UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
FURNAS CENTRAIS ELÉTRICAS S.A.
Projeto:
Memória e práticas culturais: registro e conservação
(Condicionante do IBAMA)
Manifestações Culturais:
inventário e políticas de preservação
AHE SIMPLÍCIO - QUEDA ÚNICA
RELATÓRIO FINAL (SINTÉTICO)
Laboratório de
Arqueologia
FAFICH
UF
Dezembro 2009
G
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
FURNAS CENTRAIS ELÉTRICAS S.A.
Projeto:
Memória e práticas culturais: registro e conservação
(Condicionante do IBAMA)
AHE SIMPLÍCIO – QUEDA ÚNICA
Manifestações Culturais: inventário e
políticas de preservação
RELATÓRIO FINAL (SINTÉTICO) Laboratório de
Arqueologia
UF
Dezembro 2009 G
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
FICHA TÉCNICA
Projeto:
Memória e Práticas Culturais: registro e conservação
Financiamento:
Furnas Centrais Elétricas S.A.
Execução:
Laboratório de Arqueologia da Faculdade de Filosofia e Ciências
Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais.
Gerenciamento:
Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa – Fundep
Coordenação Geral: Prof. Carlos Magno Guimarães
Subprojeto 1: Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Pesquisadores:
Fernanda Cristina de Oliveira Neto
Gabriela Pereira Veloso
Thaís Monteiro de Castro Costa (estagiária)
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
SUMÁRIO
Apresentação
4
Introdução
- Patrimônio Cultural Imaterial no Brasil – um Breve Histórico
5
- Memória e Práticas Culturais – Pesquisa e Relatório
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- Manifestações da Cultura Imaterial
19
- Patrimônio Cultural Imaterial e Políticas de Preservação –
indicações de medidas de proteção aos bens culturais identificados
70
3
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
APRESENTAÇÃO
Neste relatório Final são apresentados os resultados atingidos pelo subprojeto: Manifestações
Culturais: inventário e políticas de preservação, que integra o Projeto: Memória e Práticas Culturais:
registro e conservação, desenvolvidos nos municípios atingidos pela AHE Simplício – Queda
Única, a saber: Além Paraíba e Chiador, localizados em Minas Gerais, e Sapucaia e Três Rios,
localizados no Rio de Janeiro.
Conforme a proposta original, foi realizado um levantamento de práticas e manifestações
culturais ainda existentes, para que sua identificação possa ser utilizada como ponto de partida
para políticas de preservação tanto no nível municipal quanto estadual e federal.
O levantamento contempla as diferentes formas de manifestação cultural no sentido de
identificar suas condições de preservação e seus riscos de extinção.
O resultado é o que constitui o conteúdo deste Relatório, ainda que em uma versão sintética.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
INTRODUÇÃO
Patrimônio Cultural Imaterial no Brasil – Um Breve Histórico
Um grande marco na história das políticas públicas para o patrimônio cultural no Brasil
ocorreu na década de 1930, com a elaboração por Mário de Andrade de um anteprojeto,
encomendado pelo então Ministro da Educação, Gustavo Capanema, que culminou no
Decreto nº 25, de 1937. Esse Decreto dispunha a instituição responsável pelos assuntos
patrimoniais brasileiros, à época denominada SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional, atual IPHAN.
Esse anteprojeto de Mário de Andrade defendia, dentre outras idéias, que o patrimônio
cultural brasileiro deveria compreender também a arte popular, descrita como a música, os contos
e lendas, a medicina, os ditos e provérbios, as danças; bem como a arte ameríndia e afro-brasileira com
seu vocabulário, magias, culinária etc.
Essa proposta revolucionava em grande medida a concepção de patrimônio cultural vigente no
Brasil, até então, que privilegiava apenas os monumentos e edificações de pedra e cal, excluindo
da possibilidade de reconhecimento como bem representativo da cultura nacional os
elementos mais importantes e fundamentais da cultura popular ou dos grupos étnicos
brasileiros – representantes da população mestiça, negra e índia - cujas práticas, saberes e
instituições primam muito mais por complexos processos de criação do que por grandiosos
produtos acabados como edifícios e monumentos – esses, ícones da civilização ocidental.
Contudo, tal proposta era ainda muito moderna para as mentalidades e disposições políticas da
época e o texto final do decreto consolidou-se bem mais comedido, reiterando a primazia do
patrimônio cultural material - produtos acabados, bens de pedra e cal -, como se evidencia no seu
artigo primeiro que definia:
“Constitui o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto dos bens móveis e imóveis (grifo
nosso) existentes no país e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos
memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou
artístico” (Decreto nº 25, de 1937).
Essa noção patrimonialista dos bens móveis e imóveis permaneceu por muitas décadas. Ou seja,
apesar de já haver uma consciência de que para apresentar os “fatos memoráveis da história do
Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico” é preciso ter
atenção às manifestações do patrimônio que vão muito além da sua materialidade, a prática do
IPHAN e dos órgãos estaduais que nasceram depois do Compromisso de Brasília de 1973,
continuavam a privilegiar somente os elementos que testemunham, prioritariamente, o
conhecimento branco ocidental. E ainda mais exclusivamente, tudo aquilo que se preserva por
meio do tombamento: praticamente, os monumentos arquitetônicos.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Na década de 80, a concepção ampla de Mário de Andrade foi retomada por Aloísio
Magalhães com a criação do Centro Nacional de Referência Cultural, que tinha por objetivo
executar o “referenciamento da dinâmica cultural brasileira”, fazendo serem reconhecidas as matrizes
populares e étnicas da cultura, nesse país.
Nesse novo ambiente intelectual, que é fortemente orientado por uma perspectiva
antropológica, é gestado o conceito amplo de patrimônio cultural inscrito na Constituição
Federal de 1988:
Art. 216 – Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial (grifo
nosso), tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos
diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:
I – as formas de expressão;
II – os modos de criar, fazer e viver;
III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas;
IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços
destinados às manifestações artístico- culturais;
V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico,
artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.
Por uma perspectiva antropológica, o Patrimônio Cultural Imaterial pode ser
compreendido como um conjunto de elementos expressivos que são reconhecidos
pelo Estado Nacional (ou seja, são pensados no contexto e nos termos das políticas
públicas), por evidenciarem os diferentes modos de conhecimento humano e
organização da vida em sociedade (ou seja, as cosmologias ou visões de mundo, a
partir das quais surgem as tradições e suas formas de expressão). Conhecimentos e
modos de organização que as comunidades, grupos e indivíduos recebem de seus
ancestrais e transmitem aos seus descendentes.
Exemplificados em três dos cinco itens arrolados na Constituição é feita referência explícita
aos “bens de natureza imaterial”: formas de expressão; modos de criar, fazer e viver; as criações
artísticas. A partir desse marco, a política patrimonial brasileira assume novos compromissos
em relação à valorização dos modos de conhecimento e das expressões da diversidade cultural
da população.
Apesar desse importante reconhecimento que ficou cristalizado na Constituição Brasileira de
1988, toda a legislação infraconstitucional, seja da esfera federal, estadual ou municipal, bem
como o já referido decreto nº25 demonstraram-se ineficientes para uma efetiva proteção
dessas manifestações processuais, cotidianas e dinâmicas, portadoras de valores
enraizados da vida de uma comunidade, que constituem o patrimônio imaterial. Em
termos práticos, aquelas regulamentações não foram capazes de estabelecer com eficiência
uma nova política de preservação voltada para a identificação e acautelamento dos bens
culturais representativos da pluralidade e diversidade dos grupos formadores do Brasil.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Faltava um corpo normativo instrumental eficaz para pôr em operação a salvaguarda do
patrimônio imaterial. Na década de 1990, estes instrumentos foram elaborados. Em
consonância com o discurso da UNESCO, meios jurídicos, científicos e administrativos foram
criados para atender às necessidades de preservação e transmissão do patrimônio cultural
imaterial.
Em 4 de agosto de 2000, o Decreto nº. 35511 - outro marco na história das políticas públicas
voltadas ao patrimônio cultural, resultado de um grande esforço político e intelectual instituiu o registro dos bens culturais de natureza imaterial que constituem patrimônio
cultural brasileiro, e criou o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial.
O PNPI é um programa de fomento que busca estabelecer parcerias com instituições dos
governos federal, estadual e municipal, universidades, organizações não-governamentais,
agências de desenvolvimento e organizações privadas ligadas à cultura, à pesquisa e ao
financiamento. Esse programa viabiliza projetos de identificação, reconhecimento, salvaguarda
e promoção da dimensão imaterial do patrimônio cultural.
No artigo primeiro do decreto 35511 fica determinado:
Artigo 1º - Fica instituído o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial que constituem patrimônio
cultural brasileiro.
§ 1º Esse registro se fará em um dos seguintes livros:
I - Livro de Registro dos Saberes (grifos nossos), onde serão inscritos conhecimentos e modos de fazer
enraizados no cotidiano das comunidades;
II - Livro de Registro das Celebrações, onde serão inscritos rituais e festas que marcam a vivência coletiva
do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social;
III - Livro de Registro das Formas de Expressão, onde serão inscritas manifestações literárias, musicais,
plásticas, cênicas e lúdicas;
IV - Livro de Registro dos Lugares, onde serão inscritos mercados, feiras, santuários, praças e demais
espaços onde se concentram e reproduzem práticas culturais coletivas.
Seguindo essa diretriz é que foi realizada pesquisa de campo nos quatro municípios
investigados, cujos resultados são aqui expostos.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Memória e Práticas Culturais – Pesquisa e Relatório
Da Pesquisa
O trabalho de pesquisa e registro das manifestações do patrimônio cultural imaterial dos
quatro municípios investigados constituiu umas das ações do projeto mais amplo
desenvolvido pelo Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Esse
projeto foi realizado para satisfazer uma das exigências estabelecidas como condicionantes pelo
Ibama, para concessão da Licença de Instalação – LI – 456/2007 do AHE Simplício – Queda
Única.
Em uma etapa de pré-produção, por meio da pesquisa bibliográfica, foi identificado o rico e
diversificado universo histórico-cultural dos quatro municípios investigados. Nesse sentido,
revelou-se a necessidade de um registro amplo que pudesse expressar essa variedade de
elementos presentes, de modo heterogêneo, em toda a região. Foi realizado um trabalho
exploratório que priorizou um levantamento do máximo de manifestações possíveis de
identificar, durante o tempo disponibilizado para a pesquisa.
A pesquisa bibliográfica consistiu em identificar aqueles livros e documentos que se referem à
história social da região de fronteira entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro, e às práticas
culturais da população dos municípios, investigados mais especificamente. A bibliografia foi
lida e fichada, destacando-se informações importantes, tanto para nortear a ida a campo,
quanto para comparar com informações coletadas nos locais.
No trabalho de campo as metodologias empregadas foram observação participante (método
próprio da pesquisa antropológica) e entrevistas semi-estruturadas, com atenção à história oral e às
memórias dos entrevistados.
A observação participante supõe uma interação entre pesquisador e pesquisado. As informações
que são obtidas, pelas respostas que são dadas às indagações, dependerão sempre dos
comportamentos e das relações desenvolvidas nessa interação. Isso implica, necessariamente,
um processo longo de pesquisa. A pesquisa de campo, por ter um caráter exploratório, não
permitiu aplicar muito tempo em uma única manifestação cultural identificada. Assim, essa
metodologia é citada aqui apenas como um referencial de comportamento em campo. Apesar
de o tempo investido em cada encontro pesquisador-pesquisado não ter sido longo, foi adotada o
mais próximo possível, a postura característica da observação participante. Isso foi efetivo
quando após localizar uma manifestação ocorrendo em seu contexto e tempo apropriados –
foi mantida uma mínima duração do encontro, como no caso de algumas festas juninas e
formas de expressão artísticas registradas.
A história oral é uma metodologia usada em pesquisas históricas e sociológicas. É um processo
de coleta de informações por meio da gravação de entrevistas com as pessoas que vivenciaram
– direta ou indiretamente- os fatos investigados. Tais pessoas podem testemunhar
acontecimentos, conjunturas, instituições, modos de vida e outros aspectos sociais mais gerais
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
que estão incorporados na história vivida por cada um. Como metodologia, a história oral
surgiu na década de 1950, nos Estados Unidos, após a difusão do uso do gravador, e apareceu
como importante meio de valorização das narrativas dos indivíduos relacionados aos objetos
de pesquisa. No Brasil, essa metodologia foi introduzida na década de 1970, quando foi criado
o Programa de História Oral do CPDOC. Em 1994, foi criada a Associação Brasileira de
História Oral, que congrega membros pesquisadores de todas as regiões do país.
Com o uso de tais metodologias, foi realizada pesquisa de campo, durante 2 meses, buscando
encontros com pessoas, grupos e comunidades relacionados às manifestações da cultura
imaterial local que, enquanto tais, são portadores de ricos saberes e testemunhas da
diversidade cultural brasileira.
Do Relatório
Nos quatro municípios foram identificadas mais de 20 manifestações culturais, tendo sido
dada atenção especial àquelas populares, que podem ser reconhecidas como patrimônio cultural
imaterial da região.
Para a elaboração do relatório, foi realizado antes o processamento dos dados brutos
coletados em campo editados no modelo de fichas, que seguem – salvo pequenas adaptações
direcionadas ao exclusivo interesse dessa pesquisa- as orientações formais do Instituto
Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – IEPHA/MG.
Sua apresentação foi organizada dividindo-se as manifestações registradas por município
investigado. Seu conteúdo é mais denso em termos de depoimentos e narrativas dos
moradores consultados, que revelam os detalhes e particularidades da manifestação em cada
lugar; além de trazerem informações sobre os recursos necessários para desenvolvimento
dessas manifestações, as condições de preservação e mudanças ao longo do tempo, e seus
sentidos particulares atribuídos pelos moradores.
Já o relatório, em texto corrido, é uma outra forma de concentração de informações.
Apresentando natureza complementar a este, será dividido por modalidades de manifestação da
cultura imaterial (Saberes; Celebrações; Formas de Expressão; e Lugares). Desse modo será
possível conhecer cada manifestação. A apresentação das manifestações em uma mesma seção
vai possibilitar uma comparação do modo como foram registradas, nos diferentes municípios.
As imagens utilizadas, tanto nas fichas quanto no relatório são, em sua maioria, de autoria dos
pesquisadores. Quando não é o caso, é indicado o autor ou fonte na legenda e nas referências
bibliográficas.
Para uma caracterização preliminar da região – fronteira Minas-Rio – e dos municípios
investigados - Chiador, Além Paraíba, Sapucaia e Três Rios –, é traçado um painel a partir de
informações histórico-sociais sobre a mesma.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Centro Sul Fluminense e Zona da Mata Mineira – Vale do Paraíba
A região pesquisada está localizada no Vale do rio Paraíba do Sul - que estende-se ao longo de
quase todo o comprimento do estado do Rio de Janeiro e separa parte deste estado de Minas
Gerais. Mais aproximadamente, abrange o Centro Sul Fluminense –Três Rios e Sapucaia – e a
Zona da Mata Mineira –Além Paraíba e Chiador.
A história do Vale do Paraíba é intimamente relacionada ao ciclo econômico do café – e com ele, a
violenta escravização dos negros e deterioração da mata atlântica original com a monocultura
cafeeira. O ciclo do café foi período de intensa acumulação e circulação de capital para o
Brasil imperial, que deu grande prestígio e poder político à região sudeste brasileira.
“O norte da Província do Rio de Janeiro, como a Zona da Mata de Minas foram áreas que
inicialmente não foram ocupadas de maneira sistemática, devido à preocupação da Coroa portuguesa
em barrar o contrabando do ouro. O caminho que cortava esta área era o Caminho Novo, e as
habitações se concentraram ao longo de seu trajeto para darem suporte aos viandantes que ali
passavam.
No ímpeto de recuperar economicamente, após a crise da mineração, a Coroa distribuiu terras para a
produção de café em locais distantes do Caminho Novo. A expansão da fronteira no Vale do
Paraíba fluminense se deu a partir de proprietários de Minas que tinham ligações fortes com a Coroa.
Esses proprietários concentraram grande número de sesmarias e formaram grandes unidades
fundiárias, voltadas principalmente para o café em escala internacional”1.
Após a proibição do tráfico negreiro, os últimos negros vindos da África foram direcionadas
para a região sudeste para o trabalho escravo nas lavouras de café. Essas já se estendiam ao
longo do vale do rio Paraíba do Sul, desde o norte capixaba até o estado de São Paulo,
cortando a província mineira e a fluminense. Nesse período, a exploração da mão-de-obra
escrava era a maior fonte de acumulação dos latifundiários escravistas. As grandes fazendas
foram sendo erguidas nessa região, aproveitando o vale do rio e os caminhos oficializados
para fiscalizar do escoamento do ouro – favorecendo posteriormente o transporte do caféentre Minas Gerais e o litoral do Rio de Janeiro.
Muitos dos escravos trazidos para a região vieram de Angola e da região do Congo. Tais
africanos possuem uma matriz étnica comum, denominada Bantu (Os bantos, ou bantu
constituem um grupo etnolinguístico localizado na África subsariana que engloba cerca de 400
subgrupos étnicos diferentes). Entre o final do século XVIII e o final do século XIX, todo
esse contingente trabalhou nos cafezais, promovendo, ao longo da história, a formação da
população mestiça afrobrasileira, habitante desse interior de Minas com Rio de Janeiro.
1
GUIMARÃES, Carlos Magno. ET AL. Histórico do Projeto Prospecção Complementar e Salvamento Arqueológico na Área a ser Impactada pela Implantação do AHE Simplício – Queda Única. 10
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Além dessa forte referência afro-brasileira, é importante destacar que, toda a região fora
amplamente habitada por indígenas, antes da chegada dos colonos portugueses e dos africanos
escravos. A Zona da Mata mineira, em particular, foi habitada por Botocudos e Puris.
A maioria das manifestações da cultura popular identificadas nessa região apresenta grande
referência dessa matriz afro-brasileira, sendo importante que seja destacada: em atenção às
particularidades históricas e sociais originárias do patrimônio cultural imaterial registrado.
Os Municípios Investigados
A seguir são apresentadas algumas informações – bibliográficas oficiais e depoimentos dos
moradores locais, que caracterizam de forma introdutória, social e historicamente - os
municípios onde foram localizadas as manifestações culturais.
Chiador / Minas Gerais
Povoamento elevado à município em 1954 - anteriormente era distrito de Mar de EspanhaChiador é região ainda predominantemente rural, com muitos sítios e fazendas de pequena
lavoura (cana de açúcar, feijão e milho, principalmente), criação de aves, bovinos , suínos,
eqüinos; produção de leite e derivados; e plantio de cereais e hortaliças. É banhado pelos rios
Paraíba do Sul e Cágado.
A população atual é de cerca de 3000 habitantes2, distribuídos entre a sede de Chiador,
distritos e localidades: Sapucaia de Minas, Parada Braga, Chiador Estação, Santa Fé e Penha
Longa.
Em documento disponibilizado por uma moradora, dona Vilma, proprietária do cartório, há
registro de uma história, apresentada como oficial, sobre a formação de Chiador:
“Em 1842, o português Antônio Joaquim da Costa abandonou a Vila de Barbacena e, com sua
família e pertences, deliberou instalar-se em terras virgens, procurando por isso as matas do Paraíba.
Não se conhece os detalhes de suas lutas para ocupação das terras que escolhera. Diz a tradição que o
mesmo se instalou no local onde hoje existe a Fazenda da Serra da Arriba, deliberando, pouco depois,
a construção, por ele próprio e seus escravos, de uma capela em honra a Santo Antônio. Concluída a
capela, que hoje, depois de reformada, é a Igreja Matriz da Cidade, deu carta de liberdade ao escravos
que trabalharam na construção, ao mesmo tempo que lhes permitiu construírem ranchos e cultivar a
terra ao redor da capela.
[...]
Iniciou, dessa forma, o povoado que veio a tomar o nome de Santo Antônio dos Crioulos,
posteriormente transformado em Santo Antônio do Chiador.
[...]
2
IBGE,2009. 11
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Explica-se a razão do novo topônimo deve-se ao fato de existir, nas imediações da atual estação da
estrada de ferro, uma corredeira de água, formada pelo Rio Paraíba, e que provoca chiador
contínuo”3.
Apesar da história oficial, os moradores demonstraram modos particulares de recontar, dando
sua contribuição pessoal à memória coletiva sobre a formação do seu lugar de nascimento e
morada.
Alguns informaram que o nome Chiador foi dado por causa de um comentário de Dom
Pedro II quando esteve no município, para inauguração da estação de trem da linha férrea
com seu nome, E. F. Dom Pedro II. Outros dizem que o chiador referido no nome não é do
rio mas da zoada do trem que passa constantemente pelo lugar .
O município atualmente é considerado por seus moradores como muito pouco habitado, sendo
um dos motivos principais da saída de moradores, os jovens que precisam trabalhar ou
estudar e as famílias que buscam uma cidade com melhor estrutura urbana, mais recursos,
produção e circulação de dinheiro.
Observando a paisagem contemporânea de sua cidade, uma moradora comenta que todas as
casas em torno da praça principal, que estão pintadas de azul, são de moradores que saíram do
município e, anos depois, finalmente retornaram: “Aqui existe muito ainda um achego de família,
sabe? As pessoas vão embora mas sentem falta e muitas delas voltam...se não volta pra morar, volta nas férias,
no feriado... mas volta. A pessoa vai mas eles voltam”. (Dona Vilma, 70 anos, aproximadamente)
Além Paraíba / Minas Gerais
Com população de 34.591 habitantes (IBGE 2009) Além Paraíba foi elevada a categoria de
cidade em 1883. Apesar de uma sede bastante urbanizada,o município apresenta muitas
localidades rurais nas quais existem muitas manifestações culturais tradicionais.
A história mais recorrente sobre o povoamento de Além Paraíba informa que a região foi
originalmente habitada pelos índios Puris afugentados ou mortos pelos desbravadores
estrangeiros. Conta-se que onde hoje localiza-se a cidade, era um território conhecido somente
por tropeiros vindos da Côrte (Rio de Janeiro), até fins do século XVIII.
Nas palavras do morador, Guilherme (aproximadamente 40 anos) co-fundador da Ong
Culturar, com sede no distrito de Angustura, associação que desenvolve mobilizações
comunitárias em prol da cultura local e pesquisas e estudos amadores acerca da região:
“Existe um material arqueológico muito rico: de índios presentes na região muito antes do povoamento. Desde
1970 a Culturar busca o reconhecimento e a investigação com as devidas providências em relação a esses
elementos da nossa história...mas não consegue correspondentes. Até hoje, pelos matos aí, a gente encontra
3
Fonte: Enciclopédia dos Municípios Brasileiros – Volume XXIV ano 1958. 12
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
machadinho, coisa assim, cerâmica... O que a gente encontra de informação na literatura que existe é que são
objetos dos Puris. Aqui é terra dos Puris.
[...]
A gente sabe que essa região toda aqui era um circuito de áreas proibidas –área de contrabando, que era feito
por Cantagalo...área de tráfego dos tropeiros... Os tropeiros saiam de Taboraí para chegar em Porto das
Caixas. Angustura era entreposto de sal... O pessoal de São João Del Rey vinha buscar sal aqui.... [...] O
caminho que é hoje o circuito da Estrada Real ia por Juiz de Fora e saia em Paraty. Angustura é fruto da
rota de contrabando”.
Com o descobrimento de minerais preciosos nas redondezas, intensificou-se a travessia do
Rio Paraíba do Sul, e por volta de 1784 às margens do mesmo rio, um cais de madeira foi
denominado de Porto do Cunha. A então Vila, em 1880, foi reconhecida por lei como
Município de São José de Além Paraíba e apenas em 1883 foi levada a categoria de Cidade.
Em 1923 passou a ter o nome atual.
Sobre a constituição do distrito de Angustura, e como uma caracterização subjetiva desse
lugar de origem da colonização do município de Além Paraíba, outro morador, Sr Jairo (70
anos), proprietário do cartório do distrito, deu informações que revelam uma importante
incorporação das histórias que valorizam o lugar, que dão aos seus moradores o sentimento de
pertencimento a uma terra com valor cultural:
“Vamos começar de um princípio. Quando da fundação da localidade de Angustura... Isso aqui foi criado. A
comunidade no seu período urbano foi criada quando da expansão da lavoura cafeeira... E vieram os poderosos
com dinheiro... E na sua grande maioria eram os italianos... Muita gente sem escolaridade... trabalhadora...
veio pra trabalhar na lavoura. [...] Então aqui, na época áurea do café , isso aqui foi mais importante
economicamente do que Além Paraíba... Então por isso esses casarões aqui em Angustura. [...] Então daí
depois dessa época do café é que se criou também a igreja...essa igreja começou a construção em 1856. Essa
igreja é de 1856 a obra de engenharia é feita por um francês [...] aqueles alicerces de pedra, de madeira... Essa
igreja é até muito importante... [...] É uma igreja muito bonita, uma das mais lindas da região.
[...]
Os tropeiros passavam por aqui traziam panela de pedra para vender... Eu ainda peguei esse tempo... mas a
coisa mudou muito para o meio rural. Aqui foi rota do ouro. Tínhamos uma estação ferroviária aqui que
agora chama Fernando Lobo... Além Paraíba era Porto do Cunha que era um porto de embarque de
atravessar produtos pelo rio Paraíba que era navegável para pequenos portes.
[...]
No morro lá em cima, o Morro do Cruzeiro, moravam poucas pessoas... Hoje não... virou uma favela...como
em toda cidade... [...] Essa mudança na aparência de Angustura foi provocada pelo êxodo rural... Pelo
desinteresse pela lavoura... Porque lavoura hoje fica caro... [...] O negócio agora é gado de corte.... bois
brancos... [...] E boi branco, se a pessoa tem 500 bois, duas pessoas tomam conta... não precisa mais
empregado... Porquanto na época da predominância do leite, o gado precisava de tratamento por muita gente
[...] tudo empregado... [...] Teve fazenda aqui que já teve 80 casas de colonos na fazenda – Fazenda da
Conceição, por exemplo. Hoje nem de longe você vê isso. Mas já teve fazenda muito grande.”
Sobre a denominação do distrito como Angustura, senhor Jairo destacou:
13
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
“Tem a história do fubá que derramou no rio... Então o que é que fubá com água: Dá o que? Angu não é?
Então deu-se o nome do rio, de rio Angu. Diz que foi por isso aí que veio o nome da localidade: Madre de
Dio do Rio Angu. O nome Rio Angu então é porque o fubá entornou na água no rio. Caiu uma tropa que
como todas as tropas na época, passavam por aqui, com destino a Côrte, ou outros lugares mais urbanizados
né... Eles estavam passando e a ponte rompeu. A tropa caiu dentro do rio – a tropa que levava o fubá...então
fubá com a água do ri: rio Angu. Madre de Dio é a Mãe de Deus né... O pessoal muito religioso da época
escolheu essa denominação que garantia uma proteção santa pro lugar... Então Mãe de Deus...Igual em outros
lugares que o povo escolheu como padroeira a Nossa senhora Aparecida... [...] Mas aí vem a pergunta: por que
Angustura?
Angustura, vocês devem conhecer, é uma planta medicinal que dizem que havia muita por aqui. Mas tem
outra versão que o povo daqui conta também que é da guerra do Paraguai. Contam que numa comunidade no
Paraguai aconteceu uma batalha denominada Batalha de Angostura, com ‘o’... Isso aí é cada versão né:
‘Angustura’ a planta medicinal e ‘Angostura’ a guerra do Paraguai. E o que acontece, um soldado daqui, que
estava na guerra do Paraguai, quando o comandante dele que foi ameaçado pela arma do adversário ele
colocou-se na frente do comandante e morreu ... Então em homenagem a ele colocou-se o nome do lugar., se
atirou pra proteger o comandante...diz que essa história é verdadeira... M as são duas versões e eu não sei qual
é a mais correta. Mas Angostura e Angustura, faz lógica né... talvez as duas....a da planta medicinal e a desse
solado... não sei.”
Sapucaia / Rio de Janeiro
Sapucaia é um município da região centro-sul fluminense, localizado na Serra da Mantiqueira,
às margens do médio Paraíba do Sul. Faz limite no RJ com Três Rios, São José do Vale do Rio
Preto, Teresópolis e Sumidouro; e em Minas com Além Paraíba e Chiador. Seu povoamento
iniciou por volta de 1808, sendo criado como cidade em 1874. Conta uma versão sobre sua
denominação que, havia muitas árvores que originalmente eram chamadas pelos indígenas
habitantes de yaçapucaí.
A cidade de Sapucaia já foi uma região de grandes indústrias - segundo Sr. Luiz Mário (65
anos aproximadamente) e Sr. Evando (75 anos aproximadamente) Sapucaia já teve grandes
indústrias de laticínios, de móveis de “madeira boa” para o RJ, de postes usados para a
eletrificação da luz na cidade; mas hoje “já não tem mais indústria de peso”, exceto o
empreendimento de Furnas e Oldebrecht, a usina hidrelétrica. Atualmente a pecuária é a
principal atividade econômica, além da produção de hortifrutigranjeiros.
No Arquivo Municipal de Sapucaia há, disponibilizado, um documento do ano de 2002,
escrito ou compilado por políticos habitantes do lugar – não há autoria indicada. Foi-nos
indicado como um “documento que conta a história de Sapucaia nos seus detalhes”. Cabe reproduzí-lo
aqui porque o texto evidencia o modo como alguns dos gestores do município e parte da sua
população concebem sua história e caracterizam o lugar. Abaixo, são reproduzidas suas partes
principais:
14
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
“Sapucaia
A História viva de um Município
Um mergulho na História”
A primeira penetração verificada nas terras do atual Município de Sapucaia, cuja área é de 477 km², data de
princípios do século XIX, estando intimamente ligada com as conseqüências advindas da fuga para o Brasil,
da Família Real Portuguesa em 1807. Realmente, seis dias após o seu desembarque na Bahia, no dia 22 de
janeiro de 1808, o então príncipe regente D. João, a instâncias do Visconde de Cairu, assinou o importante
Decreto, pelo qual eram abertos os portos brasileiros aos navios das nações amigas de Portugal.
Dentre os inumeráveis benefícios trazidos ao País por esse ato, ressalta o incremento de sua colonização, até
essa época quase restrita aos súditos lusitanos.
Entre os estrangeiros atingidos pelo Decreto em questão, citaremos, por estarem suas atividades ligadas ao
desbravamento do território de Sapucaia, os nomes dos cidadãos suíços Antônio Inácio Lemgruber e Vicente
Ubherlarto, aos quais, mais tarde, foram concedidas algumas sesmarias, cujas áreas abrangiam as terras da
atual “Fazenda Santo Antônio”, situada nas proximidades do morro do mesmo nome, a 31 km da sede do
Município, e às quais chegaram eles, segundo consta, no dia 7 de março de 1809.
Pouco tempo passado, após a chegada desses dois colonizadores, começaram a afluir outros mais, entre eles os
cidadãos portugueses Joaquim de Souza Breves e Antônio de Souza Brandão (mais tarde Barão de
Aparecida), e Francisco Diogo Perret, de origem francesa.
Continuando o afluxo de colonos para essa região, rapidamente surgiu nela um pequeno arraial, onde por
iniciativa de Antônio Inácio Lemgruber, se erigiu uma capela dedicada ao culto de Nossa Senhora Aparecida.
Desse pequeno núcleo populacional, resultou a hoje vila de Nossa Senhora Aparecida, hoje um dos distritos do
atual Município.
Anos mais tarde, atraídos pelas notícias correntes sobre a fertilidade do solo dessa região e de suas redondezas,
novos colonizadores, em número sempre crescente, começaram a buscá-la, espraiando-se pelas terras
circunvizinhas, abrindo novos caminhos e desbravando matas até então virgens. Como resultado dessa
expansão, surgiu, em 1856, um novo arraial, cuja fundação se deve principalmente aos esforços de Augusto de
Souza Furtado, Domingos Antônio Teixeira e José Joaquim Marques Melgaço, senhores de vastas porções de
terra, entre os rios Calçado e Paraíba do Sul.
A esse novo arraial, cuja categoria de curato foi reconhecida no mesmo ano de 1856, foi da à denominação de
Santo Antônio de Sapucaia; o nome de Santo Antônio lhe foi conferido por ser esse santo padroeiro do curato;
e o de Sapucaia, em virtude da existência, no local, de grande quantidade de árvores, conhecidas por
“Sapucaias” (corruptela Yapaçucaí).
Desde a fundação, o novo povoado prosperou com relativa rapidez, graças, sobretudo, à intensificação de suas
lavouras. Entretanto, apesar do progresso verificado na localidade, somente em 1871 alcançou a denominação
de freguesia, por força do Decreto ou Lei provincial nº 1600, de 16 ou 18 de novembro desse ano, cujo texto
era o seguinte: “A povoação da – Sapucaia -, no Município de Magé, fica elevada à categoria de – freguesia -,
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
sob a invocação de “Santo Antônio de Sapucaia”, conservando os limites que actualmente tem como curato
ecclesiastico nesta Província”.
Três anos mais tarde, o elevado grau de evolução social e econômica atingido pela freguesia, forçou o Governo
Provincial a alterar, novamente, a sua situação político-administrativa. O artigo 1º do Decreto ou Lei
provincial nº 2068, de 7 de dezembro de 1874, estava assim redigido: “Ficam desmembradas do Município de
Magé – as freguesias de Santo Antônio de Sapucaia e Nossa Senhora da Conceição da Apparecida, e do
município de Parayba do Sul, a freguesia de São José do Rio Preto, constituindo um – município – que terá
sua sede no arraial de Sapucaia, elevado à categoria de villa – e pertencente à Câmara Municipal de Parayba
do Sul”.
Segundo notícias colhidas no município, a sua instalação realizou-se no dia 28 de fevereiro de 1875, entre
grandes manifestações de regozijo, por parte de seus habitantes.
Desde o início de sua colonização, a economia de Sapucaia repousou quase exclusivamente na agricultura.
Entre outras grandes lavouras, destacaram-se, em suas terras, as culturas de café e cereais. Grande foi a
colaboração do elemento negro escravizado. O advento da lei Áurea, em 1888, foi por isso mesmo, golpe rude
vibrado na economia municipal. As suas ricas plantações foram quase totalmente abandonadas, regredindo a
escala de produção.
Em 1892, de novo golpe foi vítima o município de Sapucaia, que, nesse mesmo ano, perdeu para o município
de Petrópolis o território da Freguesia de São José Rio do preto, considerado até então a sua zona mais fértil e
de maior produção cafeeira.
Atualmente, o município de Sapucaia, cuja sede recebeu foros de cidade por força do decreto estadual nº 19, de
27 de dezembro de 1889, se bem se ressinta dos efeitos da crise motivada pelo êxodo rural, vem procurando
equilibrar a sua balança econômica, derivando suas atividades para os setores do comércio/serviços e da
agropecuária.
As primeiras penetrações verificadas nas terras do atual município de Sapucaia datam do início do século
XIX. A ocupação se efetuou através de um grupo de colonizadores, aos quais foram concedidas algumas
sesmarias.
A difusão da notícia sobre a fertilidade dos solos, próprios para o cultivo de café, provocou fluxo contínuo de
colonos para região, permitindo o surgimento de arraiais, como que se desenvolveu em 1856, recebendo a
denominação de Santo Antônio de Sapucaia.
A rapidez com que o povoado prosperou o levou a atingir, em 1871, o predicativo de freguesia de Santo
Antônio da Sapucaia e, em 1874, a categoria de Vila de Sapucaia, constituindo-se sede do novo município,
cujo território desmembrou-se de Magé.
O desenvolvimento da sede municipal remonta ao período de implantação da estrada de ferro Dom Pedro II,
quando uma estação intermediária do ramal de Porto Novo do Cunha impulsionou o crescimento da Vila. O
segundo momento de crescimento deu-se com a implantação da BR 393. A sede municipal situa-se em terraço
de margem direita do Rio Paraíba do Sul, em faixa estreita entre o rio e as encostas íngremes dos morros, sem
vales transversais, o que tornou sua expansão linear.
16
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
[...]
Segundo o IBGE a evolução demográfica do município tem se caracterizado por grandes perdas da população
em virtude de movimentos migratórios, ocasionados pela ausência de atividades econômicas dinâmicas, que
possam criar oportunidade de empregos, tanto na área urbana como na área rural. Sapucaia atualmente
atravessa um período de estagnação econômica. A comunidade espera que as melhorias e os benefícios
necessários, sejam trazidos pelas obras de instalação das Usinas Hidrelétricas e das fábricas: Polwax e
Paraibunas Embalagens, já pactuadas, pois elas poderão promover uma profunda transformação na região e
ser um fator fundamental no desenvolvimento econômico e social do município”
Três Rios / Rio de Janeiro
Informa a história oficial - divulgada pela prefeitura do município – que a ocupação da região
de Três Rios é relacionada ao ciclo do ouro, que motivou bandeirantes a desbravarem os
entornos do Rio Paraibuna. Os núcleos de povoamento de Nossa Senhora de Mont Serrat,
Nossa Senhora de Bem Posta e São Sebastião de Entre Rios foram assim constituídos no
decorrer das primeiras décadas do século XVIII.
A referência mais remota sobre o território do município de Três Rios é do início do século
XIX. Iniciou como povoado, quando Antônio Barroso Pereira, após seu requerimento, obteve
as terras de sesmaria no sertão entre os rios Paraíba e Paraibuna, em 1817. No texto formalizado
da concessão dessa sesmaria pela coroa portuguesa, já se identifica uma origem do primeiro
nome do lugar, Entre-Rios.
Dentro do território, Antônio Barroso Pereira fundou cinco fazendas: a Cantagalo, fazenda
mais importante, e as fazendas Piracema, Rua-Direita, Boa União e Cachoeira, todas
vinculadas à primeira.
Uma povoação mais intensa foi bastante favorecida coma construção da rodovia União e
Indústria, inaugurada em 1861 com um trecho que ligava Petrópolis, Rio de Janeiro, à Juiz de
Fora, Minas Gerais, atravessando as terras da fazenda Cantagalo. Em função da grande
colaboração do fazendeiro proprietário, Antônio Barroso Pereira, o imperador Pedro II
concedeu-lhe, em 1852, o título de Barão de Entre-Rios.
A construção da rodovia União e Indústria foi apoiada pelo governo imperial brasileiro, com
sua concessão do direito de exploração, por 50 anos, ao Comendador Mariano Procópio
Ferreira Lage, a partir de 1854. Os trabalhos iniciaram em 1856 executados pela empresa de
mesmo nome, União e Indústria (nome em homenagem à união entre as províncias de Minas
Gerais e Rio de Janeiro e à indústria do café e outras que fossem estimuladas pela
disponibilização de uma grande rodovia). Sua receita provinha da cobrança de pedágio por
mercadoria (por burro carregado) transportada pela rodovia (PEIXOTO, Dídima de Castro.
História Fluminense, 1969).
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Conta-se que, ainda em sua homenagem, à estação rodoviária local foi dado o nome de
Estação de Entre-Rios. Com o batismo da estação não tardou que o pequeno povoado,
formado às margens da rodovia, passasse a ser conhecido como Entre-Rios.
Com a implantação da estrada de Ferro Dom Pedro II, em 1867, o povoado de Entre-Rios
urbanizou-se ainda mais e tornou-se um importante entroncamento rodo-ferroviário. Somada
à movimentação intensa pela rodovia e ferrovia, a oportunidade do aforamento de terras veio
efetivar um relativo progresso para o local, que então, em 1890, foi elevado a 2º distrito de
Paraíba do Sul.
A Estrada de Ferro Dom Pedro II foi a primeira linha a ser construída pela Companhia de
Estrada de Ferro D. Pedro II. Foi contratada ao engenheiro inglês Edward Price, em 1855,
pelo governo imperial brasileiro. Seria para o investimento em uma primeira seção de uma
grande estrada de ferro com o objetivo de promover, a partir do Rio de Janeiro (então
Município da Corte), uma integração do território brasileiro. A partir de 1889 passou a se
chamar E. F. Central do Brasil (BENÉVOLO, Ademar. Introdução à História Ferroviária do Brasil
– Estudo Social, Político e Histórico, 1953).
Com o aceleramento do progresso local, tornando-se superior ao distrito sede de Paraíba do
Sul – em termos de população, contingente eleitoral e arrecadação de impostos-, Entre-Rios
foi desmembrada e elevada a município, em 1939.
Todavia, o município, que tinha a toponímia de Entre-Rios, foi solicitado, por volta de 1940,
por órgãos federais, a mudar a sua denominação em função dessa triplicidade do nome ser
existente em outros municípios brasileiros. A partir de 1943, o município de Entre-Rios
passou a chamar-se Três Rios, insinuando uma referência aos três rios mais importantes que
atravessam o seu território: rios Paraíba do Sul, Piabanha e Paraibuna.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Manifestações da Cultura Imaterial
Foram identificadas mais de vinte (20) tipos de manifestações culturais, presentes
heterogeneamente, na região investigada. Dentre elas, destacam-se: carnaval e sambistas, paumineiro (ou mineiro-pau), bandas de música e folia de reis, em Além Paraíba; carnaval, festas
juninas e afro-brasileiras, em Três Rios; cavalgadas, encenação da Paixão de Cristo na Semana
Santa, parteira e benzedeiras, em Chiador; música popular, mineiro- pau (ou pau-mineiro),
calango, banda de música e festa de Santo Antônio, em Sapucaia.
1. Saberes e Formas de Expressão
O Programa Nacional do Patrimônio Imaterial instituído pelo decreto nº. 35511 de 4 de
agosto de 2000, define uma das modalidades de manifestação da cultura imaterial como
Formas de Expressão. Sob essa designação, no livro de registros do IPHAN, ficam inscritas as
manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas.
Sob a designação de Saberes, ficam inscritos os conhecimentos e modos de fazer enraizados
no cotidiano das comunidades.
Segue-se uma apresentação das formas de expressão e saberes identificados nos município
trabalhados.
1.1. Artesanatos
A atividade artesanal é um campo da criação humana que, como tal, tem muito a informar,
pelos seus aspectos subjetivos, estéticos, simbólicos, históricos, sociológicos, e antropológicos.
De acordo com essa perspectiva interdisciplinar, o artesanato é destacado como um processo
cultural de produção material que, ao produzir objetos, reproduz valores, sentidos e estéticas
característicos da sociedade de que fazem parte os artesãos.
Pensar o artesanato é refletir sobre a imaterialidade desses objetos – as dimensões intangíveis
que operam no processo de produção das coisas. Na concepção do escritor mexicano Otávio
Paz, falar de artesanato é falar mais de pessoas do que de objetos, pois o produto resultante
do trabalho artesanal é um produto “com alma”, onde estão presentes o saber, a arte, a
criatividade e a habilidade.
Artesanatos são artefatos, artifícios humanos agregados com valores de uso, de troca e,
especialmente, com o valor cultural das expressões dos seus produtores. É essencialmente o
trabalho manual ou a produção própria de um artesão que, frente à intensa padronização dos
produtos industriais do mercado, passa a ser valorizada pelos seus elementos expressivos, por
sua autenticidade ou exclusividade das peças, quase nunca idênticas umas às outras, e pelos
seus atributos simbólicos, muito característicos nas culturas populares.
19
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Em geral, o produto artesanal reflete a relação do artesão com o meio natural e cultural onde
vive. Representa um saber local, uma forma de expressão das vivências estéticas possíveis de
serem experimentadas na condição particular em que vive o artesão – que pode ser orientado
exclusivamente por saberes e modos de fazer tradicionais, ou também informado com
referências extra-locais, conhecidas por meio das mídias que sejam mais acessíveis (rádio, tv,
revistas, internet).
É nos termos dos processos, das técnicas empregadas e das condições culturais em que é
desenvolvido que o artesanato aparece como patrimônio cultural imaterial: não em si mesmo,
mas como produto de um processo artesanal, onde inscrevem-se os saberes, os modos de
fazer e as expressões artísticas do artesão. Produto e processos expressam uma atividade
popular e tradicional, independente de uma formação artística acadêmica, ainda que, muitas
vezes, o artesão possa ter algum nível de contato com uma orientação técnica mais formal.
Grosso modo, artesãos são os antigos ferreiros, carpinteiros, marceneiros, costureiras,
moinheiros, alambiqueiros; mas também os artistas de casa que decoram uma almofada com
fuxicos, bordam ou rendam uma toalha de mesa, recriam uma caixa de papelão. Podem
trabalhar usando ferramentas e mecanismos domésticos ou profissionais, e é muito comum o
reaproveitamento de materiais. As peças produzidas podem ser utilitárias, decorativas ou
recreativas, feitas com ou sem a finalidade comercial.
A venda de artesanatos tem grande importância como alternativa de renda para os artesãos,
principalmente para aqueles de condição rural, sob a qual há um repertório mais restrito de
possibilidades de obtenção de renda.
Além Paraíba:
A atividade artesanal de Além Paraíba não é organizada coletivamente, na forma de uma
cooperativa ou associação. Existe, porém, uma loja de artesanatos, administrada pela
prefeitura municipal, onde a riqueza e a diversidade de peças encontradas destacaram o
artesanato da região como bastante expressivo.
Segundo Leninha, funcionária de Além Paraíba e administradora da loja de artesanatos da
Casa da Cultura, que existe há mais de 10 anos, os artesãos deixam seus produtos na loja, em
consignação, e “eles não tem relação uns com os outros – ou pelo menos não que eu saiba. Mas muitos
produzem as coisas em família, mães, pais e filhos. E os artesanatos são muito bonitos”.
Segundo Luciana e José Caetano, um casal de artesãos moradores do município, o artesanato
é muito importante porque complementam a renda da casa.
Os artesanatos mais presentes na loja são: pinturas em telas e tecidos (com temas de
embarcações, praia, mar, ou ambientes rurais, carros de boi, fogão a lenha); roupas e
decorações em crochê, tricô, e bordados; utensílios feitos com reciclagens: tampas de latinhas,
latas de molho de tomate, recipientes de desinfetante; esculturas em madeira; jarros antigos de
leite, decorados com pinturas e aplicações de tecido; toalhas de fuxico; telhas decoradas com
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
pintura e texturas; chinelos de borracha decorados com contas e tecidos; aventais para
cozinha, panos de prato, toalhas de mesa bordadas e decoradas com aplicação de tecidos
coloridos; bonequinhas de pano e bonecas feitas com corpinho de garrafa pet; flores de garrafa
pet; doces e licores caseiros (manga, figo, jaca, ambrosia, leite e côco); cachaças de alambiques
artesanais da região; bibelôs feitos e conchas e crochê, para decorar geladeira; cascas de côco e
caixas de papelão decoradas.
Três Rios:
No município de Três Rios, há uma associação de artesãos cujos participantes mais antigos
iniciaram uma organização coletiva por volta de 1960. Segundo informa uma das artesãs mais
antigas da Associação:
“Tudo começou em 1966 com o Mobral de Três Rios. uma das diretoras do Mobral reuniu as pessoas que
sabiam fazer artesanatos e mobilizou o grupo para produzir e expor na praça São Sebastião, [...] principal
praça da cidade.[...] Começou a história das feiras de artesanato, cada um expunha seus produto nos domingos,
no banquinho mesmo da praça. [...] Forrávamos tudo direitinho, e fazíamos a exposição quando ainda nem
havia estrutura de barraquinhas. Tudo com autorização da prefeitura. [...] Já existia o bordados, as pinturas
em tecido, pinturas em tela, as flores de tecido que na época eram muito apreciadas... Era uma moda mesmo.
[...] No início foram poucos expositores, depois começaram a se reunir um grupo de mães artesãs, começaram a
aderir e estimular umas às outras trocando receitas sobre bordados, pinturas, crochê, tricô, fuxico... Coisas que
elas tinham aprendido com as avós...ou com as tias mais velhas...e muitas delas já não praticava há muitos
anos.” (Marilene)
O grupo se oficializou como Associação de Artesãos, pela motivação pessoal de cada um para
manter essa atividade como elemento importante da vida, renovar seus conhecimentos,
adquirir renda e, sobretudo, estreitar e manter os laços de solidariedade do grupo. Nesse
contexto, a associação se consolidou como um espaço inclusivo para as mulheres já em idade
adiantada, uma possibilidade alternativa de renda e de expressão de subjetividades, afetos e
desejos; além de espaço para uma intensa troca de experiências entre as colegas associadas.
Heloíza presidente da associação se iniciou no artesanato por volta de 1986, 1987, quando
acompanhou de perto a mobilização dos artesãos de Três Rios, principalmente as mulheres,
“mães de família”.
A partir disso o artesanato foi ganhando mais visibilidade na cidade, as pessoas foram
divulgando a feirinha, procurando pelos produtos, e as mulheres sentindo-se cada vez mais
estimuladas a dedicar parte do seu tempo cotidiano às atividades artesanais.
Em 2002 foi formalizada a associação, integrada predominantemente por mulheres artesãs.
A associação de artesãos possui sede (um espaço próprio, cedido pela prefeitura municipal,
próximo ao centro comercial da cidade), estatuto e uma dinâmica de trabalho, próprios: “temos
de revezar na loja e oferecer os cursos que muitas vezes são voluntários, ou então as alunas pagam, mas uma
valor, assim, simbólico”.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Dos atuais 25 associados, todos são mulheres, em sua maioria acima de 40 anos de idade, em
geral donas de casa aposentadas.
A sede funciona como loja, onde os artesanatos são vendidos, e oficina de produção dos
artesãos associados. Contam com uma parceria do SEBRAE, desde antes da formalização
como associação, em 2002. Promovem cursos de pintura em tecido; corte e costura; bordados;
tricô; arte em papel; crochê; fuxicos. A sede também oferece o espaço para aquelas artesãs que
não têm um ambiente de trabalho em casa – “por falta de espaço ou de sossego pra trabalhar”.
As peças produzidas são muito variadas: bolsas, chepéus e luvas de crochê; panos de prato,
aventais de cozinha e jogos de mesa bordados ou decorados com aplicação de tecidos
(patchwork); cortinas, caminhos e toalhas de mesa decorados; porta-retratos, oratórios,
molduras em papel ou madeira; colares, brincos, terços e rosários em contas e tecidos;
bonecas de pano; esculturas em madeira, argila e pedra; cestos de palha ou papel; móveis de
bambu; pinturas em tela; e outros artesanatos de váriados tipos, cores e texturas.
1.2. Bandas (civis) de Música
No Brasil, as corporações musicais, as liras e bandas de música têm sido a única escola, para
um considerável contingente de músicos, amadores e profissionais, podendo ser considerada
como responsável pela mais ampla educação musical do brasileiro, principalmente dos
habitantes do interior.
São ateliês de formação musical onde o aprendizado está relacionado à prática coral e
instrumental. Em geral, não pretendem formar profissionais, mas músicos de qualidade, para
atender às solicitações de parte da sociedade que aprecia e deseja a música no seu lazer.
Alceu Maynard Araújo no seu livro Folclore nacional: Danças, Recreação e Música (vol. 2: 358-359),
destaca as corporações, bandas e liras como um “capítulo do folclore”, ressaltando que:
“A banda de música do coreto da pracinha é um retalho da alegria bem brasileira vivida pela gente das
comunidades rurais. [...] Pelo Brasil a fora, as “furiosas”, nome popular das bandas de música, encheram e
ainda enchem de encantamento, alegria e entusiasmo os momentos de lazer da vida das comunidades
interioranas... e de algumas capitais também, por ocasião das festas em datas cívicas nacionais, festas religiosas
calendárias ou do santo padroeiro local, nas procissões, nas vitórias eleitorais e hoje nas do time de futebol que
venceu o quadro da cidade vizinha com a qual há sempre rivalidade insopitável, bem como também se apresenta
aos sábados ou domingos à noite. A banda de música, quer exista ou não coreto na pracinha, está presente,
está junto ao coração de milhares de brasileiros, ritmando o sue pulsar com o seu ra-ta-tchim-tchim festivo.”
A existência e a história das bandas de música são fundamentalmente uma forma de expressão
da musicalidade, popular ou erudita, dos moradores: um dos modos importantes de se
organizarem, valorizarem e vivenciarem sua disposição, enquanto músicos ou apreciadores,
para o que consideram como “boa música”. Esse sentido foi revelado pelos depoimentos e
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
memórias das pessoas consultadas, responsáveis ou indiretamente ligadas à história da
sociedade musical – sócios, ex-sócios, músicos, apreciadores e simpatizantes.
A banda opera como um encontro de muitas gerações, crianças, jovens, idosos, participando
dos momentos mais importantes da cidade. É um elemento fundamental para os momentos
solenes e de recreação dos seus moradores. Principalmente para aqueles mais antigos, “do
tempo das valsas, dos boleros, quando as marchinhas eram a música mais popular”, como nos disse um
morador consultado.
Segundo informantes envolvidos com as bandas de música, uma escola para a introdução dos
mais jovens, “é que pode dar conta de não deixar a banda acabar, porque renova o grupo de músicos”. A
necessidade dessa atividade de educação musical pela sociedade é fundamental para a
continuidade de suas atividades musicais, com a qualidade a que aspiram seus integrantes:
maestro, músicos e demais associados.
Sapucaia:
A Sociedade Musical Santa Cecília, de Sapucaia, foi fundada em 1953, sendo composta por
músicos e sócios, e prevendo a existência de uma escola de música. Antes de configurar-se
como sociedade musical organizava-se como uma lira, denominada Unidos de Euterpe.
Banda e escola da sociedade musical Santa Cecília, funcionaram, desde 1953, passando por
alguns momentos de crise, “as vezes faltavam muitos músicos, as vezes alguém tinha um problema de
saúde, e faltava, e era uma pessoa que não conseguíamos substituir.... as vezes faltava recurso pra continuar
com a escola...”, mas, há quatro (4) anos a crise foi mais grave e a banda ficou completamente
desativada, “quando o prefeito simplesmente cortou os recursos [...] não tinha mais como pagar o ,maestro,
nem os professores de música”.
No ano de 2009 teve iniciada sua reativação pelos moradores, músicos e apreciadores da
banda, retornando, inclusive, com as atividades de escola.
A Banda de Santa Cecília conta atualmente com auxílio do maestro Édson e demais músicos
da Banda Sete de Setembro de Além Paraíba. Anteriormente à desativação da banda por falta
de estímulos e subvenção, conta-se que “sempre se apresentou com 80% de músicos de sapucaia [...]
mas agora é a Sete de Setembro, de Além Paraíba quem dá corpo pra banda. A Carlos Gomes também
apóia”.
Em 2009 a banda teve participação ativa (com auxílio do maestro e músicos da banda Sete de
Setembro) na festa de Santo Antônio, contribuindo nos momentos mais importantes:
alvoradas, procissão, e apresentando-se no coreto da Praça Barão de Ayuruoca, em frente à
igreja matriz. Os moradores mais velhos mostraram muita satisfação, emocionados com o
retorno da banda, que já há quase quatro anos não tocava na cidade com tamanha expressão.
Os sócios da Sociedade Musical Santa Cecília são classificados em: beneméritos, honorários,
fundadores, contribuintes e músicos.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Nos seus programas de apresentação constam: marchas, dobrados, valsas, samba, lambada,
polca, choro, maxixe, baião, embarcada, boleros, mambo ou chachacha, e rumbas, entre
outras composições populares ou eruditas, incluindo as composições de músicos da cidade, o
que demonstra a rica cultura musical de Sapucaia.
Dobrados, marchas e hinos são consideradas as composições mais características de uma
banda de música. O dobrado nos foi apresentado como “o ritmo próprio das bandas, junto com as
marchas e os hinos”. A bibliografia explica que, no Brasil, as marchas militares também são
conhecidas como dobrados, mas que, porém, o dobrado tornou-se um estilo de música
diferenciado, o mais tocado nas bandas de música.
Além Paraíba:
Em Além Paraíba há duas bandas de música civis tradicionais: a Sete de Setembro, primeira a
ser formada, com mais de 120 anos de existência; e a Sociedade Musical Carlos Gomes, com
113 anos de idade.
De acordo com depoimentos do sr. Hamilton (aproximadamente 60 anos) e do sr. Jorge
(aproximadamente 60 anos), respectivamente, maestro e vice-presidente da Sociedade Musical
Carlos Gomes, de um modo geral, o estado de Minas Gerais possui uma tradição política de
apoio à bandas de músicas das cidades do interior.
Em 2009, são aproximadamente 31 integrantes na banda, entre jovens e adultos. Mesmo com
o relativo sucesso, Hamilton aponta que perdem-se muitos músicos porque a cidade é
pequena. Quando o músico atinge certa idade, se não arruma emprego, vai embora.
A banda é uma história que passa pela família dos entrevistados. Desde os cinco anos de
idade, Jorge lembra que acompanha a banda, onde seu pai foi ritmista (percussão). No caso de
Hamilton, ela foi determinante para sua existência. Seu pai veio para Além Paraíba para tocar
na orquestra do clube, quando, então, conheceu a esposa, que era filha do maestro da outra
banda tradicional, a Sete de Setembro. O irmão de Hamilton foi presidente da Sete de
Setembro, por muito tempo, mas, por conflitos pessoais, acabou saindo do grupo e foi tocar
na Carlos Gomes – banda pela qual passou toda a família.
O aluguel de dois cômodos de sua sede, no centro de Além Paraíba, é que garante a
manutenção da Sociedade Musical Carlos Gomes. Isso só foi possível com a construção de
um segundo andar na casa, a partir dos esforços de todos os membros e simpatizantes do
grupo. Outra fonte de renda provém da prefeitura, que dá um apoio, principalmente para o
pagamento das viagens. O maestro Hamilton recebe pela função, e também pelas aulas que
dá.
Como outras bandas pelo interior, os compromissos da Carlos Gomes giram em torno das
festas religiosas e civis. Um evento próprio e tradicional é o baile de domingo, que acontece
toda semana, há aproximadamente 15 anos. É uma seresta, com apresentação de boleros,
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
atraindo, sobretudo, freqüentadores da terceira idade. Nas quintas-feiras, também havia um
baile tradicional (de mais de uma década; interrompido em 2008) no Rex Clube.
Outros eventos de destaque no calendário são os encontros de bandas. Além da troca artística
e do convívio, esses eventos propiciam uma rivalidade entre os conjuntos, estimulando os
músicos a melhorar. Rivalidade saudável, como a existente hoje entre a Carlos Gomes e a Sete
de Setembro.
1.3. Benzedeiros
A relação entre fé e cura permeia todas as religiões conhecidas pelos estudiosos desse campo.
Benzer, nos termos de um significado literal, consiste em “deitar a bênção”, abençoar. No
entanto, existem implicações particulares sobre esse termo quando o ato de invocar bênçãos é
feito por benzedeiros, rezadores ou benzedores.
Diferentes de um padre ou outro tipo de sacerdote representante de uma instituição religiosa
consolidada, autorizado a abençoar os devotos, os benzedeiros são pessoas comuns, em geral
consideradas como “muito simples” nos termos de suas posses materiais e escolarização.
Contudo, são pessoas de referência em suas comunidades, sejam elas urbanas ou rurais, e
muito solicitadas nos momentos de aflição causada por males físicos e espirituais. Aos
benzedeiros se atribui o poder de curar através das suas bênçãos.
É também comum usar-se o nome reza como sinônimo de benzeção, referindo-se ao
benzedeiro como rezador. Trata-se de uma reza, pois, a benzedura ou benzeção. Uma reza com
o compromisso senão de cura, de alívio imediato da aflição de quem procura pelos
benzedeiros.
No catolicismo popular ibérico as práticas de cura por meio de bênçãos e a procura por esses
recursos eram muito presentes e, no processo de colonização do Brasil, foram difundidas e
recriadas, incrementadas com os repertórios de cura africanos e indígenas, os seus modos
tradicionais de curar.
A noção de cura dos benzedeiros está associada a uma concepção particular de doença, que
difere radicalmente do modo como a comunidade científica caracteriza, diagnostica e trata as
enfermidades.
Como a cura é sempre solicitada aos benzedeiros, fica evidente que quaisquer dessas
enfermidades descritas acima não são apenas físicas, mas de natureza espiritual. Por isso
exigem a benzeção, para serem curadas ou devidamente controladas. Isto porque no caso
dessas doenças não se consegue um alívio por meio de uma consulta médica ou pelo simples
uso de remédios oferecidos pela ciência.
Os métodos de benzer variam para cada tipo de aflição e também de acordo com os
fundamentos e técnicas de cada benzedeiro. É muito comum valerem-se de ramos, folhas ou
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
outros materiais no momento da benzeção. Um método recorrente é a consulta a um
fenômeno com as brasas de carvão lançadas num copo d’água. Desse modo, podem verificar
se há mesmo um mau-olhado na pessoa, ou um quebrante na criança enferma, e o grau de
intensidade dessas enfermidades. Por esse processo, depois da benzeção, uma oração é feita
sobre um copo de água (que permaneceu cheio com água, durante a benzeção) contendo três
brasas (quantidade variável, mas o número três é recorrente, carregado de sentidos místicos).
Com as brasas suspensas faz-se o sinal da cruz e as joga dentro do copo. Reza-se um Pai
Nosso e uma Ave Maria. Se depois da reza, as brasas afundarem, entende-se que a pessoa
estava mesmo sofrendo de um forte mau-olhado, ou a criança de quebrante, e deve-se repetir a
benzeção por mais duas vezes, em dias distintos. A quantidade de pedaços que afundam é
proporcional à intensidade do mau que acometia o benzido.
O desenvolvimento da medicina moderna de orientação alopática acarretou mudanças na
relação das sociedades com sua saúde: a modernização industrial possibilitou um amplo acesso
aos remédios, e a sobrevalorização do conhecimento técnico-científico em detrimento dos
saberes tradicionais, transmitidos dos mais velhos para os mais jovens, principalmente pela
oralidade e pela observação participativa.
Contudo, os benzedeiros permanecem conservando consigo as orações e procedimentos
ancestrais que viabilizam as curas, especialmente no tratamento dos males considerados como
fundamentalmente espirituais.
As parteiras, atualmente reconhecidas pelo governo federal como portadores de um saber
tradicional, ainda sofrem e já sofreram muita discriminação no Brasil, apesar de serem tão
necessárias. Apesar disso, sempre houve quem precisasse, confiasse e admirasse o saber e
coragem dessas mulheres que, apegadas em Deus – ou não- exerciam esse saber com grande
generosidade e confiança. É comum serem admiradas por sua solidariedade às parturientes,
“Sai de casa, as vezes de madrugada, as vezes num frio danado, pra ajudar a mulher no parto... gente que
nem conheceu... que nem é agradecido... as vezes ficava hora lá...madrugada inteira... até o menino nascer”.
(José Eduardo, neto de parteira).
Como saber tradicional, a prática do partejamento vem sendo registrada ao longo de anos por
pesquisadores de várias áreas, interessados nas técnicas, nas histórias e nos sentidos simbólicos
dos partejamentos. Desse modo, os registros já são uma forma de preservar memórias e
referências de como se faz e se pensa o ato de partejar.
Apesar disso, na prática, apesar de ainda hoje no Brasil haver grande necessidade de
voluntários interessados em dar assistência às parturientes habitantes de regiões mais
sertanejas, as parteiras e seu conhecimento estão se extinguindo. A busca pelas parteiras
também tem sido cada vez mais incomum, uma vez que o acesso aos serviços médicos, por
piores que sejam, são bem mais freqüentes, mesmo nos interiores do Brasil.
Contudo, pela necessidade ainda atual das parteiras tradicionais, o governo brasileiro vem
implementando políticas de apoio e promoção das práticas dessas mulheres, agregando
conhecimentos técnico-científicos aos seus modos tradicionais de proceder a um parto
oferecendo cursos e assistência as parteiras.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Chiador:
Em Chiador, município mineiro fundado em 1954 (com população estimada em 2.975
habitantes, no ano de 2008), a economia é baseada na pequena lavoura (cana-de-açúcar, feijão
e milho) e na pecuária bovina leiteira, o que favorece a manutenção de um ambiente muito
propício à prática de benzer: rural, com vasta vegetação local, introduzida ou nativa, com
menor acesso aos recursos farmacêuticos da medicina científica, relativamente à sua
disponibilização nas grandes cidades - ainda que o acesso aos mesmos não seja determinante
do desaparecimento dos benzedeiros e da busca pelas benzeções.
A busca de representantes da cultura popular e tradicional, teve como referência os
benzendeiros que, “antigamente eram muitos”. Comentou-se que, “antigamente tinha mais, muito
mais... hoje em dia tem pouca gente, só a dona Fiota [...] e tem a dona Eva também... é verdade”.
A benzedeira dona Maria José, conhecida como Fiota ( 87 anos), contou que apesar de filha de
benzedeira, não aprendeu a prática com a mãe, Joana Torquato. Diz que “com mãe da gente a gente
não aprende muita coisa não [...] a gente aprende mais é com os de fora”.
Dona Eva (69 anos), outra benzedeira de Chiador, é nativa do município de Mar de Espanha.
Mudou-se ainda na infância para a fazenda Barra Mansa, trabalhando na roça com sua família,
“até uns 10 anos atrás”, quando se mudou novamente, dessa vez para Chiador.
Diz ter aprendido a benzer com a mãe, mas que somente depois “de muito custo, que antes não
interessava em benzer não”. Não tinha muito interesse apesar de sempre ter visto a mãe benzer e
socorrer os aflitos, “Às vezes eu nem ficava perto [...] ela me perguntava se eu não queria benzer... porque
às vezes aparece uma criança com vento virado e é preciso socorrer a criança... Mas eu não me interessava não”.
Começou a benzer com 50 anos de idade quando decidiu que “é importante demais saber benzer,
pra ajudar os de casa e os de fora”. Segundo sua concepção, “Quem salva é Deus... mas a gente pode
ajudar benzendo”.
Sua mãe e sua avó também eram benzedeiras. Diz dona Eva que essa prática “vem da família
mesmo. É dos antigos da família mesmo que vem... e eu aprendi”. Na benzeção aprendida em família,
dona Eva se vale de raminhos de arruda com os quais benze pra curar quebranto, vento
virado, bucho virado (mal estar crônico no estômago que faz “rejeitar qualquer comida”), e
também para “cortar” cobreiro.
Dona Eva também se vale da consulta ao carvão no copo d’água para verificar “o carrego” do
benzido, conferindo se se tratava mesmo de mau olhado ou quebrante, e a intensidade da
carga do acometido. Sabe benzer para quebrante, mau olhado, erisipela, espinhela caída,
cobreiro, vento virado e bucho virado. Para a benzedeira o quebrante é muito complicado
porque, não raro, são os próprios pais da criança que “botam quebrante nela”. Por acharem a
criança muito bonitinha, terem “muito apego a ela... botam quebrante sem querer... pois qual é o pai que
quer ver o filho adoecer?”.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Dona Eva já soube de muitos benzedeiros em Chiador, entre homens e mulheres: “homem
também pode benzer. Os homens que eu sei que benziam, aqui em Chiador já morreram todos... seu
Tiãozinho... um senhor que morava lá pra baixo... e teve uns outros que eu não me lembro o nome, mas eram
todos gente daqui”.
1.4. Caxambu
O caxambu foi citado por alguns antigos moradores de Além Paraíba e Sapucaia como uma
manifestação que já não acontece, mas foi muito recorrente até cerca de 20 anos atrás. É
informado pela literatura folclorista clássica (Tinhorão, 1974; Araújo, 1962; Cascudo, 1984)
como sendo um acontecimento lúdico e mágico próprio das fazendas de café, semelhante aos
outros batuques negros – lundu, jongo, umbigada, candombe - durante os quais se reúnem ao
redor de uma fogueira, aos pés de tambores, dançando e cantando. Batuques como o
caxambu foram inspiradores do samba, e dizem respeito às cosmologias africanas que se
configuraram no Brasil de forma particular.
Em Além Paraíba quem bem relembrou essa forma de expressão tradicional foi sr. Jairo (70
anos) proprietário do cartório e morador do distrito de Angustura. Sr. Jairo informou que, no
seu entendimento, caxambu também é conhecido por ali como jongo ou samba de fogueira.
Do modo como quis nos explicar:
“Essa região toda aqui, é uma região cujo ápice foi o café, a economia cafeeira. Então tinha muito negro. [...]
Entre uma folga e outra, aproveitando as festas dos santos católicos que os senhores cultuavam, os escravos
reuniam-se em volta de fogueiras, pegavam seus tambores e brincavam a noite inteira. Era a única maneira
desse povo cultuar suas tradições, através de danças, músicas e cantos.”
Informa a literatura que o jongo, conhecido também como caxambu, nome proveniente de
um tambor que recebe esse mesmo nome, provavelmente foi uma grande unanimidade entre
as comunidades vindas de Angola para o centro-sul do Brasil e é visto até hoje em muitas
localidades que ficam no vale do rio Paraíba do Sul. Os cantos fazem lembrar o dia-a-dia de
trabalho, os entes e outros jongueiros falecidos, a terra natal e cultuam, além disso, as crenças
e entidades de seu continente. Tudo isso feito com muita sabedoria, em linguagem cifrada,
que era para os senhores não se intrometerem nos assuntos que não lhes pertenciam. Havia
no jongo uma espécie de disputa de sabedoria entre os jongueiros, que eram sempre os mais
antigos, mais sábios, aqueles que podiam certamente entender a demanda.
Na memória de Sr. Jairo,
“Foi em aventureiro onde eu vi esse samba de fogueira, mais recentemente. Tinha um senhor lá que manteve
essa tradição por muito tempo: seu José Riberto. Ele já faleceu, mas não sei se alguém continuou... Porque era
feito sempre no mês de Junho. Mês de Junho dia 13 de Junho é a comemoração oficial do Município de
Aventureiro que o padroeiro de lá é Santo Antônio. Tem uma festa tradicional, o povo de Além Paraíba vai
muito, é vizinho nosso aqui. Lá chama-se Santo Antônio do Aventureiro. [...]
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Em Angustura o samba de fogueira era feito por pessoas.... como meu pai, seu João Minerva.e seu João Ivo ali
embaixo...eles tinham a época certa de fazer. Pessoas muito humildes na época escolaridade muito pouca,
reunia as pessoas vamos fazer um samba de fogueira – ah tem que chamar os sambeiros não era sambistas era
sambeiros... Então eles faziam a comunicação pra chamar os sambeiros que eram quem animava a s festas
mesmo... então faziam comida, davam comida davam bebida pros sambeiros... Tinha a tradicional bombinha
que muleque solta mesmo e as comidas eram assar batata assar mandioca, assado dessas leguminosas... e então
eles fazia apresentando a arte deles, tocavam as caixas, caixas de percussão – instrumentos de ritmo de modo
geral...Aí o que eles faziam...reuniam em torno da fogueira e começavam a bater...aí ia o primeiro puxador –
que puxava o canto né...aí o puxador vinha e puxava o ponto de samba dele – ponto de samba que era como
falavam...aí puxavam e vinham dançando...dentro da roda...e tumtumtum... sambando em torno da
fogueira..até alguém ter mentalizado a resposta...Aí mentalizou a resposta...entre outro puxador respondendo
aquele primeiro. Ele fazia no caxambu dele um tumtumtumtum que era o sinal de parar pra ele puxar o
samba dele, respondendo o outro... e até outra pessoas ou aquele primeiro mentalizar outra resposta ele vai
fazendo o dele...até um outro interromper. é muito bonito mesmo...bonito demais. Nós falamos hoje das festas
do maranhão é porque é a única que se tem conhecimento pelos veículos de comunicação.... Era muito bonita
essa festa aqui na roça!”
Ponto de caxambu relembrado por Sr. Jairo:
“Lá no mato tem
lá no mato mora
lambari de ouro tá puxando tora...
Lá no mato tem
lá no mato mora
lambari de ouro tá puxando tora...
Aí o outro bolava uma resposta e vinha uma resposta e aquele já morreu. Era uma espécie de desafio entre os
cantadores mesmo. [...] Aí tinha um elemento que o papai, por exemplo, trazia... Tinha o Zeca Tatu e Zé
Pereira esses dois cara, eles tiravam ponto quase sem resposta, difíceis... eles não sabiam escrever um ‘O’ a não
ser com copo na areia...mas eram muito inteligentes, muito inteleigentes! [...] Eles eram da região de São
Domingos de Aventureiro... hoje já não tem mais ninguém dessa época...É possivel que em Aventureiro tenha
alguém que se lembre ou até continue isso lá...[...] O José Riberto (filho de italianos) manteve isso por muitos
anos lá...É samba de fogueira, samba de caxambu.”
1.5. Calango
O Calango é um tipo de desafio de viola, muito presente nos estados do Rio de Janeiro e de
Minas Gerais, principalmente na região de fronteira entre eles, onde se inserem os municípios
de Além Paraíba, Chiador e Sapucaia – lugares onde a manifestação foi localizada.
Mescla entre poesia e música na qual predomina o improviso – a criação de versos "de repente"
–, o canto do Calango costuma ser acompanhado de instrumentos musicais. Quando é o
pandeiro, o repente é chamado de coco de embolada (muito comum no maranhão);
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
acompanhado do violão, denomina-se cantoria (essa, mais semelhante ao Calango mineiro e
fluminense).
O desafio possui diversos modelos de métrica e rima. No modelo nordestino são cantados
quatro versos, formando uma quadra, em que há uma rima do segundo verso com o quarto, e
o cantador não repete os versos do adversário. No modo do Calango mineiro e fluminense, o
cantador oponente canta repetindo o último verso da quadrinhada cantada.
“Meu amigo Zé Bento
tem feição mais é de bode,
não adianta rodeá cepo,
que comigo ocê num pode.”
Ao quê o adversário responde, intercalando no seu canto o último verso cantado:
“Oai, oai,
comigo ocê num pode,
ocê ta munto feio,
parece o Reis Herode.” (Tinhorão, 1974)
Muitos pesquisadores associam a origem dessa tradição no Brasil aos trovadores europeus
medievais, que teriam sido incorporados à musicalidade popular dos portugueses, introduzida
com a colonização. Há também teorias que vinculam o Calango às tradições africanas de cantos
de trabalho e folgança. Essas teriam sido recriadas pelos escravos, no Brasil.
Na perspectiva de outros pesquisadores da cultura popular, como Vera de Vives, o calango
tem provável origem africana. Em seu livro O Homem Fluminense, de 1977, a pesquisadora
afirma que os escravos tinham o Calango como canto de trabalho e canto de folgar, e que tal
hábito ainda é verificado em diversos municípios onde há calangueiros. Do testemunho de um
deles, a pesquisadora foi informada de que “trabalhando se canta o calango de ‘versos combinados’
(tradicionais) e às vezes também a ‘lera’, cantada sem o acompanhamento de qualquer instrumento, ‘só para
alegrar’, uma vez que as mãos estão no cabo da enxada, capinando, ocupadas em fainas diversas de dedilhar o
cavaquinho ou suster a sanfona. Nos bailes, cavaquinho, violão, pandeiro, sanfona (de oito baixos) e chocalho
(vimos notáveis improvisos, na criação de chocalhos, em Miracema) são instrumentos para o calango. Mas se ele
é cantado ao sabor do instante, se vira desafio na porta das vendas no fim da tarde, um instrumento só (a
sanfona, em geral) é suficiente para sustentar o canto. A porta de venda é, aliás, um local de muita
oportunidade para o calango. É para ela que convergem os lavradores, no fim do dia, desejando tomar tragos de
aguardente antes de ir para casa. É lá também que parceiros e compadres se encontram para conversar. E de
repente o verso se solta, um cantador espicaçando o outro, pois a assistência, a platéia, estão formados.
Provocado, um calangueiro nunca se cala. A resposta vem ferina, pronta. [...] E os contendores não apenas
cantam, também dançam, rodopiando, e os assistentes participam da refrega, com vaias, aplausos, comentários
de apoio ou repúdio. Já no calango de baile, costuma-se iniciar o canto com versos tradicionais, decorados, que
cedem lugar ao desafio, ou são improvisados pelo calangueiro, quando o baile esquenta. Por isso é comum
encontrar um desafio dentro de um baile.”
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Além Paraíba:
Em Além Paraíba, o Calango foi relembrado como um divertimento típico de um universo
rural antigo – anterior à difusão do rádio –, recheado de símbolos e temas que expressam o
tempo e o ambiente vivido e imaginado pelos calangueiros.
Zé Dondoca (aproximadamente 60 anos), mestre folião reiseiro, guarda na lembrança muitas
memórias do tempo em que o pai era vivo e fazia fama como calangueiro nas festas da roça e
no Boiadeiro, bairro onde ainda mora Zé Dondoca e que, há 40 anos, apresentava-se com
uma atmosfera muito rural. Também viva na memória de Zé Dondoca está a imagem dos
bailes de antigamente, onde se cantava Calango, deixando saudades.
Sr. Onofre (71 anos), hoje é ator, músico e poeta pertencente à Sociedade dos Poetas Vivos de
Além Paraíba. Criado em meio a uma população analfabeta, Sr. Onofre começou a aprender a
ler e a escrever com a irmã, mas só foi estudar mesmo depois de casado. Ele afirma que muito
da influência para seu ingresso no campo das letras vem de suas lembranças da infância e
adolescência, na presença de mestres calangueiros.
Os versos do Sr. Onofre ganharam impulso de 2002 em diante, quando ele começou a
participar das publicações do Inovarte – grupo de terceira idade local, com foco artístico. De
temática prosaica, sua poesia possui uma rima muito semelhante a do Calango – abordando
temas de um contexto urbano e não rural.
Sapucaia:
Em Sapucaia, os desafios de Calango eram muito comuns, há cerca de 30 anos atrás, nas
festas de roça e bailes de comunidade. É uma manifestação muito presente no município
principalmente nas localidades por suas características mais rurais.
Por esse motivo os moradores de cerca de 40 a 70 anos de idade recordam com saudade os
desafios de calango acompanhados de viola ou sanfona.
Lili Carabina (aproximadamente 50 anos), filho do Sr. Bernardino, morador da comunidade
dos Moreira, distrito de Jamapará, é um famoso calangueiro de Sapucaia, que foi muito citado
entre os informantes. Famoso por seus improvisos ágeis desde muito jovem, com sua
constante presença nos bailes tradicionais do município que aconteciam há mais de 15 anos
atrás.
No distrito de Anta foi indicado o senhor Tião Malino, ou Tião da Máquina, calangueiro de
cerca de 70 anos de idade.
Em Aparecida é conhecido o calangueiro Sr. Ernestino (80 anos, aproximadamente). Morador
famoso do distrito sapucaiense, o calangueiro se apresentou como nascido em Diamantina, e
contou histórias curiosas sobre sua trajetória de muitas viagens e cantorias, com expressiva
menção à escravidão.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Das suas cantorias, Sr. Ernestino puxou várias, demonstrando seu desempenho extraordinário
como improvisador. Dentre elas, destacamos:
“zé pretin puxou viola de dentro do saquinho de fita
as moças batia palma o que viola bonia!
cego puxou viola dentro do saquinho de meia
as moças disse sõ que violinha feia”
esse pessoá de hoje minha filha não prende nada!”
e
“se a rosa branca soubesse o valor que a roxa tem
largava de ser branca ia ser roxa também
se a moça me deu um fora não é da conta de ninguém amanhã por essas horas ce tá nu fora também”
quando ele terminou deixou muita gente bem
deixo corrente de ouro
relógio de sete cem”
Luciano, professor de geografia, nascido e criado em Santo Antônio da Vista Alegre, localidade
do distrito de Anta, Sapucaia, em parceria com o músico Beto Chocolate, morador do distrito
sede, vêm realizando um festival de Calango, há dois anos. Ele acontece durante a festa de
Santo Antônio, padroeiro do município e dessa localidade.
Luciano e Beto promovem o evento concebendo-o como uma forma de resgatar algo da
cultura tradicional da região. Iniciativas como essa favorecem a preservação da manifestação
valorizando os cantadores calangueiros divulgando sua arte.
Além dessas iniciativas de preservação do calango tradicional, ressalta-se que esse modo
musical foi fonte de inspiração e, mesmo, base de recriação para muitas manifestações
musicais contemporâneas, como o samba e o hip hop.
Chiador:
Em Chiador foram mencionados alguns antigos calangueiros conhecidos pelos apelidos de
“Zé Beto”, “Dalcides” e “Morgado”. De acordo com Sr. Pádua (70 anos aproximadamente)
músico, nativo do município e habitante do distrito Sapucaia de Minas, apesar de Chiador não
ter se destacado na região por uma cena cultural muito atraente, esses antigos cantadores de
desafio, os calangueiros são lembrados por muita gente, mas não existem mais por ali. Ou ao
menos não se manifestam em público, como antigamente era comum em festas e bailes de
roça, bailes de rancho, como recordou.
“Chiador é município recente... teve emancipação política de 1953. [...] E nunca foi município de projeção,
principalmente do ponto de vista cultural... Mas acontecem sim... e aconteceram, principalmente, há uns 20, 30
anos atrás, muitas coisas importantes, em termos de música. [...] Folia de reis é nascimento de Jesus que eles
vão cantando, contando a história do jeito deles, que é um jeito simples, popular... nas palavras né, mas muito
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
complexo se você analisar musicalmente... muito bem acabado... Aquilo que parece desafinado...
desconcertado... Aquilo tudo é um estilo de fazer a música... um jeito popular... artístico”.
Em relação à músicas da região, sr. Pádua destacou ainda os sanfoneiros e violeiros que “eram
muitos por aqui!”. Nas festas de rancho que aconteciam nos sítios ou nos terreiros das casas, em
Chiador, “sempre teve bons sanfoneiros, calango bom, bailes de barraca de roça... era abundante ali... [...] O
lazer do interior sempre foi baseado nesses bailes de fim de semana... aquele bailezinho de barraco gostoso....
coisas um dia ali outro lá”.
Outro morador, José da Silva, conhecido como José Benedito, contou lembrança de tocadores
de calango... e que de Folia de Reis, “em Chiador mesmo não tem não.. mas toda vez que aparece uma
bandeira...todo mundo corre atrás”.
Acontecendo atualmente em Chiador, foi identificada a presença de outras formas de
expressão importantes que ainda hoje agregam as pessoas, por seu caráter musical, plástico ou
lúdico. Destacam-se a Folia de Reis; a Cavalgada; e as Encenações da Semana Santa.
1.6. Cavalgada
No município de Chiador, Evaristo José Jorge Reis, o Joca, vereador e morador, comentou da
importância das cavalgadas na região. Organiza já há 18 anos, a Cavalgada Só o Amor Constrói
que acontece geralmente no mês de agosto, de sábado para domingo. Segundo Joca, esse
encontro já pode ser considerado uma tradição. É um encontro que começou com
aproximadamente 70 cavalos e, atualmente reúne cerca de 500. Vem de toda parte, vizinha ao
município, Leopoldina, Sapucaia, Além Paraíba, Três Rios, Carmo... Encontram-se na praça
central de Chiador, e vão até o distrito de Penha Longa, cavalgando juntos, em desfile, “com os
animais bem alinhados, bonito de ver”. Esse evento foi pensado, pelo vereador, para atrair um
grande público apreciador de cavalos, “que é uma coisa de muito valor num ambiente rural, como o
nosso. [...] Tem charretes para passeio, fogos, violeiros... Tem show ao vivo, almoço.... a pessoa para R$3,00!
As senhoras da comunidade fazem a comida... tudo muito bem feito, gostoso...[...] Vem muitos caminhões de
cavalo. [...] Mas essa cavalgada nossa não é uma festa religiosa: é outra cultura”.
1.7. Encenação da Paixão de Cristo na Semana Santa
Outra importante forma de expressão do município de Chiador é a encenação da paixão de
Cristo, na sexta-feira da Semana Santa. Para a moradora dona Vilma, católica e voluntária em
trabalhos da igreja, as semanas santas da cidade também são muito importantes. Antigamente
mobilizavam muito mais pessoas para a encenação da Paixão de Cristo, e “foi sempre um
encenação grandiosa! Escolhiam uma menina para ser a Maria, outra...fazia de Maria Madalena... o Jesus
Cristo. Geralmente eram os jovens, do grupo de jovens. [...] Ensaiavam meses antes para fazer bem bonito no
dia da apresentação. A praça ficava toda enfeitada... Era uma coisa bonita de tradição mesmo...aqui da
cidade. [...] Hoje em dia, não é mais tão bonita não... teve ano que nem teve a encenação. As pessoas foram
ficando mais desinteressadas... Porque dá muito trabalho pra fazer, exige tempo... dinheiro, muito trabalho.”
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
1.8. Capoeira
A capoeira é uma forma de expressão afro-brasileira que mistura luta, dança e música,
associados a uma cultura muito particular em relação aos modos de se organizar em coletivo,
originalmente nas ruas. Desenvolvida no Brasil por escravos africanos e seus descendentes, é
caracterizada por golpes e movimentos ágeis e acrobáticos, utilizando os pés, as mãos, a
cabeça, os joelhos e cotovelos, e até mesmo bastões e facões, estes últimos específicos do
Maculelê. Uma característica que distingue a capaoeira da maioria das artes marciais é a
proeminência da música em seu universo, constituindo um elemento tão importante quanto
os golpes e gingas.
No seu livro Capoeira Angola – Ensaio Sócio-etnográfico, de 1968, Waldeloir Rego faz
considerações históricas sobre a capoeira, no Brasil. O pesquisador defende que, inicialmente,
a capoeira era um folguedo que os negros inventaram para os momentos de diversão, mas
sem deixar de utilizá-la como luta quando necessário – casos não raros.
Grosso modo, a capoeira pode ser entendida como uma dança que é luta, e vice-versa,
revelando o caráter duplo dessa forma de expressão artística, lúdica e ao mesmo tempo
esportiva, marcial.
No período final do Brasil imperial, com a decadência do patriarcado rural e o desenvolvimento
mais intenso de um Brasil em urbanização, os praticantes de capoeira foram percebidos como
importante peça política para uma sociedade em transformação:
“Com o passar dos tempos, é cada vez mais crescente a sua fama de lutador e de implantar grandes desordens
em fração de segundos, sem possibilidade de ser molestado, conseqüentemente ficando oculto, para quem estava a
serviço, o capoeira passou a ser a cobiça de políticos. Serviria de instrumento de luta ora para a nobreza, que
dava os seus últimos suspiros, ora para os republicanos, que lutavam encarniçadamente para obterem a vitória
sobre o trono, daí os graves acontecimentos que abalaram o país, nos fins do século XIX. [...] Com isso, a
capoeira, um folguedo por propósito, começa a sofrer mudanças de caráter etnográfico, em sua estrutura -- a luta
que era um acontecimento passou a ser um propósito. Por outro lado, isso acontecia justamente num período em
que a sociedade brasileira chegava ao auge nas suas transformações de base por que vinha passando [...] e a
capoeira, por uma determinação sociológica, não poderia estar imune a essas transformações” (Rego, 1968).
Em 1929, sob a liderança do Mestre Bimba, a capoeira, até então realizada nas ruas e terreiros,
foi introduzida em recintos com denominação e caráter de academia, onde os ensinamentos
passaram a ter um cunho didático formalmente moderno e ocidental. As classes média e alta
foram atraídas, a princípio como espectadoras das exibições e, posteriormente, como
praticantes daquela atividade, então vista como uma nova forma de educação física. Em 1937,
o governo brasileiro oficializou a capoeira, dando ao Mestre Bimba um registro formal para
sua academia.
Desse modo, a prática da capoeira atingiu novos ambientes e foi se diversificando, de acordo
com a conduta e as condições dos seus vários mestres e praticantes, entre negros, brancos e
mestiços, de diferentes classes da sociedade.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Apesar desse alcance social ampliado – difusão que se estende até mesmo para o exterior
(atualmente são dezenas de academias internacionais) –, a capoeira continua, sobretudo no
Brasil, sendo uma prática muito mais desenvolvida nas camadas economicamente
desfavorecidas, notadamente pela população com traços de afro-descendência.
Três Rios:
No município de Três Rios há grande destaque da capoeira como saber e forma de expressão
tradicional, que vêm se popularizando, progressivamente, ao longo de sua história, em âmbito
nacional.
Toda a capoeira de Três Rios tem como referência a Associação Moçambique de Capoeira,
primeiro grupo a atuar na cidade, trazido de Niterói pelos mestres Amaro e Gato Preto, em
1978.
Tudo começou em um clube do bairro Caixa D’água, onde, primeiramente, a Associação
Moçambique sediou sua atuação na cidade. Muitos anos depois, em 2006, no mesmo bairro,
foi instalado o Centro Cultural de Capoeira Mestre Manoel Gato Preto e Mestre Deolésio – em
homenagem aos fundadores da capoeira no município. O Centro Cultural tem um espaço
próprio, cedido pela prefeitura há um ano, e é administrado pela Liga Centro-Sul de Capoeira.
No município de Três Rios (RJ), a capoeira é organizada pela Liga Centro-Sul de Capoeira,
fundada em 2006. Com o objetivo de fortalecer o trabalho regional com a capoeira e
promover a manifestação, a Liga reúne todos os grupos locais em torno de ações comuns. Ela
ajuda na organização de eventos festivos e de reuniões; organiza os grupos no que diz respeito
aos registros e documentações; procura fortalecer a imagem dos mesmos frente às demais
instituições sociais e culturais; facilita a comunicação e a representatividade dos capoeiras
perante o poder público, e o público em geral.
Entre os membros da Liga estão mestre Darcy Malandrinho (Grupo Raiz Capoeira), mestre
Brinquinho e mestre Toty (Grupo Associação Moçambique de Capoeira), além do professor
Altair, mestre Demilto e mestrando Sapo (Grupo Capoeira Cultura Brasileira), e Marilene,
secretária da Liga. Atualmente, há mais de 15 grupos fluminenses de capoeira filiados à Liga.
Segundo Marilene, um dos objetivos mais importante da Liga é desenvolver um trabalho de
pesquisa, “de resgate da memória, da história dos capoeiras no Brasil e em Três Rios”.
Para o grupo, apesar dos quase 40 anos de história no lugar, a capoeira ainda é muito
discriminada ali. Tanto que há apenas cinco anos a prefeitura vem “olhando com mais carinho”4, a
4
Exemplo desse interesse mais profundo pela cultura afro‐brasileira, a Praça Zumbi dos Palmares, na Morada do Sol (bairro Vila Isabel), foi fundada com um monumento em homenagem ao líder negro, por iniciativa dos capoeiras de Três Rios. 35
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
causa. Desde então, a Liga tem conseguido um maior apoio público, embora o considere
ainda muito pequeno se comparado à importância social da prática pelos meninos e meninas
de famílias de baixa renda – público a que os mestres e professores de capoeira de Três Rios
se dedicam mais.
Há 3 anos, vem sendo promovido o Festival AfrOrigem, festa que reúne praticantes de
capoeira de toda a região. Aí, acontecem rodas – evento onde os capoeiras brincam/lutam a
capoeira –, brinca-se de samba – chamado samba-de-roda – e são promovidas discussões a
situação da capoeira na cidade, no Brasil e no mundo. Para esse evento, os capoeiras tentam
mobilizar vários grupos da sociedade de Três Rios, entre público simpatizante, agentes
culturais e executivos da administração pública, não só para ampliar a divulgação da capoeira,
mas também para agregar ao evento novas pautas, referentes a cultura afro-brasileira e à
situação do negro na sociedade:
“Convidamos várias pessoas, mas não dão a importância... Não vem abrilhantar nosso trabalho... Muitas
pessoas vêem a capoeira como arte marginalizada... com racismo . [...] Os políticos não freqüentam nossos
eventos. Convidamos o secretariado, os vereadores... não vão. Apenas no momento de arrecadar votos.”
(Marilene).
A capoeira de Três Rios ainda é amadora no sentido de que nenhum professor pode viver,
exclusivamente, dela. Inclusive muitas das aulas são gratuitas, para alunos de baixa renda.
Para o desenvolvimento da capoeira, há uma série de custos com os abadás – uniforme de uso
obrigatório – e com as mudanças de corda – adorno distintivo do nível de graduação de um
capoeira, na capoeira regional (modalidade de capoeira descendente da escola de Mestre Bimba).
Em Três Rios, além da capoeira e da folia de reis, que se destacaram como formas de
expressão muito presentes e ativas, identificamos outros coletivos organizados, que apreciam
e se expressam através da música, da dança e do esporte.
1.9. Folia de Reis
Na cultura católica portuguesa, a passagem bíblica em que Jesus recém-nascido foi visitado
pelos três reis magos, Melchior (ou Belchior), Baltazar e Gaspar, converteu-se em uma
tradição popular de encenação dessa visita. Os grupos que realização essa encenação são as
Folias de Reis, também chamadas Ternos de Reis, ou reisados.
Os reis magos foram formalizados santos a partir do século VIII. Fixada a data do nascimento
de Jesus em 25 de dezembro, a data da visitação dos Reis Magos ficou definida como o dia 6
de janeiro.
O mito fundador (mito que descreve o surgimento de uma instituição social) dessa tradição é
apresentado nos primeiros versículos do Novo Testamento, livro de Mateus. (Evangelho
Segundo São Mateus 2, 1-23). Conta-se que ao nascer numa pobre manjedoura, o Menino
Jesus foi visitado por três Reis Magos, cada qual de uma parte do mundo. Fizeram uma longa
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
viagem guiados por uma estrela que luzia no céu, levando ricos presentes para ofertar ao
menino Deus em sua adoração.
Esse mito é guia de todas as folias de Reis que, observando-se as variações diversas de cada
uma, compartilham a devoção aos santos reis e ao livro sagrado do evangelho. À essa devoção
compartilhada, aos grupos e seus ritos de cantos e danças, são chamados reisados.
Os festejos de Natal são encenados pelos reisados com visitas às casas dos devotos – do dia
24 ao dia 6 de janeiro, quando, inspirados pelas palavras do Novo Testamento, os reisados
entoam versos narrando o acontecido.
O Brasil conheceu os reisados da tradição portuguesa. Essa tradição ganhou força no Brasil
especialmente no século XIX. Nesse período os reisados se difundiram entre grupos católicos
tradicionais que, para além da referência portuguesa, incrementaram sua homenagem aos
santos reis com referências performáticas indígenas e africanas, recriando rítimos e danças,
com outros instrumentos e outras coreografias. A tradição é viva em várias regiões do Brasil,
sobretudo nas pequenas cidades dos estados de São Paulo, Goiás, Espírito Santo, Minas
Gerais, e Rio de Janeiro.
No Brasil a visitação das casas é feita por grupos chamados de foliões reiseiros, reisados, terno de
reis ou folia de reis. Cada grupo é composto por músicos que cantam e tocam instrumentos, na
sua maioria de confecção artesanal: tambores, reco-reco, flauta e rabeca (espécie de violino
rústico), além da tradicional viola caipira e do acordeón, também conhecido como sanfona,
gaita ou pé-de-bode. Além desses músicos instrumentistas e cantores, outros componentes do
cortejo são o rei, o mestre, o contramestre e os dançarinos caracterizados como palhaços.
O grupo segue a liderança de um Mestre – em geral o componente mais antigo do grupo e
puxador da toada – e do Dono da Folia – líderança criadora da folia, em função de uma
promessa de sete anos. Mestre e dono podem ser a mesma pessoa ou não.
Em conjunto, mestre, músicos cantadores e palhaços seguem seu caminho, reverenciando a
bandeira com a imagem dos santos reis – também chamada de registro –, cumprindo rigorosos
rituais durante o giro – percurso dos foliões a cada noite de visitação.
Entre os foliões e devotos dos reisados, há uma forte identificação pessoal com os ritos
envolvidos – as promessas, as jornadas, as viagens, os encontros entre devotos e foliões –,
com a expressividade dos versos, toadas e ladainhas, e com os seus fundamentos primordiais
que são as palavras do evangelho, consideradas como livro sagrado, “revelação da verdade sobre a
vida e a morte dos homi nessa terra” (Sr. Tuquinha).
Um folião reiseiro, quando sai a peregrinar, de dezembro a janeiro, cantando as palavras
sagradas, está incorporando em si e nas suas práticas um ensinamento divino, uma história
que não se pode esquecer porque é mitológica: fala do tempo de um início de tudo, do
nascimento de Jesus, da sua morte e do pecado cristão.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
O mito fundador das folias é a história do nascimento de Jesus e visista dos reis magos. Esse
mito revela a crença cristã e católica, devota aos santos reis. Os devotos caminham durante
seis noites, de casa em casa, fazendo à semelhança dos Reis Magos, como se estivessem
seguindo a estrela guia, aquela que brilhava no céu, iluminando o caminho em direção à Belém,
onde se encontrava o recém-nascido na manjedoura, junto com sua mãe Nossa Senhora e seu
pai José.
Cantando nas casas que visitam, contam a história do nascimento de Jesus, anunciando a boa
nova às famílias. A cada presépio encontrado no caminho: uma adoração. Cantam os foliões,
principalmente os mais velhos, outras histórias, que aparecem também em versos, em torno
do nascimento do Menino e agradecendo pelo que foi recebido no ano acabado, e pedindo
pelas graças que ainda virão: fartura, saúde, fertilidade, bem-aventurança. Essa visão de
mundo vai estampada na bandeira, impregnada nos símbolos que carrega.
Os giros feitos pelos foliões significam também um sacrifício: peregrinam, jovens e idosos,
muitas vezes sob o tempo chuvoso, pelas ruas das cidades ou pelas estradas das roças,
apreciando o dom da água que, como a mãe, também é fonte de vida.
Além disso, para muitos foliões, o período do ano – de dezembro a janeiro – quando saem
com sua folia, é um momento de possibilidade de expressão não só da sua fé, mas dos seus
dons artísticos, cantar, dançar, fazer versos improvisados (no caso dos palhaços).
Segundo os depoimentos, de antigamente até hoje em dia, muitas mudanças ocorreram no modo de
composição das folias, nos modos de ritualização das jornadas, festas e entregas de bandeira,
por exemplo. Contudo, seu sentido primordial, suas características fundantes, permanecem
como a grande referência que motiva a manifestação: o anúncio do nascimento de Jesus Cristo
e da visitação dos Santos Reis Magos do Oriente; a recordação da culpa dos pecadores
incorporada nos palhaços, e das providências divinas, representadas pelos santos reis ou São
Sebastião (no caso das folias em sua homenagem).
Chiador:
Sr. Pádua nos contou de memórias da Folia de Reis que, há mais de 30 anos, “sempre passou pelo
município, mas faz já uns dois ou três anos, parece que não passa mais!”. Segundo ele, em Chiador
nunca houve uma Folia propriamente – um grupo mesmo: com mestre, dono da folia, e
puxador - mas as Folias passavam anualmente por Chiador. Especialmente uma, de
Leopoldina ou Além Paraíba (não foi informado ao certo), que agradava muito aos
moradores, levando a bandeira nas casas dos devotos. Esses recebiam a bandeira que era
passada por todos os cômodos da casa, abençoando a família; ofereciam um lanche ou almoço
para os foliões reiseiros, faziam doações, ou promessas para o ano seguinte; ou simplesmente
acompanhavam o cortejo “correndo pelas ruas, atrás da folia... que passa sempre tocando e cantando...
coisa bonita demais de ver... De dar muita emoção na gente!”.
Além Paraíba:
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
No município de Além Paraíba, a presença da Folia de Reis é marcante e foi relatada por
alguns moradores como tradição antiga do lugar. Isso foi destacado no distrito de Angustura.
- Folia Nova Embaixada dos Três Reis do Oriente
Sr. Tuquinha (80 anos aproximadamente) e Sr. Dijin foram apontados como responsáveis pela
presença da folia de reis em Angustura.
Sr. Tuquinha nasceu no dia natal, motivo pelo quê considera possuir um forte vínculo com a
festa religiosa. Natural de Leopoldina, tendo crescido em fazenda antiga de café e muito gado,
Sr. Tuquinha aprendeu folia de reis com os antigos de lá. Atualmente, ele divide domicílio entre
Angustura, no Morro do Cruzeiro, e o distrito sede de Além Paraíba (a que chama de Porto
Novo), no morro da Conceição (onde atua também como sambista e carnavalesco na escola
de samba União da Colina e no bloco Império Planeta 2).
Ativa há mais de 30 anos, apenas recentemente – cerca de dois anos –, a folia está semidesativada por comprometimento de saúde de Sr. Tuquinha que, operado de próstata, ainda não
se recuperou o suficiente da cirurgia.
Folia tradicional, a do Sr. Tuquinha não deixa de cumprir as convenções consagradas:
“A caminhada é muita. E não pode parar não. Esse povo de hoje em dia sai um, dois, três dias e pára.
Porque cansa mesmo... é pesado. Mas folia quando começa a rodar é pra parar só no dia dos Santos Reis, no
6 de janeiro.” (Tuquinha)
Sobre os ritos do Reis, de encenação do nascimento de cristo e da visita dos santos reis, o
mestre folião esclarece:
“O reis começa, minha filha, do dia 24 para o 25 de dezembro. Vai até dia 6 de janeiro que é o dia deles. E
quando dá dia 6 de janeiro, a gente fecha a bandeira. Ou meia noite do dia 5, ou meio dia do dia 6 [...] Daí,
na igreja de Nossa Senhora da Conceição, lá no Morro [da Conceição], eu faço a missa para os três magos
do oriente lá, como todos os anos”.
Sobre os componentes e personagens da folia, Sr. Tuquinha esclarece que os músicos e
cantadores podem aparecer coroados (como é no caso de sua folia) porque representam os
apóstolos de Jesus. Já os palhaços são relacionados aos perseguidores de cristo, aos soldados de
Herodes, que perseguiu Jesus e colocou ele na cruz.
Sobre o significado e função dos palhaços na folia de Reis, Sr. Tuquinha destacou com grande
expressividade:
“Então esse negócio de palhaço... O povo fica animado porque acha colorido, engraçado: - ‘Ah lá o palhaço!
Ele vem lá! Mas o negócio é pesado! Ele anda atrás da Folia e tudo... E é um só! Tem gente que põe uma
porção pra fazer os outros rir! Mas é um só... Porque é pesado... Ele chama soldado de Herodes!”
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
- Folia do Dijin Cabral
Dijim Cabral é filho do Cabral Véio, falecido mestre folião reiseiro do município de
Leopoldina, dono de uma folia fundada em Campo Limpo, em 1914 (Sr. Tuquinha saiu nessa
folia, durante 16 anos). Faziam giros extensos, de Leopoldina ao Rio de Janeiro, muitas vezes
viajando de trem, ou de carona em caminhão, pelas estradas.
Senhor Sebastião Cabral, o Cabral Véio, faleceu há mais de 10 anos e, depois dele, seu filho
Dijim Cabral prosseguiu com a promessa, saindo com a folia anualmente no tempo dos reis. Essa
folia sempre passa por Angustura, em Além Paraíba, onde há casa de devotos que recebem a
folia e sempre acolhem os foliões com um almoço, lanche, ou café.
- Folia Paz e Amor
No distrito sede de Além Paraíba, outra folia muito ativa, citada pelos informantes, foi a folia
de Zé Dondoca, como é chamada a Folia Paz e Amor fundada há mais de 40 anos pelo sr. José
Anastácio, dono da folia.
Zé Dondoca também mantém uma folia de São Sebastião. As folias de São Sebastião iniciam
sua jornada logo após a descida da bandeira da folia dos santos reis, no dia 7 de janeiro, e
peregrinam até o dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião. Nessa peregrinação os cantos já não
se referem aos reis magos do oriente ou ao nascimento de Cristo, mas à vida do mártir São
Sebastião, às graças alcançadas pelos seus devotos e que são por eles entendidas como milagres
da providência divina, conquistados pela intercessão do santo.
Zé Dondoca descreveu as peregrinações (giro ou jornada) e alguns dos ritos e procedimentos da
sua folia:
“Nós saía toda noite desde o dia 25... Saía direto! O pessoal era mais forgado antigamente... Hoje em dia,
não é mais tanto trabalho em roça... é muito trabalho na cidade né, na rua mesmo, que aí tem hora certa de
entrar e sair... aí a gente sai menos. [...] Antigamente a gente saía daqui... ia pra Estrela Dalva, Volta
Grande, Leopoldina... Nós andava por aí tudo. A gente ia de trem. Pegava o trem e ia embora... Quando
chegava nas cidades, a gente apiava e ia cantando na cidade... A gente vai em muitas casas. Qualquer casa que
quiser receber. A bandeira benze a casa da pessoa. [...] A entrega da bandeira é feita na casa do dono da folia,
né. A bandeira sai de lá quando começa a jornada, e no final volta pro mesmo lugar. A gente faz assim:
quando é folia de Reis, entrega a bandeira é no dia 6; quando é São Sebastião, no dia 20 a meia noite [0:00],
tem que tá entregando. Uma entrega às 18:00 da tarde pode fazer também, ou uma ao meio dia [12:00]. Seis
horas, meio dia e meia noite são as hora de entrega.”
Sobre a diferença entre mestre e dono, e da responsabilidade de um dono de folia, sr. Zé
Dondoca, como gosta de ser chamado, comenta que o “dono é quem banca, né? O que providencia
tudo. Também porque foi ele, o dono, que fez a promessa, que inventou a folia. Então, a folia é dele e ele reúne
o pessoal que é devoto também... Vai juntando gente e faz o grupo da folia [...] Mestre é o que puxa... o
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
cantador que puxa as toadas, os versos da folia. Eu canto também mas é instrumento leve... que é um
chocalho, um reco-reco um triângulo... Isso eu bato, que eu to na frente”.
Três Rios:
- Folia de Reis Estrela Guia
Na cidade de Três Rios, durante o mês de junho de 2009, pudemos presenciar a Folia de Reis
Estrela Guia na Festa Junina da Conferência Sociedade São Vicente de Paula, no Bairro
Cantagalo, em uma região chamada de Embalagens Líder. Essa festa acontece já há 5 anos
nesse bairro. É organizada para promover a instituição e arrecadar recursos para suas práticas
beneficentes (atendem famílias de baixa renda ou renda nenhuma, com cestas básicas e
remédios. Essa assistência tem duração de no máximo 5 meses para auxiliar as famílias em um
momento difícil até a conquista de um emprego, mas evitar que acomodem as pessoas em
uma estrutura assistencialista).
No bairro Cantagalo, a Folia Estrela Guia existe há mais de 40 anos. Foi formada pelo
falecido senhor Sebastião Torquato – que era então o dono e também o mestre da folia. Seu
filho prosseguiu com a promessa do pai, inicialmente de sete anos, e mantém a folia ativa até
hoje em dia. É formada por 22 componentes entre músicos, cantadores, palhaços, rei,
bandereiro, mestre e contramestre.
Segundo alguns moradores, em Vila Isabel, havia mais de 4 folias, quase todas já extintas, há
mais de 10 anos. Uma das únicas ainda atuantes se destaca por ser uma inovação da tradição.
É a Folia Mirim do Morro São Carlos. Criada pelos netos de seu Zé Miúdo, um mestre folião
reiseiro ancestral, famoso pela beleza e tradição de sua folia de reis, já extinta, a folia mirim
existe desde 1999.
- Folia de Reis Mirim
No Morro de São Carlos, bairro Vila Isabel, em Três Rios, conhecemos também uma Folia de
Reis Mirim. As informações foram dadas por Isadora (14 anos), Marlon e Jonatas (ambos 17
anos), descendentes do Sr. Zé Miúdo. Marlon e Jonatas criaram a folia quando ainda tinham
cerca de sete anos, há 11 anos atrás, 1999. A inspiração foi a Folia de Reis do avô a qual nunca
viram em atuação – quando os meninos nasceram a folia já era extinta – mas que, pelas
memórias narradas por seus pais – também foliões reiseiros – e por conhecidos de outras
folias, sentiram-se muito motivados.
Fizeram uma Folia de Reis com instrumentos apenas de latas – de tinta ou combustíveis –
inovado a tradição de Zé Miúdo, com inspirações contemporâneas do funk carioca e do hip
hop. Segundo os jovens, apesar da inovação com os instrumentos, as toadas e rituais
permanecem os mesmos, exceto nos momento tradicionais em que há liberdade para inventar
letras das toadas. São 15 meninos e meninas.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
A Folia Mirim sai pelas ruas de Três Rios – principalmente pelos bairros vizinhos ao Vila
Isabel – do dia 24 ao dia 6. Como é época de férias, do dia 24 ao7. Saem de manhã e ficam “o
dia inteiro rodando... fazendo o giro... [...] Tem os lugares certos pra gente ir... no bairro Triângulo...Ponte
das Graças... tem as casas que a gente não podem deixar de visitar.” (Jonatas).
Existem de 5 a 7 palhaços na Folia Mirim. Marlom é um dos palhaços da Folia.
- Folia dos Antigos
Sr. Nandi (85 anos aproximadamente), é folião reiseiro das folias mais antigas da região, “a
Folia dos Antigos: Folia de seu José Gerônimo, que depois passou para o filho dele, o Valter Gerônimo. Isso é
que era tradição!”.
Os instrumentos principais de uma folia tradicional são: “viola, violão pode ter até dois violões,
cavaquinho, pandeiro, chocalho... Não precisa mais nada... tocando direito... é isso aí!!! [...] O que vale mais é
a devoção... e a festa: o almoço, as profecias, a oração. Isso não pode faltar numa folia! Agora essa história de
sair por aí... só no desfile, na descontração... é bom também! Mas folia é outra coisa!”.
1.10. Mineiro-pau ou Pau-mineiro
O mineiro-pau é uma dança-brincadeira muito comum na Zona da Mata Leste mineira, a
região pesquisada, mas que também ocorre em outras regiões de Minas Gerais e do país. Em
algumas delas também é chamado de pau-mineiro, como foi possível verificar nos municípios
do estado do Rio de Janeiro.
A dança é feita por um grupo de pessoas, que pode variar de 10 a 20 participantes. Alguns
grupos são exclusivamente compostos de homens, mas é comum a composição ser mista.
Alguns possuem, além dos dançantes, cantadores e tocadores. Em outros, é possível que não
haja um acompanhamento musical estruturado, contando então com som mecânico ou
improvisações. Quando o grupo é composto por músicos, em geral estão presentes a caixa de
folia, o pandeiro, o violão e a sanfona de oito baixos – que é muito comum na Zona da Mata
mineira.
Os grupos de mineiro-pau executam uma performance de passos combinados com batidas de
bastão. Realizam uma série de coreografias, trocando golpes uns com os outros de variadas
formas, ao mesmo tempo em que cantam em coro, sob o regimento de um mestre puxador.
Embora um grupo de brincantes/dançantes possa ser convidado a apresentar em qualquer
lugar ou época do ano, sem restrições, as apresentações freqüentemente acontecem em
cortejos, pelas ruas das vilas e cidades, em momentos específicos de celebração: 13 de maio,
carnaval, festividades juninas, Semana Santa; ou em festas cívicas, eventos escolares e
encontros de grupos de cultura popular. Podem ter também suas próprias datas festivas, que
variam de grupo para grupo. Mas para além das apresentações em cortejo, em datas oficiais
celebrativas, esse folguedo tem origem em um contexto muito específico de divertimento,
ligado a um ambiente rural, não sendo comum algum vínculo religioso.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Referindo-se a essa ligação fundamental do mineiro-pau com o cotidiano dos moradores do
campo, destacam-se em sua performance os elementos pau e os gestos de cutucadas entre eles.
Na tentativa de identificar os significados desses (entre outros) elementos característicos do
folguedo, Oswaldo Giovannini, antropólogo pesquisador da cultura popular mineira,
investigando as particularidades dos modos de vida sertanejos da Zona da Mata, conseguiu
recolher importantes descrições e narrativas que permitem inferirmos alguns sentidos
principais desse jeito particular de brincar-dançar. Afirma o pesquisador que:
“[...] andando pelas estradinhas de chão da Zona da Mata, do Centro-oeste, das Vertentes, do Sul, e de
outras regiões de Minas, não raro esbarramos com moradores das roças caminhando de chapéu de palha na
cabeça, um embornal de pano pendurado no ombro e um porretinho na mão, assim, meio escondido atrás das
costas, quase despercebido. Ás vezes, era um sujeito bem velhinho, mais ou menos envergado, olhando de banda
por baixo da aba, às vezes um matuto forte, alto, de barriga grande, exibindo o pau arrastado pelo chão. [...]
nas grandes lavouras de café o transporte mais comum era, no passado, o carro de boi. Ainda hoje se faz muito
carro de boi em Minas Gerais, sendo usado na roça, no transporte da colheita. [...] Se o boi tem muita
serventia no sobe e desce morro, em lugares onde nem trator alcança, para que serve o pau, que tanto o mineiro
carrega pelas picadas e estradas? [...] Foi informado em Aventureiro [município vizinho de Além
Paraíba] que, antigamente, nessa região do café, todo lavrador andava com um cacete na mão. Uma hora era
vaca brava, outra hora era cachorro que tinha que espantar. Naquele tempo os animais nas roças não eram
mansos como os de hoje, não havia fazenda por onde se passasse que não tinha uma ‘vaca pegadeira’ ou um
cachorro bravo. À noite, no breu de uma madrugada sem lua, um porretinho ainda faz boa companhia.”
(Giovannini, 2005. p. 63-66)
Ainda de acordo com o pesquisador, em relação aos elementos mais marcantes mineiro-pau,
um outro costume curioso ainda se vê em pequenas vendas e bares nos arraiais da Zona da
Mata mineira. Às vezes, o carreiro de boi – ou o candeeiro, ou o andante que os acompanha,
ou o peão do cavalo que apeia e chega até a porta da venda –, antes do cumprimento com a
mão, costuma chegar sério, dando um esbarrão, uma cutucada de lado, ou um tapa nas costas
de um outro, como se estivesse bravo e nessa brincadeira mostrasse sua valentia. Conta-se
que, no tempo do antigamente, quando do uso mais freqüente e necessário do carro de boi, com
o pau na mão, o caboclo dava era cacetada no outro.
“O amigo, ao receber esse cumprimento, tinha que ficar vivo para defender-se com seu pau na mão, [...] e daí
mandar outra em cima dele. Nesse vai não vai, nesse cutuca não cutuca, nasceu uma brincadeira que virou
dança e ganhou o nome de mineiro-pau” (Giovannini, 2005. p. 62-63).
Em uma descrição geral da coreografia do mineiro-pau, que pode variar de lugar para lugar e
mesmo de acordo com o grupo, pode-se definir o que é mais comum:
O grupo de dançantes forma duas filas. Os movimentos são executados em duplas, entre os
componentes das filas opostas ou dentro da mesma fila – ficando um de frente para o outro,
tendo às costas o outro par. A coreografia é um confronto entre os paus, cujos embates
marcam o ritmo da toada.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Segurando o pau com as duas mãos, um dançarino bate no outro, ora na parte de cima, ora na
de baixo; e, da mesma forma, ora na direita, ora na esquerda. O embate dos paus pode ocorrer
alternando-se os pares, formando-se um par com o companheiro de trás, e, posteriormente
voltando-se ao seu companheiro anterior, posteriormente formando par com o companheiro
da frente. Todas essas trocas ocorrendo no tempo da toada, marcada pelos embates, tendo
como base o padrão, “bater com o seu pau no pau do outro, seguindo o ritmo, pra não se machucar!”.
De um modo geral, seguindo esse sistema, de acordo com cada frase que se canta, os
dançantes devem mudar sua coreografia. Todos ao mesmo tempo, com muita atenção, para
não errar as trocas de embates, o que comprometeria toda a evolução da performance, além
do próprio corpo dos dançarinos, expostos à pancada de um pau desencontrado.
De acordo com as pesquisas de Oswaldo Giovannini, a maioria dos grupos de mineiro-pau é
composta por negros. Vários líderes do folguedo confirmaram a versão de que se trata de uma
brincadeira que começou nas senzalas, nas antigas fazendas de escravos. Em alguns lugares,
como Itamarati de Minas (município vizinho de Cataguases), além dos batedores, desfilam
também as baianas, que são mulheres vestidas de branco, carregando peneiras, simbolizando
as escravas que trabalhavam na colheita do café É freqüente também, no grupo, a presença da
personagem do bumba-meu-boi.
Geralmente estão presentes nos blocos carnavalescos – e também em vários grupos de
mineiro-pau – o boi, a mulinha e a boneca, além de outras personagens que podem variar,
como a cabra (a que alguns chamam de cabra-totó), a zebra, o fantasma (que pode ser um
mascarado), o jacaré e o jaraguá.
Folguedo antigo, foi comum os informantes vincularem a prática ao valor de tradição, típica do
meio rural. Um modo de brincar e dançar coletivamente, muito espontânea e até mesmo
inocente, com o quê marcam sua independência de um sistema de cultura de massa, muito voltado
para os interesses do mercado.
Sapucaia:
Em Aparecida, distrito de Sapucaia, o mineiro-pau foi citado por Jorginho (aproximadamente
40 anos), líder da associação de moradores, como dança folclórica tradicional, feita durante o
período junino, nas festas, mas também em festividades cívicas ou escolares.
Jorginho descreveu essa manifestação:
“É uma dança muito interessante... tem uma música adequada.e vão batendo paus [...] é uma cultura milenar
do estado do Rio e minas também: dessa fronteira aqui. São meninos vestidos a caráter com roupa folclórica de
quadrilha representando um povo da roça. Eles com cacetinhos cortadinhos direitinho fazem uma roda e ali o
grupo tocando um acordeom, um triângulo e uma zabumba e o canto vai fazendo tipo uma literatura de cordel
falando do tempo do cotidiano.”
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Citou um morador em especial, Sr. Joel (aproximadamente 50 anos) como batedor antigo de
mineiro-pau na comunidade.
Sobre as ocasiões em que se bate mineiro-pau e de como essa dança-brincadeirra se insere em
uma festa, Jorginho descreveu:
“O mineiro-pau costumava – eu digo costumava porque hoje em dia não chama mais os meninos pra beter não
– mas costumava acontecer muito assim em festa de família, de aniversário, de casamento. Daí você pedia pro
cantador que é o mestre que puxa a dança, pra ele cantar um canto com um tema apropriado pra festa. você
podia encomendar um canto com um tema que interesse um tema de casamento um tema de festa, o que você
quiser”.
Beto Chocolate (50 anos) músico de Sapucaia, também dá notícias do pau-mineiro, como é
chamado por ele (dizendo ser esse o nome mais comum no estado do Rio de Janeiro), feito
por um sr. Jovino Pereira, famoso batedor de pau-mineiro.
Sr. Ernestino (aproximadamente 80 anos), morador de Aparecida, comentou também ser
batedor de mineiro-pau.
“Já brinquei muito, minha filha, cantando e dançando. Mas hoje eu não agüento mais não: fica cansado
quando a gente canta. Eu tenho bronquite, minha filha. A fumaça tá guardada aqui [no peito], dos cigarros
que eu fumei, hollywood, continental”.
Além Paraíba:
Senhor Tuquinha (aproximadamente 80 anos), morador de Angustura, é dono de folia e
mestre folião reiseiro. Deu notícia de mineiro-pau na região afirmando ser uma brincadeira que
acontecia muito nas festas celebrativas do dia 13 de maio. Morou no município de Cataguases
durante mais de 10 anos e afirma que lá ainda é muito freqüente bater mineiro-pau.
Sr. Jairo (aproximadamente 70 anos) é outro morador de Angustura que aprecia o folguedo
mineiro-pau, segundo ele uma “briga de cacetes”, mas que não é para machucar.
Senhor Wilson (aproximadamente 50 anos), nascido e criado em Angustura, é mestre folião
carnavalesco e brincante de mineiro-pau:
“Mineiro Pau... já veio o de Além Paraíba aqui. E a gente tinha uma turminha aqui que a gente batia o
Mineiro Pau. Não é difícil não. Cês nunca viram não? É muito fácil. O povo daqui conhece. Se tiver que
bater eu bato. Mas tem muito tempo que eu não pego...
‘Dô encima
dô embaixo
dô no meio pra derrubar
mineiro pau...”
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
1.11. Música Popular
Primordialmente, a música é uma forma de expressão artística que congrega músicos para
parcerias e a comunidade mais ampla para uma dança, uma festa, ou simples audição aprazível,
compartilhada.
Adota-se aqui a noção de música popular como música feita pelo povo, não acadêmica, com
pretensões de circulação no amplo mercado, mas ligada a tradições locais, espontâneas, típicas
de folguedos e rituais, e muito focada no intérprete e na sua performance.
Música popular é qualquer gênero musical acessível ao público em geral e disseminado pelos
meios de comunicação. É a evolução natural, na era da globalização, da anteriormente
chamada música folclórica, que seria a música de um povo, transmitida ao longo das gerações.
Apesar de, muitas vezes, serem intimamente relacionadas, a música popular distingue-se da
música folclórica porque essa é transmitida diretamente entre as gerações, pela oralidade. Já na
música popular há a mediação, mesmo para a sua criação, dos meios de comunicação e
comercialização.
Três Rios:
No bairro Vila Isabel há o grupo de percussão, Ritmo da Lata. É composto por
aproximadamente 15 meninos e meninas, entre 9 e 17 anos de idade, todos moradores do
Morro São Carlos. Esse grupo iniciou em 2001, derivado da Folia de Reis Mirim, com os
mesmo componentes que tocam essa folia usando como instrumentos apenas latas recipientes
de produtos domésticos ou industriais (latas de óleo e latas de tinta, por exemplo). Sua maior
influência foi a folia de reis do ancestral Zé Miúdo, liderança cultural do Morro São Carlos e
avô de muitos dos jovens e crianças membros do Ritmo da Lata. Apresentam-se com mais
freqüência na época do carnaval, quando desfilam como bloco carnavalesco; mas também são
convidados em celebrações populares, ao longo de todo o ano, como a festa Caixotão da
Jaqueira, festas nas escolas do bairro, ou em casa de amigos. Os ritmos tocados com as latas
são: o funk, pagode, hip hop, Olodum, e axé.
O bairro Vila Isabel também é famoso por suas fanfarras: bandas de música formadas com
instrumentos de sopro, de metal, aos quais se incorporam os saxofones e a bateria. As que
mais se destacam são a Fanfarra Sete de Setembro, da Escola Estadual Moacyr Padilha (escola
conhecida como Vocacional) e é considerada como a mais antiga e tradicional. E a Fanfarra da
Escola Estadual Valmir Peçanha. As fanfarras atraem muitos jovens estudantes do colegial,
entre 13 e 18 anos. Os ensaios costumam ocorrer nos finais de semana e as apresentações em
solenidades cívicas, festas escolares e festas populares locais.
A banda de música Grêmio Musical Primeiro de Maio é a mais antiga do município - existe
desde 1927. Completará 100 anos em 2010. A casa sede da banda localiza-se ao lado da Igreja
de São Sebastião na Praça de São Sebastião, centro da cidade. As bandas de música são
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
atração muito importante nas festas cívicas e também religiosas, como a festa do padroeiro,
São Sebastião. Participam da Primeiro de Maio desde jovens a partir de 10 anos a idosos de 70
anos de idade.
Sapucaia:
Dentre as manifestações culturais identificadas em Sapucaia, a música, com certeza, foi a mais
presente. Na memória dos carnavais, da tradicional Festa da Manga, dos bailes do Mangueira
Futebol Clube, dos diversos músicos locais: a música foi destacada como uma grande riqueza
do lugar.
Na história da música sapucaiense, destaca-se a trajetória de uma família de músicos iniciada
por Nicolau Manteiga, avô do músico contemporâneo Luiz Alberto Gomes dos Santos, Beto
Chocolate.
Beto (aproximadamente 50 anos) é também compositor e se referencia muito nas criações da
família. Entre seus tesouros está um banjo muito antigo, outrora tocado por seu avô Nicolau,
muito afamado, como excelente calangueiro (cantor de desafio) e tocador de sanfona de 8
baixos.
“Todos nós da parte do meu pai aprendemos a tocar em um banjo tenor que foi do Nicolau Manteiga. Antigo,
ancestral... todos tocamos nele. Esse banjo deve ter uns 100 anos ou mais. É africano... mistura de Ásia,
África... é antigo. Seu Deinho, morador de Sapucaia, também toca esse tipo de banjo”. (Beto Chocolate)
Além do forró e do baião nordestinos, outras inspirações do músico são a Folia de Reis e o
Calango. Este último – um desafio entre cantadores acompanhados de sanfona ou viola –
representa um tipo de música bem tradicional da região de Sapucaia, sendo encontrados ainda
muitos calangueiros nos seus distritos. Beto Chocolate, inclusive, tem um trabalho particular
de “resgate” dessa manifestação, promovendo encontros entre os cantadores e tocadores de
calango de Sapucaia, tentando inseri-los nas agendas culturais oficiais.
Beto já fez muitas músicas sobre a região local e se vale também das composições da tia, já
falecida, Maria das Graças, conhecida como artista por ‘Magrácia’, homenageada no nome do
centro de Cultura de Sapucaia.
Maria das Graças , fundadora da Pastoral do Negro de Sapucaia, foi um dos grandes
expoentes da música popular de Sapucaia. Fez muito sucesso nas décadas de 1960 e 1970,
tempo quando ainda não permitiam a entrada de negros no Mangueira Futebol Clube e
Magrácia era a única negra a entrar porque fazia apresentações para o público de brancos, seus
apreciadores.
Sr. Pádua (72 anos) é de Sapucaia de Minas – distrito pertencente a Chiador –, e tem várias
parcerias, musicais em Sapucaia, estabelecidas desde sua adolescência. Posteriormente, ele
ingressou no quartel e lá envolveu-se com conjuntos de bailes da periferia do Rio de Janeiro,
uma região artisticamente muito rica. Naqueles idos de 1958/59 surgia a Bossa Nova.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Após passar a tocar em Três Rios, Sr. Pádua iniciou sua profissionalização como autor e
compositor, em 1974. Foi para São Paulo, onde gravou LP “Rio de Fevereiro”, que tinham
algumas faixas que começavam a fazer sucesso... Mas o amigo de dupla não quis seguir com o
trabalho, acabando precocemente com uma carreira que parecia poder despontar. Foi quando
retornou para Chiador.
Era então em Sapucaia que sr. Pádua encontrava parcerias mais interessadas em uma música
profissional que projetasse carreira e circulação nas rádios de grandes circuitos musicais,
centralizados na capital. Em Sapucaia, um de seus grandes parceiros é o músico Beto
Chocolate com o qual já foi inclusive premiado em Festival Nacional de música, em
Pernambuco.
Outra personagem de família de músicos, Heloíza Orichio (aproximadamente 60 anos) foi
administradora da banda de música Santa Cecília, onde tocaram seu pai e seu irmão, além de
outros conjuntos e parcerias musicais, muito comuns na história de Sapucaia:
“ [...] Meu pai tocava no Jazz Continental... anos 1950. Até 1958 existia um grupo de jazz, onde tocava
também o senhor Arquimedes, que também foi da banda... Sapucaia sempre teve música! Muita Música! [...]
Papai era muito envolvido com música. Tocava sax e contrabaixo. Tocou na Banda por muitos anos. Geraldo,
meu irmão, toca piston, e tocou na banda também. Hoje, ele é meio desgostoso da música aqui pela falta de
apoio...”
Heloíza também teve sua experiência de cantora, integrando o extinto chegou Coral Municipal
de Sapucaia:
“Tinha senhora depressiva que quando cantava no coral, ficava ótima... O coral é mais recente... final de
2001, até 2004. Era com o maestro Ferreira, de Três Rios. Era um verdadeiro encontro de gerações: tinha
senhora de 80 e meninas de 12... Tocávamos na igreja, nas escadarias, na época da festa... na época de natal.
Isso pra cidade pequena é muito bom! É uma pena um prefeito chegar e acabar com isso... não dar
continuidade ao que o outro apoiou e que era bom.”
1.12. Parteiras
Partejamento – fazer o parto em ambiente doméstico e por meio de técnicas transmitidas pela
ancestralidade - é um conhecimento tradicional. O nascimento em domicílio por
procedimentos de uma parteira invoca a compreensão dos significados de cuidar da gestante em
casa durante a gestação e o nascimento do bebê.
“O Brasil guarda uma diversidade geográfica e cultural imensa que se expressa na atenção à saúde das
mulheres e no universo simbólico representado por meio das distintas práticas de cuidar. As mulheres índias e
quilombolas, as mulheres das regiões ribeirinhas, dos sertões, dos pantanais e até das cidades, regiões
metropolitanas contam freqüentemente com essa figura de tradição antiga do cuidar que são as parteiras
tradicionais para ajudá-las, cuidá-las e acompanhá-las em eventos importantes da sua vida sexual e
reprodutiva” (Dias, 2007).
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Procedimento antigo, freqüente nas áreas mais rurais do Brasil – e ainda atualmente, naquelas
mais distantes da região sudeste brasileira – o partejamento, como foi chamado por algumas
parteiras, é um saber tradicional de extrema importância simbólica e social.
Nas comunidades rurais, o processo de nascimento em domicílio é experiência tecida em uma
rede de múltiplos significados. Exige, tradicionalmente, uma relação de fé e confiança entre
parteira, parturiente, familiares e amigos. Não raro essas relações envolvem devoções
religiosas ou mesmo práticas magísticas para favorecer o sucesso do parto. Diante da
diversidade do universo cultural que envolve esse saber, considerado como uma prática de
solidariedade, ou “um dom de Deus’, conhecer e respeitar é condição fundamental para uma
aproximação real entre o saber popular e o saber científico.
No Brasil, formalmente desde 2000, o parto domiciliar tem sido uma das prioridades do
Ministério da Saúde comprometido com a saúde da mulher, da criança e da família como
garantia dos direitos humanos. O governo brasileiro tem trabalhando buscando programar
ações voltadas para a melhoria da atenção à saúde, em especial, para o controle e redução da
morbimortalidade materna e perinatal. Para tanto, são incluídas ações de melhoria da atenção ao
parto domiciliar realizado pelas parteiras tradicionais.
Chiador:
No município de Chiador, conhecemos dona Fiota (87 anos), uma parteira cuja história de
aquisição desse saber foge ao senso comum que supõe uma transmissão tradicional de
ancestrais para descendentes -mães, tias ou avós, transmitindo às suas filhas e netas.
A parteira dona Maria José, conhecida como Fiota, nos apresentou um registro de seu
nascimento indicando a data de 1922. Contou que nasceu em uma grande fazenda na região de
Chiador, denominada Fazenda Marcon. Sua mãe “trabalhava com roça”, era parteira e benzedeira.
Dona Fiota relembra que a mãe era muito solicitada pelos moradores de Chiador, mesmo
“aqueles que moravam bem longe mesmo”. As solicitações eram tanto pela benzeção, quanto pela
atenção às gestantes e parturientes, inclusive porque “muita vez, ela benzia antes de partejá. [...] fazia
as orações que ela sabia... coisa antiga... [...] Essas eu aprendi algumas”.
Apesar de filha de parteira, dona Fiota contou que não aprendeu a prática com a mãe, Joana
Torquato. Pela sua memória, informou que aprendera a partejá, quando tinha cerca de 12 anos,
com um dotô que passava pelo lugar, periodicamente: “Ele vinha assim de vez em quando. Mas vinha
[...] Me perguntou se eu não queria aprender... [...] Ele sabia que a minha mãe sabia fazer... [...] Ele quis me
ensinar pra mim ajudá ele... porque era muita mulher [risos] nascendo o tempo todo...”.
Foi assim que dona Fiota adquiriu o conhecimento, com o consentimento e as instruções de
um dotô. Esse fato é muito curioso uma vez que, ainda na primeira metade do século XX, era
incomum o consentimento de médicos formados pela tradição acadêmica com tais práticas
populares tradicionais.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Descreveu que, seguindo as recomendações do médico, ensaiava os cortes de umbigo e as
retiradas das crianças usando de modelo as bonequinhas de plástico que dona Fiota guarda
ainda hoje consigo, em um quarto de sua casa: “Desenhava nelas assim o buraquinho do imbigo...
[...]cortava... media diereitim... fazia que partejava né...”.
Os moradores comentam que, há mais de 10 anos atrás, em Chiador, havia muito mais
parteiras, “hoje é só a Fiota mesmo, mas, mesmo assim, ninguém precisa mais disso não!” (Sr. Joca, 60
anos, aproximadamente).
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
2. Celebrações
O Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, instituído pelo decreto nº. 35511 de 4 de
agosto de 2000, determina a categoria Celebrações como uma modalidade de manifestação
da cultura imaterial. Sob essa designação, no livro de registros do IPHAN, são inscritos os
rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento
e de outras práticas da vida social.
Segue abaixo uma apresentação das celebrações de destaque identificadas nos municípios
trabalhados. Essas manifestações imateriais da cultura são apresentadas mais detalhadamente
nas fichas correspondentes, anexadas ao relatório, organizadas por município.
2.1. Carnaval
Grosso modo, pode-se afirmar que o carnaval brasileiro surgiu por volta de 1641, entre os
portugueses habitantes do Rio de Janeiro. Denominavam essa festa de entrudo. O entrudo era,
então, uma festa popular portuguesa que, nesse país de origem, acontecia não somente no
período do carnaval, mas em outros momentos festivos populares.
No Brasil, e mais especialmente no Rio de Janeiro, principalmente a partir da segunda metade
do século XIX, se destacou o Zé Pereira, um modo espontâneo e popular de brincar o
carnaval, feito por um bloco de foliões que sai pelas ruas, em geral mascarados – muitas vezes
caricaturando políticos ou outras personalidades de destaque –, batendo instrumentos de
ritmo – caixas, zabumba, tarol, pandeiro, tamborins, por exemplo – e cantando letras
humorísticas, paródias, etc. O termo Zé Pereira designava, então, qualquer tipo de bagunça
carnavalesca acompanhada de zabumbas e tambores, o que, atualmente nos carnavais do
interior do Brasil, e, especificamente na região pesquisada, é conhecido como bloco dos sujos.
O carnaval surgiu no modo de blocos de brincantes. Na contemporaneidade, existem diversas
formas de brincar o carnaval, e algumas delas se consolidaram como referência nacional. Um
grande modelo é o carnaval carioca, com os desfiles das escolas de samba.
As escolas de samba surgiram no Rio de Janeiro, por volta de 1920. A crônica do carnaval
descreve um cenário social existente na cidade de forma bastante estratificada. Para cada
camada social havia um grupo carnavalesco e uma forma particular de brincar o carnaval:
“As Grandes Sociedades, nascidas na segunda metade do século XIX, desfilavam com enredos de crítica social
e política apresentados ao som de óperas, com luxuosas fantasias e carros alegóricos e eram organizadas pelas
camadas sociais mais ricas; os Ranchos, surgidos em fins do século XIX, desfilavam também com um enredo,
fantasias e carros alegóricos ao som de sua marcha característica, e eram organizados pela pequena burguesia
urbana; os Blocos, forma menos estruturada, abrigavam grupos cujas bases situavam-se nas áreas de moradia
das camadas mais pobres da população: os morros e subúrbios cariocas”. (Cavalcanti, 1994).
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
De acordo com a antropóloga especialista no tema do carnaval, Maria Laura Viveiros de
Castro, o surgimento das escolas de samba veio desorganizar essas definições. Os grandes
desfiles carnavalescos colocam em cena não só formas distintas de expressão artística, como
grupos sociais muito diferentes entre si.
O núcleo social de formação das escolas de samba foram os blocos. Édson Carneiro refere-se
ao surgimento das escolas de uma forma muito feliz:
“Tendo chegado tarde ao Rio de Janeiro, com as atenções populares já monopolizadas pelo rancho, o samba, ao
se organizar em escolas – ou seja, quando deixou de ser uma diversão do morro e da favela para percorrer
ensurdecedoramente as ruas cariocas –, não se deu ao trabalho de criar para si uma forma especial de cortejo.
Desenvolvimento do rancho em sua estrutura processional, somente o samba faz a diferença fundamental entre
ranchos e escolas: diferença de ritmo, de ginga, de evoluções, e demonstração de preferência popular, de número
de figurantes”. (Carneiro, 1987. IN: Cavalcanti, 1994.).
Nesse sentido, segundo Édson Carneiro, “uma escola é o samba quando ele desce o morro”; ou seja,
uma escola é o produto da interação do samba e do seu universo social, em expansão, com
outras camadas da sociedade. Existem, por meio do carnaval, formas expressivas de redes de
relações. Além disso, um desfile de escola de samba integra diferentes aspectos – festivos e
espetaculares, comunitários e mercadológicos, expressivos e sociológicos – num processo
cultural amplo.
Além Paraíba:
O carnaval é uma das celebrações que mais se destacam no município de Além Paraíba,
enquanto festa que marca uma vivência coletiva, permeada de um rico imaginário
compartilhado e intercambiado entre a população.
Na contemporaneidade existem diversas formas tradicionais de brincar o carnaval. Algumas
delas se consolidaram como grande referência. Um grande modelo é o carnaval é o carioca,
com os desfiles das escolas de samba.
O carnaval do município começou com blocos e ranchos carnavalescos, cerca de 80 anos
atrás. Nesse tempo antigo, o mais entusiasmado era o Cordão Carnavalesco XPTO, de 1916.
Atualmente, desfilando ostensivas alegorias pelo centro da cidade, o carnaval de Além Paraíba
é conduzido por uma Liga Carnavalesca das escolas de samba locais, que se constituíram na
cidade há mais de 40 anos.
No imaginário e nas memórias afetivas dos seus moradores é presente uma forte relação com
o carnaval, tanto das escolas de samba, quanto de blocos de bairros ou de localidades.
No distrito sede de Além Paraíba, foram destacadas as escolas de samba:
Unidos Três Corações (Cutuca);
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
União da Colina (Colinão);
Mocidade Independente de Vila Caxias;
Tradição da Saudade;
Nova Floresta;
Unidos da Saudade;
E dos blocos:
Império do Planeta 2;
Jegue Elétrico;
Unidos Santa Rosa;
Unidos do Matadouro;
Te Como na Pedra;
Ninho do Urubu (dos torcedores do Flamengo);
Unidos da Ponte (que pertence à Jamapará, município de Sapucaia, mas como é muito próximo
de Além Paraíba faz parte da Liga Carnavalesca desse município).
No distrito de Angustura, local do povoamento mais antigo do qual surgiu a cidade de Além
Paraíba, destacou-se o Bloco Unidos do Cruzeiro. Esse bloco iniciou como um tradicional
bloco de boi. Sobre estes últimos blocos de boi, presentes heterogeneamente em todas as regiões
brasileiras, afirma-se terem maior ou menor força, na medida em que o boi foi e é incorporado
na estrutura sócio-econômica de um lugar.
Na região abordada, os bois dos blocos são muito presentes e recebem diversos nomes, Boi
Pintadinho, Boi Ramaiete, Boi Coração, Boi Estrela, por exemplo. Apresentam-se com mais
freqüência no carnaval, quando além da figura do Boi, aparecem também os bonecões, de até
dois metros de altura e que também recebem diversificados nomes: Tizana, Dendeca, Marilu
etc.; e outras figuras de animais, que fazem parte da vivência local, como a burrinha, mulinha,
urubu e gavião, ou seres encantados como o Jaraguá que tem "corpo de gente e cabeça de animá”
(sr. Wilson).
Três Rios:
No município de Três Rios o carnaval das escolas de samba parece ser o preferido pela
população. Apesar de haver ainda os carnavais de blocos, nos bairros, esses se organizam
tendo como referência as grandes escolas de samba, que já existem há mais de 20 anos, como
a forma mais bem estruturada do carnaval, no lugar.
Em função de um grande carnaval conforme o carioca, os moradores de Três Rios se
envolvem e investem recursos para “fazer um carnaval cada vez melhor, porque precisa evoluir, não
pode parar”. (Rosely, escola Mocidade Independente de Vila Isabel).
Em Três Rios há muitos sambistas, dentre eles Dadinho (aproximadamente 60 anos). Nativo
do município de Carmo, na Ilha dos Pombos, Dadinho passou a infância no Rio de Janeiro,
onde conheceu o samba dos morros com muita intimidade e inspiração, buscando dedicar sua
vida à arte de compor, tocar e cantar. Vivendo em Três Rios há 37 anos, Dadinho toca
cavaquinho, violão, guitarra banjo e violão tenor. Ele considera seu trabalho, “arte hereditária....
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
e força de vontade. É o dom que a gente traz e o capricho... de querer aprender e persistir. [...] Música é isso: é
cultura! Os sambistas eram chamados de vagabundos, de malandro... mas é cultura o que a gente faz!”.
Atualmente, são seis as escolas de samba na cidade e vários os blocos de carnaval, que, muitas
vezes, são ligados àquelas – formando a Liga Carnavalesca de Três Rios:
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G.R.E.S Bom das Bocas
G.R.E.S Bambas do Ritmo
G.R.E.S Em Cima da Hora
G.R.E.S Independentes do Triângulo
G.R.E.S Mocidade Independente da Vila Isabel
G.R.E.S Sonhos de Myxyrika
Bloco Os que Bebem não Vieram
Bloco do Auê
Bloco do Barão
Bloco das Piranhas
O desfile das escolas e dos blocos de Três Rios acontece na Avenida Condessa do Rio Novo,
no domingo de carnaval. Os blocos de enredo – grupos menos investidos de recursos, mas com
enredo e bem estruturados – saem na segunda. Já os blocos de embalo – que podem ser
conhecidos como blocos dos sujos, e são formados por eventuais brincantes sem rigor em termos
de fantasias e musicalidade – desfilam na terça-feira.
No carnaval contemporâneo de Três Rios, também se apresenta, há mais de sete anos, um
grupo de meninos que descendem do mestre folião Sr. Zé Miúdo (também do Morro São
Carlos). Formando o bloco Ritmo da Lata, são cerca de 25 netos e bisnetos, entre 3 a 15 anos,
que saem pelas ruas com uma bateria formada por latas e recipientes domésticos ou industriais
(latas de óleo e latas de tinta, por exemplo). Os meninos e meninas costumam ensaiar no
campo de futebol do Morro São Carlos e comentam que tiveram como grande inspiração a
Folia de Reis do avô, Zé Miúdo – folia que nenhum deles chegou a conhecer em atividade,
mas de que sempre ouviram falar pelos pais, tios e outros foliões reiseiros.
2.2. Festas Juninas
Como parte da pesquisa foi realizada no período abrangendo os meses de Junho e Julho, as
festas juninas destacaram-se como festas populares que mobilizam com intensidade variados
grupos da população. Nessas festas, diversas expressões artísticas são manifestadas com
apresentações, como quadrilhas juninas, grupos de forró, samba, fanfarras e bandas de música;
além de serem ocasiões em que, por meio das barraquinhas, a culinária popular local é
destacada, posta à venda ou distribuída para o público. Nos festejos juninos destacaram-se: o
cuscuz de tapioca com coco; churrasquinhos; cachorro-quente; cocadas, pés-de-moleque e
maçã do amor.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Além da culinária, outro elemento de destaque são as quadrilhas. Danças-brincadeiras, sua
origem remonta ao Brasil Imperial quando, grosso modo, os populares arremedavam os bailes
da ‘europeizada’ elite brasileira, que aconteciam nos moldes franceses. De acordo com Alceu
Araújo Maynard, a reprodução da quadrilha francesa pela corte portuguesa sintetizava uma
opção estética:
“Daí a Quadrilha, aparecida com albores do século XIX, ter se tornado a predileta e não se abandonou sequer
a marcação toda em francês, bem como as denominações de suas cinco partes. Os movimentos rápidos, de clima
frio, de 2/4 ou 6/8, davam oportunidade aos jovens da época para imitar afrancesadamente os trejeitos
ensinados por Milliet, Cavalier ou outros mestres, que fizeram a Corte brasileira copiar fielmente os salões
parisienses, imitada esta posteriormente pelas Províncias, agora com requebros mais dengosos que os próprios
cariocas criaram para a Quadrilha.” (Araújo, 1962. p. 191)
No começo do século XX, a quadrilha era muito encontrada nos bailes de roça, onde a
marcação conservava algo da terminologia francesa, com alterações. Araújo Maynard afirma
que, até 1930, era “a parte mais deliciosa dos bailes populares das cidades interioranas ou das fazendas
cafeicultoras paulistas, dançada nas tulhas ou terreiros de café ao som de sanfonas, findando no mais confuso
galope. [...] Havia o hábito de declamar versos, quadrinhas com intenção amorosa, cheias de lirismo, nos
intervalos das partes da quadrilha, no miudinho, antes da quinta parte, considerada a mais importante. O
dizer quadrinhas dava aos enamorados oportunidade de fazerem suas declarações de amor. Na hora do
miudinho, muitos pais ficavam de “orelha em pé” para ver qual era o moço que estava “arrastando asas” pela
sua filha”. (Araújo, 1962. p. 193-194)
Conforme o pesquisador, apesar de ter se originado nos ambientes mais rurais, a quadrilha
popular teria sofrido um processo de proletarização, sobrevivendo nas cidades industriais.
Nesse lugar, os seus praticantes a tomam como se fossem arremedos dos bailes de caipiras, de
matutos.
Três Rios:
Especialmente nos meses de junho e julho – ocasião de nossa pesquisa de campo – pudemos
conhecer algumas das chamadas festas juninas. Dentre essas, destacaram-se o Caixotão da
Jaqueira, que acontece no Bairro Vila Isabel; a Festa do Cafona, no centro da cidade; e o
Arraial do Caminho Novo.
A festa Caixotão da Jaqueira acontece há 27 anos, no bairro Vila Isabel. Começou no terreiro
da casa de um de seus fundadores, Sr. Valter Gerônimo, líder cultural do bairro, mestre de
folia de reis e bloco de carnaval. A festa surgiu como festa da comunidade: reuniam-se no terreiro
da casa de sr. Valter Gerônimo e “cada um participava como podia. algumas senhoras faziam e
distribuíam lanches e bebidas, coisas típicas, milho verde, cuscuz, churrasquinho... cerveja. [...] os músicos do
bairro, principalmente aqueles que gostavam dessas paradas juninas – é forró, calango, sertanejo...- eles vinham
e tocavam... tudo de graça, voluntário... Não tinha essa coisa de muito dinheiro... não me lembro se cobravam
entrada, acho que não. Era festa pra comunidade mesmo. E era muito boa...e a festa foi crescendo e virou o
que é hoje.” (Beto Chocolate, músico de Sapucaia). Eram muitos os artistas do bairro, ou de
bairros vizinhos que animava a festa do Caixotão.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
O Arraial do Caminho Novo é outra festa junina promovida pela prefeitura. Seu nome faz
referência a um título histórico atribuído a essa região por fazer parte do chamado Caminho
Novo, uma rota de circulação de pessoas e mercadorias, que ligava o porto do Rio de Janeiro
ao interior. Essa rota era alternativa à estrada real, totalmente fiscalizada.
A festa acontece há cerca de 25 anos, geralmente no final de julho ou até mesmo em agosto,
durante dois dias. De acordo com Rosely, “a secretaria de Cultura, sozinha, não faz a festa. Conta
com o apoio dos diretores de escolas que levam suas quadrilhas, ajudam na decoração, e na organização das
barraquinhas.... É uma festa da prefeitura mas que precisa do apoio dos moradores. É fruto de uma
mobilização dos moradores... mas que passa pela prefeitura.”
Atualmente a festa acontece na Praça da Rosa (Praça Arsoval Macedo) e tem duração de 4
dias. Sua organização difere bastante daquela original – que é considerada mais espontânea ou
menos comercial: aluguel de várias barraquinhas para venda de bebidas e alimentação, shows
de grupos de fora, em cima de um palco montado com estrutura profissional, muitas faixas
espalhadas com agradecimentos aos patrocinadores, em geral, grandes comerciantes da região.
Seu co-fundador e atual produtor é Dida (aproximadamente 50 anos), também morador do
bairro, que “sempre teve um espírito assim agitador, mas muito voltado pra fora do bairro... Assim pra coisa
grande. Ele queria que a festa extrapolasse o terreiro, o Caixotão, né... Ele queria a festa grande e conseguiu.
A festa continua um sucesso. Vem gente de vários bairros visitar Vila Isabel por causa do Caixotão da
Jaqueira!” (Rosely).
A Semana do Cafona acontece em Três Rios já há 6 anos, no final do mês de junho, ou início
de julho. É derivada do baile tradicional de um clube particular, “Esse baile é bem mais antigo,
acontece desde há 25 anos atrás” (Marli). O CAER (Clube Atlético Entre Rios) exigia para esse
baile o uso de trajes em estilo cafona. Esse estilo é definido por Marli como “tudo aquilo que era
considerado, brega, fora de moda”. A festa fazia grande sucesso entre os moradores das classes
média e alta de Três Rios, “Os bailes eram particulares, de moradores antigos que promoviam esse baile...
mas todo mundo ficava sabendo, comentando das fantasias dos rapazes e moças que iam todos de cafona... Era
uma diversão só” (Marli).
Favorecendo esse divertimento, a prefeitura do município criou então a Semana do Cafona.
Essa festa acontece em praça pública – Praça de São Sebastião, no centro da cidade –
envolvendo novos elementos (que não o baile tradicional que continua acontecendo
exclusivamente no clube particular) como: concurso de fantasias, barraquinhas de instituições
filantrópicas, bazares e concurso de vitrines entre as lojas do centro da cidade que disputam
pelo título da decoração mais cafona.
O concurso do Rei e da Rainha Cafonas é o evento que mais atrai os freqüentadores da festa.
Além disso, há os shows em que a maioria dos artistas convidados “são de um estilo brega. [...]
Tem Karaokê também... tudo o que a gente chama de brega e cafona! Tem o bazar do ‘mundo cafona’... e o
concurso de vitrines de lojas com seus manequins vestidos de cafona” (Rosely).
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Além Paraíba:
As festas juninas de Além Paraíba se estendem também ao mês de julho, reunindo muitos
participantes, nas escolas, igrejas, praças municipais, ou festas particulares de clubes e
associações.
No distrito de Angustura, foi destacada por sr. Jairo (aproximadamente 70 anos) uma forte
lembrança das festas juninas de antigamente. Para sr. Jairo, as festas de antes é que eram festas
tradicionais, quando se fazia grandes quadrilhas que eram dançadas pela maioria das pessoas da
comunidade. Segundo ele, nesse tempo, os dançantes fantasiavam-se como caipiras e passavam
noite à dentro brincando de quadrilha, e assando leguminosas na fogueira.
“Celebrações religiosas e outras datas estão praticamente esquecidas [...] Esse pessoal mais moderno, como eu
vou dizer... Há um desinteresse... Vocês hoje ‘tão em outra’, como se diz na gíria, não é? É bem diferente a
cultura, a educação, os valores... [...] A festa junina da escola estadual ainda acontece aqui, em Angustura,
que é bastante tradicional. Mas a participação é outra, a animação é outra” (Sr. Jairo).
Moradora de Além Paraíba, Elaine (aproximadamente 45 anos) identifica como poucas, mas
significativas as diferenças entre as comemorações na roça e na cidade:
“Aqui, as festas são mais particulares, né, de uma escola, ou de clubes, tudo com cobrança de um ingresso.
Tem as de rua também. Principalmente nos bairros mais tradicionais, na Ilha Recreio, no bairro São José. Aí,
já tem um apoio da prefeitura. A festa acontece na rua fechada ou numa praça, as pessoas põem barraquinhas.
[...] Costuma ter show de banda. Hoje em dia a música é o sertanejo, né? Não tem mais aquelas coisas
antigas, o calango, as vilas, pelo menos aqui na cidade não tem. Tem, também, é som mecânico. E as pessoas
vêm. Muito para comer, né, que as comidas de festa junina são uma delícia, né? Eu vou só pra comer.”
O período junino também é consagrado à celebração dos santos homenageados no mês de
junho, pela igreja católica: São Pedro, Santo Antônio e São João. Nesse sentido as igrejas
católicas realizam festas nas paróquias, mesclando elementos sagrados – missa, trezena de
Santo Antônio, e novenas – aos profanos – quermesse na rua, bingos, leilões, e shows
musicais.
2.3. Festas Municipais
Além Paraíba:
- Fexpo
Realizada há mais de 40 anos, a Fexpo, Festa e Exposição Agropecuária de Além Paraíba, é
tão importante para a cidade, que a maioria dos seus moradores a denominam de “ festa da
cidade”.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Nem o aniversário do município, dia 28 de setembro, nem o dia do padroeiro São José, 19 de
março, competem com esse grande evento, que acontece sempre em agosto. São quatro dias
que mobilizam a população, entretida com um tradicional concurso de gado leiteiro, uma
exposição de produtos hortifrutigranjeiros, e os shows com artistas de fama nacional – dos
estilos sertanejo, axé e pagode.
Conforme informou a gerente do sindicato rural de Além Paraíba, Renata (aproximadamente
40 anos), a agropecuária é um elemento de destaque na cultura do município, cuja população
rural está distribuída pelos distritos de Aterrado, Angustura, Sítio Branco e Marianópolis. A
Fexpo coloca em evidência, justamente os produtos agrícolas e da pecuária, tão valorizados e
presentes no cotidiano da região.
O concurso leiteiro é o mais famoso da festa – 70 a 80% dos produtores de Além Paraíba são
atuantes da cadeia leiteira, e não de corte. A disputa conta com a participação de produtores de
outros municípios da região, como Aventureiro, Volta Grande, Estrela Dalva e Leopoldina.
Eles trazem os animais para Além Paraíba, até os pavilhões do sindicato rural, onde os
mesmos são submetidos a duas ordenhas por dia, num total de seis. Antes, os animais e os
objetos usados no concurso passam por uma série de procedimentos de fiscalização: verificase se as latas de leite têm água, podendo influenciar na pesagem do leite, e se a alimentação do
gado é regular, por exemplo.
Conforme pontuou Renata:
“O concurso é o elemento mais importante da Exposição. [...] É uma forma de valorização do animal, de
acordo com sua performance no concurso leiteiro. Há desfile com animais – cavalos e éguas –, julgamento pelo
porte, e premiação. Tem também prova de cavalos, tambor, baliza [...] Tem a famosa vaca holandesa leiteira,
que é um gado puro muito apreciado pela população”.
Na avaliação, além da quantidade de leite, em quilos, também se valoriza o teor de gordura no
líquido – quanto mais gordura melhor (o que rende premiação paralela). Há registro de vacas
que já deram 75 quilos de leite por dia.
A premiação, com troféus e dinheiro, é feita de acordo com a categoria de cada animal. São
elas: dois dentes; quatro dentes; seis dentes; e categoria adulta. Já quanto às raças, não existe
separação. Tem animal P.O. (Puro de Origem com registro), e animais mistos.
Durante o concurso, e mesmo antes, nas fazendas, a preparação dos animais concorrentes é
rigorosa. No seu tratamento, são empregados cuidados melindrosos, desde sabonete líquido e
ventilador, alimentos especiais importados, até o cuidado em proporcionar um ambiente de
total silêncio na hora de alimentar os animais. Acredita-se que qualquer alteração nesse
tratamento pode dar uma “quebra de leite”, ou seja, perturbar a rentabilidade potencial da
ordenha.
Depois de premiado, o animal é levado a leilão, em geral em um sábado à noite. Isso é uma
regra do concurso. O leite tirado das vacas, durante a semana, é vendido para a cooperativa.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Sapucaia:
- Festa da Manga – Memórias
A manga de Sapucaia é considerada uma tradição. Foi principal produto de exportação cujo
auge da produção se deu nas décadas de 1940 a 1960. Contam que nessa época havia muitos
exportadores de manga que vendiam na capital do Rio de Janeiro: a “manga de sapucaia era uma
verdadeira marca como a cachaça mineira de Salinas”, comentou um morador.
As fazendas da região – ícones da abundante produção de café, na segunda metade do século
XIX – produzem grande quantidade de manga, ainda hoje. Muitos proprietários fazendeiros,
na época da colheita da manga, viravam verdadeiros empresários mobilizando grande
quantidade de mão de obra local, inclusive meninos e meninas menores adolescentes ou
crianças.
Essa situação recorrente em certos períodos da história de Sapucaia ficou registrada em uma
composição de Magrácia, expoente da música popular das décadas de 1960 e 1970:
Muleque de Sapucaia
Lá no meu torrão
Muleque serve pra quê?
Quando tem manga madura ele cata pra você
Na mão tem estopa dinheiro e almoço
A vida é sopa
Quer manga seu moço?
É tempo de mangada
Muleque tem mais dinheiro
Outra! diz a mulecada recolhendo manga o dia inteiro
Na mão tem estopa dinheiro e almoço
A vida é sopa
Quer manga seu moço?
Quando termina a colheita
Que já supriu o mercado
Menino quase gente direita outra vez
Muleque de recado
Na mão tem estopa dinheiro e almoço
A vida é sopa
Quer manga seu moço?
Essa economia abundante movimentada pela produção de mangas dos antigos mangueirais
sapucaienses é muito marcante na história do município. O Clube principal da cidade, O
Mangueira Futebol Clube, assim como o nome de um importante time de futebol, foram
assim nomeados em função da importância da manga para o lugar.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Durante o período áureo da produção, a sociedade de Sapucaia promovia grandes festas com o
tema da manga. Eram as tradicionais Festas da Manga.
Nessas festas, além de bailes, havia exposições das frutas e dos seus derivados artesanais –
doces, geléias, bebidas – e um concurso da Rainha e da Princesa da Manga, em que eram
eleitas as damas mais bonitas da cidade.
Conforme contou o morador Sr. Evando (aproximadamente 70 anos), esse concurso comovia
as moças e os rapazes da cidade. Elas sonhavam em ser eleitas. Eles, em namorar com uma
delas.
2.4. Festas Afro-Brasileiras
Três Rios:
Além dos festejos juninos, foram indicados também a Festa da Quizomba (ou Festa da Mãe
Preta); o Festival AfrOrigem, organizado pelos movimentos negros do município. São
realizadas em homenagem à matriz cultural afro-brasileira.
A Quizomba ou Festa da Mãe Preta é realizada , há cerca de 20 anos, todo dia 13 de maio, no
bairro Vila Isabel, promovida pela Escola de Samba Mocidade Independente de Vila Isabel,
em homenagem à libertação dos escravos pela princesa Isabel. Além dela a festa também
homenageia a Mãe Preta uma personagem genérica que faz referência às negras escravas que
cuidavam dos filhos de seus senhores como se fossem suas mães (há um busto erguido em
uma praça do bairro Vila Isabel, em homenagem a essa figura). São três dias de festa quando,
além dos shows e desfile da Beleza Negra, colocam flores aos pés do busto da Mãe Preta, e
lançam fogos de artifício, com grande animação: “Tem quermesse, tem Pau de sebo... em cima do pau
colocavam prêmios... tesouros... Tem quentão, cachorro quente, pipoqueiro...churrasquinho... Tem desfile da
beleza negra...tudo voltado para Colônia...aqui era uma colônia agrícola de escravos”. (Rosely)
A festa da Quizomba é considerada “uma festa afro! Tem desfile da Beleza negra com modelos vestidos
como se fossem africanos do Congo! [...] É uma referência à afro-ascendência dos moradores de Vilas Isabel”.
(Beto Chocolate)
De diferente opinião, os capoeiras de Três Rios não reconhecem o dia 13 de maio como uma
data representativa da história de luta e perseverança dos negros afro-descendentes no Brasil.
Por isso, elegeram como dia oficial de sua festa AfrOrigem, o 20 de novembro – Dia da
Consciência Negra. A festa também costuma acontecer no dia 20 de setembro, mas nunca no
13 de maio que, para eles, é uma “enganação, que atribui a uma branca da nobreza a vitória que é dos
negors, de luta pela libertação!” (Mestre Brinquinho)
Esse grupo que faz parte de uma vertente rigorosa do movimento negro considera que o dia 13 de
maio é dia de comemorar a “desgraça dos escravos negros! [...] O dia 20 é que é dia de
comemoração!” Consideram que a festa Quizomba não tem conteúdo cultural representativo
da negritude de Três Rios: “tem muita cerveja, muita música, muita bagunça... mas não se discute nada...
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
não informa nada... não fala sobre a origem da Mãe Preta... sobre esse histórico... porque se você for entrar em
fundamento tem um histórico muito bonito”. (Mestre Brinquinho)
A data de realização da AfrOrigem varia entre os meses de setembro, outubro ou novembro,
mas sempre feita no dia 20 de algum desses meses, há cerca de 5 anos. Organizam o evento
com palestra de discussão e rodas de capoeira, além da música e dança que consideram mais
representativa da negritude como o samba de raiz, e o samba de roda.
2.5. Festas Católicas
Sapucaia:
- Festa de Santo Antônio
No município de Sapucaia a festa do padroeiro Santo Antônio acontece desde a sua fundação.
Santo Antônio é padroeiro de Sapucaia-sede e sua celebração é realizada tradicionalmente, em
todo mês de junho, por meio de uma trezena festiva, participada por toda a paróquia que
envolve os moradores da sede e dos demais distritos.
No distrito de Anta, a localidade de Santo Antônio da Vista Alegre, traz no seu nome a
invocação do santo que é também padroeiro do lugar. Também ali ocorre, tradicionalmente,
um celebração em honras a Santo Antônio. O festejo ocorre uma semana antes da celebração
na sede. Segundo nos informaram alguns moradores, trata-se de um cuidado para não
concorrer com a outra festa que é bem maior e ainda assim prestarem uma homenagem
especial, feita pela própria comunidade, ao santo padroeiro dos dois distritos. Todo modo, os
moradores da localidade frequentam participativamente a festa da sede cujos moradores
também visitam Santo Antônio da Vista Alegre durante os dias de celebração.
Programação da festa em junho de 2009:
1 a 13/06 (todos os dias) - 19:00h Trezena de Santo Antônio na igreja.
10/06 (quarta-feira) - 19:00h Trezena; 20:30h Caminhada musical pelas ruas da cidade;
22:30h Baile Popular.
11/06 (quinta-feira) – 07:00h Oração na Capela da Igreja do Santíssimo; 15:00h Tarde
Recreativa com as crianças, animada pelo Novamérica (Organização Não Governamental
da sociedade civil sem fins lucrativos que iniciou suas atividades em 1991. Sua sede central
está situada na cidade do Rio de Janeiro e possui também um centro de atividades, o
Centro Novamerica de Educação Popular, na cidade de Sapucaia, no interior do Estado
de Rio de Janeiro. Atua e colabora com centros, organizações da sociedade civil e órgãos
do setor público de outros Estados do Brasil. Realiza projetos conjuntos, trabalhos e
assessorias com centros e organizações de outros países da América Latina. Foi
introduzida em Sapucaia por mediação do Padre Medoro, antigo pároco e liderança
política do município, atuante no Movimento das Comunidades Eclesiais de Base da
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Igreja Católica); 19:00h Trezena, Missa e Procissão de Corpus Christi; 21:00h Taqui; 23:00
Baile Popular.
12/06 (sexta-feira) – 19:00h Trezena, Vigília de Santo Antônio com bênção para os
namorados; 23:00h Baile Popular.
13/06 (sábado) – 06:00h Alvorada com a Banda Santa Cecília e Repique de Sinos; 09:00h
Missa de Unção com Bênção da Saúde;11:00h Cavalgada e Bênção dos Cavaleiros e dos
animais; 14:30h Tômbola do Clube de Mães; 19:00h Trezena; 19:30h Missa em Louvor a
Santo Antônio com Bênção de Pães; 21:00h Leilão do Apostolado, Pastorais, Famílias
Sapucaienses e Visitantes; 24:00h Baile Popular.
14/06 (domingo) – 06:00h Alvorada com Banda Santa Cecília e Repique de Sinos; 09:00h
Missa solene com bênção para os visitantes; 12:00h Leilão de Gado; 16:00h Sorteio de
Prêmios;19:30h Missa Festiva com Procissão, Bênção de Pães, apresentação teatral com
alunos do Colégio Estadual Maurício de Abreu; 22:30h Baile Popular; 24:00h Queima de
Fogos.
De acordo com esse programa da última festa de Santo Antônio na sede do distrito de
Sapucaia é possível conhecer como organizam a festa atualmente. De ano para ano podem
ocorrer algumas variações, mas fundamentalmente, trezena de Santo Antônio, alvorada, cavalgada,
repique de sinos, leilão, queima de fogos, quermesse, bênção de pães, leilões, bingos, tômbola do Clube de Mães
e procissão são elementos presentes.
- Festa de Aparecida
Desde o início de sua formação, a festa de Nossa Senhora Aparecida é a mais importante do
distrito de mesmo nome. A festa atrai moradores de outros lugares, além de devotos e amigos
da comunidade. Nossa Senhora Aparecida é padroeira do lugar e sua presença é associada a
um mito fundador. Contam que uma imagem teria sido encontrada por um dos colonos, nos
arredores do povoado e, por isso, teriam entendido ser ela a santa a consagrar-se como
padroeira do lugar:
“Tropeiros que vinham de Cantagalo, acharam uma santinha no caminho e fizeram uma capela. Compraram
o terreno da fazendinha e doaram para a Igreja, em honras à nossa senhora Aparecida. [...] Aparecida surgiu
por causa de Cantagalo que fazia disso aqui passagem [...] Essa história é contada como origem da nossa
comunidade, eu cresci ouvindo essa história. (Dona Lia Daflon)
Além Paraíba:
- Festa do Cruzeiro
Em Angustura, distrito de Além Paraíba, a Festa do Cruzeiro foi mencionada como uma festa
popular católica muito importante para o lugar, mas que já não fazem há mais de 30 anos.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
A festa acontecia no Morro do Cruzeiro, bairro de Angustura habitado por uma população de
renda relativamente baixa, e que reúne boa parte das manifestações culturais do lugar: entre
seus moradores, estão mestres de folia de reis, sambistas, e batedores de mineiro-pau.
De acordo com o morador Sr. Jairo (72 anos), a Festa do Cruzeiro era uma das quatro mais
tradicionais de Angustura, incluindo aí a Festa da Mãe de Deus – padroeira do lugar –, a Festa
de São Sebastião e o carnaval. Todas, festividades que remetem à fé cristã, marco tradicional
de Angustura – mesmo o carnaval; contraponto ao regime da Quaresma, quando, por 40 dias,
não se deve contemplar a carne, em seus prazeres cotidianos (bebidas, ingestão de carnes ou
outros alimentos muito prazerosos, namoros, festas etc.).
A Festa do Cruzeiro acontecia todo 29 de agosto, em homenagem à edificação do cruzeiro (há
cerca de 20 anos eram dois, um frente à igreja matriz e um no alto do morro).
Chiador:
- Festa de Santo Antônio
O município de Chiador foi, desde o início de seu povoamento, consagrado à Santo Antônio,
tendo já sido nomeado de Santo Antônio dos Crioulos (em referência aos negros escravos de
Antônio Joaquim da Costa que, sob seu comando construíram a capela – hoje igreja matrizem honra a Santo Antônio, por volta de 1842).
Portanto, a celebração em homenagem ao santo é, desde o início, a maior festa do município,
agregando os moradores da sede, distritos e localidades, e também os ex-moradores. Muitos
deles retornam ao lugar nesse período festivo, ao menos em um dos dias de duração da festa
que, ao longo de sua história, variou entre 4 e 2 dias.
Sobre a festa de Santo Antônio em Chiador, nossa informante foi Dona Vilma do cartório
(aproximadamente 70 anos), como nos foi apresentada por outros moradores; e seu filho
Jamil (50 anos aproximadamente).
A filha de dona Vilma é historiadora, tendo essa mãe, por influência da filha e do ambiente de
trabalho – um cartório –, o costume de guardar arquivos de tudo o que há documentado
sobre Chiador. Por isso, é conhecida na cidade como a “Dona Vilma do cartório”, que “sabe tudo
sobre Chiador! Tem tudo guardado!”, como nos comentou um morador. Dona Vilma também é
voluntária nos cuidados com a administração do cemitério.
Segundo Dona Vilma, atualmente essa festa é a única importante do município e que ainda
mobiliza uma expressiva parte dos moradores em torno de um mesmo evento.
Com relação à data da festa, houve variações ao longo do tempo. O dia de Santo Antônio é
oficialmente comemorado no dia 13 de junho. Mas de acordo com Dona Vilma, a paróquia de
Chiador sempre foi dirigida por padres de outra organização da igreja católica que não a atual.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Esses padres anteriores costumavam eleger para celebração de Santo Antônio, ou um final de
semana mais próximo do dia 13 de junho, ou mesmo adiar a festividade para o mês de Julho –
que é um período quando os moradores e ex-moradores de Chiador se reencontram no
município por ocasião das férias escolares.
Para dona Vilma essa adaptação à disponibilidade dos moradores e ex-moradores, para
favorecer a sua reunião, é muito importante porque Chiador é um município pouco habitado,
com estrutura basicamente rural, que então “perde’ seus moradores para as cidades vizinhas,
mais urbanizadas, ou para as cidades grandes ou mesmo capitais do sudeste do país,
principalmente Juiz de Fora, Belo Horizonte, Rio de Janeiro. A maioria dos moradores,
atualmente mora/trabalha no Rio de Janeiro. Por isso, se a festa é realizada num período
pouco favorável à presença das pessoas ali, “fica vazia... chocha... sem graça...”.
Apesar de muitas variações no modo de organização da festa ao longo de sua história, os
elementos principais da festa são:
•
•
•
•
•
•
•
•
•
procissão;
repique de sinos;
missa solene em honra à Santo Antônio;
almoço para as famílias, com refeições preparadas por voluntárias e vendidas a baixo
custo para os moradores;
cavalgada;
bingo cujos objetos sorteados são doações à igreja, ou adquiridos com recursos da
festa do ano anterior, por exemplo.
quermesse, com venda de quitandas, bijuterias, artesanatos, roupas, tanto para
arrecadação de dinheiro para a igreja, quanto para particulares;
leilões, nos quais os animais leiloados são doados por fazendeiros; e as quantias
arrematadas são destinadas à igreja;
bailes ou shows religiosos;
Três Rios:
- Festa de São Sebastião
A festa religiosa que mais se destaca em Três Rios é a festa do padroeiro, São Sebastião.
Homenageado no dia 20 de Janeiro, seus devotos saem à rua me procissão, da igreja matriz de
São Sebastião até os bairros vizinhos ao centro da cidade, onde fica essa igreja. A própria
igreja é quem promove a festa: procissão; cavalgada de São Sebastião que acontece há mais de
10 anos (os cavalos saem em procissão com a imagem do santo e percorrem a cidade),
quermesse e bingo da paróquia para arrecadação de dinheiro, e uma missa solene.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
3. Lugares
O Programa Nacional do Patrimônio Imaterial instituído pelo decreto nº. 35511 de 4 de
agosto de 2000, define uma das modalidades de manifestação da cultura imaterial como
Lugares. Sob essa designação, no livro de registros do IPHAN, ficam inscritos os mercados,
feiras, santuários, praças e demais espaços onde se concentram e reproduzem práticas
culturais coletivas.
Os espaços, como resultados das relações sociais pré-existentes, relacionadas às forças
econômicas e políticas em vigor, deixam marcas na paisagem. Essas marcas são testemunhos
que sedimentam memórias e registram informações de tempos passados que contam a
história do lugar.
A apropriação simbólica do espaço se dá, especialmente, por sentimentos de pertinência que
particularizam e transformam o lugar.
O conseito de lugar se apóia nas concepções de alguns teóricos como Tuan (1983:6) “o espaço é
mais abstrato do que o lugar. O que começa como espaço indiferenciado, transforma-se em lugar à medida em
que o conhecemos melhor e o dotamos de valor [...] além disso, se pensarmos no espaço como algo que permite
movimento, então lugar é pausa: cada pausa no movimento torna possível que a localização se transforme em
lugar”.
O lugar é então o redimensionamento do espaço – feito por um grupo, comunidade, ou
indivíduo- dotando-o de sensações, afeição e referências da experiência vivida. De acordo
com outro teórico, Carlos (1996:16) “o lugar guarda em si, não fora dele, os seus significados e as
dimensões do movimento da história em constituição enquanto movimento da vida, possível de ser apreendido
pela memória, através dos sentidos e do corpo”.
É por essa perspectiva que lugar é considerado um bem cultural imaterial: focando-se nos
sentidos atribuídos aos lugares vivenciados por um grupo ou comunidade.
Segue abaixo, uma breve apresentação de alguns importantes lugares dos municípios
pesquisados, que foram destacados por seus moradores como lugares especiais, referências da
sua cultura e da sua história.
Sapucaia:
A Praça Barão de Ayuruoca é chamada pelos moradores de “Praça da Árvore Grande”, por estar
nela localizada – como o próprio nome diz – uma grande árvore que se destaca na paisagem.
Essa árvore é referida, pela maioria da população como sendo uma Sapucaia, uma vez que
uma das versões sobre a origem do nome do município indica a abundante presença dessa
árvore por ali. No entanto, alguns moradores mais atentos dizem não se tratar de uma
Sapucaia, mas uma figueira muito antiga. Teria sido ali, ponto de descanso e paragem das
tropas que atravessavam a região do interior para a Corte ou no sentido contrário.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Essa praça é lugar de encontro. Situam-se ali três quiosques que funcionam como bares com
exibição de jogos de futebol de campeonatos televisionados. Em frente a praça fica o Colégio
mais tradicional do município, Maurício de Abreu, e é daí que afluem contingentes de jovens,
depois de suas aulas, para conversar e passear na praça.
Outra praça que agrega muitos moradores é a chamada “Praça do Fórum”, em frente a Igreja
Matriz de Santo Antônio. No coreto dessa praça, jogadores de truco encontram-se todos os
dias, durante a tarde, onde permanecem até o pôr do sol – a maioria deles é aposentada. Ali
também é realizada a grande festa da cidade, no mês de junho, a celebração de Santo Antônio.
Nesse período, o coreto de usado para apresentações musicais de seresta e banda.
Três Rios:
- Bairro Vila Isabel
Em relação com a história geral do povoamento da região, no município de Três Rios,
destaca-se o bairro de Vila Isabel como um lugar de memórias e construções simbólicas com
forte referência à escravidão empregada nos latifúndios de café e à matriz afrobrasileira da sua
população.
Segundo história registrada em texto fornecido por uma funcionária da Prefeitura:
“O bairro Vila Isabel já foi denominado Colônia de Nossa Senhora da Piedade, onde só havia casa de pau a
pique cobertas com sapê e muito distantes umas das outras, aos modos de pequenos sítios, onde moravam os
escravos da Viscondessa do Rio Novo, senhora Mariana Claudina. Essa Condessa, ficando viúva Visconde
do Rio Novo (José Antônio Barroso Carvalho) no ano de 1869, doou parte de sua enorme fazenda,
Cantagalo, para seus escravos, que assim constituíram essa colônia agrícola. [...] Dizem que nessas colônias os
escravos cuidavam de suas lavouras como se fossem pessoas libertas. [...] Depois de a libertação da escravatura
esses negros passaram então a ser oficialmente livres. E o povoamento que já era conhecido, simplesmente pelo
nome de Colonha, mudou de nome para Vila Isabel, em homenagem à princesa que assinou a Lei áurea.
Apesar dessa troca de nomes... passou muito tempo para que a nova denominação fosse adotada pelas pessoas,
muitas dela, até hoje, chamam o bairro de Colonha ou Colônia.”
No Bairro Vila Isabel:
O morro de São Carlos é um lugar específico com particularidades dentro do próprio
bairro de Vila Isabel. Segundo um informante, ali mora uma comunidade carente de autoestima “as pessoas tem seu dinheirinho pois fazem seus biscates ou são empregadas- mas sofrem
discriminação por estar numa periferia da periferia, digamos assim”. Porque o Vila Isabel já é
discriminado dentro de Três Rios como uma periferia, um bairro mais pobre e de negros, né... A pesar de
precisarem muito de nós na hora das eleições”;
Campo de futebol que era chamado Campo do Mãe Preta, fica no Morro do São Carlos. É
um lugar de encontro dos moradores. Pessoas colaboram mensalmente para manter o
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
lugar. Tem uma capelinha de Nossa Senhora da Aparecida, onde as pessoas da igreja
fazem catequese;
Praça Zumbi dos Palmares, na Morada do Sol, um sub-bairro de Vila Isabel, onde foi
instalado um monumento em homenagem à Zumbi e a todos os militantes negros por
uma sociedade mais justa. Essa instalação foi promovida por membros do Movimento
Negro de Três Rios, dentre eles alguns capoeiristas antigos;
Praça Arsoval Macedo, chamada de Praça da Rosa. Uma praça principal onde há o
monumento de uma rosa, em concreto, que serve de referência de localização e é
ambiente de eventos como a famosa festa popular do Caixotão da Jaqueira;
Praça da Mãe Preta. Uma pequena praça no bairro onde foi instalado um busto em
homenagem às mães de leite negras que amamentavam os filhos de seus senhores quando as
sinhás já não podiam fazê-lo, remetendo à história da escravidão muito presente no bairro
Vila Isabel.
Além Paraíba:
Em Além Paraíba os bairros São José e Boiadeiro se destacam como referência do lugar.
O São José é um dos bairros mais antigos, onde fica a sede da Banda Sete de Setembro e o
Fórum da cidade.
O Boiadeiro, também antigo, remete ao início do povoamento de Além Paraíba, quando
muitas tropas com bois passavam por ali. É um bairro periférico, depositários de grande
riqueza cultura popular, como sr. Zé Dondoca, mestre folião reiseiro, além de sambistas
partidários da Escola Unidos Três Corações. O Boiadeiro é lugar de origem dessa escola de
samba, tradicional.
O Morro da Colina também é um bairro de periferia muito comentado pelos moradores. É
sede e origem da Escola de Samba União da Colina, a mais antiga de Além Paraíba. Residem
ali muitos músicos sambistas, dançarinos e carnavalescos, além de mestres de folia de reis e
mineiro-pau.
Chiador:
- Chiador Estação
No município de Chiador, alguns lugares da paisagem foram referidos como importantes, bons
de ver ou lembrar. Um desses é Chiador Estação, núcleo urbano formado na segunda metado do
século XIX, em torno da estação ferroviária de Chiador.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
A estação de Chiador foi inaugurada em 1869 no ramal de Porto Novo da Estrada Ferroviária
Dom Pedro II. Está situada a 4,5 km da sede do município, muito isolada, o que complica a
sua conservação. É considerada a primeira estação inaugurada em Minas Gerais (apesar de a
estação de Santa Fé, também em Chiador, ter registrada a mesma data de inauguração), antes
mesmo das demais estações da Central do Brasil, implantadas em 1870. Foi construída com
recursos do império brasileiro em parceria com companhias inglesas. Quando ainda
funcionavam os trens de passageiros era o centro das festas, mesmo sendo mais afastada da
sede do município.
Atualmente, apesar de ainda ter uma linha operacional passando por ela - transporta
cargueiros de minério -, e embora tenha sido tombada em abril de 2003 pelo Patrimônio
Histórico do município de Chiador, está em ruínas.
Senhor Haroldo (aproximadamente 70 anos), ex-morador e comerciante de Chiador Estação,
localidade do Município Chiador, tem, na sua memória muitas recordações do lugar que para
ele “foi a coisa mais importante que teve aqui em Chiador... não dá pra entender... só a passagem do tempo
mesmo... como é que foi ficar assim..tão abandonado... esse lugar...parado no tempo né?”. Segundo seu
depoimento, Chiador Estação foi uma vila “com comércio e casas grandes muitos boas de morar. [...] O
auge mesmo foi por volta de 1950... por aí. Era comércio variado... rendia dinheiro pra gente... [...] pertinho
da estação né? Já imaginou? Era gente entrando e saindo do trem... de hora em hora -isso quando tinha ainda
o trem de passageiro né...”. Havia trens de passageiros que ligavam Três Rios e Além Paraíba,
movimentando a vida econômica e cultural da região, “... saindo e chegando gente... casa de comércio
não ficava parada não!”.
Esse comércio intenso existia em função da facilidade de escoamento das mercadorias da
produção rural: leite, café, lenha, abóbora, cana, feijão. Produção de grandes fazendas com
seus colonos numerosos, “isso no tempo em que tinha gente morando em Chiador. [...] Que hoje é só os
idosos... as crianças... e uma meia dúzia apegado aqui”.
Havia 5 horários para o trecho Três Rios-Além Paraíba, e 5 de Além Paraíba – Três Rios. Por
volta de 1957/1958, o trem de passageiros foi desativado.
Na memória de Sr. Haroldo, “foi acabando tudo! a estação...o comércio...as fazendas: a Tocaia, a
Fazenda Chiador,...as lavouras de café...de feijão...os colonos foram embora, ou foram morrendo...os moradores
foram desanimando...querendo morar num lugar mais perto do movimento...que tinha lá – antes!-”.
- Cruzeiro
O Cruzeiro, localizado no alto do morro que se avista do centro da sede do município, foi
outro lugar indicado pelos moradores. Símbolo da devoção cristã dos moradores de uma
localidade, erigir cruzeiros (feitos de madeira, de pedra, de concretos, por exemplo) nos altos
de morros ao redor, é tradição de uma enorme quantidade de povoamentos de comunidades
católicas.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
A esse respeito, Dona Vilma (aproximadamente 70 anos) comentou que: “eu entendo que é uma
tradição de quase todas as comunidades do interior. As modernas já não têm. Antes [quando Dona Vilma
era pequena] o cruzeiro era na praça. A prefeitura cuida da eletricidade, da iluminação do cruzeiro do alto
do monte. Esse foi o pai de dona Vilma que fez, em conjunto com demais devotos da comunidade [...] De
primeiro as pessoas visitavam o cruzeiro... Faziam orações no alto. Hoje ninguém vai lá... o pasto cresceu...
está sujo”.
- Praça da Igreja Matriz
A praça da igreja matriz apareceu na paisagem do território de Chiador desde o início da
formação do município. Conta-se que em 1842, o português Antônio Joaquim da Costa
abandonou a Vila de Barbacena e, com sua família buscou por terras virgens, que encontrou
nos arredores do rio Paraíba do Sul. Se instalou no local onde hoje existe a Fazenda da Serra
da Arriba, decidindo, pouco depois, pela construção de uma capela em honra à Santo
Antônio; erguida , por ele próprio e seus escravos.
Concluída a capela, que hoje, reformada, é a Igreja Matriz da Cidade, deu carta de liberdade
aos escravos que trabalharam na construção, ao mesmo tempo em que lhes permitiu
construírem ranchos e cultivar a terra ao redor da capela.
Iniciou, dessa forma, o povoado que veio a tomar o nome de Santo Antônio dos Crioulos,
posteriormente transformado em Santo Antônio do Chiador.
Além dessa referência direta à origem do povoamento do município, a praça da igreja matriz é
o lugar mais central, que recebe transeuntes e freqüentadores de todas as idades, sexos e
religiões: “ É importante porque foi ali que tudo começou né... quando o português chegou aqui...fez a igreja
[...] libertou os escravos que ajudaram ele [...]. Deixou eles construírem suas casas ali, em volta... [...] Então
essa praça foi o começo de tudo... mesmo reformada -que mudou muita coisa...uns gostaram, outros não
gostaram... Mesmo assim...é aqui o lugar mais importante. [...] Se a gente marca um encontro: é na praça. Se
vem gente de fora visitar: é na praça!” (Joca, aproximadamente 60 anos).
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Patrimônio Cultural Imaterial e Políticas de Preservação – indicações de
medidas de proteção aos bens culturais identificados
O povoamento da região onde estão os municípios de Além Paraíba, Chiador, Sapucaia e Três
Rios foi desencadeado por um macro-processo social e econômico comum: o contexto do ciclo do
café no Brasil Imperial, da exploração intensiva da mão de obra escrava, e do afluxo de
imigrantes estrangeiros.
Todo modo, em cada um dos povoamentos originaram os municípios atuais, os
desencadeamentos desse grande processo aconteceram diversamente, configurando a história
particular de cada lugar. A despeito das muitas características sócio-culturais compartilhadas,
são regiões socialmente diversas, que refletem as particularidades da sua dinâmica social nas
manifestações culturais identificadas. Um dos reflexos dessas diferenças é que, apesar de
serem municípios vizinhos, as manifestações culturais regionais estão presentes
heterogeneamente em cada local: algumas foram percebidas em todos; outras estão presentes
em uns e ausentes em outros.
Em Além Paraíba, as folias de reis, o artesanato, a exposição agropecuária e o carnaval são
manifestações muito vivas que mobilizam uma parte expressiva da população e, por isso, se
destacaram mais.
Em Chiador, as cavalgadas, as benzedeiras e parteiras foram indicadas pelos moradores como
manifestações muito próprias do município.
Em Sapucaia, a música popular - com destaque ao calango -, a festa do padroeiro Santo
Antônio e o mineiro-pau são grandes referências da cultura local.
Em Três Rios, também as folias de reis, o carnaval, os festejos juninos, a capoeira e o bairro
Vila Isabel - como lugar de memória da escravidão - são expressões significativas da cultura
popular local, que pudemos registrar em plena atividade.
Todas essas manifestações, quando pensadas nos termos das políticas públicas nacionais
possíveis de lhes serem dirigidas, são reconhecidas como patrimônio cultural. Essa categoria
nacional parte de noções como identidade e preservação.
A idéia de patrimônio cultural requer uma longa duração no tempo de determinado fato
cultural. Mesmo levando-se em consideração a complexidade das mudanças sociais sempre em
processo, a perspectiva patrimonial introduz o problema da preservação das manifestações como
condição necessária para a consolidação de referências sensíveis da(s) cultura(s) formadora(s)
de uma identidade nacional.
Nesse sentido, o patrimônio cultural imaterial orientado para as manifestações das culturas
populares visa consolidá-las como referência da riqueza cultural do Brasil - contraponto
crucial das manifestações homogeneizadoras da cultura de massa, criadas e/ou apropriadas pelo
mercado com o fim exclusivo de acúmulo de capital.
70
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Essa perspectiva confere uma particular vulnerabilidade às manifestações populares, em
relação às condições para sua preservação. Como preservar as manifestações imateriais de
uma cultura popular se elas estão em constante transformação pelos seus portadores? E se
esses portadores ou agentes produtores também estão em constante modificação, renovandose a cada geração? Renovando, consigo, os sentidos morais e estéticos de uma manifestação da
sua cultura? Como fazer com que, a despeito de todas as modificações a que estejam passíveis
– e isso é um aspecto saudável para toda cultura que é viva – as manifestações culturais
tradicionais preservem consigo aquilo que têm de mais fundamental e característico que são os
valores por trás de cada ritual e as performances imanentes a esses valores?
Essas são questões para as quais, se, na prática, há uma solução, essa se encontra por elaborar.
Há uma gama de reflexões, por parte de estudiosos da cultura popular, antropólogos,
sociólogos, agentes das políticas públicas e mesmos agentes da própria cultura popular em
questão. E a despeito da impossibilidade de solucionar concretamente todas as questões, vêm
sendo desenvolvidos alguns mecanismos teóricos e legais que funcionam como diretrizes e
instrumentos normativos e administrativos para viabilizar certa preservação do patrimônio
cultural imaterial.
Políticas nacionais e internacionais de salvaguarda do patrimônio Cultural Imaterial
Devido à diversidade das manifestações e as profundas particularidades dos contextos de cada
uma delas, tratar do tema da preservação de manifestações culturais populares é bastante complicado.
É necessário levar em consideração uma quantidade de condições em função das quais se
desenvolve uma manifestação cultural: sua origem em termos de classe social, seus processos
históricos e sua configuração étnica, a posição das administrações públicas em relação a eles,
por exemplo.
Nesse sentido, no Brasil são elaboradas e postas em operação ações que visam a identificar,
proteger, promover e fomentar os processos e bens "portadores de referência à identidade, à ação e à
memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira" (Artigo 216 da Constituição
Nacional).
Tenta-se agir considerando a complexidade, diversidade e dinâmica próprias das “formas de
expressão”; dos “modos de criar, fazer e viver”; das “criações científicas”, “artísticas e tecnológicas", com
especial atenção àquelas referentes à cultura popular.
A Constituição Federal de 1988 confirmou o novo conceito de patrimônio cultural do
IPHAN, em seus artigos 215 e 216, ao estabelecer a necessidade de se elaborar “outras formas de
acautelamento e de preservação”, além do tombamento, acrescentando na relação do patrimônio
cultural brasileiro, as formas de expressão e os modos de criar, fazer e viver.
Contudo, até o ano 2000, o tombamento era o único instrumento jurídico devidamente
regulamentado que o poder público em geral efetivamente dispunha para a preservação de seu
patrimônio cultural. Embora válido, eficiente e atual, quando aplicado a edificações, obras de
71
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
arte e outros bens dessa natureza, o tombamento é inaplicável, ou melhor, inadequado à
preservação dos bens e manifestações de caráter processual e dinâmico, chamados de
imateriais. A esses bens não se aplicam ações e procedimentos de proteção tal como os
adotados para os bens chamados materiais. Quanto aos bens imateriais, cabe antes identificar,
documentar e produzir conhecimento sobre eles, de modo a subsidiar políticas de
reconhecimento e apoio adequados às suas características.
Assim, o IPHAN, com o apoio do Ministério da Cultura, de instituições a eles vinculados e
em parceria com entidades da sociedade civil, investiram em estudos, discussões e outras
ações dirigidas à formulação e estabelecimento de novos instrumentos, como o Registro e os
Inventários, mais adequados ao levantamento, identificação e proteção de bens culturais, em
especial àqueles considerados imateriais.
Esses investimentos resultaram na formalização do Decreto Federal No. 3.551, de 04 de agosto
de 2000, que instituiu o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial que constituirão
Patrimônio Cultural Brasileiro e criou o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial,
visando à implantação de política específica de inventários, como referência e valorização desse
patrimônio.
O Programa Nacional do Patrimônio Imaterial – PNPI- prevê como medidas:
• Democratizar o acesso e promover o uso sustentável desse patrimônio para as
gerações futuras e para a melhoria das condições de vida de seus produtores e
detentores;
• Desenvolver as bases legais, administrativas, técnicas, tecnológicas e políticas da
preservação dessa dimensão do patrimônio cultural;
• Promover, de modo participativo o mapeamento, a identificação e a documentação de
referências culturais no território nacional;
• Contribuir para a garantia das condições sócio-ambientais necessárias à produção,
reprodução e transmissão de bens culturais de natureza imaterial;
• Desenvolver as bases institucionais, conceituais e técnicas do reconhecimento e
valorização da dimensão imaterial do patrimônio cultural e promover a defesa de
direitos associados aos bens culturais de natureza imaterial, em especial os direitos de
imagem e de propriedade intelectual de populações tradicionais e detentores desse
patrimônio.
Por compreender as tendências hegemônicas da dinâmica social como fragilizantes das
manifestações culturais pensadas sob a ótica do patrimônio – visão que determina a
necessidade da continuidade da manifestação, ao longo do tempo, ainda que recriada, mas sem
perder seus atributos fundamentais -, a comunidade internacional, liderada pela Unesco,
adotou, em 2003, a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Intangível.
Em 1989, a Organização estabeleceu a Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura
Tradicional e Popular e vem, desde então, estimulando a sua aplicação ao redor do mundo.
Após uma série de esforços, que incluíram estudos técnicos e discussões internacionais com
especialistas, juristas e membros dos governos, a UNESCO adotou essa Convenção para a
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial visando regular o tema do patrimônio cultural
imaterial, e complementar a Convenção do Patrimônio Mundial, de 1972, que cuida somente
dos bens tangíveis.
Na Convenção definem as seguintes finalidades:
• A salvaguarda do patrimônio cultural imaterial;
• O respeito ao patrimônio cultural imaterial das comunidades, grupos e indivíduos
envolvidos;
• A conscientização no plano local, nacional e internacional da importância do
patrimônio cultural imaterial e de seu reconhecimento recíproco;
• A cooperação e a assistência internacionais.
Por “salvaguarda” se compreende as medidas que visam garantir a viabilidade do patrimônio
cultural imaterial, tais como a identificação, a documentação, a investigação, a
preservação, a proteção, a promoção, a valorização, a transmissão – essencialmente por
meio da educação formal e não-formal - e revitalização deste patrimônio em seus diversos
aspectos.
A Convenção também institui, junto à UNESCO, um Comitê Intergovernamental para a
Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. Esse Comitê será integrado por representantes
de Estados Partes, ou seja, dos Estados Nações signatários da Convenção.
Fica definido que para assegurar a salvaguarda, o desenvolvimento e a valorização do
patrimônio cultural imaterial presente em seu território, cada Estado Parte deve empreender
esforços para:
• Adotar uma política geral visando promover a função do patrimônio cultural imaterial
na sociedade e integrar sua salvaguarda em programas de planejamento;
• Designar ou criar um ou vários organismos competentes para a salvaguarda do
patrimônio cultural imaterial presente em seu território;
• Fomentar estudos científicos, técnicos e artísticos, bem como metodologias de
pesquisa, para a salvaguarda eficaz do patrimônio cultural imaterial, e em particular do
patrimônio cultural imaterial que se encontre em perigo;
• Adotar as medidas de ordem jurídica, técnica, administrativa e financeira, adequadas
para favorecer a criação ou o fortalecimento de instituições de formação em gestão do
patrimônio cultural imaterial, bem como a transmissão desse patrimônio nos foros e
lugares destinados à sua manifestação e expressão;
• Garantir o acesso ao patrimônio cultural imaterial, respeitando ao mesmo tempo os
costumes que regem esse acesso a determinados aspectos do referido patrimônio;
• Criar instituições de documentação sobre o patrimônio cultural imaterial e facilitar o
acesso a elas.
73
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Além disso, a Convenção determina que, nos termos da educação, conscientização e
fortalecimento de capacidades cada Estado Parte deverá se empenhar, por todos os meios
oportunos, no sentido de:
• Assegurar o reconhecimento, o respeito e a valorização do patrimônio cultural
imaterial na sociedade, em particular mediante: programas educativos, de
conscientização e de disseminação de informações voltadas para o público, em
especial para os jovens; programas educativos e de capacitação específicos no interior
das comunidades e dos grupos envolvidos; atividades de fortalecimento de
capacidades em matéria de salvaguarda do patrimônio cultural imaterial, e
especialmente de gestão e de pesquisa científica; e meios não-formais de transmissão
de conhecimento;
• Manter o público informado das ameaças que pesam sobre esse patrimônio e das
atividades realizadas em cumprimento da Convenção;
• Promover a educação para a proteção dos espaços naturais e lugares de memória,
cuja existência é indispensável para que o patrimônio cultural imaterial possa
se expressar.
Todas essas determinações partem do pressuposto de que para muitas pessoas, especialmente
das minorias étnicas e dos povos indígenas, o patrimônio imaterial é uma fonte de
identidade e carrega a sua própria história. O conhecimento, os valores e formas de
pensar refletidos nas línguas, tradições orais e diversas manifestações culturais constituem o
fundamento da vida comunitária. Num mundo de crescentes interações globais, a revitalização
de culturas tradicionais e populares assegura a sobrevivência da diversidade de culturas dentro
de cada comunidade, contribuindo para o alcance do respeito a um mundo plural.
Além das gravações, registros e arquivos, a UNESCO considera que uma das formas mais
eficazes de preservar o patrimônio intangível é garantir que os portadores desse
patrimônio possam continuar o produzindo e transmitindo. Assim, a Organização
estimula os países a criarem um sistema permanente de identificação de pessoas (artistas,
artesãos etc.) que encarnam, no grau máximo, as habilidades e técnicas necessárias para a
manifestação de certos aspectos da vida cultural de um povo e a manutenção de seu
patrimônio cultural material.
É compreendido que, os processos de globalização e de transformação social, ao mesmo
tempo em que criam condições propícias para um diálogo renovado entre as comunidades,
seus jovens e seus antigos membros, geram também riscos de desaparecimento e deterioração
das referências ancestrais de pensar e agir no mundo, que são pensadas como
patrimônio cultural intangível de toda coletividade.
Nesse sentido, um importante meio de garantir a vitalidade do patrimônio cultural imaterial
enquanto referência para orientar as transformações (recriações ou mudanças) imanentes à
toda tradição são sua investigação, identificação, documentação, valorização, promoção e
transmissão.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Das Manifestações Identificadas
Em relação às manifestações identificadas como bens da cultura imaterial dos municípios
pesquisados - carnaval, celebrações dos santos padroeiros, folia de reis, mineiro-pau, calango,
música popular, bandas de música, parteiras, benzedeiros, cavalgada, encenação da paixão de
cristo, festas juninas, e lugares –, todas elas são práticas culturais tradicionais, que têm como
forte referência um modo de fazer ou de acontecer originais (ou mais apropriados), situados no
passado. Nos discursos dos moradores, mestres, sacerdotes, foliões e devotos,
recorrentemente houve menção a um jeito antigo ou original - aquele jeito como era feito “de
primeiro” -, indicado como principal parâmetro para uma comparação e diagnosticação do
estado em que se encontra a manifestação, no presente.
Ao passado, foi recorrente as pessoas consultadas se referirem como “antigamente”: esse
período definido por uma vivência do tempo subjetiva, que dimensiona uma (in)certa distância
entre hoje e ontem. Nesse “antigamente”, “tudo era mais bem feito”, ou “tudo era feito do jeito mais certo”.
Isso, na percepção dos próprios portadores da cultura em questão.
Por serem culturas vivas, ao longo do tempo as manifestações passam por diversas
modificações: acréscimo de novos elementos, supressões de outros antigos. Adaptações que
são feitas para ajustar uma prática tradicional aos desejos e possibilidades contemporâneos –
no que concerne ao investimento de tempo e de outros recursos necessários para a sua
realização.
Apesar de essas transformações serem inevitáveis - justamente por serem orgânicas e
imanentes à vitalidade das culturas -, nos termos de uma origem que se quer preservar5, a
condição em que se desenrola uma mudança é um aspecto fundamental que informa sobre a
possibilidade ou impossibilidade de preservação dos elementos fundamentais particulares de
uma manifestação. É nesse sentido que a identificação e o registro podem auxiliar: oferecendo
descrições dessas práticas e das memórias sobre elas, desvelando os valores fundantes de uma
tradição.
Se esses valores e práticas fundamentais forem constantemente atualizados – pela memória ou
pela ação -, podem se resguardar de uma transformação radical; ou ao menos, podem se
transformar ao longo de um tempo mais processual que possibilite aos seus portadores uma
agência mais consciente e criativa, mais autoral nesse processo de mudança.
Nos termos da necessidade de conservação de referências primordiais, uma transformação
radical é entendida como uma perda. Com a mudança drástica dos aspectos morais e formais
fundantes de qualquer manifestação, perde-se sua referência de origem.
5
A importância dessa valorização para os sujeitos portadores das manifestações fica patente na recorrente menção ao modo de como se fazia antigamente. 75
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
No caso das manifestações localizadas em Além Paraíba, Chiador, Sapucaia e Três Rios o que
percebemos como mais importante, além do seu registro e de sua divulgação/promoção, é o
cuidado em possibilitar um meio ambiente favorável a sua realização. Para as culturas populares,
uma questão fundamental é a transmissão do conhecimento, e preservação de seus
fundamentos morais e formais, apesar de tantas mudanças dos contextos dos grupos sujeitos
dessas manifestações. Para a salvaguarda das manifestações dos grupos de cultura popular,
portanto, não bastam ações de divulgação e registro textual ou mesmo audiovisual de suas
práticas. É preciso favorecer para que se mantenham as condições fundamentais necessárias
para o seu acontecimento. Tais condições variam de casa a caso, de acordo com as demandas
específicas de cada grupo.
É preciso colocar em questão: “o que está em jogo quando da realização de determinada
manifestação cultural?”. “Por que é importante bater mineiro pau? O que isso significa no
contexto mais amplo do cotidiano dessa população onde acontece tal manifestação?”.
Modo geral, é possível compreender que, subliminar a todas essas práticas de expressão,
celebração, saber e fazer de grupos específicos tradicionais o que está em jogo são desejos
frutos de uma outra “noção de mundo” ou de “como viver no mundo”.
As festas, as expressões artísticas, os modos de saber tradicionais, e os usos particulares e
idiossincráticos dos espaços oferecidos nos municípios persistem como um contraponto à
ordem macro-organizacional da vida dos coletivos humanos na sociedade ocidental: uma ordem
do mercado; da produção, e circulação de pessoas, símbolos e objetos em função do acúmulo de
capital por poucos proprietários.
As manifestações da cultura popular registradas aqui se dão em função de um imaginário
anterior, ou mesmo, incompatível com uma racionalidade calculista individual. Sua lógica é
coletivas e participativas. Para sua preservação é preciso atores, muito mais que expectadores.
Sua lógica é do dispêndio; do consumo de tempo, de cores, de sons, de corpos se um fim
objetivo. O que lhes qualifica extraordinariamente são seus processos e não os produtos.
Nesse sentido, salvaguarda tais práticas implica em defender e propor contextos favoráveis à
sua emergência contínua.
No caso das benzeções, por exemplo, é necessária uma ecologia adequada: uma franca
acessibilidade às plantas que são fundamentais para a cura – o ato de benzer.
No caso do mineiro-pau, do calango, dos blocos de carnaval com bois e mulinhas, é
necessário que o tempo de folga dos seus praticantes permaneça sensível e disponível para
uma vivência coletiva, para uma brincadeira sem um fim concreto ou imediato. Condições
muito diversas daquelas necessárias nas situações de jogos de videogame, de jogos em rede
virtual; de festas reguladas por espetáculos de artistas de fama nacional, ou quaisquer outras
ocasiões de lazer e relacionamentos contemporâneas, nas quais o estar junto satisfaz-se
primordialmente por meio do consumo e no plano do virtual.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
No caso das Folias de Reis, é preciso que jovens se interessem pelo grupo, compartilhem de
uma mesma fé e possam dedicar uma parte do seu tempo, durante a estação dos reis, para seguir
com os grupos nas jornadas.
É preciso um tempo – processo – e um ambiente – paisagem, território culturais – favorável.
Além disso, é preciso que tais práticas sejam reapresentadas à sociedade como manifestações
de valor cultural e social – justamente o quê, as políticas para conferir-lhes o status de
patrimônio, visam proporcionar.
Uma vez que tais práticas são visibilizadas como coisas de valor, os jovens passam a enxergálas com outros olhos. Essas coisas que nasceram fazendo e dais quais, não raro, têm vergonha e
desapreço.
A seguir serão apresentadas, a partir do modelo de ficha de Inventário de Patrimônio Cultural
Imaterial adotado, algumas das manifestações da cultura imaterial registradas nos municípios
afetados pelo empreendimento AHE Simplício – Queda Única.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Inventário de Patrimônio Cultural Imaterial
Sapucaia/RJ
Ficha 001Sa
Município: Sapucaia
Designação: Festa de Santo Antônio
Data: Junho/2009
Distrito: Distrito Sede e Anta
Categoria: Celebrações
Localidades envolvidas: Distritos Sede e Anta.
Periodicidade:
Anual (trezena de 1 a 13 de junho e festa de 10 a 14 de junho).
Ambiência/Paisagem: Matriz de Santo Antônio e Praça Barão de Ayuruoca (Praça do Fórum).
Responsável (is): Conselho Comunitário de Pastoral de Sapucaia.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Histórico e Caracterização:
Fernando de Bulhões é o nome original de Santo Antônio, nascido entre 1191 e 1195 em Lisboa,
Portugal. Viveu inicialmente em Portugal onde foi frade agostiniano (Coimbra1210).
O martírio de cinco franciscanos decapitados em Marrocos e a ida dos seus restos mortais para Coimbra,
motivaram o ingresso de Fernando na ordem dos franciscanos, tornando-se Martim Antônio
Franciscano, frade franciscano conventual (1220). No ano de 1221 passou a fazer parte do Capítulo
Geral da Ordem de Assis, a convite do próprio Francisco, seu fundador. Foi professor de Teologia e
grande pregador, convidado por São Francisco para pregar contra os Albigenses na França.
Posteriormente foi transferido para Bolonha e, em seguida, para Pádua. Doente, faleceu, com cerca de 36
anos, em 13 de Junho de 1231 no Oratório de Arcela, em Pádua.
Foi canonizado pelo Papa Gregório IX, na catedral de Espoleto, na Itália, em 30 de Maio de 1232 (entre
os italianos é conhecido como Santo Antônio de Pádua). Os seus restos mortais repousam na Basílica de
Pádua, construída em sua memória.Posteriormente à sua canonização ergueu-se em Lisboa uma Igreja
sob a sua invocação: Santo Antônio de Lisboa.
Muitas das suas estátuas e imagens representam-no envergando o traje dos frades menores, segurando o
Menino Jesus sobre um livro, enquanto outras o mostram a pregar aos peixes (objeto de um sermão do
Padre António Vieira, séculos mais tarde), tal como São Francisco pregava aos pássaros.
Santo Antônio de Lisboa é, para muitos católicos, um grande taumaturgo, sendo-lhe atribuído um
notável número de milagres, desde os primeiros tempos após sua morte até os dias atuais. É considerado
padroeiro dos pobres, sendo ainda invocado para ajudar a encontrar objetos perdidos, numa oração
conhecida como Os Responsos (semelhança com a devoção à São Longuinho, outro santo católico
conhecido por auxiliar os aflitos a encontrar seus objetos perdidos).
Santo Antônio tem especial devoção e fé de portugueses e brasileiros, sendo padroeiro dos militares das
duas nações. Assentou praça nas milícias luso-brasileiras em 1685, por ocasião das lutas contra o
Quilombo dos Palmares, por iniciativa do Governador da Capitania de Pernambuco, João de Souto
Maior, invocando o seu milagroso auxílio.
Além disso, no Brasil, onde tem milhões de devotos, é também reverenciado como santo casamenteiro, por
ser, segundo a memória popular, um excelente conciliador de casais. Conta essa memória que muitas moças
afoitas por encontrar um marido costumavam retirar o bebê dos braços das estátuas do santo,
prometendo apenas devolvê-lo depois de alcançarem o pedido. Por esse motivo, alguns párocos
mandavam fazer a estátua do santo com o Menino Jesus fixo ao seu corpo, evitando a possibilidade do
sequestro da imagem do menino. Outras jovens, ainda hoje, colocam a imagem do santo de cabeça para
baixo, na condição de só mudarem essa posição quando Santo Antônio lhes arranjar um marido.Tais
rituais são geralmente realizados na madrugada do dia 13 de Junho.
Em uma cerimônia no mês de junho (mês da morte de Santo Antônio), conhecida como trezena (por ter a
duração de treze dias, do 1º ao 13 de junho) os fiéis fazem orações, entoam cânticos, soltam fogos, e
celebram comes e bebes junto a uma fogueira quadrada. São as populares festas de Santo Antônio.
No município de Sapucaia essa festa acontece desde a sua fundação. As primeiras ocupações verificadas
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
nas terras do atual município de Sapucaia datam do início do século XIX. A ocupação se efetuou quando
Antônio Inácio Lemgruber e Vicente Ubherlato foram à região tomar posse das sesmarias que lhes foram
concedidas.O povoamento da região iniciou onde hoje está seu distrito Nossa Senhora Aparecida, que
tem a santa como padroeira. Por iniciativa de Antônio Inácio Lemgruber, construiu-se uma capela em
homenagem a Nossa Senhora da Aparecida que, em 26 de abril de 1842, recebeu o título de freguesia.
Durante o processo de formação das moradias em Nossa Senhora Aparecida, a difusão da notícia sobre a
fertilidade dos solos, própria para cultivo do café, provocou fluxo contínuo de colonos para a região,
favorecendo o surgimento de arraiais. Um núcleo de maior consistência foi se formando no lugar onde
hoje está o distrito-sede do município de Sapucaia, instituído em 1856 com a denominação de Santo
Antônio de Sapucaia. A rapidez com que o povoado prosperou o levou a receber, em 1871, o predicativo
de freguesia de Santo Antônio de Sapucaia e, em 7 de Dezembro 1874, a categoria de Vila de Sapucaia.
O município foi instalado em 28 de fevereiro de 1875, composto de cinco distritos: Anta, Nossa Senhora
Aparecida, Pião e Jampará. O desenvolvimento da sede municipal remonta ao período de implantação da
Estrada de Ferro Dom Pedro II, quando uma estação intermediária do ramal de Porto Novo do Cunha
impulsionou o crescimento da vila. O segundo momento de crescimento deu-se com a implantação da
BR-393.
Santo Antônio é padroeiro de Sapucaia-sede e sua celebração é realizada tradicionalmente, em todo mês
de junho, por meio de uma trezena festiva, participada por toda a paróquia que envolve os moradores da
sede e dos demais distritos.
No distrito de Anta, a localidade de Santo Antônio da Vista Alegre, traz no seu nome a invocação do
santo que é também padroeiro do lugar. Também ali ocorre, tradicionalmente, um celebração em honras
a Santo Antônio. O festejo ocorre uma semana antes da celebração na sede. Segundo nos informaram
alguns moradores, trata-se de um cuidado para não concorrer com a outra festa que é bem maior e ainda
assim prestarem uma homenagem especial, feita pela própria comunidade, ao santo padroeiro dos dois
distritos. Todo modo, os moradores da localidade frequentam participativamente a festa da sede cujos
moradores também visitam Santo Antônio da Vista Alegre durante os dias de celebração.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Informações Descritivas/Elementos da Celebração:
Na Sede do Distrito:
Programação da festa em junho de 2009:
1 a 13/06 (todos os dias) - 19:00h Trezena de Santo Antônio na igreja.
10/06 (quarta-feira) - 19:00h Trezena; 20:30h Caminhada musical pelas ruas da cidade; 22:30h Baile
Popular.
11/06 (quinta-feira) – 07:00h Oração na Capela da Igreja do Santíssimo; 15:00h Tarde Recreativa com as
crianças, animada pelo Novamérica (Organização Não Governamental da sociedade civil sem fins
lucrativos que iniciou suas atividades em 1991. Sua sede central está situada na cidade do Rio de Janeiro e
possui também um centro de atividades, o Centro Novamérica de Educação Popular, na cidade de
Sapucaia, no interior do Estado de Rio de Janeiro. Atua e colabora com centros, organizações da
sociedade civil e órgãos do setor público de outros Estados do Brasil. Realiza projetos conjuntos,
trabalhos e assessorias com centros e organizações de outros países da América Latina. Foi introduzida
em Sapucaia por mediação do Padre Medoro, antigo pároco e liderança política do município, atuante no
Movimento das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica); 19:00h Trezena, Missa e Procissão de
Corpus Christi; 21:00h Taqui; 23:00 Baile Popular.
12/06 (sexta-feira) – 19:00h Trezena, Vigília de Santo Antônio com bênção para os namorados; 23:00h
Baile Popular.
13/06 (sábado) – 06:00h Alvorada com a Banda Santa Cecília e Repique de Sinos; 09:00h Missa de
Unção com Bênção da Saúde;11:00h Cavalgada e Bênção dos Cavaleiros e dos animais; 14:30h Tômbola
do Clube de Mães; 19:00h Trezena; 19:30h Missa em Louvor a Santo Antônio com Bênção de Pães;
21:00h Leilão do Apostolado, Pastorais, Famílias Sapucaienses e Visitantes; 24:00h Baile Popular.
14/06 (domingo) – 06:00h Alvorada com Banda Santa Cecília e Repique de Sinos; 09:00h Missa solene
com bênção para os visitantes; 12:00h Leilão de Gado; 16:00h Sorteio de Prêmios;19:30h Missa Festiva
com Procissão, Bênção de Pães, apresentação teatral com alunos do Colégio Estadual Maurício de
Abreu; 22:30h Baile Popular; 24:00h Queima de Fogos.
De acordo com esse programa da última festa de Santo Antônio na sede do distrito de Sapucaia é
possível conhecer como organizam a festa atualmente. De ano para ano podem ocorrer algumas
variações, mas fundamentalmente, trezena de Santo Antônio, alvorada, cavalgada, repique de sinos,
leilão, queima de fogos, quermesse, bênção de pães, leilões, bingos, tômbola do Clube de Mães
e procissão são elementos presentes:
Trezena de Santo Antônio - é um encontro para orações, realizado do dia 1º ao 13 de junho, quando os
fiéis católicos celebram o santo. Tem a mesma estrutura de uma novena, essa, rezada em nove dias. Essa
Trezena de Santo Antônio já acontecia em Portugal, e foi introduzida pelos portugueses nas suas
colônias. Assim aconteceu no Brasil, onde foi incorporada como tradição nos ritos católicos de
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homenagem ao santo Antônio de Lisboa.
Salvo as diversas variações possíveis, coerentes com a dinâmica de qualquer tradição que é sempre
atualizada e reelaborada pelos seus praticantes, pode-se tomar o seguinte conjunto de orações,
apresentadas por senhora Helena, catequista da igreja de Santo Antônio em Sapucaia, como próprios da
Trezena de Santo Antônio:
Orações iniciais
(Todos os dias) - Ao Espírito Santo - Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do
Vosso Amor. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da terra.
Oremos: Ó Deus, que iluminais os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente
todas as coisas segundo o mesmo espírito e gozemos sempre de Vossa Consolação. Por Cristo Nosso Senhor, Amém.
A Santo Antônio : Meu grande protetor Santo Antônio: apresento-me a vós, pedindo-vos me alcancei de Deus o perdão dos
pecados, o espírito de conversão, o crescimento no amor de Deus, e a perseverança no bem até o fim de minha vida. O que
especialmente vos peço durante esta trezena, é a seguinte graça (diz-se o que se pede na novena). Se esta graça não for
conveniente para minha salvação, alcançai-me a perfeita conformidade com a vontade de Deus. Santo Antônio, nestes dias
que consagro em vossa honra, como em todos os dias de minha vida, fazei que eu conserve a graça e a amizade de Deus, que
dele nunca me afaste pelo pecado, e que enfim tenha a felicidade de amá-lo e gozá-lo para sempre em vossa companhia, na
felicidade eterna do céu. Amém
(Primeiro dia)- Santo Antônio, amigo do menino Deus; tiveste a felicidade de ser educado por pais piedosos e exemplares
que vos encaminharam no caminho do bem e da virtude. Dai-me a graça de seguir sempre os ensinamentos de Jesus e de sua
Igreja e assim poder crescer no amor e na obediência a Deus e ser merecedor de sua infinita bondade e misericórdia. Amém.
Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio.
(Segundo dia) - Meu grande Santo Antônio: chegando à mocidade, sentistes os atrativos do mundo, mas, preferistes o
grande amor de Jesus Cristo, que em vós superava a tudo, e assim vos consagrastes a Deus na vida religiosa. Libertai-me de
tudo o que possa me afastar de Deus, de tudo o que me prende aos bens da terra e a mim mesmo. Que eu me sirva dos bens
deste mundo como verdadeiro cristão, e possa gozar da liberdade dos filhos de Deus. Amém. Pai Nosso, Ave Maria,
Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio.
(Terceiro dia) - Santo Antônio, amigo de Deus e dos homens: o amor a Cristo e à Igreja vos impeliram para terras da
África, onde queríeis apregoar o evangelho entre os infiéis, para receber a palma do martírio. Dai-me a coragem de
testemunhar os ensinamentos de Cristo, por minha palavra e pela vida, para que eu seja digno de compartilhar de vossa
companhia no céu. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio.
(Quarto dia)- Meu Santo Antônio: apesar de vossos grandes conhecimentos e de vosso profundo saber, a ninguém revelastes
a grandeza de vosso espírito, preferindo viver na humildade e na vida oculta, a exemplo de Jesus em Nazaré. Extingui em
mim todo o desejo de sobressair e de fazer-me valer à custa dos outros. Ensinai-me a servir ao próximo em silêncio, por
amor, nada esperando em troca. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio.
Quinto dia - Santo Antônio: chegando a vossa hora, seguistes o preceito de Cristo, e fostes anunciar o Evangelho a toda a
criatura atendendo o pedido de Jesus. A muitos convertestes com a vossa pregação inspirada e sob a luz do Espírito Santo.
Fazei que de Vós eu aprenda a colaborar com a Igreja, dedicando-me ao apostolado, confiando sempre na Santíssima
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Trindade. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio.
(Sexto dia) - Santo Antônio: Vossa memória era tão prodigiosa, que sabíeis quase toda a Sagrada Escritura de cor. Isto
prova um grande amor pela palavra de Deus. Costumáveis ler, estudar e meditar todos os dias as Sagradas Escrituras.
Ensinai-me, ó Santo, o amor à Palavra de Deus. De vós quero aprender a estimar o tesouro contido na Bíblia Sagrada.
Quero conhecer as riquezas do amor de Deus que ali se revelam. Ensinai-me a viver com toda confiança de acordo com esta
mensagem de Deus. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio.
(Sétimo dia) - Santo Antônio: Vossa caridade foi um exemplo para todos que vos conheceram. Em vossa vida sabíeis
consolar os tristes, os que se apresentavam abatidos sob o fardo de duros problemas e provações. Dai-me um coração
compassivo semelhante ao vosso. Que eu esteja disposto a ajudar os necessitados, consolar os tristes, e sempre tenha uma boa
palavra para com os desanimados e os que sofrem. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo
Antônio.
(Oitavo dia) - Santo Antônio, homem de santa oração. Uma das vossas preocupações, era de que o estudo e o trabalho não
lhe atrapalhassem nem apagassem o espírito da Santa Oração. Além disso, eleváveis vossa alma a Nosso Senhor
dominando e disciplinando as paixões da carne e do espírito, através de rudes penitencias. Ensinai-me a fidelidade na vida
de oração e devoção como vós o sabíeis fazer. Ensinai-me o espírito de renúncia e mortificação, para que, superando o
egoísmo e outras paixões, viva na graça e na paz dos filhos de Deus. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai,
Ladainha de Santo Antônio.
(Nono dia) - Santo Antônio: passastes a vida fazendo o bem a todos, a exemplo de Jesus Cristo. Denunciastes os vícios da
sociedade. Reconciliastes famílias que viviam no ódio. Por vossa palavra inspirada, e ao mesmo tempo firme e suave,
reconduzistes a muitos para o caminho do bem. Ensinai-me, vos peço, a praticar o bem e a promover a paz e a unidade
entre os homens, para que mereça ser contado entre os pacíficos, porque eles verão a Deus. Amém. Pai Nosso, Ave Maria,
Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio.
(Décimo dia) - Ó amável e querido protetor meu, Santo Antônio, congratulo-me convosco e dou graças ao Altíssimo de vos
ter favorecido e enriquecido de privilégios e graças, e de ter recompensado já nesta terra os vossos merecimentos, as vossas
heróicas virtudes e os sacrifícios feitos por Deus. Ajudai-me na minha miséria e alcançai-me forças para sofrer com paciência
a fadiga e os trabalhos desta vida e depois gozar eterno repouso. Alcançai-me vossa generosidade e fortaleza para
corresponder com desinteresse e amor às inspirações de Deus. Sim, faleis por mim. Jesus nada vos negará. Não me negueis
este ato de benigna bondade e sede-me propicio. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo
Antônio.
(Décimo primeiro dia) - Ó glorioso Santo Antônio: Visto que Deus vos concedeu o poder especial de fazer encontrar os
objetos perdidos, venho a vós com confiança e vos rogo que me ajudeis na procura das coisas que houver perdido. Fazei-me
encontrar primeiro que tudo a graça santificante, se tiver a desgraça de a perder; restaurai-me o antigo fervor no serviço de
Deus e na prática das virtudes cristãs; alcançai-me, enfim, o que sobretudo me falta; uma fé ativa, uma perfeita docilidade
às inspirações da graça, o desgosto dos vãos prazeres do mundo e um desejo ardente das inefáveis alegrias da eterna bem
aventurança. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio.
(Décimo segundo dia) - Ó glorioso Santo Antônio, cuja língua bendita ensinou os homens a louvarem a Deus, tende
piedade de mim. Lembrai-vos, meu Santo protetor, que não foi só em vosso favor que Deus vos investiu de tanta glória e
poder, foi também em meu benefício e para me animar a recorrer a vós em todas as necessidades da alma; defendei-me nas
tentações, ajudai-me nos combates, e quando soar a hora da minha morte, permanecei junto de mim para me introduzir na
eterna bem-aventurança, onde me será dado contemplar-vos e agradecer-vos no seio de Deus, junto à Santíssima Virgem, em
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
companhia dos anjos e dos santos. Concedei-me enfim a graça que vos peço nesta trezena, mas, concedei-me, sobretudo uma
completa conformidade com a Santíssima vontade de Deus. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de
Santo Antônio.
(Décimo terceiro dia) - Ó glorioso Santo Antônio, amado de Deus e dos homens, eu vos escolho, hoje, para meu protetor e
guia. Ajudai-me a aceitar os trabalhos desta vida para merecer a recompensa, a suportar as fadigas para merecer descanso,
imolar a minha existência para chegar à verdadeira vida. Tenho certeza de que se pedires a Deus esta graça para mim, Ele
não a negará. Meu querido Santo Antônio, não me recuse mais esta prova do vosso poder de intercessão. Peço-vos ainda que
não deixeis que acabe esta trezena sem que mereça alcançar a graça particular que do vosso valimento espero. Porém, de
antemão me resigno à santíssima vontade de Deus. Amém Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo
Antônio.
Lembrai-vos:Lembrai-vos, o glorioso Santo Antônio, amigo do Menino Jesus, e filho querido de Maria Imaculada, que
nunca se ouviu dizer que fosse por vós abandonado, aquele que a vós recorresse implorando vossa proteção. Animado de
igual confiança, venho a vós, ó fiel consolador dos aflitos. Prostro-me a vossos pés e pecador como sou, ouso aparecer diante
de vós. Não rejeiteis, pois, minha súplica, vós que sois tão poderoso junto do Coração de Jesus, mas escutai-a favoravelmente
e dignai-vos atendê-la. Amém.
Ladainha de Santo Antônio:Senhor, tende piedade de nós. Jesus Cristo, tende piedade de nós. Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos Jesus Cristo, atendei-nos. Deus pai do céu, tende piedade de nós. Deus Filho, Redentor do Mundo.
Deus Espírito Santo. Santíssima Trindade, que sois um só Deus. Santo Antônio de Pádua, rogai por nós. Intimo amigo
do Menino Deus, Servo da Mãe Imaculada, Fidelíssimo Filho de São Francisco, Homem da Santa Oração, Amigo da
pobreza, Lírio da castidade, Modelo da obediência, Amigo da vida oculta, Desprezador das glórias humanas, Rosa da
caridade, Espelho de todas as virtudes, Sacerdote segundo o coração do Altíssimo, Imitador dos apóstolos, Mártir pelo
desejo, Coluna da Igreja, Amador das almas, Propugnador da Fé, Doutor da verdade, Batalhador contra a falsidade,
Arca do testamento, Trombeta do Evangelho, Convertedor dos pecadores, Extirpador dos crimes, Restaurador da paz,
Reformador dos costumes, Triunfador dos corações, Auxiliador dos aflitos, Ressuscitador dos mortos, Restituidor das coisas
perdidas, Glorioso taumaturgo, Santo do mundo inteiro, Glória da Ordem dos Menores, Alegria da corte celeste, Nosso
amável padroeiro, Doutor da Santa Igreja, Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos Senhor. Cordeiro
de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos Senhor. Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de
nós. Rogai por nós Santo Antônio Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
Oremos: Ó Deus, nós Vos suplicamos que a intercessão votiva de Vosso Glorioso Confessor e Doutor Santo Antônio,
alegre a Vossa Igreja, para que, fortalecida com espirituais auxílios, mereça alcançar a glória eterna. Por Jesus Cristo,
Nosso Senhor. Amém.
Saudação á Santo Antônio: Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, sacrário do Divino Espírito Santo, alcançai-me
Dele os dons e auxílios da graça. Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, reclinatório do Deus Menino, consegui-me
Dele a inocência daquela idade. Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, amantíssimo filho de Maria Santíssima;
fazei-me também digno filho de tão soberana Mãe. Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, descobridor das coisas
perdidas, não permitais que eu perca o caminho da salvação. Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, lírio formoso de
pureza, inspirai-me profundo amor à mais bela das virtudes. Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, modelo perfeito
de humildade, fazei meu coração semelhante ao vosso. Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, propugnador da fé,
comunicai-me a verdadeira docilidade às doutrinas da Igreja. Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, luz brilhante do
universo, iluminai a minha cegueira, para que eu fuja das trevas dos vícios e dos pecados. Deus vos salve, meu glorioso
Santo Antônio, serafim abrasado do amor divino, inflamai o meu coração neste fogo sagrado, para que sempre arda nas
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
suas belas e amorosas chamas.
Oferecimento: Meu glorioso e amável Santo Antônio, eu vos ofereço estas saudações e orações, em honra de vossas heróicas
virtudes e santidade admirável. Peço-vos humildemente me alcanceis de Deus Nosso Senhor, e de sua Mãe Maria
Santíssima, junto de quem gozais de tanto poder, uma resolução firme de seguir vossos exemplos, para que, dirigindo meus
passos por este caminho, na imitação de vossas virtudes, encontre afinal a eterna felicidade. Rogo-vos me alcanceis também,
do mesmo Senhor, o auxílio para todas as minhas necessidades, espirituais, corporais, temporais e materiais. Por vosso
intermédio espero alcançar estes benefícios do Altíssimo. Tenho a certeza de que não faltareis com a vossa proteção a quem,
como eu, tanto confia no vosso amparo. Espero também ser socorrido por vós na hora de minha morte, para que vencidos
todos os males, meu espírito, finalmente livre das prisões desta vida mortal, possa desfrutar para sempre a perfeita liberdade
dos filhos de Deus, e gozar de sua visão, em vossa companhia no céu. Amém.
Para pedir proteção: Ó grande e bem-amado Santo Antônio de Pádua! Vosso amor a Deus e ao próximo, vosso exemplo
de vida cristã, fizeram de vós um dos maiores Santos da Igreja. Eu vos suplico tomar sob a vossa proteção valiosa minhas
ocupações, empreendimentos, e toda a minha vida. Estou persuadido de que nenhum mal poderá atingir-me, enquanto
estiver sob vossa proteção. Protegei-me e defendei-me; sou um pobre pecador. Recomendai minhas necessidades e apresentaivos como meu medianeiro a Jesus, a quem tanto amais. Por vosso mérito, Ele aumente minha fé e caridade, console-me nos
sofrimentos, livre-me de todo mal e não me deixe sucumbir na tentação. Ó Santo Antônio, livrai-me de todo o perigo do
corpo e da alma e, assim, auxiliado continuamente por vós, possa viver cristãmente e santamente morrer. Amém.
Para pedir uma graça: Ó glorioso Santo Antônio, meu grande advogado, pela confiança e pelo amor que em vós deposito,
dignai-vos conceder um olhar benigno em meu favor. Grande santo, vós que operais tantos milagres e que tantas graças
alcançais para aqueles que vos invocam, tende compaixão deste devotado servo, que está tão necessitado de vosso auxílio.
Dizei uma palavra àquele Menino que feliz apertais entre os braços e Dele impetrai a graça que humildemente vos peço. . .
Para achar coisas perdidas (O Responsório): Grande Santo Antônio, apóstolo cheio de bondade, que recebestes de Deus o
poder especial de fazer achar as coisas perdidas, socorrei-me neste momento, para que por vosso auxílio, encontre o objeto que
procuro. Obtendo-me também uma fé ardente, perfeita docilidade às inspirações da graça, o desejo de levar uma vida de
verdadeiro cristão, e uma esperança firme de alcançar a bem-aventurança eterna. Amém.
Para oferecer uma esmola aos pobres: Santo Antônio, glorioso taumaturgo, pai dos pobres! Tendes o Dom de compadecervos de todas as misérias dos infelizes. Apresentais ao Senhor nossas súplicas, fazendo que sejamos atendidos. Hoje quero
oferecer-vos, como prova de meu reconhecimento, a esmola que deponho a vossos pés, em benefício dos pobres. Que ela seja de
proveito para os que sofrem, e também para mim em todas as necessidades temporais e espirituais, socorrei-nos a todos com
vossa benevolência. E dai-nos vossa especial proteção na hora de nossa morte. Amém.
Cinco minutos diante de Santo Antônio:Há quanto tempo te esperava alma devota, pois bem conheço as graças de que
necessitas e que desejas que eu peça ao Senhor! Estou disposto a fazer tudo por ti; mas, filho, diz uma a uma todas as tuas
necessidades, para que eu seja o intermediário entre Deus e ti, e possa suavizar teus males. Sinto a aflição de teu coração, e
quero unir-me às tuas amarguras. Desejas o meu auxílio no teu negócio... Queres minha proteção para restituir a paz na
tua família... Para conseguir algum emprego... Para ajudar aqueles pobres... Aquela pessoa necessitada... Para que acabe
aquele sofrimento... Queres tua saúde ou a de alguém a quem muito estimas? Coragem que tudo obterás. Agradam-me as
almas sinceras que tomam sobre si as dores alheias, como se fossem próprias. Mas eu bem vejo como desejas aquela graça
que há tanto tempo me pedes. Tem fé, que não tardará a hora em que hás de obtê-la. Eu também desejo algumas coisas de
ti: -Que recebas mais vezes a Jesus na Eucaristia; -Que seja mais devoto para com nossa Mãe, Maria Santíssima. -Que
propagues a minha devoção e ajudes os meus pobres. Quanto isto me agrada ao coração. Não sei negar nenhuma graça
àqueles que socorrem os outros por meu amor, e bem sabes quantos favores são obtidos por este meio. Procure-me sempre,
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
mas não se esqueça que Deus é o nosso Bem maior. Amai-O, adorai-O e louvai-O sempre de todo coração.
Oremos: Ó Deus, nós vos suplicamos que a intercessão votiva de Vosso glorioso confessor e doutor Santo Antônio, alegre a
vossa igreja, para que, fortalecida com espirituais auxílios, mereça alcançar a glória eterna. Por Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Amém.
Coroa de Santo Antônio:
I. Santo Antônio, que ressuscitais os mortos, rogai por todos os agonizantes e pelos nossos irmãos falecidos Pai Nosso, Ave
Maria, Glória ao Pai
II. Santo Antônio, apóstolo infatigável do Evangelho, defendei-nos dos erros dos inimigos de Deus, rogai pelo Santo Padre
o Papa e pela Igreja. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai
III. Santo Antônio, poderoso amigo do Coração de Jesus, livrai-nos dos males que nos ameaçam por causa de nossos
pecados. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai
IV. Santo Antônio, que expulsais os demônios, fazei-nos triunfar das suas ciladas. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai
V. Santo Antônio, lírio de celestial pureza, purificai-nos a alma de qualquer mancha e preservai-nos o corpo de todos os
perigos. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai
VI. Santo Antônio que sarais os enfermos, curai as nossas doenças e conservai-nos a saúde. Pai Nosso, Ave Maria,
Glória ao Pai
VII. Santo Antônio, Guia dos viajantes, conduzi a bom termo os que viajam em nossas estradas, preservai-os de acidentes
e conduzi-nos com segurança pelos caminhos de Deus. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai
VIII. Santo Antônio que dais liberdade aos que se encontram nas prisões, livra-nos das cadeias do pecado. Pai Nosso,
Ave Maria, Glória ao Pai
IX. Santo Antônio que dais aos jovens e anciões a restauração do organismo, conservai-nos o uso perfeito dos sentido do
corpo e das faculdades do espírito. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai
X. Santo Antônio que descobris as coisas perdidas, fazei que achemos o perdido na ordem espiritual e temporal. Pai Nosso,
Ave Maria, Glória ao Pai
XI. Santo Antônio, protegido de Maria, afastai de nós os perigos da alma e do corpo. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao
Pai
XII. Santo Antônio, que acudis a todas as misérias, assisti-nos em nossas necessidades, daí pão e trabalho aos que
precisam. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai.
XIII. Santo Antônio, reconhecendo e proclamando vossa maravilhosa bondado, dando-vos graças pelos favores recebidos,
pedimos que não nos desampareis em todos os dias de nossa vida. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai.
Súplicas a Deus: Senhor, quem sois vós e quem sou eu? Vós, o Altíssimo Senhor do céu e da terra; eu, um miserável
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
vermezinho, vosso ínfimo servo. Ó grande e magnifico Deus, meu Senhor Jesus, iluminai o meu espírito e dissipai as trevas
da minha alma. Dai-me uma fé integra, uma esperança firme, uma caridade perfeita. Concedei meu Deus, que eu vos
conheça muito, para poder agir segundo os vossos ensinamentos e de acordo com a Vossa Santíssima vontade. Absorvei
Senhor, eu vos suplico, o meu espírito, e pela suave e ardente força de Vosso amor, desafeiçoai-me de todas as coisas que
existem debaixo do céu, a fim de que eu possa morrer por Vosso amor, ó Deus, que por meu amor vos dignastes morrer.
Amém.
Louvores à Deus: SENHOR! Tu és o Santo, o Senhor e Deus único que operas maravilhas. Tu és o Forte. Tu és o
Grande. Tu és o Altíssimo. Tu és o Rei onipotente, o Pai Santo, Tu és o Rei do céu e da terra. Tu és o Senhor Deus
Trino e Uno, Tu és o Bem, todo o bem, o sumo Bem, o Bem Universal. Tu és o Senhor Deus Vivo e verdadeiro. Tu és a
caridade, o Amor. Tu és a Sabedoria. Tu és a humildade. Tu és a paciência Tu és a segurança, Tu és o descanso. Tu és a
alegria e jubilo. Tu és a Justiça e a Temperança. Tu és toda a riqueza e abastança, Tu és a beleza. Tu és a mansidão. Tu
és o protetor. Tu és o guarda e defensor. Tu és a fortaleza. Tu és o alívio. Tu és a nossa esperança, Tu és a nossa fé. Tu és
a nossa grande doçura. Tu és a nossa vida eterna. Tu és o grande a admirável senhor. Tu és o Deus onipotente. Tu és o
nosso misericordioso salvador. Amém.
Saudações à Mãe de Deus: Salve, ó Senhora Santa, Rainha Santíssima, Mãe de Deus, que sois Virgem Perpétua, eleita
pelo Santíssimo Pai Celestial, que vos consagrou por seu Santíssimo e Dileto Filho e o Espírito Santo Consolador. Em vós
residiu e reside toda a plenitude da graça e todo o bem. Salve ó palácio do Senhor. Salve ó tabernáculo do Senhor. Salve ó
morada do Senhor. Salve ó manto do Senhor. Salve ó serva do Senhor. Salve ó Mãe do senhor. E salve vós todas ó santas
virtudes, derramadas pela graça e pela iluminação do Espírito Santo nos corações dos fiéis, transformando-os de servos
infiéis em servos fiéis a Deus. Amém.
Quermesse – são as barraquinhas com comidas típicas (“canjicão”, que é a canjica doce de milho;
cocadas; pé-de-moleque; milho verde; pipoca; “maçã-do-amor” que é uma maçã caramelada e decorada
com confeitos coloridos, metida em um espeto de pau; “quebra-queixo” que é um doce de côco
queimado com açúcar; “cachorro-quente”; “quentão”, caldo de feijão branco, caldo de mandioca, “vaca
atolada” que é um caldo com pedaços de mandioca e carne bovina, entre outras quitandas variadas) e
artesanatos ou produtos industrializados, decorativos e utilitários (camisas, vestidos, brincos, pulseiras,
óculos escuros, presilhas de cabelo, luvas e meias de lã entre outras miudezas e acessórios). Aconteceu de
10 (quinta-feira) a 14 (dominho) de junho (por ocasião de, nesse ano de 2009, 13 de junho ser um
sábado), durante tardes e noites, na Praça Barão de Ayuruoca (ou Praça do Fórum, um dos principais
pontos de referência da cidade), à frente da igreja Matriz de Santo Antônio.
Leilão de prendas – leilão de artigos utilitários domésticos, eletrodomésticos e outras prendas, todas
doações de devotos ou artigos comprados com recursos da igreja, para favorecer a paróquia.
Leilão de gado – leilão de animais (em geral, bezerros) doados por fazendeiros devotos em favor da
paróquia.
Não raro, as doações são feitas para cumprimento de promessas.
Bingo – jogo semelhante ao loto, no qual, além dos números, aparecem letras nos cartões e pedras. Ao
longo da Trezena são realizados vários bingos para arrecadação de recursos para a igreja. Os bingos são
uma das atrações mais participadas pelos moradores, freqüentados pelas famílias e causam grande
divertimento. Os prêmios também são doações de devotos, ou artigos comprados com recursos da igreja.
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Tômbola do Clube de Mães – sorteio de prêmios organizado e participado por uma associação de
mães de Sapucaia, com vistas à arrecadação de recursos para a paróquia. Uma tômbola acontece com
prêmios não em dinheiro, mas em objetos. Em Sapucaia, esses artigos são todos artesanatos feitos e
doados pelas próprias mães associadas.
Bênção de pães – é um rito de costume, muito praticado pela Igreja e seus fiéis no dia 13 de Junho,
quando distribuem aos pobres os pãezinhos de Santo Antônio. A tradição diz que esse alimento deve ser
guardado dentro de uma lata de mantimento pelo período de um ano, como garantia de que não faltará
comida à casa agraciada com esse pão. Há depoimentos de que o pão não mofa, mantendo-se íntegro
durante todo o período.
Alvorada – reunião iniciada por volta das 6:00 horas da madrugada, iniciada com um pequeno cortejo da
banda de música Santa Cecília, acompanhada pelos devotos, com encerramento à frente da igreja matriz,
quando há o repique dos sinos.
Repique de Sinos – toque particular dos sinos da igreja, típico de momentos festivos.
Cavalgada de Santo Antônio – romaria de devotos, a cavalo.
Queima de Fogos – momento culminante da festa, que marca seu encerramento. Sobre Sapucaia, há
comentários na região e em municípios vizinhos de que, trata-se de um dos momentos que mais agradam
ao seu público, chegando a durar 20 a 30 minutos intermitentes.
Procissão – cortejo solene com saída da igreja de Santo Antônio. Caminham até a praça da Árvore
Grande, como é chamada a praça Miguel Couto, cruzando a BR393 (que atravessa a cidade)e tomando
uma rua paralela. Circulam a praça e tomam uma segunda paralela, até o retorno à igreja.
No Distrito Anta, Localidade Santo Antônio da Vista Alegre:
Conhecida pelos “mais antigos” como Santo Antônio dos Amarelos (dizem que por motivo da
desnutrição que acometeu parte dos moradores durante um longo tempo, deixando os desnutridos com
um aspecto amarelado nos olhos e na face) essa localidade que, desde a sua formação também invoca
Santo Antônio como padroeiro, realiza uma festa em sua homenagem, uma semana antes da celebração
ao santo, no distrito sede.
É uma Comunidade Eclesial de Base, fundada com a liderança do Padre Medoro (que não atua mais
como pároco de Sapucaia), na década de 1980. A partir desse modo de organização, a comunidade
elabora um jeito particular de fazer suas cerimônias e festejos religiosos.
A festa de Santo Antônio acontece durante três dias - nesse ano de 2009, sexta, sábado e domingo. É
organizada pelo Conselho Comunitário de Pastoral (CCP), que tem entre seus participantes, Sr. Luiz
Ventura Filho, o Luizinho, Sr. Lucas, Sr. Nelinho, Sras. Francisca, Lúcia e Margarida (“cantadeiras” dos
cultos religiosos), todos de uma geração do tempo em que “se cobria as barraquinhas da festa junina com
folha de bananeira”.
Os elementos tradicionais presentes na festa da comunidade: bingo, quermesse com barraquinhas, leilão
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
de prendas, leilão de gado, forró.
Há dois anos, por iniciativa de algumas lideranças e artistas da região, introduziu-se na programação da
festa o Festival de Calango – um concurso entre os calangueiros do município de Sapucaia que são
solicitados a participar, por meio de uma divulgação na rádio do município, cartazes e “boca-a-boca”. O
Calango é uma expressão musical identificada por alguns moradores como “desafio de sanfona e versos
de improviso, semelhante ao que se vê no Repente nordestino que é mais famoso, mais divulgado”.
O Festival acontece em um dos 3 dias da festa de Santo Antônio na comunidade. O vencedor do
concurso recebe como prêmio simbólico um troféu e “fica sendo reconhecido dentro e fora da
comunidade como um calangueiro dos bons”. Segundo Luciano, professor de Geografia e “filho da
comunidade de Santo Antônio”, o calango é uma expressão musical característica da região, mas que há
mais de duas gerações anda enfraquecido, com nenhum cantador ou sanfoneiro jovem operando esse
“jeito de cantar e de tocar uma sanfona”. Apesar disso, é uma manifestação que agrada muito, em
especial aos antigos moradores, contemporâneos do “tempo em que toda festa tinha um calangueiro pra
animar”. Por ser considerado um traço cultural da região de Sapucaia, essa manifestação foi eleita pelas
lideranças como importante e carente de um “resgate cultural”, que incentive à memória coletiva e aos
novos músicos para inspiração e atenção a essa tradição.
Imagens da Festa de Santo Antônio no distrito-sede de Sapucaia:
89
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Missa a Santo Antônio.
Procissão.
Banda Santa Cecília em procissão.
Banda Santa Cecília.
Bingo.
Cavalgada.
90
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Artesanato.
Comidas típicas vendidas em barraquinhas.
Quermesse.
Tômbola do Clube de Mães.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Recursos:
No distrito-sede de Sapucaia parece haver um amplo apoio da Prefeitura Municipal. Nas faixas e nos
cartazes de divulgação da festa aparece a marca oficial da prefeitura como apoiadora do evento.
Entretanto, a maior fonte de recursos para a realização da festa, bem como para a manutenção das
atividades da igreja ao longo do ano parecem ser os leilões, Tômbola, Bingos, e Barraquinhas da Igreja na
Quermesse que é instalada na praça, durante os quatro últimos dias da Trezena.
Os participantes do Conselho Comunitário de Pastoral e o Clube de Mães se organizam em uma
comissão responsável pela produção da festa e, nas semanas anteriores ao seu início, se encarregam de
arrecadar as diversas doações para premiações nos bingos, leilões e tômbola.
Já em Santo Antônio da Vista Alegre, povoado do distrito Anta, segundo seus moradores, o apoio
institucional ainda é muito pequeno e os participantes do Conselho Comunitário de Pastoral se
mobilizam na produção da festa “com poucos recursos e muita boa vontade”.
Sentidos atribuídos:
Santo Antônio é considerado o segundo santo mais popular do mundo, atrás apenas de São Francisco de
Assis.
A homenagem a Santo Antônio é uma cerimônia festiva que concilia o sagrado da procissão, das bênçãos
dos pães, da Trezena de Santo Antônio e demais solenidades e orações nas missas e cultos que ocorrem
durante os 13 dias, com o profano da quermesse, dos bingos, leilões e apresentações de bandas.
Trata-se de um momento de festa que congrega a paróquia de Sapucaia e atualiza suas noções e
sentimentos de pertença a um grupo, a uma comunidade que compartilha a fé católica e a devoção a
Santo Antônio, patrono dos sapucaienses.
Nas faixas comemorativas espalhadas pelas ruas de Sapucaia evidenciam-se os sentidos e a importância
dessa festividade para a cidade:
“Vamos celebrar Santo Antônio, testemunha do evangelho e mensageiro da paz. Com seus sermões, encontramos um
caminho de fé e vida para seguir Jesus Cristo. Por sua intercessão, santificai cada família, abençoai os visitantes, protegei os
jovens, socorrei os necessitados, sustentai a todos!”
“A comunidade agradece a todos que colaboraram com esta festa!”
“Chegou a Festa de Santo Antônio! Saudamos a todos os presentes!”
O patrimônio cultural intangível, que se transmite de geração em geração, é constantemente recriado
pelas comunidades e grupos em função do seu ambiente e da sua interação com as manifestações que lhe
servem de referência para pensar e agir no mundo, gerando um sentimento de identidade e continuidade.
92
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Transmissão para as gerações futuras:
A Paróquia de Sapucaia parece bastante engajada na realização dos grandes festejos religiosos em
Sapucaia, especialmente o de celebração do padroeiro da sede do município. O senso moral religioso e
católico é expresso durante todo o evento, mais marcadamente nas atividades solenes e cerimônias, mas
também nos momentos profanos da festa. As famílias sapucaiaenses católicas participam em todas as
atividades da programação, o que favorece a transmissão dos valores que motivam a celebração, dos pais
para seus filhos, desde muito pequenos.
É justamente essa participação dos mais jovens nos ritos organizados e recriados ao longo do tempo
pelos mais velhos, seus ancestrais, que permite a preservação dos fundamentos e motivações de tal
celebração religiosa.
Medidas para Salvaguarda:
Reconhecendo que os processos de globalização e de transformação social, ao mesmo tempo em que
criam condições propícias para um diálogo renovado entre as comunidades, seus jovens e seus antigos
membros, geram também riscos de desaparecimento e deterioração das referências ancestrais de pensar e
agir no mundo, patrimônio cultural intangível de toda coletividade.
Considerando-se a importante função da instituição do patrimônio cultural imaterial como meio para
aproximação das diferenças (etárias, de gênero, étnicas, políticas e sociais) entre as várias coletividades
humanas, esses riscos se agravam drasticamente quando não há meios ou investimentos para a
salvaguarda do patrimônio imaterial.
Um importante meio de garantir a vitalidade do patrimônio cultural imaterial enquanto referência para
orientar as transformações (recriações ou mudanças) imanentes a toda tradição são sua investigação,
identificação, documentação, valorização, promoção e transmissão ampla e democrática para todas as sociedades.
No caso da Festa de Santo Antônio, em Sapucaia, além de um rico registro dessa celebração, faz-se
importante sua divulgação e o investimento nas atividades nucleares que caracterizam a festa: cavalgada,
leilões, acompanhamento de bandas e orquestras, procissão.
Bens Relacionados:
Bens culturais de natureza material associados: Imagens de Santo Antônio.
Bens culturais de natureza imaterial associados: Banda de Música Santa Cecília de Sapucaia;
Banda de Música Sete de Setembro de Além Paraíba, que, há mais de 3 anos, atua dando um reforço aos
músicos da Santa Cecília. Nesse ano de 2009, a Banda Santa Cecília de Sapucaia estando desativada,
apresentou-se simbolicamente, contando com músicos da Sete de Setembro em quantidade
93
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
drasticamente superior à dos seus próprios membros.
Bibliografias:
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e
Cultura / Instituto Nacional do Livro, 1954.
SACAVINO, Susana. Multiculturalismo e Educação – Ciclo de Oficinas Pedagógicas. In www.rizoma.ufsc.br,
pesquisado em junho de 2009.
www.unesco.pt. Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial - Unesco - Paris, 17 de outubro de
2003, consultado em junho de 2009.
94
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Inventário de Patrimônio Cultural Imaterial
Três Rios/RJ
Ficha 001 TR
Município: Três Rios
Designação: Artesanato
Data: Junho/2009
Distrito: Distrito Sede
Categoria: Saberes e Expressões
Localidades envolvidas: Distrito Sede e demais distritos de Além Paraíba.
Periodicidade:
Não se aplica.
Ambiência/Paisagem: Não se aplica.
Responsável(is): Sras. Emília, Eloísa, Aulinda e Helena
Histórico e Caracterização:
A atividade artesanal é um campo da criação humana que, como tal, tem muito a informar pelos seus
aspectos subjetivos, estéticos, simbólicos, históricos, sociológicos e antropológicos. De acordo com essa
perspectiva interdisciplinar, o artesanato é destacado como um processo cultural de produção material
que, ao criar objetos, reproduz valores, sentidos e estéticas característicos da sociedade de que fazem
parte os artesãos.
Pensar o artesanato é refletir sobre a imaterialidade desses objetos – as dimensões intangíveis que operam
no processo de produção das coisas. Na concepção do escritor mexicano Otávio Paz, falar de artesanato
é falar mais de pessoas do que de objetos, pois o produto resultante do trabalho artesanal é um produto
“com alma”, onde estão presentes o saber, a arte, a criatividade e a habilidade.
Artesanatos são artefatos, artifícios humanos agregados com valores de uso, de troca e, especialmente,
com o valor cultural das expressões dos seus produtores. É essencialmente o trabalho manual ou a
produção própria de um artesão que, frente à intensa padronização dos produtos industriais do mercado,
passa a ser valorizada pelos seus elementos expressivos, por sua autenticidade ou exclusividade das peças,
quase nunca idênticas umas às outras, e pelos seus atributos simbólicos, muito característicos nas culturas
populares.
Em geral, o produto artesanal reflete a relação do artesão com o meio natural e cultural onde vive.
Representa um saber local, uma forma de expressão das vivências estéticas possíveis de serem
experimentadas na condição particular em que vive o artesão – que pode ser orientado exclusivamente
por saberes e modos de fazer tradicionais, ou também informado com referências extra-locais,
conhecidas por meio das mídias que sejam mais acessíveis (rádio, televisão, revistas, internet).
É nos termos dos processos, das técnicas empregadas e das condições culturais em que é desenvolvido
que o artesanato aparece como patrimônio cultural imaterial: não no objeto em si mesmo, mas como
produto de um processo artesanal, onde se inscrevem os saberes, os modos de fazer e as expressões
artísticas do artesão. Produto e processos expressam uma atividade popular e tradicional, independente
de uma formação artística acadêmica, ainda que, muitas vezes, o artesão possa ter algum nível de contato
95
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
com uma orientação técnica mais formal.
Grosso modo, artesãos são os antigos ferreiros, carpinteiros, marceneiros, costureiras, moinheiros,
alambiqueiros; mas também os artistas de casa que decoram uma almofada com fuxicos, bordam ou
rendam uma toalha de mesa, recriam uma caixa de papelão. Podem trabalhar usando ferramentas e
mecanismos domésticos ou profissionais, e é muito comum o reaproveitamento de materiais. As peças
produzidas podem ser utilitárias, decorativas ou recreativas, feitas com ou sem a finalidade comercial.
A venda de artesanatos tem grande importância como alternativa de renda para os artesãos,
principalmente para aqueles de condição rural, sob a qual há um repertório mais restrito de possibilidades
de obtenção de renda.
No município de Três Rios, há uma associação de artesãos cujos participantes mais antigos iniciaram
uma organização coletiva por volta de 1960. Segundo nos informaram as artesãs mais antigas da
Associação:
“Tudo começou em 1966 com o Mobral de Três Rios. uma das diretoras do Mobral reuniu as pessoas que sabiam fazer
artesanatos e mobilizou o grupo para produzir e expor na praça São Sebastião, [...] principal praça da cidade.[...]
Começou a história das feiras de artesanato, cada um expunha seus produto nos domingos, no banquinho mesmo da praça.
[...] Forrávamos tudo direitinho, e fazíamos a exposição quando ainda nem havia estrutura de barraquinhas. Tudo com
autorização da prefeitura. [...] Já existia o bordado, as pinturas em tecido, pinturas em tela, as flores de tecido que na época
eram muito apreciadas... Era uma moda mesmo. [...] No início foram poucos expositores, depois começaram a se reunir um
grupo de mães artesãs, começaram a aderir e estimular umas às outras trocando receitas sobre bordados, pinturas, crochê,
tricô, fuxico... Coisas que elas tinham aprendido com as avós...ou com as tias mais velhas...e muitas delas já não
praticavam há muitos anos.”
O grupo se oficializou como Associação de Artesãos pela motivação pessoal de seus integrantes para
manter essa atividade como elemento importante da vida, renovar seus conhecimentos, adquirir renda e,
sobretudo, estreitar e manter os laços de solidariedade entre o grupo. Nesse contexto, a associação se
consolidou como um espaço inclusivo para as mulheres já em idade adiantada, uma possibilidade
alternativa de renda e de expressão de subjetividades, afetos e desejos; além de espaço para uma intensa
troca de experiências entre as colegas associadas.
Heloíza, presidente da associação, ingressou no artesanato por volta de 1986, 1987, quando acompanhou
de perto a mobilização dos artesãos de Três Rios, principalmente as mulheres, “mães de família”:
“Éramos, no início, um grupo de 12 pessoas. [...] Daí começou a agregar mais artesãos, a prefeitura passou a apoiar com
mais investimento, doação de barracas para as exposições: barraquinhas de ferro, de montar, com toldo, padronizadas...
Profissionalizando mais a nossa atividade. Os espaços foram ficando mais individualizados... Porque depois dos bancos que
eram usados para exposição na feira, aos domingos, conseguiram uma mesa grande, onde cada um tinha seu espaço, e depois
vieram as barraquinhas, individualizadas, padronizadas”.
A partir disso o artesanato foi ganhando mais visibilidade na cidade, as pessoas foram divulgando a
feirinha, procurando pelos produtos, e as mulheres sentindo-se cada vez mais estimuladas a dedicar parte
do seu tempo cotidiano às atividades artesanais, “porque todas eram donas de casa, muitas delas tinham trabalho...
e pra fazer artesanato tem que investir tempo... dedicação para estar melhorando sempre... conhecendo outras técnicas...
96
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
praticando...”.
Em 2002 foi formalizada a associação, integrada predominantemente por mulheres artesãs.
Informações Descritivas:
A associação de artesãos possui sede (um espaço próprio, cedido pela prefeitura municipal, próximo ao
centro comercial da cidade), estatuto e uma dinâmica de trabalho, próprios: “temos de revezar na loja e oferecer
os cursos que muitas vezes são voluntários, ou então as alunas pagam, mas um valor, assim, simbólico”.
Dos atuais 25 associados, todos são mulheres, em sua maioria acima de 40 anos de idade, em geral donas
de casa e aposentadas. Contam que “Já participaram homens... mas para eles é mais difícil dedicar... é aquela
dificuldade de produzir porque trabalham fora e têm mais responsabilidade na renda da casa”.
A sede funciona como loja, onde os artesanatos são vendidos, e oficina de produção dos artesãos
associados. Contam com uma parceria do SEBRAE, desde antes da formalização como associação, em
2002. Promovem cursos de pintura em tecido; corte e costura; bordados; tricô; arte em papel; crochê;
fuxicos. A sede também oferece o espaço para aquelas artesãs que não têm um ambiente de trabalho em
casa – “por falta de espaço ou de sossego pra trabalhar”.
As peças produzidas são muito variadas: bolsas, chepéus e luvas de crochê; panos de prato, aventais
de cozinha e jogos de mesa bordados ou decorados com aplicação de tecidos (patchwork); cortinas,
caminhos e toalhas de mesa decorados; porta-retratos, oratórios, molduras em papel ou madeira;
colares, brincos, terços e rosários em contas e tecidos; bonecas de pano; esculturas em madeira, argila
e pedra; cestos de palha ou papel; móveis de bambu; pinturas em tela; e outros artesanatos de
variados tipos, cores e texturas.
Imagens:
Artesãs de Três Rios, responsáveis pela Associação.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Artesãs em oficina de pintura em tecido.
Artesanatos vendidos na loja da
Associação.
Sentidos atribuídos:
De acordo com os depoimentos das artesãs de Três Rios, a prática do artesanato é sentida como uma
forma saudável de passar o tempo, de adquirir renda complementar, e de exercitar a criatividade e a
imaginação. Além disso, foi destacada a importância desse tipo de atividade para mulheres em idade
adulta mais avançada, “que não têm muita chance no mercado de trabalho por aí, mas que, ao mesmo tempo, ainda
precisam e têm muita vontade de trabalhar, de produzir, de ser útil para a família”.
Com a prática do artesanato elabora-se um espaço coletivo de troca de saberes, modos de fazer,
histórias de vida, “as conversas acabam passando por tudo, dos problemas domésticos, à novela ou
notícias do jornal na TV...”.
Condições de preservação e mudanças ao longo do tempo:
O patrimônio cultural intangível, que se transmite de geração em geração, é, constantemente, recriado
pelos grupos e indivíduos, gerando um sentimento de identidade e continuidade com algo da cultura que
lhes diz respeito mais particularmente. Para a continuidade de qualquer prática cultural é necessário que
haja a renovação pelas gerações mais jovens.
Nos cursos e oficinas oferecidos pela Associação de Artesãos de Três Rios, apesar de não haver
nenhuma restrição à sua participação, há pouca presença de jovens e crianças. Segundo as artesãs mais
antigas, essa ausência acontece porque “as moças de hoje em dia trabalham fora ou estudam, muito mais do que nós,
98
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
na nossa juventude. Então desde novinhas nós criamos gosto pelas atividades domésticas, pelos artesanatos que a gente fazia
em casa mesmo, na companhia da mãe, da tia, da avó. [...] Hoje em dia as crianças saem de casa para a escola e lá, elas
acham que em casa não tem mais nada de importante para aprender. É coisa de valorização mesmo... de entender que
aprender a fazer uma casa de botão bonitinha, assim bordado, não é coisa de mulher atrasada não, é uma sabedoria, um
conhecimento antigo, bonito. [...] E tem a coisa da vocação também... mas acho que o caso é mais de educação... [...] Os
jovens, atualmente, são educados só para a escola, para o vestibular, a faculdade... mas para essas coisas simples – saber
fazer um almoço gostoso, às vezes uma quitanda, um vestido bonito... isso, agora, é só comprando em loja...”.
Todo modo, mesmo que pouco representativa, há a presença de jovens entre as artesãs de Três Rios, o
que favorece a continuidade dos modos de fazer artesanais. Principalmente porque há grande fonte de
inspiração para as novas gerações se espelharem, como exemplos, que são as senhoras artesãs.
Bens Relacionados:
Bens culturais de natureza material associados: matérias primas como bambu, rendas; ou
instrumentos como agulhas, formões.
Bens culturais de natureza imaterial associados: técnicas e memórias.
Bibliografia:
PARREIRA, Roberto; SALLES, Vicente. Artesanato Brasileiro. Fundação Nacional de Arte – Funarte1978.
MACHADO, Alves; MATUCK, Rubens; CHIODETTO, Eder. Mestres Artesãos. Escola de Reeducação
do Movimento Ivaldo Bertazzo, 2000.
RUGIU, A. S. Nostalgia do mestre artesão. Campinas: Autores Associados, 1998.
ALVIM, M. R. B. O artesanato, tradição e mudança social. In: O artesão tradicional e seu papel na sociedade
contemporânea. Rio de Janeiro: Funarte, 1983, p. 49-75.
Entrevistas com Eloíza, Aulinda e Emília, artesãs da Associação de Artesãos de Três Rios.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Inventário de Patrimônio Cultural Imaterial
Além Paraíba/MG
Ficha 001 AP
Município: Além Paraíba
Designação: Artesanato
Data: Junho/2009
Distrito: Distrito Sede
Categoria: Saberes e Expressões
Localidades envolvidas: Distrito Sede e demais distritos de Além Paraíba.
Periodicidade:
Não se aplica.
Ambiência/Paisagem: não se aplica.
Responsável (is): Leninha, Luciana e José Caetano.
Histórico e Caracterização:
A atividade artesanal de Além Paraíba não nos foi apresentada como organizada coletivamente, na forma
de uma cooperativa ou associação. Existe, porém, uma loja de artesanatos, administrada pela prefeitura
municipal, onde a riqueza e a diversidade de peças encontradas destacaram o artesanato da região como
bastante expressivo.
Segundo Leninha, funcionária de Além Paraíba e administradora da loja de artesanatos da Casa da
Cultura, que existe há mais de 10 anos, os artesãos deixam seus produtos na loja, em consignação, e “eles
não têm relação uns com os outros – ou pelo menos não que eu saiba. Mas muitos produzem as coisas em família, mães,
pais e filhos. E os artesanatos são muito bonitos”.
Os artesãos são moradores da cidade, da zona rural do município, mas também de municípios vizinhos e
alguns de seus distritos, por exemplo: Jamapará e Aparecida, de Sapucaia; Carmo; e Mar de Espanha.
Procuram pela Casa de Cultura “e deixam seus trabalhos em consignação. Se venderem tem que deixar 10% do valor
que é usado para a manutenção da loja”.
Informações Descritivas:
Os artesanatos mais presentes na loja de Além Paraíba são: pinturas em telas e tecidos (com temas de
embarcações, praia, mar, ou ambientes rurais, carros de boi, fogão a lenha); roupas e decorações em
crochê, tricô, e bordados; utensílios feitos com reciclagens: tampas de latinhas, latas de molho de tomate,
recipientes de desinfetante; esculturas em madeira; jarros antigos de leite, decorados com pinturas e
aplicações de tecido; toalhas de fuxico; telhas decoradas com pintura e texturas; chinelos de borracha
decorados com contas e tecidos; aventais para cozinha, panos de prato, toalhas de mesa bordadas e
decoradas com aplicação de tecidos coloridos; bonequinhas de pano e bonecas feitas com corpinho de
garrafa pet; flores de garrafa pet; doces e licores caseiros (manga, figo, jaca, ambrosia, leite e coco);
cachaças de alambiques artesanais da região; bibelôs feitos de conchas e crochê, com o aplique de ímãs,
para a decoração de geladeiras; cascas de coco e caixas de papelão decoradas.
100
Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Imagens:
Caldeirão, leiteira e potes de lata para decoração.
Latas industriais (de molho de tomate e
achocolatados) trabalhadas para decoração e
reutilização.
Bonecas de pano ou com estrutura de
garrafas plásticas.
Quadros, cadernos e toalhas, bordados em
ponto-cruz.
Recipientes decorados para
garrafas de licores caseiros.
reutilização
e Toalhas Caminho-de-Mesa de crochê decoradas
com tampinhas de latas de refrigerante.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Doces caseiros.
Recipientes decorados para reutilização.
Conchas decoradas com miniaturas de cerâmica.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Sentidos atribuídos:
Segundo Luciana e José Caetano, um casal de artesãos moradores do município, o artesanato é muito
importante porque complementam a renda da casa e “é o tipo de trabalho que a gente faz com prazer. Assim....
com muito mais prazer do que o meu emprego ou o emprego dele... que a gente faz mais é pela necessidade mesmo”.
Para Leninha, é evidente uma diferença de gênero com relação às peças produzidas, “os homens fazem mais
é quadros, peças de madeira, pratos decorados, pedras pintadas, decoradas... mas, essas coisas de tecido, essas coisinhas
miúdas de usar, colar, presilhas, bordados... isso é coisa das mulheres”. Além disso, observa que “artesanato vende
mais nas datas comemorativas, principalmente dia das mães e natal. Porque artesanato é presente... é considerado coisa fútil
né, então é presente”.
Condições de preservação e mudanças ao longo do tempo:
Luciana aprendeu a técnica de pintura em tela com o marido que, por sua vez, recebeu orientações
artísticas de um professor de artes, ainda no tempo de escola e, depois disso, “nunca mais parou”.
O casal considera que, apesar de na cidade não haver uma organização que promova a prática do
artesanato de um modo mais coletivo, “se a gente passar isso pra frente... por exemplo pro nosso filho quando ele
crescer... mesmo que ele não queira fazer assim pra vender, como é o nosso caso... ele já vai tomando o gosto pela arte, não é?
Porque comigo foi assim, uma questão de estímulo, de gosto e de jeito pra coisa”.
Bens Relacionados:
Bens culturais de natureza material associados: tipos de ferramentas e matérias primas.
Bens culturais de natureza imaterial associados: técnicas de trabalho.
Bibliografia:
PARREIRA, Roberto; SALLES, Vicente. Artesanato Brasileiro. Fundação Nacional de Arte – Funarte1978.
MACHADO, Alves; MATUCK, Rubens; CHIODETTO, Eder. Mestres Artesãos. Escola de Reeducação
do Movimento Ivaldo Bertazzo, 2000.
RUGIU, A. S. Nostalgia do mestre artesão. Campinas: Autores Associados, 1998.
ALVIM, M. R. B. O artesanato, tradição e mudança social. In: O artesão tradicional e seu papel na sociedade
contemporânea. Rio de Janeiro: Funarte, 1983, p. 49-75.
Entrevistas com Leninha (funcionária da loja de artesanatos), Luciana e José Caetano (artesãos).
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Inventário de Patrimônio Cultural Imaterial
Sapucaia/RJ
Ficha 002 Sa
Município: Sapucaia
Designação: Sociedade Musical Santa Cecília
Data: Junho/2009
Distrito: Sede
Categoria: Formas de expressão
Localidades envolvidas: distrito sede e demais distritos.
Periodicidade: não se aplica.
Ambiência/Paisagem: não se aplica.
Responsável (is): Sr. Davi Alves Pires.
Histórico e Caracterização:
No Brasil, as corporações musicais, as liras e as bandas de música têm sido a única escola para um
considerável contingente de músicos, amadores e profissionais, podendo ser consideradas como
responsáveis pela mais ampla educação musical do brasileiro, principalmente dos habitantes do interior.
São espécies de ateliês de formação musical onde o aprendizado está relacionado à prática coral e
instrumental. Em geral, não pretendem formar profissionais, mas músicos de qualidade, para atender às
solicitações de parte da sociedade que aprecia e deseja a música em seu lazer.
Alceu Maynard Araújo, em seu livro Folclore nacional: Danças, Recreação e Música (vol. 2: 358-359), destaca as
corporações, bandas e liras como um “capítulo do folclore”, ressaltando que
“A banda de música do coreto da pracinha é um retalho da alegria bem brasileira vivida pela gente das comunidades
rurais. [...] Pelo Brasil a fora, as “furiosas”, nome popular das bandas de música, encheram e ainda enchem de
encantamento, alegria e entusiasmo os momentos de lazer da vida das comunidades interioranas... e de algumas capitais
também, por ocasião das festas em datas cívicas nacionais, festas religiosas calendárias ou do santo padroeiro local, nas
procissões, nas vitórias eleitorais e hoje nas do time de futebol que venceu o quadro da cidade vizinha com a qual há sempre
rivalidade insopitável, bem como também se apresenta aos sábados ou domingos à noite. A banda de música, quer exista ou
não coreto na pracinha, está presente, está junto ao coração de milhares de brasileiros, ritmando o seu pulsar com o seu rata-tchim-tchim festivo.”
A Sociedade Musical Santa Cecília, de Sapucaia, foi fundada em 1953, sendo composta por músicos e
sócios, e prevendo a existência de uma escola de música. Antes de configurar-se como sociedade musicalI,
organizava-se como uma lira, denominada Unidos de Euterpe.
É chamada pelos moradores como “a Banda Santa Cecília”, mas, segundo relatos orais, por muito tempo
foi conhecida como “Banda do seu Arquimedes”:
“Todos chamavam banda do Arquimedes porque ele ficava à frente. Que ele era seu dirigente e zelava muito pela banda”.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Atualmente, há o cuidado em chamar a atenção do público para que não incorra nesse mesmo erro em
relação ao nome: “Não é a banda do Davi, é a Santa Cecília! É preciso ter cuidado pra não deixar que isso aconteça
porque a banda é uma sociedade com identidade própria [...] independente de quem dirige”.
Banda e Escola da Sociedade Musical Santa Cecília funcionaram, desde 1953, passando por alguns
momentos de crise, “às vezes faltavam muitos músicos, às vezes alguém tinha um problema de saúde e faltava, e era
uma pessoa que não conseguíamos substituir.... às vezes faltava recurso pra continuar com a escola...”, mas, há quatro
anos a crise foi mais grave e a banda ficou completamente desativada, “quando o prefeito simplesmente cortou
os recursos [...] não tinha mais como pagar o maestro nem os professores de música”.
Neste ano de 2009 está sendo reativada pelos moradores, músicos e apreciadores da banda, retornando,
inclusive, com as atividades de escola.
A Banda de Santa Cecília conta atualmente com auxílio do maestro Édson e demais músicos da Banda
Sete de Setembro, de Além Paraíba. Anteriormente à desativação da banda por falta de estímulos e
subvenção, conta-se que “sempre se apresentou com 80% de músicos de Sapucaia [...] mas agora é a Sete de Setembro,
de Além Paraíba, quem dá corpo pra banda. A [Banda] Carlos Gomes também apóia”.
Na história da banda, os personagens mais mencionados foram os Srs. Manduca, Arquimedes e
Aristóteles, músicos protagonistas e presentes “nos tempos de ouro da Banda Santa Cecília, quando Sapucaia era
Sapucaia ... quando era a menina dos olhos, uma das coisas mais importantes da cidade”.
Senhor Arquimedes Martins de Oliveira, já falecido, é uma das personalidades representante do “amor à
música de Sapucaia”. Foi o responsável pela alteração do nome – de Unidos de Euterpe para Sociedade
Musical Santa Cecília – e pela consolidação da banda:
“Era músico, maestro e trabalhou muito pela banda. Inclusive como pedreiro e ajudante de pedreiro para construir a sede,
mesmo não sendo pedreiro de profissão. Trabalhou como pedreiro, mas não era pedreiro! Quando a banda ficou desativada
ele pegava ônibus e ia para Além Paraíba tocar na banda de lá... por amor às bandas. Trabalhou na banda desde que
nasceu, quase.”
Contaram os moradores que nos “tempos de ouro” da banda Santa Cecília, havia muito sacrifício, foi “o
tempo dos abnegados [...] naquela época todo mundo tocava na banda sem remuneração... por amor mesmo”.
Além de músicos abnegados, a banda contou, ao longo de sua história, com o apoio de “grandes mecenas”,
que ajudaram a pagar as passagens dos professores e algumas contas da casa-sede da banda, como foi o
caso mais recente do “professor Ferreira, por exemplo, que parou de receber da prefeitura e senhor Evandro ficou
pagando a passagem durante um tempo, até que não pôde mais”.
O professor Ferreira, que também dá aulas na Banda Primeiro de Março, do município de Três Rios,
atua como maestro e professor das crianças quando a escola da banda está ativa. De acordo com relatos
“as crianças se interessam muito [...] têm uniforme e a infra-estrutura direitinha, para meninos e meninas. A escola foi
iniciativa desses abnegados, apaixonados pela música... pelas bandas de música ...”.
Em 2009 a banda teve participação ativa (com auxílio do maestro e músicos da Banda Sete de Setembro)
na festa de Santo Antônio, contribuindo nos momentos mais importantes: alvoradas, procissão e
apresentando-se no coreto da Praça Barão de Ayuruoca, em frente à igreja matriz. Os moradores mais
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
velhos mostraram muita satisfação, emocionados com o retorno da banda, que já há quase quatro anos
não tocava na cidade com tamanha expressão.
Informações Descritivas:
Os sócios da Sociedade Musical Santa Cecília são classificados em: beneméritos, honorários, fundadores,
contribuintes e músicos.
Nos seus programas de apresentação constam: marchas, dobrados, valsas, samba, lambada, polca, choro,
maxixe, baião, embarcada, boleros, mambo ou chachacha, e rumbas, entre outras composições populares
ou eruditas, incluindo as composições de músicos da cidade, o que demonstra a rica cultura musical de
Sapucaia.
Dobrados, marchas e hinos são consideradas as composições mais características de uma banda de
música. O dobrado nos foi apresentado como “o ritmo próprio das bandas, junto com as marchas e os hinos”. A
bibliografia explica que, no Brasil, as marchas militares também são conhecidas como dobrados, porém o
dobrado tornou-se um estilo de música diferenciado, o mais tocado nas bandas de música. Tendo
surgido também no Brasil o dobrado dinfônico, que é um tipo de peça escrita para bandas de música e
bandas sinfônicas, composto com contrapontos e um plano dinâmico bem mais trabalhados que os
dobrados comuns.Os hinos são composições musicais, geralmente para coro, de caráter comunitário:
religioso, patriótico ou desportivo, por exemplo.
Os instrumentos tocados na Banda Santa Cecília são: tubas, trombones, bombardinos, saxofones,
saxornes, clarinetes, tarol, tambor, pistons, requinta, bumbos, flautas-doce, triângulos, repeniques, recorecos, tamborim e bombardão (saxofone).
Mencionou-se sobre um coral, “existente até cerca de 30 ou 40 anos atrás”, que se apresentava em parceria
com a banda, e “chegou a gravar no Rio de Janeiro, há uns 40 ou 50 anos atrás, uma composição feita por um morador
de Sapucaia”, Sr. Sebastião Pádua:
Redescoberta
(música e letra de Sebastião Pádua)
Hoje não duvide mais quem queria ver pra crer
onde houver Brasil ninguém se entrega
em todos nós se integra
um gigante em pé
Hoje ele é tema do seu povo
Um esquema novo
Um Brasil de fé
Vejam essa redescoberta
a Amazônia
Bravo!
Os heróis da conquista nacional
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Um apolo em cada braço
conquistando o espaço
hino triunfal
Vejam o país do futuro acontecendo
nome que encontra no mundo seu lugar
Esse é meu Brasil presente
Meu Brasil pra frente
Meu Brasil sem par
Também motivo de orgulho, nos foi comentado que “bonita é a apresentação que a banda faz do hino de
Sapucaia”, letra e música do professor Manoel de Souza Neves, outro morador da cidade:
Marcha Canção Nossa Terra – homenagem à cidade de Sapucaia
(Manoel de Souza Neves)
Cidade das Mangueiras de heróica tradição
Suas lindas cachoeiras nos enchem de emoção
Cantemos com saudade um hino de louvor
honrando esta cidade com fé e destemor
Suas praças tão bonitas
sua luz traz alegria
As formosas senhoritas
inspirando poesia
Veneremos santo Antônio
padroeiro da cidade
Pois é dele o patrimônio
de nos dar felicidade
Árvore grande simbolismo de amor
Velho ornamento que encanta a cidade
Árvore grande de beleza e frescor
que nos dá sombra esperança
e saudade
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Imagens:
Banda Santa Cecília, década de 1950.
Músicos banda de música Santa Cecília, década
de 1990.
Banda Santa Cecília, Festa de Santo Antônio, Banda Santa Cecília, Festa de Santo Antônio,
Sapucaia, 2009.
Sapucaia, 2009.
Recursos:
A Sociedade Musical Santa Cecília possui uma casa própria, registrada em cartório, que funciona como
sede.
Inicialmente contava com recursos, em dinheiro ou serviços, dos seus sócios e, posteriormente, passou a
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
contar com uma subvenção municipal – o que levou à extinção da contribuição em dinheiro dos sócios.
Há quatro anos, porém, a administração municipal de Sapucaia interrompeu a subvenção. Isso levou ao
enfraquecimento e à desativação das atividades da banda.
Em 2009, mesmo ainda sem recursos, mas contando com a “boa vontade dos seus apreciadores abnegados”, a
banda voltou a funcionar.
Segundo comentou uma moradora consultada, “a banda sempre foi linda e quando iniciou a escolinha, os meninos
estavam tocando bastante, de repente chegou o novo prefeito e acabou com tudo. E já tem aquela dificuldade de os meninos
mudarem de cidade para estudar... Então foi mais um grande embargo, o mais grave, aliás, porque não pagou mais o
maestro, o professor da escolinha... desse jeito ficou impossível [...] Hoje em dia tem pouca gente nossa, é uma banda
enxertada”.
Sentidos atribuídos:
No município de Sapucaia, a banda de música, sem dúvida, é um elemento fundamental para os
momentos solenes e de recreação dos seus moradores. Principalmente para aqueles mais antigos, “do
tempo das valsas, dos boleros, quando as marchinhas eram a música mais popular”, como nos disse um morador
consultado.
A existência e a história da Sociedade Musical Santa Cecília é fundamentalmente uma forma de expressão
da musicalidade, popular ou erudita, dos moradores do município: um dos modos importantes de se
organizarem, valorizarem e vivenciarem sua disposição, enquanto músicos ou apreciadores, para o que
consideram como “boa música”. Esse sentido nos foi revelado pelos depoimentos e memórias das pessoas
consultadas, responsáveis ou indiretamente ligadas à história da sociedade musical – sócios, ex-sócios,
músicos, apreciadores e simpatizantes.
Alguns moradores mais antigos ressaltaram que, “o retorno da bandinha na praça, foi a melhor coisa da festa de
Santo Antônio, como antigamente, uma banda com os filhos de Sapucaia tocando... tornando a festa muito mais agradável,
bonita de ver!”.
Ficou evidente que a banda opera como um “encontro de muitas gerações, crianças, jovens, idosos, participando dos
momentos mais importantes da cidade, que para uma cidade pequena é muito bom. É fundamental”.
Condições de preservação e mudanças ao longo do tempo:
Embora estivesse desativada já há quatro anos, a escola de música da sociedade musical tem sido
revitalizada, progressivamente, com os esforços de muitos dos seus responsáveis e simpatizantes.
Segundo os mais velhos, essa escola “é que pode dar conta de não deixar a banda acabar, porque renova o grupo de
músicos”. A necessidade dessa atividade de educação musical pela sociedade é fundamental para a
continuidade de suas atividades musicais, com a qualidade a que aspiram seus integrantes: maestro,
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
músicos e demais associados.
Bens Relacionados:
Bens culturais de natureza material associados: instrumentos e partituras da Banda, casa-sede da
Sociedade Musical Santa Cecília.
Bens culturais de natureza imaterial associados: memórias sobre a banda.
Bibliografia:
ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore nacional: Danças Recreação, Música (vol. 2) – Editora Melhoramentos.
TINHORÃO, José Ramos; SOUZA, Alexandre Barbosa de. História Social da música popular brasileira Editora 34, 1998.
Entrevistas e conversas com Sr. Davi Alves Pires (57 anos), Sr. Evando (72), Eraldo (40 ,aprox.), Sra.
Heloíza Aparecida de Paula Orichio (60, aprox.), Sr. Zanon (75), e Alessandro (38).
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Inventário de Patrimônio Cultural Imaterial
Chiador/MG
Ficha 001
Município: Chiador
Designação: Benzedeiros ou Benzedores
Data: Junho/2009
Distrito: Distrito Sede
Categoria: Saberes
Localidades envolvidas: Distrito Sede.
Periodicidade:
não se aplica.
Ambiência/Paisagem: não se aplica.
Responsável (is): Sra. Maria José e Sra. Eva.
Histórico e Caracterização:
A relação entre fé e cura permeia todas as religiões conhecidas pelos estudiosos desse campo. Benzer, nos
termos de um significado literal, consiste em “deitar a bênção”, abençoar. No entanto, existem
implicações particulares sobre esse termo quando o ato de invocar bênçãos é feito por aqueles chamados
benzedeiros, rezadores ou benzedores.
Diferentes de um padre ou outro tipo de sacerdote representante de uma instituição religiosa
consolidada, e com autorização de abençoar os devotos, os benzedeiros são pessoas comuns, em geral
consideradas como “muito simples” em relação às suas posses materiais e escolarização.
Contudo, são pessoas de referência em suas comunidades, sejam elas urbanas ou rurais, e muito
solicitadas nos momentos de aflição causada por males físicos e espirituais. Aos benzedeiros se atribui o
poder de curar através de suas bênçãos.
É também comum usar-se o nome reza para referir a uma benzeção, referindo-se ao benzedeiro como
rezador. Trata-se de uma reza, pois, a benzedura ou benzeção. Uma reza com o compromisso senão de
cura, de alívio imediato da aflição de quem procura pelos benzedeiros.
No catolicismo popular ibérico as práticas de cura por meio de bênçãos e a procura por esses recursos
eram muito presentes e, no processo de colonização do Brasil, foram difundidas e recriadas,
incrementadas com os repertórios de cura africanos e indígenas, os seus modos tradicionais de curar.
Em Chiador, município mineiro fundado em 1954 (com população estimada em 2.975 habitantes, no ano
de 2008), ao buscarmos representantes da cultura popular e tradicional, fez-se referência aos benzedeiros
que, “antigamente eram muitos”. Comentou-se que, “antigamente tinha mais, muito mais... hoje em dia tem pouca
gente, só a dona Fiota [...] e tem a dona Eva também... é verdade”.
A economia de Chiador é baseada na pequena lavoura (cana-de-açúcar, feijão e milho) e na pecuária
bovina leiteira, o que favorece a manutenção de um ambiente propício à prática de benzer: rural, com
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
vasta vegetação local, introduzida ou nativa, com menor acesso aos recursos farmacêuticos da medicina
científica em relação à sua disponibilização nas grandes cidades – ainda que o acesso aos mesmos não
seja determinante do desaparecimento dos benzedeiros e da busca pelas benzeções.
Informações Descritivas:
A noção de cura dos benzedeiros está associada a uma concepção particular de doença, que difere
radicalmente do modo como a comunidade científica caracteriza, diagnostica e trata as enfermidades.
Algumas doenças comumente tratadas pelos benzedeiros são:
Cobreiro, que é como denominam as irritações e feridas que se manifestam na pele, comumente atribuídas
ao contato de algum animal peçonhento (em especial as cobras e lagartos) com a roupa ou mesmo
diretamente com a pele do acometido (é comum referir-se também a algum tipo de herpes).
Espinhela caída, que é um mal-estar de corpo e espírito, indicado por imperfeições no comprimento dos
membros ou na postura do corpo dos aflitos. É comum diagnosticarem como espinhela caída a
percepção, no corpo de um aflito que se queixa de desânimo e mal-estar, de um braço estando
significativamente mais comprido que outro, ou de uma perna, mais que outra. Para avaliar se há ou não
espinhela caída, os benzedeiros medem, com auxílio de um cordão, a extensão de cada membro do
corpo, unificando, paralelos, as pernas e os braços.
Quebranto (ou quebrante), que, apesar de semelhante à espinhela caída, acomete somente as crianças de até
sete anos de vida (embora haja controvérsias em relação a esse limite de idade). Não se diz que uma
criança está com espinhela caída, mas com quebrante, ou que “botaram quebrante nela”. Nesse caso, o
diagnóstico é semelhante: medem seus membros, comparando perna a perna, braço a braço. A queixa,
quase sempre feita pelos pais da criança, é de que “ela está muito chorosa, desanimada, dormindo muito ou
dormindo muito pouco e muito mal”, ou seja, distúrbios na alimentação ou no sono da criança.
Irisipela (ou irisipela, ou zipela, ou isipela), que se refere a ocorrência de inchaços na pele e infecções
cutâneas cujo termo médico usado é erisipela.
Mau-olhado, que é uma doença exclusivamente de origem espiritual, provocada pela “má energia” de
terceiros. É comum os benzedeiros afirmarem que “muita gente bota mau-olhado, às vezes, sem querer, mas
porque a pessoa tem uma energia pesada mesmo, e às vezes fica querendo alguma coisa daquela pessoa... que [por isso] fica
mau olhada”.
Sol na cabeça, que é uma dor de cabeça constante ou enxaqueca.
Vento virado, que é um mau que acomete, mais comumente, as crianças de até sete anos de idade; mas há
pessoas que mencionam essa enfermidade em adultos. Definem que a causa, na maioria das vezes “é um
susto que a criança toma... às vezes de um banho muito frio, ou muito quente, ou de uma aparição, mesmo da pessoa que
cuida da criança, aparecendo assim de repente, assustando ela”. De vento virado, a criança não come direito, tem
dor na barriga, vomita, não dorme bem, chora muito, e “costuma cair muito porque uma perninha fica menor que
outra, aí a criança vai andar e cai”. Nos adultos, a manifestação de um vento virado pode ser dar “por alguma
careta que a pessoa faz e, vira o vento, e depois não volta mais pro lugar... a careta fica na pessoa pra sempre”.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Como a cura é sempre solicitada aos benzedeiros, fica evidente que quaisquer dessas enfermidades
descritas acima não são apenas físicas, mas de natureza espiritual. Por isso exigem a benzeção. Para serem
curadas ou devidamente controladas. Porque, no caso dessas doenças, não se consegue um alívio por
meio de uma consulta médica ou pelo simples uso de remédios oferecidos pela ciência.
Os métodos de benzer variam para cada tipo de aflição e também de acordo com os fundamentos e
técnicas de cada benzedeiro. É muito comum valerem-se de ramos, folhas ou outros materiais no
momento da benzeção. Um método recorrente é a consulta, após benzer o aflito, a um fenômeno com as
brasas de carvão lançadas num copo d’água. Desse modo, podem verificar se há mesmo um mau-olhado
na pessoa, ou um quebrante na criança enferma, e o grau de intensidade dessas enfermidades. Por esse
processo, depois da benzeção, uma oração é feita sobre um copo de água (que permaneceu já preparado,
cheio com água, durante a benzeção) contendo três brasas (quantidade variável, mas o número três é
recorrente, carregado de sentidos místicos). Com as brasas suspensas faz-se o sinal da cruz e as joga
dentro do copo. Reza-se um Pai Nosso e uma Ave Maria. Se depois da reza, as brasas afundarem,
entende-se que a pessoa estava mesmo sofrendo de um forte mau-olhado, ou a criança de quebrante, e
deve-se repetir a benzeção por mais duas vezes, em dias distintos. A quantidade de pedaços que afundam
é proporcional à intensidade do mau que acometia o benzido.
Em Chiador, a benzedeira dona Maria José, conhecida como Fiota ( 87 anos), contou que apesar de filha
de benzedeira, não aprendeu a prática com a mãe, Joana Torquato. Diz que “com mãe da gente a gente não
aprende muita coisa não [...] a gente aprende mais é com os de fora”.
Apresentando um registro de 1922, dona Fiota nasceu em uma grande fazenda na região de Chiador, a
Fazenda Marcon. Sua mãe “trabalhava com roça”, e “muita gente procurava ela pra benzer, sempre, assim que tinha
uma doença”.
Além de benzedeira dona Fiota também é famosa parteira da região, “dos tempos antigos”. Define a
benzeção como uma “oração pra quando a pessoa estiver doente”. Diz ser muito procurada, em especial pelos
“polícias”, porque são profissionais que correm muito perigo e precisam sempre de um reforço de
proteção.
Benze com auxílio de folhas de Vassoura Preta, planta que ela tem no quintal da própria casa onde há um
jardim de variadas flores e plantas. Segundo ela, a benzeção pode ser feita a qualquer hora e dia, exceto
de noite (depois de já posto o sol) e nos domingos “que é o dia em que Deus descansou”.
Durante sua benzeção, o enfermo se assenta em uma cadeira, diz o nome completo e ela inicia as orações
em voz muito baixa, quase silenciosa. Nesse momento, dona Fiota costuma “ver” algumas coisas sobre a
vida do benzido, e às vezes também pode fazer previsões para seu futuro. Ao final da benzeção, pede ao
aflito que saia portão afora e pule três vezes ou bata com o pé no chão por três vezes, mentalizando seu
livramento das más energias e enfermidades acometidas. Terminado esse ritual, conduz o benzido a
cumprimentá-la com um aperto de mãos, e a quem mais estiver presente.
Dona Eva (69 anos), outra benzedeira de Chiador, é nativa do município de Mar de Espanha. Mudou-se
ainda na infância para a fazenda Barra Mansa, trabalhando na roça com sua família, “até uns 10 anos atrás”,
quando mudou-se novamente, dessa vez para Chiador.
Diz ter aprendido a benzer com a mãe, mas que somente depois “de muito custo, que antes não interessava em
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
benzer não”. Não tinha muito interesse apesar de sempre ter visto a mãe benzer e socorrer os aflitos: “Às
vezes eu nem ficava perto [...] ela me perguntava se eu não queria benzer... porque às vezes aparece uma criança com vento
virado e é preciso socorrer a criança... Mas eu não me interessava não”.
Dona Eva começou a benzer com 50 anos de idade, quando decidiu que “é importante demais saber benzer,
pra ajudar os de casa e os de fora”. Segundo sua concepção, “Quem salva é Deus... mas a gente pode ajudar
benzendo”.
Além de sua mãe, sua avó também era benzedeira. Diz dona Eva que essa prática “vem da família mesmo. É
dos antigos da família mesmo que vem... e eu aprendi”. Na benzeção aprendida em família, dona Eva se vale de
raminhos de arruda com os quais benze pra curar quebranto, vento virado, bucho virado (mal-estar
crônico no estômago que faz “rejeitar qualquer comida”), e também para “cortar” cobreiro.
Faz benzeções preferencialmente pela manhã, podendo fazê-lo também à tarde, mas “nunca depois de o sol
se pôr”. Nos domingos também não é permitido benzer. Faz orações específicas para cada uma dessas
enfermidades. Todas essas rezas decoradas e pronunciadas “com muita fé, pra não pegar o peso da pessoa que a
gente está benzendo”.
Diz ter parado de benzer adultos justamente porque “o adulto é mais carregado” (referindo-se à carga de
energia negativa que acomete os enfermos adultos) e dona Eva já não pode com “tanto peso”, pois
encontra-se acometida por doenças graves, dentre elas Labirintite e Mal de Parkinson. Segundo a
benzedeira, “Pra não pegar a carga do aflito a gente apega em Deus, com muita fé. [...] Às vezes o olho [do
benzedeiro] até escorre água, parece chorar, de tanto carrego da pessoa [benzida]”.
Dona Eva também se vale da consulta ao carvão no copo d’água para verificar “o carrego” do benzido,
conferindo se tratava mesmo de mau-olhado ou quebrante, e a intensidade da carga do acometido.
Diz que sabe benzer para quebrante, mau-olhado, erisipela, espinhela caída, cobreiro, vento virado e
bucho virado. Para a benzedeira o quebrante é muito complicado porque, não raro, são os próprios pais
da criança que “botam quebrante nela”. Por acharem a criança muito bonitinha, terem “muito apego a ela...
botam quebrante sem querer... pois qual é o pai que quer ver o filho adoecer?”.
Vento virado é “um susto que a criança toma. Fica assustada, uma perninha fica maior que a outra... às vezes um
bracinho... A criança fica enjoada, vomitando... ou às vezes não dorme direito, chora muito... às vezes não come... É o vento
virado! A gente benze pra tirar isso. [...] Pra bucho virado eu também benzo”.
A benzedeira explica que bucho virado é “quando a boca do bucho vira pra baixo... a barriga incha, a criança não
come mais nada... e vomita muito”.
Dona Eva já soube de muitos benzedeiros em Chiador, entre homens e mulheres: “homem também pode
benzer. Os homens que eu sei que benziam, aqui em Chiador, já morreram todos... seu Tiãozinho... um senhor que morava
lá pra baixo... e teve uns outros que eu não me lembro o nome, mas eram todos gente daqui”.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Imagens:
Dona Fiota, parteira e benzedeira de Chiador.
Plantas usadas para benzeção: Arruda e Vassoura.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Bonequinhas com as quais dona Fiota treinava o “partejá”, conhecendo seus corpos e
cortando seus “imbigos”.
Sentidos atribuídos:
A medicina praticada no ocidente, até o fim do século XIX, era de orientação hipocrática (concentrandose em sangrias, vomitórios e purgantes como meio de equilibrar os humores do corpo), com resultados
pouco práticos e muitas vezes letais aos pacientes. Isso provavelmente contribuía para uma maior
procura por aqueles especialistas populares que têm o saber (e o poder!) de curar por meio de benzeções.
Em se tratando dessas práticas, é flagrante nos depoimentos recolhidos, que não basta ter o
conhecimento das orações e procedimentos (o saber técnico), mas é preciso ter um dom (um poder
concedido por Deus).
Benzer é curar por meio de bênção, de “rezas poderosas”. As doenças curadas com a benzeção são
enfermidades originadas principalmente por um distúrbio do espírito, sendo seus sintomas no corpo, um
sinal de que é preciso “aliviar o espírito dos malefícios”. Esses malefícios podem ter sido provocados por
terceiros, ou apenas irrompidos acidentalmente, como por exemplo, quando uma criança sofre um susto.
E mesmo sendo provocado por terceiros, não é raro que esses o façam involuntariamente, por não
conseguirem controlar uma “energia ruim” que lançam, sem querer, contra outra pessoa. Segundo os
benzedeiros, essa energia ruim, incontrolável, é muito presente nas pessoas “invejosas, amarguradas,
rancorosas... que não conseguem botar pra fora [tais sentimentos] sem atingir o outro”.
É recorrente ouvir das pessoas benzidas que após terem acesso a uma consulta médica, mas não obterem
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
os resultados esperados, procuram pelos benzedeiros. Outros já dizem recorrer aos benzedeiros de
antemão, porque sabem tratar-se de uma enfermidade que não diz respeito apenas a um estado do corpo,
mas, principalmente, do espírito. Nesses casos, apenas se a enfermidade persiste, é que buscam ajuda de
remédios da medicina alopática.
Para os benzedeiros, e, especificamente, as benzedeiras conhecidas em Chiador, por meio das rezas da
benzeção, “Quem salva é Deus” e as rezas são um “jeito de ajudar o doente a conseguir essa cura de Deus... Porque o
benzedeiro tem uma reza forte”. Todo caso, é preciso que o enfermo tenha fé na benzeção para que, de fato,
ele obtenha um alívio, ou até mesmo a cura para sua aflição.
Trata-se, portanto, de uma relação sagrada, de fé e de poder, uma entrega, tanto dos enfermos quanto
dos benzedeiros, às providências divinas e ao saber dos “antigos” que se sabem fazer uma “reza forte”.
Condições de preservação e mudanças ao longo do tempo:
O desenvolvimento da medicina moderna de orientação alopática acarretou mudanças na relação das
sociedades com sua saúde: a modernização industrial possibilitou um amplo acesso aos remédios, e à
sobrevalorização do conhecimento técnico-científico em detrimento dos saberes tradicionais,
transmitidos dos mais velhos para os mais jovens, principalmente pela oralidade e pela observação
participativa.
Contudo, os benzedeiros permanecem conservando consigo as orações e procedimentos ancestrais que
viabilizam as curas, especialmente no tratamento dos males considerados como fundamentalmente
espirituais.
As benzedeiras de Chiador mostraram perspectivas diferentes em relação à transmissão de pais para filhos.
Segundo dona Fiota, sua mãe, Joana Torquato, sabia benzer, mas não foi com ela com quem aprendeu,
diz que “com mãe da gente a gente não aprende muita coisa não [...] a gente aprende mais é com os de fora”. Apesar
disso, parece evidente que a referência familiar em relação ao saber seja uma plataforma que propicia a
sensibilidade ao conhecimento tradicional, ainda que o mesmo seja formalmente introduzido “pelos de
fora” da família.
Já segundo dona Eva, foi com a mãe que aprendeu a benzer, embora por bastante tempo tenha se
recusado a receber tal ensinamento. Foi por volta de seus 50 anos que dona Eva decidiu que queria
aprender, percebendo que “tinha mesmo um dom para benzeção”. Hoje em dia, dona Eva deseja ensinar às
filhas, mas diz que elas ainda não quiseram aprender. Espera que, ao menos uma delas, perceba que “tem
o dom” e queira receber os ensinamentos da mãe, “porque depende do dom da pessoa... e da boa vontade. Mas
tem o jeito certo de fazer... não é só saber qual é a oração não... tem um jeito bem certinho pra cada coisa”.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Bens Relacionados:
Bens culturais de natureza material associados: a vegetação local, destacando-se a Vassoura
Preta e a Arruda, famosa pelos seus "poderes" contra o mau-olhado e outras vibrações negativas. Em
culturas muito antigas, são encontradas referências sobre seus poderes contra as “más vibrações” e seu
uso na magia e religião. Na Grécia antiga, era usada para tratar diversas enfermidades, mas seu ponto
forte era contra as “forças do mal”. Já as experientes mulheres romanas costumavam andar pelas ruas
sempre carregando um ramo de arruda na mão - diziam que era para se defenderem contra doenças
contagiosas e, principalmente, para afastar os males invisíveis.
Bens culturais de natureza imaterial associados: as orações e as formas particulares de devoção
aos santos invocados para intervenção nas enfermidades.
Bibliografia:
CHALLOUB, Sidney (org.). Artes e ofícios de curar no Brasil. Editora da UNICAMP. Campinas, 2003.
PENTEADO, Yara Maria. A poesia da oração: curandeiros, benzedores e outros magos. Instituto Histórico e
Geográfico de Mato Grosso do Sul. Campo Grande, 2005.
Entrevistas com Maria José (87) e Eva (69), benzedeiras de Chiador.
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Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação
Impressão: Laboratório de Arqueologia da Fafich/UFMG.
Belo Horizonte, dezembro de 2009.
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