UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FURNAS CENTRAIS ELÉTRICAS S.A. Projeto: Memória e práticas culturais: registro e conservação (Condicionante do IBAMA) Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação AHE SIMPLÍCIO - QUEDA ÚNICA RELATÓRIO FINAL (SINTÉTICO) Laboratório de Arqueologia FAFICH UF Dezembro 2009 G UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FURNAS CENTRAIS ELÉTRICAS S.A. Projeto: Memória e práticas culturais: registro e conservação (Condicionante do IBAMA) AHE SIMPLÍCIO – QUEDA ÚNICA Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação RELATÓRIO FINAL (SINTÉTICO) Laboratório de Arqueologia UF Dezembro 2009 G Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação FICHA TÉCNICA Projeto: Memória e Práticas Culturais: registro e conservação Financiamento: Furnas Centrais Elétricas S.A. Execução: Laboratório de Arqueologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Gerenciamento: Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa – Fundep Coordenação Geral: Prof. Carlos Magno Guimarães Subprojeto 1: Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Pesquisadores: Fernanda Cristina de Oliveira Neto Gabriela Pereira Veloso Thaís Monteiro de Castro Costa (estagiária) 2 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação SUMÁRIO Apresentação 4 Introdução - Patrimônio Cultural Imaterial no Brasil – um Breve Histórico 5 - Memória e Práticas Culturais – Pesquisa e Relatório 8 - Manifestações da Cultura Imaterial 19 - Patrimônio Cultural Imaterial e Políticas de Preservação – indicações de medidas de proteção aos bens culturais identificados 70 3 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação APRESENTAÇÃO Neste relatório Final são apresentados os resultados atingidos pelo subprojeto: Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação, que integra o Projeto: Memória e Práticas Culturais: registro e conservação, desenvolvidos nos municípios atingidos pela AHE Simplício – Queda Única, a saber: Além Paraíba e Chiador, localizados em Minas Gerais, e Sapucaia e Três Rios, localizados no Rio de Janeiro. Conforme a proposta original, foi realizado um levantamento de práticas e manifestações culturais ainda existentes, para que sua identificação possa ser utilizada como ponto de partida para políticas de preservação tanto no nível municipal quanto estadual e federal. O levantamento contempla as diferentes formas de manifestação cultural no sentido de identificar suas condições de preservação e seus riscos de extinção. O resultado é o que constitui o conteúdo deste Relatório, ainda que em uma versão sintética. 4 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação INTRODUÇÃO Patrimônio Cultural Imaterial no Brasil – Um Breve Histórico Um grande marco na história das políticas públicas para o patrimônio cultural no Brasil ocorreu na década de 1930, com a elaboração por Mário de Andrade de um anteprojeto, encomendado pelo então Ministro da Educação, Gustavo Capanema, que culminou no Decreto nº 25, de 1937. Esse Decreto dispunha a instituição responsável pelos assuntos patrimoniais brasileiros, à época denominada SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual IPHAN. Esse anteprojeto de Mário de Andrade defendia, dentre outras idéias, que o patrimônio cultural brasileiro deveria compreender também a arte popular, descrita como a música, os contos e lendas, a medicina, os ditos e provérbios, as danças; bem como a arte ameríndia e afro-brasileira com seu vocabulário, magias, culinária etc. Essa proposta revolucionava em grande medida a concepção de patrimônio cultural vigente no Brasil, até então, que privilegiava apenas os monumentos e edificações de pedra e cal, excluindo da possibilidade de reconhecimento como bem representativo da cultura nacional os elementos mais importantes e fundamentais da cultura popular ou dos grupos étnicos brasileiros – representantes da população mestiça, negra e índia - cujas práticas, saberes e instituições primam muito mais por complexos processos de criação do que por grandiosos produtos acabados como edifícios e monumentos – esses, ícones da civilização ocidental. Contudo, tal proposta era ainda muito moderna para as mentalidades e disposições políticas da época e o texto final do decreto consolidou-se bem mais comedido, reiterando a primazia do patrimônio cultural material - produtos acabados, bens de pedra e cal -, como se evidencia no seu artigo primeiro que definia: “Constitui o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto dos bens móveis e imóveis (grifo nosso) existentes no país e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico” (Decreto nº 25, de 1937). Essa noção patrimonialista dos bens móveis e imóveis permaneceu por muitas décadas. Ou seja, apesar de já haver uma consciência de que para apresentar os “fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico” é preciso ter atenção às manifestações do patrimônio que vão muito além da sua materialidade, a prática do IPHAN e dos órgãos estaduais que nasceram depois do Compromisso de Brasília de 1973, continuavam a privilegiar somente os elementos que testemunham, prioritariamente, o conhecimento branco ocidental. E ainda mais exclusivamente, tudo aquilo que se preserva por meio do tombamento: praticamente, os monumentos arquitetônicos. 5 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Na década de 80, a concepção ampla de Mário de Andrade foi retomada por Aloísio Magalhães com a criação do Centro Nacional de Referência Cultural, que tinha por objetivo executar o “referenciamento da dinâmica cultural brasileira”, fazendo serem reconhecidas as matrizes populares e étnicas da cultura, nesse país. Nesse novo ambiente intelectual, que é fortemente orientado por uma perspectiva antropológica, é gestado o conceito amplo de patrimônio cultural inscrito na Constituição Federal de 1988: Art. 216 – Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial (grifo nosso), tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I – as formas de expressão; II – os modos de criar, fazer e viver; III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico- culturais; V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. Por uma perspectiva antropológica, o Patrimônio Cultural Imaterial pode ser compreendido como um conjunto de elementos expressivos que são reconhecidos pelo Estado Nacional (ou seja, são pensados no contexto e nos termos das políticas públicas), por evidenciarem os diferentes modos de conhecimento humano e organização da vida em sociedade (ou seja, as cosmologias ou visões de mundo, a partir das quais surgem as tradições e suas formas de expressão). Conhecimentos e modos de organização que as comunidades, grupos e indivíduos recebem de seus ancestrais e transmitem aos seus descendentes. Exemplificados em três dos cinco itens arrolados na Constituição é feita referência explícita aos “bens de natureza imaterial”: formas de expressão; modos de criar, fazer e viver; as criações artísticas. A partir desse marco, a política patrimonial brasileira assume novos compromissos em relação à valorização dos modos de conhecimento e das expressões da diversidade cultural da população. Apesar desse importante reconhecimento que ficou cristalizado na Constituição Brasileira de 1988, toda a legislação infraconstitucional, seja da esfera federal, estadual ou municipal, bem como o já referido decreto nº25 demonstraram-se ineficientes para uma efetiva proteção dessas manifestações processuais, cotidianas e dinâmicas, portadoras de valores enraizados da vida de uma comunidade, que constituem o patrimônio imaterial. Em termos práticos, aquelas regulamentações não foram capazes de estabelecer com eficiência uma nova política de preservação voltada para a identificação e acautelamento dos bens culturais representativos da pluralidade e diversidade dos grupos formadores do Brasil. 6 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Faltava um corpo normativo instrumental eficaz para pôr em operação a salvaguarda do patrimônio imaterial. Na década de 1990, estes instrumentos foram elaborados. Em consonância com o discurso da UNESCO, meios jurídicos, científicos e administrativos foram criados para atender às necessidades de preservação e transmissão do patrimônio cultural imaterial. Em 4 de agosto de 2000, o Decreto nº. 35511 - outro marco na história das políticas públicas voltadas ao patrimônio cultural, resultado de um grande esforço político e intelectual instituiu o registro dos bens culturais de natureza imaterial que constituem patrimônio cultural brasileiro, e criou o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial. O PNPI é um programa de fomento que busca estabelecer parcerias com instituições dos governos federal, estadual e municipal, universidades, organizações não-governamentais, agências de desenvolvimento e organizações privadas ligadas à cultura, à pesquisa e ao financiamento. Esse programa viabiliza projetos de identificação, reconhecimento, salvaguarda e promoção da dimensão imaterial do patrimônio cultural. No artigo primeiro do decreto 35511 fica determinado: Artigo 1º - Fica instituído o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial que constituem patrimônio cultural brasileiro. § 1º Esse registro se fará em um dos seguintes livros: I - Livro de Registro dos Saberes (grifos nossos), onde serão inscritos conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades; II - Livro de Registro das Celebrações, onde serão inscritos rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social; III - Livro de Registro das Formas de Expressão, onde serão inscritas manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas; IV - Livro de Registro dos Lugares, onde serão inscritos mercados, feiras, santuários, praças e demais espaços onde se concentram e reproduzem práticas culturais coletivas. Seguindo essa diretriz é que foi realizada pesquisa de campo nos quatro municípios investigados, cujos resultados são aqui expostos. 7 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Memória e Práticas Culturais – Pesquisa e Relatório Da Pesquisa O trabalho de pesquisa e registro das manifestações do patrimônio cultural imaterial dos quatro municípios investigados constituiu umas das ações do projeto mais amplo desenvolvido pelo Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Esse projeto foi realizado para satisfazer uma das exigências estabelecidas como condicionantes pelo Ibama, para concessão da Licença de Instalação – LI – 456/2007 do AHE Simplício – Queda Única. Em uma etapa de pré-produção, por meio da pesquisa bibliográfica, foi identificado o rico e diversificado universo histórico-cultural dos quatro municípios investigados. Nesse sentido, revelou-se a necessidade de um registro amplo que pudesse expressar essa variedade de elementos presentes, de modo heterogêneo, em toda a região. Foi realizado um trabalho exploratório que priorizou um levantamento do máximo de manifestações possíveis de identificar, durante o tempo disponibilizado para a pesquisa. A pesquisa bibliográfica consistiu em identificar aqueles livros e documentos que se referem à história social da região de fronteira entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro, e às práticas culturais da população dos municípios, investigados mais especificamente. A bibliografia foi lida e fichada, destacando-se informações importantes, tanto para nortear a ida a campo, quanto para comparar com informações coletadas nos locais. No trabalho de campo as metodologias empregadas foram observação participante (método próprio da pesquisa antropológica) e entrevistas semi-estruturadas, com atenção à história oral e às memórias dos entrevistados. A observação participante supõe uma interação entre pesquisador e pesquisado. As informações que são obtidas, pelas respostas que são dadas às indagações, dependerão sempre dos comportamentos e das relações desenvolvidas nessa interação. Isso implica, necessariamente, um processo longo de pesquisa. A pesquisa de campo, por ter um caráter exploratório, não permitiu aplicar muito tempo em uma única manifestação cultural identificada. Assim, essa metodologia é citada aqui apenas como um referencial de comportamento em campo. Apesar de o tempo investido em cada encontro pesquisador-pesquisado não ter sido longo, foi adotada o mais próximo possível, a postura característica da observação participante. Isso foi efetivo quando após localizar uma manifestação ocorrendo em seu contexto e tempo apropriados – foi mantida uma mínima duração do encontro, como no caso de algumas festas juninas e formas de expressão artísticas registradas. A história oral é uma metodologia usada em pesquisas históricas e sociológicas. É um processo de coleta de informações por meio da gravação de entrevistas com as pessoas que vivenciaram – direta ou indiretamente- os fatos investigados. Tais pessoas podem testemunhar acontecimentos, conjunturas, instituições, modos de vida e outros aspectos sociais mais gerais 8 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação que estão incorporados na história vivida por cada um. Como metodologia, a história oral surgiu na década de 1950, nos Estados Unidos, após a difusão do uso do gravador, e apareceu como importante meio de valorização das narrativas dos indivíduos relacionados aos objetos de pesquisa. No Brasil, essa metodologia foi introduzida na década de 1970, quando foi criado o Programa de História Oral do CPDOC. Em 1994, foi criada a Associação Brasileira de História Oral, que congrega membros pesquisadores de todas as regiões do país. Com o uso de tais metodologias, foi realizada pesquisa de campo, durante 2 meses, buscando encontros com pessoas, grupos e comunidades relacionados às manifestações da cultura imaterial local que, enquanto tais, são portadores de ricos saberes e testemunhas da diversidade cultural brasileira. Do Relatório Nos quatro municípios foram identificadas mais de 20 manifestações culturais, tendo sido dada atenção especial àquelas populares, que podem ser reconhecidas como patrimônio cultural imaterial da região. Para a elaboração do relatório, foi realizado antes o processamento dos dados brutos coletados em campo editados no modelo de fichas, que seguem – salvo pequenas adaptações direcionadas ao exclusivo interesse dessa pesquisa- as orientações formais do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – IEPHA/MG. Sua apresentação foi organizada dividindo-se as manifestações registradas por município investigado. Seu conteúdo é mais denso em termos de depoimentos e narrativas dos moradores consultados, que revelam os detalhes e particularidades da manifestação em cada lugar; além de trazerem informações sobre os recursos necessários para desenvolvimento dessas manifestações, as condições de preservação e mudanças ao longo do tempo, e seus sentidos particulares atribuídos pelos moradores. Já o relatório, em texto corrido, é uma outra forma de concentração de informações. Apresentando natureza complementar a este, será dividido por modalidades de manifestação da cultura imaterial (Saberes; Celebrações; Formas de Expressão; e Lugares). Desse modo será possível conhecer cada manifestação. A apresentação das manifestações em uma mesma seção vai possibilitar uma comparação do modo como foram registradas, nos diferentes municípios. As imagens utilizadas, tanto nas fichas quanto no relatório são, em sua maioria, de autoria dos pesquisadores. Quando não é o caso, é indicado o autor ou fonte na legenda e nas referências bibliográficas. Para uma caracterização preliminar da região – fronteira Minas-Rio – e dos municípios investigados - Chiador, Além Paraíba, Sapucaia e Três Rios –, é traçado um painel a partir de informações histórico-sociais sobre a mesma. 9 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Centro Sul Fluminense e Zona da Mata Mineira – Vale do Paraíba A região pesquisada está localizada no Vale do rio Paraíba do Sul - que estende-se ao longo de quase todo o comprimento do estado do Rio de Janeiro e separa parte deste estado de Minas Gerais. Mais aproximadamente, abrange o Centro Sul Fluminense –Três Rios e Sapucaia – e a Zona da Mata Mineira –Além Paraíba e Chiador. A história do Vale do Paraíba é intimamente relacionada ao ciclo econômico do café – e com ele, a violenta escravização dos negros e deterioração da mata atlântica original com a monocultura cafeeira. O ciclo do café foi período de intensa acumulação e circulação de capital para o Brasil imperial, que deu grande prestígio e poder político à região sudeste brasileira. “O norte da Província do Rio de Janeiro, como a Zona da Mata de Minas foram áreas que inicialmente não foram ocupadas de maneira sistemática, devido à preocupação da Coroa portuguesa em barrar o contrabando do ouro. O caminho que cortava esta área era o Caminho Novo, e as habitações se concentraram ao longo de seu trajeto para darem suporte aos viandantes que ali passavam. No ímpeto de recuperar economicamente, após a crise da mineração, a Coroa distribuiu terras para a produção de café em locais distantes do Caminho Novo. A expansão da fronteira no Vale do Paraíba fluminense se deu a partir de proprietários de Minas que tinham ligações fortes com a Coroa. Esses proprietários concentraram grande número de sesmarias e formaram grandes unidades fundiárias, voltadas principalmente para o café em escala internacional”1. Após a proibição do tráfico negreiro, os últimos negros vindos da África foram direcionadas para a região sudeste para o trabalho escravo nas lavouras de café. Essas já se estendiam ao longo do vale do rio Paraíba do Sul, desde o norte capixaba até o estado de São Paulo, cortando a província mineira e a fluminense. Nesse período, a exploração da mão-de-obra escrava era a maior fonte de acumulação dos latifundiários escravistas. As grandes fazendas foram sendo erguidas nessa região, aproveitando o vale do rio e os caminhos oficializados para fiscalizar do escoamento do ouro – favorecendo posteriormente o transporte do caféentre Minas Gerais e o litoral do Rio de Janeiro. Muitos dos escravos trazidos para a região vieram de Angola e da região do Congo. Tais africanos possuem uma matriz étnica comum, denominada Bantu (Os bantos, ou bantu constituem um grupo etnolinguístico localizado na África subsariana que engloba cerca de 400 subgrupos étnicos diferentes). Entre o final do século XVIII e o final do século XIX, todo esse contingente trabalhou nos cafezais, promovendo, ao longo da história, a formação da população mestiça afrobrasileira, habitante desse interior de Minas com Rio de Janeiro. 1 GUIMARÃES, Carlos Magno. ET AL. Histórico do Projeto Prospecção Complementar e Salvamento Arqueológico na Área a ser Impactada pela Implantação do AHE Simplício – Queda Única. 10 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Além dessa forte referência afro-brasileira, é importante destacar que, toda a região fora amplamente habitada por indígenas, antes da chegada dos colonos portugueses e dos africanos escravos. A Zona da Mata mineira, em particular, foi habitada por Botocudos e Puris. A maioria das manifestações da cultura popular identificadas nessa região apresenta grande referência dessa matriz afro-brasileira, sendo importante que seja destacada: em atenção às particularidades históricas e sociais originárias do patrimônio cultural imaterial registrado. Os Municípios Investigados A seguir são apresentadas algumas informações – bibliográficas oficiais e depoimentos dos moradores locais, que caracterizam de forma introdutória, social e historicamente - os municípios onde foram localizadas as manifestações culturais. Chiador / Minas Gerais Povoamento elevado à município em 1954 - anteriormente era distrito de Mar de EspanhaChiador é região ainda predominantemente rural, com muitos sítios e fazendas de pequena lavoura (cana de açúcar, feijão e milho, principalmente), criação de aves, bovinos , suínos, eqüinos; produção de leite e derivados; e plantio de cereais e hortaliças. É banhado pelos rios Paraíba do Sul e Cágado. A população atual é de cerca de 3000 habitantes2, distribuídos entre a sede de Chiador, distritos e localidades: Sapucaia de Minas, Parada Braga, Chiador Estação, Santa Fé e Penha Longa. Em documento disponibilizado por uma moradora, dona Vilma, proprietária do cartório, há registro de uma história, apresentada como oficial, sobre a formação de Chiador: “Em 1842, o português Antônio Joaquim da Costa abandonou a Vila de Barbacena e, com sua família e pertences, deliberou instalar-se em terras virgens, procurando por isso as matas do Paraíba. Não se conhece os detalhes de suas lutas para ocupação das terras que escolhera. Diz a tradição que o mesmo se instalou no local onde hoje existe a Fazenda da Serra da Arriba, deliberando, pouco depois, a construção, por ele próprio e seus escravos, de uma capela em honra a Santo Antônio. Concluída a capela, que hoje, depois de reformada, é a Igreja Matriz da Cidade, deu carta de liberdade ao escravos que trabalharam na construção, ao mesmo tempo que lhes permitiu construírem ranchos e cultivar a terra ao redor da capela. [...] Iniciou, dessa forma, o povoado que veio a tomar o nome de Santo Antônio dos Crioulos, posteriormente transformado em Santo Antônio do Chiador. [...] 2 IBGE,2009. 11 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Explica-se a razão do novo topônimo deve-se ao fato de existir, nas imediações da atual estação da estrada de ferro, uma corredeira de água, formada pelo Rio Paraíba, e que provoca chiador contínuo”3. Apesar da história oficial, os moradores demonstraram modos particulares de recontar, dando sua contribuição pessoal à memória coletiva sobre a formação do seu lugar de nascimento e morada. Alguns informaram que o nome Chiador foi dado por causa de um comentário de Dom Pedro II quando esteve no município, para inauguração da estação de trem da linha férrea com seu nome, E. F. Dom Pedro II. Outros dizem que o chiador referido no nome não é do rio mas da zoada do trem que passa constantemente pelo lugar . O município atualmente é considerado por seus moradores como muito pouco habitado, sendo um dos motivos principais da saída de moradores, os jovens que precisam trabalhar ou estudar e as famílias que buscam uma cidade com melhor estrutura urbana, mais recursos, produção e circulação de dinheiro. Observando a paisagem contemporânea de sua cidade, uma moradora comenta que todas as casas em torno da praça principal, que estão pintadas de azul, são de moradores que saíram do município e, anos depois, finalmente retornaram: “Aqui existe muito ainda um achego de família, sabe? As pessoas vão embora mas sentem falta e muitas delas voltam...se não volta pra morar, volta nas férias, no feriado... mas volta. A pessoa vai mas eles voltam”. (Dona Vilma, 70 anos, aproximadamente) Além Paraíba / Minas Gerais Com população de 34.591 habitantes (IBGE 2009) Além Paraíba foi elevada a categoria de cidade em 1883. Apesar de uma sede bastante urbanizada,o município apresenta muitas localidades rurais nas quais existem muitas manifestações culturais tradicionais. A história mais recorrente sobre o povoamento de Além Paraíba informa que a região foi originalmente habitada pelos índios Puris afugentados ou mortos pelos desbravadores estrangeiros. Conta-se que onde hoje localiza-se a cidade, era um território conhecido somente por tropeiros vindos da Côrte (Rio de Janeiro), até fins do século XVIII. Nas palavras do morador, Guilherme (aproximadamente 40 anos) co-fundador da Ong Culturar, com sede no distrito de Angustura, associação que desenvolve mobilizações comunitárias em prol da cultura local e pesquisas e estudos amadores acerca da região: “Existe um material arqueológico muito rico: de índios presentes na região muito antes do povoamento. Desde 1970 a Culturar busca o reconhecimento e a investigação com as devidas providências em relação a esses elementos da nossa história...mas não consegue correspondentes. Até hoje, pelos matos aí, a gente encontra 3 Fonte: Enciclopédia dos Municípios Brasileiros – Volume XXIV ano 1958. 12 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação machadinho, coisa assim, cerâmica... O que a gente encontra de informação na literatura que existe é que são objetos dos Puris. Aqui é terra dos Puris. [...] A gente sabe que essa região toda aqui era um circuito de áreas proibidas –área de contrabando, que era feito por Cantagalo...área de tráfego dos tropeiros... Os tropeiros saiam de Taboraí para chegar em Porto das Caixas. Angustura era entreposto de sal... O pessoal de São João Del Rey vinha buscar sal aqui.... [...] O caminho que é hoje o circuito da Estrada Real ia por Juiz de Fora e saia em Paraty. Angustura é fruto da rota de contrabando”. Com o descobrimento de minerais preciosos nas redondezas, intensificou-se a travessia do Rio Paraíba do Sul, e por volta de 1784 às margens do mesmo rio, um cais de madeira foi denominado de Porto do Cunha. A então Vila, em 1880, foi reconhecida por lei como Município de São José de Além Paraíba e apenas em 1883 foi levada a categoria de Cidade. Em 1923 passou a ter o nome atual. Sobre a constituição do distrito de Angustura, e como uma caracterização subjetiva desse lugar de origem da colonização do município de Além Paraíba, outro morador, Sr Jairo (70 anos), proprietário do cartório do distrito, deu informações que revelam uma importante incorporação das histórias que valorizam o lugar, que dão aos seus moradores o sentimento de pertencimento a uma terra com valor cultural: “Vamos começar de um princípio. Quando da fundação da localidade de Angustura... Isso aqui foi criado. A comunidade no seu período urbano foi criada quando da expansão da lavoura cafeeira... E vieram os poderosos com dinheiro... E na sua grande maioria eram os italianos... Muita gente sem escolaridade... trabalhadora... veio pra trabalhar na lavoura. [...] Então aqui, na época áurea do café , isso aqui foi mais importante economicamente do que Além Paraíba... Então por isso esses casarões aqui em Angustura. [...] Então daí depois dessa época do café é que se criou também a igreja...essa igreja começou a construção em 1856. Essa igreja é de 1856 a obra de engenharia é feita por um francês [...] aqueles alicerces de pedra, de madeira... Essa igreja é até muito importante... [...] É uma igreja muito bonita, uma das mais lindas da região. [...] Os tropeiros passavam por aqui traziam panela de pedra para vender... Eu ainda peguei esse tempo... mas a coisa mudou muito para o meio rural. Aqui foi rota do ouro. Tínhamos uma estação ferroviária aqui que agora chama Fernando Lobo... Além Paraíba era Porto do Cunha que era um porto de embarque de atravessar produtos pelo rio Paraíba que era navegável para pequenos portes. [...] No morro lá em cima, o Morro do Cruzeiro, moravam poucas pessoas... Hoje não... virou uma favela...como em toda cidade... [...] Essa mudança na aparência de Angustura foi provocada pelo êxodo rural... Pelo desinteresse pela lavoura... Porque lavoura hoje fica caro... [...] O negócio agora é gado de corte.... bois brancos... [...] E boi branco, se a pessoa tem 500 bois, duas pessoas tomam conta... não precisa mais empregado... Porquanto na época da predominância do leite, o gado precisava de tratamento por muita gente [...] tudo empregado... [...] Teve fazenda aqui que já teve 80 casas de colonos na fazenda – Fazenda da Conceição, por exemplo. Hoje nem de longe você vê isso. Mas já teve fazenda muito grande.” Sobre a denominação do distrito como Angustura, senhor Jairo destacou: 13 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação “Tem a história do fubá que derramou no rio... Então o que é que fubá com água: Dá o que? Angu não é? Então deu-se o nome do rio, de rio Angu. Diz que foi por isso aí que veio o nome da localidade: Madre de Dio do Rio Angu. O nome Rio Angu então é porque o fubá entornou na água no rio. Caiu uma tropa que como todas as tropas na época, passavam por aqui, com destino a Côrte, ou outros lugares mais urbanizados né... Eles estavam passando e a ponte rompeu. A tropa caiu dentro do rio – a tropa que levava o fubá...então fubá com a água do ri: rio Angu. Madre de Dio é a Mãe de Deus né... O pessoal muito religioso da época escolheu essa denominação que garantia uma proteção santa pro lugar... Então Mãe de Deus...Igual em outros lugares que o povo escolheu como padroeira a Nossa senhora Aparecida... [...] Mas aí vem a pergunta: por que Angustura? Angustura, vocês devem conhecer, é uma planta medicinal que dizem que havia muita por aqui. Mas tem outra versão que o povo daqui conta também que é da guerra do Paraguai. Contam que numa comunidade no Paraguai aconteceu uma batalha denominada Batalha de Angostura, com ‘o’... Isso aí é cada versão né: ‘Angustura’ a planta medicinal e ‘Angostura’ a guerra do Paraguai. E o que acontece, um soldado daqui, que estava na guerra do Paraguai, quando o comandante dele que foi ameaçado pela arma do adversário ele colocou-se na frente do comandante e morreu ... Então em homenagem a ele colocou-se o nome do lugar., se atirou pra proteger o comandante...diz que essa história é verdadeira... M as são duas versões e eu não sei qual é a mais correta. Mas Angostura e Angustura, faz lógica né... talvez as duas....a da planta medicinal e a desse solado... não sei.” Sapucaia / Rio de Janeiro Sapucaia é um município da região centro-sul fluminense, localizado na Serra da Mantiqueira, às margens do médio Paraíba do Sul. Faz limite no RJ com Três Rios, São José do Vale do Rio Preto, Teresópolis e Sumidouro; e em Minas com Além Paraíba e Chiador. Seu povoamento iniciou por volta de 1808, sendo criado como cidade em 1874. Conta uma versão sobre sua denominação que, havia muitas árvores que originalmente eram chamadas pelos indígenas habitantes de yaçapucaí. A cidade de Sapucaia já foi uma região de grandes indústrias - segundo Sr. Luiz Mário (65 anos aproximadamente) e Sr. Evando (75 anos aproximadamente) Sapucaia já teve grandes indústrias de laticínios, de móveis de “madeira boa” para o RJ, de postes usados para a eletrificação da luz na cidade; mas hoje “já não tem mais indústria de peso”, exceto o empreendimento de Furnas e Oldebrecht, a usina hidrelétrica. Atualmente a pecuária é a principal atividade econômica, além da produção de hortifrutigranjeiros. No Arquivo Municipal de Sapucaia há, disponibilizado, um documento do ano de 2002, escrito ou compilado por políticos habitantes do lugar – não há autoria indicada. Foi-nos indicado como um “documento que conta a história de Sapucaia nos seus detalhes”. Cabe reproduzí-lo aqui porque o texto evidencia o modo como alguns dos gestores do município e parte da sua população concebem sua história e caracterizam o lugar. Abaixo, são reproduzidas suas partes principais: 14 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação “Sapucaia A História viva de um Município Um mergulho na História” A primeira penetração verificada nas terras do atual Município de Sapucaia, cuja área é de 477 km², data de princípios do século XIX, estando intimamente ligada com as conseqüências advindas da fuga para o Brasil, da Família Real Portuguesa em 1807. Realmente, seis dias após o seu desembarque na Bahia, no dia 22 de janeiro de 1808, o então príncipe regente D. João, a instâncias do Visconde de Cairu, assinou o importante Decreto, pelo qual eram abertos os portos brasileiros aos navios das nações amigas de Portugal. Dentre os inumeráveis benefícios trazidos ao País por esse ato, ressalta o incremento de sua colonização, até essa época quase restrita aos súditos lusitanos. Entre os estrangeiros atingidos pelo Decreto em questão, citaremos, por estarem suas atividades ligadas ao desbravamento do território de Sapucaia, os nomes dos cidadãos suíços Antônio Inácio Lemgruber e Vicente Ubherlarto, aos quais, mais tarde, foram concedidas algumas sesmarias, cujas áreas abrangiam as terras da atual “Fazenda Santo Antônio”, situada nas proximidades do morro do mesmo nome, a 31 km da sede do Município, e às quais chegaram eles, segundo consta, no dia 7 de março de 1809. Pouco tempo passado, após a chegada desses dois colonizadores, começaram a afluir outros mais, entre eles os cidadãos portugueses Joaquim de Souza Breves e Antônio de Souza Brandão (mais tarde Barão de Aparecida), e Francisco Diogo Perret, de origem francesa. Continuando o afluxo de colonos para essa região, rapidamente surgiu nela um pequeno arraial, onde por iniciativa de Antônio Inácio Lemgruber, se erigiu uma capela dedicada ao culto de Nossa Senhora Aparecida. Desse pequeno núcleo populacional, resultou a hoje vila de Nossa Senhora Aparecida, hoje um dos distritos do atual Município. Anos mais tarde, atraídos pelas notícias correntes sobre a fertilidade do solo dessa região e de suas redondezas, novos colonizadores, em número sempre crescente, começaram a buscá-la, espraiando-se pelas terras circunvizinhas, abrindo novos caminhos e desbravando matas até então virgens. Como resultado dessa expansão, surgiu, em 1856, um novo arraial, cuja fundação se deve principalmente aos esforços de Augusto de Souza Furtado, Domingos Antônio Teixeira e José Joaquim Marques Melgaço, senhores de vastas porções de terra, entre os rios Calçado e Paraíba do Sul. A esse novo arraial, cuja categoria de curato foi reconhecida no mesmo ano de 1856, foi da à denominação de Santo Antônio de Sapucaia; o nome de Santo Antônio lhe foi conferido por ser esse santo padroeiro do curato; e o de Sapucaia, em virtude da existência, no local, de grande quantidade de árvores, conhecidas por “Sapucaias” (corruptela Yapaçucaí). Desde a fundação, o novo povoado prosperou com relativa rapidez, graças, sobretudo, à intensificação de suas lavouras. Entretanto, apesar do progresso verificado na localidade, somente em 1871 alcançou a denominação de freguesia, por força do Decreto ou Lei provincial nº 1600, de 16 ou 18 de novembro desse ano, cujo texto era o seguinte: “A povoação da – Sapucaia -, no Município de Magé, fica elevada à categoria de – freguesia -, 15 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação sob a invocação de “Santo Antônio de Sapucaia”, conservando os limites que actualmente tem como curato ecclesiastico nesta Província”. Três anos mais tarde, o elevado grau de evolução social e econômica atingido pela freguesia, forçou o Governo Provincial a alterar, novamente, a sua situação político-administrativa. O artigo 1º do Decreto ou Lei provincial nº 2068, de 7 de dezembro de 1874, estava assim redigido: “Ficam desmembradas do Município de Magé – as freguesias de Santo Antônio de Sapucaia e Nossa Senhora da Conceição da Apparecida, e do município de Parayba do Sul, a freguesia de São José do Rio Preto, constituindo um – município – que terá sua sede no arraial de Sapucaia, elevado à categoria de villa – e pertencente à Câmara Municipal de Parayba do Sul”. Segundo notícias colhidas no município, a sua instalação realizou-se no dia 28 de fevereiro de 1875, entre grandes manifestações de regozijo, por parte de seus habitantes. Desde o início de sua colonização, a economia de Sapucaia repousou quase exclusivamente na agricultura. Entre outras grandes lavouras, destacaram-se, em suas terras, as culturas de café e cereais. Grande foi a colaboração do elemento negro escravizado. O advento da lei Áurea, em 1888, foi por isso mesmo, golpe rude vibrado na economia municipal. As suas ricas plantações foram quase totalmente abandonadas, regredindo a escala de produção. Em 1892, de novo golpe foi vítima o município de Sapucaia, que, nesse mesmo ano, perdeu para o município de Petrópolis o território da Freguesia de São José Rio do preto, considerado até então a sua zona mais fértil e de maior produção cafeeira. Atualmente, o município de Sapucaia, cuja sede recebeu foros de cidade por força do decreto estadual nº 19, de 27 de dezembro de 1889, se bem se ressinta dos efeitos da crise motivada pelo êxodo rural, vem procurando equilibrar a sua balança econômica, derivando suas atividades para os setores do comércio/serviços e da agropecuária. As primeiras penetrações verificadas nas terras do atual município de Sapucaia datam do início do século XIX. A ocupação se efetuou através de um grupo de colonizadores, aos quais foram concedidas algumas sesmarias. A difusão da notícia sobre a fertilidade dos solos, próprios para o cultivo de café, provocou fluxo contínuo de colonos para região, permitindo o surgimento de arraiais, como que se desenvolveu em 1856, recebendo a denominação de Santo Antônio de Sapucaia. A rapidez com que o povoado prosperou o levou a atingir, em 1871, o predicativo de freguesia de Santo Antônio da Sapucaia e, em 1874, a categoria de Vila de Sapucaia, constituindo-se sede do novo município, cujo território desmembrou-se de Magé. O desenvolvimento da sede municipal remonta ao período de implantação da estrada de ferro Dom Pedro II, quando uma estação intermediária do ramal de Porto Novo do Cunha impulsionou o crescimento da Vila. O segundo momento de crescimento deu-se com a implantação da BR 393. A sede municipal situa-se em terraço de margem direita do Rio Paraíba do Sul, em faixa estreita entre o rio e as encostas íngremes dos morros, sem vales transversais, o que tornou sua expansão linear. 16 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação [...] Segundo o IBGE a evolução demográfica do município tem se caracterizado por grandes perdas da população em virtude de movimentos migratórios, ocasionados pela ausência de atividades econômicas dinâmicas, que possam criar oportunidade de empregos, tanto na área urbana como na área rural. Sapucaia atualmente atravessa um período de estagnação econômica. A comunidade espera que as melhorias e os benefícios necessários, sejam trazidos pelas obras de instalação das Usinas Hidrelétricas e das fábricas: Polwax e Paraibunas Embalagens, já pactuadas, pois elas poderão promover uma profunda transformação na região e ser um fator fundamental no desenvolvimento econômico e social do município” Três Rios / Rio de Janeiro Informa a história oficial - divulgada pela prefeitura do município – que a ocupação da região de Três Rios é relacionada ao ciclo do ouro, que motivou bandeirantes a desbravarem os entornos do Rio Paraibuna. Os núcleos de povoamento de Nossa Senhora de Mont Serrat, Nossa Senhora de Bem Posta e São Sebastião de Entre Rios foram assim constituídos no decorrer das primeiras décadas do século XVIII. A referência mais remota sobre o território do município de Três Rios é do início do século XIX. Iniciou como povoado, quando Antônio Barroso Pereira, após seu requerimento, obteve as terras de sesmaria no sertão entre os rios Paraíba e Paraibuna, em 1817. No texto formalizado da concessão dessa sesmaria pela coroa portuguesa, já se identifica uma origem do primeiro nome do lugar, Entre-Rios. Dentro do território, Antônio Barroso Pereira fundou cinco fazendas: a Cantagalo, fazenda mais importante, e as fazendas Piracema, Rua-Direita, Boa União e Cachoeira, todas vinculadas à primeira. Uma povoação mais intensa foi bastante favorecida coma construção da rodovia União e Indústria, inaugurada em 1861 com um trecho que ligava Petrópolis, Rio de Janeiro, à Juiz de Fora, Minas Gerais, atravessando as terras da fazenda Cantagalo. Em função da grande colaboração do fazendeiro proprietário, Antônio Barroso Pereira, o imperador Pedro II concedeu-lhe, em 1852, o título de Barão de Entre-Rios. A construção da rodovia União e Indústria foi apoiada pelo governo imperial brasileiro, com sua concessão do direito de exploração, por 50 anos, ao Comendador Mariano Procópio Ferreira Lage, a partir de 1854. Os trabalhos iniciaram em 1856 executados pela empresa de mesmo nome, União e Indústria (nome em homenagem à união entre as províncias de Minas Gerais e Rio de Janeiro e à indústria do café e outras que fossem estimuladas pela disponibilização de uma grande rodovia). Sua receita provinha da cobrança de pedágio por mercadoria (por burro carregado) transportada pela rodovia (PEIXOTO, Dídima de Castro. História Fluminense, 1969). 17 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Conta-se que, ainda em sua homenagem, à estação rodoviária local foi dado o nome de Estação de Entre-Rios. Com o batismo da estação não tardou que o pequeno povoado, formado às margens da rodovia, passasse a ser conhecido como Entre-Rios. Com a implantação da estrada de Ferro Dom Pedro II, em 1867, o povoado de Entre-Rios urbanizou-se ainda mais e tornou-se um importante entroncamento rodo-ferroviário. Somada à movimentação intensa pela rodovia e ferrovia, a oportunidade do aforamento de terras veio efetivar um relativo progresso para o local, que então, em 1890, foi elevado a 2º distrito de Paraíba do Sul. A Estrada de Ferro Dom Pedro II foi a primeira linha a ser construída pela Companhia de Estrada de Ferro D. Pedro II. Foi contratada ao engenheiro inglês Edward Price, em 1855, pelo governo imperial brasileiro. Seria para o investimento em uma primeira seção de uma grande estrada de ferro com o objetivo de promover, a partir do Rio de Janeiro (então Município da Corte), uma integração do território brasileiro. A partir de 1889 passou a se chamar E. F. Central do Brasil (BENÉVOLO, Ademar. Introdução à História Ferroviária do Brasil – Estudo Social, Político e Histórico, 1953). Com o aceleramento do progresso local, tornando-se superior ao distrito sede de Paraíba do Sul – em termos de população, contingente eleitoral e arrecadação de impostos-, Entre-Rios foi desmembrada e elevada a município, em 1939. Todavia, o município, que tinha a toponímia de Entre-Rios, foi solicitado, por volta de 1940, por órgãos federais, a mudar a sua denominação em função dessa triplicidade do nome ser existente em outros municípios brasileiros. A partir de 1943, o município de Entre-Rios passou a chamar-se Três Rios, insinuando uma referência aos três rios mais importantes que atravessam o seu território: rios Paraíba do Sul, Piabanha e Paraibuna. 18 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Manifestações da Cultura Imaterial Foram identificadas mais de vinte (20) tipos de manifestações culturais, presentes heterogeneamente, na região investigada. Dentre elas, destacam-se: carnaval e sambistas, paumineiro (ou mineiro-pau), bandas de música e folia de reis, em Além Paraíba; carnaval, festas juninas e afro-brasileiras, em Três Rios; cavalgadas, encenação da Paixão de Cristo na Semana Santa, parteira e benzedeiras, em Chiador; música popular, mineiro- pau (ou pau-mineiro), calango, banda de música e festa de Santo Antônio, em Sapucaia. 1. Saberes e Formas de Expressão O Programa Nacional do Patrimônio Imaterial instituído pelo decreto nº. 35511 de 4 de agosto de 2000, define uma das modalidades de manifestação da cultura imaterial como Formas de Expressão. Sob essa designação, no livro de registros do IPHAN, ficam inscritas as manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas. Sob a designação de Saberes, ficam inscritos os conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades. Segue-se uma apresentação das formas de expressão e saberes identificados nos município trabalhados. 1.1. Artesanatos A atividade artesanal é um campo da criação humana que, como tal, tem muito a informar, pelos seus aspectos subjetivos, estéticos, simbólicos, históricos, sociológicos, e antropológicos. De acordo com essa perspectiva interdisciplinar, o artesanato é destacado como um processo cultural de produção material que, ao produzir objetos, reproduz valores, sentidos e estéticas característicos da sociedade de que fazem parte os artesãos. Pensar o artesanato é refletir sobre a imaterialidade desses objetos – as dimensões intangíveis que operam no processo de produção das coisas. Na concepção do escritor mexicano Otávio Paz, falar de artesanato é falar mais de pessoas do que de objetos, pois o produto resultante do trabalho artesanal é um produto “com alma”, onde estão presentes o saber, a arte, a criatividade e a habilidade. Artesanatos são artefatos, artifícios humanos agregados com valores de uso, de troca e, especialmente, com o valor cultural das expressões dos seus produtores. É essencialmente o trabalho manual ou a produção própria de um artesão que, frente à intensa padronização dos produtos industriais do mercado, passa a ser valorizada pelos seus elementos expressivos, por sua autenticidade ou exclusividade das peças, quase nunca idênticas umas às outras, e pelos seus atributos simbólicos, muito característicos nas culturas populares. 19 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Em geral, o produto artesanal reflete a relação do artesão com o meio natural e cultural onde vive. Representa um saber local, uma forma de expressão das vivências estéticas possíveis de serem experimentadas na condição particular em que vive o artesão – que pode ser orientado exclusivamente por saberes e modos de fazer tradicionais, ou também informado com referências extra-locais, conhecidas por meio das mídias que sejam mais acessíveis (rádio, tv, revistas, internet). É nos termos dos processos, das técnicas empregadas e das condições culturais em que é desenvolvido que o artesanato aparece como patrimônio cultural imaterial: não em si mesmo, mas como produto de um processo artesanal, onde inscrevem-se os saberes, os modos de fazer e as expressões artísticas do artesão. Produto e processos expressam uma atividade popular e tradicional, independente de uma formação artística acadêmica, ainda que, muitas vezes, o artesão possa ter algum nível de contato com uma orientação técnica mais formal. Grosso modo, artesãos são os antigos ferreiros, carpinteiros, marceneiros, costureiras, moinheiros, alambiqueiros; mas também os artistas de casa que decoram uma almofada com fuxicos, bordam ou rendam uma toalha de mesa, recriam uma caixa de papelão. Podem trabalhar usando ferramentas e mecanismos domésticos ou profissionais, e é muito comum o reaproveitamento de materiais. As peças produzidas podem ser utilitárias, decorativas ou recreativas, feitas com ou sem a finalidade comercial. A venda de artesanatos tem grande importância como alternativa de renda para os artesãos, principalmente para aqueles de condição rural, sob a qual há um repertório mais restrito de possibilidades de obtenção de renda. Além Paraíba: A atividade artesanal de Além Paraíba não é organizada coletivamente, na forma de uma cooperativa ou associação. Existe, porém, uma loja de artesanatos, administrada pela prefeitura municipal, onde a riqueza e a diversidade de peças encontradas destacaram o artesanato da região como bastante expressivo. Segundo Leninha, funcionária de Além Paraíba e administradora da loja de artesanatos da Casa da Cultura, que existe há mais de 10 anos, os artesãos deixam seus produtos na loja, em consignação, e “eles não tem relação uns com os outros – ou pelo menos não que eu saiba. Mas muitos produzem as coisas em família, mães, pais e filhos. E os artesanatos são muito bonitos”. Segundo Luciana e José Caetano, um casal de artesãos moradores do município, o artesanato é muito importante porque complementam a renda da casa. Os artesanatos mais presentes na loja são: pinturas em telas e tecidos (com temas de embarcações, praia, mar, ou ambientes rurais, carros de boi, fogão a lenha); roupas e decorações em crochê, tricô, e bordados; utensílios feitos com reciclagens: tampas de latinhas, latas de molho de tomate, recipientes de desinfetante; esculturas em madeira; jarros antigos de leite, decorados com pinturas e aplicações de tecido; toalhas de fuxico; telhas decoradas com 20 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação pintura e texturas; chinelos de borracha decorados com contas e tecidos; aventais para cozinha, panos de prato, toalhas de mesa bordadas e decoradas com aplicação de tecidos coloridos; bonequinhas de pano e bonecas feitas com corpinho de garrafa pet; flores de garrafa pet; doces e licores caseiros (manga, figo, jaca, ambrosia, leite e côco); cachaças de alambiques artesanais da região; bibelôs feitos e conchas e crochê, para decorar geladeira; cascas de côco e caixas de papelão decoradas. Três Rios: No município de Três Rios, há uma associação de artesãos cujos participantes mais antigos iniciaram uma organização coletiva por volta de 1960. Segundo informa uma das artesãs mais antigas da Associação: “Tudo começou em 1966 com o Mobral de Três Rios. uma das diretoras do Mobral reuniu as pessoas que sabiam fazer artesanatos e mobilizou o grupo para produzir e expor na praça São Sebastião, [...] principal praça da cidade.[...] Começou a história das feiras de artesanato, cada um expunha seus produto nos domingos, no banquinho mesmo da praça. [...] Forrávamos tudo direitinho, e fazíamos a exposição quando ainda nem havia estrutura de barraquinhas. Tudo com autorização da prefeitura. [...] Já existia o bordados, as pinturas em tecido, pinturas em tela, as flores de tecido que na época eram muito apreciadas... Era uma moda mesmo. [...] No início foram poucos expositores, depois começaram a se reunir um grupo de mães artesãs, começaram a aderir e estimular umas às outras trocando receitas sobre bordados, pinturas, crochê, tricô, fuxico... Coisas que elas tinham aprendido com as avós...ou com as tias mais velhas...e muitas delas já não praticava há muitos anos.” (Marilene) O grupo se oficializou como Associação de Artesãos, pela motivação pessoal de cada um para manter essa atividade como elemento importante da vida, renovar seus conhecimentos, adquirir renda e, sobretudo, estreitar e manter os laços de solidariedade do grupo. Nesse contexto, a associação se consolidou como um espaço inclusivo para as mulheres já em idade adiantada, uma possibilidade alternativa de renda e de expressão de subjetividades, afetos e desejos; além de espaço para uma intensa troca de experiências entre as colegas associadas. Heloíza presidente da associação se iniciou no artesanato por volta de 1986, 1987, quando acompanhou de perto a mobilização dos artesãos de Três Rios, principalmente as mulheres, “mães de família”. A partir disso o artesanato foi ganhando mais visibilidade na cidade, as pessoas foram divulgando a feirinha, procurando pelos produtos, e as mulheres sentindo-se cada vez mais estimuladas a dedicar parte do seu tempo cotidiano às atividades artesanais. Em 2002 foi formalizada a associação, integrada predominantemente por mulheres artesãs. A associação de artesãos possui sede (um espaço próprio, cedido pela prefeitura municipal, próximo ao centro comercial da cidade), estatuto e uma dinâmica de trabalho, próprios: “temos de revezar na loja e oferecer os cursos que muitas vezes são voluntários, ou então as alunas pagam, mas uma valor, assim, simbólico”. 21 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Dos atuais 25 associados, todos são mulheres, em sua maioria acima de 40 anos de idade, em geral donas de casa aposentadas. A sede funciona como loja, onde os artesanatos são vendidos, e oficina de produção dos artesãos associados. Contam com uma parceria do SEBRAE, desde antes da formalização como associação, em 2002. Promovem cursos de pintura em tecido; corte e costura; bordados; tricô; arte em papel; crochê; fuxicos. A sede também oferece o espaço para aquelas artesãs que não têm um ambiente de trabalho em casa – “por falta de espaço ou de sossego pra trabalhar”. As peças produzidas são muito variadas: bolsas, chepéus e luvas de crochê; panos de prato, aventais de cozinha e jogos de mesa bordados ou decorados com aplicação de tecidos (patchwork); cortinas, caminhos e toalhas de mesa decorados; porta-retratos, oratórios, molduras em papel ou madeira; colares, brincos, terços e rosários em contas e tecidos; bonecas de pano; esculturas em madeira, argila e pedra; cestos de palha ou papel; móveis de bambu; pinturas em tela; e outros artesanatos de váriados tipos, cores e texturas. 1.2. Bandas (civis) de Música No Brasil, as corporações musicais, as liras e bandas de música têm sido a única escola, para um considerável contingente de músicos, amadores e profissionais, podendo ser considerada como responsável pela mais ampla educação musical do brasileiro, principalmente dos habitantes do interior. São ateliês de formação musical onde o aprendizado está relacionado à prática coral e instrumental. Em geral, não pretendem formar profissionais, mas músicos de qualidade, para atender às solicitações de parte da sociedade que aprecia e deseja a música no seu lazer. Alceu Maynard Araújo no seu livro Folclore nacional: Danças, Recreação e Música (vol. 2: 358-359), destaca as corporações, bandas e liras como um “capítulo do folclore”, ressaltando que: “A banda de música do coreto da pracinha é um retalho da alegria bem brasileira vivida pela gente das comunidades rurais. [...] Pelo Brasil a fora, as “furiosas”, nome popular das bandas de música, encheram e ainda enchem de encantamento, alegria e entusiasmo os momentos de lazer da vida das comunidades interioranas... e de algumas capitais também, por ocasião das festas em datas cívicas nacionais, festas religiosas calendárias ou do santo padroeiro local, nas procissões, nas vitórias eleitorais e hoje nas do time de futebol que venceu o quadro da cidade vizinha com a qual há sempre rivalidade insopitável, bem como também se apresenta aos sábados ou domingos à noite. A banda de música, quer exista ou não coreto na pracinha, está presente, está junto ao coração de milhares de brasileiros, ritmando o sue pulsar com o seu ra-ta-tchim-tchim festivo.” A existência e a história das bandas de música são fundamentalmente uma forma de expressão da musicalidade, popular ou erudita, dos moradores: um dos modos importantes de se organizarem, valorizarem e vivenciarem sua disposição, enquanto músicos ou apreciadores, para o que consideram como “boa música”. Esse sentido foi revelado pelos depoimentos e 22 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação memórias das pessoas consultadas, responsáveis ou indiretamente ligadas à história da sociedade musical – sócios, ex-sócios, músicos, apreciadores e simpatizantes. A banda opera como um encontro de muitas gerações, crianças, jovens, idosos, participando dos momentos mais importantes da cidade. É um elemento fundamental para os momentos solenes e de recreação dos seus moradores. Principalmente para aqueles mais antigos, “do tempo das valsas, dos boleros, quando as marchinhas eram a música mais popular”, como nos disse um morador consultado. Segundo informantes envolvidos com as bandas de música, uma escola para a introdução dos mais jovens, “é que pode dar conta de não deixar a banda acabar, porque renova o grupo de músicos”. A necessidade dessa atividade de educação musical pela sociedade é fundamental para a continuidade de suas atividades musicais, com a qualidade a que aspiram seus integrantes: maestro, músicos e demais associados. Sapucaia: A Sociedade Musical Santa Cecília, de Sapucaia, foi fundada em 1953, sendo composta por músicos e sócios, e prevendo a existência de uma escola de música. Antes de configurar-se como sociedade musical organizava-se como uma lira, denominada Unidos de Euterpe. Banda e escola da sociedade musical Santa Cecília, funcionaram, desde 1953, passando por alguns momentos de crise, “as vezes faltavam muitos músicos, as vezes alguém tinha um problema de saúde, e faltava, e era uma pessoa que não conseguíamos substituir.... as vezes faltava recurso pra continuar com a escola...”, mas, há quatro (4) anos a crise foi mais grave e a banda ficou completamente desativada, “quando o prefeito simplesmente cortou os recursos [...] não tinha mais como pagar o ,maestro, nem os professores de música”. No ano de 2009 teve iniciada sua reativação pelos moradores, músicos e apreciadores da banda, retornando, inclusive, com as atividades de escola. A Banda de Santa Cecília conta atualmente com auxílio do maestro Édson e demais músicos da Banda Sete de Setembro de Além Paraíba. Anteriormente à desativação da banda por falta de estímulos e subvenção, conta-se que “sempre se apresentou com 80% de músicos de sapucaia [...] mas agora é a Sete de Setembro, de Além Paraíba quem dá corpo pra banda. A Carlos Gomes também apóia”. Em 2009 a banda teve participação ativa (com auxílio do maestro e músicos da banda Sete de Setembro) na festa de Santo Antônio, contribuindo nos momentos mais importantes: alvoradas, procissão, e apresentando-se no coreto da Praça Barão de Ayuruoca, em frente à igreja matriz. Os moradores mais velhos mostraram muita satisfação, emocionados com o retorno da banda, que já há quase quatro anos não tocava na cidade com tamanha expressão. Os sócios da Sociedade Musical Santa Cecília são classificados em: beneméritos, honorários, fundadores, contribuintes e músicos. 23 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Nos seus programas de apresentação constam: marchas, dobrados, valsas, samba, lambada, polca, choro, maxixe, baião, embarcada, boleros, mambo ou chachacha, e rumbas, entre outras composições populares ou eruditas, incluindo as composições de músicos da cidade, o que demonstra a rica cultura musical de Sapucaia. Dobrados, marchas e hinos são consideradas as composições mais características de uma banda de música. O dobrado nos foi apresentado como “o ritmo próprio das bandas, junto com as marchas e os hinos”. A bibliografia explica que, no Brasil, as marchas militares também são conhecidas como dobrados, mas que, porém, o dobrado tornou-se um estilo de música diferenciado, o mais tocado nas bandas de música. Além Paraíba: Em Além Paraíba há duas bandas de música civis tradicionais: a Sete de Setembro, primeira a ser formada, com mais de 120 anos de existência; e a Sociedade Musical Carlos Gomes, com 113 anos de idade. De acordo com depoimentos do sr. Hamilton (aproximadamente 60 anos) e do sr. Jorge (aproximadamente 60 anos), respectivamente, maestro e vice-presidente da Sociedade Musical Carlos Gomes, de um modo geral, o estado de Minas Gerais possui uma tradição política de apoio à bandas de músicas das cidades do interior. Em 2009, são aproximadamente 31 integrantes na banda, entre jovens e adultos. Mesmo com o relativo sucesso, Hamilton aponta que perdem-se muitos músicos porque a cidade é pequena. Quando o músico atinge certa idade, se não arruma emprego, vai embora. A banda é uma história que passa pela família dos entrevistados. Desde os cinco anos de idade, Jorge lembra que acompanha a banda, onde seu pai foi ritmista (percussão). No caso de Hamilton, ela foi determinante para sua existência. Seu pai veio para Além Paraíba para tocar na orquestra do clube, quando, então, conheceu a esposa, que era filha do maestro da outra banda tradicional, a Sete de Setembro. O irmão de Hamilton foi presidente da Sete de Setembro, por muito tempo, mas, por conflitos pessoais, acabou saindo do grupo e foi tocar na Carlos Gomes – banda pela qual passou toda a família. O aluguel de dois cômodos de sua sede, no centro de Além Paraíba, é que garante a manutenção da Sociedade Musical Carlos Gomes. Isso só foi possível com a construção de um segundo andar na casa, a partir dos esforços de todos os membros e simpatizantes do grupo. Outra fonte de renda provém da prefeitura, que dá um apoio, principalmente para o pagamento das viagens. O maestro Hamilton recebe pela função, e também pelas aulas que dá. Como outras bandas pelo interior, os compromissos da Carlos Gomes giram em torno das festas religiosas e civis. Um evento próprio e tradicional é o baile de domingo, que acontece toda semana, há aproximadamente 15 anos. É uma seresta, com apresentação de boleros, 24 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação atraindo, sobretudo, freqüentadores da terceira idade. Nas quintas-feiras, também havia um baile tradicional (de mais de uma década; interrompido em 2008) no Rex Clube. Outros eventos de destaque no calendário são os encontros de bandas. Além da troca artística e do convívio, esses eventos propiciam uma rivalidade entre os conjuntos, estimulando os músicos a melhorar. Rivalidade saudável, como a existente hoje entre a Carlos Gomes e a Sete de Setembro. 1.3. Benzedeiros A relação entre fé e cura permeia todas as religiões conhecidas pelos estudiosos desse campo. Benzer, nos termos de um significado literal, consiste em “deitar a bênção”, abençoar. No entanto, existem implicações particulares sobre esse termo quando o ato de invocar bênçãos é feito por benzedeiros, rezadores ou benzedores. Diferentes de um padre ou outro tipo de sacerdote representante de uma instituição religiosa consolidada, autorizado a abençoar os devotos, os benzedeiros são pessoas comuns, em geral consideradas como “muito simples” nos termos de suas posses materiais e escolarização. Contudo, são pessoas de referência em suas comunidades, sejam elas urbanas ou rurais, e muito solicitadas nos momentos de aflição causada por males físicos e espirituais. Aos benzedeiros se atribui o poder de curar através das suas bênçãos. É também comum usar-se o nome reza como sinônimo de benzeção, referindo-se ao benzedeiro como rezador. Trata-se de uma reza, pois, a benzedura ou benzeção. Uma reza com o compromisso senão de cura, de alívio imediato da aflição de quem procura pelos benzedeiros. No catolicismo popular ibérico as práticas de cura por meio de bênçãos e a procura por esses recursos eram muito presentes e, no processo de colonização do Brasil, foram difundidas e recriadas, incrementadas com os repertórios de cura africanos e indígenas, os seus modos tradicionais de curar. A noção de cura dos benzedeiros está associada a uma concepção particular de doença, que difere radicalmente do modo como a comunidade científica caracteriza, diagnostica e trata as enfermidades. Como a cura é sempre solicitada aos benzedeiros, fica evidente que quaisquer dessas enfermidades descritas acima não são apenas físicas, mas de natureza espiritual. Por isso exigem a benzeção, para serem curadas ou devidamente controladas. Isto porque no caso dessas doenças não se consegue um alívio por meio de uma consulta médica ou pelo simples uso de remédios oferecidos pela ciência. Os métodos de benzer variam para cada tipo de aflição e também de acordo com os fundamentos e técnicas de cada benzedeiro. É muito comum valerem-se de ramos, folhas ou 25 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação outros materiais no momento da benzeção. Um método recorrente é a consulta a um fenômeno com as brasas de carvão lançadas num copo d’água. Desse modo, podem verificar se há mesmo um mau-olhado na pessoa, ou um quebrante na criança enferma, e o grau de intensidade dessas enfermidades. Por esse processo, depois da benzeção, uma oração é feita sobre um copo de água (que permaneceu cheio com água, durante a benzeção) contendo três brasas (quantidade variável, mas o número três é recorrente, carregado de sentidos místicos). Com as brasas suspensas faz-se o sinal da cruz e as joga dentro do copo. Reza-se um Pai Nosso e uma Ave Maria. Se depois da reza, as brasas afundarem, entende-se que a pessoa estava mesmo sofrendo de um forte mau-olhado, ou a criança de quebrante, e deve-se repetir a benzeção por mais duas vezes, em dias distintos. A quantidade de pedaços que afundam é proporcional à intensidade do mau que acometia o benzido. O desenvolvimento da medicina moderna de orientação alopática acarretou mudanças na relação das sociedades com sua saúde: a modernização industrial possibilitou um amplo acesso aos remédios, e a sobrevalorização do conhecimento técnico-científico em detrimento dos saberes tradicionais, transmitidos dos mais velhos para os mais jovens, principalmente pela oralidade e pela observação participativa. Contudo, os benzedeiros permanecem conservando consigo as orações e procedimentos ancestrais que viabilizam as curas, especialmente no tratamento dos males considerados como fundamentalmente espirituais. As parteiras, atualmente reconhecidas pelo governo federal como portadores de um saber tradicional, ainda sofrem e já sofreram muita discriminação no Brasil, apesar de serem tão necessárias. Apesar disso, sempre houve quem precisasse, confiasse e admirasse o saber e coragem dessas mulheres que, apegadas em Deus – ou não- exerciam esse saber com grande generosidade e confiança. É comum serem admiradas por sua solidariedade às parturientes, “Sai de casa, as vezes de madrugada, as vezes num frio danado, pra ajudar a mulher no parto... gente que nem conheceu... que nem é agradecido... as vezes ficava hora lá...madrugada inteira... até o menino nascer”. (José Eduardo, neto de parteira). Como saber tradicional, a prática do partejamento vem sendo registrada ao longo de anos por pesquisadores de várias áreas, interessados nas técnicas, nas histórias e nos sentidos simbólicos dos partejamentos. Desse modo, os registros já são uma forma de preservar memórias e referências de como se faz e se pensa o ato de partejar. Apesar disso, na prática, apesar de ainda hoje no Brasil haver grande necessidade de voluntários interessados em dar assistência às parturientes habitantes de regiões mais sertanejas, as parteiras e seu conhecimento estão se extinguindo. A busca pelas parteiras também tem sido cada vez mais incomum, uma vez que o acesso aos serviços médicos, por piores que sejam, são bem mais freqüentes, mesmo nos interiores do Brasil. Contudo, pela necessidade ainda atual das parteiras tradicionais, o governo brasileiro vem implementando políticas de apoio e promoção das práticas dessas mulheres, agregando conhecimentos técnico-científicos aos seus modos tradicionais de proceder a um parto oferecendo cursos e assistência as parteiras. 26 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Chiador: Em Chiador, município mineiro fundado em 1954 (com população estimada em 2.975 habitantes, no ano de 2008), a economia é baseada na pequena lavoura (cana-de-açúcar, feijão e milho) e na pecuária bovina leiteira, o que favorece a manutenção de um ambiente muito propício à prática de benzer: rural, com vasta vegetação local, introduzida ou nativa, com menor acesso aos recursos farmacêuticos da medicina científica, relativamente à sua disponibilização nas grandes cidades - ainda que o acesso aos mesmos não seja determinante do desaparecimento dos benzedeiros e da busca pelas benzeções. A busca de representantes da cultura popular e tradicional, teve como referência os benzendeiros que, “antigamente eram muitos”. Comentou-se que, “antigamente tinha mais, muito mais... hoje em dia tem pouca gente, só a dona Fiota [...] e tem a dona Eva também... é verdade”. A benzedeira dona Maria José, conhecida como Fiota ( 87 anos), contou que apesar de filha de benzedeira, não aprendeu a prática com a mãe, Joana Torquato. Diz que “com mãe da gente a gente não aprende muita coisa não [...] a gente aprende mais é com os de fora”. Dona Eva (69 anos), outra benzedeira de Chiador, é nativa do município de Mar de Espanha. Mudou-se ainda na infância para a fazenda Barra Mansa, trabalhando na roça com sua família, “até uns 10 anos atrás”, quando se mudou novamente, dessa vez para Chiador. Diz ter aprendido a benzer com a mãe, mas que somente depois “de muito custo, que antes não interessava em benzer não”. Não tinha muito interesse apesar de sempre ter visto a mãe benzer e socorrer os aflitos, “Às vezes eu nem ficava perto [...] ela me perguntava se eu não queria benzer... porque às vezes aparece uma criança com vento virado e é preciso socorrer a criança... Mas eu não me interessava não”. Começou a benzer com 50 anos de idade quando decidiu que “é importante demais saber benzer, pra ajudar os de casa e os de fora”. Segundo sua concepção, “Quem salva é Deus... mas a gente pode ajudar benzendo”. Sua mãe e sua avó também eram benzedeiras. Diz dona Eva que essa prática “vem da família mesmo. É dos antigos da família mesmo que vem... e eu aprendi”. Na benzeção aprendida em família, dona Eva se vale de raminhos de arruda com os quais benze pra curar quebranto, vento virado, bucho virado (mal estar crônico no estômago que faz “rejeitar qualquer comida”), e também para “cortar” cobreiro. Dona Eva também se vale da consulta ao carvão no copo d’água para verificar “o carrego” do benzido, conferindo se se tratava mesmo de mau olhado ou quebrante, e a intensidade da carga do acometido. Sabe benzer para quebrante, mau olhado, erisipela, espinhela caída, cobreiro, vento virado e bucho virado. Para a benzedeira o quebrante é muito complicado porque, não raro, são os próprios pais da criança que “botam quebrante nela”. Por acharem a criança muito bonitinha, terem “muito apego a ela... botam quebrante sem querer... pois qual é o pai que quer ver o filho adoecer?”. 27 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Dona Eva já soube de muitos benzedeiros em Chiador, entre homens e mulheres: “homem também pode benzer. Os homens que eu sei que benziam, aqui em Chiador já morreram todos... seu Tiãozinho... um senhor que morava lá pra baixo... e teve uns outros que eu não me lembro o nome, mas eram todos gente daqui”. 1.4. Caxambu O caxambu foi citado por alguns antigos moradores de Além Paraíba e Sapucaia como uma manifestação que já não acontece, mas foi muito recorrente até cerca de 20 anos atrás. É informado pela literatura folclorista clássica (Tinhorão, 1974; Araújo, 1962; Cascudo, 1984) como sendo um acontecimento lúdico e mágico próprio das fazendas de café, semelhante aos outros batuques negros – lundu, jongo, umbigada, candombe - durante os quais se reúnem ao redor de uma fogueira, aos pés de tambores, dançando e cantando. Batuques como o caxambu foram inspiradores do samba, e dizem respeito às cosmologias africanas que se configuraram no Brasil de forma particular. Em Além Paraíba quem bem relembrou essa forma de expressão tradicional foi sr. Jairo (70 anos) proprietário do cartório e morador do distrito de Angustura. Sr. Jairo informou que, no seu entendimento, caxambu também é conhecido por ali como jongo ou samba de fogueira. Do modo como quis nos explicar: “Essa região toda aqui, é uma região cujo ápice foi o café, a economia cafeeira. Então tinha muito negro. [...] Entre uma folga e outra, aproveitando as festas dos santos católicos que os senhores cultuavam, os escravos reuniam-se em volta de fogueiras, pegavam seus tambores e brincavam a noite inteira. Era a única maneira desse povo cultuar suas tradições, através de danças, músicas e cantos.” Informa a literatura que o jongo, conhecido também como caxambu, nome proveniente de um tambor que recebe esse mesmo nome, provavelmente foi uma grande unanimidade entre as comunidades vindas de Angola para o centro-sul do Brasil e é visto até hoje em muitas localidades que ficam no vale do rio Paraíba do Sul. Os cantos fazem lembrar o dia-a-dia de trabalho, os entes e outros jongueiros falecidos, a terra natal e cultuam, além disso, as crenças e entidades de seu continente. Tudo isso feito com muita sabedoria, em linguagem cifrada, que era para os senhores não se intrometerem nos assuntos que não lhes pertenciam. Havia no jongo uma espécie de disputa de sabedoria entre os jongueiros, que eram sempre os mais antigos, mais sábios, aqueles que podiam certamente entender a demanda. Na memória de Sr. Jairo, “Foi em aventureiro onde eu vi esse samba de fogueira, mais recentemente. Tinha um senhor lá que manteve essa tradição por muito tempo: seu José Riberto. Ele já faleceu, mas não sei se alguém continuou... Porque era feito sempre no mês de Junho. Mês de Junho dia 13 de Junho é a comemoração oficial do Município de Aventureiro que o padroeiro de lá é Santo Antônio. Tem uma festa tradicional, o povo de Além Paraíba vai muito, é vizinho nosso aqui. Lá chama-se Santo Antônio do Aventureiro. [...] 28 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Em Angustura o samba de fogueira era feito por pessoas.... como meu pai, seu João Minerva.e seu João Ivo ali embaixo...eles tinham a época certa de fazer. Pessoas muito humildes na época escolaridade muito pouca, reunia as pessoas vamos fazer um samba de fogueira – ah tem que chamar os sambeiros não era sambistas era sambeiros... Então eles faziam a comunicação pra chamar os sambeiros que eram quem animava a s festas mesmo... então faziam comida, davam comida davam bebida pros sambeiros... Tinha a tradicional bombinha que muleque solta mesmo e as comidas eram assar batata assar mandioca, assado dessas leguminosas... e então eles fazia apresentando a arte deles, tocavam as caixas, caixas de percussão – instrumentos de ritmo de modo geral...Aí o que eles faziam...reuniam em torno da fogueira e começavam a bater...aí ia o primeiro puxador – que puxava o canto né...aí o puxador vinha e puxava o ponto de samba dele – ponto de samba que era como falavam...aí puxavam e vinham dançando...dentro da roda...e tumtumtum... sambando em torno da fogueira..até alguém ter mentalizado a resposta...Aí mentalizou a resposta...entre outro puxador respondendo aquele primeiro. Ele fazia no caxambu dele um tumtumtumtum que era o sinal de parar pra ele puxar o samba dele, respondendo o outro... e até outra pessoas ou aquele primeiro mentalizar outra resposta ele vai fazendo o dele...até um outro interromper. é muito bonito mesmo...bonito demais. Nós falamos hoje das festas do maranhão é porque é a única que se tem conhecimento pelos veículos de comunicação.... Era muito bonita essa festa aqui na roça!” Ponto de caxambu relembrado por Sr. Jairo: “Lá no mato tem lá no mato mora lambari de ouro tá puxando tora... Lá no mato tem lá no mato mora lambari de ouro tá puxando tora... Aí o outro bolava uma resposta e vinha uma resposta e aquele já morreu. Era uma espécie de desafio entre os cantadores mesmo. [...] Aí tinha um elemento que o papai, por exemplo, trazia... Tinha o Zeca Tatu e Zé Pereira esses dois cara, eles tiravam ponto quase sem resposta, difíceis... eles não sabiam escrever um ‘O’ a não ser com copo na areia...mas eram muito inteligentes, muito inteleigentes! [...] Eles eram da região de São Domingos de Aventureiro... hoje já não tem mais ninguém dessa época...É possivel que em Aventureiro tenha alguém que se lembre ou até continue isso lá...[...] O José Riberto (filho de italianos) manteve isso por muitos anos lá...É samba de fogueira, samba de caxambu.” 1.5. Calango O Calango é um tipo de desafio de viola, muito presente nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, principalmente na região de fronteira entre eles, onde se inserem os municípios de Além Paraíba, Chiador e Sapucaia – lugares onde a manifestação foi localizada. Mescla entre poesia e música na qual predomina o improviso – a criação de versos "de repente" –, o canto do Calango costuma ser acompanhado de instrumentos musicais. Quando é o pandeiro, o repente é chamado de coco de embolada (muito comum no maranhão); 29 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação acompanhado do violão, denomina-se cantoria (essa, mais semelhante ao Calango mineiro e fluminense). O desafio possui diversos modelos de métrica e rima. No modelo nordestino são cantados quatro versos, formando uma quadra, em que há uma rima do segundo verso com o quarto, e o cantador não repete os versos do adversário. No modo do Calango mineiro e fluminense, o cantador oponente canta repetindo o último verso da quadrinhada cantada. “Meu amigo Zé Bento tem feição mais é de bode, não adianta rodeá cepo, que comigo ocê num pode.” Ao quê o adversário responde, intercalando no seu canto o último verso cantado: “Oai, oai, comigo ocê num pode, ocê ta munto feio, parece o Reis Herode.” (Tinhorão, 1974) Muitos pesquisadores associam a origem dessa tradição no Brasil aos trovadores europeus medievais, que teriam sido incorporados à musicalidade popular dos portugueses, introduzida com a colonização. Há também teorias que vinculam o Calango às tradições africanas de cantos de trabalho e folgança. Essas teriam sido recriadas pelos escravos, no Brasil. Na perspectiva de outros pesquisadores da cultura popular, como Vera de Vives, o calango tem provável origem africana. Em seu livro O Homem Fluminense, de 1977, a pesquisadora afirma que os escravos tinham o Calango como canto de trabalho e canto de folgar, e que tal hábito ainda é verificado em diversos municípios onde há calangueiros. Do testemunho de um deles, a pesquisadora foi informada de que “trabalhando se canta o calango de ‘versos combinados’ (tradicionais) e às vezes também a ‘lera’, cantada sem o acompanhamento de qualquer instrumento, ‘só para alegrar’, uma vez que as mãos estão no cabo da enxada, capinando, ocupadas em fainas diversas de dedilhar o cavaquinho ou suster a sanfona. Nos bailes, cavaquinho, violão, pandeiro, sanfona (de oito baixos) e chocalho (vimos notáveis improvisos, na criação de chocalhos, em Miracema) são instrumentos para o calango. Mas se ele é cantado ao sabor do instante, se vira desafio na porta das vendas no fim da tarde, um instrumento só (a sanfona, em geral) é suficiente para sustentar o canto. A porta de venda é, aliás, um local de muita oportunidade para o calango. É para ela que convergem os lavradores, no fim do dia, desejando tomar tragos de aguardente antes de ir para casa. É lá também que parceiros e compadres se encontram para conversar. E de repente o verso se solta, um cantador espicaçando o outro, pois a assistência, a platéia, estão formados. Provocado, um calangueiro nunca se cala. A resposta vem ferina, pronta. [...] E os contendores não apenas cantam, também dançam, rodopiando, e os assistentes participam da refrega, com vaias, aplausos, comentários de apoio ou repúdio. Já no calango de baile, costuma-se iniciar o canto com versos tradicionais, decorados, que cedem lugar ao desafio, ou são improvisados pelo calangueiro, quando o baile esquenta. Por isso é comum encontrar um desafio dentro de um baile.” 30 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Além Paraíba: Em Além Paraíba, o Calango foi relembrado como um divertimento típico de um universo rural antigo – anterior à difusão do rádio –, recheado de símbolos e temas que expressam o tempo e o ambiente vivido e imaginado pelos calangueiros. Zé Dondoca (aproximadamente 60 anos), mestre folião reiseiro, guarda na lembrança muitas memórias do tempo em que o pai era vivo e fazia fama como calangueiro nas festas da roça e no Boiadeiro, bairro onde ainda mora Zé Dondoca e que, há 40 anos, apresentava-se com uma atmosfera muito rural. Também viva na memória de Zé Dondoca está a imagem dos bailes de antigamente, onde se cantava Calango, deixando saudades. Sr. Onofre (71 anos), hoje é ator, músico e poeta pertencente à Sociedade dos Poetas Vivos de Além Paraíba. Criado em meio a uma população analfabeta, Sr. Onofre começou a aprender a ler e a escrever com a irmã, mas só foi estudar mesmo depois de casado. Ele afirma que muito da influência para seu ingresso no campo das letras vem de suas lembranças da infância e adolescência, na presença de mestres calangueiros. Os versos do Sr. Onofre ganharam impulso de 2002 em diante, quando ele começou a participar das publicações do Inovarte – grupo de terceira idade local, com foco artístico. De temática prosaica, sua poesia possui uma rima muito semelhante a do Calango – abordando temas de um contexto urbano e não rural. Sapucaia: Em Sapucaia, os desafios de Calango eram muito comuns, há cerca de 30 anos atrás, nas festas de roça e bailes de comunidade. É uma manifestação muito presente no município principalmente nas localidades por suas características mais rurais. Por esse motivo os moradores de cerca de 40 a 70 anos de idade recordam com saudade os desafios de calango acompanhados de viola ou sanfona. Lili Carabina (aproximadamente 50 anos), filho do Sr. Bernardino, morador da comunidade dos Moreira, distrito de Jamapará, é um famoso calangueiro de Sapucaia, que foi muito citado entre os informantes. Famoso por seus improvisos ágeis desde muito jovem, com sua constante presença nos bailes tradicionais do município que aconteciam há mais de 15 anos atrás. No distrito de Anta foi indicado o senhor Tião Malino, ou Tião da Máquina, calangueiro de cerca de 70 anos de idade. Em Aparecida é conhecido o calangueiro Sr. Ernestino (80 anos, aproximadamente). Morador famoso do distrito sapucaiense, o calangueiro se apresentou como nascido em Diamantina, e contou histórias curiosas sobre sua trajetória de muitas viagens e cantorias, com expressiva menção à escravidão. 31 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Das suas cantorias, Sr. Ernestino puxou várias, demonstrando seu desempenho extraordinário como improvisador. Dentre elas, destacamos: “zé pretin puxou viola de dentro do saquinho de fita as moças batia palma o que viola bonia! cego puxou viola dentro do saquinho de meia as moças disse sõ que violinha feia” esse pessoá de hoje minha filha não prende nada!” e “se a rosa branca soubesse o valor que a roxa tem largava de ser branca ia ser roxa também se a moça me deu um fora não é da conta de ninguém amanhã por essas horas ce tá nu fora também” quando ele terminou deixou muita gente bem deixo corrente de ouro relógio de sete cem” Luciano, professor de geografia, nascido e criado em Santo Antônio da Vista Alegre, localidade do distrito de Anta, Sapucaia, em parceria com o músico Beto Chocolate, morador do distrito sede, vêm realizando um festival de Calango, há dois anos. Ele acontece durante a festa de Santo Antônio, padroeiro do município e dessa localidade. Luciano e Beto promovem o evento concebendo-o como uma forma de resgatar algo da cultura tradicional da região. Iniciativas como essa favorecem a preservação da manifestação valorizando os cantadores calangueiros divulgando sua arte. Além dessas iniciativas de preservação do calango tradicional, ressalta-se que esse modo musical foi fonte de inspiração e, mesmo, base de recriação para muitas manifestações musicais contemporâneas, como o samba e o hip hop. Chiador: Em Chiador foram mencionados alguns antigos calangueiros conhecidos pelos apelidos de “Zé Beto”, “Dalcides” e “Morgado”. De acordo com Sr. Pádua (70 anos aproximadamente) músico, nativo do município e habitante do distrito Sapucaia de Minas, apesar de Chiador não ter se destacado na região por uma cena cultural muito atraente, esses antigos cantadores de desafio, os calangueiros são lembrados por muita gente, mas não existem mais por ali. Ou ao menos não se manifestam em público, como antigamente era comum em festas e bailes de roça, bailes de rancho, como recordou. “Chiador é município recente... teve emancipação política de 1953. [...] E nunca foi município de projeção, principalmente do ponto de vista cultural... Mas acontecem sim... e aconteceram, principalmente, há uns 20, 30 anos atrás, muitas coisas importantes, em termos de música. [...] Folia de reis é nascimento de Jesus que eles vão cantando, contando a história do jeito deles, que é um jeito simples, popular... nas palavras né, mas muito 32 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação complexo se você analisar musicalmente... muito bem acabado... Aquilo que parece desafinado... desconcertado... Aquilo tudo é um estilo de fazer a música... um jeito popular... artístico”. Em relação à músicas da região, sr. Pádua destacou ainda os sanfoneiros e violeiros que “eram muitos por aqui!”. Nas festas de rancho que aconteciam nos sítios ou nos terreiros das casas, em Chiador, “sempre teve bons sanfoneiros, calango bom, bailes de barraca de roça... era abundante ali... [...] O lazer do interior sempre foi baseado nesses bailes de fim de semana... aquele bailezinho de barraco gostoso.... coisas um dia ali outro lá”. Outro morador, José da Silva, conhecido como José Benedito, contou lembrança de tocadores de calango... e que de Folia de Reis, “em Chiador mesmo não tem não.. mas toda vez que aparece uma bandeira...todo mundo corre atrás”. Acontecendo atualmente em Chiador, foi identificada a presença de outras formas de expressão importantes que ainda hoje agregam as pessoas, por seu caráter musical, plástico ou lúdico. Destacam-se a Folia de Reis; a Cavalgada; e as Encenações da Semana Santa. 1.6. Cavalgada No município de Chiador, Evaristo José Jorge Reis, o Joca, vereador e morador, comentou da importância das cavalgadas na região. Organiza já há 18 anos, a Cavalgada Só o Amor Constrói que acontece geralmente no mês de agosto, de sábado para domingo. Segundo Joca, esse encontro já pode ser considerado uma tradição. É um encontro que começou com aproximadamente 70 cavalos e, atualmente reúne cerca de 500. Vem de toda parte, vizinha ao município, Leopoldina, Sapucaia, Além Paraíba, Três Rios, Carmo... Encontram-se na praça central de Chiador, e vão até o distrito de Penha Longa, cavalgando juntos, em desfile, “com os animais bem alinhados, bonito de ver”. Esse evento foi pensado, pelo vereador, para atrair um grande público apreciador de cavalos, “que é uma coisa de muito valor num ambiente rural, como o nosso. [...] Tem charretes para passeio, fogos, violeiros... Tem show ao vivo, almoço.... a pessoa para R$3,00! As senhoras da comunidade fazem a comida... tudo muito bem feito, gostoso...[...] Vem muitos caminhões de cavalo. [...] Mas essa cavalgada nossa não é uma festa religiosa: é outra cultura”. 1.7. Encenação da Paixão de Cristo na Semana Santa Outra importante forma de expressão do município de Chiador é a encenação da paixão de Cristo, na sexta-feira da Semana Santa. Para a moradora dona Vilma, católica e voluntária em trabalhos da igreja, as semanas santas da cidade também são muito importantes. Antigamente mobilizavam muito mais pessoas para a encenação da Paixão de Cristo, e “foi sempre um encenação grandiosa! Escolhiam uma menina para ser a Maria, outra...fazia de Maria Madalena... o Jesus Cristo. Geralmente eram os jovens, do grupo de jovens. [...] Ensaiavam meses antes para fazer bem bonito no dia da apresentação. A praça ficava toda enfeitada... Era uma coisa bonita de tradição mesmo...aqui da cidade. [...] Hoje em dia, não é mais tão bonita não... teve ano que nem teve a encenação. As pessoas foram ficando mais desinteressadas... Porque dá muito trabalho pra fazer, exige tempo... dinheiro, muito trabalho.” 33 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação 1.8. Capoeira A capoeira é uma forma de expressão afro-brasileira que mistura luta, dança e música, associados a uma cultura muito particular em relação aos modos de se organizar em coletivo, originalmente nas ruas. Desenvolvida no Brasil por escravos africanos e seus descendentes, é caracterizada por golpes e movimentos ágeis e acrobáticos, utilizando os pés, as mãos, a cabeça, os joelhos e cotovelos, e até mesmo bastões e facões, estes últimos específicos do Maculelê. Uma característica que distingue a capaoeira da maioria das artes marciais é a proeminência da música em seu universo, constituindo um elemento tão importante quanto os golpes e gingas. No seu livro Capoeira Angola – Ensaio Sócio-etnográfico, de 1968, Waldeloir Rego faz considerações históricas sobre a capoeira, no Brasil. O pesquisador defende que, inicialmente, a capoeira era um folguedo que os negros inventaram para os momentos de diversão, mas sem deixar de utilizá-la como luta quando necessário – casos não raros. Grosso modo, a capoeira pode ser entendida como uma dança que é luta, e vice-versa, revelando o caráter duplo dessa forma de expressão artística, lúdica e ao mesmo tempo esportiva, marcial. No período final do Brasil imperial, com a decadência do patriarcado rural e o desenvolvimento mais intenso de um Brasil em urbanização, os praticantes de capoeira foram percebidos como importante peça política para uma sociedade em transformação: “Com o passar dos tempos, é cada vez mais crescente a sua fama de lutador e de implantar grandes desordens em fração de segundos, sem possibilidade de ser molestado, conseqüentemente ficando oculto, para quem estava a serviço, o capoeira passou a ser a cobiça de políticos. Serviria de instrumento de luta ora para a nobreza, que dava os seus últimos suspiros, ora para os republicanos, que lutavam encarniçadamente para obterem a vitória sobre o trono, daí os graves acontecimentos que abalaram o país, nos fins do século XIX. [...] Com isso, a capoeira, um folguedo por propósito, começa a sofrer mudanças de caráter etnográfico, em sua estrutura -- a luta que era um acontecimento passou a ser um propósito. Por outro lado, isso acontecia justamente num período em que a sociedade brasileira chegava ao auge nas suas transformações de base por que vinha passando [...] e a capoeira, por uma determinação sociológica, não poderia estar imune a essas transformações” (Rego, 1968). Em 1929, sob a liderança do Mestre Bimba, a capoeira, até então realizada nas ruas e terreiros, foi introduzida em recintos com denominação e caráter de academia, onde os ensinamentos passaram a ter um cunho didático formalmente moderno e ocidental. As classes média e alta foram atraídas, a princípio como espectadoras das exibições e, posteriormente, como praticantes daquela atividade, então vista como uma nova forma de educação física. Em 1937, o governo brasileiro oficializou a capoeira, dando ao Mestre Bimba um registro formal para sua academia. Desse modo, a prática da capoeira atingiu novos ambientes e foi se diversificando, de acordo com a conduta e as condições dos seus vários mestres e praticantes, entre negros, brancos e mestiços, de diferentes classes da sociedade. 34 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Apesar desse alcance social ampliado – difusão que se estende até mesmo para o exterior (atualmente são dezenas de academias internacionais) –, a capoeira continua, sobretudo no Brasil, sendo uma prática muito mais desenvolvida nas camadas economicamente desfavorecidas, notadamente pela população com traços de afro-descendência. Três Rios: No município de Três Rios há grande destaque da capoeira como saber e forma de expressão tradicional, que vêm se popularizando, progressivamente, ao longo de sua história, em âmbito nacional. Toda a capoeira de Três Rios tem como referência a Associação Moçambique de Capoeira, primeiro grupo a atuar na cidade, trazido de Niterói pelos mestres Amaro e Gato Preto, em 1978. Tudo começou em um clube do bairro Caixa D’água, onde, primeiramente, a Associação Moçambique sediou sua atuação na cidade. Muitos anos depois, em 2006, no mesmo bairro, foi instalado o Centro Cultural de Capoeira Mestre Manoel Gato Preto e Mestre Deolésio – em homenagem aos fundadores da capoeira no município. O Centro Cultural tem um espaço próprio, cedido pela prefeitura há um ano, e é administrado pela Liga Centro-Sul de Capoeira. No município de Três Rios (RJ), a capoeira é organizada pela Liga Centro-Sul de Capoeira, fundada em 2006. Com o objetivo de fortalecer o trabalho regional com a capoeira e promover a manifestação, a Liga reúne todos os grupos locais em torno de ações comuns. Ela ajuda na organização de eventos festivos e de reuniões; organiza os grupos no que diz respeito aos registros e documentações; procura fortalecer a imagem dos mesmos frente às demais instituições sociais e culturais; facilita a comunicação e a representatividade dos capoeiras perante o poder público, e o público em geral. Entre os membros da Liga estão mestre Darcy Malandrinho (Grupo Raiz Capoeira), mestre Brinquinho e mestre Toty (Grupo Associação Moçambique de Capoeira), além do professor Altair, mestre Demilto e mestrando Sapo (Grupo Capoeira Cultura Brasileira), e Marilene, secretária da Liga. Atualmente, há mais de 15 grupos fluminenses de capoeira filiados à Liga. Segundo Marilene, um dos objetivos mais importante da Liga é desenvolver um trabalho de pesquisa, “de resgate da memória, da história dos capoeiras no Brasil e em Três Rios”. Para o grupo, apesar dos quase 40 anos de história no lugar, a capoeira ainda é muito discriminada ali. Tanto que há apenas cinco anos a prefeitura vem “olhando com mais carinho”4, a 4 Exemplo desse interesse mais profundo pela cultura afro‐brasileira, a Praça Zumbi dos Palmares, na Morada do Sol (bairro Vila Isabel), foi fundada com um monumento em homenagem ao líder negro, por iniciativa dos capoeiras de Três Rios. 35 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação causa. Desde então, a Liga tem conseguido um maior apoio público, embora o considere ainda muito pequeno se comparado à importância social da prática pelos meninos e meninas de famílias de baixa renda – público a que os mestres e professores de capoeira de Três Rios se dedicam mais. Há 3 anos, vem sendo promovido o Festival AfrOrigem, festa que reúne praticantes de capoeira de toda a região. Aí, acontecem rodas – evento onde os capoeiras brincam/lutam a capoeira –, brinca-se de samba – chamado samba-de-roda – e são promovidas discussões a situação da capoeira na cidade, no Brasil e no mundo. Para esse evento, os capoeiras tentam mobilizar vários grupos da sociedade de Três Rios, entre público simpatizante, agentes culturais e executivos da administração pública, não só para ampliar a divulgação da capoeira, mas também para agregar ao evento novas pautas, referentes a cultura afro-brasileira e à situação do negro na sociedade: “Convidamos várias pessoas, mas não dão a importância... Não vem abrilhantar nosso trabalho... Muitas pessoas vêem a capoeira como arte marginalizada... com racismo . [...] Os políticos não freqüentam nossos eventos. Convidamos o secretariado, os vereadores... não vão. Apenas no momento de arrecadar votos.” (Marilene). A capoeira de Três Rios ainda é amadora no sentido de que nenhum professor pode viver, exclusivamente, dela. Inclusive muitas das aulas são gratuitas, para alunos de baixa renda. Para o desenvolvimento da capoeira, há uma série de custos com os abadás – uniforme de uso obrigatório – e com as mudanças de corda – adorno distintivo do nível de graduação de um capoeira, na capoeira regional (modalidade de capoeira descendente da escola de Mestre Bimba). Em Três Rios, além da capoeira e da folia de reis, que se destacaram como formas de expressão muito presentes e ativas, identificamos outros coletivos organizados, que apreciam e se expressam através da música, da dança e do esporte. 1.9. Folia de Reis Na cultura católica portuguesa, a passagem bíblica em que Jesus recém-nascido foi visitado pelos três reis magos, Melchior (ou Belchior), Baltazar e Gaspar, converteu-se em uma tradição popular de encenação dessa visita. Os grupos que realização essa encenação são as Folias de Reis, também chamadas Ternos de Reis, ou reisados. Os reis magos foram formalizados santos a partir do século VIII. Fixada a data do nascimento de Jesus em 25 de dezembro, a data da visitação dos Reis Magos ficou definida como o dia 6 de janeiro. O mito fundador (mito que descreve o surgimento de uma instituição social) dessa tradição é apresentado nos primeiros versículos do Novo Testamento, livro de Mateus. (Evangelho Segundo São Mateus 2, 1-23). Conta-se que ao nascer numa pobre manjedoura, o Menino Jesus foi visitado por três Reis Magos, cada qual de uma parte do mundo. Fizeram uma longa 36 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação viagem guiados por uma estrela que luzia no céu, levando ricos presentes para ofertar ao menino Deus em sua adoração. Esse mito é guia de todas as folias de Reis que, observando-se as variações diversas de cada uma, compartilham a devoção aos santos reis e ao livro sagrado do evangelho. À essa devoção compartilhada, aos grupos e seus ritos de cantos e danças, são chamados reisados. Os festejos de Natal são encenados pelos reisados com visitas às casas dos devotos – do dia 24 ao dia 6 de janeiro, quando, inspirados pelas palavras do Novo Testamento, os reisados entoam versos narrando o acontecido. O Brasil conheceu os reisados da tradição portuguesa. Essa tradição ganhou força no Brasil especialmente no século XIX. Nesse período os reisados se difundiram entre grupos católicos tradicionais que, para além da referência portuguesa, incrementaram sua homenagem aos santos reis com referências performáticas indígenas e africanas, recriando rítimos e danças, com outros instrumentos e outras coreografias. A tradição é viva em várias regiões do Brasil, sobretudo nas pequenas cidades dos estados de São Paulo, Goiás, Espírito Santo, Minas Gerais, e Rio de Janeiro. No Brasil a visitação das casas é feita por grupos chamados de foliões reiseiros, reisados, terno de reis ou folia de reis. Cada grupo é composto por músicos que cantam e tocam instrumentos, na sua maioria de confecção artesanal: tambores, reco-reco, flauta e rabeca (espécie de violino rústico), além da tradicional viola caipira e do acordeón, também conhecido como sanfona, gaita ou pé-de-bode. Além desses músicos instrumentistas e cantores, outros componentes do cortejo são o rei, o mestre, o contramestre e os dançarinos caracterizados como palhaços. O grupo segue a liderança de um Mestre – em geral o componente mais antigo do grupo e puxador da toada – e do Dono da Folia – líderança criadora da folia, em função de uma promessa de sete anos. Mestre e dono podem ser a mesma pessoa ou não. Em conjunto, mestre, músicos cantadores e palhaços seguem seu caminho, reverenciando a bandeira com a imagem dos santos reis – também chamada de registro –, cumprindo rigorosos rituais durante o giro – percurso dos foliões a cada noite de visitação. Entre os foliões e devotos dos reisados, há uma forte identificação pessoal com os ritos envolvidos – as promessas, as jornadas, as viagens, os encontros entre devotos e foliões –, com a expressividade dos versos, toadas e ladainhas, e com os seus fundamentos primordiais que são as palavras do evangelho, consideradas como livro sagrado, “revelação da verdade sobre a vida e a morte dos homi nessa terra” (Sr. Tuquinha). Um folião reiseiro, quando sai a peregrinar, de dezembro a janeiro, cantando as palavras sagradas, está incorporando em si e nas suas práticas um ensinamento divino, uma história que não se pode esquecer porque é mitológica: fala do tempo de um início de tudo, do nascimento de Jesus, da sua morte e do pecado cristão. 37 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação O mito fundador das folias é a história do nascimento de Jesus e visista dos reis magos. Esse mito revela a crença cristã e católica, devota aos santos reis. Os devotos caminham durante seis noites, de casa em casa, fazendo à semelhança dos Reis Magos, como se estivessem seguindo a estrela guia, aquela que brilhava no céu, iluminando o caminho em direção à Belém, onde se encontrava o recém-nascido na manjedoura, junto com sua mãe Nossa Senhora e seu pai José. Cantando nas casas que visitam, contam a história do nascimento de Jesus, anunciando a boa nova às famílias. A cada presépio encontrado no caminho: uma adoração. Cantam os foliões, principalmente os mais velhos, outras histórias, que aparecem também em versos, em torno do nascimento do Menino e agradecendo pelo que foi recebido no ano acabado, e pedindo pelas graças que ainda virão: fartura, saúde, fertilidade, bem-aventurança. Essa visão de mundo vai estampada na bandeira, impregnada nos símbolos que carrega. Os giros feitos pelos foliões significam também um sacrifício: peregrinam, jovens e idosos, muitas vezes sob o tempo chuvoso, pelas ruas das cidades ou pelas estradas das roças, apreciando o dom da água que, como a mãe, também é fonte de vida. Além disso, para muitos foliões, o período do ano – de dezembro a janeiro – quando saem com sua folia, é um momento de possibilidade de expressão não só da sua fé, mas dos seus dons artísticos, cantar, dançar, fazer versos improvisados (no caso dos palhaços). Segundo os depoimentos, de antigamente até hoje em dia, muitas mudanças ocorreram no modo de composição das folias, nos modos de ritualização das jornadas, festas e entregas de bandeira, por exemplo. Contudo, seu sentido primordial, suas características fundantes, permanecem como a grande referência que motiva a manifestação: o anúncio do nascimento de Jesus Cristo e da visitação dos Santos Reis Magos do Oriente; a recordação da culpa dos pecadores incorporada nos palhaços, e das providências divinas, representadas pelos santos reis ou São Sebastião (no caso das folias em sua homenagem). Chiador: Sr. Pádua nos contou de memórias da Folia de Reis que, há mais de 30 anos, “sempre passou pelo município, mas faz já uns dois ou três anos, parece que não passa mais!”. Segundo ele, em Chiador nunca houve uma Folia propriamente – um grupo mesmo: com mestre, dono da folia, e puxador - mas as Folias passavam anualmente por Chiador. Especialmente uma, de Leopoldina ou Além Paraíba (não foi informado ao certo), que agradava muito aos moradores, levando a bandeira nas casas dos devotos. Esses recebiam a bandeira que era passada por todos os cômodos da casa, abençoando a família; ofereciam um lanche ou almoço para os foliões reiseiros, faziam doações, ou promessas para o ano seguinte; ou simplesmente acompanhavam o cortejo “correndo pelas ruas, atrás da folia... que passa sempre tocando e cantando... coisa bonita demais de ver... De dar muita emoção na gente!”. Além Paraíba: 38 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação No município de Além Paraíba, a presença da Folia de Reis é marcante e foi relatada por alguns moradores como tradição antiga do lugar. Isso foi destacado no distrito de Angustura. - Folia Nova Embaixada dos Três Reis do Oriente Sr. Tuquinha (80 anos aproximadamente) e Sr. Dijin foram apontados como responsáveis pela presença da folia de reis em Angustura. Sr. Tuquinha nasceu no dia natal, motivo pelo quê considera possuir um forte vínculo com a festa religiosa. Natural de Leopoldina, tendo crescido em fazenda antiga de café e muito gado, Sr. Tuquinha aprendeu folia de reis com os antigos de lá. Atualmente, ele divide domicílio entre Angustura, no Morro do Cruzeiro, e o distrito sede de Além Paraíba (a que chama de Porto Novo), no morro da Conceição (onde atua também como sambista e carnavalesco na escola de samba União da Colina e no bloco Império Planeta 2). Ativa há mais de 30 anos, apenas recentemente – cerca de dois anos –, a folia está semidesativada por comprometimento de saúde de Sr. Tuquinha que, operado de próstata, ainda não se recuperou o suficiente da cirurgia. Folia tradicional, a do Sr. Tuquinha não deixa de cumprir as convenções consagradas: “A caminhada é muita. E não pode parar não. Esse povo de hoje em dia sai um, dois, três dias e pára. Porque cansa mesmo... é pesado. Mas folia quando começa a rodar é pra parar só no dia dos Santos Reis, no 6 de janeiro.” (Tuquinha) Sobre os ritos do Reis, de encenação do nascimento de cristo e da visita dos santos reis, o mestre folião esclarece: “O reis começa, minha filha, do dia 24 para o 25 de dezembro. Vai até dia 6 de janeiro que é o dia deles. E quando dá dia 6 de janeiro, a gente fecha a bandeira. Ou meia noite do dia 5, ou meio dia do dia 6 [...] Daí, na igreja de Nossa Senhora da Conceição, lá no Morro [da Conceição], eu faço a missa para os três magos do oriente lá, como todos os anos”. Sobre os componentes e personagens da folia, Sr. Tuquinha esclarece que os músicos e cantadores podem aparecer coroados (como é no caso de sua folia) porque representam os apóstolos de Jesus. Já os palhaços são relacionados aos perseguidores de cristo, aos soldados de Herodes, que perseguiu Jesus e colocou ele na cruz. Sobre o significado e função dos palhaços na folia de Reis, Sr. Tuquinha destacou com grande expressividade: “Então esse negócio de palhaço... O povo fica animado porque acha colorido, engraçado: - ‘Ah lá o palhaço! Ele vem lá! Mas o negócio é pesado! Ele anda atrás da Folia e tudo... E é um só! Tem gente que põe uma porção pra fazer os outros rir! Mas é um só... Porque é pesado... Ele chama soldado de Herodes!” 39 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação - Folia do Dijin Cabral Dijim Cabral é filho do Cabral Véio, falecido mestre folião reiseiro do município de Leopoldina, dono de uma folia fundada em Campo Limpo, em 1914 (Sr. Tuquinha saiu nessa folia, durante 16 anos). Faziam giros extensos, de Leopoldina ao Rio de Janeiro, muitas vezes viajando de trem, ou de carona em caminhão, pelas estradas. Senhor Sebastião Cabral, o Cabral Véio, faleceu há mais de 10 anos e, depois dele, seu filho Dijim Cabral prosseguiu com a promessa, saindo com a folia anualmente no tempo dos reis. Essa folia sempre passa por Angustura, em Além Paraíba, onde há casa de devotos que recebem a folia e sempre acolhem os foliões com um almoço, lanche, ou café. - Folia Paz e Amor No distrito sede de Além Paraíba, outra folia muito ativa, citada pelos informantes, foi a folia de Zé Dondoca, como é chamada a Folia Paz e Amor fundada há mais de 40 anos pelo sr. José Anastácio, dono da folia. Zé Dondoca também mantém uma folia de São Sebastião. As folias de São Sebastião iniciam sua jornada logo após a descida da bandeira da folia dos santos reis, no dia 7 de janeiro, e peregrinam até o dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião. Nessa peregrinação os cantos já não se referem aos reis magos do oriente ou ao nascimento de Cristo, mas à vida do mártir São Sebastião, às graças alcançadas pelos seus devotos e que são por eles entendidas como milagres da providência divina, conquistados pela intercessão do santo. Zé Dondoca descreveu as peregrinações (giro ou jornada) e alguns dos ritos e procedimentos da sua folia: “Nós saía toda noite desde o dia 25... Saía direto! O pessoal era mais forgado antigamente... Hoje em dia, não é mais tanto trabalho em roça... é muito trabalho na cidade né, na rua mesmo, que aí tem hora certa de entrar e sair... aí a gente sai menos. [...] Antigamente a gente saía daqui... ia pra Estrela Dalva, Volta Grande, Leopoldina... Nós andava por aí tudo. A gente ia de trem. Pegava o trem e ia embora... Quando chegava nas cidades, a gente apiava e ia cantando na cidade... A gente vai em muitas casas. Qualquer casa que quiser receber. A bandeira benze a casa da pessoa. [...] A entrega da bandeira é feita na casa do dono da folia, né. A bandeira sai de lá quando começa a jornada, e no final volta pro mesmo lugar. A gente faz assim: quando é folia de Reis, entrega a bandeira é no dia 6; quando é São Sebastião, no dia 20 a meia noite [0:00], tem que tá entregando. Uma entrega às 18:00 da tarde pode fazer também, ou uma ao meio dia [12:00]. Seis horas, meio dia e meia noite são as hora de entrega.” Sobre a diferença entre mestre e dono, e da responsabilidade de um dono de folia, sr. Zé Dondoca, como gosta de ser chamado, comenta que o “dono é quem banca, né? O que providencia tudo. Também porque foi ele, o dono, que fez a promessa, que inventou a folia. Então, a folia é dele e ele reúne o pessoal que é devoto também... Vai juntando gente e faz o grupo da folia [...] Mestre é o que puxa... o 40 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação cantador que puxa as toadas, os versos da folia. Eu canto também mas é instrumento leve... que é um chocalho, um reco-reco um triângulo... Isso eu bato, que eu to na frente”. Três Rios: - Folia de Reis Estrela Guia Na cidade de Três Rios, durante o mês de junho de 2009, pudemos presenciar a Folia de Reis Estrela Guia na Festa Junina da Conferência Sociedade São Vicente de Paula, no Bairro Cantagalo, em uma região chamada de Embalagens Líder. Essa festa acontece já há 5 anos nesse bairro. É organizada para promover a instituição e arrecadar recursos para suas práticas beneficentes (atendem famílias de baixa renda ou renda nenhuma, com cestas básicas e remédios. Essa assistência tem duração de no máximo 5 meses para auxiliar as famílias em um momento difícil até a conquista de um emprego, mas evitar que acomodem as pessoas em uma estrutura assistencialista). No bairro Cantagalo, a Folia Estrela Guia existe há mais de 40 anos. Foi formada pelo falecido senhor Sebastião Torquato – que era então o dono e também o mestre da folia. Seu filho prosseguiu com a promessa do pai, inicialmente de sete anos, e mantém a folia ativa até hoje em dia. É formada por 22 componentes entre músicos, cantadores, palhaços, rei, bandereiro, mestre e contramestre. Segundo alguns moradores, em Vila Isabel, havia mais de 4 folias, quase todas já extintas, há mais de 10 anos. Uma das únicas ainda atuantes se destaca por ser uma inovação da tradição. É a Folia Mirim do Morro São Carlos. Criada pelos netos de seu Zé Miúdo, um mestre folião reiseiro ancestral, famoso pela beleza e tradição de sua folia de reis, já extinta, a folia mirim existe desde 1999. - Folia de Reis Mirim No Morro de São Carlos, bairro Vila Isabel, em Três Rios, conhecemos também uma Folia de Reis Mirim. As informações foram dadas por Isadora (14 anos), Marlon e Jonatas (ambos 17 anos), descendentes do Sr. Zé Miúdo. Marlon e Jonatas criaram a folia quando ainda tinham cerca de sete anos, há 11 anos atrás, 1999. A inspiração foi a Folia de Reis do avô a qual nunca viram em atuação – quando os meninos nasceram a folia já era extinta – mas que, pelas memórias narradas por seus pais – também foliões reiseiros – e por conhecidos de outras folias, sentiram-se muito motivados. Fizeram uma Folia de Reis com instrumentos apenas de latas – de tinta ou combustíveis – inovado a tradição de Zé Miúdo, com inspirações contemporâneas do funk carioca e do hip hop. Segundo os jovens, apesar da inovação com os instrumentos, as toadas e rituais permanecem os mesmos, exceto nos momento tradicionais em que há liberdade para inventar letras das toadas. São 15 meninos e meninas. 41 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação A Folia Mirim sai pelas ruas de Três Rios – principalmente pelos bairros vizinhos ao Vila Isabel – do dia 24 ao dia 6. Como é época de férias, do dia 24 ao7. Saem de manhã e ficam “o dia inteiro rodando... fazendo o giro... [...] Tem os lugares certos pra gente ir... no bairro Triângulo...Ponte das Graças... tem as casas que a gente não podem deixar de visitar.” (Jonatas). Existem de 5 a 7 palhaços na Folia Mirim. Marlom é um dos palhaços da Folia. - Folia dos Antigos Sr. Nandi (85 anos aproximadamente), é folião reiseiro das folias mais antigas da região, “a Folia dos Antigos: Folia de seu José Gerônimo, que depois passou para o filho dele, o Valter Gerônimo. Isso é que era tradição!”. Os instrumentos principais de uma folia tradicional são: “viola, violão pode ter até dois violões, cavaquinho, pandeiro, chocalho... Não precisa mais nada... tocando direito... é isso aí!!! [...] O que vale mais é a devoção... e a festa: o almoço, as profecias, a oração. Isso não pode faltar numa folia! Agora essa história de sair por aí... só no desfile, na descontração... é bom também! Mas folia é outra coisa!”. 1.10. Mineiro-pau ou Pau-mineiro O mineiro-pau é uma dança-brincadeira muito comum na Zona da Mata Leste mineira, a região pesquisada, mas que também ocorre em outras regiões de Minas Gerais e do país. Em algumas delas também é chamado de pau-mineiro, como foi possível verificar nos municípios do estado do Rio de Janeiro. A dança é feita por um grupo de pessoas, que pode variar de 10 a 20 participantes. Alguns grupos são exclusivamente compostos de homens, mas é comum a composição ser mista. Alguns possuem, além dos dançantes, cantadores e tocadores. Em outros, é possível que não haja um acompanhamento musical estruturado, contando então com som mecânico ou improvisações. Quando o grupo é composto por músicos, em geral estão presentes a caixa de folia, o pandeiro, o violão e a sanfona de oito baixos – que é muito comum na Zona da Mata mineira. Os grupos de mineiro-pau executam uma performance de passos combinados com batidas de bastão. Realizam uma série de coreografias, trocando golpes uns com os outros de variadas formas, ao mesmo tempo em que cantam em coro, sob o regimento de um mestre puxador. Embora um grupo de brincantes/dançantes possa ser convidado a apresentar em qualquer lugar ou época do ano, sem restrições, as apresentações freqüentemente acontecem em cortejos, pelas ruas das vilas e cidades, em momentos específicos de celebração: 13 de maio, carnaval, festividades juninas, Semana Santa; ou em festas cívicas, eventos escolares e encontros de grupos de cultura popular. Podem ter também suas próprias datas festivas, que variam de grupo para grupo. Mas para além das apresentações em cortejo, em datas oficiais celebrativas, esse folguedo tem origem em um contexto muito específico de divertimento, ligado a um ambiente rural, não sendo comum algum vínculo religioso. 42 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Referindo-se a essa ligação fundamental do mineiro-pau com o cotidiano dos moradores do campo, destacam-se em sua performance os elementos pau e os gestos de cutucadas entre eles. Na tentativa de identificar os significados desses (entre outros) elementos característicos do folguedo, Oswaldo Giovannini, antropólogo pesquisador da cultura popular mineira, investigando as particularidades dos modos de vida sertanejos da Zona da Mata, conseguiu recolher importantes descrições e narrativas que permitem inferirmos alguns sentidos principais desse jeito particular de brincar-dançar. Afirma o pesquisador que: “[...] andando pelas estradinhas de chão da Zona da Mata, do Centro-oeste, das Vertentes, do Sul, e de outras regiões de Minas, não raro esbarramos com moradores das roças caminhando de chapéu de palha na cabeça, um embornal de pano pendurado no ombro e um porretinho na mão, assim, meio escondido atrás das costas, quase despercebido. Ás vezes, era um sujeito bem velhinho, mais ou menos envergado, olhando de banda por baixo da aba, às vezes um matuto forte, alto, de barriga grande, exibindo o pau arrastado pelo chão. [...] nas grandes lavouras de café o transporte mais comum era, no passado, o carro de boi. Ainda hoje se faz muito carro de boi em Minas Gerais, sendo usado na roça, no transporte da colheita. [...] Se o boi tem muita serventia no sobe e desce morro, em lugares onde nem trator alcança, para que serve o pau, que tanto o mineiro carrega pelas picadas e estradas? [...] Foi informado em Aventureiro [município vizinho de Além Paraíba] que, antigamente, nessa região do café, todo lavrador andava com um cacete na mão. Uma hora era vaca brava, outra hora era cachorro que tinha que espantar. Naquele tempo os animais nas roças não eram mansos como os de hoje, não havia fazenda por onde se passasse que não tinha uma ‘vaca pegadeira’ ou um cachorro bravo. À noite, no breu de uma madrugada sem lua, um porretinho ainda faz boa companhia.” (Giovannini, 2005. p. 63-66) Ainda de acordo com o pesquisador, em relação aos elementos mais marcantes mineiro-pau, um outro costume curioso ainda se vê em pequenas vendas e bares nos arraiais da Zona da Mata mineira. Às vezes, o carreiro de boi – ou o candeeiro, ou o andante que os acompanha, ou o peão do cavalo que apeia e chega até a porta da venda –, antes do cumprimento com a mão, costuma chegar sério, dando um esbarrão, uma cutucada de lado, ou um tapa nas costas de um outro, como se estivesse bravo e nessa brincadeira mostrasse sua valentia. Conta-se que, no tempo do antigamente, quando do uso mais freqüente e necessário do carro de boi, com o pau na mão, o caboclo dava era cacetada no outro. “O amigo, ao receber esse cumprimento, tinha que ficar vivo para defender-se com seu pau na mão, [...] e daí mandar outra em cima dele. Nesse vai não vai, nesse cutuca não cutuca, nasceu uma brincadeira que virou dança e ganhou o nome de mineiro-pau” (Giovannini, 2005. p. 62-63). Em uma descrição geral da coreografia do mineiro-pau, que pode variar de lugar para lugar e mesmo de acordo com o grupo, pode-se definir o que é mais comum: O grupo de dançantes forma duas filas. Os movimentos são executados em duplas, entre os componentes das filas opostas ou dentro da mesma fila – ficando um de frente para o outro, tendo às costas o outro par. A coreografia é um confronto entre os paus, cujos embates marcam o ritmo da toada. 43 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Segurando o pau com as duas mãos, um dançarino bate no outro, ora na parte de cima, ora na de baixo; e, da mesma forma, ora na direita, ora na esquerda. O embate dos paus pode ocorrer alternando-se os pares, formando-se um par com o companheiro de trás, e, posteriormente voltando-se ao seu companheiro anterior, posteriormente formando par com o companheiro da frente. Todas essas trocas ocorrendo no tempo da toada, marcada pelos embates, tendo como base o padrão, “bater com o seu pau no pau do outro, seguindo o ritmo, pra não se machucar!”. De um modo geral, seguindo esse sistema, de acordo com cada frase que se canta, os dançantes devem mudar sua coreografia. Todos ao mesmo tempo, com muita atenção, para não errar as trocas de embates, o que comprometeria toda a evolução da performance, além do próprio corpo dos dançarinos, expostos à pancada de um pau desencontrado. De acordo com as pesquisas de Oswaldo Giovannini, a maioria dos grupos de mineiro-pau é composta por negros. Vários líderes do folguedo confirmaram a versão de que se trata de uma brincadeira que começou nas senzalas, nas antigas fazendas de escravos. Em alguns lugares, como Itamarati de Minas (município vizinho de Cataguases), além dos batedores, desfilam também as baianas, que são mulheres vestidas de branco, carregando peneiras, simbolizando as escravas que trabalhavam na colheita do café É freqüente também, no grupo, a presença da personagem do bumba-meu-boi. Geralmente estão presentes nos blocos carnavalescos – e também em vários grupos de mineiro-pau – o boi, a mulinha e a boneca, além de outras personagens que podem variar, como a cabra (a que alguns chamam de cabra-totó), a zebra, o fantasma (que pode ser um mascarado), o jacaré e o jaraguá. Folguedo antigo, foi comum os informantes vincularem a prática ao valor de tradição, típica do meio rural. Um modo de brincar e dançar coletivamente, muito espontânea e até mesmo inocente, com o quê marcam sua independência de um sistema de cultura de massa, muito voltado para os interesses do mercado. Sapucaia: Em Aparecida, distrito de Sapucaia, o mineiro-pau foi citado por Jorginho (aproximadamente 40 anos), líder da associação de moradores, como dança folclórica tradicional, feita durante o período junino, nas festas, mas também em festividades cívicas ou escolares. Jorginho descreveu essa manifestação: “É uma dança muito interessante... tem uma música adequada.e vão batendo paus [...] é uma cultura milenar do estado do Rio e minas também: dessa fronteira aqui. São meninos vestidos a caráter com roupa folclórica de quadrilha representando um povo da roça. Eles com cacetinhos cortadinhos direitinho fazem uma roda e ali o grupo tocando um acordeom, um triângulo e uma zabumba e o canto vai fazendo tipo uma literatura de cordel falando do tempo do cotidiano.” 44 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Citou um morador em especial, Sr. Joel (aproximadamente 50 anos) como batedor antigo de mineiro-pau na comunidade. Sobre as ocasiões em que se bate mineiro-pau e de como essa dança-brincadeirra se insere em uma festa, Jorginho descreveu: “O mineiro-pau costumava – eu digo costumava porque hoje em dia não chama mais os meninos pra beter não – mas costumava acontecer muito assim em festa de família, de aniversário, de casamento. Daí você pedia pro cantador que é o mestre que puxa a dança, pra ele cantar um canto com um tema apropriado pra festa. você podia encomendar um canto com um tema que interesse um tema de casamento um tema de festa, o que você quiser”. Beto Chocolate (50 anos) músico de Sapucaia, também dá notícias do pau-mineiro, como é chamado por ele (dizendo ser esse o nome mais comum no estado do Rio de Janeiro), feito por um sr. Jovino Pereira, famoso batedor de pau-mineiro. Sr. Ernestino (aproximadamente 80 anos), morador de Aparecida, comentou também ser batedor de mineiro-pau. “Já brinquei muito, minha filha, cantando e dançando. Mas hoje eu não agüento mais não: fica cansado quando a gente canta. Eu tenho bronquite, minha filha. A fumaça tá guardada aqui [no peito], dos cigarros que eu fumei, hollywood, continental”. Além Paraíba: Senhor Tuquinha (aproximadamente 80 anos), morador de Angustura, é dono de folia e mestre folião reiseiro. Deu notícia de mineiro-pau na região afirmando ser uma brincadeira que acontecia muito nas festas celebrativas do dia 13 de maio. Morou no município de Cataguases durante mais de 10 anos e afirma que lá ainda é muito freqüente bater mineiro-pau. Sr. Jairo (aproximadamente 70 anos) é outro morador de Angustura que aprecia o folguedo mineiro-pau, segundo ele uma “briga de cacetes”, mas que não é para machucar. Senhor Wilson (aproximadamente 50 anos), nascido e criado em Angustura, é mestre folião carnavalesco e brincante de mineiro-pau: “Mineiro Pau... já veio o de Além Paraíba aqui. E a gente tinha uma turminha aqui que a gente batia o Mineiro Pau. Não é difícil não. Cês nunca viram não? É muito fácil. O povo daqui conhece. Se tiver que bater eu bato. Mas tem muito tempo que eu não pego... ‘Dô encima dô embaixo dô no meio pra derrubar mineiro pau...” 45 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação 1.11. Música Popular Primordialmente, a música é uma forma de expressão artística que congrega músicos para parcerias e a comunidade mais ampla para uma dança, uma festa, ou simples audição aprazível, compartilhada. Adota-se aqui a noção de música popular como música feita pelo povo, não acadêmica, com pretensões de circulação no amplo mercado, mas ligada a tradições locais, espontâneas, típicas de folguedos e rituais, e muito focada no intérprete e na sua performance. Música popular é qualquer gênero musical acessível ao público em geral e disseminado pelos meios de comunicação. É a evolução natural, na era da globalização, da anteriormente chamada música folclórica, que seria a música de um povo, transmitida ao longo das gerações. Apesar de, muitas vezes, serem intimamente relacionadas, a música popular distingue-se da música folclórica porque essa é transmitida diretamente entre as gerações, pela oralidade. Já na música popular há a mediação, mesmo para a sua criação, dos meios de comunicação e comercialização. Três Rios: No bairro Vila Isabel há o grupo de percussão, Ritmo da Lata. É composto por aproximadamente 15 meninos e meninas, entre 9 e 17 anos de idade, todos moradores do Morro São Carlos. Esse grupo iniciou em 2001, derivado da Folia de Reis Mirim, com os mesmo componentes que tocam essa folia usando como instrumentos apenas latas recipientes de produtos domésticos ou industriais (latas de óleo e latas de tinta, por exemplo). Sua maior influência foi a folia de reis do ancestral Zé Miúdo, liderança cultural do Morro São Carlos e avô de muitos dos jovens e crianças membros do Ritmo da Lata. Apresentam-se com mais freqüência na época do carnaval, quando desfilam como bloco carnavalesco; mas também são convidados em celebrações populares, ao longo de todo o ano, como a festa Caixotão da Jaqueira, festas nas escolas do bairro, ou em casa de amigos. Os ritmos tocados com as latas são: o funk, pagode, hip hop, Olodum, e axé. O bairro Vila Isabel também é famoso por suas fanfarras: bandas de música formadas com instrumentos de sopro, de metal, aos quais se incorporam os saxofones e a bateria. As que mais se destacam são a Fanfarra Sete de Setembro, da Escola Estadual Moacyr Padilha (escola conhecida como Vocacional) e é considerada como a mais antiga e tradicional. E a Fanfarra da Escola Estadual Valmir Peçanha. As fanfarras atraem muitos jovens estudantes do colegial, entre 13 e 18 anos. Os ensaios costumam ocorrer nos finais de semana e as apresentações em solenidades cívicas, festas escolares e festas populares locais. A banda de música Grêmio Musical Primeiro de Maio é a mais antiga do município - existe desde 1927. Completará 100 anos em 2010. A casa sede da banda localiza-se ao lado da Igreja de São Sebastião na Praça de São Sebastião, centro da cidade. As bandas de música são 46 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação atração muito importante nas festas cívicas e também religiosas, como a festa do padroeiro, São Sebastião. Participam da Primeiro de Maio desde jovens a partir de 10 anos a idosos de 70 anos de idade. Sapucaia: Dentre as manifestações culturais identificadas em Sapucaia, a música, com certeza, foi a mais presente. Na memória dos carnavais, da tradicional Festa da Manga, dos bailes do Mangueira Futebol Clube, dos diversos músicos locais: a música foi destacada como uma grande riqueza do lugar. Na história da música sapucaiense, destaca-se a trajetória de uma família de músicos iniciada por Nicolau Manteiga, avô do músico contemporâneo Luiz Alberto Gomes dos Santos, Beto Chocolate. Beto (aproximadamente 50 anos) é também compositor e se referencia muito nas criações da família. Entre seus tesouros está um banjo muito antigo, outrora tocado por seu avô Nicolau, muito afamado, como excelente calangueiro (cantor de desafio) e tocador de sanfona de 8 baixos. “Todos nós da parte do meu pai aprendemos a tocar em um banjo tenor que foi do Nicolau Manteiga. Antigo, ancestral... todos tocamos nele. Esse banjo deve ter uns 100 anos ou mais. É africano... mistura de Ásia, África... é antigo. Seu Deinho, morador de Sapucaia, também toca esse tipo de banjo”. (Beto Chocolate) Além do forró e do baião nordestinos, outras inspirações do músico são a Folia de Reis e o Calango. Este último – um desafio entre cantadores acompanhados de sanfona ou viola – representa um tipo de música bem tradicional da região de Sapucaia, sendo encontrados ainda muitos calangueiros nos seus distritos. Beto Chocolate, inclusive, tem um trabalho particular de “resgate” dessa manifestação, promovendo encontros entre os cantadores e tocadores de calango de Sapucaia, tentando inseri-los nas agendas culturais oficiais. Beto já fez muitas músicas sobre a região local e se vale também das composições da tia, já falecida, Maria das Graças, conhecida como artista por ‘Magrácia’, homenageada no nome do centro de Cultura de Sapucaia. Maria das Graças , fundadora da Pastoral do Negro de Sapucaia, foi um dos grandes expoentes da música popular de Sapucaia. Fez muito sucesso nas décadas de 1960 e 1970, tempo quando ainda não permitiam a entrada de negros no Mangueira Futebol Clube e Magrácia era a única negra a entrar porque fazia apresentações para o público de brancos, seus apreciadores. Sr. Pádua (72 anos) é de Sapucaia de Minas – distrito pertencente a Chiador –, e tem várias parcerias, musicais em Sapucaia, estabelecidas desde sua adolescência. Posteriormente, ele ingressou no quartel e lá envolveu-se com conjuntos de bailes da periferia do Rio de Janeiro, uma região artisticamente muito rica. Naqueles idos de 1958/59 surgia a Bossa Nova. 47 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Após passar a tocar em Três Rios, Sr. Pádua iniciou sua profissionalização como autor e compositor, em 1974. Foi para São Paulo, onde gravou LP “Rio de Fevereiro”, que tinham algumas faixas que começavam a fazer sucesso... Mas o amigo de dupla não quis seguir com o trabalho, acabando precocemente com uma carreira que parecia poder despontar. Foi quando retornou para Chiador. Era então em Sapucaia que sr. Pádua encontrava parcerias mais interessadas em uma música profissional que projetasse carreira e circulação nas rádios de grandes circuitos musicais, centralizados na capital. Em Sapucaia, um de seus grandes parceiros é o músico Beto Chocolate com o qual já foi inclusive premiado em Festival Nacional de música, em Pernambuco. Outra personagem de família de músicos, Heloíza Orichio (aproximadamente 60 anos) foi administradora da banda de música Santa Cecília, onde tocaram seu pai e seu irmão, além de outros conjuntos e parcerias musicais, muito comuns na história de Sapucaia: “ [...] Meu pai tocava no Jazz Continental... anos 1950. Até 1958 existia um grupo de jazz, onde tocava também o senhor Arquimedes, que também foi da banda... Sapucaia sempre teve música! Muita Música! [...] Papai era muito envolvido com música. Tocava sax e contrabaixo. Tocou na Banda por muitos anos. Geraldo, meu irmão, toca piston, e tocou na banda também. Hoje, ele é meio desgostoso da música aqui pela falta de apoio...” Heloíza também teve sua experiência de cantora, integrando o extinto chegou Coral Municipal de Sapucaia: “Tinha senhora depressiva que quando cantava no coral, ficava ótima... O coral é mais recente... final de 2001, até 2004. Era com o maestro Ferreira, de Três Rios. Era um verdadeiro encontro de gerações: tinha senhora de 80 e meninas de 12... Tocávamos na igreja, nas escadarias, na época da festa... na época de natal. Isso pra cidade pequena é muito bom! É uma pena um prefeito chegar e acabar com isso... não dar continuidade ao que o outro apoiou e que era bom.” 1.12. Parteiras Partejamento – fazer o parto em ambiente doméstico e por meio de técnicas transmitidas pela ancestralidade - é um conhecimento tradicional. O nascimento em domicílio por procedimentos de uma parteira invoca a compreensão dos significados de cuidar da gestante em casa durante a gestação e o nascimento do bebê. “O Brasil guarda uma diversidade geográfica e cultural imensa que se expressa na atenção à saúde das mulheres e no universo simbólico representado por meio das distintas práticas de cuidar. As mulheres índias e quilombolas, as mulheres das regiões ribeirinhas, dos sertões, dos pantanais e até das cidades, regiões metropolitanas contam freqüentemente com essa figura de tradição antiga do cuidar que são as parteiras tradicionais para ajudá-las, cuidá-las e acompanhá-las em eventos importantes da sua vida sexual e reprodutiva” (Dias, 2007). 48 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Procedimento antigo, freqüente nas áreas mais rurais do Brasil – e ainda atualmente, naquelas mais distantes da região sudeste brasileira – o partejamento, como foi chamado por algumas parteiras, é um saber tradicional de extrema importância simbólica e social. Nas comunidades rurais, o processo de nascimento em domicílio é experiência tecida em uma rede de múltiplos significados. Exige, tradicionalmente, uma relação de fé e confiança entre parteira, parturiente, familiares e amigos. Não raro essas relações envolvem devoções religiosas ou mesmo práticas magísticas para favorecer o sucesso do parto. Diante da diversidade do universo cultural que envolve esse saber, considerado como uma prática de solidariedade, ou “um dom de Deus’, conhecer e respeitar é condição fundamental para uma aproximação real entre o saber popular e o saber científico. No Brasil, formalmente desde 2000, o parto domiciliar tem sido uma das prioridades do Ministério da Saúde comprometido com a saúde da mulher, da criança e da família como garantia dos direitos humanos. O governo brasileiro tem trabalhando buscando programar ações voltadas para a melhoria da atenção à saúde, em especial, para o controle e redução da morbimortalidade materna e perinatal. Para tanto, são incluídas ações de melhoria da atenção ao parto domiciliar realizado pelas parteiras tradicionais. Chiador: No município de Chiador, conhecemos dona Fiota (87 anos), uma parteira cuja história de aquisição desse saber foge ao senso comum que supõe uma transmissão tradicional de ancestrais para descendentes -mães, tias ou avós, transmitindo às suas filhas e netas. A parteira dona Maria José, conhecida como Fiota, nos apresentou um registro de seu nascimento indicando a data de 1922. Contou que nasceu em uma grande fazenda na região de Chiador, denominada Fazenda Marcon. Sua mãe “trabalhava com roça”, era parteira e benzedeira. Dona Fiota relembra que a mãe era muito solicitada pelos moradores de Chiador, mesmo “aqueles que moravam bem longe mesmo”. As solicitações eram tanto pela benzeção, quanto pela atenção às gestantes e parturientes, inclusive porque “muita vez, ela benzia antes de partejá. [...] fazia as orações que ela sabia... coisa antiga... [...] Essas eu aprendi algumas”. Apesar de filha de parteira, dona Fiota contou que não aprendeu a prática com a mãe, Joana Torquato. Pela sua memória, informou que aprendera a partejá, quando tinha cerca de 12 anos, com um dotô que passava pelo lugar, periodicamente: “Ele vinha assim de vez em quando. Mas vinha [...] Me perguntou se eu não queria aprender... [...] Ele sabia que a minha mãe sabia fazer... [...] Ele quis me ensinar pra mim ajudá ele... porque era muita mulher [risos] nascendo o tempo todo...”. Foi assim que dona Fiota adquiriu o conhecimento, com o consentimento e as instruções de um dotô. Esse fato é muito curioso uma vez que, ainda na primeira metade do século XX, era incomum o consentimento de médicos formados pela tradição acadêmica com tais práticas populares tradicionais. 49 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Descreveu que, seguindo as recomendações do médico, ensaiava os cortes de umbigo e as retiradas das crianças usando de modelo as bonequinhas de plástico que dona Fiota guarda ainda hoje consigo, em um quarto de sua casa: “Desenhava nelas assim o buraquinho do imbigo... [...]cortava... media diereitim... fazia que partejava né...”. Os moradores comentam que, há mais de 10 anos atrás, em Chiador, havia muito mais parteiras, “hoje é só a Fiota mesmo, mas, mesmo assim, ninguém precisa mais disso não!” (Sr. Joca, 60 anos, aproximadamente). 50 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação 2. Celebrações O Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, instituído pelo decreto nº. 35511 de 4 de agosto de 2000, determina a categoria Celebrações como uma modalidade de manifestação da cultura imaterial. Sob essa designação, no livro de registros do IPHAN, são inscritos os rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social. Segue abaixo uma apresentação das celebrações de destaque identificadas nos municípios trabalhados. Essas manifestações imateriais da cultura são apresentadas mais detalhadamente nas fichas correspondentes, anexadas ao relatório, organizadas por município. 2.1. Carnaval Grosso modo, pode-se afirmar que o carnaval brasileiro surgiu por volta de 1641, entre os portugueses habitantes do Rio de Janeiro. Denominavam essa festa de entrudo. O entrudo era, então, uma festa popular portuguesa que, nesse país de origem, acontecia não somente no período do carnaval, mas em outros momentos festivos populares. No Brasil, e mais especialmente no Rio de Janeiro, principalmente a partir da segunda metade do século XIX, se destacou o Zé Pereira, um modo espontâneo e popular de brincar o carnaval, feito por um bloco de foliões que sai pelas ruas, em geral mascarados – muitas vezes caricaturando políticos ou outras personalidades de destaque –, batendo instrumentos de ritmo – caixas, zabumba, tarol, pandeiro, tamborins, por exemplo – e cantando letras humorísticas, paródias, etc. O termo Zé Pereira designava, então, qualquer tipo de bagunça carnavalesca acompanhada de zabumbas e tambores, o que, atualmente nos carnavais do interior do Brasil, e, especificamente na região pesquisada, é conhecido como bloco dos sujos. O carnaval surgiu no modo de blocos de brincantes. Na contemporaneidade, existem diversas formas de brincar o carnaval, e algumas delas se consolidaram como referência nacional. Um grande modelo é o carnaval carioca, com os desfiles das escolas de samba. As escolas de samba surgiram no Rio de Janeiro, por volta de 1920. A crônica do carnaval descreve um cenário social existente na cidade de forma bastante estratificada. Para cada camada social havia um grupo carnavalesco e uma forma particular de brincar o carnaval: “As Grandes Sociedades, nascidas na segunda metade do século XIX, desfilavam com enredos de crítica social e política apresentados ao som de óperas, com luxuosas fantasias e carros alegóricos e eram organizadas pelas camadas sociais mais ricas; os Ranchos, surgidos em fins do século XIX, desfilavam também com um enredo, fantasias e carros alegóricos ao som de sua marcha característica, e eram organizados pela pequena burguesia urbana; os Blocos, forma menos estruturada, abrigavam grupos cujas bases situavam-se nas áreas de moradia das camadas mais pobres da população: os morros e subúrbios cariocas”. (Cavalcanti, 1994). 51 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação De acordo com a antropóloga especialista no tema do carnaval, Maria Laura Viveiros de Castro, o surgimento das escolas de samba veio desorganizar essas definições. Os grandes desfiles carnavalescos colocam em cena não só formas distintas de expressão artística, como grupos sociais muito diferentes entre si. O núcleo social de formação das escolas de samba foram os blocos. Édson Carneiro refere-se ao surgimento das escolas de uma forma muito feliz: “Tendo chegado tarde ao Rio de Janeiro, com as atenções populares já monopolizadas pelo rancho, o samba, ao se organizar em escolas – ou seja, quando deixou de ser uma diversão do morro e da favela para percorrer ensurdecedoramente as ruas cariocas –, não se deu ao trabalho de criar para si uma forma especial de cortejo. Desenvolvimento do rancho em sua estrutura processional, somente o samba faz a diferença fundamental entre ranchos e escolas: diferença de ritmo, de ginga, de evoluções, e demonstração de preferência popular, de número de figurantes”. (Carneiro, 1987. IN: Cavalcanti, 1994.). Nesse sentido, segundo Édson Carneiro, “uma escola é o samba quando ele desce o morro”; ou seja, uma escola é o produto da interação do samba e do seu universo social, em expansão, com outras camadas da sociedade. Existem, por meio do carnaval, formas expressivas de redes de relações. Além disso, um desfile de escola de samba integra diferentes aspectos – festivos e espetaculares, comunitários e mercadológicos, expressivos e sociológicos – num processo cultural amplo. Além Paraíba: O carnaval é uma das celebrações que mais se destacam no município de Além Paraíba, enquanto festa que marca uma vivência coletiva, permeada de um rico imaginário compartilhado e intercambiado entre a população. Na contemporaneidade existem diversas formas tradicionais de brincar o carnaval. Algumas delas se consolidaram como grande referência. Um grande modelo é o carnaval é o carioca, com os desfiles das escolas de samba. O carnaval do município começou com blocos e ranchos carnavalescos, cerca de 80 anos atrás. Nesse tempo antigo, o mais entusiasmado era o Cordão Carnavalesco XPTO, de 1916. Atualmente, desfilando ostensivas alegorias pelo centro da cidade, o carnaval de Além Paraíba é conduzido por uma Liga Carnavalesca das escolas de samba locais, que se constituíram na cidade há mais de 40 anos. No imaginário e nas memórias afetivas dos seus moradores é presente uma forte relação com o carnaval, tanto das escolas de samba, quanto de blocos de bairros ou de localidades. No distrito sede de Além Paraíba, foram destacadas as escolas de samba: Unidos Três Corações (Cutuca); 52 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação União da Colina (Colinão); Mocidade Independente de Vila Caxias; Tradição da Saudade; Nova Floresta; Unidos da Saudade; E dos blocos: Império do Planeta 2; Jegue Elétrico; Unidos Santa Rosa; Unidos do Matadouro; Te Como na Pedra; Ninho do Urubu (dos torcedores do Flamengo); Unidos da Ponte (que pertence à Jamapará, município de Sapucaia, mas como é muito próximo de Além Paraíba faz parte da Liga Carnavalesca desse município). No distrito de Angustura, local do povoamento mais antigo do qual surgiu a cidade de Além Paraíba, destacou-se o Bloco Unidos do Cruzeiro. Esse bloco iniciou como um tradicional bloco de boi. Sobre estes últimos blocos de boi, presentes heterogeneamente em todas as regiões brasileiras, afirma-se terem maior ou menor força, na medida em que o boi foi e é incorporado na estrutura sócio-econômica de um lugar. Na região abordada, os bois dos blocos são muito presentes e recebem diversos nomes, Boi Pintadinho, Boi Ramaiete, Boi Coração, Boi Estrela, por exemplo. Apresentam-se com mais freqüência no carnaval, quando além da figura do Boi, aparecem também os bonecões, de até dois metros de altura e que também recebem diversificados nomes: Tizana, Dendeca, Marilu etc.; e outras figuras de animais, que fazem parte da vivência local, como a burrinha, mulinha, urubu e gavião, ou seres encantados como o Jaraguá que tem "corpo de gente e cabeça de animá” (sr. Wilson). Três Rios: No município de Três Rios o carnaval das escolas de samba parece ser o preferido pela população. Apesar de haver ainda os carnavais de blocos, nos bairros, esses se organizam tendo como referência as grandes escolas de samba, que já existem há mais de 20 anos, como a forma mais bem estruturada do carnaval, no lugar. Em função de um grande carnaval conforme o carioca, os moradores de Três Rios se envolvem e investem recursos para “fazer um carnaval cada vez melhor, porque precisa evoluir, não pode parar”. (Rosely, escola Mocidade Independente de Vila Isabel). Em Três Rios há muitos sambistas, dentre eles Dadinho (aproximadamente 60 anos). Nativo do município de Carmo, na Ilha dos Pombos, Dadinho passou a infância no Rio de Janeiro, onde conheceu o samba dos morros com muita intimidade e inspiração, buscando dedicar sua vida à arte de compor, tocar e cantar. Vivendo em Três Rios há 37 anos, Dadinho toca cavaquinho, violão, guitarra banjo e violão tenor. Ele considera seu trabalho, “arte hereditária.... 53 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação e força de vontade. É o dom que a gente traz e o capricho... de querer aprender e persistir. [...] Música é isso: é cultura! Os sambistas eram chamados de vagabundos, de malandro... mas é cultura o que a gente faz!”. Atualmente, são seis as escolas de samba na cidade e vários os blocos de carnaval, que, muitas vezes, são ligados àquelas – formando a Liga Carnavalesca de Três Rios: • • • • • • • • • • G.R.E.S Bom das Bocas G.R.E.S Bambas do Ritmo G.R.E.S Em Cima da Hora G.R.E.S Independentes do Triângulo G.R.E.S Mocidade Independente da Vila Isabel G.R.E.S Sonhos de Myxyrika Bloco Os que Bebem não Vieram Bloco do Auê Bloco do Barão Bloco das Piranhas O desfile das escolas e dos blocos de Três Rios acontece na Avenida Condessa do Rio Novo, no domingo de carnaval. Os blocos de enredo – grupos menos investidos de recursos, mas com enredo e bem estruturados – saem na segunda. Já os blocos de embalo – que podem ser conhecidos como blocos dos sujos, e são formados por eventuais brincantes sem rigor em termos de fantasias e musicalidade – desfilam na terça-feira. No carnaval contemporâneo de Três Rios, também se apresenta, há mais de sete anos, um grupo de meninos que descendem do mestre folião Sr. Zé Miúdo (também do Morro São Carlos). Formando o bloco Ritmo da Lata, são cerca de 25 netos e bisnetos, entre 3 a 15 anos, que saem pelas ruas com uma bateria formada por latas e recipientes domésticos ou industriais (latas de óleo e latas de tinta, por exemplo). Os meninos e meninas costumam ensaiar no campo de futebol do Morro São Carlos e comentam que tiveram como grande inspiração a Folia de Reis do avô, Zé Miúdo – folia que nenhum deles chegou a conhecer em atividade, mas de que sempre ouviram falar pelos pais, tios e outros foliões reiseiros. 2.2. Festas Juninas Como parte da pesquisa foi realizada no período abrangendo os meses de Junho e Julho, as festas juninas destacaram-se como festas populares que mobilizam com intensidade variados grupos da população. Nessas festas, diversas expressões artísticas são manifestadas com apresentações, como quadrilhas juninas, grupos de forró, samba, fanfarras e bandas de música; além de serem ocasiões em que, por meio das barraquinhas, a culinária popular local é destacada, posta à venda ou distribuída para o público. Nos festejos juninos destacaram-se: o cuscuz de tapioca com coco; churrasquinhos; cachorro-quente; cocadas, pés-de-moleque e maçã do amor. 54 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Além da culinária, outro elemento de destaque são as quadrilhas. Danças-brincadeiras, sua origem remonta ao Brasil Imperial quando, grosso modo, os populares arremedavam os bailes da ‘europeizada’ elite brasileira, que aconteciam nos moldes franceses. De acordo com Alceu Araújo Maynard, a reprodução da quadrilha francesa pela corte portuguesa sintetizava uma opção estética: “Daí a Quadrilha, aparecida com albores do século XIX, ter se tornado a predileta e não se abandonou sequer a marcação toda em francês, bem como as denominações de suas cinco partes. Os movimentos rápidos, de clima frio, de 2/4 ou 6/8, davam oportunidade aos jovens da época para imitar afrancesadamente os trejeitos ensinados por Milliet, Cavalier ou outros mestres, que fizeram a Corte brasileira copiar fielmente os salões parisienses, imitada esta posteriormente pelas Províncias, agora com requebros mais dengosos que os próprios cariocas criaram para a Quadrilha.” (Araújo, 1962. p. 191) No começo do século XX, a quadrilha era muito encontrada nos bailes de roça, onde a marcação conservava algo da terminologia francesa, com alterações. Araújo Maynard afirma que, até 1930, era “a parte mais deliciosa dos bailes populares das cidades interioranas ou das fazendas cafeicultoras paulistas, dançada nas tulhas ou terreiros de café ao som de sanfonas, findando no mais confuso galope. [...] Havia o hábito de declamar versos, quadrinhas com intenção amorosa, cheias de lirismo, nos intervalos das partes da quadrilha, no miudinho, antes da quinta parte, considerada a mais importante. O dizer quadrinhas dava aos enamorados oportunidade de fazerem suas declarações de amor. Na hora do miudinho, muitos pais ficavam de “orelha em pé” para ver qual era o moço que estava “arrastando asas” pela sua filha”. (Araújo, 1962. p. 193-194) Conforme o pesquisador, apesar de ter se originado nos ambientes mais rurais, a quadrilha popular teria sofrido um processo de proletarização, sobrevivendo nas cidades industriais. Nesse lugar, os seus praticantes a tomam como se fossem arremedos dos bailes de caipiras, de matutos. Três Rios: Especialmente nos meses de junho e julho – ocasião de nossa pesquisa de campo – pudemos conhecer algumas das chamadas festas juninas. Dentre essas, destacaram-se o Caixotão da Jaqueira, que acontece no Bairro Vila Isabel; a Festa do Cafona, no centro da cidade; e o Arraial do Caminho Novo. A festa Caixotão da Jaqueira acontece há 27 anos, no bairro Vila Isabel. Começou no terreiro da casa de um de seus fundadores, Sr. Valter Gerônimo, líder cultural do bairro, mestre de folia de reis e bloco de carnaval. A festa surgiu como festa da comunidade: reuniam-se no terreiro da casa de sr. Valter Gerônimo e “cada um participava como podia. algumas senhoras faziam e distribuíam lanches e bebidas, coisas típicas, milho verde, cuscuz, churrasquinho... cerveja. [...] os músicos do bairro, principalmente aqueles que gostavam dessas paradas juninas – é forró, calango, sertanejo...- eles vinham e tocavam... tudo de graça, voluntário... Não tinha essa coisa de muito dinheiro... não me lembro se cobravam entrada, acho que não. Era festa pra comunidade mesmo. E era muito boa...e a festa foi crescendo e virou o que é hoje.” (Beto Chocolate, músico de Sapucaia). Eram muitos os artistas do bairro, ou de bairros vizinhos que animava a festa do Caixotão. 55 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação O Arraial do Caminho Novo é outra festa junina promovida pela prefeitura. Seu nome faz referência a um título histórico atribuído a essa região por fazer parte do chamado Caminho Novo, uma rota de circulação de pessoas e mercadorias, que ligava o porto do Rio de Janeiro ao interior. Essa rota era alternativa à estrada real, totalmente fiscalizada. A festa acontece há cerca de 25 anos, geralmente no final de julho ou até mesmo em agosto, durante dois dias. De acordo com Rosely, “a secretaria de Cultura, sozinha, não faz a festa. Conta com o apoio dos diretores de escolas que levam suas quadrilhas, ajudam na decoração, e na organização das barraquinhas.... É uma festa da prefeitura mas que precisa do apoio dos moradores. É fruto de uma mobilização dos moradores... mas que passa pela prefeitura.” Atualmente a festa acontece na Praça da Rosa (Praça Arsoval Macedo) e tem duração de 4 dias. Sua organização difere bastante daquela original – que é considerada mais espontânea ou menos comercial: aluguel de várias barraquinhas para venda de bebidas e alimentação, shows de grupos de fora, em cima de um palco montado com estrutura profissional, muitas faixas espalhadas com agradecimentos aos patrocinadores, em geral, grandes comerciantes da região. Seu co-fundador e atual produtor é Dida (aproximadamente 50 anos), também morador do bairro, que “sempre teve um espírito assim agitador, mas muito voltado pra fora do bairro... Assim pra coisa grande. Ele queria que a festa extrapolasse o terreiro, o Caixotão, né... Ele queria a festa grande e conseguiu. A festa continua um sucesso. Vem gente de vários bairros visitar Vila Isabel por causa do Caixotão da Jaqueira!” (Rosely). A Semana do Cafona acontece em Três Rios já há 6 anos, no final do mês de junho, ou início de julho. É derivada do baile tradicional de um clube particular, “Esse baile é bem mais antigo, acontece desde há 25 anos atrás” (Marli). O CAER (Clube Atlético Entre Rios) exigia para esse baile o uso de trajes em estilo cafona. Esse estilo é definido por Marli como “tudo aquilo que era considerado, brega, fora de moda”. A festa fazia grande sucesso entre os moradores das classes média e alta de Três Rios, “Os bailes eram particulares, de moradores antigos que promoviam esse baile... mas todo mundo ficava sabendo, comentando das fantasias dos rapazes e moças que iam todos de cafona... Era uma diversão só” (Marli). Favorecendo esse divertimento, a prefeitura do município criou então a Semana do Cafona. Essa festa acontece em praça pública – Praça de São Sebastião, no centro da cidade – envolvendo novos elementos (que não o baile tradicional que continua acontecendo exclusivamente no clube particular) como: concurso de fantasias, barraquinhas de instituições filantrópicas, bazares e concurso de vitrines entre as lojas do centro da cidade que disputam pelo título da decoração mais cafona. O concurso do Rei e da Rainha Cafonas é o evento que mais atrai os freqüentadores da festa. Além disso, há os shows em que a maioria dos artistas convidados “são de um estilo brega. [...] Tem Karaokê também... tudo o que a gente chama de brega e cafona! Tem o bazar do ‘mundo cafona’... e o concurso de vitrines de lojas com seus manequins vestidos de cafona” (Rosely). 56 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Além Paraíba: As festas juninas de Além Paraíba se estendem também ao mês de julho, reunindo muitos participantes, nas escolas, igrejas, praças municipais, ou festas particulares de clubes e associações. No distrito de Angustura, foi destacada por sr. Jairo (aproximadamente 70 anos) uma forte lembrança das festas juninas de antigamente. Para sr. Jairo, as festas de antes é que eram festas tradicionais, quando se fazia grandes quadrilhas que eram dançadas pela maioria das pessoas da comunidade. Segundo ele, nesse tempo, os dançantes fantasiavam-se como caipiras e passavam noite à dentro brincando de quadrilha, e assando leguminosas na fogueira. “Celebrações religiosas e outras datas estão praticamente esquecidas [...] Esse pessoal mais moderno, como eu vou dizer... Há um desinteresse... Vocês hoje ‘tão em outra’, como se diz na gíria, não é? É bem diferente a cultura, a educação, os valores... [...] A festa junina da escola estadual ainda acontece aqui, em Angustura, que é bastante tradicional. Mas a participação é outra, a animação é outra” (Sr. Jairo). Moradora de Além Paraíba, Elaine (aproximadamente 45 anos) identifica como poucas, mas significativas as diferenças entre as comemorações na roça e na cidade: “Aqui, as festas são mais particulares, né, de uma escola, ou de clubes, tudo com cobrança de um ingresso. Tem as de rua também. Principalmente nos bairros mais tradicionais, na Ilha Recreio, no bairro São José. Aí, já tem um apoio da prefeitura. A festa acontece na rua fechada ou numa praça, as pessoas põem barraquinhas. [...] Costuma ter show de banda. Hoje em dia a música é o sertanejo, né? Não tem mais aquelas coisas antigas, o calango, as vilas, pelo menos aqui na cidade não tem. Tem, também, é som mecânico. E as pessoas vêm. Muito para comer, né, que as comidas de festa junina são uma delícia, né? Eu vou só pra comer.” O período junino também é consagrado à celebração dos santos homenageados no mês de junho, pela igreja católica: São Pedro, Santo Antônio e São João. Nesse sentido as igrejas católicas realizam festas nas paróquias, mesclando elementos sagrados – missa, trezena de Santo Antônio, e novenas – aos profanos – quermesse na rua, bingos, leilões, e shows musicais. 2.3. Festas Municipais Além Paraíba: - Fexpo Realizada há mais de 40 anos, a Fexpo, Festa e Exposição Agropecuária de Além Paraíba, é tão importante para a cidade, que a maioria dos seus moradores a denominam de “ festa da cidade”. 57 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Nem o aniversário do município, dia 28 de setembro, nem o dia do padroeiro São José, 19 de março, competem com esse grande evento, que acontece sempre em agosto. São quatro dias que mobilizam a população, entretida com um tradicional concurso de gado leiteiro, uma exposição de produtos hortifrutigranjeiros, e os shows com artistas de fama nacional – dos estilos sertanejo, axé e pagode. Conforme informou a gerente do sindicato rural de Além Paraíba, Renata (aproximadamente 40 anos), a agropecuária é um elemento de destaque na cultura do município, cuja população rural está distribuída pelos distritos de Aterrado, Angustura, Sítio Branco e Marianópolis. A Fexpo coloca em evidência, justamente os produtos agrícolas e da pecuária, tão valorizados e presentes no cotidiano da região. O concurso leiteiro é o mais famoso da festa – 70 a 80% dos produtores de Além Paraíba são atuantes da cadeia leiteira, e não de corte. A disputa conta com a participação de produtores de outros municípios da região, como Aventureiro, Volta Grande, Estrela Dalva e Leopoldina. Eles trazem os animais para Além Paraíba, até os pavilhões do sindicato rural, onde os mesmos são submetidos a duas ordenhas por dia, num total de seis. Antes, os animais e os objetos usados no concurso passam por uma série de procedimentos de fiscalização: verificase se as latas de leite têm água, podendo influenciar na pesagem do leite, e se a alimentação do gado é regular, por exemplo. Conforme pontuou Renata: “O concurso é o elemento mais importante da Exposição. [...] É uma forma de valorização do animal, de acordo com sua performance no concurso leiteiro. Há desfile com animais – cavalos e éguas –, julgamento pelo porte, e premiação. Tem também prova de cavalos, tambor, baliza [...] Tem a famosa vaca holandesa leiteira, que é um gado puro muito apreciado pela população”. Na avaliação, além da quantidade de leite, em quilos, também se valoriza o teor de gordura no líquido – quanto mais gordura melhor (o que rende premiação paralela). Há registro de vacas que já deram 75 quilos de leite por dia. A premiação, com troféus e dinheiro, é feita de acordo com a categoria de cada animal. São elas: dois dentes; quatro dentes; seis dentes; e categoria adulta. Já quanto às raças, não existe separação. Tem animal P.O. (Puro de Origem com registro), e animais mistos. Durante o concurso, e mesmo antes, nas fazendas, a preparação dos animais concorrentes é rigorosa. No seu tratamento, são empregados cuidados melindrosos, desde sabonete líquido e ventilador, alimentos especiais importados, até o cuidado em proporcionar um ambiente de total silêncio na hora de alimentar os animais. Acredita-se que qualquer alteração nesse tratamento pode dar uma “quebra de leite”, ou seja, perturbar a rentabilidade potencial da ordenha. Depois de premiado, o animal é levado a leilão, em geral em um sábado à noite. Isso é uma regra do concurso. O leite tirado das vacas, durante a semana, é vendido para a cooperativa. 58 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Sapucaia: - Festa da Manga – Memórias A manga de Sapucaia é considerada uma tradição. Foi principal produto de exportação cujo auge da produção se deu nas décadas de 1940 a 1960. Contam que nessa época havia muitos exportadores de manga que vendiam na capital do Rio de Janeiro: a “manga de sapucaia era uma verdadeira marca como a cachaça mineira de Salinas”, comentou um morador. As fazendas da região – ícones da abundante produção de café, na segunda metade do século XIX – produzem grande quantidade de manga, ainda hoje. Muitos proprietários fazendeiros, na época da colheita da manga, viravam verdadeiros empresários mobilizando grande quantidade de mão de obra local, inclusive meninos e meninas menores adolescentes ou crianças. Essa situação recorrente em certos períodos da história de Sapucaia ficou registrada em uma composição de Magrácia, expoente da música popular das décadas de 1960 e 1970: Muleque de Sapucaia Lá no meu torrão Muleque serve pra quê? Quando tem manga madura ele cata pra você Na mão tem estopa dinheiro e almoço A vida é sopa Quer manga seu moço? É tempo de mangada Muleque tem mais dinheiro Outra! diz a mulecada recolhendo manga o dia inteiro Na mão tem estopa dinheiro e almoço A vida é sopa Quer manga seu moço? Quando termina a colheita Que já supriu o mercado Menino quase gente direita outra vez Muleque de recado Na mão tem estopa dinheiro e almoço A vida é sopa Quer manga seu moço? Essa economia abundante movimentada pela produção de mangas dos antigos mangueirais sapucaienses é muito marcante na história do município. O Clube principal da cidade, O Mangueira Futebol Clube, assim como o nome de um importante time de futebol, foram assim nomeados em função da importância da manga para o lugar. 59 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Durante o período áureo da produção, a sociedade de Sapucaia promovia grandes festas com o tema da manga. Eram as tradicionais Festas da Manga. Nessas festas, além de bailes, havia exposições das frutas e dos seus derivados artesanais – doces, geléias, bebidas – e um concurso da Rainha e da Princesa da Manga, em que eram eleitas as damas mais bonitas da cidade. Conforme contou o morador Sr. Evando (aproximadamente 70 anos), esse concurso comovia as moças e os rapazes da cidade. Elas sonhavam em ser eleitas. Eles, em namorar com uma delas. 2.4. Festas Afro-Brasileiras Três Rios: Além dos festejos juninos, foram indicados também a Festa da Quizomba (ou Festa da Mãe Preta); o Festival AfrOrigem, organizado pelos movimentos negros do município. São realizadas em homenagem à matriz cultural afro-brasileira. A Quizomba ou Festa da Mãe Preta é realizada , há cerca de 20 anos, todo dia 13 de maio, no bairro Vila Isabel, promovida pela Escola de Samba Mocidade Independente de Vila Isabel, em homenagem à libertação dos escravos pela princesa Isabel. Além dela a festa também homenageia a Mãe Preta uma personagem genérica que faz referência às negras escravas que cuidavam dos filhos de seus senhores como se fossem suas mães (há um busto erguido em uma praça do bairro Vila Isabel, em homenagem a essa figura). São três dias de festa quando, além dos shows e desfile da Beleza Negra, colocam flores aos pés do busto da Mãe Preta, e lançam fogos de artifício, com grande animação: “Tem quermesse, tem Pau de sebo... em cima do pau colocavam prêmios... tesouros... Tem quentão, cachorro quente, pipoqueiro...churrasquinho... Tem desfile da beleza negra...tudo voltado para Colônia...aqui era uma colônia agrícola de escravos”. (Rosely) A festa da Quizomba é considerada “uma festa afro! Tem desfile da Beleza negra com modelos vestidos como se fossem africanos do Congo! [...] É uma referência à afro-ascendência dos moradores de Vilas Isabel”. (Beto Chocolate) De diferente opinião, os capoeiras de Três Rios não reconhecem o dia 13 de maio como uma data representativa da história de luta e perseverança dos negros afro-descendentes no Brasil. Por isso, elegeram como dia oficial de sua festa AfrOrigem, o 20 de novembro – Dia da Consciência Negra. A festa também costuma acontecer no dia 20 de setembro, mas nunca no 13 de maio que, para eles, é uma “enganação, que atribui a uma branca da nobreza a vitória que é dos negors, de luta pela libertação!” (Mestre Brinquinho) Esse grupo que faz parte de uma vertente rigorosa do movimento negro considera que o dia 13 de maio é dia de comemorar a “desgraça dos escravos negros! [...] O dia 20 é que é dia de comemoração!” Consideram que a festa Quizomba não tem conteúdo cultural representativo da negritude de Três Rios: “tem muita cerveja, muita música, muita bagunça... mas não se discute nada... 60 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação não informa nada... não fala sobre a origem da Mãe Preta... sobre esse histórico... porque se você for entrar em fundamento tem um histórico muito bonito”. (Mestre Brinquinho) A data de realização da AfrOrigem varia entre os meses de setembro, outubro ou novembro, mas sempre feita no dia 20 de algum desses meses, há cerca de 5 anos. Organizam o evento com palestra de discussão e rodas de capoeira, além da música e dança que consideram mais representativa da negritude como o samba de raiz, e o samba de roda. 2.5. Festas Católicas Sapucaia: - Festa de Santo Antônio No município de Sapucaia a festa do padroeiro Santo Antônio acontece desde a sua fundação. Santo Antônio é padroeiro de Sapucaia-sede e sua celebração é realizada tradicionalmente, em todo mês de junho, por meio de uma trezena festiva, participada por toda a paróquia que envolve os moradores da sede e dos demais distritos. No distrito de Anta, a localidade de Santo Antônio da Vista Alegre, traz no seu nome a invocação do santo que é também padroeiro do lugar. Também ali ocorre, tradicionalmente, um celebração em honras a Santo Antônio. O festejo ocorre uma semana antes da celebração na sede. Segundo nos informaram alguns moradores, trata-se de um cuidado para não concorrer com a outra festa que é bem maior e ainda assim prestarem uma homenagem especial, feita pela própria comunidade, ao santo padroeiro dos dois distritos. Todo modo, os moradores da localidade frequentam participativamente a festa da sede cujos moradores também visitam Santo Antônio da Vista Alegre durante os dias de celebração. Programação da festa em junho de 2009: 1 a 13/06 (todos os dias) - 19:00h Trezena de Santo Antônio na igreja. 10/06 (quarta-feira) - 19:00h Trezena; 20:30h Caminhada musical pelas ruas da cidade; 22:30h Baile Popular. 11/06 (quinta-feira) – 07:00h Oração na Capela da Igreja do Santíssimo; 15:00h Tarde Recreativa com as crianças, animada pelo Novamérica (Organização Não Governamental da sociedade civil sem fins lucrativos que iniciou suas atividades em 1991. Sua sede central está situada na cidade do Rio de Janeiro e possui também um centro de atividades, o Centro Novamerica de Educação Popular, na cidade de Sapucaia, no interior do Estado de Rio de Janeiro. Atua e colabora com centros, organizações da sociedade civil e órgãos do setor público de outros Estados do Brasil. Realiza projetos conjuntos, trabalhos e assessorias com centros e organizações de outros países da América Latina. Foi introduzida em Sapucaia por mediação do Padre Medoro, antigo pároco e liderança política do município, atuante no Movimento das Comunidades Eclesiais de Base da 61 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Igreja Católica); 19:00h Trezena, Missa e Procissão de Corpus Christi; 21:00h Taqui; 23:00 Baile Popular. 12/06 (sexta-feira) – 19:00h Trezena, Vigília de Santo Antônio com bênção para os namorados; 23:00h Baile Popular. 13/06 (sábado) – 06:00h Alvorada com a Banda Santa Cecília e Repique de Sinos; 09:00h Missa de Unção com Bênção da Saúde;11:00h Cavalgada e Bênção dos Cavaleiros e dos animais; 14:30h Tômbola do Clube de Mães; 19:00h Trezena; 19:30h Missa em Louvor a Santo Antônio com Bênção de Pães; 21:00h Leilão do Apostolado, Pastorais, Famílias Sapucaienses e Visitantes; 24:00h Baile Popular. 14/06 (domingo) – 06:00h Alvorada com Banda Santa Cecília e Repique de Sinos; 09:00h Missa solene com bênção para os visitantes; 12:00h Leilão de Gado; 16:00h Sorteio de Prêmios;19:30h Missa Festiva com Procissão, Bênção de Pães, apresentação teatral com alunos do Colégio Estadual Maurício de Abreu; 22:30h Baile Popular; 24:00h Queima de Fogos. De acordo com esse programa da última festa de Santo Antônio na sede do distrito de Sapucaia é possível conhecer como organizam a festa atualmente. De ano para ano podem ocorrer algumas variações, mas fundamentalmente, trezena de Santo Antônio, alvorada, cavalgada, repique de sinos, leilão, queima de fogos, quermesse, bênção de pães, leilões, bingos, tômbola do Clube de Mães e procissão são elementos presentes. - Festa de Aparecida Desde o início de sua formação, a festa de Nossa Senhora Aparecida é a mais importante do distrito de mesmo nome. A festa atrai moradores de outros lugares, além de devotos e amigos da comunidade. Nossa Senhora Aparecida é padroeira do lugar e sua presença é associada a um mito fundador. Contam que uma imagem teria sido encontrada por um dos colonos, nos arredores do povoado e, por isso, teriam entendido ser ela a santa a consagrar-se como padroeira do lugar: “Tropeiros que vinham de Cantagalo, acharam uma santinha no caminho e fizeram uma capela. Compraram o terreno da fazendinha e doaram para a Igreja, em honras à nossa senhora Aparecida. [...] Aparecida surgiu por causa de Cantagalo que fazia disso aqui passagem [...] Essa história é contada como origem da nossa comunidade, eu cresci ouvindo essa história. (Dona Lia Daflon) Além Paraíba: - Festa do Cruzeiro Em Angustura, distrito de Além Paraíba, a Festa do Cruzeiro foi mencionada como uma festa popular católica muito importante para o lugar, mas que já não fazem há mais de 30 anos. 62 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação A festa acontecia no Morro do Cruzeiro, bairro de Angustura habitado por uma população de renda relativamente baixa, e que reúne boa parte das manifestações culturais do lugar: entre seus moradores, estão mestres de folia de reis, sambistas, e batedores de mineiro-pau. De acordo com o morador Sr. Jairo (72 anos), a Festa do Cruzeiro era uma das quatro mais tradicionais de Angustura, incluindo aí a Festa da Mãe de Deus – padroeira do lugar –, a Festa de São Sebastião e o carnaval. Todas, festividades que remetem à fé cristã, marco tradicional de Angustura – mesmo o carnaval; contraponto ao regime da Quaresma, quando, por 40 dias, não se deve contemplar a carne, em seus prazeres cotidianos (bebidas, ingestão de carnes ou outros alimentos muito prazerosos, namoros, festas etc.). A Festa do Cruzeiro acontecia todo 29 de agosto, em homenagem à edificação do cruzeiro (há cerca de 20 anos eram dois, um frente à igreja matriz e um no alto do morro). Chiador: - Festa de Santo Antônio O município de Chiador foi, desde o início de seu povoamento, consagrado à Santo Antônio, tendo já sido nomeado de Santo Antônio dos Crioulos (em referência aos negros escravos de Antônio Joaquim da Costa que, sob seu comando construíram a capela – hoje igreja matrizem honra a Santo Antônio, por volta de 1842). Portanto, a celebração em homenagem ao santo é, desde o início, a maior festa do município, agregando os moradores da sede, distritos e localidades, e também os ex-moradores. Muitos deles retornam ao lugar nesse período festivo, ao menos em um dos dias de duração da festa que, ao longo de sua história, variou entre 4 e 2 dias. Sobre a festa de Santo Antônio em Chiador, nossa informante foi Dona Vilma do cartório (aproximadamente 70 anos), como nos foi apresentada por outros moradores; e seu filho Jamil (50 anos aproximadamente). A filha de dona Vilma é historiadora, tendo essa mãe, por influência da filha e do ambiente de trabalho – um cartório –, o costume de guardar arquivos de tudo o que há documentado sobre Chiador. Por isso, é conhecida na cidade como a “Dona Vilma do cartório”, que “sabe tudo sobre Chiador! Tem tudo guardado!”, como nos comentou um morador. Dona Vilma também é voluntária nos cuidados com a administração do cemitério. Segundo Dona Vilma, atualmente essa festa é a única importante do município e que ainda mobiliza uma expressiva parte dos moradores em torno de um mesmo evento. Com relação à data da festa, houve variações ao longo do tempo. O dia de Santo Antônio é oficialmente comemorado no dia 13 de junho. Mas de acordo com Dona Vilma, a paróquia de Chiador sempre foi dirigida por padres de outra organização da igreja católica que não a atual. 63 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Esses padres anteriores costumavam eleger para celebração de Santo Antônio, ou um final de semana mais próximo do dia 13 de junho, ou mesmo adiar a festividade para o mês de Julho – que é um período quando os moradores e ex-moradores de Chiador se reencontram no município por ocasião das férias escolares. Para dona Vilma essa adaptação à disponibilidade dos moradores e ex-moradores, para favorecer a sua reunião, é muito importante porque Chiador é um município pouco habitado, com estrutura basicamente rural, que então “perde’ seus moradores para as cidades vizinhas, mais urbanizadas, ou para as cidades grandes ou mesmo capitais do sudeste do país, principalmente Juiz de Fora, Belo Horizonte, Rio de Janeiro. A maioria dos moradores, atualmente mora/trabalha no Rio de Janeiro. Por isso, se a festa é realizada num período pouco favorável à presença das pessoas ali, “fica vazia... chocha... sem graça...”. Apesar de muitas variações no modo de organização da festa ao longo de sua história, os elementos principais da festa são: • • • • • • • • • procissão; repique de sinos; missa solene em honra à Santo Antônio; almoço para as famílias, com refeições preparadas por voluntárias e vendidas a baixo custo para os moradores; cavalgada; bingo cujos objetos sorteados são doações à igreja, ou adquiridos com recursos da festa do ano anterior, por exemplo. quermesse, com venda de quitandas, bijuterias, artesanatos, roupas, tanto para arrecadação de dinheiro para a igreja, quanto para particulares; leilões, nos quais os animais leiloados são doados por fazendeiros; e as quantias arrematadas são destinadas à igreja; bailes ou shows religiosos; Três Rios: - Festa de São Sebastião A festa religiosa que mais se destaca em Três Rios é a festa do padroeiro, São Sebastião. Homenageado no dia 20 de Janeiro, seus devotos saem à rua me procissão, da igreja matriz de São Sebastião até os bairros vizinhos ao centro da cidade, onde fica essa igreja. A própria igreja é quem promove a festa: procissão; cavalgada de São Sebastião que acontece há mais de 10 anos (os cavalos saem em procissão com a imagem do santo e percorrem a cidade), quermesse e bingo da paróquia para arrecadação de dinheiro, e uma missa solene. 64 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação 3. Lugares O Programa Nacional do Patrimônio Imaterial instituído pelo decreto nº. 35511 de 4 de agosto de 2000, define uma das modalidades de manifestação da cultura imaterial como Lugares. Sob essa designação, no livro de registros do IPHAN, ficam inscritos os mercados, feiras, santuários, praças e demais espaços onde se concentram e reproduzem práticas culturais coletivas. Os espaços, como resultados das relações sociais pré-existentes, relacionadas às forças econômicas e políticas em vigor, deixam marcas na paisagem. Essas marcas são testemunhos que sedimentam memórias e registram informações de tempos passados que contam a história do lugar. A apropriação simbólica do espaço se dá, especialmente, por sentimentos de pertinência que particularizam e transformam o lugar. O conseito de lugar se apóia nas concepções de alguns teóricos como Tuan (1983:6) “o espaço é mais abstrato do que o lugar. O que começa como espaço indiferenciado, transforma-se em lugar à medida em que o conhecemos melhor e o dotamos de valor [...] além disso, se pensarmos no espaço como algo que permite movimento, então lugar é pausa: cada pausa no movimento torna possível que a localização se transforme em lugar”. O lugar é então o redimensionamento do espaço – feito por um grupo, comunidade, ou indivíduo- dotando-o de sensações, afeição e referências da experiência vivida. De acordo com outro teórico, Carlos (1996:16) “o lugar guarda em si, não fora dele, os seus significados e as dimensões do movimento da história em constituição enquanto movimento da vida, possível de ser apreendido pela memória, através dos sentidos e do corpo”. É por essa perspectiva que lugar é considerado um bem cultural imaterial: focando-se nos sentidos atribuídos aos lugares vivenciados por um grupo ou comunidade. Segue abaixo, uma breve apresentação de alguns importantes lugares dos municípios pesquisados, que foram destacados por seus moradores como lugares especiais, referências da sua cultura e da sua história. Sapucaia: A Praça Barão de Ayuruoca é chamada pelos moradores de “Praça da Árvore Grande”, por estar nela localizada – como o próprio nome diz – uma grande árvore que se destaca na paisagem. Essa árvore é referida, pela maioria da população como sendo uma Sapucaia, uma vez que uma das versões sobre a origem do nome do município indica a abundante presença dessa árvore por ali. No entanto, alguns moradores mais atentos dizem não se tratar de uma Sapucaia, mas uma figueira muito antiga. Teria sido ali, ponto de descanso e paragem das tropas que atravessavam a região do interior para a Corte ou no sentido contrário. 65 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Essa praça é lugar de encontro. Situam-se ali três quiosques que funcionam como bares com exibição de jogos de futebol de campeonatos televisionados. Em frente a praça fica o Colégio mais tradicional do município, Maurício de Abreu, e é daí que afluem contingentes de jovens, depois de suas aulas, para conversar e passear na praça. Outra praça que agrega muitos moradores é a chamada “Praça do Fórum”, em frente a Igreja Matriz de Santo Antônio. No coreto dessa praça, jogadores de truco encontram-se todos os dias, durante a tarde, onde permanecem até o pôr do sol – a maioria deles é aposentada. Ali também é realizada a grande festa da cidade, no mês de junho, a celebração de Santo Antônio. Nesse período, o coreto de usado para apresentações musicais de seresta e banda. Três Rios: - Bairro Vila Isabel Em relação com a história geral do povoamento da região, no município de Três Rios, destaca-se o bairro de Vila Isabel como um lugar de memórias e construções simbólicas com forte referência à escravidão empregada nos latifúndios de café e à matriz afrobrasileira da sua população. Segundo história registrada em texto fornecido por uma funcionária da Prefeitura: “O bairro Vila Isabel já foi denominado Colônia de Nossa Senhora da Piedade, onde só havia casa de pau a pique cobertas com sapê e muito distantes umas das outras, aos modos de pequenos sítios, onde moravam os escravos da Viscondessa do Rio Novo, senhora Mariana Claudina. Essa Condessa, ficando viúva Visconde do Rio Novo (José Antônio Barroso Carvalho) no ano de 1869, doou parte de sua enorme fazenda, Cantagalo, para seus escravos, que assim constituíram essa colônia agrícola. [...] Dizem que nessas colônias os escravos cuidavam de suas lavouras como se fossem pessoas libertas. [...] Depois de a libertação da escravatura esses negros passaram então a ser oficialmente livres. E o povoamento que já era conhecido, simplesmente pelo nome de Colonha, mudou de nome para Vila Isabel, em homenagem à princesa que assinou a Lei áurea. Apesar dessa troca de nomes... passou muito tempo para que a nova denominação fosse adotada pelas pessoas, muitas dela, até hoje, chamam o bairro de Colonha ou Colônia.” No Bairro Vila Isabel: O morro de São Carlos é um lugar específico com particularidades dentro do próprio bairro de Vila Isabel. Segundo um informante, ali mora uma comunidade carente de autoestima “as pessoas tem seu dinheirinho pois fazem seus biscates ou são empregadas- mas sofrem discriminação por estar numa periferia da periferia, digamos assim”. Porque o Vila Isabel já é discriminado dentro de Três Rios como uma periferia, um bairro mais pobre e de negros, né... A pesar de precisarem muito de nós na hora das eleições”; Campo de futebol que era chamado Campo do Mãe Preta, fica no Morro do São Carlos. É um lugar de encontro dos moradores. Pessoas colaboram mensalmente para manter o 66 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação lugar. Tem uma capelinha de Nossa Senhora da Aparecida, onde as pessoas da igreja fazem catequese; Praça Zumbi dos Palmares, na Morada do Sol, um sub-bairro de Vila Isabel, onde foi instalado um monumento em homenagem à Zumbi e a todos os militantes negros por uma sociedade mais justa. Essa instalação foi promovida por membros do Movimento Negro de Três Rios, dentre eles alguns capoeiristas antigos; Praça Arsoval Macedo, chamada de Praça da Rosa. Uma praça principal onde há o monumento de uma rosa, em concreto, que serve de referência de localização e é ambiente de eventos como a famosa festa popular do Caixotão da Jaqueira; Praça da Mãe Preta. Uma pequena praça no bairro onde foi instalado um busto em homenagem às mães de leite negras que amamentavam os filhos de seus senhores quando as sinhás já não podiam fazê-lo, remetendo à história da escravidão muito presente no bairro Vila Isabel. Além Paraíba: Em Além Paraíba os bairros São José e Boiadeiro se destacam como referência do lugar. O São José é um dos bairros mais antigos, onde fica a sede da Banda Sete de Setembro e o Fórum da cidade. O Boiadeiro, também antigo, remete ao início do povoamento de Além Paraíba, quando muitas tropas com bois passavam por ali. É um bairro periférico, depositários de grande riqueza cultura popular, como sr. Zé Dondoca, mestre folião reiseiro, além de sambistas partidários da Escola Unidos Três Corações. O Boiadeiro é lugar de origem dessa escola de samba, tradicional. O Morro da Colina também é um bairro de periferia muito comentado pelos moradores. É sede e origem da Escola de Samba União da Colina, a mais antiga de Além Paraíba. Residem ali muitos músicos sambistas, dançarinos e carnavalescos, além de mestres de folia de reis e mineiro-pau. Chiador: - Chiador Estação No município de Chiador, alguns lugares da paisagem foram referidos como importantes, bons de ver ou lembrar. Um desses é Chiador Estação, núcleo urbano formado na segunda metado do século XIX, em torno da estação ferroviária de Chiador. 67 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação A estação de Chiador foi inaugurada em 1869 no ramal de Porto Novo da Estrada Ferroviária Dom Pedro II. Está situada a 4,5 km da sede do município, muito isolada, o que complica a sua conservação. É considerada a primeira estação inaugurada em Minas Gerais (apesar de a estação de Santa Fé, também em Chiador, ter registrada a mesma data de inauguração), antes mesmo das demais estações da Central do Brasil, implantadas em 1870. Foi construída com recursos do império brasileiro em parceria com companhias inglesas. Quando ainda funcionavam os trens de passageiros era o centro das festas, mesmo sendo mais afastada da sede do município. Atualmente, apesar de ainda ter uma linha operacional passando por ela - transporta cargueiros de minério -, e embora tenha sido tombada em abril de 2003 pelo Patrimônio Histórico do município de Chiador, está em ruínas. Senhor Haroldo (aproximadamente 70 anos), ex-morador e comerciante de Chiador Estação, localidade do Município Chiador, tem, na sua memória muitas recordações do lugar que para ele “foi a coisa mais importante que teve aqui em Chiador... não dá pra entender... só a passagem do tempo mesmo... como é que foi ficar assim..tão abandonado... esse lugar...parado no tempo né?”. Segundo seu depoimento, Chiador Estação foi uma vila “com comércio e casas grandes muitos boas de morar. [...] O auge mesmo foi por volta de 1950... por aí. Era comércio variado... rendia dinheiro pra gente... [...] pertinho da estação né? Já imaginou? Era gente entrando e saindo do trem... de hora em hora -isso quando tinha ainda o trem de passageiro né...”. Havia trens de passageiros que ligavam Três Rios e Além Paraíba, movimentando a vida econômica e cultural da região, “... saindo e chegando gente... casa de comércio não ficava parada não!”. Esse comércio intenso existia em função da facilidade de escoamento das mercadorias da produção rural: leite, café, lenha, abóbora, cana, feijão. Produção de grandes fazendas com seus colonos numerosos, “isso no tempo em que tinha gente morando em Chiador. [...] Que hoje é só os idosos... as crianças... e uma meia dúzia apegado aqui”. Havia 5 horários para o trecho Três Rios-Além Paraíba, e 5 de Além Paraíba – Três Rios. Por volta de 1957/1958, o trem de passageiros foi desativado. Na memória de Sr. Haroldo, “foi acabando tudo! a estação...o comércio...as fazendas: a Tocaia, a Fazenda Chiador,...as lavouras de café...de feijão...os colonos foram embora, ou foram morrendo...os moradores foram desanimando...querendo morar num lugar mais perto do movimento...que tinha lá – antes!-”. - Cruzeiro O Cruzeiro, localizado no alto do morro que se avista do centro da sede do município, foi outro lugar indicado pelos moradores. Símbolo da devoção cristã dos moradores de uma localidade, erigir cruzeiros (feitos de madeira, de pedra, de concretos, por exemplo) nos altos de morros ao redor, é tradição de uma enorme quantidade de povoamentos de comunidades católicas. 68 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação A esse respeito, Dona Vilma (aproximadamente 70 anos) comentou que: “eu entendo que é uma tradição de quase todas as comunidades do interior. As modernas já não têm. Antes [quando Dona Vilma era pequena] o cruzeiro era na praça. A prefeitura cuida da eletricidade, da iluminação do cruzeiro do alto do monte. Esse foi o pai de dona Vilma que fez, em conjunto com demais devotos da comunidade [...] De primeiro as pessoas visitavam o cruzeiro... Faziam orações no alto. Hoje ninguém vai lá... o pasto cresceu... está sujo”. - Praça da Igreja Matriz A praça da igreja matriz apareceu na paisagem do território de Chiador desde o início da formação do município. Conta-se que em 1842, o português Antônio Joaquim da Costa abandonou a Vila de Barbacena e, com sua família buscou por terras virgens, que encontrou nos arredores do rio Paraíba do Sul. Se instalou no local onde hoje existe a Fazenda da Serra da Arriba, decidindo, pouco depois, pela construção de uma capela em honra à Santo Antônio; erguida , por ele próprio e seus escravos. Concluída a capela, que hoje, reformada, é a Igreja Matriz da Cidade, deu carta de liberdade aos escravos que trabalharam na construção, ao mesmo tempo em que lhes permitiu construírem ranchos e cultivar a terra ao redor da capela. Iniciou, dessa forma, o povoado que veio a tomar o nome de Santo Antônio dos Crioulos, posteriormente transformado em Santo Antônio do Chiador. Além dessa referência direta à origem do povoamento do município, a praça da igreja matriz é o lugar mais central, que recebe transeuntes e freqüentadores de todas as idades, sexos e religiões: “ É importante porque foi ali que tudo começou né... quando o português chegou aqui...fez a igreja [...] libertou os escravos que ajudaram ele [...]. Deixou eles construírem suas casas ali, em volta... [...] Então essa praça foi o começo de tudo... mesmo reformada -que mudou muita coisa...uns gostaram, outros não gostaram... Mesmo assim...é aqui o lugar mais importante. [...] Se a gente marca um encontro: é na praça. Se vem gente de fora visitar: é na praça!” (Joca, aproximadamente 60 anos). 69 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Patrimônio Cultural Imaterial e Políticas de Preservação – indicações de medidas de proteção aos bens culturais identificados O povoamento da região onde estão os municípios de Além Paraíba, Chiador, Sapucaia e Três Rios foi desencadeado por um macro-processo social e econômico comum: o contexto do ciclo do café no Brasil Imperial, da exploração intensiva da mão de obra escrava, e do afluxo de imigrantes estrangeiros. Todo modo, em cada um dos povoamentos originaram os municípios atuais, os desencadeamentos desse grande processo aconteceram diversamente, configurando a história particular de cada lugar. A despeito das muitas características sócio-culturais compartilhadas, são regiões socialmente diversas, que refletem as particularidades da sua dinâmica social nas manifestações culturais identificadas. Um dos reflexos dessas diferenças é que, apesar de serem municípios vizinhos, as manifestações culturais regionais estão presentes heterogeneamente em cada local: algumas foram percebidas em todos; outras estão presentes em uns e ausentes em outros. Em Além Paraíba, as folias de reis, o artesanato, a exposição agropecuária e o carnaval são manifestações muito vivas que mobilizam uma parte expressiva da população e, por isso, se destacaram mais. Em Chiador, as cavalgadas, as benzedeiras e parteiras foram indicadas pelos moradores como manifestações muito próprias do município. Em Sapucaia, a música popular - com destaque ao calango -, a festa do padroeiro Santo Antônio e o mineiro-pau são grandes referências da cultura local. Em Três Rios, também as folias de reis, o carnaval, os festejos juninos, a capoeira e o bairro Vila Isabel - como lugar de memória da escravidão - são expressões significativas da cultura popular local, que pudemos registrar em plena atividade. Todas essas manifestações, quando pensadas nos termos das políticas públicas nacionais possíveis de lhes serem dirigidas, são reconhecidas como patrimônio cultural. Essa categoria nacional parte de noções como identidade e preservação. A idéia de patrimônio cultural requer uma longa duração no tempo de determinado fato cultural. Mesmo levando-se em consideração a complexidade das mudanças sociais sempre em processo, a perspectiva patrimonial introduz o problema da preservação das manifestações como condição necessária para a consolidação de referências sensíveis da(s) cultura(s) formadora(s) de uma identidade nacional. Nesse sentido, o patrimônio cultural imaterial orientado para as manifestações das culturas populares visa consolidá-las como referência da riqueza cultural do Brasil - contraponto crucial das manifestações homogeneizadoras da cultura de massa, criadas e/ou apropriadas pelo mercado com o fim exclusivo de acúmulo de capital. 70 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Essa perspectiva confere uma particular vulnerabilidade às manifestações populares, em relação às condições para sua preservação. Como preservar as manifestações imateriais de uma cultura popular se elas estão em constante transformação pelos seus portadores? E se esses portadores ou agentes produtores também estão em constante modificação, renovandose a cada geração? Renovando, consigo, os sentidos morais e estéticos de uma manifestação da sua cultura? Como fazer com que, a despeito de todas as modificações a que estejam passíveis – e isso é um aspecto saudável para toda cultura que é viva – as manifestações culturais tradicionais preservem consigo aquilo que têm de mais fundamental e característico que são os valores por trás de cada ritual e as performances imanentes a esses valores? Essas são questões para as quais, se, na prática, há uma solução, essa se encontra por elaborar. Há uma gama de reflexões, por parte de estudiosos da cultura popular, antropólogos, sociólogos, agentes das políticas públicas e mesmos agentes da própria cultura popular em questão. E a despeito da impossibilidade de solucionar concretamente todas as questões, vêm sendo desenvolvidos alguns mecanismos teóricos e legais que funcionam como diretrizes e instrumentos normativos e administrativos para viabilizar certa preservação do patrimônio cultural imaterial. Políticas nacionais e internacionais de salvaguarda do patrimônio Cultural Imaterial Devido à diversidade das manifestações e as profundas particularidades dos contextos de cada uma delas, tratar do tema da preservação de manifestações culturais populares é bastante complicado. É necessário levar em consideração uma quantidade de condições em função das quais se desenvolve uma manifestação cultural: sua origem em termos de classe social, seus processos históricos e sua configuração étnica, a posição das administrações públicas em relação a eles, por exemplo. Nesse sentido, no Brasil são elaboradas e postas em operação ações que visam a identificar, proteger, promover e fomentar os processos e bens "portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira" (Artigo 216 da Constituição Nacional). Tenta-se agir considerando a complexidade, diversidade e dinâmica próprias das “formas de expressão”; dos “modos de criar, fazer e viver”; das “criações científicas”, “artísticas e tecnológicas", com especial atenção àquelas referentes à cultura popular. A Constituição Federal de 1988 confirmou o novo conceito de patrimônio cultural do IPHAN, em seus artigos 215 e 216, ao estabelecer a necessidade de se elaborar “outras formas de acautelamento e de preservação”, além do tombamento, acrescentando na relação do patrimônio cultural brasileiro, as formas de expressão e os modos de criar, fazer e viver. Contudo, até o ano 2000, o tombamento era o único instrumento jurídico devidamente regulamentado que o poder público em geral efetivamente dispunha para a preservação de seu patrimônio cultural. Embora válido, eficiente e atual, quando aplicado a edificações, obras de 71 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação arte e outros bens dessa natureza, o tombamento é inaplicável, ou melhor, inadequado à preservação dos bens e manifestações de caráter processual e dinâmico, chamados de imateriais. A esses bens não se aplicam ações e procedimentos de proteção tal como os adotados para os bens chamados materiais. Quanto aos bens imateriais, cabe antes identificar, documentar e produzir conhecimento sobre eles, de modo a subsidiar políticas de reconhecimento e apoio adequados às suas características. Assim, o IPHAN, com o apoio do Ministério da Cultura, de instituições a eles vinculados e em parceria com entidades da sociedade civil, investiram em estudos, discussões e outras ações dirigidas à formulação e estabelecimento de novos instrumentos, como o Registro e os Inventários, mais adequados ao levantamento, identificação e proteção de bens culturais, em especial àqueles considerados imateriais. Esses investimentos resultaram na formalização do Decreto Federal No. 3.551, de 04 de agosto de 2000, que instituiu o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial que constituirão Patrimônio Cultural Brasileiro e criou o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, visando à implantação de política específica de inventários, como referência e valorização desse patrimônio. O Programa Nacional do Patrimônio Imaterial – PNPI- prevê como medidas: • Democratizar o acesso e promover o uso sustentável desse patrimônio para as gerações futuras e para a melhoria das condições de vida de seus produtores e detentores; • Desenvolver as bases legais, administrativas, técnicas, tecnológicas e políticas da preservação dessa dimensão do patrimônio cultural; • Promover, de modo participativo o mapeamento, a identificação e a documentação de referências culturais no território nacional; • Contribuir para a garantia das condições sócio-ambientais necessárias à produção, reprodução e transmissão de bens culturais de natureza imaterial; • Desenvolver as bases institucionais, conceituais e técnicas do reconhecimento e valorização da dimensão imaterial do patrimônio cultural e promover a defesa de direitos associados aos bens culturais de natureza imaterial, em especial os direitos de imagem e de propriedade intelectual de populações tradicionais e detentores desse patrimônio. Por compreender as tendências hegemônicas da dinâmica social como fragilizantes das manifestações culturais pensadas sob a ótica do patrimônio – visão que determina a necessidade da continuidade da manifestação, ao longo do tempo, ainda que recriada, mas sem perder seus atributos fundamentais -, a comunidade internacional, liderada pela Unesco, adotou, em 2003, a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Intangível. Em 1989, a Organização estabeleceu a Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular e vem, desde então, estimulando a sua aplicação ao redor do mundo. Após uma série de esforços, que incluíram estudos técnicos e discussões internacionais com especialistas, juristas e membros dos governos, a UNESCO adotou essa Convenção para a 72 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial visando regular o tema do patrimônio cultural imaterial, e complementar a Convenção do Patrimônio Mundial, de 1972, que cuida somente dos bens tangíveis. Na Convenção definem as seguintes finalidades: • A salvaguarda do patrimônio cultural imaterial; • O respeito ao patrimônio cultural imaterial das comunidades, grupos e indivíduos envolvidos; • A conscientização no plano local, nacional e internacional da importância do patrimônio cultural imaterial e de seu reconhecimento recíproco; • A cooperação e a assistência internacionais. Por “salvaguarda” se compreende as medidas que visam garantir a viabilidade do patrimônio cultural imaterial, tais como a identificação, a documentação, a investigação, a preservação, a proteção, a promoção, a valorização, a transmissão – essencialmente por meio da educação formal e não-formal - e revitalização deste patrimônio em seus diversos aspectos. A Convenção também institui, junto à UNESCO, um Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. Esse Comitê será integrado por representantes de Estados Partes, ou seja, dos Estados Nações signatários da Convenção. Fica definido que para assegurar a salvaguarda, o desenvolvimento e a valorização do patrimônio cultural imaterial presente em seu território, cada Estado Parte deve empreender esforços para: • Adotar uma política geral visando promover a função do patrimônio cultural imaterial na sociedade e integrar sua salvaguarda em programas de planejamento; • Designar ou criar um ou vários organismos competentes para a salvaguarda do patrimônio cultural imaterial presente em seu território; • Fomentar estudos científicos, técnicos e artísticos, bem como metodologias de pesquisa, para a salvaguarda eficaz do patrimônio cultural imaterial, e em particular do patrimônio cultural imaterial que se encontre em perigo; • Adotar as medidas de ordem jurídica, técnica, administrativa e financeira, adequadas para favorecer a criação ou o fortalecimento de instituições de formação em gestão do patrimônio cultural imaterial, bem como a transmissão desse patrimônio nos foros e lugares destinados à sua manifestação e expressão; • Garantir o acesso ao patrimônio cultural imaterial, respeitando ao mesmo tempo os costumes que regem esse acesso a determinados aspectos do referido patrimônio; • Criar instituições de documentação sobre o patrimônio cultural imaterial e facilitar o acesso a elas. 73 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Além disso, a Convenção determina que, nos termos da educação, conscientização e fortalecimento de capacidades cada Estado Parte deverá se empenhar, por todos os meios oportunos, no sentido de: • Assegurar o reconhecimento, o respeito e a valorização do patrimônio cultural imaterial na sociedade, em particular mediante: programas educativos, de conscientização e de disseminação de informações voltadas para o público, em especial para os jovens; programas educativos e de capacitação específicos no interior das comunidades e dos grupos envolvidos; atividades de fortalecimento de capacidades em matéria de salvaguarda do patrimônio cultural imaterial, e especialmente de gestão e de pesquisa científica; e meios não-formais de transmissão de conhecimento; • Manter o público informado das ameaças que pesam sobre esse patrimônio e das atividades realizadas em cumprimento da Convenção; • Promover a educação para a proteção dos espaços naturais e lugares de memória, cuja existência é indispensável para que o patrimônio cultural imaterial possa se expressar. Todas essas determinações partem do pressuposto de que para muitas pessoas, especialmente das minorias étnicas e dos povos indígenas, o patrimônio imaterial é uma fonte de identidade e carrega a sua própria história. O conhecimento, os valores e formas de pensar refletidos nas línguas, tradições orais e diversas manifestações culturais constituem o fundamento da vida comunitária. Num mundo de crescentes interações globais, a revitalização de culturas tradicionais e populares assegura a sobrevivência da diversidade de culturas dentro de cada comunidade, contribuindo para o alcance do respeito a um mundo plural. Além das gravações, registros e arquivos, a UNESCO considera que uma das formas mais eficazes de preservar o patrimônio intangível é garantir que os portadores desse patrimônio possam continuar o produzindo e transmitindo. Assim, a Organização estimula os países a criarem um sistema permanente de identificação de pessoas (artistas, artesãos etc.) que encarnam, no grau máximo, as habilidades e técnicas necessárias para a manifestação de certos aspectos da vida cultural de um povo e a manutenção de seu patrimônio cultural material. É compreendido que, os processos de globalização e de transformação social, ao mesmo tempo em que criam condições propícias para um diálogo renovado entre as comunidades, seus jovens e seus antigos membros, geram também riscos de desaparecimento e deterioração das referências ancestrais de pensar e agir no mundo, que são pensadas como patrimônio cultural intangível de toda coletividade. Nesse sentido, um importante meio de garantir a vitalidade do patrimônio cultural imaterial enquanto referência para orientar as transformações (recriações ou mudanças) imanentes à toda tradição são sua investigação, identificação, documentação, valorização, promoção e transmissão. 74 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Das Manifestações Identificadas Em relação às manifestações identificadas como bens da cultura imaterial dos municípios pesquisados - carnaval, celebrações dos santos padroeiros, folia de reis, mineiro-pau, calango, música popular, bandas de música, parteiras, benzedeiros, cavalgada, encenação da paixão de cristo, festas juninas, e lugares –, todas elas são práticas culturais tradicionais, que têm como forte referência um modo de fazer ou de acontecer originais (ou mais apropriados), situados no passado. Nos discursos dos moradores, mestres, sacerdotes, foliões e devotos, recorrentemente houve menção a um jeito antigo ou original - aquele jeito como era feito “de primeiro” -, indicado como principal parâmetro para uma comparação e diagnosticação do estado em que se encontra a manifestação, no presente. Ao passado, foi recorrente as pessoas consultadas se referirem como “antigamente”: esse período definido por uma vivência do tempo subjetiva, que dimensiona uma (in)certa distância entre hoje e ontem. Nesse “antigamente”, “tudo era mais bem feito”, ou “tudo era feito do jeito mais certo”. Isso, na percepção dos próprios portadores da cultura em questão. Por serem culturas vivas, ao longo do tempo as manifestações passam por diversas modificações: acréscimo de novos elementos, supressões de outros antigos. Adaptações que são feitas para ajustar uma prática tradicional aos desejos e possibilidades contemporâneos – no que concerne ao investimento de tempo e de outros recursos necessários para a sua realização. Apesar de essas transformações serem inevitáveis - justamente por serem orgânicas e imanentes à vitalidade das culturas -, nos termos de uma origem que se quer preservar5, a condição em que se desenrola uma mudança é um aspecto fundamental que informa sobre a possibilidade ou impossibilidade de preservação dos elementos fundamentais particulares de uma manifestação. É nesse sentido que a identificação e o registro podem auxiliar: oferecendo descrições dessas práticas e das memórias sobre elas, desvelando os valores fundantes de uma tradição. Se esses valores e práticas fundamentais forem constantemente atualizados – pela memória ou pela ação -, podem se resguardar de uma transformação radical; ou ao menos, podem se transformar ao longo de um tempo mais processual que possibilite aos seus portadores uma agência mais consciente e criativa, mais autoral nesse processo de mudança. Nos termos da necessidade de conservação de referências primordiais, uma transformação radical é entendida como uma perda. Com a mudança drástica dos aspectos morais e formais fundantes de qualquer manifestação, perde-se sua referência de origem. 5 A importância dessa valorização para os sujeitos portadores das manifestações fica patente na recorrente menção ao modo de como se fazia antigamente. 75 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação No caso das manifestações localizadas em Além Paraíba, Chiador, Sapucaia e Três Rios o que percebemos como mais importante, além do seu registro e de sua divulgação/promoção, é o cuidado em possibilitar um meio ambiente favorável a sua realização. Para as culturas populares, uma questão fundamental é a transmissão do conhecimento, e preservação de seus fundamentos morais e formais, apesar de tantas mudanças dos contextos dos grupos sujeitos dessas manifestações. Para a salvaguarda das manifestações dos grupos de cultura popular, portanto, não bastam ações de divulgação e registro textual ou mesmo audiovisual de suas práticas. É preciso favorecer para que se mantenham as condições fundamentais necessárias para o seu acontecimento. Tais condições variam de casa a caso, de acordo com as demandas específicas de cada grupo. É preciso colocar em questão: “o que está em jogo quando da realização de determinada manifestação cultural?”. “Por que é importante bater mineiro pau? O que isso significa no contexto mais amplo do cotidiano dessa população onde acontece tal manifestação?”. Modo geral, é possível compreender que, subliminar a todas essas práticas de expressão, celebração, saber e fazer de grupos específicos tradicionais o que está em jogo são desejos frutos de uma outra “noção de mundo” ou de “como viver no mundo”. As festas, as expressões artísticas, os modos de saber tradicionais, e os usos particulares e idiossincráticos dos espaços oferecidos nos municípios persistem como um contraponto à ordem macro-organizacional da vida dos coletivos humanos na sociedade ocidental: uma ordem do mercado; da produção, e circulação de pessoas, símbolos e objetos em função do acúmulo de capital por poucos proprietários. As manifestações da cultura popular registradas aqui se dão em função de um imaginário anterior, ou mesmo, incompatível com uma racionalidade calculista individual. Sua lógica é coletivas e participativas. Para sua preservação é preciso atores, muito mais que expectadores. Sua lógica é do dispêndio; do consumo de tempo, de cores, de sons, de corpos se um fim objetivo. O que lhes qualifica extraordinariamente são seus processos e não os produtos. Nesse sentido, salvaguarda tais práticas implica em defender e propor contextos favoráveis à sua emergência contínua. No caso das benzeções, por exemplo, é necessária uma ecologia adequada: uma franca acessibilidade às plantas que são fundamentais para a cura – o ato de benzer. No caso do mineiro-pau, do calango, dos blocos de carnaval com bois e mulinhas, é necessário que o tempo de folga dos seus praticantes permaneça sensível e disponível para uma vivência coletiva, para uma brincadeira sem um fim concreto ou imediato. Condições muito diversas daquelas necessárias nas situações de jogos de videogame, de jogos em rede virtual; de festas reguladas por espetáculos de artistas de fama nacional, ou quaisquer outras ocasiões de lazer e relacionamentos contemporâneas, nas quais o estar junto satisfaz-se primordialmente por meio do consumo e no plano do virtual. 76 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação No caso das Folias de Reis, é preciso que jovens se interessem pelo grupo, compartilhem de uma mesma fé e possam dedicar uma parte do seu tempo, durante a estação dos reis, para seguir com os grupos nas jornadas. É preciso um tempo – processo – e um ambiente – paisagem, território culturais – favorável. Além disso, é preciso que tais práticas sejam reapresentadas à sociedade como manifestações de valor cultural e social – justamente o quê, as políticas para conferir-lhes o status de patrimônio, visam proporcionar. Uma vez que tais práticas são visibilizadas como coisas de valor, os jovens passam a enxergálas com outros olhos. Essas coisas que nasceram fazendo e dais quais, não raro, têm vergonha e desapreço. A seguir serão apresentadas, a partir do modelo de ficha de Inventário de Patrimônio Cultural Imaterial adotado, algumas das manifestações da cultura imaterial registradas nos municípios afetados pelo empreendimento AHE Simplício – Queda Única. 77 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Inventário de Patrimônio Cultural Imaterial Sapucaia/RJ Ficha 001Sa Município: Sapucaia Designação: Festa de Santo Antônio Data: Junho/2009 Distrito: Distrito Sede e Anta Categoria: Celebrações Localidades envolvidas: Distritos Sede e Anta. Periodicidade: Anual (trezena de 1 a 13 de junho e festa de 10 a 14 de junho). Ambiência/Paisagem: Matriz de Santo Antônio e Praça Barão de Ayuruoca (Praça do Fórum). Responsável (is): Conselho Comunitário de Pastoral de Sapucaia. 78 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Histórico e Caracterização: Fernando de Bulhões é o nome original de Santo Antônio, nascido entre 1191 e 1195 em Lisboa, Portugal. Viveu inicialmente em Portugal onde foi frade agostiniano (Coimbra1210). O martírio de cinco franciscanos decapitados em Marrocos e a ida dos seus restos mortais para Coimbra, motivaram o ingresso de Fernando na ordem dos franciscanos, tornando-se Martim Antônio Franciscano, frade franciscano conventual (1220). No ano de 1221 passou a fazer parte do Capítulo Geral da Ordem de Assis, a convite do próprio Francisco, seu fundador. Foi professor de Teologia e grande pregador, convidado por São Francisco para pregar contra os Albigenses na França. Posteriormente foi transferido para Bolonha e, em seguida, para Pádua. Doente, faleceu, com cerca de 36 anos, em 13 de Junho de 1231 no Oratório de Arcela, em Pádua. Foi canonizado pelo Papa Gregório IX, na catedral de Espoleto, na Itália, em 30 de Maio de 1232 (entre os italianos é conhecido como Santo Antônio de Pádua). Os seus restos mortais repousam na Basílica de Pádua, construída em sua memória.Posteriormente à sua canonização ergueu-se em Lisboa uma Igreja sob a sua invocação: Santo Antônio de Lisboa. Muitas das suas estátuas e imagens representam-no envergando o traje dos frades menores, segurando o Menino Jesus sobre um livro, enquanto outras o mostram a pregar aos peixes (objeto de um sermão do Padre António Vieira, séculos mais tarde), tal como São Francisco pregava aos pássaros. Santo Antônio de Lisboa é, para muitos católicos, um grande taumaturgo, sendo-lhe atribuído um notável número de milagres, desde os primeiros tempos após sua morte até os dias atuais. É considerado padroeiro dos pobres, sendo ainda invocado para ajudar a encontrar objetos perdidos, numa oração conhecida como Os Responsos (semelhança com a devoção à São Longuinho, outro santo católico conhecido por auxiliar os aflitos a encontrar seus objetos perdidos). Santo Antônio tem especial devoção e fé de portugueses e brasileiros, sendo padroeiro dos militares das duas nações. Assentou praça nas milícias luso-brasileiras em 1685, por ocasião das lutas contra o Quilombo dos Palmares, por iniciativa do Governador da Capitania de Pernambuco, João de Souto Maior, invocando o seu milagroso auxílio. Além disso, no Brasil, onde tem milhões de devotos, é também reverenciado como santo casamenteiro, por ser, segundo a memória popular, um excelente conciliador de casais. Conta essa memória que muitas moças afoitas por encontrar um marido costumavam retirar o bebê dos braços das estátuas do santo, prometendo apenas devolvê-lo depois de alcançarem o pedido. Por esse motivo, alguns párocos mandavam fazer a estátua do santo com o Menino Jesus fixo ao seu corpo, evitando a possibilidade do sequestro da imagem do menino. Outras jovens, ainda hoje, colocam a imagem do santo de cabeça para baixo, na condição de só mudarem essa posição quando Santo Antônio lhes arranjar um marido.Tais rituais são geralmente realizados na madrugada do dia 13 de Junho. Em uma cerimônia no mês de junho (mês da morte de Santo Antônio), conhecida como trezena (por ter a duração de treze dias, do 1º ao 13 de junho) os fiéis fazem orações, entoam cânticos, soltam fogos, e celebram comes e bebes junto a uma fogueira quadrada. São as populares festas de Santo Antônio. No município de Sapucaia essa festa acontece desde a sua fundação. As primeiras ocupações verificadas 79 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação nas terras do atual município de Sapucaia datam do início do século XIX. A ocupação se efetuou quando Antônio Inácio Lemgruber e Vicente Ubherlato foram à região tomar posse das sesmarias que lhes foram concedidas.O povoamento da região iniciou onde hoje está seu distrito Nossa Senhora Aparecida, que tem a santa como padroeira. Por iniciativa de Antônio Inácio Lemgruber, construiu-se uma capela em homenagem a Nossa Senhora da Aparecida que, em 26 de abril de 1842, recebeu o título de freguesia. Durante o processo de formação das moradias em Nossa Senhora Aparecida, a difusão da notícia sobre a fertilidade dos solos, própria para cultivo do café, provocou fluxo contínuo de colonos para a região, favorecendo o surgimento de arraiais. Um núcleo de maior consistência foi se formando no lugar onde hoje está o distrito-sede do município de Sapucaia, instituído em 1856 com a denominação de Santo Antônio de Sapucaia. A rapidez com que o povoado prosperou o levou a receber, em 1871, o predicativo de freguesia de Santo Antônio de Sapucaia e, em 7 de Dezembro 1874, a categoria de Vila de Sapucaia. O município foi instalado em 28 de fevereiro de 1875, composto de cinco distritos: Anta, Nossa Senhora Aparecida, Pião e Jampará. O desenvolvimento da sede municipal remonta ao período de implantação da Estrada de Ferro Dom Pedro II, quando uma estação intermediária do ramal de Porto Novo do Cunha impulsionou o crescimento da vila. O segundo momento de crescimento deu-se com a implantação da BR-393. Santo Antônio é padroeiro de Sapucaia-sede e sua celebração é realizada tradicionalmente, em todo mês de junho, por meio de uma trezena festiva, participada por toda a paróquia que envolve os moradores da sede e dos demais distritos. No distrito de Anta, a localidade de Santo Antônio da Vista Alegre, traz no seu nome a invocação do santo que é também padroeiro do lugar. Também ali ocorre, tradicionalmente, um celebração em honras a Santo Antônio. O festejo ocorre uma semana antes da celebração na sede. Segundo nos informaram alguns moradores, trata-se de um cuidado para não concorrer com a outra festa que é bem maior e ainda assim prestarem uma homenagem especial, feita pela própria comunidade, ao santo padroeiro dos dois distritos. Todo modo, os moradores da localidade frequentam participativamente a festa da sede cujos moradores também visitam Santo Antônio da Vista Alegre durante os dias de celebração. 80 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Informações Descritivas/Elementos da Celebração: Na Sede do Distrito: Programação da festa em junho de 2009: 1 a 13/06 (todos os dias) - 19:00h Trezena de Santo Antônio na igreja. 10/06 (quarta-feira) - 19:00h Trezena; 20:30h Caminhada musical pelas ruas da cidade; 22:30h Baile Popular. 11/06 (quinta-feira) – 07:00h Oração na Capela da Igreja do Santíssimo; 15:00h Tarde Recreativa com as crianças, animada pelo Novamérica (Organização Não Governamental da sociedade civil sem fins lucrativos que iniciou suas atividades em 1991. Sua sede central está situada na cidade do Rio de Janeiro e possui também um centro de atividades, o Centro Novamérica de Educação Popular, na cidade de Sapucaia, no interior do Estado de Rio de Janeiro. Atua e colabora com centros, organizações da sociedade civil e órgãos do setor público de outros Estados do Brasil. Realiza projetos conjuntos, trabalhos e assessorias com centros e organizações de outros países da América Latina. Foi introduzida em Sapucaia por mediação do Padre Medoro, antigo pároco e liderança política do município, atuante no Movimento das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica); 19:00h Trezena, Missa e Procissão de Corpus Christi; 21:00h Taqui; 23:00 Baile Popular. 12/06 (sexta-feira) – 19:00h Trezena, Vigília de Santo Antônio com bênção para os namorados; 23:00h Baile Popular. 13/06 (sábado) – 06:00h Alvorada com a Banda Santa Cecília e Repique de Sinos; 09:00h Missa de Unção com Bênção da Saúde;11:00h Cavalgada e Bênção dos Cavaleiros e dos animais; 14:30h Tômbola do Clube de Mães; 19:00h Trezena; 19:30h Missa em Louvor a Santo Antônio com Bênção de Pães; 21:00h Leilão do Apostolado, Pastorais, Famílias Sapucaienses e Visitantes; 24:00h Baile Popular. 14/06 (domingo) – 06:00h Alvorada com Banda Santa Cecília e Repique de Sinos; 09:00h Missa solene com bênção para os visitantes; 12:00h Leilão de Gado; 16:00h Sorteio de Prêmios;19:30h Missa Festiva com Procissão, Bênção de Pães, apresentação teatral com alunos do Colégio Estadual Maurício de Abreu; 22:30h Baile Popular; 24:00h Queima de Fogos. De acordo com esse programa da última festa de Santo Antônio na sede do distrito de Sapucaia é possível conhecer como organizam a festa atualmente. De ano para ano podem ocorrer algumas variações, mas fundamentalmente, trezena de Santo Antônio, alvorada, cavalgada, repique de sinos, leilão, queima de fogos, quermesse, bênção de pães, leilões, bingos, tômbola do Clube de Mães e procissão são elementos presentes: Trezena de Santo Antônio - é um encontro para orações, realizado do dia 1º ao 13 de junho, quando os fiéis católicos celebram o santo. Tem a mesma estrutura de uma novena, essa, rezada em nove dias. Essa Trezena de Santo Antônio já acontecia em Portugal, e foi introduzida pelos portugueses nas suas colônias. Assim aconteceu no Brasil, onde foi incorporada como tradição nos ritos católicos de 81 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação homenagem ao santo Antônio de Lisboa. Salvo as diversas variações possíveis, coerentes com a dinâmica de qualquer tradição que é sempre atualizada e reelaborada pelos seus praticantes, pode-se tomar o seguinte conjunto de orações, apresentadas por senhora Helena, catequista da igreja de Santo Antônio em Sapucaia, como próprios da Trezena de Santo Antônio: Orações iniciais (Todos os dias) - Ao Espírito Santo - Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso Amor. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da terra. Oremos: Ó Deus, que iluminais os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo espírito e gozemos sempre de Vossa Consolação. Por Cristo Nosso Senhor, Amém. A Santo Antônio : Meu grande protetor Santo Antônio: apresento-me a vós, pedindo-vos me alcancei de Deus o perdão dos pecados, o espírito de conversão, o crescimento no amor de Deus, e a perseverança no bem até o fim de minha vida. O que especialmente vos peço durante esta trezena, é a seguinte graça (diz-se o que se pede na novena). Se esta graça não for conveniente para minha salvação, alcançai-me a perfeita conformidade com a vontade de Deus. Santo Antônio, nestes dias que consagro em vossa honra, como em todos os dias de minha vida, fazei que eu conserve a graça e a amizade de Deus, que dele nunca me afaste pelo pecado, e que enfim tenha a felicidade de amá-lo e gozá-lo para sempre em vossa companhia, na felicidade eterna do céu. Amém (Primeiro dia)- Santo Antônio, amigo do menino Deus; tiveste a felicidade de ser educado por pais piedosos e exemplares que vos encaminharam no caminho do bem e da virtude. Dai-me a graça de seguir sempre os ensinamentos de Jesus e de sua Igreja e assim poder crescer no amor e na obediência a Deus e ser merecedor de sua infinita bondade e misericórdia. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio. (Segundo dia) - Meu grande Santo Antônio: chegando à mocidade, sentistes os atrativos do mundo, mas, preferistes o grande amor de Jesus Cristo, que em vós superava a tudo, e assim vos consagrastes a Deus na vida religiosa. Libertai-me de tudo o que possa me afastar de Deus, de tudo o que me prende aos bens da terra e a mim mesmo. Que eu me sirva dos bens deste mundo como verdadeiro cristão, e possa gozar da liberdade dos filhos de Deus. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio. (Terceiro dia) - Santo Antônio, amigo de Deus e dos homens: o amor a Cristo e à Igreja vos impeliram para terras da África, onde queríeis apregoar o evangelho entre os infiéis, para receber a palma do martírio. Dai-me a coragem de testemunhar os ensinamentos de Cristo, por minha palavra e pela vida, para que eu seja digno de compartilhar de vossa companhia no céu. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio. (Quarto dia)- Meu Santo Antônio: apesar de vossos grandes conhecimentos e de vosso profundo saber, a ninguém revelastes a grandeza de vosso espírito, preferindo viver na humildade e na vida oculta, a exemplo de Jesus em Nazaré. Extingui em mim todo o desejo de sobressair e de fazer-me valer à custa dos outros. Ensinai-me a servir ao próximo em silêncio, por amor, nada esperando em troca. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio. Quinto dia - Santo Antônio: chegando a vossa hora, seguistes o preceito de Cristo, e fostes anunciar o Evangelho a toda a criatura atendendo o pedido de Jesus. A muitos convertestes com a vossa pregação inspirada e sob a luz do Espírito Santo. Fazei que de Vós eu aprenda a colaborar com a Igreja, dedicando-me ao apostolado, confiando sempre na Santíssima 82 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Trindade. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio. (Sexto dia) - Santo Antônio: Vossa memória era tão prodigiosa, que sabíeis quase toda a Sagrada Escritura de cor. Isto prova um grande amor pela palavra de Deus. Costumáveis ler, estudar e meditar todos os dias as Sagradas Escrituras. Ensinai-me, ó Santo, o amor à Palavra de Deus. De vós quero aprender a estimar o tesouro contido na Bíblia Sagrada. Quero conhecer as riquezas do amor de Deus que ali se revelam. Ensinai-me a viver com toda confiança de acordo com esta mensagem de Deus. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio. (Sétimo dia) - Santo Antônio: Vossa caridade foi um exemplo para todos que vos conheceram. Em vossa vida sabíeis consolar os tristes, os que se apresentavam abatidos sob o fardo de duros problemas e provações. Dai-me um coração compassivo semelhante ao vosso. Que eu esteja disposto a ajudar os necessitados, consolar os tristes, e sempre tenha uma boa palavra para com os desanimados e os que sofrem. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio. (Oitavo dia) - Santo Antônio, homem de santa oração. Uma das vossas preocupações, era de que o estudo e o trabalho não lhe atrapalhassem nem apagassem o espírito da Santa Oração. Além disso, eleváveis vossa alma a Nosso Senhor dominando e disciplinando as paixões da carne e do espírito, através de rudes penitencias. Ensinai-me a fidelidade na vida de oração e devoção como vós o sabíeis fazer. Ensinai-me o espírito de renúncia e mortificação, para que, superando o egoísmo e outras paixões, viva na graça e na paz dos filhos de Deus. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio. (Nono dia) - Santo Antônio: passastes a vida fazendo o bem a todos, a exemplo de Jesus Cristo. Denunciastes os vícios da sociedade. Reconciliastes famílias que viviam no ódio. Por vossa palavra inspirada, e ao mesmo tempo firme e suave, reconduzistes a muitos para o caminho do bem. Ensinai-me, vos peço, a praticar o bem e a promover a paz e a unidade entre os homens, para que mereça ser contado entre os pacíficos, porque eles verão a Deus. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio. (Décimo dia) - Ó amável e querido protetor meu, Santo Antônio, congratulo-me convosco e dou graças ao Altíssimo de vos ter favorecido e enriquecido de privilégios e graças, e de ter recompensado já nesta terra os vossos merecimentos, as vossas heróicas virtudes e os sacrifícios feitos por Deus. Ajudai-me na minha miséria e alcançai-me forças para sofrer com paciência a fadiga e os trabalhos desta vida e depois gozar eterno repouso. Alcançai-me vossa generosidade e fortaleza para corresponder com desinteresse e amor às inspirações de Deus. Sim, faleis por mim. Jesus nada vos negará. Não me negueis este ato de benigna bondade e sede-me propicio. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio. (Décimo primeiro dia) - Ó glorioso Santo Antônio: Visto que Deus vos concedeu o poder especial de fazer encontrar os objetos perdidos, venho a vós com confiança e vos rogo que me ajudeis na procura das coisas que houver perdido. Fazei-me encontrar primeiro que tudo a graça santificante, se tiver a desgraça de a perder; restaurai-me o antigo fervor no serviço de Deus e na prática das virtudes cristãs; alcançai-me, enfim, o que sobretudo me falta; uma fé ativa, uma perfeita docilidade às inspirações da graça, o desgosto dos vãos prazeres do mundo e um desejo ardente das inefáveis alegrias da eterna bem aventurança. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio. (Décimo segundo dia) - Ó glorioso Santo Antônio, cuja língua bendita ensinou os homens a louvarem a Deus, tende piedade de mim. Lembrai-vos, meu Santo protetor, que não foi só em vosso favor que Deus vos investiu de tanta glória e poder, foi também em meu benefício e para me animar a recorrer a vós em todas as necessidades da alma; defendei-me nas tentações, ajudai-me nos combates, e quando soar a hora da minha morte, permanecei junto de mim para me introduzir na eterna bem-aventurança, onde me será dado contemplar-vos e agradecer-vos no seio de Deus, junto à Santíssima Virgem, em 83 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação companhia dos anjos e dos santos. Concedei-me enfim a graça que vos peço nesta trezena, mas, concedei-me, sobretudo uma completa conformidade com a Santíssima vontade de Deus. Amém. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio. (Décimo terceiro dia) - Ó glorioso Santo Antônio, amado de Deus e dos homens, eu vos escolho, hoje, para meu protetor e guia. Ajudai-me a aceitar os trabalhos desta vida para merecer a recompensa, a suportar as fadigas para merecer descanso, imolar a minha existência para chegar à verdadeira vida. Tenho certeza de que se pedires a Deus esta graça para mim, Ele não a negará. Meu querido Santo Antônio, não me recuse mais esta prova do vosso poder de intercessão. Peço-vos ainda que não deixeis que acabe esta trezena sem que mereça alcançar a graça particular que do vosso valimento espero. Porém, de antemão me resigno à santíssima vontade de Deus. Amém Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai, Ladainha de Santo Antônio. Lembrai-vos:Lembrai-vos, o glorioso Santo Antônio, amigo do Menino Jesus, e filho querido de Maria Imaculada, que nunca se ouviu dizer que fosse por vós abandonado, aquele que a vós recorresse implorando vossa proteção. Animado de igual confiança, venho a vós, ó fiel consolador dos aflitos. Prostro-me a vossos pés e pecador como sou, ouso aparecer diante de vós. Não rejeiteis, pois, minha súplica, vós que sois tão poderoso junto do Coração de Jesus, mas escutai-a favoravelmente e dignai-vos atendê-la. Amém. Ladainha de Santo Antônio:Senhor, tende piedade de nós. Jesus Cristo, tende piedade de nós. Senhor, tende piedade de nós. Jesus Cristo, ouvi-nos Jesus Cristo, atendei-nos. Deus pai do céu, tende piedade de nós. Deus Filho, Redentor do Mundo. Deus Espírito Santo. Santíssima Trindade, que sois um só Deus. Santo Antônio de Pádua, rogai por nós. Intimo amigo do Menino Deus, Servo da Mãe Imaculada, Fidelíssimo Filho de São Francisco, Homem da Santa Oração, Amigo da pobreza, Lírio da castidade, Modelo da obediência, Amigo da vida oculta, Desprezador das glórias humanas, Rosa da caridade, Espelho de todas as virtudes, Sacerdote segundo o coração do Altíssimo, Imitador dos apóstolos, Mártir pelo desejo, Coluna da Igreja, Amador das almas, Propugnador da Fé, Doutor da verdade, Batalhador contra a falsidade, Arca do testamento, Trombeta do Evangelho, Convertedor dos pecadores, Extirpador dos crimes, Restaurador da paz, Reformador dos costumes, Triunfador dos corações, Auxiliador dos aflitos, Ressuscitador dos mortos, Restituidor das coisas perdidas, Glorioso taumaturgo, Santo do mundo inteiro, Glória da Ordem dos Menores, Alegria da corte celeste, Nosso amável padroeiro, Doutor da Santa Igreja, Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos Senhor. Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos Senhor. Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós. Rogai por nós Santo Antônio Para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Oremos: Ó Deus, nós Vos suplicamos que a intercessão votiva de Vosso Glorioso Confessor e Doutor Santo Antônio, alegre a Vossa Igreja, para que, fortalecida com espirituais auxílios, mereça alcançar a glória eterna. Por Jesus Cristo, Nosso Senhor. Amém. Saudação á Santo Antônio: Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, sacrário do Divino Espírito Santo, alcançai-me Dele os dons e auxílios da graça. Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, reclinatório do Deus Menino, consegui-me Dele a inocência daquela idade. Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, amantíssimo filho de Maria Santíssima; fazei-me também digno filho de tão soberana Mãe. Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, descobridor das coisas perdidas, não permitais que eu perca o caminho da salvação. Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, lírio formoso de pureza, inspirai-me profundo amor à mais bela das virtudes. Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, modelo perfeito de humildade, fazei meu coração semelhante ao vosso. Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, propugnador da fé, comunicai-me a verdadeira docilidade às doutrinas da Igreja. Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, luz brilhante do universo, iluminai a minha cegueira, para que eu fuja das trevas dos vícios e dos pecados. Deus vos salve, meu glorioso Santo Antônio, serafim abrasado do amor divino, inflamai o meu coração neste fogo sagrado, para que sempre arda nas 84 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação suas belas e amorosas chamas. Oferecimento: Meu glorioso e amável Santo Antônio, eu vos ofereço estas saudações e orações, em honra de vossas heróicas virtudes e santidade admirável. Peço-vos humildemente me alcanceis de Deus Nosso Senhor, e de sua Mãe Maria Santíssima, junto de quem gozais de tanto poder, uma resolução firme de seguir vossos exemplos, para que, dirigindo meus passos por este caminho, na imitação de vossas virtudes, encontre afinal a eterna felicidade. Rogo-vos me alcanceis também, do mesmo Senhor, o auxílio para todas as minhas necessidades, espirituais, corporais, temporais e materiais. Por vosso intermédio espero alcançar estes benefícios do Altíssimo. Tenho a certeza de que não faltareis com a vossa proteção a quem, como eu, tanto confia no vosso amparo. Espero também ser socorrido por vós na hora de minha morte, para que vencidos todos os males, meu espírito, finalmente livre das prisões desta vida mortal, possa desfrutar para sempre a perfeita liberdade dos filhos de Deus, e gozar de sua visão, em vossa companhia no céu. Amém. Para pedir proteção: Ó grande e bem-amado Santo Antônio de Pádua! Vosso amor a Deus e ao próximo, vosso exemplo de vida cristã, fizeram de vós um dos maiores Santos da Igreja. Eu vos suplico tomar sob a vossa proteção valiosa minhas ocupações, empreendimentos, e toda a minha vida. Estou persuadido de que nenhum mal poderá atingir-me, enquanto estiver sob vossa proteção. Protegei-me e defendei-me; sou um pobre pecador. Recomendai minhas necessidades e apresentaivos como meu medianeiro a Jesus, a quem tanto amais. Por vosso mérito, Ele aumente minha fé e caridade, console-me nos sofrimentos, livre-me de todo mal e não me deixe sucumbir na tentação. Ó Santo Antônio, livrai-me de todo o perigo do corpo e da alma e, assim, auxiliado continuamente por vós, possa viver cristãmente e santamente morrer. Amém. Para pedir uma graça: Ó glorioso Santo Antônio, meu grande advogado, pela confiança e pelo amor que em vós deposito, dignai-vos conceder um olhar benigno em meu favor. Grande santo, vós que operais tantos milagres e que tantas graças alcançais para aqueles que vos invocam, tende compaixão deste devotado servo, que está tão necessitado de vosso auxílio. Dizei uma palavra àquele Menino que feliz apertais entre os braços e Dele impetrai a graça que humildemente vos peço. . . Para achar coisas perdidas (O Responsório): Grande Santo Antônio, apóstolo cheio de bondade, que recebestes de Deus o poder especial de fazer achar as coisas perdidas, socorrei-me neste momento, para que por vosso auxílio, encontre o objeto que procuro. Obtendo-me também uma fé ardente, perfeita docilidade às inspirações da graça, o desejo de levar uma vida de verdadeiro cristão, e uma esperança firme de alcançar a bem-aventurança eterna. Amém. Para oferecer uma esmola aos pobres: Santo Antônio, glorioso taumaturgo, pai dos pobres! Tendes o Dom de compadecervos de todas as misérias dos infelizes. Apresentais ao Senhor nossas súplicas, fazendo que sejamos atendidos. Hoje quero oferecer-vos, como prova de meu reconhecimento, a esmola que deponho a vossos pés, em benefício dos pobres. Que ela seja de proveito para os que sofrem, e também para mim em todas as necessidades temporais e espirituais, socorrei-nos a todos com vossa benevolência. E dai-nos vossa especial proteção na hora de nossa morte. Amém. Cinco minutos diante de Santo Antônio:Há quanto tempo te esperava alma devota, pois bem conheço as graças de que necessitas e que desejas que eu peça ao Senhor! Estou disposto a fazer tudo por ti; mas, filho, diz uma a uma todas as tuas necessidades, para que eu seja o intermediário entre Deus e ti, e possa suavizar teus males. Sinto a aflição de teu coração, e quero unir-me às tuas amarguras. Desejas o meu auxílio no teu negócio... Queres minha proteção para restituir a paz na tua família... Para conseguir algum emprego... Para ajudar aqueles pobres... Aquela pessoa necessitada... Para que acabe aquele sofrimento... Queres tua saúde ou a de alguém a quem muito estimas? Coragem que tudo obterás. Agradam-me as almas sinceras que tomam sobre si as dores alheias, como se fossem próprias. Mas eu bem vejo como desejas aquela graça que há tanto tempo me pedes. Tem fé, que não tardará a hora em que hás de obtê-la. Eu também desejo algumas coisas de ti: -Que recebas mais vezes a Jesus na Eucaristia; -Que seja mais devoto para com nossa Mãe, Maria Santíssima. -Que propagues a minha devoção e ajudes os meus pobres. Quanto isto me agrada ao coração. Não sei negar nenhuma graça àqueles que socorrem os outros por meu amor, e bem sabes quantos favores são obtidos por este meio. Procure-me sempre, 85 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação mas não se esqueça que Deus é o nosso Bem maior. Amai-O, adorai-O e louvai-O sempre de todo coração. Oremos: Ó Deus, nós vos suplicamos que a intercessão votiva de Vosso glorioso confessor e doutor Santo Antônio, alegre a vossa igreja, para que, fortalecida com espirituais auxílios, mereça alcançar a glória eterna. Por Jesus Cristo, Nosso Senhor. Amém. Coroa de Santo Antônio: I. Santo Antônio, que ressuscitais os mortos, rogai por todos os agonizantes e pelos nossos irmãos falecidos Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai II. Santo Antônio, apóstolo infatigável do Evangelho, defendei-nos dos erros dos inimigos de Deus, rogai pelo Santo Padre o Papa e pela Igreja. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai III. Santo Antônio, poderoso amigo do Coração de Jesus, livrai-nos dos males que nos ameaçam por causa de nossos pecados. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai IV. Santo Antônio, que expulsais os demônios, fazei-nos triunfar das suas ciladas. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai V. Santo Antônio, lírio de celestial pureza, purificai-nos a alma de qualquer mancha e preservai-nos o corpo de todos os perigos. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai VI. Santo Antônio que sarais os enfermos, curai as nossas doenças e conservai-nos a saúde. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai VII. Santo Antônio, Guia dos viajantes, conduzi a bom termo os que viajam em nossas estradas, preservai-os de acidentes e conduzi-nos com segurança pelos caminhos de Deus. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai VIII. Santo Antônio que dais liberdade aos que se encontram nas prisões, livra-nos das cadeias do pecado. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai IX. Santo Antônio que dais aos jovens e anciões a restauração do organismo, conservai-nos o uso perfeito dos sentido do corpo e das faculdades do espírito. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai X. Santo Antônio que descobris as coisas perdidas, fazei que achemos o perdido na ordem espiritual e temporal. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai XI. Santo Antônio, protegido de Maria, afastai de nós os perigos da alma e do corpo. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai XII. Santo Antônio, que acudis a todas as misérias, assisti-nos em nossas necessidades, daí pão e trabalho aos que precisam. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai. XIII. Santo Antônio, reconhecendo e proclamando vossa maravilhosa bondado, dando-vos graças pelos favores recebidos, pedimos que não nos desampareis em todos os dias de nossa vida. Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai. Súplicas a Deus: Senhor, quem sois vós e quem sou eu? Vós, o Altíssimo Senhor do céu e da terra; eu, um miserável 86 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação vermezinho, vosso ínfimo servo. Ó grande e magnifico Deus, meu Senhor Jesus, iluminai o meu espírito e dissipai as trevas da minha alma. Dai-me uma fé integra, uma esperança firme, uma caridade perfeita. Concedei meu Deus, que eu vos conheça muito, para poder agir segundo os vossos ensinamentos e de acordo com a Vossa Santíssima vontade. Absorvei Senhor, eu vos suplico, o meu espírito, e pela suave e ardente força de Vosso amor, desafeiçoai-me de todas as coisas que existem debaixo do céu, a fim de que eu possa morrer por Vosso amor, ó Deus, que por meu amor vos dignastes morrer. Amém. Louvores à Deus: SENHOR! Tu és o Santo, o Senhor e Deus único que operas maravilhas. Tu és o Forte. Tu és o Grande. Tu és o Altíssimo. Tu és o Rei onipotente, o Pai Santo, Tu és o Rei do céu e da terra. Tu és o Senhor Deus Trino e Uno, Tu és o Bem, todo o bem, o sumo Bem, o Bem Universal. Tu és o Senhor Deus Vivo e verdadeiro. Tu és a caridade, o Amor. Tu és a Sabedoria. Tu és a humildade. Tu és a paciência Tu és a segurança, Tu és o descanso. Tu és a alegria e jubilo. Tu és a Justiça e a Temperança. Tu és toda a riqueza e abastança, Tu és a beleza. Tu és a mansidão. Tu és o protetor. Tu és o guarda e defensor. Tu és a fortaleza. Tu és o alívio. Tu és a nossa esperança, Tu és a nossa fé. Tu és a nossa grande doçura. Tu és a nossa vida eterna. Tu és o grande a admirável senhor. Tu és o Deus onipotente. Tu és o nosso misericordioso salvador. Amém. Saudações à Mãe de Deus: Salve, ó Senhora Santa, Rainha Santíssima, Mãe de Deus, que sois Virgem Perpétua, eleita pelo Santíssimo Pai Celestial, que vos consagrou por seu Santíssimo e Dileto Filho e o Espírito Santo Consolador. Em vós residiu e reside toda a plenitude da graça e todo o bem. Salve ó palácio do Senhor. Salve ó tabernáculo do Senhor. Salve ó morada do Senhor. Salve ó manto do Senhor. Salve ó serva do Senhor. Salve ó Mãe do senhor. E salve vós todas ó santas virtudes, derramadas pela graça e pela iluminação do Espírito Santo nos corações dos fiéis, transformando-os de servos infiéis em servos fiéis a Deus. Amém. Quermesse – são as barraquinhas com comidas típicas (“canjicão”, que é a canjica doce de milho; cocadas; pé-de-moleque; milho verde; pipoca; “maçã-do-amor” que é uma maçã caramelada e decorada com confeitos coloridos, metida em um espeto de pau; “quebra-queixo” que é um doce de côco queimado com açúcar; “cachorro-quente”; “quentão”, caldo de feijão branco, caldo de mandioca, “vaca atolada” que é um caldo com pedaços de mandioca e carne bovina, entre outras quitandas variadas) e artesanatos ou produtos industrializados, decorativos e utilitários (camisas, vestidos, brincos, pulseiras, óculos escuros, presilhas de cabelo, luvas e meias de lã entre outras miudezas e acessórios). Aconteceu de 10 (quinta-feira) a 14 (dominho) de junho (por ocasião de, nesse ano de 2009, 13 de junho ser um sábado), durante tardes e noites, na Praça Barão de Ayuruoca (ou Praça do Fórum, um dos principais pontos de referência da cidade), à frente da igreja Matriz de Santo Antônio. Leilão de prendas – leilão de artigos utilitários domésticos, eletrodomésticos e outras prendas, todas doações de devotos ou artigos comprados com recursos da igreja, para favorecer a paróquia. Leilão de gado – leilão de animais (em geral, bezerros) doados por fazendeiros devotos em favor da paróquia. Não raro, as doações são feitas para cumprimento de promessas. Bingo – jogo semelhante ao loto, no qual, além dos números, aparecem letras nos cartões e pedras. Ao longo da Trezena são realizados vários bingos para arrecadação de recursos para a igreja. Os bingos são uma das atrações mais participadas pelos moradores, freqüentados pelas famílias e causam grande divertimento. Os prêmios também são doações de devotos, ou artigos comprados com recursos da igreja. 87 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Tômbola do Clube de Mães – sorteio de prêmios organizado e participado por uma associação de mães de Sapucaia, com vistas à arrecadação de recursos para a paróquia. Uma tômbola acontece com prêmios não em dinheiro, mas em objetos. Em Sapucaia, esses artigos são todos artesanatos feitos e doados pelas próprias mães associadas. Bênção de pães – é um rito de costume, muito praticado pela Igreja e seus fiéis no dia 13 de Junho, quando distribuem aos pobres os pãezinhos de Santo Antônio. A tradição diz que esse alimento deve ser guardado dentro de uma lata de mantimento pelo período de um ano, como garantia de que não faltará comida à casa agraciada com esse pão. Há depoimentos de que o pão não mofa, mantendo-se íntegro durante todo o período. Alvorada – reunião iniciada por volta das 6:00 horas da madrugada, iniciada com um pequeno cortejo da banda de música Santa Cecília, acompanhada pelos devotos, com encerramento à frente da igreja matriz, quando há o repique dos sinos. Repique de Sinos – toque particular dos sinos da igreja, típico de momentos festivos. Cavalgada de Santo Antônio – romaria de devotos, a cavalo. Queima de Fogos – momento culminante da festa, que marca seu encerramento. Sobre Sapucaia, há comentários na região e em municípios vizinhos de que, trata-se de um dos momentos que mais agradam ao seu público, chegando a durar 20 a 30 minutos intermitentes. Procissão – cortejo solene com saída da igreja de Santo Antônio. Caminham até a praça da Árvore Grande, como é chamada a praça Miguel Couto, cruzando a BR393 (que atravessa a cidade)e tomando uma rua paralela. Circulam a praça e tomam uma segunda paralela, até o retorno à igreja. No Distrito Anta, Localidade Santo Antônio da Vista Alegre: Conhecida pelos “mais antigos” como Santo Antônio dos Amarelos (dizem que por motivo da desnutrição que acometeu parte dos moradores durante um longo tempo, deixando os desnutridos com um aspecto amarelado nos olhos e na face) essa localidade que, desde a sua formação também invoca Santo Antônio como padroeiro, realiza uma festa em sua homenagem, uma semana antes da celebração ao santo, no distrito sede. É uma Comunidade Eclesial de Base, fundada com a liderança do Padre Medoro (que não atua mais como pároco de Sapucaia), na década de 1980. A partir desse modo de organização, a comunidade elabora um jeito particular de fazer suas cerimônias e festejos religiosos. A festa de Santo Antônio acontece durante três dias - nesse ano de 2009, sexta, sábado e domingo. É organizada pelo Conselho Comunitário de Pastoral (CCP), que tem entre seus participantes, Sr. Luiz Ventura Filho, o Luizinho, Sr. Lucas, Sr. Nelinho, Sras. Francisca, Lúcia e Margarida (“cantadeiras” dos cultos religiosos), todos de uma geração do tempo em que “se cobria as barraquinhas da festa junina com folha de bananeira”. Os elementos tradicionais presentes na festa da comunidade: bingo, quermesse com barraquinhas, leilão 88 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação de prendas, leilão de gado, forró. Há dois anos, por iniciativa de algumas lideranças e artistas da região, introduziu-se na programação da festa o Festival de Calango – um concurso entre os calangueiros do município de Sapucaia que são solicitados a participar, por meio de uma divulgação na rádio do município, cartazes e “boca-a-boca”. O Calango é uma expressão musical identificada por alguns moradores como “desafio de sanfona e versos de improviso, semelhante ao que se vê no Repente nordestino que é mais famoso, mais divulgado”. O Festival acontece em um dos 3 dias da festa de Santo Antônio na comunidade. O vencedor do concurso recebe como prêmio simbólico um troféu e “fica sendo reconhecido dentro e fora da comunidade como um calangueiro dos bons”. Segundo Luciano, professor de Geografia e “filho da comunidade de Santo Antônio”, o calango é uma expressão musical característica da região, mas que há mais de duas gerações anda enfraquecido, com nenhum cantador ou sanfoneiro jovem operando esse “jeito de cantar e de tocar uma sanfona”. Apesar disso, é uma manifestação que agrada muito, em especial aos antigos moradores, contemporâneos do “tempo em que toda festa tinha um calangueiro pra animar”. Por ser considerado um traço cultural da região de Sapucaia, essa manifestação foi eleita pelas lideranças como importante e carente de um “resgate cultural”, que incentive à memória coletiva e aos novos músicos para inspiração e atenção a essa tradição. Imagens da Festa de Santo Antônio no distrito-sede de Sapucaia: 89 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Missa a Santo Antônio. Procissão. Banda Santa Cecília em procissão. Banda Santa Cecília. Bingo. Cavalgada. 90 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Artesanato. Comidas típicas vendidas em barraquinhas. Quermesse. Tômbola do Clube de Mães. 91 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Recursos: No distrito-sede de Sapucaia parece haver um amplo apoio da Prefeitura Municipal. Nas faixas e nos cartazes de divulgação da festa aparece a marca oficial da prefeitura como apoiadora do evento. Entretanto, a maior fonte de recursos para a realização da festa, bem como para a manutenção das atividades da igreja ao longo do ano parecem ser os leilões, Tômbola, Bingos, e Barraquinhas da Igreja na Quermesse que é instalada na praça, durante os quatro últimos dias da Trezena. Os participantes do Conselho Comunitário de Pastoral e o Clube de Mães se organizam em uma comissão responsável pela produção da festa e, nas semanas anteriores ao seu início, se encarregam de arrecadar as diversas doações para premiações nos bingos, leilões e tômbola. Já em Santo Antônio da Vista Alegre, povoado do distrito Anta, segundo seus moradores, o apoio institucional ainda é muito pequeno e os participantes do Conselho Comunitário de Pastoral se mobilizam na produção da festa “com poucos recursos e muita boa vontade”. Sentidos atribuídos: Santo Antônio é considerado o segundo santo mais popular do mundo, atrás apenas de São Francisco de Assis. A homenagem a Santo Antônio é uma cerimônia festiva que concilia o sagrado da procissão, das bênçãos dos pães, da Trezena de Santo Antônio e demais solenidades e orações nas missas e cultos que ocorrem durante os 13 dias, com o profano da quermesse, dos bingos, leilões e apresentações de bandas. Trata-se de um momento de festa que congrega a paróquia de Sapucaia e atualiza suas noções e sentimentos de pertença a um grupo, a uma comunidade que compartilha a fé católica e a devoção a Santo Antônio, patrono dos sapucaienses. Nas faixas comemorativas espalhadas pelas ruas de Sapucaia evidenciam-se os sentidos e a importância dessa festividade para a cidade: “Vamos celebrar Santo Antônio, testemunha do evangelho e mensageiro da paz. Com seus sermões, encontramos um caminho de fé e vida para seguir Jesus Cristo. Por sua intercessão, santificai cada família, abençoai os visitantes, protegei os jovens, socorrei os necessitados, sustentai a todos!” “A comunidade agradece a todos que colaboraram com esta festa!” “Chegou a Festa de Santo Antônio! Saudamos a todos os presentes!” O patrimônio cultural intangível, que se transmite de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função do seu ambiente e da sua interação com as manifestações que lhe servem de referência para pensar e agir no mundo, gerando um sentimento de identidade e continuidade. 92 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Transmissão para as gerações futuras: A Paróquia de Sapucaia parece bastante engajada na realização dos grandes festejos religiosos em Sapucaia, especialmente o de celebração do padroeiro da sede do município. O senso moral religioso e católico é expresso durante todo o evento, mais marcadamente nas atividades solenes e cerimônias, mas também nos momentos profanos da festa. As famílias sapucaiaenses católicas participam em todas as atividades da programação, o que favorece a transmissão dos valores que motivam a celebração, dos pais para seus filhos, desde muito pequenos. É justamente essa participação dos mais jovens nos ritos organizados e recriados ao longo do tempo pelos mais velhos, seus ancestrais, que permite a preservação dos fundamentos e motivações de tal celebração religiosa. Medidas para Salvaguarda: Reconhecendo que os processos de globalização e de transformação social, ao mesmo tempo em que criam condições propícias para um diálogo renovado entre as comunidades, seus jovens e seus antigos membros, geram também riscos de desaparecimento e deterioração das referências ancestrais de pensar e agir no mundo, patrimônio cultural intangível de toda coletividade. Considerando-se a importante função da instituição do patrimônio cultural imaterial como meio para aproximação das diferenças (etárias, de gênero, étnicas, políticas e sociais) entre as várias coletividades humanas, esses riscos se agravam drasticamente quando não há meios ou investimentos para a salvaguarda do patrimônio imaterial. Um importante meio de garantir a vitalidade do patrimônio cultural imaterial enquanto referência para orientar as transformações (recriações ou mudanças) imanentes a toda tradição são sua investigação, identificação, documentação, valorização, promoção e transmissão ampla e democrática para todas as sociedades. No caso da Festa de Santo Antônio, em Sapucaia, além de um rico registro dessa celebração, faz-se importante sua divulgação e o investimento nas atividades nucleares que caracterizam a festa: cavalgada, leilões, acompanhamento de bandas e orquestras, procissão. Bens Relacionados: Bens culturais de natureza material associados: Imagens de Santo Antônio. Bens culturais de natureza imaterial associados: Banda de Música Santa Cecília de Sapucaia; Banda de Música Sete de Setembro de Além Paraíba, que, há mais de 3 anos, atua dando um reforço aos músicos da Santa Cecília. Nesse ano de 2009, a Banda Santa Cecília de Sapucaia estando desativada, apresentou-se simbolicamente, contando com músicos da Sete de Setembro em quantidade 93 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação drasticamente superior à dos seus próprios membros. Bibliografias: CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Instituto Nacional do Livro, 1954. SACAVINO, Susana. Multiculturalismo e Educação – Ciclo de Oficinas Pedagógicas. In www.rizoma.ufsc.br, pesquisado em junho de 2009. www.unesco.pt. Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial - Unesco - Paris, 17 de outubro de 2003, consultado em junho de 2009. 94 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Inventário de Patrimônio Cultural Imaterial Três Rios/RJ Ficha 001 TR Município: Três Rios Designação: Artesanato Data: Junho/2009 Distrito: Distrito Sede Categoria: Saberes e Expressões Localidades envolvidas: Distrito Sede e demais distritos de Além Paraíba. Periodicidade: Não se aplica. Ambiência/Paisagem: Não se aplica. Responsável(is): Sras. Emília, Eloísa, Aulinda e Helena Histórico e Caracterização: A atividade artesanal é um campo da criação humana que, como tal, tem muito a informar pelos seus aspectos subjetivos, estéticos, simbólicos, históricos, sociológicos e antropológicos. De acordo com essa perspectiva interdisciplinar, o artesanato é destacado como um processo cultural de produção material que, ao criar objetos, reproduz valores, sentidos e estéticas característicos da sociedade de que fazem parte os artesãos. Pensar o artesanato é refletir sobre a imaterialidade desses objetos – as dimensões intangíveis que operam no processo de produção das coisas. Na concepção do escritor mexicano Otávio Paz, falar de artesanato é falar mais de pessoas do que de objetos, pois o produto resultante do trabalho artesanal é um produto “com alma”, onde estão presentes o saber, a arte, a criatividade e a habilidade. Artesanatos são artefatos, artifícios humanos agregados com valores de uso, de troca e, especialmente, com o valor cultural das expressões dos seus produtores. É essencialmente o trabalho manual ou a produção própria de um artesão que, frente à intensa padronização dos produtos industriais do mercado, passa a ser valorizada pelos seus elementos expressivos, por sua autenticidade ou exclusividade das peças, quase nunca idênticas umas às outras, e pelos seus atributos simbólicos, muito característicos nas culturas populares. Em geral, o produto artesanal reflete a relação do artesão com o meio natural e cultural onde vive. Representa um saber local, uma forma de expressão das vivências estéticas possíveis de serem experimentadas na condição particular em que vive o artesão – que pode ser orientado exclusivamente por saberes e modos de fazer tradicionais, ou também informado com referências extra-locais, conhecidas por meio das mídias que sejam mais acessíveis (rádio, televisão, revistas, internet). É nos termos dos processos, das técnicas empregadas e das condições culturais em que é desenvolvido que o artesanato aparece como patrimônio cultural imaterial: não no objeto em si mesmo, mas como produto de um processo artesanal, onde se inscrevem os saberes, os modos de fazer e as expressões artísticas do artesão. Produto e processos expressam uma atividade popular e tradicional, independente de uma formação artística acadêmica, ainda que, muitas vezes, o artesão possa ter algum nível de contato 95 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação com uma orientação técnica mais formal. Grosso modo, artesãos são os antigos ferreiros, carpinteiros, marceneiros, costureiras, moinheiros, alambiqueiros; mas também os artistas de casa que decoram uma almofada com fuxicos, bordam ou rendam uma toalha de mesa, recriam uma caixa de papelão. Podem trabalhar usando ferramentas e mecanismos domésticos ou profissionais, e é muito comum o reaproveitamento de materiais. As peças produzidas podem ser utilitárias, decorativas ou recreativas, feitas com ou sem a finalidade comercial. A venda de artesanatos tem grande importância como alternativa de renda para os artesãos, principalmente para aqueles de condição rural, sob a qual há um repertório mais restrito de possibilidades de obtenção de renda. No município de Três Rios, há uma associação de artesãos cujos participantes mais antigos iniciaram uma organização coletiva por volta de 1960. Segundo nos informaram as artesãs mais antigas da Associação: “Tudo começou em 1966 com o Mobral de Três Rios. uma das diretoras do Mobral reuniu as pessoas que sabiam fazer artesanatos e mobilizou o grupo para produzir e expor na praça São Sebastião, [...] principal praça da cidade.[...] Começou a história das feiras de artesanato, cada um expunha seus produto nos domingos, no banquinho mesmo da praça. [...] Forrávamos tudo direitinho, e fazíamos a exposição quando ainda nem havia estrutura de barraquinhas. Tudo com autorização da prefeitura. [...] Já existia o bordado, as pinturas em tecido, pinturas em tela, as flores de tecido que na época eram muito apreciadas... Era uma moda mesmo. [...] No início foram poucos expositores, depois começaram a se reunir um grupo de mães artesãs, começaram a aderir e estimular umas às outras trocando receitas sobre bordados, pinturas, crochê, tricô, fuxico... Coisas que elas tinham aprendido com as avós...ou com as tias mais velhas...e muitas delas já não praticavam há muitos anos.” O grupo se oficializou como Associação de Artesãos pela motivação pessoal de seus integrantes para manter essa atividade como elemento importante da vida, renovar seus conhecimentos, adquirir renda e, sobretudo, estreitar e manter os laços de solidariedade entre o grupo. Nesse contexto, a associação se consolidou como um espaço inclusivo para as mulheres já em idade adiantada, uma possibilidade alternativa de renda e de expressão de subjetividades, afetos e desejos; além de espaço para uma intensa troca de experiências entre as colegas associadas. Heloíza, presidente da associação, ingressou no artesanato por volta de 1986, 1987, quando acompanhou de perto a mobilização dos artesãos de Três Rios, principalmente as mulheres, “mães de família”: “Éramos, no início, um grupo de 12 pessoas. [...] Daí começou a agregar mais artesãos, a prefeitura passou a apoiar com mais investimento, doação de barracas para as exposições: barraquinhas de ferro, de montar, com toldo, padronizadas... Profissionalizando mais a nossa atividade. Os espaços foram ficando mais individualizados... Porque depois dos bancos que eram usados para exposição na feira, aos domingos, conseguiram uma mesa grande, onde cada um tinha seu espaço, e depois vieram as barraquinhas, individualizadas, padronizadas”. A partir disso o artesanato foi ganhando mais visibilidade na cidade, as pessoas foram divulgando a feirinha, procurando pelos produtos, e as mulheres sentindo-se cada vez mais estimuladas a dedicar parte do seu tempo cotidiano às atividades artesanais, “porque todas eram donas de casa, muitas delas tinham trabalho... e pra fazer artesanato tem que investir tempo... dedicação para estar melhorando sempre... conhecendo outras técnicas... 96 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação praticando...”. Em 2002 foi formalizada a associação, integrada predominantemente por mulheres artesãs. Informações Descritivas: A associação de artesãos possui sede (um espaço próprio, cedido pela prefeitura municipal, próximo ao centro comercial da cidade), estatuto e uma dinâmica de trabalho, próprios: “temos de revezar na loja e oferecer os cursos que muitas vezes são voluntários, ou então as alunas pagam, mas um valor, assim, simbólico”. Dos atuais 25 associados, todos são mulheres, em sua maioria acima de 40 anos de idade, em geral donas de casa e aposentadas. Contam que “Já participaram homens... mas para eles é mais difícil dedicar... é aquela dificuldade de produzir porque trabalham fora e têm mais responsabilidade na renda da casa”. A sede funciona como loja, onde os artesanatos são vendidos, e oficina de produção dos artesãos associados. Contam com uma parceria do SEBRAE, desde antes da formalização como associação, em 2002. Promovem cursos de pintura em tecido; corte e costura; bordados; tricô; arte em papel; crochê; fuxicos. A sede também oferece o espaço para aquelas artesãs que não têm um ambiente de trabalho em casa – “por falta de espaço ou de sossego pra trabalhar”. As peças produzidas são muito variadas: bolsas, chepéus e luvas de crochê; panos de prato, aventais de cozinha e jogos de mesa bordados ou decorados com aplicação de tecidos (patchwork); cortinas, caminhos e toalhas de mesa decorados; porta-retratos, oratórios, molduras em papel ou madeira; colares, brincos, terços e rosários em contas e tecidos; bonecas de pano; esculturas em madeira, argila e pedra; cestos de palha ou papel; móveis de bambu; pinturas em tela; e outros artesanatos de variados tipos, cores e texturas. Imagens: Artesãs de Três Rios, responsáveis pela Associação. 97 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Artesãs em oficina de pintura em tecido. Artesanatos vendidos na loja da Associação. Sentidos atribuídos: De acordo com os depoimentos das artesãs de Três Rios, a prática do artesanato é sentida como uma forma saudável de passar o tempo, de adquirir renda complementar, e de exercitar a criatividade e a imaginação. Além disso, foi destacada a importância desse tipo de atividade para mulheres em idade adulta mais avançada, “que não têm muita chance no mercado de trabalho por aí, mas que, ao mesmo tempo, ainda precisam e têm muita vontade de trabalhar, de produzir, de ser útil para a família”. Com a prática do artesanato elabora-se um espaço coletivo de troca de saberes, modos de fazer, histórias de vida, “as conversas acabam passando por tudo, dos problemas domésticos, à novela ou notícias do jornal na TV...”. Condições de preservação e mudanças ao longo do tempo: O patrimônio cultural intangível, que se transmite de geração em geração, é, constantemente, recriado pelos grupos e indivíduos, gerando um sentimento de identidade e continuidade com algo da cultura que lhes diz respeito mais particularmente. Para a continuidade de qualquer prática cultural é necessário que haja a renovação pelas gerações mais jovens. Nos cursos e oficinas oferecidos pela Associação de Artesãos de Três Rios, apesar de não haver nenhuma restrição à sua participação, há pouca presença de jovens e crianças. Segundo as artesãs mais antigas, essa ausência acontece porque “as moças de hoje em dia trabalham fora ou estudam, muito mais do que nós, 98 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação na nossa juventude. Então desde novinhas nós criamos gosto pelas atividades domésticas, pelos artesanatos que a gente fazia em casa mesmo, na companhia da mãe, da tia, da avó. [...] Hoje em dia as crianças saem de casa para a escola e lá, elas acham que em casa não tem mais nada de importante para aprender. É coisa de valorização mesmo... de entender que aprender a fazer uma casa de botão bonitinha, assim bordado, não é coisa de mulher atrasada não, é uma sabedoria, um conhecimento antigo, bonito. [...] E tem a coisa da vocação também... mas acho que o caso é mais de educação... [...] Os jovens, atualmente, são educados só para a escola, para o vestibular, a faculdade... mas para essas coisas simples – saber fazer um almoço gostoso, às vezes uma quitanda, um vestido bonito... isso, agora, é só comprando em loja...”. Todo modo, mesmo que pouco representativa, há a presença de jovens entre as artesãs de Três Rios, o que favorece a continuidade dos modos de fazer artesanais. Principalmente porque há grande fonte de inspiração para as novas gerações se espelharem, como exemplos, que são as senhoras artesãs. Bens Relacionados: Bens culturais de natureza material associados: matérias primas como bambu, rendas; ou instrumentos como agulhas, formões. Bens culturais de natureza imaterial associados: técnicas e memórias. Bibliografia: PARREIRA, Roberto; SALLES, Vicente. Artesanato Brasileiro. Fundação Nacional de Arte – Funarte1978. MACHADO, Alves; MATUCK, Rubens; CHIODETTO, Eder. Mestres Artesãos. Escola de Reeducação do Movimento Ivaldo Bertazzo, 2000. RUGIU, A. S. Nostalgia do mestre artesão. Campinas: Autores Associados, 1998. ALVIM, M. R. B. O artesanato, tradição e mudança social. In: O artesão tradicional e seu papel na sociedade contemporânea. Rio de Janeiro: Funarte, 1983, p. 49-75. Entrevistas com Eloíza, Aulinda e Emília, artesãs da Associação de Artesãos de Três Rios. 99 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Inventário de Patrimônio Cultural Imaterial Além Paraíba/MG Ficha 001 AP Município: Além Paraíba Designação: Artesanato Data: Junho/2009 Distrito: Distrito Sede Categoria: Saberes e Expressões Localidades envolvidas: Distrito Sede e demais distritos de Além Paraíba. Periodicidade: Não se aplica. Ambiência/Paisagem: não se aplica. Responsável (is): Leninha, Luciana e José Caetano. Histórico e Caracterização: A atividade artesanal de Além Paraíba não nos foi apresentada como organizada coletivamente, na forma de uma cooperativa ou associação. Existe, porém, uma loja de artesanatos, administrada pela prefeitura municipal, onde a riqueza e a diversidade de peças encontradas destacaram o artesanato da região como bastante expressivo. Segundo Leninha, funcionária de Além Paraíba e administradora da loja de artesanatos da Casa da Cultura, que existe há mais de 10 anos, os artesãos deixam seus produtos na loja, em consignação, e “eles não têm relação uns com os outros – ou pelo menos não que eu saiba. Mas muitos produzem as coisas em família, mães, pais e filhos. E os artesanatos são muito bonitos”. Os artesãos são moradores da cidade, da zona rural do município, mas também de municípios vizinhos e alguns de seus distritos, por exemplo: Jamapará e Aparecida, de Sapucaia; Carmo; e Mar de Espanha. Procuram pela Casa de Cultura “e deixam seus trabalhos em consignação. Se venderem tem que deixar 10% do valor que é usado para a manutenção da loja”. Informações Descritivas: Os artesanatos mais presentes na loja de Além Paraíba são: pinturas em telas e tecidos (com temas de embarcações, praia, mar, ou ambientes rurais, carros de boi, fogão a lenha); roupas e decorações em crochê, tricô, e bordados; utensílios feitos com reciclagens: tampas de latinhas, latas de molho de tomate, recipientes de desinfetante; esculturas em madeira; jarros antigos de leite, decorados com pinturas e aplicações de tecido; toalhas de fuxico; telhas decoradas com pintura e texturas; chinelos de borracha decorados com contas e tecidos; aventais para cozinha, panos de prato, toalhas de mesa bordadas e decoradas com aplicação de tecidos coloridos; bonequinhas de pano e bonecas feitas com corpinho de garrafa pet; flores de garrafa pet; doces e licores caseiros (manga, figo, jaca, ambrosia, leite e coco); cachaças de alambiques artesanais da região; bibelôs feitos de conchas e crochê, com o aplique de ímãs, para a decoração de geladeiras; cascas de coco e caixas de papelão decoradas. 100 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Imagens: Caldeirão, leiteira e potes de lata para decoração. Latas industriais (de molho de tomate e achocolatados) trabalhadas para decoração e reutilização. Bonecas de pano ou com estrutura de garrafas plásticas. Quadros, cadernos e toalhas, bordados em ponto-cruz. Recipientes decorados para garrafas de licores caseiros. reutilização e Toalhas Caminho-de-Mesa de crochê decoradas com tampinhas de latas de refrigerante. 101 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Doces caseiros. Recipientes decorados para reutilização. Conchas decoradas com miniaturas de cerâmica. 102 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Sentidos atribuídos: Segundo Luciana e José Caetano, um casal de artesãos moradores do município, o artesanato é muito importante porque complementam a renda da casa e “é o tipo de trabalho que a gente faz com prazer. Assim.... com muito mais prazer do que o meu emprego ou o emprego dele... que a gente faz mais é pela necessidade mesmo”. Para Leninha, é evidente uma diferença de gênero com relação às peças produzidas, “os homens fazem mais é quadros, peças de madeira, pratos decorados, pedras pintadas, decoradas... mas, essas coisas de tecido, essas coisinhas miúdas de usar, colar, presilhas, bordados... isso é coisa das mulheres”. Além disso, observa que “artesanato vende mais nas datas comemorativas, principalmente dia das mães e natal. Porque artesanato é presente... é considerado coisa fútil né, então é presente”. Condições de preservação e mudanças ao longo do tempo: Luciana aprendeu a técnica de pintura em tela com o marido que, por sua vez, recebeu orientações artísticas de um professor de artes, ainda no tempo de escola e, depois disso, “nunca mais parou”. O casal considera que, apesar de na cidade não haver uma organização que promova a prática do artesanato de um modo mais coletivo, “se a gente passar isso pra frente... por exemplo pro nosso filho quando ele crescer... mesmo que ele não queira fazer assim pra vender, como é o nosso caso... ele já vai tomando o gosto pela arte, não é? Porque comigo foi assim, uma questão de estímulo, de gosto e de jeito pra coisa”. Bens Relacionados: Bens culturais de natureza material associados: tipos de ferramentas e matérias primas. Bens culturais de natureza imaterial associados: técnicas de trabalho. Bibliografia: PARREIRA, Roberto; SALLES, Vicente. Artesanato Brasileiro. Fundação Nacional de Arte – Funarte1978. MACHADO, Alves; MATUCK, Rubens; CHIODETTO, Eder. Mestres Artesãos. Escola de Reeducação do Movimento Ivaldo Bertazzo, 2000. RUGIU, A. S. Nostalgia do mestre artesão. Campinas: Autores Associados, 1998. ALVIM, M. R. B. O artesanato, tradição e mudança social. In: O artesão tradicional e seu papel na sociedade contemporânea. Rio de Janeiro: Funarte, 1983, p. 49-75. Entrevistas com Leninha (funcionária da loja de artesanatos), Luciana e José Caetano (artesãos). 103 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Inventário de Patrimônio Cultural Imaterial Sapucaia/RJ Ficha 002 Sa Município: Sapucaia Designação: Sociedade Musical Santa Cecília Data: Junho/2009 Distrito: Sede Categoria: Formas de expressão Localidades envolvidas: distrito sede e demais distritos. Periodicidade: não se aplica. Ambiência/Paisagem: não se aplica. Responsável (is): Sr. Davi Alves Pires. Histórico e Caracterização: No Brasil, as corporações musicais, as liras e as bandas de música têm sido a única escola para um considerável contingente de músicos, amadores e profissionais, podendo ser consideradas como responsáveis pela mais ampla educação musical do brasileiro, principalmente dos habitantes do interior. São espécies de ateliês de formação musical onde o aprendizado está relacionado à prática coral e instrumental. Em geral, não pretendem formar profissionais, mas músicos de qualidade, para atender às solicitações de parte da sociedade que aprecia e deseja a música em seu lazer. Alceu Maynard Araújo, em seu livro Folclore nacional: Danças, Recreação e Música (vol. 2: 358-359), destaca as corporações, bandas e liras como um “capítulo do folclore”, ressaltando que “A banda de música do coreto da pracinha é um retalho da alegria bem brasileira vivida pela gente das comunidades rurais. [...] Pelo Brasil a fora, as “furiosas”, nome popular das bandas de música, encheram e ainda enchem de encantamento, alegria e entusiasmo os momentos de lazer da vida das comunidades interioranas... e de algumas capitais também, por ocasião das festas em datas cívicas nacionais, festas religiosas calendárias ou do santo padroeiro local, nas procissões, nas vitórias eleitorais e hoje nas do time de futebol que venceu o quadro da cidade vizinha com a qual há sempre rivalidade insopitável, bem como também se apresenta aos sábados ou domingos à noite. A banda de música, quer exista ou não coreto na pracinha, está presente, está junto ao coração de milhares de brasileiros, ritmando o seu pulsar com o seu rata-tchim-tchim festivo.” A Sociedade Musical Santa Cecília, de Sapucaia, foi fundada em 1953, sendo composta por músicos e sócios, e prevendo a existência de uma escola de música. Antes de configurar-se como sociedade musicalI, organizava-se como uma lira, denominada Unidos de Euterpe. É chamada pelos moradores como “a Banda Santa Cecília”, mas, segundo relatos orais, por muito tempo foi conhecida como “Banda do seu Arquimedes”: “Todos chamavam banda do Arquimedes porque ele ficava à frente. Que ele era seu dirigente e zelava muito pela banda”. 104 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Atualmente, há o cuidado em chamar a atenção do público para que não incorra nesse mesmo erro em relação ao nome: “Não é a banda do Davi, é a Santa Cecília! É preciso ter cuidado pra não deixar que isso aconteça porque a banda é uma sociedade com identidade própria [...] independente de quem dirige”. Banda e Escola da Sociedade Musical Santa Cecília funcionaram, desde 1953, passando por alguns momentos de crise, “às vezes faltavam muitos músicos, às vezes alguém tinha um problema de saúde e faltava, e era uma pessoa que não conseguíamos substituir.... às vezes faltava recurso pra continuar com a escola...”, mas, há quatro anos a crise foi mais grave e a banda ficou completamente desativada, “quando o prefeito simplesmente cortou os recursos [...] não tinha mais como pagar o maestro nem os professores de música”. Neste ano de 2009 está sendo reativada pelos moradores, músicos e apreciadores da banda, retornando, inclusive, com as atividades de escola. A Banda de Santa Cecília conta atualmente com auxílio do maestro Édson e demais músicos da Banda Sete de Setembro, de Além Paraíba. Anteriormente à desativação da banda por falta de estímulos e subvenção, conta-se que “sempre se apresentou com 80% de músicos de Sapucaia [...] mas agora é a Sete de Setembro, de Além Paraíba, quem dá corpo pra banda. A [Banda] Carlos Gomes também apóia”. Na história da banda, os personagens mais mencionados foram os Srs. Manduca, Arquimedes e Aristóteles, músicos protagonistas e presentes “nos tempos de ouro da Banda Santa Cecília, quando Sapucaia era Sapucaia ... quando era a menina dos olhos, uma das coisas mais importantes da cidade”. Senhor Arquimedes Martins de Oliveira, já falecido, é uma das personalidades representante do “amor à música de Sapucaia”. Foi o responsável pela alteração do nome – de Unidos de Euterpe para Sociedade Musical Santa Cecília – e pela consolidação da banda: “Era músico, maestro e trabalhou muito pela banda. Inclusive como pedreiro e ajudante de pedreiro para construir a sede, mesmo não sendo pedreiro de profissão. Trabalhou como pedreiro, mas não era pedreiro! Quando a banda ficou desativada ele pegava ônibus e ia para Além Paraíba tocar na banda de lá... por amor às bandas. Trabalhou na banda desde que nasceu, quase.” Contaram os moradores que nos “tempos de ouro” da banda Santa Cecília, havia muito sacrifício, foi “o tempo dos abnegados [...] naquela época todo mundo tocava na banda sem remuneração... por amor mesmo”. Além de músicos abnegados, a banda contou, ao longo de sua história, com o apoio de “grandes mecenas”, que ajudaram a pagar as passagens dos professores e algumas contas da casa-sede da banda, como foi o caso mais recente do “professor Ferreira, por exemplo, que parou de receber da prefeitura e senhor Evandro ficou pagando a passagem durante um tempo, até que não pôde mais”. O professor Ferreira, que também dá aulas na Banda Primeiro de Março, do município de Três Rios, atua como maestro e professor das crianças quando a escola da banda está ativa. De acordo com relatos “as crianças se interessam muito [...] têm uniforme e a infra-estrutura direitinha, para meninos e meninas. A escola foi iniciativa desses abnegados, apaixonados pela música... pelas bandas de música ...”. Em 2009 a banda teve participação ativa (com auxílio do maestro e músicos da Banda Sete de Setembro) na festa de Santo Antônio, contribuindo nos momentos mais importantes: alvoradas, procissão e apresentando-se no coreto da Praça Barão de Ayuruoca, em frente à igreja matriz. Os moradores mais 105 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação velhos mostraram muita satisfação, emocionados com o retorno da banda, que já há quase quatro anos não tocava na cidade com tamanha expressão. Informações Descritivas: Os sócios da Sociedade Musical Santa Cecília são classificados em: beneméritos, honorários, fundadores, contribuintes e músicos. Nos seus programas de apresentação constam: marchas, dobrados, valsas, samba, lambada, polca, choro, maxixe, baião, embarcada, boleros, mambo ou chachacha, e rumbas, entre outras composições populares ou eruditas, incluindo as composições de músicos da cidade, o que demonstra a rica cultura musical de Sapucaia. Dobrados, marchas e hinos são consideradas as composições mais características de uma banda de música. O dobrado nos foi apresentado como “o ritmo próprio das bandas, junto com as marchas e os hinos”. A bibliografia explica que, no Brasil, as marchas militares também são conhecidas como dobrados, porém o dobrado tornou-se um estilo de música diferenciado, o mais tocado nas bandas de música. Tendo surgido também no Brasil o dobrado dinfônico, que é um tipo de peça escrita para bandas de música e bandas sinfônicas, composto com contrapontos e um plano dinâmico bem mais trabalhados que os dobrados comuns.Os hinos são composições musicais, geralmente para coro, de caráter comunitário: religioso, patriótico ou desportivo, por exemplo. Os instrumentos tocados na Banda Santa Cecília são: tubas, trombones, bombardinos, saxofones, saxornes, clarinetes, tarol, tambor, pistons, requinta, bumbos, flautas-doce, triângulos, repeniques, recorecos, tamborim e bombardão (saxofone). Mencionou-se sobre um coral, “existente até cerca de 30 ou 40 anos atrás”, que se apresentava em parceria com a banda, e “chegou a gravar no Rio de Janeiro, há uns 40 ou 50 anos atrás, uma composição feita por um morador de Sapucaia”, Sr. Sebastião Pádua: Redescoberta (música e letra de Sebastião Pádua) Hoje não duvide mais quem queria ver pra crer onde houver Brasil ninguém se entrega em todos nós se integra um gigante em pé Hoje ele é tema do seu povo Um esquema novo Um Brasil de fé Vejam essa redescoberta a Amazônia Bravo! Os heróis da conquista nacional 106 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Um apolo em cada braço conquistando o espaço hino triunfal Vejam o país do futuro acontecendo nome que encontra no mundo seu lugar Esse é meu Brasil presente Meu Brasil pra frente Meu Brasil sem par Também motivo de orgulho, nos foi comentado que “bonita é a apresentação que a banda faz do hino de Sapucaia”, letra e música do professor Manoel de Souza Neves, outro morador da cidade: Marcha Canção Nossa Terra – homenagem à cidade de Sapucaia (Manoel de Souza Neves) Cidade das Mangueiras de heróica tradição Suas lindas cachoeiras nos enchem de emoção Cantemos com saudade um hino de louvor honrando esta cidade com fé e destemor Suas praças tão bonitas sua luz traz alegria As formosas senhoritas inspirando poesia Veneremos santo Antônio padroeiro da cidade Pois é dele o patrimônio de nos dar felicidade Árvore grande simbolismo de amor Velho ornamento que encanta a cidade Árvore grande de beleza e frescor que nos dá sombra esperança e saudade 107 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Imagens: Banda Santa Cecília, década de 1950. Músicos banda de música Santa Cecília, década de 1990. Banda Santa Cecília, Festa de Santo Antônio, Banda Santa Cecília, Festa de Santo Antônio, Sapucaia, 2009. Sapucaia, 2009. Recursos: A Sociedade Musical Santa Cecília possui uma casa própria, registrada em cartório, que funciona como sede. Inicialmente contava com recursos, em dinheiro ou serviços, dos seus sócios e, posteriormente, passou a 108 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação contar com uma subvenção municipal – o que levou à extinção da contribuição em dinheiro dos sócios. Há quatro anos, porém, a administração municipal de Sapucaia interrompeu a subvenção. Isso levou ao enfraquecimento e à desativação das atividades da banda. Em 2009, mesmo ainda sem recursos, mas contando com a “boa vontade dos seus apreciadores abnegados”, a banda voltou a funcionar. Segundo comentou uma moradora consultada, “a banda sempre foi linda e quando iniciou a escolinha, os meninos estavam tocando bastante, de repente chegou o novo prefeito e acabou com tudo. E já tem aquela dificuldade de os meninos mudarem de cidade para estudar... Então foi mais um grande embargo, o mais grave, aliás, porque não pagou mais o maestro, o professor da escolinha... desse jeito ficou impossível [...] Hoje em dia tem pouca gente nossa, é uma banda enxertada”. Sentidos atribuídos: No município de Sapucaia, a banda de música, sem dúvida, é um elemento fundamental para os momentos solenes e de recreação dos seus moradores. Principalmente para aqueles mais antigos, “do tempo das valsas, dos boleros, quando as marchinhas eram a música mais popular”, como nos disse um morador consultado. A existência e a história da Sociedade Musical Santa Cecília é fundamentalmente uma forma de expressão da musicalidade, popular ou erudita, dos moradores do município: um dos modos importantes de se organizarem, valorizarem e vivenciarem sua disposição, enquanto músicos ou apreciadores, para o que consideram como “boa música”. Esse sentido nos foi revelado pelos depoimentos e memórias das pessoas consultadas, responsáveis ou indiretamente ligadas à história da sociedade musical – sócios, ex-sócios, músicos, apreciadores e simpatizantes. Alguns moradores mais antigos ressaltaram que, “o retorno da bandinha na praça, foi a melhor coisa da festa de Santo Antônio, como antigamente, uma banda com os filhos de Sapucaia tocando... tornando a festa muito mais agradável, bonita de ver!”. Ficou evidente que a banda opera como um “encontro de muitas gerações, crianças, jovens, idosos, participando dos momentos mais importantes da cidade, que para uma cidade pequena é muito bom. É fundamental”. Condições de preservação e mudanças ao longo do tempo: Embora estivesse desativada já há quatro anos, a escola de música da sociedade musical tem sido revitalizada, progressivamente, com os esforços de muitos dos seus responsáveis e simpatizantes. Segundo os mais velhos, essa escola “é que pode dar conta de não deixar a banda acabar, porque renova o grupo de músicos”. A necessidade dessa atividade de educação musical pela sociedade é fundamental para a continuidade de suas atividades musicais, com a qualidade a que aspiram seus integrantes: maestro, 109 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação músicos e demais associados. Bens Relacionados: Bens culturais de natureza material associados: instrumentos e partituras da Banda, casa-sede da Sociedade Musical Santa Cecília. Bens culturais de natureza imaterial associados: memórias sobre a banda. Bibliografia: ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore nacional: Danças Recreação, Música (vol. 2) – Editora Melhoramentos. TINHORÃO, José Ramos; SOUZA, Alexandre Barbosa de. História Social da música popular brasileira Editora 34, 1998. Entrevistas e conversas com Sr. Davi Alves Pires (57 anos), Sr. Evando (72), Eraldo (40 ,aprox.), Sra. Heloíza Aparecida de Paula Orichio (60, aprox.), Sr. Zanon (75), e Alessandro (38). 110 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Inventário de Patrimônio Cultural Imaterial Chiador/MG Ficha 001 Município: Chiador Designação: Benzedeiros ou Benzedores Data: Junho/2009 Distrito: Distrito Sede Categoria: Saberes Localidades envolvidas: Distrito Sede. Periodicidade: não se aplica. Ambiência/Paisagem: não se aplica. Responsável (is): Sra. Maria José e Sra. Eva. Histórico e Caracterização: A relação entre fé e cura permeia todas as religiões conhecidas pelos estudiosos desse campo. Benzer, nos termos de um significado literal, consiste em “deitar a bênção”, abençoar. No entanto, existem implicações particulares sobre esse termo quando o ato de invocar bênçãos é feito por aqueles chamados benzedeiros, rezadores ou benzedores. Diferentes de um padre ou outro tipo de sacerdote representante de uma instituição religiosa consolidada, e com autorização de abençoar os devotos, os benzedeiros são pessoas comuns, em geral consideradas como “muito simples” em relação às suas posses materiais e escolarização. Contudo, são pessoas de referência em suas comunidades, sejam elas urbanas ou rurais, e muito solicitadas nos momentos de aflição causada por males físicos e espirituais. Aos benzedeiros se atribui o poder de curar através de suas bênçãos. É também comum usar-se o nome reza para referir a uma benzeção, referindo-se ao benzedeiro como rezador. Trata-se de uma reza, pois, a benzedura ou benzeção. Uma reza com o compromisso senão de cura, de alívio imediato da aflição de quem procura pelos benzedeiros. No catolicismo popular ibérico as práticas de cura por meio de bênçãos e a procura por esses recursos eram muito presentes e, no processo de colonização do Brasil, foram difundidas e recriadas, incrementadas com os repertórios de cura africanos e indígenas, os seus modos tradicionais de curar. Em Chiador, município mineiro fundado em 1954 (com população estimada em 2.975 habitantes, no ano de 2008), ao buscarmos representantes da cultura popular e tradicional, fez-se referência aos benzedeiros que, “antigamente eram muitos”. Comentou-se que, “antigamente tinha mais, muito mais... hoje em dia tem pouca gente, só a dona Fiota [...] e tem a dona Eva também... é verdade”. A economia de Chiador é baseada na pequena lavoura (cana-de-açúcar, feijão e milho) e na pecuária bovina leiteira, o que favorece a manutenção de um ambiente propício à prática de benzer: rural, com 111 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação vasta vegetação local, introduzida ou nativa, com menor acesso aos recursos farmacêuticos da medicina científica em relação à sua disponibilização nas grandes cidades – ainda que o acesso aos mesmos não seja determinante do desaparecimento dos benzedeiros e da busca pelas benzeções. Informações Descritivas: A noção de cura dos benzedeiros está associada a uma concepção particular de doença, que difere radicalmente do modo como a comunidade científica caracteriza, diagnostica e trata as enfermidades. Algumas doenças comumente tratadas pelos benzedeiros são: Cobreiro, que é como denominam as irritações e feridas que se manifestam na pele, comumente atribuídas ao contato de algum animal peçonhento (em especial as cobras e lagartos) com a roupa ou mesmo diretamente com a pele do acometido (é comum referir-se também a algum tipo de herpes). Espinhela caída, que é um mal-estar de corpo e espírito, indicado por imperfeições no comprimento dos membros ou na postura do corpo dos aflitos. É comum diagnosticarem como espinhela caída a percepção, no corpo de um aflito que se queixa de desânimo e mal-estar, de um braço estando significativamente mais comprido que outro, ou de uma perna, mais que outra. Para avaliar se há ou não espinhela caída, os benzedeiros medem, com auxílio de um cordão, a extensão de cada membro do corpo, unificando, paralelos, as pernas e os braços. Quebranto (ou quebrante), que, apesar de semelhante à espinhela caída, acomete somente as crianças de até sete anos de vida (embora haja controvérsias em relação a esse limite de idade). Não se diz que uma criança está com espinhela caída, mas com quebrante, ou que “botaram quebrante nela”. Nesse caso, o diagnóstico é semelhante: medem seus membros, comparando perna a perna, braço a braço. A queixa, quase sempre feita pelos pais da criança, é de que “ela está muito chorosa, desanimada, dormindo muito ou dormindo muito pouco e muito mal”, ou seja, distúrbios na alimentação ou no sono da criança. Irisipela (ou irisipela, ou zipela, ou isipela), que se refere a ocorrência de inchaços na pele e infecções cutâneas cujo termo médico usado é erisipela. Mau-olhado, que é uma doença exclusivamente de origem espiritual, provocada pela “má energia” de terceiros. É comum os benzedeiros afirmarem que “muita gente bota mau-olhado, às vezes, sem querer, mas porque a pessoa tem uma energia pesada mesmo, e às vezes fica querendo alguma coisa daquela pessoa... que [por isso] fica mau olhada”. Sol na cabeça, que é uma dor de cabeça constante ou enxaqueca. Vento virado, que é um mau que acomete, mais comumente, as crianças de até sete anos de idade; mas há pessoas que mencionam essa enfermidade em adultos. Definem que a causa, na maioria das vezes “é um susto que a criança toma... às vezes de um banho muito frio, ou muito quente, ou de uma aparição, mesmo da pessoa que cuida da criança, aparecendo assim de repente, assustando ela”. De vento virado, a criança não come direito, tem dor na barriga, vomita, não dorme bem, chora muito, e “costuma cair muito porque uma perninha fica menor que outra, aí a criança vai andar e cai”. Nos adultos, a manifestação de um vento virado pode ser dar “por alguma careta que a pessoa faz e, vira o vento, e depois não volta mais pro lugar... a careta fica na pessoa pra sempre”. 112 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Como a cura é sempre solicitada aos benzedeiros, fica evidente que quaisquer dessas enfermidades descritas acima não são apenas físicas, mas de natureza espiritual. Por isso exigem a benzeção. Para serem curadas ou devidamente controladas. Porque, no caso dessas doenças, não se consegue um alívio por meio de uma consulta médica ou pelo simples uso de remédios oferecidos pela ciência. Os métodos de benzer variam para cada tipo de aflição e também de acordo com os fundamentos e técnicas de cada benzedeiro. É muito comum valerem-se de ramos, folhas ou outros materiais no momento da benzeção. Um método recorrente é a consulta, após benzer o aflito, a um fenômeno com as brasas de carvão lançadas num copo d’água. Desse modo, podem verificar se há mesmo um mau-olhado na pessoa, ou um quebrante na criança enferma, e o grau de intensidade dessas enfermidades. Por esse processo, depois da benzeção, uma oração é feita sobre um copo de água (que permaneceu já preparado, cheio com água, durante a benzeção) contendo três brasas (quantidade variável, mas o número três é recorrente, carregado de sentidos místicos). Com as brasas suspensas faz-se o sinal da cruz e as joga dentro do copo. Reza-se um Pai Nosso e uma Ave Maria. Se depois da reza, as brasas afundarem, entende-se que a pessoa estava mesmo sofrendo de um forte mau-olhado, ou a criança de quebrante, e deve-se repetir a benzeção por mais duas vezes, em dias distintos. A quantidade de pedaços que afundam é proporcional à intensidade do mau que acometia o benzido. Em Chiador, a benzedeira dona Maria José, conhecida como Fiota ( 87 anos), contou que apesar de filha de benzedeira, não aprendeu a prática com a mãe, Joana Torquato. Diz que “com mãe da gente a gente não aprende muita coisa não [...] a gente aprende mais é com os de fora”. Apresentando um registro de 1922, dona Fiota nasceu em uma grande fazenda na região de Chiador, a Fazenda Marcon. Sua mãe “trabalhava com roça”, e “muita gente procurava ela pra benzer, sempre, assim que tinha uma doença”. Além de benzedeira dona Fiota também é famosa parteira da região, “dos tempos antigos”. Define a benzeção como uma “oração pra quando a pessoa estiver doente”. Diz ser muito procurada, em especial pelos “polícias”, porque são profissionais que correm muito perigo e precisam sempre de um reforço de proteção. Benze com auxílio de folhas de Vassoura Preta, planta que ela tem no quintal da própria casa onde há um jardim de variadas flores e plantas. Segundo ela, a benzeção pode ser feita a qualquer hora e dia, exceto de noite (depois de já posto o sol) e nos domingos “que é o dia em que Deus descansou”. Durante sua benzeção, o enfermo se assenta em uma cadeira, diz o nome completo e ela inicia as orações em voz muito baixa, quase silenciosa. Nesse momento, dona Fiota costuma “ver” algumas coisas sobre a vida do benzido, e às vezes também pode fazer previsões para seu futuro. Ao final da benzeção, pede ao aflito que saia portão afora e pule três vezes ou bata com o pé no chão por três vezes, mentalizando seu livramento das más energias e enfermidades acometidas. Terminado esse ritual, conduz o benzido a cumprimentá-la com um aperto de mãos, e a quem mais estiver presente. Dona Eva (69 anos), outra benzedeira de Chiador, é nativa do município de Mar de Espanha. Mudou-se ainda na infância para a fazenda Barra Mansa, trabalhando na roça com sua família, “até uns 10 anos atrás”, quando mudou-se novamente, dessa vez para Chiador. Diz ter aprendido a benzer com a mãe, mas que somente depois “de muito custo, que antes não interessava em 113 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação benzer não”. Não tinha muito interesse apesar de sempre ter visto a mãe benzer e socorrer os aflitos: “Às vezes eu nem ficava perto [...] ela me perguntava se eu não queria benzer... porque às vezes aparece uma criança com vento virado e é preciso socorrer a criança... Mas eu não me interessava não”. Dona Eva começou a benzer com 50 anos de idade, quando decidiu que “é importante demais saber benzer, pra ajudar os de casa e os de fora”. Segundo sua concepção, “Quem salva é Deus... mas a gente pode ajudar benzendo”. Além de sua mãe, sua avó também era benzedeira. Diz dona Eva que essa prática “vem da família mesmo. É dos antigos da família mesmo que vem... e eu aprendi”. Na benzeção aprendida em família, dona Eva se vale de raminhos de arruda com os quais benze pra curar quebranto, vento virado, bucho virado (mal-estar crônico no estômago que faz “rejeitar qualquer comida”), e também para “cortar” cobreiro. Faz benzeções preferencialmente pela manhã, podendo fazê-lo também à tarde, mas “nunca depois de o sol se pôr”. Nos domingos também não é permitido benzer. Faz orações específicas para cada uma dessas enfermidades. Todas essas rezas decoradas e pronunciadas “com muita fé, pra não pegar o peso da pessoa que a gente está benzendo”. Diz ter parado de benzer adultos justamente porque “o adulto é mais carregado” (referindo-se à carga de energia negativa que acomete os enfermos adultos) e dona Eva já não pode com “tanto peso”, pois encontra-se acometida por doenças graves, dentre elas Labirintite e Mal de Parkinson. Segundo a benzedeira, “Pra não pegar a carga do aflito a gente apega em Deus, com muita fé. [...] Às vezes o olho [do benzedeiro] até escorre água, parece chorar, de tanto carrego da pessoa [benzida]”. Dona Eva também se vale da consulta ao carvão no copo d’água para verificar “o carrego” do benzido, conferindo se tratava mesmo de mau-olhado ou quebrante, e a intensidade da carga do acometido. Diz que sabe benzer para quebrante, mau-olhado, erisipela, espinhela caída, cobreiro, vento virado e bucho virado. Para a benzedeira o quebrante é muito complicado porque, não raro, são os próprios pais da criança que “botam quebrante nela”. Por acharem a criança muito bonitinha, terem “muito apego a ela... botam quebrante sem querer... pois qual é o pai que quer ver o filho adoecer?”. Vento virado é “um susto que a criança toma. Fica assustada, uma perninha fica maior que a outra... às vezes um bracinho... A criança fica enjoada, vomitando... ou às vezes não dorme direito, chora muito... às vezes não come... É o vento virado! A gente benze pra tirar isso. [...] Pra bucho virado eu também benzo”. A benzedeira explica que bucho virado é “quando a boca do bucho vira pra baixo... a barriga incha, a criança não come mais nada... e vomita muito”. Dona Eva já soube de muitos benzedeiros em Chiador, entre homens e mulheres: “homem também pode benzer. Os homens que eu sei que benziam, aqui em Chiador, já morreram todos... seu Tiãozinho... um senhor que morava lá pra baixo... e teve uns outros que eu não me lembro o nome, mas eram todos gente daqui”. 114 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Imagens: Dona Fiota, parteira e benzedeira de Chiador. Plantas usadas para benzeção: Arruda e Vassoura. 115 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Bonequinhas com as quais dona Fiota treinava o “partejá”, conhecendo seus corpos e cortando seus “imbigos”. Sentidos atribuídos: A medicina praticada no ocidente, até o fim do século XIX, era de orientação hipocrática (concentrandose em sangrias, vomitórios e purgantes como meio de equilibrar os humores do corpo), com resultados pouco práticos e muitas vezes letais aos pacientes. Isso provavelmente contribuía para uma maior procura por aqueles especialistas populares que têm o saber (e o poder!) de curar por meio de benzeções. Em se tratando dessas práticas, é flagrante nos depoimentos recolhidos, que não basta ter o conhecimento das orações e procedimentos (o saber técnico), mas é preciso ter um dom (um poder concedido por Deus). Benzer é curar por meio de bênção, de “rezas poderosas”. As doenças curadas com a benzeção são enfermidades originadas principalmente por um distúrbio do espírito, sendo seus sintomas no corpo, um sinal de que é preciso “aliviar o espírito dos malefícios”. Esses malefícios podem ter sido provocados por terceiros, ou apenas irrompidos acidentalmente, como por exemplo, quando uma criança sofre um susto. E mesmo sendo provocado por terceiros, não é raro que esses o façam involuntariamente, por não conseguirem controlar uma “energia ruim” que lançam, sem querer, contra outra pessoa. Segundo os benzedeiros, essa energia ruim, incontrolável, é muito presente nas pessoas “invejosas, amarguradas, rancorosas... que não conseguem botar pra fora [tais sentimentos] sem atingir o outro”. É recorrente ouvir das pessoas benzidas que após terem acesso a uma consulta médica, mas não obterem 116 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação os resultados esperados, procuram pelos benzedeiros. Outros já dizem recorrer aos benzedeiros de antemão, porque sabem tratar-se de uma enfermidade que não diz respeito apenas a um estado do corpo, mas, principalmente, do espírito. Nesses casos, apenas se a enfermidade persiste, é que buscam ajuda de remédios da medicina alopática. Para os benzedeiros, e, especificamente, as benzedeiras conhecidas em Chiador, por meio das rezas da benzeção, “Quem salva é Deus” e as rezas são um “jeito de ajudar o doente a conseguir essa cura de Deus... Porque o benzedeiro tem uma reza forte”. Todo caso, é preciso que o enfermo tenha fé na benzeção para que, de fato, ele obtenha um alívio, ou até mesmo a cura para sua aflição. Trata-se, portanto, de uma relação sagrada, de fé e de poder, uma entrega, tanto dos enfermos quanto dos benzedeiros, às providências divinas e ao saber dos “antigos” que se sabem fazer uma “reza forte”. Condições de preservação e mudanças ao longo do tempo: O desenvolvimento da medicina moderna de orientação alopática acarretou mudanças na relação das sociedades com sua saúde: a modernização industrial possibilitou um amplo acesso aos remédios, e à sobrevalorização do conhecimento técnico-científico em detrimento dos saberes tradicionais, transmitidos dos mais velhos para os mais jovens, principalmente pela oralidade e pela observação participativa. Contudo, os benzedeiros permanecem conservando consigo as orações e procedimentos ancestrais que viabilizam as curas, especialmente no tratamento dos males considerados como fundamentalmente espirituais. As benzedeiras de Chiador mostraram perspectivas diferentes em relação à transmissão de pais para filhos. Segundo dona Fiota, sua mãe, Joana Torquato, sabia benzer, mas não foi com ela com quem aprendeu, diz que “com mãe da gente a gente não aprende muita coisa não [...] a gente aprende mais é com os de fora”. Apesar disso, parece evidente que a referência familiar em relação ao saber seja uma plataforma que propicia a sensibilidade ao conhecimento tradicional, ainda que o mesmo seja formalmente introduzido “pelos de fora” da família. Já segundo dona Eva, foi com a mãe que aprendeu a benzer, embora por bastante tempo tenha se recusado a receber tal ensinamento. Foi por volta de seus 50 anos que dona Eva decidiu que queria aprender, percebendo que “tinha mesmo um dom para benzeção”. Hoje em dia, dona Eva deseja ensinar às filhas, mas diz que elas ainda não quiseram aprender. Espera que, ao menos uma delas, perceba que “tem o dom” e queira receber os ensinamentos da mãe, “porque depende do dom da pessoa... e da boa vontade. Mas tem o jeito certo de fazer... não é só saber qual é a oração não... tem um jeito bem certinho pra cada coisa”. 117 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Bens Relacionados: Bens culturais de natureza material associados: a vegetação local, destacando-se a Vassoura Preta e a Arruda, famosa pelos seus "poderes" contra o mau-olhado e outras vibrações negativas. Em culturas muito antigas, são encontradas referências sobre seus poderes contra as “más vibrações” e seu uso na magia e religião. Na Grécia antiga, era usada para tratar diversas enfermidades, mas seu ponto forte era contra as “forças do mal”. Já as experientes mulheres romanas costumavam andar pelas ruas sempre carregando um ramo de arruda na mão - diziam que era para se defenderem contra doenças contagiosas e, principalmente, para afastar os males invisíveis. Bens culturais de natureza imaterial associados: as orações e as formas particulares de devoção aos santos invocados para intervenção nas enfermidades. Bibliografia: CHALLOUB, Sidney (org.). Artes e ofícios de curar no Brasil. Editora da UNICAMP. Campinas, 2003. PENTEADO, Yara Maria. A poesia da oração: curandeiros, benzedores e outros magos. Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul. Campo Grande, 2005. Entrevistas com Maria José (87) e Eva (69), benzedeiras de Chiador. 118 Manifestações Culturais: inventário e políticas de preservação Impressão: Laboratório de Arqueologia da Fafich/UFMG. Belo Horizonte, dezembro de 2009. 119