UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALFENAS CAMPUS POÇOS DE CALDAS STEPHANIA CAPELLARI DE REZENDE Caracterização microestrutural e avaliação da resistência à oxidação de ligas Ni-Nb e Ni-Nb-Ta produzidas por moagem de alta energia e subsequente sinterização Poços de Caldas/MG Novembro de 2014 STEPHANIA CAPELLARI DE REZENDE Caracterização microestrutural e avaliação da resistência à oxidação de ligas Ni-Nb e Ni-Nb-Ta produzidas por moagem de alta energia e subsequente sinterização Relatório apresentado à disciplina Trabalho de Conclusão de Curso 2, do curso Engenharia Química como parte dos requisitos para a obtenção do título de Bacharel em Engenharia Química pela Universidade Federal de Alfenas, campus Poços de Caldas. . Orientador: Alfeu Saraiva Ramos Poços de Caldas/MG Novembro de 2014 FICHA CATALOGRÁFICA STEPHANIA CAPELLARI DE REZENDE Caracterização microestrutural e avaliação da resistência à oxidação de ligas Ni-Nb e Ni-Nb-Ta produzidas por moagem de alta energia e subsequente sinterização A banca examinadora abaixo-assinada aprova o Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como parte dos requisitos para obtenção do título de Engenheira Química pela Universidade Federal de Alfenas. Aprovado em 05 de dezembro de 2014. Professor: Alfeu Ramos Saraiva (orientador) Instituição: Unifal - MG Assinatura: Professora: Marilsa Aparecida Mota Instituição: Unifal - MG Assinatura: Professor: Fabio Ferraço Instituição: Unifal - MG Assinatura: AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus, e em segundo lugar a minha família por todo apoio fornecido e tudo que me proporcionaram nestes cinco anos de Faculdade. Agradeço a todos os meus professores da Universidade Federal de Alfenas MG, por toda a dedicação e empenho, em especial ao Professor Alfeu Saraiva Ramos, meu orientador, a professora Maria Gabriela Nogueira Campos minha orientadora do estágio, as professoras Giselle Patrícia Sancinetti e Grazielle Santos Silva Andrade e ao professor Leandro Lodi por todos os seus conselhos. Agradeço também a todos os funcionários da Universidade Federal de Alfenas que sempre se mostraram muito prestativos e me ajudaram em inúmeros momentos. SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................8 1.1 Objetivos ................................................................................................................8 1.1.1 Objetivo Geral ................................................................................................8 1.1.2 Objetivos Específicos .....................................................................................8 2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA .................................................................................10 2.1 Níquel e suas ligas ..............................................................................................10 2.2 Superligas ............................................................................................................11 2.3 Superligas de Níquel ...........................................................................................12 2.4 Classificação das superligas de Níquel ...............................................................13 2.5 Diagrama de fases dos sistemas Ni-Nb, Ni-Ta, Ni-Nb-Ta....................................16 2.6 Moagens de Alta Energia ....................................................................................19 2.7 Técnicas de Caracterização ................................................................................20 2.7.1 Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV) e Microscopia Ótica (MO).......20 2.7.2 Microanálises de Energia Dispersiva (EDS) .................................................21 2.7.3 Difrações de raio-X (DRX) ............................................................................22 2.7.4 Ensaio de Oxidação .....................................................................................23 3. MATERIAIS E METÓDOS ....................................................................................24 3.1 Materiais de Partida .............................................................................................24 3.2 Sinterização dos pós-moídos de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta ..........24 3.3 Caracterização das ligas sinterizadas de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta ....................................................................................................................................25 4. RESULTADOS E DISCUSSÕES ..........................................................................27 5. CONCLUSÃO .......................................................................................................34 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ....................................................................................35 RESUMO O presente trabalho relata sobre a microestrutura e resistência à oxidação das ligas Ni-25NB, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta produzidas por moagem de alta energia e sinterização subsequente. As amostras sinterizadas foram caracterizadas por microscopia óptica, microscopia eletrônica de varredura, espectrometria de energia dispersiva, difração de raios X e testes de oxidação estáticas. Microestruturas homogêneas das ligas binárias e ternárias indicaram a presença principal do composto -Ni3Nb como matriz, a qual dissolveu grandes quantidades de tântalo. Por conseguinte, os picos -Ni3Nb foram movidos na direção de menores ângulos de difração. Contaminação de ferro inferiores a 6,7%at. foi detectada por análise EDS, consequência da contaminação ocorrida durante o processo da moagem. Após os testes de oxidação estáticos em uma atmosfera de oxigênio (1100 ° C durante 4 h) as ligas sinterizadas de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta apresentaram ganhos de massa de 31,5%, 30,5% e 28,8%, respectivamente. Apesar da maior densificação da liga de Ni-15Nb-10Ta, os resultados sugeriram que a adição de tântalo pode contribuir para melhorar a resistência à oxidação de ligas baseadas no composto Ni3Nb-. Palavra-chave: ligas de níquel; moagem de alta energia; intermetálicos; sinterização; ligas de nióbio. ABSTRACT This paper reports on the microstructure and oxidation resistance of Ni-25Nb alloys, Ni-20Nb-5Ta and Ni-15Nb-10Ta produced by high-energy milling and subsequent sintering. The sintered samples were characterized by optical microscopy, scanning electron microscopy, energy dispersive spectrometry, X-ray diffraction and static oxidation tests. Microstructures homogeneous of binary and ternary alloys have indicated the presence of the main -Ni3Nb compound as matrix, in which there was large amounts of dissolved tantalum. Therefore, -Ni3Nb peaks were moved toward smaller diffraction angles. Iron contamination lower than 6.7 %-at. was detected by EDS analysis, consequence of a likely cause of contamination during the grinding process. After the static oxidation test in an atmosphere of oxygen (1100 ° C for 4 h), the sintered Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta and Ni-15Nb10Ta alloys showed weight gains of 31.5%, 30.5% and 28.8%, respectively. Despite the higher densification of the Ni-15Nb-10Ta sample, the results have suggested that the tantalum addition can contributed to improve the oxidation resistance of alloys based on the -Ni3Nb compound. Keywords: nickel alloys; high-energy milling; intermetallic; sintering; niobium alloys. 8 1. INTRODUÇÃO Vários estudos têm sido realizados visando o desenvolvimento de materiais para aplicações estruturais em altas temperaturas, dentre os quais se destacam as superligas de níquel que são produzidas por diferentes técnicas 1. A adição de elementos ligantes tais como o Nb e o Ta podem contribuir para melhorar as propriedades mecânicas desses materiais a partir de mecanismos de endurecimento por precipitação 2. Nesse contexto, o nióbio e o composto Ni3Nb pode melhorar a resistência à fluência e a resistência à oxidação desses materiais 2. Inicialmente usada para produzir alguns tipos de superligas à base de Ni e de Fe, técnicas de moagem de alta energia podem produzir materiais uniformes e com propriedades atrativas para aplicações estruturais em altas temperaturas 3. Em recente estudo, pós de ligas de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta (%at) foram preparadas por moagem de alta energia, as quais apresentaram microestruturas formadas por soluções sólidas estendidas. 1.1 OBJETIVOS 1.1.1 Objetivo geral O presente trabalho objetivou a caracterização microestrutural e a avaliação da resistência à oxidação de ligas Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta (%-at) produzidas por moagem de alta energia e subsequente sinterização. 1.1.2 Objetivo específico Avaliar o efeito da adição de tântalo na estabilidade do composto Ni-3Nb, o qual apresenta propriedades mecânicas e química com potencial para aplicações 9 em componentes usados em altas temperaturas, com o auxílio de técnicas de difração de raios X, microscopia eletrônica de varredura e espectrometria por energia dispersiva. 10 2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.1 Níquel e suas Ligas O níquel (Ni) é um elemento da tabela periódica, de número atômico 28, é um metal de transição que apresenta uma estrutura cristalina cúbica de face centrada. Ele se apresenta como um metal de cor prateada, com densidade 8,9 g/cm³, 58,71 g/mol de massa molar e com um ponto de fusão de 1453°C 1. Além disso, ele possui uma boa resistência à oxidação e à corrosão. Desta forma, é muito utilizado em ligas ferrosas e não-ferrosas, a fim de obter uma melhor resistência mecânica em altas temperaturas e resistir a corrosão 1. Ainda, o níquel e suas ligas se destacam por possuir ótima condutividade térmica e elétrica, e propriedades magnéticas, o que as tornam muito valiosas 1. Uma das mais importantes aplicações do níquel, no meio industrial, é sua utilização como elemento de adição em ligas constituídas de ferro como, por exemplo, aços inoxidáveis, ferros fundidos e alguns aços especiais, o que é feito com o objetivo de ampliar a resistência mecânica da liga. Ele é, também, importante na produção de superligas de níquel, em que o mesmo atua como metal base 2, 3,4. As ligas de níquel somam 14% do níquel total usado 5. Há diversas combinações de elementos com o níquel formando suas ligas, sendo classificadas da seguinte maneira: níquel comercialmente puro, ligas binárias, ligas ternárias, ligas complexas e as superligas. Tais ligas são utilizadas de acordo com as necessidades e características que se deseja obter, por exemplo as ligas que contém cromo possuem boa resistência a oxidação em temperaturas elevadas e são resistentes a corrosão, e as que contém alumínio e titânio em quantidades adequadas, apresenta alta resistência mecânica a temperaturas elevadas 5. O uso de materiais monofásicos em componentes estruturais que operam em altas temperaturas fica mais limitado tendo em vista que o material deve possuir ductilidade e tenacidade, manter a resistência à fluência, fadiga e oxidação. Assim, para obter um balanço adequado dessas propriedades torna-se necessário o desenvolvimento de materiais multicomponentes e com microestrutura multifásica 1. 11 2.2 Superligas Ao longo dos anos, surgiu a necessidade de desenvolver materiais que possuíssem uma série de propriedades físicas, químicas e mecânicas quando em altas temperaturas, e os materiais monofásicos não exibiam tais características exigidas. Desta forma, iniciou-se diversos estudos e pesquisas, até que surgiu após a 2° Guerra Mundial, o termo superliga 6. Esse termo foi criado para descrever um conjunto de ligas, ou seja, um sistema com estrutura multifásica, que foram desenvolvidas para serem utilizadas em aplicações que demandam um elevado desempenho, neste caso, materiais que combinam alta resistência à corrosão e resistência mecânica elevada quando expostas a temperaturas acima de 650°C 6. As superligas têm como característica possuírem alta condutividade térmica, boa resistência ao ataque ambiental, baixa expansão térmica, ótima resistência à fadiga térmica, à fluência e mecânica, boa ductilidade e resistência à corrosão em temperaturas elevadas de operação, uma ótima estabilidade metalúrgica, dentre outras 6. Essa classe de materiais apresenta características de grande interesse para diversas aplicações e estão sendo amplamente utilizadas para fabricação de turbinas no setor aeronáutico e turbinas estacionárias para a geração de energia elétrica, em componentes para a indústria petroquímica e química, na fabricação de válvulas de exaustão e rotores no setor de componentes automotivos, em sistemas nucleares, além de outras aplicações requeridas pelo mercado 6. As superligas mais utilizadas atualmente são compostas à base de ferro, de cobalto e de níquel, nas quais ocorre a adição de elementos ligantes tais como tungstênio, tântalo, molibdênio, nióbio, titânio, dentre outros. No entanto, a mais utilizada é a superliga à base de níquel por apresentar diversas aplicações em altas temperaturas 6. 12 2.3 Superligas de Níquel A superliga à base de níquel é o principal constituinte da classe das superligas, no qual a mesma se apresenta em diferentes composições químicas 6. Essa vasta composições de superligas à base de níquel existentes se deve ao fato da sua ótima resistência mecânica quando expostas a diferentes faixas de temperatura. Além disso, as tais superligas possuem características de fundamental importância para a indústria moderna, tais como alta resistência aos ambientes corrosivos, à alta temperatura, aos carregamentos mecânicos, módulo de elasticidade elevado, dentre outras 7,8. O níquel, como metal base, proporciona uma boa estabilidade da microestrutura, uma vez que sua matriz é formada por estrutura cristalina cúbica de face centrada (CFC) que é estável e possibilita a obtenção de resistência à tração e à ruptura, e propriedades de fluência satisfatórias, além de contribuir para a difusividade dos compostos secundários neste tipo de matriz 9, 10. Desta forma, a combinação de vários elementos de liga da origem a superligas a base de Ni, onde suas fases são constituídas por e '. A fase é caracterizada por apresentar estrutura CFC, onde elementos químicos se dissolvem na mesma, contribuindo para o endurecimento por solução sólida. Já a fase ’, de estrutura cúbica, é praticamente responsável por conferir resistência mecânica elevada e à fluência quando submetida a altas temperaturas 11. Os elementos de liga interferem diretamente na estabilidade da fase e isso está intimamente relacionado com suas posições na tabela periódica, sendo a maioria desses elementos pertencente ao bloco D dos metais de transição 12. Existem duas classes de elementos de liga, a primeira inclui elementos como o cobalto, ferro, cromo, molibdênio, tungstênio, dentre outros, que possuem raio atômico próximo ao raio atômico do níquel e colaboram para a estabilização da fase . Já a segunda classe, inclui os seguintes elementos: alumínio, titânio, nióbio e o tântalo, os quais possuem raio atômico superior ao do níquel e estimulam a formação de fases ordenadas como, por exemplo, Ni 3(Al, Ti, Ta), denominado de fase y’ 12. 13 De acordo com estudos previamente realizados sabe-se que Nb e o Ta se dissolvem na fase ’, preferencialmente 2,6,12,13. Esses dois elementos de liga contribuem para o endurecimento por solução sólida, assim como o cromo, o molibdênio, o tungstênio, no entanto em escala menor. Tal endurecimento está diretamente relacionado com a velocidade de difusão, ou seja, quanto mais lenta for a difusão, serão melhores endurecedores, e essa característica é de grande interesse para as aplicações em turbinas de jato e motores de foguete, que necessitam de materiais que possuam elevada resistência mecânica em diferentes faixas de temperaturas 2,6,12,13. Quando os teores do tântalo, nióbio e titânio forem bastante altos, a fase ’ pode se transformar em outras fases, como . Em uma escala termodinâmica estável, a fase Ni3Al prevalece sobre as demais Ni3Ti e Ni3(Nb,Ta), nessa ordem. No entanto, esse Al, pode ser substituído pelos elementos acima relacionados, o que possibilita a formação de uma fase gama metaestável, a qual possui um valor muito importante na área comercial 14. Deste modo, as superligas à base de níquel, como dito anteriormente, são as ligas que ao longo do tempo ganharam seu espaço no mercado, sendo muito utilizadas em diversas áreas devido a essa gama de propriedades. 2.4 Classificação das superligas de níquel As superligas à base de níquel podem ser produzidas por processos de conformação mecânica (ligas trabalhadas) e por técnicas de fundição. As Tabelas 1.1 e 1.2 mostram a composição química das principais superligas de níquel comerciais, fundidas e trabalhadas, respectivamente. No caso das superligas de níquel trabalhadas, o seu desenvolvimento se iniciou no final de 1941, na GrãBretanha, com a liga Nimonic 75 que foi precedida pela liga Nimonic 80, que é endurecida por precipitação 15. Estas ligas apresentavam cerca de 80 % de níquel e 20 % de cromo, com adições de titânio e alumínio, os quais propiciavam o endurecimento a partir da formação de precipitados do tipo gama linha, ou seja, de partículas coerentes com estrutura cristalina tipo CFC e composição química do tipo 14 Ni3(Al,Ti). Outra liga denominada monel (liga Ni-Cu), também endurecida por precipitados gama linha, está em produção desde 1928, enquanto que o uso de processo de endurecimento por precipitação é usual desde 1934. Assim, foi iniciado o desenvolvimento de ligas níquel-cromo-ferro, para as quais adotou-se os tratamentos térmicos de solubilização e de envelhecimento a partir de 1939. No caso da superliga Inconel 600 (que mantém solução sólida em altas temperaturas) e envolve a adição de Ti e Al, a precipitação ocorre a partir da formação de partículas de fase ’ sendo que a adição de 1 % de Nb criou a liga Inconel X-750, amplamente utilizada 16. Outras ligas com adição de Mo, Waspaloy e M-25, usadas na época para a fabricação de palhetas de turbinas forjadas, foram desenvolvidas no final dos anos 1940 e apresentam efeitos de endurecimentos por solução sólida e por precipitação (carbetos). No caso da liga M-252, esta permanece em uso para a fabricação da estrutura de turbinas, enquanto a liga Waspaloy tem sido usada para a fabricação de componentes para rodas e de chapas soldadas 16. A liga Incoloy 901 é usada para a fabricação de discos forjados de turbinas, as quais apresentam resistência mecânica elevada para as temperaturas de serviço, o que possibilitou o uso de discos mais finos, reduzindo o peso dos componentes e melhorando o desempenho dos motores. Uma das ligas mais interessantes para essa aplicação é a liga AF2-1DA. Após 110 horas a 650 ºC a liga Incoloy 901 rompe a uma tensão de 634 MPa, a Inconel 718 a 724 MPa, a Waspaloy a 758 MPa, a Astroloy a 903 MPa e a AF2-1DA a 1083 MPa 16. Diante do aumento das temperaturas de trabalho das turbinas, as superligas de Ni trabalhadas não poderiam atender aos requisitos mecânicos, além de apresentarem limitações durante seu forjamento. Para atender aos requisitos mecânicos, tornou-se necessária uma mudança da composição química desses materiais, o que limitaria a possibilidade de obtenção dessas novas superligas de níquel por técnicas de conformação mecânica. Assim, uma nova categoria de superligas de Ni passou a ser produzida por fundição, pelo processo de investimento, ou seja, pelo método de cera perdida, dentre as quais podem ser destacadas a 713C, a Inconel 100, a B-1900, a Udimet 500, a René 77, a René 80 e a Inconel 738. Assim, com o objetivo de aumentar a resistência à corrosão e resistência mecânica em altas temperaturas, aumentou-se o teor de cromo, 15 principalmente no caso da fabricação de turbinas industriais a gás que devem suportar longo tempo de serviço em alta temperatura, resistindo à corrosão a quente (algumas vezes na presença de enxofre e sais marinhos). Nesse sentido, outras superligas foram também desenvolvidas, tais como a Inconel 738, a Mar-M 421, a Udimet 710, e, posteriormente, ligas com maior resistência mecânica mantendo alta resistência à corrosão, como a René 80, a Inconel 792 e a Mar-M 432. Nessas, o cromo adicionado contribui para manter a resistência à corrosão, mantendo-se uma razão titânio/alumínio relativamente alta, além da adição de metais refratários. No caso de corrosão a quente, as Udimet 500 e Inconel 738 apresentaram maiores resistências e competem nesse sentido com superligas de cobalto. Enquanto a liga Udimet 500 apresenta uma capacidade de resistência mecânica em alta temperatura (935 ºC) moderada, a liga Inconel 738 possui maior resistência mecânica em alta temperatura (980 ºC). Outras ligas como a B-1900, a 713C e a Inconel 100 apresentam uma combinação de resistência mecânica em temperaturas intermediárias e elevadas, enquanto que a Inconel 738 e René 80 apresentam excelente resistência à corrosão em alta temperatura 16,17. As superligas de níquel fundidas, em geral, oferecem uma combinação de resistência mecânica em altas temperaturas e em temperaturas intermediárias, necessária para a aplicação em palhetas de turbinas. Além disso, apresentam boa ductilidade, resistência à oxidação/corrosão em alta temperatura, estabilidade microestrutural e fundibilidade, o que levou a uma ampla utilização em ventoinhas, rodas e palhetas de turbinas. O uso do Háfnio, em ligas como TRW-NASA VIA e Mar-M 247, melhora a ductilidade em temperaturas intermediárias mantendo resistência mecânica elevada, mas possuem resistência à corrosão relativamente baixa. Por outro lado, a liga Inconel 792 combina resistência mecânica elevada da liga Inconel 100 com a resistência à corrosão em alta temperatura da liga Udimet 500 16,17. Tabela 1.1 – Composição Química de Superligas de Níquel Fundidas. Liga Ni Cr Co Mo W Ta Nb Al Ti C B Zr Outros 713C 74 12,5 --- 4,2 --- --- 2,0 6,1 0,8 0,12 0,012 0,10 --- FORD 406 60 6,0 10,0 1,0 8,5 6,0 2,0 4,5 2,0 0,13 0,018 0,06 --- Inconel 100 60 9,5 15,0 3,0 --- --- --- 5,5 4,2 0,18 0,014 0,06 1,0 V 16 Inconel 162 73 10,0 --- 4,0 2,0 2,0 1,0 6,5 1,0 0,12 0,020 0,10 --- Inconel 738 61 16,0 8,5 1,7 2,6 1,7 0,9 3,4 3,4 0,17 0,010 0,10 --- Inconel 792 61 12,4 9,0 1,9 3,8 3,9 --- 3,1 4,5 0,12 0,020 0,10 --- MAR-M432 50 15,5 20,0 --- 3,0 2,0 2,0 2,8 4,3 0,15 0,015 0,05 --- René 80 60 14,0 9,5 4,0 4,0 --- --- 3,0 5,0 0,17 0,015 0,03 --- TRW-NASA VIA 61 6,1 7,5 2,0 5,8 9,0 0,5 5,4 1,0 0,13 0,020 0,13 0,5 Re 0,4 Hf Udimet 500 52 18,0 19,0 4,2 --- --- --- 3,0 3,0 0,07 0,07 0,05 --- Fonte: http://www.icz.org.br/niquel-superligas.php Tabela 1.2 – Composição Química de Superligas de Níquel Trabalhadas Liga Ni Cr Co Mo W Ta Nb Al Ti Fe Mn Si Inconel 600 76,6 15,8 --- --- --- --- --- --- --- 7,2 0,20 Inconel 718 53,0 18,6 --- 3,1 --- --- 5,0 0,4 0,9 18,5 Nimonic 75 78,8 20,0 --- --- --- --- --- --- 0,4 Nimonic 80A 74,7 19,5 1,1 --- --- --- --- 1,3 Pyromet 860 43,0 12,6 4,0 6,0 --- --- --- René 95 61,3 14,0 8,0 3,5 3,5 3,5 Udimet 500 53,6 18,0 18,5 4,0 --- Udimet 710 54,9 18,0 15,0 3,0 Waspaloy 58,3 19,5 13,5 4,3 C B Zr Outros 0,20 0,04 --- --- --- 0,20 0,30 0,04 --- --- --- --- 0,10 0,70 0,01 --- --- --- 2,5 --- 0,10 0,70 0,06 --- --- --- 1,25 3,0 30,0 0,05 0,05 0,05 0,010 --- --- --- 3,5 3,5 --- --- --- 0,15 0,010 0,05 --- --- 2,9 2,9 --- --- --- 0,08 0,006 0,05 --- 1,5 --- --- 2,5 5,0 --- --- --- 0,07 0,020 --- --- --- --- 1,3 3,0 --- --- --- 0,08 0,006 0,06 --- --- Fonte: http://www.icz.org.br/niquel-superligas.php 2.5 Diagramas de fases dos sistemas Ni-Nb, Ni-Ta e Ni-Nb-Ta A Figura 1 apresenta o diagrama de fases do sistema Ni-Nb. As seguintes fases sólidas estáveis podem ser identificadas: Ni, Ni8Nb, Ni3Nb, Ni6Nb7 e Nb. As fases intermediárias são formadas pelas reações peritetóide, congruente e peritética, 17 respectivamente. De acordo com esse diagrama, o níquel dissolve uma pequena quantidade de nióbio próximo de 1 %-at 18. Figura 1 – Diagrama de fases do sistema Ni-Nb. Fonte: Okamoto et al (2008, p.371) O diagrama de fases do sistema Ni-Ta está apresentado na Figura 2 e indica a presença das fases Ni, Ni8Ta, Ni3Ta, Ni2Ta, NiTa e NiTa2. As fases Ni8Ta e Ni3Ta são formadas por reações peritetóide e congruente, enquanto que as fases Ni2Ta, NiTa e NiTa2 por reações peritéticas. De acordo com esse diagrama de fases, a solubilidade do tântalo no níquel é desprezível 19. 18 Figura 2 – Diagrama de fases do sistema Ni-Ta. Fonte: Cui e Jin et al (1999) O diagrama de fases do sistema Ni-Nb-Ta está mostrado na Figura 3, o qual foi determinado a partir de ligas preparadas por fusão a arco 20. De acordo com esses resultados, o Ni apresenta uma solubilidade de Nb e de Ta próximos de 11 e 8 %-at, respectivamente. Além disso, pode ser notada a existência de uma região monofásica que se estende entre as fases Ni3Nb e Ni3Ta, que solubiliza teores de nióbio e tântalo entre 23-26 %-at.Nb e 23-27 %-at.Ta 21. 19 Figura 3 – Seção isotérmica à 1050°C proposta para a região Ni-NiTa-Ni6Nb7 do sistema Ni-Nb-Ta, para condição de baixa solubilidade Fonte: KORNILOV; PLYAEVA et al (1962, p. 590-595) 2.6 Moagem de alta energia Durante a Segunda Guerra Mundial ainda se utilizava moinho rotativo de bolas, o qual tinha a função de diminuir o tamanho das partículas dos pós em um meio úmido e em baixa velocidade. Em meados de 1960, desenvolveu-se a técnica de Moagem de Alta Energia (MAE), a qual foi desenvolvida e patenteada pela International Nickel Corporation (INCO) como mechanical alloying, no qual é feito o processamento dos pós elementares para a produção de matérias homogêneas e pós ultrafinos 22,23. O princípio de funcionamento da MAE consiste em um recipiente (vaso de moagem) no qual contém as esferas e os pós dos materiais a serem processados. O conjunto é submetido a uma rotação, que resulta em alta frequência de colisões entre as partículas de pós e as esferas e as paredes do recipiente, sendo que alguns parâmetros são previamente definidos, tais como: velocidade de rotação, tempo de moagem, a relação entre massa das esferas e a massa do pó, dentre outros 22,23. 20 Esta técnica é muito utilizada para obter materiais nanoestruturados, ligas metaestáveis, sólidos amorfos, etc. Dependendo das características dos materiais reagentes e dos produtos requeridos, podem ser utilizados agentes controladores de processo, que são substâncias sólidas, líquidas ou gasosas que contribuem para reduzir os mecanismos de soldagem a frio excessiva que ocorrem durante o processamento de materiais dúcteis 22. No presente trabalho, utilizou-se a técnica de moagem de alta energia para a produção das ligas de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta. 2.7 Técnicas de Caracterização Microestrutural 2.7.1 Microscopia eletrônica de varredura (MEV) e Microscopia Ótica (MO) O uso da microscopia óptica e da microscopia eletrônica de varredura é de suma importância para a realização de análise microestrutural, desde a caracterização dos materiais reagentes como dos produtos, afim de correlacionar a microestrutura existente (poros, trincas, estruturas de grãos e fases existentes) com a composição química e os parâmetros usados para o processamento dos materiais 24. Na microscopia ótica (MO) de luz refletida, como o sistema é constituído basicamente pelos sistemas de iluminação (incluindo a fonte) e de lentes, a imagem formada e seu respectivo contraste é consequência da diferença dos reflexos da luz na microestrutura em análise. O aumento conseguido neste tipo de análise é de no máximo 2000 vezes (resolução de 0,5 µm), além de possibilitar uma profundidade de foco limitada, o que impossibilita a visualização de alguns detalhes da amostra 24. No caso da microscopia eletrônica de varredura (MEV), utiliza-se um fino feixe de elétrons, o qual interage com a superfície da amostra e o resultado é a produção de várias radiações que são emitidas, tais como: elétrons retroespalhados, elétrons secundários, raios X característicos, elétrons Auger, dentre outros. Dependendo do material, a magnificação pode chegar a 100.000 vezes, com resolução da ordem de 21 2 a 5 nm (20 – 50 A°), principalmente no caso de microscopia eletrônica de varredura por emissão de campo (FEG - field emission gun). A partir do detector usado, podem ser obtidas informações sobre a composição e a topografia da superfície da amostra. Além destas características, o MEV possui elevada profundidade de foco, o que significa, imagem com aparência tridimensional, e também a vantagem de poder combinar análise microestrutural com microanálise química 24. O sinal proveniente do detector de elétrons secundários e elétrons retroespalhados possibilitam a obtenção de informações sobre a topografia e a composição química do local em análise. O feixe de elétrons primário varre a amostra e, de acordo com as irregularidades da superfície, os sinais sofrem modificações resultando na formação da imagem 24. Os elétrons retroespalhados, ou seja, uma fração dos elétrons incidentes que são retardados pelo campo magnético do núcleo dos átomos que compõe a amostra, são os responsáveis por fornecer a imagem caracterizada pela variação da composição da amostra, em tonalidades que se estendem do branco (regiões com maior peso atômico médio) ao preto (regiões com menor peso atômico médio). Já, os elétrons que são formados a partir da colisão entre os elétrons incidentes e os elétrons das camadas externas do átomo, ou seja, os elétrons secundários, são os responsáveis por fornecer imagem com detalhes topográficos da superfície da mesma 24. 2.7.2 Microanálise de energia dispersiva (EDS) Esta técnica é muito utilizada na análise química de materiais inorgânicos, para determinar a composição química das fases presentes na amostra 24. O EDS consiste na identificação dos raios X que são emitidos pela amostra após a interação do feixe de elétrons com os elétrons das camadas mais internas do mesmo causando sua ejeção, resultando em uma vacância em tal átomo. Devido a isso, o átomo fica em um estado excitado, tendendo a voltar ao seu estado fundamental. A passagem dos elétrons das camadas mais externas para preencher o vazio da camada mais interna, resulta na liberação de um fóton com uma energia 22 específica e característica de cada elemento, possibilitando a determinação qualitativa e quantitativa dos elementos que compõe as fases da amostra. A análise por EDS é uma técnica não destrutiva e é eficiente para a determinação de elementos com peso atômico correspondente ao carbono (se em grande quantidade na amostra). Todavia, a medição de elementos leves pode ocasionar em maiores erros das medições 24. 2.7.3 Difração de raio-X (DRX) A difração de raios X é uma técnica de caracterização de microestruturas de materiais cristalinos, a qual é muito utilizada em várias áreas do conhecimento, principalmente em engenharia e ciência dos materiais 25. Nesta técnica, o feixe de raios X é incidido na amostra e, após a colisão com os elétrons ou íons da mesma, os raios X podem ser espalhados elasticamente, não havendo perda de energia pelos elétrons que compõem o átomo. Devido a colisão, o fóton de raios X sofre uma mudança em sua direção, porém a energia do fóton e a fase permanecem a mesma do feixe incidente 25. No entanto, para que haja a formação do espectro de raios X, torna-se necessário que os átomos estejam arranjados de maneira sistemática formando uma estrutura cristalina, com a finalidade de que o feixe difratado saia em fase com o feixe emitido. Caso o material não seja cristalino, o feixe não sairá em fase e consequentemente não irá haver a formação de um pico de difração 25. Para que haja interferência construtiva das ondas espalhadas é necessário que seja obedecido a condição da Lei de Bragg, ou seja, se ao comprimento de onda do feixe incidente, , no qual refere- o ângulo de incidência, d distância entre camadas adjacentes de átomos e n é o número inteiro positivo, ordem de interação (1,2, 3, 4...) 25. Os raios X difratados são detectados em um detector que está colocado a um ângulo de 2 em relação a amostra e, a partir da intensidade dos raios X difratados, o mesmo é proporcional à densidade de átomos do plano da estrutura que o originou. Portanto, utiliza-se a difração de raios X para detectar os planos 23 cristalográficos que constituem o material, e quanto maior a intensidade maior é a quantidade do mesmo presente no material em análise 25. 2.7.4 Ensaios de Oxidação Principalmente nos casos de desenvolvimento de materiais submetidos em altas temperaturas, torna-se necessária a análise da resistência à oxidação. Exceto para os casos de ligas que apresentam alta pressão de vapor, em que pode acontecer uma evaporação preferencial durante seu aquecimento, os metais e suas ligas apresentam a tendência de um ganho de massa decorrente do processo de oxidação, o qual é iniciado na superfície do material. No caso de materiais porosos, o processo de oxidação também acontece no seu interior 26. Dois tipos de ensaios de oxidação são normalmente realizados, com ou sem fluxo de gás oxidante, os quais são chamados de processos de oxidação dinâmica e estática, respectivamente. Ambos podem ser realizados em fornos convencionais, os quais possuem sistemas de entrada e saída de gases. No caso de experimentos sem fluxo, as amostras são simplesmente aquecidas na presença da atmosfera oxidante durante todo ciclo térmico. Todavia, análises termogravimétricas são normalmente feitas em equipamentos compostos de um forno e uma balança, a qual monitora toda alteração da massa durante o ciclo térmico 26. 24 3. MATERIAIS E MÉTODOS 3.1 Materiais de partida A partir da mistura de pós elementares Ni (99,9 % em peso, 200 -100, esponja), Nb (99.9wt%, <200 mesh, angular) e Ta (99.9wt%, <325 mesh, angular) foi possível formar as ligas Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta (%-at), as quais foram preparadas por moagem de alta energia em um planetário Fritsch P-5, utilizando bolas de aço inoxidável (19 mm de diâmetro) a uma velocidade de 300 rpm, em uma proporção 10:1 de bola – pó, durante um tempo previamente estimado de 10 horas. 3.2 Sinterização dos pós-moídos de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta Pós anteriormente moídos por 10 h foram compactados mediante carga uniaxial de 2 toneladas para a obtenção de corpos verdes com 6 mm de diâmetro. Para obter as microestruturas de equilíbrio, esses corpos verdes foram sinterizados a 1100oC por 4h, sob atmosfera de argônio. Essa etapa foi realizada em forno disponível no DEMAR-EEL-USP. Vale notar que esta etapa e a 3.1 foram anteriormente realizadas por outra estudante. Desta forma, as amostras foram recebidas para serem embutidas e dar prosseguimento com a caracterização das mesmas. 25 3.3 Caracterização das ligas sinterizadas de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb10Ta Para viabilizar a caracterização microestrutural das ligas de Ni-25Nb, Ni-20Nb5Ta e Ni-15Nb-10Ta, primeiramente as amostras foram embutidas em baquelite utilizando a embutidora AROTEC PRE 30 Mi, em seguida foi realizada a preparação metalográfica convencional que envolve o lixamento (lixas de SiC com granas de #220, #320, #400, #600 e #1200) em uma lixadeira automática (Fortel PFL) e subsequente polimento com solução de alumina por meio da politriz automática (Fortel PFL) Na sequência, as amostras das ligas Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta (%-at) foram caracterizadas com o auxílio de técnicas de microscopia óptica, microscopia eletrônica de varredura (Field Emission Gun – FEG), espectrometria por energia dispersiva (EDS), difração de raios X e ensaios de oxidação estática. A etapa de MO foi realizada no ICT-UNIFAL com o auxílio de um microscópio ótico da marca Zeiss, modelo Axio Scope.A1, acoplado à câmera de vídeo Axiocam ICc3 e placa digitalizadora conectada a um computador equipado com software AxioVision 4.8.2 SP2. Já a etapa de MEV-FEG foi realizada no DEMa-UFSCar, por meio de um equipamento de da marca Philips e modelo XL30. Imagens de MO foram obtidas em campo claro, enquanto que as de imagens de MEV foram obtidas nos modos de elétrons secundários e retroespalhados para a obtenção de informações topográficas e composicionais, respectivamente. Medidas de EDS das fases formadas nas ligas sinterizadas de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni15Nb-10Ta (%-at) foram medidas em termos de Ni, Nb, Ta e Fe. Para obter informações sobre a resistência à oxidação, inicialmente pesou-se a massa das amostras (sem o embutimento) em uma balança analítica, em seguida as mesmas foram colocadas em cadinhos de porcelana devidamente identificados e levados a uma mufla da marca 200-FM disponível no ICT-UNIFAL. As amostras foram aquecidas até a temperatura de 1100°C (10°C/min) e permanência de 4 horas em tal temperatura máxima. Em seguida, esperou-se as amostras resfriarem até a temperatura ambiente e pesou-se novamente a massa das mesmas. A partir da 26 diferença de massa obtida, pode-se estimar a variação em porcentagem de massa e relacioná-la com a resistência a oxidação. As medidas de difração de raios X foram determinadas em um equipamento da marca Siemens D5005 disponível no DEMa-UFSCAR, usando uma radiação de Cu K-α, voltagem de 40 kV e corrente de 30 mA, variandoentre 20 e 70º. 27 4. RESULTADOS E DISCUSSÕES As micrografias de MO obtidas das amostras sinterizadas a partir de pós de Ni25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta estão mostradas na Figura 4. Como consequência da baixa temperatura de sinterização, pode ser observada a presença de uma grande quantidade de poros, que foram reduzidos na liga contendo maior quantidade de tântalo na mistura de pós reagentes. Provavelmente, a maior distorção gerada com a formação de soluções sólidas estendidas em pós de Ni15Nb-10Ta, contribuiu para a obtenção de estruturas com uma maior metaestabilidade que, durante o aquecimento, liberou uma maior energia local e, consequentemente, uma condição mais favorável para a ocorrência de mecanismos de sinterização. O difratograma de raios X típico das ligas de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb10Ta produzidas por moagem de alta energia e subsequente sinterização está mostrado na Figura 5. Picos de -Ni3Nb foram indexados, os quais foram movidos para a direção de menores ângulos de difração. Os parâmetros de rede do -Ni3Nb foram variados de a = 5,0866 Å e c = 4,1997 Å na liga Ni-25Nb para a = 5,1145 Å e c= 4,5259 Å na liga Ni-15Nb-10Ta, indicando que uma quantidade significativa de átomos de tântalo podem ser dissolvidos na sua estrutura cristalina para formar uma solução sólida substitucional. Consequentemente, o volume da célula foi alterado de 96,198 Å10 para 97,806 Å10, respectivamente. 28 (a) (b) (c) Figura 4 – Micrografias (MO) das ligas (a) Ni-25Nb, (b) Ni-20Nb-5Ta e (c) Ni-15Nb-10Ta 113 302 031 013 103 311 122 221 022 003 220 301 310 202 121 112 021 102 200 111 002 011 101 201 110 020 012 após sinterização a 1100oC por 4h. 2Ө Figura 5 – Difratograma de raios X típico das ligas sinterizadas de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta, mostrando a presença de picos de Ni3Nb deslocados para a direção de menores ângulos de difração, em que os picos de cor preta foram os obtidos experimentalmente. 29 Analisando as micrografias de MEV das amostras sinterizadas a partir de pós de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta, pode-se notar, apesar da presença de poros, a existência de microestruturas homogêneas e, de forma majoritária, monofásicas, contendo pequenas regiões de segregação de Nb e Ta, de acordo com as Figuras 6;7;8;9;10;11, a seguir: Figura 6 – Imagens de MEV obtida por elétron secundário da liga Ni-25Nb após sinterização a 1100oC por 4h. Figura 7 – Imagens de MEV obtida por elétron retorespalhado da liga Ni-25Nb após sinterização a 1100oC por 4h. A flecha vermelha e amarela indica a fase clara e escura, respectivamente. 30 Figura 8 – Imagens de MEV obtida por elétron secundário da liga Ni-20Nb-5Ta após sinterização a 1100oC por 4h. Figura 9 – Imagens de MEV obtida por elétron retroespalhado da liga Ni-20Nb-5Ta após sinterização a 1100oC por 4h. A flecha vermelha e amarela indica a fase clara e escura, respectivamente. 31 Figura 10 – Imagens de MEV obtida por elétron secundário da liga Ni-15Nb-10Ta após sinterização a 1100oC por 4h. Figura 11 – Imagens de MEV obtida por elétron retroespalhado da liga Ni-15Nb-10Ta após sinterização a 1100oC por 4h. A Tabela 1.3 mostra os teores de Ni, Nb, Ta e Fe das fases formadas nas amostras sinterizadas de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta, os quais foram determinados a partir de análises de EDS. De acordo com os resultados, as matrizes dessas ligas são constituídas pela fase Ni3Nb, enquanto que teores de Fe inferiores a 7 %at foram também detectados, os quais são provenientes de contaminação 32 ocorrida durante o processo de moagem a partir do uso de vaso e esferas de aço inoxidável. Tabela 1.3 – Teores (%at) de Ni, Nb, Ta e Fe das fases presentes nas ligas sinterizadas de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Nb, os quais foram determinados por análises de EDS. Liga Ni-25Nb Ni-20Nb-5Ta Ni-15Nb-10Ta Fase Ni3Nb Ni (%-at) 76,67* Nb (%-at) 16,63* Ta (%-at) --- Fe (%-at) 6,71* Região clara 72,93 22 --- 5,03 Região escura 61,55 6,32 --- 32,15 Ni3(Nb,Ta) 72,92* 19,08* 2,93* 5,05* Região clara 74,32 8,98 11,92 4,77 Região escura 71,77 22,23 0,57 5,43 Ni3(Nb,Ta) 68,18* 16,12* 12,17* 3,54* Região clara 44,98 28,8 21,55 4,67 Região escura 67,53 16,69 12,98 2,8 *porcentagem de cada composto na matriz da amostra. Na liga Ni-25Nb, a matriz indicada foi Ni3Nb e apontou a presença de teores próximos de 16 %-at de Nióbio. Em regiões mais claras, os teores de Nb foram aumentados até 22 %-at., enquanto que o Fe ficou segregado em outras pequenas e limitadas regiões escuras com teores de até 32 %-at. A fase -Ni3(Nb,Ta) é a matriz da liga Ni-20Nb-5Ta e indicou a presença de teores de Nb e Ta próximos de 19 e 3 %-at., respectivamente, além de uma quantidade de Fe próximo de 5 %-at. Esses resultados globais indicaram que os teores de Ta na liga ficaram abaixo daqueles esperados (composição nominal da liga). Contudo, as regiões mais escuras e mais claras apresentaram teores de Nb e Ta próximos de 22 e 12 %-at., respectivamente. 33 A liga Ni-15Nb-10Ta apresentou teores globais de Nb e Ta próximos de 16 e 12 %-at., respectivamente, além de 3,5 %-at Fe. De forma, similar, a matriz dessa liga ternária é formada pela fase-Ni3(Nb,Ta). Resultados similares foram encontrados em regiões escuras dessa liga. No entanto, as regiões claras apresentaram teores de Nb e Ta próximos de 28 e 21 %-at., sugerindo tratar-se da fase -Ni(Nb,Ta). Os resultados obtidos nesse trabalho têm confirmado a existência de uma região monofásica entre as fases Ni3Nb e Ni3Ta, o que está de acordo com resultados anteriores obtidos a partir de ligas ternárias produzidas por fusão a arco e subsequente tratamento térmico 20. Após os ensaios de oxidação estáticos (1100oC por 4 h), verificou-se que as ligas sinterizadas de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta apresentaram um ganho de massa de 31,5%, 30,5% e 28,8%, respectivamente, o que sugere que a adição de tântalo pode contribuir para aumentar a resistência à oxidação do composto Ni3Nb-. Contudo, a maior quantidade de poros nas amostras de Ni-25Nb e Ni-20Nb-5Ta podem ter contribuído para aumentar o ganho de massas dessas amostras. 34 5. CONCLUSÔES Misturas de pós de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta (%-at.), previamente preparados por moagem de alta energia, produziram ligas contendo matrizes de Ni3Nb e β-Ni3Nb(Ta), após subsequente sinterização das ligas Ni-25Nb, Ni-20Nb5Ta e Ni-15Nb-10Ta, respectivamente. Pequenas regiões com segregação de Fe e Nb/Ta foram identificadas nas microestruturas dessas ligas, as quais ocorreram devido à contaminação proveniente da moagem e da baixa temperatura de sinterização adotados, respectivamente. A liga Ni-15Nb-10Ta apresentou uma menor quantidade de poros, o que provavelmente está relacionado com a maior condição de metaestabilidade obtida durante a moagem de alta energia a partir de soluções sólidas estendidas. Após os ensaios de oxidação (1100oC por 4 h) das amostras sinterizadas de Ni-25Nb, Ni-20Nb-5Ta e Ni-15Nb-10Ta, as mesmas apresentaram um ganho de massa de 31,5%, 30,5% e 28,8%, respectivamente, sugerindo que a adição de tântalo pode aumentar a resistência à oxidação da matriz de β-Ni3Nb. Entretanto, a maior quantidade de poros das ligas Ni-25Nb e Ni-20Nb-5Ta pode ter influenciado nesses resultados. 35 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 1. NICKEL. In: Encyclopaedia Britannica Macropedia. Chicago, 1973. v.13, p.71-74. 2. VALLE, L.C.M. Efeitos da solubilização e do envelhecimento na microestrutura e nas propriedades mecânicas da superliga inconel 718. Dissertação de mestrado. COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, 2010. 3. MIAO, Z. J., SHAN, A. D., WU, Y. B., LU, J., HU, Y., LIU, J. L., SONG, H. W. Effects of P and B addiction on as-cast microstructure and homogenization parameter of Inconel 718 alloy. Trans. Nonferrous Met. Soc. China, vol 22, pp 318323, 2012. 4. LAMBARRI, J., LEUNDA, J., NAVAS, V. 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