UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO SOCIOECONÔMICO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO MESTRADO EM SERVIÇO SOCIAL Eliane Aparecida Pinheiro SERVIÇO SOCIAL E VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: QUESTÕES PARA O DEBATE Florianópolis – SC, 2005 2 ELIANE APARECIDA PINHEIRO SERVIÇO SOCIAL E VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: QUESTÕES PARA O DEBATE Diss ertação apresentada à Banc a Examinadora da Universidade Federal de Santa Catar ina, como exi gência parci al para obtenç ão do título de mes t re em Serviç o Social, s ob a orientação da Profª. Drª. Teres a Kl eba Li sboa. Florianópolis – SC, 2005 3 ELIANE APARECIDA PINHEIRO SERVIÇO SOCIAL E VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: QUESTÕES PARA O DEBATE Diss ertação apresentada à Banc a Examinadora da Universidade Federal de Santa Catar ina, como exi gência parci al para obtenç ão do título de mes t re em Serviç o Social, tendo como área de c onc entraç ão: Serviço Social, Direitos Humanos e Questão Social. Aprovada em: BANCA EXAMINADORA Profª. Drª. Teresa Kleba Lisboa Universidade Federal de Santa Catarina Profª. Drª. Catarina Maria Schmickler Universidade Federal de Santa Catarina Profª. Drª. Arlene Anélia Renk Universidade Comunitária Regional de Chapecó 4 AGRADECIMENTOS À todas(os) aquelas(es) que percorreram comigo es te caminho, minhas/meus ami gas ( os) : Lembrei- me dele e s enti saudades.. .. Tanto tempo que a gente não s e vê! Dei- me conta, com intensidade incomum, da coisa rara que é a amizade. E, no ent ant o, é a coisa mais alegre que a vida nos dá. A beleza da poesia, da música, da naturez a, as delícias da boa comida e da bebida perdem o gost o e ficam meio tris tes quando não temos um amigo com quem compartilhá-los . Acho mes mo que tudo o que fazemos na vida pode-se resumir nis to: a busca de um amigo, uma luta contra a s olidão... Rubem Alves As assistentes sociais que ac eitaram participar da pes qui sa, pela di sponibilidade com que me receberam e pela c onfianç a que demonstraram durante as entrevistas; A prof essora doutora Teresa Kleba Lisboa, orientadora, pela s eriedade, competênci a e compromisso que demonstrou no process o de orientaç ão. 5 RESUMO (Introdução) O trabalho resulta do interess e em pesquis ar a interv enç ão dos assistentes sociais que atuam junto às mulheres que vivenciam situação violência por parte de seus companheiros. (Objeto de pesquisa) De que for ma os pressupostos teórico-metodológic os estão orientando a intervenç ão dos assistentes sociais junto às mulheres que vivenciam situações de violência por parte de seus companheiros? (Objetivo) Analisar a intervenç ão do assistente social a partir dos pressupostos teórico- metodológicos que estão orientando o trabalho profis sional junto às mulheres que vivenciam si tuações de violência por parte de s eus c ompanheiros. (Metodologia) A pesquisa realizada está delineada como qualitativa do tipo exploratória e bi bliográf ica, caracterizada por entrevis tas semi- estr uturadas, com per guntas abertas, dirigidas a 07 (sete) as sistentes soc iais que trabalham em programas, projetos ou serviç os que atendem mulheres que estão vivenciando situações de violência. A seleç ão foi realizada através de contato telef ônico com divers as instituições públicas e privadas que trabalham com esta problemátic a. A pes quisa foi realizada no período de julho a setembro de 2004. Entre os profiss ionais entrevi stados , duas atuavam em escritórios sócio-jurídicos ligados a Univers idades, uma em abrigo para mulheres em situação de viol ênc ia e quatr o em um centro de atenção à família em situação de vulnerabilidade domés tica e intr afamili ar. (Conclusão) Através deste estudo foi possível perceber que ocorreram avanços tanto no que tange ao debate, produções teóric as e implementaç ão de programas, projet os ou serviços para as mulheres que vivenciam si tuações de violência, mas o Serviço Social, enquanto profis são, ainda precisa avançar no que se refere a intervenção frente a esta problemátic a, tanto na perspectiva de assumir com mais ênfase a disc uss ão sobre relaç ões de gênero, poder e violência c ontra a mulher, c omo na produção teórica sobre o fazer profissional dos as sistentes sociais. (Palavras- Chaves) Vi olência Cont ra a Mulher, I ntervenção Profissional, Dimens ões da Profissão. 6 ABSTRACT (Introduction) The work results of the interest in researching the social workers’ intervention that act with women that live violence situations on the part of their companions. (Research Object) What forms the theoretical-methodological presuppositions are guiding the social workers’ intervention with the women that live violence situations on the part of their companions?(Objective) To analyze the social worker intervention starting from the theoretical-methodological presuppositions, that are guiding the professional work together with the women that live violence situations on the part of their companions. (Methodology) The accomplished research is delineated as qualitative of the exploratory and bibliographical kind, characterized by semi-structured, with open questions, directed to 07 (seven) social workers that work in programs, projects or services that assist women that are living violence situations. The selection was accomplished through phone contact with several public and private institutions that work with this problematic situation. The research was accomplished in the period of July to September of 2004. Among the interviewed professionals, two acted in partner-juridical offices joined to Universities, one in shelter for women in violence situation and four in a center of attention to the family in situation of domestic and intrafamiliar vulnerability. (Conclusion) Through this study, it was possible to notice that happened progresses so much in what it refers to the debate, theoretical productions and implementation of programs, projects or services for the women that live violence situations, but the Social Service, while profession, still needs to advance in what it refers the intervention front to this problematic so much in the perspective of assuming with more emphasis the discussion about gender relationships, power and violence against the woman, as in the theoretical production about the professional work of the social workers. (Key-Words) Violence Against the Woman, Professional Intervention, Dimensions of the Profession. 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 07 I - VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: UM DEBATE NECESSÁRIO 21 1.1 - Publicizando a questão da violênci a c ontra a mulher: o papel do Estado e da sociedade civil 21 1.2. - Ampliando o debate sobre a violência contra a mulher: aspectos conceituai s 33 1.3. - Violência e relações de gênero: o poder em questão 44 II - O SERVIÇO SOCIAL E SUA INTERLOCUÇÃO COM A QUESTÃO DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER 2.1. - O Serviço Social e a ques tão da violência c ontra a mulher: um diálogo necessário 53 2.2. - As concepções dos assistentes sociais pesquisados em relaç ão à violência contra a mulher 2.3. - Os assistentes sociais diante da violência c ontra a mul her : aportes teórico- metodológic os 2.4. - O trabalho dos assistentes s ociai s: c otidiano de limi tes , possibilidades e lutas 53 58 73 87 CONSIDERAÇÕES FINAIS 101 REFERÊNCIAS BIBLI OGRÁFICAS 108 8 INTRODUÇÃO O interesse em estudar a intervenç ão do Serviç o Social junto às mulheres que vivem situações de violência s urgiu diante das angústi as e indagações que se apresentaram no cotidiano do atendimento às mulheres que tinham seus esposos ou c ompanheiros internados par a tratamento da dependência química no SAT 1 - Serviço de Alc oolismo e Toxic omania do Hospital São Bernardo, localizado no município de Quilombo 2 . Nos sa atuaç ão como assistente social neste ser viço ocorreu no período de maio de 1999 a fevereiro de 2001 e tinha como objeti vo principal atender às famílias dos pacientes que estavam internados para tratamento da dependência química Na ocasião, profissionais, dentre a equipe os quais de trabalho o assis tente era compost a soc ial que por ficou quinze com a responsabilidade de implantar o atendimento às famílias dos pacientes internados para tratamento. O atendimento do Serviço Social junto às famílias era realizado a partir de entrevis tas individuais e tinha como objetivo conhecer a história e o contexto familiar, além de trabalhar c om os familiares aspectos relacionados à dependência química, preparando o retorno do paciente para sua c as a. Após dois meses de trabalho introduzimos as reuniões semanais c om as famílias dos pacientes internados objetivando proporcionar às famílias dos pacientes internados para tratamento da dependência química um espaço de escuta e acolhimento. 1 O S e r v i ç o d e A l c o o l i s m o e T ox i c o m a n i a f o i c r i a d o e m m a i o de 1 9 9 9 , t e n d o c o m o o b j e t i v o d i a g n o s t i c a r e t r a t a r a d e p e n d ê n c i a q u í m i c a a t r a v é s d e t r a b a l h o c o m u m a eq u i p e i nt e r d i s c i p l i n a r . 2 O m un i c í p i o d e Q u i l o m b o e s t á l o c a l i z a d o n o O e st e C a t a r i n e n s e , co m p o n d o a M i c r o r r e g i ã o O e s t e d e S a n t a C a t a r i n a . A p o p u l a ç ã o d o m u n i c í p i o , s e g u n d o d a d o s d o I B G E ( I n st i t u t o B r a s i l e i r o d e G e o g r af i a e E s t a t í s t i c a ) , c e n s o d e 2 0 0 0 , er a d e 12 . 4 7 1 ha b i t a n t e s , se n d o 4 . 1 2 1 r e s i d e n t e s n a z o na u r b a n a e 8 . 3 4 5 n a zo n a r ur a l . A r e l i g i ã o p r e d o m i n a n t e , m e s m o c o m o c r e s c i m e n t o d a s r e l i g i õ e s e v an g é l i c a s n o s ú l t i m o s a n o s , é a C a t ó l i c a A p o s t ó l i c a R om a n a . Q u i l o m b o f o i c o l o n i z a d o p o r d es c e n d e n t e s de i t a l i a n o s e a l e m ã e s or i u n d o s d o R i o G r an d e d o S u l . 9 Tanto nas entrevistas indivi duais c omo nas reuniões, observamos que as mulheres (esposas ou companheiras dos pacientes) que mais participavam e, em segundo lugar, a mãe; os demais membros da família, como pais, irmãos ou filhos, não c ompar eci am com freqüência, ou seja, geral mente quem assumi a a res pons abilidade pelo paciente eram as mulheres. Durante os atendimentos individuais ou grupais , fomos constatando que essas mulheres, em sua maioria, vivenciaram ou vivenciavam algum tipo de violência (física, psicológica ou sexual) por parte de seus c ompanheiros. Ao relatarem as situações de violência, nas suas falas aparec iam c onteúdos cercados por sentimentos ambivalent es. Em um primeiro momento elas conceituavam o marido como violento e respons ável por todas as suas angústias, fr ustr ações e sofrimentos ; em outro, trans formavam- no em um homem bom ou salientavam a nec essidade que tinham de continuar c om ele, em função dos filhos ou da sobrevivência, j ust ific ando assim a permanênci a na relação. A violência que vivenciavam era a problemátic a que mais aparecia em suas f alas, seja no atendimento individual ou grupal. No desempenho das atividades pr ofissionais, é a partir da demanda dos usuários que devemos direcionar a nos sa intervenção, pois são eles que colocam as suas necessidades. Mesmo a violênc ia contra a mulher não sendo o objetivo inicial da propos ta de intervenç ão com as famílias dos pacientes internados, era esta a demanda que se apres entava com maior destaque. Nas entrevistas ou nas reuniões com as famílias, as mulheres colocavam maior ênfase nas discussões relacionadas à violência contra a mulher , superando o problema da dependênci a química do companheiro, que era o principal objetivo das reuniões ou atendimentos individuais. Nesta época, defront amos- nos com uma séria questão: os conhecimentos que detínhamos enquanto assistente social em relaç ão à 10 problemática eram insuficientes, para a compreensão e intervenç ão junto às mulheres que vivenciavam situações de violência. Outro aspecto que tivemos que considerar como um desaf io f oi a nossa disposição em trabalhar com esta problemática, pois além de não estarmos preparados este não era o objetivo do SAT. Num primeiro momento, resis timos e proc uramos “desviarnos” das evidências que se apres entavam, ou seja, as mulheres queriam falar sobre as suas necessidades, mas não nos sentíamos preparada para ouvi-las. Continuávamos tendo como objetivo trabalhar o retorno do paciente para sua casa, porém nossa resis tência aos poucos foi vencida e passamos a buscar subsídios na literatura, que nos pos sibilitas sem a compreensão da violência contra a mulher . Outro aspecto que nos causava inc ômodo era as supervis ões realizadas pelo médico psiquiatra, que, como coordenador , supervisionava as atividades desenvolvidas por todos os membros da equipe interdisciplinar. Todos os profissionais da equipe tinham, em s eus c ronogramas de atividades, horários para di scutir suas intervenções. O Serviço de Alcoolismo e Toxicomania tinha previsto no projeto inicial uma intervenç ão com bas e nos conhecimentos psicanalíticos 3 , tanto para o paciente como para os s eus familiares. O médico psiquiatra detinha uma for maç ão psicanalític a e orientava o trabalho nesta pers pectiva. I sto acabou gerando, por diversas vezes, um sentimento de impotênc ia, diante da nos sa falta de c larez a para contrapor algumas questões . Acreditamos que vários motivos contribuíram para que isto ocorresse, mas consideramos como principais: o pouc o domínio dos conteúdos psicanalíticos e a res istênc ia em aprof undá- los; a fragil idade teórica e metodológica na intervenç ão do as sistente social junto a esta problemática. Estes as pectos acabavam contribuindo para a não confr ontação de posições durante as s upervisões. 3 A i n t e r v e n ç ã o e r a b a s e a d a n a c o m p r e e n s ã o d o c o m p o r t a m e n t o a t r a v é s da i n t e r p r e t a ç ã o d e c o n t e ú d o s i n c o n s c i e n t e s r e p r i m i d o s p e l o p a c i e n t e ( pr o j e t o A l a P s i q u i á t r i c a A l b i n o  n g e l o S p o n c h i a d o, 1 99 9 ) 11 Estas angústias, aliadas a outras , levaram- nos à procura de fundamentação teórica que subsi diasse a intervenção do assistente social nesta temática. Deparamo- nos com uma r ealidade angus tiante, pois s ão praticament e inexistentes produções que traduz am o fazer profiss ional do assistente social, principalmente junto a temáticas como: alcooli smo e violência contra a mulher. Nossa bus ca foi no s entido de encontr ar di scuss ões e aprofundamentos relacionados às nec es sidades postas no diaa-dia da profissão, equacionando- as com a conjuntura sócio-cultural colocada em cena. Constamos que existiam, apes ar de número reduzido, al gumas discussões teóricas sobre a violência contra a mulher que foram produzidas por assistentes sociais, porém pouca reflexão metodológica abordando o fazer profissional. A revista “Serviço Soc ial e Sociedade”, editada pel a editora Cortez, princ ipal publicação na área do Serviç o Social, di spunha de raríssimos textos sobre o assunto e a intervenç ão não era problematizada. Em setembro de 2001, pas samos a atuar no Escrit ório Sócio-Jurídico da Universidade Comunitária Regional de Chapecó - UNOCHAPECÓ, localizada no município de Chapecó 4 – SC, na função de supervis ora de estágio dos acadêmicos de Serviço Social. O Es critório Sóc io-Jurídico – ESJ- é um projeto permanente de extensão univers itária que tem o objetivo de proporcionar estágio para acadêmicos dos cursos de Serviço Social, Di reito e Psicologia, através da prestação de serviços à c omunidade. O público alvo do projet o é compos to por famílias c om uma renda familiar de até tr ês salários mínimos mensais. Nesse novo campo de atuação, constatamos que a maior parte das demandas atendidas estava relacionada com c onflitos familiar es, s endo o 4 O m un i c í p i o d e C h a pe c ó es t á l o c a l i z a d o n o O e s t e C a t ar i n e n s e , c o m p o n d o a M i c r or r e g i ã o O e s t e d e S a n t a C a t a r i n a . A p o p u l a ç ã o d o m u n i c í p i o , s e g u n d o d a d o s d o I B G E ( I n st i t u t o B r a s i l e i r o d e G e og r a f i a e E s t at í s t i c a ) , c e n s o d e 2 0 0 0 , er a d e 1 4 6 . 5 3 4 h a b i t a n t e s , s e n d o 1 2. 3 2 4 r e s i d e n t e s n a z on a r u r a l . A á r ea t er r i t o r i a l é d e 62 4, 3 0 km 2 . 12 conflito conjugal predominante nas intervenções realizadas pelos estagiários de Serviço Social. Nos casos em que o problema apresentado era o c onflito conjugal, em sua maioria, a violência contra a mulher estava presente, mesmo que de forma implícita. As mulheres c ons tituem o público atendido em maior númer o pelo Escritório Sóc io-Jurídico. Algumas procuram o serviço com o objetivo de “dar um susto no companheiro”, acreditando que ele, sendo abordado por uma autoridade, como por exemplo: delegado, juiz ou advogado , poderá modific ar sua “conduta agressiva”. Out ras , no primeiro atendimento realizado pelos estagiários de Serviço Social, salientam que a s eparação é o únic o caminho, pois estão cansadas de serem agredidas pelo companheiro. Elas geralmente relatam outras tentati vas que já fiz eram na perspec tiva de solucionar o problema como: regist ros de boletins de oc orrências nas Delegac ias de Polícia, saídas de casa retornando após o companheiro pr ometer mudar, dentre outras. Na rotina do Es critório Sócio-Jurídico est á estabelecida que a outra pessoa envolvida no c onflito deve ser chamada no segundo atendimento, tendo o objetivo de proporc ionar o diálogo entre o casal, encaminhando da melhor forma a s olução do conflito. Não r aras vezes, no segundo atendimento, a mulher volta sozinha e comunica que resolveu aguardar para encaminhar a separação, pois o companheiro garantiu que mudaria. Em outras , ela volta na companhia dele e, no atendimento, resolve que “vai dar- lhe outra chance” e salienta que voltará caso el e não cumpra o prometido. São difíc eis os c asos em que a mulher que sof re violência permanente decide pela separação, c om a concordância ou não do companheir o. Geral mente as históri as de violência são constantes e o chamado ciclo da violência já es tá consolidado, quando el as procuram auxílio. 13 A responsabilidade estágio, que nos era atribuída, como supervisora de levou-nos novamente à busc a de subsídios teóric os par a a orientação dos estagiários no atendimento à problemáti ca da violência c ontra a mul her . Ident ificamos um número signif icativo de Trabalhos de Conclusão de Curso de Serviço Social produzidos pelos acadêmicos da UNOCHAPECÓ, que trabalharam e estão trabalhando sobre a violência contra a mulher, mas nenhum deles problematizava ou disc uti a a intervenção profissional do assistente social. Estas foram algumas das discuss ões e indagações que motivaram a delimitação do problema de pesquis a: de que forma os pres supos tos teóricometodológicos estão ori ent ando a intervenção dos as sistentes sociais junto às mulheres que vivenciam situações de violência por parte de seus companheiros? Para tanto, o objetivo proposto na pesquisa foi: analisar a intervenção do assistente metodológicos que mulheres vivenciam que estão s ocial a parti r orientando o situações de dos trabalho violência pressupostos profissional por parte teóricojunto de às s eus companheiros. O caminho metodológico seguido para alcançar os objetivos propostos e realizar o estudo foi a pesquis a qualitativa, uma vez que: [. . . ] r epon de a que stõe s mu ito par ti cula res . Ela pre ocu pa -se , nas ciên ci as socia is , co m o n ível d e r ealidad e qu e n ão p od e ser q uanti f ica do . O u se ja , ela tra ba lha co m o un ive rs o de sig nif icado s , m o ti vos , asp iraç õe s, c ren ça s, valor es , a ti tu d es [. . . ] (M INAY O, 2000 , p. 21- 2) . No contato direto com os sujeitos da pesquisa, tivemos a oportunidade de ouvir suas angús tias, indagações e preoc upações , tendo como eixo norteador à intervenção profiss ional. A pesquisa qualitativa não 14 tem apenas a preocupação em es tabelecer índic es, mas também c onhec er as experiências dos informantes ou, conforme MARTINELLI (1999, p. 25): No que se ref ere à s pesqu isas qua litativas , é ind ispe nsá vel te r pr esent e que, mu it o m a is d o que de scr eve r um ob je to, bus cam conh ece r t ra j e tó ria s d e vid a , e xp er iê ncias so ciai s dos sujei tos , o que exige u ma grand e d isponibilid ade do p esq uisa dor e um re al in te re sse e m vive ncia r a expe riê n ci a da p esq ui sa. Além do aspecto qualitativo, a pesquisa realizada es tá delineada como do tipo explorat ória e bibliográf ica. Sendo que a pesquisa bi bliográf ica, para Köche (2002), é utilizada na ampliação do grau de conhecimento em uma determinada área, capacita o pes quisador na compressão do problema pesquis ado. A partir do domínio do conhecimento, o pesquisador terá base para a fundamentaç ão, descriç ão e s is tematização do objeto de investigação, enquanto que a pesquisa ex ploratória caracteriza-se como “[. .. ] o levantamento da presença das variáveis e da sua caracterização quantitativa ou qualitativa” e também tem como objetivo “[.. .] descrever ou caracterizar a natureza das variáveis que s e quer c onhecer” (KOCHE, 2002, p.126). Uma pesquisa “exige” a s eleção de instrumentos adequados visando atingir os objetivos do projeto, cabendo ao pesquisador a escolha, sempre considerando a viabilidade. Os instrumentos esc olhidos para a realização da pesquisa foram: entrevista, pes quisa documental e observação. A entrevi sta f oi o instrumento utiliz ado de forma pr ivilegiada na colet a de dados. procedimento mais Conforme ut ilizado Minayo no (2000, trabalho de p.57), a c ampo. entrevi sta Através é o dela o pesquisador procura obter as informações contidas nas falas dos atores sociais. Ela não é neutra, e pode s er realizada de forma individual ou colet iva. Para a autora, as entrevis tas , estruturadas ou semi- estruturadas . de modo geral , podem ser 15 Ainda sobre a entrevista, NETO (2000, p.57) destaca que ela é: [. . . ] o pro cedim en to ma is usu al no tr ab alh o d e ca m po . Atra vé s del a, o pe squisado r b us ca obt e r in f o rm es co ntidos na fa la do s at or e s so ciais. Ela n ã o sign ifi ca u m a con ve rsa de sp re te nsi osa e neu tra , u ma vez q ue se inser e co m o me io de colet a d os fa t o s re lat ado s p e los a to re s, e nq ua nto su jeit o/o b je to da pesq uisa q ue vive ncia m u ma dete r mi nada rea lid ad e qu e es tá send o f o caliza da. A opção foi trabal har com a entrevista semi- estruturada que “[.. .] consiste numa série de per guntas abertas, feitas ver balmente em uma ordem prevista, mas na qual o entrevistador pode acresc ent ar perguntas de esclarecimento” (LAVILLE & DIONNE 1999, p.188) . A entrevista semiestruturada orientou- nos na investigaç ão do objeto de pesquisa, uma vez que os sujeitos da pesquisa puderam responder livremente às ques tões , sendo realizadas algumas indagações quando as respost as não ficavam cl aras ou suscitavam alguma informaç ão import ante e que não cons tava no roteiro de perguntas. As entrevistas foram agendadas antecipadamente com os profissionais e realizadas nos seus loc ais de trabalho. As entrevist as ocorreram no período de julho a setembro de 2004. A partir da autorização dos mesmos, as falas foram gravadas para pos terior transcrição e análise dos dados. O número de fitas gravadas foi sete, tendo um tempo médio de duração de 50 minutos cada entrevista. Após a transcrição, o text o foi devolvido aos sujeitos da pesquis a para lerem os seus relatos . O objetivo era veri ficar a concor dância ou não com o que tinha sido transcrito. O entendimento foi que durante a realizaç ão das entrevistas algumas idéias poderiam não t er f icado claras , comprometendo a anális e. Apenas dois profissionais alteraram algumas f alas, destacaram que não era aquela a idéia que gostariam de ter repass ado em algumas quest ões . Outra técnica prevista no pr ojeto de pes quisa para s er utilizada na colet a de dados era a pesquisa documental que, na definição de GIL (1991, 16 p.51), “[... ] vale-se de materiais que não receberam ainda um tratamento analítico, ou ainda podem ser reelaborados de ac ordo com os objetos da pesquisa”. Foi propost o como metodologia de pesquisa a análise dos projetos e os relatórios dos atendimentos realizados pelos as sistentes s ociai s, sujeitos da pesquisa, porém não foi possível devido a alguns motivos como: o curto espaço de tempo, alguns profissionais não tinham a doc umentaç ão organizada e a elaboração dos relatórios não era prioridade em virtude da falta de tempo; relatórios e doc umentos inc omplet os; ac esso dificultado pela falta de tempo em permanec er na instituição pes quisando e não s er per mitida a reprodução para análise pos terior. Consi der ando a pesquisa documental como complementar na coleta de dados e ac reditando que através das entrevistas f oram obtidas informações sufici ent es para responder aos objeti vos elencados no proj eto, optamos pela leitura de relatórios e documentos institucionais para conhecer as instituições e suas di nâmicas, não realizando a análise des ses. Durante o trabalho de campo foi utilizado o diário de campo como instrumento para o registr o das infor maç ões obtidas na col eta de dados. Considerando como infor mações não somente os dados objetivos, mas as preocupações, curiosidades, sentimentos do próprio pesquis ador , avaliaç ões e mudanças de estratégias, que ocorrer am no c ampo de pesquisa. O t rab alh o d e ca mp o , e m s ín te se, é f ru t o d e u m m o me n t o re laciona l e prá t ico : a s inq uie taçõ e s qu e nos le va m a o dese nvol vi men to de u ma p e squ isa nas ce m n o u niverso do cot id iano. O qu e at rai na p ro du çã o do con hecime n t o é a e xist ência do d esco nh eci do , é o sen tido d a no vid a de e o con f ron t o co m o qu e n os é es t ran ho ” ( NE TO , 2 000, p . 64) . A def inição do lócus de pesquisa, num primeiro momento, tinha o objetivo de identificar instituições que trabalhavam com a violência contra a 17 mulher e que possuíssem profissionais assistentes s ociai s em s eus quadros. Os contatos abrangeram as Delegaci as de Proteç ão à Mulher, a Criança e ao Adolescente 5 localizadas no Es tado de Santa Catarina, num total de doze. Em seguida, repor tamo- nos ao Estado do Rio Grande do Sul e Paraná, mais precisamente o contato foi realizado com as Delegacias Es pecializadas no Atendimento às Mulheres - DEAM’s -, localizadas nos município de Canoas e Porto Alegre. No Estado do Paraná os c ontatos ocorreram c om as DEAM’s das cidades de Londrina e Curitiba. Não encontrando assi stentes sociais atuando em nenhuma dessas institui ções, a busc a foi redimensionada para outros locais. Posterior mente, os contatos foram realizados com instituições e profissionais do Poder Público Munic ipal de diversos municípios 6 . O objetivo era identificar os assistentes soc iais que estives sem trabalhando em serviços, pr ogramas e projet os que atendes sem às mulheres que estavam vivendo situações de violência. Houve dificuldades, pois alguns trabalhos localizados não contavam com assis tentes sociais intervindo diretamente, ou seja a atuação destes profiss ionais ocor ria mais como um suporte para encaminhamentos. Um ponto a ser res saltado é que a maioria dos serviços conta com o profissional de Psicologia atuando, f ato presente também nas Delegacias Especializadas no Atendimento às Mulheres . Esse foi um limite encontrado para definir o número de as sistentes sociais, sujeitos da pesquisa, ou seja, identificar aqueles profis sionais que estão trabalhando diretamente com as mulheres que vivenci am situaç ões de 5 D en o m i n a ç ã o u t i l i z a d a no E s t a d o d e S a n t a C a t a r i n a , s e n d o e nc o n t r a d a s o ut r a s t e r m i n o l o g i a s e m d i f er e n t e s n o s es t a d o s br a s i l e i r o s . P a r a f i n s de s t e t r a b a l h o , u t i l i z ar e m o s a d en o m i n a ç ã o D e l e g a c i a E s p e c i a l i z a d a no A t e n d i m e n t o às M u l h er e s o u a sigla DEAM’s. 6 O s m u n i c í p i o s c o n t a t a d o s f o r a m : B l u m e n a u , C h a p e c ó, C r i c i ú m a, F l o r i a n ó p o l i s , I t a j a í , J o i n v i l e , L a g e s , C o n c ó r d i a , P a l h o ç a , P o r t o A l e g r e , C a n o a s , L o n d r i n a e C ur i t i b a . N u m p r i m e i r o m o m e n t o po r s e r e m os m a i o r e s d o E s t ad o d e S a n t a C at ar i n a , ex c e t o P a l h o ç a qu e f o i e m r a z ão d e i n f o r m a ç õ e s o b t i d a s d e q u e ha v e r i a u m a a s s i s t e n t e s o c i a l t r a ba l h a n d o n a D el e g a c i a d e P o l i c i a . O s m u n i c í p i o s d o P a r a n á ( C ur i t i b a e L o n d r i n a ) e R i o G r a n d e do S u l ( p o r t o A l e g r e e C a n o a s ) f o r a m e s c o l h i d o s a l e a t o r i a m e n t e . O c o n t a t o f o i r e a l i z a d o n ão somente com as Delegacias, mas também com os Fóruns de Justiça e Prefeituras M u ni c i p a i s . 18 violência por parte de seus companheiros. Interessante, neste momento de exploração do campo de pesquisa, foi identificar que parc ela significativa dos assistentes sociais tem ou teve contat o c om mul her es que viviam si tuações de violência, no entanto é reduzido o número daqueles que têm sua atuação voltada diretamente para essa problemática específica. Depois de exaustivo levantamento nos três estados da Região Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), o universo de pes quisa ficou delimitado em (07) sete assist ent es sociais: s endo uma do Es tado do Rio Grade do Sul e seis do Estado de Santa Catarina. Como já citado, foram sete os assistentes , sociais sujeitos da pesquisa, dentre estes profiss ionais 01 (um) era homem 7 . O que demons tra que a sociedade ainda não superou a idéia de que algumas profissões ou atividades são de responsabilidade das mulheres . Os sujeitos da pes quisa podem ser considerados jovens, a faixa etária se c oncentra entre 28 e 39 anos; is so signi fica que poderão permanecer no mercado de t rabalho por um longo período, demandando investimento na qualificação dess es profissionais. Entre os entrevistados , não existe uma convergência quanto ao ano de término da graduação. Três dos entrevi stados se graduaram sob a orientação das diretrizes curricular aprovadas pela ABESS, em 1996; os demais, cursaram a graduação sob a vigênc ia do Curríc ulo Mínimo de 1982. Outro aspecto interessante de ser observado, é de que a apenas dois assistentes sociais cursaram a graduaç ão em Universidades públicas, o que si gni fica que as institui ções privadas foram as respons áveis pela for mação da maioria dos profissionais entrevis tados, sendo os cursos oferecidos no período noturno. O tempo de exerc ício profissional das entrevistadas varia de 01 ano a 16 anos e seis mes es. O período de tr abalho na instituição variou de 01 ano a 10 7 anos , tendo uma concentração maior no númer o de E m b or a q u e a m a i o r i a do s s u j e i t o s e n t r ev i s t a d o s t e n h a m s i d o m u l h e r e s , pa r a m a nt e r em s i g i l o a i d e n t i d a d e d o s m e s m o s , o pt a m o s p o r p a d r o n i z a r o s s u j e i t o s m e n c i o n a d o s n o masculino. 19 profissionais que ainda não completaram 02 anos na instituiç ão, num total de 04 assistentes profissionais sociais. Em entrevistados relaç ão na à pesquisa for mação conti nuada, demonst raram todos os preocupaç ão e compromisso. Apenas um assistente social ainda não havia realizado c urs o de especialização e dentre os outros s eis profis sionai s dois c oncluíram o mestr ado e out ro aperf eiçoamento está cursando. profissional. A Todos formação realizaram c ontinuada cursos parec e de ser um compromisso dos profissionais, o que pode garantir a qualidade nos serviç os prestados aos usuários. Através das falas dos sujeitos da pesquisa, procuramos verific ar a concepç ão que tem orientado a intervenção destes profis sionais no cotidiano de atendimento às mulheres em situaç ão de violência. Em relação aos dados, de acordo c om MARSIGLIA (2001,p.32), “[. ..] a ‘análise’ é um processo de desc rição dos dados obtidos e [.. .] a ‘interpret ação’ é um processo de reflexão sobre o que está escrito, à luz de conhecimentos mais amplos”. A análise dos dados da pes quisa de campo teve o objetivo de responder ao problema de pes qui sa proposto. Muitos dados foram recolhidos, mas tiveram que ser selec ionados para atender ao objetivo deste trabalho. Procuramos entrevistas, nas utilizar o máximo dos conteúdos extraídos das reflexões e não soment e os fr agmento apres entados neste trabalho, como fala dos entrev istados. O trabalho, porém não tem a int enç ão de realizar c ríticas pes soais ou procurar quem está certo ou errado, e sim refletir s obre a pr ofissão, tendo como objetivo principal contribuir na construç ão ou recons truç ão de propostas prof issionais. As inf ormações obtidas foram lidas, ordenadas e classi ficadas, considerando o ref erencial teórico, o problema de pesquis a e os objeti vos da 20 pesquisa. Os dados obtidos através das entrevis tas , as leituras r ealizadas e as reflexões que f omos construindo ao longo do trabalho, levaram- nos a estruturá- lo em dois capítulos. Para tanto, no Capítulo I, é realizado um res gate histórico sobre as conquistas que as mulheres obtiv eram diante da problemática da violência contra a mulher, assim como uma discus são teórica sobre a violênci a contra a mulher , relações de gênero e relações de poder. No Capítulo II, buscamos através das falas dos assi stentes s ociais entrevistados refletir sobre a inter venção pr ofissional junto às mulheres que estão vivendo situações de violência, procurando conhecer os aport es teóricos - metodológicos que es tão orientando a prática dos as sis tentes sociais nos serviços e programas pesquis ados . Nas considerações finais , apres entamos as c onclus ões às quais conseguimos chegar ao término deste trabalho, tendo clareza de es tas que são parciais, pois o processo de conhecer não é definitivo. 21 I – VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: UM DEBATE NECESSÁRIO 1.1. - PUBLICIZANDO A QUESTÃO DA VI OLÊNCIA CONTRA A MULHER: O PAPEL DO ESTADO E DA SOCIEDADE CIVIL Pensar de que forma os press upos tos teórico-met odológicos estão orientando a inter venção dos ass istentes sociais junto às mulheres , que vivenciam situações de violência por parte de s eus c ompanheiros , remet enos a buscar na história da sociedade elementos para compreender qual foi o papel da sociedade civil e do Estado frente à problemátic a. Como já abordado anteri ormente, a violência contra a mulher não é um fato novo na história da humanidade. Poderíamos citar inúmeros regist ros das diversas f ormas de violência e discriminaç ão a que foram submetidas as mulheres nos diferentes períodos históricos e nas várias for mas de sociedades. Porém, para f ins des te trabalho, iremos nos restringir a um período mais recente da história. O ponto de partida para nossas discussões ser á o final da déc ada de 1970. Foi nes te período, no Brasil, que a violência contra a mulher passou a t er visibilidade pela a sociedade como um problema presente no cotidiano de milhares de mulheres, deixando de ser um t ema restrito à es fera privada. Ist o não ocorreu por acaso, o país estava vivendo um momento important e, era o chamado processo de “redemocratização” e as mulheres, assim como outros segmentos da sociedade, bus cavam espaç os par a disc ussões e trocas de exper iências . 22 As décadas de 1970 e 1980, no Brasil, foram inov adoras no que se ref ere a discussões e denúncias em relação à violência contr a a mulher. Através de movimentos or ganizados, c entenas de mulheres saíram às ruas para manifestar seu repúdio diante das situaç ões de violência e opres são que vivenciavam no espaço domés tico, reivindicando a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Ne sse m e s mo p erí odo e q uadro pro lif e ra m no p aís vá rias fo r ma s de or ga nizaçã o d a s mu lhe re s; são pe quen os g rupo s de varia das te ndên cia s fe m in i stas . E sse s nú cleos ba si ca me n te de m ulhe re s de cla ss e mé d ia levan tam te ma s até en tã o ause nte s dos d eb ates p olít ic os no B ra sil. E les fa la m so b re du pla jo rnad a de tr ab alh o, sa úde , sexu al ida de, ab or to , violê ncia sexu al e sob ret ud o co n ju ga l ( HE IL BO RN, 19 96, p. 92) A violência contra a mulher, enquanto objet o de denúncia, não é recente, mas o esforço para c ombatê- la e preveni-la ocorre com grande mobilização a partir dos anos 1980, quando o tema passa a faz er parte da luta dos grupos feminist as e passa a incorporar o debate público. Até então a mulher brasileira mantinha em silêncio a violênc ia que lhe era infligida geral mente dentro de sua c asa e praticada por al guém com quem ela mantinha ou manteve uma relaç ão afetivo-conjugal . Cons tata- se, ness e período, uma profunda contradiç ão em relaç ão à violência contra a mulher , pois de um torturadas lado pelo centenas regime de militar mulheres sofrendo f oram toda espanc adas, forma de presas e violência “escancarada” , no intuito de defender a vida dos filhos, maridos ou pais e por outro lado, mil har es de mulheres omitiam e silenciavam sobre a violência que vivenciam dentro de suas r esidências. O movimento feminista, nes sa époc a, demonst rou, principalment e através de denúncias, que a violência contra a mulher era uma construção hi stórica e não al go natural, não sendo parte integrante da natur eza humana, podendo desta forma ser desc onstruída. 23 Com certeza a violência contra a mulher integra um sistema mai s amplo de opressão que est á pres ente na sociedade, é par te constituinte de uma problemática complexa, envolvendo um universo de valor es e si gni ficados. [. . . ] violê ncia tem his tór ia , é alg o qu e se t ran sf or ma histo rica me n t e, as sim co mo é imp o r ta nte p er ce b er q ue há u ma histó ria do q ue é con sid erad o cri me . Es sas h ist ó ri as nos per m ite m te r ace sso a u ma co mp r e ensão d a con f lit ualida de , das fo r ma s d e o rga nizaçã o do po der em cad a so cieda de. É est a u m a hi stó ria po uco con tad a, pouq uíssi mo p esq uisada (SC HIL LIN G , 2 00 2, p. 57) . Em decorrência dessas lutas no final dos anos de 1970 e início da década de 1980, a violência contra a mulher pass ou a ser publicizada no cenário brasileiro, com o slogan: “Quem ama não mata”. Es te pass ou a ser usado como uma bandeira de luta no “combate” à violênc ia contra a mulher. Os grupos f eministas foram os principais responsáveis pelas mobilizações ocorridas contra os homicídios de mulheres da classe média pelos seus companheiros, crimes justi ficados pela tes e de defesa da honra. Nessa época, dois assassi nat os de mulheres tiveram repercus são nacional, sendo estes os de: Ângela Diniz (Minas Gerais ) e de Eliane de Gramont (Rio de Janeiro) 8 . Esses crimes serviram para denunciar a realidade de milhões de mulheres que estavam submetidas a situaç ões de violência por parte de seus companheiros ou ex-companheiros. 8  n ge l a D i ni z f oi a s s i n a d a p o r s eu c o m p a n h e i r o, o m i l i o n á r i o D oc a S t r et t e E l i a n e d e G r a m m o n t , p e l o c a n t or Li n d o m a r C a s t i l h o . O s d o i s cr i m e s m a r c a m es s a é p o c a , s e n d o q u e u m d e l e s f o i pr a t i c a d o p o r al g u é m d a al t a s o c i e d a d e e o o u t r o o c o r r e u na c l a s s e m é d i a b r a s i l e i r a. 24 O movimento femi nista 9 teve um papel importante no que tange a luta por políticas sociais para as mulheres. Num primeiro momento, a atuação das feministas esteve ligada à perspectiva de denunciar a violência contra a mulher , e num segundo momento desenvolveu ações bus cando garantir o atendimento e o apoio através de serviços específicos para as mulheres que viviam situações de violência. Em função de toda a mobilização e envolvimento das mulheres, em 1985 foi criado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, c omo um órgão consultivo e sem caráter executivo c ujo principal objetivo é promover políticas sociais para as mulheres no s entido de eliminar qualquer tipo de di scr iminação ci dadania. e Este garantir condições Conselho exigiu de a i gualdade para modif icação da o ex ercício legislaç ão, da que di scr iminava as mulheres, e apresentou propostas para a Constituinte de 1988, utilizando como slongan a seguinte fr as e: “Constituinte pra valer tem que ter direitos da mulher”. Também trabalhou na perspectiva de garantir maior apoio para as delegacias especializ adas no atendiment o às mulheres . Segundo Stampacchi o (1995), o Conselho funcionou até 1989, quando seus trabalhos foram interrompidos em razão de pres sões políticas conservadoras. O órgão foi perdendo es paço até s er desarticulado pelo ministro da justiça, com a complacênc ia de Jos é Sarney, pr esi dente em exercício naquela época. Outra contri bui ção do movimento feminista, no final dos anos de 1980, foi a criação dos SOS Mulher 1 0 em alguns estados brasileiros . Esta iniciativa pode ser interpretada como uma res posta de repúdio em relação a 9 A o o pt ar p e l o t e r m o m o v i m e n t o f em i n i s t a , r e c o n h e c e m o s a e xi s t ê n c i a de d i f er e n t e s p er s p e c t i v a s / t e n d ê n c i a s n o i n t er i o r do m e s m o , c o n t u d o , c o m o n ã o t e m o s o o b j e t i vo de a pr o f u n d a r a q u i es t a di s c u s s ã o , s u g e r i m o s c o n s u l t a r : S a r de m b e r g e C os t a na o b r a F e m i n i n o s , F e m i n i s t a s e M ov i m e n t o s S oc i a i s . I n : M u l h er e r e l a ç õ e s d e g ê n e r o . S ã o P a u l o : 1 9 8 4. 10 O s S O S ’ s - m u l h e r f o r a m s er v i ç o s cr i a d o s p o r f em i n i s t a s e m d i f e r e n t e s l u g a r e s do B r a s i l , t e n d o c o m o ob j e t i v o a t e n d e r à s m u l h er e s e m s i t u a ç ã o d e vi o l ê n c i a . A o br a “ C e na s e Q u e i x a s : u m e s t u d o s o b r e m u l h e r e s , r el a ç õ e s v i o l e n t a s e p r á t i c a f e m i n i s t a , d e M a r i a F i l o m e n a G r eg o r i ( 19 9 2 ) , r e t r a t a a c o n t r i b u i ç ã o d o m o v i m e n t o f e m i n i st a n a c r i a ç ã o d o s SOS-mulher. 25 violência cometida contra as mulheres . Seguindo um percurso de luta pela garantia de direitos e cobrando do Estado o s eu papel foram criadas as Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher – DEAM 1 1 . O Es tado de São Paulo foi pioneiro na criação das Delegacias Espec iais de Atendimento à Mulher, seguido pelo Rio de Janeiro. Em relação aos SOS- mulher, Gr egori (1992) des tac a que estes foram as primeiras tentativas de implantação de servi ços de atendimentos desenvolvidos no combate a violência c ontra à mulher. Os s erviços tinham o objetivo de prestar atendimentos jurídicos, psicológic os e sociais às mulheres vítimas de violência. Os SOS’s trabalhavam na pers pectiva de estabelecer vínculos entre as militantes femini stas e as mulheres víti mas de violência, acreditando ser possível que as mulheres violentadas superassem esta condição através do feminismo. A autora ainda destaca que o SOS reunia representantes de diferentes grupos feministas, com posições políticas e ideológicas distintas, provocando não raras vezes conflitos entre as integrantes. O trabalho era des envolvido por feminis tas voluntárias . Os SOS’s ofereciam serviços de plantões de recebimento de denúncias e atendimentos de cunho educativo. Com o passar do tempo, a experiência dos SOS’s- mulher veio demonst rar uma contradição entre os objetivos das mulheres que procuravam o serviço e o que as feministas almejavam alc ançar. A contradição foi demonstrada por uma parcela signi ficativa das integrantes do movimento feminis ta, pois acreditavam que as mulheres dever iam se libertar da dominação do homem através do femi nis mo. Enfrentavam um grande problema porque, na maiori a das vezes, não era o fi m do relacionamento que as mulheres busc avam, mas uma forma de fazer 11 E s t a d e n o m i n a ç ã o é u t i l i z a d a n o R i o d e j a n e i r o. E m S ã o P a u l o o s e r v i ç o a t e n d e p e l o n o m e d e D e l e g a c i a d e D e f e s a da M u l he r , se n d o e n c o n t r a d a s o u t r a s d e n o m i n a ç ã o e m d i f e r e n t e s e s t a d o s b r as i l e i r o s . N o E s t a d o d e S an t a C a t ar i n a , o ó r gã o é d e n o m i n a d o D el e g a c i a d e P r o t e ç ã o à M u l h er , à C r i a n ç a e ao A d o l e s c e n t e , c on f o r m e j á c i t a d o . 26 com que o companheiro parass e de agredi- las ou que lhe foss e c hamada a atenção. Mesmo apresentando um descompass o entre o que desejavam as mulheres em situações de violência e as feministas , as experiências dos SOS’s- mulher foram significativas para fomentar o debate e propor ações no combate à violência contra a mulher . Out ro obstáculo encontrado pelos SOS’s- Mulher estava relacionado ao atendiment o destinado pel os delegados às mulheres, quando estas procuravam as del egacias gerais para denunciar a violência s of rida. Para Teles (1999) , os delegados c ostumavam abordar as agressões c omo si mpl es casos de desavenças familiares e, não raras vezes, sugeriam que a mulher poderia ser a culpada por não ter realizado algo que o homem desejava; por exemplo não ter preparado a c omida como ele gostava ou vestido alguma roupa que o companheiro tivess e considerado inadequada. A pressão exercida pelo movimento feminis ta foi decisiva na c ri ação e instalações das DEAM - Delegacias Especializada no Atendimento às Mulheres- , propiciando um local apropriado para formalizar as denúncias de violência. A instal ação de Delegacias Especializ adas para as Mulheres era justi ficada, pois quando as mulheres procuravam uma delegac ia geral para regist rar a violência passavam por outras formas de humi lhações e constrangimentos, levando- as muitas vezes a des istir ou não retornar em outros momentos para novas denúncias. A ca ra cte r íst ica do at en di me n to p olicia l era a fa lta d e in tere sse em reg is tr ar a ocor rên cia e p roce ssá -la c ri mi nalm e nt e , tan to n os caso s de vio lên cia co njug al, qu an do as mu l he r e s e ra m a con se lh ad as pelo s d ele gado s a re f le t ir e m sob re o que havia aco nte cido e pen sar “ se e las nã o havia m pr ovo ca d o a a gr es são ” , qu an to no s ca sos de violên ci a se xual, qua ndo o s co ns tr ang im en to s e ra m a ind a m ai or es e nã o ra ro a culpa pe lo oco rrid o er a at ribuíd a à pr ópr ia vít ima , q ue n ão te ria se co mp o r tad o direito ou t inh a se vestid o d e mo d o in a de qu ado ( IZUMI NO ,1 998,p . 34 ) . 27 Acreditava-se que es ses fatores contribuíam para o número reduz ido de denúncias das agressões vivenciadas pelas mulheres, dificultando a visibilidade do problema para a sociedade. A hipótes e não estava errada, mas a implantação das DEAM’s , mos trou que existiam outras variáveis si gni ficativas que precisavam s er consideradas. Mes mo sendo as delegac ias para as mulheres um espaço interessante e que deve ser defendido como parte de uma rede de proteção, precisam ser considerados os problemas que afetam e inter ferem no seu funcionamento. Depois de quase duas déc adas de c riação da primeira DEAM’s, a falta de condições de funcionamento em razão da c arência de recursos materiais e de pessoal espec ializado c ontinua fazendo parte do cotidiano. A implantação de delegacias para mulheres em mais municípios é uma necessidade, sendo parte integrante da luta pela defesa e garantia de di reitos para as mulheres que estão vivenciando situaç ões de violência; porém não basta a criação de nov as unidades do serviç o, pois apenas isto não significa atendiment o com qualidade, respeito e dignidade para as usuárias. Camargo & Aquino (2003, p.48) destacam o crescimento no número de delegacias para mulheres nos últimos anos. Em 1996, o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, por ocasião do lançamento da primeira versão do Ter mo de Referência para Implantaç ão de Cas as-Abrigo, relatou a existência de 172 Delegacias Especializadas, e o número de abrigos para mulheres era inferior a 10. No ano de 2003, o país contava com 339 Delegacias e 75 casas- abrigo. A criação das Del egacias Especi aliz adas signifi cou avanços , porém a falta de apoio e estrutura nos serviços vem contribuir para a precariedade na qualidade dos serviços prestados e, muitas vezes , para comprometimento dos profissionais com o trabalho desenvolvido. a falta de 28 A Delegada Suzana Maria Ferreira, da sec cional de Monte AprazívelSP, em um depoimento por ocasião do Seminário Nacional Preparatório para a Conferência de Pequim, no tema violência c ontra a mulher (1994), destacou que: [. . . ] na ve rdad e, as D EAM’s já na sce ra m d isc ri min ada s. A pr im e ira fo i cr iad a e m 19 85 [. . . ] Ne ste mo m e nt o co me ç ou a sur gir a discr imin a çã o d as mu lh e re s, p orq ue n osso s co leg as pass ara m a ver na aprovaçã o d as dele ga da s e n a c riaçã o das DEA M’s um a p erda de e spa ço [ .. .] A DEAM nã o é um a lu ta das del eg ad as de pol ícia . A DE AM é f ru t o do m o vi me n to de m ulhe re s [ .. .] Só que o m ovi me n to de mu lhe r es nã o pa ssou às del eg ad as a im po rt ância d est a lut a [ .. .] (C AMAR G O & AQUI NO ,2 003, p.41 ) . As DEAM’s foram pensadas como um local especi alizado no atendimento às mulheres que estavam vivenc iando situações de violência. O seu quadro trabalhariam de não funcionários apenas no deveria s er combate, compos to mas também por na mulheres prevenção que da violência contra a mulher. Iz umino (1998) coloca que a abertura das delegacias especializadas exigiu que o atendimento às mulheres , que tinha um caráter militante, assumisse um tom profissional, o que vem se tornando constante objetivo a ser alcançado. A fragilidade na compreens ão do problema da violênc ia contra a mulher como resul tado de relações que são construídas s ocialmente, e que esta construção “tem sido us ada milenarmente para dominar, para faz er a mulher acreditar que seu lugar na sociedade é de estar sempre submis sa ao poder masculino, resignada, quieta, acomodada [...]” (TELES & MELO, 2002, p.13), tem levado muitas vez es os profissionais, nes te caso ligados ao setores policiais e judiciais, a ignorarem as denúncias que são feitas pelas mulheres sobre a situação de violênc ia vivida. O despreparo dos serviços que têm o objetivo de atender a es sas mulheres acaba r efor çando e legitimando a discriminação contr a a mulher, c omo podemos c ons tatar 29 através do depoiment o de um assistente social, entrevistado durante a nos sa pesquisa: Por exemplo, se a mulher vai lá na Delegacia da Mulher fazer um boletim de ocorrência, aquela agressão ali na cara dela, aquele hematoma não pode ser visto somente por aquilo, tem todo um proces so que foi construído. [ ...] Eu acho que a família necess ita de uma atenção , que o homem também tenha uma atenção, que a gente tem que trabalhar com essa perspec tiva. Porém outras instituições acham que, simples mente o papel delas é registrar o boleti m de ocorrênci a e simplesmente deixar a si tuação c omo está. Mandar a mulher pra casa de volta pra levar um tiro ou ser assass inada pelo companheir o? Não interessa! Entendeu? Não é dado nenhuma orientação pra ela. A delegaci a da mulher que a gente tem é uma parte bem complicada ( Ass ist ent e Social 06). A abertura das Delegaci as Es pecializadas possibilitou às mulheres , principalmente das camadas mais denúncias, porém a solicitação pobres, delas o aces so a um local para nem sempre fic a evident e. A expectat iva das mulheres nem sempre é de que o agress or seja punido, pois na maioria das vezes elas não têm a per cepção da violência c omo um crime, mas esperam que a autoridade, no cas o o delegado, venha a regular as relações domésticas da f amília. Apesar de terem sido criadas mais Delegacias Es pecializadas no Atendimento à Mulher durante a década de 1990, a “Pesquisa Nac ional sobre Condições de Funcionamento das Delegacias Es pecializadas no Atendimento às Mulheres (DEAM’s)”, que foi realizada pela Sec retaria de Es tado de Di reitos Humanos/ Secretaria Exec utiva do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, em parceria com outros órgãos do Governo Federal, não revelou um quadro muit o animador. A pesquisa demons trou que em 1993 o Brasil contava c om 125 delegacias, tendo aumentado este número para 307 até o ano 1999. Mesmo tendo ocorr ido um crescimento na oferta deste serviç o, o número ainda é 30 insuf iciente, considerando que o país possui aproximadamente 5.500 municípios. Os resultados obtidos com a pesquis a s ão preocupantes, como podemos constatar no infor me da Redesaúde: Ap esa r d e e xecut a re m f un ç ões que e xtr apol am o cot idia no pol icial ( aco nse lh am e nto , me di ação e co nciliação , apoi o co m u ni tár io , pa les tra s) , a e str u tu ra de re cu rso s hu m ano s é pr ecár ia : 60% da s dele ga cias não poss ue m as sis te nte s so ciai s e/ ou psicó log o s/as . E m te r mo s de e st ru tur a fí sic a e te cnoló gica , a situaç ão é c rí ti ca : 3 2 % da s DEAM’s nã o dispõe m se q ue r de a rm a s de f o go , 20 % não tê m lin ha te le f ô ni ca conve ncio nal diret a, 1 9% nã o po ssu e m viatur a s e 79% não te m cole tes à p rova d e b ala. No co t idi an o 73 ,8 % da s del eg ad as re cla ma m da pre ca rie d ad e d e re cu rso s hu ma no s e te cnoló gico s p ara ger açã o d e in f o r ma çã o, 53 ,2 % a f ir ma m n ão dispor d e policiais e sp ecia lizado s no t ra to da vio lên cia con tra as mu lh e r es , 46,2 % inf orm a m a fal ta de e st ru t ur a f ís ica ade qua da e 61,8 % re cla ma m da fa lta d e in fo r ma ç ão a re speito da p rática a dot ada p elas DE AM’s ( www .re desaud e.o rg .br /d o ssie s ) Mesmo assim, a criação das Delegacias Especializadas tem um papel posit ivo no que se refere ao es tímulo no aumento de denúncias, porém diversos limites ainda são colocados no cotidiano dess e s erviço. A f alta de rede de apoio para que as mul her es pudess em ser enc aminhadas e de profissionais capacitados são as princ ipais dificuldades no trabalho das delegacias. O descaso com relação ao trabalho enfrentado pelas DEAM’s, assim como com as políticas sociais para as mulheres não é resultado de um mero acaso. Mediações precisam ser estabelecidas para compreender que, mes mo a luta por ef eti vação de direitos para as mulheres obtendo avanç os, o Estado, principalmente no que tange ao poder executivo, é dirigido pela óti ca masculina. Esta idéia é ilustrada por BLAY (1999, p.138): “[ ... ] o poder executivo, essencialmente dirigido por homens e por uma cultura mas culina, inconsciente das discriminações de gênero e des provido de pres sões dos movimentos de mulheres, problemas essenciai s [... ]”. ignorou as políticas públicas que evitari am 31 A existência das Delegacias, por si s ó, não cons egue garanti r o atendimento e o suporte necess ário às mulheres que vivem situações de violência por parte de seus companheiros. São necessários outros serviç os, progr amas e projetos, como por exemplo: casas de acolhimento ou abrigos para que as mulheres possam receber auxílio especializado e não sejam di scr iminadas, além de serviços jurídicos onde elas possam ter acesso às informações sobre os seus dir eitos. Apesar de ocorrerem avanços , seja na área da política s ocial, nas legislações e na própria forma de ver e pensar a violência c ontr a a mulher podendo ser observados através de ações, alterações em algumas leis e a preocupação em realmente dispor de uma política social que agregue diversos ângulos, dentre el es a atenção e a proteção para as mulheres e “punição” dos agressores -, es tas conquis tas ainda são frágeis e têm s e pautado em ações pontuais e f ragmentadas . Em janeiro de 2003, foi criada a Secretaria Especial de Políticas par a as Mulheres, pelo então Presidente da República Luiz Inácio Lul a da Silva. A Secretaria assumiu status articular e executar de Ministério e tem como função elaborar, políticas direcionadas à igualdade de gênero. Um dos principais serviços que está sendo viabiliz ado por essa Sec retaria tem sido a construção de abrigos/casas de apoio. Os abrigos s ão parte integrante do “Programa de Prevenção, Assistência e Combate à Violência Contra a Mulher”, proposto pelo poder exec utivo federal em parceria com os municípios. Os abrigos ou casas de apoio são outro tipo de serviço que deve estar presente na constituição de uma r ede de atendimento para mulheres em situação de violência. GROSSI ( 1994, p.476) compreende que: 32 [. . . ] o s alber gues tend e m a se con sol ida r qu a nd o sã o enca rad o s co m o u m lugar de re fl exã o e recup er açã o da aut oest im a da s mu l he r e s que os p rocu ra m se m a lime n tar em a e xpe cta t iva de se par aç ão d e finit iva do s com p an heiro s e m ar id os ag resso re s, co m o aco n te cia nos SOS . O grande desafio no enf rentament o da violência contra a mulher é a efetivação de uma rede de s erviços para atender às mulheres que vivem si tuações de violência, agr egando os diferentes serviços, programas e projetos visando consolidar uma política social de atendimento. São necessários investiment os e interesses políticos na perspectiva de superar as ações fragment adas e pontuais que existem no atendimento às mulheres que vivem situações de violênc ia doméstica. não conseguem atender às mulheres de Os s erviços existentes ainda for ma integral, confor me foi ident ificado na pesquisa realizada nos três muni cípios e expressado na fala de um dos entrevistados: Não tem parc eri as com a rede de atendimento. Conseguimos mais articulaç ão c om a rede da saúde; com a assistênc ia social é difícil, às vezes se consegue al guma coisa. Procuro sempre o c entro comunitário do bairro para encaminhar as mulheres. Com a Fundaç ão para o encaminhamento das famílias para o programa de renda mínima, a relação é boa com eles. A educ ação no que diz respeito à creche e programas sóci o- educativos é di fícil de artic ular. Com a habitação não se cons egue estabelecer relações. No fundo a rede não funciona. Portanto, acaba se inventando coisas daqui e dali para atender às mulheres (Assistente Social 02). As dificuldades presentes no c otidiano dos assis tentes s ociais, em razão de não haver uma rede de proteção para as mulheres atendidas, acabam ocasionando outros ti pos de relaç ões , que extr apolam o âmbito profissional, e gerando uma situação com caracterís ticas de “compadrio”. Quando os assistentes sociais necess itam articular algum dos s erviços oferecidos, acabam acessando- o através de relações de amizade ou 33 coleguis mo. Esta prática afasta- s e da pers pectiva de rede e garantia de di reito. 1. 2. - AMPLIANDO O DEBATE SOBRE A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: ASPECTOS CONCEI TUAIS Antes de iniciar uma discussão sobre os diferentes conceitos relacionados à violência contr a a mulher, é prec iso deixar clar o que a opção pelo uso do termo “violência doméstic a”, no roteiro de perguntas para a realização das entrevistas, ocorreu por este ainda ser o mais utilizado pelos assistentes sociais, em seminários, debates e na própria literatura. Por ém a compreensão da problemáti ca, para fins des te trabalho, é de que a violência contra a mulher ocorre como uma: [. . . ] m a ni f es ta ção d a vio lên cia de g ên ero na re lação d e p a re s con ju gais ( ou a mo ros os ) n o e spa ço in tr a-f a milia r. E sta é , port a nto , en te n did a co mo u ma vio lên cia e spe cí fi ca (violê n cia de gê ne ro ), e ntr e pe ssoa s d ete rm in ad as ( o ca sal) , e m lo cal dete r mi nado (es paço intra- fa mi lia r) (S TA MPACCHI O , 19 95, p. 11 4) . As primeiras experiênc ias de atendiment o às mulheres que vivenciam si tuações de violência foram estimuladas pelo debat e provocado pelas feministas. Estes debates publicizaram a disc ussão da violência contra a mulher , como um problema que tem raízes na história da humanidade e não como algo novo na sociedade. As estudiosas do feminis mo trabalham sob 34 di ferentes perspectivas teóric as sobre as caus as da violência contra a mulher . Grossi (1998), uma das autoras que disc ute a problemát ica da violência contra a mulher, afir ma que exis tem duas linhas teóric as predominantes nas pesquisas relativas a esta temática. A primeira linha teórica parte da idéia de que, na sociedade, estão presentes os valores que têm sua origem no patriarcado e os homens ac abam utilizando a violência como for ma de manter as mulheres sob o seu controle. Este paradigma acaba isentando as mulheres de res pons abilidades e negando sua participação nas relações violent as, uma vez que a violência faria parte da for mação da identidade masc ulina. No s egundo paradigma, dis cute- se a existência de um vínculo afetivo/c onjugal que s e c onstrói na relaç ão entre homem e mulher, e a violênc ia contra a mulher seria resultado da complexi dade nas relações afetivas e emocionais. Dentr o deste enfoque, a violência não estaria restrita à relação homem e mulher, poi s é identificada nas relações de pessoas do mes mo sexo. A literatura nos mostr a que exis tem di ferentes denominações em relação à problemática da violência contra a mulher. Tel es & Melo (2002) destacam a existência de termos e c onceitos com diferentes interpret aç ões sendo utilizados na discuss ão e compreensão do problema da violência contra a mulher, quais sejam: violência de gênero, violência conjugal, violência intrafamiliar e ainda violência doméstica contra a mulher. O termo violência contra a mulher surge nos anos 1970, através do movimento feminista, cujas milit ant es denunciaram para a sociedade que as mulheres eram o alvo principal da violência praticada pelo homem. Demonst raram que a violência, ocorrida dentro das casas, na maioria das vezes, era cometida pelos companheiros, maridos , namorados , amantes, ou seja, com quem a mulher viveu ou vivia uma relaç ão afetiva/conjugal. Até 35 então a violência contra a mulher aparecia para a sociedade através de casos isolados, a denúnci a não era estimulada e quando est a vinha a oc orrer o agr essor acabava impune. Azevedo (1985) cita que, segundo dados his tóric os no Brasil durante o período colonial, era permitido aos maridos “emendarem” suas companheiras utilizando chibatadas, existindo para isto uma Ordenação do Reino. A violência cont ra a mulher faz parte de nossas raízes c ulturais trazidas pelos colonizadores europeus. As famílias na c ultura ocidental estão subjugadas ao poder de mando do “c hefe da famí lia” e, mes mo c om as transf ormações ocorridas na s ociedade e as c onquistas de direitos pelas mulheres, este papel ainda está pres ente, sendo considerado c omo “naturalmente masculino”. A violência contra a mulher foi utilizada como uma for ma de educar e mantê- la submiss a, concedendo-lhe o papel de dominada e, ao homem, o de responsabilizar-se pela manutenç ão da família e ser, portanto, detentor do poder . A soc iedade legitimou ao homem o poder de mando e mesmo el e não estando pres ente, o lugar lhe pertenc e. A mulher recebe o “poder” de substituir o homem apenas na falta deste, caso contrário a autorização para o exercício da autoridade pertence a ele. Outra barreira encontrada, na bus ca de soluções ou mes mo para a compreensão da sociedade em relaç ão à existência do problema da violência contra a mulher, foi construída e ainda está pres ente na idéia do lar como um espaço sagrado, portanto um local abenç oado. Muitos lares estavam longe de proteger e eram os loc ais menos seguros para as mulheres, pois nos mesmos elas est avam sendo agredidas e violentadas, s endo tudo mantido em segredo devido à denominaç ão “sagrada família”. O lar, enquant o como um espaço s agrado, foi amplamente difundido em nome da manutenção desta santi dade, e a violência domés tica durante muito tempo foi limitada ao espaço privado, pois “em briga de marido e mulher, não se 36 mete a colher”. Assim, na abordagem des ta problemática houve dific uldades , como podemos constatar no depoimento de SAFFIOTI (1994, p.453): Rigoro sa m en t e , o e spa ço pr iva do d o d o micilio só a pr e sent a est a q u alidad e para o ho m e m, cu jo po der f re n t e à mu lhe r lhe per m ite im po r su a von tad e. [. .. ] A sac ra lid ad e da f a mí lia imp ed e q ue as mu l her es se ja m ed uca da s p ar a te me r e m se us pr óp r ios par ente s ma sc ul ino s. Assi m, em b or a a mu lh e r nã o est e ja i mun e a violê ncia p rati ca d a n o s esp aço s p úblico s, es tá per m a nen t em e nte e xpo st a à vio lên cia do m és tica , o fe re ce n do a est a qu ase dois te rços de su as vít i ma s. A violência contra a mulher tanto pode ocorrer dentro de casa, como for a dela. Muitas vezes ela é prati cada por pessoas não relacionadas à família, mas que mantêm um certo poder sobre a mulher . A justificativa para os atos de violência estari a somente no fato de s er mulher , portanto, um ser submisso, que deve obediência ao homem. A p róp ria e xpr e ssão ‘violência con t ra a mu lh e r’ f o i co nce bida por se r p rat ica da co ntr a pe sso a do s exo fe min i no , a pena s simp le sm e nt e pela sua cond ição de mu lhe r . Essa e xp re ssã o sig nif ica a int im ida çã o d a mu lh er pe lo h om e m , q ue dese mp e n ha o p ap el d e ag res so r, seu do min ado r e seu discip lina dor ( T eles & Melo, 200 2, p. 19) . Dessa forma, a expres são “violênc ia contra a mulher” inclui as mulheres de todas as class es e idades e mantém exc luídos os demais integrantes da família, como os homens, idosos e c rianças. Não se ignora que as mulheres , em alguns momentos , também utilizam a violênci a, principalment e em relação às cri anç as e adolescentes . Por este motivo é argumentado que o uso da terminologia “violênci a doméstica” não deixa claro quem é o agressor, podendo ser tanto o homem quanto a mulher. Ao efet uarmos uma leitura a partir das relações de gênero, vamos observar que “o pano de fundo deste tipo de violência, permite antecipar quais são os agentes da agress ão e quais s ão as personagens vítimas”. (SAFFI OTI , 2002,p.213). A autora destaca que a s ociedade além de 37 androcêntrica é também adultocêntrica e que estas duas característ icas andariam juntas nas sociedades urbano- indus triais . A expressão violência contr a a mulher não pode s er portanto, utilizada como sinônimo de violência doméstic a, is to acabaria coloc ando um manto sobre as diversas for mas de violênc ia que oc orrem no espaç o privado, por outro lado a violência contra a mulher é mais ampla e atinge as mulheres em outros espaços, que não o domés tic o. STAMPACCHIO ( 1995, p. 114) defende que o uso do termo violência doméstica tem encontrado resistências: Algun s pe sq u isad ore s n ão g ost a m d e usa r a te r min o log ia vio lên cia dom é s ti ca . Em prim e ir o lu gar , p elo d esg ast e do pr óp r io t er mo , qu e par ece sig nif ica r cois a se m imp o rt ân c ia ou m es mo se m cie n tifi cidade . Po r o utr o la do, p or ca u sa do t er mo est a r vincu lad o à pe rspe ct iva viti mis t a, que con sid era , pr ior it ar ia me n t e , vít im a de ssa vio lên cia e n ão e nvo lvid a n a m es ma . TELES & MELO (2002, p. 19) definem a violência doméstic a como: “[... ] a que ocorre dentro de casa, nas relaç ões entre pes soas da família, entre homens e mulheres, pais /mães e filhos, entre jovens e pessoas idosas”. Este conceito delimitaria o espaço, deixando aberto o campo de quem pode ser o agressor, principalmente c ontra crianç as e adoles centes. Para Azevedo (1985), a violência domést ica contra a mulher não interfere apenas na relação do cas al, pois gera conseqüências desas trosas para todos os membros da f amília. Vários fatores podem ser destacados como propiciadores da violência c onjugal. Os fatores seriam de ordem estrutural, ideológica, instituc ional e pedagógica. Os fatores est ruturais são aqueles que evidenciam que as mulheres ocupam um lugar de subalter nidade e dependência em todas as es feras s ociai s. Os denomi nados fat ores institucionais autorizam a preservaç ão do patriarcado legitimando a desigualdade de poder entre homens e mul her es, tornando o espaço 38 doméstico um lugar privilegi ado para o exercício da violência. Como fatores pedagógicos, destaca a educ ação difer enciada entre homens e mulheres. Compreendendo a educação diferenc iada c omo o process o de fabric ação de homem e mulher que ocorre através da es cola, igreja, família, etc. A perspectiva trabalhada pela autora aparece na fala de um dos entrevistados: [...] nós parti mos do princ ípio que a questão da violência doméstica, ela é um fenômeno no campo das relações sociais, e principal mente falando da violência contra a mulher, no campo da relaç ão entre o homem e a mulher, que constit ui uma relação estreita neste moment o. [...] na nossa conc epção da violênci a, que ela es tá extrinsecamente ligada à ident idade de homem e de mulher (As sistente Social 03). A assistente social destaca, em s ua fala, que a violência contra a mulher está relacionada com a identidade assumi da por homens e mulheres , ident idade que se constrói com o auxílio de divers as variáveis , tanto de ordem objetiva quanto subjetiva. Salienta que a violência doméstica es tá relacionada com à construção his tór ica do que é ser homem ou mulher . Existe um padrão cultural inculc ado na s ociedade que trabalha na perspectiva de difundir os papéis que competem ao homem e à mulher desempenharem. Ao homem cabe o papel de dominar e à mulher o de submeter- se, legitimado pela dominação masculina quando: [. . . ] o Es tado não so me n te a colh e o p ode r m as c u lino sob re a m ulhe r , ma s o nor m a tiza, p roibindo e até cri min a lizando seus e xce sso s. A p un ição da s e xtr avag ân cias inte gr a o pod e r discip lina dor d a do m ina çã o ma scu lina so bre a mu l he r , e xe r cido pe lo Esta do ( SAFFI O TI, 199 4, p. 44 5) . Mesmo considerando que a violência domés tica pode ser praticada por pessoas de ambos os sexos e que homens e mul her es podem viver si tuações de violência, em diferentes faixas etárias, historicamente têm sido 39 as mulheres o alvo pr incipal da violência que ocorr e dentro de casa, no chamado espaço doméstico. Por sua vez a denominação “violência intrafamiliar”, que es tá sendo muito utilizada pelos programas governamentais, ocorreria tanto no espaço interno como exter no e seria resultado de relaç ões violentas entre os membros da f amília. “A violência intraf amiliar é toda aç ão ou omissão que prejudique o bem- est ar, a integridade física, psicológic a ou a liberdade e o di reito ao pleno desenvolvimento de outro membro da família” (BRASIL, 2002, p.14). Família aqui deve ser compreendida não apenas enquanto pessoas ligadas por laços de consangüinidade, mas também por aquel as que assumiram relações de parentesco. A “defesa” do conceito s e pauta na questão de que ele envolveria todos os f amiliares que, por suas s ituações de vulnerabilidade, estariam sujeitos a sofr er a violência. Para Teles & Melo (2002) , o us o do ter mo violência intrafami liar poderia acabar escondendo a violência contra a mulher, pois as est atístic as demonst ram que as mulheres ainda são as principais vítimas da violência no espaço familiar. Outro aspecto a s er considerado é que a violência contra crianças, adolescentes, idosos ou pes soas c om defic iência apr esentam di ferenças em relação à violência vivenciada pelas mulheres ; portanto, torna- se difícil abordá- las a partir de um único conceito. A intervenção também necessita ser diferenc iada, considerando cada s ujeito envolvido, não sendo possível uma ação homogênea. Vi olência de gênero é outro conc eito. Mais recente, tem sido utilizado a partir da década de 1990 nas disc us sões e na literatura referentes à violência contra a mulher. TELES & MELO (2002, p.18) colocam que a violência de gênero: [. . . ] d eve ser e nte nd ida co m o um a relação d e po der d e do min a ção d o ho me m e d e sub mi ssã o da mu lh e r . Ele de mo n st ra q ue os pa p éis imp o st o s às mu lh ere s e ao s 40 ho me n s, con solida do s a o l on go da hi stória e re f o rça do s pel o patr ia r cado e su a ideologi a, induzem r ela ções vio lent as e ntre os se xo s e ind ica que a pr ática dess e tip o de vio lência não é fr u to da n atureza , ma s sim do pro ces so d e civiliza ção d as pess oa s. Partindo deste conceito não podemos delegar à natureza a responsabilidade pelos padrões de comport amento indicados para homens e mulheres; ou seja: a docilidade para as mulheres e a força para os homens. Ocorr e que uma educação diferenciada para homens e mulheres acaba for tal ecendo a perspect iva de manter a des igualdade entre ambos . Basta verificarmos como os meios de comunicação, os c ostumes e a educação for mal ou informal reforçam a diferenç a entre os sexos. A mulher é incentivada a ser dócil e submissa, enquanto ao homem cabe des envolver características como a virilidade, s endo a violência física, muitas vezes, aceit a como uma demonstração de for ça mas culina. “Informalmente fica instituída uma pedagogia da violência que engendra o mac his mo e o complexo de vítima”(BRAGHINI, 1999, p. 26). Segundo Saff ioti (2002), a denominada violência de gênero nos leva a refl etir sobre os papéi s que foram definidos para homens e mulheres. Ela destaca que, através da ordem patriarc al es tabelecida na sociedade, aos homens f oi delegado o poder de autorizar tanto a tolerância c omo a punição daqueles que ultr apassarem a ordem estabelecida. O conc eito de “vi olência de gênero é um conceito mais amplo, abrangendo vítimas como mulheres , crianças e adolescentes de ambos os sexos ” (SAFFIOTI ,2002, p. 197). A expressão violência de gênero busca designar um padrão de comportamento que “(.. .) visa à preservaç ão da organização soc ial de gênero, fundada na hierarquia e desigualdade de lugares soc iais sexuados que subalternizam o gênero feminino” (SAFFIOTI & ALMEIDA, 1995, p.159). A violência de gênero é produzida e reproduzida nas relaç ões de poder, e 41 quando a ordem masculina se sente ameaçada a violência pode aparecer como um mecanismo que tem a f unção de manter uma ordem estabelecida. Partindo desta discussão, duas c ategorias são importantes para a compreensão da temática da violência contra a mulher: gênero e poder. 1.3. – VIOLÊNCIA E RELAÇÕES DE GÊNERO: O PODER EM QUESTÃO A categoria gêner o foi incorporada nos estudos das femi nis tas brasileiras na década de 1980 e nos trabalhos referentes à violência c ontra a mulher nos anos de 1990. Izumino (1998) destaca que entre as pesquisadoras parece existir uma es péc ie de consenso de que o uso da categoria “de gênero” , para defini r as relações sociais entre os s exos, marcou o início dos estudos e de um novo debate nos assuntos r efer entes à mulher . Há u ma fo r te sin alização pel os de gên ero , pa ra pod ere s (aind a q ue sob reen f a tizar o p oder e xplicaçõ e s, cr it ica r o IZ UMIN O , 1 99 8, p .80) para sub stitui r os e stud os da mu lhe r valo riza r a di fe re nç a, apo ntar os “ me n o re s” ) da s mu lh e r es , nã o m as cu lin o, d es con f ia r d a s gr ande s “ gueto ” , et c . (MA CHADO a pu d No Brasil, a partir dos anos 1980, a utilização da categoria gênero pelas estudiosas do feminismo, enquanto uma categoria analítica, s urge através de estudos e questionamentos de categorias c omo o patriarcado, a divisão sexual do trabalho e as relaç ões entre os sexos . A dis cus são de gênero, como uma categoria de análise, levou ao rec onhecimento de que as 42 di ferenças sexuais superam a “simples” def iniç ão biológica, pois agregam em si caracterí sticas socialmente cons truídas , podendo os papéis de homem e mulher variar conforme a c ultura. Parte- se do pressuposto de que os estudos relaci onados às mulheres deveriam necess ariamente incluir os homens. Além da categoria de gênero outras c ategorias de anális e, como por exemplo, raça, etnia e c lasse social f oram incluídas nos estudos relacionados às mulheres. Sendo gênero uma construção social, também se difer encia, tendo em vista épocas e lugares, ass im como os costumes de cada lugar, as exper iências de cada sujeito, as leis , as religiões, a política, hi stória enfim a da sociedade. Essas var iações não acontecem apenas de um povo para outro, mas dentro da mesma sociedade, quando acrescentamos na análise a classe social, a raça ou etnia dos sujeitos. Estas variáveis indicam a necessidade de superar a visão de que t odas as mulheres são iguais . Embora ocupando um lugar de submissão ou vivendo situações de violênc ia, el as não são iguais. O mesmo equivale para o homem, pois estes também apresentam dif erenças. Segundo Scott (1995), a dis cussão do conceito de gênero e a introduç ão deste como categoria de anális e ac ontec eu através das feministas nort e- americanas, que tinham por objetivo refutar o determinis mo bi ológico entre os sexos e fortalecer o caráter social das relações entre homens e mulheres. As d istinçõe s bio ló gicas se rvira m para ju s tifi ca r as d is tinçõe s entr e m u lh er e s e h o me n s. Diversa s te orias tr ab alhara m na per spec tiva de con st rui r e g aran tir as dif e re n ças , poss ibil itand o /f a cilita ndo a cons t ru çã o de lu ga re s e poss ibil ida des sociais di fe ren tes e esp e cíf i co s p ara cad a gên ero ( SC O T T, 19 95, p. 8 6) . Partindo da discussão propos ta por Scott (1995), gênero pode ser considerado enquanto uma categoria de análise que tem sua “origem” com e 43 nas relações sociais, interligada com outras c ategorias, c omo: classe, raça, etnia, etc. O g ên ero é u m e le men to con sti tu tivo de re laçõe s so ciais fu n dada s so b re a s d if e re n ças p er cebidas entr e o s se xo s , e o gên ero é u ma f o rm a prim á r ia d e d a r signif ica do à s re la çõe s de pod er (SC OT T , 19 9 5, p . 86 ). A definição trabalhada pela autora implic a compreender como: um el emento constitutivo das relaç ões s ociais gênero baseadas nas di ferenças perceptíveis entre os sexos e como uma forma básica de representar relações de poder , em que as representações dominantes são apresentadas como naturai s e inquestionáveis. Louro (1999) utiliza o conceito de gênero trabalhado por Joan Sc ott, defendendo que, a partir desta linha de int erpretação, podemos ampliar nossas análises e pensar os homens, pois eles também apresentam di ferenças no exercício de sua masc ulinidade. Q ua ndo a f ir ma mo s q ue as ide ntidad es d e gê ner o e a s ide ntidad es se xu ais s e cons t roe m em r elaçã o, qu er e mo s signi fica r a lgo d ist in t o e m a is co mp le xo d o qu e um a oposiç ão e ntr e d ois pól os; p re te nd em o s d ize r qu e as vár ia s fo r ma s d e se xu alidad e e d e gê n er o sã o inte rd epen d en te s, ou s eja , a f et a m u m as às ou tra s (L OUR O, 199 9, p .4 9) (g r if o s d a a uto ra) . O conceito de gênero não nega a existênc ia de c aracterísticas bi ológicas, mas o que se buscou demonstr ar é que exis te uma constr uç ão social e histórica sobre o corpo biológico e sexuado. “O conceito pretende se ref eri r ao modo como as caracterís tic as sexuais s ão compreendidas e representadas”. (LOURO, 1999, p.22). As discussões são ampliadas com o uso de gênero como uma categoria de análise, as relações entre mulheres e homens, assim como entre pessoas do mesmo sexo, pass ando a faz er parte dos debates e produções teóricas. As di ferentes sociedades e momentos his tórico, 44 precisam ser considerados nas anális es, e a idéia de que as relaç ões de gênero são processos em construção e não algo es tabelecido anteriormente é difundida. O co nceito pa ssa a exigir que se p en se d e m od o pl ur al, acen tua n do q ue o s pro je t o s e as re pre sen taçõ e s sobr e m ulhe re s e ho me n s são d iversos (. .. ) as con cep çõ e s de gên ero d if er e m n ão a pena s entr e a s so cieda des o u os m o me n t os h istó ricos , ma s n o inte r ior d e um a dad a so cie da de , ao se c on sider ar os diver so s g rupo s ( étn ico s, r eli gio sos , ra cia is, d e classe ) q ue a con s titue m (L OUR O, 19 99, p.23 ). Estes novos elementos s ão um marco nos estudos de gênero, o que não significa um consenso. Louro (1999) dest aca que o importante é compreender gênero como cons tituinte da identidade (grifos da autora) dos sujeitos. Mas qual compreens ão de identidade? A autora destaca que as ident idades dos sujeitos são plurais . Um s ujeito não seria apenas ‘mulher ou homem, ele possui outras características c omo: raça, etnia, classe s ocial. As relações entre homens e mulheres são c ons truídas pelos s ujeitos e prec isam sociedade, ser sendo compr eendidas que as a partir identidades das dos condiç ões mesmos his tóric as não podem da ser interpretadas como se fossem estáticas, fixas, estáveis ou imutáveis . Gênero também é diferente de sexualidade. A s exualidade é uma questão complexa, ela não é dada pela natureza, apesar de a sociedade tentar impor normas de comportamento que considera corr eto, como se fossem naturais e apropriadas para o desempenho de papéis atribuídos para homens e mulheres. As pessoas nasc em com um sexo, mas a vivência de cada um, os desejos, comportamentos e sentimentos es tão imbric ados na for ma como as relações de gênero estão es tabelecidas na sociedade. Não existe uma forma única de os sujeitos viverem a vez também se modi fica com a hist ória. sexualidade, es ta por sua A maneira de viver a sexualidade sempre foi rodeada por tabus , principalment e pelas mulheres, que tiveram a 45 sua sexualidade envolvida pela aura do pecado, da doença, da falta de pudor, etc. As mulheres, em sua maioria, exercem a sexualidade pautadas nas nor mas estabelecidas como “cor retas”, s eguindo os padrões considerados como normais para o papel que lhes foi del egado enquanto mulher, ou seja, esposa honesta e mãe dedicada. As mulheres que têm tentado ul trapas sar este padrão, não raramente, são nomeadas com termos pejorativos , c omo se não merecessem respeito. Acaba sendo es tabelecida uma dic otomia entre um modo amplamente divulgado como correto/s adio de viver a sexualidade e outro doentio e anor mal, inscrevendo a existência de uma patologia. Para os homens, ao c ontrário, o padrão estabelecido na forma de viver a sexualidade está na virilidade que devem demonstrar, ac eitando, de certa maneira exigindo, que demonstr em a c apacidade de pos suir várias mulheres. Estas, por sua vez, ao c ontrário deveriam ter no sexo apenas o objetivo de procriar . FARIA & NOBRE (1997, p.17) destacam que aqui se origina uma incoerência: [. . . ] h á a í u ma co ntra diç ão , p ois ne m toda s as mu lh e res p ode m ser “h ones ta s ”. S e os hom e ns pre cisa m de mu lh e res “h on e st as ” pa ra o casa me n to e os fi lho s , tê m q ue existir a s “o ut r as ”, par a o livre des f ru te d a se xua lida de se m re sponsa bilida de, só p ara o pr azer. N esse ca so ta m b é m se est abel ece u m dup lo padr ão d e co mp o r ta me n to se xua l pa ra as m ulhe re s: o qu e um a mu lh e r livre f a z, u ma esp osa n ão pod e fa zer ne m d esej ar . Cl ar o q ue e ste dup lo pad rão se es ta be lece se m p re em fun çã o do de se jo dos h o men s. Da mesma forma os sujeitos são identificados como masc ulino e feminino e as suas identidades sexuais vão s e cons truindo. Em su as re la çõe s soci ai s, at rave ssa das por dif e ren te s discu rso s, sí mb o los , re p rese nta çõ es e p rát ic as , o s su jeito s vão se con st rui nd o co mo m as c ulinos ou f e minin o s, a r ra n jand o e desa rr an ja n do seu s lu gares sociais, sua s dispos ições , sua s fo r ma s d e se r e d e e sta r no mu n do (L OUR O, 19 99, p. 28) . 46 Considerando que as ident idades s ão um proces so de construç ão hi stórica, como já abordado anteriormente, elas não seriam concluídas, acabadas em um determinado momento, pois a história não é fi xa, não segue uma linha reta, linear. Novos el ementos vão sendo agregados e sofrendo transf ormações constantemente, é um process o sempre inacabado. BRI TZMAN apud LOURO (1999, p. 27) defende que “[.. .] toda a identidade sexual é um constructo instável, mutáv el e volátil, uma relação social contraditória e não finalizada” ( gri fos da autor a). A construç ão da identidade sexual não difere da construção da identidade de gênero, mas não podem ser confundidas. Novamente citando Sc ott (1995) , esta defende que trabalhar com o conceito de gênero nos remete a pensar a soc iedade numa perspectiva de superar as análises dicotômic as, ou seja a polarização entre o que seja feminino e masculino. A aut ora destaca que c omumente pensamos o homem e a mulher como dois sujeit os separados, em pólos opos tos . O primeiro passo, talvez, na busc a de superar es ta dicotomia poderia ser a problematização dos pól os ocupados pelo homem e pela mulher , ol hando-os como componentes de uma mes ma relação e não c omo opositor es entre si. Trabalhando na perspectiva de que as relações entre os s ujeitos são construí das transf ormação, historicamente e es tão em cons tante proc esso de não estando prontas ou ac abadas em um deter minado momento da história, não pode exis tir a concordânc ia com a di cot omia entre um pólo e outro, e sim com a idéia de troca entr e os sujeitos envolvidos em uma relação. O pensamento dicotômic o ainda c ausaria um outro trans torno, quando ele fixa os lugares que “natural mente” deveriam ser oc upados pelos homens e pelas mulheres e estabelece uma oposição entre os s ujeitos. Num 47 determinado pólo estaria o homem, enquanto que em out ro se enc ontraria a mulher , uma lógica na qual para que um exista se faz neces sária a existência do outro. Saffioti (1991) realiza uma crítica à c hamada c iência cartes iana, poi s esta acaba fundando e legitimando a dic otomia, sendo responsável pela criação de um modelo do que signific a ser homem e outro padrão que corresponderia ao ser mulher. O modelo masculino es taria pautado na razão e o feminino na emoção, estabelecendo uma oposição entre o mas culino e o feminino. Superar as análises pautadas na dicotomia entre os sujeitos possibilitaria perceber homens e mulheres não oc upando lugares opos tos , o que acaba ocasionando uma oposição entre os sujeitos, mas es tabelecendo relações que, segundo Foucault (1990), estruturam- se em forma de rede. Dentro desta perspectiva, outra categoria importante que oferece subsídios à discussão da problemática da violência c ontra a mulher tem sido as relações de poder. contribuído no debate Fouc ault (1990), através de suas anális es , tem sobre as relaç ões de poder agregando novos el ementos nas discussões rel ativas às relações gênero. Para o autor, o poder: [ .. .] não é alg o qu e se possa dividir entr e a queles qu e p oss ue m e o d etê m e xclu siva me n te e aq ue les q ue n ão o p oss ue m e lh e são sub m eti dos . O p o de r d eve ser a nalisa do co m o a lg o qu e cir c ula , o u me lh o r, co m o al go q ue só f u n cion a e m ca de ia . Nu nca es tá lo caliza do a qu i o u ali, n unca e stá na s m ão s d e a lgu ns, nu nca é ap rop riado co mo um a r iqu eza ou u m b e m. O po de r fun ciona e se exe r ce e m rede . Na s sua s m alha s o s indivíd uos não só cir cula m ma s e stão se mp r e em p o sição d e e xe rcer e ste po de r e d e so fr e r sua s a çõe s, n unca sã o o a lvo i ne rte o u con sen tido do po der , s ão se mp r e ce n tros de t ra n smi ssã o ( 19 90 , p.1 83) . Essas indicações para a compreensão do poder vêm fornec er el ementos útei s para a discussão do mesmo, em instituiç ões c omo a família, mais precisamente, neste c aso, nas relações conjugais , oferecendo 48 argumentos que poderão auxiliar na compreens ão da violência contra a mulher , a partir de uma perspec tiva relacional, bus cando s uperar uma visão vitimista. Utilizando o conceito de poder, em Foucault (1990), a mulher é sujeito na relação, ou seja, el a também utiliza es trat égias de poder. O cuidado deve ser par a não atingir um outro ponto nevrálgic o, que seria o de considerar sempre ou somente a mulher como “culpada” pela violência que está vivendo. Esta posição de c ulpabilizaç ão ou responsabilização da mulher pela violência que ela vivencia es tá ilustrada na fala do assi stente social 01: Tem situações muito provocadas e que elas contribuem para que es sa violência aconteça. Claro que eu não digo que mulher gos ta de apanhar, não é isso, mas t em si tuações e situaç ões.. . Mesmo exist indo desigualdade no exercício das relaç ões de poder entre homens e mulheres, devemos considerar as relações de gênero como relações de poder, pois: A r elação d e d o mina ção -e xplor ação n ão pre su me o t ot al es m a ga m en t o da p e rso nage m que fi gur a n o pólo d o minad a e xplor ada . A o con tr ário, in teg ra e sta re la ção de ma neira cons t it utiva a nece ssi da de de p re ser va ção da f ig ura suba lt e rn a . Sua su ba lt ern ida de, con tudo , nã o sign if i ca ausê ncia abso lu ta de p od er. Co m e fei to , n os do is pólo s da re laçã o e xist e p oder, a in da que e m d ose s tre me nda m en te desigu ais (S AFF IO TI , 1 99 2, p .184 ). Pensando sob esta ótic a, ficaria problemático defender a exis tência de dois pólos para o exercício do poder, onde um exerceria o poder e o outro apenas sof reria os seus efeitos. “Os gêner os se produz em, portanto, nas e pelas relações de poder” (LOURO, 1999, p. 41). A análise deve partir da existência de relações de poder que circulam, afetando todos os sujeitos da relação, mesmo que de maneira desigual. 49 Is so nã o signi fic a, no ent an to , d esp rezar o f a to de qu e as m ulhe re s (e t a mb é m os ho me n s q ue n ão co m pa r tilh a m da m as cu lin ida de h eg em ônica ) t enh am , ma is f r eq üe nte me n te e fo r te m en t e , so f rid o ma n o b ra s de p od er qu e os co ns ti tue m co m o o o utr o, ger al me n t e sub ord inado o u sub me t ido – ma s ta is ma n o br a s nã o a s/os an ulara m co mo su j eito s (LO U RO , 200 1,p .4 0 ) (G ri fo s d a a uto ra) . Foucault (1990) afirma que onde existe poder também encontramos resistência, sendo esta última inerente ao exercício do poder. Considerando esta col ocação do autor, podemos dizer que a mulher que está vivenc iando si tuações de violência não se encontra apenas recebendo passivamente a violência, mas ela também resiste e cria “contra poderes que c irculam”. O poder entendido sob esta ótica s upera a visão da relação rígida, em que existem os dominados e dominantes tendo como bas e a di ferenciação entre os sexos , podendo s er interpretadas c omo relaç ões assimétricas, nas quais onde o poder se alterna. Em um determinado momento, estando o poder com um sujeito e, em outro momento, com o outro sujeito da relação, ou seja, ele circ ula e todos os indivíduos estariam submetidos às relações de poder. Ninguém está alheio ao exercício do poder e todos se encontram em condições de dis putá- lo e, ao mes mo tempo, articular f ormas de resistência. Nos estudos de Fouc ault (1990), o poder supera as concepções tradicionais, em que este seria central e exercido de forma linear. O autor entende que o poder é exercido em diferentes e variadas direções, c omo em uma rede que englobaria toda a sociedade, ninguém estaria livre dele. O poder é concebido mais como uma es tratégia, por tanto, ele não é um privilégio que alguém possui e trans mi te. O poder é não apenas algo coercitivo e negativo, é também poder f abrica corpos dócei s e algo produtivo e posi tivo. Para o autor, o úteis, produzindo sujeitos e induzindo comportamentos. Desta forma, não s ão apenas os mecanis mos de censura ou repressão que constroem mulheres e homens , mas as práticas e relaç ões 50 que ditam os modos de ser e estar em sociedade, as maneiras de falar e agir são partes integrantes da constituiç ão dos sujeitos. Nesta trama de relações, homens e mulheres estabelec em relações em que ocorrem negociações, avanços, rec uos, c ons entimento, revoltas; o poder não se f ixa em um único ponto e o venc edor será sempre um, mas ele ci rcula e “vencedor” ora é um, ora é outro. Ninguém fica f ora das relaç ões de poder, estando ambos em condições de exercê- lo. A exemplo da categoria gênero, não podemos pensar o poder como al go natural, mas como resultado das relaç ões que s e estabelecem a partir da vida em sociedade e que se constituem his toric ament e. As relações de poder também não podem ser interpret adas como um c onsenso, mes mo elas estando ancoradas em leis ou outras for mas de consentimento. Porém a sociedade, através de estratégias , possibilita que o poder seja exercido por pessoas ou grupos que, em determinados momentos, poderão tomar decisões, recebendo o consentiment o para seus atos, mes mo não possuindo uma autoridade legiti mada. No cas o de r elacionamentos afetivos, o poder poderá ser exercido através de estratégias que se es tabelecem entre os sujeitos com a finalidade de atingir determinados objetivos . Po r est ra tég ias de cont rol e ente nd em o s a s f or m a s de u m age nte soc ia l levar u ma pesso a a pe nsar, sen tir ou agi r d e um m od o que ne m se mp r e par tiria esp ont an ea me n te des ta pess oa . As est ra tég ias e m pr e gada s, em g eral , e st ão re laciona das à di str ibu ição d e pod er e de au to rid ad e, não ape nas n o esp aço d o mé sti co , m a s ta mbé m na socied ad e de u m mo d o g e ra l (C OU TI NH O,19 9 4, p. 21) . Segundo Louro (1999), os estudos feminis tas sempre s e preocuparam com as relações de poder. No iníc io a preocupação era demonstr ar o silêncio, a opressão e a submissão em que as mulheres encontravam- se submetidas. Ao mesmo tempo em que as denúncias dest as situaç ões foram importantes, em deter minados momentos elas também contribuíram para que 51 a vitimização feminina se fir mas se, já em outros momentos a mulher acabou sendo responsabilizada pela s ua c ondição de s ubordinação. A idéia de que o poder é produzido em r ede, que os sujeitos estão em posição de exercê- lo e também de ser submetido a ele, parece-nos adequada para a compreensão do problema das mulheres que estão vivendo em situações de violência. [. . . ] qu e o po der nã o é alg o que se ad qu ir a, a rr eb ate ou co m p ar til he , alg o qu e se g uar de o u d ei xe esca par ; o p oder se e xe r ce a p art ir de inú me ro s p on to s e e m me io a rel açõ es desigu ais e m ó ve is; q ue as rela çõe s d e p oder n ão se enco n tr a m e m po siçã o d e exte r io rida de co m re speito a ou t ro s tipos de re laç õe s (p r o ces sos eco nôm ico s , relaçõe s d e conh ecim e nt o s, r elaçõe s se xu ais ) , m a s lhe sã o ima n e nte s (F OUC AUL T, 20 0 1, p . 89 -90 ). Si mpl ificar a relação homem e mulher em agr ess or e vítima ou eleger um fator como causador da violência contra a mulher prejudica a discussão e compreensão da problemática, posição ilus trada pela assi stente s ocial 07, quando ela afirma que: “[.. .] a violênc ia doméstic a s e dá numa relaç ão, onde ou a relação é de extrema submiss ão da mulher, ou ambos s ão atores deste conflito”. A ambivalência que envolve as mulheres em s ituação de violência é colocada nas f alas de alguns dos assistentes s ociais entr evistados e nem sempre compreendida: [...] tem mulheres que todas as s emanas elas es tão aqui no pr ogr ama, têm a necessidade de falar sobre a sua si tuação de vi olência doméstic a, mas , no entanto, não conseguem realizar um movimento de romper com a relação conflit uos a. Muitas manifes tam vontade de ir para a casa abrigo, ficam uma ou duas semanas , daí retornam com o c ompanhei ro (Assist ent e Social 07). [...] a gente procura f azer o possível, mas são elas que não querem também. Muitas v ezes elas não querem sair deste ciclo (Assistente Social 05). 52 Romper com a relação de violência não é uma tarefa fácil, a sujeição da mulher às atitudes violentas do companheiro têm s empre motivos quais sejam: medo, baixa emocional, etc. auto- est ima, vergonha, dependência econômica e É necessária a compreensão de que his toric amente foi construí do um espaço para a mulher ocupar, espaço es te permeado por valores como submissão e subordinação, estando delegado para a mes ma um papel de subalternidade. Is to levou a mulher a vivenciar com menor freqüência o exercício do poder. São os valores e os princípios c ulturalmente construí dos que acabam impedindo, muitas vezes , a mulher de romper com a relação violenta. A fala seguinte demonstra esta posição: [...] compreender que ess a relação se construi u hi storicamente, onde as mulheres muitas vezes foram submissas aos homens . Nes se processo sócio-cultural os homens e as mulheres construíram papéis diferenciados (Assistente Social 07). Analisar a violência c ontra a mulher, s uperando a leitura oposicionista ent re o homem e a mulher e deixando de c ons iderá- lo como o único responsável pelo sofrimento e a mulher apenas como vítima, assim como perceber que a violência é construída social e historicamente, pode auxiliar na compreensão do problema e entender as dific uldades que as mulheres têm para romper os relacionamentos e, também, para bus carmos novas perspectivas para sentimentos e os f ator es a intervenção profiss ional. Refletir sobre os que envolvem a mulher, que está vivenciando si tuações de violência por par te de s eu companheiro, pode ser o primeiro passo para auxiliar as mulheres na superação do problema. Não colocar o homem e a mulher em oposiç ão e sim considerar a dinâmica que se estabelece, tendo claro que a relação conjugal é formada por dois sujeitos e que ambos exercem influência nesta relação é, de todo, fundamental . 53 II – O SERVIÇO SOCIAL E SUA INTERLOCUÇÃO COM A QUESTÃO DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER 2.1. - O SERVIÇO SOCIAL E A QUESTÃO DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: UM DIÁLOGO NECESSÁRI O O avanço do sistema neoliberal tem repercutido diretamente nas transf ormações do Serviço Soc ial. A des res ponsabilização do Es tado diante de suas atribuições na perspec tiva da garanti a dos direitos dos cidadãos tem atingido as relações de trabalho e também as profis sões , o que tem demandado redefinições em termos de c ompetências frente às novas demandas das quest ões que implic am a aç ão profiss ional. No panor ama das novas interf aces que se apres entam, a questão da violência contra a mulher tornou- se cada vez mais visível e passou a ser di scutida c omo um problema público a ser enfrentado. Neste novo quadro conjuntural, Iamamoto (1999) lembra que o momento presente desaf ia os assis tentes soc iais a se quali ficarem para acompanhar, atualizar e explicar as mudanças da realidade social. Entre as novas competências exigidas, estão sobret udo a produção de conhecimento a respeito da realidade social em que cada profis sional atua, para dar suporte ao processo de intervenç ão. No espaço da violência contra a mulher ou em qual quer outro espaço ocupacional, o assistente social intervém sobre um objeto de trabalho, ou seja, sobre este incide alguma aç ão profissional. Por isso, para o assis tente social, é essencial o conhecimento da realidade em que atua, compreender 54 como os sujeitos sociai s experi mentam e vivenciam as situações s ociais . No caso, trabalhando com a temática da violência contra a mulher, o profissional de Serviço Social neces sita aprofundar seu c onheciment o sobre as múltiplas deter minações que decorrem da mesma. Nesta perspectiva, conforme IAMAMOTO (1999, p.62): O conhe ci me n to da real ida de d eixa de se r u m me ro pa no d e fu n do pa ra o e xerc í cio pro f is sion a l, torn an do- se condição do m es mo , d o co nh eci me n to do obje to j unt o ao q ual in cid e a a ção tra n sf o rm a do r a do t ra balh o. Discussões em torno do objeto de trabalho do Serviço Soci al têm sido feitas ao longo da história da profiss ão, por uma série de autores, sem necessariamente haver consenso em torno de uma única concepção. A partir do movimento de reconceituação, ou seja, ao final de 1970, início de 1980, um gr upo de profis sionais liderados por Marilda Iamamoto e José Paulo Neto, def iniu que o objeto de trabalho do Serviço Social compunha- se das expressões da questão social, entendidas c omo as conseqüências da das desigualdades originadas pelo sistema capitalista. Nesta mesma perspectiva, Carvalho & Iamamotto (1990) definem o Serviç o Social como uma especializ ação do trabalho, que sur ge no modo de produção capitalista nas relações c ont raditórias entre capital e trabalho. O mesmo insti tucionaliza-se e legitima- se enquanto profis são, c omo um recurso do Estado e da classe burgues a no enfrentamento da questão social. Assim, o objeto de trabalho ou matéria- prima do Serviço Social pas sa a ser as particularidades das expressões s ociais e como estas s ão exper imentadas pelos sujeitos sociais que as vivenciam, sobretudo nas relações com o trabalho e clas se social. Esta concepção de questão social funda- se no conflito capit al/tr abalho que aparece, no Brasil, inicialmente em meio ao proc es so de industrialização nos anos 1930, que segundo Arcoverde (1999) passa a 55 exigir a intervenção dos poderes públicos nas quest ões trabalhistas, respondidas pela criação do Ministério do Trabal ho e da Cons olidação das Leis Trabal histas (CLT). Nesta conjuntura, o Estado passou a prover a proteção social, em uma perspectiva de Es tado de Bem- Estar Social, ou seja, o Estado configurava- se como o provedor principal da proteção social. A partir de 1990, o process o de globalizaç ão passa a trazer novas confi gurações no mundo do trabalho como a flexibilizaç ão e a terceiriz ação das contrat ações, dando um novo enfoque à ques tão social. Os movimentos sócio-culturais trazem à tona t emas c omo o res peito às diferenças , os processos migratórios, e as lutas das c hamadas “minorias” também pas sam a demandar serviços. As minorias, aqui, devem s er entendidas como “um conjunto social que se encontra, s e sente e s e representa c omo dis criminado e oprimido na sociedade, nas relações sociais estruturantes de clas se, gênero, orientação sexual, raça e cultura” (FALEIROS,1999, p.19). As reivindicações desses grupos exi giram uma nova organiz ação e prestação de serviços sociais, rebatendo di retamente na profis são de Serviç o Soc ial, que passou a reconstruir e “ reproc ess ar” o seu objeto de intervenç ão Neste contexto, Arcoverde também admite que, além das questões trabalhistas, outras formas de expressão, s obretudo culturais , constituem manif estações da questão soc ial: Em b ora e xp lici ta m en te re conhe cid as, a e xp lo r ação , a vio lên cia e as inju stiça s co me ti da s con t ra ín dio s, negr os e, so bre t udo, m ulhe re s de to das as cla sses socia is, per ma n e ce m in su fic ient em e nte pro ble ma t iza das e e n fr ent ada s p e los se t o re s conc erne nt es , u m a vez qu e t odas as f or m a s d e resi stên cias e lu tas limit a m- se a o plano d e re ivindi caçõ es de direi to s, m an te ndo os su je ito s atin gidos e exclu íd os da s to ma d a s de deci sões e elabo raçõ es da s le is (A rcoverd e, 19 99 , p. 28) . Falei ros (1999) lembra que toda a cons truç ão de um objeto profissional deve levar em conta a história, as dis cuss ões, os debat es e os projetos de sociedade. Para este autor, o Movi mento de Rec onceituação 56 tomou a questão social de f orma muito genérica e, embora naquele momento conjuntural tenha sido t omada para defi nir a parti cul aridade de uma profissão, esta não pode ser exclusiva do assistente social. Argumenta, ai nda, que mantendo uma conc epção classista, a heter ogeneidade dos campos de atuação da profiss ão de Serviço Social fica res tri ta, pois esta não se limita a atuar somente nas questões de trabalho ou na pers pectiva de cl asse. Segundo Falei ros (1999), o foco de trabalho do assis tente Social, ou seja, o seu objeto, constrói-s e no process o de articulaç ão do poder dos sujeitos no enfrentamento das questões relacionais complexas , que devem ser captadas e entendidas em cada espaç o profis sional ocupado e em c ada especi ficidade institucional. Assim, estas intervenções exi gem di nâmicas, recursos, or ganização e informação, e vão cons truindo e desconstruindo a ident idade profissional nas condições his tóricas . Para o autor, o objeto da intervenç ão profis sional se define na relação estrutural/conj untural/situacional. Compreendendo, porém, que atualmente a intervenção profissional do Serviço Social se exerce dentro de um contexto institucional, com particularidades e interes ses que exigem uma corr elação de forças e mediações para que s eja poss ível a realização da ação profissional. Afirma que a questão s ocial não pode ser tomada c omo objeto profissional do Serviço Social brasileiro, a partir de uma únic a concepção, pois entram em jogo novas configurações das relaç ões sociais: Na a tu al con jun tu ra , os en f ren ta m e nt o s d e inte r es ses , g rup os e pr o jet os , es tão se nd o vi sto s n um p roce sso co mp le xo d e re laçõ e s d e clas se, gêne ro, ra ça , et nia , cultu ra , r eligiõ es , pare nte sco s, trazendo à d iscus são a s me d ia çõe s d a sub je tivida de e qu e n ão se re su me m to ut cour t na no ção de que stão so cial (Faleiro s, 1 999, p .40 ). Dessa forma, é necess ário trazer par a a dis cussão e colocar na pauta da ação profissional dos assi stentes sociais estas outras dimensões da 57 realidade, sobretudo a ques tão de gênero, que repercute diretamente na questão do poder e da violência, tal como tentamos trazer nes te trabalho. Mesmo o Serviço Social tendo firmado uma direção, hoje considerada hegemônica na profissão, garantida pelo Código de Étic a Profissional de 1993, pela Lei 8662/ 93 que regulamenta a profiss ão de Serviç o Social e pelas Diretr izes Curriculares para o curso de Serviço Social, aprovado em assembléia geral da ABEPSS, em 1996, um ponto a ser ress altado é que ai nda não superamos as nossas def iciências no debate com diferentes áreas do saber e perspecti vas teóric as. Assim, as novas condições postas aos as sistentes sociais pass am pela constante for mação, atualização e capacitaç ão. Trabalhar com os novos dilemas familiares, com a agudização da pobreza, c om a ampliação e o for tal eci ment o da filantropia do terc eiro setor , com os parcos recursos e deficiências das políticas sociais tem se apresentado como um des afio para os profissionais de Serviço Social. Esse desafio perpassa uma outra anális e que vai além daquela exclusiva de classe contra classe, evoc ando uma reflexão sobre poder, hegemonia e contra- hegemonia (Faleiros , 1999). As instituições (entre elas a família) passam a ser vistas como local de luta de poderes, e o objeto da intervenção deve responder a um process o complexo de relações sociais em que se entrecruzam demandas políticas, confi gurando uma área de intervenção dos assistentes s ociais . É n a pe r spec tiva rela cion al q ue va mo s visua lizar a questã o do obj e to pr o fissiona l ( .. .) É co m r ef erê n ci a à s re laçõ es de po der que vi mo s consider ando a teo ria e a pr átic a d o Se rviço S ocia l. O p od er e m si é u ma re laç ão . U ma rela ção co mp le xa q ue pass a pe lo s pr oce ssos d e h eg e mon ia e con t ra- heg e mo nia, de do min a ção de raç a, et nia , gê ner o , cultu ra s. .. (Fa lei ro s, 19 99 , p. 41 ) 58 Sendo assim, a temática da violência de gênero com seus diferentes desdobramentos – violência doméstic a, viol ênc ia contra a mulher, violência intrafami liar e outras, tem sido definida como uma relaç ão de poder e de per manente atendimento, conflito, princ ipalmente encaminhamentos , no locus orientaç ão, familiar, informaç ão, demandando rec urs os e capacitação por parte de assis tentes s ociais . A violência contra a mulher tornou- se objeto de intervenção profissional do assistente social, enquanto des afio posto no c otidi ano, sobr e o qual deverá formular um conjunto de reflexão e de proposi ções para intervenção. 2. 2. - AS CONCEPÇÕES DOS ASSISTENTES SOCIAIS PESQUISADOS EM RELAÇÃO À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER O Serviço Social enquanto uma profissão c ami nhou paralelo às conquistas do movimento feminista e apenas recentemente integrou na sua agenda à discussão relativa a problemática da violência contra a mulher. Neste item, pretendemos refletir sobre as falas dos assistentes s oci ais entrevistados, a concepção que es tá orientando o fazer profis sional e como a profissão tem subsidiado os profissionais na intervenção junto às mulheres que estão vivendo situações de violência. A história confirma que o Serviç o Social, em relação à violência contra a mulher, caminhou paralelo às reivindicações e lutas do movimento feminista. Apenas recentemente as sumiu uma posição de defesa e incluiu na sua agenda este debate. Por quê? Talvez porque no momento em que o movimento feminista deu visibilidade para a violência contra a mulher, a 59 profissão estava tentando avançar na superaç ão de um patamar do conservadorismo, conforme dis cutido por Netto (1991), e tentando as sumir uma postura crítica diante da soc iedade. Esta postura c rítica, em um primeiro momento, acabou reduzindo muitas das análises em uma leitura apenas sob a ótica da luta de class es. Claro es tá que a violênci a c ont ra a mulher sofre interf erência das relações de classe, como também de gênero, raça e etnia, não podendo sua c ompreensão ser reduzida a uma única perspectiva. Os últimos três Congr essos Brasileiros de Assistentes Sociais 1 2 são exemplos significativos de avanços na inclusão de debates referentes às questões de gênero, assim como em relação à violência contra a mulher , racismo e etnia, mas a profiss ão ainda prec isa avanç ar mui to para dar conta dessa discussão. Mesmo assi m, as entrevistas da pes quisa demons tram o quanto ainda é incipiente o debate no campo do Serviç o Soc ial e a necessidade de a profissão estar se inser indo com mais ênfase nes se debate. Na faculdade eles coloc am muit o pouco. Então quando a gente está na fac uldade, muitas vezes não falam na questão de gênero, não nos trazem is so. A gente v ai aprender no cotidiano, e o que a gente percebe são os textos direcionados mui to para a questão da mulher, a mulher como v ítima. Então is so, dentro do Serv iço Social, é muito forte ainda (Ass istente Social 05). [...] o Serviç o Social tem um contato muit o grande c om mulheres, por elas s erem a maioria na profissão e também por s erem maioria nos ser viç os; eu entendo que a discussão de gênero tem que estar pres ente em qualquer es paço profiss ional, mas como um tema 12 O I X C o ng r e s s o B r a s i l e i r o d e A s si s t e n t e s S oc i a i s o c o r r e u e m G oi â n i a n o m ê s d e j u l h o d e 1 99 8 , n e s t e f o r a m i n s c r i t o s 1 4 t r a ba l h o s s o b r e e t n i a e g ê n e r o n a s c o m u n i c a ç õ e s o r a i s e 0 6 p o s t e r s ; a t e m á t i c a d a v i o l ê n c i a c o n t r a a m u l h e r f o i i n s e r i d a ne s t a s s e s s õ e s . O X C on gr e s s o B r a s i l e i r o d e A s s i s t e n t e s S o c i a i s o c or r e u no R i o d e J a n e i r o em o u t u b r o d e 2 00 1 . N o X I C o ng r e s s o B r a s i l e i r o d e A s s i s t e nt e s S o c i a i s , r ea l i z a d o e m F o r t a l e z a , e m o ut u b r o de 2 0 0 4 , f o r a m i n s c r i t o s 5 9 t r ab a l h o s p a r a a pr e s e n t a ç ã o or a l no e i xo : qu e s t õ e s de g ên e r o , r aç a , et n i a e s e x u a l i d a d e e 17 n a m o d a l i d a d e de p o s t er s , a qu i i n c l u í d o s o s t r a b a l h o s r e f e r e nt e s a v i o l ê n c i a c o n t r a m u l h e r . 60 transversal. Porém o que eu percebo é que parece que pessoas que s ó discutem gênero, pessoas que só di scutem saúde, pes soas que só discutem assistênc ia social, ess a fragment ação me parece um complic ador que tem reflexo na discussão da violência contra a mulher ou na violênci a intra- familiar (As sistente Social 06). Eu percebo que tem muito pouca discussão, até inclusiv e na questão da intervenç ão. Até inclusive muitos debates que têm serv ido como s uporte não são nem assistentes sociais que realizam, são estudos feitos por outras áreas (Assistente Social 07). Sistematizar os conhecimentos dos assistentes s ociais s obre o trabalho com mulheres em situação de violência, na pers pectiva de ampliar o debate no interior da profissão, é algo que se c oloca c omo ur gente. Um das entrevistados destacou em sua fala que são as mulheres que compõem a maioria profissional e também são estas as principais usuárias do trabalho dos assistentes sociais. Parece exis tir um di stanciamento entre o c ampo ci ent ifico, considerado como o respons ável pela produç ão teórica e as necessidades que os denominados profiss ionais da prática buscam. Os pr ofissionais entrevistados des tac am em suas falas que a di scuss ão ainda não recebe a importância necess ária dentro da profis são. Todos salientam a falta de produção teóric a em relaç ão ao as sunto sob o ol har dos assistentes sociais. É interes sante obser var que, na maioria das falas os profissionais se coloc am de fora, como s e a responsabilidade pela produção teórica não fosse uma atribuiç ão deles , também. Os depoimentos seguintes são exemplo desta posição. Quase não tem nada esc rito na área do Serv iço Social, pelo menos que a gente tenha aces so. A Vinagre 1 3 tem al guma cois a, que a gente nem consegue comprar o liv ro dela, porque está esgotado.Mas fora is to, a não ser que a gente esteja meio desatualizada. Como naquele seminário, era de famíl ia, mas era pratic amente 13 A q u i a e n t r e v i s t a d a s e r ef e r e a “ M ar l i s e V i n a g r e S i l v a” q u e es c r e v e u o l i vr o : V i ol ê n c i a C on t r a a M u l h e r : Q u e m M e t e a C o l h e r ? P u b l i c a d o n o an o d e 1 9 9 2 p e l a e d i t o r a C o r t e z . 61 psicólogos e enfer meiros . Porque se você for ver são os psicólogos que estão des pontando (Assistente Social 01). No Serviço Social ainda está muito pobre es sa di scussão. Não tem tido uma dis cussão, nem uma chamada do nosso cons elho. Não recebemos nenhuma chamada pra discutir ess a questão. Tem ainda muito que ser feito, é uma coisa a ser planejada e providenciada. [...] Eu não vejo o Serviç o Social nes se mov imento. Não vejo nenhuma movimentação. No tempo que eu es tou aqui, pelo que eu já tenho percorrido na ques tão da vi olência, eu não vejo nenhum mov imento do Serviço Social. Teria que até promover discus sões , promover uma serie de questões pra gente estar mais ins erida ni sso (Assistente Social 02). A f ala do assistente s ocial 02 delega para o Conselho Regional de Serviço Social a responsabilidade de es tar chamando para es sa discussão. Certamente os Conselhos têm uma parcela de compromis so, mas os profissionais não podem esperar apenas pela iniciativa dessa instituição. Por outro lado, quem compõe os Cons elhos? São os próprios assistentes sociais, portanto a tarefa é de todos e não de alguns. Por sua vez, o entrevis tado 01 destaca que outras áreas, como psicologia e enfermagem têm apresentado um papel importante e prioriz ado nes sa dis cus são. Os sujeitos da pesquisa destacaram uma incipiente produção teórica e o debate insuficiente no Ser viço Soc ial como alguns dos problemas enfrentados pelos profissionais que es tão atuando com mulheres que estão vivendo situações de violência. Eu percebo que é inócua, incipiente. É necessário que o Serviço Soc ial comece a produzir teoricamente. Um dos compr omiss os que nós es tamos tentando garantir para a política de assis tência s ocial e para rede de proteç ão que está se organizando é a produç ão, a organização e a pesquisa s obre o fenômeno da violênc ia domés tica. Porque nós temos uma prátic a aqui que é concreta e que está dando certo, nós temos já uma s érie de materiais organizados. Mas que ainda não está sis tematizado a partir do olhar do profiss ional de Serviç o Social para ser publicado. [...] Então o Serviç o Social peca nisso. A gente trabalha, trabalha, inova, c ria, e não memoriza 62 isso, em formas teóricas. Tem que ter análise teórica a partir do olhar do Serv iço Social. Você tem uma experiência prática e o que esta experiência está trazendo de novo? (Assistente Social 03) Eu percebo [. .. ] que o Servi ço Social poder ia explorar mais essa ques tão, de uma f orma mais aprofundada. A leitura sobre gêneros , elas não despertaram a questão da sensibilidade ou não sei, se f oi es tratégic o, mas assim não s e vê muitos profis sionais esc rev endo s obre gênero, sobre violência domés tica ainda menos ; então pouco leio sobre isso. Então as leituras que eu tenho são muito superficiais . [... ] acredito que a gente tem que aprofundar muito mais (As sis tente Social 04). O compromisso dos profissionais em estar esc revendo fica explícito na fala do assistente social 03, não delegando apenas para os outros essa responsabilidade. Os profissionais na maioria das vezes ac abam restringindo o exercício profi ssional à prática interventiva, não refletindo e nem escrevendo sobre ela. O faz er profissional acaba sendo reduzido e mes mo os assistentes sociais inovando, criando e obtendo dados a partir a realidade em que eles trabalham, estes elementos não são s ocializados e acabam se perdendo no dia-a-dia. No mesmo sentido, o entrevistado 04 salienta que a profissão ainda não despertou para essas discussões. O que preocupa no seu depoimento é a refer ência à pouca leitura, em razão da esc ass a produção t eór ica. Realmente o Serviço Social tem produzido pouco s obre a violênc ia contra a mulher , relações de gênero e relaç ões de poder, mas outras áreas poss uem um vasto material sobre a temática, que pode ser c ampo de pes quisa para os assistentes sociais. Os profiss ionais , não apenas ligados à academia, precisam escrever sobre a intervenção, relações de gênero e a violência contra a mulher, acrescentando elementos, enriquecendo o debate e oferecendo subsídios para o fazer profis sional. A escassa bibliograf ia disponível é também referenc iada na fala do entrevistado 05, que enf atiz ou como insufic ientes as di scuss ões sobre as 63 relações de gênero durante a graduação e em relação à violênc ia contr a a mulher ,dest aca que os textos são const ruídos sob uma pers pectiva da mulher como vítima, o que vem reduzir a disc ussão. O compromisso pela produç ão teórica pertence a todos os profissionais, não como uma s imples obrigaç ão, mas como um direito de contribuir com posicionamentos a partir de diferentes perspec tivas. Os depoimentos a seguir ilustram as dificuldades que a profissão enfrentando em pr opor discuss ões e ocupar determinados es tá espaç os , que acabam sendo preenchidos por profissionais de outras áreas. El a está ac ontecendo, mas de forma fr agmentada, muito mais nos serv iços que são destinados a at ender pessoas em situação de violência e não nos outr os, por ex emplo: os servi ços de saúde, tanto a dis cuss ão de gênero, quanto a discus são de violência contra a mulher ou intrafamil iar, ela é relevante. O serviç o de saúde tem o papel fundamental na identificação dess as s ituações de vi olência, no entanto nós v amos enc ontrar ess as di scussões lá nos s erv iços de referência que atendem à pessoa em situação de violência, e não encontramos com tanta intensidade es sa discussão permeando as outras equipes de outros pr ogr amas, de outros serviç os (Assistente Social 06). Eu percebo que tem muito pouca discussão, até inclusiv e na questão da intervenç ão. Textos que eu já usei como suporte? Tem um mais r ecente, que saiu na Serv iço Social e Sociedade, que falav a na mudança no novo código civil em relação à ques tão da violência domés tic a. É o texto mais atual que eu lembro no Serv iço Social. [...] inclusive muitos debates que têm servido como suporte não s ão nem assistentes sociais que realizam, são estudos feitos por outr as áreas (Assistente Social 07). Os assistentes sociais devem bus car em outras áreas do conhecimento subsídios teóric os , mas isto não os exime de produzi r, principalmente sobre o seu fazer, pois esta é ainda uma das deficiênci as que a profissão apresenta. Os assis tentes sociais ocupam um lugar es tratégico nos serviços que atendem às mulheres que estão vivendo situações de 64 violência e suas famí lias, conferindo a estes profiss ionais condiç ões para proporem a implantação de serviços de qualidade para as usuárias . No seu locus de intervenção, os profissionais convivem com as divers as fac es que a violência contra a mulher apres enta; neste âmbito es tão presentes as inúmeras possibilidades de cons truç ão de serviç os, programas e projet os que venham ao encontro da implantaç ão e ef etivação da polític a de prevenção e proteção às mulheres em situaç ão de violência. A história demonstra que o Serviço Social, diante da violência contra a mulher, não foi protagonista, sua atuação foi margi nal . Os as sistentes sociais tem posto o desafio de cons truir, assim como outras profissões , políticas sociais que venham a contemplar um enf oque de gênero, raç a, etnia, classe e poder. Sobre a concepção de violência que ori ent a o trabalho dos assis tentes sociais entrevistados junto às mulheres que estão vivenciando si tuações de violência, os entrevistados responderam que: Mi nha conc epção? Na verdade, eu acho, que a violência acontece por vários fatores . [...] Não sei se dá pra dizer que é uma conc epção de violência. São várias: psicológica, s exual, fís ica e, normalmente, elas acontecem meio simultâneas. [... ] Eu não sei se eu tenho um conceito. É difícil exprimir um conceito. Mas el a acontec e por v ários fatores, que a gente já falou antes: econômico, cultural, religioso. Enfim, não sei s e é uma concepção, mas a gente tem que c uidar quando se trata da questão da violência da vítima, que nem sempre el a é só vítima (As sis tente Social 01). Eu não t rabalho c om idéia dela c omo v ítima. A mulher não pode ser considerada uma vítima, mas si m fazendo parte daquele processo de violência, ela está em si tuação de vi olência e ela é co- par ticipante daquele processo. Não vejo como vítima, de forma alguma, mas el a como sujeit o ativ o daquela relação (Assist ent e Social 02). 65 O entrevi stado 01, no depoimento em tela, diz não ter certez a de possuir uma concepção. Enfatiza os diferentes tipos de violência que a mulher acaba vivenciando e os fatores que contribuem para que es sa violência aconteça e para que as mulheres permaneç am em uma relaç ão violenta. A violência contra a mulher pode ser psicológica, física ou sexual. O profissional não define sua c oncepção de violência contra a mulher, mas não tem a compreensão da mul her apenas c omo vítima na relaç ão. Outra fala salienta a necessidade de ol har para a mulher não apenas como víti ma, mas como “co-parti cipant e”. O entrevis tado 02 trabalha com a perspectiva de abordar a mulher c omo um sujeito ativo na relaç ão e não somente como vítima. Este olhar pode auxiliar na superaç ão de uma abordagem vitimista da mulher, porém é neces sário estabelecer mediações na análise para não atingir um outro extremo que seria o de res ponsabilizar a mulher pela violência que es tá vivenciando. Em relação a esta ques tão, SAFFIOTI (2002,p.40) destaca que: [. . . ] as mu lh e re s n ão são despr ovidas d e pod er, elas o tê m, m as é ch am a do m ic ro p ode r – d ese nvolve m out ra s prá ticas qu e ta mb é m con tr ibu e m p ara a m u da n ça so cia l. A s m u lhe res tra n si ta m co m m ai s fa ci lidade n os pr oces sos qu e e xig e m o m ic ro p ode r, e o s h om e ns , em ge ral, detê m o ma cr o pod e r. Aco nte ce qu e o ma c ro e o m icr o es tão imb ri cad os . Não se defende que as mulheres estão isentas do exercício do poder. Certamente elas detêm uma parcela de poder que gira em torno de um mecanismo maior de dominaç ão e que tem na ótica mas culina o seu gerenciador. Os assistentes sociais, ao as sumirem uma pos tura de vitimização da mulher em relação ao homem, acabam fechando espaços para a compreensão e intervenção dentro de uma pers pectiva de cons tituição de novas relações de poder. Uma anális e baseada na cons truç ão e funcionamento de relações de poder, al tera a interpr etaç ão do lugar ocupado 66 pelas mulheres em uma r elação violenta. As mulheres integram uma rede extensa de poder, elas sofr em o exercício do poder, mas também exerc em o poder. As relações de poder aqui são c ompreendidas a partir de FOUCAULT (1990, p.183-4), para quem “o indivíduo é um ef eito do poder e si mul taneamente, ou pelo próprio fato de ser um efeito, é seu c entro de transmissão. O poder passa através do indivíduo que ele constituiu”. A posição de pens ar a mulher não como uma vítima também foi enfatizada por outr os profissionais participantes da pesquisa: Eu não diria violência c ontra a mulher, porque a v iolência el a perpass a t odos os membros da família. Na verdade assim: a minha perc epção di ant e da violência que ocorre no âmbito familiar muitas vezes ela se ex pressa mais na mulher pela questão fís ica, eu diria. [.. .] Iss o não si gnifica dizer que o homem não s ofra violência, que ele também não nec essite de uma atenç ão e de uma política que disponha de um trabalho (Ass istente Social 04). Acho que é o eixo norteador que a gente s egue no programa, todos os pr ofis sionais concordam que a mulher, não s omente ela mas também o homem precis a ser trabalhado [. ..] Esses autores de agressão nos trazem isto, que muitas v ezes as sim, eles vão pra justiç a, a mulher fala, fala, fala, fala e ele não tem poder de voz, que também tem problemas , também quer ser ouvido (Assistente Social 05). O entrevistado 04 cita a constituição física da mulher como um empecilho para responder com o mes mo tipo de violência às agressões que está vivendo e que são cometidas pelo homem. A fragilidade fís ica da mulher não pode ser utilizada como uma jus tific ativa, fazendo c om que a mulher vivencie com uma fr eqüência maior que o homem o problema da violênc ia. Uma leitura pautada na construç ão das relações de gênero e de poder que estão presentes na sociedade vai alargar a c ompr eensão de que a s ociedade construiu historicamente lugares e papéis para homens e mulheres, sendo a submissão e subalternidade característ icas delegadas para as mulheres , 67 enquant o a virilidade e o poder para os homens. Mesmo tr abalhando na perspectiva de Foucault (2001), este salienta que o poder não é privilégio de uns, porém ele é distribuído e exerc ido de forma irregular . No mesmo viés, Saffioti (2003) utiliza os ter mos “malha fina” e “malha grossa” , para transmi tir a idéia de que todos exerc em poder, de for ma distinta, mas não hier árquic as. A autora ainda argumenta que as mulheres transitam com facilidade no es paço da malha fina que corresponderia aos micro- poderes. Os homens por sua vez circ ulam e exercem o poder na malha grossa. Oc orre que toda malha é permeável, isto faz com que a mulher tenha a possibilidade de ci rcular entre os dois espaços . Possibilidade não significa conseguir ultr apassar as barr eiras impostas em uma construção histórica pautada na desigualdade de gênero. “Dia haverá, é a expectativa dos moviment os feministas , de que ambas as categorias de sexo transitem c om tranqüilidade nos dois es paços , c om objetivo de torná- lo único e, portanto, não discriminatório” (SAFFIOTI, 2003, p.31). Ainda sobre esta, quest ão o depoimento seguinte aponta que: A orientação que a gente segue é compreender a vi olência como um fenômeno, que se dá numa relação onde as duas pes soas podem ser autores e v ítimas nesse proces so. [. ..] tem a ques tão que permeia todas as nossas discus sões e intervenç ões que são as constituições dos papéis e gêneros que interferem di retamente nessa relação, ou como es sa relaç ão que se construiu, a submissão ao longo da história. Ac ho que os homens e as mulheres tem papéis diferenciados, papéis individuais, no entanto tem se dis cutido que o homem também é produto dess a produç ão s ócio históric a, se ele também tem esse posicionamento, também é produto, e se a mulher às vezes é submissa, tem uma relação de subalter nidade, também é produto (As sis tente Soci al 07). No depoimento, o entrevistado introduz uma dis cussão importante que está relacionada com a cons trução das relações de gênero na 68 sociedade, onde homens e mulheres devem ter papéis diferent es e que s ão construí dos historicamente. Interpret ar que a violência pode ser praticada tanto pelo homem quanto pela mulher, s em estabelecer outras mediaç ões acaba implicando um outro problema, que é o de c olocar o homem e a mulher em um patamar de igualdade para vivenciar e praticar a violência, o que não é real. Na da imp ede , e mb o ra s ej a in usita do , q ue u ma mu lhe r pr atiq ue vio lên cia fí si ca co nt ra o ma r ido /co m p anh eir o/n a mo rad o . As m ulhe re s c om o ca te g or ia so cial n ã o t ê m, co nt udo, um pro je to de d o mi na ção /e xp lo ra ção do s hom e ns , e is so fa z u ma gig an tesca d if e re n ça (SAFF IO TI , 2 00 2, p .198 ). Ai nda no depoimento do entrevis tado 07,este enf atiz a que a posição de submissão da mulher foi cons truída ao longo da his tória da sociedade, através da construção social de gênero que estabelec e papéis diferenciados para homens e mulheres. Em uma sociedade pautada em valores patriarcais, cabe à mulher o papel de viver sob o poder de mando do homem. A submissão da mul her é uma condiç ão ac eita socialment e c omo pertencente à mulher , e quando ela tenta romper este limite “ nada mais justo” do que s er punida pela transgressão. Por isto o pacto de silênc io es tabelecido em volta da violência contr a a mulher. A nossa sociedade está pautada em valores patriarc ais , tendo um projeto de dominação baseado na desigualdade entre homens e mulheres. A supremacia do homem é enfatiz ada, o que vem dificultar para as mulheres a superação de sua condição de s ubmissão/subalternidade. Também o entrevistado 03 cita o campo das relações s ociais como lócus onde são gest adas as des igualdades de papéis entre homens e mulheres,como pode ser observado em s eu depoimento: Nós part imos do princípio que a ques tão da violência doméstica é um fenômeno no campo das relações 69 sociais, e principal mente falando da violência contra a mulher, no campo da relaç ão entre o homem e a mulher, que constit ui uma relação estreita neste moment o. [...] na nossa concepção da violência, ela está intrinsecamente ligada à identidade de homem e de mulher. Está na cultura, ou seja, na c ompr eensão que ela tem do que é ser feminino ou o que é ser mas culino, isto é o meu ponto de vista, é um dos focos principais que provoca a vivênc ia des te c onflito e a permanência dele (Assistente Social 03). O entrevistado afir ma que a violência contra a mulher é um problema que está localizado na construção das relações sociais, aqui c ompreendida como relações entre homem e mulher. Os papéis pertinentes ao que é ser feminino ou masculino são repassados pela sociedade através de seus diversos mecanismos de trans miss ão. A viol ência contra a mulher “nas ce de relações assimétricas e desiguai s entr e os sexos, na sociedade brasileira [...] . Trata- se de relações s ociais que se estruturam de forma desigual privilegiando de alguma maneira um dos sexos” (HEILBORN apud STAMPACCHIO, 1995, p.117). Sobre a concepção que orienta o seu trabalho, o as sistente social 05 destacou que: Primeiro que as sim, a violênc ia domés tica não é uma vi olência contra a mulher es pecífic a. A gente trabalha como doméstica, familiar, violência de gênero. A gente não trabalha s ó a mul her , trabalhamos todas, o homem, os fil hos e as demais pessoas envolvidas. [... ] Acho que é um dos eixos norteadores do nos so programa, e do meu, eu acredito que assim não dá pra trabalha s ó a mulher se não trabalhar t oda a família (As sis tente Social 05). O assistente social ar gumenta que a violência domés tic a não é praticada exclusivamente contra a mulher, pois atinge outros membros da família. O entrevistado não diferencia o que c ompr eende por violência doméstica, de gênero ou familiar. Interes sante observar que a intervenção profissional está procurando envolver todos os membros da família, inclusive 70 o agressor. A necessidade de trabalhar com o agres sor é evidente para conseguir romper o ciclo de violência que se ins tala em uma relaç ão. No depoimento seguinte, o profissional entrevistado enfatizou a compreensão que detém em relação à violência contra a mulher, como: Nós parti mos de uma disc ussão sobre a violência como resultado de um process o cultural, e aí nós não podemos fugir da dis cuss ão da construção do papel de homem/ mulher , das relações de gênero, esse é o pano de fundo do entendimento. Que a violência domés tica, ela tem raízes culturais e que tem alguns outros fatores que podem ser desencadeadores , que podem ser agrav antes e que são fatores ligados às c ondições de objetivo de vi da, situaç ões de vulnerabilidade como o desemprego, as dificuldades ou as questões também de uso de substâncias psic oativas. Mas nós entendemos es tes fatores não como c aus adores de violência; para nós , o pano de fundo da violência domés tica é cultural (Assistente Social 06). A fala traz elementos importantes para reflexão e trans mite uma compreensão aprofundada sobre a temática, pois ela introduz a dimens ão cultural e a questão de gênero como base para o entendimento da problemática da violência contra a mulher. Des tac a os fatores que podem contribuir para a ocorrência da violência contra a mulher, esclarecendo que os entende não como os causadores , uma vez que essa es taria relacionada com uma dimensão cultural. Também s alienta a nec es sidade de parti r de uma leitura histórica das construç ões de gênero. Outro aspecto a ser des tac ado diz respeito ao que o entrevistado 06 denomina fatores que podem des enc adear e agravar a violência c ontra a mulher , sendo citados alguns exemplos como: desemprego, dependênci a quími ca, condição socioeconômic a, situaç ões de stres s. Es tes problemas podem ser interpretados como colaboradores no agravamento das situações de violência, sem partir do press upos to de que es tes seriam causadores , o 71 que poderia acabar simpli ficando a compreens ão da ques tão e f ugindo da perspectiva histórica de const ruç ão da violência contra a mulher. Não se pode interpretar o cons umo de álcool ou outras drogas como a causa para a violência, mes mo que, em gr ande parte dos cas os de violência contra a mulher, seja identi ficado o uso por parte do companheiro. Hoje a dependência químic a é trabalhada como uma doenç a, podendo correr- se o risco de “medicalizar o comportamento do agressor ” (IZUMINO, 2002, p.112), justificando os atos violentos deste. As situações de vulnerabilidade social, como desemprego ou condição socioeconômica também merec em cuidado na anális e dos cas os de violência contra a mulher. A his tória t em demons trado que a problemática da violência contra a mulher não atinge apenas mulheres pobres e nem é praticada apenas por homens de uma cl ass e s ocial baixa. No ca so e spe ci f ico da vio lên cia con t ra a mu lh e r, qu ando oco r re a p ublicid ade de con flit o s priva dos, o q ue se te m ale rta do é pa ra o fa t o de que os se to re s econo m ica m e nt e m a is pr ivileg iad os, q ua ndo con fr o n ta do s co m situ a çõe s de vio lên cia do mé st i ca no a mb ien t e do mé st i co , con tam co m ag ent es e ser viços q ue p er mi te m sua n egociação e re so lução d e f or ma m ais “p rivada ”, se m pre cisa r en ver ed ar pe la via policia ljud ic ia l ( IZ UMIN O , 20 02, p. 1 11) . A população publicização pobre pode da violência ser contra interpretada a mulher como nas res ultado c amadas da da de falt a privacidade no encaminhament o das sit uaç ões decorrentes, da não gar antia de di reitos e das difi culdades em ac ess ar s erviços especi alizados que respeitem as usuárias, garantindo a sua proteção. A concepção que a gente tem do f enômeno da violência doméstica intra- familiar, ainda é de uma forma muit o tí mida, eu di ria, para trabalhar. A academi a no proces so de formaç ão do as sis tente s ocial, pouc o discute as questões de gênero e a questão da violência. Assim, ela praticamente não é nem tocada, o fenômeno da violência. O entendimento que eu tenho sobre o fenômeno, são al gumas leituras que eu tenho feito e através t ambém do 72 próprio coti diano, dos atendimentos das famílias que estão vivendo es te f enômeno ( Ass ist ent e Social 04). O entrevistado 04, complementa a sua res posta sobre a concepç ão que detem sobre violência contra a mulher, quando se ref er e ao pouc o conhecimento sobre o problema da violência contra a mulher. Coloca que, nos cursos de graduação, a disc ussão sobre relações de gênero e a violência contra a mulher são incipientes . Enfatiza que o entendimento que possui não vei o da academia, mas de leituras que tem realizado atualmente. Aqui fica explícito como a discuss ão ainda não recebe importância merecida durante a for mação profissional dos ass istentes sociais . RODRIGUES (1998, p.256) corrobora est a idéia, quando cita que: [. . . ] per ma n ece de m a neira ger al na pe rife r ia dos de ba te s no Se rviço Social. Mais do q ue isso , a m ai or ia do s pr of iss ionais pare ce me sm o r esist ir , a tiva m en te , à s ab or dage n s qu e pr ivileg ie m o en f o qu e do g ên ero e me s m o a apro xi ma çã o co m os mo vi me n tos so ciais de mu lh e re s. O aprof undamento teóric o sobre a temática da violência contra a mulher é uma necessidade que se apres enta para os profiss ionais , como subsídios para a intervenção. Pode ser apontada como urgent e a inserção de di scuss ões sobre relações de gênero e violência contra a mulher pelo Serviço Social. O desafio para os assistentes sociais na atualidade é dar visibilidade, contribuindo desta maneira para o enfrentament o da violência contra a mulher de for ma competente e c omprometida com a formulação e implementação de políticas sociais para as mulheres . O próximo item atende ao objetivo de discutir a intervenção dos assistentes sociais f rent e à violência contra a mulher, buscando refletir sobre os aportes profissional. teórico- metodológic os que es tão orientando o fazer 73 2.3. OS ASSISTENTES SOCIAIS DIANTE DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: APORTES TEÓRI CO- METODOLÓGI COS A dimensão teóric o- metodológica da profiss ão está diretament e relacionada com o pr ocesso de intervenção. A opção por uma deter minada teoria e em conseqüência pelo método proposto por ela é também uma escolha política, ou seja a dimensão ético- polític a não pode ser conc ebida separadamente da dimensão teórico- met odológica. Os instrumentos ou meios de trabalho são elementos fundamentais de qualquer processo de trabalho, s ão eles que potenc ializam a aç ão do trabalhador sobre seu objeto de trabalho ou matéria prima. O s er humano é o único ser capaz de criar meios e instrumentos de trabalho. Segundo Iamamoto (1999), é possível identific ar três tipos de instrumentos presentes no proces so de trabalho dos as sistentes sociais, profissão esta que possui um caráter eminentemente interventivo. São eles: as bases teóri co- metodológicas , que se cons tituem no conjunto de conhecimentos e possibilitam a aproximação e conhecimento do objeto; o instrumental técnico- operativo, que realiza efetivament e a transformação do objeto e do Serviço Soci al, compondo- se de instrumentos c omo a entrevista, a observação, o estudo e parecer social, enc aminhamentos entr e outros; e as condições institucionais que dizem respeito, sobretudo, às condições mat eriais de realização do trabalho, ou seja os rec urs os financeiros, técnicos e humanos. A dimensão teórico- metodológic a tem como objetiv o proporc ionar a base de explicação e interpret ação do real para que o assistente social possa propor estratégias de intervenção para o enfrentamento da realidade. 74 A intencionalidade da ação vai estar presente no exercício profis sional e esta é explicitada quando a intervenção se realiza. Iamamotto (1999) destaca que o c onhecimento é uma ferramenta de trabalho do assistente social, deixando claro que as bases teóric o- metodológicas são essenciais para o exerc ício profissional. Esta dimens ão contribui para direcionar a intervenção. Da mesma forma, Guerra ( 1997) enfatiza que todo o faz er profissional deve estar amparado por uma teoria s ocial que, geralmente, depende da escolha do as sistente s ocial. Esta esc olha, porém, não é al eat ória, pois: tra t a -se de u ma es co lh a que req uer o con hec ime n to dos fu n da men to s f i los óf ic os e e pist em o ló gico s, da vincu la ção dess a teo ria a u m pr oje to de soc ie dad e e, so br e tu d o, do sen tido q ue ela p ossui pa ra a s for ça s po lí tica s ma is ava nçada s. E ainda o f aze r a qu e n os r e fe r im o s exig e qu e o pr of iss ional d etenh a o d om í n io d o mé t o do q ue lh e possa ser vir de gu ia ao conh eci me n to, conhe cim e nto que lhe poss ibil itar á est abel ece r est r at ég ias e t át icas d e inte r ve n çã o pr of iss ional ( G UER RA , 1997 , p. 61- 2) . Um dos assistentes sociais, sujeito da pes quisa, faz refer ênc ia em relação à complementari edade dessas dimens ões da profiss ão: Então, não que a gente trabalhe, agora nas dimensões separadas, elas ocorrem simultaneamente e às vezes nem se perc ebe (Assistente Social 01). Também a fala seguinte destaca a consciência do profi ssi onal em relação às três dimensões da profiss ão, ressaltando ainda a impor tância da participação dos assistentes soc iais junto aos movimentos s ociais: [...] eu procuro desenvolver s empr e todas na medida do possível, mas acho que falta. .. o c otidiano não te possibilita que tu exerças todo o teu papel como assistente social [... ] eu gostaria de ter uma di mensão mais política, de estar inserida mais dentro dos movimentos e não tenho cons eguido [...] eu estou sempre 75 dentro destas três di mensões , eu me c oloco éticopolítica. Eu procuro me c olocar sempre ness as di mensões , pautando sempre o que é ser Serviç o Soc ial, a minha especificidade, toda a parte teórico/prátic a (Assistente Social 02). Chama a atenção, no depoi mento do profissional, quando afi rma que procura desenvolver as dimens ões confor me as suas possibilidades . Isto vem mostrar a fr agilidade das Insti tuiç ões, que, na maioria das vezes, dependem de recursos para operacionalizar o cotidiano da s ua prática. Es tas di ficuldades têm se caracterizado como limites e desafios ao atendi mento dos usuários na instituição, vindo a corroborar o que Faleiros (1999) apresenta como relações de poder entre profis sionais e instituiç ões, na medida em que estes estão sempre à mercê dos parcos rec urs os que são destinados aos Programas e Projetos . A concepção de sociedade, para os profissionais de Serviço Social também t em sido ref erência para o supor te teórico-metodológic o e a di mensão ético- política,, como constatamos na fala a seguir: [...] eu ac ho que a gente até faz, meio sem aquilo, agora eu vou ser teóric o- met odológic o [. ..] a partir do momento que você tem algumas leituras , tu t ens postura profissional e uma for ma de enc aminhar . A gente procura pegar o Código de Ética nosso e seguir alguns princ ípi os do Código. Seguir não s ó o Código, mas o político mesmo: que mundo eu quero; que di recionamento eu quero; que sociedade eu gostaria que a gente vives se [...] (Assistente Social 01). O Código de Ética é c itado como um ins trument o de trabalho que pode guiar os profissionais no seu exercício prof iss ional. Este tem orientado muitos profissionais no direcionamento teórico- metodológic o e técni co- operativo pois, através dos seus princípios bás ic os centrados na igualdade, justiça e cidadania, aponta alguns c aminhos na intervenção prof iss ional. 76 A f ala a seguir reperc ute na ausência de propostas interventivas “prontas” para os diferent es campos de trabalho dos as sis tentes sociais. O entrevistado ressalta que não exis te um modelo de teoria do Serviço Social para intervir diante da violência contra a mulher, e conclui que c ada profissional, no seu espaço de trabalho tem que s er criativ o, enc ontrar di nâmicas e construir a per specti va t eór ico-met odológica, de acordo c om a realidade enfrentada, nesse caso, a da violência contra a mulher : A questão técnica-operativa, eu acho que é o que mantém o nosso trabalho, é o que dá suporte. As técnicas utilizadas, a gente está ensai ando muitas di nâmicas, a pr ópr ia questão da abordagem. ..s ão fundamentais. Ocorre que se conseguisse es tudá-las e compr eendê- las com maior profundidade, melhor poderia estar utilizando. A ques tão da metodologia, a gente vai ensaiando projetos e pers pectiv as dentro do programa, então a questão da ação sóci o- educativa, aç ão socializadora com as mulheres, a questão da aç ão sócioeducativa com os homens , que cai dentro dos instrumentai s, mas que tem que s er tr aç ado numa tendência metodológica, não tem sido encontrado referencial teórico que dê suporte a iss o. [...] Então o que nort eia a nossa prática metodológic a, teóricomet odológic o é a questão da sensibilização pela questão do fenômeno da violênci a domés tica ( Ass ist ent e Social 04) O aprof undamento teóric o e o processo de intervenção são de responsabilidade do profissional, por isso necessitamos de assistentes sociais propositivos, que não fiquem reduzidos à prátic a do atendimento cotidiano de sua instituição, mas busquem articular- s e em redes com outros colegas para j unt os pensarem em possíveis caminhos de intervenção. Nesse sentido, MARTINELLI (1995, p.147) enfatiz a que: [. . . ] tod a p rática é te o ri a em m o vi me n to , é ar ticu laçã o de sabe res , é co ns tr uçã o colet iva em b usca de ob je t ivo s socia lme n te de ter m in ados e his tor ica m en t e es ta belecid o s. Não e xist e pr ática vazia d e con he cim en t o , ou t ot al me n te desp rovid a de sa be re s [. .. ]. N ão há prát ica pro nta, co mo ta mb é m nã o h á pr ática neu tra : sua p ro dução co mo te oria em mo viment o é um a to cole tivo , p olí tico , uma a ção coope ra tiva e 77 compleme nt ar ent re os suje it o s so ci ais , se jam ele s a gente s ou usuá rio s in stituciona is (g r ifo s da au to ra ). A proposta de tornar a prática um ato contínuo de teoria em movimento é bastante desafiadora para alguns assis tentes sociais, como mostr a o depoimento a seguir: É, às vezes é bas tante complic ado, porque as sim o cotidiano mass ac ra e, s em querer, a gente acaba perdendo todo um trabalho, a metodologia do Servi ço Social (Ass istente Social 05). O cotidiano de trabalho tem muitas limitações, mes mo as sim, o profissional de Serviço Social deve trabalhar para “[.. .] limitações encami nhando suas reflexões e res ultados em superar um suas sentido hi stórico, social, político e téc nic o de produção de conhecimentos , tendo em vista um saber e uma prática mais conseqüentes” . (MARTINELLI, 2001, p. 116) (grif os da autora). No depoimento do assistente s ocial, transc rito a s eguir , fica explicito o esforç o, o interesse e a responsabilidade em torno de um trabalho sério e qualificado. Relata cada passo de sua intervenção aliada a uma preoc upaç ão de refleti- lo, teorizá- lo. Também demons tra preoc upaç ão em rel ação à capacitação profissional, reconhecendo que esta é fundamental para um bom desempenho da prática interventiva: Como eu as operac ionalizo [. ..] ? As entrevis tas no cas o com a pessoa ela já é um ins trumental, já faz parte des se instrumental no pri meiro contato, na continuidade do contato, dos relatórios. Nós temos o cuidado para estar tendo um rot eiro orientativo, para se estar percebendo o fenômeno.[...] Na visita domic iliar nós temos quatro necessidades de visita, elas são organizadas c om quatro intenções que v ão estar fortalecendo a própria prática do Serviço Social [...] outra coisa que é impor tante na instrumental idade do Serviç o Social é a própria capacidade de estar se capacitando teoricamente e conhecendo o fenômeno para poder intervir de for ma 78 adequada, incluindo nas outras políticas (Assistente Social 03). e por aí a fora Os entrevistados 06 e 07 ampliam sua c ompreensão sobre as di mensões do exercício profis sional, ao enf atizarem a necessidade de qualificação, compromisso com a população usuária e com a c onstrução de uma sociedade mais justa. Salientam a i mportânci a da dimensão política na temática da violência contra a mulher e da artic ulação da mesma c om as ref eri das Políticas Públicas, bem como com o proc es so de conquista da ci dadania. O papel do assistente social, enquanto garantidor de direitos , fica implícito quando enf atiza a importância do repas se das infor mações para as usuárias: [...] perc ebo que buscamos constantemente operacionalizar o ex erc ício profissional, atendendo a essas dimensões. Dentro do nosso fluxo busc amos qualificar e discutir as problemáticas cotidianas do f azer profissional, bem como estudar o fenômeno e discutir a Política de Assistênc ia Social. Outra meta pers eguida para atender às dimensões do Serviç o Social na contemporaneidade é bus car fortalecer a intersetorialidade, as políticas públicas, a sociedade civil para a busc a da ampliação da cidadania e o c ombate à vi olência domés tic a, bem como, contribuir para a vi abilização da participação efetiva da população nos espaços instit uci onais e a democ ratizaç ão das informações (Assistente Soc ial 06). O assistente social destaca a importânc ia das redes de articulação entre os profissionais que trabalham na mes ma área. Aponta que houve transf ormações na realidade social e sente falta dos debates sobre o cotidiano de trabalho e troca de informações , ou sej a, da construç ão c oletiva do conhecimento, como f oi mos t rado na citação de Martinelli (2001), e aparecendo também na fala transc rita a seguir : Eu falo das três dimensões da profiss ão dentro do nosso fluxo. O que já tem é o atendimento sócio-assis tencial, psicológico, s ócio-familiar, as visita domiciliares [...] No entanto a gente vê que não é tão simples conc retizar tudo isso na prática. Iss o também reflete um momento de transformação, a gente inclusive estava discutindo que a 79 categoria não senta mais pra discutir e debater como tem si do est e cotidiano e quais são os movimentos de transformação esta realidade. Claro que para os usuários isso pode não parec er importante, mas pr a nós esse momento de trans formaç ão, de mos trar c omo se implement a estas diretrizes do fazer profissional é important e, pra mos trar que tem outras propos tas do trabalho do Serviç o Social que rompem realmente com sua história. Porque parece que a gente só institucionalizou ou legalizou e que realmente não s e concretiza, mas tem se conc retizado (As sis tente Social 07). Dos sete assistentes s ociais entrevistados ci nco c olocaram acompanhar a discussão através de boletins informativos dos órgãos da categoria, promovidos contatos com pel a ABEPSS universidades e acompanhar a discussão, um CRESS. e Dois partic ipação em enc ontros entrevistados disseram não jus tific a o não acompanhamento de leituras sobre Serviço Social, em raz ão de estar se aprofundando na temática da violência contra a mulher e relações de gênero. O espaç o instituc ional realmente é limitante, e a maioria dos profis sionais não tem oportunidade nem acesso a cursos de capacitação para se c olocarem c omo responsáveis e co-participantes do pr ocesso de c ons trução teórico- metodológica em relação à intervenção do assis tente social junto à temática da violência contra a mulher. Mesmo as sim, muitos deles têm cons eguido acompanhar as leituras básicas da área: Procuro acompanhar através de leituras, a revista Serviço Social e Sociedade que a gente sabe que nor mal mente tem a maior ia das public ações. E as sim eu acho que nós aqui não estamos tão fora. [... ] é, basicamente através de algumas leituras ; procurei fazer pós, sempre que possív el [. ..] Mas mais é leitura, do que vem principalmente na rev ista Serviç o Social e Sociedade, porque ela está sempr e atual [.. .] e que di scute ess e projeto hegemônico (As sis tente Soc ial 01). Eu acompanho pela correspondência que eu recebo do CRESS, algum periódic o que eles mandam, são as noticias que eu tenho tido. Agora, real mente, não tenho 80 me apropriado muito de como que es tão sendo encaminhadas ess as questões. Tenho tido contato c om as Universidades e com as minhas es tagiárias ess as questões não têm sido muito pautada, a não ser nas supervisões. Quando eu vou na academia, nas universidades elas traz em mais aspectos do funcionamento do estágio e não tem aparecido tanto ess a di scussão do projeto ético- polític o (Ass istente Social 02). Os dois assistentes sociais destacam que a aproximaç ão com a di scuss ão ocorre atr avés de leituras e contatos com órgão repres entativos da categoria. A participação em congres sos e eventos da ABEPSS também é ressaltada como importante veículo de comunicaç ão e interlocuç ão entre os profissionais de Serviço Social: Eu tento, tento es tar em contato com a univ ers idade. Ul timamente eu não tenho ido mais nos congres sos do serviço soc ial. O últi mo material que eu escrevi pra apresentar foi no ano de 2001[... ]. A gente sempre tenta estar escrevendo as nossas experiências prátic as aqui pra apresentaç ão oral no Serv iço Social, nas dis cussões, nos congressos de Serviço Social e outros congres sos, nos seminários [... ] (Assistente Social 03). Através da participação nos eventos organizados pela ABEPSS, como as oficinas regionais e a nacional, o Seminário Latino Americ ano, ocorrido em 2003, e o ENPESS, além das leituras dos infor mes da ABEPSS que são enviados periodicamente e de artigos publicados em periódicos específic os (As sis tente Soc ial 06). Em relação às bases teórico- metodol ógicas, fica evidente que a maioria dos profissionais entrevistados têm se es forç ado para manter- s e atualizados, malgrado às dificuldades que têm enf rentado no seu cotidiano de trabalho, que são: excesso de trabalho, impossibilitando mais dedicação para leitura; falta de oportunidade de partic iparem de cursos de c apacitação e atualização; fal ta de acesso a recursos bibliográficos; e falta de inc ent ivo por parte das próprias instituições para as quais prestam s erviços. 81 Ao indagarmos os profis sionais entrevis tados “em que c onsis te o denominado projeto ético-político do Serviç o Social”, recebemos diferentes respostas: Eu percebo que o projeto polític o profiss ional tem sido debatido contundentemente. Eu acho até que o Serviç o Social tem criado outras frentes de atuaç ão, tem cr iado vários espaços novos, e até tem s ido mais reconhecido socialmente. Eu percebo que no município a profissão tem cr iado vários espaços que não tinham sido oc upados por profis sionais. [.. .] Aqui dentro do município a gente acompanha at rav és das conferênc ias , atividades desenvolvidas pela academia (As sis tente Social 07). Realmente, o Servi ço Social tem- se projet ado no universo das profissões com muita seriedade e competênci a, c onfigur ando um espaç o na divisão sócio- técnica do trabalho que tem merecido c onfiança e angariado el ogi os. Em vár ias temáticas at uais, como os Projetos de Renda Mínima, Fome Zero, implantação do Sis tema Únic o de Assistência Social – SUAS-, os assistentes sociais têm sido c hamados para prestar assessoria e contribuir nas pesquisas e intervenção, em áreas estratégic as . Essa valorização da profissão tem contribuído para demar car nossa identidade, enquanto profissionais da Assistência Social rec onhecidos nacionalmente. O es tatuto da profissão também recebeu reconheci ment o jurídic o, c omo afirma NETTO (1999, p.95): O s pro jet os pr o fissiona is a prese nta m a auto -i ma g em d e u ma pr of iss ão , ele ge m o s valo re s qu e a leg it im a m soc ia lm en te , del im ita m e pr ioriza m o s seu s o b jet ivo s e f u nçõ es , fo r mu l a m os r eq uisitos (te órico s, in stitu cionais e prá tico s) pa ra o seu e xe r cício , pre scr eve m nor ma s pa ra o co m p or ta m e nt o do s pr of iss ionais e e sta bele ce m as ba lizas da sua rel açã o co m o s usuá rio s de se us se rvi ços , co m as o utra s pr o fissõ e s e co m as or ga nizaçõ es e institui çõe s socia is , privadas e p úb licas (en tr e est a s, ta mb é m e d es ta cad a me n t e co m o Estad o , ao qual coub e , histo rica me n te , o re conh eci me n to j ur íd ico dos est a tu to s pro fi ssio nais) . 82 Os pr ojetos profissionais são construídos pelos suj eitos coletivos que pert encem a uma determinada c ategoria profissional. No c as o do Serviço Social, a categoria conta hoje com diversos órgãos que são representativos da profissão: CRESS, CFESS, ABEPSS, ENESSO, sindicatos e ainda associações de profis sionais. Para Cardoso (1999), o projeto profissional agrega diversos componentes como: valores que legitimam a ação profissional, valores étic os que di recionam ess a ação, identidade profissional, os conhecimentos intrinsecamente objetivos teóricos e relacionados, da aç ão, leituras interventiv os. São em que unidade, sobre ess es a soc iedade, c omponentes , perpass am o projeto profissional. Um pr ojeto prof iss ional es tá em cons tante transfor mação, pois necessita responder às exigências pos tas pelas demandas dos usuári os e pela dinâmica da sociedade. A conjuntura social brasileira, na década de 1980, foi palco para que o projeto ético-político do Serviço Social fos se gestado e “rompesse” com uma trajetória c onservadora, viabilizando a construção de um novo proj eto profis sional . Vários fat os contribuíram para esse rompimento dentre eles: o movimento de reconceituação, a crise da di tadura militar , a abertura democrátic a, as mobilizaç ões dos trabalhadores , entre outros. O contexto histórico vivido pela sociedade levou a categoria profissional a um redimensionamento polític o c omprometido, optando pela construção de uma soci edade mais jus ta. Dess a forma: Co mo t odo o univer so h et e ro gên eo , a cat egor ia pr of i ssiona l não s e co mp o rt o u de m o do idê ntico . Ma s as su a s van guard as conq uist ara m, e ntã o, vivên cia d e mo cr át ic a e se m ob ilizar am at iva me n te n a cont e staçã o política [ .. .] , o s se gm e nt os m a is at ivo s da cat egoria p ro fi ssiona l vincu lara m - s e a o m ovi me n to socia l dos t ra balhado res e , ro m pe nd o co m a do min â ncia do cons erva do ri smo [.. . ] (N ETT O , 1999 , p. 100) . 83 Conforme exposto anteriormente, nem toda a categoria pr ofissional assumiu o novo projeto profissional, ou seja, a construção do novo projet o ético e político do Serviço Social teve como precursores alguns as sistentes sociais, denominados por NETTO (1999) como a “vanguarda do Serviç o Social”, que por sua vez ges taram e formularam uma direç ão soc ial estratégica, pois: [. . . ] o ro m pi me n t o co m o cons er vado rism o eng en dr ou u ma cultu r a pr o fissi onal mu i to di fe r en ciada , p re nhe de diver sida des , ma s q ue acab ou, a o lon go d a d écada d e oite nta e na ent rada dos ano s no venta , p or ge st ar e f o r mu la r u ma direçã o so cial es tr até gica qu e co lide co m a h ege mon ia pol ítica que o gra nde cap it al p ret ende co n str uir [. .. ] dire ção suf i cie nte m e nt e e xp licita da n o C ód igo de Ét ic a Pr o fiss ional em vig ên cia desde m a rço d e 199 3 ( NE TTO , 19 96, p. 1 16) . O Código de Ética, aprovado em 1993, explicita a dimens ão étic opolítica que os profissionais devem assumir perante os usuários e pass a a se configurar como o norteador do projeto ético- político, através de seus onze princípios fundamentais. Mas nem todos os entrevistados demons tr aram c onhecimento em relação ao projeto ético-político, confor me se pode verificar: [...] realmente, não tenho me apr opr iado muito de como que estão sendo enc aminhadas essas questões. Tenho tido contato com as Universidades , com as minhas estagiárias es sa ques tões não tem sido muito pautada. Quando eu vou na ac ademia, nas universidades elas trazem mais aspectos do func ionamento do estágio e não tem aparecido tanto essa disc uss ão do projeto étic opolítico (Assistente Soc ial 01). Não. Eu não tenho ac ompanhado. Já vi uns dois livrinhos que tem sobre a c ons trução do process o ét ico-políticoprofissional que o CRESS enviou... Participei uma época do CRESS, de uma dis cuss ão sobre o process o éticopolítico, lá em Florianópolis. Também li alguma c oisa a respeito disso [...] eu era de uma comiss ão, eu e mais duas profissionais, e nessa époc a eu estudei um pouco. Mas eu s ei que a gente está bem distante destas questões. Seguindo como eixo central a questão da 84 ética, eu ac ho que o que norteia o nosso trabalho s ão as questões das famílias que a gente atende; tem o sigilo, os prontuários só são de aces so da equipe, as di scussões em tor no daquela família são feitos somente por profis sionais, então a gente tenta manter o máx imo de si gilo pr a que as famílias também não fiquem expostas. Mas não, não lembro de ter me antenado nesta questão do projet o ético-político profissional (Assistente Social 04). Estou bem dis tante desta disc uss ão [...] não tenho acompanhado de perto. [...] eu sinto que es tou distante dessa dis cuss ão, di scutindo. Eu pratic o, f aço, pratico, mas para dis cutir c om outros profissionais estou bastante di stante, não tenho ac ompanhado de perto, me dis tanciei um pouquinho disso ( Ass ist ent e Social 05). A principal questão que gira em torno do projeto ético-político da profissão é seu compromisso com a população, na pers pectiva de tornar- se um intelectual, na defesa teóric a e prática das alternativas que viabilizem o for tal eci ment o do saber e do poder popular no cotidiano. Em relaç ão à temática da violência contra a mul her , o projeto ético-político c onvida-nos a desempenhar o nosso papel de garantidores dos direitos, orientar essas mulheres em relação a seus di reitos, dis cutir com elas as estratégias de saída para essa situação de violência, encaminhá- las para os locais em que possam receber atendiment o efic iente e ter os seus direitos garantidos. Lutar por políticas que venham ao encontro de s uas nec essidades básicas e instigá- las a participar de movimentos que visem ao fim da violência e à conquista dos direitos das mulheres . Outra questão propos ta nas entrevist as foi s obre a utilizaç ão do Código de Ética no cotidiano profissional, para a qual recebemos as seguintes respostas: Na minha intervenç ão não utilizo. Não precisei , mas posso prec isar a qualquer momento, porque já aconteceu si tuações em que eu tive que intervir e a gente fic a meio que sem saber o que faz er. [. ..] Mas quanto ao Código de Ética, já se suscitou a curiosidade de dar uma olhada, 85 por situações de colegas profissionais, mas não minhas ; práticas minhas , não. De eu pegar o c ódigo de ética pra ol har se eu estava correto ou não, não. Porque o Código de Ética trabalha com ques tões mui to abertas, então pode se ter várias interpret ações . No cotidiano ele não dá sustentação profissional; da forma que ele es tá colocado, ele não dá. Agora eu também acho que não é o papel do código de ética fazer isto, não passa por aí, senão vai ter um monte de profis sional s endo proc essado por aí. A gente está aí que nem louco, batalhando pra que a população tenha uma condi ção de vida um pouco mais humana, um pouco mais justa (Assistente Social 04). A fala cita o Código de Ética c omo um instrumento que, além de ser utilizado no cotidiano deve ter os seus princípios internaliz ados pelos assistentes sociais. É justamente es sa idéia, “que eles vejam no Código não somente seu caráter punitivo, mas um instrumento privilegiado que permite à profissão expressar sua identidade étic o-política à sociedade (PAIVA et al, 1996, p.172). O Código de Ética fundamenta o projeto profis sional comprometido com uma nova sociedade. [. . . ] ao pro je t o social aí im p lica do qu e se con e cta o p ro j eto pr of iss ional d o Se rviço S ocia l – e ca be pe nsar a ética co mo pr es supos to teó ri co -p olíti co q ue re m et e par a o en f re nta me n to das co ntrad ições p os ta s à p rof is são , a par tir de u ma vi são c rí ti ca , e f un da m en ta da teo rica me n te, das d erivaç ões ético pol ít ica s do agir pro fis sio na l ( BON ET TI et al, p. 21 7) . Alguns dos entrevistados remeteram a resposta s obre a utilização do Código de Ética no cotidiano da prof iss ão ao sigilo profissional, es te foi destacado por dois profissionais : Acho que tu tens meio que internalizado os princípios. [...] Acho as sim, no dia- a-dia a gente procur a junto com os alunos , a questão do sigilo profissional. Ques tão de usar alguns princ ípios que fala de lutar pela igualdade sem discri minação, es tas coisas todas que tem nos princípios a gente procura fazer aqui, encaminhar isso com os alunos (As sis tente Social 01). 86 Já. Para proteger, o sigilo dos atendimentos individuais dos usuários (As sistente Soci al 05). Certamente o sigilo profiss ional es tá embutido no res peito ao usuário, aspecto garantido no Código de Ética, mas o sigilo por s i s ó não expressa o compromisso da categoria com os usuários. Outras mediações precisam ser estabeleci das para que a inc orporação da dimensão éticopolítica presente no Código de Ética seja garantida no fazer cotidiano: [. . . ] o Có digo d e É ti ca assu m e i mpo rtâ nci a f un da m en ta l po is ele po de se r u m in stru m en to legí timo para o es tab elecime n t o de n o rma s que b usq ue m gara ntir (d ent ro do s lim ite s ) u m re spald o à pr ática pro f is sion al. [ .. .] à pa rte op era tiva do código , q ue ap re se n ta n ão só a ta re f a d e tr adu zir e m d evere s e direitos os va lo res e leito s p ela ca te go ria pr o fiss ional , m as o desa f io de to rná - los m ai s pr ó xim os po ssíve l da r ea lida d e cot id iana dos pr o fiss ionais ( PA IVA et a l, 1 99 6, p .172 ). Outros três entrevistados alargaram a sua c ompreensão em relaç ão à utilização do Código de Ética, traz endo elementos que o caracterizam como um instrumento que se encontra pres ente nas suas aç ões cot idianas. Eu já tive. Na época em que fui gestora, fazer r eferência ao código de étic a muitas vezes. [...] até para estar chamando o profissional para o compromis so éticopolítico da profissão, no s entido de estar qualific ando, de estar saindo um pouc o da rotina [. ..] no s entido de es tar qualificando a própria intervenção, indo busc ar instrumentai s e instrumentalização para própria atuação. Para propor [... ] você tem que estar o tempo inteiro fazendo referência ao Código de Étic a e impuls ionando criação de novas polític as (As sis tente Social 03). No programa [...] a dis cus são da dimens ão ética é per manente nas reuniões de equipe e periodicamente realizamos a anális e de proc edimentos tomados durante a intervenç ão c om base no Código de Ética, por ex emplo, em relação aos princ ípios fundamentais ou no que tange às relações com os usuários ou c om os demais profissionais da instituição (Assi stente Social 06). Os depoimentos em tela refletem o componente éti co- político nas ações dos profissionais, mesmo não es tando c onscientes de sua utilizaç ão. 87 Ao identificarem no Código de Étic a um inst rument o que oferec e subsídios para a construção de propostas coletivas, qualifi caç ão profis sional e compromisso com os usuários, estão seguindo o compromis so étic o político proposto pela profi ssão. 2.4. – O TRABALHO DOS ASSISTENTES SOCIAIS: COTIDIANO DE LIMITES, POSSI BILI DADES E LUTAS O trabalho dos assistentes sociais s upõe, conforme BAPTI STA (1995, p.111) , pensar o cotidiano como “ [.. .] es paço privilegiado da intervenção profissional”. No cotidiano, as relações de produção e reprodução da vida social acontecem e os indivíduos expres sam as necessidades exigindo a atenção profissional imediata e mediata. No cotidiano, os indivíduos vivenciam seus sentimentos, fragilidades e potencialidades, bem como, nesse mesmo coti diano, estão colocadas as pos sibilidades, ou não, de construir respostas de enfrentamento às necessidades apres entadas . De acordo com HELLER (1992, p.17): A vid a co tidian a é a vid a do ho me m int eiro; ou se ja, o h o me m part icip a n a vida co tid ian a co m to do s o s asp ec to s de sua in d ividua lidade , de s ua per sonalida de. Nela, colo ca m- se “e m fu n ciona me n to ” t od o s os seu s se ntid os , to d as as suas capa cidad es in te le ctuai s, ma n ipulativas , seus se nt i me n to s , pai xões , id éias, ideo logi as. O fa t o de qu e toda s as su as capa cidad es se coloq ue m e m fu n ciona me n to dete rm in a ta mb é m , n atura lme n te , q ue n e nh um a de las po ssa re alizar -se , ne m de longe , e m tod a a su a in ten sida de. ( g ri fo s d a a uto ra) . No cotidiano, emergem os limites, desafios e oportunidades para o desenvolviment o do tr abalho do as sistente soc ial, daí decorre o imperativo de uma f ormação profissional consis tente e uma c ons tante atualizaç ão. 88 Quando YAZBEK (1999, p.97) fala dos desafios pos tos para a profis são na atualidade, ela enfat iza que “[ ...] novas situaç ões coloc am para a profissão novas exigências, o Serviço Social é obrigado a atualizar- se redefinindo estratégias e procedimentos, adequando- se a novas demandas e requis ições do mercado de trabalho” . Conhecer as necessidades, as demandas, os contornos e as potencialidades é c ondição primeira para um exercíc io profissional competente e comprometido com os usuários na c onstrução conjunta de alternativas e respos tas capazes de proporcionar condições para superação dos desafi os vivenci ados por eles . Considerando o cotidiano de trabalho dos assistentes sociais que atuam com mulheres vivendo sit uaç ões de violência, os sujeitos da pesquisa destacaram: É desgastante. Você gasta muita energia e não pode ter muita expectativa. O trabalho exige muito de você, a articulação com outras instituiç ões é difícil e s obra para você (Assis tente Soc ial 02). Eu tenho muita ansiedade [.. .] porque as pes soas vêm com demandas que, às vezes, o Serv iço Soc ial, a instituição não cons egue dar conta des se problema (Assistente Social 05). [...] os profissionais estão tr abalhando no seu limite [. ..] as equipes que trabalham com questões de ext rema vulnerabilidade, s eja violência doméstic a, sej a doença mental, ou s e tem uma as sess oria ou uma espécie de terapia para os profis sionais conseguir em des envolv er o seu trabalho com as mulheres (Assis tente Social 04). Os três entrevistados posicionam a complexidade da problemática com a qual trabalham, os limites instituc ionais e a fragilidade emocional que enfrentam no atendimento às mulheres que vivenciam situação de violência. Percebe-se na fala da assistente social 04 a expres são dos limites postos para a inter venção profissional, ao tempo em que propõe alternativas quando 89 salienta a necessidade de suporte técnico e psicoterapêutico para os profissionais que atuam em “ques tões de extrema vulnerabilidade”. No exercício profiss ional, é exigido aos assistentes s ociai s o enfrentament o de inúmer as ques tões que se expres sam através de necessidades que aparecem no dia-a-dia dos us uários e que demandam uma resposta. O assistente social, no atendimento às mulheres nes te caso, tem o papel de acolher a dor, o sofrimento e as humi lhações, oferecendo uma escuta qualificada, que exige preparo técnic o e psic ológico. Mui tas vezes, os limites insti tucionais, em seus mais variados fat ores (administrativos, técnicos, financeiros, etc.), inter ferem na dinâmica cotidiana de t rabalho dos assistentes sociais, entre outros profis sionais. Ess es fatores assoc iados à intensa demanda de trabalho e às dificuldades financeiras vividas por ess es profissionais, podem levá-los a uma desmot ivaç ão para inves tir em capacitação continuada e em suporte terapêutico. Ou s eja, enfrentam, a partir desses limites, um “certo impedimento” para (re) qualificar o trabalho cotidiano. Também se evidencia em outr os depoimentos as pouc as al ternativas das quais dispõem para o enfrentamento da violência contra a mulher : [...] o mai or desafio é ess e: eu não tenho pra onde mandar es sa mulher, ela vem aqui toda mac hucada e contamos c om a boa sorte, muitas vezes, de ela não voltar a apanhar porque veio aqui. (Ass istente Social 01). Há falta de rec urs os tanto de pessoal para atender melhor, como para as mulheres quando s aírem da casa. Exist e dific uldade para acess ar outros s erv iços do próprio poder público municipal, ficando dif ícil para encaminhar as mulheres (Ass istente Social 02). As próprias dificuldades instit uci onais. As políticas públicas, elas deveriam ser repensadas, porque elas pensadas de for ma tal, que não dão c onta de garantir os 90 mecanismos nec es sár ios pra es sa pessoa superar as condições em que ela se encontra. Dificuldades de ordem estrutural e de ordem organizacional da própria política. [...] a gente tem dificuldade para garantir a intersetorialidade nas políticas públicas (Assistente Social 03). Nas falas dos assistentes sociais 01 e 02 aparec e a angústia por não di sporem de serviços e programas complementares para encaminhar as mulheres. O serviço de atendimento sócio- jurídic o, onde trabalha o assistente social 01, ao atender mulheres que vivenciam situações de violência são orientadas para registrar a “queixa” na delegacia de polícia. O município não contava, na ocasião da pesquis a, com nenhum programa de apoio mater ial e/ou emocional, es tabelecidos como: abrigo, auxílio para pagamento de passagens, vale alimentação e outros tipos de benefícios que poderiam oferecer suporte à decis ão da mulher em afas tar- se imediatamente do companheir o agressor, caso ela não dis puses se de rec urs os própri os. A fala do entrevistado 03 menc iona que a f or ma como as políticas sociais estão sendo pensadas e executadas não vêm conseguindo oferec er al ternativas de superação para as mulheres atendidas. Enfatiza, poi s, a necessidade de implementação de relações intersetoriais entre as polític as sociais e, em decorrência, de relações interinstitucionais mai s articuladas. Com r elação às políticas sociais destinadas a mulheres que vivem si tuações de violência, a parti r da déc ada de 1970, evidenciou- se um avanço, que pode ser visualizado através da abertura das Delegacias Especializadas no Atendiment o às Mulheres, implantação de cas as abrigo e progr amas de apoio nas áreas psic ológica, social e jurídic a. Mes mo as sim, o si stema de proteção às mulheres que es tão vivendo situações de violência, tem assumido, ainda, um caráter residual na agenda públic a de atenção, caracterizando- se por ações fr agmentadas , is oladas, c om baixo poder de resolutividade. 91 Ao procurarem os serviços existentes com o objetivo de denunciar ou falar da situação de violência que estão vivendo, as mul her es acabam, muitas vezes, “sof rendo” um outro tipo de violência, que se manifesta pelos consideráveis limites institucionais e profissionais por ocas ião dos atendimentos prestados. Não se nega, por outro lado, os estudos e as iniciativas e experiências exemplares , envolvendo o poder públi co e a sociedade civil, na atenção as mulheres que vivem situaç ões de violênc ia. A produção teórica em diversas ár eas do conhecimento foi ampliada nas últimas três décadas. Segundo dados cons tantes no livro: “Bibliografia Estudo Sobre período f oram Violência Sexual Contra a Mulher: 1984- 2003”, durante este produzidos 1.173 tr abalhos s obre o tema, em língua portuguesa, no Brasil. Outro avanço es tá sendo a vinculação na mídi a através de novelas, seriados ou reportagens sobre a problemática da violência contra a mulher. Brasil hoje conta com Conforme citado no item uma Sec retaria Es pec ial 1.1. des te trabalho, o de Polític as para as Mulheres, além de realizações de conferênc ias de mulheres, a exemplo de 2004, nos âmbitos municipal, est adual e federal. Os assistentes sociais que trabalham no atendimento às mulheres em situação de violência, ao lado de outros profis sionais, têm o importante papel de pr opor, articular e executar políticas sociais , na bus ca de ul trapassar os limites e fr agilidades presentes nas realidades institucional, profissional e social. A proposição deve ser uma constante no fazer dos assistentes sociais, como uma condição indis pens ável para um exercício profissional comprometido. RODRIGUES (1996, p.92) enfatiza a impor tânc ia de os assistentes sociais est arem fornec endo respostas qualificadas para as demandas apresentadas, quando afirma que: [. . . ] o S erviço Socia l nece ssita rá e labora r resp o sta s qua li ficad as par a a s nova s de ma n das que h o je in te rag e m em seu e spa ço co tidia no. A n ão sup e ra çã o de ssa s difi cu lda de s 92 imp li ca n o ris co do e xe r cício p rof i ssio na l to rna r -se re sidua l, se m visi bilid a de t eór ic o- p rá tica . Os assistentes sociais entrevistados informam sobre a criaç ão de uma rede de atenção e atendimento voltada às mulheres em situação de violência: [...] desde agosto do ano pas sado (entr evi stado es tá s e referindo ao ano de 2003), começamos articular reunião da rede, é uma vez por mês a reuni ão. Tem todas as entidades que trabalham com a violência, para estar articulando, criando par cer ias . Mas é difícil, [... ] o pessoal está muito na sua, [.. .] eu faço até aqui, não faço mais do que iss o, ou às vezes nem faz (Ass istente Social 04). Então, aqui no município [...] tem uma iniciativ a junto com a universidade, tem uma rede de trabalho e de atenção, porque tem muitas pessoas que estão tratando de violência domés tica. Está a delegacia, o programa de proteção e prevenção à violência domés tic a; está o IML, estão os hospitais, está a Universidade com o trabalho sócio-jurídic o, tem o c entro especial que tem tanto o atendi mento sócio- assistenc ial, quanto jurídic o, para questão de encaminhamento da separação, guarda e tem várias outras questões que eles trabalham, inclus ive a mediação familiar também [.. .] (Assistente Social 06). Sem dúvida, a c onsolidação de uma de rede de atenç ão e atendimento a essa problemáti ca, possibilitaria um trabalho ar ticulado e for tal eci do em meio às relações institucionais e profiss ionais na perspectiva da garantia do conjunto dos direi tos (civis, polític os e sociais). Além disso, um trabalho em rede, nessa perspectiva, potencializa a ampliação de aces so a esses direitos, da autonomia, da participação, da mobilizaç ão e organização dos sujeitos envolvidos . Segundo Faleiros (1999), o trabalho em rede fomenta as condiç ões para a superação do sentimento de impotência frente as condições de trabalho colocadas para os as sistentes sociais ou então a onipotência de acreditar que o Serviço Social, enquanto pr ofissão, tem condiç ões de mudar 93 tudo. O trabalho em rede significa uma nova forma de atuação na área social. Ai nda sobre o trabalho em r ede MACIEL, (1997, p. 90) destaca que uma “rede pressupõe articulação, int ers etorialidade, transitorialidade, revela uma forma de gest ão mais fl exível, com maiores c ondições de participação”. A superação de ações isoladas é um caminho a s er construído, indo al ém da implantação de delegac ias especializadas ou abr igos para as mulheres que estão vivendo situaç ões de violência. Um s erviço de rede para atender às mulheres em situação de violência requer , minimamente, a implantação de: casas abrigo, dis que- denúncia, programas de apoio psicológico, social e jurídico, atendimento para os agressores, s empre na perspectiva interdisciplinar. Com r elação às Delegac ias Es pecializadas para Mulheres, deveriam ser implantadas nos municípios de médio e grande porte e, sobretudo, dispondo de equipe técni ca especializada. Nos municípios de pequeno porte, uma alternativa pode ser a implantaç ão de c onsórcios intermunicipais e/ou a capacitação dos servidores da área de seguranç a pública que atuam nas delegacias de polícia. Por outro lado, as falas dos assis tentes sociais 04, 05, 06 evidenciam a dificuldade de articulaç ão como principal problema para a constituição de uma rede de atendimento na problemática da violênc ia contra a mul her . Salientam as posições individualistas dos profiss ionais e das di ferentes instituições que acabam criando empecilhos para o funcionamento de um trabalho em rede , que atenda às mulheres em situação de violência e suas famílias. Esse trabalho deve pautar- se num debate amplo frente aos objetivos, às competências e às atribuições es pecíficas, envolvendo as instituiç ões e os profissionais . Uma vez evidenciada a neces sidade de gar antir um trabalho de rede na atenção e atendimento às mulheres em situação de violência, não se 94 pode perder de vista a totalidade na atenção aos demais segmentos sociais , a fim de não corrermos o risco de fragment ar e focaliz ar, ainda mais, as ações s ócio-assistenciais no campo da polític a social. Hoje, enfrenta- se o des monte das políticas sociais. Garantir ações sócio-assistenciais nesse campo com qualidade, res olutividade e amplitude no atendiment o, são resultados “ainda dis tantes ” de serem alcançados . Um fat o curi oso, no decorrer da pesquis a foi: a montagem de uma cesta básica com alimentos, que são fornecidos exclusivamente para a manutenção das usuárias que estão abrigadas, a ser transferida para uma das mulheres que há alguns dias deixou o abrigo. Considerando esse fato, o assistente social relatou que o auxílio financeiro que a Prefeitura Municipal fornece para as mulheres quando deixam o abrigo é insuficiente diante das dificuldades materiais enfrentadas por essas mulheres. Relatou também que a Secretaria de Saúde, responsável pela manutenção do abrigo, desconhece tal iniciativa: Não. O pess oal da Secretaria Munic ipal nem imagina, mas nós aqui na casa pegamos o que sobrou e damos um jeito. É oferecido par a a mulher um vale, mas nes te caso a famí lia é grande, o dinheiro não dá. Então a gente pega as sobras de leite, v erduras e outras coisas que não v ão faltar aqui e levamos pra elas ( Ass ist ent e Social 02). O depoimento a seguir tr az out ros elementos que nos permitem ir desvelando o desmonte das políticas publicas , que estão na contra mão da garantia dos direitos e do exercício da cidadania: [...] tem a própria questão institucional, as dific uldades financei ras , que por mais que a gente sabe que aquela família não tem rec urs o nenhum, mas o rec urs o que a gente dá é muito paliativo. [ ...] Outra situaç ão complicada, os recursos de capacitação, geração de emprego, são muito carentes , a gente não consegue encaminhar, quando encaminha a gente sabe que es se curso não vai ter retorno para estas mulheres, então ela não vai conseguir se emanc ipar (Assistente Social 05). 95 Essa realidade, que afeta as políticas s ociais na at ualidade, exige dos assistentes sociais competências para ampliar e (re) qualificar, nas ordens dos recursos financeiros, físicos e humanos , o trabalho profiss ional. Cabe salientar que, mesmo viáveis tecnicamente, os programas , projetos e serviços, podem constituir -se politic amente inviáveis na direção de alargar e fort alecer os direitos e a cidadania das quais as mulheres e demais segmentos são titulares. Romper barreiras e limites institucionais , nessa di reção, impõe aos assistentes soci ais o grande desafio de mediar o projeto ético-político profissional com os projet os ins titucionais. Uma proposta de trabalho comprometida com a garantia de direitos deve estar pautada no atendiment o às demandas das us uárias , sempre levando em consideração as c ondições de trabalho dos as sis tentes sociais e as contradições postas no cotidiano. O perigo do ativismo, a falta de tempo para es tudar, assi m como as di ficuldades para sistematizar as experiências relac ionadas ao cotidiano do trabalho profissional são citadas nos depoimentos dos entrevistados 01 e 05: [...] eu acho que a gente tem que s e cuidar, porque acaba ficando mes mo no ativismo. A gente não pára pra pensar, não pára pra estudar , s empre diz que não tem tempo. Ac ho que em algumas ocasiões não tem, mas outras a gente não prioriza e acho que hoj e este é o grande nó da prof iss ão. A gente não escreve s obre aquilo que trabalha. A gent e tem c oisas tão ric as que acaba se perdendo. Agora o que mais preocupa é que tu acabas achando tudo meio corriqueiro (Assistente Social 01). A gente es tá sempre lutando, sempre buscando aperfeiçoar, busc ando ler para não se perder e era uma coisa que a noss a s ecretária pegav a muito no pé. Vocês fazem tanta coi sa, mas vocês não botam no papel. Ent ão assim, a noss a met odologia acaba s e perdendo, mas a gente sempre está buscando, sempre tem que se aperfeiçoar e não perdendo, mes mo que o cotidiano nos massacre [...] (Ass istente Social 05). 96 Nas falas dos entrevi stados aparece a importânc ia da sistematização sobre o trabalho profissional. A rotina e a sobrec arga de tr abalho são destacadas como impeditivos para os as sistentes sociais es tarem refletindo e produzindo sobre a intervenção profis sional. Em relação às rotinas no cotidiano dos ass istentes s ociai s, BAPTISTA (2001, p. 118) defende que: [. . . ] re pr odu ção siste má ti ca de a ções e ro tin a s, ao m e smo te mp o q ue p od e co n stitu ir em li mite s p ara a açã o pro fi ssio nal, abre a p ossib ilid ad e de con sid eráveis ava nço s na me d id a e m que imp lica imp o rta nte s g an ho s p si coló gico s, ao tor nar desn ece ssá rio s q ue cad a situa ção se ja d ef inida a ca da vez, et ap a por eta pa , po ssibilit an do que a ativida de p ros siga co m u m mí n i mo d e t ensõ e s e decisõ e s e , co m isso , li be rand o ene rgia pa ra outr as d ecisõ e s e in ovaçõe s. O pr oble ma d a ro tina p orta nt o n ão es tá nela pró pria – ela é a lg o ne ce ssár io – m as no fa t o de ela ser imp o st a co mo f im , e m d etr im e nto do re al enf r en ta me n to das que st õe s e do pro ces so de cr ia ção e re no va ção d e conhe ci me n to e p rá tica s. Os assistentes sociais poderiam utilizar os registros sobre o s aberfazer, o que vai auxiliar na superaç ão de pr átic as imediatistas, ganhando espaços de poder dentro competente que detêm. no manusei o dos das ins tituiç ões a parti r do conhecimento O saber fazer exige dos profis sionais competência instrumentais técnico-operativos que são parte da intervenção dos assistentes s ociais . Foram citados pelos entrevistados os principais instrumentais técnico-operativos utilizados na intervenção profissional: [...] reuniões, entrevistas, os relatórios, os pl anejament os , as abordagens individuais e coletiv as, trabalho com família, os indicadores de impact os , a construção dos indicadores [. ..] (Ass istente Social 03). Atendi mento individual, atendimento interdisciplinar com a psicologia. Um aspecto fundament al é visi ta domiciliar, abordagem com a vizinhança, entrevis ta ins titucional, a 97 observação, as reuniões com a rede, as reuniões [...] e as palestras nas comunidades (Assistente Social 04). Vi sita domiciliar, atendimento individual, prontuários. Acho que a gente usa pratic amente todos. Eu tento utilizar na medida do pos sív el estar utilizando (As sis tente Social 05). No programa [... ] utilizamos: ass essoria, planejamento, pesquisa, avaliaç ão, reunião, entrev ist a, observação, encaminhamento, documentação (parecer soc ial, relatório, diário de campo), técnicas de grupo selecionadas e reconstruídas considerando as finalidades de cada ação e materiais produzidos pela equipe (jogos, folder, painéis , etc.) e a informática (Assistente Social 06). Eu utilizo a reunião, o planejamento, o prontuário de registros a partir do atendimento, da es cuta e da acolhida, que é o estudo do diagnóstic o social. Eu utilizo a leitura e o es tudo, a visita domic iliar que também é um instrumental (Assi stente Social 07). A dimensão técnico-operativa s upera a simples utilizaç ão de instrumentais e técnicas, em razão de que ela não acontec e des vinculada das outras dimensões que compõem a profi ssão, dimens ão ético-polític a e teórico- metodológica. no dia-a-dia uma Os assi stentes s ociais gama variável de 03 , 04, 05, 06 e 07 utilizam instrumentos - procedimentos operacionais. Os procedimentos técnico- operativos não ficam restritos ao atendimento individual, mas são ampliados para uma cons trução mais crític a e col etiva, quando são destac ados na fala do entrevistado 06: “a construç ão de indicadores, assessoria, planejamento, pes quisa e a avaliação”. O pl anejamento citado nas três falas destaca uma exigênc ia que a atualidade tem post o para os assistentes sociais na perspec tiva de atuarem como gestores sociais. A construção e (re) construção de téc nic as/ dinâmi cas de trabalhos de grupos demonstra um compromiss o profis sional no atendimento, pois est e não é estático e nem homogêneo, momento e das circunstâncias. modific a- se dependendo do 98 O Serviço Social carac teriza-se como uma profissão eminentement e interventiva, tendo os assistentes sociais a tarefa de responder às demandas sociais cot idianas através da competênc ia. Essa natureza interventiva da profissão exige dos prof issionais a utilizaç ão de instrument os e técnicas , articuladas com as dimensões : teórica, ética, e política que c ompõem o exercício profissional. A pesquisa f oi outro ins trumental c itado por dois profiss ionais , como um recurso que deve ser utilizado no cotidiano de trabalho: [...] acabamos deix ando as pes quis as entre as pas, muito em nível de trabalho de conclusão de c urs o e a gent e acaba não trabalhando com elas porque não temos tempo. [...] não sei se não temos tempo ou a gente não prioriza (As sis tente Social 01). A própria pesquis a, porque na medida que a gente vai fazendo as interv enções proc ura sis tematizar os dados pra gente poder estar reav aliando a política e qualificando (Ass istente Social 03). O Serviço Social oc upa uma posiç ão na divisão sócio-técnica do trabalho, lugar que foi cons truído historicamente “pelo tipo de relações e respostas que seus profissionais foram produzindo face às ques tões e aos desafios postos, no seu âmbito de intervenção” (BAPTISTA, 1995, p. 93). Existem limites que estão presentes no c otidiano dos as sis tentes sociais e que demandam ações imediatas, mas os horizontes desses limites podem ser alterados e para que isto seja conc retizado os profis sionais neces sitam estar atentos às mudanças na realidade cotidiana na qual atuam. pesquisa é um instrumento que possibilita aos ass is tentes A sociais explorarem o seu universo de tr abalho, conhec endo com mais profundidade a realidade cotidiana dos usuários , ins tituição, etc, e, cons eqüentemente, produzindo conhecimento, retroal imentando o faz er. 99 Os assistentes sociais no seu espaço de trabalho detêm inúmeras informações e conheciment os s obre os usuários. Incorporar as informações obtidas, sistematizando os dados , c onf orme aparece na fala do entrevis tado 03, pode qualificar a intervenção e fornecer elementos para os profis sionais proporem e negociarem novas alternativas de atuação. A pesquisa é um instrumento de trabalho que es tá presente no dia-a- dia dos assis tentes sociais, não sendo delegada apenas aos profissionais que estão na academia, podendo orientar cons eqüentemente a int ervenç ão, desvendando a realidade e eliminando os ris cos de uma ação empiricis ta, reiterati va e ativista. A sistematização das inf ormaç ões faz com que elas s ejam além de meras estatísticas gerais, dando uni dade para as informações e ampliando a análise da complexa realidade s ocial. Sobre a valorização dos espaços ins titucionais enquanto lócus privilegiado de construção de saber, NICOLAU (2003, p. 01) explic ita que: O f azer pro fi ssio nal, nos esp aço s in stitu cionais , nã o é re conhe cid o so cial me n te co mo esp aço de c on st ru çã o de sabe r; e m con seq üê n cia, es te f a zer p ode se r re duzido à apl icaçã o d e té cni cas qu e p resc inde m do di scurso teó ri co, imp li can do na n ão-con st ruçã o do sa ber [. .. ]. Sã o po u cas as pr od u çõ e s na ár ea d o Ser vi ço So cia l, o ri un da s d e pesq uisa s sob re o fa zer-p ro fi ssio na l, con st ru ídas p or pr o fis si ona is desvin cu la do s d a aca de m ia , e m re laçã o ao nú me r o de o br a s que t ra ta m do deve r- s e d o f aze r-p ro f iss io nal [ . .. ]. Discorrido até aqui acerca do trabalho dos assis tentes sociais no atendimento às mulheres que estão vivendo situações de violência, percebese que muit os são os limites, as possibilidades e lutas postas no cotidiano, tanto no âmbito da instituição em que se trabalha, do profis sional que “se é” e que “se almeja ser” , quanto no âmbito das si tuações e condições reais, particulares a cada mulher atendida por es tar vivenciando a problemátic a da violência contra si. 100 CONSIDERAÇÕES FINAIS A realização deste estudo além de ter possibilitado um conhecimento mais sistematizado necessidade de sobre o objeto proposto, construir e desc onstruir também c onc eit os e signific ou de a enfrentar contradições enquanto pessoa e profis sional. Ouvir os profi ss ionais nas entrevistas individualmente, propiciou-nos uma experiência diferenciada da vivência do cot idiano de trabalho dos profissionais, locus onde se exprime o debate, a crítica, o fazer ou o não fazer. As discus sões a res peito dos aspectos trabalhados nest e estudo são muito vivas, não podendo ser aqui concluídas, e nem este é o objet ivo. O que apres entamos, nes te momento, são pontos de chegada relativ os e que não podem ser interpretados como uma conclusão definitiva, e sim fruto de um determinado olhar e momento hi stórico, o que faz com que es te trabalho soc ialize algumas questões e reflexões que foram sendo construídas ao longo des se processo. A realidade apresentada pelas instituições e profiss ionais que trabalham no atendimento às mulheres que estão vivendo em situações de violência evidenciou inúmer as adversidades que ainda precis am ser superadas. Em relação às dificuldades ins titucionais, a pesquis a evidenciou que os programas ou serviç os de atendimento para as mulheres estão apresentando inúmeros problemas e nec es sidades : estrutura física inadequada: em alguns cas os os loc ais onde estão funcionando os programas /s erviç os, foram construídos faz algum tempo e desde então não receberam nenhum tipo de trabalho de conservação, encontrando- se em péssi mo estado de c onservação. A garantia de local adequado para o atendimento às usuárias deve ser 101 uma luta dos profissionais. As mulheres em situação de violência vivem em um mundo de dor, s ofrimento e humilhação, retratado na baixa auto- estima delas . Of erec er- lhes um espaç o “bonito” e digno, onde elas possam ser atendidas, é o mínimo a ser proporcionado a essas usuárias; número de profissionais técnicos insuficiente: o númer o reduzido de profissionais que trabalham nos locais de atendi mento não dá conta de atender c om a qualidade necessária a demanda apresentada. O cans aço físico e mental dos profissionais acaba repercutindo no seu trabalho. Os programas /serviç os de atendimento necessitam ter uma equi pe téc nic a compatível com o que a demanda exige, pois, do cont rário, corre- se o risc o de fazer de c onta que se atende. falta de políticas sociais: as políticas sociais par a mulheres ainda não são consideradas c omo prioridades nos planos de governo, dependendo do jogo de interesses em disputa. Nesse aspecto, os assistentes sociais têm um papel importante para exerc er, que é o de propor , f ormular e execut ar políticas sociais para mulheres . A participação em Cons elhos de Dir eitos e em fóruns de disc ussão é um dos caminhos e deve contar com a partic ipação dos profiss ionais . As políticas sociais não vão surgir como num passe de mágica, elas demandam lutas e negociações; dificuldades para o trabalho em r ede: a falta de um trabalho em rede para o atendimento das mulheres em situação de violência acaba dificultando ainda mais o trabalho dos profiss ionais , provocando não raras vezes uma revitimiz ação das mulheres e desgast e, às vezes, desnec es sário para enfrentament o da violência c ontra a mulher, os profissionais. No faz- se necess ária a 102 reunião de órgãos, programas, projetos e recursos de divers as áreas, em virtude da complexidade do f enômeno. A arti culação e colaboração dos serviços através da formação de parcerias vão compor a rede de atendi ment o para as mulheres em situação de violência, oferecendo- lhes uma assis tência integral. As aç ões devem ser sistemáticas e continuadas , o que vai qualific ar a intervenção frente a essa questão; legislação inadequada ou insuficiente: hi storicamente a violência contra a mulher não foi abordada como um crime, is to acaba refletindo na forma de “puni ção” que o agressor recebe; geralmente, são penalidades leves como pres taç ão de ser viços à comunidade ou for necimento de cestas básicas. O que acaba não inibindo os atos de violência praticados. A Lei 9.099, de 26/09/1995, dis põe sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais, onde são atendidos os cr imes cuja pena máxi ma não supera 01 ano. A lei acaba minimizando os atos de violência praticados contra as mulheres , quando estes s ão tratados como “cri mes de menor potencial ofensivo”. A lei acaba não garantindo a integridade físic a das mulheres e nem lhes oferece segurança de punição para os agr es sores . Esta situaç ão acaba por imobilizar os profissionais, quando es tes t rabalham com as mulheres o incentivo à denúncia, a busca dos seus direitos, mas encontram uma legislação que não responde às necessidades reais das usuárias. Neste aspecto, c abe aos assist ent es sociais artic ularem- s e com outros profissionais e movimentos sociais de mulheres na luta por um sistema legal de proteç ão mai s efetivo e cons truído sob uma perspectiva de gênero; delegacias sem quadro descaso do poder público técnico: a pesquisa demonstr ou um com as delegac ias es pecializadas no 103 atendimento às mulheres , onde o quadro de funcionários é formado na sua maioria apenas por policiais. São raras as delegacias que contam com o trabalho de algum técnico. A superação de ações isolada deve s er um caminho a ser c onstruído, indo além da implantação de delegac ias especializadas ou abrigos para as mulheres que estão vivendo situaç ões de violência doméstica, mas atuando como responsável pela proposiç ão, implantação e consolidaç ão das políti cas sociais. A sociedade civil tem a s ua parcela de r esponsabilidade, que poderá ser exercida através da participação e fiscalizaç ão em diferentes instâncias, exi gindo que o Estado cumpra o papel de ges tor das polític as sociais. Os assistentes sociais que têm s ua intervenção na problemática da violência contra a mulher necessi tam ser propositivos, criat ivos e comprometidos. O exercício profiss ional, por sua vez, não pode ter um caráter de onipotência ou, em out ro extremo, de imobilidade ou inérci a. Superar uma tendência ao is olamento ou à onipotência seria uma das al ternativas no trabalho com mulheres em situaç ão de violênc ia, segundo Camargo & Aquino (2003). Com r elação à intervenção dos assis tentes sociais, a pesquis a mostr ou que relacionadas a ao profissão neces sit a cotidiano, es paç o incluir onde na se sua agenda encontram refl exões diretamente relacionados o saber e o fazer profissional. Nas falas foi evidenciada a di stância entre o conhecimento teóri co sobre a temática da violência contr a a mulher e o fazer dos assistentes sociais de c ampo. Estes s e ressentem por não estarem encontrando subsídios teóricos na profiss ão. Ao mesmo tempo em que se colocam como interl ocutor es, têm cons ciênci a de que o des afio de produzir sobre o fazer profi ssi onal também é tarefa deles, mas ainda delegam para a academia a res ponsabilidade. Por sua vez, a academia não tem respondido a contento. 104 Sobre esta questão, NICOLAU (2003, p.01) argumenta que: [. . . ] sã o po ucas a s pro du çõe s na áre a do S erviço Socia l, or iun das de pe squisa s so b re o f azer- p ro f iss io n al co n str u íd as por p ro fi ssiona is de svincu la do s da a cad e mia , e m relação ao nú me r o de ob ra s que t ra ta m do deve r- ser do faze r-pr ofi ssi on al cons t ru íd as p or pro fe s s ore s, p esq uisa dor es , ou aluno s de pó sgr ad ua ção. O ritmo de trabalho impos to aos assis tentes sociais no cot idiano acaba limitando o process o reflexivo s obre as ações, decisões, encaminhamentos e sobre os res ultados que a intervenção es tá obtendo, podendo dificultar ou não um exercício profiss ional propositivo, inovador e criativo. Os profissionais falaram de s uas insatis faç ões profissionais em razão de não possuírem apoio institucional e est arem trabalhando emocionalment e fragilizados, s em condi ções de oferec er suporte para as mulheres. Para atender à demanda posta no dia-a-dia e que apres enta um nível de tensão, os profissionais necess itam estar em condições de desempenhar adequadamente o seu trabalho e precisam ter motivação para estarem em constante atualizaç ão, res pondendo adequadamente às necessidades apresentadas pela populaç ão. As instituições nem s empre têm condições ou interesses em atender as demandas pos tas pelos usuári os, contudo os profissionais são diretamente atingidos pelas exigências que são colocadas pela reali dade das mulheres que estão vivenciando situações de violência por parte de seus companheiros . Cabe, em última ins tância, ao assistente social a busca de s oluções para os problemas que aparecem no cotidiano do seu exercício profiss ional. Um dado significativo, observado nos depoimentos, está rel acionado ao Código de Ética, quando es te ainda está sendo visualizado c omo um conjunto de normas e regras, que tem como princ ipal função manter o sigilo ou o caráter de punição. 105 As dimensões da profiss ão foram enfatizadas c omo importantes pelos as sistentes sociais entrevistados. Acentuaram o caráter interv ent ivo da profissão, quando consideraram que é a dimensão técnico-operativa que proporciona visibilidade para o trabalho, mas a impor tância de consistência teórico- metodológica para a compreens ão e superação dos limites enfrentados no cotidiano foi destacada. Mes mo assim, ficou evidenciada a necessidade de maior aprof undamento teórico por parte dos profiss ionais entrevistados no que tange tanto à temática da violência contra a mulher quanto sobre o fazer profissional. A relação teoria- prática ainda é di cot ômica, sendo refletida na intervenç ão. Um fazer profissional sem consistência teórica poderá ocasionar ações f ragmentadas e embas adas no senso c omum. Cabe destacar que essas questões precis am ser trabalhadas na for mação acadêmica e continuada dos profissionais , assim c omo pelos órgãos r epr esentativos da categoria. A formação profissional deve pautar- se na quali ficação teórica, ética, política e operativa dos ass istentes soc iais, possibilitando embasamento sólido para a construção e reconstr ução de propostas qualificadas par a res ponder às reais neces sidades postas no cotidiano da intervenção. O compromisso dos profiss ionais com a formação continuada ficou evidente da parte de todos os ent revis tados . O res ult ado evidencia que os denominados “profissionais de campo” têm preoc upaç ão c om a atualização e não são acomodados. Quant o ao proj eto ético- polític o da profissão, os depoimentos evidenciaram uma cisão, sendo que a maioria dos entrevistados relatou não acompanhar as discussões. Ao que par ece, para os profis sionais entrevistados, o projeto ético-político não foi introjetado, nem mes mo no pl ano do discurso. 106 Ao final, concluímos que a profissão tem um árduo caminho a percor rer no que diz respeito à interv enç ão frente a violência c ontra mulher , tanto na perspectiva de assumir com mais ênfase a disc uss ão sobre relaç ões de gênero, poder e violência contra a mulher, quanto na produção teórica sobre o fazer prof issional dos as sis tentes sociais. A pesquisa evidenciou que profissionais têm realizado uma intervenç ão comprometida e ric a em el ementos para a reflexão e construç ão de propostas de trabalho, mas não têm conseguido estabelecer medi ações entre o saber e o fazer cotidiano, o que pode levar os profissionai s ao ativis mo e a reproduzir a dicotomia entre a teoria e a prática. Um es forço em ultrapas sar a separação entre os profissionais que f azem e aqueles que pens am se faz nec es sário dentro da profissão. Por fim, é precis o regis trar que, mes mo diante de tantos obstáculos no dia-a- dia dos assistentes sociais , estes têm demons trado interesse e preocupação com o fazer cotidiano, com a for mação c ontinuada e com a qualidade nos serviços prestado às dos às mulheres que es tão vivendo situações de violência. 107 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, Suely de Souza de. Femicídio: algemas (in) visíveis do públicoprivado. São Paulo: Revinter, 1998. ARCOVERDE, Ana Cristina Brito. “Ques tão Social no Brasil e Serviço Social”. In: Capacitação em Serviço Social e Política Social – Program a de Capacitação Cont inuada para Assistentes Sociais . Módulo 2. Brasília: CFESS/CEAD/NEB- UNB. 1999, p. 74-81 AZEVEDO, Maria Amélia. Mulheres Espancadas: a viol ência denunc iada. São Paulo: Cortez, 1985. BAPTISTA, Myriam Veras. A ação profis sional no cotidiano. In: O Uno e o múlti plo nas relações entre as áreas do saber. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2001, p. 110-121. BENEFICÊNCIA CAMILIANA DO SUL. 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