UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE – UNESC
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO ESPECIALIZAÇÃO EM ENSINO DA ARTE
LUCIANO DE CARVALHO OSCHELSKI
O CINEMA VAI A ESCOLA E A ESCOLA FAZ CINEMA, UMA
EXPERIÊNCIA DESENVOLVIDA NA
E.M.E.I.E.F. PROF. MOACYR JARDIM DE MENEZES
CRICIUMA, AGOSTO DE 2008
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LUCIANO DE CARVALHO OSCHELSKI
O CINEMA VAI A ESCOLA E A ESCOLA FAZ CINEMA, UMA
EXPERIÊNCIA DESENVOLVIDA NA
E.M.E.I.E.F. PROF. MOACYR JARDIM DE MENEZES
Monografia apresentada à Diretoria de Pósgraduação da Universidade do Extremo Sul
Catarinense- UNESC, para a obtenção do título de
especialista em Ensino da Arte.
Orientadora: Profª Ms. Virginia Maria Yunes
Co-orientadora: Profª. Ms. Silemar M. M. da Silva
CRICIÚMA, AGOSTO DE 2008.
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É com grande orgulho que dedico este trabalho a minha mãe: Pessoa única, grande
guerreira que sempre lutou por mim e para me dar educação, não fosse por ela
jamais chegaria até aqui.
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AGRADECIMENTOS
Agradeço a todos que contribuíram para a realização deste trabalho;
Muito obrigado a Deus, pois sem ele nada disso haveria de se concretizar;
A minha orientadora Virgínia, pela calma, serenidade, incentivo e
paciência pra aturar minhas demoras;
A professora Silemar, por ter mostrado um novo caminho para a
realização deste trabalho;
A Nathália Aquino pelos conselhos que serviram de grande ajuda neste
projeto; e por durante todo o processo acompanhar-me no trabalho com as crianças.
A escola Prof. Moacyr Jardim de Menezes, por permitir a realização desta
pesquisa;
As crianças que participaram da oficina e me ajudaram na pesquisa com
muita atenção e carinho.
E a Maurício Leite Trombeta, um grande amigo e nobre membro da
B.O.P.A.S.C(Baia Órfã Posto Avançado Santa Catarina) que trabalhou no áudio do
filme com muita paciência e dedicação.
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“O cinema não tem fronteiras nem limites.
É um fluxo constante de sonho.”
Orson Welles.
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RESUMO
O presente trabalho fala da relação do cinema com a educação, entendida como
aprendizado onde o aluno é um agente participativo. O objetivo deste trabalho foi
refletir sobre a produção de cinema na sala de aula para conhecer a capacidade que
as crianças têm em desenvolver seu aprendizado sobre a narrativa cinematográfica.
Objetivou também entender como se dá o processo didático pedagógico através da
realização de cinema em sala de aula; mediar o desenvolvimento de roteiros;
realizar um filme de curta metragem juntamente com as crianças da escola e relatar
todo o processo de realização cinematográfica executado pelas crianças. O cinema
é a ciência da observação, e por assim dizer, da interpretação, produzir cinema
dialoga com isso. O aluno ao observar e trabalhar com a linguagem cinematográfica,
é capaz de melhor compreender o mundo em que vive e qual o seu papel dentro
dele, além de presenciar outras realidades em vários contextos diferenciados. A
cinematografia nos torna mais sensíveis e facilita a compreensão de nossos
sentimentos. Este trabalho reúne num corpo teórico um pouco da história do cinema,
a narrativa cinematográfica, estilos e gêneros, processos de produção, a relação
com escola e juntamente o relato do projeto de produção de um curta-metragem
realizado com as crianças da E. M. E.I.E.F. Prof. Moacyr Jardim de Menezes.
Assumindo como problema de pesquisa: Qual a sua real contribuição na
formação dos alunos? Qual a influência desta arte no aprendizado desses
sujeitos/agentes ativos? E busca responder estes questionamentos junto com as
crianças, sem a pretensão de esgotá-lo, compreendendo a sua complexidade e
continuidade.
Palavras-chave: cinema; produção de cinema; criança.
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SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO .........................................................................................................8
2 OBJETIVOS ...........................................................................................................10
2.1 Objetivo Geral..................................................................................................10
2.2 Objetivos Específicos.......................................................................................10
3 QUESTÕES TEÓRICAS ........................................................................................11
3.1 A evolução do cinema – Quando a fotografia entrou em movimento ..............11
3.2 Narrativa fílmica: estilos e gêneros ..................................................................13
3.3 O desenvolvimento da narrativa cinematográfica ............................................16
3.4 Outros caminhos para a narrativa cinematográfica .........................................17
3.5 Assim se faz cinema ........................................................................................20
3.6 A importância de assistir e fazer cinema na escola .........................................23
3.7 Utilizando o cinema em sala de aula ...............................................................25
4 METODOLOGIA.....................................................................................................27
4.1 Público e Local ................................................................................................27
4.2 Autorização......................................................................................................28
5 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS ........................................................29
5.1 Oficina de cinema na escola............................................................................29
5.1.1 Primeiro encontro: o projeto de um filme...................................................29
5.1.2. Segundo encontro: a linguagem cinematográfica ....................................30
5.1.3 Terceiro encontro: a câmera .....................................................................31
5.1.4 Quarto encontro: a utilização do travelling ................................................33
5.1.5 Quinto encontro: o roteiro..........................................................................35
5.1.6 Sexto encontro: continuidade no desenvolvimento do roteiro ...................38
5.1.7 Sétimo encontro: o grande dia da filmagem..............................................40
5.1.8 Edição .......................................................................................................41
5.1.9 A regravação do áudio ..............................................................................42
5.1.10 O lançamento do filme ............................................................................42
6. CONCLUSÃO........................................................................................................47
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1 INTRODUÇÃO
A instituição escolar tem como papel social principal o ensino
sistematizado, isto é, a transmissão de conhecimentos, acumulados historicamente,
que fornecem a qualificação para o trabalho. Mas também faz parte de sua função
contribuir para a educação, isto é, preparar para a cidadania e acompanhar o
desenvolvimento dos alunos. Acredito que a educação e a qualificação para o
trabalho não se fazem apenas em sala de aula, existem outros processos inseridos
neste contexto e um deles é o acesso à tecnologia, esse é um processo em que
devem estar inseridos professor e aluno. Nesse contexto entendo o cinema como
uma destas possibilidades.
Toda a evolução tecnológica que ocorreu nestes últimos anos, possibilitou
que o cinema pudesse entrar na sala de aula e ser utilizado como instrumento
pedagógico, Monteiro (2006, p.10) afirma que “há uma verdade que não pode ser
negada: a cada dia se usa mais o cinema na sala de aula. A questão não é quanto a
ser utilizado ou não este recurso, mas sim se a sua utilização é eficiente ou não”. O
cinema pode funcionar como ferramenta de ajuda no ensino, cabe ao professor
determinar o uso adequado em sua disciplina, para que vá além de uma simples
prática ilustrativa de tudo aquilo que foi transmitido aos seus alunos, auxiliando no
conteúdo, propondo um caminho para a construção do conhecimento sobre o
próprio cinema enquanto linguagem da arte. Uma vez que, se tem acesso a novos
meios de comunicação, novas tecnologias e novas linguagens é que os educadores
serão capazes de disponibilizar para os seus alunos as informações necessárias
para a construção do conhecimento – aqui falo do conhecimento científico e do
conhecimento artístico, que é o que o cinema nos permite.
A narrativa cinematográfica através de seu desenvolvimento possibilita ao
homem educar a sua visão e através dela decodificar signos e símbolos fazendo
uma leitura visual (e sonora). Muitas vezes um filme pode ter uma significação bem
mais lógica e crítica do que a leitura simplista. Segundo Duarte (2002, p.17), o
cinema tem uma importância enquanto uma linguagem da arte na formação cultural
do indivíduo, para ela “ver filmes, é uma prática social tão importante, do ponto de
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vista cultural e educacional das pessoas, quanto à leitura de obras literárias,
filosóficas, sociológicas e tantas mais”.
O filme não deveria ser utilizado na sala de aula como um papel
secundário, onde o professor se vale da projeção para ilustrar apenas o que foi
ministrado ou para ocupar espaço em sua aula ou ainda não torná-la monótona, mas
sim como uma linguagem capaz de transmitir novos conceitos e valores, muitas
vezes difíceis de serem contemplados simplesmente pela linguagem escrita e falada
que a escola tanto valoriza.
A presente investigação parte do fazer uso da arte do cinema aplicando
métodos de ensino desta linguagem e através disso, conhecer a capacidade que as
crianças têm de desenvolver seu aprendizado na utilização da narrativa
cinematográfica. Qual a sua real contribuição na formação dos alunos? Qual a
influência desta arte no aprendizado desses sujeitos/agentes ativos?
Buscando responder estes questionamentos, este trabalho reúne um
pouco da história do cinema, a narrativa cinematográfica, estilos e gêneros,
processos de produção, a relação com escola e o relato do projeto realizado junto
com as crianças da escola Moacyr Jardim de Menezes.
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2 OBJETIVOS
2.1 Objetivo Geral
Refletir sobre a produção de cinema na sala de aula para conhecer a
capacidade que as crianças têm para desenvolver seu aprendizado através da
narrativa cinematográfica? Qual a real contribuição do cinema na formação dos
alunos? Qual a influência desta arte no aprendizado?
2.2 Objetivos Específicos
• Realizar uma revisão bibliográfica sobre o assunto em questão;
• Refletir sobre como se dá o processo didático pedagógico através da
realização de cinema em sala de aula;
• Incentivar o desenvolvimento de roteiros através da linguagem de
cinema;
• Realizar um filme de curta metragem juntamente com as crianças da
escola;
• Mediar o desenvolvimento de novos projetos culturais desenvolvidos
pelas crianças da escola Moacyr Jardim de Menezes;
• Relatar todo o processo de realização cinematográfica executado pelas
crianças.
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3 QUESTÕES TEÓRICAS
3.1 A evolução do cinema – Quando a fotografia entrou em movimento
O cinema é a arte de criar realidades ou mostrá-las e é onde muitas vezes
o público se identifica com os personagens comparando os acontecimentos
e o enredo com sua própria vida. Atualmente a função do cinema vai muito
além de um objeto estético a ser exibido ou uma mensagem cognitiva a ser
transmitida, o cinema se constitui numa efetiva forma da conceituação
social e da fomentação ideológica para seus realizadores e para o público.
Rosália Duarte (2002, p. 37)
Este ir além, que surge na fala de Duarte é o que pretendo abordar, uma
vez que a presente investigação fala da produção cinematográfica com as crianças.
O cinema tem uma história, para melhor compreende-la trago recortes desta na fala
de alguns autores, como o que defende Bernadet (1980, p.13), quando diz que:
Desde os primórdios da evolução, o homem sempre se preocupou em
eternizar certos momentos de sua vivência. Capturar um instante e
registrá-lo, parece ter sido um dos grandes objetivos do homem desde o
tempo das cavernas. Durante séculos a pintura e a escultura foram usadas
para este fim, eternizar um momento, o teatro também foi muito utilizado
depois de algumas evoluções.
Foi a invenção da fotografia que possibilitou o surgimento do cinema, a
imagem em movimento. Os registros mais antigos de imagens móveis são de cinco
mil anos atrás, eram sombras projetadas sobre telas de linho ou paredes que
contavam pequenas histórias e lendas, esse tipo de técnica nasceu na China e foi
amplamente difundida, segundo Joari Reis (1999, p.18). O mesmo autor cita que, a
primeira câmera escura foi desenvolvida no século XVI por um italiano, Giovanni
Battista Della Porta, o aparelho era uma caixa fechada e escura com um pequeno
orifício, coberto por uma lente onde entravam os raios refletidos pelos objetos, esses
raios formavam no interior da caixa imagens invertidas (p. 32).
Outra técnica propulsora do cinema foi a lanterna mágica, criada pelo
jesuíta alemão Athanasius Kircher no século XVII, a lanterna funcionava da
seguinte forma: imagens eram pintadas sobre o um vidro fino e pequeno,
essas eram projetadas de uma caixa com luz por trás e lentes sobre uma
superfície lisa e clara mas em um ambiente escuro (SADOUL, 1959, p.
112).
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Essas invenções mostravam para onde estavam se encaminhando as
novas idéias, embora de maneira singela, o cinema estava começando acontecer na
mente de alguns gênios.
Foi no século XIX, que Joseph-Nicéphore Niépce após inúmeras
experiências conseguiu a reprodução heliográfica, que é um meio de fixar a
imagem da câmera escura. O termo heliografia vem do grego hélios=sol, já
que Niépce atribuía ao astro parte da responsabilidade por seu invento.
Nessa época vivia no Brasil, na região onde hoje é Campinas – SP, o
desenhista e tipógrafo francês , Hercules Florence que também conseguiu
ótimos resultados na fixação de imagens em papel. O sistema de
impressão do negativo foi chamado de fotografia, e por isso é dele o mérito
do batismo da técnica utilizada até hoje (REIS, 2002, p.54).
Ao mesmo tempo em que a fotografia realizava grandes progressos,
outros pesquisadores ou inventores estudavam a energia óptica e obtinham
significativos avanços. Conforme relata Reis (2002, p.80), o físico belga JosephAntoine Plateau pesquisava a persistência da imagem na retina após ter sido vista
(fração de segundos em que a imagem permanece na retina). Em 1833, ele e seus
filhos inventaram um aparelho formado por um disco com várias figuras desenhadas
em posições diferentes, que pareciam estar em movimento quando o disco era
acionado, eram necessárias 10 imagens fixas por segundo para produzir essa
sensação. Nascia o fenacistoscópio e com ele o princípio do cinema de animação.
Após esse invento muitos outros semelhantes foram criados e fizeram grande
sucesso, mas o grande passo para o cinema veio com o inventor Thomas Alva
Edison, que resolveu criar um aparelho para visão individual de filmes, chamado
cinetoscópio, este funcionava com película de celulóide perfurada de 35 mm de
largura passada diante da fonte de luz por pequenas rodas dentadas. Com esses
aparatos, em 1890 ele rodou o primeiro filme da história do cinema, chamado Black
Maria. Do cinetoscópio, surge o cinematógrafo, conforme afirma Sadoul, sustentado
na fala de Rodrigues, ou seja:
Um passo extremamente fundamental para o cinema foi dado pelos irmãos
franceses August e Louis Lumière, ele conseguiram aperfeiçoar o
cinetoscópio de Edison e criaram o cinematógrafo, em torno de 1895; um
aparelho que projetava imagens ampliadas numa tela (SADOUL, 1959,
p.135)
Eles foram considerados como sendo os pais do cinema, entretanto não
acreditavam no futuro econômico de seu filho, para eles, aquilo seria
apenas uma atração passageira que somente existiria enquanto houvesse
interesse pela novidade. Pois acreditavam que o teatro sempre manteria a
liderança (RODRIGUES, 2002, p. 8)
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Joari Reis também relata a importância da primeira apresentação pública
e afirma que foi com o filme “A Saída dos Operários da Fábrica Lumière”, um
documentário que mostrava uma seqüência de imagens em movimento. Esta
exibição contou com a presença de 33 pessoas, já na segunda exibição no dia
seguinte foram 2 mil pessoas e no terceiro dia 3 mil. Seus filmes eram sempre de
curta duração, em torno de dois minutos e sempre apresentavam cenas do
cotidiano.
Antoine Lumière, pai dos inventores, promoveu uma campanha
publicitária cheia de cartazes espalhados que logo despertou o interesse da
população. Começaram, então, a enviar operadores para diversos lugares do
mundo, para mostrar novas imagens nas salas de exibição. Joari Reis relata (2002,
p. 5) que ao desenvolvimento do cinema corresponderia, naturalmente, a
implantação e a exibição.
Foi assim que começou o cinema, umas das indústrias que mais progride
no mundo, levando além de imagens, emoções, histórias e imaginação a milhões de
pessoas que se deslocam até uma sala de exibição.
3.2 Narrativa fílmica: estilos e gêneros
Quando assistimos a um filme no cinema ou mesmo em casa, diversos
elementos são utilizados pelo diretor para conquistar o nosso interesse. Ficamos
completamente envolvidos na ação dos personagens, no enredo, etc. Isso acontece
porque os roteiristas, diretores, atores e técnicos trabalham sob as regras de uma
“linguagem cinematográfica”, criada no início do cinema por David Wark Griffith.
Segundo Joari Reis (2002, p. 35) naquela época, a câmera mostrava apenas um
plano geral, sem modificações ou cortes. Quando Griffith percebeu que, modificando
a posição da câmera, necessariamente precisaria fazer o “corte” e encadear várias
imagens, criou a narrativa cinematográfica.
Basicamente, mesmo que cada filme expresse um conceito diferente, em
geral todos eles se baseiam nas mesmas técnicas de composição de imagem, que
incluem a proporção dos elementos da cena, cor, volume e perspectiva. O
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movimento ou ritmo interno da imagem é, talvez, o fator mais importante da
concentração da narrativa. Para entender melhor, pense em cada plano do filme
isoladamente. É preciso que cada “parte” contenha uma fluidez própria, seja por
meio da interpretação dos atores, do próprio enquadramento, movimentos de
câmera ou a combinação de todos estes elementos. . Mais ainda, é preciso prever a
continuidade e o encadeamento correto para passar ao espectador um enredo fácil
de ser entendido.
Mas o que fica evidente na ficção é que o mundo “vem até nós” na forma de
histórias. Desde os primeiros dias da nossa infância, nosso mundo nos é
representado por meio de histórias contadas por nossos pais lidas nos
livros, relatadas pelos amigos, ouvidas nas conversas, compartilhadas entre
grupos da escola, disseminadas no pátio do recreio. Isso não quer dizer que
todas as nossas histórias explicam o mundo. Em vez disso, a história na
qualidade narrativa, contada na ficção cinematográfica, nos fornece um
meio agradável, inconsciente e envolvente de construir nosso mundo, onde
nos identificamos com um simulacro da realidade (BERGER, 1999, p. 73)
A história contada no cinema, o enredo torna-se fácil de ser entendido
nessa perspectiva de que o mundo vem até nós, como afirma Berger, é como uma
magia que Napolitano (2003, p. 43) vai trazendo imerso na figura do espectador.
Na verdade, quando assistimos a um filme, observamos dele apenas a sua
ideologia, ou seja, conceitos de honestidade, bravura, poder, honra etc.
Tecnicamente, estas mensagens são o resultado de uma combinação de
cenas objetivas e subjetivas elaboradas pelo diretor. Assim, o importante a
observar, é que retemos de um filme apenas as cenas objetivas, ou seja, as
cenas de ação propriamente dita. O complemento da ação, dado pelas
cenas subjetivas, compõe um conjunto de referências que vão de encontro
ao repertório e experiências de vida do espectador (NAPOLITANO, 2003,p.
43).
Assim, a afirmação do autor explica porque determinado filme agrada a
uma pessoa e não a outra. Na prática, a grande maioria dos filmes trabalha apenas
os símbolos universais de comportamento, o que garante um número maior de
espectadores.
Alguns diretores, a partir de outras referências, procuram descontrair esta
narrativa clássica, rompendo com o conceito de realidade, se aproximando mais de
um “pensamento” em movimento, isso na ficção, pois os documentários existem
para mostrar a realidade e levar a informação até o espectador, o início do telejornalismo foi o documentário.
Existem basicamente três estilos de filmes, citados a seguir:
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• Ficção: O roteiro de ficção tem que ser imaginativo e original. As
“histórias” criadas pela imaginação, irão se transformar em uma narrativa
“cinematográfica”, diferente do documentário ou da reportagem.
•
Documentário: Foi o primeiro estilo de trabalho cinematográfico
registrado pelas câmeras de cinema, as primeiras seções de cinema eram meros
registros da vida cotidiana. No início do cinema os diretores ligavam suas câmeras
em planos fixos e as deixavam captar exatamente a visão real dos acontecimentos,
a saída dos trabalhadores de uma fábrica, a chegada de um trem a estação. Eram
formas de documentar a realidade e os acontecimentos. Atualmente o estilo
documental do cinema possui um trabalho bem mais complexo, mas não perdeu
suas origens.
O estilo documental do cinema atual e a linguagem usada nos dias de hoje
para a produção de documentários mostra que o cinema de documentário
não perdeu as suas origens, e ainda evoluiu na forma de contar as histórias
reais (NAPOLITANO, 2003, p. 74).
• Desenho animado: Talvez seja o gênero que mais se encaixa na
facilidade de observação, quando o assunto é educação, a forma de elaboração dos
personagens dos desenhos animados, seus valores morais e éticos e as lições de
vida transmitidas nestes roteiros, são possivelmente identificáveis pelo público
infantil, que é o principal espectador deste estilo
[...] trabalha-se com uma série de desenhos, cada um dos quais representa
uma posição sucessiva, com pequenos detalhes de diferença, do
movimento de uma figura ou objeto. Esses quadros são fotografados por
uma máquina cinematográfica especial e revelados numa fita contínua. Na
projeção, esse filme produz uma imagem na qual as figuras e objetos
desenhados parecem mover-se como se fossem dotados de vida e
mobilidade. Para cada 10 minutos de filme são necessários 14.000
fotogramas, ou seja, 14.000 desenhos diferentes (VIDICA, 2005, p.54).
A classificação dos filmes por gêneros é um fator que gera facilidade para
o espectador na hora de assistir filmes, pois concentra-se nas ações dos
personagens e no desenvolvimento do roteiro, indicando a dinâmica e a estrutura da
obra, o gênero é o tipo de filme que o público vai assistir.
• Comédia: Situações engraçadas são narradas nos filmes de comédia,
em geral os personagens principais sempre se metem em confusões ou tentam
resolver seus problemas de forma atrapalhada e essas situações fazem com que o
filme seja engraçado. Para Napolitano (2003, p. 35) “são acontecimentos patéticos,
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jogos de linguagem verbal ou periférica que levam a mal entendidos vividos por um
ou mais personagens, são narrados com a intenção de tirar muitas risadas da
platéia”.
• Aventura: Nos filmes de aventura o enredo predominante está
baseado na ação, sempre compondo conflitos físicos, combates, lutas e a oposição
do bem contra o mal, o ritmo aqui é bem importante, pois, é ele quem prende o
público ao filme. São sempre situações de risco que provocam euforia no
espectador.
• Suspense: Nos filmes de suspense, o mais importante não é a ação,
mas sim, a trama em que os personagens estão envolvidos, os mistérios a serem
desvendados e as situações assustadoras não previstas pelo espectador é que
norteia o filme de suspense.
3.3 O desenvolvimento da narrativa cinematográfica
O desenvolvimento da narrativa cinematográfica deve-se ao americano,
David Wark Griffith, o mérito de ter introduzido um tipo de narrativa visual, seguido
como modelo pela indústria cinematográfica do Ocidente.
Reis explica que a principal importância de Griffith foi mostrar que uma
câmera de cinema podia produzir um tipo de narrativa visual diferente da usada no
teatro, estabelecendo assim os princípios básicos para uma linguagem usada, até
hoje, no cinema mundial.
Griffith percebeu que os enquadramentos mais abertos (planos gerais e
planos conjuntos) servem para reforçar o aspecto descritivo da estória. Já
os primeiros planos e close-ups oferecem ao espectador uma proximidade
maior com os personagens, podendo ser utilizados para transmitir mais
fortemente as emoções. Os planos médios, por outro lado, são planos
eficientes para destacar a ação e o movimento dos atores. Em resumo os
planos podem ser classificados de três maneiras: nos planos descritivos,
narrativos e dramáticos. Os planos descritivos são: Grande Plano Geral
(G.P.G.); Plano Geral (P.G.), Plano Conjunto (P.C.) e o Plano Médio (P.M.).
Os planos narrativos se subdividem em plano americano (P.A.) e o
Primeiro Plano (P.P.). Os planos dramáticos são o primeiríssimo Plano
(P.P.P.) e Plano Detalhe (P.D.) (REIS, 2002, p. 65).
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Um outro autor que explica detalhadamente como se faz a montagem do
filme baseando-se na decupagem, é Staples.
Imagine o início de um filme de cowboy, com John Wayne cavalgando no
meio do deserto. De acordo com a linguagem clássica-narrativa, usada pelo
cinema americano, este filme começaria com um grande plano geral,
mostrando ao espectador onde se desenvolve a ação. Mesmo sem possuir
qualquer áudio em off (narrativa ou trilha sonora), ou seja, mesmo que o
GPG fosse de um filme mudo, este plano é “traduzido” pelos olhos do
espectador como: “ No velho oeste, um cavaleiro solitário atravessa o
deserto” . Em outras palavras, os planos gerais são mais eficientes sob o
ponto de vista descritivo, e servem para situar o espectador
geograficamente. Os planos gerais estão para o cinema clássico-narrativo
como o “Era uma vez...” ou o “Naquele tempo...” estão para a literatura
(1993, p. 74).
Sempre após um longo grande plano geral de apresentação, o diretor
provavelmente cortaria para um plano conjunto e, em seguida, apresentaria o
personagem em ação, através de planos médios. Desta forma, o espectador tem
como perceber, por exemplo, o ator com uma flecha atravessada no chapéu,
carregando um saco de ouro.
Na prática, a ação é o próprio enredo da estória e é por este motivo que,
nos filmes clássico-narrativos, os planos médios são os que existem em maior
número, pois o principal objetivo de um filme narrativo é contar a estória de forma
clara e objetiva.
O próximo corte seria um close-up do rosto. Dois são os principais
motivos para este corte: o primeiro é apresentar o personagem ao público, e o
segundo é transmitir o estado emocional do ator. Por serem enquadramentos de
grande impacto visual, os planos e closes devem ser usados moderadamente,
aparecendo apenas nos momentos de maior tensão dramática. Ao contrário dos
filmes publicitários que, intencionalmente, utilizam muitos close-ups e planos
detalhes.
3.4 Outros caminhos para a narrativa cinematográfica
Griffith fundamentou o modelo de cinema dominante no Ocidente, que seria
a decupagem convencional clássica. No entanto, existem diversas
propostas de linguagem cinematográfica, bem diferentes desta narrativa
como por exemplo: a montagem intelectual de Eisenstein (diretor russo), o
surrealismo de Luiz Buñuel (diretor espanhol), o cinema expressionista
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alemão de Jostron, o neo-realismo italiano de Frederico Fellini, a nouvelle
vague francesa, o cinema novo de Glauber Rocha (diretor brasileiro), o
cinema experimental americano entre outros. Todos esses movimentos
artísticos e diversos diretores, apresentam em comum um discurso
cinematográfico bem diferente do modelo dominante, que é o cinema
clássico-narrativo americano. O cinema de Hollywood representa a “Lei”.
Para que a lei seja cumprida é necessário o xerife. Este, por sua vez, se
preocupa em eliminar bandidos. É a velha estória de Pat Garret e Billy the
Kid. Não seriam, alguns dos cineasta citados anteriormente, os “fora-da-lei”
? (FIELD, 2005, p. 98).
Para Luiz Buñuel, nenhuma outra forma de arte foi tão aprisionada como
o cinema. Deixou-se de explorar as possibilidades que este oferece, registrando-se
imagens que a retina já está cansada de ver, ou simplesmente, produzindo-se filmes
de bandidos contra mocinhos.
Um outro exemplo de cineasta que reage violentamente contra o cinema
clássico-narrativo é o americano Stan Brakhage, conhecido por seus trabalhos
experimentais, ele propõe novas pesquisas da imagem, através da libertação do
olhar e da contemplação do mundo, com um ponto de vista diferente das
convencionais leis da perspectiva, da composição e da técnica.
Um dos caminhos para uma narrativa cinematográfica original sempre
usados pelos profissionais de produção é a decupagem. Decupar é dividir o filme ou
o vídeo em planos. Sob o aspecto físico, o plano é um segmento de imagem
contínua compreendido entre dois cortes, ou seja, é a imagem registrada durante o
intervalo de tempo no qual a câmera está ligada, gravando uma cena; em relação ao
enquadramento, o plano é classificado de acordo com o tamanho da figura humana
dentro do quadro. Decupar, então, “é reunir uma série de fragmentos de imagem
contínua, filmados ou gravados sob diversos ângulos e com pontos de vista
diferentes” (STAPLES, 1995, p. 118).
A análise de Staples é pertinente, pois a narrativa desenvolve-se até hoje
dentro da decupagem clássica, ou sejam, para montar-se o processo de filmagem
elabora-se um conjunto de planos que chama-se cena, e um conjunto de cenas que
chama-se seqüência. Comparando-se um filme (ou um vídeo) com um livro, podese dizer que as seqüências seriam os capítulos, as cenas seriam as os parágrafos
relacionados com a mesma ação e/ou com o mesmo cenário e os planos seriam as
frases.
Costuma-se chamar de TAKE cada tomada de cena, ou seja, take é o
registro repetido do mesmo plano. Por exemplo: se na CENA 1 – PLANO 4 uma atriz
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não interpretar bem seu papel e se o diretor não gostar do trabalho, ele pedirá para
repetir a ação. A primeira gravação do PLANO 4 é o TAKE 1. A segunda é o TAKE 2
e assim sucessivamente. Se por acaso, o mesmo plano for gravado/filmado cinco
vezes e o último for o melhor, na hora da edição/montagem será aproveitado apenas
este último, ou seja, o TAKE 5. No cinema, quando o diretor não gosta do plano, é
sempre necessário filmar novamente, gastando cada vez mais película virgem. No
caso do vídeo, as fitas magnéticas podem ser desgravadas e gravadas a qualquer
momento permitindo o registro de apenas um take de cada plano. Se o material não
ficou bom, basta rebobinar a fita e gravar tudo de novo. E atualmente existe o
formato “XDCAM”1 em que as cenas são gravadas direto em um HD (disco rígido) de
computador dispensando o uso de fitas magnéticas ou película.
A CENA é a reunião dos planos que estão diretamente relacionados com
a mesma ação principal e/ou com a mesma locação. Normalmente, a CENA está
ligada ao cenário, pois é comum uma determinada ação começar e terminar na
mesma locação. De qualquer forma, é aconselhável relacionar a cena com uma
ação importante da seqüência. Em um longa-metragem é comum encontrar cerca de
seis ou sete seqüências, que são os seis ou sete eixos de ação dramática do filme.
As seqüências estão misturadas entre si e, desta forma é possível, por exemplo,
encontrar cenas da SEQUÊNCIA 4 na SEQUÊNCIA 2. Um filme clássico-narrativo
normalmente tem uma seqüência principal forte, correspondente ao eixo de ação
central. As outras seqüências paralelas servem para reforçar a ação da seqüência
principal.
Os filmes de Hitchcock são um bom exemplo de decupagem. Em Psicose,
na famosa cena do assassinato no banheiro, foram utilizadas cerca de
setenta posições de câmera em 45 segundos de filme. Em outro extremo,
Hitchcock realiza um filme com um único plano seqüência (PLANO
SEQUÊNCIA é a filmagem de uma seqüência em um único plano). Em
Rope (Festim Diabólico), cada plano tem dez minutos, que é o tempo
correspondente ao comprimento total de um filme de 35mm. Para superar o
problema técnico da interrupção ao final de cada rolo, Hitchcock terminava a
ação, por exemplo, filmando um plano detalhe de um paletó preto e
continuava a ação no rolo seguinte, com a câmera enquadrando um plano
detalhe do mesmo paletó, o que tornava o corte imperceptível, criando uma
idéia de ação contínua (WATTS, 1981, p. 184).
A arte da decupagem é um dos segredos fundamentais para a direção de
um enredo. Um bom diretor de cinema ou de televisão é aquele que, além de
1
Lê-se “escdecam”, são as câmaras atuais que estão no mercado cinematográfico, junto com a
“HDcam”.
20
dominar o lado estético da realização, domina também a divisão do filme ou do
vídeo em planos.
3.5 Assim se faz cinema
O processo cinematográfico começa pela elaboração de um roteiro,
seguido da produção geral e executiva. A produção executiva arrecada verbas para
a filmagem do roteiro, patrocínios e apoios culturais para a realização do filme, já a
produção geral preocupa-se com tudo o que fará parte da filmagem, ou seja,
veículos, contratação de equipe, locações (que são os locais de filmagem), hotéis
para atores e equipe, alimentação, transporte de equipamentos, roupas (figurino),
cenários e etc. Depois que os produtores arrecadam verba para o filme e
conseguem toda a infra-estrutura necessária para a realização do mesmo, começa o
processo de filmagem.
Sobre o processo de produção cinematográfica, existem alguns pontos
levantados por Almeida (2004) que me parecem importantes tratar, são eles: autoria,
fragmentação do trabalho, linguagem cinematográfica, custo elevado de uma
produção, instantes de tempo e oralidade.
Introduzo este tema com algumas
informações pertinentes ao assunto e que nos ajudam a mergulhar ainda mais neste
universo.
Para produzir um filme, é necessário um grande número de pessoas, que
segundo Rodrigues (2002, p.13), deve-se basicamente ao “Inventor (pensadores
que reformularam as primeiras teorias sobre ótica), ao Artista (roteiristas, diretores,
equipe e atores) e ao Homem de negócios (planejadores, investidores,
distribuidores e exibidores)”, sendo que todos dependem, é claro, do público que
irão atingir.
Por serem muitos técnicos, trabalhando juntos ou isoladamente na
produção de um filme, é imprescindível que “uma equipe técnica deve ser como um
relógio, em que as peças funcionam como uma só, sendo cada uma necessária
individualmente”, de acordo com o autor (idem, p.76), o primeiro “autor” de um filme
viria a ser o roteirista, que é a pessoa que a partir da história dada a ele vai montar
cada cena do filme detalhadamente, indicando os ângulos e enquadramentos que
serão usados, as falas, e muito do que se passa nas cenas. Jean-Claude Carrière
(apud Rodríguez, 2002) define bem essa parte dizendo que:
21
O roteiro é a posição-chave na fabricação de um filme, pois é a partir dele
que se decide o filme. Um bom roteirista é aquele que conhece a fundo a
técnica cinematográfica, pois é preciso escrever coisas filmáveis, do
contrário o roteiro não passa do sonho impossível de um filme (p. 50).
Após a elaboração do roteiro, o filme é dirigido por uma pessoa, "o diretor"
que geralmente coloca algumas de suas características no trabalho. Esse diretor é
auxiliado por uma equipe de produção técnica, para que finalmente o filme seja
editado e aqui entra a tarefa do "montador" (BERNADET, 2004, p.37).
A equipe de ”artista” ou “técnica”, como assim denomina Rodrigues
(2002), pode ser dividida em: a) Equipe de produção, b) Equipe de Direção, c)
Departamento de Arte, d) Departamento de Fotografia, e) Som e f) Finalização e
Edição. Cada uma delas é composta por uma série de sub-funções.
O fator autoria, talvez seja uma das características mais importantes que
destacamos no processo de produção cinematográfica, e que faz distinguir o cinema
das muitas outras artes que possuem apenas um autor, como o pintor, o escultor, o
poeta, o cantor, etc. Por mais que exista o diretor que toma frente de tudo, ainda
assim ele não é o único autor de um filme, há de se considerar o escritor do filme e
toda a equipe que participou, seja na produção e até mesmo na indústria
cinematográfica, que está por trás, deixando assim de ser um “autor individual” para
ser um “autor coletivo”.
Almeida (2004) ressalta que essa autoria coletiva vai resultar numa
fragmentação de trabalho, pois a maioria das pessoas que formam a equipe,
trabalham independentes umas das outras, e muitas vezes nem dialogam, ainda
mais hoje em dia, com todos os recursos digitais disponíveis, a produção é capaz de
fazer coisas que antes seriam impossíveis, como filmar duas pessoas separadas e
ao final da montagem, parecerem que estiveram frente a frente.
Apresentei anteriormente, uma lista com aproximadamente 50 pessoas
envolvidas na equipe, e cada uma cumprindo uma função específica. No set de
produção, por exemplo, as cenas não são gravadas necessariamente em ordem,
existem atores que participam de algumas cenas e de outras não. Quando o filme é
rodado em diferentes lugares, contrata-se parte da equipe neste local.
Bernadet (2004, p.65) diz que “a fragmentação do trabalho leva a
fragmentação da percepção”, logo pode-se dizer que a autoria de um filme, se dá
por partes, são todas essas funções que tornam a obra, ou seja, o filme possível.
22
Lembrando assim uma fala de Almeida (2004) dizendo que, “o significado de um
filme é o todo” (apud Duarte, 2002, p. 37).
No cinema, existe também uma linguagem própria, a linguagem
cinematográfica, que segundo Bernadet (2004, p.33), surgiu para “[...] tornar o
cinema apto a contar histórias”, a maneira como o filme é feito influencia na
produção de significados do espectador, o modo de filmar, os planos escolhidos, a
iluminação, a música etc. Napolitano (2003, p.15) então ressalta a importância de
que se conheça a linguagem cinematográfica para que se possa ser crítico em
relação ao que vê, pois,
a gramática cinematográfica criou uma linguagem profundamente rica; fruto
da articulação de códigos e elementos distintos: imagens em movimento,
luz, som, música, fala, textos escritos; o cinema tem a seu dispor infinitas
possibilidades de produzir significados (DUARTE, 2002, p.37).
Outra questão levantada por Almeida (2004), é sobre o custo elevado de
fazer cinema, sobre a dificuldade financeira e estrutural que se tem em fazer um
filme. Para ele tanto o cinema quanto a televisão, são indústrias grandes, com
“divisão e hierarquização de trabalho, de poder e interesses de mercado e de
política social, e que produzem para o consumo geral das pessoas”. Sua produção é
complexa e cara, tornando-se inacessível para a maioria das pessoas. Quanto a isso
o autor diz ainda, “você pode pagar cinema, ver cinema, gostar, desgostar, porém
dificilmente poderá produzi-lo” (idem, p 25). Embora esta realidade esteja
começando a mudar, ou melhor, estejamos abrindo as portas para um cinema
alternativo, com filmes produzidos em casa, popularmente chamados de “filmes de
quintal”, devido a evolução das tecnologias e aumento da sua acessibilidade, ainda
assim o cinema continuará sendo uma indústria de alto valor.
Almeida ainda nos faz refletir sobre a indústria cinematográfica, que
produz um tipo de mercadoria que não é manuseável, é consumida individualmente
e por muitos ao mesmo tempo, pois ela “vende instantes de tempo em historia”
(idem, p 26). Tempo este em que o espectador paga o bilhete para assistir a uma
única sessão que nunca mais volta, e por ser uma mercadoria abstrata, é sempre
uma aposta no escuro, ela não é matéria e sim fruição.
O último ponto aqui abordado é com respeito à oralidade, ela que deu
origem ao cinema e a televisão, vista por Almeida como uma “necessidade/desejo
de ouvir/dizer histórias, faladas e contadas para serem ouvidas”, segundo o autor
(idem, p. 26), podemos dizer que esta oralidade está muito presente em outras artes
23
como no teatro, poesia e música. O autor ainda nos faz refletir sobre a questão da
imersão do espectador quanto ao que está vendo e ouvindo, pois para ele a “[...]
proximidade real das imagens tem uma configuração muito próxima da oralidade, o
que explica em parte, o fato de que as imagens são às vezes, mais fortes do que um
texto" (idem, p. 9). Em outras palavras, que o casamento da imagem com a
oralidade, foi algo que deu certo e, é uma característica importante a se considerar
no momento de produção e apropriação de um filme.
3.6 A importância de assistir e fazer cinema na escola
A instituição escolar tem como papel social a transmissão de
conhecimentos, acumulados historicamente que fornecem qualificação para o
trabalho, embora se preocupe com a educação de maneira mais amplia, isto é,
preparar os alunos para a cidadania.
Professores, alunos, pais e a própria sociedade, esperam algo mais da
escola. Segundo Duarte (2002, p. 19), o aluno espera saber, aprender; o professor
espera poder transmitir um saber; os pais esperam que a escola contribua com a
formação de seus filhos; a sociedade espera que suas gerações futuras possam
estar aptas para perpetuar ou melhorar as condições de vida.
Utilizar o cinema dentro da sala de aula é explorar uma nova linguagem,
encorajando os alunos a se comunicarem de outras formas, buscando uma nova
visão da realidade. Promover através do cinema a comunicação e a interatividade
nas aulas é dar aos alunos a possibilidade de organizar, explorar e esclarecer seus
conhecimentos, por meio de conflitos reais ou ficcionais, mas que fazem parte de um
contexto histórico social ou político, enredos que despertem curiosidade, ansiedade
e novas descobertas, promovendo uma percepção mais atenta e detalhada das
situações reais, de acordo com Irene Tavares de Sá (1976, p. 118), estudar e
aprender através da linguagem cinematográfica é como aumentar a visão para os
detalhes, para a sensibilidade, para as coisas que acontecem no cotidiano. É
ampliar o olhar para novas formas de comunicação e perceber como isso pode
interferir ou assemelhar-se ás nossas vidas. Para Napolitano (2004, p.11) ,
24
“trabalhar com o cinema em sala de aula é ajudar a escola a reencontrar a cultura ao
mesmo tempo cotidiana e elevada”.
O professor nunca pode esquecer que existem vários fatores que
interferem durante uma projeção em sala de aula, um deles é a situação psicológica
muito peculiar de cada aluno. Esta característica relaciona à pessoa que está
assistindo ao filme uma forma empática de visão, isso acontece porque as pessoas
assistem à uma história contada no filme em tempo presente e real, quando na
realidade o tempo cinematográfico é outro,ou seja, a história de uma guerra por
exemplo, pode ser contada em uma projeção de duas horas, quando na realidade a
guerra pode ter durado dez anos, mas o espectador nem percebe a passagem do
tempo e sai da sala de cinema com a impressão de que vivenciou a história real e
até vários fatores acontecidos na história se identificam com os fatos ocorridos na
sua vida autor
Uma das principais justificativas para o uso do cinema na sala de aula é a
de que ele ilustra e motiva estudantes desestimulados para a leitura, entretanto ele
não deve funcionar apenas como sustentação para solucionar esse desinteresse. É
preciso também refletir que quanto mais houver elementos relacionados ao processo
de ensino mais adequado será a inserção deste na sala de aula. O importante é
salientar que o cinema não é uma solução para os problemas encontrados pelo
professor na sala de aula, mas ele pode ajudar no processo de aprendizagem. É
importante que o professor crie seus procedimentos para que possa trazer a reflexão
coletiva dentro da sala. Nesse sentido a linguagem audiovisual pode tornar-se o
fomento necessário para subsidiar uma educação mais dinâmica e avançada,
relacionando os sistemas educacionais tradicionais com novos métodos de ensino e
aprendizagem.
Napolitano defende que sendo os instrumentos midiáticos, atualmente,
imprescindíveis para as novas formas de educação, os filmes de cinema (ficção e
documentários) podem transformar-se em uma nova forma de educar e ensinar
conteúdos de maneira mais dinâmica e enriquecedora, tornando-se instrumentos
capazes de romper idéias pré-concebidas e ilustrar conceitos antes difíceis de serem
explicados apenas na linguagem verbal. Isso pode ser realizado desde que seja
criado um contexto criativo em sala de aula.
25
O cinema tem certa magia e, quando usado na escola, ilustra e motiva o
aprendizado, podendo ser considerado uma nova linguagem. Trabalhar com
o cinema em sala de aula é tornar o aluno um ser conhecedor de suas
sensibilidades, valorizando a cultura popular, aglomerando a estética, o
conhecimento, o divertimento, a ideologia, a política e os valores sociais
numa mesma obra. Cabe sempre ao professor especificar qual é o uso
cabível dos filmes dentro de sua disciplina, trazendo para dentro da escola
algo fundamental, a troca do específico pela sensibilidade (RODRIGUES,
2002, p. 132).
3.7 Utilizando o cinema em sala de aula
Na educação atual existem várias formas de as crianças aprenderem a
desenvolver seus potenciais. O aprendizado pode ser realizado de várias formas, na
forma convencional através da leitura e da escrita, através da audição. Quantos
professores de línguas já não se utilizaram de aparelhos de som para reproduzir
músicas que facilitem a pronúncia de seus alunos? Através de formas visuais:
cartazes e desenhos
Um filme pode ser explorado pela análise da trilha sonora, fazendo com
que os alunos compreendam a relação existente entre a música, o ritmo e o
andamento das imagens projetadas. Pode-se analisar as cores predominantes em
um filme, fazer desenhos com base nas cenas, discutir opiniões sobre o que foi
visto, pode-se até recontar a história do filme, imaginando diferentes finais para o
mesmo.
Tudo isso pode ser percebido e relacionado com os filmes. As crianças,
por exemplo, criam a leitura de imagens desde cedo e aprendem a ver a imagem em
movimento, o que estimula a leitura mais complexa dos filmes, mas esses são
pontos que serão discutidos posteriormente neste trabalho, quando enfatizarmos a
utilização do cinema em disciplinas específicas. Embora valorizado, o cinema ainda
não é visto pelos sistemas educacionais como uma fonte do conhecimento por si só,
é preciso então que a atividade que envolve a utilização do filme seja produtiva e
tenha um valor informativo para os que irão assistir, para que isso aconteça, é
necessário que o professor assista ao filme que irá ser projetado antes de exibi-lo
em sala de aula. Desta forma, o educador saberá quais conteúdos específicos
poderão ser abordados e fazer a adequação para sua disciplina.
26
Um filme pode ter uma abordagem relacionada à disciplina que é
ministrada ao educando desde que encontre material suficiente nas situações
ocorridas no filme, que se relacione com o conteúdo programado para a aula.
Acreditando que o olhar da criança se constrói, paulatinamente na sala de
aula, particularmente nas aulas de artes, que parece um espaço limitado, mas que
se abre para outros espaços. Buero (2006) justifica seu projeto de ensino ao discutir
a desvalorização do desenho e pinturas, tanto na escola como na família, no
momento em que se inicia o processo de alfabetização, perdendo desta forma a
liberdade de expressão e significação. Outra dificuldade é quando a criança – por
volta dos 9 anos – se preocupam demasiadamente com o julgamento de seus
trabalhos, se estão certos ou errados e, diante de tal dificuldade, acaba por utilizar
estereótipos que, veiculados pela mídia – e também validados pela escola, se
apresentam como forma segura de representação. Diante de toda esta problemática,
nasce a pergunta: Qual o papel do educador? Seria sensibilizar a criança para que
ela possa ser uma receptora? E porque não uma produtora? Acreditando que o
professor pode contribuir afetivamente e cognitivamente para o desenvolvimento da
expressão da criança, o autor estabelece como objetivos de sua proposta
metodológica: a) o desenvolvimento da percepção visual e da imaginação criadora;
b) a ampliação do repertório imagético; c) a aquisição de conhecimentos em arte.
27
4 METODOLOGIA
Pesquisa é a busca sistemática de soluções, com o fim de descobrir ou
estabelecer fatos ou princípios relativos a qualquer área do conhecimento
humano. (ZAMBONI, 2001, p.43).
Demo (1991, p.18) afirma que: “um dos instrumentos essenciais da
criação é a pesquisa. Nisto está o seu valor também educativo, para além da
descoberta científica”. Para falar do cinema e sua relação com a educação, tomo
como recorte a produção cinematográfica realizada com as crianças da E.M.E.I.E.F.
Prof. Moacyr Jardim de Menezes, para tanto o registro fotográfico ou escrito é sem
dúvida algo indispensável. Além de falar com as crianças, me propus a ouví-las, não
somente como consumidoras de cultura, mas como produtoras e participantes ativas
da mesma. O principal instrumento de pesquisa foi o registro escrito que foi coletado
durante e após as aulas, assim como a própria produção das crianças, falo do filme
“Minha escola é assim...”.
4.1 Público e Local
A presente investigação, apontada como uma pesquisa qualitativa,
reconhecida como uma pesquisa-intervensão foi realizada no espaço-tempo da
Oficina de Artes da Escola Municipal de Educação Infantil e Fundamental Professor
Moacyr Jardim de Menezes localizada no bairro Ceará, município de Criciúma, SC.
A oficina é freqüentada por um grupo de aproximadamente 12 crianças com idade
entre 9 a 12 anos, e que tem encontros semanais de 2 horas e em horário extraclasse, salvo os momentos em que estive com os alunos no horário de aula,
contemplando então um número maior de crianças (de 12, o número sobe para 15
crianças).
28
4.2 Autorização
Para que a pesquisa estivesse de acordo com as normas adotadas pelo
Comitê de Ética em Pesquisa com Crianças (a Unesc está rediscutindo estas
normas, as quais tomo cuidado de respeitar), foi elaborado um Termo de
Responsabilidade e Consentimento Livre e Esclarecido, para que os pais ou
responsáveis por cada criança assinasse autorizando assim a participação da
criança no filme que seria produzido, bem com a liberação do uso de sua imagem.
Porém, antes de encaminharmos aos pais, o consentimento das crianças foi
fundamental.
29
5 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS
A pesquisa constou de três partes: a primeira sobre os processos de
operação de câmera e utilização de equipamentos, a segunda sobre os processos
de realização e escolha dos roteiros e a terceira e última foi a produção e realização
cinematográfica propriamente dita com a locução de áudio do texto do roteiro
elaborado. A edição por ser realizada numa ilha de edição particular e como exige e
requer muito domínio e conhecimento do operador não permitiu a participação das
crianças diretamente. O filme foi lançado durante a Mostra de Cinema UNESC para
aproximadamente 100 pessoas.
5.1 Oficina de cinema na escola
Antes de começar a desenvolver a narrativa cinematográfica em si, senti
que não podia simplesmente ensinar planos, ângulos e movimentos de câmera sem
antes ensinar os alunos a utilizarem uma câmera.
Meu projeto foi ensinar de forma simplificada, a narrativa cinematográfica
para crianças e ao mesmo tempo fazer com que elas descubram seus próprios
talentos, realizando um filme de curta metragem.
5.1.1 Primeiro encontro: o projeto de um filme
Na primeira aula, com um foco mais teórico, foi explicado o projeto e
como seria realizado o filme, o fascínio causado nas crianças pela oportunidade
gerada de contarem suas estórias e o fato de poderem colocar a mão em uma
câmera, no equipamento e também de participarem das filmagens realizadas pelos
colegas interagindo como personagens, surpreendeu a mim e aos educadores
presentes na oficina. A euforia tomou conta dos pequenos cineastas que descobriam
30
ali uma novidade e a chance de uma nova brincadeira, curiosos faziam perguntas de
todo o tipo e inquietos queriam saber como a tal novidade funcionaria? Onde seria
projetado o filme? Qual duração? Sobre que assunto filmaríamos?
Aos poucos o processo foi tomando forma e as crianças foram
entendendo qual era a proposta e aceitaram por unanimidade a chance de
realizarem um filme dentro da escola, paralelamente estavam realizando um
trabalho de cinema de animação com figuras que eram fotografadas para
futuramente entrarem em movimento através de um software de edição de vídeo.
Achei de grande criatividade da acadêmica Nathália2 a proposta de
desenvolver tal trabalho com os alunos, aquilo tornou a aula mais proveitosa e
dinâmica. Notei também, o quanto é importante que os professores de artes das
escolas públicas, sejam profissionais versáteis para ensinar algo significativo para as
crianças e que as aulas precisam ser muito bem planejadas antes da execução.
Tudo acontecia na sala de aula, liguei minha câmera e registrei vários momentos da
aula, mas pedi que as crianças esquecessem que eu e a câmera existíamos, foi
incrível, em um primeiro instante alguns riam para a câmera e depois foram
acostumando com o fato de a máquina estar ali ,como se fosse um deles,
começaram a agir com naturalidade e perder a vergonha de ficar na frente da
câmera, eu não queria mais desligar a câmera, adorei ficar registrando cada
momento de cada criança descobrindo como ligar, posicionar e disparar a câmera
fotográfica, ao final os alunos gostaram da minha presença na sala, quanto a mim
senti-me acolhido e muito bem recebido tanto pela escola como pela turma em que
estou desenvolvi o projeto e pela professora de arte das crianças.
5.1.2. Segundo encontro: a linguagem cinematográfica
O segundo encontro foi ainda mais proveitoso, pois todos os alunos
participaram do processo. A vantagem é que na aula anterior tínhamos nos
2
Nathalia Aquino desenvolveu um projeto de pesquisa em nível de graduação com essas crianças, o
que gerou a produção de uma animação.
31
acostumado com a existência de uma câmera filmando a aula e isso facilitou o
processo.
Começamos pelo aprendizado de planos, ângulos e movimentos, as
crianças tinham de escrever em cadernos tudo que eu ensinava para que
posteriormente seja dado andamento ao projeto do filme de forma organizada. O
fato de terem de escrever foi aceito com alguma resistência por alguns, assim pude
notar que algumas crianças tem dificuldade na escrita e que eu também devo ter
mais paciência, pois uma criança não escreve com a mesma velocidade de um
adulto. Enquanto eu ditava os planos e enquadramentos, solicitava a um voluntário
da sala que se aproximasse da câmera para que eu pudesse mostrar na prática
como ficariam as cenas feitas da forma como escrevemos. Esse fato facilitou a
compreensão dos alunos, pois conforme escreviam um plano eu mostrava na
câmera e com um colega como personagem, como o plano seria na realidade.
5.1.3 Terceiro encontro: a câmera
O movimento da câmera para cima e para baixo ou lateral, sobre trilhos, a
roteção dela sobre o eixo, horizontal ou vertical, o zoom, o foco, o
enquadramento, composição de imagens dentro dos limites físicos da
tomada, são, também elementos constitutivos desse complexo sistema de
significação, responsável, entre outras coisas, pelo que melhor caracteriza a
especificidade da linguagem do cinema: a impressão da realidade.
(DUARTE, 2002, p. 43 - 44).
Buscando estar de acordo com essa impressão da realidade relatada por
Rosália Duarte (2002, p. 43 - 44) é que eu tentei também dar um significado especial
à utilização da câmera, o primeiro passo foi fazer com que os alunos entendessem
tudo o que havia sido explicado, só que na prática, usando seus conhecimentos
técnicos e empíricos para operar a câmera e começassem a usar o equipamento
adequadamente.
32
Imagem 1 e 2: Fotografias 3
Consegui equipamentos emprestados com produtoras cinematográficas
da cidade de Criciúma, empresas nas quais presto serviço como diretor de cena. O
equipamento utilizado foi uma câmara DV500 mini-DV, um tripé Manfroto para a
câmara, 3 refletores de 1000w cada para iluminação, Dolly (carrinho para movimento
de câmara), um monitor profissional Sony além de extensores e cabos de luz. A
partir daquele momento todos teriam que ter muito zelo para que o equipamento não
estragasse e para que ninguém sofresse algum acidente, minha atenção se
redobrou.
Cada aluno aprendeu como ligar, enquadrar e disparar a câmera para a
gravação
das
cenas,
simultaneamente
eram
recrutados
voluntários
para
participarem como atores das cenas feitas por seus próprios colegas. Todos queriam
operar a câmera ao mesmo tempo, mas como só existia uma câmera, tivemos que
trabalhar pela ordem em que estavam sentados na sala. O mais impressionante foi
ver que mesmo pequenos, com mãos que não alcançam nos botões eles faziam
cenas maravilhosas e a cada vez que rodavam as cenas, estas ficavam mais bem
feitas. Os mais tímidos da sala, no início, não queriam participar das cenas como
personagens, mas nos momentos finais todos participavam e interagiam com a
câmera e com os colegas que estavam filmando, perdendo aquele constrangimento
inicial.
Pude notar que as crianças tinham imensa curiosidade de saber como
cada botão funcionava e os mais curiosos produziam cenas e enquadramentos que
não tinham sido mostrados, criando uma narrativa própria, fiquei muito contente ao
3
As fotos aqui apresentadas foram tiradas no decorrer dos encontros, havia uma máquina na Oficina
e esta foi utilizada tanto por Nathália quanto pela professora de arte que acompanhavam todo o
processo.
33
ver que todos haviam aprendido o que me propus a ensinar e estavam concentrados
no projeto, e acabei aprendendo a fazer cinema do jeito deles.
Após o intervalo nos reunimos para definir a pauta do próximo encontro,
onde trabalhamos com movimentos de câmera e composição, o que me deixou
realmente surpreendido com esta turma foi que muitas vezes parecia que estávamos
em uma reunião de pré-produção de um longa-metragem profissional tamanha era a
concentração e a dedicação das crianças para com o projeto do filme.
5.1.4 Quarto encontro: a utilização do travelling
Após aprenderem os diferentes movimentos e ângulos que se podem
fazer com a câmara, senti a necessidade de mostrar como cada um deles
funcionavam na prática, pois assim eles entenderiam com mais facilidade.
O “Dolly”, é uma espécie de carrinho que roda em cima de trilhos de PVC
para fazer movimentos laterais e frontais com a filmadora durante a filmagem, este
movimento é chamado de travelling.
Imagens 3 e 4: Fotografias
Todas as crianças ajudaram a carregar e a montar o “Dolly”(equipamento
que faz o movimento de travelling) dentro da sala de aula. Começamos então
nossas atividades, agora nosso sistema havia se modificado, pois os alunos
precisavam enquadrar os planos com os ângulos que havíamos estudado, porém
tudo isso em movimentos laterais, frontais e de recuo, utilizando o dolly.
34
Mostrei como o equipamento funcionava, desta vez foi mais fácil a divisão
de tarefas, pois enquanto um grupo ficava interpretando, os outros iam filmando e
outros ajudando na movimentação do travelling, foi muito divertido ensinar desta
forma e eles mostraram-se mais interessados que nas aulas anteriores e assim
sucessivamente pois a cada aula havia novidades.
O fato que me deixou mais surpreendido foi que em três aulas apenas,
algumas das crianças já tinham conseguido produzir planos bem enquadrados, com
angulação adequada e movimentos suaves e precisos. Fiquei surpreso em
ver
tamanha evolução em tão pouco tempo, pois, estava acostumado a desenvolver
oficinas para adultos, e estes executam os exercícios exatamente como consta no
método aplicado sem a imprevisibilidade das crianças que fazem com que surjam no
processo desvios capazes de desenvolver outros tipos de narrativa que não as
clássicas. Além disso, me parece que as crianças têm uma visão mais sensível e
mostram seus sentimentos com mais facilidades do que os adultos na discussão dos
assuntos pertinentes na produção.
Analisando com mais profundidade pude notar que as crianças
descobriram a relação entre a velocidade dos movimentos e todas as outras
técnicas aplicadas. Nesta etapa do trabalho fui novamente surpreendido, pois as
crianças, sem que eu ensinasse, começaram a aplicar as outras técnicas que
estavam no meu plano e ainda não tinha passado a elas, confesso que fiquei meio
apreensivo e
com medo de que isso comprometesse o método que estava
aplicando.
Diego (9 anos), Jordan (8 anos) e Carol (10 anos) foram os que mais se
destacaram nesta parte, eles misturavam movimentos de panorâmica com o uso do
travelling, ao perceber tal avanço por partes das crianças eu tive que adiantar alguns
tópicos do meu plano de trabalho.
As crianças começaram a se acostumar com o desenvolvimento da
narrativa, logo depois das explicações, a turma inteira foi para fora da escola
produzir cenas externas. Como existia apenas uma câmera para trabalhar, as
crianças ficaram cantando e fazendo brincadeiras com a professora Nathália,
enquanto cada um dos alunos produzia suas próprias imagens.
O que mais me impressionou nas crianças foi que após aprenderem a
manipular o equipamento já estavam se sentindo independentes, fazendo a
35
operação de câmera e a produção das cenas sozinhos, alguns precisaram apenas
de uma pequena orientação.
Nesta altura eles já estavam acostumados com a presença da câmera e
ficavam empolgados, quando produziam imagens dos próprios colegas. Nos
encontros anteriores eu ensinei apenas os planos e movimentos dramáticos, são
estes: primeiro plano, plano meio aproximado, close-up, detalhe e travelling de
avanço. Agora era a vez de progredir ensinando a eles os planos e ângulos
narrativos e descritivos, ou seja, os narrativos – grande plano geral, plano geral,
plano de conjunto e travelling lateral e o descritivos – plano médio e plano
americano.
Nesse quesito a criatividade dos alunos foi além do esperado, cada aluno
quer produzir imagens diferentes das feitas pelos colegas, criando assim novas
imagens. Alguns alunos se mostraram mais empolgados com o trabalho, e estes
aprenderam mais rápido e fizeram as imagens mais precisas que outros menos
interessados.
5.1.5 Quinto encontro: o roteiro
Neste encontro montamos uma equipe de roteiro e como imaginava,
poucos se interessaram em participar, pois deveriam escrever, entretanto aceitaram
debater sobre o tema escolhido. Foi um excelente debate e contou com a
participação das crianças mais retraídas e tímidas que deram sua opinião com
autonomia. A turma inteira discutiu sobre o assunto a ser filmado. Achei
impressionante as opiniões e as personalidades daquelas crianças que defendiam
suas idéias sem relutância. Agora começavam a surgir líderes na turma, naquele
momento iniciava-se a aparição dos roteiristas, atores, operadores de câmera,
diretores e produtores mirins que fariam o tão sonhado curta metragem. As equipes
estavam sendo montadas naturalmente sem a minha intervenção.
Jordan (9 anos), um dos alunos que mais opinava, insistia em produzir um
filme sobre a história do “Boi-de-mamão” - ícone do folclore catarinense, vários
36
alunos apoiavam a sua idéia mas a professora Silemar4 nos explicou que uma outra
escola de Florianópolis já havia feito um filme sobre o mesmo assunto a pouco
tempo atrás.
Depois de muito tempo e debate, as idéias começaram a ficar mais claras,
e decidindo então como tema de nosso filme, um documentário sobre a escola e
seus funcionários. Seria uma forma das crianças homenagearem todos os que
ajudaram na sua educação.
Elegemos como roteiristas, duas meninas, Carol (10 anos) e Bianca (9
anos), uma ficaria responsável pela pesquisa previa e outra pela elaboração do texto
final para o elaborar a partir dele o roteiro. O grupo, ou melhor, a dupla de roteiro foi
dinâmico e esforçado, a capacidade de síntese das duas foi incrível além de serem
atentas e detalhistas.
A sensibilidade e a precisão dos detalhes fez-me notar uma visão
diferente das coisas e da escola. Eu me encontrei quatro vezes apenas com elas
para melhor definir o roteiro e foi gratificante ver o esforço das alunas.
Bianca, desenvolveu, por conta própria, um relatório com detalhes que,
segundo ela, não poderiam faltar em nossa pesquisa. Como por exemplo, nas
palavras dela: O que tem na escola, entrada com portão; um grande pátio;
secretaria; dois banheiros; sala dos professores; parquinho; cozinha; refeitório;sala
da nossa oficina de artes; campo de futebol quadra do lado de fora; sala de
educação física, pra gente fazer exercícios quando chove; corredor para
deficientes;banheiro dos professores; área de serviço dispensa;salinha com
brinquedos e joguinhos; creche até a quarta e a área livre.
O mais interessante no relatório de Bianca foi a forma como se apropriou
da sala onde fizemos nossas aulas como sendo dela e dos colegas, pois no
desenvolvimento do relatório ela escreveu “Sala da nossa oficina de artes” esses
relatórios serviram de base sólida para a elaboração do roteiro propriamente dito.
Percebi que estava trabalhando com duas crianças que sabiam o que queriam
produzir e meu papel era conduzi-las de maneira certa. Foi então que sugeri a
elaboração de questionários para funcionários e para a diretora da escola.
O questionário para os funcionários foi composto pelos seguintes itens:
A) Quantos anos trabalha na escola?
4
Silemar Maria de Medeiros da Silva era a professora de arte das crianças.
37
B) Qual serviço que faz?
C) Qual seu horário na escola?
D) Que trabalho tu fazes e como funciona o seu trabalho?
E) Seus filhos estudam aqui?
F) Seus filhos gostam da escola?
G) E tu o que achas da escola?
As roteiristas foram muito diretas nas perguntas, pois seu objetivo era
claro, em saber os dados precisos sobre a escola: quando foi fundada, quantos
funcionários possui, o que fazem estes funcionários, entre outras questões. Eu
procurei interferir o menos possível, quis deixar as meninas livres para trabalhar,
pois só desta forma haveria toques da individualidade e da linguagem de cada
aluno.
Nas perguntas feitas à diretora da escola, as alunas foram ainda mais
objetivas, procurando saber exatamente os dados que interessavam para a
elaboração do roteiro. A seguir cito tais perguntas:
A) A quantos anos você trabalha na escola ?
B) O que você acha da nossa escola?
C) O que você mais gosta na escola?
D) Quem fundou a escola?
E) Porque fundaram a escola?
F) Qual o trabalho desenvolvido pelos professores?
G) Qual o papel da escola na sua vida?
Fiquei realmente surpreendido com o potencial das alunas, pois mesmo
que eu tenha evitado induzir ou mostrado algum tipo de pesquisa elas mesmas
criaram sua própria forma de investigação. Entendi que através daquele
levantamento de dados elas teriam todas as informações necessárias para o
próximo passo que seria a elaboração do roteiro. Foi mais uma vitória para mim no
trabalho com aquela turma, pois as alunas haviam criado seu jeito de elaborar
documentários e eu estava aprendendo com isso.
Pensei que estava sendo um tanto ousado ao deixar que as alunas, agora
já roteiristas, seguissem com a pesquisa e o cruzamento das informações, eu estava
com receio que o trabalho perdesse o controle, na verdade era medo de que o filme
saísse do meu controle, mas não tive coragem de interromper o processo que era
vontade de toda a turma e que tinha sido elaborado pela opinião geral do grupo.
38
Com
todas
aquelas
informações
coletadas
nos
questionários
conseguimos afinar boa parte do roteiro e resolvemos executar um documentário em
linguagem de cordel, narrando a história da escola, perfil dos funcionários e alunos.
Apesar da dificuldade com a gramática, normal para a idade delas,
mesmo assim conseguiram ordenar bem as idéias e chegando de fato a produzir
sozinhas o roteiro.
5.1.6 Sexto encontro: continuidade no desenvolvimento do roteiro
Eu já havia ensinado o processo de elaboração de roteiro para Carol e
Bianca, por tanto esta aula era para cruzarmos as respostas dadas pelas duas
funcionárias entrevistadas e a diretora da escola. Mas como as crianças são
imprevisíveis tive uma outra surpresa. Fiquei sabendo que durante a semana Bianca
tinha ido na casa de Carol e juntas elaboraram o roteiro. Eu não sabia se aquele
roteiro era o mesmo que todos nós rodaríamos, mas resolvi deixar o máximo da
elaboração do que elas tinham feito no roteiro final que produziríamos. E depois de
todo esse processo as alunas chegaram ao seguinte roteiro:
A minha escola é assim!
A minha escola tem um grande papel ensinar e aprender
Porque escola somos todos nós
O ensino é mais do que importante, ele é fundamental para o agora e para
o futuro
Para
crescermos
como
cidadãos,
sermos
na
vida
alguém,
e
conquistarmos nossos sonhos.
Para se chegar a algum lugar temos de ter paciência para estudar.
A Escola Municipal de Ensino Fundamental Moacyr Jardim de Meneses e
onde eu estudo ela foi fundada em 1987.
Eu adoro a escola ela é como a minha segunda casa.
Eu tenho certeza que todos gostam da escola, porque tem um monte de
coisas incríveis acontecendo aqui.
Espero que a gente consiga fazer um grande filme.
39
Eu queria que em todos os lugares do mundo existisse uma escola, para
que todos pudessem ensinar e aprender e o mundo seria bem melhor.
Após a elaboração final do roteiro. Já sabíamos quais passos deveríamos
seguir, o mais estranho para mim é que eu estava aprendendo uma nova forma de
produzir cinema, um jeito menos sistemático e mais divertido mas sem nunca deixar
o planejamento de lado. Com nosso roteiro na mão marquei nosso próximo
encontro, agora todos os alunos juntos com as roteiristas iriam discutir quais cenas
seriam feitas para o texto de Carol e Bianca. Já na sala, notei que todos, sem
exceção, tinham criando intimidade comigo e estavam mais a vontade, por isso
davam suas opiniões sem receios. Giselle e Jordan defendiam que a abertura de
nosso filme tinha de ser feita com o nome do filme com fundo bem colorido, pois se
tratava de um trabalho desenvolvido na oficina de artes. Já Diego, queria filmar, ser
o “câmera-man”, independente do assunto, abro aqui um espaço para falar deste
aluno, pois considero o aprendizado dele uma das maiores conquistas nesta oficina.
A princípio, Diego mostrava-se uma criança agressiva com colegas e professores,
mas com apenas 10 anos tem traços de uma forte personalidade e só faz o que
quer. Durante as aulas sempre notei sua agressividade e ansiedade por isso eu e
Diego chegamos a um acordo difícil, mas confortável para ele e para a turma. O
acordo era o seguinte: quando ele estivesse agressivo, ansioso e com vontade de
brigar, poderia, sair da sala, contanto que não fosse para fora da área da escola.
Isso facilitou o processo de aprendizagem dos demais alunos, e fez com que Diego
tivesse a oportunidade de se acalmar a cada aula, pois não conseguia ficar muito
tempo dentro da sala. Com o passar do tempo, Diego foi se apegando mais a mim e
eu fui conseguindo aos poucos aprender a como lidar com ele. Aos poucos meu
“aluno problema” foi se transformando em um grande operador de câmera, uma
lição para mim, pois aprendi que deveria aproveitar os diferenciados talentos
naquela turma.
Continuamos definindo quais cenas seriam rodadas e quem faria parte
das equipes. Era óbvio que todos queriam colocar a mão no equipamento, mas com
calma e paciência fiz as crianças entenderem que cada um deles faria parte de uma
equipe. Teríamos a equipe de Roteiro, que já estava definida, a equipe de produção,
que providenciaria tudo o que fosse necessário para a realização do filme e a equipe
de filmagem, que filmaria nossa produção. Faltavam o mais imprescindível: os
atores. Vários alunos queriam ser, mas definimos que apenas dois seriam estes
40
atores. A protagonista, que contaria a história conforme a sua visão e o ator
principal. Por votação definimos Carolina da Silva como protagonista, era quem
estava mais familiarizada com o texto, pois o tinha escrito e Jordan como nosso ator
principal. Em seguida escolhemos todas as outras cenas que fariam parte do Roteiro
técnico de filmagem e também notamos que era necessário o depoimento de uma
professora da escola. As crianças já haviam tomado conta do processo
Quase que em sua totalidade, e por seus critérios escolheram Marli de
Oliveira Costa (Lilli) como a professora que faria tal depoimento. Definimos então as
locações dentro da escola que seriam filmadas e também quais objetos, figurinos, e
equipamentos precisaríamos para filmar. Nesta altura do trabalho, já tínhamos
intimidade profissional suficiente para saber o que cada um queria naquele projeto e
para criticar e dar opiniões sobre o trabalho do colega, já estava tratando as crianças
como profissionais de cinema e colegas de trabalho, afinal nós executaríamos um
projeto juntos. Janine, Jéssica, Diego e Patrick seriam nossa equipe de filmagem,
tínhamos operador de câmera, assistente de câmera, diretor de cenas e iluminador.
Leonardo, Roberta, Daniele e Vinicius, fariam a produção, tínhamos, aderecista,
continuísta, produtor e figurinista.
Considero de extrema importância para as crianças as definições de suas
funções na equipe de produção, mesmo que não as executem, pois isso dá a elas o
papel de produtoras/participantes e não permite nenhum tipo de exclusão. Como já
definido anteriormente Bianca e Carol eram nossas roteiristas. Adriely, Vitor e
Carolaine cuidariam dos depoimentos e do cronograma de filmagem, já tínhamos
Diretor de produção, produtor de Set e Cenógrafo. Jordan e Carol eram os atores e
a professora” Lili “daria o depoimento.
Estava com a equipe pronta, o roteiro tratado e o cronograma de
filmagem já definido por nossa equipe de produtores. Senti que as partes decisivas
de nossa produção estavam chegando, as crianças estavam mais ansiosas para
filmar e notava que a preocupação deles para com o filme estava tomando um
significado maior.
5.1.7 Sétimo encontro: o grande dia da filmagem
41
A parte de produção estava afinada, e como havíamos combinado levei a
câmera, iluminação e microfone para a captura dos depoimentos, Janine começou
as filmagens pelo cronograma de cenas que havíamos definido previamente,
gravando a fachada da escola e em seguida começamos a obedecer atentamente o
roteiro e o cronograma. Na parte do depoimento tivemos de interromper a aula da
professora Lili, mas Carol obteve o comando do grupo e orientou rapidamente a
professora de como deveria agir e falar durante o depoimento. Terminamos a
gravação na sala e começamos a rodar as cenas produzidas com Jordan(nosso
ator). ele já estava vestido com paletó e gravata, usando um lap-top para agir como
um verdadeiro adulto, interpretando o papel que lhe fora incumbido, foi muito
divertido pois eles liberaram a criatividade e Jordan encarnou o papel com
seriedade.
Notei que a estória do “boi-de-mamão” tem uma grande influência no
inconsciente deles e faz parte da cultura cotidiana daquela escola, chegou o
momento mais esperado do filme, todos os alunos buscaram os figurinos para a
dança do “boi-de-mamão” e aquilo me impressionou, pois já haviam ensaiado a
dança e a coreografia funcionava como um relógio assim Jéssica e Diego não
tiveram de rodar as cenas mais de uma vez,
Em seguida, passamos para o refeitório, onde foram filmadas cenas das
funcionárias trabalhando, também foram rodadas cenas da educação física, sala de
artes, laboratório com computador, placas de inauguração da escola, e cenas de
todos os alunos que participaram do filme. Eles realmente sentiam-se à vontade e
felizes com toda aquela situação criada em torno da magia de fazer cinema,
estavam muito empolgados eu nunca os tinha visto tão interessados e alegres, ao
término das filmagens. Nos reunimos para selecionar quais cenas seriam colocadas
na edição.
5.1.8 Edição
42
Como já comentei anteriormente, não foi possível colocar as crianças
dentro da ilha de edição para trabalharem junto comigo na pós-produção do filme,
como tive de usar horas técnicas em uma produtora, achei que talvez fosse melhor
executar a montagem apenas com o editor, para dinamizar o trabalho gerando um
custo menor. O ideal seria ter computadores na sala para ensinar todas as crianças
a montar o filme, mas nem a produtora de filmes tinha esta capacidade e a escola
não dispõe de tal estrutura.
5.1.9 A regravação do áudio
Após editar o filme, estava convencido de que o áudio não ficara bom,
mostrei o material para as crianças, que solicitaram fazer a regravação. Marcamos
em minha casa com Bianca e Carol (roteiristas) e a professora Silemar.
Maurício Trombeta, deu o suporte necessário no processo de gravação
feito com um software de áudio e um microfone, gravamos vários vazes e notei que
Carol já estava cansada de tanto repetir a locução e Bianca ficando sem paciência.
Depois de várias tentativas, Maurício resolveu fazer uma “mixagem” processo pelo
qual o operador faz cortes das melhores partes que foram repetidas e monta um
áudio padrão. Feito isso faltava apenas colar o áudio ao vídeo que já estava
montado.
5.1.10 O lançamento do filme
O lançamento do filme aconteceu durante a terceira Mostra UNESC de
Cinema no dia 13 de junho de 2008, no auditório Rui Hülse. Foi numa quarta-feira à
noite, o auditório estava com muitas pessoas e a maioria das crianças que
participaram da produção do filme estavam presentes acompanhadas pelos seus
pais. Inicialmente foi apresentado o projeto pela professora Silemar e por mim,
mostrando também o projeto que Nathália Aquino desenvolveu com as crianças
43
através de um software de edição chamado Movie Maker e que inspirou a oficina de
cinema, a seguir foi projetado o filme. Após isso as crianças foram convidadas a
encontrarem-se na casa da professora Silemar no dia seguinte, para conversar
sobre o nosso projeto. Elas comentaram a respeito de suas experiências de
participar deste filme, algumas das falas cito a seguir:
Sila – E o que (...), o que foi mais legal?
Bianca – A parte, quando ele botou aquele carrinho, e botou a câmara. Daí um ia
puxando, o outro ficava dançando ali na frente e o outro ia filmando, e ia passando
na TV grande. E a parte que a gente ficou com a filmadora e fazendo pergunta.
Sila – Como ficou, para ti, Bianca, a elaboração do roteiro? Tu trabalhaste com isso?
Tu tava me falando que o roteiro criado não era esse... Como é que é essa história?
Bianca – Antes, era para ser o filme do boi-de-mamão..., que era lá da escola. Mas
acabou sendo o documentário da escola.
Sila – Quem que tinha pensado em fazer o boi-de-mamão?
Bianca – Foi a Adriely.
Adriely – Eu?
Bianca – É foi o Jordan e mais alguém.
Sila – Eu lembro que a turma tinha se animado com essa história.
Bianca- É! Alguém tinha..., acho que a turma queria que fosse do Boi-de-mamão.
Jordan – Fui eu e o Diego que dissemos que era para ser. Mas só que daí... a Lili
não queria....
Sila – Ali ficou decidido quem ia elaborar o roteiro?
Jordan – É.
Sila – O boi-de-mamão foi excluído?
Jordan – Foi.
Sila - ...não foi nada há ver com o boi de mamão?
Bianca – Daí a gente não tinha mais nada para ver ...
Jordan – Só que teve algumas partes que teve o Boi-de-mamão.
Bianca – É.
Sila – Eu acho que o Boi-de-mamão deu um impulso para esta história, ou não?
Jordan – Deu.
Sila – Deu um impulso, por quê?
Jordan – Porque ele faz parte da escola.
Sila – A idéia é que a escola não tem apenas ...
44
Todos : ... o boi-de-mamão.
Sila – Daí como é que ficou esta história?... Então? Como é que foi elaborar este
roteiro?
Bianca – A gente começou pelo o Boi-de-mamão e depois... Como a gente
descobriu, como a gente queria fazer o documentário.
Sila – Do que fala o filme?
Bianca – Da escola.
Sila – Da escola, o que tem na escola, no filme o que aparece?
Bianca – Aparece... as crianças, a sala de aula, o Boi-de-Mamão...
(...)
Sila – E antes, quando vocês estavam fazendo, vocês não contaram para ninguém?
Adriely – Só para a mãe.
Bianca – Há!!! Eu contei para a minha professora de artes. Eu contei para ela que ia
passar um filme que era legal, era para ser o do Boi-de-mamão e acabou sendo um
documentário da escola. E ela disse: - Ah, legal, vou ver se posso ir.
(...)
Bianca – Eu mandei um monte de mensagem. Um monte de cartão convidando um
monte de gente, meus amigos, mas eles não puderam ir.
Sila – E o Jordan, contou para alguém, Jordan?
Jordan – Contei para a mãe, para o pai, acho que só... Para a minha irmã no dia
que eu estava gravando lá na escola.
Sila – Como é que tu foste escolhido para fazer aquele papel?
Jordan – Por que, na hora que pediram: - Quem aí quer ser, e eu fui o único que
voluntariei...
Sila - Éh!!! E o que tu achaste de fazer aquele papel? O que é aquele personagem?
Jordan - Porque... É que eu estava escrevendo sobre..., eu tava fazendo uma
história, e era sobre aquilo que ele/eu tava pensando. Eu ia ser um empresário bem
sucedido. Que era rico. E era isso, foi isso que Luciano disse para mim... Que era
para ser como se fosse um empresário rico.
(...)
Jordan - Eu estava escrevendo uma história da minha imaginação. ... Só que eu
tava fazendo o papel, eu tava imaginando que eu ia ser aquilo.
Sila – Como foi para ti representar aquele papel?
45
Jordan - Foi divertido. Foi legal, porque eu me vesti igual como eu nunca tinha me
vestido, a roupa ficou bem larga, aí eu achei engraçado.
Adriely – De quem era a roupa?
Jordan – Do Luciano.
Sila – O Luciano que levou a roupa para vocês?
Jordan – É!!!! Aí, eu tava com uma roupa por baixo, aí eu enfiei a camisa, a camisa
vinha até na minha coxa. Aí a minha calça ainda ficava caindo.
Sila – É!!! Qual foi....
Jordan – Aí, o Luciano teve que parar um monte de vezes a filmagem, quando eu
estava entrando na porta, porque as gurias estavam virando estrela atrás ...daí ia
ficar...
Sila – Era o Luciano que estava filmando naquele momento?
Jordan – Não, era o Leonardo.
Sila – O Leonardo é quem estava filmando. Em toda a produção, assim, qual era o
papel do Luciano?
Jordam – O cineasta.
(...)
Jordan - Ele ensinava como era ...
Adriely – Ele era o condutor.
Jordam – Ele ensinava, por exemplo, se fosse a Adriely que estivesse filmando, ele
dizia Adriely é para ti fazer assim, assim, assim. Daí depois ela ia fazer. Do jeito que
ele tinha dito, tinha que tentar fazer aquilo dali.
Sila – Um segredo. Se vocês tivessem que fazer um filme, qual seria o segredo?
Jordan - Ia se dedicar bastante.
Sila - Iam começar por onde? Pra fazer uma produção, a gente ia começar por
onde?
Adriely - Pelos personagens.
Jordan – Pelo texto.
Bianca – Pelo roteiro.
Sila - Pelo roteiro?
Jordan - Pelo roteiro. Mesma coisa.
Sila – Roteiro, texto, personagem...! Ok?
Jordam - Dentro do roteiro tinha que fazer o personagem.
Sila – E depois?
46
Jordam – Depois, escolher quem ia fazer cada coisa.
Jordam – Eu acho que. Se o Luciano pegasse do começo do ano até o final do ano,
eu acho que ficava um filme muito maior que aquele. Dava para gravar muita coisa
ali dentro. Por exemplo, no primeiro mês que teve ali, se ele fosse gravar, se ele
começasse...
No primeiro mês a gente só ia fazer a parte do roteiro. Aí do segundo mês em diante
a gente ia fazer o resto que faltasse, e ia ter personagens, quem ia ser os
personagens?
Adriely - Aonde seriam as filmagens.
Jordan – Poderia até arranjar um lugar maior, melhor ainda, mas como já foram três
meses pro final, mais ou menos isso, menos ainda. Não tinha como fazer nada, foi
pouco tempo.
(...)
Jordan - O primeiro mês era só para aprender mesmo... o segundo mês daí
teríamos alguma coisa...
Sila - Se fosse para fazermos tudo de novo? A experiência que vocês vivenciaram ia
ajudar?
Jordan – Ia, não ia precisar mais nada. Não precisava explicar mais nada, era só
pegar a câmara e ir de novo (risos).
Todas estas transcrições e, sobretudo, este relato final de Jordan,
demonstram um tanto do significado deste trabalho para as crianças, que durante o
processo de produção, sempre estiveram dispostas a aprender mais sobre a
linguagem e a narrativa cinematográfica. Mesmo com todas as limitações de espaço
físico, recursos e equipamentos acredito ter tornado cognoscíveis alguns dos
processos cinematográficos mais importantes para os alunos. Creio que com o
conhecimento adquirido possam dar continuidade a este e até criar novos projetos.
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6. CONCLUSÃO
As possibilidades de criação cinematográfica são infinitas quando
confrontadas com a imprevisibilidade e a curiosidade de explorar o novo que existe
dentro de cada um. Trabalhar com cinema, executando filmes feitos pelos alunos de
faixa etária entre 10 e 13 anos, da escola foi uma experiência enriquecedora
acredito que ampliar o potencial de criação artística nos alunos foi um grande
desafio e isso foi acontecendo ao longo do tempo.
Achei gratificante trabalhar com as crianças pelo interesse e a facilidade
de absorção dos métodos que foram aplicados. No início os alunos da oficina de
cinema da escola Moacyr Jardim de Menezes passaram do estágio de espectadores
passivos para espectadores críticos entendendo como realmente o cinema era feito,
depois disso os processos foram facilitados pela curiosidade das crianças em operar
os equipamentos, procurei passar o máximo da minha experiência profissional
enquanto ia aprendendo com eles. Ao término de cada aula conversávamos sobre o
trabalho descobrindo as novas formas de desenvolver a obra cinematográfica. Acho
que muitas convenções que eu tinha sobre cinema foram quebradas pelo resultado
do processo criativo destas crianças e sei que aprendi muito com todos os
envolvidos no projeto. Afirmo isso pelo fato de que eles (os alunos) reinventaram
planos e movimentos sem medo de errar ou prejudicar o processo.
A experiência vivenciada tanto por mim quanto pelas crianças, mostra que
é possível trabalhar com cinema na escola na perspectiva de compreendê-lo como
linguagem da arte, com seu valor em si mesmo. Porque aglutina vários tipos de arte,
várias linguagens artístico-culturais como a fotografia, som, a música, a leitura da
imagem e a produção em si, sem falar que o cinema é arte audiovisual.
Ao concluir este projeto posso afirmar que uma ferramenta didática como
esta deva ser explorada com mais profundidade em outras escolas, não somente de
Criciúma. Cabe aos professores e administradores da rede pública de ensino
incentivarem os docentes da região para que projetos como este tenham sua
continuidade garantida. Creio que com um investimento mínimo das escolas, apoio
da Secretaria Municipal de Educação aliados a criatividade e paciência dos
educadores, surjam novos trabalhos como este, ou melhores, porque não?
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Sugiro que este tipo de iniciativa possa ser divulgada e aplicada em
outras instituições de ensino e até mesmo com crianças especiais, é uma prática
voltada para a sensibilidade que não tem barreiras e gera inclusão, acelera o
processo criativo dando oportunidade para os alunos criarem e representarem suas
histórias. Projetos assim incentivam a descoberta do imagético na vida dos alunos, e
promovem outras formas de aprendizado.
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50
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Imagem em PDF - Universidade do Extremo Sul Catarinense