiras físicas, a crescente vulnerabilidade dos Estados, as intromissões externas e o aumento das assimetrias entre países ricos e pobres, que constituem igualmente elementos caracterizadores da actual conjuntura internacional. < nal, face a este tipo de ameaças, caracterizam-se essencialmente por serem assimétricos4 , onde o mais fraco procura anular as vantagens do adversário tecnologicamente mais evoluído. Perante este novo cenário internacional os países terão que determinar as modalidades de acção para atingir os objectivos políticos e salvaguardar os seus interesses5, modalidades essas que afectarão a atribuição das missões às forças militares, o volume e a composição dessas forças, os recursos postos à sua disposição e as linhas gerais de emprego operacional dos meios Estas ameaças e riscos à segurança nacional e internacional, assumem um carácter multi-facetado, k W \ ' natureza similar, sendo característicos do ambiente operacional da guerra-fria, condicionando ainda hoje a doutrina, treino e ' ] W opõem forças armadas convencionais ou não, com estrutura, volume, equipamento, tecnologia e doutrina muito díspares. > básicas, fundamentais da nação, os objectivos nacionais descrevem o que um país procura atingir. Os objectivos nacionais são metas específicas que uma nação procura alcançar a fim de promover, apoiar ou defender os seus interesses nacionais. imprevisível e transnacional que devem privilegiar '\ ' % prego num ambiente conjunto e combinado para faK * e elevada intensidade. Para tal, tendo em conta as tarefas, localizar, K do combate, tais como a manobra, o fogo, a liderança, a protecção e a informação6. Ao combinar e conjugar estes elementos com o objectivo de executar as tarefas fundamentais, temos os sistemas operativos denominados por funções de combate, que são7: ¤ Manobra; ¤ Apoio de Fogos; ¤ Informações; ¤ Protecção (Mobilidade, Contramobilidade e Sobrevivência); ¤ Defesa Aérea; ¤ Apoio de Serviços; ¤ Comando e Controlo. Por tudo o que foi referido até ao momento, é dentro deste espírito que a modernização dos actuais equipamentos, e neste caso concreto a modernização das viaturas da família M113, assume especial relevância, sem dúvida um salto qualitativo positivo e prova que aquilo que se pretende é um “=>D # X>/# evidencie força, adaptado e adaptável ao ambiente interno e externo, cada vez mais projectável, com 2$#2/vel de meios, pronto a ser empenhado em todo o X#&+ta e combinada onde e quando for superiormente determinado”8. <* K guma pesquisa através das fontes abertas de forma a tentar perceber o que fazem os outros exércitos no domínio das forças mecanizadas, dos quais se destacam os Estados Unidos (EUA), Israel, Itália, < apresentam características comuns: ¤ Alta mobilidade estratégica, tendo em vista a aplicação dos mesmos em Teatros de Operações (TO) muito afastados do país de origem; ¤ Preparados para operar em ambientes complexos em que as Áreas de Operações (AO) são dominadas pelo ambiente urbano (prepon- AZIMUTE ¤ A ameaça, referida ao tipo de forças e seu po prego das suas forças, bem como qual o tipo © ¤ A área de operações, de onde importa considerar as suas características e a forma como afecta o emprego de forças; ¤ A informação, tendo em vista a forma como ela pode condicionar o desenrolar das operações; ¤ A tecnologia e contributos inerentes ao desenvolvimento e aplicação da mesma no emprego de forças; ¤ A unidade de esforço como componente fun K ' militar. 6 Regulamento de Campanha – Operações (2005). 7 Idem. 8 Visão – Directiva 90/CEME/2007. Nº 187 AGO09 59 AZIMUTE derância de TTP9 para o combate urbano); ¤ Possuem sistemas operacionais fortemente apoiados na capacidade C3I, para recolha e tratamento de notícias para além de possuírem unidades especializadas em ISR (Intelligence, Surveillance and Reconnaissance); ¤ Armamento e viaturas com um grande incremento tecnológico e protecção; ¤ Uma grande aposta na indústria de defesa nacional, com ligações aos grandes fornecedores internacionais; as forças mecanizadas devem estar aptas a enfrentar as condicionantes operacionais do moderno campo batalha. Relativamente às Forças Mecanizadas Portuguesas e quando confrontadas com outros exércitos, demo-nos conta desde logo, de uma acentuada diferença em termos de comparação, com as nossas forças mecanizadas, onde interessa salientar, ao contrário de outros exércitos, que a unidade táctica fundamental assenta no Batalhão ou Agrupamento. Dito isto, uma questão que de imediato se coloca é qual será a verdadeira realidade, em termos operacionais e tácticos, das nossas forças mecanizadas, entenda-se a composição e articulação de forças com Viaturas Blindadas de Transporte Pessoal (VBTP) e Carros de Combate (CC): ¤ # ' * continuado10; ¤ As nossas VBTP M113 têm mais de 30 anos, pouca ou nenhuma tecnologia, fraca blinda CC. Este aspecto será mais notório quando os agrupamentos forem articulados com CC LEOPARD II A6; ¤ Pouca ou nenhuma capacidade de produção de Informações, capaz de auxiliar o comandante a perceber o campo de batalha – capacidade “Common Operational Picture”11; ¤ Inexistência de viaturas blindadas leves de rodas, para o desempenho de tarefas espe% =^ £Intelligence, 9 Técnicas, Tácticas e Procedimentos 10 O conceito de combate continuado visa a máxima utilização K ] '\ criar janelas de oportunidade. 11 A Imagem Operacional Comum (COP – Common Operational Picture) é uma imagem no tempo de forças amigas (azuis), neutras (verdes ou brancas), adversárias (vermelhas) e, do campo de batalha (castanho). É formada através da base de dados das operações, das notícias e informações comuns a todos os escalões de comando e é disseminada ao seu escalão de comando. (PDE 2-00 Informações e Segurança) 60 Nº 187 AGO09 Surveillance and Reconnaissance), o que dimi * combate; ¤ < ção das actuais viaturas M113 A1 e A2 pois, já não se fabricam; ¤ A dependência de meios de comunicações e tando a capacidade destas unidades em operar isoladamente; ¤ ! em operarem em ambientes complexos conjugados com o ambiente urbano. Desta forma, todo o processo de modernização das viaturas M113 deverá ser orientado pelo conjunto de capacidades requeridas pela OTAN. É certo que este estudo teve em conta a probabilidade de emprego dos BIMec, desde situações W ~ ] '\ de Resposta a Crises (CRO), onde se torna urgente dotar estas unidades de sistemas modernos de protecção, poder de fogo e comando e controlo, de forma a colmatarem as limitações/problemas levantados durante o estudo em apreço. Neste contexto foram assumidas como referência as capacidades exigidas pela OTAN referentes a um Batalhão Mecanizado: ¤ Actuar como agrupamento (quando reforçado com carros de combate); ¤ Participar em operações Conjuntas/ Combinadas; ¤ Capacidade para observar, negar o acesso, ocupar e defender pontos fortes; ¤ Capacidade de empenhamento decisivo, excepto em terreno montanhoso e selva; ¤ Capacidade para receber e integrar o apoio de combate, apoio de fogos e apoio de serviços de outras unidades (engenharia, reconhecimento, artilharia, ISTAR - Intelligence, Surveillance Target Acquisition and Reconnaissance, GE – Guerra Electrónica, etc); ¤ Capacidade para atacar, defender ou executar operações de retardamento com outras unidades amigas em apoio ¤ Capacidade para desenvolver operações militares em áreas urbanizadas; ¤ Capacidade de combate próximo com o armamento orgânico e quando reforçado com carros de combate; ¤ Capacidade de garantir um nível adequado de protecção da força (incluindo NBQ e protecção contra engenhos explosivos improvisados accionados remotamente) para todo o pessoal, armamento e equipamento orgânico da ¤ As viaturas devem possuir canhões com calibre superior a 20mm e sistemas de mísseis anti-carro guiados. Como facilmente se pode depreender, a BrigMec Portuguesa, face à obsolescência dos seus meios K critérios operacionais acima mencionados. Acresce que esta brigada, e os seus batalhões em particular deve garantir um grande poder de choque, fogo ' média/alta intensidade12. Como tal, tem como principais elementos de manobra dois BIMec, um Grupo de Carros de Combate (GCC) e um Esquadrão de Reconhecimento (ERec). Desta forma, tendo subjacente o conjunto de princípios anteriormente referidos, urge a introdução de “upgrades” que tenham em atenção a protecção, a capacidade de vigilância e combate próximo para toda a família de viaturas VBTP M113. Face às exigências do moderno campo de batalha, as viaturas de combate com lagartas precisarão de andar mais rapidamente, carregar cargas mais pesadas, fornecer à tripulação equipamento e protecção aumentada e possuir sistemas digitais próprios da denominada Força XXI. Actualmente os governos e indústrias de defesa detêm um conjunto de iniciativas no sentido de assegurar estas capacidades às viaturas da família M113A3. A estrutura de força para as forças blindadas do século XXI manterá muitas das viaturas blindadas de lagartas que existem nos diferentes Exércitos, assumindo desta forma a necessidade de constantes “upgrades$ ] W nanciamentos para melhorar as capacidades das mesmas e reduzir as limitações do actual parque de viaturas blindadas. Esta tem sido uma tónica constante de outros exércitos que têm viaturas da família M113. Sendo que, em todos eles, o objectivo prioritário de modernização é garantir o estado de operacionalidade das unidades, de modo a não comprometer o treino das subunidades e os compromissos internacionalmente assumidos. Para além do anteriormente referido, a manutenção elevada de índices de disponibilidade, a redução de custos e o tempo de manutenção preventiva e a extensão do ciclo de vida das mesmas por mais 15 ou 20 anos encerram em si o objectivo deste mesmo projecto. AZIMUTE Unidade; ¤ *~ '' tres para evitar o fratricídio; ¤ Capacidade para actuar integrado num ambiente em rede (NNEC – NATO Network Enabled Capability); ¤ Capacidade para obter / partilhar informação em “tempo real / próximo do real” que contribua para o BFSA (Blue Force Situation Awareness – Percepção Situacional das Forças Amigas); ¤ Capacidade para actuar sem reabastecimentos ou recompletamentos por um período até 3 dias (excepto classe V); ¤ Capacidade para manter actualizada, de forma automática, a rede de Comando e Operações e Logística relativamente à situação da classe III e V, bem como os danos existentes relativos a combate e não combate; ¤ Capacidade para fornecer apoio sanitário e logístico integral; ¤ Capacidade de fornecer apoio a forças blindadas fazendo uso da mobilidade e protecção; ¤ Capacidade de conduzir operações de contrasubversão, apoio à paz e outras tarefas como sejam execução de patrulhamentos, controlo de tumultos, em ambientes pouco permissivos usando outros sistemas ou doutrinas; ¤ Capacidade de conquistar, controlar, segurar e organizar o terreno; ¤ Capacidade de participar em operações conjuntas e combinadas como força expedicionária e emprego táctico em condições climatéricas extremas de calor e frio e condução de operações em terrenos austeros; ¤ Capacidade de integração dentro do sistema JISR - Joint Intelligence, Surveillance and Reconnaissance; ¤ Capacidade de partilha da COP – Common Operational Picture – com as suas subunidades até ao escalão Secção; ¤ Capacidade de obter de dia, noite e em condições de visibilidade reduzida, imagens de objectos ou de actividades de interesse e disseminar essa informação e dados complementares (por ex: GDH, localização) para um sistema de exploração e tratamento em tempo oportuno e de forma segura; ¤ Capacidade de adquirir e bater alvos de dia / noite quer estacionária quer em movimento; ¤ Capacidade de conduzir operações apeado; ¤ Capacidade de fornecer apoio próximo a forças blindadas fazendo uso da mobilidade, fogo, protecção; 12 Entenda-se alta intensidade como a Guerra Global Ilimitada, Guerra Regional Ilimitada ou o Terrorismo ataques Nucleares Biológicos Químicos ou Radioactivos (NBQR) ou Endémico (relativo a um povo ou a uma região) (Collins, 2002, 22). Nº 187 AGO09 61 AZIMUTE Como exemplo, seguiu-se o projecto de modernização das viaturas M113 do exército Brasileiro que têm sofrido constantes “upgrades” relativamente ao projecto básico da VBTP M113 BR. Para que se tenha uma noção mais adquada, estes foram os sistemas contemplados em termos de modernização: ¤ Sistemas de força: motor/transmissão; ¤ Sistemas de arrefecimento; ¤ Sistema de suspensão e conjunto de lagarta; ¤ Sistemas de direcção e comando para o condutor; ¤ Sistemas de observação; ¤ Sistemas de comunicações; ¤ Sistemas eléctricos; ¤ Porta, escotilha, dobradiças, dispositivos de retenção e trincos; ¤ Sistemas de navegação; ¤ Sistema de armas; ¤ ^ * '© ¤ Sistemas de ventilação interna; ¤ Sistemas de alimentação; ¤ Sistema de combate a incêndios. Devido à sua durabilidade, baixo custo e peso leve, o projecto para as viaturas M113 é um ponto de partida ideal para o desenvolvimento de veículos blindados pouco pesados (abaixo das 20Ton). Os conceitos variam desde viaturas de apoio até viaturas guarnecidas com torres, ou seja, as mais pequenas alternativas são todas possíveis dado o tipo de chassis e respectivos componentes que são a linha de base das viaturas M113. Os conceitos recentes para o M113 no futuro incluem: ¤ O suporte universal XM1 10813; ¤ O sistema de alta mobilidade do M113A3, e o M577A3 CPC “Stretch”. Estes conceitos, assim como outras iniciativas em curso de melhoramento, fornecem os alicerces para a modernização futura e contínua viabilidade e utilidade dos sistemas M113. Não obstante a necessidade e os prazos envolvidos, estes conceitos fornecem uma alternativa K ' ' = mento dos programas se concentre nos sistemas de aquisição de alvos, sobrevivência, e nas necessárias tecnologias referente às comunicações. As possibilidades de evolução das viaturas da família M113 são imensas. Países como o Brasil, Canadá, Austrália e Israel, têm feito diversos 13 The XM1108 Universal Carrier is a classic example of how technological advances within the M113 FOV can lead to * 62 Nº 187 AGO09 Fig. 01 – Evolução das viaturas M113 “upgrades$ < este artigo demasiado extenso apenas serão referenciados mais alguns aspectos como complemento a tudo o que foi escrito até ao momento. Actualmente as viaturas da família M113, que equipam os Batalhões de Infantaria Mecanizados da Brigada Mecanizada Portuguesa, estão dotadas de uma Metralhadora Pesada (MP) Browning de calibre 12,7mm. Esta arma garante à viatura a capacidade de efectuar fogos de supressão. No entanto, o berço onde a arma se encontra não é estabilizado e além do que, expõe por completo o apontador da arma aos fogos directos, e não permite que o mesmo execute fogos ajustados quando a viatura está em movimento. Para tal, existe a possibilidade de dotar a viatura com um conjunto de escudos protectores da arma e do apontador, que se podem acoplar entre a escotilha do chefe de viatura e escotilha de carga, bem como dotar esta última com escudos protectores. Existe também a possibilidade de dotar as viaturas com sistemas de protecção NBQR (Nuclear, Biológico, Quimico e Radiológico) que fornecem protecção contra ataques nucleares, biológicos e químicos. Todos os sistemas NBQR consistem num nos conjuntos de mangueiras que transportam até às máscaras de gás, Fig. 02 – Reparo para a Metralhadora num disjuntor, Pesada (MP) browning com protecção visão nocturna e de um controlo remoto. AZIMUTE num interruptor, e respectivos cabos eléctricos. Além disto, o sistema básico denominado por NBC M8A3, pode ainda ser dotado com o sistema NBC y as temperaturas são mais baixas, tendo ainda a * de manterem aquecidos eventuais tripulantes que se encontrem feridos. Fig. 4 - Exemplo de uma torre para MP e sistema de controlo remoto Fig. 03 – Sistemas de protecção NBQR À semelhança das Viaturas Blindadas de Rodas (VBR) PANDUR 8X8, também as VBTP M113 deverão ser dotadas de dispositivos lançadores de granadas de fumos, de forma a garantir a neutralização de possíveis ameaças. Estes deverão ser capazes de lançar fumígenos a distancias entre os 180 a 200mts, tendo em conta que a maior parte ** Possibilidade de adaptação do reparo da MP browning, de forma a garantir a colocação de uma Metralhadora Ligeira (ML) de calibre 7,62mm. Esta solução permite diminuir o poder de destruição causado por munições 12,7mm para além do que, estas estão proibidas de serem usadas contra pessoas, pela convenção de genebra. « W oriente vieram provar que a utilização do calibre y` '\'* das ou mesmo contra viaturas é muito útil no entanto, a sua utilização contra pessoal apeado ou em apoio das forças de manobra pode causar muitos problemas por isso, deverá também ser equacionada a possibilidade de colocação de um reparo lateral que permita a utilização de uma ML 7,62mm. Outra capacidade que deverá ser conferida a quando do “upgrade” às viaturas M113, é possibilitar que o apontador da Browning possa fazer tiro a partir do interior da viatura, ou seja, o reparo da MP terá que ser convertido numa torre, possibilitando que o apontador possa continuar a fazer tiro, quer seja diurno ou nocturno. Para tal o apontador deverá dispor no interior da viatura de um visor ligado a um dispositivo exterior, dotado de capacidade para A utilização massiva de IED (Improvised =>), em Teatro de Operações (TO) como o Afeganistão ou o Iraque, tem demonstrado que a possibilidade dos mesmos causarem sérios danos a viaturas blindadas é enorme bem como, a * das viaturas é igualmente elevada. A solução passará por adaptar sistemas de combate a incêndio no interior da viatura que possibilitem o seu accionamento manual ou automático, que através de tubos perfurados permitam “banhar” a tripulação da viatura, dando desta forma a hipótese que a mesp g de imediato à ameaça. ç ma possa reagir Fig.5 – Exemplo da aplicação de um sistema de combate a incêndio no interior da viatura mação o domínio e o uso da mesma em tempo oportuno fazem toda a diferença durante o processo de planeamento e tomada de decisão bem como na fase de execução da missão. Para tal foi proposto que as viaturas da família M113 sofressem o necessário “upgrade” de modo a possuírem um Nº 187 AGO09 63 AZIMUTE sistema de Comando, Controlo e Comunicações (C3I) idêntico ao das VBR PANDUR II. A digitalização já não é uma necessidade mas uma consequência dos inúmeros factores que caracterizam o moderno campo de batalha. Hoje existem sistemas digitais de controlo de tiro, capazes % K capacidade de integração horizontal e que consolidam vários programas de controlo de tiro e respectivas tecnologias, optimizando desta forma os sistemas existentes e consequentemente reduzem a duplicação da tecnologia, permitindo ao longo do tempo, e quando necessário, o mais fácil “upgrade” dos mesmos. Estes sistemas permitem que o controlo de tiro seja feito a partir de uma única viatura, não necessitando de apear a respectiva guarnição, conferindo a possibilidade de a mesma executar fogos dentro da viatura. variado de blindagens, que vão desde as blindagens compostas, em aço, alumínio, titanium, do tipo “Ceramic-faced” e “sanduíche” às do tipo “gaiola”. Como corolário da investigação efectuada e atendendo à questão central e respectivas questões derivadas, procurou-se ao longo deste parecer técnico dar resposta às mesmas, procurando da mesma forma a solução para cada uma delas. O Exército Português continua a considerar 'nização e actualização das unidades das FOPE. O conjunto de projectos desencadeados, durante 2008/2009, provam exactamente esta preocupação. No entanto, sabemos que os mesmos têm custos associados muito elevados mas, necessário. O actual ambiente operacional, assim como as condicionantes operacionais decorrentes do mes K * W bilidade, fazendo com que as forças mecanizadas se adaptem às constantes variações do mesmo, para cumprirem as missões que lhes forem As propostas efectuados neste mesmo parecer, foram fundamentadas com a análise das condicionantes operacionais do combate moderno e na análise das forças mecanizadas de outros países que actualmente se debatem com o mesmo problema. No entanto, deverá ser equacionado se Fig. 6 – Sistema de Controlo de Tiro para Morteiros Pesados ' alização e modernização das viaturas M113 Um outro aspecto muito importante prende-se não serão demasiado onerosos obrigando a levancom a blindagem, tendo em conta a protecção netar a hipótese de aquisição de novas viaturas < mente onde proliferam todo o tipo de ataques, quer dições necessárias que as nossas forças mecanisejam com recurso às Armas Anticarro (AACar) ou K a quaisquer outro tipo de explosivos. tes a um campo de batalha difuso onde a ameaça Para que se tenha uma noção mais exacta uma faz uso de técnicas, tácticas e procedimentos (TTP) viatura blindada, por mais blindada que seja, nunca difíceis de combater. é totalmente invulnerável. O actual modelo preconizado para os nossos Para tal, o mercado oferece um leque muito B BIMec, não é adequado às operações em “Full S Spectrum”14, muito menos conseguirá cumprir com o conjunto variado de capacidades requeridas e < ccom os CC LEOPARD II A6. Assim, modernizar e tornar mais aptas as viatu turas M113 é uma exigência da necessidade o operacional. Azimute Staff Officer/Ops Div no JALLC/ACT (Monsanto) Fig. 7 – Viatura M113 A3 com blindagem tipo “Gaiola” 64 Nº 187 AGO09 14 Operações em todo o espectro (FM 3-0 Operations – FEB08) Maj Inf Rodrigues Dias Desde sempre as Forças Armadas têm feito um esforço de adaptação aos novos contextos de segurança, e o Exército Português não é excepção. O empenhamento do Exército, na última década e meia, em diversos Teatros de Operações, alguns deles a milhares de quilómetros de Portugal obrigaram à necessária mudança. Nesses teatros os militares portugueses são confrontados com ameaças multifacetadas, reaK em contacto com novas tecnologias. Todos estes factores têm obrigado a mudanças, que vão da formação dos seus recursos humanos, a novas estruturas organizacionais, novos equipamentos e novos métodos de treino, passando pela doutrina de emprego das unidades. A 15 de Maio de 2008, realizou-se uma reunião de trabalho na DPF/EME (Divisão de Planeamento ' > >W cou estabelecido a responsabilidade da EPI £> ! = ]<£] Coordenador de Área de Reequipamento) para as Armas Anticarro (AACar) a equipar num futuro próximo as Unidades de Infantaria. Neste sentido, a 02 de Outubro de 2008 constituiu-se um GT (Grupo de Trabalho), envolvendo representantes da EPI, BrigMec (Brigada Mecanizada), BrigInt (Brigada de Intervenção), BRR (Brigada de Reacção Rápida) e CTC (Centro de Tropas Comando), dentro da área técnica em apreço - AACar. > * dar, analisar e propor o reequipamento da Infantaria no respeitante às AACar e o seu correspondente são da actual LPM (Lei de Programação Militar), nomeadamente: ¤ Ponto de Situação em relação aos equipamentos; ¤ Necessidades para cada sistema/subsistema de AACar; ¤ Capacidades requeridas para cada sistema e respectivo emprego táctico; ¤ Requisitos operacionais; ¤ Custos envolvidos; ¤ Calendarização em termos de aquisição para cada sistema. AZIMUTE As Armas Anticarro num contexto de evolução Tendo por base o anteriormente referido, o Objectivo do Projecto visava o reequipamento e modernização das unidades da Força Operacional Permanente do Exército (FOPE), no respeitante às AAcar, tendo em vista assegurar os meios necessários à sua prontidão, segundo um conjunto de Capacidades e Requisitos Operacionais que lhe permitam actuar em todo o espectro das operações militares, no cumprimento de missões e tarefas de interesse nacional ou no âmbito das Missões > ' < £=<}k meios necessários à prontidão de forças, através da materialização de capacidades militares necessárias para actuar em qualquer parte do Espaço Estratégico de Interesse Nacional (EEIN) tendo em conta os compromissos assumidos com as organizações do qual Portugal faz parte. Para tal, o GT orientou os seus estudos tendo em conta o Plano Médio e Longo Prazo (PMLP) conjugado com as Fichas de Proposta de Força/ Medidas (EC – Exército Capacidade) e as Force Proposal 2008, Blue Book, ACT (Allied Command Transformation), Staff Element Europe. Após ter sido efectuado o ponto de situação relativo às AACar que equipam as Subunidades das diferentes Brigadas, chegou-se à conclusão que os equipamentos/tecnologias existentes se encontram obsoletos e completamente desajustados da realidade bem como, pelo facto de existirem diferentes sistemas de armas, desde mísseis a canhões, de manutenção, actualização de software e hardware, aquisição de munições, deixando que os equipamentos entrassem no conceito de “descontinuado”. A título de exemplo este OCAR chegou à conclusão que o Canhão (Cnh) de 30mm, que irá equipar as viaturas VBR (Viaturas Blindadas de Rodas) com destino às SecACar (Secções Anticarro) do PelAp (Pelotão de Apoio) das CAt (Companhia de Atiradores), e de acordo com os dados técnicos recolhidos sobre o Cnh 30 mm, os mesmos indicam que esta arma se destina a apoiar com fogos directos, à defesa anti-aérea e ao reconhecimento de combate, não referindo explicitamente a luta anticarro. Desta forma o GT colocou algumas dúvidas Nº 187 AGO09 65 AZIMUTE Fig 1 - Pandur-II A/IFV quanto à capacidade de penetração/destruição do seu projéctil sobre VBR e Carros de Combate. Para complementar as capacidades do Cnh 30 mm fez-se uma proposta no sentido de incluir futuramente um SLM (Sistema de Lança-Míssil) do tipo MR (Medium Range), acoplado na torre da viatura, à semelhança das viaturas que irão equipar as Unidades de Fuzileiros Portuguesas. A título de exemplo, as viaturas que equipam o exército da Republica Checa possuem para além do Cnh }^^!=±>£ y Outro exemplo, prende-se com a actual situação do SLM MILAN que equipa algumas das nossas unidades da FOPE, que se encontra completamente desactualizado não podendo o mesmo sofrer as necessárias actualizações pois, já se encontra na situação de “descontinuado”. Tendo em conta que a probabilidade de empre * _ '\W ~ a Operações de Resposta a Crises (CRO), torna-se urgente dotar estas unidades de sistemas e subsistemas de AACar modernos, de forma a colmatarem as limitações/problemas levantados relativamente ao ponto de situação actual dos equipamentos desta natureza. De forma a consubstanciar o anteriormente referido, as AACar deverão ser encaradas como um factor multiplicador do Potencial Relativo de Combate (PRC), garantindo desta forma uma Capacidade efectiva de Aplicação de Força em Neste contexto, a aquisição de novos equipamentos e correspondente modernização dos exis_ Capacidade de Intervenção, Capacidade de Reacção Rápida e Capacidade Mecanizada. É certo que a aquisição de novos equipamentos e modernização dos existentes deverá ser efectuada de forma faseada no âmbito da revisão da Lei de Programação Militar (LPM), tendo em conta os compromissos assumidos em sede do Force Goal Cycle 2008 (FGC 2008). 66 Nº 187 AGO09 No entanto, todo este processo xibilidade às unidades AntiCarro x (ACar), orgânicas da Infantaria, fa(A c cilidade de montagem, utilização, transporte, e acima de tudo, pertr m mitir a interoperabilidade com difere rentes viaturas e garantir a capacidade de C4I (Command, Control, d Communications, Computers, and C Intelligence). In = m geral, ainda que resumidamenma te, te o conceito geral de emprego das A AACar: ¤Os sistemas de AACar de Infantaria disponíveis deverão ser capazes de providenciar fogos ACar (longa, média e curta distância) contra forças blindadas e alvos '\ em apoio à manobra das forças de Infantaria, Carros de combate (CC) e Auto-Metralhadoras (AM). ¤ Em termos de Capacidade Ofensiva, uma unidade ACar providencia inicialmente, no * xar ou destruir posições inimigas. As unidades ACar devem também ser empregues para empenhar unidades blindadas em Áreas de Empenhamento (AE) planeadas, para isolar objectivos e destruir o inimigo e/ou ameaça em possíveis contra-ataques, ou destruí-lo em retirada. Estas unidades são também adequadas * com a consequente destruição ou para repelir W ¤ Em termos de Capacidade Defensiva, as unidades ACar podem ser posicionadas, no sector defensivo, bem à frente para participarem em operações de segurança, em operações de reconhecimento ou cobrir obstáculos com os seus fogos. Terão de ser capazes de canaK * <> facilitar a destruição das mesmas. As unidades ACar podem ser posicionadas em toda a profundidade do sector de forma a baterem com os seus fogos os Eixos de Aproximação (EA) mais prováveis para forças blindadas. Durante o contra-ataque terão que ser capazes de executar fogos ACar em apoio aos elementos de manobra. ¤ Como Capacidades Adicionais, dependendo do tipo de armamento as unidades ACar deverão ser capazes de integrar os seus fogos garantindo as mesmas capacidades de > permitir que os diferentes sistemas ACar se adaptem rapidamente às mudanças resultantes dos factores de decisão MITM-TC (Missão, Outro aspecto de extrema importância e que foi observado pela GT é a interoperabilidade, sendo fundamental que o Exército Português cumpra os critérios de convergência no plano do emprego de forças militares no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que actualmente são baseados em operações combinadas e/ou conjuntas. Deste conceito surge o imperativo de interoperabilidade de forças, onde os novos equipamentos têm um papel fulcral, requisito fundamental para a condução de variadíssimas actividades baseado no novo espectro de operações. No que respeita à sustentação é previsível que surjam necessidades de sobressalentes ou de manutenção programada dos SLM. Por outro lado, importa destacar que as AACar deverão sofrer nos anos mais próximos contínuas transformações, com a introdução de novas tecnologias, novos sistemas de aquisição de objectivos, factores estes que tornarão os nossos equipamentos ACar obsoletos, não estando assim garantida a completa operacionalidade dos mesmos. Como facilmente se poderá depreender, o processo de reequipamento visa, basicamente, a atribuição dos meios materiais indispensáveis para que o Exército, e neste caso particular as unidades da FOPE cumpram as missões que lhes estão atribuídas, prioritizando, naturalmente, a supressão ou ' durante este processo de estudo. > ? < traçar linhas orientadoras para cada uma das unidades da FOPE tendo sempre em mente uma clara sinergia de esforços no que concerne à modernização e aquisição de novas AACar. A existência de linhas orientadoras, o tratamento integrado de todo o processo de modernização e aquisição e o seu enquadramento numa perspectiva de longo prazo, abrangendo todo o ciclo de vida do material, são elementos indispensáveis para uma correcta ponderação das opções de reequipamento. Daqui se poderá inferir que a actualização dos equipamentos a adquirir bem como a modernização dos existentes deverá ser alvo de um constante acompanhamento. AZIMUTE Inimigo, Terreno, Meios, Tempo disponível e Considerações de natureza civil), ou seja, garantir uma Capacidade efectiva de Aplicação de Força <tegração dos diferentes sistemas deverá continuar a permitir a destruição de veículos blinda '\ *! qualquer dos sistemas deverá ter a capacidade para executar fogos em viatura e no solo. ¤ Em resumo, tendo em conta o anteriormente exposto, as AACar, em termos de capacidades genéricas, letalidade, sobrevivência e sustentabilidade devem garantir: ¤Elevada probabilidade de bater alvos (consequente redução de custos); ¤Elevada probabilidade de destruir um alvo £ © ¤Cadência de fogo; ¤Sustentação dos fogos; ¤Sobrevivência das armas e das unidades. Desta forma, e decorrente do acima referido, foi produzida uma lista de capacidades e requisitos operacionais por alcances (curto, médio e longo). Como corolário de tudo o que foi referido até ao % nização não se prevêem alterações substanciais, a aquisição de novos equipamentos e a modernização dos existentes previsivelmente não provocará ' no que concerne ao conceito de emprego destas armas. O mesmo não poderá ser dito ao nível do treino operacional, equipamentos complementares e sustentação dos mesmos. No entanto, nos casos da BrigInt e da BrigMec, a nova organização e estrutura das suas unidades, em particular daquelas que irão possuir AAcar, obrigaram a uma reformulação da táctica de emprego deste tipo de unidades, nomeadamente com a introdução do Can 30 mm e de um SLM MR (Sistema de Lança Míssil Medium Range), e na possibilidade das viaturas da família M113 A2, receberem um canhão de 30mm. Por outro lado, as necessidades em AACar irão obrigar a um reajustamento no compartimento de carga das VBR PANDUR II e à colocação de dispositivos que permitam posicionar/armazenar os SLM e os mísseis/ munições no interior do mesmo, bem como em arrecadação. A aquisição de equipamentos tecnologicamente evoluídos a todos os níveis, desde a sua constituição até ao seu sistema de armas, exige o levantamento de novos conceitos de formação e treino, '\ '\ * ' todo o processo de sustentação. Ainda sobre o parágrafo anterior, importa realçar a necessidade de aquisição de sistemas de simulação e treino dos apontadores em sala e em campanha. Azimute Staff Officer/Ops Div no JALLC/ACT (Monsanto) Nº 187 AGO09 67 AZIMUTE O Morteiro Fundamental no Passado, Decisivo no Futuro Cap Inf Rafael Lopes 1.Uma arma antiga reinventada A ideia de permanecer seguro enquanto se ataca à distância tem sido a génese para o fabrico e consequente utilização de armamento. A utilização dos morteiros remonta ao Séc XIV (logo após a invenção da Pólvora), tendo sido a bombarda (Pumhart Von Steyr1) a sua antecessora, que não era mais do que uma chapa de aço forjada em forma de tubo e reforçada com cintas metálicas. Desde o séc XVIII até ao início do Séc XX, os morteiros, tacticamente concebidos para operações de cerco, eram caracterizados por elevados calibres e pesos, podendo ir até calibres de 915mm Fig 1. Bombarda Pumhart Von Steyr (Mallet’s Mortar). No início do Séc XX, e com o eclodir da Iª Guerra Mundial, novas necessidades de emprego táctico eram exigidas ao armamento. Vários foram os esforços de diversas nações (Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos da América), em reduzir o peso destas armas, bem como adequá-las às reais necessidades do combate. Era para isso vital, reduzir-lhes o peso, aumentar a mobilidade e diminuir consequentemente a carga logística para as forças. Os primeiros passos foram dados pelos alemães. Enquanto observadores, e após as lições retiradas da Guerra Russo-Japonesa (1904 – 1905), anteviram a necessidade de a apoiar o combate na “trin “trincheira”. Entre 1908 e 1909, conceberam ent então um morteiro design signado “Minenwerfer”, esp especialmente concebido para a “Guerra de Trincheira”, atingido Fig.2 – Morteiro “Minenwerfer alvo que não podiam alvos, ser batidos pela Artilharia. Este morteiro, entrou pela primeira vez em combate, na França, mais precisamente na Batalha de Neuve Chapelle, em Outubro de 1914, tendo obtido 68 excelentes resultados para a época, o que provocou que estes morteiros passassem a ser produzidos em massa. Em Janeiro de 1915, Sir Wilfred Stokes2, inspirando-se numa arma desenvolvida no séc XVII pelo Baron Menno van Coehoorn3 , criou o “Stokes Mortar”. Este morteiro rapidamente se tornou referê rência e foram inicialmente produzidas 1000 armas (A (Agosto de 1915) e mais tarde 304 (4º Trimestre de 1915), das quais 200 foram servir em escolas de 1 fo ação. formação. Fig.3 – Stoke Mortar Este morteiro de concepção bastante simples, não era mais do que um tubo assente num prato base e apoiado por um bipé. Os projécteis, disparados por esta nova arma (ou reinventada), de ferro fundido, tinham como princípio de funcionamento o actual sistema, ou seja, a granada, com as cargas adequadas ao alcance desejável, era introduzida na boca do cano, e deslizava sobre ele em virtude do seu peso e do seu calibre ligeiramente inferior ao do tubo. A granada, ao deslizar ao longo da alma do tubo, vai de encontro ao percutor, o que provoca a detonação da cápsula fulminante e origina a ' ] nientes da combustão das cargas, expandem-se e colidindo com a base da granada provocam a saída desta à boca da arma. Outros modelos se seguiram, e outros países, especialmente a França, também produziram a 2 Sir Wilfred Stokes, foi o inventor do Stokes Mortar, principal morteiro utilizado pelos britânicos na Iª GM. 3 1 Bombarda capaz de lançar a 600m uma bola de pedra de 690Kg utilizando 15Kg Engenheiro militar holandês, líder oficial nas forças de William III (rei da Inglaterra, depois de 1689), que fez um sem número de inovações em matéria de armamento e de técnicas de guerra de cerco. O Morteiro Coehoorn, de cano curto e antecarga, conseguia grandes trajectórias e alcances máximos de 275 metros de pólvora e uma elevação até 10º. com uma elevação de 45º Nº 187 AGO09 2. Importância dos Morteiros As unidades de morteiros existentes apenas até ao nível Batalhão e portanto originalmente direccionada para o apoio a este, constituem-se com um meio orgânico fundamental de apoio de fogos indirectos, aos comandantes das unidades de manobra. A sua elevada cadência de tiro aliada à sua capacidade única de bater ângulos mortos, resultado das altas trajectórias de tiro que pode conseguir, bem como os alcances mínimos possíveis faz dos morteiros um elemento fundamental de apoio ao conceito operacional dos comandantes das unidades de manobra. abrigado, é passado. Hoje e amanhã, o fogo de morteiros passa por bater objectivos precisos e localizados, utilizando poucas munições e “inteligentes”, diminuindo os danos colaterais. As exigências do combate urbano, centram-se objectivamente em dois pilares fundamentais, o Soldado e o Armamento. Para o presente artigo, ir-nos-emos focar apenas no Armamento. Para o cumprimento da sua função as unidades de morteiros, têm diversas áreas que poderão e deverão ser automatizadas, são elas: Armamento, Aquisição e Processamento de informações do Objectivo, Controlo de Trajéctoria, Desenvolvimento de Sistemas de C2, Munições, Diminuir a carga logística, Utilização de sistemas de simulação AZIMUTE sua própria versão da arma. Durante a Iª GM, os Estados Unidos da América, França e Itália utilizaram a versão Francesa “Brandt” do Morteiro, e os Alemães, Ingleses e Japoneses adoptaram a tecnologia “Stokes”. Durante a IIª GM, e desde os primeiros combates de 1939, até aos últimos momentos desesperantes £<* y{kKram parte integrante da frente de combate, sendo um aliado de vital importância para os Infantes. 3. O Futuro As características actuais do moderno campo de batalha, assente no novo ambiente operacional e a própria conjuntura internacional, impõe para além das restrições orçamentais próprias de cada nação, restrições ao nível do emprego táctico do armamento. Por outro lado, a vez mais gerações de armamento e equipamento de emprego cirúrgico, não só em termos de localização, mas também ao nível dos efeitos desejados no objectivo. A execução de fogo de morteiros para bater objectivos de área, em áreas abertas, recorrendo a granadas de Alto Explosivo, executando salvas em elevados regimes de tiro para suprimir pessoal Fig.4 –Dispersão do tiro de morteiro Fig.5 – O Futuro do sistema de armas - Morteiro a. Armamento O Morteiro, como arma do sistema de apoio de fogos de uma unidade, deve necessariamente acompanhar as exigências tácticas que vão sendo colocadas pelas unidades de manobra. Para responder as estas exigências tácticas, devem as unidades de morteiros, ter capacidade de: ¤= ' * K © ¤Quais os efeitos desejados no objectivo – Supressão, neutralização, destruição; ¤Qual o alcance máximo e mínimo da arma? ¤Qual o regime de tiro? ¤Que tipo de munições pode a arma utilizar? ¤Guarnição para operar a arma? ¤Qual o sistema de controlo de tiro? Compatibilidade e interoperabilidade com outros sistemas? ¤Mobilidade (Apeado, MecanHizado ou Motorizado) ¤Qual o tempo de entrada em posição? Nº 187 AGO09 69 AZIMUTE mantendo as mesmas dimensões de granadas standard utilizadas pelas actuais armas Esta granada utiliza um laser semi-ativo de alinhamento que é activado na fase ' W objectivo (Fig5). Fig.6 – Requisitos de Capacidades dos morteiros b. Aquisição b A i i ã e P Processamento t d de iinforf mações do objectivo Actualmente a aquisição e Processamento de informações do objectivo pode ser obtida com recurso a Observadores Avançados, Radares de contra-bateria, Reconhecimento e Unmanned Aerial Vehicules (UAV’s). Estes sistemas como pontos de recolha de informações, catapultam a informação para diversos sistemas de processamento. Assim que a informação é obtida e após ser processada deve ser imediatamente disponibilizada aos intervenientes do Sistema de apoio de fogos. Hoje, sem um sistema comum de apoio de fogos, capaz de receber, analisar e difundir todas as informações, o cumprimento da missão das unidades de morteiros é c. Controlo de trajectória A necessidade cada vez mais premente de um controlo efectivo da trajectória de uma granada, desde a origem de tiro até ao ponto de queda decorre de uma das características do moderno campo de batalha – presença de civis. Nesse sentido o controlo de danos deve ser uma preocupação permanente quando se faz uso da força. Muitas têm sido as evoluções, tendo em vista dotar os sistemas de apoio de fogos com dispositivos que permitam implementar um controlo permanente da trajectória da granada. As granadas PGMM4, permitem ao comandante táctico dispor de capacidade cirúrgica de bater alvos, 4 Precision Guided Mortar Munition 70 Nº 187 AGO09 d. Desenvolvimento de sistemas C2 As características exigidas às forças que actualmente são empregues nos diversos teatros de operações, implica que, seja disponibilizada através do Sistema de Comando, Controlo, Comunicações, Computadores, Informações, Vigilância e Reconhecimento (C4ISR) a Common Operational Picture (COP). O Exército tem já à sua disposição, um sistema de gestão da informação (AFATDS - Advan : [ 8 \[). Outro sistema, consubstanciado no programa de aquisições da viatura PANDUR, é a Estação de Controlo de Tiro BEACON, da empresa ELBIT SYSTEMS, de Israel. Este sistema, concebido para computorizar e automatizar todos os procedimentos executados no Posto de Controle de Tiro, sendo interoperável com o sistema AFATDS, será certamente uma mais valia para a partilha permanente da COP entre os diversos escalões de comando. e. Munições e Espoletas O desenvolvimento da tecnologia inerente à utilização de granadas de morteiros e espoletas, assenta em quatro vectores de abordagem fundamentais, são eles: Precisão, Letalidade, carga logística e maneabilidade. Hoje, o número de granadas existentes é diversa, no entanto, nem todos os morteiros têm as características para as utilizarem. Dando como exemplo o Sistema Autónomo de tiro de Morteiro 120mm que irá equipar a PANDUR, pode utilizar 3 tipos de munições: HE (normal e Longo Alcance), Fumos (normal e longo alcance) e iluminação (normal e longo alcance)5. Muitos têm sido os desenvolvimentos nesta área, tendo em vista aprimorar os 4 vectores anteriormente referidos, 5 Informação retirada do manual de utilização do sistema autónomo de tiro de morteiro 120mm SOLTAM, da ELBYT SYSTEMS. Por uma questão de síntese vamos focar o objecto do artigo, no que a munições diz respeito no Morteiro 120mm AZIMUTE permitam actuar e desenvolver operações em torno de um largo espectro de operações militares trabalhando, se necessário, numa óptica conjunta e/ou combinada. Esta realidade preconiza um “campo de batalha” em que os sistemas operativos de informação e forças terão que ser sustentados numa óptica transnacional, e em que o quadro de ameaças à segurança, para além de exigirem uma actuação ¤Diminuir a vulnerabilidade das plataformas da componente militar pela antecipação, exigem de combate; ¤Diminuição de custos associados; uma complexidade crescente de capacidades. ¤Aumento da performance dos sistemas de Ou seja, no que aos Morteiros respeita, será tiro; exigida: ¤Assegurar total segurança a pessoal e ¤Adaptação às Tecnologias de Informação material. pois a superioridade nesse domínio proporciona ao sistema em si uma vantagem comf. Instrução e Treino petitiva que se materializa numa capacidade Os custos e riscos associados à execude reacção oportuna e adequada; ção de tiro de morteiros, na fase de for¤Formação técnica dos operadores do sismação dos militares e posteriormente na tema porque a diversidade de operações fase do treino orientado e treino operaciomilitares e os novos requisitos tecnológicos nal, são extremapa passam a impor uma nova dimente elevados,, nâ nâmica ao nível da componenpelo que, é funda-te humana, exigindo adaptabilie mental permitir de da dade, inovação, discernimento base aos militares,, e conhecimento multifuncional; automatizar pro-¤ Interoperabilidade dos sis¤ o cedimentos de tiro em emas de armas pois só esta antes de a execu-lin linha de acção norteia toda a ção de tiro real. A es estratégia de uma força cone simulação é hoje jun nacional ou multinacional junta uma realidade,, (c (combinada); e uma possibilidade ¤ Letalidade pois a comple¤ m e certamente um m mentaridade dos factores fogo, o Fig.7 Transporte de munições de AT 4 (Forças Holandesas no Afeganistão) caminho prioritário m manobra, protecção comando controlo conti e controlo, continuam a ser as chaves para o técnico-táctica do soldado e da sua unisucesso nas operações militares. nomeadamente, no que diz respeito aos 2 primeiros (Precisão e Letalidade), sem nunca esquecer os outros 2. A aposta, no desenvolvimento de munições insensíveis, tendo em vista diminuir os acidentes com munições militares desde a produção até à utilização6, tem sido o projecto pioneiro, e permite garantir às forças o seguinte: Azimute dade. Existem já sistemas que permitem a simulação de todo o sistema de comando, controlo e execução de tiro, nomeadamente no Reino Unido o Phoenix artillery and mortar trainer e nos Estados Unidos o & (CFFT). 4. Conclusões A nova tipologia de operações militares apresenta hoje um corte com uma organização tradicional do sistema de forças, única e exclusivamente orientada para o cumprimento de missões de guerra pelo que, a força militar da actualidade, a par das ditas operações clássicas, de carácter ofensivo e defensivo, deverá reunir capacidades que lhe 6 13 Incidentes relatados entre Julho e Agosto de 2003 Manual de Morteiros, Escola Prática de Infantaria, 2008; Norris, John, Infantry Mortars of World War II, 2002; Kalberer, James, Apresentação em Power Point de PGMM Case Study, 2007; Internet: http://www.cannonsuperstore.com/mortars.htm, acedido em 23 Junho de 2009, 09h35; http://www.scribd.com/doc/7026422/Weapons-ofWar, acedido em 23 Junho de 2009, 09h35; ¨~~²²²²² ~² ~ acedido em 23 Junho de 2009, 12h00; ¨~~²²²²² ~*~³ em 24 Junho de 2009, 12h20; http://defense-update.com/products/x/xm395.htm, acedido em 25 Junho de 2009, 12h20; Nº 187 AGO09 71 AZIMUTE !"#$!%&' TCor Sebastião Macedo A vontade e a necessidade de dar a conhecer, a audiências cada vez mais vastas, as notícias que diariamente se passam no nosso mundo, tem-se constituído num imperativo cuja origem é difícil de determinar. Foi, no entanto, na Guerra da Crimeia, y|} K W guerra. # ciando tantas vezes o rumo dos acontecimentos, tornou-se incontornável e tem levado a que os jor ' K onde a instabilidade, a insegurança, a ausência de ordem e regras, exige o conhecimento de técnicas e procedimentos para minimizar esse factor tão aleatório quanto imprevisível e sempre presente: o risco. Sentindo a necessidade de proteger os seus " $ K as audiências exigem conhecer cada vez mais e com a maior rapidez possível, a Rádio Televisão Portuguesa (RTP) estabeleceu um protocolo com o Exército Português no sentido de formar adequa O modelo encontrado para cada acção de formação, que tem evoluído ao longo dos anos, resulta de reuniões de coordenação entre o Centro de Formação da RTP, o Gabinete do Chefe do EstadoMaior do Exército e a Escola Prática de Infantaria (EPI). A EPI tem-se constituído como entidade coordenadora, essencialmente devido ao facto das acções de formação decorrerem na Tapada Militar. No entanto, é importante realçar que grande parte das capacidades do Exército têm sido aplicadas e demonstradas nestas acções de formação e não seria possível um curso tão completo e interessante se não estivessem aplicadas as sinergias das unidades representadas vindas da componente operacional e da estrutura de base do exército. Este ano a formação decorreu em três fases. Uma primeira fase com uma acção de formação em Media Training, em Mafra; uma segunda constituída por um workshop na Tapada Militar; e uma terceira fase constituída por uma palestra sobre 72 Nº 187 AGO09 terrorismo nas instalações da RTP. 1. Acção de formação em Media Training em Mafra Esta acção de formação em Media Training des ] taram o Curso de Promoção a Capitão de Infantaria 2009 (CPCI 09). O objectivo foi, através de formação teórica e prática em frente às câmaras de te K com os órgãos de comunicação social, aperfeiçoando a sua conduta quando solicitados a intervir em situações de reportagem ou noticiário, através da entrevista directa ou gravação. Os conteúdos != nais destacados para o efeito pela RTP, abordaram a atitude em frente às câmaras, a imagem, a voz, passando pelo vestuário e formas verbais. Os ensinamentos transmitidos, essencialmente práticos, impõem-se como fundamentais para os militares do Exército, que cada vez mais são chamados a desempenhar missões externas (mas também em território nacional), com a consequente maior probabilidade de ter que falar para as câmaras de televisão. As futuras edições destas acções de formação em Media Training poderão ser a um são manifestada pelos futuros capitães. 2. Workshop para Jornalistas Esta acção de formação foi planeada, organizada, e conduzida pela EPI em coordenação com a Direcção de Formação da RTP e contou com a presença de doze formandos/jornalistas da Sessão de “Media Training” AZIMUTE RTP (Televisão e Rádio), do Jornal Público e da Agência Lusa. Participaram também na execução deste Workshop, os formandos do CPCI, militares da EPI, da Brigada Mecanizada e do Regimento de Lanceiros nº2 (Controlo de Tumultos e Equipa Cinotécnica). Neste tipo de workshop pretendeu-se apresentar um conjunto de capacidades do Exército, que envolvem a apresentação de engenhos explosivos, de procedimentos p práticos a aplicar nos deslocap mentos, de ges-tão do stress,, de técnicas de e sobrevivência, e onde também se e as diferentess visões e per-cepções tidass por militares e jornalistas. No caso o concreto deste e workshop, o ob-jectivo foi, atra-vés de formação o teórica e prática,, * _ _ cimentos práticos em situações embedded, nomeadamente na forma como a Imprensa, a Rádio e a Televisão actuam quando integrados em Forças K Mafra, a imMaf previsibilidaprev de d das situações foi uma constante, tendo tend os formandos parman ticipado inticip tegrados em tegr forças militaforç res, a actuar % proporcionando assim um treino realista e exigente, que permitiu a militares e jornalistas perceber \ A execução de trabalhos jornalísticos na modalidade de embeded (em que o jornalista ou uma equipa de reportagem vive durante um período de tempo integrado dentro de uma força militar) é muito complexa e difícil. É nesta situação que se torna mais nítida a possibilidade de tensão entre os objectivos militares e jornalísticos, pois, por um lado, se o jornalista pretende colocar no ar a informação que recolhe o mais rapidamente possível, por outro lado, la ado quer por motivos de segurança das operações çõ em curso ou futuras, quer por motivos da segurança física da força e mesmo dos jornalistas, g podem existir restrições à divulgação das notícias. p Se S por um lado o jornalista gostaria de localizar no tempo e no espaço o seu trabalho (a sua notícia!), te imagine-se qual seria a sensação dos militares saim bendo que acabava de ser revelada a localização b dessa força, a sua missão actual ou futura… d Foi neste sentido que a experiência entre militares re e jornalistas permitiu conhecer melhor e mutuamente as suas deontologias e obrigações. m 3. Palestra sobre Terrorismo e visita às instalações da RTP Coube ao Centro de Tropas de Operações Especiais a responsabilidade de conduzir esta acção, com o objectivo de dar a conhecer a perspectiva do terrorismo à escala global, alertar para os perigos inerentes a estas acções no terreno, e nível internacional e nacional, tendentes a minorar esta ameaça. A acção de formação contou com a presença de vários jornalistas e repórteres do grupo RTP (rádio e televisão), da Agência Lusa e do Jornal Público, assim como dos alunos do CPCI09, que no âmbito da temática do relacionamento com os órgãos de comunicação social, realizou também uma visita às instalações da RDP e da RTP. Azimute Nº 187 AGO09 73 AZIMUTE Maneuver Captain’s Career Course Cap Inf Hélder Parcelas Introdução O Maneuver Captain’s Career Course (MCCC), é um curso ministrado nos Estados Unidos da América (EUA), destinado aos jovens capitães e que se assemelha ao Curso de Promoção a Capitão de Infantaria (CPCI) português. Esta acção de formação tem como pólo de formação por excelência a Escola Prática de Infantaria Americana (Infantry School), situada em Fort Benning, Columbus, Geórgia, onde são ministrados quatro cursos por ano, com uma média de Alunos Internacionais - MCCC 02-08 150 alunos por curso. O curso, conhecido do antecedente como Infantry Captains Career Course (ICCC), combina agora parte do programa de formação da componente dos carros de combate (CC) oriunda do “Armor Captains Career Course” (ACCC) ministrado em Fort Knox (Armor School), pelo que o MCCC não é mais que uma combinação do ICCC+ACCC. Devem-se estas alterações ao programa do curso, entre diversos factores os seguintes: ¤ Lições Apreendidas do Afeganistão e Iraque, procurando fazer face às novas ameaças; ¤ Alterações ao treino e doutrina, decorrente da * K terrorismo e insurgentes; ¤ Fusão da Escola Prática de Infantaria e de Cavalaria num único centro de formação, passando a denominar-se “Escola da Manobra” (Maneuver Center of Excellence); Processo de selecção A nomeação para a frequência do curso é 74 Nº 187 AGO09 ' * !' £! nomeado após a frequência do curso colocado por um período de 2 anos na EPI. terá de realizar um teste de admissão de Inglês na >* >< * cação igual ou superior a 75%. Com vista à frequência do curso ainda existe todo o processo legal conduzido pelo EME, processo este que consiste na Credenciação NATO, Passaporte, Visto e Guia de Marcha. Por seu Pa turno a embaixada Americana é responsável tu para além da execução do teste de admissão pa linguístico, pelo fornecimento da passagem lin W * W so sobre aspectos culturais e legais, bem como, sobre Fort Benning e o Exército dos EUA. so Após a admissão, e uma vez chegado a * mente à realização de um teste de Inglês a m %% do aluno. Este facto deve-se essencialmente * tid tidos, uma vez que na sua maioria os alunos in internacionais, já frequentaram um curso de in inglês no Estado do Texas, por 6 a 9 meses, à excepção de alguns países. Generalidades G No que se refere a material e equipamento para a frequência do curso, os militares internacionais podem utilizar os uniformes de trabalho dos respectivos países, sendo apenas obrigatório o uso do uniforme de ginástica do Exército Americano. Por seu turno, em termos de documen ' = ' >W > Unidos, onde consta o número da segurança social £ * ' ' em que se encontra. Outro documento tido como importante, é a Carta de Condução, que poderá ser obtida do Automóvel Clube de Portugal, ou tirada na cidade mais próxima. Por último, para quem estiver interessado será aberta uma conta bancária, a % '\ e pagamentos nos EUA. Fort Benning Em Fort Benning está localizada a Escola Prática de Infantaria Americana e da sua organização fazem parte: 192º Brigada de Infantaria, 197º Brigada de Infantaria, 198º Brigada de Infantaria, O Curso ] ' > £> Batalhão. Com uma duração de cerca de 186 dias (6 meses), o curso está dividido em duas fases. Numa primeira fase onde de aborda a componente Companhia, com principal incidência para as três principais tipologias de Brigadas existentes, Heavy Brigade Combat Team (HBCT), Stryker Brigade Combat Team (SBCT) e Infantry Brigade Combat Team (IBCT). Numa segunda fase é abordado então o Batalhão, com incidência no desempenho das funções EM de Batalhão. Decorre também e em simultâneo um curso de combate de corpo a corpo (Combatives Course), visando este dotar os futuros comandantes de companhia de técnicas de combate corpo a corpo – Nível 1, possibilitando aos futuros capitães ministrar aos seus soldados técnicas de combate. Este curso tem uma média de 150 alunos Americanos e cerca de 16 alunos internacionais, sendo que no MCCC 02-08, os alunos internacionais eram na sua grande maioria Europeus. A classe é dividida em grupos mais pequenos de 20 elementos, sendo as aulas ministradas por um instrutor (capitão ou major), denominado de SGI (Small Group Instructor), responsável pelas aulas em sala e educação física. O Programa de Formação está elaborado por forma a que a aprendizagem seja conduzida de de aumentado com o decorrer do curso. Durante o curso são tratados temas tácticos de companhia (Fase 1), em que os alunos são colocados na função de comandantes de companhia e elaboram as respectivas Ordens de Operações de forma individual, onde as componentes terrorismo e insurgend tes estão sempre presentes. Na fase do Batalhão te (Fase 2) desenvolve-se o trabalho em grupos, em (F que cada aluno desempenha uma das funções de q EM. E No que se refere ao dia “tipo”, este começa sempre com a sessão de educação física antes do pep queno-almoço pelas 06h00m, sendo que as aulas q ccomeçam às 08h00 e terminam às 16h30m. As aulas são na sua maioria de cariz prático, onde o dela bate e a troca de experiências são constantes, uma b vvez que cerca de 85% dos alunos Americanos têm experiência de combate no Iraque ou Afeganistão e (m (mínimo 15 meses). No que se refere à componente avaliação, inccide essencialmente nos seguintes pontos: tes £ ' % 6 65%), Ordem de Operações e respectiva exposi''" $ £ ' % ¢¶ > ' £ % £ ' % ¢¶ ' o obtida nos testes realizados semanalmente (média de 2 por semana) e, por último, o desempenho e d participação do aluno. AZIMUTE 199º Brigada de Infantaria (Escola Pára-quedista - MCCC), Ranger Training Brigade e a 3rd Heavy Brigade Combat Team. Em termos de formação, passaram no presente ano 108000 militares num total de 61 cursos, sendo a sua ocupação média na ordem das 120000 pessoas incluindo familiares e civis. No que se refere a regras de conduta, fumar, ingerir álcool e exceder os limites de velocidade expressamente proibidos, implicando o desrespeito das mesmas, severas punições, podendo mesmo levar à expulsão do Exército e no caso dos alunos internacionais à exclusão do curso. res internacionais cada aluno possui um “Sponsor”, estes procuram auxiliar na integração cultural, formação e constituem-se como “embaixadores” do Exército dos Estados Unidos. Por outro lado, existe também o “Sponsor” civil, que é um civil americano da cidade mais próxima, que de forma voluntária procura acolher e auxiliar os alunos internacionais. No caso dos alunos interCap Inf Parcelas com seu Sponsor nacionais portugueses os “sponsor” são por norma a Sr.ª Truman e o Sr. Herb hà muito conhecidos por todos os alunos portugueses. Visitas Também os aspectos culturais dos EUA não foram deixados ao acaso, pelo que no decorrer do curso efectuaram-se duas viagens, uma à cidade de Atlanta e a segunda a Washington D.C., sendo a última de elevado interesse, onde se pôde visitar a Casa Branca, Capitólio, Pentágono e diversos museus e monumentos. Por seu turno, a viagem a Atlanta, assentou basicamente na visita à CNN * organizações Conclusões A ida a Fort Benning, constitui uma experiência muito valiosa, na medida em que possibilita conhecer o que de mais moderno se encontra disponível aos mais baixos escalões, conjugado com a actualização de métodos e técnicas de emprego. Pelo que, julgo ser de elevada importância a nome ' MCCC, permitindo aos jovens capitães, para além de viverem a experiência de trabalhar junto de um dos melhores exércitos do mundo, a possibilidade de contribuírem para a actualização do programa de formação do CPCI. Azimute Nº 187 AGO09 75 AZIMUTE Juramento de Bandeira do 3º CFGCPE/2009 na Ericeira “Cheio de Deus não temo o que virá Pois, venha o que vier, nunca será Maior do que a minha alma.” Pelo TCor Inf Mário Bastos Fernando Pessoa Os soldados recrutas do 3º Curso de Formação Geral Comum de Praças do Exército de 2009 juraram bandeira no dia 29 de Maio, num espaço público da Vila da Ericeira – o Largo de S. Sebastião, recinto fronteiro ao Oceano Atlântico. Esta cerimónia, acontecimento repleto de simbolismo e relevância na tradição castrense, mo na vida dos jovens que, um dia, decididamente, optaram por servir Portugal como militares do Exército, tem as suas origens, no que nos diz respeito, na Idade Média, no espírito da Cavalaria e * ao certo, quando e como se deu origem à “liturgia” actual, sendo contudo um hábito enraizado e antigo. O Juramento de Bandeira realiza-se em parada militar, perante o Estandarte Nacional, constituin marcando de forma indelével um compromisso em que o cidadão transformado em militar assume um compromisso de honra e de sangue, a sua honra e o seu sangue, ao repetir a fórmula: “JURO, Como Português e como Militar, Servir as Forças Armadas, Cumprir os deveres Militares, Guardar e fazer guardar a Constituição E as Leis da República. JURO, Defender a minha Pátria, E estar sempre pronto a lutar, Pela sua Liberdade e Independência Mesmo com o sacrifício da própria vida.” 76 Nº 187 AGO09 O Juramento tem uma particularidade que não nem em qualquer código ético-deontológico: é que a defesa daquilo que se jura pode implicar a doação da própria vida. Daí a transcendência do acto. O quadro legal vigente é caracterizado pela pro K ' ' < para os regimes de voluntariado e de contrato, pelo ] de Bandeira é assim uma opção consciente de um homem livre, que o acompanha ao longo da vida, esperando-se que cada um saiba cumprir o seu Dever, conforme expresso no Juramento. Por isso, o compromisso é público e ritualizado. Tradicionalmente efectuado no quartel ou na vila de Mafra, foi desta vez conduzido na vila da Ericeira, iniciativa da Escola Prática de Infantaria que permitiu promover um relacionamento de maior proximidade com a população, uma presença mais efectiva junto da sociedade, reforçando a abertura da Instituição Militar ao exterior e a divulgação da imagem pública do Exército, saindo, assim, reforçada a sua visibilidade, com dividendos que poderão vir a traduzir-se numa maior atracção de recursos O seu planeamento, programação e organização implicou um vasto conjunto de coordenações com diversas entidades, da Câmara Municipal de Mafra à Junta de Freguesia da Ericeira, do Gabinete do CEME à Direcção de Obtenção de Recursos Humanos, passando pela Escola Prática de Engenharia (disponibilização, montagem e desmontagem da Tribuna), Regimento de Lanceiros 2 (escoltas e segurança próxima), Regimento de Director do Palácio Nacional de Mafra, o MajorGeneral Alfredo Piriquito, Director da Formação do Comando da Instrução e Doutrina e outros convidados militares e civis. AZIMUTE Transportes (reforço de meios auto), Regimento de Transmissões (disponibilização, montagem e desmontagem do som para a cerimónia), Centro de Recrutamento de Lisboa (stand de divulgação), Regimento de Infantaria 3 (disponibilização, montagem e desmontagem da Torre de escalada/Slide) e Guarda Nacional Republicana (segurança e gestão da circulação), que culminaram num treino geral em 28 de Maio, véspera do evento, num assinalável esforço colectivo. À cerimónia, que foi presidida pelo Exmo. tenente-general Alves dos Reis, assistiram diversas entidades civis e militares, além de familiares e amigos dos militares que juraram bandeira e da população em geral. Desde o campo de S. Mamede, em 1128, muitos foram gal. Por isso os os que caíram na defesa de Portugal. evocamos em todas as cerimónias militares, tendo sido lembrado o Fuzileiro Especial Eduardo Henriques Pereira, o “Ericeira”, natural desta vila. Após o acto solene do juramento a Portugal e à Bandeira Nacional e na sequência da imposição #' ' Antes de se encerrar a Cerimónia Militar, o ' pados e armados para o moderno combate e com o “Pelotão 1810”, equipado e armado à época. Após o encerramento da C Cerimónia foi possibilitado à popu pulação em geral a utilização da T To Torre de Escalada e do Slide, que co contou com o apoio de militares da Escola Prática de Infantaria, di disponibilizando o Centro de R Recrutamento de Lisboa, através do seu Stand de divulgação, inform mação útil e actualizada sobre o E Exército. #"!y|y}$ das boinas aos Soldados que o efectuaram, as ' > Nacional, passando em frente à Tribuna de Honra onde se encontravam o Eng. José Ministro dos Santos, Presidente da Câmara Municipal de Mafra, o Sr. Joaquim Casado, Presidente da Junta de Freguesia da Ericeira, o Dr. Mário Pereira, Desta forma conjugou-se tradi dição e modernidade, objecto de ra rasgados elogios por parte das m mais altas entidades, civis e mi " * K ] S Sargentos, Praças e Funcionários C Civis que, de forma inequivocamente competente, altamente abnegada, e com % % %cio”, nas palavras do Exmo. Comandante, CorInf Ormonde Mendes, prestam serviço na Escola Prática de Infantaria e “deste modo muito contribuíram para o reforço do prestígio e da imagem da Casa-Mãe da Infantaria.” Azimute Nº 187 AGO09 77 AZIMUTE Visitas e Notícias *:;<>& Na sequência de uma solicitação da Escola Básica nº1 Hélia Correia, decorreu em 29Jun09, na parada TCor Magalhães Osório, a festa de finalistas do 4º ano, com a presença de 1200 pessoas, incluindo 200 crianças. Do programa constou uma apresentação, na Sala Elíptica, sobre o Santo Condestável, D. Nuno Álvares Pereira, para além da entrega de diplomas aos alunos finalistas e da apresentação de peças teatrais, musicais e de dança, seguindo-se o jantar no refeitório dos Frades. Visita dos Adidos Militares No âmbito do plano de actividades do Grupo de Adidos Militares Acreditados em Portugal – 2009, visitaram a EPI em 17JUN09 os Adidos de Defesa Militar dos EUA, Alemanha, Brasil, Espanha e Colômbia. Do programa da visita constou a tradicional homenagem aos mortos, ao que se seguiu um briefing pelo Exmo. Cmdt sobre a EPI, na Sala de Honra da Infantaria, e uma visita histórica pelo convento e pelo Palácio Nacional de Mafra, culminando com um almoço servido na sala das bicas. “O Exército Napoleónico em Mafra. Um Convento Ocupado (1808)” As figuras históricas regressaram ao Palácio Nacional de Mafra, numa recriação intitulada “O Exército Napoleónico em Mafra. Um Convento Ocupado (1808)”. O evento realizou-se no dia 21 de Junho, organizado pela Câmara Municipal de Mafra, com o apoio da Escola Prática de Infantaria. Este evento permitiu conhecer um período conturbado, quando o exército napoleónico ocupou o Convento de Mafra. Foram recriados episódios desta ocupação com o povo de Mafra, os frades que ocupavam o convento e o exército francês. Mais de cem participantes (actores e voluntários) constituiram19 cenas. O histórico refeitório dos frades, neste dia assumiu-se como uma máquina de viajar no tempo e os visitantes puderam assistir a uma refeição fielmente reproduzida por actores profissionais e figurantes voluntários da Vila de Mafra. 78 Nº 187 AGO09 Visita da Escola Secundária da Venda do Pinheiro Visitou a EPI, em 19 de Fevereiro, o Exmo. Presidente da Comissão Nacional da UNESCO, o Sr. Embaixador Fernando Andresen de Guimarães, tendo percorrido os espaços históricos do convento. Em 26MAR09 visitaram a EPI os alunos da Escola Secundária da Venda do Pinheiro. tendo percorrido os seus espaços históricos após o que foi servido o almoço no refeitório dos Frades. Protocolo com a Escola José Saramago AZIMUTE Visita do Presidente da Comissão Nacional da UNESCO Visita de Cadetes da Croácia Inserida no programa de intercâmbio com a Academia Militar, em 19 de Junho visitou a EPI uma delegação de 4 cadetes da Croácia, dos três Ramos das FA. A delegação foi acompanhada por um Capitão da Força Aérea Croata, tendo visitado os espaços históricos do convento, culminando a visita no gabinete do Exmo. Cmdt da EPI. A Escola Prática de Infantaria, no âmbito da Directiva 174/CEME/07, celebrou um protocolo com o Centro de Novas Oportunidades (CNO) da Escola Secundária José Saramago de Mafra. A cerimónia de assinatura decorreu no gabinete do Exmo. Cmdt da EPI, tendo assinado o Cor Ormonde Mendes e a Profª Margarida Branco na qualidade de representantes das duas organizações. Missa pelos Combatentes da Guerra de Ultramar Incluído no programa de inauguração do monumento em honra dos Combatentes da Guerra de Ultramar, realizou-se no dia 24 de Maio de 2009 uma missa no Turcifal, na Igreja de Santa Maria Madalena. O BF enviou 5 militares da CAF para a execução da Guarda de Honra no Altar ao Santo e Patrono da arma de Infantaria. Nº 187 AGO09 79 AZIMUTE Canonização de D.Nuno Álvares Pereira, em Roma Em 26ABR09 deslocou-se a Roma a fim de participar na cerimónia de canonização do Beato Nuno de Santa Maria, D. Nuno Álvares Pereira Patrono da Infantaria, uma delegação do Exército composta pelo Cmdt da BrigMec MGen Pereira Agostinho, o Cmdt da EPI Cor Inf Ormonde Mendes, o Capelão da EPI Maj Rui Peralta, SMor Inf Manuel Martins, CadeteAluno Adriano Afonso e Furriel-Aluno Ricardo Gonçalves. A cerimónia decorreu na Praça de São Pedro, no Vaticano. Juramento de Bandeira 4ºCFGCPE09 Em 01 de Julho de 2009 decorreu a Cerimónia do Juramento de Bandeira do 4º Curso de Formação Geral Comum de Praças do Exército de 2009, num total de 85 militares. A Escola recebeu ainda um Pelotão de cadetes (17), da Escola Prática de Artilharia, que juraram bandeira com o 4º CFGCPE09. Presidiu à cerimónia o Exmo. Major-General, Alfredo Nunes da Cunha Piriquito, que incluiu a participação da Banda Militar de Évora. ? Integrada nas “Jornadas da Juventude”, organizadas pela Câmara Municipal de Mafra, que decorreram de 21 a 22 de Março nos claustros contíguos à porta das palmeiras, a Feira das Profissões, permitiu aos alunos das escolas do concelho de Mafra recolherem informações sobre as diversas profissões existentes, no sentido de os auxiliar a fazerem as suas escolhas profissionais de uma forma mais consciente. A EPI montou um Stand por onde passaram mais de duas centenas de jovens e que também tiveram oportunidade de visitar o Museu da Infantaria. Futurália A Escola Prática de Infantaria participou naquele que é considerado o maior evento nacional de educação e formação. O evento decorreu entre os dias 10 e 13 de Dezembro na Feira Internacional de Lisboa (Parque das Nações). A participação da EPI, contou com a presença de um Sargento e duas Praças com a Viatura Blindada de Rodas PANDUR. 80 Nº 187 AGO09 Em colaboração com a empresa de eventos éter produções, empresa responsável pela peça de Teatro “ O Memorial do Convento” em cena na capela do Campo Santo do Palácio Nacional de Mafra, a Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho visitou a EPI em 23MAR09. O grupo era composto por cerca de 256 alunos e 8 professoras. AZIMUTE Visita da Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho Macau - 10 anos depois A Fundação Jorge Álvares quis assinalar os 10 anos do fim da administração portuguesa em Macau, tendo, para o efeito, reuniu na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, cerca de duas mil pessoas de alguma forma ligadas a Macau. O encontro constituiu um grande e forte abraço de saudade. Nesta iniciativa estiveram presentes alguns antigos governadores de Macau: General Garcia Leandro (1974-1979), Joaquim Pinto Machado (1986-1987), Engº Carlos Melancia (1987-1991) e o General Vasco Rocha Vieira (1991-1999). &@!&!!KQZZ[ Iniciou-se a 13 de Julho de 2009 na Escola Prática de Infantaria o Curso Elementar de Combate em Áreas Edificadas – 2009 (CECAE), tendo términus a 31 de Julho de 2009, constituído por 26 Formandos (10 Oficiais, 16 Sargentos). Este curso tem por finalidade habilitar os formandos a desempenhar as funções de Comandante de Secção e Pelotão, nas tarefas de formação e treino, planeamento e conduta de operações de combate em áreas edificadas. 10.º CLOM Visita da Escola Secundária de Gouveia Teve início, em 18 de Fevereiro de 2009, na Escola Prática de Infantaria, o 10.º Curso de Ligação e Observação Militar, constituído por oito formandos. O objectivo do curso é o de habilitar os formandos a desempenhar funções no âmbito de uma missão de Ligação e Observação Militar. Por solicitação da Escola Secundaria José Saramago, a EPI alojou uma turma do 9º ano da escola secundária de Gouveia. A sua estada incluiu a visita aos espaços históricos e as 1ª e 3º refeições. A vivência no interior de uma unidade militar e em especial no refeitório dos frades foi do agrado geral. Nº 187 AGO09 81 AZIMUTE &@!"#&@!"#\;]:@QZZ[ 82 Iniciou-se a 14 de Abril de 2009 na Escola Prática de Infantaria o Curso de Formação de Oficiais e o Curso de Formação de Sargentos 1.º Turno 2009 com um efectivo de 131 elementos (18 Aspirantes Graduados e 113 Furriéis Graduados). O curso destina-se a habilitar os formandos com as aptidões técnico-tácticas, perícias e atitudes exigidas no de desempenho das funções próprias da respectiva categoria e posto. Visita de Cadetes da Academia Militar Brasileira Visita da Escola Secundária de Santa Maria da Feira Em 01JUN09 visitou a EPI uma delegação de alunos da Academis Militar das Agulhas Negras do Brasil, inserida no programa de intercâmbio de Academias Militares. A delegação era composta por dois cadetes Brasileiros. Após um briefing sobre a EPI, os alunos visitaram alguns espaços históricos do Convento de Mafra. Em 14MAR09 a Escola Secundaria de Santa Maria da Feira visitou a EPI, após ter assistido à peça de Teatro o Memorial do Convento. O grupo era composto de cerca de 30 alunos adultos e acompanhado por 8 professores das áreas de história, artes e ciências.. Nº 187 AGO09 6º, 7º e 8º CFPIF09 AZIMUTE “Paulo Combatente contra Cristo e por Cristo” Em 25MAR09 decorreu no auditório da EPI a conferência intitulada “Paulo Combatente contra Cristo e por Cristo” proferida por D. Anacleto de Oliveira. O Exmo. 2º Cmdt e o Capelão da Escola Prática de Infantaria acompanharam o Bispo Auxiliar de Lisboa ao longo da sua palestra, perante uma audiência com cerca de 170 militares da EPI e convidados da paróquia de Mafra. Visita de S. Ex.ª a Secretária de Estado da Cultura Inserida no programa da visita Oficial ao Palácio Nacional de Mafra, S. Exª a Secretária de Estado da Cultura (SEC), Mestre Maria Paula Fernandes dos Santos, visitou a EPI em 11FEV09, tendo sido recebida pelo Exmo. Cmdt da Instrução e Doutrina, TGen Vaz Antunes. A visita decorreu ao longo dos espaços históricos da EPI, sendo de salientar o interesse e a satisfação com que percorreu corredores como o La Couture, o Museu da Infantaria e a Sala Elíptica. A visita terminou com a assinatura do livro de honra e troca de lembranças. De acordo com o Plano de Formação Anual 2009, iniciou-se em 24 de Abril de 2009 o 6º, 7º e 8º Cursos de Formação Pedagógica Inicial de Formadores, constituída por 44 militares distribuídos da seguinte forma: 15 Sargentos da EPC; 12 Sargentos da EPT; 16 Sargentos da EPS; 01 Oficial da Compº Info, Seg Militar Durante 3 semanas os formandos receberam as ferramentas necessárias ao incremento da qualidade da formação, através da aquisição de competênciaschave no domínio pedagógico-didático. Juramento de Bandeira do 3ºCFGCPE09 Em 29 de Maio de 2009 decorreu a Cerimónia do Juramento de Bandeira do 3º Curso de Formação Geral Comum de Praças do Exército de 2009, num total de 274 militares. A Cerimónia teve lugar na vila da Ericeira, visando uma maior interligação entre a Escola e a Comunidade, configurando uma abertura da instituição castrense à sociedade. Presidiu à cerimónia o Exmo. TenenteGeneral, Alves dos Reis. As actividades de divulgação incluiram um Stand do Exército, uma torre de escalada, e ainda, um Simulador de tiro. Nº 187 AGO09 83 Directo para o Jornal da SIC AZIMUTE “Challenger” Realizou-se no dia 20 de Fevereiro de 2009, um “Challenger” do Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna (ISCPSI), com o apoio da EPI e do CMEFD. A prova realizada na Tapada Militar, Aldeia de Camões e CMEFD foi composta por várias provas entre as quais o Lançamento de Granada, Rappel, Slide, Pista Internacional, Tiro, entre outras. Em 02MAR09 o comando da EPI recebeu uma equipa de reportagem da SIC, com o objectivo de realizar um directo para o jornal da tarde daquele canal, entrevistando alguns recrutas para aferir da relação de casualidade entre o aumento da adesão de cidadãos para servir nas Forças Armadas e o aumento de desemprego. A jornalista Sara Antunes de Oliveira, atendendo à hora do directo, escolheu o refeitório dos frades para a condução da entrevista a dois militares do BFMG. Juramento de Bandeira do 2ºCFGCPE de 2009 Em 27 de Março teve lugar a Cerimónia do Juramento de Bandeira dos Formandos do 2º Curso de Formação Geral Comum de Praças do Exército de 2009. A cerimónia foi presidida pelo Exmo. MGen Aníbal Alves Flambó, Director de Doutrina do Comando da Instrução e Doutrina. No fim da cerimónia, as duas Companhias do Batalhão de Formação Militar Geral fizeram uma demonstração de actividades de treino físico militar, ao que seguiu um almoço-convívio. A RTP fez uma reportagem alusiva ao evento. Visita do Comandante das Forças Terrestres da República Democrática e Popular da Argélia Em 18FEV09 visitou a EPI o Comandante das Forças Terrestres da República Democrática e Popular da Argélia, MajorGeneral Ahcéne TAFER. A delegação argelina era composta por dois Coronéis e um Tenente-Coronel, acompanhada pelo Major-General Henrique Dinis e um oficial de ligação do EME. Receberam a delegação Argelina o Exmo. Comandante de Instrução e Doutrina, TGEN Vaz Antunes e o Exmo. Director de Formação Major-General Alfredo Piriquito. O programa da visita contemplou uma apresentação pelo Cmdt da EPI, na Sala de Honra da Infantaria, seguida de uma visita aos espaços históricos da Escola, após o que se deslocaram para a Aldeia de Camões, onde puderam assistir a uma demonstração Three Block War, a cargo do Batalhão de Formação. O almoço foi servido na sala das colunas, tendo-se seguido a assinatura do livro de honra no gabinete do Cmdt da EPI. 84 Nº 187 AGO09 A Escola Prática de Infantaria participou nas comemorações do Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas, em Santarém, de 06 a 12 de Junho, com 5 militares e um simulador de tiro. AZIMUTE Comemorações do dia 10 de Junho Militar da EPI dá formação de Informática na Universidade Sénior de Mafra Na sequência da solicitação à Escola Prática de Infantaria para ministrar formação na área da informática na Universidade Sénior de Mafra, o Alferes Caridade teve o grato prazer em colaborar nesta actividade, tendo abordado temas sobre internet, Microsoft Office, correio electrónico, entre outros. O objectivo foi o de proporcionar aos formandos um primeiro contacto com esta tecnologia. O Alferes Caridade foi incorporado em Março de 2008 na Escola Prática de Artilharia onde frequentou o Curso de Formação de Oficiais. Em Janeiro de 2009, após conclusão da especialidade, foi colocado na EPI, onde desempenhou as funções de comandante de pelotão no Batalhão de Formação, sendo mais tarde colocado na Secção de Informática, onde desempenha funções actualmente. O Alferes Caridade é licenciado em Radiologia pela Escola Superior de Saúde do Alto Ave. Visita de S. Ex.ª o Gen CEME de Espanha Em 24JUN09, S. Exa. o Gen CEME de Espanha, General-de-Exército D. Fulgencio Coll Bucher, visitou a Escola Prática de Infantaria. Do Programa constou um Briefing na Sala de Honra de Infantaria, Pelo Cmdt da Escola, e uma demonstração de 3BW na “Aldeia Camões”. A visita terminou no gabinete do Exmo. Cmdt, onde se procedeu à troca de lembranças e à assinatura do Livro de Honra, de que se transcrevem algumas palavras de S. Ex.ª o Gen. CEME de Espanha: “ É uma grande honra e satisfação visitar a EPI, berço de valores morais, militares e exemplo de serviço à sociedade, à Pátria. Como General do Exército Espanhol e Presidente da Academia de Infantaria quero felicitar e agradecer a qualidade dos exercícios que pude ver, a atitude e disponibilidade dos oficiais e soldados, que se instruem como podem combater, com os sacrifícios que nos formam e endurecem para os sacrifícios necessários (...)”. Nº 187 AGO09 85 AZIMUTE !"#^$!%&'QZZ[ No âmbito do Protocolo entre o Exército Português e a RTP, decorreu no dia 07 de Maio de 2009 na Escola Prática de Infantaria um workshop para jornalistas em zona de conflito. Esta acção de formação foi planeada, organizada, e conduzida pela EPI, em coordenação com a Direcção de Formação da RTP, e contou com a presença de doze formandos/jornalistas da RTP, RDP, do Jornal Público e Agência Lusa. Participaram, também, os formandos do Curso de Promoção a Capitão de Infantaria, a Companhia de Apoio à Formação do Batalhão de Formação, um Pelotão do Batalhão de Formação Militar Geral, um Pelotão de Atiradores do 2º BIMec/BRIGMEC, um Pelotão de Controlo de Tumultos e uma Equipa Cinotécnica do RL2. O Objectivo deste workshop foi, através de formação teórica e prática, habilitar os profissionais de jornalismo com conhecimentos pluridisciplinares e transversais em situações “Embedded”, integrados em Forças Militares numa zona de conflito. “Sons da Primavera” A liga dos Amigos de Mafra realizou um encontro na EPI designado “Sons da Primavera”, com os seus associados. O evento reuniu cerca de 300 elementos oriundos das diversas partes do País, tendo-se iniciado na praça D. João V e culminando com um almoço convívio servido no refeitório dos Frades. 86 Nº 187 AGO09 Visita da Escola Secundária da Senhora da Hora Em 16MAR09 a Escola Secundária da Senhora da Hora visitou a EPI. O grupo era composto por 116 alunos e acompanhado por 6 professores das áreas de história e artes. A visita contemplou os espaços históricos da EPI. AZIMUTE Higiene e Segurança Alimentar na Escola Prática de Infantaria Alferes RC Tiago Bispo Enquadramento Os estabelecimentos de restauração têm sido frequentemente associados a surtos de infecções alimentares. De modo a reduzir a incidência de tais surtos, a contaminação dos alimentos por perigos biológicos, químicos ou físicos deve ser prevenida, reduzida e/ou eliminada. Isso poderá ser conseguido mediante a implementação de práticas ' K ] de segurança alimentar podem ser subdivididos em pré-requisitos como a manutenção, limpeza, higiene pessoal, etc., e Análise de Perigos e Pontos de Controlo Críticos (HACCP). De forma a garantir a qualidade e segurança do pro sequentemente, a segurança e satisfação do consumidor, as empresas agro-alimentares têm vindo progressivamente a adoptar sistemas de segurança alimentar/HACCP. O sistema HACCP é um sistema preventivo e a sua implementação baseia-se na cação de pontos críticos de controlo. Historicamente, desde 1972 que os alimentos fornecidos à NASA para os tripulantes em voos espaciais são controlados por este sistema de segurança alimentar, tendo igualmente durante este ano, iniciado a sua aplicação à indústria conserveira americana. A sua implementação é obrigatória em Portugal, em todas as etapas de processamento do produto alimentar, desde 01 de Janeiro de 2006, com a entrada em vigor do Regulamento (CE) nº 852/2004 de Parlamento Europeu e do Conselho de 29 de Abril. Com objectivo de dar cumprimento a estes requisitos legais, é necessário que as empresas tenham previamente implementado um n programa de pré-requisitos, sem os p q quais é impossível desenvolver de for K <! Estes pré-requisitos passam por: ¤ ¤ Requisitos gerais das instalações do d estabelecimento ¤ ¤ Higiene pessoal e estado de saúde d manipuladores dos ¤ Plano de higienização das instala¤ ç ções e equipamentos ¤ Controlo de pragas ¤ ¤ Controlo de equipamentos ¤ ¤ Gestão, recolha e eliminação de ¤ re resíduos ¤ Sistema de rastreabilidade ¤ ¤ Formação dos manipuladores ¤ ¤ Controlo analítico – análises ¤ m microbiológicas Situação da Escola Prática de Infantaria A Escola Prática de Infantaria já cumpriu neste momento a maior parte destes pré-requisitos e tem desenvolvido esforços no sentido de dar cumprimento a todos. Entre outros é de salientar: ¤ Plano de Higienização implementado; ¤ ' produtores de alimentos relativamente à sua especialidade e em boas práticas de higiene pessoal; Nº 187 AGO09 87 AZIMUTE ¤ Áreas de preparação diferenciadas e aplicação de tábuas e facas de cores diferentes para as várias categorias de produtos, de forma a evitar contaminações cruzadas; ¤ Boas condições e capacidade de armazenamento tanto à temperatura ambiente como em frio positivo e frio negativo; ¤ > ' das temperaturas no centro térmico dos alimentos, o que permite * namento dos sistemas de armazenamento em frio; ¤ Equipamento adequado ao controlo frequente da qualidade dos óleos de fritura e reciclagem do óleo de fritura; ¤ Estufas de banho-maria com termómetro na distribuição; ¤ Contentores de resíduos de cores diferentes e com tampa accionada com pedal; ¤ Plano de controlo de pragas instaurado e revisto periodicamente. Pré-requisitos por cumprir ¤ Fardamento adequado – o uniforme deve ser de cor clara, de uso exclusivo no local de laboração, não deve possuir bolsos exteriores ou botões, devendo os bolsos interiores estar posicionados abaixo da cintura para que, caso algum objecto salte de um bolso, caia directamente no pavimento. Idealmente, todo o vestu ou mais frequentemente, caso a natureza das _ ¤ Portas de acesso sem molas de retorno e imperfeito ajuste das portas às ombreiras e pa prevenção de pragas; ¤ ^ *ga a que as janelas estejam abertas durante a confecção; ¤ = '_ 88 Nº 187 AGO09 Perspectivas Estes e outros pré-requisitos que ainda não estejam totalmente cumpridos, inviabilizam a im ' K <! tanto, os visíveis esforços do chefe da Secção de Alimentação, 1º Sargento do Serviço de Administração Militar, Luís Rodrigues e do Excelentíssimo 2º Comandante da EPI, TenenteCoronel de Infantaria, João Pedro Ribeiro, para se informarem e preencherem to todas as lacunas que posssam existir, têm sido devera ras recompensados através d da manutenção da salub bridade dos alimentos que d diariamente são servidos e, cconsequentemente, da saúd de e satisfação de todos os m militares da EPI. Muitas das lacunas referi ridas devem-se sem dúvida a ao facto da nossa Escola sse situar no Convento de M Mafra, o que impossibilita a re realização de obras, que seri riam indispensáveis para o sseu preenchimento. Sendo a assim, na nossa realidade, q quase tudo o que podia ter ssido feito já o foi, ganhando relevância na manutenção do bom trabalho que se tem desenvolvido na cozinha, o papel individual de cada trabalhador. Todos os trabalhadores manipuladores de alimentos devem ter consciência da responsabilidade e da importância de evitar a contaminação dos alimentos durante a sua manipulação/produção, assumindo os comportamentos adequados durante o desempenho das suas tarefas. Diariamente a saúde de centenas de pessoas depende das acções e cuidados que tomam. Se não se conseguir a motivação dos trabalhadores, não importa a formação que lhes seja fornecida, será difícil que estes mantenham os essenciais elevados padrões de higiene. Até ao momento, é sem dúvida de louvar todo o trabalho feito por todos os militares da Secção de Alimentação da Escola Prática de Infantaria. Azimute - Guidelines for Food Safety Control in European Restaurants; DECLAN, Bolton; MAUNSELL, Bláithín; The Food Safety Department, Teagasc – The National Food Center, Ashtown Dublin 15, Republic of Ireland In memorium Falecimento do Furriel-Aluno Agostinho Carvalho No dia 16 de Janeiro de 2009, faleceu com vinte e nove anos de idade, no Hospital Militar Principal, o Furriel-Aluno Agostinho Alves de Carvalho. Frequentava o 36º CFSI, tinha como esposa D. Maria Alcina Pinto de Teixeira e era pai de Mariana Teixeira de Carvalho. Era natural de Canedo de Basto, Celorico ! decorreu na capela da Escola Prática de Infantaria a "#$" $%$%&$'' $$%()$*(& +(& /457#8': $ '+;<$ = '(::$5 $"$ A Família da Escola Prática de Infantaria apresenta sentidas condolências e )%%8>% 8%% prematura partida do camarada Agostinho. Nº 187 AGO09 89