Mais um que a arte contemporânea perde... o problema da apreciação artística Joelma Z. Estevam Mestre em Educação Professora do Curso de Licenciatura em Artes da UFPR – Setor Litoral [email protected] Resumo O presente artigo traz algumas reflexões a respeito da apreciação da arte contemporânea. A partir de um estudo do quadro teórico da produção artística atual, buscou-se localizar algumas possíveis causas da resistência que existe com relação a esse período, o que culmina com um hiato entre arte e público. Observou-se que questões históricas, como a definição do Neoclássico como gosto oficial do Brasil Colônia, além da própria complexidade das obras contemporâneas, que trazem inúmeras inovações, como a hibridação de linguagens, a utilização de tecnologia na elaboração de obras além da ênfase que se dá ao conteúdo e/ou conceito da obra, dificultam a sua compreensão e conseqüente aceitação. Outros dois fatores relevantes percebidos são o de que mesmo especialistas muitas vezes avaliam a arte contemporânea a partir de critérios da arte do passado e a formação de muitos brasileiros pautada em certezas e verdades absolutas que promove a imobilidade e a negação de eventos que não tenham essas características, como é o caso da arte contemporânea. Observou-se que tanto museus como outras instituições de arte estão preocupados com a formação de apreciadores e para amenizar tais dificuldades estão criando estratégias para aproximar o público das obras expostas. Conclui-se, a partir desse estudo, que a arte contemporânea, por ser diferente de tudo o que já foi feito no campo artístico, requer um apreciador não só com mais conhecimentos sobre arte, mas com uma atitude diferente, isto é, mais flexível e com autonomia intelectualmente. Palavras-chave: Arte, Arte contemporânea, apreciação, formação. One more lost for the contemporary art... the question of art appreciation Joelma Z. Estevam Mestre em Educação Professora do Curso de Licenciatura em Artes da UFPR – Setor Litoral [email protected] Abstract This article brings some reflections on the appreciation of contemporary art. Based on a study of the theoretical framework of the current artistic production, the goal of this study was to find some possible causes for the existing resistance in the current period, and the findings demonstrated that there is a hiatus between the art and its audience. It was noted that historical issues, as the definition of Neoclassical as the official taste in Colony Brazil, besides the complexity of contemporary works (bringing innumerous innovations, as hybridization of languages, the use of technology in the development of works, in addition to the emphasis that is given to the content and/or the work's concept), inhibited the understanding and consequently the acceptance of the audience to the art works of the period. Two other relevant factors perceived were that even the specialists evaluate contemporary art using criteria that were used to evaluate art in the past, as well as the background of several Brazilians based on absolute truths, which promotes the immobility and the denial of events that do not have these characteristics, as in the case of contemporary art. It was noted that both museums and other art institutions are concerned with the training of appreciators and are creating strategies to bring the audience closer to the works exhibited. This study finds that contemporary art, for being different from all that has been done so far in the artistic field, requires an art appreciator not only with more knowledge about art, but with a different attitude, that is, more flexible and intellectually independent. Keywords: Art, contemporary art, art appreciation, art training. 1. INTRODUÇÃO No texto “A arte e sua relação com o espaço público”, Agnaldo Farias relata a reação indignada de um visitante ao se deparar com a obra de Anish Kapoor, durante a Documenta de Kassel em 1992, e consternado profere: “Mais um que a arte contemporânea perde...” A relação entre o público e a arte contemporânea certamente não é tranqüila, exposições como a Bienal de São Paulo, por exemplo, causam sempre muitos questionamentos e para alguns uma incômoda sensação de terem sido enganados ao observar algumas obras expostas lá. A esse respeito Cauquelin (2005, p.IX) afirma: O público, confrontado com a dispersão dos locais de cultura, com a diversidade das “obras” apresentadas e seu número sempre crescente, com o número também crescente de revistas, jornais, anúncios, atraído por cartazes, atirado de um lado para outro por críticos de arte, acumulando catálogos, parece desnorteado diante da arte contemporânea: é o mínimo que se pode dizer. Quais as características da arte contemporânea que causam tanto estranhamento e criam um hiato entre público e arte? Será que a resistência à produção artística atual localizase somente no plano da arte e da estética? Essas são algumas das reflexões que serão apresentadas nesse texto. 2. COMPREENDENDO A ARTE CONTEMPORÂNEA Há consenso entre os teóricos que estudam o tema de que Arte Contemporânea é a denominação atribuída à produção artística realizada a partir da década de 1960. De acordo com Danto (2006, p.3), tanto ele, quanto o historiador de arte alemão Haus Belting, mesmo um ignorando totalmente o pensamento do outro, publicaram quase ao mesmo tempo textos sobre o fim da arte, ainda segundo Danto (2006, p.3): “Nós dois havíamos chegado a uma percepção vívida de que alguma mudança histórica transcendental havia ocorrido nas condições de produção das artes visuais...” Nessa mesma direção, Archer, (2001, p.11), enfatiza: “Depois de 1960 houve uma decomposição das certezas quanto a este sistema de classificação. Sem dúvida artistas ainda pintam e outros fazem 1 aquilo que a tradição se referia como escultura, mas estas práticas agora ocorrem num espectro muito mais amplo de atividades”. Para esse autor, a produção artística contemporânea é algo absolutamente novo. De fato, a arte contemporânea caracteriza-se por uma ruptura que extrapola a própria obra e busca outro tipo de atitude. Marcel Duchamp, considerado o embreante desses novos rumos da arte, de acordo com Cauquelin (2005, p. 85): “... parece expressar o modelo de comportamento singular que corresponde às expectativas contemporâneas.” As obras de Duchamp não trazem apenas componentes estéticos, mas provocam discussões acerca das instituições e do mercado da arte e da divulgação dos trabalhos artísticos. Ele apresenta objetos prontos – ready mades – propícios para discutir o consumismo e também porque a forma já não é tão importante como o conceito que ela veicula e as reflexões que incita. Nesse caso, a grande questão é: O que é arte? Subliminarmente lê-se: Quem define o que é arte? Quem tem o poder de legitimar um produto e alçá-lo à categoria de arte? Quem pode autorizar alguém a ser o juiz da produção de arte? Por que alguns artistas conseguem expor seus trabalhos em museus e/ou galerias e outros não? A arte contemporânea desloca a discussão do plano estético para o conceito, assim cresce em importância o conteúdo presente na obra; o processo de criação artística torna-se tão ou mais importante que o produto final, de acordo com Salles (2009, p.28): “... o público não tem idéia de quanta esplêndida arte perde por não assistir aos ensaios...” A obra de arte hoje é uma fusão de conhecimentos teóricos e práticos, de técnicas e experimentações de materiais, de hibridação de linguagens e principalmente de conceitos, segundo Cauquelin (2005, p. 90) “... ela é pensada.” Canclini (2008, p. XVII), questiona: Como saber quando uma disciplina ou um campo do conhecimento mudam? “Uma forma de responder é: quando alguns conceitos irrompem com força, deslocam outros ou exigem reformulá-los.” Esse é o caso da Arte Contemporânea! 2.1 O PROBLEMA DA APRECIAÇÃO DA ARTE CONTEMPORÂNEA Tantas novidades culminaram em uma grande distância entre arte e público. Essa distância sempre existiu e não só na Brasil, de acordo com Canclini (2008, p.142), em vários países da América do Sul houve uma supervalorização da escrita sobre a cultura visual, dessa 2 forma, os registros iniciais das tradições culturais foram elaborados muito mais por escritores do que por pesquisadores visuais e: “Em sociedades com alto índice de analfabetismo, documentar e organizar a cultura privilegiando os meios escritos é uma maneira de reservar para minorias a memória e o uso dos bens simbólicos.” (CANCLINI, 2008, p.143) Mesmo sendo um problema tão antigo, ele se intensifica a partir das vanguardas européias e do modernismo brasileiro, quando havia uma grande desconfiança sobre o valor do trabalho artístico e a dúvida sobre o que realmente era arte e torna-se absolutamente crítico na apreciação da arte contemporânea. Surge, então, uma questão importante: Por que se tende a aceitar como arte somente as obras pré-modernas? Uma das causas possivelmente seja histórica, isto é, quando a família real portuguesa se muda para o Brasil em 1808, a mando de D. João VI, também vêm para o país um grupo de artistas franceses que ficou conhecido como Missão Francesa. Através desta, fundou-se a Academia Imperial de Belas Artes no Rio de Janeiro. É importante ressaltar que neste período, desenvolvia-se no Brasil o barroco brasileiro que, segundo Barbosa (1994, p. 37), "é bem verdade que sua (do barroco) construção partiu de um modelo estrangeiro, o barroco português, transformado pela criatividade nativa, conquistando características nacionais próprias". Na França, entretanto, despontava o estilo neoclássico. Os artistas chegados da Europa impuseram o estilo moderno, promovendo uma ruptura entre o que se fazia até então e o que deveria ser feito a partir daquele momento. Dessa forma, o Neoclássico é imposto como gosto oficial, ou seja, a arte que tinha valor, a que valia a pena ser ensinada, é aquela figurativa, cópia fiel da natureza, produzida a partir de regras de proporção, luminosidade e harmonia de cores. Obras formalmente equilibradas, que facilitavam a compreensão do expectador. Somente trabalhos com essas características foram legitimados como arte, os que não seguissem esse padrão, eram julgados como de categoria inferior. (ESTEVAM, 2005, p.57) Sendo o Neoclássico o movimento artístico oficial do país, a tendência é a de que também a população passasse a apreciar e reconhecer como arte movimentos que traziam características semelhantes a esse, como, por exemplo, o Renascimento (revalorização do clássico). Quando se trata, desse movimento, a fruição é facilitada, pois todas as dúvidas se dissipam: Sabe-se a técnica: pintura ou escultura. Reconhecem-se as paisagens e personagens. 3 Conhece-se a vida e a obra dos artistas que já foram julgados e idolatrados pela história. Além disso, a obra, matematicamente pensada e executada, reflete o equilíbrio perfeito, é bonita e está devidamente concluída, a única atribuição do expectador é admirar. A respeito do Renascimento, Burke, (1999, p. 168), afirma: “Chegamos finalmente ao que parece ser o uso natural das artes: proporcionar prazer”. Com a arte contemporânea, em boa parte, ocorre o inverso disso, não existem escoras, ela questiona, incomoda, exige ou o conhecimento prévio sobre o artista e seu processo de criação ou a disposição para buscar informações posteriormente. De acordo com Cauquelin, (2005, p. 81): “a realidade da arte contemporânea se constrói fora das qualidades da própria obra, na imagem que ela suscita dentro dos circuitos de comunicação”. Essa característica, ou seja, a própria complexidade dessa produção, é outro fator que compromete a apreciação da arte contemporânea: Se até os movimentos de vanguarda europeus era possível classificar uma obra como pintura, desenho, gravura ou escultura, a partir dos anos de 1960 há uma junção não só de técnicas, mas mesmo de linguagens artísticas, como a união da dança, do teatro, da música e das artes visuais originando a performance ou o vídeo arte. Esse movimento é denominado hibridação e, segundo Canclini (2008, p. XVIII) “... hibridação não é sinônimo de fusão sem contradições...” As linguagens se unem, mas perdem algumas características, ganham outras e nesse processo a compreensão da obra artística também é dificultada. Conforme Machado (1996, p. 32): “A obra torna-se então o resultado de uma complexa confluência de fatores, uma verdadeira dialética de forças contraditórias que se digladiam em seu interior, de modo que a sua própria apreciação vai exigir a avaliação de todos esses elementos.” Ficar preso na arte do passado, nos critérios antigos, não contribuirá para a apreensão da produção artística contemporânea, de acordo com Farias (2010, p.1): “Não dá pra ficar cobrando de uma obra que está sendo realizada neste momento aspectos contemplados pela arte de um Manet. É ficar batendo na porta e procurando alguém que não está lá dentro”. Na tentativa de responder a tudo isso, utilizam-se conceitos sempre acompanhados de prefixos como pós, neo, pré entre outros e surgiram uma profusão de nomes: Arte conceitual, Land, Body, Performance, Autobiográfica, processo entre outros, o mesmo ocorre com a utilização de materiais, segundo Archer, (2001, p. 61): “A arte recente tem utilizado não 4 apenas tinta, metal e pedra mas também ar, luz, som, palavras, pessoas, comidas e muitas outras coisas”. Dentro dessas muitas outras coisas, Machado (1996, p.12) cita o evento Les Immatériaux, que ocorreu no ano de 1985 em Paris, no qual são exibidos imagens, objetos e sons resultantes de pesquisa científica ou da atividade tecnológica como objetos de fruição artística. A utilização de recursos tecnológicos na criação artística – Estéticas Informacionais - é notadamente uma característica da arte contemporânea e que também faculta questionamentos com relação à autoria, artificialidade dos trabalho entre outros. De acordo com Machado (1996, p.32), a arte tecnológica “tende a perder em concentração, estilo e refinamento, o que, por outro lado, ganha em amplitude, penetração e alcance social.” Toda essa quantidade de possibilidades provoca inseguranças e incertezas ao público em definir afinal, o que de tudo aquilo a que ele está exposto, pode ser arte. Para Cauquelin (2005, p.14): “Esse público se sente ludibriado, e não são as informações – cada vez mais numerosas, porém dispersas que podem instruí-lo a respeito desse mecanismo.” Muitas dessas informações são produzidas também de forma inadequada, de acordo com Machado (1996, p.32): Infelizmente, a reflexão teórica sobre a arte de nosso tempo encontra-se entorpecida por pressupostos herdados de teorias estéticas em obsolescência, puristas demais para se dar conta de um amálgama de fatores instintivamente mais complexos e heterogêneos do que aqueles que definiam a primeira revolução da modernidade. Buscando aproximar o público da arte, exposições recentes, como a 29° Bienal de Arte de São Paulo, trazem cartazes instrutivos ao lado das obras com o objetivo de contextualizá-las e possibilitar a compreensão. Muitos museus, ao montarem suas exposições, prevêem catálogos explicativos, monitores treinados e mesmo propostas audiovisuais em diversas línguas visando contribuir para que os trabalhos expostos sejam entendidos. Essa atitude vem sendo questionada pelo que Canclini (2008, p.136) denomina de crítica culta, segundo essa: “... contextualizar as obras prejudica a contemplação desinteressada que deveria caracterizar toda a relação com a arte.” 5 Além disso, e ainda de acordo com Canclini (2008, p.137), os estudos entre públicos europeus e latino-americanos permitem concluir que “a contextualização das obras artísticas aumenta sua legibilidade, mas consegue pouco no que toca à atração de mais expectadores e à incorporação de novos padrões perceptivos.” Possivelmente esse público se ressinta de uma formação sistematizada em arte que o confronte com as contradições, que associe de forma mais contundente a produção artística com o momento histórico em que foi produzida e principalmente que lhe auxilie a construir elementos de análise a partir de conhecimentos diversos, inclusive sobre o processo de criação artístico. A ampliação do repertório de conhecimentos - não só de arte - do apreciador, pode contribuir para que ele estabeleça algum diálogo com as obras, segundo Dampsy (2003, p.226): “Obras de arte são como áreas reservadas a piqueniques ou albergues espanhóis, onde a pessoa consome o que leva consigo.” De acordo com Canclini (2008, p.137): Os espectadores não treinados sentem que os resumos da história da arte que lhes são fornecidos em uma exposição não anulam a distância entre o que as obras modernas trazem como conhecimento implícito e o que pode ser digerido no instante da visita. A questão da apreciação da arte contemporânea fica ainda mais complicada na medida em que ela “não dispõe de um tempo de constituição, de uma formulação estabilizada e, portanto, de reconhecimento.” (CAUQUELIN, 2005, p. 11). 2.2 O APRECIADOR DA ARTE CONTEMPORÂNEA É uma arte diferente que requer um público com outra atitude, como afirmava Adorno, (1970, p. 26): “Hoje aceitamos sem discussão que, em arte, nada pode ser entendido sem discutir e, muito menos, sem pensar”. Essa não é, entretanto, uma realidade específica da arte contemporânea. Historicamente a arte suscitou discussões. Para Cassirer, (2005, p. 235): “A linguagem e a ciência são uma abreviação da realidade, a arte é uma intensificação dessa realidade”. E para Canclini (151): “Analisar a arte já não é analisar apenas obras, mas as condições textuais e extratextuais.” Não existem regras e manuais que auxiliem na leitura e na compreensão de um determinado grupo de artistas e/ou de obras, segundo Farias (2010, p.1): “Cada trabalho de arte impõe seus próprios critérios, apresenta seus parâmetros. Você tem que estar atento a isto.” 6 É inegável que se vive um outro momento, não somente temporal, o que seria óbvio, mas uma realidade acelerada, um tempo em que nunca se produziu tanto conhecimento na história: Os avanços tecnológicos trouxeram ganhos para a medicina, engenharia, agricultura, comunicação e para vários outros setores da sociedade e da cultura. Aceita-se e usa-se desses benefícios em diversas campos, mas na área artística parece haver uma grande resistência com relação à incorporação de tecnologias na criação artística, de acordo com Canclini (2008, p. 154) há desencontros entre modernização social e modernismo cultural.” Dentre os “apreciadores” de arte ainda há espaço para discutir se no processo de criação de uma imagem a partir da utilização de um equipamento tecnológico (computador ou mesmo uma máquina fotográfica) deve-se atribuir a autoria ao artista ou a máquina... E muitas vezes entre os especialistas também percebe-se uma dificuldade discorrer sobre a arte atual, de acordo com Machado (1996, p.18): “Estamos ainda falando em imagens, sons, objetos, como se essas entidades mantivessem ainda o estatuto de outros tempos.” Ainda de acordo com o Machado (1996, p.33): Podemos continuar falando de arte e de artistas, à falta de uma terminologia mais apropriada, desde que tenhamos consciência de que esses vocábulos designam agora outra espécie de fenômenos, não guardando de suas antigas acepções senão alguns tênues traços de parentesco. O apreciador precisa compreender que arte não é coisa simples, especialmente a produzida em tempos atuais, Thistlewood (2005, p.115) afirma: “... a arte contemporânea é reputada como difícil, o que a distingue do moderno”. Historicamente encontra-se segurança em conceitos fechados, os quais só é preciso decorar e repetir assim que solicitado. A aceitação da arte contemporânea requer a discussão com os autores estudados e a abertura para idéias muito diversas. Solicita, como já mencionado anteriormente, repertório de conhecimentos que faculte compreender a poética do artista observado. Não há guias, tutores, mas há espaço para interpretações que completam o sentido da obra. É mais comum encontrar desconstruções do que afirmações: Archer (2001) ao discutir o lugar teórico da arte contemporânea e elucidar questões a respeito do assunto, ouviu o escritor francês Maurice Blanchot (p.72) e o pintor americano Ad Reinhardt (p.81), e esses, respectivamente, afirmaram a respeito de obras de arte produzidas na atualidade: “uma obra 7 de arte da qual nada possa ser dito, exceto que ela existe.” E: “Arte é arte enquanto arte, tudo o mais é tudo o mais.” O próprio Agnaldo Farias (1997, p.2), referindo-se à arte contemporânea, esclarece: “Assim, na qualidade de professor, procuro o tempo todo transmitir ao aluno que as formulações apresentadas são formulações, e não verdades absolutas. Alerto-os para o fato de que será sempre preciso deixar espaço para "outra leitura", aquela leitura que não possuo”. A arte contemporânea solicita uma tomada de posição, o sujeito que espera que tudo esteja pronto e no lugar certo encontrará mais dificuldades em tornar um apreciador. 3. CONCLUSÕES A arte contemporânea se caracteriza por uma mudança radical com relação a tudo o que se entendia por arte: utiliza-se da hibridação de linguagens, de materiais não convencionais ou pelo uso da tecnologia na elaboração da obra e principalmente por enfatizar um conceito a ser comunicado pelo trabalho. A partir desse fundamento, o conteúdo passa a ser tão ou mais importante que a forma que o comunica, a mesma relação ocorre entre processo e produto final. Tanto a arte quanto o artista já não são o mesmo que eram até a década de 1950. Tantas novidades exigem um apreciador com uma atitude diferenciada, ele não pode mais ser o fruidor passivo, precisa de conhecimentos e disposição para buscar informações que facultem a compreensão da obra além de uma mentalidade flexível, que lhe permita adentrar num mundo sem respostas prontas ou verdades absolutas, mas, e por isso mesmo, lhe ofereça espaços para exercitar a sua autonomia e criar sentidos. Ocorre que, possivelmente por razões históricas, pela própria complexidade da produção artística atual ou ainda pela dificuldade em encontrar referencial teórico que trate a arte contemporânea com critérios próprios, percebe-se um hiato entre arte e público, uma dificuldade em formar novos apreciadores; é muito mais comum encontrar novos e revoltados críticos. Com o intuito de amenizar o problema, museus e instituições estão criando estratégias de aproximar o espectador da obra, como a produção de audiovisuais ou cartazes explicativos e com leituras das imagens expostas, mas esse procedimento vem sendo questionado pela crítica culta sob a alegação de prejudicar a contemplação desinteressada. 8 Finalizando, parece fazer sentido pensar que a resistência com relação à arte contemporânea não será superada apenas com mais conhecimentos em arte, mas requer uma mudança social, uma população que não espere por conhecimentos prontos mas que seja autônoma intelectualmente e capaz de conseguir pensar sobre o momento que vive e não só vivê-lo. 4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. ADORNO, Theodor W. Teoria Estética. Lisboa: Edições 70, 1970. ARCHER, Michael. Arte contemporânea: Uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2001. BARBOSA, Ana Mae. Arte-educação: conflitos/acertos. São Paulo: Max Limonad, 1994. BURKE, Peter. O renascimento italiano. 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