UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA 4ª Semana do Servidor e 5ª Semana Acadêmica 2008 – UFU 30 anos SOBREVIVENCIA DO GÊNERO DA PAISAGEM NA ARTE CONTEMPORÂNEA: UM ESTUDO DE CASO João Paulo de Freitas1 Faculdade de Artes Filosofia e Ciências Sociais (FAFCS)/ Departamente de Artes Visuais (DEART) – Av. João Naves de Ávila, 2121, Campo Santa Mônica, bloco 1I, Sala 27 e-mail: [email protected] Renato Palumbo Dória2 Faculdade de Artes Filosofia e Ciências Sociais (FAFCS)/ Departamente de Artes Visuais (DEART) – Av. João Naves de Ávila, 2121, Campo Santa Mônica, bloco 1I, Sala 27 e-mail: [email protected] Resumo: O presente trabalho surge da necessidade de identificar e compreender no campo da cultura visual moderna e contemporânea as presenças, transformações e mesmo recusas aos chamados ‘gêneros tradicionais’ da arte especificamente o gênero da Paisagem, buscando desta forma desenvolver uma pesquisa bibliográfica e um levantamento de obras que estabeleça a presença e sobrevivência do gênero e do conceito da Paisagem na arte contemporânea brasileira, analisando desde os aspectos característicos do gênero, e seu percurso através da historia da arte no Brasil, até sua presença na contemporaneidade - refletindo sobre os modos pelos qual esta sobrevivência se dá e também, indiretamente, fornecendo subsídios para uma compreensão mais integrada do desenvolvimento das artes visuais no país. Palavras-chave: Paisagem, Arte Contemporânea, Gêneros, Arte Moderna. 1. INTRODUÇÃO A modernidade do século XX parece ter superado, ou ao menos subvertido, os paradigmas dos ‘gêneros’ artísticos, deixando em grande medida de fazer sentido um entendimento da arte fracionado nas distintas tradições do Retrato, da Natureza-Morta, da Pintura Histórica e da própria Paisagem, entre outros. É fato, no entanto, haver se dado uma sobrevivência destes mesmos gêneros, ainda que velada, durante esta mesma modernidade, sendo perceptível, na produção artística internacional e brasileira mais recente, senão propriamente uma retomada da noção de gêneros, ao menos uma aceitação tácita, e por vezes, inconsciente, do uso de alguns de seus códigos. O gênero da paisagem teve uma presença muito forte na constituição da arte brasileira, desde seu emprego pioneiro pelas mãos dos artistas holandeses comissionados por Maurício de Nassau, depois por seu uso entre os chamados ‘artistas-viajantes’ e ‘artistas-naturalistas’ (já desde o século XVIII), e também na constituição de um imaginário imperial e, depois, republicano. 1 2 Acadêmico do curso de Artes Visuais Orientador Na cultura visual brasileira do século XX, a preocupação com este olhar sobre a paisagem, natural e social, seria uma tópica fundamental das aspirações modernistas, sendo o gênero da paisagem recorrente na poética de artistas distintos, tais como Cícero Dias3 (FIGURA 1), Oswaldo Goeldi, Alberto da Veiga Guignard (FIGURA 2), Tarsila do Amaral e Lasar Segall, entre outros. Aqui, a linguagem visual se tornaria um recurso simultâneo de descoberta e invenção desta paisagem local, mais afetiva e pessoal do que propriamente ‘nacional’ - embora as imbricações entre a temática da paisagem e os esforços de compreensão e construção de uma identidade nacional continuem também a se dar. Figura 1: Cícero Dias: Eu vi o mundo, e ele começava no Recife, 1928 (detalhe). Figura 2: Alberto da Veiga Guignard: Paisagem, 1938. Uma exposição como à realizada pelo Britsh Council, entre 2004 e 2005, em São Paulo e no Rio de Janeiro, e intitulada justamente STILL LIFE – da qual participaram artistas contemporâneos brasileiros e britânicos – pode dar-nos uma idéia da força que a reutilização do conceito dos gêneros vem assumindo nas últimas décadas. Reutilização que, é necessário que se diga, não deriva apenas do devaneio de curadores, críticos e historiadores desavisados, mas sim, efetivamente, das práticas dos próprios artistas4. 3 Seu famoso painel, por exemplo; Eu vi o mundo, e ele começava no Recife; de 1928, e medindo 15 metros de largura, se estruturaria sobretudo como uma grande cena de paisagem urbana. 4 Os artistas brasileiros presentes na exposição foram: Regina Silveira, Geórgia Kyriakakis, Iran do Espirito Santo, Nina Moraes, Ernesto Netto, Shirley Paes Leme, Silvia Mecozzi, Regina Vater, Paulo Climachauska, Laura Vinci, Antonio Henrique Amaral, Guto Lacaz, Elias Muradi, Cristina Rogozinsk, Júlio Schmidt, Nina Moraes, Pazé, Sandra Tucci, Marcia Zavier, Beatriz Milhazes, Fátima Nader, Flávia Ribeiro, Leda Catunda, Regina Carmona, Valeska Soares, Alex Flemming, Beth Moyses, Shirley Paes Leme, Paulo Buenoz, Jac Leirner, Luiz Zerbini, Vicente de Mello. 2 Em seu trabalho “Degradês Porto Alegre”, por exemplo, realizado em 2005, a artista plástica Lucia Koch cobriu três portões de um armazém com lonas de vinil translúcido encobrindo a visão que o espectador teria da paisagem externa do galpão, a luz natural ao ser filtrada por estas lonas coloridas criavam degradês que evocavam diferentes sensações no espectador por meio das cores, entretanto uma leitura inevitável deste trabalho relacionava-se com a impressão de se estar diante de diferentes paisagens, exatamente onde estas se mostravam ausentes. Já em Sobreamargem - ações e revelações em território demarcado, instalação de Clóvis Martins Costa (FIGURA 3) apresentada em julho de 2005 na Pinacoteca do Instituto de Artes da UFRGS, a mescla de imagem e tecnologia aponta para novas possibilidades de interação, as quais não deixam de constituir, contudo, um diálogo com a tradição do ‘Panorama’ do século XIX e mesmo com o ‘trompe-l’oeil’ de séculos precedentes5. Figura 3: Clóvis Martins Costa, Sobreamargem - ações e revelações em território demarcado, 2005, Instalação. Se trabalhos contemporâneos de caráter conceitual, como os de Lucia Koch ou Clóvis Martins Costa, nos convidam a refletir sobre em que medida o gênero em questão, aparentemente ‘obsoleto’, ainda parece persistir, de modo quase velado ou alegórico, nas poéticas de alguns artistas contemporâneas brasileiras, é preciso perceber, contudo, que a sobrevivência da noção artística da ‘Paisagem’ também se dá, hoje, de modo direto, através de poéticas que recuperam, sem pudor, vertentes figurativas, realistas, e mesmo decorativo - sem deixar por isso de serem também contemporânea - como no caso das pinturas de um Luiz Zerbini ou de uma Beatriz Milhazes6. 2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 5 "Sobreamargem - ações e revelações em território demarcado, é o resultado de minha pesquisa em poéticas visuais concentrada na produção de imagens e textos, que constituíram os trabalhos realizados ao longo dos últimos cinco anos. O pensamento que focaliza esta produção está estreitamente vinculado à minha relação com o lugar escolhido para uma série de ações e revelações que nascem de uma inserção direta com a paisagem. O local demarcado para realizar este projeto é delimitado por uma enseada que se estende do início da Avenida Guaíba até o morro do Sabiá, na zona sul de Porto Alegre. Uma faixa de margem de rio de aproximadamente 400m.", Clóvis Martins Costa, in http://www.ufrgs.br/galeria/ANO2005.html 6 Um artista como Vik Muniz, que faz das próprias propriedades da imagem e da visão tema de sua poética, merecerá uma análise especial neste contexto. 3 Durante o levantamento bibliográfico procurou-se selecionar obras que caracterizassem e descrevesse o conceito de paisagem estabelecendo de que forma este gênero se manifestou através de diferentes vertentes estéticas. Para isto foi necessário traçar um percurso histórico que nos conduziu até o século XVII nas pinturas de artistas holandeses do período. Paralelamente realizouse um levantamento de obras de artes executadas por artistas brasileiros contemporâneos que se utilizem do conceito da Paisagem sendo feitas análises comparativas entre estas obras e as obras de períodos anteriores buscando perceber suas similitudes e singularidades. Outro objetivo foi tentar perceber, no âmbito do conceito de paisagem, como este se vincula as determinadas construções culturais e históricas, expressando diferentes concepções de mundo. Atualmente a pesquisa encontra-se na fase de catalogação de obras, exposições e trabalho artísticos atuais onde o conceito da paisagem pode ser reconhecido. Observamos um interesse muito grande por parte de pesquisadores de diversas áreas sobre aspectos da relação do homem com a paisagem no campo das artes visuais esta preocupação se apresenta também em algumas curadorias, um exemplo disso pode ser constatado na exposição promovida pela British Council7 no Brasil. Esta exposição abordou exatamente a questão das ‘reinterpretações’ dos gêneros tradicionais por artistas contemporâneos. Pode-se observar como a idéia de gênero, aparentemente superado, ainda apresenta inúmeras possibilidades para os artistas contemporâneos, explorando as alterações na percepção da natureza através do tempo. Elementos como a perspectiva tradicional ou a expressão romântica da paisagem, vêm sendo reavaliados e reabsorvidos pelos artistas. Outra exposição aberta recentemente intitulada Poéticas da Natureza pode ser considerada a concretização de um mapeamento de tendências artísticas contemporâneas em especial no que se refere aos grandes temas artísticos da História da Arte Ocidental (retrato, paisagem, natureza-morta e pintura histórica). A mostra apresenta a perspectiva de 48 artistas contemporâneos discutindo o gênero e a própria idéia de Paisagem. A mostra é dividida em quatro módulos com classificações como A Natureza da Paisagem, Águas e Umidades, Denúncia e Reconstrução e Natureza inventada. 3. CONCLUSÃO A partir dos mapeamentos e análises efetuadas concluímos ser necessário, nesta próxima etapa da pesquisa, aprimorar os mecanismos de consulta e análise bibliográfica (está agendada uma visita à Seção de História da Arte da biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas; IFCH-UNICAMP); para deste modo elaborarmos um pensamento crítico que efetivamente possa lidar com as questões colocadas por nosso tema de investigação - a sobrevivências do gênero da paisagem nas artes visuais. Decidimos ainda, para potencializar os resultados de nossa investigação, focalizarmos o trabalho desta próxima etapa em um estudo de caso, o qual se dará em torno da obra gráfica do artista de origem polonesa Maciej Babinky, ex-professor, nas décadas de 1970 e 1980, de gravura e desenho no atual Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal de Uberlândia, e que deixou para o Museu Universitário de Arte (MUnA) da Universidade Federal de Uberlândia uma significativa coleção de obras suas - sobretudo gravuras - retratando frequentemente a paisagem em torno das cidades de Uberlândia e Araguari, no chamado Triângulo Mineiro (um dos focos geográficos e culturais da atuação da própria Universidade Federal de Uberlândia). 4. AGRADECIMENTOS Expresso aqui a minha sincera gratidão a FAPEMIG – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais, pela concessão de bolsa de Iniciação Científica. 7 O British Council é a organização internacional do Reino Unido para Educação e relações culturais. No Brasil, tem escritórios em Brasília, Rio de Janeiro, Recife e São Paulo. No campo da Arte promovem a apresentação da arte britânica no Brasil com informações sobre o cenário artístico britânico e ainda promovem a cooperação entre artistas e profissionais britânicos e brasileiros. 4 5. REFERÊNCIAS ARGAN, Giulio Carlo. ARTE MODERNA. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. BAEZ, Elizabeth Carbone. “A academia e seus modelos”, in: PROJETO ARTE BRASILEIRA: academismo. Rio de Janeiro: Funarte, 1986. BELTING, Hans. O FIM DA HISTÓRIA DA ARTE. São Paulo: Cosac Naify, 2006. BERQUE, Augustin (dir.). CINQ PROPOSITIONS POUR UNE THÉORIE DU PAYSAGE, Seyssel, Champ Vallon, 1994. BENJAMIN, Walter. 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João Naves de Ávila, 2121, Campo Santa Mônica, bloco 1I, Sala 27 e-mail: [email protected] Abstract: The present work was born of the necessity to identify and to understand the modern and (comtemporanea) visual culture the presence, the transformations and also the refuse at the traditionals stamps of the art, specifically landscape stamp, search develop one research bibliography, that show the presence and the servival of the stamp and the notion os landscape in the basilian (comtemporânea) a art, anlysing the aspects of the stamp, its course throughout the history of art in brazil, pondering about haw this servival happen offering informations for one biger comprehension of the visual arts developement in the country. Keywords: Landscape, Contemporary art, genre, Modern Art 8 9 Acadêmico do curso de Artes Visuais Orientador 6