Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Estudo das atitudes em relação à Estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico Tese de Doutoramento em Didática de Ciências e Tecnologias Candidato: José Alexandre dos Santos Vaz Martins Orientadoras: Assumpta Estrada Roca Maria Manuel da Silva Nascimento Composição do Júri: Professor Doutor Joaquim Bernardino Lopes Professora Doutora Carmen Batanero Professor Doutor Jaime Maria Monteiro de Carvalho e Silva Professor Doutor José António Silva Fernandes Professor Doutor Carlos Miguel da Silva Ribeiro Professora Doutora Ana Paula Florêncio Aires Professora Doutora Assumpta Estrada Roca Professora Doutora Maria Manuel da Silva Nascimento Vila Real, 2015 ii Este trabalho foi expressamente elaborado como tese original para efeito de obtenção do grau de Doutor em Didática de Ciências e Tecnologia, Especialização em Didática de Ciências Matemáticas, sendo apresentado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. iii iv Agradecimentos Quero aqui agradecer de forma genérica a todos aqueles que, direta ou indiretamente, contribuíram para que eu pudesse ter realizado este trabalho. Porém, não posso deixar de destacar e personalizar alguns com o meu sincero reconhecimento, sendo que a ordem de referência não tem qualquer conotação com um grau de importância atribuída, pois todos eles no seu campo foram de extrema relevância. Assim, começo por agradecer aos Srs. Presidentes do Instituto Politécnico da Guarda (IPG), Professor Doutor Jorge Mendes e Professor Doutor Constantino Rei, à Sra. Diretora e ao Sr. Subdiretor da Escola Superior de Turismo e Hotelaria do IPG (ESTH/IPG), Professora Doutora Anabela Sardo e Professor Especialista António Melo, aos Coordenadores da Unidade Técnico-Científica de Ciência Exatas e Experimentais do IPG, Professor Doutor Fernando Pires Valente e Professora Doutora Cecília Rosa, e aos colegas do Concelho Técnico-Científico da ESTH/IPG por terem feito tudo o que estava ao seu alcance de modo a garantir-me as melhores condições possíveis para a realização deste trabalho. Não posso deixar, ainda, de manifestar especial apreço pela capacidade de sacrifício e disponibilidade que a Professora Doutora Cecília Rosa e o Professor Doutor Jorge Mendes demonstraram, o que foi uma preciosa ajuda para o atingir deste meu objetivo. Agradeço também a disponibilidade e generosidade da Dra. Sílvia Reis. Aos colegas e amigos da ESTH/IPG devo também agradecimento pelo apoio e pela capacidade de perdoar as minhas eventuais falhas ao longo do período em que decorreu esta investigação, e que por todos eles saberem quem são me escuso de os enunciar. Não quero nem posso deixar de fazer e destacar um especial agradecimento às minhas orientadoras, Professora Doutora Assumpta Estrada e Professora Doutora Maria Manuel Nascimento, pela oportunidade que me deram para ser seu orientando e pela sua inegável competência científica e capacidade de trabalho que permitiram estabelecer os caminhos e diretrizes para a realização e conclusão desta investigação. Obviamente que este agradecimento seria curto se ficasse restrito ao reconhecimento do rigoroso e adequado apoio ao nível teórico e metodológico que me prestaram, pelo que devo aqui agradecer também a enorme paciência, a permanente disponibilidade e generosidade e a forte demonstração de confiança e de motivação com que me brindaram ao longo deste trajeto, mas, sobretudo, pela oportunidade de estabelecermos uma relação de amizade de que me orgulho e a qual pretendo manter no futuro. v Por último, obviamente que não posso esquecer de agradecer à minha família alargada toda a ajuda e apoio que deram e que foi fundamental como suporte da família restrita e do meu bem-estar psicológico. Em particular, deixo aqui de forma indelével os meus mais profundos agradecimentos à minha esposa, Cristina, e aos meus filhos, Beatriz e Francisco, pela sua compreensão, paciência e incentivo, em especial quando mais precisei, mas, simultaneamente, faço o meu mais profundo pedido de desculpa, pois ao longo desta demasiado longa jornada não fui capaz de lhes proporcionar toda a atenção e carinho que eles precisavam e mereciam. vi Resumo Para se atingir o sucesso na educação estatística, e em especial num período de mudanças do ensino da Estatística no ensino básico, reconhece-se a necessidade de conhecer as atitudes dos professores em relação à Estatística. Deste modo podem aumentar-se as possibilidades de haver predisposição, vontade e comprometimento dos professores para com as mudanças necessárias no processo de ensino-aprendizagem e na sua formação. Assim, este estudo centra-se na medição e caracterização das atitudes em relação à Estatística dos docentes do 1º e do 2º ciclo do ensino básico português usando uma escala já testada e com boas características psicométricas, Escala de Actitudes hacia la Estadística de Estrada – EAEE – (Estrada, 2002). Neste âmbito pretende-se, ainda, analisar as componentes das atitudes, verificar o efeito de algumas variáveis sobre essas atitudes, bem como comparar as atitudes dos professores em relação à Estatística em Portugal e em Espanha e Peru. Além disso, procuram perceber-se algumas das justificações das atitudes dos professores através de uma abordagem qualitativa. Finalmente, espera-se poder lançar pistas e caminhos para a introdução de uma pedagogia das atitudes e para intervenções preventivas e corretivas na formação, contribuindo positivamente, quer para o desenvolvimento profissional dos professores, quer para o processo de ensino-aprendizagem da Estatística e, consequentemente, para o sucesso no ensino da mesma. Assim, no primeiro capítulo deste trabalho enquadra-se a temática desta tese, fazendose uma análise resumida da história do ensino e da formação de professores em Portugal. A ênfase foi dada aos ciclos do ensino abrangidos pelo estudo, destacando-se, em particular, o ensino da Matemática e da Estatística, incluindo o papel específico do professor e a sua formação. No segundo capítulo começa por fazer-se uma abordagem geral ao conceito de atitudes, analisando as suas definições, o seu funcionamento e as suas características, a sua importância, as suas consequências e a sua medição. Em seguida, analisam-se e enquadram-se as atitudes em relação à Matemática e à Estatística, mas de forma mais extensa, profunda e específica para a Estatística. Apresentam-se também vários instrumentos de medição dessas atitudes, algumas das suas características e vários dos estudos de aplicação dos referidos instrumentos. No terceiro capítulo apresenta-se o desenho do estudo e a metodologia utilizada. Inicialmente aborda-se um primeiro estudo exploratório, em que se usou uma tradução livre vii da escala de atitudes EAEE num pequeno conjunto de professores e que serviu de teste exploratório à fiabilidade e validez da EAEE no contexto português, bem como à adequabilidade de algumas questões de caracterização dos respondentes. Continua-se com a apresentação da segunda fase do estudo em que se aplicou a uma amostra de 1098 professores do 1º e 2º ciclos do ensino básico de três distritos portugueses a versão em português da escala EAEE, validada por um painel de especialistas, e na qual se introduziu a possibilidade de os respondentes apresentarem a justificação da sua classificação em nove dos itens da escala. A terminar a apresentação desta segunda fase faz-se a descrição da formulação do problema, explanam-se as metas a alcançar, descrevem-se as variáveis e as hipóteses, o instrumento de pesquisa, bem como os procedimentos e a caraterização da amostra. No quarto capítulo é feita a apresentação, a análise e a discussão dos resultados do estudo. Nomeadamente, abordam-se os resultados sobre as atitudes ao nível da pontuação global e das suas componentes, que se verificaram ser positivas. Analisam-se também os itens, e em particular os melhores e piores pontuados, bem como a fiabilidade e generalização da escala de atitudes usada que podem ser consideradas elevadas. Apresenta-se ainda a relação entre as componentes das atitudes, ficando verificada a multidimensionalidade da escala e a presença das suas características teóricas de base. Complementa-se a análise com a influência das variáveis do estudo sobre as atitudes a vários níveis, verificando-se existirem diferenças significativas em relação à pontuação global nas variáveis ciclo de ensino, tempo de serviço, área de formação inicial ou especialidade, nível de estudo de Estatística e no nível de ensino de Estatística. Além disso, analisam-se as justificações dadas pelos professores nos nove itens escolhidos, que permitem compreender melhor as atitudes através das motivações para as pontuações naqueles itens. Por fim, na conclusão final demonstra-se a coerência global da investigação, a discussão dos resultados no quadro das hipóteses e face a outros estudos, bem como o facto de os objetivos terem sido alcançados. Também são discutidas as implicações dos resultados, avaliadas de forma crítica as limitações da investigação e efetuadas as sugestões e recomendações que abrem perspetivas para investigações futuras no âmbito das atitudes face à Estatística. Palavras-chave: Atitudes, Estatística, Professores, 1º e 2º ciclos do ensino básico, Formação de professores, Escalas de atitudes. viii Abstract To achieve success in statistical education and particularly in a period of change in the teaching of Statistics in basic education in Portugal, the need to know the attitudes of teachers in relation to Statistics is recognized. Therefore, the chances of teachers having a predisposition, willingness, and commitment may increase with the required changes in the teaching and learning processes and also in their training. This study focuses on the measurement and characterization of attitudes towards Statistics by teachers of the 1st and 2nd cycle of Portuguese basic education (ages 6 till 12) using an already tested scale with good psychometric characteristics, Escala de Actitudes hacia la Estadística de Estrada EAEE. In this context, it also aims to analyze the components of attitudes, evaluate the effect of some variables on them, as well as compare the attitudes of teachers towards Statistics in Portugal, Spain and Peru. In addition, it seeks to understand some of the justifications for the attitudes of teachers through a qualitative approach using content analysis. Finally, it is expected to find pathways that will lead to the introduction of an attitudes’ oriented pedagogy and for preventive and corrective interventions in teachers’ training, contributing positively to the professional development of teachers and to the teaching and learning processes of Statistics. In the first chapter the theme of this thesis is framed and a summary analysis of the history of education and the training of teachers in Portugal is made. The cycles of education covered by the study are emphasized, highlighting the teaching of Mathematics and Statistics, including the teachers’ specific role and training. The second chapter gives a general approach to the concept of attitudes, analyzing its settings and characteristics. This concept is also viewed in what concerns its importance, consequences, and measurement. The attitudes toward Mathematics and Statistics are analyzed and framed but in a more extensive, in-depth and specific way concerning Statistics. Several instruments for measuring these attitudes, their characteristics, and studies using these instruments, are presented. The third chapter describes the design of the study and the methodology used. A first exploratory study is summarized based on a non-validated translation of the EAEE scale on a small set of teachers; that served as an exploratory test to the reliability and validity of the EAEE in the Portuguese context, as well as the suitability of some of the issues regarding the participants’ characterization. In the second phase, the Portuguese version of the Likert scale, ix validated by a board of experts, was applied to a sample of 1098 teachers. These were teachers from the 1st and 2nd cycles of basic education of three Portuguese districts and they could write the reasons for their score in nine of the EAEE items. Finally, the formulation of the problem is described, the goals to be achieved are explained, and the variables and hypotheses, the research instrument, the procedures and the characterization of the sample are described. In the fourth chapter, the analysis and discussion of the results of the study are presented. Specifically, the results on the attitudes at the level of the overall score and its components are discussed; and were found to be positive. The best and worst scored items, the reliability, and generalization of the scale of attitudes are analyzed; and the reliability and generalization can be considered high. The relationship between the components of attitudes is also presented, checking the dimensionality of the scale and the presence of its theoretical characteristics. The influence of the variables of the study on the attitudes at several levels is analyzed; and there are significant differences in relation to the global score in the variables of the teaching cycle, time of service, area of initial training, level of studying in Statistics and on training in Statistics. Additionally, the justifications given by teachers in nine selected items were also analyzed, and that allowed us to obtain a better understanding of their attitudes. In the conclusion the overall coherence of the research is demonstrated, the results are discussed in the context of the hypotheses presented and are compared to other studies. It is also shown that the objectives were achieved. The implications of the results are discussed, a critical evaluation of the limitations of research is made and suggestions and recommendations that open perspectives to future research in the context of attitudes towards Statistics are also put forth. Keywords: Attitudes, Statistics, Teachers, 1st and 2nd cycle of basic education, Teachers' training, Scales of attitudes. x Índice Geral Introdução................................................................................................................................... 1 1. Enquadramento ................................................................................................................... 7 1.1. 1.1.1. Antes da I República ............................................................................................ 8 1.1.2. I República ......................................................................................................... 10 1.1.3. Estado Novo ....................................................................................................... 15 1.1.4. Pós 25 de Abril ................................................................................................... 23 1.2. Perspetiva histórica ............................................................................................ 42 1.2.2. O professor de Matemática e a sua formação .................................................... 62 O ensino da Estatística em Portugal .......................................................................... 81 1.3.1. O papel da Estatística ......................................................................................... 81 1.3.2. Perspetiva histórica ............................................................................................ 86 1.3.3. A Estatística e o professor e sua formação ......................................................... 99 Atitudes ........................................................................................................................... 105 2.1. Abordagem geral ao conceito de atitudes ................................................................ 106 2.1.1. Conceito de atitude e sua composição e funcionalidades................................. 107 2.1.2. Atitudes e outros conceitos próximos .............................................................. 115 2.1.3. Atitudes e comportamento ............................................................................... 118 2.1.4. Estrutura e força das atitudes............................................................................ 121 2.1.5. Formação, alteração e consequências das atitudes ........................................... 125 2.1.6. Medir atitudes ................................................................................................... 133 2.2. 3. O ensino da Matemática em Portugal ........................................................................ 41 1.2.1. 1.3. 2. Tópicos sobre os últimos 100 anos do ensino em Portugal ......................................... 8 Atitudes em relação à Estatística ............................................................................. 143 2.2.1. Afeto e atitudes em relação à Matemática e à Estatística................................. 145 2.2.2. Atitudes em relação à Estatística e suas componentes ..................................... 150 2.2.3. Escalas de atitudes em relação à Estatística ..................................................... 155 2.2.4. Estudos de atitudes em relação à Estatística com alunos ................................. 163 2.2.5. Atitudes e os professores no ensino da Estatística ........................................... 181 2.2.6. Estudos de Atitudes em relação à Estatística com professores ........................ 191 Aspetos metodológicos ................................................................................................... 201 3.1. Primeira fase: estudo preliminar .............................................................................. 209 xi 3.1.1. Metodologia ..................................................................................................... 209 3.1.2. Análise .............................................................................................................. 211 3.1.3. Considerações finais ......................................................................................... 221 3.2. 4. Segunda fase: estudo das atitudes dos professores em relação à Estatística ........... 222 3.2.1. Objetivos .......................................................................................................... 225 3.2.2. Hipóteses .......................................................................................................... 226 3.2.3. Variáveis........................................................................................................... 228 3.2.4. Instrumento de recolha de informação ............................................................. 232 3.2.5. Amostragem e processo de recolha de dados ................................................... 239 3.2.6. Amostra ............................................................................................................ 242 3.2.7. Considerações prévias para a análise de dados ................................................ 259 Análise de dados ............................................................................................................. 261 4.1. Resultados globais sobre as atitudes em relação à Estatística ................................. 261 4.1.1. Análise Global e por componentes ................................................................... 262 4.1.2. Análise por itens da escala de atitudes ............................................................. 274 4.1.3. Análise da fiabilidade da escala ....................................................................... 282 4.2. Relação entre atitudes e suas componentes ............................................................. 286 4.2.1. Análise de clusters ............................................................................................ 288 4.2.2. Análise fatorial ................................................................................................. 295 4.3. Influência das variáveis do estudo sobre as atitudes ............................................... 309 4.3.1. Influência sobre a pontuação total .................................................................... 309 4.3.2. Influência sobre as componentes das atitudes .................................................. 331 4.3.3. Influência sobre os itens da escala de atitudes ................................................. 351 4.4. Resultados globais das justificações ........................................................................ 365 4.4.1. Análise dos resultados no item 1 ...................................................................... 371 4.4.2. Análise dos resultados no item 2 ...................................................................... 377 4.4.3. Análise dos resultados no item 3 ...................................................................... 383 4.4.4. Análise dos resultados no item 4 ...................................................................... 389 4.4.5. Análise dos resultados no item 5 ...................................................................... 395 4.4.6. Análise dos resultados no item 6 ...................................................................... 402 4.4.7. Análise dos resultados no item 7 ...................................................................... 407 4.4.8. Análise dos resultados no item 8 ...................................................................... 411 4.4.9. Análise dos resultados no item 9 ...................................................................... 418 xii Conclusão ............................................................................................................................... 425 Bibliografia ................................................................................ Erro! Marcador não definido. Anexos ................................................................................................................................ 463 Anexo I - Questionário do estudo preliminar ..................................................................... 465 Anexo II - Estatísticas doestudo preliminar (referentes ao ponto 3.1.2 Análise) ............... 469 Anexo III – Questionário EAEE ......................................................................................... 475 Anexo VI – Validação da tradução da escala EAEE .......................................................... 477 Anexo V – Instrumento de medição ................................................................................... 481 Anexo VI – Correspondência entre a ordem dos itens na EAEE e no estudo .................... 485 Anexo VII – E-mail enviado às Direções dos agrupamentos ............................................. 487 Anexo VIII – Carta que acompanhou o envio dos questionários ....................................... 489 Anexo IX – Médias das pontuações totais de Portugal, Espanha e Peru ............................ 491 Anexo X – Coeficientes de generalização .......................................................................... 493 Anexo XI – Matriz das correlações e das probabilidades................................................... 495 Anexo XII – Matriz anti-imagem ....................................................................................... 499 Anexo XIII – Variância total explicada e fatores retidos ................................................... 501 Anexo XIV – Matriz das componentes após rotação ortogonal (25 itens) ......................... 503 Anexo XV – Comparação dos fatores obtidos em Portugal e Espanha-Peru ..................... 505 Anexo XVI – Matriz das componentes após rotação ortogonal (22 itens) ......................... 507 Anexo XVII – Testes estatísticos da relação entre a pontuação total e algumas variáveis (referentes ao ponto (4.3.1)................................................................................................. 509 Anexo XVIII – Testes t para as médias da pontuação total segundo o género por ciclo de lecionação ........................................................................................................................... 521 Anexo XIX - Testes t para as médias da pontuação total segundo a área de formação inicial por ciclo de lecionação ....................................................................................................... 523 Anexo XX – Testes estatísticos da relação entre a pontuação total e algumas variáveis (referentes ao ponto 4.3.2) .................................................................................................. 525 Anexo XXI - Testes t para as médias da pontuação e resumo por ciclo de lecionação para os itens da escala ..................................................................................................................... 537 Anexo XXII - Testes t para as médias da pontuação e resumo estatístico por género para os itens da escala ..................................................................................................................... 541 Anexo XXIII – Testes de Kruskal-Wallis para as médias da pontuação e resumo estatístico por tempo de serviço para os itens da escala ...................................................................... 545 Anexo XXIV – Testes t para as médias da pontuação e resumo estatístico por área ou especialidade da formação inicial para os itens da escala .................................................. 551 xiii xiv Índice de Figuras Figura 1.1: Sistema Educativo Português ................................................................................ 30 Figura 1.2: Esquema resumido do conhecimento profissional do professor de Matemática ... 78 Figura 2.1: Modelo descritivo do domínio afetivo ................................................................. 117 Figura 2.2: Indicadores e consequências da força da atitude ................................................. 125 Figura 2.3: Indicadores na formação e/ou mudança da atitude .............................................. 127 Figura 2.4: Visão sobre a construção da atitude ..................................................................... 129 Figura 2.5: Esquematização do processo da resposta na medição da atitude......................... 136 Figura 2.6: Ciclo preliminar da Atitude em relação à Estatística do professor ...................... 145 Figura 2.7: Descritores específicos do domínio afetivo na Matemática ................................ 150 Figura 2.8: As atitudes em relação à matemática e à Estatística num modelo de aprendizagem ................................................................................................................................................ 153 xv xvi Índice de Gráficos Gráfico 3.1: Distribuição dos anos de docência em Matemática (à esquerda) e distribuição por ciclos de lecionação (à direita). .............................................................................................. 212 Gráfico 3.2: Distribuição das áreas de formação inicial. ....................................................... 213 Gráfico 3.3: Histograma da pontuação total. .......................................................................... 216 Gráfico 3.4: Distribuição das idades dos elementos da amostra ............................................ 246 Gráfico 3.5: Diagramas de extremos e quartis da idade por género....................................... 247 Gráfico 3.6: Diagramas de extremos e quartis da idade por ciclos de ensino. ....................... 247 Gráfico 3.7: Distribuição das idades por ciclos de ensino comparando a amostra com os valores a nível nacional. ......................................................................................................... 249 Gráfico 3.8: Distribuição dos tempos de serviço no ensino básico por género...................... 251 Gráfico 3.9: Distribuição das habilitações por ciclo, comparando a amostra com dados nacionais. ................................................................................................................................ 254 Gráfico 3.10: Distribuição das formas de aprendizagem de Estatística por tempo de serviço por classe. ............................................................................................................................... 256 Gráfico 4.1: Distribuição da pontuação total para toda a escala ............................................ 264 Gráfico 4.2: Distribuição da pontuação total para a componente Afetiva ............................. 266 Gráfico 4.3: Distribuição da pontuação total para a componente Cognitiva.......................... 267 Gráfico 4.4: Distribuição da pontuação total para a componente Comportamental .............. 268 Gráfico 4.5: Distribuição da pontuação total para a componente Social ............................... 270 Gráfico 4.6: Distribuição da pontuação total para a componente Educativa ......................... 271 Gráfico 4.7: Distribuição da pontuação total para a componente Instrumental ..................... 273 Gráfico 4.8: Intervalos de confiança para a pontuação média nos itens da escala ................. 276 Gráfico 4.9: Comparação das médias dos 25 itens (Portugal vs. Espanha)............................ 281 Gráfico 4.10: Comparação das médias de 22 itens (Portugal. Peru vs. Espanha) .................. 281 Gráfico 4.11: Dendograma ..................................................................................................... 292 Gráfico 4.12: Gráfico Scree.................................................................................................... 302 Gráfico 4.13: Gráfico das pontuações total médias por tempo de serviço ............................. 315 Gráfico 4.14: Gráfico das pontuações totais médias dos professores do 1º CEB por tempo de serviço .................................................................................................................................... 316 Gráfico 4.15: Gráfico das pontuações totais médias dos professores de Matemática do 2º CEB por tempo de serviço .............................................................................................................. 317 Gráfico 4.16: Gráfico das pontuações totais médias por nível de estudo da Estatística ........ 324 xvii Gráfico 4.17: Gráfico das pontuações totais médias dos professores do 1º CEB por nível de estudo da Estatística ............................................................................................................... 325 Gráfico 4.18: Gráfico das médias da pontuação total dos professores de Matemática do 2º CEB por nível de estudo da Estatística .................................................................................. 326 Gráfico 4.19: Gráfico das médias da pontuação total segundo a lecionação da Estatística ... 329 Gráfico 4.20: Gráfico das médias da pontuação total dos professores do 1º CEB segundo a lecionação da Estatística......................................................................................................... 330 Gráfico 4.21: Gráfico das médias da pontuação total dos professores de Matemática do 2º CEB segundo a lecionação da Estatística ............................................................................... 331 Gráfico 4.22: Rácio da média da pontuação pelo valor de indiferença para as várias componentes segundo o tempo de serviço ............................................................................. 340 Gráfico 4.23: Rácio da média da pontuação pelo valor de indiferença para as várias componentes segundo o nível de estudo de Estatística .......................................................... 347 Gráfico 4.24: Rácios da média da pontuação pelo valor de indiferença para as várias componentes segundo a lecionação de Estatística ................................................................. 350 Gráfico 4.25: Médias das pontuações nos itens com diferenças significativas por género.... 354 Gráfico 4.26: Médias das pontuações nos itens com diferenças significativas por anos de tempo de serviço no ensino básico ......................................................................................... 355 Gráfico 4.27: Médias das pontuações nos itens com diferenças significativas por área de formação inicial ...................................................................................................................... 362 Gráfico 4.28: Distribuição das justificações por item a nível global e por ciclo ................... 368 Gráfico 4.29: Distribuição das justificações por item segundo o tipo de pontuação ............. 370 xviii Índice de Tabelas Tabela 1.1: Habilitação profissional para a docência do ensino pré-escolar, ensino básico e secundário................................................................................................................................. 38 Tabela 1.2: Número de aspetos identificados em cada domínio temático dos ciclos do EB ... 52 Tabela 1.3: Professores em exercício nos ensinos básico e secundário por natureza institucional. ............................................................................................................................. 62 Tabela 1.4: Relação entre a oferta e a procura na área da educação no ensino superior público .................................................................................................................................................. 63 Tabela 1.5: O tema Organização e Tratamento de Dados no PMEB de 2007 ......................... 98 Tabela 2.1: Escalas de atitudes em relação à Estatística mais referidas na literatura ............ 161 Tabela 2.2: Estudos de atitudes de alunos em relação à Estatística por países e escalas usadas ................................................................................................................................................ 180 Tabela 2.3: Estudos de atitudes de professores em relação à Estatística por países e escalas 199 Tabela 3.1: Nível mais elevado da formação inicial em Estatística ....................................... 213 Tabela 3.2: Frequências absolutas das pontuações, média e desvio padrão para os 25 itens da escala ...................................................................................................................................... 214 Tabela 3.3: Estatísticas da pontuação total da atitude em relação à Estatística por género ... 217 Tabela 3.4: Estatísticas da pontuação total da atitude face à Estatística por anos de docência ................................................................................................................................................ 218 Tabela 3.5: Estatísticas da pontuação total da atitude face à Estatística por ciclos de ensino 219 Tabela 3.6: Estatísticas da pontuação total da atitude face à Estatística por área de formação inicial ...................................................................................................................................... 219 Tabela 3.7: Estatísticas da pontuação total da atitude por nível de formação estatística ....... 220 Tabela 3.8: Correspondência entre os itens e as componentes das atitudes avaliadas na escala EAEE ...................................................................................................................................... 235 Tabela 3.9: Agrupamentos e professores (por ciclo) existentes e participantes por QZP ...... 244 Tabela 3.10: Distribuição dos elementos da amostra segundo o género e o ciclo de ensino . 245 Tabela 3.11: Estatísticas sobre a idade dos elementos da amostra, a nível global e por ciclo de ensino e por género ................................................................................................................ 246 Tabela 3.12: Distribuição das idades agrupadas por classes a nível global e por ciclo de ensino ................................................................................................................................................ 248 Tabela 3.13: Distribuição do tempo de serviço a nível global e por ciclo de ensino ............. 250 Tabela 3.14: Distribuição da área ou especialidade da formação inicial, a nível global e por ciclo de ensino ........................................................................................................................ 252 xix Tabela 3.15: Distribuição da formação para além da inicial, a nível global e por ciclo de ensino ..................................................................................................................................... 252 Tabela 3.16: Distribuição das habilitações, a nível global e por ciclo de ensino ................... 253 Tabela 3.17: Distribuição das formas de aprendizagem de Estatística, a nível global e por ciclo de ensino ........................................................................................................................ 256 Tabela 3.18: Distribuição dos ciclos em que ensinam Estatística, a nível global e por ciclo de ensino ..................................................................................................................................... 257 Tabela 4.1: Correspondência entre os itens e as componentes das atitudes avaliadas na versão usada da escala EAEE ............................................................................................................ 262 Tabela 4.2: Resumo estatístico sobre a pontuação total em termos globais e por componentes das atitudes ............................................................................................................................. 262 Tabela 4.3: Resumo estatístico para a pontuação total no caso global................................... 263 Tabela 4.4: Resumo estatístico para a pontuação total para a componente Afetiva .............. 265 Tabela 4.5: Resumo estatístico para a pontuação total para a componente Cognitiva ........... 266 Tabela 4.6: Resumo estatístico para a pontuação total para a componente Comportamental 268 Tabela 4.7: Resumo estatístico para a pontuação total para a componente Social ................ 269 Tabela 4.8: Resumo estatístico para a pontuação total para a componente Educativa .......... 270 Tabela 4.9: Resumo estatístico para a pontuação total para a componente Instrumental ...... 272 Tabela 4.10: Dados para cada item respeitantes ao total da amostra ..................................... 275 Tabela 4.11: Análise da consistência interna da escala para a amostra do estudo ................. 284 Tabela 4.12: Correlações de Pearson para as componentes pedagógicas .............................. 287 Tabela 4.13: Correlações de Pearson para as componentes antropológicas........................... 288 Tabela 4.14: Evolução da aglomeração na análise de clusters............................................... 291 Tabela 4.15: Elementos dos clusters ...................................................................................... 294 Tabela 4.16: Comunalidades .................................................................................................. 301 Tabela 4.17: Variância total explicada e fatores retidos ........................................................ 303 Tabela 4.18: Pesos/loadings que correlacionam os itens com os fatores depois da rotação .. 304 Tabela 4.19: Resumo estatístico para a pontuação total por ciclo de lecionação ................... 310 Tabela 4.20: Resumo estatístico para a pontuação total por género ...................................... 312 Tabela 4.21: Resumo estatístico para a pontuação total por tempo de serviço ...................... 313 Tabela 4.22: Resumo estatístico para a pontuação total por área ou especialidade ............... 318 Tabela 4.23: Resumo estatístico para a pontuação total por nível de estudo da Estatística ... 321 Tabela 4.24: Resumo estatístico para a pontuação total segundo a lecionação de Estatística 327 xx Tabela 4.25: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes das atitudes por ciclo de lecionação ............................................................................................................................... 331 Tabela 4.26: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes das atitudes por género ................................................................................................................................................ 335 Tabela 4.27: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes pedagógicas das atitudes por tempo de serviço .............................................................................................................. 338 Tabela 4.28: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes antropológicas das atitudes por tempo de serviço ................................................................................................. 339 Tabela 4.29: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes das atitudes por ciclo de lecionação ............................................................................................................................... 341 Tabela 4.30: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes pedagógicas das atitudes por nível de estudo de Estatística ........................................................................................... 344 Tabela 4.31: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes antropológicas das atitudes por nível de estudo de Estatística .............................................................................. 345 Tabela 4.32: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes pedagógicas das atitudes segundo a lecionação de Estatística........................................................................................ 348 Tabela 4.33: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes antropológicas das atitudes segundo a lecionação de Estatística .......................................................................... 349 Tabela 4.34: Distribuição das justificações e não justificações a nível global e por ciclos ... 367 Tabela 4.35: Distribuição do nº de justificações por professor a nível global e por ciclos .... 367 Tabela 4.36: Média, desvio padrão, número e percentagem de pontuação positiva, neutra e negativa por ciclo em cada item dos 9 itens com possibilidade de justificação ..................... 369 Tabela 4.37: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 1 .............. 372 Tabela 4.38: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 1 ................. 374 Tabela 4.39: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 1 ............... 376 Tabela 4.40: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 2 .............. 379 Tabela 4.41: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 2 ................. 380 Tabela 4.42: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 2 ............... 382 Tabela 4.43: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 3 .............. 385 Tabela 4.44: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 3 ................. 387 Tabela 4.45: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 3 ............... 388 Tabela 4.46: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 4 .............. 391 Tabela 4.47: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 4 ................. 392 Tabela 4.48: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 4 ............... 394 Tabela 4.49: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 5 .............. 397 xxi Tabela 4.50: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 5 ................. 399 Tabela 4.51: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 5 ............... 401 Tabela 4.52: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 6 .............. 403 Tabela 4.53: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 6 ................. 404 Tabela 4.54: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 6 ............... 406 Tabela 4.55: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 7 .............. 408 Tabela 4.56: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 7 ................. 409 Tabela 4.57: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 7 ............... 411 Tabela 4.58: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 8 .............. 413 Tabela 4.59: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 8 ................. 415 Tabela 4.60: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 8 ............... 417 Tabela 4.61: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 9 .............. 419 Tabela 4.62: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 9 ................. 421 Tabela 4.63: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 9 ............... 422 xxii Lista de abreviaturas, siglas, símbolos ou acrónimos 1º CF - Alunos do curso de Complemento de Formação Científica e Pedagógica para a Educação Básica – 1º Ciclo na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Bragança 4º MC - Alunos do 4º ano do curso de professores do Ensino Básico – Variante de Matemática e Ciências da Natureza que frequentavam a unidade curricular de Metodologia do Ensino da Matemática II na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Bragança A - (Componente) Afetiva ACND - Áreas Curriculares Não Disciplinares AFCP - Análise Fatorial de Componentes Principais ANOVA - Analysis of Variance (Análise de Variância) APM - Associação Professores de Matemática ATS - Attitudes Toward Statistcs Scale C - (Componente) Cognitiva CA - Componentes Antropológicas CEB - Ciclo do Ensino Básico CEE - Comunidade Económica Europeia CERME - Congress of European Research in Mathematics CIM - Centro Internacional de Matemática Co - (Componente) Comportamental CP - Componentes Pedagógicas CRUP - Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas CV - Coeficiente de variação D. L. - Decreto Lei DEEIO/FCUL - Departamento de Educação e de Estatística e Investigação Operacional da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa DEIOC - Departamento de Estatística, Investigação Operacional e Computação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa DGEBS - Direção Geral do Ensino Básico e Secundário DGEEC - Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência DGIDC - Direção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular xxiii DP - Desvio Padrão E - (Componente) Educativa EAEA - Escala de Actitudes hacia la Estadística de Auzmendi EAEC - Escala de Atitudes em relação à Estatística de Cazorla EAEE - Escala de Actitudes hacia la Estadística de Estrada EAPE - Escala de Atitudes de Professores de Estatística em relação à Estatística EB - Ensino Básico EM - Educação e Matemática: Revista da APM FATS - Faculty Attitudes Toward Statistics g.l - Graus de liberdade GTI–APM - Grupo de Trabalho de Investigação da APM Hi - Hipótese i (i=1, …, 6) I - (Componente) Instrumental IASE - International Association of Statistical Education ICME - International Conference of Mathematical Education ICMI - International Commission on Mathematical Instruction ICOTS - International Conference of Teaching Statistics Ii - Item i (i=1, …, 25) INE - Instituto Nacional de Estatística ISI - International Statistical Institute ISLP - International Statistical Literacy Project JSE - Journal of Statistics Education LBSE - Lei de Bases do Sistema Educativo MEC - Ministério da Educação e Ciência MSA - Measures of Sample Adequacy NCTM - National Council for Teaching Mathematics OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico OECE - Organização Europeia de Cooperação Económica OTD - Organização e Tratamento de Dados PAM - Plano de Ação para a Matemática PEPT - Programa de Educação Para Todos PFCM - Programa de Formação Contínua em Matemática PIPSE - Programa Interministerial de Promoção do Sucesso Escolar xxiv PISA - Programme for International Student Assessment PM I - Plano da Matemática I PM II - Plano da Matemática II PME - Annual Conference of the International Group for the Psychology of Mathematics Education PMEB - Programa de Matemática do Ensino Básico PRODEP - Programa de Desenvolvimento Educativo para Portugal ProfMat - Encontro Nacional de Professores de Matemática da APM Q1 - 1º quartil Q2 - 2º quartil (Mediana) Q3 - 3º quartil QAFM - Questionário de Atitudes Face à Matemática QZP - Quadros de Zona Pedagógica RVCC - (Sistema de) Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências S - (Componente) Social SAS - Statistics Attitude Survey SASc - Satistics Attitudes Scale of McCall et al. SATS - Survey of Attitudes Toward Statistics SEIEM - Sociedade Española de Investigación en Educación Matemática SERJ - Statistical Education Research Journal SIAEP - Second International Assessment of Educational Progress SPCE - Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação SPCE-SEM – Soc. Portuguesa de Ciências da Educação – Secção de Educação Matemática SPE - Sociedade Portuguesa de Estatística SPEIO - Sociedade Portuguesa de Estatística e Investigação Operacional SPM - Sociedade Portuguesa de Matemática STACS - Student Attitudes and Conceptions in Statistics TEIP - Territórios Educativos de Intervenção Prioritária TIMSS - Third International Mathematics and Science Study UNESP - Universidade Estadual de São Paulo UTAD - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Vi - Variável i (i=1, …, 9) xxv xxvi Introdução Introdução No fim do século XX e início do século XXI foi-se reforçando e alargando o ensino da Estatística no sistema de ensino não universitário em Portugal. Ao nível do ensino básico a presença da Estatística no currículo assumiu destaque no Programa de Matemática para o Ensino Básico (PMEB) de 2007, sendo este domínio denominado neste âmbito de Organização e Tratamento de Dados (OTD). Este movimento seguiu as esteiras de orientações curriculares de países desenvolvidos e de investigações na área da educação estatística que indicavam e realçavam a importância de alargar o ensino da Estatística até aos alunos mais novos, ou seja alunos do 1º ciclo do ensino básico. Contudo, em 2013, no fim da introdução faseada do PMEB de 2007, foi aprovado um novo PMEB, na sequência da introdução de Metas Curriculares. Neste novo programa há alguma diminuição da importância atribuída ao domínio da Organização e Tratamento de Dados e uma viragem pedagógica para um maior formalismo. Esta e outras mudanças curriculares não são consensuais e geram alguma polémica entre Ministério da Educação, Investigadores da área da educação matemática, associações de professores de Matemática e os próprios professores. Obviamente que, em geral, para além de questões científicas e de especificidades no ensino e aprendizagem da Estatística, as diretrizes curriculares e investigações vêm na sequência e são consequência, direta ou indireta, da importância que a Estatística foi conquistando na sociedade. Esta conquista reflete não só o papel fundamental e inquestionável da Estatística no processo científico, mas também ao nível profissional em quase todas as áreas, senão mesmo todas. Contudo, a importância da Estatística extravasou esses âmbitos e tornou-se uma ferramenta imprescindível para todo o cidadão, quer no seu quotidiano, nas suas decisões do dia-a-dia e na sua leitura da realidade envolvente, quer na sua capacidade crítica e de intervenção cívica na sociedade. Toda esta envolvente implica mudanças na sociedade, no sistema de ensino, no processo de ensino-aprendizagem e na formação inicial e contínua dos professores envolvidos nestas modificações, nomeadamente os professores do ensino básico. Evidentemente que estas mudanças são exigentes para os professores e só funcionarão na prática se houver da parte destes a predisposição e a vontade para tal, bem como o seu esforço e empenho para melhorarem a sua formação científica e didática da Estatística. 1 Introdução Para serem ultrapassadas estas dificuldades com sucesso e com consequências positivas no objetivo último que é o sucesso na aprendizagem da Estatística por parte dos alunos, os professores terão que estar predispostos, consciencializados e motivados para tal. No entanto, estes pressupostos dificilmente se verificarão se os professores apresentarem atitudes negativas em relação à Estatística se consideradas como formas de agir, sentir ou pensar que mostram a disposição ou opinião da pessoa em relação à Estatística. Assim, atitudes negativas em relação à Estatística por si só ou conjuntamente com uma eventual falta de formação estatística e/ou potenciadas por esta, num ciclo vicioso, podem levar os professores a subvalorizar a importância, a utilidade e a aplicabilidade da Estatística, a sobrevalorizar ou até subvalorizar a dificuldade da Estatística com consequências na disponibilidade para a autoformação, para a implementação de novas metodologias de ensino e mesmo para uma secundarização dos conteúdos estatísticos. Portanto, para se atingir o sucesso que se pretende na educação estatística é também necessário conhecer as atitudes dos professores em relação à Estatística e nesse processo identificar as atitudes negativas ou menos positivas de modo a que esse conhecimento possa contribuir para se poderem delinear e planificar ações ao nível da educação e formação estatística de forma ainda mais específica, assertiva e adequada e que tenham em linha de conta, para além de conhecimentos estatísticos e didáticos da Estatística, aspetos afetivos do professor em relação à Estatística. Esta necessidade de conhecer as atitudes dos professores em relação à Estatística num período de mudanças e alargamento do ensino da Estatística no ensino básico em Portugal, tendo como pano de fundo uma formação inicial e/ou contínua em Estatística deficitária de muitos dos professores destes ciclos de ensino, foi a motivação principal para a realização desta investigação. Outra das razões de interesse nesta área para esta investigação foi a existência de um crescente interesse ao nível da investigação na área da afetividade em relação à Estatística, e em particular também das atitudes, mas que surge essencialmente centrado nos alunos, havendo poucos estudos específicos com professores. Além disso, esse interesse é reforçado por um lado por não haver qualquer estudo em Portugal sobre esta temática e, por outro lado, pela existência do estudo de Estrada (2002) realizado em Espanha com características muito próximas das pretendidas para esta investigação. Assim, este estudo centra-se na medição e caracterização das atitudes em relação à Estatística dos professores do 1º e do 2º ciclo do ensino básico português usando uma escala 2 Introdução já testada em condições sociológicas e educativas não muito diferentes e com boas características psicométricas, que se pretendem também verificar se se mantêm nesta investigação. Neste âmbito pretende-se, ainda, analisar as componentes das atitudes, verificar o efeito de algumas variáveis sobre essas mesmas atitudes, bem como apresentar transculturalmente diferenças e semelhanças entre as atitudes dos professores em relação à Estatística em Portugal e em Espanha e Peru. Além disso, procura-se perceber algumas das raízes e motivações das atitudes dos professores através de uma abordagem qualitativa. Finalmente, espera-se poder lançar pistas e caminhos com vista à introdução de uma pedagogia das atitudes e de ações e intervenções preventivas e corretivas tanto na formação inicial como na formação ao longo da vida, para contribuir positivamente para a mudança ou melhoria das atitudes dos professores em relação à Estatística, para o desenvolvimento profissional dos professores, para do processo de ensino-aprendizagem da Estatística e, consequentemente, para o sucesso no ensino da mesma. Para enquadramento e apresentação do desenvolvimento e da implementação da investigação realizada, bem como dos seus resultados e conclusões, apresentam-se neste trabalho os respetivos conteúdos em diversos capítulos. Desta forma, no primeiro capítulo pretende-se enquadrar de forma geral a temática desta tese. Nesse sentido faz-se, inicialmente, uma análise, ainda que resumida, da história do ensino e da formação de professores em Portugal, limitada ao período desde o fim da monarquia e início da I República até ao início do século XXI, com ênfase naquilo que tem que ver, direta ou indiretamente, com os ciclos do ensino abrangidos por este estudo, ou seja, o 1º ciclo e o 2ºciclo do ensino básico. Para além dessa visão global do ensino em Portugal aborda-se também, de uma forma particular, o ensino da Matemática. Esta abordagem está focada nas últimas décadas e com especial atenção aos 1º e 2º ciclos do ensino básico, tanto de um ponto de vista de evolução histórica do seu ensino, como de um ponto de vista da análise do papel do professor e, em especial, da sua formação, quer inicial quer contínua. Finalmente, no primeiro capítulo analisa-se também a importância da Estatística e o seu ensino, procurando evidenciar o papel que a Estatística tem desempenhado na ciência, no ensino e na sociedade e apresentando uma perspetiva da evolução da Estatística e do seu ensino em Portugal, incluindo a formação de professores nessa área em especial. Dada a importância das atitudes e a motivação para o seu estudo, como já foi referido em particular para as atitudes dos professores em relação à Estatística, essas atitudes são o 3 Introdução tema central desta tese. Assim, no segundo capítulo começa-se por fazer uma abordagem geral ao conceito de atitudes e de seguida uma análise e enquadramento das atitudes especificamente em relação à Estatística e das formas de as medir. Na primeira parte do segundo capítulo tenta-se clarificar o que se pode entender por atitude, bem como o seu “funcionamento” e importância, abordando também a evolução da conceptualização das atitudes ao longo do tempo. Nesse sentido, são apresentadas várias definições para atitude e para outros constructos psicológicos e sociológicos próximos. Além disso, são explorados vários aspetos ligado às atitudes, tal como a sua relação com o comportamento, a sua estrutura, função e força, a sua formação e alteração ou as suas consequências, bem como um enquadramento geral e considerações específicas sobre a medição de atitudes. Na segunda parte aborda-se de forma mais específica o afeto e, em especial, as atitudes em relação à Estatística. São também apresentados vários instrumentos de medição das atitudes em relação à Estatística e algumas das suas características. Além disso, apresentam-se vários estudos de aplicação dos referidos instrumentos de medição de atitudes, quer em alunos quer em professores, e em várias partes do mundo ao longo das últimas décadas. No terceiro capítulo apresentam-se o desenho do estudo e a metodologia utilizada no mesmo. Uma vez que este foi realizado em duas fases, este capítulo está dividido em duas partes principais. Na primeira dessas duas partes aborda-se um primeiro estudo exploratório em que se usou uma tradução livre da Escala de Atitudes em relação à Estatística de Estrada, EAEE (Estrada, 2002), aplicada a um pequeno conjunto de professores portugueses, apresentando a metodologia, os resultados e conclusões desse teste exploratório, a confiabilidade e validez da EAEE quando aplicada no contexto português, bem como a adequabilidade de algumas questões de identificação. Na segunda parte apresenta-se, então, a segunda fase do estudo em que, com base também dos resultados da primeira fase, se aplicou a uma amostra de professores do 1º e 2º ciclos do ensino básico dos distritos de Coimbra, Guarda e Vila Real a versão em português da escala EAEE, validada por um painel de especialistas e à qual se introduziu a possibilidade de os respondentes poderem apresentar a explicação/justificação da sua classificação em nove dos itens da escala. Estes itens foram escolhidos por terem apresentado as médias mais baixas em estudos realizados anteriormente com a mesma escala, e por se julgar que poderiam ajudar 4 Introdução a atingir alguns dos objetivos pretendidos. Na referida apresentação da segunda fase do estudo faz-se a descrição da formulação do problema, explanam-se as metas a alcançar, descrevemse as variáveis e as hipóteses, o instrumento de pesquisa, os procedimentos, bem como a caraterização da amostra. A apresentação e análise de todos os resultados do estudo implementado, bem como a sua discussão são o objetivo do quarto capítulo. Nesse sentido, no capítulo quatro abordam-se os resultados sobre as atitudes desde um ponto de vista da pontuação global, das componentes das atitudes e dos itens, bem como a fiabilidade e generalização da escala de atitudes usada. Apresenta-se também a relação entre as componentes das atitudes através da análise de correlações, da análise por clusters e da análise fatorial. É, ainda, analisada a influência das variáveis do estudo sobre as atitudes, nomeadamente em termos da pontuação global, das componentes das atitudes e dos itens. Para além da explicitação dos métodos estatísticos aplicados os resultados são analisados em função das hipóteses colocadas, comparando-os, sempre que possível, com resultados de investigações anteriores. Além disso, analisam-se as justificações dadas pelos professores nos nove itens escolhidos e estabelece-se uma relação com as respetivas pontuações atribuídas. Finalmente, a coerência global da investigação, a discussão dos resultados no quadro das hipóteses e face a outros estudos, bem como o facto de as hipóteses e os objetivos terem sido alcançados, são demonstradas na conclusão final, sendo também discutidas implicações dos resultados, avaliadas de forma crítica as limitações da investigação e efetuadas sugestões e recomendações que abram perspetivas para investigações posteriores no âmbito do presente estudo. Julga-se, portanto, que este trabalho aporta algo de novo e importante na investigação na área específica da educação estatística ao estar centrada nas atitudes em relação à Estatística e nos professores que a lecionam ou podem lecionar, em particular no 1º ciclo e 2º ciclo do ensino básico. A abordagem desta temática é especialmente importante e inovadora no contexto português em que têm estado a ocorrer mudanças curriculares significativas ao nível do ensino da Estatística nos primeiros anos de escolaridade e em que este assunto não tinha ainda sido estudado. Além disso, os resultados obtidos podem permitir uma intervenção mais assertiva e adequada em termos da formação inicial e da formação contínua dos professores dos ciclos de ensino analisados, no sentido de melhorar as atitudes dos professores em relação à Estatística e, por essa via, também potenciar um aumento da disponibilidade para a aquisição de 5 Introdução conhecimentos e para o desenvolvimento profissional dos professores e, consequentemente, do sucesso escolar dos alunos na Estatística. Por fim, tem-se a convicção de que esta investigação poderá também estimular e ajudar ao aumento da divulgação e estudo das atitudes em relação à Estatística em Portugal, bem como, através de estudos transculturais, em outros países com contextos educativos similares, tendo por base a sua metodologia, os seus resultados e/ou a escala de atitudes utilizada. 6 Enquadramento 1. Enquadramento Para enquadrar de forma geral a temática desta tese é importante fazer aqui uma análise da história do ensino e da formação de professores em Portugal, no sentido dado por Matos (2006, p. 13) de que “o saber da história, em particular da sua história, é fundamental para cada campo científico” e também no sentido realçado por Mogarro e Palma (2011, p. 81), citando Nóvoa (1997, p. 15), de que “na esteira de Thomas Popkewitz, é preciso reconhecer que o presente não é apenas a nossa experiência ou as nossas práticas imediatas. A nossa consciência histórica passa pelo reconhecimento de que o passado é parte do nosso discurso de todos os dias, estruturando o que pode ser dito e as possibilidades e desafios do tempo presente”. Uma vez que outros autores já realizaram essa análise de forma aprofundada e consubstanciada em obras de referência far-se-á com base nas mesmas uma súmula descritiva e factual limitada ao período desde o fim da monarquia e início da I República, em 1910, até à primeira década do século XXI e com ênfase naquilo que tem que ver com os ciclos do ensino abrangidos por este estudo. Dado o âmbito deste estudo, para além de uma visão global do ensino em Portugal é pertinente particularizar o ensino da Matemática, que engloba também o ensino da Estatística nos níveis de ensino não superior. Assim, pretende-se fazer esta abordagem, com enfoque desde a década de 70 do século XX até à primeira década do século XXI e com especial atenção aos 1º e 2º ciclos do ensino básico, tanto de um ponto de vista de evolução histórica do seu ensino, como de um ponto de vista da análise da formação do professor (inicial e contínua). Finalmente, para o enquadramento deste trabalho, analisa-se a importância da Estatística e o seu ensino, segundo as vertentes política, social e educacional. Em particular, procura-se evidenciar o papel que a Estatística tem desempenhado na ciência, no ensino e na sociedade ao longo dos tempos, mas com especial atenção nas últimas quatro décadas. Complementarmente ao ponto dois deste capítulo, apresenta-se uma perspetiva da evolução da Estatística e do seu ensino em Portugal, incluindo a formação de professores nessa área em especial. 7 Enquadramento Esta visão geral da evolução do ensino em Portugal e a visão particular do ensino da Matemática e da Estatística permitem compreender características, condições, limitações e especificidades que, de forma direta ou indireta, influenciaram e/ou influenciam os atuais professores, que por sua vez já foram alunos de outros professores, numa sequência que pode ter naturalmente impacto nas suas atitudes. 1.1. Tópicos sobre os últimos 100 anos do ensino em Portugal De seguida aborda-se, do ponto de vista da evolução histórica, o ensino e a formação de professores em Portugal, dividindo essa análise por períodos temporais, nomeadamente o imediatamente anterior à I República, a I República, o Estado Novo e o pós 25 de Abril. 1.1.1. Antes da I República Segundo Pintassilgo, Mogarro e Henriques (2010) havia já, na segunda metade do século XIX e ainda em plena monarquia, a consciência de que os professores do ensino elementar tinham um papel central na implementação de formas mais adequadas e eficazes de instrução e educação. Era fundamental, para este desígnio, a criação de estabelecimentos específicos para os qualificar com uma formação profissional e especializada, tanto de índole científica, como pedagógica e prática. Esta consciência foi ganhando uma crescente importância a partir da criação e início de funcionamento, em 1862, das Escolas Normais para formação dos professores do ensino elementar. A formação aí ministrada era constituída por dois graus. O primeiro grau, com duração de dois anos, era constituído por várias componentes, onde se inseriam a “aritmética, com proporções e a sua aplicação aos usos da vida, sistema legal de pesos e medidas” (Pintassilgo, Mogarro e Henriques, 2010, p. 13). No curso do segundo grau, com duração de um ano, eram aprofundados alguns daqueles conhecimentos e eram acrescentados mais alguns. Em 1896 foram instituídas as escolas de habilitação para o magistério primário nas capitais de distrito, embora com “uma formação mais simplificada relativamente às escolas normais de referência (tradicionalmente, as de Lisboa, Porto e Coimbra) e com carácter regional” (Ibidem, p. 17). Segundo os mesmos autores, neste período deu-se uma feminização do corpo docente que será acentuada ao longo do século XX, apesar dos homens manterem 8 Enquadramento uma visibilidade incontestada. Nos últimos anos da monarquia, como afirmam Pintassilgo, Mogarro e Henriques (2010), o ensino normal estava já sobredimensionado, sendo maior o número de diplomados do que os que realmente eram necessários, situação que se prolongará, como se comenta mais adiante, até 1921. Simultaneamente, e apesar de já estar inscrito na Constituição o direito à instrução primária gratuita, sendo mesmo desde 1878 obrigatória a “frequência da instrução primária dos 6 aos 12 anos, das crianças de um e outro sexo” (Carneiro e Afonso, 2008, p. 16), a alfabetização de Portugal nos últimos anos da monarquia tinha um atraso considerável, muito longe do desejável e do necessário ao progresso social e económico do país. Aliás, Pintassilgo, Mogarro e Henriques (2010, p. 12) afirmam que “a consciência da debilidade do sistema educativo português era motivada agora pelo interesse crescente que a estatística suscitava. A nova ciência dos números permitia consolidar argumentos sobre o atraso nacional, face aos outros países do mundo ocidental, e agudizava a urgência de adoptar medidas necessárias para conduzir Portugal ao caminho do desenvolvimento. […] levou os autores nacionais a falar de um duplo atraso: em primeiro lugar, o fosso que existia entre Portugal e os outros países no que respeitava a investimentos na educação, nomeadamente a situação da rede escolar, os níveis de alfabetização e de escolarização ou a relação de alunos por professor; por outro lado, a insatisfação que esses países sentiam com a sua própria situação, implementando progressos que levavam a indicadores mais satisfatórios em pouco tempo, enquanto Portugal progredia muito lentamente e via aumentar o fosso relativamente a esses países de referência”. No sentido de garantir a frequência no ensino primário obrigatório foram tomadas algumas medidas como, por exemplo, o condicionamento do acesso ao trabalho na função pública a quem possuísse certificado do primeiro grau ou diploma do segundo grau do ensino primário, bem como o recenseamento das crianças em idade escolar. No entanto, a implementação da legislação raramente era acompanhada do investimento necessário, o que fica patente na afirmação de que “no princípio do século (XX), cerca de 75 porcento da população portuguesa não sabia ler nem escrever. Faltavam escolas, faltavam professores, faltavam meios de comunicação adequados, faltava toda uma legislação 9 Enquadramento de progresso cultural” (Carneiro e Afonso, 2008, pp. 16-17, citando Marques, 1988, pp. 2122). A situação do ensino secundário era semelhante à referida para o ensino primário, sendo acentuadas as injustiças no seu acesso, favorecendo-se o meio urbano em detrimento do meio rural, assim como as classes mais ricas em detrimento do operariado e gente do campo, para além da diferenciação negativa relativamente ao sexo feminino. No entanto, o grau de exigência era considerado aceitável e os níveis de aprendizagem eram aceitáveis e sólidos, como em Português, Matemática, Latim e outros. Mesmo a reforma de 1905, que foi referenciada por alguns como sendo facilitista, acabou por permanecer em vigor, sem grandes alterações, até 1918 ou mesmo 1921, tal como afirmam Carneiro e Afonso (2008). Este nível de ensino não tinha um serviço de inspeção externo com atribuições de controlo e avaliação. Relativamente ao ensino superior, este era constituído pela Universidade de Coimbra e algumas modalidades de ensino superior em Lisboa e Porto, mas sem as atribuições da Universidade de Coimbra. Como sugerem Carneiro e Afonso (2008), esta universidade, apresentava um défice em relação ao exigível enquanto instituição de ensino superior e de cultura, quando comparada com as suas homólogas do estrangeiro. Neste contexto são vários os sectores da sociedade que começam a manifestar protestos, propostas pedagógicas e políticas alternativas, assentes em ideais de fraternidade, justiça, liberdade e progresso. Em particular, a ação dos professores dessa época, que reclamavam melhores condições, está evidenciada na afirmação de que “nos fins da Monarquia, os professores primários, outros pedagogos e as revistas pedagógicas, exigem uma reforma do sistema educativo, que tenha em vista o progresso económico e social do País e que se aproxime dos princípios da pedagogia moderna” (Carneiro e Afonso, 2008, p. 23, citando Adão, 1984, p. 327). Era, portanto, “um panorama pobre, mas efervescente e também crispado, o do ensino em Portugal, nessa primeira década do século XX, quando o regime monárquico vivia os seus últimos dias” (Ibidem, p. 24). 1.1.2. I República Segundo Rómulo de Carvalho (2008), com a I República, instaurada em 5 de Outubro de 1910 para a difusão dos ideais republicanos e modernização do país, foram encetadas várias reformas do ensino em Portugal. Destas, este autor ressalta as reformas do ensino 10 Enquadramento primário e do ensino universitário, ambas de 19111, e classifica-as como “dois documentos que honram o novo regime e que constituíram activos factores de progresso da Nação a despeito de quantos entraves os limitaram na sua execução” (Rómulo de Carvalho, p. 709). Na reforma de 1911, a seguir ao ensino infantil facultativo, seguia-se o ensino primário dividido em três escalões: o elementar, o complementar e o superior. O escalão elementar era obrigatório e abrangia todas as crianças, de ambos os sexos, entre os sete e os nove anos, com a exceção das que recebessem ensino particular ou doméstico, as que residissem a mais de dois quilómetros de distância de qualquer escola, bem como as portadoras de deficiências mentais, as cegas ou as surdas-mudas. Este escalão com a duração de três anos tinha por base quatro grandes grupos de conteúdos que eram os literários, artísticos, técnicos e científicos, incluindo este último grupo, entre outros tópicos, as quatro operações aritméticas, o sistema métrico e a geometria elementar. Após a aprovação do exame do ensino primário elementar poder-se-ia ingressar no ensino secundário, para quem quisesse prolongar os estudos, ou no ensino primário complementar, que tinha duração de dois anos, dos 10 aos 11 anos, e onde se daria continuidade ao estudo das disciplinas do escalão elementar. Estas tinham mais desenvolvimento e alguns acréscimos necessários e adequados para atingir o objetivo de “revelar as aptidões naturais e preparar para qualquer profissão” (Ibidem, p. 673). A este escalão do ensino primário complementar, que também terminava com um exame, era dada continuidade através do ensino primário superior que tinha a duração de três anos, dos 12 aos 14 anos. Este escalão era formado por 17 disciplinas e destinava-se “não somente a aperfeiçoar os conhecimentos adquiridos […], mas também, e principalmente, a estimular, desenvolver e educar, por uma aprendizagem conveniente, nos alunos que as frequentam, as aptidões naturais que possuam e que desejem valorizar para a vida” (Ibidem, p. 674). A aprovação no exame deste escalão possibilitava a matrícula nas Escolas Normais Primárias, já mencionadas, nas escolas industriais, agrícolas, comerciais, profissionais e técnicas, correspondentes ao ensino técnico, bem como a passagem para o Liceu, ao nível de classe equivalente. 1 Decreto de 29 de Março de 1911 e Decreto de 19 de Abril de 1911, respetivamente. 11 Enquadramento Desta reforma do ensino primário de 1911 resulta também, como já foi referido, a constatação da necessidade de uma formação adequada do professorado primário. Foram criadas três Escolas Normais do Magistério Primário (Lisboa, Porto e Coimbra), vistas como fundamentais para a formação do professor novo enquanto agente essencial na “construção do Homem Novo – o cidadão republicano, culto e instruído, participante activo na vida política da nova nação que a República, laica e democrática, queria criar” (Pintassilgo, Mogarro e Henriques, 2010, p. 18). A matrícula neste curso exigia apenas a aprovação no curso de ensino primário superior ou a classe correspondente do ensino liceal, indo a idade dos candidatos dos 15 aos 25 anos. O curso, com a duração de quatro anos, era constituído por 19 disciplinas pedagógicas, científicas e culturais, tanto teóricas, como práticas, além de outros complementos de formação. Ao terminarem o curso ingressariam no seu magistério primário, mas, em todas as categorias, com um período inicial de dois anos de nomeação temporária, podendo depois tornar-se definitiva. No entanto, apesar do governo de então se orgulhar “de ter atacado a fundo algumas questões vitais do ensino primário: a descentralização do ensino, a melhor preparação científica e pedagógica dos professores primários e a melhoria das suas condições económicas” (Rómulo de Carvalho, 2008, p. 678) a execução destas decisões não teve na realidade o impacto desejado. Inclusive algumas das medidas nunca chegaram a ser implementadas, total ou parcialmente, pois o “país real não possuía as condições mínimas para suportar o arranque das providências decretadas, não só por dificuldades económicas […], como também por comportamento social” (Ibidem, p. 678), o que é reforçado por, Mogarro e Henriques (2010, p. 18) quando afirmam que “os anos que se seguiram à implantação da República foram de grande instabilidade, com a concretização muito lenta das reformas ou a sua substituição por outras reformas, antes de se terem implementados as anteriores”. Sinal inequívoco desta situação é o facto de a primeira das Escolas Normais do Magistério Primário apenas ter entrado em funcionamento, em Lisboa, sete anos depois, já em 1918-19192, seguida um ano depois pelas do Porto e de Coimbra, altura em que o curso já tinha passado (em 1914) para uma duração de três anos e consequente diminuição do número de disciplinas3. Outro sinal foi a dificuldade crescente de colocação dos professores que iam sendo formados pelas Escolas Normais, uma vez que a criação de escolas não acompanhou o 2 Quando as antigas Escolas Normais de habilitação para o magistério primário foram transformadas em Escolas Primárias Superiores. 3 Lei nº 233 de 7 de Julho de 1914. 12 Enquadramento mesmo ritmo. Este facto, conjuntamente com o reforço da preparação e escolaridade exigida aos candidatos, foi responsável por uma diminuição da frequência do ensino normal, chegando mesmo a sentir-se a falta de professores nos finais da década de vinte do século XX (Rómulo de Carvalho, 2008). Por outro lado, neste período da I República é de salientar como muito positivo o aparecimento de inúmeras publicações periódicas, integralmente ou parcialmente dedicadas ao ensino, bem como a realização de congressos pedagógicos e a criação de várias associações de classe, tal como é mencionado por Rómulo de Carvalho (2008) referindo o trabalho de Sampaio (1975). Em 1919, com o ministro da Instrução Leonardo Coimbra (1883-1936), é feita uma nova reforma do ensino primário4, onde se destaca a fusão do ensino primário elementar com o ensino primário complementar, passando a designar-se ensino primário geral e, dessa forma, a obrigatoriedade escolar passou a ser de cinco anos, dos 7 aos 12 anos. Na segunda metade da I República, e segundo Pintassilgo, Mogarro e Henriques (2010), foi garantida a qualidade do ensino normal para os futuros mestres, focando-se a sua formação no reconhecimento do papel social do professor primário, na consolidação de bases sólidas para o conhecimento científico e no estabelecimento da formação profissional, que as Ciências de Educação garantiam, bem como da formação sensorial e estética. Além disso, eram promovidas “visitas de estudo, excursões escolares, trabalhos agrícolas, participação em actividades da comunidade e em manifestações artísticas diversificadas, assim como o associativismo estudantil” (Pintassilgo, Mogarro e Henriques, 2010, p. 20). Relativamente ao ensino liceal, destaca-se o sistema constituído por liceus nacionais e liceus nacionais centrais, instituído na reforma5 de Jaime Moniz (1837-1917) em 1894. Em ambos os tipos de liceus era lecionado o curso Geral, de cinco anos, enquanto o curso Complementar de dois anos, apenas era lecionado nos liceus nacionais centrais. Neste tipo de ensino, cuja característica distintiva era também preparar os alunos para o prosseguimento dos estudos superiores/universitários, procurava-se proporcionar uma formação humanista e moderna com interligação e interação entre as diversas disciplinas, que eram em número de 10, e que incluía, obviamente, a Matemática. 4 Decreto nº 5787-A, de 10 de Maio de 1919 e Decreto nº 6137, de 29 de Setembro de 1919. 5 Decreto de 22 de Dezembro de 1894. 13 Enquadramento Em 1905, com a reforma6 de Eduardo José Coelho (1836-1913), é acrescentada a disciplina de Educação Física e o curso Geral divide-se em dois ciclos, de três e dois anos, respetivamente, bifurcando-se em Letras e Ciências. Já no período da I República, e segundo Rómulo de Carvalho (2008), não foi dada uma grande importância reformista ao ensino liceal, pelo menos não tanta como no caso dos ensinos primário e universitário. No entanto, em 1918, com Alfredo de Magalhães (18701957), a reforma7 aumentou o número de disciplinas e também a carga horária letiva, invertendo a duração dos dois ciclos que o compunham, para dois e três anos, respetivamente. A mudança nos cursos complementares foi mais profunda, introduzindo-se um maior número de disciplinas e de horas letivas. Entre 1919 e 1921 houve pequenas alterações, pelo que a reforma de 1918, com alguns ajustamentos, vigorou até 1926 com o fim da I República, mas onde se realça a inclusão da Matemática no curso Complementar de Letras em detrimento das Ciências Físico-Naturais. Em relação ao ensino universitário, e logo em 1911, foram criadas 8 as Universidades de Lisboa e do Porto. As universidades tinham como intuito ministrar o ensino geral das ciências, fazer progredir a ciência e promover a cultura. Foram também aprovados decretos reformadores das faculdades, onde, a título de curiosidade, foi introduzida, entre outras, a disciplina de Estatística na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, ou, já em 1919, a ampliação programática9 dos estudos filosóficos das Faculdades de Letras onde foi acrescentada a cadeira de Matemáticas Gerais, entre várias. Tendo faltado “uma visão de conjunto cujos dados ficaram dispersos e indefinidos na vasta legislação parcelar” (Rómulo de Carvalho, 2008, p. 693), em 1914, o ministro Sobral Cid (1877-1941) veio fazer um balanço com a Proposta de lei de reorganização universitária10. Em 1918 foi publicado um Estatuto Universitário11, que pretendia regularizar o funcionamento das três universidades para que estas se tornassem centros de investigação científica e pudessem cooperar na solução dos problemas da vida nacional. Desde então e até 1926 não houve nenhuma resolução de vulto neste sector do ensino. Em termos globais, é ainda de realçar que, em 21 de junho de 1923, o ministro da Instrução Pública, João José Camoesas (1887-1951), tenha apresentado, com contributos vários, mostrando uma atitude muito democrática e participativa, uma proposta de Lei que 6 Decreto de 29 de Agosto de 1905. 7 Decreto nº 4650, de 14 de Julho de 1918. 8 Decreto de 22 de Março de 1911. 9 Decreto nº 5770, de 2 de Maio de 1919. 10 Decreto de 28 de Junho de 1914. 11 Decreto nº 4554, de 6 de Julho de 1918. 14 Enquadramento designou por Estatuto da Educação Nacional, que segundo Casulo (1988) permitia ter uma visão global do sistema escolar, sendo um projeto que tinha como preocupação substituir uma amálgama de leis, decretos e portarias, constantemente promulgados, suspensos, alterados e acrescentados e que eram de carácter sectorial, para dar uma ordem e coerência global ao sistema educativo. No entanto, este documento não chegou a ser aprovado e ficou apenas como documento histórico, pois foi “vítima da voracidade dos políticos que não permitiam a estabilidade governativa” (Rómulo de Carvalho, 2008, p. 703), o que também já era pronuncio das mudanças que estavam para vir. 1.1.3. Estado Novo Com o golpe militar de 28 de Maio de 1926 e com as alterações políticas que daí advieram pôs-se fim à I República e deu-se início a uma nova etapa da história de Portugal, que durou até ao 25 de Abril de 1974. Este golpe teve sérias e profundas consequências no ensino em Portugal e também na formação dos seus professores. Deste período, a primeira reforma12 do ensino primário data de 1927, com Alfredo de Magalhães, consistiu essencialmente na redução de dois anos nessa escolaridade. O ensino primário geral passou a designar-se por ensino primário elementar, com menos um ano de duração, dos 7 aos 10 anos, mantendo-se obrigatório. O ensino primário superior, que se passou a designar ensino primário complementar, foi também reduzido de um ano, dos 11 aos 12 anos. Ou seja, houve um retrocesso na escolaridade obrigatória. No ensino elementar começou a dar-se maior importância a alguns assuntos como a História de Portugal e as colónias ultramarinas que “denunciam a estratégia política, de feição nacionalista” (Ibidem, p. 729), dando-se início a uma época de inculcação ideológica num contexto “onde os valores Deus, Pátria e Família assumiam expressão vinculativa, o Estado centrou na escola primária as suas diretrizes ideológicas” (Mendonça, 2009, p12). Além disso, em 1928 os programas13 foram reduzidos. Em 1929 o quarto ano14 é considerado apenas para complementaridade dos três primeiros anos e em 1930 dá-se a divisão do ensino elementar15 em dois graus, sendo o primeiro de três anos, com um exame final, cuja aprovação será o 12 Decreto nº 13619, de 17 de Maio de 1927. 13 Decreto nº 16077, de 26 de Outubro de 1928. 14 Decreto nº 16730, de 13 de Abril de 1929. 15 Decreto nº 18140, de 22 de Março de 1930. 15 Enquadramento termo do ensino obrigatório. Desta forma consubstanciou-se a diminuição em dois anos a escolaridade obrigatória que vigorou durante a I República. Quanto ao ensino primário complementar, que era destinado aos que não pretendiam continuar os estudos liceais ou técnico, acabou por ser extinto16 em 1932. Aliás, logo em 1926 foram extintas17 as Escolas Normais Superiores, onde recebiam formação os professores das escolas primárias complementares, antevendo-se o fim desse nível de ensino, com claro intuito de implementar reduções de qualidade do ensino primário em que se defendia que “para ensinar a ler, escrever e contar, basta saber ler, escrever e contar e saber transmitir o que se sabe” (Mendonça, 2009, p. 12, citando Sampaio, 1976, p. 47). Por outro lado, as Escolas Normais Primárias foram extintas18 em 1928, restabelecidas19 ainda em 1928 e substituídas20 em 1930 pelas Escolas do Magistério Primário, sendo estas destinadas à preparação dos professores primários do ensino elementar. O ingresso nestas escolas dependia de um exame de admissão, mas apenas exigia como habilitação o segundo grau do ensino primário elementar. O ministro Gustavo Cordeiro Ramos (1888-1974), responsável por várias destas medidas estava imbuído do espírito vigente de que “não se justificava haver grandes preocupações com a preparação científica e pedagógica dos professores primários. Para transmitir às crianças tão limitados conhecimentos não seria difícil arranjar quem prestasse tal serviço, sem que se lhe exigisse qualquer preparação específica, e com pequena remuneração” (Rómulo de Carvalho, 2008, p. 736) Assim, devido à falta de edifícios para as escolas e no sentido de combater o analfabetismo, o mesmo ministro criou21, em 1931, os chamados postos de ensino que se destinavam a “ministrar uma educação barata em milhares de lugarejos disseminados pelo País” (Mónica, 1977, pp. 345-346), cujos regentes escolares inicialmente apenas tinham que comprovar possuir a necessária idoneidade moral e intelectual, sendo mais tarde exigido também um exame de aptidão, do qual fazia também parte uma prova escrita de Aritmética. 16 Decreto nº 21712, de 19 de Setembro de 1932. 17 Decreto nº 11730, de 15 de Junho de 1926. 18 Decreto nº 15365, de 12 de Abril de 1928. 19 Decreto nº 15886, de 21 de Agosto de 1928. 20 Decreto nº 18646, de 19 de Julho de 1930. 21 Decreto nº 20604, de 30 de Novembro de 1931. 16 Enquadramento Relativamente ao ensino liceal, e apesar de algumas alterações22 através da diminuição da sua duração, em 1930 a estrutura e duração23 do ensino liceal era a mesma da definida na I República. Apenas se salienta a eliminação da disciplina de Matemática no curso Complementar de Letras por troca com Francês. Além disso, Rómulo de Carvalho (2008) defende que, neste período, foi sendo criada legislação no sentido de restringir o acesso a este nível de ensino, bem como um maior controlo dos reitores e vice-reitores dos liceus e, consequentemente, também dos professores. Contudo, do Estatuto do Ensino Secundário24, de 1931, resultou também a existência de três categorias de liceus: os nacionais-centrais, com o Curso Completo; os nacionais, com o Curso Geral; e os municipais, só com os três primeiros anos do Curso Geral. Em termos da preparação dos professores deste nível de ensino, em 1930, foi definida25 a frequência de um curso de Ciências Pedagógicas, teórico, criado nas Faculdades de Letras das universidades de Lisboa e Coimbra (tendo a universidade do Porto sido integrada apenas em 1961), para além da frequência de um estágio de dois anos em liceus Normais, designado por “prática pedagógica” e que era orientado por um professor da metodologia especial. Segundo Pintassilgo, Mogarro e Henriques (2010, p. 47), um dos aspetos mais interessantes deste modelo é a “admissão do carácter diferenciado, mas também da necessária articulação entre o ‘saber’, […] e a preparação pedagógica, cuja dificuldade é reconhecida”, tendo este modelo sido mantido praticamente inalterável durante quatro décadas, de 1930 a 1969. Mas foi com a subida ao poder de António Oliveira Salazar (1889-1970) como presidente do Ministério, em 1932, e nos anos seguintes, que coincidem com o advento da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que se criaram condições para que fosse necessário “olhar para a Escola, afastando dela todos os elementos perigosos instalados no seio do professorado” (Rómulo de Carvalho, 2008, p. 753). Já em 1936, com o ministro António Carneiro Pacheco (1887-1957)26, foi inscrito em lei27 que “na selecção do professorado de qualquer grau de ensino ter-se-ão em conta […] as exigências da sua essencial cooperação na função educativa e na formação do espírito nacional” (Ibidem, p. 754). 22 Decreto nº 12245, de 2 de Outubro de 1926. 23 Decreto nº 13056, de 22 de Janeiro de 1927 e Decreto nº 18779, de 26 de Agosto de 1930. 24 Decreto nº 20741, de 18 de Dezembro de 1931. 25 Decreto nº 18973, de 16 de Outubro de 1930. 26 Na remodelação do Ministério da Instrução Pública que passou a ser denominado Ministério da Educação Nacional. 27 Lei nº 1941, de 11 de Abril de 1936 designada por “Remodelação do Ministério da Instrução Pública”. 17 Enquadramento Em 1936 deu-se o início a mais uma reforma do ensino primário28, Desta vez reduziuse ao mínimo o currículo do ensino primário obrigatório: Língua materna, Aritmética e sistema métrico, Educação Moral, Trabalhos manuais e lavores femininos e Canto coral. Além disso, o ministro Carneiro Pacheco julgava que os agentes de ensino não deveriam causar preocupações e que o ensino primário obrigatório deveria ser “regido por quem possua idoneidade comprovada, na falta de um diploma tantas vezes só decorativo” (Rómulo de Carvalho, 2008, pp. 761-762). Nesta sequência, elaborou-se também um livro de leitura da escola primária (livro único) que “incentivasse a mentalidade nacionalista e cristã servindo de alicerce à construção ideológica do ‘Estado Novo’” (Nóbrega, 2013, p. 15). Como refere Rómulo de Carvalho (2008), na reforma liceal29 de Carneiro Pacheco, também de 1936, foi retirada dos objetivos deste nível de ensino a preparação para o ensino superior, atribuindo-lhe a finalidade específica de dotar os portugueses de uma cultura geral útil à vida. Este estreitamento de objetivos conduziu a uma simplificação da estrutura deste ciclo escolar. Assim, foi eliminada a bifurcação em Ciências e Letras no curso Complementar do Liceu, passando a haver um curso único com três ciclos. O primeiro, de três anos, essencialmente prático e descritivo; o segundo, também de três anos, teórico e experimental; e o terceiro, com apenas um ano, com a sistematização mental e a síntese dos conhecimentos adquiridos. Além disso, optou-se por abandonar o regime de estudo por classe, adotando-se o regime por disciplinas (mais estanque e desarticulado), e por simplificar os exames dos liceus com a eliminação das provas orais, com a exceção das línguas vivas. Em todo o caso, e tal como refere Nóbrega (2013, p. 17), na década de trinta do século XX, houve um decréscimo percentual do analfabetismo, passando de 67,8% em 1930 para 59,4% em 1940. A mesma autora refere, ainda, que houve também um aumento de escolas primárias, de 6657 em 1926 para 7768 em 1940, um aumento da frequência nos vários níveis de ensino, que no mesmo período de tempo passou de 316888 para 554892, destacando-se o aumento do número de alunas, de 128982 alunos (40,7%) para 239253 (43,1%). Houve também um aumento das mulheres no professorado, passando de 5606 em 1926 para 7442 professoras em 1940. Durante a Segunda Guerra Mundial o ensino manteve-se segundo as diretrizes já alicerçadas nos primeiros anos do Estado Novo. No entanto, é de realçar que, com Mário de Figueiredo (1890-1969), voltou a ser legislada30 a divisão do ensino liceal em curso Geral e 28 Decreto nº 27249, de 24 de Novembro de 1936. 29 Decreto nº 27084, de 14 de Outubro de 1936. 30 Decreto nº 31544, de 30 de Setembro de 1941. 18 Enquadramento curso Complementar, restituindo ao sétimo ano o seu carácter preparatório para os cursos superiores. O Curso Geral estava dividido em dois ciclos de três anos cada um, e o Curso Complementar, de Letras ou de Ciências, com um ano (o sétimo). Além disso, contrariando a decisão de 1936 de fechar as Escolas do Magistério Primário, em 1942 essas escolas reabriram31 com um curso de três semestres mais um de estágio, ou seja, menos um ano que anteriormente, seguindo, segundo Ferreira e Mota (2009), duas diretivas mestras, redução e controlo, que eram traduzidas oficialmente por eficácia, economia de tempo e aproveitamento de recursos. Este facto minimizou o problema da falta crónica de professores, como afirma Rómulo de Carvalho (2008). Neste período foi revalorizado32 o ensino universitário, promovendo-se, neste âmbito, a contratação de personalidades de notória competência, nacionais e estrangeiras, bem como valorizando-se a carreira docente. Já no pós-guerra, a partir de 1945, a repressão do estado acentuou-se também no ensino, e em especial no universitário, destacando-se, entre outros, a demissão do respeitado e competente pedagogo e professor de Matemática Bento de Jesus Caraça (1901-1948). Em 1947 o ministro Fernando Pires de Lima (1906-1970) repôs33 no ensino liceal o Curso Geral com cinco anos, em regime de classes, e o Curso Complementar com a duração de dois anos, com separação em Letras e Ciências e em regime de disciplinas. Nesta reforma foram também reduzidos conteúdos34. Relativamente ao professorado manteve-se a exigência de uma formação superior e de um estágio de dois anos, mas acrescenta-se a componente de “controlo” através da Inspecção do Ensino Liceal. Também no ano de 1947 foi dada atenção ao ensino técnico profissional, com uma reforma35 que estabeleceu um primeiro grau, constituído por um ciclo preparatório elementar, de aprendizagem geral e com duração de dois anos, e um segundo grau constituído por cursos de aprendizagem, de formação e de aperfeiçoamento profissional, com duração máxima de quatro anos. Ainda com o ministro Pires de Lima foi promulgado 36, em 1952, o Plano de Educação Popular que tinha como objetivo reforçar e tornar exequível o princípio da obrigatoriedade do ensino primário elementar, reorganizar a assistência escolar, criar cursos de educação de adultos e promover uma campanha nacional contra o analfabetismo. Este plano envolvia crianças e adultos e como forma de implementação e cumprimento introduziu, entre outras 31 Decreto nº 32243, de 5 de Setembro de 1942. 32 Decreto nº 31658, de 21 de Novembro de 1941. 33 Decreto nº 36507, de 17 de Setembro de 1947. 34 Decreto nº 37112, de 22 de Outubro de 1948. 35 Lei 2025, de 19 de Junho de 1947. 36 Decreto nº 38968, de 27 de Outubro de 1952. 19 Enquadramento medidas, multas pecuniárias e incentivos como a imposição da escolaridade obrigatória para ter acesso a algumas profissões ou autorizações administrativas. Além disso, foi estendida a obrigatoriedade do ensino primário elementar para mais um ano, passando a abranger dos 7 aos 12 anos. Na sequência deste plano foram conseguidos em três anos (1952-1955) números assinaláveis37 no aumento do número de alunos inscritos no ensino primário ao nível das crianças, em que se passou de 663388 alunos no ano letivo de 1951/1952 para 830611 alunos no ano letivo de 1955/1956. Em particular, foi reduzida, de forma drástica de acordo com os dados oficiais, a percentagem de crianças dos 7 aos 12 anos sem ensino, passando de 156219 crianças em 1950 para 8891 em 1955, e sobretudo foi aumentado o número de alunos ao nível dos adultos, passando de 9946 adultos no ano letivo de 1951/1952 para 240785 adultos no ano letivo de 1955/1956. No entanto, e no geral, este plano “fez diminuir as taxas de analfabetismo literal, embora o baixo nível de competências exigidas nas provas de exame não tenha surtido os efeitos desejados, uma vez que em pouco influiu na alfabetização funcional” (Mendonça, 2009, p. 14). O desenvolvimento que se foi instalando no mundo ocidental do pós-guerra foi dando lugar, nesses países, a uma subida do nível de vida do cidadão comum e obrigava à obtenção de competências que estavam muito para além do simples saber ler, escrever e contar. Ora, na segunda metade da década de cinquenta, o engenheiro Francisco Leite Pinto (1902-2000), enquanto ministro, tentou colocar Portugal na senda da recuperação do atraso cultural, tecnológico e, consequentemente, económico que era patente. O seu principal legado, segundo Rómulo de Carvalho (2008), foi o de ter conseguido o envolvimento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) no âmbito da ajuda no domínio da educação e a extensão à quarta classe da restrição da escolaridade obrigatória, aplicável, a partir de 1956, ao sexo masculino38 e, a partir de 1960, também ao sexo feminino39. Devido às relações internacionais mencionadas e às necessidades impostas pelos novos tempos, embora sem abdicar dos seus princípios, o Estado Novo, através do seu ministro Galvão Teles (1917-2000), começou por aumentar para seis anos o período de escolaridade obrigatória40, com o ensino primário constituído pelo ensino primário elementar, com quatro anos, e o ensino primário complementar, com dois anos. Em 1967, para atrasar a idade da escolha vocacional, criou-se o ciclo preparatório do ensino secundário41 que fundiu o 37 Decreto Lei nº 40964 de 31 de Dezembro de 1956. 38 Decreto nº 40964, de 31 de Dezembro de 1956. 39 Decreto nº 42994, de 28 de Maio de 1960. 40 Decreto nº 45810, de 9 de Julho de 1964. 41 Decreto nº 47480, de 2 de Janeiro de 1967. 20 Enquadramento primeiro ciclo do ensino liceal e o ciclo preparatório do ensino técnico. Tinha a duração de dois anos e como habilitação prévia exigia a aprovação do exame da quarta classe. No final deste ciclo os alunos eram sujeitos a um exame de aptidão ao ramo do ensino secundário liceal, ou técnico, em que pretendessem ingressar. Além disso, em 1964 foi criado42 o Centro de Estudos de Pedagogia Audiovisual que daria origem à criação43 do Instituto de Meios Audiovisuais de Ensino e da Telescola. O Curso Unificado da Telescola44, normalmente conhecido e designado apenas por Telescola, segundo Costa (2010) e Mendonça (2009) surge como outra via para dar cumprimento à escolaridade obrigatória colmatando as carências da rede escolar existente, exclusivamente direcionada às populações não urbanas, tendo um programa equivalente ao do ciclo preparatório do ensino técnico. O sistema era misto, utilizando o ensino via televisão e o acompanhamento dos alunos feito nos postos de receção por professores monitores que tinham como habilitação mínima o ciclo complementar do ensino liceal. Em 1965 a Telescola foi alargada ao ensino para adultos45 e em 1968 à formação de professores do Ciclo Preparatório na Telescola46. Em 1968 o presidente do Conselho, Oliveira Salazar, afastou-se da governação, sucedendo-lhe Marcelo Caetano (1906-1980). Em 1969 deram-se os primeiros movimentos e incidentes de alunos universitários, facto que terá levado ao convencimento “da necessidade de se tomarem providências rápidas no sentido de regressar ao caminho que vinha a ser seguido a favor da modernização do sistema do ensino, no ponto em que Galvão Teles o deixara” (Rómulo de Carvalho, 2008, p. 806). No entanto, estudos como a Análise Quantitativa da Estrutura Escolar Portuguesa e a Evolução da Estrutura Escolar Portuguesa tornaram evidentes “a situação extremamente carenciada do nosso país em todos os aspectos relacionados com o ensino: elevada taxa de analfabetismo, reduzida frequência de alunos em todos os graus, baixíssimo aproveitamento escolar, falta de professores, de instalações e de material” (Rómulo de Carvalho, 2008, p. 806). Aos resultados destes estudos tem que se juntar o facto de que a solução para todas estas questões seria impossível de implementar totalmente “num país de tão limitados meios financeiros e humanos como o nosso” (Ibidem). 42 Decreto nº 45418, de 9 de Dezembro de 1963. 43 Decreto nº 46135, de 31 de Dezembro de 1964. 44 Posteriormente passou a designar-se por Ciclo Preparatório T.V. e depois designado por Ensino Básico Mediatizado. 45 Decreto nº 46136, de 31 de Dezembro de 1964. 46 Portaria nº 23217, de 10 de Fevereiro de 1968. 21 Enquadramento É neste cenário que José Veiga Simão (1929-2014) toma posse como ministro da pasta da Educação, implementando, desde o início, uma ação baseada no diálogo e envolvimento dos interessados nas alterações e criações que pretendia implementar, mesmo os nãoalinhados nas diretrizes mestras do governo, tal como refere Rómulo de Carvalho (2008). Na sua “guerra da educação” para conquistar a “democratização do ensino”, Veiga Simão considerava que “o grau do nosso ensino mais carecido de reforma era o universitário” (Rómulo de Carvalho, 2008, p. 808). No entanto, a sua obra, de 1971 a 1973, foi muito mais abrangente, culminando na reforma do sistema educativo 47 de 1973 de que se destacaram: “institucionalização da educação pré-escolar, extensão da escolaridade obrigatória de seis para oito anos, polivalência do ensino secundário e acréscimo de um ano na sua duração, expansão e diversificação do ensino superior, criação de cursos de pósgraduação, novo enquadramento da formação profissional, estruturação da educação permanente e, na sua globalidade, a consagração, ‘de forma inequívoca’, do princípio da democratização do ensino” (Ibidem, p. 809). Assim, o ensino básico obrigatório tinha dois ciclos, o primário e o preparatório, ambos de quatro anos, e o ensino secundário também com dois ciclos, o geral e o complementar, ambos de dois anos. Em termos dos objetivos, no ensino básico deu-se ênfase à formação da personalidade dos alunos, ao nível físico, intelectual, estético, moral, social e patriótico, e no ensino preparatório deu-se destaque à formação do aluno ao nível do desenvolvimento das aptidões, de maneira a permitir a decisão mais adequada entre uma via escolar ou profissional. Além disso, instituiu-se o ensino primário supletivo para adultos e foram mantidos os postos de telescola, pelo menos enquanto fossem necessários por não ser possível garantir a todos os alunos o ensino direto48. Estas mudanças foram suportadas por um processo que, segundo Mendonça (2009), foi inovador em termos pedagógicos, tanto ao nível de programas, como da ligação das escolas às famílias e ao meio, como ainda pelo apoio e formação de professores. No ensino superior, com formações de curta duração, de longa duração e pósgraduação, destaca-se, na sequência da referida reforma do sistema educativo, a criação dos 47 Lei nº 5/73, de 25 de Julho. 48 A extinção gradual começou efetivamente apenas em 2001 e terminou com a extinção completa e definitiva em 2006 (Costa, 2010). 22 Enquadramento Institutos Politécnicos49 vocacionados para as formações de “curta duração, orientados para uma formação profissional imediata e de âmbito especificamente regional” (Rómulo de Carvalho, 2008, p. 809). O ensino superior de curta duração50 foi efetivamente instituído em 1977 e passou a ser designado por ensino superior politécnico51 em 1979. Complementarmente, Veiga Simão procedeu a uma reforma global das estruturas e dos serviços do Ministério, bem como reconheceu e valorizou os apoios sociais na efetivação da escolaridade, destacando-se a criação52 do Instituto de Acção Social Escolar. No entanto, segundo Mendonça (2009), apesar de bem-intencionada, inovadora e modernista, tentando concretizar a democratização do acesso à escola e a modernização do sistema educativo, não foi possível a implementação plena desta reforma devido a vários obstáculos e limitações como, por exemplo, a objeção dos setores mais conservadores do regime, as dificuldades materiais e de meios humanos para concretizar a escolaridade obrigatória ou a incapacidade de concretizar os apoios sociais previstos. Esta era a situação quando se deu o golpe militar de 25 de Abril de 1974, que pôs termo ao regime vigente desde 1926, dando início ao que se designa aqui por III República. 1.1.4. Pós 25 de Abril A Revolução de 25 de Abril de 1974 marcou de forma indelével a evolução recente do sistema educativo português. Nessa época tomou-se consciência do atraso educacional de Portugal, bem como de inúmeros entraves a uma mudança educacional profunda, até porque, como afirmaram Karabel e Halsey (1977, p. 551) citados por Mendonça (2009, p. 21), “[a]s revoluções não tornam meramente possível a mudança educativa, elas exigem-na. Têm que transformar o sistema educativo de modo a harmonizá-lo com o novo quadro institucional e ideológico”. Assim, o período de 1974 a 1976, até à tomada de posse do primeiro governo constitucional, a que Barroso (2003) chama ciclo da revolução, foi marcado por uma grande instabilidade política e intensa mobilização cívica e social, que conduziu no domínio da educação a dois movimentos: 49 Decreto-lei nº 402/73, de 11 de Agosto. 50 Decreto-lei nº 427-B/77, de 4 de Outubro. 51 Decreto-lei nº 513-T/79, de 26 de Dezembro. 52 Decreto-lei nº 178/71, de 30 de Abril. 23 Enquadramento “Uma tentativa institucional […] para conceber e aplicar mudanças educativas que […] estabelecessem uma ruptura clara com a ‘ideologia fascista’ e, ao mesmo tempo garantissem a governabilidade do sistema e configurassem um modelo educativo emergente, adequado à construção de uma ‘democracia socialista’. – Um movimento social muito diversificado e descentrado que punha em causa a lógica reformista do Estado, antecipando-se aos seus desígnios e consumando as mudanças independentemente de qualquer alteração dos normativos” (Barroso, 2003, p. 66). Naquele novo contexto foram definidos novos programas para o ensino primário, em 197553, com inclusão de novas áreas como o Meio Físico e Social, Música, Saúde e Movimento e Drama, bem como uma nova organização pedagógica assente num regime de fases de aprendizagem de dois anos cada, em detrimento do regime de classes, tal como refere Serra (2000). A primeira destas fases assentava na aquisição de conhecimentos elementares no âmbito da leitura, escrita, cálculo e áreas de expressão, e a segunda fase enfatizava o aprofundamento destes conhecimentos adquiridos. Além disso, o sistema de avaliação passou a incluir, uma lógica de avaliação contínua, com as vertentes diagnóstica, formativa e sumativa. Assim, procurava assumir a sua função socialmente niveladora e, simultaneamente, reduzir o insucesso escolar, como refere Mendonça (2009). Segundo a mesma autora, na mesma época e para permitir o acesso dos adolescentes e adultos à escolaridade básica obrigatória criaram-se os Cursos Supletivos do Ensino Preparatório, em regime diurno com duração de dois anos, e também em regime noturno com duração de um ano. Em termos da formação de professores primários, e segundo Pintassilgo, Mogarro e Henriques (2010) e Serra (2000), neste período, predominavam a conflitualidade bem como os debates educativos, com propósitos renovadores. Desta forma impuseram-se reformas nas escolas do magistério primário, entre elas, a nomeação de novos diretores, a contratação de novos professores, bem como alterações do currículo. Foram eliminadas disciplinas conotadas com os valores ideológicos do Estado Novo, alteram-se outras e criam-se novas componentes curriculares. O objetivo era o de colocar os futuros professores em contacto com propostas educativas que tivessem como base “não confessionalidade, cientificidade, trabalho coletivo, espírito crítico, não directividade, abertura da escola ao meio” (Serra, 2000, p. 29). 53 Ensino Primário – Programas para o ano lectivo de 1974/1975 foi só aplicado ao 1º ano no ano letivo de 1974/1975, mas em 1975 foi definido o Programas do Ensino Primário Elementar válido para todos os anos e em vigor até 1978/1979 (Silva, 2010). 24 Enquadramento Nas quatro reformas curriculares realizadas nesta área de 1974 até 1978 reforçou-se a formação “com a introdução das áreas do português, da matemática, das ciências naturais e das ciências sociais” (Pintassilgo, Mogarro e Henriques, 2010, p. 33) e prevalecia “o princípio da unidade da formação teórica e da formação prática e distinguiu-se uma área interdisciplinar, as actividades de contacto” (Ibidem). Esta área interdisciplinar permitia às escolas do magistério e aos futuros professores “a abertura amplíssima (…) à comunidade e aos seus problemas, designadamente à comunidade profissional” (Ibidem, citando Fernandes, 1977, p. 22). Ao nível da formação para o ensino secundário, segundo Pintassilgo, Mogarro e Henriques (2010), para além de algumas continuidades de projetos da reforma de Veiga Simão, e entre várias mudanças radicais, hesitações e experiências efémeras, deixou de funcionar a secção de Ciências Pedagógicas nas Faculdades de Letras, que vinha já de 1930, e deixou de haver a coordenação de estágios a nível nacional. Segundo Barroso (2003, pp. 67-68) o balanço do referido ciclo temporário – revolução – varia consoante o posicionamento político de quem o fez, indo de “uma análise catastrofista, que sublinha essencialmente a ‘ingovernabilidade’ reinante, o carácter voluntarista, casuístico e pernicioso das mudanças” até “uma análise mais optimista, que põe em relevo algumas das ‘conquistas revolucionárias’ mais significativas”. Em relação a estas últimas, Barroso (2003, p. 67) citando Grácio (1995, pp. 476-478) realça a “alteração em todos os graus e ramos de ensino dos conteúdos e das aprendizagens […]; dignificação do estatuto pedagógico, social e cívico do professorado […]; transformação das relações institucionais no aparelho do ensino […]; modificação dos objectivos propostos ao sistema de ensino nas suas relações com a sociedade global […]; cooperação do sistema de ensino na democratização social, procurando alterar a sua função de reprodução e legitimação das desigualdades sociais e regionais”. O segundo ciclo temporal, identificado por Barroso (2003) como o da normalização (do funcionamento do sistema educativo), estende-se até 1986, ano da aprovação da Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE 54) e, simultaneamente, ano em que se processa a integração de Portugal na, então designada, Comunidade Económica Europeia (CEE). O objetivo primordial dessa política de normalização foi 54 Lei n.º 46/86, de 14 de Outubro (alterada pela Lei n.º 117/97, de 19 de Setembro, e pela Lei n.º 49/2005, de 30 de Agosto). 25 Enquadramento “recuperar o poder e o controlo do Estado e a sua administração sobre a educação, eliminando as ‘derivas revolucionárias’, […] e introduzindo critérios de ‘racionalidade técnica’ na decisão política, nomeadamente, por meio do reforço das estruturas e dos processos de planeamento” (Barroso, 2003, p. 68). Nesse sentido, Barroso (2003, p. 69), citando Teodoro (2001, p. 389), considera haver neste período dois movimentos: “um primeiro por meio de ‘intervenções negativas’ destinadas a afastar do ministério da Educação os quadros ‘que personalizavam o conjunto das principais orientações e reformas encetadas durante o período da crise revolucionária’ e a eliminar, ou atenuar, os efeitos das medidas entretanto tomadas; um segundo movimento destinado a criar condições para enfrentar o ‘desafio europeu’, por intermédio de medidas de política educativa orientadas essencialmente para a contenção do acesso ao ensino superior universitário (criação do numerus clausus em 1977), diversificação de vias de ensino nos estudos pós-secundários (criação do ensino superior curto politécnico, no mesmo ano), desenvolvimento do ensino técnico-profissional, principalmente a partir de 1983”. Relativamente à formação de professores primários nos anos iniciais deste ciclo, para além de reformas curriculares mencionadas anteriormente, decreta-se55 em 1976 concurso público documental para professores das escolas do magistério primário, bem como a gestão democrática das mesmas, como refere Pintassilgo, Mogarro e Henriques (2010). Já em 1977, e ainda segundo Ferreira e Mota (2009), os cursos do magistério primário passaram a ter a duração de três anos e estabeleceu-se como habilitação mínima para acesso aos mesmos o curso complementar do ensino secundário56, em 1977, e o 11º ano57, em 1981, para além de ser exigida a nacionalidade portuguesa, uma idade não superior a 52 anos e uma nota de candidatura, uma vez que a frequência do curso estava sujeita a numerus clausus. Segundo Serra (2000, p. 32) por esta altura o perfil do professor defendido na conjuntura pós revolução foi dando lugar à procura de um professor “politicamente neutro, interessado promotor da escolaridade básica, universal e gratuita e dos projetos de vida dos seus alunos, e garante, no quadro duma sociedade democrática e pluralista, de valores de 55 Decreto-lei nº 725/76, de 13 de Outubro. 56 Despacho nº 44/77, de 3 de Maio. 57 Despacho nº 43/81, de 19 de Agosto. 26 Enquadramento pendor universalista”. Por outro lado, vários fatores, como o aumento salarial dos professores ou alguns condicionalismos ao nível do ensino superior, provocaram um grande afluxo ao exame de admissão e consequentemente uma elevada frequência das escolas do magistério primário, tal como afirmam Pintassilgo, Mogarro e Henriques (2010) referindo Fernandes (1977). O plano de estudos58 de 1978, em que as Ciências da Educação constituíam o núcleo forte e onde constava a disciplina de Matemática no primeiro e no segundo ano, com uma carga horária semanal de duas horas, vigorou até à extinção daquelas escolas. Esta extinção foi sendo implementada de forma gradual com a sua substituição pelas Escolas Superiores de Educação integradas nos Institutos Politécnicos, onde os cursos de formação de professores, do ensino básico e também de educadores de infância, passaram a conferir bacharelatos e licenciaturas. Em 1976, segundo Pintassilgo, Mogarro e Henriques (2010), ressurgiram preocupações com a formação contínua e a formação em exercício para os professores do ensino secundário não profissionalizados, sendo esta última definida59 para ser realizada na escola durante dois anos, a partir de um plano individual de trabalho, para completar a experiência profissional e a formação académica. No âmbito da mesma legislação reforçou-se a escola como local privilegiado da formação e definiu-se como objetivos: a estabilização do corpo docente, através de contratos plurianuais assegurando a profissionalização no quadro da escola; a correção de assimetrias do país em relação às necessidades de professores qualificados; e o envolvimento da escola no processo de formação. No ano seguinte legislouse60 a profissionalização em exercício centrada no sistema educativo, na escola e na turma, incluindo trabalhos individuais, formação no âmbito das Ciências Pedagógicas, observação e prática pedagógicas orientadas e informação científica. Em 1985, esta formação passou a designar-se por formação em serviço61, também com dois anos de duração, mas com uma ligação a centros de formação, Universidades e Escolas Superiores de Educação, para acrescentar uma componente teórica ligada às Ciências da Educação. Em 1978 foi elaborado62 um novo programa do ensino primário, mas desta vez definido segundo objetivos terminais, institucionalizando uma fase única. No entanto, este programa foi apenas implementado em termos experimentais, tendo sido, em 1980, 58 Despacho nº 157/78, de 30 de Junho de 1978. 59 Decreto-lei nº 519-T1/79, de 29 de Dezembro. 60 Despacho nº 358/80, de 31 de Outubro. 61 Portaria nº 750/85, de 2 de Outubro. 62 Portaria nº 572/79, de 31 de Outubro. 27 Enquadramento substituído por outro programa, novamente por fases (Silva, 2010). Depois de abolida 63 a separação entre o ensino técnico e o ensino geral, criando-se o ensino secundário unificado, que correspondia ao atual terceiro ciclo do ensino básico. A sua entrada em funcionamento foi iniciada no ano letivo de 1976/1977 e no ano letivo de 1978/1979 ficou completa. Em 1978 iniciou-se também a reformulação64 dos cursos complementares do ensino secundário, dando origem aos 10º e 11º anos de escolaridade, organizados em cinco áreas de estudo: científiconaturais, científico-tecnológicos, económico-sociais e humanísticos. Em 1980 foi criado65 o 12º ano que pôs fim ao ano propedêutico que tinha sido instituído66 em 1977. Deste modo, até ao final da década de setenta do século XX, num contexto de instabilidade, transformações e reconstrução social, os espaços educativos procuraram contribuir para a formação da democracia e a promoção dos direitos dos cidadãos. As principais preocupações ao nível do ensino foram nesse período, segundo Mendonça (2009, p. 23), a “melhoria da qualidade do ensino, a efectivação generalizada do período escolar com a duração de seis anos e a ampliação do acesso e do sucesso dos alunos”, sendo acompanhadas por medidas a vários níveis como por exemplo na “regulamentação do acesso e frequência da escola, na ampliação da rede escolar, no campo da formação de professores, na transformação de currículos e materiais de apoio e ainda ao nível das formas de avaliação” (Ibidem). Apesar deste esforço, o ambiente propício à procura e ensaio de inovação curricular conduziu a alguma contradição entre práticas educativas, que não tinham tempo nem condições de maturação, levando a conflitos e tensões pois em certos casos “as mudanças curriculares e metodológicas não foram apoiadas no seu lançamento com acções de formação e reciclagem dos docentes, nem tiveram em conta a necessária autonomia pedagógica nem a preocupação com materiais, instalações, equipamentos” (Ibidem). Na década de 80 do século XX surgiram como foco das preocupações a eficácia e os padrões de qualidade e formação para o trabalho, de acordo com uma lógica de mercado, e em detrimento das anteriores preocupações, que tinham mais que ver com os currículos democráticos, desigualdades de classe ou a autonomia dos professores. Seguindo essa linha de pensamento, naquela década introduziram-se alterações a que Mendonça (2009, p. 25) se refere como de “aperfeiçoamento técnico” em várias áreas, entre as quais a Matemática, e em que cada uma delas surge com objetivos delineados por anos de escolaridade. Os respetivos programas indicavam os resultados a atingir em cada disciplina, a 63 Circular nº 1/75, de 19 de Junho e Circular nº 3/75, de 27 de Junho. 64 Despacho nº 140-A/78, de 15 de Junho. 65 Decreto-lei nº 240/80, de 19 de Julho. 66 Decreto-lei nº 491/77, de 23 de Novembro. 28 Enquadramento definição de conteúdos, os conceitos básicos e as capacidades a desenvolver, para além das metas genéricas comuns a todas as áreas. Ao ciclo temporal de 1986 ao final do milénio, Barroso (2003) denominou como o ciclo da reforma, considerando que a LBSE permitiu encerrar o ciclo da normalização e dar início a uma nova etapa centrada na realização da reforma educativa e marcada por dois períodos. O primeiro, entre 1987 e 1991, em que a “reforma é concebida e desenvolvida segundo um modelo normativo-dedutivo, fundado numa concepção determinista da mudança, conduzida do topo para a base do sistema” (Barroso, 2003, p. 70), em que se destacam “uma contenção do acesso ao ensino superior público e um forte estímulo à abertura de estabelecimentos de ensino superior privado; a criação das ‘escolas profissionais’ […]; o reforço de dispositivos de avaliação” (Ibidem, p. 70-71). O segundo período, que decorreu entre 1996 e 2000, foi marcado por “uma política de ‘geometria variável’ assente, supostamente, na clareza e consensualidade dos princípios e na flexibilização da acção” (Ibidem, p. 71). Neste período podem-se salientar a tentativa de criar um Pacto Educativo para o Futuro, que não chegou a ser assinado, e algumas medidas de continuidade nos domínios, por exemplo, da revisão curricular, da gestão das escolas, da formação de professores, da avaliação dos alunos, bem como medidas diferenciadoras no âmbito da qualidade e da igualdade de oportunidades. Entre estas destaca-se a “criação dos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP) […]; medidas de pedagogia compensatória (currículos alternativos, apoio pedagógico assistido); forte impulso à expansão da educação pré-escolar; generalização da avaliação aferida; avaliação das escolas; internet nas escolas” (Ibidem, p. 71-72). Todo este esforço reformista foi grandemente apoiado em termos financeiros por fundos comunitários do Programa de Desenvolvimento Educativo para Portugal (PRODEP), sucessivamente prolongado e que permitiu agir, essencialmente, na construção de escolas, na melhoria dos equipamentos educativos e no financiamento de ações de formação contínua de professores (Programa Foco), tal como refere Barroso (2003). Ferreira (2007) destaca, sobretudo na primeira década a partir da LBSE de 1986, que primeiro se tratou do currículo, depois da escola e, só depois, do professor. Já Sebastião e Correia (2007, p. 9) realçam que a LBSE teve o foco “nas desigualdades de acesso ao ensino, a gestão democrática, o insucesso e o abandono escolar, os exames nacionais no ensino secundário, as propinas no ensino superior, entre outros”. 29 Enquadramento Assim, com a LBSE procedeu-se ao alargamento do ensino básico de seis para nove anos, passando também esta a ser a duração da escolaridade obrigatória e o sistema educativo passou a estar subdividido em pré-escolar, escolar e extra-escolar, compreendendo a educação escolar os ensino básico, secundário e superior. O ensino básico ficou dividido, até ao presente (Figura 1.1), em três ciclos sequenciais de quatro anos (1º ciclo), de dois anos (2º ciclo) e de três anos (3º ciclo). Numa alteração legislativa da LBSE em 2009, a escolaridade obrigatória passou a ser de 12 anos. De modo genérico pretendia-se dar unidade, articulação e sequência entre ciclos. As características essenciais destes três ciclos foram definidas no nº 1 do artigo 8º da LBSE da seguinte forma: o primeiro ciclo globalizante, da responsabilidade de um professor único, que pode ser coadjuvado em áreas especializadas; o segundo ciclo organizado por áreas interdisciplinares de formação básica e desenvolvido predominantemente em regime de professor por área; o terceiro ciclo organizado segundo um plano curricular unificado, integrando áreas vocacionais diversificadas e desenvolvido em regime de um professor por disciplina ou grupo de disciplinas. Figura 1.1: Sistema Educativo Português Fonte: Ministério da Educação – Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação67) Já segundo Alarcão, Freitas, Ponte, Alarcão e Tavares (1997), o ensino secundário surge organizado segundo formas diferenciadas, incluindo cursos orientados para a vida ativa e outros para o prosseguimento dos estudos, tendo como objetivos a aquisição de 67 http://www.gepe.min-edu.pt/np4/?newsId=9&fileName=Diagrama_SE.Port_site.JPG (acedido em 10 de janeiro de 2012). 30 Enquadramento conhecimentos, o favorecimento de uma orientação profissional, o aprofundamento de elementos culturais, o desenvolvimento de capacidades, de hábitos de trabalho e de intervenção e ainda o desenvolvimento de valores e atitudes. Relativamente à possibilidade do professor do primeiro ciclo ser coadjuvado em áreas que requerem especializações, segundo Alarcão et al. (1997), com exceção das necessidades especiais, era pouco utilizada, sendo reconhecidamente necessária em áreas como a Educação Física, a Educação Artística, e Educação Musical, mas também em áreas “onde a formação dos docentes revela particulares debilidades (em especial na Matemática e em Ciências, onde os desempenhos dos nossos alunos, em avaliações de cunho internacional, se têm revelado pouco animadores) ” (Alarcão et al., 1997, p. 4). No que diz respeito ao segundo ciclo, Alarcão et al. (1997) afirmam que as áreas interdisciplinares de formação nunca foram implementadas na prática, pois mesmo depois da criação de cinco áreas pluridisciplinares (Línguas e Estudos Sociais, Ciências Exatas e da Natureza, Educação Artística e Tecnológica, Educação Física e Formação Pessoal e Social), aquando do estabelecimento dos planos de estudo68 em 1989, estas mantiveram a estrutura disciplinar anterior. Enquadrada pela LBSE, a escola, com competências próprias ao nível financeiro, administrativo, cultural e pedagógico, aparece envolvida, enquanto comunidade educativa, com os encarregados de educação, o poder local e a comunidade envolvente, tendo por base um projeto educativo autónomo e partilhado e visão descentralizada e regionalizadora. Entre 1989 e 1991 definiu-se69 a organização curricular do ensino básico e do secundário, sendo este último nível de ensino constituído por três anos. Esta organização teve como uma das inovações curriculares a Área Escola. Esta área curricular não disciplinar foi criada70, em 1989, tendo por finalidades essenciais: a concretização dos saberes por meio de atividades e projetos pluridisciplinares; a articulação entre a escola e a envolvente; e a formação pessoal e social do aluno, desenvolvendo de forma integrada o seu espírito de iniciativa, de autonomia e de hábitos de trabalho e de organização. A Área Escola surge como um tempo e um espaço propícios à implementação da interdisciplinaridade, em cujo desenvolvimento podiam participar, para além de professores e alunos, outros agentes educativos, tais como pais e encarregados de educação, autarcas e representantes da sociedade 68 Decreto-lei nº 286/89, de 29 de Agosto. 69 Decreto-lei nº 286/89, de 29 de Agosto, Ensino Básico 2º Ciclo: organização curricular e programas, Vol. 1 (ME/DGEBS, 1991) e Ensino Básico 3º Ciclo: organização curricular e programas, Vol. 1 (ME/DGEBS, 1991). 70 Decreto-lei nº 286/89, de 29 de Agosto. 31 Enquadramento civil da região. Era competência da escola, ou área escolar, decidir a respetiva distribuição, conteúdo e coordenação, revelando-se, desde logo, como um conceito polémico. Assim, apesar de ter havido casos de sucesso e ser considerado por muitos como interessante, também foi considerado vago e dado a várias interpretações, para além de ter sido apresentado de início com uma natureza não disciplinar, passando depois a interdisciplinar e finalmente integrada na componente disciplinar. Desta forma, para além de ser sentido em alguns casos falta de meios humanos e técnicos, houve intervenientes no processo que não o levaram a sério, notando-se a ausência, desinteresse ou falta de apoio de elementos extraescola em muitas situações e também alunos e professores que viam por vezes a Área Escola como um desvio de tempo e energia que perturbava o trabalho nas restantes disciplinas do currículo (Pacheco, 1994). Em 1991 a avaliação71, enquanto processo integrador da prática educativa, passou a ter as modalidades: formativa, sumativa, aferida e especializada. Ferreira (2007), com base em ME/DGEBS (1993a) 72 e em ME/DGEBS (1993b) 73, refere que os objetivos gerais de ciclo do ensino básico apareceram, em 1993, categorizados por competências, transversais e específicas de cada disciplina, e organizados em torno de várias dimensões ou categorias, nomeadamente: comunicação/expressão, recolha e tratamento de informação, aptidões intelectuais e estratégias cognitivas, aquisição estruturada de informação, aptidões psicomotoras e atitudes. No entanto, contrariando a LBSE, “foram os quadros disciplinares que definiram e diferenciaram os ciclos e não os ciclos que contextualizaram, definiram e diferenciaram as suas componentes curriculares” (Ferreira, 2007, p. 96). Segundo Mendonça (2009) as maiores inovações do programa educativo resultante da LBSE foram ao nível das metodologias, práticas e atitudes. Assim, destaca-se a valorização das competências e dos valores nos alunos como “o incentivo à pesquisa, o desenvolvimento do espírito crítico, as capacidades de análise e síntese, o estímulo da responsabilidade e ainda o sentido de cooperação” (Mendonça, 2009, p. 25). De uma forma geral, as últimas décadas do século XX foram também marcadas por uma visão economicista que, fruto da modernização acentuada, obrigou a um estreitar das relações entre a escola e a vida ativa. Nesse sentido, segundo Mendonça (2009) as empresas 71 Despacho nº 162/91, de 9 de Setembro e Despacho nº 98-A/92, de 20 de Junho. 72 Ministério da Educação/Direcção Geral do Ensino Básico e Secundário (1993a). Objectivos gerais de ciclo: ensino básico 1º, 2º e 3º ciclos. Lisboa: DGEBS. 73 Ministério da Educação/Direcção Geral do Ensino Básico e Secundário (1993a). Objectivos gerais de ciclo: ensino básico 2º e 3º ciclos. Lisboa: DGEBS. 32 Enquadramento passaram a desempenhar um papel na reorganização do sistema educativo. Num contexto de crescimento económico, esta situação afetou as reformas educativas, tendo havido um incremento do peso curricular das ciências e das tecnologias baseado na sua eficácia de criação de oportunidades de emprego. Desta forma assistiu-se à “interferência” da envolvente económica nas decisões relativas às prioridades curriculares que passaram a ser vistas como essenciais para o aumento da produtividade do país. No entanto, os reajustamentos efetuados na década de noventa do século XX criaram um sistema onde se “acentuava a vulnerabilização dos profissionais de educação e desresponsabilizava os sistemas educativos pelos fracassos da escolarização” (Mendonça, 2009, p. 28). Neste sistema o estado continuava a ser determinante, tendo uma intervenção direta sobre a ação didática dos professores, bem como na administração do trabalho dos mesmos. Em jeito de balanço, Sebastião e Correia (2007) realçam que só em 2001 se passou para os 12,5% de analfabetos, quando em 1911 eram 75%. Além disso, a percentagem de população só com o 1º ciclo de escolaridade passou de 33% em 1981 para os 27,8% em 2001. Não se pode também esquecer a influência que terá tido, para este resultado, o facto de neste período a escolaridade obrigatória ter passado de quatro anos para nove anos. Outros números, apresentados por estes autores, mostram que na agregação dos três primeiros ciclos houve uma subida de 34,3% para 37,1%, de 1981 para 1991, e um decréscimo para 35,5%, em 2001. Esta diminuição deve-se, em parte, ao aumento dos que possuíam o secundário completo que correspondiam, em 1981, a 2,3% e, em 2001, a 11,7%, mas também aos que possuíam o ensino superior em que houve uma evolução de 2,8% para 6,7%, respetivamente de 1981 para 2001. Relativamente aos três primeiros ciclos de escolaridade, Sebastião e Correia (2007) indicam também ter havido, no período de 1981 a 2001, uma clara diminuição do desvio da idade normal na frequência dos referidos ciclos, e que, segundo Azevedo (2002), apesar de haver também melhorias no ensino secundário e ensino superior estas eram mais lentas e não tão significativas. De referir que estes indicadores seguiram a mesma tendência positiva na primeira década do século XXI, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (2011) e do Conselho Nacional de Educação (2011). Sebastião e Correia (2007) consideram que, nas últimas duas décadas do século XX (1980-1999), a questão do insucesso escolar foi ganhando importância. Isto fica patente no facto de ter havido uma série de iniciativas políticas com medidas e programas centrados no 33 Enquadramento sucesso escolar. Como exemplos destacam-se o Programa Interministerial de Promoção do Sucesso Escolar (PIPSE74) ou o Programa de Educação Para Todos (PEPT75) que, mais tarde, derivaram em outros programas de apoio ao nível de cada estabelecimento escolar, como por exemplo os currículos alternativos, os TEIP 76, ou, especificamente para a Matemática, os Planos de Ação para a Matemática (PAM). Em 2006 o PAM decorreu de várias reflexões realizadas por parte das estruturas da administração do Ministério da Educação e por parte dos professores de Matemática sobre os resultados dos exames de Matemática do 9.º ano de escolaridade de 2005 e, para um triénio e aplicado ao 3º ciclo do ensino básico tinha como principal objetivo melhorar o ensino da matemática, sendo constituído por seis ações77, nomeadamente: Programa Matemática - equipas para o sucesso; Promover a formação contínua em Matemática para professores de todos os ciclos do ensino básico e secundário; Novas condições de formação inicial dos professores e de acesso à docência; Proceder ao reajustamento e às especificações programáticas para a matemática em todo o ensino básico; Criar um banco de recursos educativos para a matemática; Proceder à avaliação dos manuais escolares de matemática para o ensino básico. Uma ação resultante do PAM foi o Plano da Matemática (PM I) que em 2007 foi alargado ao 2º ciclo do ensino básico e em 2009 foi-lhe dada continuidade através do PM II, já com o alargamento ao 1º ciclo do ensino básico. Por outro lado, ao nível dos currículos do ensino básico, segundo Ferreira (2007, p. 96), referindo outros autores78, “o ensino básico de 9 anos com unidade, articulação e sequencialidade ficou por construir”. Daí também que, em 2001, se tenha procedido à reorganização curricular do ensino básico, abordando a unidade do ensino básico, a gestão curricular, as competências e as áreas curriculares não disciplinares. Esta reorganização surge também como resposta à falta de atenção dada à escola, enquanto espaço onde o currículo é implementado e que coloca necessidades claras de mudança na organização e funcionamento das mesmas, tal como é referido por Ferreira (2007). É de destacar, no âmbito do currículo nacional do ensino básico, a apresentação79 e implementação, em 2001, do conjunto de competências consideradas essenciais e que passariam a estar no centro do ensino nos três ciclos do ensino básico. Estas competências, tal como é referido em Ministério da Educação (2001), são adotadas num sentido lato de saber 74 Resolução do Conselho de Ministros de 10 de Dezembro de 1987. 75 Resolução do Conselho de Ministros nº 29/91, de 9 de Agosto. 76 TEIP1 – Despacho nº 147-B/ME/96, de 1 de Agosto; TEIP2 – Despacho normativo nº 55/2008, de 23 de Outubro; TEIP3 – Despacho normativo nº 20/2012, de 25 de setembro. 77 www.dgidc.min-edu.pt/outrosprojetos/index.php?s=diretorio&pid=29 (acedido em 13 de janeiro de 2012). 78 Ferreira (1996, 2001), Roldão et al. (1997), Segurado (1998) e Abrantes (2001). 79 Decreto-lei nº 6/2001, de 18 de Janeiro. 34 Enquadramento em ação que integra conhecimentos, capacidades e atitudes. Ou seja, pretendia-se promover o desenvolvimento de forma integrada de capacidades e atitudes fundamentais que viabilizassem o uso de conhecimentos em situações variadas e que tivessem associadas ao desenvolvimento da autonomia em relação à utilização do saber. Estas competências incluem: competências gerais, formuladas por ciclo, com articulação entre os três ciclos e que constituem uma base de trabalho nuclear no desenvolvimento do currículo; e competências específicas, formuladas por áreas disciplinares ou disciplinas, associando-lhes alguns tipos de experiências de aprendizagem a proporcionar aos alunos. Além disso, inseridos nos temas a trabalhar com os alunos estão alguns temas transversais às diversas áreas disciplinares. Assim, num contexto de indicação de crescente autonomia e de desenvolvimento de novas práticas de gestão curricular nas escolas, em 2001, foram criadas80 as Áreas Curriculares Não Disciplinares (ACND) indicando que as escolas precisam de se assumir como espaços privilegiados de educação para a cidadania e de integração e articulação, na sua oferta formativa, de experiências de aprendizagem diversificadas, por exemplo, mais momentos de efetivo envolvimento dos alunos e também atividades de apoio ao estudo. Complementarmente, Bettencourt, Guimarães, Pinto e Caeiro (2008), apontam que a pertinência da criação das ACND, nas suas três áreas distintas – Área Projeto, Estudo Acompanhado e Formação Cívica – está associada à promoção de competências de pesquisa e organização da informação, de cidadania e de planeamento do estudo e do trabalho escolar. No entanto, e tal como no caso já referido da Área Escola, no relatório destes autores, apesar de referidas virtudes das ACND, estas são apresentadas, de uma forma geral, como sendo desvalorizadas, e até contraproducentes, pelos professores, alunos e encarregados de educação. Além disso, houve falta de interesse e a desmotivação dos professores e dos alunos, em particular em relação à Área Projeto e ao Estudo Acompanhado, nomeadamente no 3º ciclo. Relativamente à questão daqueles que desempenham um papel preponderante e decisivo no desenvolvimento e concretização do trabalho curricular, os professores, foi também sendo adiada, desde a LBSE de 1986. Em 1988 consolidou-se a divisão da formação de professores81 para os primeiros e para os últimos ciclos, passando a formação inicial de professores do ensino secundário a ser um exclusivo das universidades, tendo estas reorganizado o Ramo de Formação Educacional, como afirmam Pintassilgo, Mogarro e 80 Decreto-lei nº 6/2001, de 18 de Janeiro. 81 Decreto-lei nº 287/88, de 19 de Agosto. 35 Enquadramento Henriques (2010). Segundo Alarcão et al. (1997), o ordenamento jurídico da formação de professores82 de 1989 já previa várias vertentes, nomeadamente a científica, a tecnológica e a humanista ou a artística. Mas segundo os mesmos autores, para além dessas vertentes a atividade docente assenta também numa formação cultural, pessoal e social bastante sólida, exigindo também formação em outras áreas do saber. Desta forma, procurava-se encarar os desafios do complexo processo de aprendizagem e das suas várias facetas, bem como da variedade de funções e tarefas que os professores também têm que desempenhar nas escolas. Nesta linha de pensamento pode destacar-se que na “multiplicidade de saberes necessários ao exercício da profissão merece referência a didáctica específica da disciplina ou das áreas disciplinares do professor” (Alarcão et al., 1997, p. 8), bem como a prática pedagógica. Esta deve estar sempre incluída de forma integrada, permitindo a aplicação de conhecimentos e o contacto vivencial com o mundo da escola enquadrados em termos formativos pelas instituições envolvidas. Alarcão et al. (1997) consideraram, ainda, que estes aspetos são fundamentais na formação de professores de qualquer dos níveis de ensino, sendo importante contrariar a ideia de muitos de que é fácil ensinar-se no primeiro ciclo do ensino básico, até porque “se o primeiro professor que a criança encontra tiver uma formação deficiente ou se revelar pouco motivado, são as próprias fundações sobre as quais se irão construir as futuras aprendizagens que ficarão pouco sólidas” (Alarcão et al., 1997, p. 10, referindo Delors, 1996). A formação de professores que abrangia do 1º ao 6º ano de escolaridade, segundo Ferreira e Mota (2009, p. 78), justificava-se “como apoio ao efectivo alargamento da escolaridade, bem como uma tentativa para evitar a passagem brusca do ensino de classe para o de disciplina”. Contudo, no documento de trabalho do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) é defendido que a formação para a docência em vários ciclos ou níveis e variantes diferentes, à partida interessantes do ponto de vista das saídas profissionais, “pode levar a uma descaracterização excessiva do perfil profissional, não garantindo o mínimo de qualidade para nenhuma das possíveis funções. Na realidade, a operacionalização que se fez deste princípio da polivalência da formação para o 1º e 2º ciclos foi manifestamente infeliz” (Alarcão et al., 1997, p. 12). 82 Decreto-lei nº 344/89, de 11 de Outubro. 36 Enquadramento Esta situação fica patente, quando, em 1986 83, os primeiros seis semestres, dos oito semestres do curso para o segundo ciclo, em oito variantes, pretendiam garantir uma formação equivalente à da habilitação para professor do primeiro ciclo. Esta situação, para além da desvalorização deste ciclo como saída profissional, conduz a que não se consiga “uma boa preparação nem dum docente do 2º ciclo (com uma formação específica insuficiente) nem de um docente do 1º ciclo (que fica com graves lacunas em muitas áreas)” (Alarcão et al., 1997, p. 12). Em 1997 foram colocados em condição de igualdade, ao nível da habilitação profissional mínima84, a licenciatura, todos os educadores e professores do ensino não superior em Portugal. Em 1999, a declaração de Bolonha foi subscrita por 29 países europeus com o intuito fundamental de criar o espaço europeu de ensino superior até 2010. Esta declaração assenta numa mudança de paradigma de formação, no ensino superior, centrada “na globalidade da actividade e nas competências que os jovens devem adquirir, articuladas com a evolução do conhecimento e dos interesses dos indivíduos e da comunidade” (Ferreira e Mota, 2009, p. 80). Em Portugal, a implementação dos princípios da Declaração de Bolonha na prática deuse em 200585. Com o ensino superior estruturado em três ciclos, o mestrado passou a ser, a partir de 200786, a habilitação profissional de todos os professores, dada a “urgência num corpo docente de qualidade, mais qualificado e estável, tanto mais que os resultados de aprendizagem andam associados à qualificação do corpo docente” (Ibidem, p. 81). Neste novo regime jurídico, de 2007, definiu-se a habilitação profissional para a docência do ensino pré-escolar ao secundário tal como consta na Tabela 1.1. Neste regime parece haver uma aproximação do “1º e 2º ciclo, pelo lado da Língua Portuguesa, Matemática, História e Geografia de Portugal, Ciências da Natureza […] ficando de fora as Expressões e a Educação Física” (Ferreira, 2007, p. 98) e, além disso, “sugere, por um lado, uma maior articulação entre os actuais 1º e 2º ciclos de ensino básico, e, por um lado, uma maior aproximação do 3º ciclo com ensino secundário” (Ibidem, p. 99). Contudo, na sequência do modelo de formação de professores do pré-escolar e dos dois primeiros ciclos do ensino básico que foi implementado, Ferreira e Mota (2009) consideraram existir algumas incongruências e desequilíbrios. 83 Portaria 352/86, de 8 de Julho. 84 Lei nº 115/97, de 19 de Setembro. 85 Decreto-lei nº 42/2005, de 22 de Fevereiro de 2005. 86 Decreto-lei nº 43/2007, de 22 de Fevereiro de 2007. 37 Enquadramento Tabela 1.1: Habilitação profissional para a docência do ensino pré-escolar, ensino básico e secundário Níveis e Ciclos de Ensino Educação 1º Ciclo do EB 2º Ciclo do EB 3º Ciclo do EB Secundário Pré-escolar Educação Pré-escolar Educação Pré-escolar e 1º Ciclo do EB 1º Ciclo do EB 1º e 2º ciclos do EB Ensino Básico Ensinos Básico e Ensino Secundário 3º Ciclo do EB e Ensino Secundário Ensino Secundário Fonte: Elaborada pelo autor com base na Tabela 1 de Ferreira (2007, p. 99) Em Portugal, o início do século XXI é também o começo de um novo ciclo considerado, por Barroso (2003, p. 72), como o do descontentamento, sendo “a passagem de um sentimento de uma ‘crise de problemas’ para o de uma ‘crise de soluções’”, em que se sentiu mais a necessidade de apostar na qualidade, depois de se ter apostado essencialmente na quantidade. Para Mendonça (2009), no início deste novo ciclo, para além da utilidade económica, que é dominante, acrescentou-se às premissas políticas de educação a utilidade social, em particular no combate à exclusão social. Ora, nesta lógica de inclusão passam a ter grande importância a formação contínua de professores e a criação de espaços educativos alternativos, bem como a institucionalização de currículos alternativos. Outro aspeto emergente foi a necessidade de incluir nas aprendizagens temas sociais como a paz, a interculturalidade, a cidadania, a saúde ou a defesa do ambiente. No entanto, e apesar destas inclusões nos currículos, segundo Mendonça (2009) continuou a haver desigualdades sociais perante a escolarização, embora Estrela (2007, p. 17) considere que “o sucesso alcançado na igualdade de acesso à escola e no aumento do nível de habilitações dos portugueses que se verificou nos últimos decénios, não deveriam ser subestimados”. Nessa linha de pensamento, Sebastião e Correia (2007) afirmam que até 2001 houve um crescimento assinalável de frequência do ensino superior, acompanhada por um número crescente de mulheres que o frequentavam, factos que se têm vindo a consolidar. Os mesmos autores também realçam a existência de assimetrias regionais em termos da estrutura das qualificações escolares das suas populações, em que se destaca das outras a Região de Lisboa e Vale do Tejo, com tendência a não diminuir. Além da afetação 38 Enquadramento diferenciada dos recursos escolares pelas várias regiões, também as transformações demográficas, com as migrações e o envelhecimento, têm conduzido a fortes reestruturações da rede escolar, em especial através da concentração de alunos. A política relativa ao corpo docente também contribui para as referidas assimetrias regionais, uma vez que tem vindo a ser centralizada e promotora de instabilidade, penalizando, em especial, as regiões do interior e as que estão fora dos grandes centros urbanos. Ainda assim, Azevedo (2007) afirma que perto de 45% dos adolescentes abandona o nível secundário entre o 10º e 12º anos e que “o ensino profissional tende a ser a nova bandeira das escolas secundárias estatais para promover a ‘orientação negativa’ para os jovens escolarmente ‘insucedidos’” (Azevedo, 2007, p. 113). Além disso, este autor questiona se os cerca de 40% de alunos que abandonam os seus cursos superiores serão diminuídos quando a “diminuição das horas de aula, a mudança do paradigma de ensino-aprendizagem […], a incidência no trabalho autónomo de cada aluno e dos grupos de alunos, introduziram golpes brutais em práticas que têm 12 anos de duração, que deixam muitos alunos entregues a si próprios, perdidos, já sem o apoio dos pais e agora também sem o apoio dos professores” (Ibidem, p. 114). Ainda no início do século XXI, e na procura da igualdade de oportunidades para os alunos, segundo Mendonça (2009) passou a haver uma referenciação ao respeito pelos interesses e vocações individuais dos mesmos através de uma flexibilização que garantisse uma oferta diversificada que correspondesse a esses anseios e vontades. Complementarmente, o estado, de forma interventiva, criou observatórios da qualidade das escolas e comparticipou nas despesas da escolarização de modo a garantir “condições mais igualitárias ao nível do funcionamento do sistema educativo” (Mendonça, 2009, p. 30). Uma das características do quadro organizativo do sistema educativo, na primeira década do século XXI, é uma cada vez maior municipalização, patente na criação de inúmeros agrupamentos verticais concelhios. Assim, tal como indica Silva (2007), o sistema educativo, apesar do seu carácter muitas vezes centralizador, tem atribuído aos municípios crescentes responsabilidades, nomeadamente em áreas de natureza logística no apoio ao funcionamento do sistema escolar, bem como nas componentes extra-curriculares e no fornecimento de mãode-obra, indo talvez ao “encontro de escolas da comunidade, organizadas territorialmente de 39 Enquadramento acordo com as circunscrições municipais, administradas e geridas por colectivos representativos das forças locais” (Silva, 2007, p. 197). Uma outra marca deste período é a de que, tal como Pacheco (2007, p. 228) afirma, “as políticas educativas e curriculares portuguesas são cada vez mais integradas num ciclo de mandato, cujo eixo de influência se situa no quadro comum das políticas de educação e formação da União Europeia”. Exemplo disso, no âmbito do que se convencionou chamar o processo de Bolonha, e tal como já mencionado, em 200787 elevou-se o patamar da qualificação exigida a todos os professores de níveis de ensino não superior, passando-se a exigir que a formação profissional de professores fosse obtida com cursos de mestrado (2º ciclo de Bolonha com dois anos) pós licenciatura (1º ciclo de Bolonha com três anos). Neste contexto de globalização, o mesmo autor vê como favorecida também a “emergência de identidades ligadas a contextos de ensino mais marcados pelas questões técnicas (gestão de sala de aula, conhecimento da disciplina, resultados dos testes dos alunos) do que pelas questões de natureza pessoal, profissional, social e emocional” (Ibidem, p. 231). Apesar das naturais oscilações e ciclos económicos, na sequência do vincado crescimento económico vivido, na última década do século XX e na primeira década do século XXI, no mundo industrializado, houve ainda um crescimento das taxas de escolarização. Este crescimento coincidiu também com um aumento efetivo de oportunidades sociais, o que impulsiou a procura de formação. No entanto, com os abrandamentos do crescimento económico ou crises profundas há um desfasamento gradual entre o aumento da procura de educação e a diminuição de oportunidades, o que, por vezes, também leva a uma gradual desvalorização dos diplomas, como sustentam Sebastião e Correia (2007). De um outro ponto de vista, para Sebastião e Correia (2007), a massificação ou universalização da educação nas últimas décadas trouxe novos problemas, entre os quais a dificuldade de gestão de sistemas educativos cada vez maiores e, mais onerosos, a dificuldade de gerir pedagogicamente um ambiente estudantil cada vez mais heterogéneo em termos tanto sociais como culturais. Esta tendência, que contrasta com uma unificação curricular, conduziu a efeitos perniciosos, por exemplo, o insucesso escolar e o abandono escolar. Por outro lado, há ainda a pressão da diminuição drástica da natalidade, em especial desde o início do século XXI, que levará a profundas mudanças demográficas com os respetivos desequilíbrios na rede 87 Decreto-lei nº 43/2007, de 22 de fevereiro de 2007. 40 Enquadramento da oferta escolar e o processo de adaptação, em particular nas regiões do interior do país, com regresso à tendência do seu despovoamento. A abordagem realizada, neste ponto, às mudanças e evolução do sistema educativo português ao longo, aproximadamente, dos últimos 100 anos não foi holística, detalhada e exaustiva, pois não era esse o seu objetivo. Pretendeu-se, apenas, de uma forma resumida, descritiva e factual destacar as fases, os momentos e as ações que marcaram essa evolução, e que ajudam a compreender o ensino português na entrada da segunda década do século XXI. 1.2. O ensino da Matemática em Portugal Segundo Ponte (2003), o ensino da Matemática na escola tem quatro papéis sociais: 1) O ser promotor do desenvolvimento das crianças e dos jovens através de uma maneira de pensar que será importante para a sua vida social e exercício da cidadania; 2) O servir de base para que se desenvolva verdadeiramente uma cultura científica e tecnológica; 3) O desempenhar a função de instrumento de seleção para a entrada em numerosos cursos superiores; 4) O servir também como símbolo de desenvolvimento e de argumento para a disputa política entre diversas forças sociais (principalmente através das suas estatísticas). Em termos teóricos, nomeadamente em alguns programas e outros documentos oficiais, muitos reconhecem a primeira das funções como a fundamental no ensino da Matemática, mas não é isso que muitas vezes se tem verificado na prática. Para tentar ir invertendo esta realidade é necessário ter consciência de que a Matemática 88 tem evoluído ao longo dos tempos, com um aumento assinalável nas suas aplicações e retomando a visualização e a intuição, bem como o enquadramento e utilização da tecnologia no seu âmbito. Há também que ter presente o complexo e desafiante papel que o professor desempenha em termos de gestão curricular, de ambiente de aula, de avaliação e de cultura profissional, e tudo isso num contexto educativo condicionante que envolve a vários níveis o grupo disciplinar, a escola, o sistema educativo e a própria sociedade. A juntar a tudo isto há que enquadrar e envolver no processo de aprendizagem os alunos, cujas características ao longo dos tempos se têm modificado, por exemplo, em termos da sua composição social, estilos de vida, valores culturais e interesses, fruto da sua inserção numa sociedade em rápida 88 Que tem as suas especificidades, com tendência para a generalização, abstração e formalização. 41 Enquadramento e dinâmica mudança que os influencia e condiciona. Num estudo de Benavente et al. (1996) citado por Ponte (2003), menos de 40% dos portugueses adultos obtiveram resultados minimamente aceitáveis ao nível da literacia matemática. Neste contexto o ensino da Matemática desde há muito tempo está envolto em polémica, descontentamento, frustração e preocupação, tanto de professores, como de alunos e também de outros intervenientes externos (pais, comunidade educativa escolar e não escolar, entre outros), devido ao relativo insucesso que sempre lhe tem estado associado. Em contraponto a esta situação surge a importância que tem sido atribuída à necessidade do conhecimento matemático e à forma como a Matemática é ensinada, ainda que com perspetivas distintas ao longo dos tempos. Ora a abordagem desta questão impõe uma análise sob vários prismas que permitam ter uma ideia holística da forma como tem evoluído o ensino da Matemática em termos históricos, organizativos, formativos e epistemológicos. Na sequência do referido, e no âmbito do presente trabalho, neste ponto pretende-se abordar o ensino da Matemática em Portugal e tópicos da sua história, bem como os de momentos mais recentes. Contudo, também se aborda o papel e a formação de professores de Matemática, sempre com especial atenção aos 1º e 2º ciclos do ensino básico. Neste âmbito, apresentam-se as principais tendências de política educativa no ensino da Matemática, em particular ao nível curricular. Também se faz um enquadramento da formação do professor de Matemática nos últimos tempos, tanto à entrada e durante a formação inicial como à saída e na formação contínua, bem como do que se espera desse professor, tanto ao nível pessoal como profissional, nomeadamente o seu perfil de desempenho e o conhecimento e desenvolvimento profissional do mesmo, considerando este último como “um processo para melhorar os conhecimentos, as competências e as atitudes dos professores, tendo por finalidade última a qualidade da educação na sala de aula e a melhoria das aprendizagens dos alunos” (Martins e Santos, 2012, p. 95). 1.2.1. Perspetiva histórica Henriques e Almeida (2004), referindo-se aos finais do século XIX e inícios do século XX, afirmam notar-se cada vez mais preocupação com a formação científica dos candidatos a professor de Matemática. No entanto, em termos pedagógicos e didáticos, realçam uma citação de Adolfo Coelho que afirmava que “[d]ificilmente se apurarão, em todo o Portugal, 10 professores que estejam verdadeiramente ao corrente da ciência da educação, e a maior 42 Enquadramento parte dos secundários e superiores nunca leram um livro de pedagogia” (Henriques e Almeida, 2004, p. 335, citando Coelho, 1890, p. 53). Em 1911 as Ciências Matemáticas estavam inseridas nas Faculdades de Ciências das três universidades que passaram a existir a partir da reforma universitária89 desse ano. Ainda segundo as mesmas autoras, ao longo do século XX continuou “a preocupação de promover a investigação e deu-se cada vez mais atenção à formação adequada dos professores, tanto nos conteúdos a leccionar, como a sua didática” (Henriques e Almeida, 2004, p. 336). Segundo Ponte (2003) o ensino da Matemática em Portugal nos anos 40 e 50 era marcado pela memorização e mecanização. No entanto, indica que um estudo de Alves (1947) concluía que alunos do 2º ano do Liceu, que corresponde ao atual 10º ano de escolaridade, revelavam graves deficiências na técnica de cálculo; que um trabalho publicado nos Cadernos de Psicologia e Pedagogia (1958) apresentava a Matemática com um maior número de notas negativas, com 34% nos alunos do 2º ciclo do liceu90 e com valores ligeiramente superiores nos do 1º ciclo do liceu91; e que um pedagogo português como Bento de Jesus Caraça, relativamente aos candidatos às provas de admissão à universidade, afirmava que muitos apresentavam “erros persistentes em questões de Matemática elementar” (Caraça, 1943, citado por Ponte, 2003, p. 3). Desta maneira fica reforçada a ideia de que o discurso sobre “maus” resultados já é feito desde há muito tempo. Já nos anos 60 o ensino da Matemática ficou marcado pelo movimento internacional da “Matemática Moderna”, tendo os currículos de Matemática sido profundamente reformulados, numa perspetiva formalista da Matemática pautada por uma linguagem carregada do simbolismo da Lógica e da Teoria dos Conjuntos e levando à eliminação de algumas disciplinas e ao surgimento de outras, como por exemplo as Estruturas Algébricas, a Álgebra Linear e as Probabilidades, tal como refere Ponte (2003). O mesmo autor ainda realça o papel desempenhado por Sebastião e Silva (1914-1972) como sendo o protagonista de uma das iniciativas mais conhecidas em Portugal no âmbito deste movimento, que passou pela redação de manuais para alunos e professores, mas mantendo uma posição equilibrada relativamente aos conteúdos e sem extremismos relativamente ao formalismo, mostrando também a importância das aplicações da Matemática. Além disso, salienta ainda o facto de que Sebastião e Silva “revelava também uma significativa preocupação com a renovação dos métodos de ensino, criticando o método expositivo tradicional” (Ponte, 2003, p. 6) em 89 Decreto de 19 de Abril de 1911. 90 Atual 3º ciclo do ensino básico. 91 Atual 2º ciclo do ensino básico. 43 Enquadramento contraponto com o método de redescoberta baseado em ideias sobre resolução de problemas de Pólya (1945). Este movimento apesar de ter introduzido uma renovação de temas, uma abordagem mais atualizada dos conceitos e uma preocupação em interligar as ideias matemáticas, não conseguiu conduzir à melhoria esperada nas aprendizagens à entrada da universidade. Assim, nos anos 70 começou a emergir uma “onda” de oposição a este movimento, destacando Ponte (2003, p. 7) como críticos a esse movimento matemáticos como Kline (1973) ou, em Portugal, St. Aubyn (1980). No início dos anos 70, e imbuídos do espírito da Matemática Moderna, foram elaborados novos programas de Matemática para todos os níveis de ensino não superior, que vigoraram até aos anos 80. Nestes novos programas promoveu-se o que era abstrato e formal e o cálculo, e despromoveram-se as aplicações da Matemática e o desenvolvimento da intuição, numa “curiosa mistura de matemática formalista no estilo moderno com Matemática computacional no estilo tradicional” (Ponte, 2003, p. 7). Já no começo dos anos 80 iníciou-se um movimento de forte reflexão curricular na sequência da manutenção dos maus resultados dos alunos e da insatisfação dos matemáticos, que levaram ao surgimento de pedidos de revisão dos programas de Matemática, como, por exemplo, por parte da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM). Outra consequência foi a reforma introduzida pela LBSE de 1986, que conduziu à reformulação geral dos programas no final dessa década. Segundo Ponte (2003), o referido movimento de reflexão curricular, teve como um dos seus pontos altos o Seminário de Vila Nova de MilFontes, em abril de 1988, que foi organizado pela Associação de Professores de Matemática (APM), que tinha sido criada em 1986 e que tinha já organizado o primeiro Encontro Nacioanal de Professores de Matemática (ProfMat) em 1987 realizado em Viana do Castelo. Aquele seminário teve como influências maiores a versão preliminar das Normas do National Council for Teaching Mathematics (NCTM), de 1987, e o livro “The mathematical experience” de Davis e Hersh de 1981. Além disso, aquele seminário teve como “temas centrais para discussão: 1. Os grandes objectivos e as orientações fundamentais para o Ensino da Matemática. 2. A natureza e organização das actividades de aprendizagem e o novo papel do professor. 3. Os computadores e as calculadoras e o processo de ensino-aprendizagem da Matemática. 4. O estilo e a organização desejáveis para o currículo de Matemática nos vários níveis” (APM, 2009, p. 4). 44 Enquadramento Este documento (APM, 2009, reedição da versão original de 1988), traça também um “retrato” da situação do ensino da Matemática daquela altura e do seu passado recente, considerando-se que aqueles eram tempos de crise, com: percentagens elevadas de alunos com classificações negativas e/ou sem o mínimo de interesse ou gosto pela Matemática nos vários anos de escolaridade; aprendizagens baseadas no domínio de questões formais de linguagem e das estruturas matemáticas, bem como técnicas destinadas a resolver exercíciostipo; ausência nas aulas e na avaliação dos objetivos de natureza afetiva e social, assim como as capacidades relacionadas com níveis cognitivos elevados; o esvaziamento dos programas ou o relegar para segundo plano de tópicos e métodos matemáticos supostamente mais difíceis ou considerados menos essenciais, alegadamente numa lógica de contradição da degradação do ensino e da aprendizagem da Matemática. Em APM (2009) também se referem alguns pressupostos, princípios e orientações para o currículo de Matemática, os grandes objetivos para o ensino da Matemática, a natureza e organização das atividades de aprendizagem, o novo papel do professor e a relação das tecnologias com o currículo de Matemática. Neste âmbito, Ponte (2003) salienta a importância de proporcionar aos alunos uma experiência matemática genuína e significativa, bem como o desenvolvimento dessa experiência suportado no potencial das novas tecnologias, como sendo as duas ideias a salientar do documento resultante do seminário mencionado, e a partir das quais resultaram as três seguintes propostas: “(i) valorizar objectivos curriculares referentes a capacidades (resolução de problemas e raciocínio matemático) e atitudes positivas em relação à Matemática; (ii) dar prioridade, na sala de aula, a tarefas ricas e desafiantes, envolvendo resolução de problemas, explorações matemáticas, raciocínio e comunicação; (iii) encarar o programa e os manuais como instrumentos de trabalho e não como prescrições a seguir cegamente” (Ponte, 2003, p. 8). Os novos programas de matemática de 1990, para o 1º ciclo do ensino básico (CEB), e 1991, para o os 2º e 3º ciclos do EB, incorporaram algumas destas novas perspetivas, por exemplo, dando relevo à resolução de problemas no ensino básico, revalorizando a geometria e admitindo quando possível e necessário o uso das novas tecnologias. O programa do 1º ciclo indicava como finalidades para o ensino da Matemática nos três ciclos do ensino básico “desenvolver a capacidade de raciocínio, desenvolver a capacidade de comunicação, 45 Enquadramento desenvolver a capacidade de resolver problemas” (Ministério da Educação, 1990, p. 162). Além disso, nesse programa encontramos definidos os blocos de conteúdos Operações e números, Grandezas e medida e Espaço e forma, bem como enumerados oito objetivos gerais, sendo eles: “1. Manifestar a curiosidade e gosto pela exploração e resolução de problemas simples do universo familiar. 2. Recolher dados simples e organizá-los de forma pessoal recorrendo a diferentes tipos de representação. 3. Efectuar medições, escolhendo instrumentos adequados, para resolver problemas simples da vida corrente. 4. Fazer e utilizar estimativas em situações de cálculo ou de medição. 5. Explorar, construir e transformar modelos geométricos e estabelecer relações entre eles. 6. Explicar e confrontar as suas ideias com as dos companheiros, justificar as suas opiniões e descrever processos utilizados na realização de actividades. 7. Desenvolver estratégias pessoais de resolução de problemas e assumir progressivamente uma atitude crítica perante os resultados. 8. Resolver situações e problemas do dia-a-dia, aplicando as operações aritméticas e as noções básicas de geometria, utilizando algoritmos e técnicas de cálculo mental” (Ministério da Educação, 1990, p. 167). No entanto, Silva (2010, p. 55) considera que “a forma como estão descritos é sucinta e passível de várias interpretações, consoante a visão de cada professor”, mas também afirma que a “reforma curricular de 1990 veio alterar o ensino da Matemática em Portugal, não só ao nível dos conteúdos e das metodologias mas também a nível de estrutura do próprio programa” (Silva, 2010, p. 58). Já nos programas de Matemática para os 2º e 3º ciclos do EB, Ministério da Educação (1991a, p. 10; 1991b, p. 10), são apresentados os objetivos gerais agrupados segundo os conhecimentos, as capacidades ou aptidões e as atitudes e valores. Relativamente aos conhecimentos refere-se o de ampliar o conceito de número e desenvolver o cálculo em ambos os ciclos, sendo que no 2º CEB surge também o desenvolver do conceito de proporcionalidade direta, iniciar-se em processos e técnicas de tratamento de informação e 46 Enquadramento desenvolver o conceito de espaço, e que no 3º CEB são apresentados o desenvolver o conceito de função e o desenvolver processos e técnicas de tratamento de informação. No que diz respeito às capacidades ou aptidões apresentam-se como comuns aos dois ciclos do EB o desenvolver a capacidade de resolver problemas, o raciocínio e a capacidade de comunicação, havendo no 2º CEB a referência ainda ao desenvolver a capacidade de utilizar a Matemática na interpretação e intervenção no real. Em termos das atitudes e valores surgem, de forma comum nos dois ciclos, o desenvolver a confiança em si próprio, a curiosidade e o gosto por aprender, hábitos de trabalho e persistência e o espírito de tolerância e de cooperação. Todos estes objetivos são ainda explicitados e concretizados em conformidade com o respetivo CEB. O programa do 2º CEB refere para os conteúdos os temas da Geometria, Números e cálculo e Estatística, acrescentando a Proporcionalidade no 6º ano de escolaridade, havendo indicação de um predomínio claro dos dois primeiros temas. No programa do 3º CEB são referidos os temas de Geometria, Números e cálculo, Funções e Estatística, e tal como no 2º CEB há também uma clara indicação para um predomínio dos dois primeiros temas. Em termos comparativos entre os vários programas, Santos, Canavarro e Machado (2007, p. 3) destacam que “existem diversas formas de enunciar as finalidades desta disciplina, podendo mesmo encontrar-se não só diferenças na forma, como também no conteúdo”. Por outro lado, Santos (2004) realça que, relativamente à avaliação, as orientações foram no sentido desta assumir formas variadas e adequadas, mas com um carácter eminentemente formativo, indicando a autoavaliação e a coavaliação como formas de colocar os alunos a participar e a sentirem-se implicados no seu próprio processo de formação. Além disso, indica que o objeto de avaliação deveria incidir sobre conteúdos de aprendizagem, conhecimentos e capacidades e atitudes. Num contexto de reforma, e para que esta não fique apenas no papel e se materialize na prática educativa, é preciso reequacionar o papel e as modalidades da formação de professores, tal como salienta Rocha (1996) citando Canário (1991). Concretamente, as mudanças curriculares do fim dos anos oitenta e início dos anos noventa, segundo Gomes, Ralha e Hirst (2001), não foram acompanhadas por uma reformulação adequada da formação de professores, tanto ao nível da formação inicial, como da formação contínua. A APM (1998) acrescenta que para aquelas mudanças também não houve a criação, nas escolas, das condições por elas requeridas. Em termos da formação inicial, Gomes, Ralha e Hirst (2001) põem em causa a coerência dos currículos, a adequação de certas disciplinas ou conteúdos e ainda o peso da 47 Enquadramento carga horária atribuída, que consideravam manifestamente insuficiente. A este propósito, já em APM (1998) se referia que muitos dos professores em exercício que lecionam Matemática teriam tido uma formação deficitária em Matemática, em questões de educação e em Didática da Matemática, sendo este facto assinalado em todos os níveis de ensino não superior. Neste relatório, ainda que sejam referidas correções parciais deste problema com a entrada em funcionamento das escolas superiores de educação, são também referidos outros como professores do 2º CEB das variantes de Português/Francês ou Português/Inglês poderem lecionar Matemática ao nível do 1º CEB. Além disso, no 2º ou 3º ciclos do EB, os licenciados, por exemplo, de Biologia, Sociologia, Agronomia e Economia podiam ser aceites com habilitação para o ensino da Matemática e no ensino secundário haviam muitos professores profissionalizados sem a formação desejável nos três domínios atrás referidos. Como complemento, e dos resultados de um inquérito realizado a professores no âmbito do relatório Matemática 2001, em APM (1998), realça-se que apenas 26% dos respondentes do 2º CEB se licenciaram em Matemática ou no ensino da Matemática, seguidos com percentagens muito semelhantes os de formação em engenharias e em Economia/Gestão. Já no 3º CEB a percentagem de professores com formação predominante em Matemática era de 55% e no ensino secundário era de 68%. Desde então, estas percentagens de formação inicial em Matemática terão aumentado. Em relação à formação contínua, e em particular para os professores do 1º CEB, Gomes, Ralha e Hirst (2001) constatam, referindo o relatório do projeto Matemática 2001 (Abrantes et al., 1998), uma adesão pouco significativa, atribuindo esse facto à escassa oferta de formação específica de Matemática e/ou à sua desadequação às necessidades e interesses desses professores, e cuja única motivação parecia ser muitas vezes apenas obter créditos necessários à progressão na carreira. Nesse sentido, e também referindo o relatório Matemática 2001, Ponte (1998) indica que a principal necessidade de formação sentida pelos professores dos 2º e 3º ciclos EB e secundário era a utilização de tecnologia. Os professores do 2º CEB apresentavam também preocupações com a didática da Matemática e assuntos não diretamente ligados à Matemática como a avaliação, as necessidades educativas especiais e problemas comportamentais. Nos professores dos outros níveis de ensino as outras necessidades sentidas estão mais no âmbito da formação matemática, surgindo com algum destaque as Probabilidades. No entanto, no âmbito da investigação de Rocha (1996) acerca de um programa de formação contínua de professores do 1º CEB na área da educação matemática, e na sequência da reflexão sobre os saberes e as práticas e a discussão de alguns 48 Enquadramento textos, também as professoras envolvidas sentiram necessidade de alargar os seus conhecimentos em relação a alguns conteúdos matemáticos, nomeadamente a Estatística e a Geometria, que as limitavam na seleção e exploração de algumas atividades. No que diz respeito ao ensino secundário, segundo Ponte (2003) o respetivo programa de Matemática foi aplicado com sobressaltos, em particular devido à sua exagerada extensão para a respetiva carga horária, o que provocou uma reação negativa por parte dos professores e uma reação ministerial não assertiva, e que finalmente conduziu a um novo processo de revisão ou “reajustamento” curricular do ensino secundário. Martins (2004) realça outra das razões para a necessidade deste reajustamento e que passava pelo efetivo não cumprimento do programa em vigor na altura, havendo grandes diferenças de execução entre as diferentes regiões e escolas, o que não permitia ao sistema aplicar exames nacionais tal como se vieram a realizar em 1998/1999. Assim, o programa resultante, elaborado por uma equipa técnica coordenada por Jaime Silva, foi publicado em 1997, e para além de manter a atenção à iniciação à análise infinitesimal, ao cálculo algébrico e à trigonometria, atribuiu também atenção significativa à geometria, à estatística e às probabilidades, dando, de forma inovadora em Portugal, ênfase à utilização das calculadoras gráficas. Também chamou a atenção para a importância dos professores aplicarem processos diversificados de avaliação, dando como indicação que a avaliação através de testes escritos clássicos não deveria ultrapassar os 50% da avaliação feita, como refere Santos (2004). Além disso, nunca antes “houve em Portugal um processo tão cuidadoso, à escala nacional, de introdução de um novo programa num ciclo de ensino” (Ponte, 2003, p. 10). Para tal foram criados mecanismos de apoio à sua aplicação, entre outros uma comissão de acompanhamento, um conjunto de professores acompanhantes, a publicação de brochuras e materiais variados de apoio, bem como a realização de ações de formação através de cursos ou oficinas versando conteúdos, metodologias e avaliação. Este ajustamento, apesar de algumas críticas, conseguiu estabilizar a situação no ensino secundário e Ponte (2003) considera que não se pode atribuir só ao programa a obtenção de resultados menos positivos por parte dos alunos, pelo que considera que têm que ser analisadas outras causas. Paralelamente, ao longo dos anos 90 e início do século XXI foram realizados processos de avaliação por meio de avaliações externas no 4º e no 6º anos de escolaridade, de exames nacionais, no final da escolaridade obrigatória e no final do ensino secundário, e de avaliações de aprendizagem internacionais como o Second International Assessment of 49 Enquadramento Educational Progress92 (SIAEP), o Third International Mathematics and Science Study93 (TIMSS) e o Programme for International Student Assessment 94 (PISA). Foi-se constatando que persistiam níveis muito elevados de retenção dos alunos e resultados modestos ou fracos nessas provas de avaliação, tanto nacionais, como internacionais. Estes factos evidenciaram deficiências significativas nas aprendizagens dos alunos, sobretudo quando eram exigidas a mobilização, a integração e a aplicação de conhecimentos, tal como referem Ponte (2003), Santos (2004) e Fernandes (2007). Neste contexto foi então iniciada uma nova renovação curricular em 1996 que terminou, em 2001, com a publicação do Currículo Nacional do Ensino Básico: Competências Essenciais, que foi coordenado por Paulo Abrantes. Estas orientações são baseadas em termos de experiências de aprendizagem que devem ser proporcionadas aos alunos, bem como de competências, interpretadas como saberes em ação e integrando, por área disciplinar e por ciclo, conhecimentos, capacidades e atitudes, tal como é referido nesse texto (Ministério da Educação, 2001). Ao nível das competências gerais definiram-se 10 capacidades que os alunos deveriam apresentar à saída do ensino básico, das quais se salienta: “(1) Mobilizar saberes culturais, científicos e tecnológicos para compreender a realidade e para abordar situações e problemas do quotidiano; (2) Usar adequadamente linguagens das diferentes áreas do saber cultural, científico e tecnológico para se expressar; […] (5) Adoptar metodologias personalizadas de trabalho e de aprendizagem adequadas a objectivos visados; (6) Pesquisar, seleccionar e organizar informação para a transformar em conhecimento mobilizável; (7) Adoptar estratégias adequadas à resolução de problemas e à tomada de decisões; (8) Realizar actividades de forma autónoma, responsável e criativa; (9) Cooperar com outros em tarefas e projectos comuns” (Ministério da Educação, 2001, p. 15). 92 1991 (tendo sido iniciado em 1990) – promovido pelo National Assessment of Educational Progress. 93 1995 (tendo sido iniciado em 1994) – promovido pela International Association for the Evaluation of Educational Achievement. 94 2000 (tendo sido iniciado em 1997) – promovido pela Organisation for Economic Co-operation and Development. 50 Enquadramento No documento assume-se o ensino básico como um todo, e a Matemática surge com um carácter formativo acentuado, sendo defendido que “a razão primordial para se proporcionar uma educação matemática prolongada a todas as crianças e jovens é de natureza cultural, associada ao facto de a matemática constituir uma significativa herança cultural da humanidade e um modo de pensar e aceder ao conhecimento” (Ministério da Educação, 2001, p. 58). Outro dos aspetos centrais destas orientações é o de que a “ênfase da Matemática escolar não está na aquisição de conhecimentos isolados e no domínio de regras e técnicas, mas sim na utilização da Matemática para resolver problemas, para raciocinar e para comunicar, o que implica a confiança e a motivação pessoal para fazê-lo” (Ibidem). Nesse sentido, sugere-se naquele documento que o ensino da Matemática seja feito a partir de experiências de aprendizagem matemática significativas recorrendo a motivações de situações do dia-a-dia e a projetos transdisciplinares e atividades multidisciplinares, integrando conhecimentos, capacidades e atitudes. Nesse sentido indicaram-se para a competência matemática a desenvolver ao longo do ensino básico: “• A predisposição para raciocinar matematicamente, isto é, para explorar situações problemáticas, procurar regularidades, fazer e testar conjecturas, formular generalizações, pensar de maneira lógica; • O gosto e a confiança pessoal em realizar actividades intelectuais que envolvem raciocínio matemático e a concepção de que a validade de uma afirmação está relacionada com a consistência da argumentação lógica, e não com alguma autoridade exterior; • A aptidão para discutir com outros e comunicar descobertas e ideias matemáticas através do uso de uma linguagem, escrita e oral, não ambígua e adequada à situação; • A compreensão das noções de conjectura, teorema e demonstração, assim como das consequências do uso de diferentes definições; • A predisposição para procurar entender a estrutura de um problema e a aptidão para desenvolver processos de resolução, assim como para analisar os erros cometidos e ensaiar estratégias alternativas; 51 Enquadramento • A aptidão para decidir sobre a razoabilidade de um resultado e de usar, consoante os casos, o cálculo mental, os algoritmos de papel e lápis ou os instrumentos tecnológicos; • A tendência para procurar ver e apreciar a estrutura abstracta que está presente numa situação, seja ela relativa a problemas do dia-a-dia, à natureza ou à arte, envolva ela elementos numéricos, geométricos ou ambos; • A tendência para usar a matemática, em combinação com outros saberes, na compreensão de situações da realidade, bem como o sentido crítico relativamente à utilização de procedimentos e resultados matemáticos” (Ministério da Educação, 2001, p. 57). Foram também desenvolvidos aspetos da competência matemática em quatro grandes domínios temáticos, ainda que “[c]orrendo o risco de não explicitar suficientemente a primazia a dar aos processos matemáticos em relação aos tópicos específicos vistos isoladamente, assim como às conexões que é forçoso estabelecer entre os vários domínios” (Ministério da Educação, 2001, p. 59). Os domínios temáticos definidos foram Números e Cálculo, Geometria, Estatística e Probabilidades, e Álgebra e Funções, permitindo “estabelecer uma ligação mais fácil aos temas centrais dos programas em vigor nos 2.º e 3.º ciclos, sendo ainda compatível com os blocos temáticos do programa do 1.º ciclo” (Ibidem). Tal como está refletido na Tabela 1.2, a cada domínio temático, são associados aspetos gerais da competência matemática para todos os ciclos, e também aspetos específicos apresentados ciclo a ciclo. Tabela 1.2: Número de aspetos identificados em cada domínio temático dos ciclos do EB Gerais 1º CEB 2º CEB 3º CEB Números e Cálculo 6 2 4 4 Geometria 7 3 4 7 Estatística e Probabilidades 7 0 3 6 Álgebra e Funções 5 0 0 5 Fonte: Elaborada pelo autor com base na Tabela 1 de Santos, Canavarro e Machado (2007, p. 7) Apresentam-se, ainda, vários tipos de experiências de aprendizagem preconizados para a Matemática, mormente a resolução de problemas, atividades de investigação, realização de projetos, jogos. Além disso, propõe-se a abordagem de aspetos da história, do desenvolvimento e da utilização da Matemática, bem como do reconhecimento da Matemática na tecnologia e nas técnicas da realização de trabalhos. Em termos de aspetos transversais da 52 Enquadramento aprendizagem da Matemática são salientados a comunicação matemática, a prática compreensiva de procedimentos, a exploração de conexões, a utilização das tecnologias e a utilização de materiais manipuláveis. Ainda no âmbito da reforma de 2001, Santos (2004) salienta que, pela primeira vez em termos institucionais, e na mesma linha de várias das orientações para a avaliação das aprendizagens (em especial da Matemática) a nível internacional, foram enunciados princípios orientadores da avaliação: “da consistência dos procedimentos de avaliação relativamente aos objectivos curriculares e às formas de trabalho efectivamente desenvolvidas pelos alunos; o carácter essencialmente formativo da avaliação; a necessidade de promover a confiança social na avaliação, envolvendo nos seus processos alunos e encarregados de educação” (Santos, 2004, p. 3). Para além disso, estas orientações foram acompanhadas pela publicação por parte do Ministério da Educação em 2002, de uma coletânea de textos, designada por “Gestão flexível do currículo”, que abordaram temas como a avaliação de competências, os critérios de avaliação, métodos de avaliação pedagógica e autoavaliação regulada. Ora, como referem César e Carvalho (2001) todas estas exigências tornam ainda mais complexo e aliciante o papel do professor, tornando a reflexão sobre o que este faz e como faz essencial na prática do professor, facto que o trabalho colaborativo poderia facilitar. Em particular, em relação a este último tópico e no âmbito da investigação de Rocha (1996, p. 187) acerca de um programa de formação contínua de professores do 1º CEB na área da educação matemática as professoras envolvidas no estudo responsabilizam a forma como foram iniciadas na profissão com “anos de isolamento e muitas vezes com as 4 classes” pela ausência desse tipo de trabalho colaborativo nas suas práticas. Segundo Mamede (2001), esta nova organização curricular reforçou o papel do professor na sala de aula, atribuindo-lhe uma autonomia de desenvolvimento do currículo como forma de potenciar a atividade educativa. No entanto, Gomes, Ralha e Hirst (2001) afirmam que este papel do professor em termos da sua autonomia profissional não deveria conduzir a uma elaboração, inovação ou criação curricular pessoal, mas sim a uma recriação, adaptação curricular no sentido da adequação do currículo, surgindo o professor como moderador, o que implicaria da sua parte uma melhor preparação científica e pedagógica e um 53 Enquadramento maior empenho. Mamede (2001) realça, ainda, que este enfatizar do papel do professor “é fortemente influenciado pelas suas concepções, formação, crenças e atitudes face à Matemática” (Mamede, 2001, p. 198) e que, num trabalho de Serrazina (1993) com professores do 1º CEB, “30% dos professores do estudo manifesta pouca segurança no seu ensino da matemática e menos de metade assume uma atitude positiva face à Matemática” (Ibidem, p. 199). Apesar do reforço do papel do professor, Santos (2004, p. 16) referia que havia ainda “um grande fosso entre aquilo que são as orientações curriculares e os indicadores de que dispomos sobre as práticas dos professores”. Reforçando esta ideia, Mamede (2001), referindo Correia (1997), considera que os professores do 1º CEB manifestam dificuldades em incorporar as inovações do currículo nacional nas suas práticas letivas e ao nível de um saber didático. Apresentam dificuldades na elaboração de tarefas capazes de promover o raciocínio dos alunos e cingem-se aos manuais escolares que, por vezes, apresentam situações desfasadas das preconizadas nos programas, o que vem agravado pela falta de formação vocacionada para a superação dessas mesmas dificuldades. No entanto, e ainda que discutível como qualquer documento curricular, Ponte (2003, p. 12) na altura considerou o documento do Currículo Nacional do Ensino Básico como “a formulação de orientações gerais oficiais para o ensino da disciplina mais avançada e mais coerente jamais realizada”. Como já se referiu e explicitou, o Currículo Nacional do Ensino Básico publicado em 2001 veio introduzir importantes alterações curriculares no programa de Matemática para o ensino básico vigente desde o início dos anos noventa. Essas alterações foram significativas ao nível das finalidades e objetivos de aprendizagem, assim como na forma como são apresentados os temas matemáticos a desenvolver. Por outro lado, foi-se constatando que era necessário melhorar a articulação entre os programas dos três ciclos do ensino básico, e com especial atenção entre o do 1º CEB e o dos ciclos seguintes. No mundo e também em Portugal, paralelamente também se foram credibilizando e divulgando os desenvolvimentos do ensino e da aprendizagem da Matemática. Assim, foi-se sentindo a necessidade e a motivação para a revisão e aperfeiçoamento do programa da Matemática do ensino básico em vigor desde 1991, ajustando-o às orientações do Currículo Nacional do Ensino Básico de 2001, melhorando a articulação entre os programas dos três ciclos e incorporando os mais recentes conhecimentos sobre o ensino e a aprendizagem da Matemática. Desta forma foi publicado em 2007 o “novo” Programa de Matemática do Ensino Básico (PMEB), que em vez de um programa radicalmente novo é visto como um “reajustamento” pelos seus responsáveis João Pedro da Ponte, Lurdes Serrazina, Henrique Manuel Guimarães, Ana 54 Enquadramento Breda, Fátima Guimarães, Hélia Sousa, Luís Menezes, Maria Eugénia Graça Martins e Paulo Alexandre Oliveira. A implementação do PMEB começou no ano letivo de 2008/2009 com 40 turmas piloto (10 para cada um dos 1º, 3º, 5º e 7º anos), no ano letivo de 2009/2010 iniciou-se a sua generalização (2º, 4º, 6º e 8º anos) para os 450 agrupamentos/escolas que se candidataram. No ano letivo de 2010/2011 realizou-se a generalização a todos os agrupamentos/escolas do país de forma faseada com conclusão no ano letivo de 2012/2013 para o 1º e 2º ciclos do EB e no ano letivo de 2013/2014 para o 3º CEB (EM, 2009). O PMEB apresenta de forma detalhada as aprendizagens a realizar, ciclo a ciclo, e para todos os nove anos de escolaridade, estando estruturado em quatro partes principais: Finalidades e objetivos gerais; Temas matemáticos e Capacidades transversais; Orientações metodológicas; e Gestão curricular. São, então, apresentadas como finalidades do ensino da Matemática: “a) Promover a aquisição de informação, conhecimento e experiência em Matemática e o desenvolvimento da capacidade da sua integração e mobilização em contextos diversificados. […] b) Desenvolver atitudes positivas face à Matemática e a capacidade de apreciar esta ciência” (Ministério da Educação, 2007, p. 3). Esta segunda finalidade entende-se como só fazendo sentido quando se tem por base o conhecimento e a capacidade de mobilização desse conhecimento em situações diversas por parte do aluno, como referem Ponte e Sousa (2010). No PMEB (Ministério da Educação, 2007, pp. 4-6) às finalidades referidas fazem-se corresponder, para a sua concretização, nove objetivos gerais do ensino da Matemática que são: 1. Conhecer factos e procedimentos básicos; 2. Compreender a Matemática; 3. Lidar com diversas representações; 4. Comunicar matematicamente; 5. Raciocinar; 6. Resolver problemas; 7. Estabelecer conexões; 8. Fazer matemática de modo autónomo; 9. Apreciar a Matemática. De acordo com Ponte e Sousa (2010) o primeiro destes objetivos gerais diz respeito aos conhecimentos básicos, o segundo à importância da compreensão na aprendizagem da Matemática, os cinco seguintes a capacidades transversais, semelhantes às propostas nos Princípios e Normas do NCTM (2007), e os dois últimos ao modo como é esperado que os alunos se relacionem pessoalmente com a Matemática e apreciem esta disciplina. O PMEB apresenta também quatro temas matemáticos que são: Números e operações, Geometria e medida, Álgebra e Organização e tratamento de dados. 55 Enquadramento Em relação a esta organização Ponte e Sousa (2010, p. 15) sustentam que há uma significativa diferença entre o PMEB e os programas anteriores, apresentando de forma resumida as principais diferenças como sendo: “• As finalidades e objectivos gerais do ensino da Matemática surgem com um novo conteúdo e um novo papel. • Existem capacidades transversais, em paralelo com os temas matemáticos, não havendo uma formulação comparável nos anteriores programas. • Existe um tema de Álgebra, tanto no 3º ciclo, como no 1º e 2º, com ênfase na generalização, simbolização e modelação. • No estudo dos Números, salienta-se a ideia de sentido de número e propõe-se um tratamento diferente dos algoritmos das operações com números naturais e dos números racionais, pondo em paralelo as representações em fracção e em numeral decimal. • O estudo da Organização e tratamento de dados é proposto desde o 1º ciclo, com valorização das investigações estatísticas. • Na Geometria, valoriza-se o sentido espacial e a visualização e reforçam-se as transformações geométricas. • A Medida assume maior visibilidade no 1º ciclo. • Finalmente, embora isso não seja de menor importância, o novo programa apresenta uma nova estrutura e uma linguagem mais coerente”. Relativamente às orientações metodológicas gerais, e não esquecendo referências à gestão curricular e à avaliação das aprendizagens, o PMEB foca a diversidade de tarefas, a resolução de problemas, o raciocínio matemático, a comunicação matemática, as representações, as conexões, a diversidade de recursos, o cálculo mental, o lugar da história da Matemática, a atenção do papel da Matemática no mundo atual e as diferentes formas de trabalho na sala de aula, havendo concretizações e exemplificação para cada tema em cada ciclo. Para além de orientações para o trabalho com as capacidades transversais também para os temas matemáticos já referidos são apresentadas no PMEB perspetivas orientadoras “valorizando o sentido de número, o sentido espacial, o pensamento algébrico e a literacia estatística” (Ponte e Sousa, 2010, p. 16). 56 Enquadramento Um novo programa é um fator de possíveis mudanças, em particular ao nível das práticas de ensino-aprendizagem na sala de aula e, consequentemente, nas aprendizagens matemáticas dos alunos, como afirmam Ponte e Sousa (2010). No entanto, para os mesmos autores e Ponte e Serrazina (2009) estas mudanças, para se concretizarem de forma consentânea com os objetivos do PMEB, necessitam de uma “migração” do ensino direto para o ensino-aprendizagem exploratório, de uma nova organização dos professores nos agrupamentos/escolas, bem como um dispositivo de apoio à concretização do programa, nomeadamente através de materiais e centros virtuais de apoio. Em relação à “migração” de tipo de ensino, pretende-se passar de uma tarefa padrão, o exercício, para uma grande variedade de tipo de tarefas, frequentemente com base realista e admitindo, em geral, várias estratégias de resolução. Além disso, defende-se a passagem do modelo em que o professor é um “explicador” e o aluno um “recetor”, tendo como mediador o manual escolar, para um modelo onde o aluno, individualmente, em pares ou em grupo, passa a ser um “explorador” e o professor um “mediador” e um “estimulador”. Ora, este árduo e permanentemente desafiante trabalho do professor, enquanto “catalisador” de possíveis descobertas significativas por parte dos alunos, terá que passar pela introdução, de forma inter-relacionada e em sequências coerentes, de tarefas válidas no sentido em que: “• Apelam à inteligência dos alunos, • Desenvolvem a compreensão e aptidão matemática, • Estimulam os alunos a estabelecer conexões e a desenvolver um enquadramento coerente para as ideias matemáticas, • Apelam à formulação e resolução de problemas e ao raciocínio matemático, • Promovem a comunicação sobre a Matemática, • Mostram a Matemática como uma actividade humana permanente, • Têm em atenção diferentes experiências e predisposições dos alunos, • Promovem o desenvolvimento da predisposição de todos os alunos para fazer Matemática” (Ponte e Sousa, 2010, p. 35, referindo NCTM, 1994). No que diz respeito à organização dos professores nos agrupamentos/escolas destacase o trabalho a realizar pelas equipas de coordenação, que tiveram formação própria, e que têm como funções: 57 Enquadramento “• Elaborar, monitorizar e avaliar o plano de agrupamento para a implementação do programa, • Identificar necessidades de formação dos professores, • Identificar e divulgar recursos para o ensino da Matemática, • Apoiar os professores na planificação (conjunta) de aulas e unidades de ensino, • Analisar os indicadores de aprendizagem dos alunos do agrupamento/escolas, • Promover trocas de materiais e experiências entre professores bem como outras formas de inter-ajuda e reflexão colectiva” (Ponte e Sousa, 2010, p. 36). Os mesmos autores consideram ainda que para dar apoio a essas equipas de coordenação os professores com funções de acompanhante têm que ser “mais do que professores acompanhantes com o perfil de ‘divulgadores’ e ‘conselheiros’, que tem predominado em anteriores processos de mudança curricular, é necessário que os elementos deste dispositivo de apoio assumam um perfil de ‘pessoarecurso’ e ‘formador’” (Ponte e Sousa, 2010, p. 37). Relembrando que na sequência dos ajustamentos do ensino secundário de 1997 foi defendida a autoformação e a formação interpares para promover a alteração das práticas em função do programa a implementar que deu lugar à criação do sistema de formação localizado regionalmente e do sistema de acompanhantes locais, também Martins (2004, p. 314) considera que este tem sido um processo lento e afirma que “os acompanhantes mantêm-se como formandos e começam a assumir-se como formadores locais”. Na sequência do referido, na EM (2009) Brocardo refere a Comissão de Acompanhamento a nível nacional que é responsável pelas ações relativas aos professores acompanhantes, incluindo reuniões e formação específica. Além disso, é salientada a existência de formação focada no PMEB e alargada a todos os professores, designadamente, através dos Programas de Formação Contínua para os 1º e 2º ciclos e de oficinas de formação para os professores do 3º ciclo. Como já foi referido, também o PM I, aplicado nos 2º e 3º ciclos do EB no triénio iniciado em 2006, passou a ser alargado ao 1º ciclo a partir de 2009/2010, com a designação de PM II, no mesmo ano letivo em que arrancou a generalização do novo programa desta disciplina. A continuidade da aplicação e do alargamento deste plano, cujo intuito era o de melhorar os resultados dos alunos na disciplina de Matemática, deve-se ao impacto positivo do mesmo 58 Enquadramento que o Ministério da Educação95, através de balanços intercalares, considerou ter havido, quer ao nível das práticas letivas, quer do trabalho entre professores, mas também pelo seu apoio à generalização do PMEB. Segundo informação da Direção Geral para a Inovação e o Desenvolvimento Curricular (DGIDC) 96 candidataram-se ao PM II “aproximadamente 1100 Agrupamentos de Escolas e Escolas não agrupadas que elaboraram e apresentaram projectos com várias estratégias de modo a proporcionarem aos alunos experiências de aprendizagens diversificadas que passam, entre outras, pelo reforço do tempo dedicado ao trabalho em Matemática, através da utilização das horas do Estudo Acompanhado e Área de Projecto, bem como do uso do tempo definido como oferta de escola; recurso ao crédito de horas da escola para criar equipas de professores para trabalho em sala de aula; e, pela criação de espaços de apoio aos alunos, tanto individualmente como em pequeno grupo”. Relativamente aos materiais e centros virtuais de apoio, e no seguimento do PMEB, têm sido criadas e disponibilizadas brochuras e materiais para a sala de aula onde “cada brochura trata de modo integrado as questões relativas ao tema/capacidade transversal do conjunto dos três ciclos do ensino básico, […] os materiais para a sala de aula estão organizados por tópico, contendo uma colecção de tarefas para usar directamente com os alunos, […] contém ainda uma indicação dos conhecimentos prévios pressupostos nos alunos, as aprendizagens visadas, uma possível estratégia de exploração da tarefa na sala de aula e exemplos de trabalho realizado por alunos nesta tarefa, incluindo estratégias e dificuldades” (Ibidem). Outro elemento a ser considerado neste campo é a Internet, em particular, através de centros virtuais de apoio aos professores de Matemática, quer nacionais, quer internacionais. Através dum inquérito respondido em 2009 por 38 dos 40 professores experimentadores do PMEB procurou-se recolher o testemunho desses professores sobre a experiência de lecionação do PMEB. Os resultados foram divulgados por Paiva, Canavarro, Tudella, Amaral e Pires (2009) e destacam-se de seguida alguns desses dados. As capacidades 95 http://www.dgidc.min-edu.pt/outrosprojetos/index.php?s=directorio&pid=62 (acedido em 13 de janeiro de 2012). 96 http://www.dgidc.min-edu.pt/outrosprojetos/index.php?s=directorio&pid=27 (acedido em 13 de janeiro de 2012). 59 Enquadramento transversais (74%), as orientações metodológicas (66%) e os novos temas/conteúdos (47%) são os pontos fortes do PMEB mais assinalados, enquanto o ponto mais fraco referido foi a extensão do programa (53%). Os inquiridos consideraram que o PMEB proporciona melhores aprendizagens matemáticas aos alunos, com uma posição ainda mais favorável nos do 1º CEB. Dos resultados obtidos é de realçar também o facto dos professores experimentadores considerarem de forma clara que o PMEB proporciona o estabelecimento de uma relação mais favorável com a Matemática. Também foi encontrado um maior positivismo nos professores experimentadores do 1º e 2º ciclos do EB, bem como uma melhor predisposição e um maior envolvimento, uma maior resiliência e um aumento da autonomia e da autoestima dos alunos. Além disso, foram identificados como principais fatores para estas mudanças a metodologia usada, as tarefas propostas e os recursos utilizados. No que diz respeito à dificuldade percebida na lecionação surgem leituras significativamente diferentes de ciclo para ciclo. No 1º CEB apesar de haver 35% de professores que indicaram menos difícil, a maior percentagem, 45%, consideram a lecionação mais difícil, tendo indicado como principais razões para as dificuldades sentidas a inexperiência com o novo programa e as características da turma. No 2º CEB a maioria (70%) considera a lecionação igualmente difícil e 20% como mais difícil, sendo referidas para as dificuldades sentidas sobretudo razões como a falta de tempo e as características da turma. Já no 3º CEB existe uma divisão igualitária entre o mais difícil e o igualmente difícil e para os quais as principais razões para as dificuldades encontradas foram a falta de tempo, a inexperiência na aplicação do novo programa e também as características da turma. Os resultados apresentados mostram, ainda, que os professores experimentadores em relação ao apoio recebido por parte da DGIDC, atribuíram grande importância, entre outros, aos encontros entre pares, às reuniões periódicas com os responsáveis pelo acompanhamento, alguma importância à formação e aos materiais recebidos, e pouca importância à plataforma Moodle97. Em termos das expetativas em relação à generalização prevista do programa, 69% foram positivas e apenas 18% negativas, tendo sido invocadas como razões para as expectativas positivas a atitude positiva dos professores face ao PMEB e a expectativa de melhorias significativas na aprendizagem dos alunos. Por outro lado, para as expectativas negativas são apresentadas como justificações a resistência à mudança, o aumento de trabalho, a falta de hábitos de trabalho colaborativo e, com menor expressão, a desmotivação dos professores e a sua atitude pouco interessada perante a 97 Acrónimo de Modular Object-Oriented Dynamic Learning Environment, um software livre, de apoio à aprendizagem, executado num ambiente virtual de aprendizagem. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Moodle). 60 Enquadramento formação, além da dificuldade em se concretizar o processo de acompanhamento em larga escala. Finalmente, os inquiridos apontam como principal fator para o futuro sucesso da generalização do PMEB a formação, embora indiquem também outros como os recursos materiais, o trabalho colaborativo, a motivação dos intervenientes e o acompanhamento. Fica a ideia de que “é possível concretizar as inovações introduzidas pelo PMEB, mudar práticas profissionais e gerar dinâmicas que, se efectivamente concretizadas, contribuirão certamente para uma mudança de grande alcance no ensino da Matemática em Portugal” (APM, 2010, p. 8). No entanto, com as mudanças políticas de 2011 em Portugal foram encetadas novas alterações que afetam o ensino da Matemática: a revogação 98 do documento Currículo Nacional do Ensino Básico - Competências Essenciais, no Despacho n.º 17169/2011, de 23 de Dezembro, bem como a revisão da estrutura curricular do 2º e 3º ciclos do EB e do ensino secundário, pelo Decreto-lei nº 139/2012, de 5 de maio, na continuidade dos ajustamentos na organização curricular dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico efetuados em Julho de 2011 e concretizados no Decreto-Lei n.º 94/2011, de 3 de Agosto, com a abolição das disciplinas não curriculares de Área Projeto e Estudo Acompanhado. Ao mesmo tempo foi também aprovada a regulamentação do alargamento da escolaridade obrigatória, onde é feita a definição das medidas necessárias para o efetivo cumprimento do alargamento da escolaridade obrigatória até aos 18 anos, aprovado em 2009 pela Lei nº85/2009, de 27 de agosto. O atual Ministério da Educação e Ciência (MEC) propôs, levou a discussão pública e aprovou, pelo Despacho nº 10874/2012, de 3 de gosto, a definição de Metas Curriculares para o Ensino Básico também para a Matemática, cujos autores foram António Bívar, Carlos Grosso, Filipe Oliveira e Maria Clementina Timóteo. Este documento, Metas Curriculares EB – Matemática, segundo os seus autores “descreve o conjunto das metas curriculares da disciplina de Matemática que os alunos devem atingir durante o Ensino Básico, privilegiando os elementos essenciais que constam do Programa em vigor” (Ministério da Educação e Ciência, 2012, p. 1) e, organizados em cada ano de escolaridade por domínios e subdomínios, os objetivos gerais, complementados por descritores mais precisos, estão sequenciados em correspondência a uma “progressão de ensino adequada” (Ibidem). Contudo, e na sequência das Metas Curriculares, o Ministério da Educação e Ciência (MEC) revogou 99 o PMEB de 2007 através do Despacho nº 5165-A/2013, 98 http://www.dgidc.min-edu.pt/index.php?s=noticias¬icia=236 (acedido em 3 de dezembro de 2012). 99 http://dre.pt/pdf2sdip/2013/04/074000002/0032200322.pdf (acedido em 14 de junho de 2013). 61 Enquadramento de 15 de abril. O “novíssimo” Programa de Matemática para o Ensino Básico (Ministério da Educação e Ciência, 2013) foi homologado pelo Despacho nº 9888-A/2013, de 17 de junho, para entrar em vigor no ano letivo 2013/2014. Estas medidas não são, de todo, consensuais pelo que neste texto nos limitámos a enumeração de algumas delas. Assim, vislumbram-se no horizonte, mais uma vez, mudanças com consequências também no ensino da Matemática, exigindo, uma vez mais, o empenho e a dedicação dos professores, dos alunos, dos encarregados de educação e de toda a comunidade educativa, numa sequência de alterações que por vezes se sucedem sem consolidação e avaliação criteriosa de todas as anteriores ou, pelo menos, dos seis anos da implementação do PMEB 2007. 1.2.2. O professor de Matemática e a sua formação Segundo Henriques e Almeida (2004), durante as décadas de 70 e 80, com a massificação do ensino, houve uma formação intensiva de professores, tendo sido criados ramos de especialização educacional nas licenciaturas das universidades onde já era incluída formação em Ciências de Educação. Nesta altura deram-se também os primeiros passos na profissionalização em exercício. Os cursos de formação de professores, para além do conhecimento específico de Matemática, e tendo em conta a necessidade de conhecimento de carácter educacional adequado e adaptado à sociedade dinâmica em construção e mudança, foram-se adaptando com reformulações em conformidade com os desígnios de cada governo, de cada magistério, de cada política educativa, mas em que as instituições de formação foram permanecendo. Já na primeira década do século XXI, e como fruto da diminuição continuada na natalidade e, por consequência, do número de alunos, tem-se assistido a um claro decréscimo do número de professores em exercício no 1º ciclo do ensino básico, e a uma estabilização relativa do número de professores do 2º ciclo do ensino básico, onde se incluem também os professores de Matemática (Tabela 1.3). Tabela 1.3: Professores em exercício nos ensinos básico e secundário por natureza institucional. Ensino Básico Ensino Básico Ensino Básico 3º ciclo 1º ciclo 2º ciclo e Ensino Secundário Ano Público Privado Público Privado Público Privado 1999/2000 36211 2811 32322 2858 78285 7285 2009/2010 31293 3279 32285 3344 82582 8793 Fonte: Elaborada pelo autor com base na tabela 3.4.1 em Conselho Nacional de Educação (2011, p. 85) 62 Enquadramento Neste contexto, o número de vagas no ensino superior público na área da educação diminuiu de forma drástica, correspondendo o número de vagas disponibilizadas em 2010 a 30% das vagas disponibilizadas em 2000 (Tabela 1.4). A esta situação, que engloba o caso da formação matemática, acresce a situação do número de professores colocados ser inferior ao número de vagas, indicando que, mesmo assim, a procura na área da educação consegue ser inferior à oferta. Tabela 1.4: Relação entre a oferta e a procura na área da educação no ensino superior público Vagas Candidatos - 1ª Opção Colocados Área de formação 2000 2010 2000 2010 2000 2010 Educação 5686 1710 6013 1550 4902 1556 Fonte: Elaborada pelo autor com base na tabela 5.2.7 em Conselho Nacional de Educação (2011, p. 171) O perfil geral de desempenho profissional do educador de infância e dos professores dos ensinos básico e secundário em vigor foi publicado no Decreto-lei nº 240/2001 de 30 de Agosto, e nele, para além do perfil geral de desempenho, surgem também expressas a dimensão profissional, social e ética, a dimensão de desenvolvimento do ensino e da aprendizagem, a dimensão da participação na escola e de relação com a comunidade e a dimensão de desenvolvimento profissional e ao longo da vida. Deste perfil, no âmbito deste trabalho, são de destacar: “ III Dimensão de desenvolvimento do ensino e da aprendizagem 1 — O professor promove aprendizagens no âmbito de um currículo, no quadro de uma relação pedagógica de qualidade, integrando, com critérios de rigor científico e metodológico, conhecimentos das áreas que o fundamentam. 2 — No âmbito do disposto no número anterior, o professor: a) Promove aprendizagens significativas no âmbito dos objectivos do projecto curricular de turma, desenvolvendo as competências essenciais e estruturantes que o integram; b) Utiliza, de forma integrada, saberes próprios da sua especialidade e saberes transversais e multidisciplinares adequados ao respectivo nível e ciclo de ensino; c) Organiza o ensino e promove, individualmente ou em equipa, as aprendizagens no quadro dos paradigmas epistemológicos das áreas do conhecimento e de opções pedagógicas e didácticas fundamentadas, recorrendo à actividade experimental sempre que esta se revele pertinente; 63 Enquadramento d) Utiliza correctamente a língua portuguesa, nas suas vertentes escrita e oral, constituindo essa correcta utilização objectivo da sua acção formativa; e) Utiliza, em função das diferentes situações, e incorpora adequadamente nas actividades de aprendizagem linguagens diversas e suportes variados, nomeadamente as tecnologias de informação e comunicação, promovendo a aquisição de competências básicas neste último domínio; f) Promove a aprendizagem sistemática dos processos de trabalho intelectual e das formas de o organizar e comunicar, bem como o envolvimento activo dos alunos nos processos de aprendizagem e na gestão do currículo; g) Desenvolve estratégias pedagógicas diferenciadas, conducentes ao sucesso e realização de cada aluno no quadro sócio-cultural da diversidade das sociedades e da heterogeneidade dos sujeitos, mobilizando valores, saberes, experiências e outras componentes dos contextos e percursos pessoais, culturais e sociais dos alunos; h) Assegura a realização de actividades educativas de apoio aos alunos e coopera na detecção e acompanhamento de crianças ou jovens com necessidades educativas especiais; i) Incentiva a construção participada de regras de convivência democrática e gere, com segurança e flexibilidade, situações problemáticas e conflitos interpessoais de natureza diversa; j) Utiliza a avaliação, nas suas diferentes modalidades e áreas de aplicação, como elemento regulador e promotor da qualidade do ensino, da aprendizagem e da sua própria formação. […] V Dimensão de desenvolvimento profissional ao longo da vida 1 — O professor incorpora a sua formação como elemento constitutivo da prática profissional, construindo-a a partir das necessidades e realizações que consciencializa, mediante a análise problematizada da sua prática pedagógica, a reflexão fundamentada sobre a construção da profissão e o recurso à investigação, em cooperação com outros profissionais. 2 — No âmbito do disposto no número anterior, o professor: a) Reflecte sobre as suas práticas, apoiando-se na experiência, na investigação e em outros recursos importantes para a avaliação do seu desenvolvimento profissional, nomeadamente no seu próprio projecto de formação; 64 Enquadramento b) Reflecte sobre aspectos éticos e deontológicos inerentes à profissão, avaliando os efeitos das decisões tomadas; c) Perspectiva o trabalho de equipa como factor de enriquecimento da sua formação e da actividade profissional, privilegiando a partilha de saberes e de experiências; d) Desenvolve competências pessoais, sociais e profissionais, numa perspectiva de formação ao longo da vida, considerando as diversidades e semelhanças das realidades nacionais e internacionais, nomeadamente na União Europeia; e) Participa em projectos de investigação relacionados com o ensino, a aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos” (D. L. nº 240/2001 de 30 de Agosto)100. Também o perfil específico de desempenho profissional do professor do 1º ciclo do ensino básico foi publicado no decreto-lei nº 241/2001 de 30 de Agosto, contendo este uma secção específica no âmbito da educação matemática, de que é de destacar: “ […] III Integração do currículo 1 — O professor do 1º ciclo do ensino básico promove a aprendizagem de competências socialmente relevantes, no âmbito de uma cidadania activa e responsável, enquadradas nas opções de política educativa presentes nas várias dimensões do currículo integrado deste ciclo. 2 – […] 3 — No âmbito da educação em Matemática, o professor do 1º ciclo: a) Promove nos alunos o gosto pela matemática, propiciando a articulação entre a matemática e a vida real e incentivando-os a resolver problemas e a explicitar os processos de raciocínio; b) Implica os alunos na construção do seu próprio conhecimento matemático, mobilizando conhecimentos relativos ao modo como as crianças aprendem matemática e aos contextos em que ocorrem essas aprendizagens; c) Promove nos alunos a aprendizagem dos conceitos, das técnicas e dos processos matemáticos implicados no currículo do 1.º ciclo, designadamente na compreensão e representação dos números e das operações aritméticas, na compreensão do processo de medição e dos sistemas de medida, no conhecimento de formas 100 http://agnazare.ccems.pt/documentacao/legislacao/pdf/Avaliacao_Pessoal_Docente/Dec_Lei-n240_2001.pdf (acedido a 18 de dezembro de 2011). 65 Enquadramento geométricas simples, na recolha e organização de dados e na identificação de padrões e regularidades; d) Desenvolve nos alunos a capacidade de identificar, definir e discutir conceitos e procedimentos, bem como de aprofundar a compreensão de conexões entre eles e entre a matemática e as outras áreas curriculares; e) Proporciona oportunidades para que os alunos realizem actividades de investigação em matemática, utilizando diversos materiais e tecnologias e desenvolvendo nos educandos a autoconfiança na sua capacidade de trabalhar com a matemática” (D. L. nº 241/2001 de 30 de Agosto)101. Relativamente ao ensino de Matemática de qualidade para todos os alunos, em todos os níveis de ensino não superior, Albuquerque, Veloso, Rocha, Santos, Serrazina e Nápoles (2006, p. 8) defendem que a educação matemática deve permitir aos alunos: “• adquirir uma compreensão progressiva da natureza da matemática, dos seus processos e características como ciência, e apreciar a sua beleza; • compreender e apreciar o poder das aplicações da matemática, da sua relevância na sociedade contemporânea e do seu papel histórico no progresso da civilização; • desenvolver, na medida das suas necessidades e interesses, capacidades matemáticas para a vida quotidiana, para o exercício de uma cidadania plena e para prosseguir estudos superiores, em particular para adquirir uma formação profissional”. Neste contexto, os mesmos autores defendem que o papel fundamental do professor de Matemática, para proporcionar uma experiência matemática significativa aos seus alunos, consiste em: “• procurar ter em conta as experiências anteriores dos alunos que possam constituir um ponto de partida para a sua aprendizagem matemática; • propor actividades com significado que, de acordo com a maturidade dos alunos, lhes proporcionem uma experiência matemática conducente aos objectivos na secção anterior; 101 http://agnazare.ccems.pt/documentacao/legislacao/pdf/Avaliacao_Pessoal_Docente/Dec_Lei_n241_2001.pdf (acedido a 18 de dezembro de 2011). 66 Enquadramento • ajudar os alunos a reflectir sobre a sua própria experiência” (Albuquerque et al., 2006, p. 10). No entanto, exercer de forma eficaz e eficiente este papel que é atribuído formal e legalmente aos professores, bem como os objetivos e expetativas tão exigentes que lhe estão implícitos, exige uma atenção permanente às atividades propostas para que sejam significativas, o que pressupõe por parte do professor, através da sua formação, um conhecimento matemático e um conhecimento sobre a Matemática (em que se inclui a Estatística), além de uma capacidade para usar, sempre que seja possível e adequado, os recursos e materiais para o ensino da Matemática, como referem Albuquerque et al. (2006). Realmente pode-se considerar o professor como o protagonista da mudança, para melhor, que se pretende no modo como a Matemática é ensinada e aprendida nas escolas, tal como refere Veia (1996) referindo as Normas Profissionais para o Ensino da Matemática (NCTM, 1991). Além disso, esta ideia é também referida por Ponte (1995, p. 188) quando, depois de considerar que as intenções reformistas passam pela mudança de modos de pensar e de agir, afirma que “o professor tem de ter um papel essencial nos processos de mudança curricular, não só para os interpretar correctamente mas também para informar e validar o respectivo conteúdo”. No entanto, o mesmo autor considera que a aplicação de novas orientações curriculares na prática letiva corrente “não depende da simples adesão conceptual do professor mas requer um contexto favorável (em termos de escola) e um suporte formativo que forneça ao professor estímulos e oportunidades de trocas de experiências e de reflexão” (Ibidem, p. 193). Relativamente à formação matemática dos professores e dos futuros professores, em Moreira, Brocardo, Braumman e Ponte (2004), J. P. Ponte considera que esta é uma questão muito importante, onde são detetados problemas, mas que não tem tido a necessária reflexão. Na altura J. P. Ponte propôs quatro vetores de intervenção prioritária, sendo eles: uma maior investigação sobre as competências dos candidatos a professores; a reflexão para a implementação de um processo de acreditação e avaliação dos cursos de formação de professores; a realização de estudos sobre práticas de formação; e a produção e reflexão de propostas conjuntas nesta área por parte de várias comunidades e instituições profissionais e científicas com responsabilidades neste domínio do ensino da Matemática, por exemplo, a APM, a SPM, a Sociedade Portuguesa de Estatística (SPE) ou a Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação – Secção de Educação e Matemática (SPCE-SEM). Nestes últimos 67 Enquadramento tempos, algumas destas linhas têm vindo a ser desenvolvidas, mas muito lentamente, de forma irregular e com resultados práticos limitados. Por outro lado, C. Braumman realça que “o produto da formação inicial não é ainda um professor […] será a prática profissional, o exemplo dos colegas, o autoestudo e a formação contínua que irão moldando e, espera-se, aperfeiçoando, o professor” (Moreira et al., 2004, p. 75), mas também que “um professor de Matemática deve ser um matemático e, portanto, deve ter treino de investigação matemática” (Ibidem). Daí que, e também por considerar haver uma cada vez mais baixa procura desta saída profissional, este autor defenda que não se justificam cursos só para professores de Matemática. Nesse sentido, a formação de professores para um grupo monodisciplinar de Matemática (o caso pluridisciplinar torna ainda mais complexa a situação) deve ter uma formação de base sólida e comum, havendo depois uma diferenciação na formação específica. Para reforçar a ideia da necessidade de uma formação sólida em Matemática, C. Braumman (em Moreira et al., 2004) refere as seguintes razões: a necessidade de compreender a Matemática de todos os profissionais matemáticos, o que se consegue vivenciando a essência da Matemática através da investigação matemática em sentido lato; o facto da formação de base dever proporcionar uma boa e diversificada cultura geral na Matemática e em áreas de sua aplicação; a constatação de que a eventual ignorância de um professor pode causar graves consequências nos alunos, o que pode acontecer quando não se compreende verdadeiramente a Matemática para não a saber com profundidade suficiente para a ensinar; a importância de estar preparado para a mudança e com capacidade autónoma para o autoestudo de forma a preparar o professor para a flexibilidade necessária à adaptação do dinamismo dos programas de ensino; e por fim, a premissa fundamental dos profissionais matemáticos serem capazes de comunicar bem a Matemática. No que diz respeito à formação especializada, este autor defende que deve ser diferenciada conforme os objetivos, podendo esta ser proporcionada de várias formas, e no caso particular da formação de professores de Matemática advoga, num registo ainda atual, a revisão da formação em Ciências de Educação, tornando-a mais prática e menos livresca e repetitiva e reforçando a formação em didática da Matemática e da Estatística, incluindo também a didática da utilização da tecnologia. Globalmente, C. Braumman constatava (em Moreira et al., 2004) que a formação existente só em parte correspondia aos princípios atrás mencionados, uma vez que: não se tinha em devida conta as deficiências prévias de conhecimentos base e de uso do raciocínio matemático; existia uma excessiva compartimentação dos saberes e pouco trabalho de projetos integradores; o ensino expositivo 68 Enquadramento ainda predominante surgia de forma antagónica ao que é preconizado para o futuro professor; ainda havia uma fraca utilização adequada das tecnologias; não se dava o devido relevo à história e à epistemologia da Matemática; subsistia uma relativa falta de exigência; insipiência na avaliação de cursos e professores. Apesar de tudo, parece ter havido uma certa evolução recente em alguns destes temas, sendo mais visível nuns do que noutros. Contudo, já na altura C. Braumman manifestava a sua confiança em que haveria progressos no sentido de superar as lacunas e deficiências mencionadas, mas que tinha consciência de que os efeitos não seriam imediatos, além de constatar que a mudança de mentalidades seria muito difícil de conseguir. Nesse sentido, não seria suficiente intervir apenas na formação de professores, sendo “indispensável mobilizar a sociedade para uma mudança de atitude para com a Matemática/Estatística e o conhecimento científico-tecnológico […] mobilizar os políticos e os media […] dar formação aos jornalistas nos aspectos matemáticos e estatísticos” (Moreira et al., 2004, p. 82). Em termos da formação de professores de Matemática, e como características dos alunos à entrada desses cursos, Monteiro, Costa e Costa (2004, p. 173) dizem que estes trazem consigo “uma visão da matemática muito mecanicista e rotineira, muito pouco virada para a compreensão de conceitos, muito compartimentada […], com um domínio da álgebra praticamente nulo e que não estão habituados a usar o cálculo mental”. Esta afirmação é corroborada pelos resultados confrangedores e preocupantes quanto aos conhecimentos revelados num teste diagnóstico realizado por alunos de uma Escola Superior de Educação sobre temas do programa de Matemática dos 1º e 2º ciclos do EB. Albuquerque et al. (2006, p. 25) também constatam a mesma realidade acrescida do facto da generalidade dos alunos carregarem com um passado de insucesso escolar em Matemática, afirmando ainda que estes “não só não sabem matemática suficiente mas também desenvolveram atitudes negativas em relação à matemática”. No entanto, Monteiro, Costa e Costa (2004) referem alguns aspetos positivos que podem ser indicativos de mudança com o surgimento de alguns alunos com capacidade para resolver problemas e atividades de investigação, identificando os procedimentos adequados, incluindo procedimentos figurativos. Relativamente à atribuição da habilitação para a docência do 1º CEB, como já referido, existem dois modelos de formação inicial que coexistem nessa atribuição, nomeadamente cursos só do 1º CEB e cursos do 1º e 2º ciclos do EB. Sobre o primeiro modelo J. Brocardo, em Moreira et al. (2004), realça dois problemas importantes. Desde logo a formação prévia dos alunos que iniciam a formação, que muitas vezes inclui apenas o 9º ano 69 Enquadramento de Matemática e os Métodos Quantitativos o que pode ser insuficiente. O outro problema é o da complexidade da formação de um professor generalista, em particular na articulação das didáticas específicas, entre as quais a da Matemática e a da Estatística, que são relegadas para uma prática pedagógica que em termos concretos costuma estar muito focada em aspetos gerais, dando pouca atenção à análise das aprendizagens das diferentes áreas curriculares. No que diz respeito ao segundo modelo é destacada a dificuldade de formar em quatro anos um professor generalista num ciclo de estudos (1º CEB) e um especialista em duas áreas científicas de outro ciclo de estudos (2º CEB), como é o caso da Matemática e das Ciências da Natureza. A reforçar estas ideias Albuquerque et al. (2006) descrevem, no âmbito da formação de professores dos 1º e 2º ciclos do EB, o quadro da formação da Matemática e da didática da Matemática, onde em princípio estariam incluídas respetivamente a Estatística e a didática da Estatística, referindo que a carga horária total correspondente se situa entre os 2,5% e os 14,2% para a formação dos professores do 1º CEB abrangendo todas as instituições, públicas e privadas. Por outro lado, para a formação dos professores do 2º CEB, variante Matemática e Ciências da Natureza, a percentagem na carga horária sobe para valores entre 20% e 30% nas escolas superiores de educação públicas. Em particular no caso dos futuros professores do 1º CEB, também Gomes, Ralha e Hirst (2001) referem que uma grande parte deles se candidatava com nove anos de escolaridade de Matemática, e por vezes de Métodos Quantitativos, e alguns deles com um historial de insucesso matemático. Para reforçar esta ideia, os mesmos autores destacam, de um estudo realizado por A. Gomes e E. Ralha em 1999, que 66% dos 32 alunos do 1º ano do curso de 1º CEB inquiridos consideraram difícil aprender Matemática, mas, paradoxalmente, 72% consideraram que ensinar Matemática aos alunos do 1º CEB iria ser uma tarefa fácil. Também Loureiro (2004), baseando-se em Andrews (2000), menciona preocupações em relação às dificuldades desse tipo de alunos futuros professores, pois “não só não sabem matemática suficiente, como têm atitudes negativas face à Matemática e capacidades mal exploradas e desenvolvidas” (Loureiro, 2004, p. 93) e acrescenta o tempo limitado de formação inicial, pelo que considera fundamental dar-lhes “condições para que continuem interessados em estudar e aprender matemática depois de licenciados” (Ibidem). Aliás, Gomes, Ralha e Hirst (2001), assim como Gaio e Duarte (2004) consideram que a formação matemática dos professores do 1º CEB, em Portugal e ao longo de muito tempo, terá sido negligenciada pela própria comunidade científica e que esta situação tinha por base “as concepções de que estes professores seriam não especialistas em matemática e que a 70 Enquadramento matemática elementar é simples, por conseguinte fácil de ensinar, independentemente da preparação do professor” (Gaio e Duarte, 2004, p. 131). Gomes, Ralha e Hirst (2001, p. 175) afirmam também que “qualquer professor que tenha que ensinar matemática precisa de receber uma formação matemática adequada mas para os professores do 1º ciclo essa formação parece-nos ser uma questão prioritária”. Também Albuquerque et al. (2006), contrariando a ideia de que a Matemática aprendida durante os anos de escolaridade são suficientes para ensinar Matemática nos primeiros anos do ensino básico, afirmam que é nessa altura que se constroem conceitos e se desenvolvem e se estabelecem alguns hábitos de raciocínio e pensamento matemático que são fundamentais para a compreensão e raciocínios de nível superior que se desenvolverão mais tarde, pelo que é necessário o reforço da componente matemática e didática. Para reforçar esta ideia, da importância fundamental que tem a Matemática ensinada nos 1º e 2º ciclos do EB, ter-se-á que ter consciência de que “se quisermos trabalhar no aperfeiçoamento da educação matemática dos alunos também precisaremos de aperfeiçoar o conhecimento dos seus professores em matemática escolar” (Ma, 2009, pp. 245-246), até porque “a qualidade do conhecimento da matéria pelo professor afecta directamente a aprendizagem dos alunos” (Ibidem, p. 246), sendo necessário “reconstruir uma matemática escolar substancial com um entendimento mais amplo da relação entre a matemática fundamental e novos ramos avançados da disciplina” (Ibidem, p. 253). Para além disso, Veia (1996) afirma que é precisamente nos primeiros anos de escolaridade que se formam muitas das conceções e atitudes relativamente à Matemática (onde se inclui a Estatística) e que estas são cada vez mais difíceis de alterar à medida que as crianças crescem. Como forma de alterar algo no status quo, Loureiro (2004) defende que deveria ser exigida como condição de entrada na formação de professores do 1º CEB os 12 anos de Matemática no ensino não superior, de forma análoga a todos os candidatos a uma licenciatura que envolva o ensino da Matemática. Complementarmente, e seguindo uma linha de pensamento de que a aprendizagem para ensinar é um processo a desenvolver de forma contínua ao longo da carreira do professor, a formação matemática de professores não deverá apenas preocupar-se com o fornecimento de um conjunto de técnicas e procedimentos, sendo premente a comunicação do espírito de fazer matemática, bem como ter na base de qualquer disciplina de Matemática do currículo da formação de professores uma série de características que, de forma resumida, são: 71 Enquadramento ”(a) ter uma organização coerente e objectivos claros; (b) mostrar a matemática como uma coisa que se faz, mais do que como algo que se memoriza; (c) enfatizar e tornar explícitos os raciocínios e os hábitos de pensamento empregues no trabalho matemático; (d) introduzir os alunos numa cultura matemática, uma cultura com história, estética, elegância e às vezes até humor; (e) estar focado nas interacções entre alunos e professores; (f) tomar os problemas como precedentes às abstracções, a experiência como precedente dos sistemas de axiomas, e o raciocínio do aluno como centro da aprendizagem” (Loureiro, 2004, p. 95, referindo Al Cuoco, 2001, p. 173) Além disso, tendo por base os conteúdos matemáticos do programa do 1º CEB de 2001 e, em parte, antevendo já o de 2007 (PMEB), Loureiro (2004) considera importante, ao nível da formação dos professores do 1º CEB, e para construir melhores alicerces, a abordagem nesses cursos dos tópicos matemáticos: números, operações e teoria de números; técnicas, rotinas e destrezas; geometria; grandezas e medidas; recolha e tratamento de dados; raciocínio proporcional e probabilístico; técnicas de contagem, grafos e outros modelos da matemática discreta; pensar matematicamente; perspetiva ampla, conexa e articulada da Matemática; e leitura do texto matemático e sobre a Matemática. Nesta linha, Gaio e Duarte (2004), bem como Albuquerque et al. (2006) identificam como necessários para os professores dos primeiros anos do ensino conhecimentos nas áreas: números e operações, álgebra e funções; geometria e medidas; e análise de dados, estatística e probabilidades (atualmente reunidas sob a designação de Organização e tratamento de dados, OTD). Também Monteiro, Costa e Costa (2004) julgam que, para além do conhecimento dos alunos e dos processos de ensino e aprendizagem, o conhecimento matemático do futuro professor não se deve restringir aos conteúdos que este irá lecionar, mas acreditam que “a selecção dos conteúdos das várias unidades curriculares do curso de formação inicial não se deve limitar a fornecer mais ‘conhecimentos’, mas essencialmente em estender, aprofundar e desenvolver processos matemáticos de modo a enriquecer a estrutura conceptual e o poder matemático dos formandos” (Monteiro, Costa e Costa, 2004, p. 185). Na sequência do atrás descrito, no estudo de Ma (2009), com professores chineses, os professores referem aspetos fundamentais para a aquisição do conhecimento matemático: 72 Enquadramento “aprender com os colegas, aprender matemática com os alunos, aprender matemática resolvendo problemas, ensinar, ensinar a todos os ciclos de uma ponta à outra e estudar materiais de ensino de forma exaustiva” (Ma, 2009, p. 244). A este propósito, Monteiro, Costa e Costa (2004) referem que em Portugal não havia muitos materiais para professores por onde estudar matemática escolar e que nas nossas escolas o professor tendia a trabalhar de forma isolada. No entanto, e ainda que de forma lenta, há que referir que começa a sentir-se uma mudança nestes aspetos. Ora a questão do trabalho colaborativo, o da aprendizagem com os alunos e, em especial, o fazer matemática são aspetos que Monteiro, Costa e Costa (2004) consideram poderem ser trabalhados na formação inicial e poderem aí fazer a diferença. Por outro lado, Albuquerque et al. (2006, p. 14) consideram que para a prática letiva um professor necessita de conhecimentos relativos à natureza da Matemática, aos conteúdos matemáticos, aos objetivos curriculares, à forma de apresentar as ideias de modo a que sejam aprendidas pelos alunos, à forma como os alunos compreendem e aprendem os conteúdos matemáticos e à gestão da sala de aula. No entanto, o professor deve integrar estes conhecimentos com a capacidade de analisar e refletir sobre a sua prática, o que envolve também o conhecimento de si próprio, incluindo os aspetos emocionais envolvidos no processo. Neste âmbito, Albuquerque et al. (2006) realçam que no início da formação inicial os futuros professores possuem um modelo implícito sobre o ensino da Matemática que envolve as experiências vividas enquanto alunos e afirmam ainda que “a concepção que o professor tem sobre a matemática e o seu ensino constitui um forte condicionador da forma como ele vai ser capaz de organizar e conduzir a actividade matemática dos seus alunos” (Albuquerque et al., 2006, p. 16). Estas conceções têm um carácter tácito, pelo que para conseguir a sua alteração é fundamental promover a sua explicitação, dado estarem intrinsecamente relacionadas com vivências pessoais este é um conhecimento persistente e de difícil alteração, tal como referem Albuquerque et al. (2006). Daí também que estes autores defendam que, para além da formação específica em Matemática, há várias outras áreas que devem ser contempladas como por exemplo pedagógicas, didáticas, psicológicas, sociológicas, históricas e filosóficas. Também Garção (2004, p. 11), referindo Guimarães (1996), indica que “o que o professor conhece conjuntamente com as suas crenças e atitudes relativamente à Matemática e ao seu ensino-aprendizagem constitui a base para a abordagem de ensino na sala de aula”. Segundo Monteiro, Costa e Costa (2004), em Portugal, em termos das práticas pedagógicas existiam dois modelos. Um dos modelos integra a prática, no sentido de 73 Enquadramento intervenções em situações reais, durante o curso desde o início do mesmo e é adotado em particular nas escolas superiores de educação (modelo integrado), enquanto o outro modelo deixa essa integração para o final do curso, durante o estágio, sendo o modelo que era mais utilizado nas universidades (modelo sequencial). Já Henriques e Almeida (2004) indicam como relevante a preocupação crescente em proporcionar a estes formandos uma prática pedagógica progressiva, acompanhada e apoiada, sendo importante a colaboração entre as instituições de formação inicial e entre elas e as escolas, o que nem sempre terá acontecido. A formação de professores, seguindo a ideia de Medina e Dominguez (1989), funciona para Borralho e Espadeiro (2004, p. 281) como “a preparação e a emancipação profissional do docente para realizar crítica, reflexiva e eficazmente um estilo de ensino que promova uma aprendizagem significativa nos alunos e consiga um pensamento-acção inovador, trabalhando em equipa com colegas para desenvolver um projecto educativo comum”. Nesse sentido, estes autores apresentam como fundamentais três funções da formação de professores, sendo “uma a de ajudar os professores a identificarem e analisarem as suas concepções sobre a Matemática, sobre o ensino e a aprendizagem da Matemática e sobre a Educação. Outra será a de os ajudar a desenvolver os seus conhecimentos de matemática, de pedagogia e de educação em geral. Outra ainda é a de os acompanhar nas suas experiências práticas e nas suas experiências formativas de forma a que, a partir delas e de uma forma reflexiva, possam aplicar, integrar, relacionar ou questionar os conhecimentos teóricos que adquirem na sua formação inicial e contínua, atribuindo-lhes, assim, real significado” (Ibidem, p. 295). Por outro lado, referem que a formação de professores “não consegue por si só melhorar a qualidade do ensino da Matemática, uma vez que esta, ao ser uma actividade contextualizada, depende das condições contextuais reais em que se realiza” (Borralho e Espadeiro, 2004, pp. 293-294, mencionando Llinares, 1993b). Além disso, afirmam que, apesar de ser um fator fundamental da educação, a formação de professores “só pode 74 Enquadramento influenciar as suas práticas em determinadas condições e dentro de determinados limites” (Borralho e Espadeiro, 2004, p. 295, citando Perrenoud, 1993, p. 93). Apesar da constatação de que o passado das aprendizagens molda de alguma maneira o professor enquanto estudante e que a formação inicial é uma fase fundamental para a sua formação e desenvolvimento a vários níveis, segundo Ponte (1996, p. 193) os “conhecimentos e competências adquiridas pelos professores antes e durante a formação inicial tornam-se manifestamente insuficientes para o exercício das suas funções ao longo da sua carreira”. Monteiro, Costa e Costa (2004) também defendem que será ao longo da vida profissional que os professores irão construir e consolidar o seu saber de uma forma refletida e aprofundada, muitas vezes alicerçado e complementado numa permanente atualização profissional e científica através da formação contínua formal ou autoformação e, ainda, do aumento do gosto pela área, em particular naquelas áreas que possam ir surgindo como conteúdos programáticos dos níveis de ensino onde lecionam, como é o caso recente da Estatística. Loureiro (2004) também refere que depois da formação inicial os professores deveriam ter a possibilidade de realizar um reforço da formação matemática nas instituições de ensino superior, por exemplo, através de cursos de aprofundamento matemático para os recém-licenciados, de cursos de especialização e mestrados com forte componente de formação matemática. Braumman (em Moreira et al., 2004) chama também a atenção para a formação contínua, que deveria ter maior atenção por parte das universidades, nomeadamente para matérias obrigatórias ou opcionais que integram os programas de Matemática e que não integravam ou integravam de forma insuficiente a formação inicial de muitos atuais professores, por exemplo, a Estatística, incluindo a inferência estatística. A formação contínua em Portugal é regida pelo Decreto-Lei n.º 249/92, de 9 de Novembro (com as alterações que lhe foram introduzidas pela Lei n.º 60/93, de 20 de Agosto, pelo Decreto-Lei n.º 274/94, de 28 de Outubro pelo Decreto-Lei n.º 207/96, de 2 de Novembro, pelo Decreto-Lei n.º 155/99, de 10 de Maio e pelo Decreto-Lei n.º 15/2007, de 19 de Janeiro)102 e no seu artigo 3º apresenta como objetivos fundamentais: a) A melhoria da qualidade do ensino e das aprendizagens, através da permanente atualização e aprofundamento de conhecimentos, nas vertentes teórica e prática; b) O aperfeiçoamento das competências profissionais dos professores nos vários domínios da atividade educativa, quer a nível do estabelecimento de educação ou de ensino, quer a nível da sala de aula; c) O 102 http://cefaeb.no.sapo.pt/legal/RJFCP.pdf (acedido em 23 de janeiro de 2012). 75 Enquadramento incentivo à autoformação, à prática da investigação e à inovação educacional; d) A aquisição de capacidades, competências e saberes que favoreçam a construção da autonomia das escolas e dos respetivos projetos educativos; e) O estímulo aos processos de mudança ao nível das escolas e dos territórios educativos em que estas se integrem suscetíveis de gerar dinâmicas formativas; f) O apoio a programas de reconversão profissional, de mobilidade profissional e de complemento de habilitações. Este regime prevê também no seu artigo 6º determinadas áreas de intervenção: a) Ciências de especialidade que constituam matéria curricular nos vários níveis de educação e ensino […]; b) Ciências da educação; c) Prática e investigação pedagógica e didática nos diferentes domínios da docência; d) Formação ética e deontológica. Além disso, no ponto 1 do artigo 7º estão previstas as modalidades de que se revestem as ações de formação contínua: a) Cursos de formação; b) Módulos de formação; c) Frequência, com aproveitamento, de disciplinas singulares em instituições de ensino superior; d) Seminários; e) Oficinas de formação; f) Estágios; g) Projetos; h) Círculos de estudos. Em termos de entidades formadoras, no artigo 15º são salientadas, com natureza pública, privada ou coletiva: a) As instituições de ensino superior cujo âmbito de atuação se situe no campo da formação de professores, das ciências de educação e das ciências da especialidade; b) Os centros de formação das associações de escolas; c) Os centros de formação de associações profissionais ou científicas sem fins lucrativos, constituídas nos termos da lei, cuja intervenção seja considerada relevante para o processo de formação contínua de professores; Além dos serviços da administração central ou regional de educação que podem promover ações de formação contínua em áreas consideradas relevantes para o desenvolvimento do sistema educativo. A formação contínua para Jaime Silva (1992) citado por Martins (2004, p. 309) é “um vector fundamental para a concretização de efectivas melhorias no funcionamento do sistema educativo […] Trata-se de uma tarefa complexa, de que os professores não devem ser excluídos como se fossem simples consumidores”. Segundo Ponte (1998) em Portugal a formação de professores deu dois grandes passos, tendo o primeiro ocorrido nos anos 70 do século XX quando se reconheceu a necessidade de haver programas de formação inicial orientados para a docência de forma específica, e o segundo nos anos 90 do século XX quando se institucionalizou a formação contínua e o incentivo à realização de projetos de investigação-ação. No entanto, a propósito da formação contínua, Borralho e Espadeiro (2004) consideram que a maioria dos professores tem dificuldade em perceber a ligação entre as 76 Enquadramento ações de formação e as suas práticas e também o papel da formação pela aprendizagem da sua prática. Estes autores consideram ainda que, em muitos casos, as razões para participar na formação contínua passa pela aquisição de créditos, importantes para a progressão na carreira, reencontrar colegas ou atualizar-se num determinado domínio. Contudo, mostram que os professores em exercício consideram que é, essencialmente, através da sua prática letiva que aprendem e mudam a mesma, não fazendo, em geral, ligação dessa mudança com a aprendizagem vivida na formação. No entanto, esta situação é contraditória com os objetivos da formação contínua, em particular com a criação de condições para os professores na formação “integrarem as suas visões de mudança da prática de ensino nas suas concepções de aprendizagem e fornecer instrumentos aos actos de formação para melhorar a ligação entre a formação e as suas práticas de ensino” (Borralho e Espadeiro, 2004, p. 299). Por outro lado, a Matemática como matéria curricular não surgia com frequência como oferta de formação contínua em qualquer das modalidades previstas, em particular nos planos de formação dos centros de formação de associação de escolas, como referem Borralho e Espadeiro (2004). Contudo, as instituições que disponibilizam formação contínua aos professores em exercício procuram proporcionar modalidades como as oficinas de formação, pois estas enquadram-se num contexto de formação orientada para o desenvolvimento profissional, com consequente impacto e influência nos professores e nas suas práticas. É também de destacar que no caso de muitos professores de Matemática, para além das variadas modalidades de formação juridicamente estabelecidas estes procuram também encontros nacionais e regionais de professores, seminários, conferências, pós-graduações, mestrados e, atualmente, também já procuram doutoramentos. Em todo o caso, segundo Borralho e Espadeiro (2004, p. 295), “para se ensinar não basta saber pensar bem, não basta ter uma grande capacidade de reflexão, é preciso um vasto conjunto de saberes e competências, que se pode designar de conhecimento profissional”. Nesse sentido, referindo Schön (1983), Ponte (1995, p. 196) afirma que “o núcleo fundamental do conhecimento profissional do professor é constituído por conhecimento na acção baseado na experiência e na reflexão sobre a experiência, podendo ser mais ou menos informado pelo saber académico relevante”. Este autor faz sobressair como domínios fundamentais do conhecimento profissional do professor de Matemática o conhecimento na ação na prática letiva, na prática não letiva e no desenvolvimento profissional (Figura 1.2). Em termos da prática letiva distingue dois domínios fundamentais fortemente interligados que são o conhecimento didático e o conhecimento sobre a gestão da aula. O conhecimento sobre 77 Enquadramento a gestão da aula envolve tudo o que possibilita ao professor a criação de um ambiente que promova a aprendizagem, enquanto o conhecimento didático apresenta, segundo Ponte (1995), essencialmente quatro aspetos: o guião curricular, a agenda, a monitorização e a avaliação. Em relação ao guião curricular destacam-se os objetivos de aprendizagem, as tarefas, as situações de aprendizagem imaginadas, as representações que o professor usa para cada conceito ou ideia e os critérios da avaliação. A agenda, que se esgota com a aula, é vista como o plano dinâmico da aula, incluindo os objetivos definidos e as ações previstas, cuja combinação corresponde à estratégia do professor para a aula. A monitorização está ligada ao pensamento e às decisões do professor ao longo da aula, tendo por base a agenda e recorrendo, pontualmente, e no momento, ao guião curricular. A avaliação tem início formal no começo da aula, dizendo essencialmente respeito a se as reações dos alunos correspondem ou não ao previsto e a se os objetivos e as ações do professor foram ou não os mais adequados. Figura 1.2: Esquema resumido do conhecimento profissional do professor de Matemática Fonte: Elaborada pelo autor com base em Ponte (1995, pp. 195-197) Por outro lado, Ponte (1995) considera ainda que estes aspetos do conhecimento na ação, que têm uma forte componente pessoal e afetiva, não existem compartimentados, surgindo relacionados com: o conhecimento de si mesmo, que envolve tudo o que o professor conhece de si próprio, a sua autoconfiança e as suas capacidades e recursos; o conhecimento 78 Enquadramento do contexto do ensino, que inclui essencialmente o conhecimento dos seus alunos, mas também, entre outros, dos colegas, da escola, dos pais, da comunidade, e do sistema educativo; o conhecimento pedagógico, que envolve os princípios, as metodologias, o como resolver problemas resultantes da prática pedagógica, ou o que é ensinar e aprender; o conhecimento curricular, que abarca o conhecer as finalidades e orientações gerais do currículo, os próprios currículos, incluindo numa visão transversal dos programas dos vários anos de escolaridade, bem como as abordagens, as estratégias e os materiais utilizáveis; e o conhecimento do conteúdo de ensino (neste caso a Matemática e a Estatística), nomeadamente os tópicos específicos da Matemática e da Estatística, mas também uma visão holística das mesmas, enquanto ciências e disciplinas escolares, bem como das suas naturezas e das suas ligações à realidade. Com uma outra abordagem, Batanero, Godino e Roa (2004) apresentam para o conhecimento profissional dos professores quatro componentes: a epistémica, a cognitiva, a mediadora e a de interação. De forma resumida, a componente epistémica é aquela que está relacionada, não só com o conhecimento do significado matemático dos conceitos, mas também com o seu desenvolvimento ao longo do tempo, que pode ajudar os professores a compreender o papel e a importância dos conceitos, bem como perceber as dificuldades dos alunos. A componente cognitiva abarca o conhecimento sobre a compreensão que os alunos, nas várias idades, têm dos conceitos elementares, o que permite ao professor melhorar a sua capacidade de antecipação e intervenção em relação às dificuldades de aprendizagem dos alunos. Fernandes, Carvalho e Correia (2011, p. 588) destacam que, no âmbito desta componente, também se devem ter em conta “os aspectos afectivos que os alunos podem desenvolver em relação às temáticas de estudo (medo, interesse, utilidade, etc.). Estas predisposições do aluno face ao tema de estudo poderão constituir-se como um obstáculo ou facilitar a sua aprendizagem”. A componente mediadora está relacionada com os meios, recursos e as formas de os aplicar, sequenciar e articular no processo de ensino-aprendizagem, de modo a melhorá-lo. O maximizar o potencial desta componente pressupõe que o professor, para além de conhecer os recursos, as metodologias e experiências de boas práticas adequadas, deve ter espírito crítico em relação aos manuais escolares e diretivas curriculares, ter a capacidade de adequar os conteúdos aos conhecimentos dos alunos e dever “conseguir captar o interesse dos alunos, tendo em conta as suas atitudes e crenças” (Fernandes, Carvalho e Correia, 2011, p. 589). Por fim, a componente de interação refere-se às regularidades que se estabelecem na relação entre o professor e os alunos na prática letiva que se assumem “como 79 Enquadramento um aspecto da maior relevância ao permitir monitorizar o processo de ensino-aprendizagem” (Fernandes, Carvalho e Correia, 2011, p. 589). Na sequência do referido, em relação ao desenvolvimento profissional apesar de ser uma noção que está próxima da noção de formação, estas não são equivalentes, pois apresentam diferenças claras. Ponte (1996) apresenta a formação como o frequentar de cursos numa lógica escolar, num movimento de fora para dentro (absorvendo conhecimentos e informação transmitida), de forma compartimentada e partindo sempre da teoria. Já o desenvolvimento profissional surge, segundo Ponte (1996), sobre múltiplas formas e processos, num movimento de dentro para fora, implicando a pessoa do professor como um todo e interligando a teoria e a prática. A valorização do desenvolvimento profissional do professor levá-los-á a assumirem-se como profissionais com autonomia e responsabilidade com múltiplas facetas e potencialidades próprias. Ora, segundo Ponte (1996), o contexto de “explosão” escolar, que nos anos 90 do século XX obrigou a um recrutamento acelerado de professores e ao estabelecimento de processos massivos de formação, contrasta com os tempos que lhes seguiram, e que podemos considerar que se estenderam até ao presente, que são tempos de “implosão” escolar que conduzem a grande instabilidade profissional e que são marcados por uma forte responsabilização do professor, o que pode também levar a uma atitude de desinvestimento ou, pelo menos, de investimento “artificial” que não vai no sentido das necessidades sentidas pelos próprios no seguimento da autorreflexão sobre a sua ação enquanto professores. Referindo Canavarro (1993), Ponte (1996, p. 196) considera que a “forma como se vive a profissão, […] é um aspecto decisivo que condiciona muito do que o professor faz ou está receptivo para vir a fazer num futuro próximo”. Em termos do processo identitário de cada professor, Ponte (1996, p. 197) refere que António Nóvoa (1991b) sugere que está assente em: “(a) a adesão a um conjunto de princípios e valores, à formulação de projectos que pressupõem a potenciação das capacidades dos educandos; (b) a acção, implicando a escolha, em cada caso, das maneiras de agir que melhor se adequam à nossa personalidade; e (c) a auto consciência que remete para o papel decisivo da reflexão sobre a prática”. 80 Enquadramento Em jeito de resumo, Henriques e Almeida (2004, p. 341) afirmam, com pertinência e atualidade, que “[s]erá tempo de se reflectir conjuntamente na procura de uma formação homogénea e de qualidade. Uma formação alicerçada numa multiplicidade de saberes, com uma sólida preparação científica, quer de Matemática que inclua o ‘know how’ de Polya, quer da sua didáctica, que ultrapasse a sua dimensão teórica e se fundamente numa prática progressiva que incentive a reflexão. Uma prática alicerçada em centros de apoio que envolvam as escolas e as instituições de formação inicial, complementada por uma formação contínua baseada nas necessidades reais dos professores de Matemática”. 1.3. O ensino da Estatística em Portugal Neste ponto, procura-se focar a Estatística e o seu ensino que, em conjunto com as atitudes, são os temas centrais deste trabalho. Assim, analisa-se a importância da Estatística e do seu ensino, procurando evidenciar o papel que a Estatística tem desempenhado na ciência, no ensino e na sociedade ao longo dos tempos, mas com particular atenção nas últimas décadas. Além disso, apresenta-se uma perspetiva da evolução da Estatística e do seu ensino em Portugal, dando destaque à análise do tema da Estatística nos vários programas de Matemática que foram implementados em Portugal, até à implementação do PMEB 2007. Por fim, reflete-se sobre a formação em relação à Estatística dos futuros professores e dos professores em exercício, em especial a dos do 1º e 2º ciclos do EB, tentando perceber a realidade ao longo dos últimos tempos e apontar dificuldades e necessidades, bem como caminhos futuros. 1.3.1. O papel da Estatística Desde tempos imemoriais que o Homem regista de forma continuada, ou não, acontecimentos e realidades envolventes, construindo bases de dados que permitem recordar o passado e ajudam a tomar decisões que envolvem o presente e até o futuro. Pode-se dizer que esta atitude já encerra nela o objetivo da Estatística, cuja designação surgiu apenas em 1749 81 Enquadramento através de Gottfried Achenwall (1719-1772), designando de início a análise de dados sobre o Estado e adquirindo o significado mais geral e próximo do atual através de Sir John Sinclair (1754-1835). No entanto, apesar de muito antiga, a Estatística como ciência é relativamente recente e como disciplina que deve ser ensinada, e que requer aprendizagem, é ainda mais recente. Assim, e segundo Branco (2000), o século XIX e o início do século XX são períodos em que é comumente aceite que eminentes cientistas e matemáticos produziram enormes desenvolvimentos e avanços teóricos na Estatística, bem como no seu uso, colocando à disposição uma panóplia de métodos estatísticos com grande interesse para dar resposta a inúmeros problemas, em particular nas ciências aplicadas, de tal forma que Fernandes, Sousa e Ribeiro (2004, p. 173) referem que “o século XX foi o século da estatística”. Na realidade, e de forma generalizada, têm vindo a emergir e sendo reconhecidos um vasto rol de problemas de natureza estatística em vários ramos da ciência, na indústria, ao nível da atividades estatais, entre outros. A linguagem, as técnicas e os processos estatísticos são usados nos mais diversos domínios, do desporto à saúde, da economia à política, para além de ser uma poderosa ferramenta ao serviço da realização de projetos e investigações nos mais variados campos, sendo fundamental nos processos de planeamento, recolha e análise de dados. Estes factos foram fazendo aumentar o interesse pela Estatística, bem como o reconhecimento gradual da sua importância e do seu papel preponderante nas sociedades modernas, pelo que passou a haver razões socioculturais e educativas suficientes para incluir os temas da Estatística no ensino obrigatório, tal como afirma Estrada (2009b) referindo Franklin et al. (2005). Foi com naturalidade que nas últimas décadas, e na maior parte dos países, a Estatística foi sendo incorporada de forma generalizada nos currículos de Matemática desde o ensino secundário ao ensino básico. O alargamento do espectro de idades abrangidas pelo ensino da Estatística tem por base razões como o uso frequente de dados e conceitos estatísticos no quotidiano e noutras disciplinas, a necessidade de um conhecimento básico de Estatística nas profissões, bem como o papel relevante da Estatística no desenvolvimento de um raciocínio crítico, como indica Batanero (2000, 2001) referindo Holmes (1980). Reforçando esta ideia, Holmes (2000) aponta como razões para se ensinar Estatística o facto de esta ser parte integrante da nossa cultura, o raciocínio estatístico ser uma parte essencial da numeracia, a constatação de que o contacto com dados reais pode ajudar no desenvolvimento pessoal e nas tomadas de decisão. Além disso, acrescenta o facto de que os conceitos 82 Enquadramento estatísticos são muito usados em inúmeras profissões e que a sua aprendizagem cada vez mais cedo pode propiciar a intuição que mais tarde poderá mais facilmente ser formalizada. Fernandes, Sousa e Ribeiro (2004, p. 170) referem como finalidade da educação estatística “o desenvolvimento de capacidades que permitam tomar atitudes críticas face ao que vêem ou ouvem”. Numa perspetiva mais curricular, Barros (2003, p. 10) refere que a estocástica permite desenvolver aspetos fundamentais dos currículos da Matemática, nomeadamente a capacidade de comunicar, de resolver problemas e de interpretar a realidade envolvente, o trabalho com tecnologia e o trabalho em grupo e interdisciplinar. Esta ideia também já era partilhada por César e Carvalho (2001), (baseando-se em Abrantes, 1994, Batanero, 1998 e António et al., 2000), quando sustentam que o tema da Estatística e Probabilidades é adequado para o desenvolvimento do trabalho de projeto, realizado em grupos, assim como para a utilização da análise exploratória de dados, o que também estimula o trabalho colaborativo. Reforçando outros aspetos já mencionados, também César e Sousa (2000) indicam como aspeto a sublinhar no ensino da Estatística a vantagem que este proporciona em termos da utilização de novas tecnologias, bem como com a realização de conexões com a vida real. Em relação a este último tópico, e citando Ponte, Matos e Abrantes, (1998, p. 170), César e Carvalho (2001, p. 134), defendem que a Estatística e as Probabilidades “são temas fundamentais que permitem uma ligação entre os saberes matemáticos escolares e a matemática utilizada no dia-a-dia”. Da mesma forma Ponte e Fonseca (2000, p. 194) sublinham que a Estatística “constitui uma interface fundamental entre a Matemática e a realidade, indispensável numa verdadeira educação para a cidadania e para a intervenção ativa nas mais diversas atividades. É esse o lugar que deve assumir no currículo”. Deste modo, um dos objetivos do ensino da Estatística é o da promoção nos alunos de capacidades que lhes permitam analisar dados por forma a descrevê-los, a compreendê-los e a inferir opiniões sobre os mesmos, utilizando várias ferramentas estatísticas e percecionando que “em Estatística, o contexto motiva os procedimentos, é fonte de significado e a base para interpretar as soluções” (Carvalho e César, 2000, p. 216), indo ao encontro do conceito de “cultura estatística” referido por Batanero (2002, 2013). Reforçando estas ideias, também Carvalho e César (2000) consideram que uma das faces distintivas da Estatística em relação a outros domínios da Matemática, com as suas especificidades próprias, é a enorme ligação que esta apresenta ao quotidiano, indicando que “o estudo da Estatística realça a importância de questionar, conjecturar e procurar relações quando se formulam e resolvem problemas da vida real” (Carvalho e César, 2000, p. 213, citando Normas para o Currículo e a Avaliação em 83 Enquadramento Matemática Escolar, 1991, p. 66). Complementarmente, Turkman e Ponte (2000, p. 6) indicam o ensino da Estatística como sendo fundamental para ajudar a “sensibilizar os alunos para o papel da investigação quantitativa como uma forma de resolver problemas do homem e da sociedade”. Na mesma linha de pensamento, segundo Pestana (2005, p. 51), a Estatística desempenha também um papel de “travão às ideias feitas, aos preconceitos, e à tentativa de fazer passar mentiras repetidas por verdades” através da “discussão estatística de questões que preocupam a sociedade em que nos inserimos” (Ibidem), ao que Porfírio (2000, p. 61) acrescenta “as suas [da Estatística] potencialidades ao nível da interpretação e compreensão de factos sociais e políticos e o seu contributo para a formação de uma atitude científica”. Em relação a esta atitude, Pestana (2005, p. 49) enaltece “o papel ímpar desempenhado pela Estatística na metodologia de investigação científica”. Por outro lado, em contraponto com a enorme expansão da Estatística enquanto ciência e a par da sua disseminação através do seu ensino, Carvalho e César (2000) e Fernandes, Sousa e Ribeiro (2004), referindo Shaughnessy (1992), salientam que na década de 80 do século XX ainda havia uma quase inexistência de investigação acerca do ensino da Estatística, pelo que Batanero (2000) realça a necessidade de aumentar a investigação sobre o seu ensino, de desenvolver a didática da Estatística e ter em consideração a natureza específica da Estatística que a diferencia da Matemática ao nível do seu ensino. No que diz respeito à natureza da Estatística e das Probabilidades, Branco (2000) considera que o facto de esta ser determinada pela existência do acaso é uma das razões que estão na base das dificuldades e do desinteresse generalizado por parte de muitos alunos face à Estatística e às Probabilidades. Em particular, o mesmo autor salienta que a ideia de probabilidade, através do conceito de distribuição de probabilidade, obriga à conciliação de independência (das observações) com regularidade (do método), o que, conjuntamente com o conflito muitas vezes existente entre a intuição e as probabilidades de acontecimentos, gera dificuldades específicas no ensino das probabilidades. Igualmente, em relação à Estatística considera que as dificuldades começam desde logo na própria definição e continuam numa deficiente compreensão de conceitos elementares e da ideia de inferência estatística, bem como no facto de haver uma proliferação de notações e terminologias ambíguas e confusas, e, ainda, de ser comum os resultados não serem únicos e de poderem até ser contraditórios. Além disso, sendo o raciocínio usado na Estatística diferente do usado em Matemática, é necessário que a orientação dos seus ensinos seja diferente, o que nem sempre se tem conseguido. Turkman e Ponte (2000) também indicam como relevante que na natureza da 84 Enquadramento Estatística não impere uma organização estritamente lógica, pois envolve a capacidade de discernimento e de avaliação dos problemas concretos em muitos aspetos, para além de apresentar fortes ligações, não só à Matemática, mas também com as áreas diferentes da sua aplicação. Todas estas questões sobre a natureza diferenciadora da Estatística em relação à Matemática e de algumas dificuldades associadas à aprendizagem em estocástica são também reforçadas em Fernandes, Carvalho e Correia (2011). Naturalmente que, acompanhando a evolução do ensino da Estatística em inúmeros países, perante a necessidade referida por Batanero (2000) de adaptar as ideias estocásticas às capacidades cognitivas dos alunos e de criar situações didáticas que lhes proporcionem uma aprendizagem significativa, começaram a surgir com regularidade, e multiplicando-se de forma acelerada nas duas últimas décadas, instituições, iniciativas e atividades científicas e/ou pedagógicas que visavam ou visam promover o desenvolvimento e a melhoria da educação estatística a nível internacional, nacional, regional e local. Em termos internacionais, entre outras, destacam-se: a primeira conferência internacional sobre o ensino da Estatística e consultoria em Estatística realizada em novembro de 1980 em Ohio; o relatório Barnett (1982)103, elaborado no âmbito do grupo de trabalho “Taskforce on Teaching of Statistics at School Level”, com o levantamento da situação do ensino da Estatística a nível mundial; e a criação em 1991, como uma secção do International Statistical Institute (ISI), da International Association of Statistical Education (IASE) que organiza encontros associados à realização dos congressos do ISI e as International Conference of Teaching Statistics (ICOTS) que se realizam de quatro em quatro anos desde 1982, além de publicar eletronicamente a revista Statistical Education Research Journal (SERJ). Existem também as International Conference of Mathematical Education (ICME) promovidas pela International Commission on Mathematical Instruction (ICMI)104. Neste âmbito o IASE também organizou, conjuntamente com o ICMI, um estudo sobre o tema “Statistics Education in School Mathematics: Challenges for Teaching and Teacher Education” coordenado por C. Batanero, G. Burril e C. Reading e publicado105 em 2011. O IASE também promoveu, a nível mundial, o International Statistical Literacy Project (ISLP), bem como o desenvolvimento de diversos projetos como, entre outros, Schools Council Project on Statistical Education, Quantitative Literacy Project, Data Driven Mathematics, Chance, Census at School. Há, ainda, a referir a existência de várias revistas internacionais especializadas como a Teaching Statistics, 103 Barnett, V. (Ed.) 1982. Teaching Statistics in School throughout the World. Voorburg: International Statistical Institute. 104 Que é uma comissão da International Mathematical Union (IMU). 105 Batanero, C., Burrill, G. & Reading, C. (Eds.) (2011). Teaching statistics in school mathematics.-Challenges for teaching and teacher education. A Joint ICMI/IASE Study. ICMI Study volume 14. New York: Springer. ISSN: ISBN 978-94-007-1130-3. 85 Enquadramento publicada desde 1973, o Journal of Statistics Education (JSE) entre outras publicações que, sendo em parte ou na totalidade dedicadas ao ensino da Estatística, divulgam as investigações que têm vindo a ser desenvolvidas nesta área. A nível nacional é de destacar a SPE que, para além da publicação semestral “Boletim SPE”, organiza anualmente um congresso, promove encontros106 sobre temas atuais de Estatística e, ainda, atribui os prémios Prémio SPE (científico) e os Prémios Estatístico Júnior. É também de salientar o projeto ALEA 107, que foi criado através de uma parceria entre a Escola Secundária Tomaz Pelayo e o INE. Este projeto nasceu como uma Acção Local de Estatística Aplicada, mas, com o tempo, passou de local a internacional e, para além de aplicada, passou a teórica, não só na Estatística, mas também na Pedagogia e na Educação (Rosado, 2008). Assim, este projeto é um “contributo para a elaboração e disponibilização de instrumentos de apoio ao ensino da Estatística para alunos e professores do Ensino Básico e Secundário, tendo como principal suporte um sítio na web”108. O projeto ALEA é um meio de promover a literacia estatística, direcionado para o contexto escolar, e é um instrumento de apoio a projetos interdisciplinares, tendo sido o primeiro a receber, em 2008, o prémio “Best Cooperative Project Award” atribuído pelo ISLP do IASE. 1.3.2. Perspetiva histórica Os primeiros ensinamentos de Estatística em Portugal, segundo Sousa (2005), terão sido ministrados ao nível do ensino superior, na Universidade de Coimbra, como complemento da cadeira de Economia Política, regida por Adrião Forjaz de Sampaio (18101874), em 1836, sob influência de alguns países europeus. Assim, parece ter sido esta “a primeira iniciativa em Portugal de introduzir na universidade o ensino dos métodos estatísticos, embora, ao tempo, de forma ainda muito retórica e pouco formalizada” (Sousa, 2005, p. 32). Na sequência destes factos, em 1841, Adrião Sampaio publica “Primeiros elementos da ciência da estadística”, que foi uma obra de apoio à referida disciplina e que foi baseada no Jornal dos Trabalhos da Sociedade Francesa de Statistique Universelle, teve sucessivas edições até 1859 e a sua tradução para espanhol foi o primeiro manual de Estatística e o único em Espanha até 1844. 106 Por exemplo, os Encontros SPE-CIM, organizados pela Sociedade Portuguesa de Estatística (SPE) e o Centro Internacional de Matemática (CIM). 107 www.alea.pt 108 www.alea.pt/html/projecto/html/projecto.html (acedido em 4 de maio de 2012). 86 Enquadramento Em 1865, e segundo Sousa (2005), na Escola Politécnica de Lisboa foi inserido o ensino de rudimentos de Cálculo das Probabilidades na cadeira de Cálculo Infinitesimal e que em 1911, na Faculdade de Ciências de Lisboa, foi criada a cadeira trimestral de Cálculo das Probabilidades, que passou a anual em 1932, incluída no 3º ano do curso de Matemática cujo regente era Vítor Hugo de Lemos (1894-1959) e assistente Pedro Braumann (1919-2003). Segundo a mesma autora, em 1957 foi criada a cadeira semestral “Probabilidades, Erros e Estatística” para os preparatórios de engenharias e em 1964, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Tiago de Oliveira (1928-1992) conseguiu a criação da licenciatura em Matemática com as opções “Matemática Pura” e “Matemática Aplicada” a partir do 3º ano, havendo depois de 1968 a oferta de opções no domínio da Estatística nos 3º e 4º anos do ramo de Matemática Aplicada. Além disso, na sequência deste processo deu-se também a introdução de disciplinas de campos afins à Matemática e Estatística, nomeadamente a Investigação Operacional e a Computação. Sousa (2005) afirma ainda que o trabalho do Professor Tiago de Oliveira e dos seus colegas culminou, em 1981, com a criação formal do Departamento de Estatística, Investigação Operacional e Computação (DEIOC) e das duas licenciaturas “Probabilidades e Estatística” e “Estatística e Investigação Operacional”, tendo Murteira (2005) considerado que o Professor Tiago de Oliveira desempenhou um importante papel no desenvolvimento da Estatística em Portugal, quer como investigador, quer na imposição da mesma como ramo autónomo do conhecimento. Nas universidades portuguesas existem, atualmente, diversas disciplinas de Estatística e de Investigação Operacional integradas em departamentos de Matemática, de Matemática Aplicada ou de Estatística e Investigação Operacional. Paralelamente a esta evolução foram surgindo centros de estudos e investigação na área da Estatística e Probabilidades ligados a universidades portuguesas e foi fundada, em 1980, a Sociedade Portuguesa de Estatística e Investigação Operacional (SPEIO), que em 1991 foi reestruturada, dando origem, até aos dias de hoje, à Sociedade Portuguesa de Estatística (SPE) que tem por objetivos, como consta no seu site109, o promover, cultivar e desenvolver o estudo da Estatística, suas aplicações e ciências afins, promovendo congressos regulares, seminários e concursos, editando várias publicações e divulgando informações e eventos relacionados. Segundo Pestana (2005, p. 48), ao longo dos anos de existência da SPEIO e depois da SPE, “o desenvolvimento da Estatística em Portugal foi notável”, 109 http://www.spestatistica.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=110&Itemid=71&lang=pt (acedido em 11 de março de 2012) 87 Enquadramento defendendo o mesmo autor que, face às alterações profundas da sociedade, que a SPE poderia coordenar, com vantagem em relação a outros, a preparação de ações de formação contínua. Foram também surgindo livros em português de autores portugueses que tiveram e têm um papel importante no apoio ao ensino da Estatística, em especial no ensino superior. Exemplos de muitos dos livros escritos são os dois volumes de “Probabilidades e Estatística” de Bento Murteira no final dos anos 70 do século XX, e com várias reedições nas décadas seguintes, “Estatística Descritiva” de Murteira e Black, os dois volumes de “Probabilidades e Estatística, Conceitos, Métodos e Aplicações” de Tiago Oliveira e os dois volumes de “Probabilidades e Estatística, Conceitos e Métodos Fundamentais” de Galvão e Melo, nos anos 90 do século XX, ou, ainda, o primeiro volume de “Introdução à Probabilidade e à Estatística” de Pestana e Velosa, os dois volumes de “Probabilidades e Estatística” de Gonçalves e Lopes, bem como, entre outros, “Introdução à Estatística” de Murteira, Ribeiro, Silva e Pimenta, “Estatística” de Guimarães e Cabral, ou ainda “Estatística Descritiva” de Reis e os dois volumes de “Estatística Aplicada” de Reis, Melo, Andrade e Calapez. Em termos de investigação também muito se tem evoluído em Portugal, nas últimas décadas. Em particular, ao nível dos doutoramentos, Turkman (2005) indica o doutoramento de Bento Murteira, em 1953, como o primeiro realizado em Portugal na área da Estatística. Só passados 17 anos é que surge o segundo doutoramento nesta área, o de Maria de Fátima Fontes Sousa (1928-2010), por curiosidade, a sócia número um da SPE. Já após o 25 de abril, em 1977, surgem os primeiros doutoramentos de portugueses realizados neste campo no estrangeiro, nomeadamente com o doutoramento de Maria Fernanda Ramalhoto, tendo este ciclo terminado em 1980 e dando início a um novo ciclo de doutoramentos que terminou no final dos anos oitenta, altura em que, tal como afirma Turkman (2005, p. 95), “estavam lançadas as sementes para a Estatística poder germinar por todas as Instituições do país”. Segundo a mesma autora, com algumas flutuações, este movimento foi crescendo na década de noventa, para, a partir de 2000, se dar uma verdadeira explosão de doutoramentos em áreas como Probabilidades, Processos Estocásticos ou Estatística, e que tem apresentado uma tendência para aumentar, apesar de Braumann (2005, p. 53) chamar a atenção para a “redução de jovens universitários interessados em prosseguir estudos nesta área do saber, fruto da demografia e, principalmente, do trauma da Matemática”. Noutra perspetiva, e reportando-se ao fim dos anos cinquenta e início dos anos sessenta, Branco (2000) refere a necessidade crescente de pessoas especializadas ou com bons conhecimentos de Estatística como tendo levado também à necessidade de captar o interesse 88 Enquadramento de um cada vez maior número de alunos. Este facto terá motivado a introdução do ensino da Estatística nas escolas de ensino não superior. Uma reunião organizada pela Organização Europeia de Cooperação Económica (OECE, atual OCDE) em 1959, em que participaram proeminentes matemáticos mundiais, foi o ponto de partida para este movimento de alargamento do ensino da Estatística e do cálculo das probabilidades aos planos de estudo do ensino secundário, o que também já reflete o reconhecimento da importância fundamental para que o cidadão comum possuísse conhecimentos sobre um conjunto de noções básicas de Estatística que, cada vez mais, passaram a fazer parte integrante da vida diária. Este movimento internacional generalizou-se depois, por exemplo, aos países da Península Ibérica. Assim, segundo Branco (2000), referindo Silva (1959, 1973), em Portugal foi José Sebastião e Silva quem, enquanto responsável pela modernização do 3º ciclo dos Liceus, e pela primeira vez, introduziu nos liceus portugueses o ensino de conceitos estatísticos e cálculo de probabilidades de forma experimental em algumas turmas no ano letivo de 1963/1964, tendo esta introdução sido sucessivamente alargada. No entanto, Ponte e Fonseca (2000) consideravam que, apesar da já reconhecida importância, a Estatística parecia ser, no currículo, um tema ainda marginal e facilmente relegável para segundo plano. Também Branco (2000, pp. 15-16) destaca que “[a]pesar da sua inclusão no currículo estas matérias, muitas vezes colocadas no final dos programas, nem sempre eram apresentadas aos alunos, por falta de tempo ou falta de convicção do seu real interesse”. Carvalho e César (2000) e César e Sousa (2000) também referem que apesar da inclusão de conteúdos de Estatística e Probabilidades no currículo do ensino secundário português já antes dos anos oitenta do século XX, estes raramente eram ensinados e ainda segundo Ponte, Matos e Abrantes (1998) que só a partir dos anos noventa do século XX é que de forma generalizada os alunos passaram a ter oportunidade de aprender estes tópicos. Reforçando esta constatação, Branco (2000) considera que só a partir da reforma programática iniciada em 1989/1990 se passou a ter um quadro de referência curricular mais claro, mais ou menos na mesma época em que se torna definitivo, nas instituições de ensino superior, o ensino da Estatística e Probabilidades nas licenciaturas de Matemática, assim como nas de outras áreas. Nos programas do ensino não superior existem referências à Estatística e/ou às Probabilidades em todos os programas de Matemática desde o 5º ano até ao 12º ano e, de forma muito disfarçada, no 1º CEB. Relativamente ao programa do 1º CEB de 1990 Ponte e Fonseca (2000) referem que os aspetos estatísticos não são apresentados num bloco temático próprio, nem são incluídos em qualquer um dos três blocos temáticos que são formalizados no programa. As duas referências 89 Enquadramento existentes surgem em secções introdutórias e de forma vaga, nomeadamente na construção e utilização de tabelas e gráficos de barras que surgem inseridas na secção “linguagem e representação”, e a leitura e interpretação de informação, bem como a realização de atividades de classificação, incluídas na secção “actividades recorrentes”. Ora, para Ponte e Fonseca (2000, 2001) estes objetivos são bem menos ambiciosos que os propostos pelo NCTM para alunos de 6-7 anos. Para o 2º CEB, o programa de 1991 refere a recolha, organização e interpretação dos dados, propondo que os alunos aprendam os conceitos de frequência absoluta, moda e média e que construam tabelas e gráficos. Além disso, o programa indica, de forma pouco específica, e depois complementada pelo documento de apoio de 1991, que os alunos a propósito do conceito de probabilidades devem conseguir tirar conclusões de experiências aleatórias simples. Assim sendo, Ponte e Fonseca (2000, 2001) consideram que, comparativamente com as indicações programáticas inglesas e do NCTM (1998), o programa português é o mais vago, apresenta uma visão truncada do processo de investigação estatística, recomenda formas de representação menos variadas, não se centra numa compreensão das características gerais focando-se apenas nas medidas de tendência central, além de ser pouco explícito e desenvolvido em termos da aprendizagem das noções elementares de probabilidade. No programa do 3º CEB de 1991 surge como objetivo geral a recolha, organização, representação e interpretação de informação. Em termos mais específicos, promove-se a formulação de conjeturas e de conclusões fundamentadas a partir da análise da informação. Por outro lado, aumenta a diversidade de formas de apresentação, recomendando, para além da construção de tabelas de frequência e gráficos de barras, a construção de gráficos circulares, polígonos de frequência e pictogramas. Também salienta, como instrumentos para sintetizar e analisar informação, as medidas de tendência central, em particular, na comparação de casos. Relativamente a probabilidades, este programa ambiciona a familiarização com alguns aspetos específicos da linguagem, a organização de processos de contagem e a utilização do conceito de probabilidade para resolver alguns problemas simples. É de destacar, ainda, a referência do potencial do tema da Estatística para a promoção da interdisciplinaridade e da importância do uso das tecnologias neste tema, em particular, no cálculo e na representação da informação. Segundo Ponte e Fonseca (2000, 2001) este programa, tanto a nível da Estatística como das Probabilidades, é bem mais vago que os correspondentes110 programas americano e inglês, sendo também menos completo na abordagem do processo global de investigação e apresentando como lacuna a não inclusão das 110 Segundo os autores a correspondência não é exata, pois os níveis nestes três países não são totalmente coincidentes com os portugueses. 90 Enquadramento medidas de dispersão para a comparação de amostras. Já no que diz respeito ao programa do secundário, de 1997, este apresenta, com alguns dos objetivos gerais, o interpretar e comparar distribuições estatísticas e resolver problemas de contagem que envolvam o cálculo de probabilidades. Em termos específicos é preconizado o estímulo para o contacto com aspetos da história da Estatística e com os conceitos de recenseamento, de sondagem e de amostragem. Nestas orientações promove-se a aprendizagem da organização, representação e tratamento de dados, bem como, a partir daí, conseguir tirar conclusões. Além disso, às formas de representação referidas nos programas dos ciclos anteriores, acrescentam-se o histograma e o diagrama de extremos e quartis. Ainda se apela à compreensão e à interpretação das medidas de tendência central e de dispersão, em particular, ao seu uso simultâneo aquando da interpretação de distribuições. Este programa inclui ainda o estudo de distribuições bidimensionais, em que, para além de uma abordagem gráfica e intuitiva, se pretende que se identifique o tipo de correlação e a reta de regressão. Ao nível das Probabilidades sugere-se naquele programa do ensino secundário que, a partir da realização de experiências aleatórias, se aprendam os vários tipos de acontecimentos, bem como se conheçam a lei dos grandes números, o conceito frequencista e a lei de Laplace, a distribuição de probabilidades com referência à distribuição normal e à curva de Gauss, a axiomática das probabilidades, a probabilidade condicionada e as técnicas de contagem no sentido de desenvolver o raciocínio combinatório e de se estabelecerem conexões matemáticas. Segundo Ponte e Fonseca (2000, 2001) o currículo do ensino secundário em Portugal, vigente desde 1997, comparativamente com os currículos americano e inglês, apresenta-se igualmente desenvolvido e detalhado, mas ainda sem uma visão total do processo investigativo, mais baseado na aquisição de conceitos e técnicas e menos na compreensão, na análise e interpretação, e com uma abordagem menos aprofundada da exploração de dados bivariados. No entanto, o programa português do ensino secundário é considerado por estes autores como sendo inovador na abordagem da perspetiva histórica da Estatística, na abordagem à axiomática das probabilidades e à utilização de técnicas de contagem. Assim, globalmente Ponte e Fonseca (2000, p. 193) consideram que os programas portugueses de Matemática de 1990, 1991 e 1997 apresentam para a Estatística “uma abordagem mais pobre e limitada” do que era proposta, tanto nos Estados Unidos da América, como no Reino Unido. Contudo, os mesmos autores consideram que relativamente ao tema das Probabilidades este “é tratado de modo mais avançado, no ensino secundário português, do que nos outros dois países”. Em 91 Enquadramento relação ao ensino básico “para além de se omitirem assuntos importantes, predomina um tom vago que nada ajuda quem procura interpretar o currículo” (Ponte e Fonseca, 2000, p. 193). Paralelamente Turkman e Ponte (2000, p. 6) referem que os programas de 1990 e 1991 incluem as medidas de localização, tabelas e gráficos de barras, mas que “poderiam introduzir conceitos como população e amostra, medidas de dispersão e proporcionar o contacto dos alunos com uma maior variedade de formas de representação gráfica”. Estes autores aludem também ao facto de que, naquela altura, era problemática a distribuição dos conteúdos no tempo e a forma de implementação dos mesmos. Nesse sentido, esses autores salientam uma forte tendência de sobrevalorização do cálculo e das técnicas por parte dos professores, relegando para segundo plano o papel do planeamento de um estudo estatístico, bem como a análise e interpretação de dados. Esta situação ficava patente no facto de que, apesar da referência à recolha e organização de dados nos programas do ensino básico, este objetivo tinha uma aplicação abaixo do desejável, havendo também um desvio na prática corrente nas escolas com a não implementação continuada no ano letivo da realização de projetos e interações entre disciplinas. Ora, ainda segundo estes autores, esta situação contrariava de igual modo a tendência vincada defendida pelos especialistas do ensino da Estatística a nível mundial, que já apelava ao desenvolvimento e uso do potencial que as tecnologias de informação e comunicação poderiam trazer ao ensino da Estatística, tanto com as máquinas calculadoras, como com software específico ou com o uso da internet. Ponte e Fonseca (2001, p. 22) também defendem que se deveria encarar a “Estatística como um elemento fundamental da formação para a cidadania e, para isso, trazendo para primeiro plano a Análise de Dados e dando atenção a todas as fases do processo de investigação”. Contudo, César e Sousa (2000, p. 196) referem que a transferência do que está inscrito nos currículos para as práticas letivas não é linear nem fácil, “pois os discursos mudam mais rapidamente do que as práticas e querer fazer nem sempre corresponde a saber fazer”. Além disso, Ponte e Fonseca (2001, p. 23) referem que “a mudança curricular não se esgota na elaboração e colocação em vigor de documentos oficiais. […] As mudanças necessárias envolvem, sobretudo, uma mudança de perspectiva, deixando de encarar a Estatística como um capítulo ‘pobre’ e pouco interessante da Matemática, para a passar a considerar como um elemento fundamental na formação básica da generalidade dos cidadãos”. 92 Enquadramento Realçando outras dificuldades, Turkman e Ponte (2000) acrescentam o facto de, por vezes, os alunos revelarem ideias incorretas tanto ao nível conceptual como computacional, o que deveria direcionar a atenção e a análise dos professores e investigadores também em relação aos processos de aprendizagem dos alunos e às dificuldades em Estatística e à própria noção geral do que é e do que significa a Estatística para os alunos. Em sintonia, Branco (2000) defendia que ao nível da aprendizagem e do ensino, apesar dos problemas serem muitas vezes semelhantes em quase toda a parte, as soluções deveriam encontrar-se localmente. Assim sendo, este autor advoga o conhecimento histórico do processo e o conhecimento da opinião dos alunos e dos professores em relação ao ensino da Estatística. Além disso, advoga um acompanhamento da evolução do processo por parte de professores competentes, conhecedores e experientes que possam promover uma formação contínua dos professores, a divulgação de boas práticas, a produção e disseminação de materiais, a formação de grupos de trabalho, a realização de projetos e a dinamização da comunicação interpares com interesse no ensino da Estatística. Complementarmente, César e Sousa (2000, p. 196) salientam a necessidade de se deixar “de contemplar apenas objectivos relacionados com os conteúdos, passando a ter em linha de conta o desenvolvimento de atitudes e valores, assim como capacidades e aptidões”. Deste modo, reforça-se a convicção de que conhecimentos, capacidades e atitudes são aspetos “inseparáveis não só nas novas tarefas que surgem aos alunos mas, também, no próprio processo de aprendizagem” (Ibidem, citando Abrantes, Serrazina e Oliveira, 1999, p. 22). Fernandes, Sousa e Ribeiro (2004, p. 186) também dizem que “é importante desenvolver nos alunos uma atitude favorável, formas de raciocínio e o interesse pela argumentação e interpretação das situações estatísticas”. Já Porfírio (2000) considerava que o currículo enunciado continha os elementos essenciais para que a Estatística fosse trabalhada de forma coerente e significativa para os alunos. No entanto, esta autora, apesar de considerar mais relevante a análise dos currículos implementado e adquirido, constatava haver falta de estudos para o fazer de forma fundamentada. Porém, a mesma autora considerava que o currículo implementado é “fortemente influenciado sobretudo pelo conhecimento e pensamento do professor e pela dinâmica de funcionamento da escola” (Porfírio, 2000, p. 62). Já em relação ao currículo adquirido, Porfírio (2000) indicou a necessidade de alterar a forma de ensinar, indo além do domínio das técnicas, dando maior relevo aos aspetos da interpretação, análise, comunicação e transversalidade e com maior incidência em atividades não rotineiras. É neste ambiente que, no início do século XXI, e a propósito da Estatística, Turkman e Ponte (2000, p. 6) 93 Enquadramento manifestaram a necessidade sentida de haver uma revisão dos programas ao nível do ensino básico, defendendo Ponte e Fonseca (2000, p. 194) “uma profunda revisão, no sentido de integrar plenamente este tópico com a análise de dados, […] proporcionar aos alunos do ensino básico um maior contacto com conceitos de estatística, […] proporcionar aos alunos um contacto desde mais cedo com diversos aspectos do conceito de probabilidade”. Enquadrado no ambiente de mudança demandado desde o final do século XX e início do século XXI, em 2001 surgiu o Currículo Nacional do Ensino Básico – Competências Gerais/Competências Específicas da Matemática, que introduziu algumas mudanças. Este documento (Ministério da Educação, 2001), relativo ao ensino básico, nos seus três ciclos, apresenta as competências gerais a possuir à saída, bem como, no seguimento, as correspondentes indicações da operacionalização transversal, da operacionalização específica e de algumas ações a desenvolver por cada professor. É também enfatizada e valorizada uma “lógica de ciclo”, apresentando a aprendizagem da Matemática como “um processo gradual e contínuo”. Especificamente, em termos do domínio temático da Estatística e Probabilidades, que era um dos quatro grandes domínios temáticos definidos para a Matemática, as orientações iam no sentido: da “predisposição” para “recolher e organizar dados” e para os “representar de modo adequado, nomeadamente, através de tabelas e gráficos e utilizando novas tecnologias”; da “aptidão” para “ler e interpretar tabelas e gráficos”, para “comunicar os resultados das interpretações feitas”, para “realizar investigações que recorram a dados de natureza quantitativa, envolvendo a recolha e análise de dados e a elaboração de conclusões” e, ainda, para “usar processos organizados de contagem na abordagem de problemas combinatórios simples”; da “tendência” para “dar respostas a problemas com base na análise de dados recolhidos e de experiências planeadas para o efeito” (Ministério da Educação, 2001, p. 64). Para além disto, apelava-se ao desenvolvimento, nos alunos, do seu sentido crítico e da sua sensibilidade para distinguir o que é aleatório do que é determinista. Mais particularmente, e no que respeita ao 2º CEB, apresentam-se os seguintes aspetos específicos: “• A compreensão das noções de frequência absoluta e relativa, bem como a aptidão para calcular estas frequências em situações simples; • A compreensão das noções de moda e de média aritmética, bem como a aptidão para determiná-las e para interpretar o significam em situações concretas; 94 Enquadramento • A sensibilidade para criticar argumentos baseados em dados de natureza quantitativa” (Ministério da Educação, 2001, p. 65). No que diz respeito ao 3º CEB, apresentam-se os seguintes aspetos específicos: “• A compreensão das noções de moda, média aritmética e mediana, bem como a aptidão para determiná-las e para interpretar o significam em situações concretas; • A sensibilidade para decidir quais das medidas de tendência central são as mais adequadas para caracterizar uma dada situação; • A aptidão para comparar distribuições com base nas medidas de tendência central e numa análise da dispersão dos dados; • O sentido crítico face à apresentação tendenciosa de informação sob a forma de gráficos enganadores e a afirmações baseadas em amostras não representativas; • A aptidão para entender e usar de modo adequado a linguagem das probabilidades em casos simples; • A compreensão da noção de probabilidade e a aptidão para calcular a probabilidade de um acontecimento em casos simples” (Ministério da Educação, 2001, p. 65). Na continuação da análise curricular ao 3º CEB, que então correspondia à última etapa do ensino obrigatório, constata-se que no 7º ano a Estatística corresponde a cerca de 10% dos conteúdos; que no 8º ano são propostas quatro aulas para o tema, no sentido de manter os alunos em contacto com os conceitos e processos estatísticos adquiridos, não havendo introdução de novos conceitos; e que no 9º ano se introduzem conceitos e cálculo de probabilidades. No entanto, e apesar da importância que a Estatística já tinha no currículo e de todas as indicações pedagógicas, didáticas e metodológicas que ele comportava (algumas já referidas), partindo da consciência de que, hoje em dia, tão importante como ler, escrever e contar é ler números, índices e gráficos, em suma, ter capacidade para, de forma crítica, analisar e compreender a informação que nos rodeia permanentemente, no ensino básico o objetivo da Matemática será estimular e desenvolver nos alunos a capacidade de “(i) compreenderem os processos elementares da recolha e análise de dados, (ii) entenderem o que está por detrás de uma investigação estatística, e (iii) terem consciência do que é um fenómeno aleatório, sendo capazes de construir modelos simples da realidade” (Ponte e Sousa, 2010, p. 28). Esta visão 95 Enquadramento ou interpretação de literacia estatística, ainda segundo Ponte e Sousa (2010), não se coaduna com a perspetiva que tem marcado o ensino da Estatística no ensino básico, que se tem resumido em termos práticos a privilegiar a aquisição por parte dos alunos de destrezas em processos e assentes apenas em cálculos e sem desenvolver a capacidade de as usar de forma crítica. Acompanhando os desenvolvimentos das investigações internacionais realizou-se e implementou-se um novo programa de Matemática do Ensino Básico, adiante designado por PMEB de 2007. Segundo Batanero (2009) em 2006 também houve em Espanha, um alargamento do ensino da Estatística acompanhado de uma mudança com foco no desenvolvimento do raciocínio estatístico e da utilização da Estatística como instrumento para resolver problemas, havendo uma orientação para a recolha e tratamento de dados reais. Com o PMEB de 2007 pode considerar-se que passámos a ter um quadro curricular ainda mais alargado e consistente do ensino da Estatística em Portugal. Neste sentido, no PMEB de 2007, sob o nome de Organização e Tratamento de Dados (OTD), é indicado que o trabalho em Estatística e em Probabilidades deve ser desenvolvido em todos os ciclos do ensino básico. Desta forma é considerado que, desde o 1º CEB, a aprendizagem deve envolver os vários aspetos relacionados com a representação dos dados, a formulação de questões e a interpretação de resultados, indicando Loura (2009) que a principal dificuldade será a escolha de bons exemplos, a propósito dos quais o programa menciona o seu enquadramento em situações do quotidiano e da vida familiar e escolar. Esta autora refere ainda a necessidade de, no 1º CEB, se ter que ter cuidado em usar um pequeno número de categorias e para que em algumas situações os dados recolhidos sejam de natureza quantitativa discreta. Para além disso, é feita a referência à realização de experiências com resultados aleatórios e à sua graduação em termos de serem mais ou menos prováveis. Estas orientações estão em linha com o preconizado no programa espanhol vertido no Decreto de Enseñanzas Mínimas de la Educación Primaria de 2006, enquadrado no bloco Tratamiento de la información, azar y probabilidade da área da Matemática, tal como é resumido em Batanero (2009). Depois deste contato inicial no 1º CEB, o 2º CEB passa a “contemplar a análise exploratória de dados de natureza contínua e o uso de um mais amplo reportório de medidas estatísticas” (Loura, 2009, p. 48). Além de que, neste ciclo, são apresentados os vários tipos de dados e promove-se a escolha de representações gráficas em consonância com a análise e interpretação. Já em termos da probabilidade, no programa é indicado que se deve dar 96 Enquadramento “seguimento ao trabalho com a incerteza iniciado no 1.º ciclo, os alunos continuam o estudo de situações aleatórias simples e realizam experiências que possibilitam a exemplificação da regularidade a longo termo, consolidando, simultaneamente, o vocabulário básico relativo a situações aleatórias” (Ministério da Educação, 2007, p. 42). Também no 2º CEB há uma grande semelhança nos conteúdos indicados no caso português e espanhol, embora neste último surja de forma explícita a leitura de tabelas de dupla entrada. Relativamente ao 3º CEB destaca-se o facto de que neste se “alarga o reportório das medidas estatísticas – incluindo o estudo da mediana, quartis e amplitude interquartil – e das formas de representação de dados – com os diagramas de extremos e quartis” (Ministério da Educação, 2007, p. 59). Em termos das orientações metodológicas referentes ao tema da probabilidade especifica-se que se deve “estimar ou calcular probabilidades, quer utilizando a frequência relativa (conceito frequencista de probabilidade), quer considerando situações simples onde se possa admitir que os resultados da realização da experiência aleatória são igualmente possíveis (conceito clássico de Laplace)” (Ministério da Educação, 2007, p. 60). Também se constata uma grande proximidade entre estas diretrizes com as espanholas para o 3º ciclo, tal como é apresentado em Batanero (2009). Em termos do tema Organização e Tratamento de Dados, o ensino básico culmina, no 3º CEB, com o atingir dos objetivos gerais de aprendizagem deste tema, nomeadamente que os alunos devem: “• compreender a informação de natureza estatística e desenvolver uma atitude crítica face a esta informação; • ser capazes de planear e realizar estudos que envolvam procedimentos estatísticos, interpretar os resultados obtidos e formular conjecturas a partir deles, usando linguagem estatística; • desenvolver a compreensão da noção de probabilidade; • ser capazes de resolver problemas e de comunicar em contextos estatísticos e probabilísticos” (Ministério da Educação, 2007, p. 59). 97 Enquadramento O quadro temático da Organização e Tratamento de Dados (OTD) no PMEB de 2007 resume-se na Tabela 1.5. Tabela 1.5: O tema Organização e Tratamento de Dados no PMEB de 2007 1º Ciclo 1º e 2º anos 2º Ciclo 3º e 4º anos 3º Ciclo Representação e interpretação de dados Representação e interpretação de dados e Situações aleatórias Representação e interpretação de dados Planeamento estatístico Leitura e interpretação de Leitura e interpretação de Formulação de questões Especificação do problema informação apresentadas informação apresentadas em Natureza dos dados Recolha de dados em tabelas e gráficos tabelas e gráficos Tabelas de frequências População e amostra Classificação de dados Gráficos de barras utilizando diagramas de Moda Venn e de Carroll Situações aleatórias Tabelas de frequências absolutas, gráficos de pontos e pictogramas absolutas e relativas Gráficos de barras, circulares, de linha e diagramas de caule-efolhas Média aritmética Extremos e amplitude Tratamento de dados Organização, análise e interpretação de dados Medidas de localização e dispersão Discussão de resultados Probabilidade Noção de fenómeno aleatório e de experiência aleatória Noção e cálculo da probabilidade de um acontecimento Fonte: Elaborada pelo autor com base na Tabela 1 em Loura (2009, p. 48) Como já foi referido, em 2012 foram introduzidas pelo MEC as Metas Curriculares e o Programa de Matemática do Ensino Básico de 2013, que na prática fizeram surgir algumas alterações também ao nível da OTD, modificando-se de forma global a abordagem do PMEB 2007. Em relação ao revogado PMEB de 2007 fica-se com a sensação de ser dada menos importância à Estatística na implementação do atual currículo e mantêm-se os desafios na implementação do ensino da Estatística, impelindo professores e alunos para diferentes práticas e atitudes. 98 Enquadramento 1.3.3. A Estatística e o professor e sua formação No seguimento do ponto anterior, impõe-se uma reflexão final em relação à formação estatística dos professores de Matemática do ensino básico, que são quem desde sempre implementaram o programa e enfrentaram os desafios colocados a todos os níveis. Perante o acréscimo do peso de tópicos de Organização e Tratamento de Dados nos diferentes ciclos do ensino básico, Ribeiro e Martins (2010, p. 3) indicam que se deverá associar “uma mais intensa/profunda preparação dos professores, de modo a abordarem, com êxito, os objectivos educativos correspondentes, com o intuito de concretizar a visão teórica fornecida pelo Programa que terão, expectavelmente, de leccionar”. Complementando esta ideia, Batanero (2009, p. 6) afirma que “[…] el cambio de la enseñanza de la estadística en las escuelas e institutos dependerá del grado en que se pueda convencer a los profesores de que la estadística es uno de los temas más interesantes y útiles para sus estudiantes y que todos ellos tienen capacidad para adquirir conceptos elementales“. Rocha (2000) refere que os candidatos a professores do 1º e 2º ciclos do EB até metade da década de noventa do século XX entravam no ensino superior praticamente sem conhecimentos e competências desenvolvidas a nível da Estatística. Turkman e Ponte (2000) referem que, regra geral, havia pouco interesse pelo ensino-aprendizagem da Estatística por parte dos professores em Portugal, indicando como algumas possíveis causas a reduzida tradição do ensino deste tema em Portugal, uma certa desvalorização da Estatística em relação a outros temas e a preponderância da Matemática na formação de professores que era feita em Portugal. Ribeiro e Martins (2010, p. 1) referem ainda que a Estatística é “um dos temas a que, tradicionalmente, não é atribuída grande importância na formação de professores (e em geral ao longo de toda a escolaridade)”. Já Fernandes, Carvalho e Correia (2009), analisando os estudos com futuras professoras e com professoras em exercício de Barros (2004), Ribeiro (2006) e Nunes (2008), indicam nas suas conclusões que, em geral, consideraram importante ensinar Estatística na escola, que é necessário um aprofundamento da formação dos professores em termos da estatística inferencial; que tanto os alunos como os professores apresentaram perceções de que a Estatística é um tema fácil, tendo estas origem numa visão muito tecnicista; que, com o tempo, tem havido um maior uso das tecnologias no ensino da 99 Enquadramento Estatística, assim como maior realce no trabalho e avaliação em grupo; que a ênfase continua a ser dada pelo professor na exposição e no questionamento focalizado, confirmatório e centrado no teste de conhecimentos baseado na memorização; que as professoras conheciam bem as indicações curriculares mais significativas, mas que revelaram dificuldades e limitações na implementação dessas orientações. Assim, estes autores consideram que “o necessário aprofundamento da formação de professores nesta temática [Estatística] deverá dar prioridade à preparação de materiais e actividades e à intervenção do professor em sala de aula. Tal formação deverá, ainda, repercutir-se nas concepções dos professores que vêm a Estatística como um tema fácil de os alunos aprenderem, pois, muitas, vezes, tal facilidade decorre de uma abordagem mais técnica do tema” (Fernandes, Carvalho e Correia, 2009, p. 604). Num estudo de Ribeiro e Martins (2010) com 31 alunos do 2.º ano da licenciatura de Educação Básica, futuros professores que podem vir a lecionar desde o Pré-Escolar até ao 2.º CEB, os resultados revelaram uma falta de conhecimento sobre os conteúdos relativo ao tema matemático de OTD que estes futuros professores poderão ter que abordar enquanto professores. Estes autores indicaram como sinal disso que as respostas obtidas na primeira parte do questionário, aplicado em grupo, sobre qual a “melhor” forma de registo de um conjunto de respostas, foram semelhantes às fornecidas por alunos do 2.º ano de escolaridade, o que é um indicador preocupante e que é importante alterar com urgência. Carvalho e César (2000, p. 214) indicavam também como limitação no ensino da Estatística o facto de “a maioria dos professores que a estão a ensinar nos primeiros ciclos de escolaridade serem professores de Matemática com pouca ou nenhuma formação em Estatística, e menos ainda em Didáctica da Estatística”. Como já foi referido, nos objetivos da educação moderna a aprendizagem de noções fundamentais de Estatística e o seu contributo na análise de dados é fundamental, pelo que era e é imperioso que se fomente “uma atitude bem mais positiva nos professores” (Turkman e Ponte, 2000, p. 8). Batanero (2009) refere como pontos essenciais a trabalhar na formação estatística de professores: atitudes e crenças em relação à Estatística dos professores; conhecimentos estatísticos; conhecimento profissional para o ensino da Estatística; análise e reflexão de experiências estatísticas; e utilização de novas tecnologias. Nesta linha de pensamento era, e continua a ser, essencial proporcionar aos professores que ensinam Matemática, incluindo os do 1º CEB, uma forte formação em Estatística, ao nível da 100 Enquadramento Estatística descritiva e inferencial, dos métodos de análise exploratória de dados e das ferramentas informáticas adequadas ao ensino destes conteúdos, como refere também Lopes (2000, p. 78) quando afirma que é “fundamental dar formação probabilística e estatística àqueles que vão ensinar Matemática”, para além de salientar a importância do programa científico do (então) Estágio Pedagógico. Além de que era e é fundamental fornecer formação na Didática da Estatística, tal como referem Batanero (2000) e Turkman e Ponte (2000), para que os professores interiorizem as respetivas orientações curriculares, conheçam as principais e mais comuns dificuldades sentidas pelos alunos e, também, dominarem as formas de organizar o ensino-aprendizagem deste tópico. A propósito desta questão, Batanero (2000) defendia a necessidade de aumentar a investigação sobre o ensino da Estatística e de desenvolver a Didática da Estatística, e que esta investigação, algo dispersa, necessita de um trabalho de síntese e de difusão entre os professores “que son los que tienen finalmente la posibilidade y responsabilidad de la formación estadística de los escolares” (Batanero, 2000, p. 32). Por outro lado, Fernandes, Carvalho e Correia (2011, p. 586) defendem que “mais do que um elevado nível de conhecimentos matemáticos, eles [os professores] precisam de ter uma profunda compreensão da Matemática que ensinam, que inclui um conhecimento suficiente das interconexões e relações entre os diferentes conceitos matemáticos e suas aplicações, para além de outros conhecimentos não estritamente matemáticos que são necessários à organização e implementação do ensino”. No entanto, e tal como referiam Turkman e Ponte (2000, p. 8), ainda agora, a formação de professores apresenta a limitação de, num currículo limitado, incluir “experiências que proporcionem o desenvolvimento dos conhecimentos, competências, atitudes, e valores necessários ao exercício profissional”. Na mesma linha de pensamento, Branco (2000), realçando a ideia de que são os professores de Matemática os que melhor podem desempenhar o papel de ensinar Estatística, apontava haver dificuldades como a deficiente formação desses professores na área da Estatística, entre outros, fruto da desadequação da formação estatística proporcionada aos professores no ensino superior que não os preparava para o trabalho que o professor iria realmente realizar. Nesta linha, Albuquerque et al. (2006) defendiam como temas matemáticos a incluir ou reforçar nos programas de formação inicial professores a Análise de dados, Estatística e Probabilidades, em particular para os futuros professores do 1º CEB, por ser um dos mais recentes conteúdos 101 Enquadramento no currículo do ensino básico e por estar subvalorizado no programa de Matemática do 1º CEB em vigor na altura, como já se referiu, “[…] não estando contemplada de uma forma explícita, sendo apenas proposto no bloco suportes de aprendizagem ‘a utilização de setas, diagramas, tabelas, esquemas e gráficos para comunicar e registar ideias, ler e interpretar informação’” (Albuquerque et al., 2006, p. 31). Consequentemente, e com a cada vez maior atenção dada aos processos relacionados com a recolha, organização, representação e interpretação de dados, também para a formação inicial, como indicam Albuquerque et al. (2006), é necessário incluir o desenvolvimento de mais conhecimento estatístico e probabilístico e a aquisição de mais experiência no planeamento de um estudo estatístico, na descrição de dados (estatística descritiva) e obtenção de conclusões alicerçadas em estatísticas. Também Loureiro (2004) considera importante ao nível da formação dos professores do 1º CEB a inclusão de tópicos matemáticos como a recolha e tratamento de dados e o raciocínio proporcional e probabilístico. Em relação ao primeiro, e no contexto de formação de professores do 1º CEB, esta autora refere que o trabalho sistemático sobre recolha e tratamento de dados pode servir para contrariar uma visão demasiado compartimentada e desligada dos conteúdos da Matemática, por exemplo, para trabalhar ao mesmo tempo números e operações, bem como atribuir significados aos índices e medidas, para ganhar segurança na utilização de instrumentos matemáticos, para trabalhar os contextos que nos rodeiam através da interpretação e descrição da realidade, ainda que de forma aproximada. A mesma autora indica que os raciocínios proporcionais e probabilísticos permitem atingir a ligação da Matemática ao mundo que nos rodeia, a ligação entre vários conceitos e competências matemáticas e ligação ao reforço da capacidade de resolver problemas, de comunicar e de desenvolver o espírito crítico. Da mesma forma, era possível constatar a necessidade de formação que professores em exercício sentiam em relação a algumas áreas específicas da Matemática, como é o caso da Estatística. Exemplo disso é que, na sequência de um estudo realizado por Ponte e Santos (1998), centrado nas conceções e práticas de duas professoras do 3º CEB e do secundário com grande experiência, uma professora considerou que a maior novidade dos currículos de Matemática de 1991 e 1997 era a introdução de novos tópicos que a professora teria que estudar, tendo esta afirmado “A Estatística, a Geometria no espaço… ainda não peguei nisso, que nunca dei… nunca ninguém me ensinou porque não fez parte do meu currículo de estudos, nem na faculdade nem no liceu…” (Ponte e Santos, 1998, p. 19). Também a partir do relatório Matemática 2001, Ponte (1998) referiu como temas de necessidade sentida de 102 Enquadramento formação as Probabilidades, no caso dos professores do 3º CEB e secundário, e a didática da Matemática, no caso dos professores do 2º CEB. Este facto afigurava-se como um indicador de que havia lacunas na formação inicial dos professores quanto ao ensino das Probabilidades e em relação à didática da Matemática, que deveria incluir a didática da Estatística e das Probabilidades. Outro exemplo é o da investigação de Rocha (1996) acerca de um programa de formação contínua de professores do 1º CEB na área da educação matemática. Nessa investigação foi mencionado o interesse pelo trabalho de grupo com os alunos, demonstrado por várias das professoras envolvidas. Esse interesse surgiu através da implementação das atividades de recolha, análise e interpretação de dados, pois constituiu a primeira oportunidade para promover a comunicação e, em particular, o relato das conclusões. Nessa altura, Branco (2000, p. 25) defendia a exigência aos responsáveis para que facultassem “a formação permanente que os professores precisam”. Igualmente, Turkman e Ponte (2000) consideravam, que a formação contínua aprofundada deve ir além de ações pontuais que melhorem os conhecimentos e competências dos professores, exigindo um trabalho sustentado ao longo do tempo, realizado no terreno pelos próprios professores e enquadrado por projetos de desenvolvimento curricular e de investigação, e se possível até interdisciplinares e/ou que possam ajudar a aumentar o nível de literacia estatística na sociedade. Mais recentemente, o trabalho desenvolvido no Programa de Formação Contínua em Matemática (PFCM) para professores do 1º e 2º ciclos do EB, desde 2005, tem incluído nas suas orientações “a concretização da prática letiva e da reflexão sobre a mesma” (Ponte e Serrazina, 2009, p. 4). Além disso, a partir de 2008/2009 este programa de formação passou a incidir explicitamente sobre o PMEB de 2007, fazendo-o numa “perspectiva consentânea com as orientações agora presentes no programa do ensino básico” (Ponte e Serrazina, 2009, pp. 45). Segundo os mesmos autores, para além da formação com exposições teóricas e atividades práticas, nas oficinas de formação temáticas para professores do 2º e 3º ciclos do EB praticase uma formação de base exploratória, como por exemplo no tema OTD. Assim, o PFCM tentou dar respostas aos novos desafios dos professores de Matemática do ensino básico, mas os seus reais resultados não foram avaliados e publicados. Porém, e a propósito da generalização do PMEB de 2007 que decorreu ao longo dos anos letivos de 2008/2009 a 2011/2012, “a formação definida centralmente nunca poderá responder a todos os problemas. Por isso, uma parte essencial da formação de professores terá que ser organizada a partir das escolas e agrupamentos” (Ponte e Serrazina, 2009, p. 5). Por outro lado, o PM I, aplicado nos 103 Enquadramento 2º e 3º ciclos do EB no triénio iniciado em 2006, e depois o PM II, alargado ao 1º ciclo a partir de 2009/2010, no mesmo ano letivo em que arrancou a generalização do novo programa da disciplina, tiveram um impacto positivo segundo o Ministério da Educação 111. Esta conclusão foi obtida através de balanços intercalares, onde se considerou ter havido uma melhoria quer ao nível das práticas letivas, e nas condições para as mesmas, quer do trabalho colaborativo entre os professores, mas também um reforço do apoio à generalização do PMEB de 2007. Esta situação enquadra-se no âmbito das três ideias fundamentais para o desenvolvimento profissional do professor, enquanto processo para melhorar os seus conhecimentos, as suas competências e as suas atitudes, que Ponte (2012, p. 90) refere serem “a colaboração, a prática como ponto de partida da formação e a investigação sobre a prática como processo fundamental de construção do conhecimento”. No âmbito das mudanças desencadeadas pelo PMEB de 2007 reforça-se a ideia de que a colaboração pode surgir “como uma prática espontânea e natural dos professores, nomeadamente quando enfrentam uma situação nova, como é o caso da introdução de um novo programa (e.g., Santos, 2001)” (Ibidem, p. 91). Contudo, e apesar da recente homologação do PMEB de 2013 e das mudanças que daí advirão, espera-se que, no futuro, e em relação ao ensino da Estatística, a formação inicial e a formação contínua permitam aos futuros professores e aos professores em exercício perceber melhor os desafios que se lhes colocam. Estes professores devem-se posicionar e criar a sua própria atitude em relação a estes desafios. Espera-se, também, que a conceção e a realização de programas de formação, baseados nas suas perceções e atitudes em relação à Estatística e seu ensino, contribuam para colmatar as necessidades na prática letiva dos vários grupos de professores, quer em formação inicial, quer em serviço. 111 http://www.dgidc.min-edu.pt/outrosprojetos/index.php?s=directorio&pid=62 (acedido em 13 de janeiro de 2012) 104 Atitudes 2. Atitudes Ao longo do tempo tem-se sentido uma sensação generalizada e quase permanente de haver lacunas e/ou inadequações das competências promovidas nas escolas, em várias áreas, entre as quais a Matemática, sobretudo quando se tem em vista a inserção no mercado de trabalho que é cada vez mais competitivo e exige uma cada vez maior flexibilidade do trabalhador. Esta situação leva governos, instituições e especialistas a uma preocupação com estas temáticas, o que consequentemente conduz à tentativa de estudar as possíveis causas de modo a sustentarem as alterações a propor. Muitas vezes isso tem sido feito através de estudos nacionais e internacionais sobre o desempenho académico dos alunos. No entanto, tem-se constatado que essa avaliação formal dos alunos envolve uma forte componente de testes normalizados e feitos pelos professores para avaliar o conhecimento e os procedimentos de modo a avaliar até que ponto os alunos retiveram alguns objetivos específicos do ensino preconizado. Porém, estes não são os únicos objetivos do ensino, pois dependendo da natureza da escola e do professor, existem outras metas afetivas, sociais, entre outras, que muitas vezes não são avaliadas de modo formal por envolverem processos mais subjetivos. Precisamente ao nível da afetividade está a avaliação das atitudes, valores, opiniões, sentimentos e crenças dos alunos e adicionalmente dos professores, dos administradores e da escola como um todo. Nesse sentido, tendo a educação como objetivo geral o aperfeiçoamento da pessoa como ser individual e social, e uma vez que estes dois âmbitos estão presentes no processo atitudinal, ambos os elementos – atitudes e educação – estão relacionados, como defende Auzmendi (1992). Desta forma, mais do que a aprendizagem de condutas determinadas, que só se aplicam a situações concretas, é conveniente adquirir atitudes e valores que permitam construir um referencial que possibilite respostas rápidas perante novas situações e circunstâncias. Além disso, a relação atitudes-educação é bidirecional, no sentido em que se aprende melhor o que é congruente com as próprias atitudes e que provoca maior agrado, e que uma educação adequada pode gerar atitudes positivas perante uma determinada área ou disciplina, como também refere Auzmendi (1992). Por outro lado, segundo Philipp (2007) para perceber as experiências dos alunos com a Matemática escolar, que regra geral inclui a Estatística, é necessário perceber um fator central nessas experiências que é o professor de Matemática. Assim, e como defende Aiken (2002), de todos os fatores que influenciam a aprendizagem dos alunos, 105 Atitudes um dos mais importantes é o professor, pois as suas capacidades, atitudes e personalidade podem ter uma profunda influência e impacto na forma como os alunos beneficiam, ou não, das experiências escolares. Daí que seja muito importante aferir as atitudes dos professores e dos alunos, tanto no ambiente de aula, como fora dele, em relação a aspetos com peso na eficácia do ensino e aprendizagem. Além disso, neste tempo de mudanças, e de forma resumida, pode afirmar-se que os objetivos das reformas na educação estatística são, para além da melhoria do ensino e aprendizagem da Estatística, mudar para melhor as atitudes em relação à Estatística, como defendem Tishkovskaya e Lancaster (2012). Estas autoras indicam, ainda, com base em Garfield (1993) e Roseth, Garfield e Bem-Zvi (2008), que está demonstrado em vários estudos que o trabalho de aprendizagem cooperativo e colaborativo no ensino da Estatística tem vários benefícios, nomeadamente a melhoria das atitudes em relação à Estatística. Nessa linha, as mesmas autoras realçam ainda as ideias da pedagogia construtivista de Garfield (1995) nos seus princípios gerais para a aprendizagem da Estatística em que os professores são encorajados a desenvolverem na aula um ambiente de aprendizagem ativo e a prestarem uma maior atenção às crenças e às atitudes dos alunos no desenvolvimento do seu conhecimento estatístico. Com esta motivação e pela sua importância, tal como indicam Bohner e Wänke (2002, p. 3) “Attitudes are a central part of human individuality”, as atitudes são o tema central desta tese, e em particular as atitudes dos professores em relação à Estatística. Assim, neste capítulo começa por fazer-se uma abordagem geral ao conceito de atitudes, seguindo-se uma análise e um enquadramento das atitudes especificamente em relação à Estatística. 2.1. Abordagem geral ao conceito de atitudes Os significados de alguns constructos da Psicologia e da Sociologia têm sido fontes de desacordo e debate. A falta de consenso na interpretação destes tópicos, bem como do seu uso na comunicação, investigação e aplicação, torna-os confusos e imprecisos. Esta situação é consequência, pelo menos em parte, do facto de muitos destes constructos terem sido adotados na linguagem do dia-a-dia, carregando com eles, por isso, várias idiossincrasias e conotações inválidas. Segundo Aiken (2002), entre estes constructos da Psicologia e da Sociologia encontram-se as atitudes, os valores, as 106 Atitudes opiniões e as crenças, que envolvem processos psicológicos fundamentais de avaliação de objetos, seres ou situações/acontecimentos na experiência pessoal de cada um. Para Pratkanis (1989) a característica essencial das atitudes é a componente de avaliação e é o seu armazenamento na memória que as distingue das outras estruturas cognitivas. Os constructos referidos não só representam respostas cognitivas, afetivas e comportamentais nesses processos psicológicos e formas de conceptualizar e de lidar com o meio envolvente, em sentido lato, como também ajudam a criar o ambiente que o indivíduo deseja ou assume que existe, através da sua influência na perceção e no comportamento. Estes são conceitos interdisciplinares que são estudados na investigação social e comportamental, que também inclui o contexto educacional. Realçando a importância do porquê estudar as atitudes, Greenwald (1989a, p. 1), Bohner e Wänke (2002, pp. 10-11) e Aiken (2002, p. 3) citam Allport (1935, p. 798) que afirma “attitudes are probabily the most distinctive and indispensable concept in contemporary social psychology”. Greenwald (1989a) afirma, ainda, que existem alguns comportamentos sociais importantes que não podem ser explicados sem utilizar as atitudes. Historicamente, e segundo Aiken (2002), o termo atitude foi o mais citado no PsyINFO durante o século XX de entre os termos atitudes, valores, opiniões e crenças, sendo o segundo mais citado o termo valores, embora na última década desse século o termo crenças tenha ultrapassado o termo valores. No sentido de tentar clarificar o que se pode entender por atitude bem como a sua importância, aborda-se de seguida a evolução da conceptualização das atitudes ao longo do tempo. Em particular, são apresentadas várias definições para atitude e para outros constructos psicológicos e sociológicos próximos. Além disso, serão explorados vários aspetos ligado às atitudes, tal como a sua relação com o comportamento – uma das razões fundamentais do seu estudo – bem como a sua estrutura, função e força, a sua formação e alteração ou as suas consequências. Por fim, é feito um enquadramento geral e considerações específicas sobre a medição de atitudes. 2.1.1. Conceito de atitude e sua composição e funcionalidades O termo atitude, segundo Aiken (2002), pode ser encontrado na literatura ocidental desde o começo do século XVIII, mas só foi introduzido na Psicologia por volta de 1860, tendo sido nessa altura que os psicólogos H. Spencer e A. Bain usaram 107 Atitudes esse termo para se referirem a um estado interior de preparação para a ação. Relativamente aos primeiros esforços para a compreensão e sistematização da definição deste constructo, Faria (2006) menciona o trabalho de W. Thomas e F. Znaniecki (1918) sobre a aculturação dos emigrantes polacos na sociedade dos Estados Unidos, em que estes definiram atitude como “um processo de consciência que determina actividades reais ou possíveis do indivíduo no mundo social” (Faria, 2006, p. 24, citando Candeias, 1996, p. 65). Este autor refere ainda como referência inicial para o desenvolvimento do estudo das atitudes o trabalho de 1935 publicado por G. W. Allport que focou a natureza das atitudes e cuja definição de atitude teve ampla e rápida aceitação e divulgação. De forma global e integradora, na predisposição para determinadas respostas dos indivíduos ao relacionarem-se com certos objetos destacavam-se aspetos sociais, psicológicos, fisiológicos e neurológicos. Nesse sentido, e tendo compilado já nessa altura mais de 100 definições de atitude, Allport apresentou atitude definida como “um estado de preparação mental ou neuronal, organizado através da experiência e exercendo uma influência dinâmica sobre as respostas individuais a todos os objetos ou situações com que se relaciona” (Faria, 2006, p. 25, citando Candeias, 1996, p. 66). Em termos da evolução histórica do estudo das atitudes, que emergiu como área do conhecimento nos anos vinte do século XX, McGuire (1989) identifica três fases de expansão, evoluindo naturalmente para níveis cada vez mais complexos. Um primeiro período entre os anos vinte e os anos trinta do século passado, em que o foco era a medição das atitudes, tendo-se destacado nessa época, entre outros, psicólogos como Bogardus, Thurstone e Likert. No segundo período, que corresponde aos anos cinquenta e sessenta desse século, a incidência deu-se sobre os processos de mudança de atitudes. No terceiro período, ainda no mesmo século, nos anos oitenta e noventa, privilegiou-se a abordagem do sistema de atitudes, ou seja, os conteúdos, a estrutura e a funcionalidade. Como já foi referido, o significado deste conceito de atitude tem variado entre os investigadores, assumindo várias interpretações e abordagens teóricas e metodológicas, e tendo sido inclusive alvo de controvérsias. Assim, e porque no âmbito da presente investigação é também importante adquirir uma visão holística do conceito de atitude ao longo do tempo, bem como o da sua compreensão e interpretação, apresenta-se, de seguida, ainda que não de forma exaustiva, algumas contribuições de vários investigadores, em relação às quais para além de vários enfoques fica muitas vezes patente a interdependência e a complementaridade entre elas. 108 Atitudes Segundo Kislenko (2006), Triandis (1971) indica que a noção de atitude abrange pelo menos três verbos: pensar, sentir e comportar-se. Além disso, e como indica a mesma autora, na visão de Triandis (1971) o comportamento não é só determinado por aquilo que se gostaria de fazer, mas também pelo que se julga que se deve fazer, ou seja, as normas sociais, hábitos e as consequências esperadas do comportamento estão incluídas no conceito de atitude. Sublinhando a relação entre atitudes e crenças, M. Rokeach define atitude como “a relatively enduring organization of beliefs around an object or situation predisposing one to respond in some preferential manner” (Aiken, 2002, p. 3, citando Rokeach, 1968, p. 112). Gagné e Brigg (1974, p. 62), em Aiken (2002, p. 3), descrevem atitude como “an internal state which affects an individual’s choice of action toward some object, person, or event”, tornando explícito o facto de as atitudes não serem diretamente observáveis, mas apenas inferidas pelo comportamento. Para Ajzen (1989, p. 241) a atitude é uma “individual’s disposition to respond favorably or unfavorably to an object, person, institution, or event, or to any other discriminable aspect of the individual’s world”. O mesmo autor, mencionando Bem (1970), Edward (1957), Fishbein e Ajzen (1975), Hill (1981), Osgood, Suci e Tannenbaum (1957) e Oskamp (1977), realça que o atributo característico da atitude é a sua dimensão avaliativa (a favor ou contra, positivo ou negativo). Este autor apresenta a atitude como uma variável latente ou um constructo hipotético que, sendo inacessível por uma observação direta, deverá ser inferida por respostas mensuráveis que deverão refletir as avaliações positivas ou negativas em relação ao objeto de atitude. Por outro lado, mencionando Mcguire (1985), bem como Ajzen (1989), referindo Allport (1954), Hilgard (1980) e ainda McGuire (1985), Aiken (2002) indica que as atitudes têm as componentes: cognitiva (crenças, conhecimento, expetativas, ou perceção da associação entre o objeto de atitude e atributos); afetiva (sentimentos, disposição, motivos, emoções e mudanças psicológicas associadas); e de desempenho ou comportamental (comportamento ou ação, ambos intencionais). Para estes autores cada uma destas três componentes estruturais pode ser expressa através de respostas tipo verbal ou não verbal. Ainda nesse sentido, Faria (2006) indica: a dimensão cognitiva como aquela que se refere ao que se conhece ou se crê conhecer sobre o objeto de atitude, dizendo respeito às crenças assimiladas e incluindo as perceções sobre esse objeto; a dimensão afetiva como uma das mais características das atitudes, estando 109 Atitudes ligada à questão emocional e podendo dar à atitude uma direção e uma intensidade; e a dimensão comportamental como estando relacionada com intenções ou decisões em termos de ação. Além disso, referindo Menezes (1986), esta predisposição para agir/reagir de uma certa maneira perante o objeto de atitude resulta da combinação das outras duas dimensões, funcionando como propulsora da ação ou da tendência para a ação. Eagly e Chaiken (1993, p. 155) dão também ênfase a uma classificação tripartida, definindo atitude como “tendencies to evaluate an entity with some degree of favor or disfavor, ordinarily expressed in cognitive, affective, and behavioral responses”. Apesar de McGuire (1989) mencionar sete modelos para a estrutura das atitudes, a divisão tripartida, em que o pensamento, o sentimento e a ação são considerados como três aspetos de uma atitude, é bastante usada na investigação sobre as atitudes. No entanto, este autor defende que a informação não avaliativa das componentes, em particular das componentes cognitiva e comportamental, deveria ser investigada de forma mais adequada, sugerindo a possibilidade de haver respostas semiabertas. Pratkanis (1989) refere que grande parte da investigação com base no modelo tripartido foi realizada no sentido da sua validação, mostrando que as atitudes são constituídas por essas três componentes, mas que alguns estudos sobre as implicações deste modelo, nomeadamente em assuntos como a alteração de atitudes e a previsão do comportamento, parecem não ter mostrado que este modelo tenha força preditiva ou poder explicativo. Segundo Ajzen (1989) alguns investigadores põe em causa a assunção de que uma disposição avaliativa é igual, quer esta seja inferida por uma resposta de natureza cognitiva, afetiva ou comportamental. Este autor, referindo Krech, Crutchfield e Ballachey (1962) e McGuire (1985), apresenta uma visão multidimensional de atitude em que as tendências de resposta cognitiva, afetiva e comportamental representam conceptualmente componentes da atitude distintas, realçando o modelo hierárquico de Rosenberg e Hovland (1960) que inclui como fatores de primeira ordem o conhecimento, o afeto e o comportamento e a atitude como fator único de segunda ordem. As três componentes são definidas de forma independente mas, compreendem, num nível superior de abstração, o constructo único de atitude. Assim, dado que as três componentes são reflexo da mesma atitude subjacente, estas deverão apresentar algum grau de correlação entre elas. No entanto, na medida em que existem diferenças psicologicamente significativas entre as categorias de respostas cognitivas, afetivas e comportamentais é de esperar que as medidas dessas componentes não sejam totalmente 110 Atitudes redundantes. Além disso, são de esperar correlações de magnitudes moderadas entre as medidas das três componentes. De uma maneira geral, na literatura existente os dados são bastante consistentes com o modelo hierárquico, em que apenas um fator será o responsável pela grande parte da variância nas respostas atitudinais e as correlações entre as medidas das três componentes são tipicamente de uma magnitude considerável. Greenwald (1989b, p. 439) apresenta a atitude como “the central theoretical construct for describing the motivational significance of mental objects”, em que objeto mental ou objeto de atitude são aludidos numa conceção lata. O mesmo autor define atitude como “affect associated with a mental object” (Ibidem, p. 432) e ainda a considera idêntica à de Thurstone (1931) que é a de que “attitude is the affect for or against a psychological object” (Ibidem, p. 432). Fazio (1989), referindo os trabalhos de Fazio, Chen, McDonel e Sherman (1982) e de Fazio (1986), considera atitude como uma associação entre um determinado objeto e uma determinada avaliação, em que ambos os termos, objeto e avaliação, são vistos no sentido lato. Além disso, o mesmo autor considera que esta avaliação sumária pode ser baseada em emoções provocadas no indivíduo pelo objeto de atitude, em crenças que o indivíduo tenha sobre esse objeto e/ou em experiências vividas relacionadas com o objeto de atitude. Bohner e Wänke (2002) apresentam atitude como uma avaliação sumária de um objeto de pensamento, podendo estes objetos ser concretos ou abstratos e as referidas avaliações incluírem respostas afetivas, comportamentais e/ou cognitivas. Segundo estes autores estas três categorias de resposta não são necessariamente estanques umas das outras, não sendo, forçosamente fatores independentes. Por este motivo adotam uma definição uni-dimensional de atitude, apesar de haver quem defenda uma definição pluri-dimensional. Em termos conceptuais Bohner e Wänke (2002) defendem que as avaliações referidas terão que ser estáveis ao longo de um largo período de tempo e guardadas na memória de longo termo para que possam ser consideradas como atitudes. Ou seja, as atitudes são caracterizadas como um conceito que perdura no tempo, que é armazenado na memória e recuperado de acordo com as circunstâncias. Esta perspetiva é denominada por file-drawer model uma vez que concebe as atitudes como ficheiros mentais que cada indivíduo consulta para a avaliação do objeto em questão. Em contraposição, de acordo com Bohner e Wänke (2002), outros autores propõem as atitudes como construções temporárias que cada indivíduo elabora quando é necessário emitir um juízo de valor, pelo que nesta abordagem, designada de attitudes-as111 Atitudes constructions, não se considera um armazenamento prévio na memória, mas sim a emissão de juízos avaliativos baseados em informação que surge do pensamento, no momento e perante a situação concreta. Combinando elementos de várias definições, Aiken (2002) defende que as atitudes podem ser vistas como predisposições cognitivas, afetivas e comportamentais, apreendidas para dar respostas positivas ou negativas na interação com certos objetos, situações, instituições, conceitos ou pessoas. Ferreira (2012) refere Lima (1996) para dizer que ainda que seja difícil delimitar a definição ou conceito de atitude, há nas diversas abordagens mais usadas certos elementos comuns, nomeadamente: as atitudes estão relacionadas com experiências subjetivas e história de um individuo ou grupo social, sendo uma construção e expressando uma posição relativamente estável, mas passível de mudança e em algumas situações até permitindo a capacidade de previsão do comportamento do sujeito; as atitudes são referentes a objetos cognitivos, podendo ser objetos, situações, pessoas ou grupos; está sempre envolvida uma dimensão avaliativa nas atitudes, que pode ser positiva ou negativa. Em termos das funções das atitudes, e apesar de não haver consenso sobre a definição e da terminologia variada usada à volta do conceito de atitude, Pratkanis (1989, p. 91) adota como funções possíveis da estrutura das atitudes o aceder e avaliar a utilidade de um objeto, o guiar o uso ou o comportamento em relação a um objeto e o argumentar sobre os méritos de uma proposta. Já Bohner e Wänke (2002) propuseram como funções principais das atitudes a organização do conhecimento e da regulação da aproximação e do evitar, bem como o servir necessidades psicológicas superiores. Relativamente à primeira das funções referidas, denominada por knowledge function por Katz em 1960, Bohner e Wänke (2002) consideram que o dividir o mundo entre bem/bom e mal/mau é um processo fundamental ao nível mais elementar. Não só as pessoas fazem juízos fundamentalmente baseados nesta dimensão, como também o fazem de forma muito rápida. A identificação e categorização dos pares bem/mal, bom/mau, agradável/desagradável, conveniente/inconveniente, amigável/hostil, entre outros, fazem parte de todas as análises às funções das atitudes. Desta forma as atitudes providenciam uma estrutura simples para organizar e lidar com situações complexas e/ou ambíguas. Neste sentido, uma atitude representa um esquema cognitivo cujo tipo de conhecimento preenche uma função utilitária, pelo que também é designada por função utilitária ou instrumental. Assim, esta função engloba a maximização de 112 Atitudes benefícios e a minimização de custos, para além da ajuda para compreender e organizar a envolvência, estando associada, em geral, a atitudes baseadas nos interesses próprios, resumindo as consequências intrínsecas associadas aos objetos de atitude e direcionando o comportamento que obtém as recompensas relacionadas com esses objetos. Reforçando esta ideia, Fazio (1989) afirma que muitos investigadores consideraram que a atitude é um constructo funcional que facilita as tomadas de decisão e clarifica a vida, maximizando a possibilidade de ter experiências quotidianas positivas e minimizando a ocorrência de experiências negativas, poupando às pessoas “the energy-consuming and sometimes painful process of figuring out de novo how he shall relate himself to it” (Fazio, 1989, p. 171, citando Smith, Bruner e White, 1956, p. 41). Nesse sentido também este autor apresenta, como Shavitt (1989), a função conhecimento como o principal valor das atitudes, que, ao contrário de outras funções que podem ser consideradas, é a única que é aplicável a todas as atitudes. Além disso, esta funcionalidade tem que ver com a utilidade em geral de tomar uma atitude e não só com o conteúdo ou a direção da atitude, ou seja, independentemente do porquê de uma atitude numa determinada situação, a simples posse de uma atitude é útil para a pessoa no sentido de a orientar em relação ao objeto. Em termos da segunda função das atitudes indicada por Bohner e Wänke (2002), o servir necessidades psicológicas superiores, estes autores, referindo Herek (1986), também consideram útil a distinção entre a dicotomia agradável/desagradável que resulta do próprio objeto de atitude e a dicotomia agradável/desagradável que surge do expressar de uma atitude, que corresponde a uma função simbólica ou expressiva e que estarão ligadas a atitudes em relação a valores intrínsecos à pessoa. As atitudes podem também servir para a manutenção das relações sociais. Estas funções de expressão de valores e de ajustamento social podem ser consideradas como sendo sócio identitárias. Outras funções simbólicas são as da manutenção da autoestima, redução do medo ou dos conflitos interiores e lidar com ameaças ao próprio ou com a sua mortalidade. Também Aiken (2002), referindo Katz (1960) e Ostrom (1994), defende que, adicionalmente às três componentes referidas, as atitudes podem ser consideradas como tendo várias funções motivacionais. Nesse sentido, as atitudes fornecem um quadro de referência para organizar a informação do que nos rodeia (função conhecimento), para procurar recompensas e evitar punições (função instrumental ou utilitária), para gerir conflitos emocionais (função da defesa do ego), para expressar o sentido de si próprio, valores pessoais ou identidade (função para expressar valores), para se ver a si próprio 113 Atitudes de forma consistente e coerente (função de consistência), para se distinguir a si próprio dos outros num determinado grupo social (função de singularidade). Ainda neste quadro funcional de atitudes, Shavitt (1989) faz também referência à função de ajustamento social (social adjustment function), baseada na proposta de Smith, Bruner e White (1956), cuja natureza passa por facilitar a expressão individual e a interação social, assim como a função da expressão de valores (value-expressive function), com base numa proposta de Katz (1960), em que as atitudes desempenham a função de expressão de valores centrais do conceito do indivíduo. Deste modo, Shavitt (1989) propõe para representar, de forma geral, o papel social das atitudes a função de identidade social (social identity function) que resume a capacidade de, através das atitudes, se expressarem valores centrais para o indivíduo, se estabelecer a identidade e de se ganhar aceitação social. Outra função das atitudes apontada por este autor é a função de manutenção de autoestima (self-esteem maintenance function) que, na linha da designada função de satisfação com o próprio (appraisal of self function) de Greenwald (1989), engloba as formas em que as atitudes podem apoiar a autoestima no sentido em que podem ajudar a pessoa a lidar com as ansiedades geradas por conflitos internos e que, ainda segundo Shavitt (1989), tem correspondência com a função de exteriorização (externalization function) de Smith, Bruner e White (1956) ou à função de defesa do ego (ego-defense function) de Katz (1960). Segundo Aiken (2002), dependendo da sua intensidade, as atitudes podem dar respostas rápidas a estímulos relevantes para essa atitude, contribuir para a organização eficiente da perceção e pensamentos de cada um relativamente a diferentes aspetos do mundo, e facilitar a planificação e as tomadas de decisão, sendo esta ideia reforçada por Pratkanis (1989, p. 92) quando afirma que “attitudes are excelent predictors of conceptual cognitive processes reliably determining how individuals make sense of their social world”. Fazio (1989, p. 153) refere que existe uma visão de que as “[a]ttitudes guide perception, information processing, and behavior. They structure one’s social universe and, in so doing, ease decision-making”. Este mesmo autor questiona esta visão que atribui tamanha importância às atitudes, defendendo que esta só é apropriada, proporcional e justificada em determinadas condições e para alguns tipos de atitudes. Por conseguinte, deve existir a possibilidade que a atitude seja ativada na memória após a mera exposição ao objeto de atitude por forma a ter algum potencial de representar o papel de relevo referido e isso determina a sua força e funcionalidade. 114 Atitudes As atitudes podem ser bastante individualizadas e podem estar muito relacionadas com características da personalidade, daí que atitudes idênticas podem servir funções diferentes para pessoas diferentes. Ou seja, a mesma atitude pode servir funções diferentes para a mesma pessoa em diferentes alturas e a mesma pessoa pode apresentar atitudes diferentes correspondentes a funções diferentes em tempos distintos, sendo que a maior parte das atitudes abrangem múltiplas funções, tal como defendem Bohner e Wänke (2002). Complementarmente, Aiken (2002) afirma que as atitudes variam não só de pessoa para pessoa, mas também com a nacionalidade, cultura e outras variáveis demográficas e situações. Além disso, se algumas atitudes são tidas como características individuais, outras há que são vistas como representativas de um grupo ou até de uma população, pelo que surge o interesse por estudos transculturais de comparação de atitudes. 2.1.2. Atitudes e outros conceitos próximos Como já se indicou, existem outros conceitos muito próximos do de atitude e intimamente relacionados com ele, como os de valores, opiniões, crenças e sentimentos. Cattell (1965), mencionado por Aiken (2002), define atitudes como leituras para a ação, vendo-as como subservientes a outras variáveis da personalidade. Nesse sentido, as atitudes seriam subsidiárias dos sentimentos e estes das necessidades biológicas básicas. Ainda segundo Aiken (2002), outros autores defendem hierarquias de especificidade semelhantes, apresentando os valores como os menos específicos, a seguir os interesses, depois os sentimentos seguidos pelas atitudes e depois as opiniões e as crenças como as mais específicas ou exclusivas de todas. Segundo Aiken (2002), na Psicologia Social o conceito de valor é interpretado como uma atitude em relação a ideais, costumes ou instituições de uma sociedade, como por exemplo a beleza, a igualdade, a liberdade, a honestidade ou a ordem. Assim, formalmente os valores poderão ser definidos como a importância, utilidade ou valia atribuída a uma atividade ou objeto particular. Tanto os valores, como as atitudes são motivadores do comportamento, quer coletivo, quer individual e estão relacionados com outras variáveis sociais e de personalidade. No entanto, segundo a menção de Aiken (2002) a Rockeach (1973) os valores são mais centrais para a personalidade e mais essenciais para a expressão das necessidades e desejos individuais do que as atitudes. 115 Atitudes Também relacionado com a atitude surge o conceito de opinião como um juízo sobre o carácter ou mérito de uma pessoa ou coisa. As opiniões são muitas vezes vistas como manifestações conscientes de atitudes. De acordo com Aiken (2002), as opiniões também são vistas como sendo menos centrais, mais específicas, mais alteráveis e mais baseadas em factos que as atitudes. Assim, as opiniões são reações específicas a certos acontecimentos ou situações, enquanto as atitudes são mais gerais nos seus efeitos ou consequências na resposta a um leque alargado de pessoas ou eventos. As pessoas estão mais conscientes das suas opiniões do que das suas atitudes (em especial das atitudes implícitas), tendo estas tipicamente uma forma mais básica. Ou seja, as atitudes combinadas com factos produzem as opiniões, pelo que, nesta linha de pensamento, convém referir que as atitudes podem também afetar a escolha dos factos usados para interpretação e formação de uma opinião. A crença é outro conceito que aparece de forma recorrente e com afinidade à atitude mas que, segundo Fishbein e Ajzen, se diferenciam porque “enquanto a atitude se refere mais à avaliação favorável ou não de um indivíduo em relação a um objeto, a crença representa as informações que este indivíduo tem sobre o objeto” (Faria, 2006, p. 26, citando Tavares, 1977, p. 15, que refere Fishbein e Ajzen, 1975). Já para Philipp (2007) as crenças devem ser encaradas como lentes através das quais se olha quando se interpreta o mundo à volta, definindo-as como perssupostos psicológicos de entendimentos, premissas ou proposições sobre o mundo que são assumidas como verdadeiras. Aiken (2002) define crença como confiança na verdade ou na existência de algo que não exige de forma imediata uma prova rigorosa disso mesmo. Para o mesmo autor as crenças e opiniões distinguem-se também das atitudes e valores relativamente ao nível da consciência que as pessoas têm deles, tendo estas sempre consciência das suas opiniões, mas nem sempre têm plena consciência das suas atitudes e valores. Tanto as crenças como as opiniões são menos generalizáveis e menos resistentes à mudança que as atitudes e valores. As crenças apresentam, ainda, um menor grau de certeza do que o conhecimento, mas maior do que as atitudes ou opiniões, sendo, pois, o suporte factual das opiniões mais fraco do que o das crenças. Além disso, relacionadas com as atitudes, os valores e as crenças estão disposições de personalidade generalizáveis como, por exemplo, o papel do género e a orientação religiosa, que são orientações individuais que influenciam o comportamento numa grande variedade de situações. Em resumo, no que diz respeito à extensão em relação à qual estes conceitos se baseiam na informação factual, num contínuo entre fé (menos baseado em factos) e 116 Atitudes conhecimento (mais baseado em factos), as atitudes surgem em último lugar, seguidas das opiniões e as crenças surgem no topo. Para Philipp (2007), e quanto ao afeto, este deve ser encarado como a disposição ou tendência que cada um assume em relação a algum aspeto do seu mundo, pelo que seguramente afeta a forma como cada um interage e se relaciona com o mesmo, incluindo o “mundo matemático”. Este autor refere que McLeod (1992) define o domínio do afeto como “a wide range of beliefs, feelings, and moods that are generally regarded as going beyond the domain of cognition” (Philipp, 2007, p. 261, citando McLeod, 1992, p. 576). Deste modo e neste âmbito é dada mais atenção aos termos emoções, atitudes e crenças. Assim, Philipp (2007) também considera que o afeto compreende emoções, atitudes e crenças e define-o, de forma geral, como uma disposição, tendência, emoção ou sentimento relacionado a uma ideia ou objeto. No sentido de dar uma visão mais holística e interligada destes conceitos, com que se tenta caracterizar o domínio afetivo, Bazán (2008) refere o modelo de DeBellis e Goldin (1997) melhorado em DeBellis e Goldin (2006) que se apresenta na Figura 2.1. Figura 2.1: Modelo descritivo do domínio afetivo Fonte: Elaborada pelo autor com base na Figura 1 de Bazán (2008, p. 8) 117 Atitudes Neste modelo aborda-se a afetividade de uma forma ampla, estando implícitas as vivências e as formas de expressão dos indivíduos, ainda que não surjam explicitamente outros descritores da área do afeto como são por exemplo a motivação, os sentimentos, o humor, as conceções, o interesse, a ansiedade e as opiniões, como é realçado por Bazán (2008). 2.1.3. Atitudes e comportamento A relação entre atitude e comportamento é complexa e é também uma das principais razões para se estudarem atitudes. Conforme Bohner e Wänke (2002) é quase certo que a atitude de uma pessoa em relação a um objeto de atitude particular pode influenciar o comportamento dessa pessoa em relação a esse objeto. É também possível que a atitude em relação a um objeto de atitude influencie o comportamento (e as atitudes) em relação a outros objetos de atitudes. Mais ainda, a atitude de uma pessoa pode influenciar o comportamento de outras. Para além disso, as atitudes determinam como se processa informação que diz respeito ao objeto de atitude. Em suma, as atitudes como constructo parecem desempenhar um importante papel mediador entre a informação social percecionada na envolvência e a respetiva resposta. As atitudes explicam em larga medida como se reage aos estímulos sociais, incluindo a nós próprios, e ao que se sente, se pensa e se age em relação a eles. Por outro lado, é uma das principais razões para o estudo das atitudes a convicção de que elas guiam o comportamento. Contudo, nem sempre é possível estabelecer evidência dessa ligação íntima entre atitude e comportamento. Para Bohner e Wänke (2002) esta relação é forte se ambos os conceitos forem medidos ao mesmo nível de especificidade, em que medidas gerais de atitudes predizem de forma pobre comportamentos isolados, mas que são bons preditores de medidas agregadas de comportamentos. Os mesmos autores indicam que aquela relação é tanto mais forte quanto: mais forte e acessível for a atitude; maior reconhecimento for necessário pelas pessoas, maior for o seu autoconhecimento e menor for a sua capacidade de autocontrolo; e mais evidentes forem aspetos similares do objeto de atitude quando a atitude é expressa e quando o comportamento é posto em prática. Além disso, a uma alta correlação entre atitude e comportamento não significa necessariamente que a atitude é a causa do comportamento. No entanto, Bohner e Wänke (2002) indicam que os dois processos pelos quais as atitudes podem guiar o comportamento são: a formação 118 Atitudes deliberada de intenções, que requerem, tanto a motivação, como a oportunidade; e a ativação imediata do comportamento através de uma atitude de fácil acesso, que pode operar sem intenção ou consciência. Segundo Ajzen (1989) em determinadas circunstâncias pode existir uma forte relação entre atitude e comportamento, podendo a atitude depender de outros fatores, entre os quais a personalidade do indivíduo, as circunstâncias envolventes e a sua própria natureza. Este autor refere ainda que, no enquadramento teórico geral de Fishbein-Ajzen, é postulada uma cadeia causal em que o comportamento é determinado pelas intenções de concretizar o comportamento, as intenções seguem as atitudes, e estas são função das crenças significativas para o indivíduo em relação ao objeto de atitude, não sendo estes efeitos causais apenas num sentido. A propósito do modelo da ação refletida de Fishbein-Ajzen, Faria (2006, p. 29) refere que as quatro variáveis (a atitude, a crença, o comportamento e a intenção) fornecem diferentes orientações para a análise das respostas observáveis face ao objeto de atitude, “restituindo a confiança na utilidade das atitudes como preditores do comportamento” e procurando não só a predição mas, fundamentalmente, compreender o comportamento. Além de que, neste modelo as relações entre as várias componentes consideradas só serão fortes sob certas condições que têm que ver com as características estruturais do domínio da disposição definido pelo investigador, que pode ir de global até específico. Estas questões referentes ao nível de generalidade podem ser colocadas tanto em relação às crenças, como em relação às atitudes, às intenções e ao comportamento. Nesta linha de pensamento Ajzen (1989) refere que Ajzen e Fishbein (1977) formularam um princípio de compatibilidade em que dois indicadores de disposição são compatíveis na medida em que os seus elementos, nomeadamente a ação envolvida, o alvo a que é dirigida a ação, o contexto e o tempo em que ocorre, forem avaliados num nível idêntico de generalidade ou especificidade. Também para Aiken (2002), existem várias variáveis, e em particular algumas variáveis de personalidade, que influenciam a correlação entre as atitudes e o comportamento observável. Uma dessas variáveis é a capacidade de se automonitorizar, ou seja, até que ponto a pessoa monitoriza ou é sensível ao seu próprio comportamento face à envolvência, e quanto menor for essa capacidade maior será a predisposição para a ação em conformidade com as suas atitudes e sentimentos. Outra variável moderadora entre a atitude e o comportamento é a necessidade de conhecer ou saber. Assim, quanto maior for essa necessidade mais provável é que essa pessoa processe cuidadosamente a 119 Atitudes informação, pelo que desenvolverá atitudes bem fundadas e fortes que induzirão o comportamento. Além disso, o mesmo autor indica que a indução do comportamento pelas atitudes também depende de vários fatores dessas mesmas atitudes, entre eles a sua força, clareza, acessibilidade, se são resultado direto ou indireto de experiências, ou, ainda, se estão em conflito com pressões resultantes da situação em causa, não sendo variáveis independentes. Nessa linha de pensamento, e referindo Fazio, Chen, Mcdonel e Sherman (1982), e ainda Fazio e Zanna (1981), Aiken (2002) afirma que quanto maior é a experiência direta sobre o objeto de atitude mais forte será a associação entre o objeto e a avaliação que a pessoa faz dele, pelo que a atitude se torna mais acessível e, consequentemente, torna mais rápida a sua recuperação na memória, assim como a torna mais indutora do comportamento em relação ao objeto de atitude. Ainda nesta direção, Fazio (1989) vê a atitude como uma associação, e torna óbvio que a força da atitude é variável e que esta variabilidade pode ser considerada determinante na acessibilidade de uma atitude e nas suas consequências ao nível do comportamento. Em todo o caso, Aiken (2002), mencionando Greenwald e Banaji (1995), conclui que as atitudes são indutoras do comportamento, quer estejam acima do nível da consciência (atitude explícita), quer estejam abaixo desse nível (atitude implícita). Por outro lado, Faria (2006) salienta que na investigação já realizada não foram encontradas formas inequívocas de prever o comportamento através das atitudes. Contudo, na investigação sobre a relação entre as atitudes e o comportamento a questão não é “se as atitudes predizem comportamentos, mas, sim, quando elas o predizem” (Lima e D’Amorim, 1986, p. 135, citado por Faria, 2006, p. 26). Reforçando esta ideia, Faria (2006, p. 27) cita também Brito (1996, p. 2) que afirma que “a atitude não é sinônimo de comportamento e não pode ser confundida com ele. A atitude pode até ser um dos componentes do comportamento, mas não são sinônimos”. Além disso, este investigador considera que alguns estudos indicam que, por vezes, surge uma baixa relação entre atitude e comportamento. Tal facto poderia ser consequência da medição de apenas uma das componentes da atitude, nomeadamente a afetiva. Por outro lado, Faria (2006) indica Ostrom (1969) ao designar que algumas pesquisas mostraram que medidas das três componentes (de conhecimento, afetiva e comportamental) apresentavam níveis de correlação muitos altos, o que contraria a suposição anterior não melhorando em nada a capacidade de predizer o comportamento. 120 Atitudes 2.1.4. Estrutura e força das atitudes Em termos da estrutura interna, Bohner e Wänke (2002) veem a atitude como uma avaliação sumária, pelo que a sua estrutura deveria estar restringida a um ponto num contínuo avaliativo. Os mesmos autores referem que outra visão para a conceptualização da estrutura das atitudes incorpora como entradas alguns elementos específicos da memória, tais como crenças e sentimentos acerca do objeto de atitudes. Há ainda quem descreva a estrutura das atitudes como um agregado de produtos de crenças obtidas com base numa avaliação. Na visão da estrutura das atitudes de Bohner e Wänke (2002), estes consideram que existem atitudes unipolares e bipolares. Ou seja, algumas atitudes podem considerar-se unipolares no sentido em que são atitudes que podem ir do ponto neutro ao favorável, ou ao desfavorável no caso de serem negativas. No entanto, existem outros objetos de atitudes que podem despoletar atitudes bipolares. O facto de a atitude ser unipolar (indo do neutro ao pró ou ao anti) ou bipolar (vai do anti ao pró) afeta a forma como esta e as suas componentes são organizadas na memória, como as pessoas reagem a nova informação e como as atitudes são alteradas. A atitude é representada como unipolar ou bipolar consoante a pessoa e depende também do objeto de atitude. A polaridade de uma atitude também é importante para a decisão de como medi-la, podendo escalas unipolares e bipolares para medir uma atitude conduzir a conclusões totalmente díspares. Quando Bohner e Wänke (2002) indicam o conceito de atitude como unidimensional fazem-no no sentido em que as atitudes podem ser descritas por um único resultado num intervalo avaliativo, em vez de um ponto num espaço a duas ou mais dimensões. Isto não invalida que a avaliação sumária possa consistir em respostas avaliativas com diferentes dimensões. Em alguns casos o que parecem ser polos opostos num intervalo constitui realmente duas dimensões diferentes e, até certo ponto, independentes. Neste sentido, respostas positivas e negativas não são necessariamente recíprocas ou antagónicas como o modelo bipolar poderia sugerir. Contudo, ainda segundo os mesmos autores há correntes que criticam esta abordagem que implica considerar uma representação bidimensional de reações positivas e negativas. Esta conceptualização do positivismo e do negativismo como dimensões independentes (implícitas) permite uma distinção mais fina entre posições atitudinais, através de quatro grupos: o positivo, com valor alto no positivo e baixo no negativo; o negativo, com 121 Atitudes valor baixo no positivo e alto no negativo; o indiferente, com valor baixo no positivo e no negativo; e o ambivalente, com valor alto no positivo e no negativo. Segundo Pratkanis (1989) há vários domínios onde existem evidências de que a estrutura de conhecimento de suporte a uma atitude pode seguir um modelo bipolar ou unipolar. Assim, no modelo bipolar surgem não apenas argumentos, crenças e expetativas que estão na base de uma posição, mas também informação contrária. Exemplo disso seria uma estrutura de conhecimento sobre o tema do uso da máquina de calcular no ensino da Matemática (semelhante qualquer que seja a atitude em relação ao assunto) em que existem informações contra (o esquecimento dos algoritmos das operações, diminuição da exercitação do cálculo mental, limitações tecnológicas que induzem erros…), conhecimento geral (por exemplo, como funciona a máquina, o tipo de funções e potencialidades da máquina…) e informações a favor (explorar mais situações num mesmo período de tempo, explorar problemas de difícil ou impossível resolução analítica…). No modelo unipolar de estrutura do conhecimento só surge informação de um dos lados do assunto em análise. Exemplo desta estrutura poderia ser, a propósito do ensino, a de um professor que se centra em conhecimentos técnicos, pedagógicos e didáticos e de informações escolares e administrativas, enquanto a de alguém que não seja professor, em geral, revela apenas pouco ou ausência desse tipo de conhecimentos e informações. Desta forma, os tópicos bipolares tendem a ser controversos, com argumentos a favor e contra. As escalas de atitude para um tema tipicamente bipolar vão do anti até ao pró, passando pelo neutro, enquanto as escalas dos tópicos unipolares vão do neutro até ao pró, ou até ao anti. Além disso, com tópicos unipolares é esperado que quanto mais positiva for a atitude maior será o conhecimento sobre o assunto em análise, e com tópicos bipolares que as pessoas com atitudes nos extremos da escala sejam mais conhecedoras do objeto de atitude. Por consequência, este autor definiu um modelo para a representação cognitiva de uma atitude como sendo composta por três partes: categorização do objeto, avaliação sumária do objeto e uma estrutura de conhecimento de suporte. Relativamente à categorização do objeto, que é entendida como a identificação feita pelos indivíduos dos objetos de atitude como membros de um conjunto ou uma classe de objetos, este autor considera que não lhe é dada a devida atenção tendo em conta a sua importância para entender os efeitos da atitude. Para Bohner e Wänke (2002) podem categorizar-se as componentes das atitudes de acordo com os conteúdos (moral, saúde, igualdade social, entre outros), com o 122 Atitudes favoritismo, ou com a sua natureza (cognitiva, afetiva ou comportamental). No entanto, mesmo nos modelos integradores, que têm em conta vários elementos das atitudes, o grau de consistência ou inconsistência entre esses elementos não é refletido na análise do resultado final. Quando elementos ou classes de elementos são inconsistentes entre eles, então a atitude vista globalmente poderá ser consistente com alguns elementos, mas inconsistente com outros. Bohner e Wänke (2002) indicam que investigadores como Bargh, Chaiken, Govender e Pratto (1992), além de Erber, Hodges e Wilson (1995), sugerem que as inconsistências estão relacionadas com atitudes menos estáveis e, além disso, que se as atitudes forem mais consistentes e não ambivalentes resultará uma maior estabilidade. Por outro lado, referem que Chaiken, Pomerantz e GinerSorolla (1995) mostraram que atitudes com elevada consistência na avaliação cognitiva ou na avaliação afetiva são mais estáveis no tempo e que só atitudes com baixa consistência em ambos os tipos de avaliação mostraram uma baixa estabilidade, ou seja, apresentaram padrões de respostas de alguma forma erráticas. Segundo Pratkanis (1989) muitos investigadores acreditam que as atitudes induzem consistência ou correspondência nas respostas, ou seja, que atitudes positivas correspondem a sentimentos, pensamentos e comportamentos positivos em relação ao objeto de atitude, tal como atitudes negativas geram, opostamente, respostas negativas. Além disso, este investigador refere que existem evidências que indicam, com alguma confiança, que as atitudes produzem efeitos de correspondência pelo menos num dos tipos de processos cognitivos. Por exemplo, nos que estão ligados à memória conceptual ou semântica que é aquela que abrange o conhecimento do mundo que nos rodeia, ou seja, factos, ideias e conceitos e que são conteúdos relativamente permanentes, que são acedidos automaticamente e que não estão, em geral, associados a um determinado contexto ou acontecimento temporal específico. As tarefas associadas à memória conceptual estão, em geral, ligadas a processos de compreensão, categorização, inferência, julgamento e raciocínio. Além de que, as atitudes guiam frequentemente os processos cognitivos conceptuais, determinando a estratégia a utilizar em relação ao objeto de atitude, isto é, segundo Pratkanis (1989) servem de heurísticas que usam a relação avaliativa da atitude como pista para a estratégia de resolução de um problema. Exemplos desta utilização das atitudes são os processos conceptuais de interpretação e explicação, expetativas e inferência, raciocínio silogístico, respostas à comunicação persuasiva, aproximação interpessoal, juízos sobre questões sociais, falsos consensos de opinião em que as pessoas acreditam que a sua posição é mais popular do que realmente é, identificação de 123 Atitudes factos, revisão do comportamento pessoal ou, ainda, previsão de acontecimentos futuros. Reforçando esta ideia, Pratkanis (1989, p. 80) salienta que os investigadores da teoria das atitudes consideram que as mesmas desempenham uma função cognitiva, mencionando Katz (1960) que considera que as atitudes providenciam uma estrutura adequada ao envolvimento social satisfazendo uma função de conhecimento, já referida. Pratkanis (1989, p. 80) cita também McGuire (1969, p. 158) que considera que as atitudes servem como “a simplified and practical manual of appropriate behavior toward specif objects”. Esta utilização das atitudes como heurísticas tem como fatores potenciadores o estarem armazenadas na memória, a existência de um problema para resolver, o representarem a melhor ou a única estratégia para a resolução do problema, o haver pressão do tempo, a consciência do enviesamento de uma atitude ou a própria acessibilidade e força das atitudes, como identificado por Pratkanis (1989) em estudos de vários investigadores. Nesta sequência, o mesmo autor expõe que uma expetativa ao nível dos processos cognitivos poderia ser a de que os indivíduos demonstrassem uma maior apetência para aprender e recordar a informação que está de acordo com o sentido da sua atitude, havendo um efeito de aprendizagem seletivo. Outra expetativa, ainda que inconclusiva como a primeira, seria a de que informação classificada nos extremos da escala, correspondendo à concordância ou à discordância, fossem melhor ou mais facilmente memorizadas ou aprendidas. Por outro lado, Pratkanis (1989) afirma que alguns termos e propriedades foram propostos para descrever a natureza da avaliação de um objeto, característica das atitudes, tais como intensidade ou força. Também Bohner e Wänke (2002) relatam que vários aspetos estruturais e experimentais das atitudes foram estudados sobre a designação de força da atitude. Ainda segundo os mesmos autores, pode dizer-se que tudo o que as atitudes supostamente provocam (direcionar o processamento de informação, causar determinado comportamento, entre outras consequências), as atitudes fortes supostamente fazem-no melhor e que, de acordo com Petty, Haugtvedt e Smith (1995), se pensa que estas são mais resistentes à mudança, mais persistentes ao longo do tempo e mais consistentes com o comportamento. Bohner e Wänke (2002) referem, ainda, que os vários indicadores de força da atitude podem ser tratados como propriedades independentes das atitudes, tendo alguns investigadores proposto uma variedade de relações conceptuais com a força da atitude, por exemplo, a não ambivalência, a consistência interna da atitude ou o extremismo da atitude. A força foi também operacionalizada como a quantidade de reflexão sobre o objeto de atitude ou 124 Atitudes sobre a informação relevante percebida para a atitude. Outras definições incluem o grau de interesse investido num assunto, a acessibilidade da atitude ou, noutra perspetiva, a confiança com que a atitude é mantida. Na Figura 2.2 esquematizam-se as propostas de indicadores e consequências da força da atitude. Para os mesmos autores, as estratégias de pesquisa que têm sido aplicadas ao estudo da força da atitude incluem a medição ou manipulação de um ou mais indicadores e a avaliação da covariação com uma ou mais das hipotéticas consequências. Em geral conclui-se que a força da atitude não é um constructo unidimensional. Em todo o caso, como a medição destes indicadores está dependente do contexto, pode não refletir uma propriedade estável de uma atitude (Bohner e Wänke, 2002). Figura 2.2: Indicadores e consequências da força da atitude Fonte: Elaborada pelo autor com base na Figure 3.6 de Bohner e Wänke (2002, p. 64) 2.1.5. Formação, alteração e consequências das atitudes De uma forma genérica, alguns dos fatores que contribuem para a formação das atitudes são a imitação ou a assimilação das atitudes de outros e a experiência com o objeto de atitude da qual depende o conhecimento do individuo em relação a esse objeto, a análise racional realizada do mesmo e/ou possíveis conflitos em relação ao 125 Atitudes respetivo objeto (Ardiles e Brito, 2006, referindo Brito, 1996, que cita Kibby, 1977). De uma forma mais concreta, e já no campo da aprendizagem, Estrada (2002, 2009a) indica como fatores básicos da formação e mudança de atitudes: o enquadramento sociocultural; o grupo social; o ambiente em que se estabelecem as inter-relações (materiais e pessoais); os valores e conteúdos culturais predominantes; as formas e condições, entre outras situações, do processo de aprendizagem; a congruência dos modelos a que se está exposto e dos tipos de relação; a possibilidade de agir, condições, resultados, avaliação social, etc.; a experiência de vida acumulada; e as características específicas de cada sujeito. Reforçando estas ideias, esta investigadora refere ainda como fatores a ter em conta o confronto com uma necessidade, o nível de conhecimento e informação sobre o objeto de atitude, a integração num grupo com características próprias em relação à implantação e consolidação de determinada atitude e, ainda, o processo de aprendizagem que inclui a interação social. Numa abordagem mais formal, Bohner e Wänke (2002, p. 76) afirmam que “externel influences undoubtedly play a large part in shaping attitudes”, indicando que a simples exposição a um estímulo é suficiente para alguém aumentar a perceção favorável em relação a um objeto de atitude e que este efeito é tanto maior quanto mais complexo for o estímulo. Muitos e variados são os processos que contribuem para a formação e mudança de atitudes (Figura 2.3). Em princípio, a formação e a mudança de atitudes não implicam mecanismos cognitivos diferentes, mas assentam nos mesmos processos em que estão envolvidas influências sociais em contraponto com as influências biológicas. Ainda segundo os mesmos autores, existem algumas evidências de que as atitudes são, em parte, influenciadas pela genética, mediada por outros fatores geneticamente determinados como estruturas sensoriais, química corporal, inteligência, temperamento, entre outros. Porém as atitudes também podem ser adquiridas. A interação entre os fatores ambientais e as predisposições genéticas pode explicar parte da variabilidade das atitudes, não sendo necessariamente independentes uns dos outros. A exposição continuada a estímulos aumenta o laço a esse estímulo. Este efeito de exposição é mais forte para estímulos mais complexos, para exposições de curta duração (incluindo a exposição subliminar), para maiores espaçamentos entre a exposição e a avaliação e para sequências de exposição com outros estímulos, não sendo necessário que os envolvidos reconheçam esse estímulo para que o efeito ocorra. Estes investigadores defendem que é possível influenciar a atitude de pessoas acerca de um objeto de atitude estabelecendo uma relação próxima, no espaço e no tempo, entre esse 126 Atitudes objeto e estímulos positivos ou negativos (condicionamento avaliativo). Além disso, eles consideram que não é necessário que as pessoas estejam conscientes deste relacionamento e pode não ser necessário mais que uma relação para que essa influência surta efeito. Mais ainda, a eliminação deste condicionamento avaliativo é bastante resistente e as atitudes condicionadas podem ser bastante duradouras. Por outro lado, as respostas avaliativas podem ser condicionadas por repetição ou reforço (condicionamento operacional). Até determinado ponto, o reforço é bem-sucedido porque representa informação social sobre a validade da atitude da pessoa. Em alternativa, o reforço pode representar normas sociais em relação às quais a pessoa pode desejar queixar-se. Também nestes casos, não é necessário que o indivíduo experimente o reforço, podendo ser suficiente observar o reforço da atitude de outra ou outras pessoas. Assim, as pessoas podem desenvolver atitudes por imitação da atitude de outras, podendo esta forma ser influenciadora em particular nos casos em que as pessoas se identificam com o modelo ou nos casos das pessoas desejarem encaixar-se num determinado grupo. Figura 2.3: Indicadores na formação e/ou mudança da atitude Fonte: Elaborada pelo autor com base em Bohner e Wänke (2002) Neste texto considerou-se que as pessoas armazenam na memória as respostas a objetos de atitude, aprendidas ou inatas, e essas respostas seriam acionadas pelos objetos de atitude. No entanto, as respostas atitudinais variam com as situações, sendo 127 Atitudes bastante influenciadas pelo contexto. Ainda segundo Bohner e Wänke (2002) alguns académicos propuseram que as atitudes são construídas no momento, baseadas na informação existente no momento. Desta forma, as atitudes dependeriam da informação que vem à mente, de como é que é avaliada e de como é que é usada para formular um juízo e o contexto pode influenciar cada uma destas três etapas. O contexto pode não influenciar apenas a forma como a informação é trazida à mente, mas também influenciar diretamente as avaliações ou juízos de valor, ou seja, a relatividade das avaliações depende da norma usada, sendo influenciadas, por exemplo, pelos objetivos e metas pessoais, disposição pessoal, ou estados do corpo e/ou da alma (Figura 2.4). Contudo, a informação acessível em cada situação depende de fatores temporários só até uma parte, pois existe informação que está acessível de forma persistente e que poderá ser usada independentemente da situação. Além disso, a acessibilidade da informação depende das suas qualidades intrínsecas, da sua organização na memória, da frequência com que é acedida e do tempo mediado desde a última ativação. Pratkanis (1989) para determinar os efeitos das atitudes nos processos conceptuais refere direção e acessibilidade como sendo consideradas propriedades importantes da avaliação armazenada. Nesse sentido a direção refere-se à valência de uma atitude como sendo positiva ou negativa, estando de acordo ou em desacordo ou estando a favor ou contra e determina a estratégia a ser seguida em relação a um objeto. A acessibilidade refere-se à robustez da associação entre uma avaliação e uma categoria de objeto, que determina a possibilidade da atitude ser usada espontaneamente para definir a estratégia global em relação ao objeto. Por outro lado, atitudes baseadas mais em informação de acesso persistente do que em informação de acesso temporário serão mais estáveis perante vários contextos do que as atitudes sustentadas por informação de acesso temporária. No entanto, mesmo estas últimas podem apresentar grande estabilidade ao longo do tempo em contextos que também não se alterem muito com o tempo. Em suma, segundo Bohner e Wänke (2002) existem resultados que sugerem que a estabilidade da atitude é uma função da congruência da informação que surge na mente e que tanto a sua estabilidade, como a flexibilidade do contexto são compatíveis com esta visão da construção da atitude. 128 Atitudes Figura 2.4: Visão sobre a construção da atitude Fonte: Elaborada pelo autor com base em Bohner e Wänke (2002) Uma vez “construídas”, as atitudes podem ser “armazenadas” na memória para voltarem a ser usadas mais tarde. Contudo, mesmo quando existam essas atitudes, novas atitudes podem ser “construídas” se as antigas não estiverem “acessíveis” ou não sejam apropriadas, como referem Bohner e Wänke (2002). A construção de novas atitudes requer recursos cognitivos e vontade de investir neles. Apesar da construção de novas atitudes, as atitudes prévias podem não ser substituídas. Fazio (1989) apresenta duas formas de ativar a atitude, uma dita automática e a outra controlada. A ativação automática caracteriza-se pela sua inevitabilidade, ou seja, será automático qualquer processo que conduz à ativação de um conceito ou a uma resposta/reação “whenever a given set of external initiating stimuli are presented, regardless of a subject’s attempt to ignore or bypass the distraction” (Fazio, 1989, p. 156, citando Shiffrin e Dumais, 1981, p. 171) e a possibilidade desta ativação acontecer depende da força da associação entre o objeto e a avaliação, como comprovado em inúmeras experiências. Por contraste, um processo controlado requer a consciência e vontade do indivíduo, levando a recuperar uma avaliação em relação a um objeto de atitude previamente armazenada na memória ou a construir de forma ativa uma atitude no momento, o que envolve sempre um processo reflexivo e um esforço. Ou seja, várias investigações realizadas mostram que nem todas as atitudes são “iguais”, sendo o modelo de Fazio (1989) compaginável com a ideia de um contínuo, em que no nível mais baixo estaria a situação de não haver na memória uma avaliação a priori do objeto de atitude. Ao longo desse contínuo essa avaliação prévia passaria a existir, e a força da 129 Atitudes associação entre a avaliação e o objeto iria aumentando. Assim, no caso de a associação ser fraca a atitude poderá ser recuperada por um processo controlado, não sendo possível, ou sendo difícil, uma ativação automática. Já no caso de a associação ser forte haverá maior possibilidade da ativação automática perante uma simples observação ou menção do objeto de atitude. Desta forma, este autor considera clara a relevância da acessibilidade das atitudes em relação à forma pela qual a atitude exerce a sua influência, pois está ao nível do processamento de informação da análise, tendo implicações nos mecanismos pelos quais as atitudes guiam as perceções e o comportamento. Além disso, para pontuações iguais na medição da atitude poderá haver diferenças na sua força e, por consequência, haver diferenças na influência da perceção, do comportamento e das tomadas de decisão. Por isso, e com base em várias experiências, Fazio (1989) sugere que as atitudes influenciam as perceções e juízos pessoais, sendo mais provável que isso aconteça para atitudes que estão acessíveis automaticamente na memória e aptas para servirem de filtro à informação analisada. Além disso, pessoas com atitudes mais acessíveis apresentam um processamento de informação mais seletivo que aquelas com atitudes menos acessíveis. Este autor também evidencia o papel moderador da acessibilidade das atitudes em que quanto mais acessível for a atitude maior é a possibilidade dessa atitude influenciar o comportamento futuro do individuo. Porém, Fazio (1989) considera que o grau em que a função conhecimento, já referida, é atingida pela atitude dependerá, de igual modo, da possibilidade de ativação automática da atitude na memória perante o objeto de atitude. Por sua vez, como a ativação automática depende da força da associação entre a avaliação e o objeto, as atitudes que envolvam essa associação forte tenderão a ser funcionais. Desta forma a acessibilidade destas atitudes facilita os processos de decisão na hora, mas também ajuda as pessoas a orientarem-se na envolvência que lhes maximiza a recompensa e a satisfação e minimiza os resultados adversos, pois no caso das atitudes menos acessíveis há maiores riscos de más decisões tomadas no momento, que poderão mesmo levar ao arrependimento mais tarde. Além disso, há investigações que mostram que atitudes acessíveis são menos suscetíveis à mudança em função de nova informação recebida sobre o objeto de atitude em causa do que as atitudes menos acessíveis. Em consequência, a eficácia das estratégias de persuasão poderá estar limitada a atitudes com uma posição relativamente baixa ao longo do contínuo que vai desde inacessível até altamente acessível, como 130 Atitudes sugere Fazio (1989). Deste modo, para influenciar o comportamento das pessoas através daquelas estratégias, não será suficiente estimular atitudes positivas em relação ao objeto, mas terão que se desenvolver associações fortes entre o objeto e a avaliação e, em simultâneo, garantir uma grande acessibilidade na memória. Bohner e Wänke (2002) referem que várias abordagens identificaram os processos de pensamento ativo como mediadoras da mudança de atitude e que gerar e improvisar argumentos produz maior mudança de atitude do que a escuta passiva desses mesmos argumentos. No entanto, o interesse prático de muitos especialistas em persuasão recai na mudança de comportamento, e a mudança de atitude é apenas um meio para atingir um fim. A mudança no comportamento pode conduzir a mudanças opostas na atitude se as pessoas forem forçadas a refrear um comportamento que lhes é querido ou se, paradoxalmente, forem recompensadas para se associarem a um comportamento que realizariam de qualquer forma. Apesar dos incentivos poderem ser efetivos na mudança de atitude, a intensidade da mudança de atitude é, muitas vezes, inversamente proporcional à magnitude do incentivo. Nesse sentido, os mesmos autores mencionam a teoria da dissonância cognitiva de Festinger (1957) segundo a qual um grande incentivo providencia justificação suficiente para que se associe um comportamento discrepante da atitude, ao contrário do que acontece no caso dos pequenos incentivos. No caso de não haver justificação suficiente, a mudança de atitude é um caminho para reestabelecer consistência entre a atitude e o comportamento. Porém, a consistência cognitiva pode por vezes ser restaurada sem ter que, por força, haver mudança da atitude. Depois de induzida aquela concordância, segundo Bohner e Wänke (2002), mencionando Festinger (1957) e Carlsmith (1959), as condições necessárias para criar a mudança de atitude são as consequências adversas, a responsabilidade pessoal e os sentimentos de desconforto que têm origem atribuível ao comportamento discrepante da atitude. Os mesmos autores afirmam ainda que o esforço cognitivo envolvido na mudança de atitude baseada na perceção individual pode ser menor que o envolvido na redução da dissonância cognitiva. Para haver mudança de atitude Shavitt (1989) sugere como hipótese fundamental necessidade inicial de conhecer a função ou funções psicológicas que a atitude em causa desempenha de modo a canalizar para esta ou estas os apelos de persuasão. Além disso, o mesmo autor relata que existem investigações que evidenciam que apelos que são relevantes para uma função primária de uma atitude são mais persuasivos do que os que 131 Atitudes são mais relevantes para outras funções, além de que atitudes que desempenham várias funções diferentes respondem a vários tipos de persuasão. Em termos das consequências das atitudes, Bohner e Wänke (2002) indicam a sua importância a vários níveis, sendo evidente, entre outros: ao nível individual, influenciando a perceção, pensamento, outras atitudes e comportamento; ao nível interpessoal, uma vez que ao conhecer-se as atitudes dos outros o mundo torna-se mais previsível, os próprios pensamentos e comportamentos podem ser adaptados por esse conhecimento ou, então, pode tentar-se controlar os comportamentos dos outros mudando as suas atitudes; e ao nível social, dado que as atitudes em relação ao grupo em que se está socialmente inserido ou em relação a outros grupos estão no cerne da cooperação ou conflito intergrupal. Greenwald (1989b) também defende que as atitudes podem desempenhar um papel importante na determinação do comportamento social, nomeadamente se envolver o próprio (autoestima), a resposta avaliativa em relação à fonte ou ao conteúdo de uma tentativa de influência ou, ainda, quando existe uma experiência direta com novidades. Neste âmbito este autor considera que existem três fontes de interferência, que se podem corrigir, nas tentativas de descrever as relações das atitudes no comportamento social e que são: o objeto de atitude poder ter sido identificado de forma inapropriada; o comportamento poder estar sob o controlo de atitudes em relação a outro ou outros objetos que não o que está a ser analisado; ou a conceção da relação entre atitude e comportamento ficar confusa pela definição tripartida de atitude. Por outro lado, a influência das atitudes na forma de pensar e de agir reflete tanto as funções para que servem as atitudes, como as suas propriedades estruturais, de acordo com Bohner e Wänke (2002). Nesse sentido, as atitudes podem influenciar a atenção para com os objetos de atitudes, o uso de categorias para codificar/ordenar, a interpretação e formulação de juízos de valor e, ainda, o recuperar de informação relevante para a atitude. Esta influência tende a ser mais significativa para atitudes fortes, que são de fácil acessibilidade e são baseadas em estruturas de conhecimento elaboradas. As atitudes mais acessíveis proporcionam benefícios ao nível da eficácia e da redução do stress, mas têm custos na redução de horizontes, podendo, por exemplo, inibir a deteção de mudanças num objeto de atitude. Além disso, e segundo Bohner e Wänke (2002), a exposição forçada a informação incongruente com a atitude pode conduzir a enviesamentos na interpretação e elaboração. Deste modo, o processamento de informação de um determinado tópico dominado por uma atitude prévia pode 132 Atitudes redundar numa atitude mais extremada. Assim sendo, as pessoas podem usar, como tática, esforçarem-se mais ou menos nas suas estratégias de raciocínio para atingir os seus objetivos com base nas suas atitudes. 2.1.6. Medir atitudes Como as atitudes não são observáveis de forma direta é necessário encontrar outras formas de as medir. Assim, têm sido desenvolvidos vários instrumentos para medir atitudes em relação a objetos ou acontecimentos específicos de forma direta observando o comportamento dos respondentes perante os objetos de atitude ou, de forma mais usual, entrevistando ou aplicando questionários com questões específicas sobre o objeto de atitude. Aiken (2002) chama medidas explícitas (explicit measures) às entrevistas ou questionários, e indica que estas medidas assumem, por princípio, que os respondentes têm consciência das suas atitudes e que estão dispostos a revelá-las, para além de que este processo não influencia nem altera as atitudes das pessoas respondentes. Por outro lado, a observação direta do comportamento por vezes induz a vontade de agradar ou de mostrar-se conforme o que é socialmente mais aceite, pelo que o processo deixaria de ser um indicador válido da atitude dos respondentes. Para minimizar de alguma forma estas objeções há também medidas indiretas de atitudes, que são medidas mais disfarçadas, ou seja, aplicadas sem que a pessoa tenha consciência de que são aquelas atitudes que estão a ser medidas. Como exemplos dessas medidas, Aiken (2002) refere técnicas psicofisiológicas, como padrões de expressões faciais, ondas cerebrais, mudanças da coductividade elétrica da pele ou, ainda, do diâmetro da pupila, e técnicas projetivas, como associação de palavras, completar frases ou histórias associadas a imagens. Estas medidas são direcionadas para situações especiais, por exemplo, quando os respondentes têm consciência das suas atitudes, mas estão relutantes ou não dispostos a revelá-las; ou para medir atitudes implícitas, isto é, atitudes que são ativadas por determinados objetos, acontecimentos, pessoas ou situações, e que influenciam comportamentos sem consciência da existência dessas atitudes. Independentemente da forma de medir atitudes ser direta ou indireta, um bom instrumento para medir atitudes tem que ser válido e fiável. Neste âmbito, a validade significa que o instrumento mede realmente a atitude que se propõe medir e não outra 133 Atitudes qualquer. Em termos do conceito de fiabilidade este significa que seja o que for que o instrumento meça o faz de forma consistente. Neste sentido abordar-se-á a seguir o conceito de medição e várias formas de medir atitudes, bem como a análise de algumas questões que lhes estão associadas. O conceito de medição baseia-se na correspondência de valores quantitativos a objetos segundo determinadas regras, de tal forma que as propriedades desses valores refletem certas relações entre os objetos, conforme afirmam Bohner e Wänke (2002) mencionando Stevens (1946). A quantidade de informação sobre essas relações, que é refletida nos valores que lhes estão associados, caracteriza vários níveis de medidas das variáveis, do nível mais baixo para o nível mais alto, as escalas nominal, ordinal, de intervalo e de razão. Assim, no nível mais baixo está a escala nominal onde os valores apenas refletem situações de igualdade ou de diferença da propriedade que estiver a ser medida. No entanto, na medição de atitudes esta situação não é claramente suficiente, pois pretende-se, pelo menos, saber como as pessoas caracterizam uma atitude num contínuo de avaliação que irá desde ser menos até ser mais favorável. Esta situação é atingida através de uma escala ordinal em que os valores atribuídos também refletem a ordenação dos objetos em relação à propriedade ou característica que está a ser medida. Neste caso a ordem está salvaguardada, mas não se sabe o quanto diferem uns dos outros, pois essa representação só seria conseguida numa escala de intervalo, em que para além das propriedades da escala ordinal, as diferenças relativas entre os valores representam as diferenças relativas entre os objetos medidos e relacionados com a característica em estudo. No caso de se pretender, para além das diferenças entre valores, uma representação da razão entre valores, ter-se-ia que usar uma escala de razão, que tem que ter o zero fixo. Este último caso seria adequado, por exemplo, no caso do estudo de atitudes implícitas. Na investigação sobre atitudes, por regra, procuram-se instrumentos que se aproximem do nível de medida da escala de intervalo, ou seja, que tenham intervalos relativamente semelhantes entre pontos adjacentes da escala e em que o zero não tem significado, tal como indicam Bohner e Wänke (2002). Isto permitiria o cálculo da média aritmética e de correlações, bem como a maioria das medidas estatísticas que as ciências sociais recorrem na análise de dados. Em relação às formas de medir atitudes, e como é descrito por Bohner e Wänke (2002), a forma direta é a menos complexa e a mais comum, que consiste em confrontar diretamente os respondentes com uma questão ou com múltiplos itens relacionados com a atitude em estudo. Uma primeira fase será a da interpretação da questão por parte do 134 Atitudes respondente, a partir da qual este decidirá em concreto sobre o que é que lhe é pedido para responder. Neste passo, apesar de poder haver alguns casos que não exijam muita reflexão, outros há em que o respondente tem que fazer esse esforço, utilizando o seu conhecimento e experiência prévia sobre a questão em análise, ou mesmo influenciado pela envolvência contextual em que a questão é colocada (em particular se não houver qualquer tipo de conhecimento sobre o objeto de atitude em causa). Numa segunda fase, e depois do respondente ter identificado o objeto de atitude, é recuperada a sua atitude em relação ao respetivo objeto, desde que esta já estivesse formada e guardada na memória. No caso da atitude em relação ao objeto não estar criada ou não estar na mente do respondente terá que a construir naquele momento e, para tal, terá que usar a informação que lhe vier à mente naquela situação específica. Esta última situação pode representar um problema para o inquérito por questionário porque o contexto específico do mesmo pode influenciar a própria medição. Por exemplo, no caso de existir um entrevistador, os objetivos e a introdução do inquérito, as respostas alternativas disponibilizadas, ou a ordem das questões. Mesmo depois de um juízo formado acerca do objeto de atitude o respondente poderá querer ajustá-lo. Finalmente, numa última fase do processo, o respondente transmite a sua avaliação, regra geral, envolvendo a escolha de uma de várias respostas alternativas ou de um valor numa determinada escala. Este processo de resposta à questão envolvida na medição da atitude, esquematizado na Figura 2.5, está sujeito a várias influências, umas originadas pelo próprio processo e outras são inerentes à construção da própria atitude, pelo que é importante ter em consideração nestes processos os fatores contextuais; bem como uma atenção especial aos métodos usados na medição da atitude, tal como indicam Bohner e Wänke (2002) referindo Schwarz e Bohner (2001), Schwarz e Sudman (1992) e Wänke (1997). Segundo Estrada (2011) as escalas de atitudes são muito mais objetivas que outras técnicas e, por isso, são as mais usadas. São procedimentos que determinam as diferenças de intensidade ou de grau em relação a um determinado objeto de atitude. No entanto, não é negligenciável a complementaridade que todas as outras técnicas de observação podem trazer. Esta autora, referindo Gairin (1987), indica como vantagens das escalas de atitudes: permitirem o anonimato; proporcionarem tempo ao questionado para que este pense antes de responder; poderem ser administradas a muitas pessoas em simultâneo; proporcionarem uma certa uniformização, dado cada pessoa responder exatamente à mesma pergunta; regra geral, originarem dados que se analisam e 135 Atitudes interpretam mais facilmente que no caso de respostas orais ou respostas abertas; e permitirem ser administradas por interposta pessoa, sem perda de fiabilidade dos resultados. Figura 2.5: Esquematização do processo da resposta na medição da atitude Fonte: Elaborada pelo autor com base na Figure 2.1 de Bohner e Wänke (2002, p. 25) A forma mais simples de medir a atitude de uma pessoa é colocar-lhe uma única questão sobre a sua avaliação global em relação ao objeto de atitude solicitando a indicação de uma resposta correspondente numa escala de resposta numérica. Para Bohner e Wänke (2002), apesar das escalas de itens múltiplos apresentarem, em geral, maior fiabilidade, as medidas de item único são comuns em inquéritos por questionário de investigação e são também utilizadas em estudos experimentais, tendo, desde logo, a vantagem de se tornarem mais económicas, além de vários investigadores as identificarem como apresentando uma razoável fiabilidade e validade. Apesar disso, os mesmos autores consideram que a maior desvantagem das medidas de item único, comparativamente às de itens múltiplos, é a possibilidade de apresentarem um menor grau de fiabilidade, sendo a pontuação de cada item reflexo da atitude em estudo e tendo também uma certa variabilidade associada à sua medição, ou seja, o erro aleatório. Por 136 Atitudes vezes são preferíveis a medidas mais complexas, como no caso de estudos sobre a acessibilidade da atitude. Nestas medidas com itens múltiplos conseguem-se obter, em geral, maiores níveis de fiabilidade, uma vez que a pontuação final é obtida da soma ou a média de todos os itens, o que pode compensar o erro aleatório dos itens individuais (Bohner e Wänke, 2002). Além disso, no processo de construção de um instrumento com itens múltiplos é possível eliminar itens que não correspondam a certos critérios da medição pré-estabelecidos, melhorando, deste modo, o comportamento global do instrumento de medição da atitude. Para objetos da atitude mais complexos um item único pode não ser suficiente para abranger os vários aspetos dessa atitude, pelo que, nesses casos, será preferível a utilização de instrumentos de medida com itens múltiplos. Segundo Bohner e Wänke (2002), entre as várias escalas de itens múltiplos para medir atitudes as mais comuns são as de diferencial semântico, devida a Osgood, Suci e Tannenbaum em 1957, e a escala de Likert, devida a Likert em 1932, sendo também usada, mas em menor escala, a escala de Thurstone, devida a Thurstone em 1928. A escala de diferencial semântico consiste numa lista de escalas de adjetivos bipolares, normalmente dividida em sete categorias de resposta. Estas classificações são posteriormente pontuáveis de -3 até +3, estando os valores positivos associados em cada par ao adjetivo positivo correspondente. A pontuação total da atitude é obtida para cada respondente pela soma ou pela média das pontuações de todas as escalas bipolares usadas. Segundo Ostrom (1989) e Bohner e Wänke (2002), Osgood et al. (1957) destacam três dimensões ou fatores que influenciam as inter-relações destas escalas, que são as designadas de avaliação (“bom-mau”), de potência (“forte-fraco”) e a de atividade (“rápido-lento”), em que o fator de avaliação explica a maior proporção da variabilidade. Estes autores onsideram, também, que as escalas de diferencial semântico, concebidas para medir atitudes, são, quase em exclusivo, constituídas por itens onde essa dimensão da avaliação é dominante. Este tipo de escala tem, ainda, como vantagem o facto de que um mesmo conjunto de itens pode ser usado em diferentes objetos da atitude, permitindo a sua comparação. Na outra escala que também é bastante usada, a escala de Likert, o respondente indica o nível de concordância com uma série de afirmações relacionadas com um objeto de atitude, normalmente numa escala de cinco ou sete pontos. Segundo Kislenko e Grevholm (2008) é importante distinguir as diferenças entre escala de Likert (Likert scale), item de Likert (Likert item) e item tipo Likert (Likert-type item), uma vez que é 137 Atitudes fundamental para se poder entender o que se quer dizer quando se aplicam ou interpretam estes termos diferentes, bem como para fazer a interpretação e discussão sobre que métodos estatísticos serão mais apropriados. Assim, estes autores, baseados em Dawis (1987), consideram que a principal característica de uma escala de Likert é a forma como é construída, ou seja, que partindo de uma série de itens referentes ao objeto em estudo, um conjunto de especialistas analisam cada um desses itens atribuindo-lhes valores que vão de “aplica-se totalmente”, até “não se aplica em absoluto”, o que dá origem a um índice de seletividade, que permite, na parte final do processo, definir a escala com os itens com maior seletividade. Referindo Uebersax (2006), os mesmos autores mencionam ainda como características da estrutura de uma escala de Likert que: a escala é constituída por vários itens; os níveis de resposta são apresentados horizontalmente; os níveis de resposta estão ancorados em números inteiros consecutivos; os níveis de resposta estão também ancorados a etiquetas verbais que estão conotadas com graduações mais ou menos com igual espaço; as etiquetas são bivalentes e simétricas em relação ao ponto neutral do meio. Logo, consideram-se itens de Likert quando apenas não se verifica a primeira das características enunciadas, itens tipo Likert quando não se verificarem a primeira e a última das características apresentadas, e a escala de Likert é constituída por vários itens de Likert ou itens do tipo Likert. Na escala de cinco pontos, que é a mais usual, uma resposta a uma questão apresentada no sentido de uma atitude positiva tem como pontuação possível: 1 para “totalmente em desacordo”, 2 para “desacordo”, 3 para “nem em desacordo nem de acordo” (indeciso ou indiferente), 4 para “acordo” e 5 para “totalmente de acordo”. Já uma resposta a uma questão apresentada no sentido de uma atitude negativa tem como pontuação possível: 5 para “totalmente em desacordo”, 4 para “desacordo”, 3 para “nem em desacordo nem de acordo” (indeciso ou indiferente), 2 para “acordo” e 1 para “totalmente de acordo”. Em geral, as afirmações usadas são escolhidas de um leque muito maior de afirmações, de tal forma que a concordância em cada um dos itens escolhidos implica, sem qualquer ambiguidade, ou uma atitude favorável ou desfavorável. Normalmente, as afirmações, sendo relevantes para o objeto de atitude em estudo, podem ser caracterizadas como crenças em relação a esse objeto de atitude, mas também podem ser afirmações sobre reações afetivas ou comportamentos em relação ao objeto de atitude. Além disso, Aiken (2002) indica que é mais usual que as afirmações sejam mais referentes ao presente do que ao passado, não contem com opinião unânime, 138 Atitudes bem como devem ser simples, claras, diretas, curtas, contendo apenas uma ideia e evitando calão, tom coloquial, duplas negativas, palavras que possam ter mais do que um sentido ou não ser entendidas pelos respondentes, ou termos como tudo, todos, sempre, nenhum, nunca, muitos e às vezes. Também é defendida a presença de afirmações apresentadas em termos positivos e também de afirmações apresentadas em termos negativos em relação aos objetos de atitude por forma a diminuir o problema da aquiescência. Aiken (2002) define aquiescência como sendo a tendência da pessoa responder afirmativamente ou de estar de acordo com as afirmações de modo sistemático. Na escala de Likert a pontuação total da atitude para cada respondente é definida pela soma ou pela média das pontuações de todos os itens, depois de inverter a pontuação nos itens onde a concordância corresponde a uma atitude desfavorável. Tanto a escala de diferencial semântico, como a escala de Likert permitem a comparação entre respondentes, e em ambas, devido à forma como são definidos e escolhidos os itens, por regra, são obtidos altos níveis de consistência interna, ou seja, as pontuações dos itens são bastante inter-correlacionadas. Contudo, estas escalas não cumprem na íntegra o critério das escalas de intervalos iguais, que é um pré-requisito para vários tipos de análises estatísticas. O facto de se assumir que pares de valores cuja diferença é a mesma representam diferenças iguais em avaliações subjetivas só é verdade na medida em que os respondentes interpretem cada par de valores adjacentes na escala de resposta como equidistantes e atribuam um peso semelhante a cada item em relação à sua atitude global. Neste sentido, Kislenko e Grevholm (2008) consideram que a escala de Likert é por definição uma escala ordinal, e citam Goldstein e Hersen (1984, p. 52) que afirma que “The [Likert] scale is clearly at least ordinal. […] the interval scale assumption seems unlikely”. Também Aiken (2002) considera que esta escala só pode ser considerada como ordinal e que o mesmo valor de pontuação total pode ser obtido de muitas maneiras diferentes, o que dificulta a atribuição de um significado uniforme a um determinado valor da pontuação total, pelo que, neste caso, deve ser dada muita atenção às características dos itens dos questionários construídos e a uma escolha criteriosa dos métodos estatísticos usados na análise das atitudes. A escala de Thurstone surge no sentido de minimizar esta dificuldade, tendo como princípio da sua construção a obtenção de intervalos iguais. Esta construção inclui uma primeira etapa em que é pedido a um grupo de juízes que classifiquem um conjunto alargado de afirmações, que variam bastante nas suas direções e alcance, num número determinado de categorias definidas como igualmente espaçadas de acordo com o nível 139 Atitudes de concordância subjetiva, por fim é atribuído a cada um dos itens um valor que corresponde à mediana dos números das categorias que lhe foram atribuídos. Na etapa seguinte, do conjunto de afirmações iniciais, é escolhido um subgrupo de afirmações que devem ter obtido um elevado grau de acordo entre os juízes relativamente ao nível de concordância atribuído e devem, também, abranger toda a amplitude no contínuo de concordância. Só depois destas etapas é que o referido conjunto de afirmações escolhidas é apresentado aos respondentes que devem indicar os itens com os quais estão de acordo, sendo a pontuação total da atitude de um respondente a mediana dos valores da escala correspondentes a todas as afirmações que tenha assinalado como estando de acordo com elas. Segundo Aiken (2002), por um lado, a crítica ao grande trabalho que este processo envolve não faz muito sentido hoje em dia devido à ajuda computacional disponível. Por outro lado, para além do processo poder ser influenciado pela atitude dos juízes, o facto da pontuação total da atitude de um respondente poder não ser obtida de forma única poderá ser considerada uma objeção a ter em conta seriamente. Ainda segundo o mesmo autor, costuma ser aceite que a escala de atitudes do tipo Thurstone será apenas uma medida ordinal e não de intervalo ou, na melhor da hipóteses, poder ser considerada como estando entre esses dois níveis. Ao contrário das escalas de diferencial semântico, tanto a escala de Likert como a de Thurstone têm que ser construídas especificamente para cada objeto de atitude, por regra, exigindo mais trabalho de preparação. Além disso, nestes estudos é necessário ter consciência de que podem existir distorções nas respostas obtidas, motivadas, por exemplo, pela organização do questionário, pelo contexto do estudo ou por indicação, ainda que subtil ou implícita, das hipóteses em estudo que podem levar os respondentes a direcionar a resposta nesse sentido. Outra possibilidade também é a de que alguns respondentes, em vez de responderem de forma inteiramente verdadeira, queiram apenas impressionar, tentando mostrar-se favoráveis em relação ao objeto de atitude ou querendo posicionar-se em termos do que for mais aceite em termos sociais. Entre outras estratégias para minimizar estes desvios pode optar-se pelo controlo restritivo da informação que é prestada aos respondentes sobre o estudo em causa, ou pelo enfatizar da importância de serem dadas respostas verdadeiras. Em alternativa alguns investigadores optam pelas medidas indiretas. Como já foi referido, para além do constructo em análise, a pontuação da atitude também é influenciada por outros fatores. Esses fatores podem ser do tipo erro aleatório 140 Atitudes ou do tipo erro sistemático, tal como referem Bohner e Wänke (2002). Em relação aos fatores do primeiro tipo, que podem ser vistos como fontes de variabilidade na medição que aumentam a variabilidade da pontuação, mas não a sua tendência central, estão incluídas, entre outras, situações como a má interpretação ou a leitura errada das questões, a medição ser feita em diferentes momentos ou erros de introdução dos dados no ficheiro. Em relação aos fatores do segundo tipo, estes incluem outros constructos que não fazem parte do constructo da atitude em análise e que, de forma sistemática, podem aumentar ou diminuir a pontuação da atitude. Por exemplo, o caso do respondente dar uma resposta de acordo com aquilo que ele pensa que é a vontade do investigador e não de acordo com a sua real atitude. Assim, a medição de uma atitude será tanto melhor quanto menor for a influência destes dois tipos de erros, surgindo para avaliar estas situações os conceitos de fiabilidade e o de validade, que já foram apresentados. Neste âmbito, a fiabilidade da medida de uma atitude é tanto maior quanto mais livre de erros aleatórios estiver a medição da atitude, enquanto a validade é tanto maior quanto mais livre estiver a medição da atitude de ambos os tipos de erro, aleatórios e sistemáticos. De referir que um alto grau de fiabilidade da medição da atitude não é uma condição suficiente para um alto grau de validade dessa mesma medição. Uma das formas de avaliar a fiabilidade de uma escala é a realização de um teste e pós-teste de fiabilidade que mede até que ponto as pontuações da atitude avaliadas em dois momentos diferentes estão correlacionadas, ou seja, assumindo que a atitude em análise é relativamente estável num determinado período de tempo, então a uma escala com bom nível de fiabilidade devem corresponder fortes correlações entre o teste e o pós-teste de fiabilidade. No entanto, o pós-teste pode influenciar a atitude em estudo dos respondentes e, de acordo com Bohner e Wänke (2002), não há unanimidade entre os investigadores sobre a aceitação de que deva ser espectável que as atitudes sejam estáveis no tempo, pelo que baixas correlações entre o teste e o pós-teste podem refletir mais uma mudança de atitude do que um problema de fiabilidade da escala de medição. Assim, popularizaram-se outras formas de medir a fiabilidade de uma escala, entre outras, as baseadas na consistência interna da escala que representa o grau de correlação entre os vários itens da escala. O índice de consistência interna mais usado é o designado por alfa de Cronbach (devido a Cronbach em 1951) que pode ser interpretado como a média dos coeficientes de correlação das pontuações de todas as possíveis metades dos itens da escala com as outras respetivas metades. Mantendo todas as 141 Atitudes restantes condições, o alfa de Cronbach aumenta com o aumento do número de itens da escala, sendo o aumento do nível de fiabilidade de escalas com mais itens reflexo de que todos os itens contribuem para medir o constructo da atitude e, consequentemente, partilhando a variabilidade dos erros sistemáticos enquanto as componentes dos erros aleatórios não se correlacionam e tendem a anularem-se. Ainda se deve realçar, de acordo com Bohner e Wänke (2002), que estes índices de consistência interna só são indicadores de fiabilidade com significado para escalas em que cada item puder ser visto como representando a atitude em estudo de forma igualitária, como é o caso das escalas de Likert e de diferencial semântico. A fiabilidade é um pré-requisito da validade, mas o contrário pode não ser necessariamente verdadeiro. Assim, e tal como indicam Bohner e Wänke (2002), depois de garantida a fiabilidade deve-se procurar otimizar a validade, que será tanto maior quanto maior for a relação entre as pontuações da atitude com as obtidas com outras escalas que meçam a mesma atitude (validade convergente), para além de que não devem apresentar relação com medidas construídas para avaliar outros constructos (validade discriminante). Aiken (2002) ainda recomenda, como evidência da validade da medida para a atitude, a representatividade do conjunto de itens do questionário em relação ao domínio em estudo, sendo esso aspeto determinado pela análise e juízos elaborados em relação à validade desse conteúdo por um conjunto de especialistas, juízes no tema em causa. Por vezes a avaliação da validade é feita em relação a um critério externo que esteja teoricamente relacionado com o constructo em estudo. Segundo Bohner e Wänke (2002) referindo Jaccard, Webwr e Lundmark (1975) e Kothandapani (1971), em geral os tipos de escala de itens múltiplos que foram mencionados têm níveis de fiabilidade e de validade comparáveis e, portanto, quando aplicados ao mesmo objeto de atitude tendem a apresentar valores altos para as correlações. No sentido de evitar os efeitos desviantes associados às reações dos respondentes face ao instrumento de medida da atitude, têm sido elaboradas várias medidas indiretas, em que os respondentes não têm conhecimento de que as suas atitudes estão a ser analisadas. Bohner e Wänke (2002) e Aiken (2002) indicam várias técnicas que se enquadram dentro das medidas indiretas tais como: as técnicas do número telefónico errado (wrong-number) e da carta perdida (lost-letter); as técnicas psicofisiológicas, entre as quais se encontram os padrões de expressões faciais, as ondas cerebrais, as mudanças da condutância elétrica da pele ou, ainda, as mudanças do 142 Atitudes diâmetro das pupilas; as técnicas projetivas como a associação de palavras, completar frases, histórias por imagens ou testes de conhecimento sobre assuntos relacionados com a atitude em estudo. Aiken (2002) refere que as técnicas fisiológicas e as projetivas são adequadas para situações em que o respondente está consciente da sua atitude mas em que não deseja ou está relutante em revelá-la. Aiken (2002) assim como Bohner e Wänke (2002) defendem que estas medidas indiretas são também apropriadas para revelar e medir atitudes implícitas. Bohner e Wänke (2002) apresentam estas medições das atitudes implícitas como sendo definidas por Greenwald e Banaji (1995) como avaliações cuja origem é desconhecida pelo indivíduo ou não é introspetivamente identificável pela pessoa e que afetam as respostas implícitas. Apesar de serem ferramentas metodológicas úteis, em especial em tópicos ou assuntos mais sensíveis, são usados poucas vezes, até porque, geralmente, apresentam baixos níveis de validade do constructo e uma maior dificuldade de implementação, em particular para grupos de grande dimensão. Na prática, e segundo Bohner e Wänke (2002) baseados em Greenwald e Banaji (1995) e Lemon (1973), a medição das atitudes de forma direta é claramente predominante em relação à forma indireta, pois as medidas diretas são mais fáceis de aplicar, mais precisas e confiáveis que as medidas indiretas. Aiken (2002) afirma que, desde da publicação do artigo original de Likert 112, em 1932, a escala de Likert é claramente a mais usada no estudo de atitudes. Salienta-se que, para Aiken (2002), parece haver uma tendência para considerar que a medida das atitudes é multidimensional e que, portanto, são necessários processos de avaliação mais complexos. Nessa linha, é cada vez mais comum na construção dos instrumentos de medição de atitudes e na avaliação das pontuações obtidas através desses mesmos instrumentos, a utilização de métodos estatísticos multivariados, em particular da análise fatorial. 2.2. Atitudes em relação à Estatística O estudo das atitudes em relação à Matemática e, em especial, em relação à Estatística é importante, tanto pela sua influência no processo educativo, como pelos resultados formativos que daí podem advir. Em termos dos alunos estes têm sentimentos 112 Likert, R. (1932), A Technique for the Measurement of Attitudes. Archives of Psychology, 140: 1-55. 143 Atitudes fortes e, em geral, bem definidos em relação à Estatística, mesmo antes de iniciarem a sua formação, e esses sentimentos, positivos ou negativos, influenciam no mesmo sentido a aprendizagem, como é referido por Gal, Ginburg e Schau (1997). Em relação aos professores há que ter em conta toda a experiência que tiveram enquanto alunos, mas também enquanto profissionais, que lhes foi moldando as atitudes que depois terão influência nas atitudes e no processo de aprendizagem dos seus alunos (Gal e Ginsburg, 1994, Estrada, Batanero e Lancaster, 2011). Destacando que no âmbito escolar as atitudes formadas pelas experiências vividas pelos alunos desde muito novos podem perdurar ao longo da formação académica até adultos, como defendem Eagly e Chaiken (1993), e podendo estes alunos tornarem-se professores, Sweeting (2011), referindo Uusimaki (2004), considera que para um professor a formação de atitudes é cíclica. Assim, esta investigadora apresenta um ciclo que relaciona as atitudes dos professores com os seus comportamentos e métodos usados na sala de aula, e estes às atitudes (positivas ou negativas) dos seus alunos com consequências no seu rendimento e na sua motivação, o que para aqueles alunos que seguirem a profissão de professor por sua vez poderá influenciar as suas atitudes e, a partir daí, dar início a um novo ciclo, esquematizado na Figura 2.6 para as atitudes em relação à Estatística. Desta forma, acredita-se que existem benefícios associados às atitudes positivas que poderão ter como consequência uma maior motivação, tanto dos alunos como dos professores, para os processos de ensino e de aprendizagem da Matemática e da Estatística e dessa forma contribuir para um melhor conhecimento e uma melhor educação, tanto a nível individual, como social. Neste âmbito, é importante valorizar as atitudes dos alunos e dos professores, incluindo os dos anos iniciais, o que implica também conhecer instrumentos de medida adequados ao contexto e que permitam identificar fatores que intervenham na construção das suas atitudes, sabendo que essa construção e os processos de mudança que lhe estejam associados são, em geral, longos e de difícil controlo devido à multidimensionalidade do constructo. Por este motivo, neste ponto começa-se por uma abordagem mais específica sobre o afeto e, em particular, sobre as atitudes em relação à Matemática e, em especial, à Estatística. Em seguida, apresentar-se-ão vários instrumentos de medição das atitudes em relação à Estatística, bem como algumas das suas características. Além disso, também se fará a apresentação de vários estudos de aplicação dos referidos instrumentos de medição de atitudes, quer em alunos quer em professores, e em várias partes do 144 Atitudes mundo ao longo das últimas décadas. Precisamente também por se constatar uma muito menor abordagem destas questões em relação a este grupo profissional, este trabalho será centrado nas atitudes dos professores em relação à Estatística. Figura 2.6: Ciclo preliminar da Atitude em relação à Estatística do professor Fonte: Elaborada pelo autor com base na Figure 2.2 em Sweeting (2011, p. 34) 2.2.1. Afeto e atitudes em relação à Matemática e à Estatística Philipp (2007) refere que McLeod (1992) já reconhecia a importância do facto de que “all research in mathematics education can be strengthened if researchers will integrate affective issues into studies of cognition and instruction” (Philipp, 2007, p. 261, citando McLeod, 1992, p. 575). Philipp (2007) ainda constatou que essa inclusão continuara, de uma forma geral, a não ser refletida na investigação em educação matemática. Por outro lado, a Matemática é claramente aceite como muito importante em várias áreas ou campos, já não sendo exclusiva das áreas conhecidas, de forma tradicional, como as de ciências. Neste sentido, no âmbito da Matemática, a par de uma “Matemática clássica” de certa forma estática e vista, mesmo depois dos teoremas da incompletude de Kurt Gödel (1906-1978), em 1931, como a disciplina do certo e do 145 Atitudes imutável, surgiram a Estatística e as Probabilidades, com um carácter de disciplina do incerto e do aleatório, o que aproximou a Matemática-Estatística das ciências humanas e do comportamento. No entanto, como já foi referido, esta disciplina é acompanhada com frequência de uma postura negativa por parte dos alunos que a têm que estudar. Este é um dos principais problemas do seu ensino, podendo ter como consequência a inadaptação e/ou a desmotivação em relação a esta área do conhecimento. Auzmendi (1992) refere que alguns investigadores (Neale, 1969; Hope, 1970; Robson, 1973; Phillips, 1980) indicam um bloqueio emocional ou barreira psicológica e até um medo ou ódio por parte dos alunos em relação à Matemática. Estas constatações são, ainda hoje, sustentadas e assumidas por muitos professores, com base na evidência empírica das suas experiências enquanto professores. Uma das razões indicadas por Auzmendi (1992) é a falta de bases adequadas que pode ser uma das causas deste processo. No entanto, esta autora, referindo Hope (1970), considera que esta situação não acontece só a quem não sabe ou não consegue, pois nem sempre coincidem o sucesso académico e o afeto por uma determinada disciplina. Esta investigadora indica como outras razões o não reconhecimento da relevância da matéria para as suas vidas, ou o sentimento de ameaça afetiva adquirida nos primeiros contactos com o ensino da Matemática. Como consequências surgem, entre outras, o insucesso académico sistemático nesta disciplina ou a não utilização ou má utilização da Matemática enquanto instrumento de trabalho no futuro profissional. Veia (1996) afirma que é precisamente nos primeiros anos de escolaridade que se formam muitas das conceções113 e atitudes relativamente à Matemática, na qual se inclui a Estatística, em termos de ensino, e que estas são cada vez mais difíceis de alterar à medida que as crianças crescem. De uma forma consistente com a referida importância atribuída ao aspeto afetivo e às atitudes, Cazorla (2002, pp. 24-25) afirma que: “O aspeto afetivo tem um papel importante, não apenas na aprendizagem de Estatística mas, principalmente, no seu uso fora da escola. Assim como a Matemática, a Estatística está mais presente na vida das pessoas, seja enquanto cidadãos, consumidores de informações veiculadas pela mídia, ou enquanto 113 são constituídas pelas crenças, pontos de vista e conceitos do indivíduo sobre o constructo, ou seja, pelos significados elaborados pelo individuo ao longo do tempo e que adquirem alguma estabilidade, sendo o património conceptual e o instrumento interpretativo com os quais ele dá sentido às situações com que lida e que orientam a sua atuação em relação ao constructo. (Guimarães, 2006) 146 Atitudes profissionais que lidam com informações estatísticas ou enquanto pesquisadores, que lidam com a metodologia científica. Por essa razão, é importante o estudo do papel das atitudes na formação do usuário de estatística”. Kislenko (2009) considera que a importância da afetividade na educação matemática tem sido enfatizada tanto por investigadores como pelos responsáveis dos planos curriculares, enquadrando o termo afetividade como “a wide range of feelings and moods that are generally regarded as something different from pure cognition” (Kislenko, 2009, p. 147, citando McLeod, 1989, p. 245). Forgasz e Leder (2009) referem que estudos sobre afetividade no ensino e aprendizagem da Matemática são relativamente recentes, indicando que desde 1995 tem havido um crescente interesse sobre este assunto o que se reflete no número cada vez maior de publicações e apresentações em congressos desta área de interesse, incluindo alguns estudos neste âmbito sobre professores. Como exemplos dessas publicações relevantes a nível internacional, estes autores indicam o International Handbook of Mathematics Education (Bishop, Clements, Keitel, Kilpatrick e Laborde (eds.), 1996), o seu sucessor Second International Handbook of Mathematics Education (Bishop, Clements, Keitel, Kilpatrick e Leung (eds.), 2003), o Handbook of International Research in Mathematics Education (English (ed.), 2002), o Handbook of Research on the Psychology of Mathematics Education (Gutiérrez e Boero (eds.), 2006) e o Second Handbook of Research on Mathematics Teaching and Learning (Lester (ed.), 2007). Mais recentemente, pode destacar-se também o estudo conjunto ICMI/IASE Teaching statistics in school mathematics - Challenges for teaching and teacher education (Batanero, Burrill, e Reading (eds.), 2011) ou um número especial sobre esta temática na Statistics Education Research Journal (SERJ) do IASE publicado em novembro de 2012. Relativamente a congressos em que, sobre diversas designações e tópicos específicos, se tem atribuído alguma importância a estas questões da afetividade no ensino e aprendizagem da Matemática podem destacar-se, entre muitos outros, as mais recentes edições dos Congress of European Research in Mathematics (CERME), em que existe um grupo de trabalho denominado Affect and Mathematical Thinking, das Annual Conference of the International Group for the Psychology of Mathematics Education (PME), em que existe um domínio de investigação em educação matemática designado por Affect, Emotion, Beliefs and Attitudes e, ainda, dos International 147 Atitudes Congress on Mathematical Education (ICME) que têm um grupo de estudo no tópico Motivation, Beliefs and Attitudes Towards Mathematics and Its Teaching. A dimensão afetiva, também na aprendizagem da Estatística, é referida por Bazán (2006) como sendo essencial para alcançar os objetivos e as competências a serem atingidos no sistema educacional, e em particular em relação às atitudes Bazán (2008, p. 6) afirma que: “el estúdio de las actitudes no solo tiene sentido en la medida que contribuye a caracterizar mejor o com más amplitud el fenómeno educativo, sino también porque su estúdio puede contribuir como un instrumento que caracterice la eficacia del proceso educativo en general”. Forgasz e Leder (2009) salientam a importância que os aspetos relacionados com a componente afetiva no processo de ensino e aprendizagem da Matemática têm para a literacia matemática. No mesmo sentido, Tishkovskaya e Lancaster (2012) referem que na conceptualização da literacia estatística de Gal (2002), para além da componente do conhecimento com os seus cinco elementos (literacy skills, statistical knwoledge, mathematical knwoledge, context knwoledge, critical questions), surge a componente comportamental onde também está incluído o conceito de atitudes (critical stance, beliefs, attitudes). De forma complementar, Philipp (2007) considera que, para muitos alunos, os sentimentos e crenças que eles nutrem por um determinado tópico ou tema na Matemática ou Estatística é, pelo menos, tão importante como o conhecimento que aprendem sobre o mesmo. Assim, reconhecendo a existência de uma interação entre os fatores afetivos e a aprendizagem da Matemática, e para realçar essa mesma existência, no relatório do programa internacional de avaliação de alunos pela OCDE114 é afirmado que: “Mathematics related attitudes and emotions such as self-confidence, curiosity, feelings of interest and relevance, and the desire to do or understand things […] are important contributors to it (i.e. mathematical literacy) […] The importance of these attitudes and emotions as correlates of mathematical literacy is recognized” (Forgasz e Leder, 2009, pp. 175-176, citando OCDE, 2004, p. 26). 114 PISA 2003 Assessment Framework: Mathematics, reading, science and problema solving 148 Atitudes Os mesmos autores destacam, ainda, a influência que os professores têm na confiança e disposição em relação à Matemática durante o processo de aprendizagem dos seus alunos, citando os princípios e normas para a Matemática escolar do NCTM: “Students’ understanding of mathematics, their ability to use it to solve problems, and their confidence in, and disposition toward, mathematics are all shaped by the teaching they encounter in school” (Forgasz e Leder, 2009, pp. 175-176, citando NCTM, 2000, p. 16). Relativamente ao domínio afetivo em relação à Matemática, Estrada (2009b) considera que McLeod (1988, 1989, 1992, 1994) contribuiu de forma decisiva para o reconhecimento da importância das questões afetivas em relação à Matemática, e em cujos trabalhos as atitudes surgem como difíceis de definir (uma vez que não são uma entidade diretamente observável), considerando-as antes como construções teóricas que podem ser inferidas de determinados comportamentos exteriorizados, com frequência em termos verbais. Philipp (2007) e Goldin, Rösken e Törner (2009) indicam que McLeod (1989, 1992, 1994), na abordagem do domínio afetivo em relação à educação matemática, propôs que se incluíssem as noções de emoções, atitudes e crenças. Estes autores também indicam que aquele autor considera que a ordem dos conceitos emoções, atitudes e crenças corresponde a uma ordem decrescente em termos da afetividade e a uma ordem crescente em termos da estabilidade no tempo e também em termos do relevo dos elementos cognitivos. Ou seja, as emoções são marcadamente afetivas, não muito estáveis e menos marcadas por elementos cognitivos, enquanto as crenças são em geral menos ligadas à afetividade, mais estáveis e incorporam conhecimentos mais específicos e detalhados. As atitudes podem, então, ser consideradas tanto como propensões em relação a certos padrões comportamentais, como propensões em relação a certos tipos de sentimentos emocionais em domínios particulares, por exemplo, a Matemática. Estrada (2002), referindo Chacón (2000), esquematiza (Figura 2.7) o domínio afetivo da aprendizagem da Matemática, de acordo com as crenças em relação a si mesmo e em relação à Matemática, quem está a aprender Matemática pode reagir de forma positiva ou negativa. A repetição de um mesmo tipo de reação afetiva pode transformar-se em atitude que, por sua vez, influenciam as crenças e contribuem para a sua formação. 149 Atitudes Figura 2.7: Descritores específicos do domínio afetivo na Matemática Fonte: Elaborada pelo autor com base na Figure 2.1 em Estrada (2002, p. 52) 2.2.2. Atitudes em relação à Estatística e suas componentes Tal como se referiu, a definição de atitudes é muito variada, dependendo dos investigadores, e no âmbito do estudo das atitudes em relação à Matemática e à Estatística não se foge à regra. Assim, apresentam-se a seguir outras definições de atitude, algumas das mais significativas no âmbito específico desta investigação. Para Auzmendi (1992, p. 17) as atitudes combinam herança (genética) e meio envolvente, concebendo-as como compostas “tanto por creencias como por los sentimientos y predisposiciones comportamentales hacia el objeto al que se dirigen”. Para esta investigadora este é um fenómeno visto como complexo, apontando para uma constituição de vários elementos, as componentes cognitiva, afetiva e comportamental. Também Gal, Ginsburg e Schau (1997, p. 40) apresentam atitude como “a summation of emotions and feelings experienced over time in the context of learning mathematics or statistics”. Além disso, estes autores consideram as atitudes como sendo bastante estáveis, com intensidade moderada e com uma componente cognitiva menor que nas crenças e que, referindo McLeod (1992), as atitudes influenciam e são influenciadas pelas crenças de cada um. Outra definição é a de Gómez Chacón que define atitude como “una predisposición evaluativa (es decir positiva o negativa) que determina las intenciones personales e influye en el comportamiento” (Estrada, 2009b, p. 119, citando Gómez Chacón, 2000, p. 23). 150 Atitudes Também Philipp (2007) define as atitudes, apresentando-as como formas de agir, sentir ou pensar que mostram a disposição ou opinião da pessoa em relação algo, como são os casos, por exemplo, da Matemática e da Estatística. Em termos de definição, no âmbito da educação matemática, Kislenko (2009) define atitude como uma resposta afetiva que inclui sentimentos negativos ou positivos com estabilidade e intensidade moderada, dando exemplos como o não gostar da resolução de problemas ou o gostar de demonstrações algébricas. Igualmente Estrada (2009b) considera que as atitudes face à matéria de estudo, como a Estatística, são bastante estáveis, de várias intensidades e são expressas positiva ou negativamente, podendo, por vezes, representar sentimentos que estão vinculados a fatores externos à matéria, por exemplo, o professor ou o livro. Estas atitudes são criadas muito cedo nos alunos e, apesar de inicialmente tenderem a ser favoráveis, têm uma evolução negativa que, por regra, persiste no tempo segundo alguns estudos referidos por esta investigadora. Além disso, esta autora apresenta, à semelhança do que referem Gal, Ginsburg e Schau (1997), a origem da formação de atitudes em relação à Estatística em três pontos. O primeiro é constituído pelas experiências anteriores em ambiente escolar. Por exemplo, a aplicação rotineira de fórmulas e ausência de aplicações reais e metodologias apropriadas, o que nos alunos que serão futuros professores pode ser uma ajuda na sua formação, mas também podem funcionar como filtros para as novas informações, tal como refere Estrada (2009b), mencionando Calderhead e Robson (1991). No segundo, com base em Gal e Ginsburg (1994), Estrada (2009b) indica as noções de Estatística obtidas fora da sala de aula, designadamente nos meios de comunicação, que por vezes surgem de forma errada, inclusive em termos conceptuais. No terceiro ponto esta autora, referindo Brandstreat (1996), considera a associação da Estatística à Matemática, sendo transferidas para a primeira as atitudes em relação à segunda. Na opinião de Estrada (2002) as atitudes têm funções que se concretizam como facilitadoras da ação, embora não de forma obrigatória como produtoras da mesma, como motivacionais a favor ou contra um objeto de atitude, rompendo com a indiferença em relação ao mesmo, como orientadoras no sentido de promoverem as respostas adequadas, e como estabilizadoras enquanto modeladoras de consistências e características da personalidade do indivíduo. Do ponto de vista da aprendizagem da Matemática e da Estatística, Bazán (2008), referindo Bazán e Aparicio (2007), defende um modelo (Figura 2.8) onde a afetividade tem destaque num processo com componentes externas e internas ao 151 Atitudes indivíduo. A este último nível existe um sistema afetivo-emocional constituído por um plano de procedimentos, representado através das emoções, e um plano de representações, caracterizado pelas disposições afetivas, que constituem as atitudes em relação à Matemática e à Estatística. Estas atitudes são interiorizadas como positivas ou negativas de acordo com o que o indivíduo sinta, pense e idealize sobre o objeto de atitude, por fim, estas componentes serão também avaliadas como positivas ou negativas, determinando os procedimentos do sujeito para a aprendizagem. Além disso, em relação à Matemática e à Estatística, tanto os alunos como os professores, mediados pela informação social, podem ter manifestações positivas ou negativas em função das suas experiências e aprendizagens. Também mediados pela informação psíquica, as suas atitudes podem estar relacionadas com as dificuldades em aprender ou em ensinar, respetivamente. Assim, Bazán (2008, p. 14) adota como definição de atitude a “disposición personal, idiosincrásica, presente en todos los individuos, dirigida a objetos, eventos o personas, que se organiza en el plano de las representaciones considerando los domínios cognitivo, afectivo y conativo”. Nesse sentido, há, através da atitude em relação a um objeto, uma predisposição para responder de uma maneira positiva ou negativa a esse objeto, de que é exemplo a Matemática ou a Estatística. Como se referiu, a tendência é a de considerar as atitudes como um constructo multidimensional, em que as atitudes em relação a uma matéria, como a Estatística, são estruturadas por componentes. De acordo com Estrada (2009b), Wise (1985) considerou apenas a componente disciplina, ou seja, as atitudes em relação à disciplina de Estatística básica em que os alunos estão inscritos, e a componente de campo, isto é, as atitudes dos alunos em relação ao uso da Estatística no campo de estudo correspondente. Segundo Estrada (2001, 2009b, 2011), Aparício (2006) e Carmona (2004), Auzmendi (1992) apresenta como dimensões das atitudes em relação à Estatística: a utilidade subjetiva que tem para o aluno o conhecimento de Estatística; a ansiedade ou receio que se manifesta perante a matéria; a confiança ou segurança que se tem ao confrontar-se com a Estatística; o agrado ou satisfação que provoca o trabalho estatístico; e a motivação que sente o estudante em relação ao estudo e uso da Estatística. 152 Atitudes Figura 2.8: As atitudes em relação à matemática e à Estatística num modelo de aprendizagem Fonte: Elaborada pelo autor com base na Figura 3 de Bazán (2008, p. 13) Por outro lado, Schau, Stevens, Dauphine e Vecchio (1995) propuseram, em menção de Estrada (2009b), uma estrutura com quatro dimensões ou componentes, nomeadamente: componente afetiva, que se refere aos sentimentos positivos ou negativos em relação à Estatística; componente de competências cognitivas, que abrange a perceção da capacidade individual em termos de conhecimentos e competências estatísticas; componente de valor, que comporta a utilidade, relevância e valor atribuído à Estatística na vida pessoal e profissional; e componente de dificuldade, que se refere à dificuldade atribuída à Estatística enquanto disciplina. No entanto, Schau (2003), citada por Ramirez, Schau e Emmioglu (2012), propôs que se acrescentasse ao seu modelo mais duas dimensões, o esforço e o interesse, passando a ter seis dimensões. Estas autoras apresentaram a componente esforço como estando relacionada com a quantidade de trabalho despendido na aprendizagem da Estatística e a componente interesse como registando o nível do interesse individual em relação à Estatística. Neste âmbito, e como na presente investigação, Estrada (2002) considerou igualmente as atitudes como um conceito pluridimensional e como importante a diferenciação de dimensões nas atitudes em relação à Estatística. A justificação para esta diferenciação foi a de possibilitar o acesso a uma informação mais específica e detalhada que pode permitir encarar os problemas relacionados com essas atitudes de uma forma mais assertiva, facultando, por exemplo, intervir no desenvolvimento 153 Atitudes profissional dos professores de modo a tentar uma modificação positiva na forma deles participarem nos processos de ensino e de aprendizagem da Estatística. Referindo Auzmendi (1992), Flores (1999) e Gómez Chacón (2000), Estrada (2002) considerou três fatores básicos, denominados por componentes pedagógicas (ou didáticas): Componente cognitiva: que se refere às formas de expressar o pensamento, conceções e crenças em relação ao objeto da atitude (a Estatística), abrangendo desde os processos percetivos simples até aos processos cognitivos mais complexos, incluindo ideias, crenças, imagens e perceções sobre o objeto de atitude e apresentam características como um carácter fixo e estável, diferenciando-se da mera opinião, a singularidade, referindo-se a uma única pessoa, objeto ou situação, e nem sempre se expressam de forma consciente; Componente afetiva ou emocional: que está relacionada com as formas de expressar o sentimento em relação ao objeto de atitude (a Estatística), englobando todas as emoções e sentimentos que a Estatística provoca, sendo reações subjetivas positivas ou negativas, de proximidade ou afastamento, de satisfação ou insatisfação, que reforçam as relações do sujeito com o objeto de atitude e que podem contribuir para consolidar o poder motivacional das atitudes; Componente comportamental ou tendencial: que surge associada às ações em relação ao objeto das atitudes (a Estatística), abrangendo ações ou intenções de conduta que representam a tendência para decidir em termos de ação em relação ao objeto de atitude de uma forma concreta e determinada. No entanto, e dado o enfoque particular nas atitudes dos professores, para além das componentes pedagógicas, Estrada (2002) teve em conta, no estudo exploratório e de forma complementar, as componentes antropológicas, mais especificamente: Componente social: que está relacionada com a perceção e valorização do papel da Estatística no âmbito sociocultural de qualquer cidadão e que, no âmbito deste estudo, surge como alternativa à visão da Estatística como um tipo de conhecimento isolado da cultura ou dos valores culturais; Componente educativa: que está relacionada com aspetos ligados à envolvente educativa e engloba o interesse em relação à Estatística e à sua aprendizagem, a visão sobre a sua utilidade para o aluno, a opinião sobre a importância da sua inclusão no currículo e também a dificuldade percebida em relação à mesma; 154 Atitudes Componente instrumental: que se refere à atribuição de utilidade da Estatística a outras matérias como forma de raciocínio e como componente cultural. Na base da inclusão destas componentes antropológicas esteve o interesse da investigadora pelos aspetos didáticos das atitudes em relação à Estatística por parte dos professores em exercício e em formação. Além disso, tinha como objetivo, para além de incluir as questões referentes à utilidade, formação e multidisciplinaridade da Estatística, abranger também questões relacionadas com a envolvente social, económica e cultural. No entanto, depois da análise do estudo exploratório em Estrada (2002), esta investigadora apontou haver uma certa sobreposição destas componentes, sendo pouco operacional e provocando dificuldades na sua interpretação. Contudo, apesar destas limitações e dificuldades e da existência de várias abordagens diferentes sobre a estrutura pluridimensional das atitudes, será esta a abordagem estrutural das atitudes em relação à Estatística com componentes pedagógicas e antropológicas (Estrada, 2002), que será utilizada na presente investigação, precisamente pelas já mencionadas justificações e razões invocadas por Estrada (2002). 2.2.3. Escalas de atitudes em relação à Estatística Do texto dos pontos anteriores parece continuar a justificar-se o estudo das atitudes em relação à Matemática e à Estatística, nos alunos e, em particular, nos professores. Uma intervenção adequada junto destes últimos através da formação contínua dos mesmos, se e quando necessária, poderá conseguir também melhorar as atitudes dos alunos. Nesse sentido, Auzmendi (1992, p. 10) afirma que “favorecer el desarollo de actitudes positivas hacia las matemáticas [la estadística] desde los primeros cursos ha de convertirse en uno de los objetivos fundamentales del profesor”. Contudo, formular tais objetivos pode não ser suficiente para o aluno conseguir melhorar o seu desempenho académico na disciplina do modo desejado. Além disso, esta autora chama a atenção para o facto de que, para se poder fazer uma intervenção a este nível, é preciso conhecer as atitudes e, para isso, é necessário dispor de instrumentos adequados para as medir e avaliar. Na sequência das várias definições de atitudes e das estruturas multidimensionais que lhes são atribuídas, algumas referidas no ponto anterior, surgiram também vários questionários concebidos para medir as atitudes em relação à 155 Atitudes Estatística, embora sejam, na sua maioria, centrados no estudo das atitudes dos alunos. De seguida apresentam-se os instrumentos de medição das atitudes em relação à Estatística com maior utilização, aceitação e projeção na investigação das mesmas a nível internacional, suportados pelas revisões realizadas por Silva, Cazorla e Brito (1999), Carmona (2004) e Estrada (2009b). A primeira dessas escalas, que surge como usada por vários investigadores, é a Statistics Attitude Survey – SAS – de Roberts e Bilderback (1980), em que se pretendia medir as atitudes dos alunos em relação à Estatística. Esta escala é considerada pelos seus autores como sendo um questionário unidimensional que, após um teste inicial, passou a ter 33 itens tipo Likert com cinco opções e que teve por base um questionário proposto por W. Dutton, em 1954, para medir as atitudes em relação à aritmética. De início, a escala SAS foi aplicada a uma amostra de alunos de uma disciplina de introdução à Estatística da Penn State University ao longo de três períodos de tempo, nomeadamente na primavera e no inverno de 1978 e na primavera de 1979, e com 92, 81 e 65 alunos, respetivamente. Dos resultados obtidos a proporção da variância explicada pela SAS para prever as classificações dos alunos variou entre os 10% e os 30%, apresentando altos níveis de consistência interna com valores do alfa de Cronbach entre 0,93 e 0,95. Posteriormente, e segundo Estrada (2001, p. 378), citando Robert e Saxe (1982), observou-se que as pontuações médias daquela aplicação da SAS tinham uma evolução positiva entre o princípio e o fim do semestre e que estavam relacionadas de forma significativa com as classificações na disciplina, as capacidades matemáticas básicas, os conhecimentos estatísticos prévios, o ser licenciado, o género, o nível de vontade de realizar a disciplina e a satisfação obtida pela sua conclusão, o número de disciplinas de matemática já frequentadas, o facto de a disciplina ser obrigatória ou de escolha livre, as atitudes em relação às calculadoras e a avaliação do professor. Na opinião de Wise (1985), e apesar de considerar que a SAS satisfez a necessidade de medir as atitudes em relação à Estatística, vários dos seus itens seriam desadequados para os alunos que acabaram de iniciar os seus estudos de Estatística, além de que lhe pareciam medir mais o rendimento dos alunos do que as atitudes dos mesmos em relação à Estatística, tal como referem Estrada (2001, 2009b, 2011) e Carmona (2004). Desta forma, e na sequência das questões referidas, Wise (1985) apresentou uma escala alternativa à SAS, denominada Attitudes Toward Statistcs Scale – ATS – e que pretendia medir a mudança das atitudes de alunos de disciplinas de Estatística básica. Admite-se que esta escala tem como domínios suscetíveis de serem 156 Atitudes medidos as atitudes dos alunos em relação à disciplina e as atitudes dos alunos em relação ao uso da Estatística no seu campo de estudos. Este questionário, depois da validação por um painel de especialistas e da análise da correlação item-total, ficou limitado a 29 itens tipo Likert com cinco opções. A ATS foi aplicada a duas amostras de 92 e 70 alunos, respetivamente, que apresentaram valores elevados para o coeficiente alfa de Cronbach, entre 0,92 e 0,90, e para o coeficiente de fiabilidade test-retest, valores de 0,82 e 0,91 para os dois domínios. Além disso, Estrada (2001) refere que a análise fatorial mostrou que a informação que cada domínio proporciona, no que respeita às atitudes em relação à Estatística, era muito diferente. Em Cardona (2004) aparecem mencionadas as traduções para espanhol da escala SAS usadas por Auzmendi (1992), por Mejía (1995) e por Cuesta, Rifá e Herrero (2001), bem como da escala ATS usada por Gil Flores (1999). Para além destas traduções existem também algumas escalas criadas de raiz em espanhol, das quais Carmona (2004) refere em primeiro lugar, seguindo a cronologia, o caso da Escala de Actitudes hacia la Estadística de Auzmendi – EAEA – de 1991. Em particular, e como refere Estrada (2001) e Estrada (2009b), a EAEA surgiu da necessidade percebida por Auzmendi de adequar à realidade socioeducativa espanhola, que é diferente daquelas que envolveram a aplicação de outras escalas como a ATS e a SAS, bem como de contemplar a consideração dos fatores mais significativos das atitudes em relação à Estatística e à Matemática, numa visão multidimensional. Assim, na sua fase final, a EAEA é uma escala tipo Likert com 25 itens que, com pequenas alterações nos itens, procurava medir atitudes tanto em relação à Estatística como em relação à Matemática. Para a EAEA, Auzmendi (1992) considera cinco dimensões ou fatores, como referido no ponto anterior, e que são a utilidade, ansiedade, confiança, agrado e motivação. Nos 25 itens da EAEA para cada um dos cinco fatores mencionados há cinco itens que lhe correspondem. Enquanto instrumento de medida, a EAEA foi aplicada primeiro a 213 e depois a 2052 alunos de licenciatura inscritos em disciplinas de Estatística no País Basco espanhol. Esta aplicação do instrumento apresentou elevados valores para a consistência interna e para a validade, com valores do alfa de Cronbach em relação à pontuação total de 0,87 e 0,90, no início e no fim da disciplina, respetivamente, e com os valores para os cinco fatores a variar entre 0,61 e 0,84. A correlação com a SAS foi de 0,86 e os cinco fatores explicam 60,7% da variância total, tal como indica Auzmendi (1992) e é resumido por Estrada (2001), Estrada (2009b), Estrada (2011) e Aparício (2006). 157 Atitudes Posteriormente Schau et al. (1995) definiram uma escala denominada Survey of Attitudes Toward Statistics – SATS – que, após a validação por análise fatorial confirmatória, passou a ser constituída por 28 itens, do tipo Likert com sete opções, que estão estruturados nas quatro componentes já referidas anteriormente: afetiva, de competência cognitiva, de valor e de dificuldade. Além disso, e como refere Estrada (2009b, 2011), a escala SATS teve como características base: a inclusão das componentes mais importantes das atitudes; a aplicabilidade sem grandes alterações em qualquer altura da lecionação da disciplina, bem como em diversas disciplinas de Estatística; uma dimensão relativamente curta de modo a poderem ser aplicados em pouco tempo, bem como a existência de itens que, tanto medem atitudes positivas, como negativas; e, por fim, a possibilidade da análise de resultados poder utilizar técnicas para confirmar os fatores dominantes, como a análise fatorial confirmatória. Em Carmona (2004) aparecem também mencionadas as traduções para espanhol da escala SATS usadas por Carmona e Moreno (1999), por Estrada (2002) e por Huedo, López, Martínez e Nortes (2003). Mais recentemente, Ramirez, Schau e Emmioglu (2012), numa revisão de questionários para medir as atitudes dos alunos em relação à Estatística, dão especial atenção à escala SATS-36, que é considerada uma escala melhorada em relação à anterior SATS, em que foram acrescentados oito itens e mais duas dimensões, esforço e interesse, passando a ter seis dimensões. Além disso, a SATS-36 contém questões adicionais para obter a caracterização dos alunos, incluindo, entre outras características, o género, a idade e o número de disciplinas de Estatística realizadas com sucesso. Carmona (2004) e Estrada (2011) referem ainda a Escala de Atitudes em relação à Estatística de Cazorla, Silva, Vendramini e Brito (1999) como sendo uma escala unidimensional composta por 20 itens em português. Esta escala é conhecida por Escala de Atitudes em relação à Estatística de Cazorla – EAEC – e é uma adaptação para a Estatística da escala de atitudes em relação à Matemática de Brito (1998) que, por sua vez, era adaptada da escala de Aiken e Dreger (1961). Os itens são do tipo Likert mas apenas com quatro opções, tendo sido eliminada a opção neutra, como é referido em Cazorla et al. (1999). Neste estudo a EAEC foi aplicada a 1154 alunos da disciplina de Introdução à Estatística de 15 cursos de licenciatura, de duas universidades particulares de grande dimensão do Estado de São Paulo. As mesmas autoras referem que este estudo apresentou um alfa de Cronbach para a pontuação total de 0,9494 e em relação às variáveis universidade, género, área de conhecimento, e auto-perceção do desempenho 158 Atitudes em Estatística a análise de fiabilidade apresentou valores do alfa de Cronbach entre 0,9011 e 0,9591. Perante os resultados obtidos por Cazorla et al. (1999) parece que a escala EAEC é um bom instrumento para medir as atitudes dos alunos em relação à Estatística e permite aos professores traçar estratégias que conduzam a uma aprendizagem efetiva e significativa. Vendramini e Silva (2008) num estudo com a mesma escala aplicada a 693 alunos de uma universidade brasileira de licenciaturas de Administração, Engenharia, Pedagogia e Psicologia obtiveram o mesmo alfa de Cronbach, 0,95, realizaram uma análise fatorial de componentes principais cujos resultados indicaram que a escala é predominantemente unidimensional. Realizaram uma análise aos itens através de um modelo Rasch indicando evidências de validade da estrutura interna da escala. Mais recentemente Campos, Dovigo, Bonafé e Maroco (2010) num estudo que envolveu 325 inquéritos validados aplicados a alunos de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP) concluíram que EAEC apresenta uma estrutura bidimensional com níveis de validade e fiabilidade adequados. Para além da EAEA de Auzmendi, Carmona (2004) refere também a Escala de Actitudes hacia la Estadística de Estrada – EAEE – de 2002, como outra escala criada de raiz em espanhol e, tal como Aparício (2006) na sua revisão das escalas de avaliação das atitudes em relação à Estatística, considera que ao contrário das outras escalas que estão direcionadas para alunos universitários, esta é direcionada de forma específica para professores ou futuros professores, pelo que tem um maior interesse no âmbito desta investigação. Para esta escala, e como referido no ponto anterior, Estrada (2002) considerou as atitudes como um conceito pluridimensional e destacou a importância da diferenciação de dimensões nas atitudes em relação à Estatística, socorrendo-se de três fatores básicos (afetivo, cognitivo e comportamental), denominados por componentes pedagógicas (ou didáticas) e, dado o enfoque particular no professor e de forma complementar, as componentes antropológicas, com também três fatores (social, educativo e instrumental). Segundo Estrada (2002), esta escala foi construída combinando as escalas SAS, ATS e a EAEA já referidas. Desta forma, seguindo recomendações de Osterlind (1989) e Thorndike (1989) e depois de delimitar o conteúdo a avaliar e de especificar o formato dos itens contemplando as componentes pedagógicas e antropológicas mencionadas, foi elaborada uma lista de 36 frases, tentando dar um peso equivalente a cada uma das componentes. Este conjunto de frases foi submetido a um painel de especialistas, com perfis profissionais diferenciados, que 159 Atitudes se pronunciaram sobre a adequação e univocidade das mesmas. Deste processo resultou uma escala de Likert de 25 itens, sendo 14 dos enunciados afirmativos e 11 negativos, com cinco opções, que vão do 1 (“totalmente em desacordo”) até ao 5 (“Totalmente de acordo”). Esta escala foi aplicada em primeiro lugar a uma amostra de 74 futuros professores de educação primária, em formação na Universidade de Lérida, e a 66 professores em exercício na província catalã de Lérida. Nesta aplicação esta escala apresentou para a fiabilidade um alfa de Cronbach de 0,77. Esta escala é direcionada para medir as atitudes em relação à Estatística de professores, que estão no cerne da presente investigação, pelo que os resultados obtidos em estudos baseados nesta escala serão apresentados em detalhe mais adiante. Na Tabela 2.1 estão patentes as principais características das escalas referidas, bem como as respetivas fiabilidade e validade. Além destas escalas, também são referenciadas na literatura outras escalas de atitudes, embora com menos projeção internacional, e serão de seguida mencionadas. Cazorla et al. (1999) refere a escala SAS de McCall, Belli e Madjidi (1990), sendo esta escala denominada por Satistics Attitudes Scale – SASc (de modo a diferenciá-la da escala SAS) constituída por 20 itens do tipo Likert com cinco opções. Carmona (2004) refere também esta escala para medir atitudes em relação à Estatística que tem sido usada num menor número de trabalhos, e que depois foi usada por Glencross e Cherian (1992) e Cherian e Glencross (1997) em populações sul-africanas. Carmona (2004) refere três outras escalas para medir atitudes em relação à Estatística que têm tido uma menor disseminação nas investigações deste campo. Assim, menciona a Students’ Attitudes Toward Statistics de Sutarso (1992) que é composta por 24 itens não muito diferentes da SAS e da ATS. Outra escala é a Attitude Toward Statistics de Miller, Behrens, Green e Newman (1993) que é um questionário de 25 itens que tem por objetivo medir os constructos: valor da Estatística, orientação por objetivos e capacidade percebida em relação à Estatística. O Quantitative Attitudes Questionnaire de Chang (1996) é outra escala referida e que é constituída, na sua versão curta, por 20 itens concebidos para medir atitudes em relação à metodologia quantitativa e não só em relação à Estatística. Com esta escala pretendia-se medir quatro dimensões: utilidade da metodologia quantitativa; valor dessa metodologia para a investigação nas ciências sociais; eficácia ou perceção das capacidades individuais em relação à abordagem quantitativa; e conhecimento em relação a estes temas. 160 Atitudes Tabela 2.1: Escalas de atitudes em relação à Estatística mais referidas na literatura Escalas SAS ATS EAEA Statistics Attitudes Attitudes Toward Escala de actitudes hacia Survey Statistics la Estadística SATS Survey of Attitudes Toward Statistics EAEC Escala de atitudes em relação à Estatística EAEE Escala de actitudes hacia la Estadística Autores Robert e Bilderbak (1980) Wise (1985) Auzmendi (1992) Schau et al. (1995) Cazorla et al. (1999) Estrada (2002) Nº de itens 33 29 25 28 20 25 Nº de opções 5 5 5 7 4 5 Unidimensional Bidimensional: Disciplina e Aplicação na área de atuação Multidimensional: Utilidade, Ansiedade, Confiança, Agrado e Motivação Multidimensional: Afetividade, competência cognitiva, valor e dificuldade para aprender Bidimensional: Afetivo e auto-valor Multidimensional: Afetivo, cognitivo e comportamental, e social, educativo e instrumental Dimensão Características da Amostra Nº da Amostra Fiabilidade Alunos de Introdução à Alunos de Introdução Alunos universitários de Alunos de 33 cursos, das Alunos universitários de Professores em exercício e Estatística da Estatística de uma Estatística, País Basco, Universidades do Novo Introdução à Estatística, professores em formação na Universidade de universidade do Centro Espanha. México e Dakota do Sul, São Paulo, Brasil. universidade de Lérida Pensilvânia, EUA Oeste dos EUA EUA N=92, N=81, N=65 0,93 a 0,95 N = 92 Campo: 0,92 Disciplina: 0,90 Alfa de Cronbach N=213, N = 2052 Total: 0,87 e 0,90 Utilidade: 0,64 e 0,80 Ansiedade:0,81 e 0,84 Confiança: 0,74 e 0,84 Agrado: 0,79 e 0,83 Motivação: 0,61 e 0,71 N = 1403 Afetivo: 0,81 a 0,85 Cognitivo: 0,77 a 0,83 Valor: 0,80 a 0,85 Dificuldade: 0,64 a 0,77 N=1154 N=140 0,95 Total: 0,77 Afetivo: 0,75 a 0,79 Cognitivo: 0,76 a 0,80 Comportamental: 0,74 a 0,77 Social: 0,74 a 0,78 Educativo: 0,76 a 0,79 Instrumental: 0,75 a 0,80 Validade Preditiva Correlação com as notas: 0,33 a 0,54 Correlação com as notas: 0,27 Correlação com a SAS: 0, 86 Correlação com a escala ATS1: 0,34 a 0,79 Validade Fatorial _____ Dois fatores responsáveis por 49% da variância total2 Cinco fatores responsáveis por 60,7% da variância total2 Coeficiente de Dois fatores responsáveis ajustamento do modelo 3 por 61,2% da variância = 0,97 total2 1 Validade concorrente, 2Análise Fatorial Exploratória, 3Análise Fatorial Confirmatória Fonte: Elaborada pelo autor com base em Cazorla et al. (1999), Estrada (2009a) e Estrada (2011) 161 _____ Atitudes Em Carmona (2004) aparece ainda mencionada a escala criada de raiz em espanhol e desenvolvida por Velandrino e Parodi em 1999. Em relação a esta Escala de Actitudes hacia la Estadística de Velandrino e Parodi (1999), Carmona (2004) e Blanco (2008) apresentam-na como uma escala do tipo Likert com 50 itens, que foi aplicada a uma amostra de 238 alunos dos cursos de Psicologia e de Serviço Social, e que, após a análise fatorial da matriz de correlações entre itens, apresenta uma estrutura proposta com três dimensões: utilidade percebida, conceptualização geral da Estatística, e predisposição e capacidade para a formação e preparação em Estatística. Ramirez, Schau e Emmioglu (2012), numa revisão de questionários para medir as atitudes dos alunos em relação à Estatística, fazem também referência a outros instrumentos em que, para além de alguns questionários relacionados com a ansiedade em relação à Estatística ou com a autoeficácia (self-efficacy) na aprendizagem da Estatística, surgem o Student’s Attitudes Toward Statistics Questionnaire de Bayot, Mondejar, Monsalve e Vargas em 2005 e o Student Attitudes and Conceptions in Statistics (STACS) de Evans em 2005. Segundo Evans (2007) este último questionário é constituído por 44 itens, 30 deles focados nas atitudes e 14 nas conceções face à Estatística, usando uma escala tipo Likert com cinco pontos. Ainda segundo o mesmo autor, ao nível da consistência interna a escala STACS apresentou um alfa de Cronbach de 0,92 para a secção das atitudes, sendo portanto elevado, e de 0,59 para secção das conceções, o que põe em dúvida a consistência interna desta secção da escala. Complementarmente Nolan, Beran e Hecker (2012) fazem também uma análise extensa e exaustiva da validade e fiabilidade de 15 das escalas de atitudes em relação à Estatística, todas em língua inglesa, considerando estes investigadores que apenas a SAS, a ATS e a SATS apresentam evidências acumuladas de validade e fiabilidade. Relativamente a escalas de atitudes direcionadas para professores dá-se destaque a Hassad e Coxon (2007) que apresentam o desenvolvimento de uma escala, e a sua validação inicial, para medir as atitudes de professores em relação à pedagogia baseada em conceitos (ou construtivista) no ensino da Estatística introdutória em cursos das Ciências de Saúde e Comportamentais. A escala desenvolvida foi designada por Faculty Attitudes Toward Statistics (FATS) e é constituída por 25 itens distribuídos por cinco fatores (ou subescalas): utilidade percebida (Perceived usefulness), dificuldade percebida (Perceived difficulty), eficácia pessoal docente (Personal teaching efficacy), afastamento-aproximação (AvoidanceAproach), e intenção comportamental (Behavioral intention). Os três primeiros fatores estão 162 Atitudes associados à componente do conhecimento, o quarto à componente afetiva e o quinto à componente comportamental. Este estudo teve como base o conceito de atitude como uma disposição evolutiva em relação a um objeto construída através dos conhecimentos, reações afetivas e intenções comportamentais. Esta escala foi aplicada a uma amostra de 227 professores e o coeficiente alfa de Cronbach foi de 0,89, variando os seus valores, por fatores, entre 0,65 e 0,88. Num estudo com o objetivo de avaliar as atitudes, características pessoais, utilização de tecnologias e prática letiva de professores de Estatística, Júnior (2011) apresenta, para o estudo das atitudes em relação à Estatística de 15 professores que lecionavam Estatística numa universidade brasileira em 2008, uma escala, designada por Escala de Atitudes de Professores de Estatística em relação à Estatística (EAPE). Esta escala é do tipo Likert, com cinco opções, e é constituída por 42 itens distribuídos por três aspetos, cada um com 14 itens: o afetivo, o cognitivo e o comportamental. Relativamente à consistência interna da escala o valor do alfa de Cronbach foi de 0,60 que pode ser considerado baixo, embora espectável dada a dimensão reduzida da amostra. Destes tópicos sobre instrumentos de medida de atitudes relacionadas com a Estatística fica patente que, ao longo do tempo, surgiram já várias escalas de atitudes direcionadas para a Estatística, tendo algumas delas vindo a ser aperfeiçoadas ou adaptadas a várias circunstâncias, objetivos e culturas. Maioritariamente estas escalas de Likert têm uma abordagem multifatorial e centram-se no estudo das atitudes em alunos e na sua relação com algumas variáveis como, por exemplo, o género, a área de estudo ou o rendimento. Contudo, é de realçar que ao nível das atitudes dos professores em relação à Estatística o número de escalas e de estudos é bem menor, mas parece haver um interesse crescente no tema. Assim, nos próximos pontos abordar-se-ão alguns dos estudos sobre as atitudes em relação à Estatística realizados com alunos, mas também com professores e, neste último caso, incluindo um enquadramento específico prévio dessa temática concreta. 2.2.4. Estudos de atitudes em relação à Estatística com alunos Algumas das escalas apresentadas, por serem as mais utilizadas, deram lugar a investigações sobre atitudes em relação à Estatística e em seguida serão referidos vários desses estudos e alguns dos resultados obtidos através deles, em relação a alunos, deixando para análise posterior os trabalhos referentes a professores. 163 Atitudes Inicia-se a análise por estudos e resultados de estudos em língua portuguesa, primeiro os de Portugal e depois os do Brasil, em que fica patente que os estudos brasileiros são em muito maior rnúmero e em que se torna evidente que a investigação na área das atitudes em relação à Estatística em Portugal é insipiente. De seguida apresentam-se os estudos realizados em Espanha, pois representam já uma considerável investigação nesta área e pela sua relativa proximidade cultural e educacional a Portugal. Por fim são apresentados os estudos realizados fora do universo ibero-americano, maioritariamente anglófonos. Nos estudos que se apresentarão, centrados nas escalas SAS, ATS, SATS (versões de 28 e de 36 itens), mas também na EAEC no caso do Brasil e da EAEE no caso de Portugal, faz-se uma apresentação de alguns dos resultados sobre a associação das atitudes dos alunos em relação à estatística com o respetivo rendimento, variáveis pessoais como o género e a idade, experiência formativa prévia, área de estudos e perceção das próprias capacidades em especial em relação à Matemática e à Estatística. Além disso, abordam-se estudos em que se comparam escalas ao nível da fiabilidade e da estrutura dos seus fatores. Portugal Em Portugal esta temática das atitudes, e em particular em relação à Matemática e à Estatística, tem tido muito menos expressão que em outros países, sendo de referir os estudos sobre a caracterização dos perfis atitudinais e emocionais em alunos do ensino básico de Candeias e Rebelo (2012) e sobre atitudes de alunos universitários em relação à Estatística de Pimenta, Faria, Pereira, Costa e Vieira (2010) e de Nascimento, Martins e Estrada (2012). No primeiro desses trabalhos caracterizaram-se os perfis atitudinais em relação à escola (aprendizagem, competência e motivação) de alunos do ensino básico português em função das suas atitudes face à Língua Portuguesa e à Matemática, enquanto disciplinas escolares nucleares, e das suas competências emocionais (adaptabilidade, humor geral, gestão do stress, compreensão intrapessoal e interpessoal). Neste estudo participaram 671 alunos dos três ciclos do ensino básico em escolas do norte, centro e sul do país. Em relação às atitudes face à Matemática foi utilizado o Questionário de Atitudes Face à Matemática (QAFM – Pomar, Neto, Silva e Candeias, 2011, referido por Candeias e Rebelo, 2012, p. 147) que apresenta como dimensões o desafeto, o gosto e a facilidade, sendo constituído por 26 itens e uma escala de tipo Likert de quatro níveis indo do 1 (“Discordo totalmente”) até 4 (“Concordo totalmente). Este questionário apresentou um alfa de Cronbach de 0,92 e dos 164 Atitudes resultados obtidos destaca-se a perceção de que: os alunos mais motivados e que apresentam uma atitude mais favorável face à escola e à aprendizagem são os que sentem gosto e facilidade em aprender Matemática e a Língua Portuguesa; os alunos com níveis mais altos de inteligência emocional manifestados expressaram dificuldades na gestão do stress, parecendo indicar que o gostar da escola, de aprender e estar motivado para gostar de Matemática e de Língua Portuguesa seria um indutor de stress; parece haver uma contradição entre o sentir-se competente e a manifestação de atitudes positivas em relação à Matemática e à Língua Portuguesa em geral. Estas investigadoras consideram que, no âmbito dos processos de ensino e de aprendizagem, os seus resultados indicam nos perfis destes alunos questões emocionais e afetivas que poderão explicar algumas das razões pelas quais nem sempre as estratégias desse processo, tão complexo, são eficazes. No estudo de Pimenta et al. (2010) foram envolvidos um total de 892 alunos universitários da área das Ciências da Saúde em instituições de ensino superior do norte de Portugal, sendo 385 desses alunos de cursos de pós-graduação. A escala usada por Pimenta et al. (2010) foi uma tradução para português da SATS (Schau et al., 1995) tendo obtido um bom nível de consistência interna com um valor de 0,88 para o alfa de Cronbach. Para estes autores, os resultados deste estudo sugerem que globalmente as atitudes em relação à Estatística foram moderadamente positivas, sendo as pontuações em relação à autoperceção da própria capacidade de aprender e valorizar a Estatística as mais positivas. Em termos afetivos as pontuações foram apenas ligeiramente positivas, e é patente uma visão da Estatística como uma matéria difícil com pontuações menos positivas. Além disso, os alunos já licenciados apresentaram atitudes mais positivas em relação à Estatística no que diz respeito aos seus sentimentos, à sua autoperceção das suas capacidades estatísticas e também à valorização da Estatística. No entanto, para um nível de confiança de 95% não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas em relação à perceção da dificuldade da Estatística, entre os licenciados e os não licenciados, facto que os autores consideram poder pôr em causa o desenvolvimento do raciocínio crítico e a capacidade de aprendizagem autónoma, como é preconizado pelos Descritores de Dublin115. Finalmente, os autores desta investigação destacam que a componente cognitiva e a componente de valorização são aquelas que, entre os alunos inquiridos, mais contribuem para explicar a variabilidade das atitudes em relação à Estatística. Nas suas conclusões também julgam obrigatório que os 115 No âmbito do processo de Bolonha, os descriptores de Dublin são as diretrizes gerais para as competências dos graduados, independentes da especialização e diferenciadas por ciclos, que são constituídos por cinco elementos: conhecimento e compreensão; aplicação do conhecimento e da compreensão; estabelecimento de juízos críticos e de decisões; competências de comunicação; competências de aprendizagem (Nascimento e Martins, 2008) 165 Atitudes professores promovam formas mais eficazes e eficientes de ensinar Estatística, tendo por base uma abordagem mais conceptual que leve os seus alunos a aprender fazendo, por exemplo, através da realização de projetos, o que será mais fácil de conseguir se os próprios professores tiverem uma atitude positiva em relação à Estatística. O estudo de Nascimento, Martins e Estrada (2012) envolveu 341 alunos de licenciaturas de Ensino Básico, de Engenharia, de Economia e Gestão e de Enologia de uma universidade do norte de Portugal. Os alunos referidos responderam aos itens apresentados na tradução portuguesa validada da EAEE (Estrada, 2002), em setembro e outubro de 2011, e foi obtido um alfa de Cronbach de 0,82 que corresponde a um bom nível de consistência interna. Dos resultados obtidos destaca-se que os alunos assumem como fundamental o ensino da Estatística para todos, percecionando a utilidade da Estatística, mesmo em áreas que não as da ciência. Por outro lado, ficou patente a desconfiança dos alunos em relação aos dados e tratamentos estatísticos, uma atitude negativa ou de quase neutralidade em termos de ação por meio do uso da estatística e a admissão de dificuldades na aprendizagem da estatística o que não os leva a ajudar os colegas. Além disso, as atitudes dos alunos apresentaram, de uma forma geral, uma ligeira tendência para a positividade, em que as médias obtidas para a pontuação total e para as diferentes componentes apresentaram pontuações superiores aos valores do ponto intermédio (correspondente à neutralidade, 69), e com baixa dispersão nas respostas. As estatísticas das componentes e da pontuação total para os grupos, Educação Básica, Engenharias, Enologia e Economia e Gestão, não apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre eles. Em jeito de conclusão Nascimento, Martins e Estrada (2012, p. 1691) indicam que “os benefícios associados, às atitudes positivas, trarão como consequência alunos mais motivados por uma educação verdadeiramente global da Estatística, destinada a formar a pessoa, tanto no âmbito individual, como social e ajudar-nosá a desencadear o processo de inovação educativa que se reclama necessário para a sociedade atual”. Brasil Apesar das diferenças em termos culturais e de sistemas educativos entre Brasil e Portugal, pela proximidade da língua também se impõe aqui um destaque aos estudos realizados no Brasil no âmbito das atitudes em relação à Estatística. Assim, em português, para além do estudo de Carzola et al. (1999) mencionado no ponto anterior, foram realizados 166 Atitudes no Brasil vários trabalhos na área das atitudes em relação à Matemática e à Estatística, tendo Aparício (2006) e Ardiles (2007) feito uma revisão dos mesmos. De seguida apresentam-se alguns desses trabalhos que se centraram nas atitudes em relação à Estatística. Ainda em relação ao estudo de Cazorla et al. (1999), que já foi referido no âmbito da criação e aplicação da escala EAEC, em termos dos resultados obtidos as atitudes nas duas universidades diferiram significativamente em termos estatísticos, e as atitudes foram mais positivas na universidade do interior. As investigadoras brasileiras ainda indicam que aquele resultado pode ser explicado pela composição da amostra. Em relação ao género não houve diferença significativa, o que era coincidente com o estudo de Waters, Martelli, Zakrajsek e Popovich (1989), usando a SAS com 237 alunos de licenciatura, mas contrária ao estudo de Roberts e Saxe (1982), utilizando a escala SAS com 132 alunos, em que os rapazes apresentaram atitudes mais positivas que as raparigas. Por área de conhecimento houve diferença significativa, mostrando para os alunos da área de Humanidades atitudes significativamente mais negativas do que as atitudes dos alunos das áreas de Saúde e de Ciências, que, por sua vez, não apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre elas. Em termos da relação entre as atitudes e a autoperceção de desempenho ficou patente que quanto melhor o aluno percebe seu desempenho em Estatística, mais as suas atitudes tendem a ser positivas e vice-versa. No estudo de Silva, Cazorla e Brito (1999) procurou-se verificar as atitudes em relação à Estatística através da EAEC aplicada a 62 alunos do Programa de Iniciação Científica, das áreas de ciências exatas, humanas, saúde e comunicação e artes, numa universidade particular brasileira. Segundo estas autoras a análise dos dados obtidos mostrou que, independentemente da atitude, todos os alunos consideraram a Estatística uma ferramenta importante e confiável, o que está em sintonia com a própria definição de atitude que pressupõe aspetos não só afetivos, mas também, por exemplo, cognitivos. Outro resultado obtido foi o de haver uma diferença significativa entre os géneros, com os alunos tendencialmente a apresentarem atitudes mais positivas que as alunas. Deste modo não foi coincidente com o resultado de Cazorla et al. (1999), em que não houve diferença estatisticamente significativa em relação ao género. Além disso, os alunos da área de ciências exatas apresentaram tendencialmente atitudes em relação à Estatística mais positivas que os alunos das restantes áreas, resultado semelhante ao obtido por Feijoo (1991), de acordo com Silva, Cazorla e Brito (1999). Também parece ter havido uma ligeira superioridade da média das atitudes dos alunos que tiveram antes alguma, ou algumas, disciplinas de Estatística, em relação aos que não tiveram 167 Atitudes antes qualquer destas disciplinas de Estatística. Da mesma forma, os alunos que já tinham usado Estatística apresentaram atitudes mais positivas que os que nunca a tinham usado. Finalmente, foi encontrada uma relação entra a atitude e a autoperceção do desempenho em Estatística, bem como com o próprio desempenho, tendo as autoras inferido daí a importância do desempenho na formação e estabilidade das atitudes. O estudo de Silva (2000) abrangeu 643 alunos de licenciatura das áreas de Ciências Humanas, Exatas e Biológicas, inscritos na disciplina de Estatística numa universidade privada de S. Paulo. Foram usadas a escala de atitudes em relação à Matemática adaptada por Brito e a escala de atitudes em relação à Estatística adaptada por Cazorla e colegas, já referidas. O objetivo deste estudo foi o de verificar e comparar as atitudes desses alunos em relação à Estatística e compará-las com o desempenho na disciplina, com a autoperceção do desempenho em Estatística e Matemática e com as atitudes em relação à Matemática. Os resultados obtidos indicaram que 53% dos alunos apresentaram atitudes positivas em relação à Estatística e estas atitudes estavam relacionadas com o reconhecimento da importância e utilidade da Estatística e da inclusão, na definição do termo Estatística, de algum atributo relevante do conceito. Os alunos que apresentaram atitudes negativas, críticas em relação à Estatística e que apresentaram, na definição do termo estatística, algum conceito da Matemática, foram os do curso de Humanidades. Os resultados também evidenciaram que as variáveis mais significativas na determinação das atitudes em relação à Estatística foram as atitudes em relação à Matemática, autoperceção do desempenho em Matemática, autoperceção do desempenho em Estatística e o desempenho na disciplina. Em Silva, Brito, Cazorla e Vendramini (2002) são apresentados resultados idênticos, desta vez apenas para os 330 alunos de uma universidade privada. Estas autoras concluíram que as atitudes são fundamentais na aprendizagem da Estatística e que a compreensão dos conceitos estatísticos, bem como a experiência agradável de aprendizagem, por exemplo, através de estratégias estimulantes e desafiantes, são importantes para o desenvolvimento de atitudes positivas em relação à Estatística. Vendramini (2000) realizou um estudo com alunos de uma universidade privada de S. Paulo, cujo objetivo foi verificar as relações entre as atitudes em relação à Estatística, competência matemática e a aprendizagem dos conceitos estatísticos, tendo sido feita também uma avaliação com base neste estudo em Vendramini e Brito (2001). Foi utilizada a escala de atitudes em relação à Estatística adaptada por Cazorla et al. (1999), EAEC, bem como um teste de Estatística e um teste de Matemática, tendo sido obtidos 319 casos válidos. A 168 Atitudes consistência interna apresentou valores do alfa de Cronbach geral de 0,9282, e entre 0,8956 e 0,9514 para os grupos das várias variáveis independentes consideradas. Não foram encontradas diferenças significativas entre as atitudes em relação à Estatística e o facto de os alunos conseguirem, ou não, identificar características da definição de Estatística. A maioria destes alunos considerou a Estatística útil, e que a percentagem de alunos com atitudes positivas que citaram pelo menos uma utilidade da estatística, foi significativamente superior do que no caso dos alunos com atitudes negativas. Além disso, verificou-se uma associação positiva e significativa para as variáveis desempenho em Estatística, atitude em relação à Matemática, o desempenho no teste de Estatística e no de Matemática. Constatou-se ainda que quanto mais positivas eram as atitudes dos alunos em relação à Matemática e ao desempenho na resolução de problemas matemáticos, melhor era o desempenho desses alunos em Estatística. Outro estudo centrado no estudo das atitudes foi o de Quintino, Guedes e Martins (2001) que avaliou as atitudes de 98 alunos de Iniciação Científica da Universidade Estadual de Maringá, tendo também usado a EAEC e conseguido 84 questionários válidos para análise. Em termos dos resultados, estes investigadores obtiveram por parte dos alunos uma atitude geral positiva, com média global de 56,17 pontos, e a escala apresentou uma elevada consistência interna, com um alfa de Cronbach de 0,937. Além disso, não encontraram diferenças significativas em termos estatísticos nas médias das pontuações nem entre as áreas (Sociais e Humanas; Ciências, Biológicas e da Saúde; e Exatas e Tecnológicas) nem entre os géneros, mas obtiveram diferenças significativas em termos estatísticos para a autoavaliação do desempenho. No âmbito da sua tese de doutoramento, Gonçalez (2002) realizou um estudo com 1096 alunos universitários do curso de pedagogia da Universidade Estadual de Campinas. O objetivo deste trabalho foi o de verificar as atitudes em relação à Estatística, o desempenho e a utilização do computador como mais um elemento facilitador da aprendizagem. Para tal, este investigador usou no âmbito das atitudes em relação à Estatística a escala EAEC, tendo obtido uma elevada consistência interna geral, com um alfa de Cronbach de 0,9651, considerado pelo autor como um valor aceitável para o tipo de análise do estudo. Nos resultados ficou patente que a maioria dos alunos opta pelo curso de Pedagogia por vocação, e que 48% apresentaram atitudes menos favoráveis em relação à Estatística. Estes alunos com atitudes negativas em relação à Estatística revelaram que iniciaram o curso com poucos conhecimentos sobre os conceitos básicos de Matemática e que ao longo da licenciatura foram revelando atitudes mais 169 Atitudes favoráveis em relação à Estatística. Estes alunos também indicaram que o uso do computador facilitou a aprendizagem. Por outro lado, este investigador realça a importância da intervenção do professor na transmissão de atitudes positivas aos alunos, indicando que a possibilidade do aluno alterar a sua atitude negativa em relação à Estatística implica também uma ação adequada por parte do professor. A investigação de Moraes e Benvenutti (2007) abrangeu 360 dos 1967 alunos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul que, em 2006, estavam matriculados na disciplina de Estatística nas áreas de Ciências Humanas, Ciências Exatas, Ciências da Saúde e de Administração. A escala usada foi a EAEC, tendo-se obtido um alfa de Cronbach de 0,9521, indicando uma consistência interna elevada. As pontuações globais ficaram compreendidas entre 20 e 80, com média de 47,91 e desvio padrão (DP) 11,2 e 50,8% dos alunos revelaram atitudes negativas em relação à Estatística. Neste estudo as atitudes dos alunos foram independentes do género e os alunos da área das Ciências Exatas foram os que apresentaram atitudes em relação à Estatística mais favoráveis. Constatou-se também neste estudo que, quanto mais elevada fosse a autoperceção do desempenho dos alunos na disciplina, mais positivas eram as suas atitudes. Além disso, observou-se que a maioria dos alunos que já tinham alguma vez reprovado, anulado ou desistido da disciplina de Estatística apresentou atitudes negativas, e que a maioria dos alunos que não indicaram conhecer a aplicabilidade da Estatística aos problemas do mundo real ainda evidenciaram atitudes negativas. Pelo contrário, os que referiram a elevada aplicabilidade da Estatística na sua maioria revelou atitudes positivas. Estes autores, perante os resultados obtidos, indicam que, para tornar mais positivas as atitudes dos alunos em relação à Estatística e melhorar a utilização dos seus conhecimentos de Estatística nas futuras profissões e na vida, se deveria dar maior ênfase ao papel da Estatística, mostrar a sua aplicabilidade e contextualizar o seu ensino. Espanha Como referido, e apesar das diferenças, pela relativa proximidade cultural e de sistemas educativos entre Espanha e Portugal, optou-se aqui por destacar alguns dos estudos realizados em Espanha no âmbito das atitudes em relação à Estatística. Assim, Blanco (2008) refere o trabalho de Gil Flores (1999), em que este aplicou a escala de Wise (ATS) a uma amostra de 654 alunos da área de pedagogia, tendo obtido um 170 Atitudes coeficiente de consistência interna de 0,90, mas não verificou a usual estrutura bifatorial desta escala, pois foram identificados cinco fatores: ansiedade face à Estatística, interesse pelo próprio campo de estudo, interesse geral, valor para a investigação e utilidade da Estatística. As atitudes consideradas de forma global foram, neste caso, moderadamente positivas. As dimensões mais robustas foram a utilidade da Estatística e o interesse da mesma em relação ao próprio campo de estudo, enquanto as mais negativas foram relativas à ansiedade face à Estatística e o interesse geral da mesma. Neste estudo não foram encontradas diferenças significativas entre homens e mulheres, nem na pontuação global, nem nas várias dimensões encontradas. No entanto, os alunos da área de ciências apresentaram pontuações mais altas que os provenientes da área das letras, significativas em termos estatísticos. No estudo de Cuesta, Rifá e Herrero (2001), como menciona Blanco (2008), foi aplicada a SAS a alunos de Psicologia, tendo sido obtido um alfa de Cronbach de 0,90 e estabelecida uma estrutura bifatorial, coincidente com a estrutura usualmente aceite para esta escala. A pontuação global média foi ligeiramente mais baixa que a obtida nos trabalhos originais com alunos nos Estados Unidos da América. Também neste estudo, e como no de Gil Flores (1999), a área de estudos no ensino secundário teve influência nas atitudes e revelou-se estatisticamente significativa. Neste estudo não se detetaram diferenças nas atitudes durante a frequência da disciplina de Estatística e as manifestadas algum tempo depois. Estrada (2002), para além da escala EAEE aplicada a alunos futuros professores e a professores em exercício (essa parte do estudo será abordada adiante no ponto 2.2.6), aplicou uma versão da escala SATS traduzida para espanhol a 367 alunos na formação inicial de professores, nas áreas de Educação Física, Educação Musical, Educação Infantil, Educação Primária, Educação Especial e Línguas Estrangeiras. Este estudo, como se constata também em Estrada, Batanero e Fortuny (2004b), Estrada, Batanero, Fortuny e Díaz (2005), Estrada (2007), Estrada e Batanero (2008), Estrada (2009a) e Estrada, Batanero e Lancaster (2011), apresentou como resultados atitudes em relação à Estatística neutras com uma ligeira tendência para a positividade em que a componente cognitiva aparece como fator mais valorizado. Os futuros professores consideraram ter bastante capacidade para aprender Estatística, apesar de não lhe atribuírem um valor muito elevado, de não gostarem muito da Estatística e de não a verem como muito fácil. Pela análise de covariância só o número de anos de estudo teve um efeito estatisticamente significativo na pontuação média e verificou-se uma mudança de atitude favorável à medida que aumenta a formação em Estatística, facto que 171 Atitudes pode ser um indicador para a necessidade de um maior reforço na formação dos futuros professores. De igual forma, não foi detetada uma influência significativa, nem no género, nem na especialidade, nem nas pontuações totais, nem nos itens isolados. Contudo, surge uma ligeira diferença das pontuações médias entre homens e mulheres, sendo estas últimas a apresentar atitudes mais negativas, como obtido no trabalho de Cazorla et al. (1999). Numa outra faceta do estudo as pontuações da atitude e das suas componentes apresentaram correlações estatisticamente significativas e positivas com os conhecimentos estatísticos básicos, apesar de com uma intensidade moderada. Este facto sugere que a melhoria dos conhecimentos dos professores em formação pode ser um meio de incidir nas suas atitudes com impacto positivo. A autora desta investigação em Espanha considera, ainda, que ao nível da Estatística o tipo de ensino recebido e a perceção do seu valor formativo são argumentos fundamentais na base das atitudes apresentadas, pelo que, para além do reforço do ensino da Estatística destes futuros professores, sugere também a melhoria da metodologia desse ensino, assim como aumentar os seus conhecimentos ao nível das aplicações nesta área. Neste estudo foi também obtido um elevado nível de consistência interna, com um alfa de Cronbach de 0,89. No entanto, os resultados obtidos através de análise cluster das variáveis e da análise fatorial exploratória não são totalmente consistentes com a estrutura interna do SATS de quatro componentes, ficando patente a componente de valor atribuído à Estatística e a componente mista que reúne as dimensões cognitiva e afetiva. Esta inconsistência, apesar de se afastar da tendência indicada por Schau na SATS-36, foi também constatada por Carmona (2004) e, mais recentemente, por Cashin e Elmore (2005), num estudo com 342 alunos de licenciatura ou pós-graduação de uma universidade norte-americana, em que se obteve um alfa de Cronbach superior a 0,9, e em que os resultados sugeriram apenas dois domínios. O estudo de Huedo et al. (2003) foi realizado com 240 alunos de licenciaturas de magistério da Universidade de Múrcia, das especialidades de Primária, Infantil, Educação Física e Línguas Estrangeiras (Francês e Inglês). Neste estudo foram distribuídos questionários de atitude em relação à Matemática e à Estatística, bem como uma prova de conhecimentos estatísticos e um teste de inteligência fator “g”. A escala usada para medir as atitudes face à Estatística foi a SATS. Dos resultados obtidos destacam-se os factos de que houve uma maior predisposição, assim como uma melhor atitude em relação à Estatística do que em relação à Matemática. Além disso, só na atitude em relação à Estatística é que os homens não obtiveram melhores resultados que as mulheres e que o fator inteligência influenciou as atitudes, tanto em relação à Estatística como à Matemática. Estas duas atitudes 172 Atitudes aparecem correlacionadas com o mais alto valor das correlações obtidas (0,702), a prova de conhecimentos estatísticos e a atitude em relação à Estatística apresentaram o mais baixo valor de correlação (-0,002). O valor da média global para as atitudes em relação à Estatística foi mais positivo que o obtido por Estrada (2002), respetivamente com valores de 93,42 e de 88,76. Outros países Em Carmona (2004) e Blanco (2008), na investigação das atitudes em relação à Estatística por parte dos alunos, são referidos vários trabalhos usando a ATS ou a SATS para destacar a forma consistente com que surgem correlacionadas positivamente as atitudes em relação à Estatística e o rendimento dos alunos na Estatística, embora com uma magnitude média-baixa. Nesta relação foram propostas várias variáveis moderadoras e a que se destacou mais foi a do tempo percorrido entre a aplicação do questionário e a realização do teste da disciplina, isto é, quanto maior for este tempo, menor é a correlação obtida. Estes autores ainda indicam vários estudos em que as atitudes em relação à Estatística fazem parte de um leque bastante variado de modelos multivariados para prever o rendimento dos alunos, apesar dos seus resultados não permitirem tirar conclusões definitivas acerca do papel desempenhado pelas atitudes. Apesar disso, uma característica comum em muitos destes estudos é a de que a importância da formação matemática e estatística na previsão do rendimento parece ser maior que a atitude dos alunos. No entanto, há vários estudos em que as atitudes têm efeitos significativos em termos estatísticos sobre o rendimento, ainda que haja outras investigações em que tal não acontece. Ainda segundo estes autores, existem outros estudos que tentam verificar a relação entre atitudes em relação à Estatística e várias variáveis pessoais dos alunos, a sua formação e experiências prévias, bem como diferentes formas de autoperceção relacionada com a capacidade e desempenho académico. Nos vários estudos, tanto ao nível do género, como da idade, existem resultados contraditórios nas várias escalas, com alguns casos em que foram obtidas diferenças significativas em termos estatísticos e noutros em que não. Em termos do género, na maior parte dos casos abordados com diferenças significativas em termos estatísticos, as mulheres têm atitudes face à estatística mais negativas que os homens. No que diz respeito à experiência formativa prévia, Carmona (2004) relata que os resultados de várias investigações confirmam a hipótese de que quanto maior for a 173 Atitudes experiência formativa em Matemática ou Estatística mais positiva é a atitude dos alunos. Entre outros aspetos dessa experiência contam-se o número de disciplinas ou o melhor aproveitamento nas mesmas, em particular através das notas ou dos conhecimentos. Os resultados são mais evidentes no caso de a relação ser estabelecida com as notas ou com os conhecimentos do que com o número de disciplinas. No que se refere aos pensamentos sobre as próprias capacidades, em especial as capacidades relacionadas com a Matemática e a Estatística, Carmona (2004) indica que alguns dos trabalhos sugerem que esses conhecimentos condicionam as atitudes dos alunos em relação a essas matérias, tendo os resultados dessas investigações mostrado correlações moderadas ou até mesmo altas entre ambos os tipos de variável. Na mesma linha, Estrada (2009b) também apresenta uma série de estudos que procuraram relacionar as atitudes com diferentes variáveis externas, nomeadamente: o género, nos trabalhos de Harvey, Plake e Wise (1985), e Anastasiadou (2005); o rendimento académico, nos trabalhos de Harvey, Plake e Wise (1985), de Robert e Reese (1987) e de Nasser (2004); a experiência formativa em Matemática e Estatística, nos trabalhos de Elmore e Vasu (1980 e 1986), de Auzmendi (1992) e de Mastracci (2000); o tipo de curso ou área de estudo, nos trabalhos de Silva, Cazorla e Brito (1999), de Gil Flores (1999) e de Cuesta et al. (2001). Assim, para concretizar o que foi mencionado, apresentar-se-ão alguns destes estudos. Estrada (2001) refere que, no sentido de comparar as escalas SAS e ATS, os investigadores Roberts e Reese (1987) realizaram um estudo nos Estados Unidos da América que envolveu 280 alunos no início de uma disciplina de introdução à Estatística. Os resultados obtidos nesse estudo mostraram que as duas escalas não diferem muito nos seus valores e correlacionam, no mesmo sentido, com as mesmas variáveis externas, como por exemplo o sexo, a idade ou o número de disciplinas de Matemática e Estatística já realizados. Assim, aqueles autores concluíram que as escalas SAS e ATS não são significativamente diferentes, considerando a segunda como uma variação da primeira, como o considera Estrada (2001). Esta última autora refere também um estudo semelhante, realizado por Waters e Martelli (1988) na Ohio University, em que se chegam a conclusões idênticas ao do estudo de Roberts e Reese (1987), e em que, para Estrada (2001, p. 379), estes investigadores consideram que: “las actitudes de los estudiantes sobre los cursos de Estadística especialmente si son de iniciación, son a menudo el principal obstáculo para un aprendizaje efectivo por 174 Atitudes ello el seguimiento y la valoración de las actitudes y de sus posibles cambios permitirán al profesor controlar mejor el proceso de enseñanza-aprendizaje”. Em particular, este estudo para além de constatar que as escalas SAS e ATS estão altamente relacionadas e que são medidas fiáveis do constructo, mostrou uma relação fraca com o género e com o número de anos de estudo ou nível de estudos, mas foi encontrada uma certa relação com a nota e com a existência de uma evolução positiva do início para o fim da disciplina. Na investigação de Nasser (2004) foi estudado até que ponto a ansiedade e as atitudes em relação à Estatística e à Matemática, a motivação e a aptidão matemática conseguem explicar o rendimento numa disciplina introdutória de Estatística por parte de futuros professores. A amostra abrangeu 162 alunos envolvidos num curso de formação de professores em Israel para o equivalente ao ensino básico em Portugal. Foi usada uma versão em árabe da escala SATS com apenas 24 itens e os coeficientes de consistência interna para os fatores considerados variaram entre os valores de 0,65 e 0,80 para o alfa de Cronbach. Em relação aos resultados obtidos, apenas o efeito da aptidão matemática no rendimento em Estatística foi significativo em termos estatísticos. No entanto, foi encontrado, apesar de modesto, um efeito positivo da motivação nas atitudes, tanto em relação à Matemática como à Estatística, em concordância com resultados de Auzmendi (1992). Os resultados indicaram também que a aptidão Matemática, a ansiedade em relação à Matemática, as atitudes em relação à Matemática e à Estatística e a motivação explicam, em conjunto, 36% da variância do rendimento na disciplina introdutória de Estatística para a amostra usada. Também Anastasiadou (2005) utilizou a escala SATS complementada por mais 10 itens de caracterização dos 142 respondentes que eram alunos do último ano do ensino secundário grego. Neste estudo, e de forma diferenciada à restante literatura sobre atitudes em relação à Estatística, foi realizada a análise implicativa de Gras, usando árvores de similitude e hierárquicas, bem como diagramas de implicação. Como resultados foram encontrados três grupos distintos de alunos. Um primeiro grupo de alunos que encaram negativamente a disciplina, não a valorizando e considerando-a inútil, tanto na vida pessoal, como na profissional. Este grupo apresenta uma baixa autoestima em relação às suas capacidades de aprendizagem, pelo que a autora considerou haver nas suas atitudes uma forte relação entre as componentes da competência cognitiva e a do afeto. Um segundo grupo é o dos alunos que consideram necessário mudar a sua forma de pensar para poderem utilizar a Estatística, e esta 175 Atitudes sua forma de pensar será o maior obstáculo para entender a Estatística, bem como a fonte da ansiedade em relação à mesma, ainda a considerando como uma matéria de muito cálculo. Para os alunos deste grupo as suas atitudes em relação à Estatística parecem ser determinadas pela relação entre as componentes da competência cognitiva, do afeto e da dificuldade. O terceiro grupo de alunos é formado pelos que percecionam a Estatística de uma maneira positiva, reconhecendo a importância e utilidade do seu ensino e considerando que será uma competência importante no campo profissional. Neste último grupo os jovens apresentavam confiança nas suas capacidades de aprendizagem e as suas atitudes surgem caracterizadas pela relação entre as componentes do valor e do afeto. Usando ainda a escala SATS, Tsao (2006) apresenta um estudo onde foi analisado o efeito da abordagem no processo de ensino-aprendizagem do método baseado no construtivismo nas atitudes em relação à Estatística dos alunos. Esta investigação abrangeu até ao fim 80 alunos de uma disciplina introdutória de Estatística numa universidade dos Estados Unidos e apresentou como resultados uma diferença estatisticamente significativa entre as pontuações médias no pré-teste e no pós-teste, tanto a nível global, como a nível das quatro dimensões da escala. Desta forma este investigador conclui que estes alunos mostraram que o uso do método construtivista – envolvendo um ambiente de ensino ativo nas aulas de Estatística introdutória – pode incrementar a positividade das atitudes dos alunos em relação à Estatística. Desta forma poderá ser bastante útil no processo de aprendizagem da Estatística, uma vez que, baseado em Ma e Kishor (1997), considera que poderá ser aplicável à Estatística a relação positiva, ainda que fraca, entre as atitudes em relação à Matemática e o respetivo rendimento escolar. Este método poderá porventura modificar a situação, pois muitos dos alunos já trazem atitudes negativas em relação à Estatística, e, consequentemente, melhorar as suas aprendizagens e aumentar o seu rendimento escolar corresponderá a tornálas mais positivas. Para estudar a relação entre as atitudes em relação à Estatística e os resultados dos exames em termos de curto e longo prazo, Vanhoof, Castro, Onghena e Verschaffel (2006) realizaram um estudo longitudinal de início com 264 alunos do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Católica da Lovaina, na Bélgica, que frequentavam uma disciplina introdutória de Estatística. Estes autores usaram nesta investigação a escala ATS e, na primeira aplicação da escala (pré-teste), verificaram que as atitudes em relação à disciplina estavam relacionadas com os resultados dos exames, sendo esta relação mais forte na segunda administração da escala (pós-teste). Este facto sugere que, depois de fazerem a disciplina de 176 Atitudes Estatística, as atitudes dos alunos são mais fortemente relacionadas com os resultados dos exames. Além disso, os resultados obtidos por estes investigadores mostraram que a autoconfiança em relação à disciplina desempenha um papel importante no domínio disciplina para a escala usada, apresentando, ainda ao nível dos exames no pré-teste, melhores resultados no domínio da previsão (prediction) do que no domínio da área de formação. Neste trabalho invertem-se os papéis dos domínios no caso dos exames no pós-teste. Os seus resultados também revelam a importância dos professores, ao ensinarem Estatística, mostrarem a relevância da Estatística e da sua metodologia na formação dos seus alunos. Por fim, concluíram que a relação estatisticamente significativa entre atitudes face à Estatística e o rendimento escolar se restringiu à área da Estatística. Usando a aplicação da SATS surge o estudo de Chiesi e Primi (2009) em que participaram 487 alunos universitários de Psicologia de uma universidade italiana, 232 deles participaram tanto no pré-teste (447) como no pós-teste (300) com aquela escala. Este trabalho mostrou a validade e a fiabilidade da mesma no contexto cultural e académico italiano. Em termos de consistência interna o alfa de Cronbach, no pré-teste e pós-teste, foram, respetivamente, 0,73 e 0,81 para a componente afetiva, 0,76 e 0,75 para a componente competência cognitiva, 0,75 e 0,82 para a componente valor e 0,61 e 0,60 para a componente dificuldade. Foi também encontrada evidência de validade convergente face à forte correlação entre a SATS e a ATS. Entre outros resultados obtidos no estudo destas duas investigadoras, salienta-se uma forte correlação entre afeto e competência cognitiva, além de que o valor e a dificuldade apresentam uma relação significativa em termos estatísticos. Apresentam, também, a SATS como invariante em termos dos fatores na aplicação da mesma ao longo do tempo. Além disso, indicam que nos alunos, depois de terem assistido às aulas, tanto as atitudes positivas, como as negativas em relação à Estatística ficam mais relacionadas com a perceção da sua dificuldade. As atitudes dos alunos inquiridos parecem ser indicativas do desempenho ou rendimento escolar final, sendo as atitudes ao terminar a disciplina melhores previsões para o rendimento escolar. Os alunos parecem ter ficado, depois de frequentarem a disciplina, mais confiantes no seu conhecimento e competências, com uma menor perceção da dificuldade de Estatística e uma mudança ligeiramente positiva na opinião sobre o valor da Estatística na vida pessoal e profissional, assim como nos sentimentos em relação à Estatística. Mais recentemente, no estudo de Santillán, García, Castro, Abdala e Trejo (2012) realizado em universidades públicas e privadas mexicanas, envolvendo 116 alunos das áreas 177 Atitudes de economia-administração e de engenharia, e utilizando como instrumento o SATS, obtiveram-se como principais resultados que a utilidade e a ansiedade foram as componentes mais significativas na medida da perceção dos alunos em relação à Estatística e que se podia inferir que a atitude se pode medir baseada nas componentes cognitiva, afetiva e comportamental. Ramirez, Schau e Emmioglu (2012) referem que as investigações de Tempelaar e Nijhuise (2007), de Tempelaar, van der Loeff e Gijselaers (2007), de Carnell (2008), de Chiesi e Primi (2009), de Verhoeven (2009), de Bechrakisa, Gialamasb e Barkatsas (2011) e de Emmioglu (2011) usaram a SATS-36. No entanto, optou-se por se destacar a de Tempelaar, van der Loeff e Gijselaers (2007), por ser, segundo os autores, o primeiro a aplicar a SATS-36, tendo-o feito com uma amostra de 1618 alunos dos cursos International Business e International Economics da Universidade de Maastricht. O objetivo era o de investigar a relação entre atitudes e as capacidades de raciocínio estatístico através da estimação de um modelo de equações estruturais completo. Os resultados apresentaram níveis de consistência interna razoáveis, em linha com os obtidos por Schau (2003), e com valores para o alfa de Cronbach para as várias componentes a variarem entre o 0,68 e 0,82. A nova componente, esforço, apresentou um valor de pontuação média bastante elevado, 6,37 na escala de 1 a 7. Além disso, estes autores consideram que as novas componentes desta escala a vieram valorizar, indicando que foram fatores bem identificados, apesar da análise de correlações sugerir que esta componente do esforço pode ser composta por duas características diferentes, a motivação para o desempenho, bem como a aprendizagem. Do mesmo modo constatou-se, corroborando os resultados de outros estudos116, que não existiu uma relação forte entre as capacidades de raciocínio e os resultados na disciplina. Vanhoof, Kuppens, Castro, Verschaffel e Onghena (2011) realizaram outro estudo com a SATS-36, numa versão em flamengo, em que se analisou, pela primeira vez, o funcionamento dos itens de forma individualizada. Neste estudo a SATS-36 foi aplicada a uma amostra de 514 alunos de Ciências de Educação e de Terapia da Fala e Audiologia de uma universidade belga. Pelos resultados obtidos também concluem que não se pode indicar de forma absoluta que a estrutura de seis componentes do STATS-36 não seja adequada, como indicam Tempelaar, van der Loeff e Gijselaers (2007). De igual forma, e como Cashin e Elmore (2005), ainda concluem que uma estrutura de quatro componentes, em que se unem as componentes afeto, competência cognitiva e dificuldade, também pode ser considerada uma 116 Tempelaar, van der Loeff e Gijselaers (2007) referem Garfield (1998b; 2003), Garfield e Chance (2000) e Liu (1998) 178 Atitudes estrutura adequada. Em termos comparativos entre os dois modelos, apesar do modelo de seis componentes ter demonstrado um melhor ajustamento, as diferenças foram muito pequenas. Neste quadro, em que, dependendo dos objetivos e das condições de aplicação dos estudos, os dois modelos poderão ser adequados, cabem ainda alguns ajustes em termos dos itens, sendo inclusive sugerido, como seu aperfeiçoamento, a eliminação de quatro itens. Um estudo recente, que também merece algum destaque na sequência desta revisão, é o de Griffith, Adams, Gu, Hart e Nichols-Whitehead (2012) que utiliza uma metodologia mista117. Griffith e seus colegas aplicaram o seu estudo a uma amostra de 684 alunos dos últimos anos de Gestão, Justiça Criminal e Psicologia de uma universidade norte americana, tendo questionado de forma dicotómica se a atitude em relação à Estatística é positiva ou negativa e qual a razão para tal. Dos alunos inquiridos, 63% indicaram ter uma atitude positiva em relação à Estatística. Com base na análise quantitativa realizada, estes autores referem que os resultados indicam que há uma relação entre o curso e a atitude geral em relação à Estatística, e que os alunos do curso de Gestão apresentaram atitudes mais positivas que os do curso de Justiça Criminal, também parecendo haver uma tendência para que o mesmo aconteça entre os do curso de Gestão e os do curso de Psicologia. Além disso, e como resultado da análise qualitativa, foram definidas cinco categorias, tanto para as atitudes positivas, como para as negativas. Para as atitudes positivas as categorias encontradas foram a utilização na futura profissão, a necessidade para terminar o curso, a disciplina como sendo um desafio, o gosto pela Matemática e o professor. Para as atitudes negativas as categorias encontradas foram a não utilização na futura profissão, a não relação com o curso, a dificuldade da disciplina, o não gostar da Matemática e o professor. Destas categorias, tanto para as atitudes positivas, como para as negativas, e relativamente às componentes da SATS, os autores associam as duas primeiras à componente valor, a terceira à componente dificuldade e a quarta à competência cognitiva. De salientar que não foram encontradas categorias equivalentes às dimensões afeto, interesse e esforço, sendo estas duas últimas as duas acrescentadas quando se passou da SATS-28 para a SATS-36. Por outro lado, não foi associada nenhuma dimensão para a categoria professor, nem nas atitudes positivas, nem nas negativas, tendo os autores considerado que “the instructor certainly has the potential to influence student attitudes based on the aproach” (Griffith et al., 2012, p. 53) e aventado a 117 Metodologia mista é o tipo de metodologia de investigação em que se combinam elementos de abordagem qualitativa e quantitativa com o objetivo de aclarar e aprofundar a compreensão e a verificação de determinada situação de investigação (Johnson, Onwuegbuzie & Turner, 2007) 179 Atitudes hipótese de que esta dimensão do professor possa ser diferente do estilo de ensinar, representando possivelmente a perceção do aluno em relação à atitude do professor. Com este resumo sobre estudos de atitudes em relação à Estatística nos alunos (Tabela 2.2) pretendeu-se transmitir uma ideia geral dos resultados obtidos e da sua comparação, bem como da aplicação das principais escalas de atitudes apresentadas. Fica patente que as escalas em língua inglesa SAS, ATS e SATS são as que têm maior projeção e utilização internacional, com destaque para a SATS nos trabalhos mais recentes. No Brasil os estudos centram-se na escala EAEC e em Portugal constata-se que a investigação neste âmbito ainda está a dar os primeiros passos. Finalmente, nos estudos de Waters e Martelli (1988), referido por Estrada (2001), Estrada (2002), Gonçalez (2002), Vanhoof et al. (2006), Moraes e Benvenutti (2007), Pimenta et al. (2010) e Griffith et al. (2012), e a propósito dos seus resultados com alunos (alguns deles futuros professores) com base nas suas reflexões e conclusões, surgem referências explícitas à importância do professor e das suas atitudes em relação à Estatística nos processos de ensino e de aprendizagem desta disciplina, assim como no respetivo rendimento escolar e atitudes. Este facto é também motivador para o estudo do papel do professor a este nível das atitudes em relação à Estatística, tema que se abordará nos pontos seguintes. Tabela 2.2: Estudos de atitudes de alunos em relação à Estatística por países e escalas usadas Escala Países SATS SAS ATS EAEC (com 28 e 36 itens) Pimenta et al. (2010) Portugal Moraes e Benvenutti (2007) Gonçalez (2002) Quintino, Guedes e Martins (2001) Vendramini (2000) Silva (2000) Silva et al. (1999) Cazorla et al. (1999) Brasil Espanha EAEE Nascimento, Martins e Estrada (2012) Cuesta, Rifá e Herrero (2001) Auzmendi (1992) Roberts e Reese (1987) Roberts e Bilderback (1980) Gil Flores (1999) Huedo et al. (2003) Estrada (2002) Estrada (2002)* Vanhoof et al. (2006) Roberts e Reese (1987) Wise (1985) Santillán et al. (2012) Vanhoof et al. (2011) Chiesi e Primi (2008) Tempelaar et al. (2007) Tsao (2006) Anastasiadou (2005) Cashin e Elmore (2005) Nasser (2004)* Schau (2003) Schau et al. (1995) Bazan y Aparicio (2006)* Outros países * Com alunos futuros professores Fonte: Elaborada pelo autor 180 Atitudes 2.2.5. Atitudes e os professores no ensino da Estatística De várias conclusões nos estudos e artigos referidos emerge de forma clara a importância da análise das atitudes em relação à Estatística nos professores e que neste ponto se tentará reforçar. Neste sentido, começa-se por abordar as investigações realizadas em Portugal com professores em exercício mais próximas do campo das atitudes em relação à Matemática que foram investigações sobre conceções dos professores sobre a Matemática e sobre as suas práticas letivas e conhecimento profissional. Assim, no sentido de promover mudança nas práticas de ensino e conscientes do papel chave dos professores nos processos de mudança curricular, para Ponte (1995) e Guimarães (2006) começou em Portugal, na segunda metade dos anos oitenta, uma abordagem da investigação sobre os professores que se focou nas suas conceções, práticas e saberes profissionais. Na base desta linha de investigação estava a investigação de Thompson (1982), alicerçada no conceito de conceção que, em sua opinião, era constituída “pelas crenças, pontos de vista e conceitos dos professores sobre a Matemática e sobre o ensino da Matemática” (Guimarães, 2006, p. 53), ou seja, significados elaborados pelo professor ao longo do tempo e que adquirem alguma estabilidade, constituindo “o património conceptual e o instrumento interpretativo com os quais ele dá sentido às situações com que lida na sua prática lectiva e orientam a sua actuação” (Ibidem, p. 369). Assim, segundo Ponte (1995, p. 3), sob a influência “da ideia de que as crenças e concepções dos professores influenciam de modo decisivo as respetivas práticas pedagógicas”, para além do trabalho de Abrantes (1986), sobre conceções de professores e futuros professores, surge o trabalho de mestrado de Guimarães (1988), numa abordagem qualitativa, que procurou encontrar junto de professores do 3º ciclo e do secundário o que estes entendem por saber Matemática, o como encaram a Matemática e qual o papel do professor e do aluno na educação matemática. Como resultado desse trabalho é destacado o facto de que os professores apresentaram muita dificuldade em exprimir a sua visão da Matemática, caracterizando-a como lógica, exatidão, rigor e estrutura dedutiva, mas, apesar de a considerarem uma ciência com aplicação, não punham em prática essa componente nos processos de ensino e de aprendizagem. A prática da aula era apresentada muito centrada na resolução de exercícios diretos após a exposição inicial, e sendo a interação essencial entre professor e aluno e não entre alunos. Além de que o sucesso da disciplina surge fortemente associado à preparação anterior e talento natural dos alunos, para além de condicionado por 181 Atitudes outros fatores: o insucesso como um processo cumulativo que depois de iniciado será quase irreversível; e o aprender Matemática aparece como ligado às ideias de compreensão e de mecanização, deixando de fora a adequação à aplicação para a resolução de situações concretas. Foi apresentada uma caracterização inicial das conceções predominantes naqueles professores, mostrando como a relação entre estas e as suas práticas letivas é bastante complexa e onde ficou patente “a necessidade de se ter em conta de forma mais profunda a relação entre estes dois aspetos” (Ibidem, p. 4). Como indica Ponte (1995), posteriormente surge a tese de mestrado de Canavarro (1993) em que se investigou a relação entre as conceções e as práticas pedagógicas de três professores de Matemática do ensino secundário, bem como, o trabalho de Oliveira (1993) que aborda as conceções de três professoras de Matemática do 2º ciclo acerca da resolução de problemas e do seu ensino e a sua relação com as práticas pedagógicas. Ambos os trabalhos são estudos de casos qualitativos, e têm em comum os professores mostrarem interesse em aspetos de inovação curricular. No entanto, alguns desses professores mostraram dificuldades em transpor esse interesse para a concretização das suas aulas, sendo invocadas razões como lacunas no saber fazer, a influência do contexto escolar, nomeadamente o cumprimento do programa, a incerteza da reação dos alunos e, até, aspetos da personalidade. Além disso, do referido estudo de Canavarro (1993) transparece que “as práticas de ensino e as atitudes destes professores são essencialmente modeladas pela sua experiência como alunos embora possam sofrer uma significativa influência do contacto com instituições de formação e da participação em projetos inovadores de longa duração” (Ponte, 1995, p. 6). Mais tarde, no trabalho de doutoramento de Guimarães (2006) é retomada a investigação das conceções sobre a Matemática e a atividade matemática, num estudo com professores do ensino superior e do ensino básico e secundário. Guimarães (2006) aponta como os três atributos principais da Matemática, emanados do seu estudo, a beleza matemática, bem como o rigor, a exatidão e o carácter dedutivo da matemática e, ainda, a sua aplicabilidade e a sua relação com a realidade. Além disso, destacou como elementos da atividade matemática a demonstração, cálculo e matematização e, de igual modo, a compreensão e autonomia. Nesta investigação a beleza da Matemática surgiu como atributo da Matemática, mas sem sobressair muito na visão dos professores envolvidos. No entanto, e 182 Atitudes sendo notórias as dificuldades no discurso destes professores sobre este atributo, o reconhecimento daquela beleza foi mais visível nos professores do Ensino Superior, parecendo estar ligado à descoberta precoce pelo gosto da Matemática, bem como à sua estabilidade ou intensificação durante a escolaridade. Rigor, exatidão e o carácter dedutivo são as características da Matemática mais destacadas pelos intervenientes no estudo, o que veio corroborar os resultados de outros estudos, em que também surgiu uma forte associação ao carácter lógico e dedutivo que confere, de forma própria e exclusiva, uma marca diferenciadora em relação às outras ciências. Esta visão das professoras do ensino básico e secundário participantes do estudo é expressa apresentando a Matemática como uma área sem ambiguidades, o que contrasta com a própria natureza da Estatística, que está inserida no currículo da Matemática, e dessa forma pode ser uma fonte de incongruências no desenvolvimento profissional dessas professoras. A ideia de aplicabilidade da Matemática e a sua relação com a realidade surge no estudo claramente como uma das fortes marcas da Matemática. Neste sentido, são realçados o carácter instrumental e universal da Matemática e o carácter de reciprocidade na relação que existe entre a Matemática e as outras ciências e a realidade envolvente. Matematização, demonstração, e cálculo são as modalidades da atividade matemática que se foram revelando de forma destacada no estudo, com matizes diferenciados entre elas para os vários participantes. Em termos da matematização, relacionada com a modelação matemática e ligada à aplicabilidade da Matemática (que é também uma característica essencial e marcante da Estatística), ficou patente que as professoras do ensino básico e secundário do estudo reconheciam a aplicabilidade da Matemática e a sua importância. Contudo, estas professoras não traduziam esse reconhecimento de forma significativa na sua prática letiva, indicando dificuldades nessa concretização e limitando-se, muitas vezes, a utilizar essa aplicabilidade através de concretizações para a motivação e captação da atenção e do interesse dos alunos. Esta situação já tinha sido também identificada em outros estudos e configura a incongruência entre as conceções e as práticas das professoras ou como reflexo de “representações sociais dominantes” (Guimarães, 2006, p. 396, citando Ponte, Matos e Abrantes, 1998, p. 232). Por outro lado, é ainda sinal da existência de conceções conflituosas em que a aplicabilidade da Matemática e a sua integração didática serão menos centrais que outras conceções que realmente prevaleciam na orientação da prática pedagógica daquelas professoras. Guimarães (2006), referindo Rockeach (1976), considera que as conceções, tal como as crenças, não têm todas o mesmo peso psicológico para a pessoa, justificando a situação de incongruência por 183 Atitudes poderem existir, na pessoa, “agrupamentos de crenças mais ou menos isolados que impedem o confronto entre elas e permite a existência de crenças conflituantes (Green, 1971)” (Guimarães, 2006, p. 397). Por outro lado, “a concepção que o professor tem sobre a matemática e o seu ensino constitui um forte condicionador da forma como ele vai ser capaz de organizar e conduzir a actividade matemática dos seus alunos” (Albuquerque, Veloso, Rocha, Santos, Serrazina e Nápoles, 2006, p. 16). Mais, estes autores consideram que para conseguir a alteração destas conceções é fundamental promover a sua explicitação, dado que estas estão intrinsecamente relacionadas com vivências pessoais que correspondem a um conhecimento persistente e de difícil alteração. Reforçando esta linha de pensamento, para além de conhecer bem o conteúdo do que se ensina, os alunos e o contexto, os processos e técnicas de ensino, que são fundamentais para ensinar bem, Nunes e Ponte (2010, p. 65) afirmam que “o professor ensina o que ele é”, ou seja, os conhecimentos cruciais para ensinar bem dependem “do conhecimento que este [o professor] tem de si mesmo” (Ibidem, p. 67). Neste sentido, mencionando Guimarães (2005) e Oliveira (2004), Nunes e Ponte (2010, p. 68) reconhecem “a importância do percurso escolar do professor e das experiências passadas e a influência do seu percurso biográfico, nas crenças sobre o ensino e a aprendizagem, na relação que esta estabelece com o saber e com a transmissão e, em geral, com a profissão”. Reforçando estas ideias, Ponte (1998) afirma que em Portugal houve um claro progresso quando se começou a introduzir nos currículos, para além de conteúdos, atenção às capacidades e valores, tal como para a formação de professores, valorizando, para além do saber, o que se é capaz de fazer e os valores que se assumem na prática profissional. Mais especificamente na análise da relação dos professores com a Estatística, Fernandes, Carvalho e Correia (2011) analisaram o ensino da Estatística no ensino básico e secundário e para tal abordaram alguns dos estudos realizados em Portugal. Estes autores referem, nomeadamente em termos dos erros e dificuldades em Estatística de futuros professores do 1º e do 2º ciclo do EB, o trabalho de Barros (2004), em que foram envolvidos 37 futuros professores. Em relação ao ensino da Estatística foram abordados os estudos de Ribeiro (2006), de Nunes (2008) e também o de Barros (2004), tendo estado envolvidos em 184 Atitudes cada um destes estudos três professores ou do 2º ciclo ou do 3º ciclo do EB. Também foram considerados os trabalhos de Fernandes, Carvalho e Ribeiro (2007), que deram continuidade ao estudo de Ribeiro (2006), e também o de Fernandes, Alves, Machado, Correia e Rosário (2009). Entre várias conclusões, Fernandes, Carvalho e Correia (2011, p. 602) referem que de uma maneira geral, os professores atribuíram importância ao ensino da Estatística por esta ter utilidade para a vida das pessoas e, também, porque os professores “mantêm uma atitude positiva em relação a este tema”. Por outro lado, e no âmbito das componentes do conhecimento profissional dos professores sugeridas por Batanero, Godino e Roa (2004), em termos da componente interaccional Fernandes, Carvalho e Correia (2011, p. 603) salientam que na sala de aula predominava, ainda, “a exposição pelo professor e um questionamento focalizado, confirmatório e centrado na testagem dos conhecimentos e na memorização”, o que corresponde a uma comunicação como instrumento de regulação do professor, como indicam estes autores referindo Ponte et al. (2007). Por fim, referindo a necessidade da formação dos professores ser aprofundada em termos da Estatística e do seu ensino, Fernandes, Carvalho e Correia (2011, p. 604) afirmam que esta formação deve repercutir-se “nas concepções dos professores que vêem a Estatística como um tema fácil de os alunos aprenderem, pois, muitas vezes, tal facilidade decorre de uma abordagem técnica do tema”. De uma forma mais geral, Tsamir e Tirosh (2009) consideram que há uma crescente consciência entre os educadores de Matemática do papel central do afeto no ensino e na aprendizagem da Matemática, mas no entanto realçam que “little research (…) adresses the topic of mathematics teachers’ affect” (Tsamir e Tirosh, 2009, p. 19, citando Philipp, 2007, p. 258). Forgasz e Leder (2009), citando Wilson e Cooney (2002), defendem que existem evidências que o pensamento do professor influencia o que acontece nas aulas, o que os professores transmitem aos alunos e, em última análise, o que os alunos aprendem, identificando uma relação entre a componente afetiva do professor e a aprendizagem dos alunos. Para reforçar esta ideia Forgasz e Leder (2009, p. 175) citam também Cockcroft (1982, p. 61) que afirma que “[i]t is to be expected that most teachers will attach considerable importance to the development of good attitudes among the pupils whom they teach (…) Attitudes are derived from teachers’ attitudes”. Em termos mais específicos das atitudes e em particular as relacionadas com a Estatística, Estrada, Batanero e Fortuny (2004a), tal como Gal (2002), consideram que se 185 Atitudes sente, cada vez mais, a exigência da cultura estatística para todos, e que para isso é necessário ter em conta as atitudes dos professores, elos determinantes na sua profissão. Também Blanco (2008), após uma detalhada revisão crítica sobre a investigação em atitudes em relação à Estatística, sugere como linha de investigação a análise das atitudes em relação ao desempenho académico-profissional na área da Estatística após a conclusão da formação, no caso de essa dimensão fazer parte das competências exercidas na profissão, como é o caso dos professores de Matemática. Batanero (2002) apresenta como uma das componentes da cultura estatística as atitudes, pois aquela não se limita a conhecimentos e capacidades, mas engloba também os sentimentos, valores e atitudes que fazem parte integrante da educação, sendo uma parte importante da mesma. Além disso, como Gal e Ginsburg (1994) referem, as atitudes e as crenças, em especial as negativas, podem ter um impacto direto no ambiente da aula e podem ser, caso não sejam controladas, um verdadeiro bloqueio à aprendizagem, interagindo de forma negativa com aspetos do ambiente dessa aprendizagem e podendo colidir com os objetivos que o professor procura atingir. Batanero (2009) chama novamente a atenção para as atitudes, crenças e conceções dos professores em relação à Estatística, indicando como principais razões para tal o facto de que são fatores chave para qualquer mudança no ensino da Matemática e da Estatística e também porque influenciam nos alunos a aprendizagem, o conhecimento, as crenças e as atitudes em relação à Matemática e à Estatística. No entanto, num estudo realizado por Morais (2004) em 2002/2003 na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Bragança com alunos do 4º ano do curso de professores do Ensino Básico – Variante de Matemática e Ciências da Natureza que frequentavam a unidade curricular de Metodologia do Ensino da Matemática II (4º MC) e com alunos do curso de Complemento de Formação Científica e Pedagógica para a Educação Básica – 1º Ciclo (1º CF), foi abordada a interpretação de conceitos como competência matemática, atitude, capacidade, conhecimento e complexidade dos objetos matemáticos. Relativamente ao conceito de atitude, nas 30 respostas com a interpretação deste conceito as categorias obtidas por este autor foram: comportamento (50%), forma de agir (20%), exemplificação (13,3%), posição (6,7%), capacidade (3,3%), predisposição (3,3%) e postura (3,3%). O modo de interpretar este conceito apresenta diferenças entre os dois grupos analisados, pois enquanto 75% dos alunos do 4º MC está integrada na categoria comportamento, sem qualquer resposta nesta categoria do grupo 1º CF, uma grande 186 Atitudes percentagem dos alunos do 1º CF apresentaram uma definição na categoria exemplificação que parte de exemplos particulares como “ajuda a aprender” ou “ser motivador”. Este autor salienta ainda a dificuldade em definir categorias representativas e a ideia de que ficaram patentes nos sujeitos que participaram no estudo aspetos de ambiguidade associados a cada um dos conceitos, pelo que este autor defende, na formação inicial, uma maior ênfase na clarificação destes conceitos, apesar da sua complexidade com múltiplas dimensões e interpretações dependentes do sujeito e do contexto. Também é necessário contextualizar as atitudes dos professores com as suas experiências enquanto alunos, bem como enquanto professores, abordando algumas das suas consequências que reforçam a importância do estudo das atitudes dos professores, particularmente em relação à Matemática e à Estatística. Assim, segundo Barros (2003, p. 42), e de acordo com os NCTM (1994), as experiências dos professores, enquanto alunos, em relação à Matemática “têm consequências profundas no conhecimento, concepções e atitudes que os professores desenvolvem em relação à matemática, aos alunos e ao ensino”. Na sequência do seu trabalho de doutoramento com futuros professores, portanto em formação, Part (2009), entre outras questões, procurou perceber que experiências escolares anteriores tiveram maior influência naquilo que esses alunos acreditam vir a ser a sua futura experiência profissional de ensino. Esta autora indica que encontrou uma forte influência do comportamento dos antigos professores nas atitudes dos futuros professores do seu estudo em relação à educação matemática. Esta mesma autora conclui que os futuros professores, por um lado, procuram imitar o bom comportamento e as boas práticas dos seus antigos professores e, por outro lado, tentam evitar os erros que foram detetando ao longo da sua formação. Exemplo disso é o maior uso de tarefas mais orientadas para a aplicação. Além disso, a autora refere a influência que os professores supervisores dos estágios também exercem no comportamento pedagógico desses alunos. Na mesma linha de pensamento, Barros (2003, p. 50) cita Guerreiro (1999, p. 190) para, no enquadramento da prática pedagógica de Matemática de alunos de uma escola superior de educação, indicar que as atitudes desses futuros professores “são influenciadas pela sua avaliação, pelos seus supervisores, pelos alunos, pelos conhecimentos adquiridos na Escola Superior de Educação e pelas representações que têm da prática pedagógica do 1º Ciclo”. Para o mesmo autor existem influências nas atitudes dos estagiários universitários 187 Atitudes “pela avaliação, pelos supervisores, pelos alunos e restante comunidade escolar e pela própria motivação” (Barros, 2003, p. 50). Mais uma vez olhando para a formação prévia dos professores pode-se acrescentar que na generalidade dos futuros professores em formação estes carregam um passado de insucesso escolar em Matemática, como referido e constatado por Albuquerque et al. (2006). Estes autores afirmam ainda que os futuros professores “não só não sabem matemática suficiente mas também desenvolveram atitudes negativas em relação à matemática” (Albuquerque et al., 2006, p. 25). Constatando esta ideia noutros contextos fora de Portugal, Philipp (2007) indica que Philippou e Christou (1998) referem que os alunos futuros professores na Grécia também trazem atitudes bastantes negativas para o ensino de professores. Também Loureiro (2004), invocando Andrews (2000), menciona preocupações em relação às dificuldades desse tipo de alunos futuros professores, pois “não só não sabem matemática suficiente, como têm atitudes negativas face à Matemática e capacidades mal exploradas e desenvolvidas” (Loureiro, 2004, p. 93). Segundo Loureiro (2004, p. 94), referindo Putman e Borko (1997, p. 1235-1236), os futuros professores são altamente resistentes a novas abordagens de ensino pois usam como filtros, para sua interpretação e aprendizagem, os conhecimentos e crenças, daí que sejam determinantes “o processo de construção ou de reconstrução do seu conhecimento matemático, bem como o desenvolvimento das suas capacidades e atitudes perante a matemática”. De igual modo, Philipp (2007), mencionando Philippou e Christou (1998), escreve que é possível mudar as atitudes dos futuros professores em formação ao nível da satisfação em relação à Matemática e da visão que têm da utilidade da mesma. Tal mudança pode ser feita, por exemplo, através de aulas sobre História da Matemática ou de metodologias mais ativas. Contudo, parece que a ansiedade em relação à Matemática está muito enraizada e não muda facilmente, indicando que as emoções dos alunos eram resistentes à mudança. Além disso, segundo Philipp (2007), referindo Ma e Kishor (1997) e Hembree (1990), a investigação indica que as atitudes são mais difíceis de mudar nos alunos do ensino secundário ou do ensino superior do que nos alunos do ensino básico. Por estas razões este autor considera razoável assumir que, tanto em futuros professores, como em professores em exercício, o afeto ou a ansiedade em relação à Matemática tenham sido formados enquanto pré-universitários, tendo que ver com as suas experiências de aprendizagem de Matemática enquanto alunos, pelo que é claro que o processo de preparação de professores para ensinar Matemática e Estatística começa muito antes da sua formação 188 Atitudes superior. Por outro lado, os professores tomam decisões importantes sobre a forma como ensinam Matemática e, por consequência, também a Estatística, tendo mesmo muitas vezes a decisão sobre o tempo que dispensam a esse ensino, em especial nos primeiros ciclos do ensino básico. Por este facto, se não se incluir na sua formação, tanto inicial, como contínua, a temática das questões afetivas em relação à Matemática e à Estatística, poderão continuar a formar-se e a manter-se professores sem disposição para criar experiências positivas de aprendizagem nessas áreas aos seus alunos. Portanto, há razões para uma maior reflexão sobre o desenvolvimento de atitudes positivas em relação à Matemática e ao seu ensino e aprendizagem por parte dos futuros professores e dos professores em exercício. Reforçando estas ideias, Batanero (2009) considera que os professores têm crenças, em relação aos conteúdos e aos objetivos do ensino, que podem condicionar de modo decisivo a maneira de ensinar Estatística. Esse condicionalismo pode ser fundamental, pois para quem já teve a oportunidade de ensinar Estatística é altamente provável que tenha constatado que alguns dos alunos mostraram atitudes negativas em relação à Estatística, mostrando não gostar da Estatística, sentindo não conseguir entendê-la, pensando na falta de utilidade da mesma, acreditando na sua grande dificuldade, manifestando falta de interesse em aprendê-la e/ou expressando grande indisponibilidade para despender o esforço necessário para a aprender. Neste âmbito, sobre o papel do professor, e mencionando Renga e Dalla (1993), McLeod (1992) e Dehaene (1997), os autores Gomes, Ralha e Hirst (2001, p. 182) realçam a componente afetiva como fundamental para o sucesso/insucesso na Matemática por parte dos alunos, mas apesar de considerarem a relação afetiva entre o professor e a Matemática eventualmente diferente da relação afetiva entre aluno e a Matemática, entendem que se trata “de uma questão com uma relevância e dependências extremas no que diz respeito à eficácia da tarefa principal [ou seja, “conseguir que as crianças desde cedo aprendam a gostar de Matemática” (DGEBS, 1989, p. 25)]”. Também Albuquerque et al. (2006, p. 21) consideram que se pode dizer que “o gosto por aquilo que se faz é um elemento forte para o sucesso. Contudo, a importância desta atitude face à Matemática é acrescida pelo facto de sem gosto dificilmente se poderá transmiti-lo aos futuros alunos”. Já Mamede (2001, p. 198) realça que o papel do professor “é fortemente influenciado pelas suas concepções, formação, crenças e atitudes face à Matemática”, mas que, num trabalho de Serrazina (1993) com professores do 1º ciclo, “30% dos professores do estudo manifesta pouca segurança no seu ensino da matemática e menos de metade assume uma atitude positiva face à Matemática” (Ibidem, p. 199). No entanto, nos processos de ensino e de aprendizagem o professor deve, para além do 189 Atitudes domínio da disciplina como já foi referido, apresentar “atitudes positivas tanto em relação ao ensino, à disciplina que vai ministrar, aos conteúdos dessa disciplina, aos alunos, como em relação à própria escola” (Ardiles e Brito, 2006, p. 14). Ou seja, do entusiasmo demonstrado, da forma como transmitem os conteúdos e da atitude dos professores em relação à Matemática dependem também as atitudes dos alunos em relação à Matemática (Ardiles e Brito, 2006, referindo Brito, 1996, e Moron, 1998, que cita Gairim, 1987, e Dienes, 1970) e, consequentemente, em relação à Estatística. Da mesma forma, para Schau, Millar e Petocz (2012, p. 2) no ensino da Estatística “it is becoming increasingly apparent that attitudes exert a primary impact on student’s academic behaviors”. Segundo os mesmos autores, ainda que focados nas atitudes dos alunos, algumas investigações realçam também a importância das atitudes dos professores e formadores e que, em alguns casos, evidenciam o efeito dos professores nas atitudes dos alunos, como em Griffith et al. (2012). Tishkovskaya e Lancaster (2012) reconhecem que o ensino da Estatística é desafiante, pois abrange alunos com níveis de conhecimento muito diversos, tendo muitos deles tido experiências prévias negativas com a Matemática e a Estatística. Na sequência desse reconhecimento, estes autores também consideram como crítico o facto das experiências nestas disciplinas poderem afetar para toda a vida a perceção e a atitude em relação ao valor da Estatística de muitos alunos e, naturalmente, de muitos futuros empregados, empregadores e, em última análise, de cidadãos. Ainda nesta linha de ideias, Pan e Tang (2005) realizaram um estudo para investigar os fatores que contribuem para a ansiedade dos alunos em relação à Estatística e como é que as estratégias de ensino contribuem para os ajudar numa aprendizagem efetiva da Estatística. Como resultado do seu trabalho destaca-se que os fatores que mais contribuem para a ansiedade dos alunos em relação à Estatística foram o medo da Matemática, a falta de relação com o quotidiano, o ritmo das aulas e a atitude do professor. Neste sentido, os mesmos autores relatam que vários alunos mencionaram experiências desagradáveis tidas com professores e que tiveram um impacto negativo na imagem da Estatística e também deles próprios, enquanto alunos. Por outro lado, Estrada (2002 e 2009a) refere que as atitudes em relação à Estatística dos professores podem ser influenciadas por variáveis pessoais, como o género, a idade ou a personalidade, variáveis escolares, como o rendimento escolar que tiveram enquanto alunos, estudos prévios de Estatística (experiência profissional ou especialidade), bem como aspetos profissionais, como a formação estatística ou o conhecimento profissional. Assim, com vista a compreender as atitudes dos professores em relação à Estatística de modo a poder intervir 190 Atitudes melhor e, deste modo, a reforçar os processos de ensino e de aprendizagem da Estatística impõem-se estudos sobre estas atitudes como, por exemplo, os que serão abordados no ponto seguinte. Olhando agora para o papel do professor e o das suas atitudes nas mudanças do ensino, num tempo de muitas mudanças, e como Pires (2007) refere, no âmbito do ensino da Matemática no Brasil (com a consciência que esta problemática é extensível a outros países incluindo para Portugal), os processos de mudança, inovação e desenvolvimento curricular envolvem propostas com linhas orientadoras que muitas vezes não levam em conta as conceções, crenças, conhecimentos e atitudes dos professores, que são os seus executores diretos. No entanto, por essa razão, e apesar das referidas linhas orientadoras fazerem parte do discurso educacional, podem não ser absorvidas e interiorizadas pelos professores, tornando mais difícil que se superem estas questões, fazendo com que alguns problemas não se possam resolver ou se possam resolver apenas muito lentamente. Desta forma, é necessário que as novas orientações capacitem os professores para a mudança e para a melhoria do ensino, gerando neles compromisso e sonho e estimulando-os e envolvendo-os em termos da sua formação e de novas aprendizagens e abordagens às mudanças. Neste âmbito, já em 1988 se afirmava em Portugal que “quaisquer passos que sejam dados na direcção de uma aula de Matemática renovada, […] exigirão dos professores de Matemática uma mudança nas atitudes” (APM, 2009, p. 53). Entretanto muito mudou no ensino da Matemática e na própria formação de professores, em particular ao nível da Estatística e da sua sucessiva extensão, de forma explícita, aos 1º e 2º ciclos do EB, mais significativa com o PMEB de 2007118. Por estes motivos, têm-se vindo a criar novas situações de dificuldade e de mudança, em cuja implementação e sucesso as atitudes dos professores terão um papel crucial. É pois neste contexto que esta investigação se situa e se motiva. 2.2.6. Estudos de Atitudes em relação à Estatística com professores Relativamente aos estudos centrados nas atitudes dos professores em relação à Estatística, Batanero (2009) afirma que estes são poucos e destaca alguns desses trabalhos, como: o de Onwuegbuzie (1998), que estudou a ansiedade e as atitudes de professores, utilizando um modelo multivariado, e apresentando correlações significativas entre o número 118 Com posterior inclusão das Metas Curriculares de 2012 e do PMEB de 2013 191 Atitudes de disciplinas de Estatística tidas e a pontuação obtida no questionário para medir as atitudes; o de Watson, Kromrey, Ferron, Lang e Hogarty (2003), em que mostraram haver correlação negativa entre os resultados obtidos através de um questionário sobre atitudes e outro sobre ansiedade; os de Wisenbaker, Nasser e Scott (1999) e de Nasser (2004), em que foram analisadas as relações entre atitudes ou ansiedade e o rendimento de futuros professores; bem como os de Estrada, Batanero e Fortuny (2004a), de Estrada (2007) e de Estrada e Batanero (2008), que abordam de forma pormenorizada as atitudes em relação à Estatística de professores espanhóis do ensino primário (em formação e em exercício), tendo relacionado as atitudes com outras variáveis, por exemplo, anos de docência ou conhecimentos, e tendo obtido como um dos resultados que as atitudes melhoram com os conhecimentos e com a prática profissional. De uma forma geral, Batanero (2009) menciona que esses estudos indicam que os professores reconhecem a importância da Estatística pela sua aplicabilidade e que estão dispostos a aprender mais e a dedicar-lhe mais tempo na prática letiva, mas que se sentem poucos preparados para ajudar os alunos nas dificuldades que tenham em relação à Estatística, o que pode dar pistas para o desenvolvimento de estratégias específicas para melhorar as atitudes dos professores por forma a ter como consequência uma melhoria dos processos de ensino e de aprendizagem. Em particular, na parte da investigação de Estrada (2002) em que foi utilizada a escala EAEE, já mencionada, o estudo incidiu sobre 66 professores em exercício na província de Lérida, Espanha, sendo 34 professores da área de ciências sociais, que usavam ou podiam usar a Estatística como instrumento nos últimos anos do ensino primário, e 32 professores da área das ciências, que lecionavam ou deveriam lecionar aulas de Estatística. Para além destes professores, o estudo abrangeu 74 alunos de magistério do 2º ano (já com estágio realizado com contacto em escolas primárias), sendo 36 alunos de Educação Primária e 38 de Educação Infantil na Universidade de Lérida. Em termos dos resultados obtidos e analisados em Estrada, Batanero e Fortuny (2004a), Estrada (2007), Estrada e Batanero (2008) e Estrada, Batanero e Lancaster (2011), constataram-se atitudes moderadamente positivas em ambos os grupos, sendo para a pontuação total (com mínimo 25, ponto de indiferença 75 e máximo 125) a moda 91 e a média 88,8 (DP=8,54). Além disso, as atitudes em relação à Estatística apresentaram características muito semelhantes para os dois grupos, professores em exercício e em formação, apesar da análise de variância indicar que o fator grupo tem um efeito estatisticamente significativo na pontuação total da escala de atitudes. Assim, os professores em exercício apresentaram melhores atitudes, o que parece indicar que – em contraponto com 192 Atitudes a visão enquanto aluno – a atitude pode melhorar ao assumir-se a docência. O grupo dos professores em exercício foram os mais críticos em relação ao uso da Estatística nos meios de comunicação, mas, em simultâneo, os que atribuíram uma maior valorização à Estatística para a formação geral do cidadão de hoje, e foram os que mais defenderam a inclusão da Estatística no ensino, os que a percecionaram como sendo mais fácil e interessante e os que ajudam os colegas neste âmbito da Estatística. Em contra ponto, foram os alunos os que mostraram mais confiança no uso da Estatística. Relativamente aos estudos prévios dos respondentes, bem como na interação entre a sua especialidade e os seus estudos prévios, foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os que nunca estudaram Estatística e apresentaram atitudes mais negativas e os que a estudaram e que apresentaram atitudes mais positivas. Esta constatação reforça a ideia de que uma maior e melhor formação pode potenciar uma melhoria das atitudes em relação à Estatística. Os resultados também mostraram não haver diferenças estatisticamente significativas entre os géneros, contradizendo outros estudos com amostras maiores, como o de Cazorla et al. (1999). Em particular, para o subgrupo dos professores em exercício os resultados mostraram não haver diferenças estatisticamente significativas entre as atitudes e a especialidade. Já relativamente aos anos de docência o coeficiente de correlação, apesar de não ser muito elevado, é estatisticamente significativo e negativo, para o que se pode adiantar a possibilidade de se considerar que a atitude global em relação à Estatística piora à medida que aumenta o número de anos de docência, o que talvez possa estar relacionado com a falta de formação estatística ou o ter enfrentado mais vezes as dificuldades com este tema por parte dos alunos ou deles próprios. Desta investigação é de realçar ainda que os professores mais velhos apresentavam uma maior tendência para suprimir a Estatística, sempre que possível, e percecionavam-na como mais difícil que os professores mais novos. Além disso, os professores que não usam ou usam muito pouco a Estatística nas suas vidas profissionais apresentaram atitudes mais negativas em relação à Estatística. No estudo de Aparício, Bazán e Abdounur (2004) foram aplicadas as escalas de atitudes em relação à Estatística de Cazorla et al. (1999) e de Estrada (2002) a uma amostra efetiva de 46 professores em exercício no Peru com a especialidade de Pré-escola (3), de Ensino Fundamental (9), de Ciências Sociais (27) e de Ciências (7) que frequentaram uma disciplina de Estatística no âmbito de um complemento académico para obter um título profissional de Licenciado em Educação. O objetivo deste estudo foi o de verificar a relação entre a atitude em relação à Estatística e o desempenho académico na disciplina de Estatística 193 Atitudes do referido complemento académico. As escalas utilizadas apresentaram uma correlação significativa entre elas, indicando que medem o mesmo constructo e podem ser usadas para avaliar a atitude em relação à Estatística em geral. Além disso, foram obtidos altos valores de consistência interna, com alfa de Cronbach na escala de Cazorla de 0,94 (pré-teste) e 0,92 (pós-teste) e na escala de Estrada de 0,84 (pré-teste) e 0,83 (pós-teste), próximos ou superiores aos obtidos por Cazorla et al. (1999) e Estrada (2002), respetivamente. Estes autores consideram que estes resultados dão ótimas indicações para as propriedades psicométricas das escalas para a amostra avaliada, constituindo um primeiro estudo de adaptação das escalas no Peru. Dos resultados considerou-se, ainda, que houve uma mudança estatisticamente significativa e favorável na atitude após a disciplina, passando os valores médios da pontuação nas escalas de Estrada e de Cazorla, respetivamente, em relação à pontuação máxima das mesmas de 69,57% e 66,89%, no pré-teste, para 72,5% e 71,54% no pós-teste. No entanto, os autores consideram que não houve uma mudança qualitativa de importância na atitude do pré-teste para o pós-teste. Houve também uma relação significativa da atitude final com o desempenho na disciplina de Estatística, embora só no pós-teste, o que segundo estes autores indica um contributo do desenvolvimento da disciplina para a relação entre o desempenho e as atitudes em relação à Estatística, como evidenciado em Cazorla et al. (1999). Como conclusão, Aparício, Bazán e Abdounur (2004, p. 12) referem que “o maior conhecimento sobre a aplicabilidade da disciplina de Estatística na prática educativa e a discussão em presença de pares pode melhorar a atitude à disciplina”. Na sequência do estudo anterior e com resultados muito semelhantes, a investigação de Aparício (2006), também apresentada em Aparício e Bazán (2006), foi realizada com uma amostra de 87 professores no Peru (7 de Ensino Infantil, 28 de Ensino Fundamental, 41 de Ciências Sociais e 11 de Ciências), que participavam num programa de complemento académico, e pretendeu aferir a relação entre a atitude em relação à Estatística e o desempenho académico na disciplina de Estatística do referido programa. Para tal esta investigadora mediu as atitudes dos referidos professores com as escalas de atitudes em relação à Estatística de Cazorla et al. (1999) e de Estrada (2002). As escalas utilizadas apresentaram uma correlação significativa entre elas, dando indicação de que medem o mesmo constructo, e altos valores de estabilidade (correlações de Pearson test-retest), bem como de consistência interna, com alfa de Cronbach na escala de Cazorla de 0,92 (pré-teste) e 0,89 (pós-teste) e na escala de Estrada de 0,83 (pré-teste) e 0,81 (pós-teste), sempre superiores aos obtidos por Cazorla e Estrada, respetivamente, dando indicação de boas propriedades 194 Atitudes psicométricas das escalas. Os questionários aplicados recolhiam, também, informações pessoais dos professores: género, data de nascimento, especialidade e proveniência. Em termos dos resultados constatou-se que houve uma mudança estatisticamente significativa e favorável na atitude após a disciplina. Houve também uma relação significativa da atitude final com o desempenho na disciplina de Estatística, embora apenas no pós-teste, o que segundo a mesma autora indica um contributo do desenvolvimento da disciplina para a relação entre o desempenho e as atitudes em relação à Estatística, como evidenciado também por Cazorla et al. (1999). Estes resultados vêm de alguma forma reforçar a ideia de que os aspetos afetivos são importantes no ensino da Estatística, incluindo desde o ponto de vista do professor, com possíveis consequências na aprendizagem dos alunos, que a formação contínua pode desempenhar um papel relevante na melhoria das atitudes, assim como mostrar a importância de pesquisar professores em exercício (Aparício, 2006). Estrada, Bazán e Aparício (2010a) apresentam uma análise psicométrica da escala EAEE de Estrada (2002) numa perspetiva de contextos culturais diferenciados e na sequência dos estudos sobre atitudes em relação à Estatística de professores em serviço ou futuros professores em formação espanhóis e peruanos já referidos – Estrada (2002) e Estrada, Batanero e Fortuny (2004a) e, também, Aparício, Bazán e Abdounur (2004), Aparício (2006) e Aparício e Bazán (2006). Desta forma, para a análise dos resultados da aplicação da EAEE a 66 professores em serviço em Espanha e 61 no Peru e 74 futuros professores em Espanha e 87 no Peru, perfazendo um total de 288 professores e futuros professores, os autores usaram, para além da perspetiva clássica, o Rating Scale Model. Dessa análise concluíram que os itens 3, 21 e 23 da EAEE não apresentam correlação significativa com o resto da escala e que não se ajustam no modelo, pelo que consideram ser apropriada a exclusão destes três itens da escala EAEE devido ao seu comportamento psicométrico desadequado. Além disso, através da análise fatorial pelo método dos componentes principais e rotação varimax, aos 22 itens restantes, considerando a matriz das correlações de Spearman, ficou a indicação de que a escala é multidimensional com quatro fatores, a que os autores denominaram competição e avaliação académica da Estatística (itens 8, 10, 11, 13, 17, 18, 20 e 22), apreço pelo papel da Estatística (itens 2, 4, 6 e 24), utilidade e gosto pessoal pela Estatística (itens 5, 7, 16 e 19) e compreensão da Estatística (itens 9, 11, 15 e 25), os itens 4 e 1 são aspetos isolados do uso externo da Estatística e o item 12 não aparece inserido em qualquer fator. Por último, a escala foi considerada pelos investigadores como de elevada consistência com um alfa de Cronbach de 0,826 e, no Rating Scale Model, com consistência por item de 0,97 e consistência por 195 Atitudes pessoa de 0,79. Assim, Estrada, Bazán e Aparício (2010a) consideram que a escala EAEE dirigida para a medição das atitudes em relação à Estatística por parte dos professores pode ser aplicada noutros países e realçam a importância do estudo das atitudes em professores, até porque também entendem que a influência do professor é um fator crucial no sucesso ou insucesso dos seus alunos. Em termos comparativos dos estudos com professores em exercício em Espanha e no Peru, usando a escala EAEE, que já foram referidos, Estrada (2011), Estrada, Batanero, Bazán e Aparício (2009), Estrada, Bazán e Aparício (2010b) e Aparício, Estrada e Bazán (2010) constatam que a atitude é positiva de modo geral em ambos os países, embora as atitudes sejam mais positivas nos professores que responderam em Espanha. Segundo os mesmos autores, esta situação está de acordo com as diferenças de ênfase dado no currículo do ensino primário de cada um dos países, havendo um maior trabalho (pelo menos até àquela data), em relação à formação de professores, ao currículo e à Didática da Estatística, em Espanha do que no Peru. De uma forma particular, os professores questionados em Espanha apresentaram um maior acordo que os do Peru em relação ao facto de considerarem que a Estatística é fácil e de gostarem dos problemas de Estatística, incluindo a explicação dos mesmos aos colegas. Os professores espanhóis, em relação aos seus congéneres peruanos, expressaram tendencialmente uma maior valorização da Estatística em termos educacionais e instrumentais. Já os professores inquiridos no Peru apresentam mais vincada a ideia de que a Estatística é mais para pessoas da área das ciências. Relativamente a outros estudos de atitudes em relação à Estatística envolvendo professores refere-se também Hassad e Coxon (2007) que, para medir as atitudes de professores em relação à pedagogia baseada em conceitos (ou construtivista) no ensino da Estatística introdutória em cursos das Ciências de Saúde e Comportamentais, aplicaram a escala Faculty Attitudes Toward Statistics (FATS, desenvolvida por estes autores e apresentada em 2.2.3), e cujos cinco fatores indicados são: utilidade percebida, dificuldade percebida, eficácia pessoal docente, afastamento-aproximação e intenção comportamental. Foi constatado que os professores associados a uma prática docente mais favorável ao construtivismo no ensino da Estatística apresentaram, em média, maiores pontuações em todas as componentes da atitude analisada. Os autores consideram que em relação à pontuação do tipo de prática letiva surgem como preditores significativos os fatores intenção, eficácia pessoal docente e afastamento-aproximação. Além disso, estes investigadores não encontraram para as atitudes diferenças estatisticamente significativas entre género, grau 196 Atitudes académico, origem, estatuto profissional ou organizacional. No entanto, professores mais novos (menos de 40 anos) apresentaram valores significativamente mais baixos na pontuação global das atitudes e nos fatores utilidade percebida, eficácia pessoal docente e intenção. Além disso, foram detetadas neste estudo relações ainda estatisticamente significativas entre o número de anos de lecionação e os fatores eficácia pessoal docente e afastamentoaproximação, o que foi sugerido pelos investigadores como uma indicação de tendência para que os professores mais experientes se julguem com mais capacidade para implementar uma prática letiva construtivista no ensino da Estatística introdutória. Apoiados nos seus resultados, estes autores consideram que é evidente que a atitude dos professores em relação à utilidade do ensino da Estatística na perspetiva construtivista, tal como em relação à eficácia pessoal no ensino, têm um papel relevante no momento de decidirem sobre a utilização deste tipo de abordagem pedagógica, o que pode ser uma linha a seguir nas intervenções de mudança de práticas letivas, ou seja, na formação contínua dos professores. Júnior (2011) apresenta um estudo com 15 professores que lecionavam Estatística numa universidade brasileira em 2008 com o objetivo de avaliar as atitudes, características pessoais, utilização de tecnologias e prática letiva de professores de Estatística. Este autor desenvolveu a escala designada por Escala de Atitudes de Professores de Estatística em relação à Estatística (EAPE, mencionada no ponto 2.2.3), para o estudo das atitudes desses professores em relação à Estatística. Os três fatores indicados para esta escala pelo investigador são o afetivo, o cognitivo e o comportamental. Esta escala apresentou, relativamente à consistência interna, um valor do alfa de Cronbach de 0,60 que pode ser considerado baixo. Apenas a relação entre os aspetos afetivo e cognitivo se apresentou como uma relação significativa com a pontuação total dos professores. Salvaguardando que os resultados são restritos a este grupo de professores participante119, o autor considera que as atitudes dos professores em estudo são determinadas pela sua experiência docente, pelo género (em linha com Cazorla et al., 1999), pela metodologia utilizada nas suas aulas e pela opinião que têm sobre a Estatística como ciência. Outras conclusões interessantes neste trabalho foram a constatação de que a formação destes professores de Estatística não mostra uma relação estatisticamente significativa com a atitude em relação à Estatística e que estes professores apresentaram dúvidas sobre a maneira como é feita a veiculação da informação estatística nos meios de comunicação social. 119 Embora o autor indique que algumas das conclusões obtidas sejam generalizáveis à população 197 Atitudes Outro dos trabalhos que considera as atitudes de professores em exercício, mas que surge ainda muito numa fase inicial e algo experimental é o de Tauber, Albrecht e Bertorello (2011). Estas autoras apresentam um projeto com que pretendem detetar atitudes em relação à Estatística em professores de Matemática em exercício e em alunos futuros professores de Matemática da cidade argentina de Santa Fe e de outras cidades vizinhas. Para tal, estas investigadoras desenvolveram um instrumento com que, para além das atitudes dos professores, também pretendem determinar o grau de alfabetização estatística dos mesmos e a relação entre ambas. O referido instrumento é constituído por 20 itens, sendo 9 desses itens referentes à obtenção de informação geral sobre a experiência do inquirido em relação ao ensino ou aprendizagem da Estatística. Os outros 11 itens são referentes às crenças e atitudes em relação à Estatística, à compreensão das medidas de tendência central e à interpretação de resumos estatísticos e de frequências relativas percentuais condicionais ou marginais. Este instrumento teve uma aplicação piloto em alunos futuros professores e em professores em exercício que estiveram presentes numa jornada de Estatística, com o intuito de melhorar a redação e apresentação dos itens, além de obter uma primeira abordagem no sentido de elaborar outros instrumentos que permitam aprofundar estas temáticas. No entanto, as autoras limitam-se a analisar os vários itens do instrumento no âmbito do enquadramento teórico, não apresentando quaisquer resultados da aplicação do instrumento, incluindo os do mencionado estudo piloto. Com este resumo sobre estudos acerca das atitudes em relação à Estatística nos professores pretendeu-se dar uma ideia geral dos resultados neles obtidos e da sua comparação, bem como da aplicação das escalas de atitudes anteriormente apresentadas. Da observação da Tabela 2.3 fica patente que as escalas em inglês ATS e SATS são aplicadas a nível internacional embora sem grande expressão numérica uma vez que a sua construção é direcionada para alunos. Para além de não haver qualquer estudo em Portugal com este tema, sobressaem os estudos centrados na escala EAEE, em Espanha e Peru, ainda que em alguns desses estudos tenha sido aplicada em simultâneo a escala brasileira vocacionada para alunos, EAEC. Desta forma parece evidente a ideia de Schau, Millar e Petocz (2012) que defendem claramente a necessidade de um aumento das linhas de investigação no sentido de se analisar as atitudes dos formadores, bem como das suas ligações às atitudes em relação à Estatística dos alunos. Numa época caracterizada por mudanças no ensino em geral, e consequentemente também na formação, tanto inicial como contínua, em que se procuram implementar 198 Atitudes diferentes modalidades de formação, o estudo das atitudes dos professores de Matemática do 1º e 2º ciclos, pode contribuir para a identificação de aspetos importantes a contemplar na elaboração de futuros programas de formação para professores destes níveis de escolaridade. Deste modo poder-se-á contribuir para aumentar o sucesso escolar e o reconhecimento e consciência da importância da Estatística, tanto ao nível pessoal no quotidiano como a nível profissional das futuras gerações. Estas são as principais razões que conduziram a esta investigação sobre atitudes em relação à Estatística de professores do 1º e 2º ciclos do EB em Portugal no início desta segunda década do século XXI. Tabela 2.3: Estudos de atitudes de professores em relação à Estatística por países e escalas Estudo País Escalas α Cronbach N Análise EUA ATS Campo – 0,92 Curso – 0,90 222 Wisenbaker, Nasser e Scott (1999)* EUA e Israel SATS - 247 (136+111) Estrada (2002), Estrada, Batanero e Fortuny (2004) Estrada (2007) Estrada e Batanero (2008) Estrada, Batanero e Lencaster (2011) Espanha EAEE 0,77 140 (66+74) Huedo et al. (2003)* Espanha SATS - 240 Israel SATS 0,65 a 0,80 162 Aparício, Bazán e Abdounur (2004) Peru EAEC e EAEE Aparício (2006) Aparício e Bazán (2006) Peru EAEC e EAEE Onwuegbuzie (1998) Nasser (2004)* Hassad e Coxon (2007) EAEC 0,94 e 0,92 EAEE 0,84 e 0,83 EAEC 0,92 e 0,89 EAEE 0,83 e 0,81 87 Comparação entre EAEC e EAEE Desempenho/rendimento Evolução das atitudes Atitudes em relação à pedagogia usada Género Idade Grau académico Anos de lecionação 0,89 227 Estrada, Batanero, Bazán e Aparício (2009) Estrada, Bazán e Aparício (2010b) Aparício, Estrada e Bazán (2010) Estrada (2011) Espanha e Peru EAEE 0,844 (Espanha 0,753 Peru 0,839) 146 (66+80) Estrada, Bazán e Aparício (2010a)* Estrada, Bazán e Aparício (2013) Espanha e Peru EAEE 0,83 288 (140+148) Brasil EAPE 0,60 15 199 Género Conhecimentos Relação com atitudes em Matemática Componentes Desempenho/rendimento Relação com atitudes em Matemática Comparação entre EAEC e EAEE Desempenho/rendimento Evolução das atitudes FATS * Também usada com alunos futuros professores Fonte: Elaborada pelo autor Componentes Género Experiência formativa Curso/Área/especialidade 46 EUA Júnior (2011) Comparação com alunos Componentes Experiência formativa Componentes Desempenho/rendimento Tipologia árabe vs inglês Relação com atitudes em Matemática Evolução das atitudes Comportamento psicométrico Estrutura fatorial/componentes Comparação entre países Componentes Comportamento psicométrico Estrutura fatorial/componentes Comparação entre países Componentes Componentes Género Formação Experiência docente Metodologia usada nas aulas Atitudes 200 Aspetos metodológicos 3. Aspetos metodológicos O interesse e a pertinência do presente estudo prendem-se com o facto de haver um reconhecimento cada vez maior da importância dos aspetos afetivos nos processos de ensino e aprendizagem, em que as atitudes têm o seu papel. Daí a necessidade de analisar a problemática das atitudes dos professores que ensinam Matemática que, consequentemente, também são os que ensinam Estatística. Além disso, pretende-se envolver os alunos numa aprendizagem cognitiva menos determinista e rotineira e que tenha em linha de conta os aspetos característicos e/ou diferenciadores da Estatística. É necessário incluir nesta análise aspetos como as atitudes, as crenças, os interesses, as expectativas e as motivações em relação à Estatística, como referem Gal e Ginsburg (1994). Desta forma, o professor deve apresentar atitudes positivas, tanto em relação aos alunos, à escola e ao ensino, como, em particular, em relação à disciplina e aos conteúdos da mesma. Isto é assim, uma vez que, como foi referido no capítulo anterior, as atitudes dos professores em relação à Estatística podem ter influência no processo de ensino da Estatística. Deste modo podem condicionar a prática letiva e repercutir-se nas atitudes (futuras) dos alunos, contribuindo para o seu estímulo e até para a melhoria dos seus desempenhos. Por outro lado, pode considerar-se que, sem o empenho do professor nos processos de ensino e aprendizagem, é muito difícil que ocorra qualquer transformação significativa no sistema educativo, pois, como afirma Nóvoa (1992, p. 27), “[a]s escolas não podem mudar sem o envolvimento dos professores”. Portanto, se as atitudes dos professores em relação à Estatística forem positivas, poderão garantir as melhores condições necessárias à melhoria efetiva do ensino da Estatística. Além disso, as diretivas curriculares para o ensino básico português alteraram-se desde 2007. Segundo Garção (2004, p. i), “a experiência profissional adquirida e desenvolvida ao longo dos anos pode sobrepor-se a discursos e intenções de mudança”. Desta forma espera-se que a melhoria no ensino da Estatística se concretize e que não seja apenas um desejo espelhado nas sucessivas orientações curriculares. Até ao momento foi feito o enquadramento teórico, quer da evolução do ensino em Portugal, e em particular o da Matemática e da Estatística e o da respetiva formação de docentes, quer do conceito de atitude e do seu estudo em relação à Estatística, tanto em alunos como em professores. Na sequência, agora apresenta-se o design do estudo e a metodologia utilizada no presente trabalho. Este foi realizado em duas fases, e o seu objetivo geral é o de 201 Aspetos metodológicos conhecer as atitudes em relação à Estatística dos professores que lecionam Matemática nos 1º e/ou 2º ciclos do EB. A presente investigação assenta no paradigma misto que tem por base um tipo de metodologia de investigação em que se combinam elementos de abordagem qualitativa e quantitativa com o objetivo de aclarar e aprofundar a compreensão e a verificação de determinada situação de investigação (Johnson, Onwuegbuzie & Turner, 2007), ainda que no presente caso predomine a componente quantitativa. No âmbito da metodologia de investigação quantitativa a perspetiva usada é influenciada pela tradição pós-positivista em que se defende que “a ideia de que a realidade nunca pode ser completamente apreendida, apenas aproximada” (Denzin e Lincoln, 2006, p. 23, citando Guba, 1990, p. 22). Na mesma linha, os defensores deste paradigma epistemológico são apresentados por Muijs (2011, p. 5) como “(…) post-positivists believe that we should try to approximate that reality as best we can, all the while realising that our own subjectivity is shaping that reality. Rather than finding the truth, post-positivists will try to represent reality as best they can“. Além de que, “[o] pós-positivismo confia em múltiplos métodos como forma de captar o máximo possível da realidade. Ao mesmo tempo, a ênfase recai sobre a descoberta e a verificação das teorias. São enfatizados os critérios de avaliação tradicionais, com a validade interna e externa, assim como o emprego de procedimentos quantitativos que se prestem à análise estruturada (às vezes estatística) ” (Denzin e Lincoln, 2006, p. 23). Resumidamente, Creswell (2009, p. 4) apresenta a investigação quantitativa como “means for testing objective theories by examining the relationship among variables. These variables, in turn, can be measured, typically on instruments, so that numbered data can be analyzed using statistical procedures”. Contudo, Flick (1998, p. 2, citado por Denzin e Lincoln, 2006, p. 24) afirma que “a pesquisa é cada vez mais obrigada a utilizar estratégias indutivas em vez de partir de teorias e testá-las”. Lincoln e Denzin (2006, p. 390) definem a investigação qualitativa como sendo 202 Aspetos metodológicos “um campo interdisciplinar, transdisciplinar e, às vezes, contradisciplinar, que atravessa as humanidades, as ciências sociais e as ciências físicas. A pesquisa qualitativa é muitas coisas ao mesmo tempo. Tem um foco multiparadigmático. Seus praticantes são suscetíveis ao valor da abordagem de múltiplos métodos, tendo um compromisso com a perspectiva naturalista e a compreensão interpretativa da experiência humana. (…) A pesquisa qualitativa adota duas tensões ao mesmo tempo. Por um lado, é atraída a uma sensibilidade geral, interpretativa, pós-experimental, pósmoderna, feminista e crítica. Por outro lado, é moldada para concepções da experiência humana e de sua análise mais restritas à definição positivista, póspositivista, humanista e naturalista”. A combinação de ambos os paradigmas quantitativo e qualitativo segundo Creswell (2009) individualizou-se em 1959 quando Campbell e Fisk usaram e encorajaram outros a fazê-lo no sentido de analisarem os seus dados através de abordagens múltiplas. O mesmo autor indica que, desde então, essa situação conduziu a que vários estudos que combinam os dois paradigmas e que foram dando lugar à integração e conexão entre dados quantitativos e dados qualitativos. Em relação ao uso conjunto das investigações quantitativa e qualitativa, Scott e Morrison (2006, p. 155, citando Fraenkel e Wallen, 2003, p. 443) afirmam que “[t]he important thing is to know what questions can best be answered by which method or combination of methods”. Para resolver um problema de pesquisa, e reconhecendo que, tanto o paradigma quantitativo, como o qualitativo têm as suas limitações, pode-se empregar a combinação dos dois e as vantagens de os combinar, especialmente em trabalhos com vários objetivos, passa pela possibilidade de permitirem uma melhor compreensão dos fenómenos e alcançar resultados mais seguros (Creswell, 2009). Além disso, Johnson e Onwuegbuzie (2004, p. 15) defendem que “[t]he goal of mixed methods research is not to replace either of these approaches but rather to draw from the strengths and minimize the weaknesses of both in single research studies and across studies”. Também para Gall, Gall e Borg (2003) ambas as abordagens têm ajudado a fazer importantes descobertas na investigação educacional, e há autores (e.g. Biddle e Anderson, 1986) que acreditam que os paradigmas de pesquisa quantitativos e qualitativos são 203 Aspetos metodológicos complementares e com a sua combinação pode obter-se uma visão mais completa sobre a natureza do fenómeno educacional em estudo. Contudo, Scott e Morrison (2006, p. 159, citando Scott, 1996, p. 71) referem que “there is (...) always a gap between different [research] accounts, regardless of the sophistication of the representational devices we use. It is in this sense that our claims to knowledge about education must always be approximate”. Creswell (2009, p. 4) também define a investigação mista como “an approach to inquiry that combines or associates both qualitative and quantitative forms. It involves philosophical assumptions, the use of qualitative and quantitative approaches, and the mixing of both approaches in a study. Thus, it is more than simply collecting and analyzing both kinds of data; it also involves the use of both approaches in tandem so that the overall strength of a study is greater than either qualitative or quantitative research (Creswell & Plano Clark, 2007)”. A aplicação da metodologia mista na presente investigação é feita, não de forma sequencial, mas de forma concorrente, ou seja, aplicam-se os métodos quantitativo e qualitativo em simultâneo (Johnson e Onwuegbuzie, 2004; Creswell, 2009). Deste modo pensa-se conjugar os métodos quantitativos e o pormenor dos métodos qualitativos (Creswell, 2009). O objetivo geral desta investigação é o da recolha e análise de informação por forma a desenvolver descrições, explicações e possíveis intervenções relacionadas com o problema em estudo. Nesta investigação não se visou manipular causas ou variáveis, tentou-se unicamente estudar as relações entre as variáveis. Tomou-se esta direção pois pretendeu-se descrever os factos tal como se apresentavam, procedendo-se à recolha de informação relativa ao problema em estudo e ao seu tratamento misto, qualitativo e quantitativo. Neste estudo os dados foram recolhidos mediante a administração de um inquérito por questionário, podendo ser utilizado um instrumento já existente desde que este se considere adequado e depois de realizadas as adaptações às condições específicas do estudo (Cohen, Manion e Morrison, 2011). Para Ghiglione e Matalon (2001, p. 13), apesar das limitações e aspetos negativos do inquérito por questionário em comparação com outros (a observação ou a experimentação) este é, por vezes, o único meio de obter as informações pretendidas: “fenómenos como os das atitudes […] que só são acessíveis de uma forma prática pela 204 Aspetos metodológicos linguagem (…) e que só raramente se exprimem de forma espontânea”. Contudo, os mesmos autores realçam o facto do inquérito por questionário ser muito dependente da linguagem, por exemplo, com riscos de leitura múltipla ou de assimilação abusiva da univocidade da linguagem do instrumento aos pressupostos que permitiram a sua construção. Como referido, as atitudes não são diretamente observáveis e entre os instrumentos desenvolvidos para as medir estão os questionários com questões específicas, neste caso, sobre a Estatística. Gal e Ginsburg (1994) salientaram que, em geral, os questionários, no âmbito do estudo das atitudes, não pediam a explicação para as classificações atribuídas nos itens tipo Likert, o que limita a interpretação dos resultados. Assim, estes autores e Gal, Ginsburg e Schau (1997) defendem a combinação dos questionários com questões abertas que permitam, por parte do respondente, a explicação do que está implícito na sua resposta aos itens da escala de Likert, bem como eventualmente a descrição da intensidade e da frequência dessa resposta emocional e, ainda, da sua fonte ou causa. Por isso, foi decidido incluir na segunda fase do estudo também este tipo de abordagem qualitativa que, segundo Gall, Gall e Borg (2003), está associada a uma visão interpretativa na qual os aspetos do ambiente humano, como o da educação, são construídos pelos indivíduos que nele participam e onde os aspetos da realidade social não existem separadamente dos significados que os indivíduos lhes atribuem. Como instrumento escolhido para medir as atitudes dos professores do 1º e 2º ciclos do EB em relação à Estatística o objeto de estudo desta investigação optou-se pela Escala de Actitudes hacia la Estadística de Estrada, EAEE, de 2002. Esta seleção deveu-se à EAEE ser específica para professores ou futuros professores, por apresentar boas características psicométricas, por ter sido concebida e aplicada no contexto social e académico espanhol, que não parece diferir muito do português, e por ter também sido já aplicada positivamente noutro contexto que não o espanhol, o do Peru (e.g. Estrada et al., 2009). Esta escala, a EAEE, dá garantias de validade e de fiabilidade (Estrada, Bazán e Aparício, 2013). Neste estudo foram implementadas duas fases. Na primeira fez-se uma tradução da EAEE e aplicou-se a um pequeno conjunto de professores portugueses para testar, de forma exploratória, a validade e fiabilidade da EAEE quando aplicada no contexto português, bem como se as questões de identificação dos respondentes eram adequadas. Uma vez que os resultados foram positivos, a segunda fase iniciou-se com a aplicação da EAEE a uma amostra de professores do 1º e 2º ciclos do EB dos distritos de Coimbra, Guarda e Vila Real, depois de se ter elaborado uma tradução para português, validada por um painel de 205 Aspetos metodológicos especialistas (todos professores e com ligações ao ensino da matemática e/ou da estatística, dois matemáticos, dois estatísticos e um psicólogo). Além disso, foi introduzida a possibilidade dos professores respondentes justificarem, por escrito, as razões da pontuação atribuída em nove dos itens da escala, EAEE, adoptada. Deste modo, o estudo também tem uma componente qualitativa que permitirá complementar e/ou aprofundar a compreensão e interpretação das informações obtidas pelas outras técnicas quantitativas, ou revelar pormenores e/ou aspetos novos do problema. Logo, quando se pretende ratificar, validar e/ou explorar possíveis nuances das informações obtidas por outras técnicas, a análise qualitativa destas justificações é a apropriada. Além disso, “não são apenas uma fonte de informação contextualizada, mas surgem num determinado contexto e fornecem informações sobre esse mesmo contexto” (Lüdke e André, 1986, p. 39). Em contra ponto, e para os mesmos autores, este tipo de abordagem é por vezes criticado, por exemplo, pela falta de objetividade ao incorporar escolhas arbitrárias por parte do investigador, fator que se procurou evitar neste estudo. Para proceder à análise das justificações escritas decidiu usar-se a metodologia da análise de conteúdo. Ghiglione e Matalon (2001, p. 177) referem Berelson (1952, 1968) que define análise de conteúdo como “uma técnica de investigação que permite fazer uma descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto das comunicações, tendo por objectivo a sua interpretação”. A descrição foi objetiva pois a análise deve ser realizada segundo determinadas regras, obedecer a instruções suficientemente claras e precisas de modo a que diferentes investigadores possam obter os mesmos resultados sobre os mesmos conteúdos, desde que partam de uma base comum relativamente aos aspetos a analisar e as categorias a definir e a utilizar (Carmo e Ferreira, 1998). Além disso, a descrição também foi sistemática, no sentido de que a totalidade do conteúdo deve ser analisada e é quantitativa, pois muitas vezes é estabelecida a frequência dos elementos em cada categoria. Existem outras definições de análise de conteúdo. Por exemplo, a de Bardin (2004, p. 37): “um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objectivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens”. 206 Aspetos metodológicos Para Krippendorf (2004, p. 18) “[c]ontent analysis is a research technique for making replicable and valid inferences from texts (or other meaningful matter) to the context of their use”. Estes autores apresentam a análise de conteúdo como um método de investigação do conteúdo simbólico das mensagens, em que estas podem ser abordadas de diferentes formas e sob inúmeros ângulos. Além de que também pode haver variações na forma de tratar as unidades de análise e no enfoque da sua interpretação (Bardin, 2004; Krippendorf, 2004). Nestas definições ainda está implícita uma abordagem mista, pois nelas está subjacente a sua perspetiva como técnica de análise quantitativa adoptada por outros autores (e.g., Weber, 1990), para além do seu aspeto interpretativo. Para a análise de conteúdo temática, Ghiglione e Matalon (2001) fazem a distinção entre vertical, ou seja, aquela que incide sobre cada elemento separadamente, ou horizontal, em que trata cada um dos temas (ou itens), salientando as várias formas em que estes surgem no material analisado. Nesta investigação a análise de conteúdo será horizontal em cada conjunto de textos das justificações dos professores aos nove itens. Nesta análise de conteúdo para as justificações apresentadas pelos professores em relação à pontuação atribuída a cada um desses nove itens procurou-se, a partir dos seus textos que são as unidades de análise selecionadas, fazer uma análise temática estabelecendo categorias com enfoque no problema do estudo. Neste sentido, a etapa seguinte foi a da definição das categorias que são “gavetas ou rúbricas significativas que permitem a classificação dos elementos de significação constitutivos da mensagem” (Bardin, 2004, p. 32). Assim, nesta análise de conteúdo das justificações de cada item, procurou-se uma interpretação do que se encontra latente no texto, em que a noção de importância implica o interesse e o valor do tema. Por outro lado, procurou-se uma interpretação de exploração, não verificar hipóteses. Além disso, definiram-se as categorias a posteriori, após várias leituras sucessivas e tendo-se em atenção os objetivos da investigação (Carmo e Ferreira, 1998). Teve-se também em conta que, como Bardin (2004), as categorias devem também ser homogéneas, exaustivas, exclusivas, objetivas e adequadas ou pertinentes. As categorias são homogénas se “não misturam alhos com bugalhos” (Bardin, 2004, p. 31); são exaustivas se for possível enquadrar nas categorias estabelecidas todas as justificações obtidas; são exclusivas se cada justificação for associada apenas a uma e uma só categoria; são objetivas se codificadores diferentes chegarem a resultados muito similares; e são adequadas ou 207 Aspetos metodológicos pertinentes se “forem adaptadas ao conteúdo e ao objectivo” (Bardin, 2004, p. 31). De acordo com o ficou dito, e com a definição dos critérios das categorias de Bardin (2004, p. 112), nesta investigação o critério usado para a carecterização do texto de cada uma das justificações foi o lexical, pois usou-se “classificação das palavras segundo o seu sentido”. Resumindo, na análise de conteúdo deste estudo para cada item foi colocado numa folha de cálculo o código do questionário, o género, a idade, o tempo de serviço, o ciclo de ensino, a formação de base, a pontuação atribuída e a justificação, no caso de a haver, de cada um dos elementos da amostra. Ainda para cada item, foram separados os textos com pontuação negativa (1 ou 2), com pontuação neutra (3) e com pontuação positiva (4 ou 5). Neste processo foram registadas e definidas regularidades e padrões recorrentes de tópicos e de formas de pensamento partilhadas por grupos de respondentes que, revelando convicções respeitantes a aspetos específicos patentes nas justificações apresentadas, deram lugar a categorias preliminares de codificação (Bogdan e Biklen, 2007). A estas categorias foram sendo atribuídas números (códigos) e, de seguida, numa revisão das justificações, foi feita, para cada uma delas, a atribuição desses códigos numéricos. Ghiglione e Matalon (2001) realçam que a codificação deve obedecer a critérios de objetividade, sistematicidade e generalidade. A objetividade refere-se à ausência de liberdade do codificador ou ao facto do código não ser ambíguo, e a sistematicidade e generalidade referem-se ao grau em que um código definido para analisar um subgrupo deve poder ser aplicado da mesma maneira a todo o grupo. O conjunto de categorias inicial foi atribuído de forma colaborativa entre o investigador e uma das orientadoras desta investigação, após o que foi realizada, de forma independente, uma classificação do mesmo material pela outra orientadora deste trabalho. Depois destas etapas iniciais, cruzaram-se as duas classificações e, não havendo diferenças de maior, foram validadas as várias categorias. Esta etapa de validação do conjunto de categorias por parte de outro “juiz” culmina uma fase que, segundo Ghiglione e Matalon (2001) é convergente, e permite dar início a uma outra, com um processo divergente. Este processo divergente envolve um enriquecimento através de estratégias de aprofundamento, ligação e ampliação, que podem conduzir à modificação ou eliminação de categorias existentes, ou até à criação de novas categorias (Bogdan e Biklen, 2007). Assim, nesta fase divergente as categorias de codificação foram modificadas, através de combinações de algumas delas para que o sistema de categorias (e de codificações) possibilitasse e facilitasse uma composição e apresentação de dados mais funcionais. Logo “as categorias terminais provêm do 208 Aspetos metodológicos reagrupamento de categorias com uma generalidade mais fraca” (Bardin, 2004, p. 113). No entanto, as categorias que foram fundidas definem um segundo nível da classificação que ajudou a enquadrar e a especificar os diferentes aspetos das categorias de codificação principais que são mais gerais e abrangentes, agregando um conjunto de vários comportamentos, ideias e/ou perspetivas sobre o item em causa. Finalmente, as categorias foram consideradas definitivas o que permitiu que se concluísse a codificação das unidades de análise, através de um novo escrutínio das justificações dos professores e da respetiva atribuição do código. Além disso, e em simultâneo, foram sendo selecionadas as justificações que melhor poderiam representar a respetiva categoria. Em seguida passa-se à descrição das fases deste estudo, formulando-se o problema, explanando-se os objetivos a alcançar, descrevendo-se as variáveis e as hipóteses, o instrumento de pesquisa, os procedimentos, bem como a caraterização da amostra. 3.1. Primeira fase: estudo preliminar Neste estudo preliminar o objetivo não era fazer generalizações dos resultados, mas sim testar de modo exploratório as questões e o funcionamento da escala no contexto social e académico português, tendo como referência o estudo similar levado a cabo por Estrada (2002) e Estrada, Batanero e Fortuny (2004a) e tendo uma primeira análise em Martins, Nascimento e Estrada (2009). Além de que, como é preconizado para os testes prévios dos questionários (e.g. Ghiglione e Matalon, 2001, pp. 155-158), pretendeu-se ainda aferir a adequabilidade das questões de identificação: verificar se estas eram bem compreendidas, se as opções de algumas perguntas fechadas abrangiam todas as respostas possíveis ou se havia alguma pergunta desadequada e/ou em falta. 3.1.1. Metodologia Para este estudo preliminar foi utilizado como instrumento de recolha de dados um questionário (Anexo I), em suporte de papel e, por razões de economia e tempo, preenchido pelos próprios respondentes. Para além da identificação do âmbito do estudo e da instituição a que este está associado, foi dada a garantia de confidencialidade e das indicações para o 209 Aspetos metodológicos preenchimento, que no caso de um questionário autoadministrado têm maior importância (Ghiglione e Matalon, 2001, p. 165). Este questionário era constituído por duas partes. A primeira parte visava a caracterização dos respondentes, através de perguntas sobre factos fechadas, apresentando como variáveis o género, o tempo de serviço no ensino básico, anos de docência de Matemática, ciclos do ensino básico em que lecionou e nível mais elevado de formação em Estatística. Além disso, a variável área de formação inicial também foi incluída numa pergunta aberta, pois conscientes da possível diversidade de formações iniciais deste grupo de professores, julgou-se pertinente assegurar uma resposta menos condicionada. A segunda parte era a da escala de atitudes em relação à Estatística que foi traduzida e adaptada a partir da escala de atitudes em relação à Estatística, EAEE, construída por Estrada (2002). Como foi referido, esta escala é do tipo Likert, composta por 25 itens, sendo 14 positivos e 11 negativos, cada um com cinco possibilidades de resposta, incluindo uma alternativa neutra. Foi mantida a ordem dos itens da escala original, uma vez que, paralelamente ao texto das questões, a ordem pela qual estão são colocadas é também importante. Isto é verdade em especial com as questões de opinião, por forma a minimizar o enviesamento de consentimento (de positividade ou de aquiescência) alternando os enunciados favoráveis e os desfavoráveis, bem como o efeito de halo, isto é, a tendência para que a apreciação se refira a uma visão de conjunto global prévia mais do que a cada item separadamente (Ghiglione e Matalon, 2001, pp. 145-146). Os itens redigidos como afirmações positivas têm a seguinte pontuação: discordo totalmente (1), discordo (2), indiferente (3), concordo (4) e concordo totalmente (5). Os itens redigidos como afirmações negativas invertem a pontuação para: discordo totalmente (5), discordo (4), indiferente (3), concordo (2) e concordo totalmente (1). A pontuação na escala é formada pela soma dos valores obtidos em cada item, incluindo logo a inversão da pontuação dos itens negativos, pelo que os valores da pontuação total podem variar de 25 a 125 e o ponto intermédio é de 75 pontos. O tratamento dos dados foi realizado utilizando um pacote estatístico, SPSS 17.0, e uma folha de cálculo, Microsoft Excel 2007. Para o estabelecimento de um conjunto de respondentes optou-se por aplicar o questionário durante o ProfMat 2008, que decorreu em Elvas entre 2 e 4 de Setembro de 2008, pois era espectável a presença de um número considerável de professores de Matemática, nomeadamente dos 2º e 3º ciclos do EB. Realmente estiveram presentes 212 210 Aspetos metodológicos professores dos ciclos mencionados e de vários pontos do país. No entanto, e apesar do questionário ter sido inserido logo de início nas pastas dos participantes deste encontro, e de ter sido dado o tempo do congresso (aproximadamente 2 dias) aos professores para o seu preenchimento e não tendo sido feita qualquer pressão, apenas motivação e reforço para a sua participação, o nível de respostas ficou aquém do esperado. Apenas 47 (22%) docentes responderam. Este nível de participação reduzida foi provavelmente fruto de, no âmbito deste encontro, os professores terem inúmeras solicitações que os levou a esquecerem-se do questionário e, até, induzido algumas deficiências nas respostas. Outra justificação possível para esta fraca participação também pode ter que ver com uma certa saturação devida às solicitações para participação neste tipo de estudos com questionários, cada vez mais numerosas, que Ghiglione e Matalon (2001) referem. Assim, decidiu-se, entre os dias 9 e 18 de Setembro de 2008, complementar o conjunto de respondentes com professores de Matemática de quatro escolas E.B. 2,3. Desta forma, neste estudo foram inquiridos 71 professores do 2º e/ou 3º ciclos do EB, de várias escolas do país. Dados os objetivos e metas para este estudo preliminar, julgou-se aceitável o conjunto de respondentes que participaram, apesar da consciência de que a qualidade das conclusões que se podem retirar de um inquérito depende da composição da sua amostra e, além disso, que a validade e a fiabilidade dos resultados dependem também da dimensão da amostra. Os resultados obtidos a partir destes 71 questionários recolhidos são analisados no ponto seguinte. 3.1.2. Análise Dos 71 inquiridos, 61 (86%) eram mulheres. Relativamente aos anos de docência de Matemática constatou-se que a média foi de (aproximadamente) 15 anos, com DP=7,8 anos. Esta elevada dispersão pode atribuir-se à existência, no conjunto de respondentes, de uma significativa variedade de anos de docência, mas também às amplitudes diferentes das classes. Contudo, e apesar da dispersão elevada, a mediana e moda são (aproximadamente) 14 anos, valores próximos do da média. O polígono de frequências apresenta-se no (à esquerda), havendo elementos inquiridos em todas as faixas etárias consideradas no questionário, ou seja, há professores com formação inicial relativamente recente, bem como professores já com muitos anos de prática letiva. A distribuição por ciclos de ensino está patente no 211 Aspetos metodológicos (à direita), onde se constata que o menor número de professores é o daqueles que têm experiência nos 1º e 2º ciclos EB, enquanto aquele que mais está representado é o daqueles que só lecionaram no 3º CEB. Gráfico 3.1: Distribuição dos anos de docência em Matemática (à esquerda) e distribuição por ciclos de lecionação (à direita). Fonte: Elaborado pelo autor Embora a lista de possíveis respostas a esta questão dos ciclos de lecionação permita uma mais adequada adaptação à realidade e enriqueça por isso os resultados, por outro lado, torna-os muito desagregados, dispersando a análise e interpretação e podendo “desfocar” o que é mais importante nesta questão que é a realidade presente, ainda que influenciada também pelas experiências anteriores. Esta situação é acentuada pelo facto de, desta forma, não ser possível saber qual o peso que a lecionação em cada ciclo tem para cada professor que lecionou em mais do que um ciclo. Dos 71 inquiridos, 51 (72%) indicaram as suas áreas de formação inicial e como se pode constatar no Gráfico 3.2, de entre as 13 áreas referidas, as mais significativas são as licenciaturas na área da Matemática, correspondendo a cerca de 78%. Outra área com algum peso é a de Economia com cerca de 6%. De realçar que as 20 não respostas tavez tenham sido devidas a uma possível má interpretação ou interpretação errada desta questão, ou então a uma possível distorção relacionada com aspetos psicossociológicos como o evitar mostrar que não se enquadra no que é considerado “normal” ou “valorizado” (Ghiglione e Matalon, 2001). 212 Aspetos metodológicos Gráfico 3.2: Distribuição das áreas de formação inicial. Fonte: Elaborado pelo autor Relativamente ao nível mais elevado de formação inicial em estatística houve 3 (4,2%) não respostas e dos 68 restantes professores 69% referiram a Licenciatura e o Mestrado surge com 14,7% (Tabela 3.1). Estes resultados podem não refletir o percurso de formação inicial em estatística destes professores, uma vez que refletem apenas o nível mais elevado dessa formação. Contudo, o quadro geral em relação à formação inicial em estatística destes professores considera-se satisfatório. Tabela 3.1: Nível mais elevado da formação inicial em Estatística Nível da formação Frequência Percentagem Percentagem acumulada 2º CEB 3 4,4 4,4 3º CEB 1 1,5 5,9 Ensino Secundário 1 1,5 7,4 Bacharelato 6 8,8 16,2 Licenciatura 47 69,1 85,3 Mestrado 10 14,7 100,0 Total 68 100,0 Fonte: Elaborada pelo autor Análise dos itens Na Tabela 3.2 apresentam-se os resultados obtidos nos 25 itens considerados e, só para efeito de comparação, são indicadas as frequências para cada um dos valores de 1 a 5, a média e o desvio padrão (DP) dos valores das respostas obtidos para os itens, bem como o valor da média para os itens no estudo de Estrada (2002) e que serviu de base a este trabalho. Recordese, ainda, que houve itens com um enunciado negativo relativamente à atitude face à 213 Aspetos metodológicos Estatística, pelo que a leitura foi feita invertendo o sentido da pontuação (como já se apresentou). Tendo em conta este facto, o valor da média e do desvio padrão são calculados relativamente a uma escala positiva, pelo que todos os valores apresentados são comparáveis, e, quanto mais perto de 5 estiverem, mais forte é a indicação de uma atitude positiva em relação à Estatística e, no caso contrário, os valores quanto mais próximos de 1 indicam uma atitude negativa em relação à Estatística mais vincada. Tabela 3.2: Frequências absolutas das pontuações, média e desvio padrão para os 25 itens da escala Nº Item Itens 1 2 3 4 5 Média DP Média1 1 Incomoda-me a informação estatística transmitida em alguns programas da TV 6 11 19 25 10 2,69 * 1,15 3,31 2 A estatística ajuda a entender o mundo de hoje 2 1 4 35 29 0,85 3,73 3 Através da estatística pode-se manipular a realidade 1 0 4 32 34 4,24 * 1,62 0,72 2,93 4 A estatística é fundamental na formação básica do cidadão do futuro 0 0 5 37 29 4,34 0,61 3,53 5 Uso a estatística para resolver problemas do dia-a-dia 1 6 14 49 1 3,47 Na escola não se deveria ensinar estatística 66 5 0 0 0 3,61 ** 4,93 0,73 6 0,26 4,13 7 Divirto-me nas aulas em que se explica estatística 1 1 19 40 10 3,80 0,75 2,91 8 Para mim os problemas de estatística são fáceis 0 6 17 33 15 3,80 0,87 3,81 29 30 7 3 2 4,14 0,96 3,61 2 3 20 35 11 3,70 0,88 3,76 9 10 Não entendo as informações estatísticas que aparecem na imprensa escrita Gosto da estatística porque ela me ajuda a compreender mais profundamente a complexidade de certos temas 11 Sinto-me intimidado(a) perante dados estatísticos 39 19 13 0 0 4,37 0,78 3,74 12 Acho interessante o mundo da estatística 0 2 13 42 14 3,96 0,71 3,23 13 Gosto dos trabalhos sérios onde aparecem estudos estatísticos 1 0 18 35 17 3,94 0,79 3,77 14 Utilizo pouco a estatística fora da escola 7 27 23 12 2 3,35 0,97 3,83 15 Quando eu tive aulas de estatística entendia pouco do que se dizia 19 32 5 13 2 3,75 1,13 3,61 16 A estatística apaixona-me porque ajuda a ver os problemas objectivamente 2 8 29 29 3 3,32 0,84 2,99 17 A estatística é fácil 3 9 14 36 9 3,55 1,01 3,89 18 Percebo melhor os resultados eleitorais quando aparecem com representações gráficas 4 4 13 36 14 3,73 1,03 4,29 19 A estatística só serve para as pessoas da área das ciências 49 20 2 0 0 4,66 ** 0,53 2,87 20 Gosto de resolver problemas quando uso estatística 1 2 15 44 9 0,74 4,31 21 A estatística não serve para nada 62 6 2 0 1 0,71 2,74 22 Se pudesse eliminar algum conteúdo do programa seria a estatística 59 7 2 2 1 3,82 ** 4,76 ** 4,65 0,91 4,06 23 É usual explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não entenderam 8 20 32 10 1 2,66 * 0,90 2,49 24 A estatística ajuda a tomar decisões mais fundamentadas 1 3 10 50 7 3,83 0,72 3,74 25 Quando as leio, evito as informações que tenham estatísticas 1 (Estrada, 2002); * Valores menores que 3; ** Valores maiores que 4,5 36 31 3 1 0 4,44 0,65 4,03 Fonte: Elaborada pelo autor Assim, far-se-á, de seguida, uma análise sucinta dos itens mais valorizados (média superior a 4,5) e dos itens menos valorizados (média inferior a 3). Assim, os itens mais valorizados foram: o item 6 – “Na escola não se deveria ensinar estatística” – com média 4,93 e DP=0,26; o item 21 – “A estatística não serve para nada” – 214 Aspetos metodológicos com média 4,76 e DP= 0,71; o item 19 – “A estatística só serve para as pessoas da área das ciências” – com média 4,66 e DP=0,53; e o item 22 – “Se pudesse eliminar algum conteúdo do programa seria a estatística” – com média 4,65 e DP= 0,90. Realçando que estes quatro itens estão escritos na negativa, ou seja, que a respetiva pontuação foi invertida, estes resultados reforçam, para além da atitude positiva face à Estatística, uma ideia muito forte de que estes professores de Matemática parecem ter plena consciência da importância da Estatística como parte integrante do currículo da Matemática e como ferramenta necessária e abrangente para os cidadãos e para os profissionais dos dias de hoje. Já nos itens menos valorizados, destacam-se apenas três itens que são: o item 3 – “Através da estatística pode-se manipular a realidade” – com média 1,62 e DP=0,72; o item 23 – “É usual explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não entenderam” – com média 2,66 e DP=0,91; e o item 1 – “Incomoda-me a informação estatística transmitida em alguns programas da TV” – com média 2,69 e DP=1,15. O resultado relativo ao item 22 parece indicar uma eventual falta de hábito de colaboração, quer entre colegas da Matemática, quer entre colegas da Matemática e de outras áreas. No que diz respeito aos itens 3 e 1, que são itens com um enunciado negativo relativamente à atitude face à Estatística, surge a suspeita de uma má interpretação do sentido da afirmação por parte de alguns dos respondentes. No primeiro caso, parece que se confundiu Estatística e manipulação de dados e, no segundo caso, surge uma indicação em relação à qualidade da informação Estatística transmitida e não em relação ao facto em si. Análise dos resultados globais Em termos globais, começámos por fazer um estudo da fiabilidade, e obteve-se o valor do coeficiente de consistência interna, alfa de Cronbach, de 0,761. Este coeficiente é um dos mais usados para medir até que ponto a escala está livre de erros de medida, que é verificada, em geral, pela estabilidade da escala, pela consistência de administração e de contagem ou, como é o caso do alfa de Cronbach, pela consistência dos itens, mas esta pode depender da população (Gall, Gall e Borg, 2003, pp. 136-138). Este valor não difere muito do valor obtido no referido estudo de Estrada (2002) e Estrada, Batanero e Fortuny (2004a), 0,774, o que foi um bom indicador da fiabilidade da escala em professores e futuros professores espanhóis e considerado adequado à realidade dos docentes em Portugal. Dado o número reduzido de inquiridos neste estudo prévio, julgamos que este é um valor de fiabilidade razoável, sendo 215 Aspetos metodológicos superior a 0,7 que é o valor acima do qual Gall, Gall e Borg (2003, p. 136) indicam ser considerado suficiente para o caso do alfa de Cronbach (ainda se pode confirmar em Cohen, Manion e Morrison, 2011, p. 640). Além disso, para saber o efeito de cada item na consistência interna da escala realizaram-se mais 25 testes, utilizando apenas 24 itens de cada vez. Para estes 25 testes os valores do alfa de Cronbach obtidos foram consistentes, variando entre o mínimo de 0,738 e o máximo de 0,775. Na análise das percentagens (frequências relativas) da pontuação total obtidas (Gráfico 3.3), pode constatar-se que 98,6% dos respondentes apresentam uma pontuação total superior ao valor de 75 pontos (indiferença). Ainda pode verificar-se que a sua média é de 95,66 pontos (DP=7,99) que corresponde a 76,5% do máximo possível, 125 pontos. O valor mínimo foi de 72 pontos e o máximo de 123 pontos, e 74,6% dos respondentes tiveram pontuações superiores ou iguais a 93 pontos. A lei pontuação total obtida pode considerar-se normal (teste de Kolmogorov-Smirnov, d=0,116, p=0,019, ponto 1 do Anexo II). Gráfico 3.3: Histograma da pontuação total. Fonte: Elaborado pelo autor Análise das relações entre as atitudes e outras variáveis Em seguida analisam-se as relações entre a atitude face à Estatística e as variáveis género, anos de docência de Matemática, ciclo de ensino, área de formação inicial e nível mais elevado de formação estatística. 216 Aspetos metodológicos Quanto à variável género e sua relação com a atitude face à Estatística, as atitudes são positivas para ambos os sexos e não há diferenças estatisticamente significativas das atitudes (pontuações totais) em relação à Estatística entre homens e mulheres (Teste t de Student para amostras independentes com variâncias iguais t(69)= -1,096, p=0,277>0,05120; Teste de Mann-Whitney p=0,159>0,05, ponto 2.1 do Anexo II). Este resultado está de acordo com os resultados de Cazorla et al. (1999) e Estrada (2002), mas é contrário aos resultados de Silva, Cazorla e Brito (1999). Na Tabela 3.3 (toda a informação descritiva na Tabela A do Anexo II), observa-se que o valor da pontuação total média é ligeiramente superior para as mulheres, tal como no estudo exploratório de Estrada (2002)121 com professores em formação e em exercício. Este resultado é contraditório aos obtidos por Cazorla et al. (1999)122 e Estrada (2002)123 em que, apesar de também não haver diferenças significativas entre os géneros, os homens apresentaram atitudes mais positivas. Tabela 3.3: Estatísticas da pontuação total da atitude em relação à Estatística por género Mulheres Homens Contagens, fi 61 10 Percentagens, fri (%) 86 14 Média 96,08 93,10 Desvio padrão 8,141 6,773 51 23 25 89,75 89,75 50 92,50 92,50 75 98,00 98,00 Amplitude Percentis Fonte: Elaborada pelo autor No que diz respeito à variável anos de docência de Matemática versus atitudes (pontuações totais) em relação à Estatística, a atitude, regra geral, é positiva, mas sem diferenças estatisticamente significativas destas atitudes em relação à Estatística entre os anos de docência (ANOVA, F(4;66)=0,23 e p=0,92>0,05; teste de Kruskal-Wallis, H=1,442 e p=0,837>0,05, ponto 2.2 do Anexo II). 120 Mishra (1988, p. 441) “(…) it has became costumary to choose [] as one of a number of usual values that may be called ‘the holy numbers’ .005, .01, .025, .05, .10, 20. Of these, .05 is in the most common use (is the holiest number), whereas .01 is a (…) second in use (with the other choise being rarely used).” 121 Média das mulheres=89,35 e Média dos homens=87,35 (Escala EAEE) 122 Média das mulheres=50,2 e Média dos homens=51,1 (Escala EAE de Cazorla) 123 Média das mulheres=87,05 e Média dos homens=94,44 (Escala SATS-28 itens) 217 Aspetos metodológicos Da análise da Tabela 3.4 (Tabela B do Anexo II), pode constatar-se que o valor de pontuação total média é maior e a dispersão é menor nas faixas de inquiridos com menos anos de docência de Matemática. Além disso, o valor de pontuação total média é menor e a dispersão é maior nas faixas com mais anos de docência. Estes resultados podem estar relacionados com a formação específica em Estatística e a abordagem que os docentes terão tido nas suas formações iniciais. Já se referiu que essa formação tem vindo a ser mais expressiva nos últimos anos, pelo que se supõe que poderá ter tido efeitos ao nível da atitude por parte dos professores em exercício há menos tempo. No entanto, não se pode esquecer que as classes inferior e superior dos anos de docência são as de menor frequência relativa de respondentes (6% e 4% respetivamente). Tabela 3.4: Estatísticas da pontuação total da atitude face à Estatística por anos de docência [0, 5[ [5, 10[ [10, 20[ [20, 30[ [30, 50[ Contagens, fi 4 15 39 10 3 Percentagens, fri (%) 6 21 55 14 4 98,00 96,73 95,38 94,80 93,67 6 14 32 51 12 25 95,75 94,00 91,00 85,00 86,00 50 98,00 98,00 97,00 94,00 97,00 75 100,25 99,00 101,00 101,50 98,00 Média Amplitude Percentis Fonte: Elaborada pelo autor Para a relação entre a variável ciclos de docência e a atitude face à Estatística, os valores de pontuação total média são relativamente altos para todos os grupos, mas não há diferenças significativas, em termos estatísticos, nas atitudes (pontuações totais) em relação à Estatística entre eles (ANOVA F(3;67)=1,30 e p=0,280>0,05; teste de Kruskal-Wallis, H=3,659 e p=0,301>0,05, ponto 2.3 do Anexo II). Na Tabela 3.5 (Tabela C do Anexo II) observam-se valores ligeiramente superiores no caso dos docentes que lecionaram nos 2º e 3º ciclos do EB e nos 1º e 2º ciclos do EB (grupo com menor percentagem de inquiridos), apresentando ainda os maiores valores de dispersão. Pela amostra pequena, estes dados obrigam a uma grande precaução na sua interpretação. No entanto, fica a ideia de que a continuidade entre ciclos poderá favorecer a construção de uma atitude mais positiva, o que poderá vir a ser uma pista para reflexão e exploração mais cuidada no futuro. 218 Aspetos metodológicos Tabela 3.5: Estatísticas da pontuação total da atitude face à Estatística por ciclos de ensino 2º CEB 1º e 2º ciclos EB 3º CEB 2º e 3º ciclos EB Contagens, fi 15 6 33 17 Percentagens, fri (%) 21 8 47 24 Média 95,47 97,83 93,97 98,35 Desvio padrão 7,539 8,796 7,597 8,624 28 26 31 39 25 90,00 91,75 91,50 94,00 50 97,00 100,50 96,00 99,00 75 99,00 102,75 99,00 102,00 Amplitude Percentis Fonte: Elaborada pelo autor Relativamente à variável área de formação inicial, agora apenas dividida em área da Matemática e outras áreas, e sua relação com a atitude face à Estatística as atitudes são positivas para ambos os grupos e parece não haver diferenças estatisticamente significativas nas atitudes (pontuações totais) em relação à Estatística entre os professores com área de formação inicial em Matemática e os das outras áreas de formação inicial (ANOVA F(1;49)=0,23 e p=0,634>0; teste de Mann-Whitney, U=-0,011 e p=0,991>0,05, ponto 2.4 do Anexo II). Tendo presente que houve 20 não respostas (28%), é possível constatar na Tabela 3.6 (Tabela D do Anexo II) um valor de pontuação total média ligeiramente inferior para os professores inquiridos com formações iniciais na área da Matemática. Este resultado não deixa de ser curioso e algo inesperado, sugerindo, também neste caso, o interesse na realização da análise desta relação numa amostra maior de modo a reforçar ou dissipar esta indicação preliminar. Tabela 3.6: Estatísticas da pontuação total da atitude face à Estatística por área de formação inicial Área da Matemática Outras áreas Contagens, fi 40 11 Percentagens, fri (%) 78 22 Média 95,28 96,73 Desvio padrão 8,311 10,900 Amplitude 36 39 25 93,00 86,00 Percentis 50 97,00 98,00 75 100,00 100,00 Fonte: Elaborada pelo autor Em termos da variável nível mais elevado de formação estatística e sua relação com a atitude face à Estatística os valores das atitudes são positivos. Considerando uma 219 Aspetos metodológicos reclassificação para dois níveis, a formação não superior e formação superior não há diferenças estatisticamente significativas nas atitudes (pontuações totais) em relação à Estatística e os níveis de formação estatística (ANOVA F(1;49)=1,887 e p=0,174>0,05; teste de Mann-Whitney com U=-1,766 e p=0,077>0,05, ponto 2.5 do Anexo II). Na Tabela 3.7 (Tabela E do Anexo II), tendo em conta 3 não respostas, constata-se um valor de pontuação total média superior nos professores inquiridos com formação de nível superior, enquanto os de formação não superior, ainda que em percentagem muito reduzida, apresentam uma média cerca de cinco pontos inferior mas com menor dispersão. Este resultado sugere a importância na formação superior dos professores. Por outro lado, a percentagem reduzida dos professores sem formação estatística no ensino superior, bem como a impossibilidade de saber se os que indicaram o nível mais alto de formação estatística no ensino superior também tiveram, ou não, esse tipo de formação ao nível não superior não permite tirar outras ilações. Tabela 3.7: Estatísticas da pontuação total da atitude por nível de formação estatística Formação não superior Formação superior Contagens, fi 5 63 Percentagens, fri (%) 74 26 25 91,20 6,834 18 85,50 96,29 8,035 51 93,00 50 75 92,00 96,50 98,00 100,00 Média Desvio padrão Amplitude Percentis Fonte: Elaborada pelo autor Em resumo, não foram encontradas quaisquer diferenças estatisticamente significativas entre as atitudes em relação à Estatística e as diversas variáveis de caracterização dos respondentes. Porém, volta a realçar-se que a pequena dimensão do conjunto de respondentes impôs limitações a esta análise, sobretudo pela dimensão de alguns dos subgrupos em estudo. Apesar desta condicionante, ficaram algumas indicações interessantes que importará rever num estudo mais alargado. Entre elas, as tendências de as atitudes em termos de pontuações globais terem sido ligeiramente superiores nas mulheres e nos grupos de professores com menos anos de docência, com experiência de docência em mais do que um ciclo, com a área de formação inicial diferente da Matemática e com nível mais elevado de formação estatística no ensino superior. 220 Aspetos metodológicos 3.1.3. Considerações finais A distribuição dos questionários nas pastas do ProfMat 2008 possibilitou a obtenção de respostas de professores de várias partes do país, mas não se revelou uma aposta adequada, pois o número de questionários recolhidos foi reduzido. Este facto não permite generalizações dos resultados, mas também não era objetivo deste estudo preliminar fazê-las. Contudo, foi possível testar de modo exploratório as questões de caracterização dos respondentes, bem como a tradução e o funcionamento da escala EAEE, tendo como referência o estudo similar levado a cabo por Estrada (2002) e Estrada, Batanero e Fortuny (2004a). Relativamente às questões de caracterização dos respondentes foram detetadas as situações que poderiam ser melhoradas. Por exemplo, na questão da variável área de formação inicial, pois foi uma questão com 28% de não respostas pelo que a sua formulação foi clarificada. Também para a variável nível mais elevado de formação em Estatística foi necessária uma mudança, pois tal como estava redigida não permitiu ter uma imagem mais correta do percurso de aprendizagem da Estatística dos professores. Além disso, as questões dos anos de tempo de serviço no ensino básico e os anos de docência de Matemática foram redundantes, pois conduziram a resultados praticamente iguais. Em termos da tradução para português da escala EAEE usada, tanto quanto se constatou, não foi mal interpretada. Apesar disso, foram detetadas interpretações duvidosas nas afirmações dos itens 1 e 3 itens com um enunciado negativo relativamente à atitude face à Estatística pelo que se julgou conveniente refinar a redação portuguesa através de um painel de especialistas em várias áreas por forma a garantir o reflexo da escala original. O facto de para este estudo o valor do coeficiente de consistência interna, alfa de Cronbach, ter sido de 0,749 também foi importante. Este valor é considerado razoável, tendo em conta que o número de questionários obtidos foi pequeno, e é uma indicação positiva da consistência interna da escala no contexto português. Concluiu-se assim que a aplicação da escala EAEE junto de docentes que ensinem Matemática no ensino básico em Portugal era adequada. Além disso, para reforçar esta indicação, muitos dos resultados deste estudo preliminar surgiram em linha com os respetivos resultados de Estrada (2002) e Estrada, Batanero e Fortuny (2004a). Por exemplo, as atitudes em relação à Estatística, de modo geral, terem sido positivas com uma pontuação global média acima da pontuação intermédia (a indiferença) ou o facto de não se ter encontrado uma diferença estatisticamente significativa em relação à variável género. Por fim, o facto de que os professores com formação estatística 221 Aspetos metodológicos superior também terem apresentado uma pontuação total média mais elevada do que os outros professores. Os resultados obtidos neste estudo preliminar devem ser lidos com precaução e com a consciência do grupo estudado ter sido pequeno, apesar de terem dado pistas para reflexão, pesquisas e ações futuras. Como exemplos, surgiram a necessidade de repensar a metodologia da recolha dos dados, a necessidade de se obter uma amostra de maior dimensão ou a intenção de reformular o texto de alguns itens e, ainda, de incluir a análise das componentes pedagógicas e antropológicas das atitudes (Estrada, 2002). Além disso, na segunda fase convirá usar o tratamento estatístico recorrendo a outras metodologias adequadas, como as referidas por Estrada (2002). Todas estas alterações vão no sentido de, na fase seguinte, se poder validar a escala no universo dos professores do ensino básico em Portugal. Além de que os resultados poderam ajudar a perceber as atitudes em relação à Estatística por parte desses professores e de, por essa via, poder propor linhas de ação ao nível da formação, quer inicial quer contínua. Nesse sentido talvez se consigam dar os passos para melhorar os processos de ensino e de aprendizagem da Estatística nas escolas portuguesas ao nível do ensino básico, com consequências benéficas pretendidas no rendimento dos alunos e na motivação para ensinar Estatística e disponibilidade para a mudança por parte dos professores. 3.2. Segunda fase: estudo das atitudes dos professores em relação à Estatística Da análise do enquadramento apresentado, constata-se como motivação para este estudo que: A Estatística já é reconhecida como uma área do saber fundamental na sociedade atual. Houve nas últimas décadas uma “massificação” do ensino da estatística, incorporando- o no currículo do ensino secundário e do ensino básico, acompanhando, de alguma forma, a tendência internacional em relação ao ensino destas matérias. A acompanhar esta generalização do ensino da Estatística, bem como a consolidação da era da informação e da tecnologia, impõe-se um paradigma no binómio ensino e aprendizagem que traz consigo exigências, nomeadamente, a necessidade de adaptação ao nível das práticas pedagógicas e didáticas. 222 Aspetos metodológicos Os currículos nacionais acompanham, de forma geral, estas tendências, embora ainda apresentem desfasamentos significativos em relação a países com maior experiência e investigação nesta área do ensino. Apesar destas diretivas curriculares, talvez a implementação do atual paradigma do ensino da Estatística devesse estar a ter mais sucesso nos vários níveis de ensino. Algumas das razões que são consideradas como tendo influência neste processo, havendo a possibilidade de inter-relação entre elas, são: a falta de formação nesta área para os professores, tanto ao nível dos conhecimentos, como ao nível específico da didática da Estatística, sendo a formação escolar muito “matematizada”; a subvalorização e/ou supervalorização do tema, o que conduz muitas vezes à subalternização do mesmo; alguma falta de interesse e motivação, desconhecimento dos trabalhos realizados a nível mundial sobre ensino da Estatística, assim como dos materiais produzidos, tendo por base novas abordagens com o objetivo de superar as dificuldades estudadas. São cada vez mais importantes e mais numerosos, em Portugal, e sobretudo a nível internacional, os estudos realizados no âmbito do ensino da Estatística, com base na própria Estatística, nas Ciências da Educação e na Psicologia. Em Portugal, um dos assuntos cuja investigação está aparentemente negligenciado é o das atitudes em relação à Estatística e o da sua importância nos processos de ensino e aprendizagem e de adesão a processos de mudança, como os de mudança curricular efetuados ao nível da Estatística no EB em Portugal desde 2007. A possibilidade do estudo das atitudes dos professores em relação à Estatística poder contribuir com indicações para futuras ações concretas ao nível da formação inicial e contínua dos professores. Deste modo poderão concorrer para melhorar os processos de ensino e aprendizagem da Estatística no EB, com reflexos positivos no rendimento dos alunos e nas suas atitudes em relação à Estatística, bem como no desenvolvimento profissional dos próprios professores. Em suma, mais uma vez, fica patente que as questões ligadas às atitudes também deverão ser tidas em conta nos processos de ensino e aprendizagem da Estatística, assim como no processo de formação, quer dos futuros professores, quer dos professores em exercício. Esta temática é importante em todos os níveis de ensino o que foi evidente na análise realizada na amostra dos 2º e 3º ciclos EB. Contudo, os 1º e 2º CEB surgem como dois ciclos 223 Aspetos metodológicos do mesmo nível de ensino e constituem o início formal da abordagem da Estatística nos jovens alunos e apresentam, além disso, uma lógica de relação de ciclo de ensino e aprendizagem próxima e de continuidade, apesar de também terem diferenças. Mais, ao longo do tempo (referidos no primeiro capítulo - Enquadramento), são ciclos onde a formação dos professores se tem revelado bastante heterogénea. Por este motivo, a segunda fase direcionouse para o estudo das atitude dos professores em exercício dos 1º e 2º ciclos do EB. A motivação acrescida deste trabalho deve-se ainda à existência de uma tese de doutoramento (Estrada, 2002) que aborda as atitudes em relação à Estatística focadas nos professores com base numa escala específica, que se diferencia das outras escalas que são direcionadas para medir essencialmente as atitudes em relação à Estatística de alunos. Esta escala, validada no contexto espanhol, já esteve na base de vários estudos, tanto aplicados na realidade espanhola, como também na realidade peruana, como referido no capítulo anterior. Além disso, no estudo preliminar realizado no contexto português, ainda que com professores do 2º e do 3º ciclos do EB, os resultados confirmam a validade desta escala para a realidade portuguesa. Como ficou patente nos capítulos anteriores, tem-se estado a assistir nos últimos tempos a um significativo investimento na investigação relativa à educação estatística e, em particular, também em relação às atitudes, pelo que se pode beneficiar das investigações realizadas como marcos teóricos de referência. Perante este enquadramento, é necessário definir o problema, pois toda a investigação implica a definição de um problema que é uma questão que suscita o interesse do investigador e deve apresentar-se com clareza, para que explicite exatamente o que se pretende estudar e se torne possível a aplicação de métodos empíricos para o fazer (Cohen, Manion e Morrison, 2011). Por sua vez, os mesmos autores referem que a natureza do problema formulado guia todas as etapas do trabalho científico. Assim, com base nestes pressupostos, o tema proposto para este trabalho de investigação é o estudo das atitudes em relação à Estatística dos professores do 1º ciclo do ensino básico e dos professores que lecionam Matemática no 2º ciclo do ensino básico em Portugal. Neste trabalho procurou-se realizar uma investigação por forma a analisar criticamente, avaliar e sintetizar o tema proposto, permitindo um alargamento das fronteiras do conhecimento neste campo e uma divulgação dessas mesmas ideias junto da comunidade científica e académica e da sociedade em geral. 224 Aspetos metodológicos A revisão bibliográfica efetuada permitiu o estabelecimento de um quadro conceptual e o esclarecimento de aspetos metodológicos e de conteúdo, enquadrando, orientando e alicerçando a investigação através de conceitos definidos e o fornecimento de hipóteses que se pudessem testar pela verificação empírica. Deste modo apresenta-se de seguida a explicitação dos objetivos, das variáveis, das hipóteses, da escala usada, da amostra e do processo de recolha e de análise estatística de dados. 3.2.1. Objetivos Como objetivo geral do trabalho proposto surge a avaliação e caracterização das atitudes relativamente à Estatística dos docentes do 1º e 2º ciclos do EB português, a análise das suas componentes e o estudo do efeito de algumas variáveis sobre essas mesmas atitudes. Neste contexto, através do instrumento de medida selecionado, a EAEE (Estrada, 2002), pretende-se avaliar a atitude global em relação à Estatística por parte dos professores, mas também, de forma diferenciada, avaliar as componentes fundamentais das atitudes (componentes pedagógicas – cognitiva, emocional e comportamental – e componentes antropológicas – social, educativa e instrumental), reforçando, ao mesmo tempo, o estudo das características psicométricas da escala. Além disso, procura-se perceber algumas das raízes e motivações das atitudes destes atores da implementação do processo de ensino-aprendizagem através da introdução de respostas abertas em alguns dos itens da escala usada, em que se solicitaram as justificações escritas das pontuações atribuídas nesses itens. Ainda se pretende estudar o efeito de algumas variáveis relativas aos inquiridos sobre as atitudes em relação à Estatística dos professores e, para tal, acrescentou-se à escala EAEE um questionário com as referidas variáveis. Nesse sentido, é preciso identificar e aprofundar o conhecimento sobre as atitudes em relação à Estatística por parte dos professores, com base nos fatores referidos. Além disso, espera-se poder depois lançar pistas e caminhos com vista à introdução de uma pedagogia das atitudes e poder propor ações e intervenções preventivas e/ou corretivas na perspetiva do seu ensino. Estas intervenções deverão ser baseadas na planificação e estruturação de atividades de formação estatística para professores, tanto na formação inicial, como na formação ao longo da vida. Deste modo, e ainda que de forma indireta, poderão influenciar e contribuir de modo positivo para melhorar o ensino da Estatística e o seu sucesso, em particular ao nível dos resultados formativos e do próprio processo de ensino. No entanto, não se pode esquecer 225 Aspetos metodológicos que estimular atitudes positivas neste âmbito implica responder também às necessidades dos professores que são motores do ensino e da aprendizagem e, simultaneamente, do seu próprio desenvolvimento profissional. Além disso, ambiciona-se que este estudo possa contribuir para a integração e/ou o reforço de uma visão mais integral e holística nos objetivos atitudinais dos objetivos gerais do ensino da Estatística, em especial nos ciclos abrangidos pelo estudo. Tendo como base as questões de fundo formuladas, têm-se como objetivos específicos deste estudo: Conhecer as atitudes em relação à Estatística dos professores do 1º e 2º ciclos do EB português (em termos globais e de componentes). Determinar se existem, ou não, diferenças significativas entre as atitudes globais dos docentes dos dois ciclos em estudo. Indagar da existência, ou não, de relações significativas entre a atitude dos professores e variáveis pessoais e escolares (o género, anos de docência, área de formação ou especialidade, nível de estudo da estatística). Perceber a necessidade e vias de intervenção diferenciadora/específica na introdução/fortalecimento da componente das atitudes (em termos globais e de componentes) ao nível da formação de professores, tanto na inicial, como na contínua, para estimular as atitudes positivas em relação à Estatística dos professores e, em simultâneo, melhorar a sua perceção da utilidade e importância da Estatística na sociedade, no quotidiano de todos e na prática docente. Estudar transculturalmente as diferenças e semelhanças entre a situação das atitudes em relação à Estatística dos professores em Portugal e em Espanha e Peru. 3.2.2. Hipóteses As hipóteses em investigação são a formulação de eventuais relações entre duas ou mais variáveis, supondo-se respostas prováveis e provisórias aos problemas objeto de investigação. Em relação ao problema, a hipótese é uma afirmação ainda mais específica, uma vez que indica os resultados previstos, ou soluções num determinado estudo (Vieira, 1995; Cohen, Manion e Morrison, 2011; Creswell, 2012). Deste modo, a formulação das hipóteses exige uma considerável reflexão sobre o problema de estudo e conhecimento das investigações prévias (Estrada, 2002, referindo Foz, 1981). As hipóteses são ainda 226 Aspetos metodológicos instrumentos de orientação da própria investigação, que facilitam a seleção dos dados e a organização da respetiva análise, podendo surgir de observações, da experiência do investigador e/ou da revisão da literatura existente, podendo ser (ou não) suportadas por informação estatística e/ou por outros argumentos. Deste modo as hipóteses de investigação, que serão confirmadas ou infirmadas no decorrer do trabalho de investigação, constituem-se como o fio condutor de qualquer trabalho de pesquisa empírica. Assim, partindo-se destas premissas, da análise dos dois capítulos anteriores e do referido neste, formularam-se as seguintes hipóteses. Hipótese 1 (H1): As atitudes em relação à Estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português têm características significativamente diferentes. Esta hipótese surge na sequência da constatação de que o ensino da Estatística foi implementado há menos tempo e de forma individualizada no 1º CEB do que no 2º CEB, razão pela qual os primeiros terão menor contacto profissional com a Estatística, individualizada como tema de ensino. De igual forma, também a formação inicial dos docentes destes dois ciclos é em muitos casos diferente ao nível da Matemática e da Estatística, sendo em geral menor a carga e a especificidade no caso dos professores do 1º CEB, apesar da heterogeneidade das formações iniciais, sobretudo nos professores do 2º CEB. Apesar das características de cada um dos professores, da formação que tiveram no ensino obrigatório, e da influência crecente quase permanente da Estatística no quotidiano, julga-se que os dois aspetos referidos de início podem provocar diferenças nas atitudes (pontuações totais) destes dois grupos de professores. Hipótese 2 (H2): As atitudes em relação à Estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português estão significativamente relacionadas com o género. Hipótese 3 (H3): As atitudes em relação à Estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português estão significativamente relacionadas com os anos de docência. 227 Aspetos metodológicos Hipótese 4 (H4): As atitudes em relação à Estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português estão significativamente relacionadas com a área de formação ou especialidade. Hipótese 5 (H5): As atitudes em relação à Estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português estão significativamente relacionadas com o nível de estudo da Estatística. Hipótese 6 (H6): As atitudes em relação à Estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português estão significativamente relacionadas com o facto de terem lecionado, ou não, Estatística. Estas cinco últimas hipóteses envolvem a relação entre as atitudes face à Estatística e algumas variáveis de caracterização pessoal e escolar dos professores. Para além disso, são pertinentes, pois já foram questões levantadas em vários estudos (que apresentam até resultados contrários em função da realidade de aplicação dos mesmos, e.g., pontuações totais e género discutido no capítulo anterior) embora poucos deles estejam focados nos professores em exercício. No entanto, e apesar de se esperar na amostra, como na população, uma percentagem de mulheres muito maior que de homens, ou uma grande heterogeneidade das áreas ou especialidades de formação, julga-se também importante indagar estas relações, no presente contexto, por forma a compreender melhor a problemática envolvente e poder intervir de forma mais diferenciada e especializada no sentido de potenciar atitudes mais positivas dos professores em relação à Estatística. Considerando o conjunto de relações subjacentes às hipóteses estabelecidas para dar respostas aos objetivos definidos para este trabalho de investigação, outras relações e interrelações podiam ser procuradas. No entanto, deixar-se-ão essas outras relações para futuras investigações. 3.2.3. Variáveis O plano de investigação também exige a identificação de variáveis e respetivos indicadores a controlar ao longo do estudo, uma vez que estas são conceitos operacionais, ou seja, são as unidades de análise que representam observações e são fundamentais para a 228 Aspetos metodológicos implementação e concretização com sucesso do estudo. Creswell (2012) reforça esta ideia definindo variável como “(…) a characteristic or attribute of an individual or an organization that (a) researchers can measure or observe and (b) varies among individuals or organizations studied (…). They are key ideas that researchers seek to collect information on to address the purpose of their study” (Creswell, 2012, p. 112) As variáveis independentes são conceitos usados em investigação para descrever um comportamento mensurável e observável. Segundo Coutinho (2005), a variável independente é aquela que o investigador seleciona ou trata de forma a determinar os seus efeitos noutras variáveis e é independente de qualquer ação por parte do sujeito da experiência. No que se refere à variável latente, usada por Hill e Hill (2000), esta representa uma variável que não é mensurável ou observável de forma direta, mas que pode ser definida a partir de um grupo de variáveis (observáveis e mensuráveis de forma direta) que medem algo em comum, em particular a referida variável latente. Em termos da medida, as variáveis podem ser classificadas como qualitativas ou quantitativas (Cohen, Manion e Morrison, 2011). As primeiras estão associadas à escala nominal (o nível mais baixo de informação medida), em que os elementos são atributos ou qualidades e os números servem apenas para identificar ou categorizar esses mesmos elementos, ou à escala ordinal em que em relação a cada atributo ou variável apenas podem ser distinguidos diferentes graus e em que os números são atribuídos de maneira a que se mantenha a relação de ordem. No entanto, segundo Hill e Hill (2000, p. 111), quando o respondente tem que avaliar um item em termos de uma variável, e se a distribuição for unimodal e aproximadamente normal, “é vulgar tratar os valores numéricos ligados com as respostas como tendo sido obtidos através de uma escala métrica”, com as consequências que isso pode ter em termos das estatísticas que podem ser aplicadas, em particular a aplicação de testes paramétricos. Estes autores propõem para este caso que a escala se denomine por escala de avaliação, diferenciando-a das escalas métricas referidas a seguir. As segundas, as variáveis quantitativas, são mensuráveis e estão associadas ou a escalas de intervalo ou a escalas de razão. Nas escalas de intervalo o zero é um valor arbitrário e que não representa a ausência da característica medida e os números são usados de maneira a que haja uma correspondência igual entre a diferença entre os números e a diferença nas quantidades do atributo medido. Nas escalas de rácio ou de razões, que diferem 229 Aspetos metodológicos das de intervalo pelo facto do zero denotar a ausência da característica medida, pelo que duas observações podem ser comparadas através de razões. Estas variáveis quantitativas podem ainda ser classificadas como discretas ou contínuas, conforme assumam um número finito ou infinito numerável de valores ou um qualquer valor num intervalo, respetivamente. Estabelecido o objetivo geral e os objetivos específicos, bem como as hipóteses associadas ao estudo, passa-se a definir as variáveis envolvidas neste estudo. A variável latente e a principal em estudo é a atitude em relação à Estatística dos professores do 1º e 2º ciclos do EB. Procurar-se-á inferi-la a partir das respostas dos indivíduos da amostra aos 25 itens de Likert da escala de atitudes EAEE que são variáveis qualitativas associadas a uma escala de avaliação com cinco opções (valores de 1 a 5, como já se apresentou). A medição das atitudes em relação à Estatística será obtida através da pontuação total na escala de atitudes escolhida, a EAEE, e que envolve as componentes pedagógicas (afetiva, cognitiva e comportamental) e antropológicas (social, educativa e instrumental), como também já se descreveu no capítulo anterior. Variável principal: Variável 1 (V1): a atitude em relação à Estatística dos professores dos 1º e 2º ciclos do ensino básico português. Relativamente às variáveis independentes, que são aquelas cujo efeito diferenciado sobre as atitudes em relação à Estatística se procura estudar, apresentam-se oito variáveis. Destas oito variáveis independentes, as duas primeiras referem-se a características pessoais dos professores da amostra, as variáveis pessoais. Destas a primeira variável é o género, feminino ou masculino, que é uma variável qualitativa de escala nominal. Uma das variáveis independentes usadas neste tipo de estudos aparece conjuntamente com o género, a variável quantitativa idade (em anos completos), é discreta e definida numa escala de razões. As restantes seis variáveis independentes referem-se a fatores que caracterizam a situação académica ou educativa e profissional dos professores questionados, variáveis escolares. A primeira é o tempo de serviço no ensino básico que é uma variável quantitativa contínua de escala de razões. Para termos de estudo sobre o efeito nas atitudes em relação à Estatística, e uma vez que melhor dá a ideia da formação recebida e da experiência letiva vivida, considerou-se que esta variável (os anos de docência) complementava a informação da 230 Aspetos metodológicos variável idade dos professores. Para além de servir de controlo para “os anos de docência”, esta variável permite mais um nível de comparação entre o grupo de respondentes e a população para a qual estão disponíveis esses tipos de dados. O ciclo do ensino básico em que leciona Matemática, 1º ciclo ou 2º ciclo, foi outra variável considerada que é qualitativa de escala nominal. Esta variável é importante uma vez que esta investigação das atitudes em relação à Estatística está centrada nestes dois grupos. Assim, da sua análise poderão surgir eventuais propostas diferenciadas de ação ou intervenção ao nível da formação inicial e/ou contínua dos docentes destes dois níveis do ensino básico. Surge, ainda, como variável a área ou especialidade da formação inicial do professor, variável qualitativa de escala nominal. Neste estudo, pretende-se verificar se esta variável tem efeito nas atitudes em relação à Estatística, até pela heterogeneidade das formações dos professores destes dois níveis do ensino. A formação complementar realizada pelos docentes aparece como mais uma variável qualitativa de escala nominal. Esta variável poderá possibilitar outro nível de comparação entre o grupo de respondentes e a população de professores para a qual estão disponíveis estes dados. Além disso, a variável qualitativa nível académico de estudo da Estatística, de escala nominal, é uma das variáveis escolares consideradas, pois acredita-se que é uma variável com possível influência nas atitudes em relação à Estatística por parte dos professores. Finalmente, a última variável escolar incluída, qualitativa de escala nominal, corresponde ao facto do docente já ter, ou não, lecionado Estatística. Variáveis Independentes: Variável 2 (V2): Género. Variável 3 (V3): Idade (em anos completos). Variável 4 (V4): Anos de tempo de serviço no ensino básico. Variável 5 (V5): Ciclo de ensino em que leciona Variável 6 (V6): Área ou especialidade da formação inicial. Variável 7 (V7): Formação complementar à inicial. 231 Aspetos metodológicos Variável 8 (V8): O nível de estudo da Estatística. Variável 9 (V9): Lecionação de Estatística. 3.2.4. Instrumento de recolha de informação No seguimento do tema de investigação e da estrutura conceptual deste estudo, a estratégia de investigação alicerça a necessidade de tomar decisões sobre a obtenção de informação e as técnicas de apresentação e análise dessa mesma informação. Deste modo, é essencial a definição do ou dos instrumentos de recolha de dados e do método para essa recolha, que são os temas que se abordam neste ponto e no seguinte. A técnica usada com o fim de obter a informação necessária para o desenvolvimento deste trabalho, foi a de inquérito por questionário de opinião, permitindo desta forma recolher informações de vários sujeitos, num relativo curto espaço de tempo. Observe-se que o questionário pretendeu medir as atitudes dos professores em relação à Estatística, e não verificar e/ou testar se as mesmas estavam, ou não, a ser desenvolvidas na prática. Assim, será usada uma escala de atitudes que é um procedimento para determinar diferenças de intensidade relativamente a algum objeto de atitude, neste caso a atitude em relação à Estatística (referido no capítulo anterior), assumindo-se uma correspondência entre as pontuações atribuídas e a intensidade das atitudes. Além disso, as escalas e, de um modo geral, os questionários, como indica toda a bibliografia sobre métodods de investigação, o (e.g. Ghiglione e Matalon, 2001; Gall, Gall e Borg, 2003), apresentam como vantagens o facto de possibilitarem o anonimato, darem ao inquirido o tempo necessário para pensar antes de responder, poderem ser administradas a muitas pessoas ao mesmo tempo, proporcionarem uma certa uniformização no sentido em que cada pessoa responde exatamente à mesma pergunta, poderem ser administradas por terceiras pessoas sem a perda de fiabilidade dos resultados e, em geral, os dados obtidos facilitarem a sua análise e a sua interpretação do que no caso dos dados obtidos através de repostas orais ou respostas abertas. Em contraponto a estas vantagens, várias referências (e.g. Ghiglione e Matalon, 2001; Cohen, Manion e Morrison, 2011) indicam que este processo de obtenção de informação implica muitos 232 Aspetos metodológicos cuidados na formulação das questões e do texto usado e na ordenação das mesmas, bem como na prevenção de não respostas. As escalas de atitudes mais utilizadas, e que foram validadas em estudos anteriores, são, em geral, escalas de tipo Likert, maioritariamente multidimensionais, compostas por várias proposições, cada uma com cinco ou sete opções que correspondem (de forma crescente) ao grau de concordância do inquirido com a proposição respetiva, devendo estas proposições apresentar o objeto da atitude (no presente caso a Estatística) a partir de diferentes situações (reais, variadas e compreensíveis), com redações simples e claras e uma apresentação sequencial das mesmas adequando a linguagem ao público-alvo e potenciando situações individuais em detrimento das de grupo, de forma a minimizar a ambiguidade (Hill e Hill, 2000). No seguimento da revisão bibliográfica do capítulo anterior, e em particular a que incidiu sobre escalas de atitudes em relação à Estatística já experimentadas e validadas, optou-se pela escala de atitudes em relação à Estatística EAEE (Estrada, 2002). A EAEE foi a escala que apresentou maior proximidade com o estudo atual por ter sido desenvolvida visando os professores em formação ou em exercício e permitir assim uma análise cabal do tema proposto, possibilitando dar resposta ao objetivo geral, aos objetivos específicos e às respetivas hipóteses formuladas, e também tendo em conta o contexto social e escolar específico desta investigação. Recorde-se que a EAEE (Estrada, 2002) foi concebida a partir de três escalas existentes e utilizadas por vários investigadores para medir as atitudes em relação à Estatística a SAS, a ATS e a EAEA, já descritas combinando algumas das suas características, mas de modo a contemplar em simultâneo as componentes pedagógicas e antropológicas, mencionadas no capítulo anterior. Na sua construção foi delimitado o conteúdo a avaliar às atitudes dos professores em relação à Estatística e às suas diferentes componentes e, de seguida, especificou-se que os itens seriam constituídos por enunciado e por escala de Likert de cinco pontos. Esta opção teve como princípio ter uma resposta central que indicasse neutralidade e que o número de opções não ultrapassasse a capacidade diferenciadora dos inquiridos. Deste modo, elaborou-se a lista dos itens das três escalas mencionadas, incluindo a tradução para espanhol dos itens das escalas em inglês, eliminando as redundantes ou as consideradas pouco adequadas ao contexto. No início, essa lista era constituída por 40 itens e, posteriormente, adequando as proporções dos enunciados pelos dois tipos de componentes 233 Aspetos metodológicos (pedagógicas e antropológicas), por 36 itens. Esta lista, segundo Estrada (2009a, p. 136), foi construída com base nos seguintes critérios: 1. Contemplar as diferentes componentes que foram definidas no estudo, tratando de dar um peso equivalente a cada uma delas; 2. Apresentar os enunciados sobre atitudes em relação à Estatística a partir de diferentes estereótipos, situações variadas e reais, familiares aos professores; 3. Simplificar ao máximo a redação dos ítens para diminuir a sua ambiguidade; 4. Potenciar as situações individuais em detrimento das coletivas para aumentar o comprometimento do respondente; 5. Evitar detalhes desnecessários, estabelecer a relevância das preguntas formuladas para o estudo, definir um nível de leitura adequado, evitar questões enviesadas ou interdependentes e fazer prevalecer a falta de ambiguidade; 6. De igual forma foram incluídos tanto itens redigidos na forma afirmativa (“A estatística ajuda a entender o mundo de hoje”) como outros na forma negativa (“Na escola não se deveria ensinar estatística”). Com isso pretendeu-se evitar o problema da aquiescência (Morales, 1988, referido por Estrada, 2009a), em que alguns sujeitos tendem a responder com a opção "de acordo" seja qual for o conteúdo do item. Os 36 enunciados selecionados foram submetidos a um painel de cinco especialistas, no sentido de assinalarem a sua opinião sobre a unicidade ou não ambiguidade dos enunciados, bem como uma valorização dos mesmos relativamente à importância para as diferentes componentes das atitudes. Os referidos peritos eram professores com mais de dez anos de experiência, e ensinavam Estatística ou utilizavam-na como ferramenta no seu trabalho. Na sequência das valorizações atribuídas aos enunciados pelos elementos do painel foram eliminados os enunciados que foram considerados ambíguos por dois ou mais dos especialistas ou que obtiveram pontuações médias inferiores a 3,5 (Estrada, 2002). Desta forma a lista final ficou com 25 itens (Anexo III), 14 deles redigidos na forma positiva e 11 na forma negativa. Segundo Estrada (2002, pp. 139-139) os 25 itens ficaram distribuídos segundo as seguintes linhas orientadoras: a) “A Estatística é a técnica que analisa a informação, a organiza e apresenta da forma mais fácil possível para a correta interpretação”, que está refletida nos itens 1, 3, 9, 12, 17, 21 e 25; 234 Aspetos metodológicos b) "Não é um conjunto de fórmulas para resolver problemas, nem é só útil para os temas de ciências", nos itens 5, 11, 13, 14, 19 e 22; c) "É uma ajuda e/ou ferramenta para resolver situações problemáticas nas diferentes áreas de conhecimento, assim como para formular juízos mais objetivos e racionais sobre os fenómenos coletivos", nos itens 2, 3, 9, 10, 12, 13, 16, 20, 21 e 24; d) "A Estatística é uma parte essencial da educação geral do futuro cidadão", nos itens 1, 2, 4, 5, 6, 7, 8, 15, 18, 23 e 25. Por outro lado, a correspondência biunívoca entre os itens da escala e as dimensões pedagógica e antropológica surge na Tabela 3.8. Tabela 3.8: Correspondência entre os itens e as componentes das atitudes avaliadas na escala EAEE Componentes antropológicas Componentes Pedagógicas Social Educativa Instrumental Afetiva 1, 11, 25 7, 12, 23 10, 13, 16, 20 Cognitiva 2, 19, 21 4, 6, 17 3, 24 Comportamental 9, 18 8, 15, 22 5, 14 Fonte: Elaborada pelo autor com base na tabela 3.3 em Estrada, 2002, p. 139 Uma primeira tradução para português desta escala (Anexo I) foi feita pelo investigador e aplicada no estudo preliminar apresentado (ponto 3.1.1 deste capítulo). No entanto, por algumas das indicações desse estudo preliminar, decidiu-se submeter a tradução inicial à opinião e parecer de um painel de especialistas. Tal foi feito como parte da sua validação para se ter a garantia de que a tradução final fosse o mais fiel possível ao espírito da escala original, tendo em conta as especificidades do contexto social e educativo português, assim como da língua portuguesa. Os cinco elementos do painel eram todos professores universitários, de várias universidades portuguesas e com mais de dez anos de experiência no ensino, sendo o grupo composto por dois matemáticos, dois estatísticos e um psicólogo, todos especialistas em educação matemática e/ou estatística. Esta escolha abrangeu especialistas com conhecimento sobre várias perspetivas do ensino da Estatística e dos seus atores nos vários níveis de ensino. Assim, depois de serem convidados e de terem aceitado colaborar na validação da tradução para português da escala EAEE em espanhol foi enviado a cada um dos participantes no painel um documento (Anexo IV) para a sua avaliação em que se descrevia o âmbito da colaboração e nele constavam, para além das versões em espanhol e em português (proposta) dos enunciados dos 25 itens da escala EAEE, uma escala de cinco pontos para classificar a referida proposta de tradução e, ainda, um espaço para a indicação das sugestões 235 Aspetos metodológicos de alteração. Desta forma, cada um dos juízes do painel classificou de 1 (nada adequada) a 5 (totalmente adequada) a tradução proposta para o enunciado de todos itens. Além disso, fizeram as suas sugestões no sentido de melhorar a tradução proposta, mantendo o sentido do enunciado original. Desta forma, depois de recolhidos e analisados os contributos de todo o painel, e uma vez que nenhuma das propostas obteve uma pontuação média inferior a 3,5, decidiu-se fazer as alterações indicadas por três ou mais elementos do painel. Deste processo de validação da tradução resultou o instrumento de medição (Anexo V) usado neste estudo, em que se fizeram modificações de pormenor em três dos itens, nomeadamente no item 8 (item 22 do Anexo IV), no item 11 (item 4 do Anexo IV) e no item 22 (item 18 do Anexo IV). Além disso, McGuire (1989) defende que a informação não avaliativa das componentes das atitudes deveria ser investigada de forma mais adequada e sugere a possibilidade de haver respostas semiabertas. Nalguns trabalhos sobre atitudes em relação à Estatística também têm utilizado abordagens multi-metodológicas (Estrada, Bazán e Aparício, 2010b; Estrada, Batanero e Lancaster , 2011; Griffith et al., 2012). Deste modo, nesta investigação associou-se a nove dos itens da EAEE (1, 3, 7, 14, 16, 19, 21, 22 e 23) a possibilidade de que os professores expressassem de forma aberta as suas razões/motivações para a pontuação atribuída aos mesmos. Assim, conseguiu-se aprofundar a reflexão sobre as atitudes em relação à Estatística dos professores, bem como a suas razões e/ou motivações. Estes itens com pedido de justificação (1, 3, 7, 14, 16, 19, 21, 22 e 23) foram escolhidos por terem apresentado as médias mais baixas nos trabalhos de Estrada (2002), Estrada, Batanero e Fortuny (2004a), Estrada, Bazán e Aparício (2010b) e Martins, Estrada e Nascimento (2011), e por se julgar que ajudarão a atingir alguns dos objetivos estabelecidos. A restrição desta possibilidade a apenas 9 dos 25 itens teve também a ver com o facto de se julgar que a inclusão de mais itens abrangidos pela possibilidade de justificação, mesmo que de livre preenchimento, poderia potenciar as não respostas, não só nas justificações, mas também dos outros itens. Estes pedidos de justificação acrescentados à avaliação da afirmação podem ter altas taxas de não repostas pois, segundo Ghiglione e Matalon (2001, p. 113), “provocam facilmente irritação das pessoas que têm maior dificuldade em responder e que pensam que essas questões são indiscretas, sobretudo se se repetem”. Além disso, estas questões podem servir de apoio a quem interpreta os resultados, alargando a noção que se tem do fenómeno estudado através da visão que os inquiridos têm das situações propostas e dos significados que atribuem aos vários fatores. Como se viu, posteriormente também é necessário agrupá-las por 236 Aspetos metodológicos categorias em número relativamente pequeno, que deverá ser adequado ao problema em estudo e seus objetivos, deverá ser fácil de aplicar e evitar que seja pouco discriminativo. O instrumento de recolha de informação usado (Anexo V) contém também no início uma caixa com um conjunto de indicações sobre o âmbito da investigação, incluindo a instituição tutelar para reforçar a credibilidade, e algumas indicações precisas, claras e curtas de como deve ser preenchido o questionário, como é usual (e.g. Hill e Hill, 2000, pp. 161166; Cohen, Manion e Morrison, 2011, pp. 399-402) Para além disso e da escala EAEE traduzida, o questionário tem uma parte para a caracterização pessoal (variáveis pessoais), profissional e académica dos professores (variáveis escolares), constituída por oito questões. Estas questões, apesar de serem de caracterização dos respondentes e por isso serem pessoais, julgou-se serem objetivas e ao contrário de provocar uma reação negativa que poderiam até dar uma sensação de pertença ao grupo e servir de apresentação antes das respostas ao problema do estudo propriamente dito, como foi feito no estudo prévio com bons resultados. Por este motivo e ao contrário do sugerido por Ghiglione e Matalon (2001) não foram colocadas no fim do questionário. Por isso esta caracterização pessoal, profissional e académica dos professores foi colocada no início do questionário (Hill e Hill, 2000) como constituindo a primeira secção do questionário. A primeira questão indaga sobre o género e é uma questão fechada com as opções feminino e masculino. A segunda pergunta é sobre a idade e está formulada como questão aberta o que permite que a resposta seja medida numa escala de rácio, tornando possível agrupar os dados por classes. A terceira questão é sobre o tempo de serviço no ensino básico, que é uma pergunta fechada com seis opções para facilitar o preenchimento e não haver confusões com a pergunta anterior. Além disso, nesta questão as classes definidas têm amplitudes distintas, usando amplitudes menores nas classes iniciais, para captar melhor a distribuição dos professores com menor experiência letiva, e amplitude maior na última classe de maneira a garantir que a situação fosse exaustiva, não excluindo de resposta nenhum inquirido. A quarta pergunta é sobre o ciclo do ensino básico em que o professor leciona Matemática, com as opções 1º ciclo ou 2º ciclo, sendo uma questão fechada. Sabe-se que algum dos professores já lecionaram em mais do que um ciclo, mas julgou-se pertinente questionar sobre o ciclo do ensino básico em que os professores se consideram enquadrados atualmente. A quinta questão é sobre a área ou especialidade da formação inicial do professor, que é uma pergunta aberta, pois era esperada alguma heterogeneidade das formações dos professores destes dois níveis do ensino. Como foi referido, estas questões levantam o 237 Aspetos metodológicos problema da sua codificação. A pergunta seguinte é sobre a formação complementar realizada pelos docentes, que é do tipo fechada, de resposta múltipla e com a opção de não ter feito nenhuma e a de ter feito e, neste caso, o inquirido tem quatro opções, incluindo uma correspondente a outro tipo de formação, com a possibilidade de especificar, em cada uma delas, a formação realizada. Apesar da lista de opções de resposta permitir que todos os respondentes usem a mesma nomenclatura, a última opção permite incluir quem não se sinta enquadrado pela lista das três opções anteriores, que são as que se julgaram mais comuns. Desta forma tentaram evitar-se enviesamentos devidos ou ao alargamento do campo do aceitável, aos olhos do inquirido, ou ao seu restringimento (Ghiglione e Matalon, 2001). Também a sétima pergunta é do tipo fechado, e de escolha múltipla, e é sobre o nível académico de estudo da Estatística. Nesta questão surge a opção de não ter tido nenhuma aula de Estatística, a de não ter tido nenhuma aula de Estatística mas ter aprendido sozinho e a de ter tido aulas de Estatística e, nesse caso, o inquirido tem quatro opções, incluindo uma correspondente a ter aprendido noutro âmbito, permitindo-se a indicação desse outro âmbito. Finalmente, pergunta-se ao professor se já ensinou ou não Estatística, sendo uma questão fechada com a opção de nunca ter lecionado Estatística ou de já o ter feito e, nesse caso, o inquirido tem quatro opções que estão relacionadas com o ou os ciclos em que o fez, e esperase que a lista de opções apresentada se refira à totalidade das possibilidades de resposta. Nas escalas, e em geral nos inquéritos por questionário, simultaneamente com o texto das questões, a ordem pela qual estas são colocadas também é importante (Ghiglione e Matalon, 2001). No entanto, uma vez que foi incluída a possibilidade do inquirido poder apresentar a justificação da sua pontuação em nove dos itens da escala, houve uma troca da ordem original dos itens da escala EAEE (Anexo VI). Assim, esses nove itens foram agrupados e colocados antes de todos os outros, por forma a dar alguma coerência ao preenchimento do questionário. Contudo, nesses dois subgrupos foi mantida a ordem da escala original, preservando assim, como na EAEE, uma certa variedade na forma das questões, evitando a ideia de monotonia, e o não agrupamento por tema (ou componente) de modo a “evitar que as respostas sejam enviesadas pela preocupação de coerência” (Ghiglione e Matalon, 2001, p. 113). O instrumento tem um número total de três páginas, o que não se considerou excessivamente longo e, portanto, dissuasor a priori para os inquiridos. Por outro lado, o tempo necessário para o preenchimento do questionário, mesmo justificando todas as pontuações nos nove itens referidos (questões abertas), estaria bastante abaixo dos 45 minutos, que é indicado por Ghiglione e Matalon (2001) como duração máxima quando a 238 Aspetos metodológicos aplicação é feita em boas condições, como aconteceu neste estudo e será descrito no ponto seguinte. Este questionário foi registado com sucesso na Direção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular (DGIDC), tendo o pedido de autorização sido analisado e aprovado com o número de registo 0131500001. No registo na DGIDC constavam a designação, uma descrição, os objetivos e o universo do estudo, a periodicidade, o período e o método de recolha de dados, e ainda a cópia do questionário. 3.2.5. Amostragem e processo de recolha de dados No seguimento da necessidade de informação, a estratégia de investigação pressupõe também a tomada de decisões sobre a obtenção de informação, nomeadamente a clarificação do universo e amostra do estudo e, ainda, a descrição dos procedimentos de recolha de informação. No trabalho de campo decorrente da recolha de informação devem-se tentar minimizar os erros e os enviesamentos, garantindo, tanto quanto possível, a qualidade dos dados e da amostra, definindo e justificando a técnica de amostragem, a dimensão da mesma, e não esquecendo os aspetos éticos do processo. Em relação a este último aspeto, o da ética, foi garantida a autorização das instâncias oficiais (DGIDC, no pedido referenciado), foi garantido o consentimento informado dos que participaram voluntariamente, o anonimato dos mesmos, o respeito integral das instituições e dos professores envolvidos, bem como a veracidade dos resultados apresentados (e.g., Cohen, Manion e Morrison, 2011). Como população do estudo estabeleceu-se os professores do ensino básico público em Portugal que lecionavam no 1º CEB ou que lecionavam Matemática no 2º CEB. Segundo os dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC, 2012, pp. 19-20 e p. 23) referentes ao ano letivo de 2010/2011 o número de professores do 1º CEB público em Portugal era de 26996 (89,6 % do total, público e privado) e o número de professores da área de recrutamento de Matemática e Ciências da Natureza no 2º CEB público em Portugal era de 7187 (92,6% do total, público e privado). Por razões de falta de tempo e de recursos suficientes para recolher e analisar dados de todos os elementos da população considerou-se fazê-lo apenas em parte dos elementos do universo alvo escolhido, ou seja, numa amostra da população (Almeida e Freire, 2003; Hill e Hill, 2000). No entanto, a dificuldade é escolher um grupo de elementos de tal forma que as 239 Aspetos metodológicos observações que dele se fizerem possam ser generalizadas à totalidade da população, ou seja, “é necessário que a amostra apresente características idênticas às da população, isto é, que seja representativa” (Ghiglione e Matalon, 2001, p. 29). No sentido de estabelecer a amostra para o nosso estudo, e por uma questão de conveniência, de entre os 23 Quadros de Zona Pedagógica 124 (QZP) existentes em Portugal em 2011, escolheram-se para distribuição e recolha dos questionários os agrupamentos de escolas com os níveis de ensino pretendidos dos QZP de Coimbra e da Guarda, que estavam abrangidos pela Direção Regional da Educação do Centro, e do QZP de Vila Real, que estava abrangido pela Direção Regional da Educação do Norte. Esta escolha deve-se, em parte, ao facto de este trabalho de doutoramento estar a ser desenvolvido na Universidade de Trás-osMontes e Alto Douro (UTAD) e do autor do mesmo trabalhar no Instituto Politécnico da Guarda e viver no distrito de Coimbra. Pela influência regional das instituições de ensino superior em causa, pelos conhecimentos pessoais que os envolvidos na investigação têm na comunidade educativa escolar destas regiões e ainda a possibilidade de facilitar um contacto presencial, poder-se-ia potenciar uma maior taxa de aceitação para a distribuição do questionário por parte dos agrupamentos de escolas em causa. Esta situação é ainda mais premente quando existe uma cada vez maior solicitação para preenchimento de questionários nas escolas, como nos foi confirmado em muitos dos contactos realizados. Por outra parte, nesta escolha esteve presente também o cuidado de abranger regiões do interior e do litoral e dos meios urbanos e rurais, com dimensões variadas. Assim, no ano letivo de 2010/2011, no QZP de Coimbra, que abrangia 17 concelhos, com professores pertencentes à população definida para este estudo havia 39 agrupamentos, no QZP da Guarda, que abrangia 13 concelhos, havia 21 agrupamentos e no QZP de Vila Real, que abrangia 14 concelhos, havia 21 agrupamentos. Inicialmente foi feito um contacto telefónico ou pessoal com os responsáveis das direções dos 81 agrupamentos referenciados. Nesse contacto, e depois de esclarecidos o enquadramento e os objetivos do estudo, salientando o interesse e a possível utilidade desta pesquisa, foi solicitado o acordo com a direção para que fosse feita a distribuição e recolha do questionário registado na DGIDC aos docentes do respetivo agrupamento que estavam abrangidos pelo estudo. Em relação a cada uma das direções que aceitaram colaborar neste estudo foi definida e articulada a melhor forma para o fazer, tendo sido posteriormente formalizado o pedido de colaboração através de correio eletrónico (Anexo VII). 124 www.arlindvsky.net/wp-content/uploads/2011/08/códigos-de-QZP-e-Concelhos.pdf 240 Aspetos metodológicos Obtido o acordo prévio das direções dos agrupamentos dos três QZP selecionados, a implementação da recolha dos dados, que decorreu durante o ano letivo de 2010/2011 e parte do ano letivo de 2011/2012, começou pela entrega ou envio dos questionários, na sua versão em papel, acompanhados de envelopes prontos para reenvio dos mesmos já preenchidos e de uma carta com todos os contactos do investigador (Anexo VIII) (Carmo e Ferreira, 1998). Os questionários foram distribuídos aos docentes do 1º CEB e aos docentes do 2º CEB que lecionam Matemática pelos responsáveis indicados pelas direções dos agrupamentos, regra geral, nas reuniões de professores. A esses responsáveis foi garantido o anonimato e a confidencialidade no processo e tinham ainda os contactos do investigador no sentido de, caso necessário, poderem esclarecer qualquer dúvida que pudesse haver no processo, por exemplo, no preenchimento do questionário. Desta forma, tal como reconhecido por Ghiglione e Matalon (2001), asseguraram-se as condições mais favoráveis para o preenchimento do questionário, tendo sido assegurado tempo suficiente e permitindo que os professores estivessem mais à vontade. No entanto, estes mesmos autores indicam como inconveniente a possibilidade de preenchimento conjunto com outras pessoas, a possibilidade de leitura e preenchimento não ordenado para tentar garantir maior coerência, pelo que nestes casos não é tão importante a ordem das questões, e também uma necessidade e preocupação de garantir instruções estabelecidas de forma mais rigorosa. Posteriormente, os responsáveis recolheram os questionários respondidos pelos professores que aceitaram participar e devolveram-nos ao investigador. Este processo de amostragem assemelha-se à amostragem aleatória por “cachos” ou clusters em que segundo Gall, Gall e Borg (2003, p. 174) “(…) the unit of sampling is naturally occuring group of individuals. Cluster sampling is used when it is more feasible to select groups of individuals rather then individuals from a defined population. (…) A variation of this method is multistage sampling, which involves first selecting clusters and then selecting individuals within clusters”. Nesta amostragem cada elemento da população pertence a um dado cacho (no caso um QZP), esses grupos têm características semelhantes e, depois de selecionar aleatoriamente os clusters, a amostra constituída inclui todos os elementos dos clusters selecionados. Contudo, no presente estudo apenas a escolha dos “cachos” não foi aleatória, tendo sido selecionados por conveniência. Contudo, dentro dos três QZP escolhidos, todos os agrupamentos de 241 Aspetos metodológicos escolas tiveram a mesma probabilidade de participar no estudo, dentro de cada agrupamento todas as escolas tiveram a mesma probabilidade de participar e dentro de cada escola todos os professores abrangidos pelo estudo tiveram a mesma probabilidade de participar nele. Esta não aleatoriedade da amostra pode pôr em risco a generalização dos resultados para a população dos professores do 1º e 2º ciclos do EB. Apesar da consciência desse facto, julgouse este processo estatisticamente satisfatório e a amostra aceitável (Ghiglione e Matalon, 2001), pois podem obter-se informações preciosas, que serão utilizadas com as devidas cautelas e reservas. Como se verá, neste caso pode-se dizer que: a amostra resultante é de grande dimensão; foram tidos em conta vários cuidados metodológicos indicados na literatura; a amostra compreende uma variedade suficiente de casos; a reprodução das distribuições da população, através das percentagens relativas dos critérios essenciais, foi respeitada pelo processo por si só. Por outro lado, Ghiglione e Matalon (2001) afirmam que “é necessário substituir a noção global de representatividade por uma noção mais ampla, a de adequação da amostra aos objetivos estabelecidos, sabendo-se que um inquérito visa, em geral, diversos objectivos” (Ghiglione e Matalon, 2001, p. 58). Reforçando esta ideia, Gall, Gall e Borg (2003) referem que nas investigações em educação são usadas amostras não aleatórias e que a generalização em relação à população nestes casos precisa de ser vista como uma tentativa que será tanto mais credível, quanto maior for a garantia da significância da amostra. Para estes autores, a principal dificuldade com estas amostras são os erros de amostragem sistemáticos que ocorrem dado os membros da amostra poderem ter características diferentes da população que a amostra pretende representar. Quanto menor for esse erro maior é a validade correspondente ao grau de representatividade da amostra de indivíduos do estudo em relação à população da qual foram selecionados. Esta validade é estabelecida mostrando que a amostra selecionada é similar à população acessível e que, por sua vez, esta é semelhante à população alvo nas variáveis que sejam relevantes no problema da investigação. Pelo exposto e pela caracterização que se fará da amostra, julga-se que a amostra tem representatividade e validade face aos objetivos deste estudo. 3.2.6. Amostra Tal como se pode observar na Tabela 3.9, no QZP de Coimbra, dentro dos seus 39 agrupamentos, houve 29 (74,4%) agrupamentos de escolas que colaboraram neste estudo. Nos 242 Aspetos metodológicos 29 agrupamentos que colaboraram o número indicado de professores do 1º CEB abrangidos foi de 802 e o de professores que lecionam Matemática no 2º CEB foi de 165, tendo sido recolhidos 329 (41%) e 95 (57,6%) questionários de cada uma das tipologias de professores, respetivamente. Em termos dos dois ciclos em conjunto a percentagem mínima de participação por agrupamento foi de 16% e a máxima de 97% com uma média de 54,9% e uma dispersão considerável com DP=23%. No QZP da Guarda houve 18 (85,7%) agrupamentos de escolas que colaboraram no estudo, dos seus 21 agrupamentos. O número indicado de professores do 1º CEB abrangidos pelos 18 agrupamentos que colaboraram foi de 375 e o de professores que lecionam Matemática no 2º CEB foi de 106, tendo sido recolhidos 186 (49,6%) e 67 (63,2%) questionários de cada uma das tipologias de professores, respetivamente. Em termos dos dois ciclos em conjunto a percentagem mínima de participação por agrupamento foi de 27,8% e a máxima de 100% com uma média de 64,2% e uma dispersão considerável com DP= 21,4%. No QZP de Vila Real, entre os seus 21 agrupamentos, houve 17 (81%) agrupamentos de escolas que colaboraram no estudo. Nos 17 agrupamentos que colaboraram o número indicado de professores do 1º CEB abrangidos foi de 642 e o de professores que lecionam Matemática no 2º CEB foi de 119, tendo sido recolhidos 363 (56,5%) e 95 (79,8%) questionários de cada uma das tipologias de professores, respetivamente. Em termos dos dois ciclos em conjunto a percentagem mínima de participação por agrupamento foi de 20% e a máxima de 100% com uma média de 62,4% e com DP=22%. Assim, da observação da Tabela 3.9 constata-se que dos 81 agrupamentos dos três QZP escolhidos para a obtenção de dados (48,2% no de Coimbra, 25,9% no da Guarda e 25,9% no de Vila Real) aceitaram participar 64 (79%) e, destes, 45,3% eram do QZP de Coimbra, 28,1% eram do QZP da Guarda e 26,6% eram do QZP de Vila Real, ou seja, com proporções relativamente semelhantes às do total de agrupamentos. De acordo com os números aproximados de professores indicados pelos agrupamentos colaborantes, o total de professores do 1º CEB que lecionavam nos mesmos era de 1819 (6,7% do total de professores do 1º CEB público em Portugal no ano letivo 2010/2011) e o total de professores do 2º CEB que lecionavam Matemática era de 390 (5,4% do total de professores do 2º CEB da área de recrutamento de Matemática e Ciências da Natureza no ensino básico público em Portugal no ano letivo 2010/2011), perfazendo um total de 2209 professores (6,5%). 243 Aspetos metodológicos Tabela 3.9: Agrupamentos e professores (por ciclo) existentes e participantes por QZP Coimbra Agrupamentos Guarda Vila Real Total Participantes % Total Participantes % Total Participantes % Total Participantes % 39 29 74,4 21 18 85,7 21 17 81 81 64 79 Total Participantes % Total Participantes % Total Participantes % Total Participantes % 1º CEB* 802 329 41,0 375 186 49,6 642 363 56,5 1819 878 48,3 2º CEB* 165 95 57,6 106 67 63,2 119 95 79,8 390 257 65,9 Total 967 424 43,8 481 253 52,6 761 458 60,2 2209 1135 50,4 Professores * Os números totais de professores foram fornecidos pelos agrupamentos. Fonte: Elaborada pelo autor Em termos globais, dos 2209 professores declarados pelos agrupamentos participaram no estudo, preenchendo o questionário, 878 (48,3% dos 1819) professores do 1º CEB e 257 (65,9% dos 390) professores do 2º CEB que lecionam Matemática, atingindo um total de 1135 (50,4%) questionários recolhidos, correspondendo a 3,3% do número total de professores do 1º ciclo e do 2º ciclo da área de recrutamento de Matemática e Ciências da Natureza no ensino básico público em Portugal no ano letivo 2010/2011 a nível nacional. Ghiglione e Matalon (2001) referem que o principal inconveniente dos questionários distribuídos e recolhidos desta forma é a reduzida taxa de respostas, que pode variar conforme a população e o interesse do inquérito, e que pode descer até os 10%, valor bastante afastado dos 50,4% atingidos neste estudo. De realçar que o quociente entre o total de professores do 2º CEB da área de recrutamento de Matemática e Ciências da Natureza e o total de professores do 1º CEB público em Portugal no ano letivo 2010/2011 é de 0,27 enquanto o mesmo quociente dos participantes no estudo é de 0,29, logo, correspondendo a uma proporção muito próxima à dos valores reais totais do país. Por fim, decidiu eliminar-se os questionários que não tivessem pontuação atribuída a um ou mais itens da escala, tendo ficado validados 1098 questionários para análise, uma vez que foram eliminados 37 questionários (3,3% do total de questionários obtidos). Características dos professores inquiridos De seguida proceder-se-á à caracterização dos 1098 sujeitos da amostra, os professores, de acordo com a parte do questionário relativa à identificação e caraterização pessoal (as variáveis pessoais), profissional e académica dos professores inquiridos (as variáveis escolares): género, idade, ciclo de lecionação, tempo de serviço, área ou especialidade de formação inicial, formação em Estatística e lecionação de Estatística. 244 Aspetos metodológicos Género, idade e ciclo de lecionação Em termos do ciclo do ensino básico em que os 1098 professores da amostra lecionavam, 852 (77,6%) faziam-no no 1º CEB, enquanto 246 (22,4%) o faziam no 2º CEB, como se pode verificar na Tabela 3.10. No entanto, deve referir-se que alguns destes docentes lecionavam ou tinham lecionado em mais do que um ciclo, como o assinalaram. Relativamente ao género, e tal como se pode constatar na Tabela 3.10, dos professores respondentes 224 (20,4%) eram homens e desses 67% lecionavam no 1º CEB e os restantes 33% no 2º CEB, enquanto 874 (79,6%) eram mulheres, das quais 80% lecionavam no 1º CEB e as restantes 20% no 2º CEB. Além disso, o predomínio das professoras é também um facto nos dois ciclos do ensino básico embora mais acentuada no 1º CEB, pois no 1º CEB 82,4% dos professores respondentes são mulheres, enquanto no 2º CEB essa percentagem é de 69,9%. De acordo com os dados disponibilizados em DGEEC (2012) a percentagem de mulheres no 1º CEB125 a nível do Continente é de 86,6% e no 2º CEB126 é de 72,6%. Estas são percentagens que não se afastam das obtidas nos elementos da amostra, que apresentam valores comparativamente mais baixos para as professoras. Este facto pode ser positivo por garantir um maior número de professores na amostra e, dessa forma, viabilizar comparações entre géneros. Tabela 3.10: Distribuição dos elementos da amostra segundo o género e o ciclo de ensino Global % 1º CEB % 2º CEB % Género Masculino 224 20,4 150 17,6 74 30,1 Feminino 874 79,6 702 82,4 172 69,9 Totais 1098 100,0 852 100,0 246 100,0 Fonte: Elaborada pelo autor No Gráfico 3.4 e na Tabela 3.11 pode observar-se que, em relação às idades dos elementos da amostra validada127, o estudo abrange professores dos 23 anos aos 68 anos, sendo a média das idades de 45,5 anos e DP=8,3 anos, a que corresponde um valor de 0,18 para o coeficiente de variação, indicando uma dispersão não muito acentuada. Também se verifica uma assimetria negativa e em relação ao achatamento caracteriza-se como platicúrtica. Nesta questão oito professores do 1º CEB não indicaram a idade. 125 Incluindo o ensino privado que representa 10,4% do total. Incluindo o ensino privado, que corresponde a 9,3% do total, e todos os grupos de recrutamento em que o grupo de Matemática e Ciências da Natureza representa 24,4%. 127 A partir de agora passa-se a designar por amostra a amostra com todos os questionários validados, logo a amostra validada. 126 245 Aspetos metodológicos Média=45,52 Desvio padrão=8,317 N=1090 Gráfico 3.4: Distribuição das idades dos elementos da amostra Fonte: Elaborado pelo autor Na Tabela 3.11 pode constatar-se também que entre as professoras da amostra a média das idades é de 45 anos, enquanto a dos professores é ligeiramente superior, 47,2 anos, mas os dois subgrupos apresentam dispersões semelhantes (coeficiente de variação, 0,18). Por ciclos de ensino a média das idades no 1º CEB, 46,3 anos, é superior à do 2º CEB, 42,8 anos, sendo a dispersão superior no 2º CEB com um coeficiente de variação de 0,22 enquanto o do 1º CEB é de 0,17. Tabela 3.11: Estatísticas sobre a idade dos elementos da amostra, a nível global e por ciclo de ensino e por género Tamanho da amostra, N Média Global 1º CEB 2º CEB Feminino Masculino 1098 852 246 874 224 45,5 46,3 42,8 45,0 47,2 Mínimo 23 23 23 23 25 1º Quartil 39 42 34 39 41 2º Quartil 47 48 41 46 49,5 3º Quartil 52 52 51 52 54 Máximo 68 68 63 68 61 Desvio Padrão 8,3 7,8 9,5 8,3 8,5 Coeficiente de Variação 0,18 0,17 0,22 0,18 0,18 8 8 0 8 0 Não Respostas Fonte: Elaborada pelo autor 246 Aspetos metodológicos Em relação à assimetria (Gráfico 3.5), tanto para o conjunto dos homens como para o das mulheres verifica-se uma assimetria negativa, tal como no conjunto global dos dados. Em relação ao achatamento para ambos os grupos as respetivas distribuições são também platicúrticas, também como em termos globais. Gráfico 3.5: Diagramas de extremos e quartis da idade por género. Fonte: Elaborado pelo autor No Gráfico 3.6 pode visualizar-se que para a idade, em termos do 1º CEB, se verifica uma assimetria negativa, como no conjunto total de dados, enquanto para os professores do 2º CEB se verifica uma ligeira simetria positiva. Para a idade dos elementos do grupo do 1º CEB o achatamento tem uma distribuição mesocúrtica, mas no grupo do 2º CEB tem uma distribuição platicúrtica, como acontece em termos globais. Gráfico 3.6: Diagramas de extremos e quartis da idade por ciclos de ensino. Fonte: Elaborado pelo autor 247 Aspetos metodológicos Para comparar com os resultados sobre a idade dos professores que constam em DGEEC (2012) classificaram-se por classe os dados referentes às idades dos professores da amostra, tal como se pode constatar na Tabela 3.12. Tabela 3.12: Distribuição das idades agrupadas por classes a nível global e por ciclo de ensino Global 1º CEB 2º CEB Idade Freq.128 % % Acum. Freq. % % Acum. Freq. % % Acum. < 30 38 3,5 3,5 26 3,1 3,1 12 4,9 4,9 30 - 39 242 22,2 25,7 144 17,1 20,1 98 39,8 44,7 40 - 49 393 36,1 61,7 331 39,2 59,4 62 25,2 69,9 ≥ 50 417 38,3 100,0 343 40,6 100,0 74 30,1 100,0 1090 852 246 Fonte: Elaborada pelo autor Da observação do Gráfico 3.7 constatamos que na amostra a distribuição das idades mostra uma predominância dos grupos etários de maior idade (40 ou mais anos), bem como na distribuição das idades a nível nacional (englobando tanto o ensino público como privado), quer no 1º CEB, em que isso é mais acentuado na amostra, quer no 2º CEB, em que é mais acentuado a nível nacional, sendo neste caso de relembrar que são englobados outros grupos de recrutamento para além do de Matemática e Ciências da Natureza que é o do grupo da amostra. Com base na informação constante em DGEEC (2012), deve referir-se que o “envelhecimento” do corpo docente é uma tendência evidente no 1º CEB, em especial com a diminuição vincada do número de professores na faixa etária com menos de 30 anos desde 2006/2007 até 2010/2011, sendo o índice de envelhecimento129 no ensino público nacional em 2010/2011 de 121 e, em particular, nas NUTS II Norte e Centro de 130,7 e de 239,7, respetivamente. O índice de envelhecimento na amostra do 1º CEB é de 361, muito superior, devendo-se o desfasamento percentual existente na amostra do 1º CEB à faixa etária 30 aos 39 anos. Talvez este facto seja devido a professores desta faixa etária não terem respondido ao questionário. Esta tendência de “envelhecimento” também se verifica a nível nacional no 2º CEB, em especial com a diminuição vincada do número de professores na faixa etária com menos de 30 anos desde 2004/2005 até 2010/2011, e em que o índice de envelhecimento no ensino público nacional em 2010/2011 foi de 162,2 e, em particular, nas NUTS II Norte e 128 Freq. é a abreviatura para frequência absoluta, % é a abreviatura para percentagem e % Acum. é a abreviatura para percentagem acumulada. 129 Quociente entre o número de docentes com idade igual ou superior a 50 anos e o número de docentes com idade inferior a 35 anos vezes 100 (DGEEC, 2012, p. 16). 248 Aspetos metodológicos Centro de 176,8 e de 248,5, respetivamente. O índice de envelhecimento na amostra do 2º CEB é de 117,5, sendo inferior ao do índice nacional. Amostra (2º CEB) 4,9% Nacional (2º CEB) 5,8% Amostra (1º CEB) 3,1% Nacional (1º CEB) 5,0% 39,8% 25,2% 30,1% 30,1% 30,0% 17,1% 34,1% 39,2% 37,7% <30 40,6% 29,2% 30 - 39 40 - 49 28,1% >=50 Gráfico 3.7: Distribuição das idades por ciclos de ensino comparando a amostra com os valores a nível nacional. Fonte: Elaborado pelo autor com base também em DGEEC (2012, p. 29). Tempo de serviço Relativamente ao tempo de serviço no ensino básico, não responderam dois professores. Deste modo, verifica-se que a nível global cerca de 64% dos elementos da amostra apresentam 20 ou mais anos de experiência (Tabela 3.13), estando as percentagens (quase) igualmente distribuídas pelos intervalos anteriores, e destes o que apresenta menor percentagem é o de menos de 5 anos de docência no ensino básico. A média é de 23,5 anos de experiência, a amplitude inter-quartil de 12,5 anos e DP=11,4 anos, com o coeficiente de variação de 0,49, o que indica uma dispersão considerável. A distribuição do tempo de serviço acompanha a distribuição das idades analisada. Nessa análise constatou-se o envelhecimento da classe docente, sendo esta mais sentida nos professores do 1º CEB (Tabela 3.13), pois foi nesse ciclo de ensino que mais cedo se começou a sentir a diminuição de alunos que se tem verificado na última década (DGEEC, 2012, e Comissão Nacional de Educação, 2012). Essa diminuição teve como consequência o encerramento de escolas e a diminuição de admissão de novos professores nesse ciclo, o que também justifica as diferenças existentes entre os resultados obtidos nos dois ciclos. 249 Aspetos metodológicos Para a relação entre o tempo de serviço no ensino básico e os ciclos de ensino, no grupo do 1º CEB a distribuição pelos intervalos de anos de docência é semelhante à da amostra global, acentuando-se a concentração nos elementos de mais tempo de serviço, com 71,2% dos professores com 20 anos ou mais de docência, e a diminuição nas classes de menor tempo de serviço, com apenas 4% dos professores com menos de 5 anos de tempo de serviço. No grupo do 2º CEB essa situação é menos acentuada, pois só 39,8% dos professores deste ciclo têm 20 anos ou mais de tempo de serviço e 9,3% com menos do que 5 anos. A média no grupo do 1º CEB é de 25 anos e é superior à do grupo do 2º CEB que é de 18,3 anos de serviço, mas ambos os grupos com desvio padrões semelhantes, cerca de 11 anos (ou seja, com coeficientes de variação de 0,44 e 0,6, respetivamente), o que mostra uma dispersão considerável em ambos os subgrupos. Tabela 3.13: Distribuição do tempo de serviço a nível global e por ciclo de ensino Global 1º CEB 2º CEB Freq. % % Acum. Freq. % % Acum. Freq. % % Acum. [0, 5[ 57 5,2 5,2 34 4,0 4,0 23 9,3 9,3 [5, 10[ 104 9,5 14,7 61 7,2 11,2 43 17,5 26,8 [10, 15[ 128 11,7 26,4 82 9,6 20,8 46 18,7 45,5 [15, 20[ 104 9,5 35,9 68 8,0 28,8 36 14,6 60,2 [20, 30[ 449 40,8 76,7 382 44,8 73,6 67 27,2 87,4 [30, 50] 256 23,3 100,0 225 26,4 100,0 31 12,6 100,0 1098 852 246 Fonte: Elaborada pelo autor Em termos da relação entre o tempo de serviço no ensino básico e o género (Gráfico 3.8), tanto no grupo feminino, como no masculino a distribuição pelos intervalos de anos de docência é semelhante à da amostra global, com respetivamente 63,4% e 67,5% dos professores com 20 anos ou mais de docência, e com 5,5% e 4% dos docentes com menos de 5 anos de tempo de serviço. Também as médias destes dois subgrupos são semelhantes, com 23,3 anos para o género feminino e com 24,3 anos para o género masculino, com ambos os subgrupos com desvios padrões muito próximos, pouco mais de 11 anos, e com coeficientes de variação de 0,49 e 0,46, respetivamente, o que mostra uma razoável dispersão em ambos os subgrupos. 250 Aspetos metodológicos 5,5% 9,7% Feminino 12,2% 40,3% 9,3% 4,0% 9,8% 8,5% 10,3% Masculino [0, 5[ [5, 10[ 23,1% 42,9% 24,60% [10, 15[ [15, 20[ [20, 30[ [30, 50] Gráfico 3.8: Distribuição dos tempos de serviço no ensino básico por género. Fonte: Elaborado pelo autor Área ou especialidade da formação inicial Em relação à área ou especialidade da formação inicial houve 999 (91%) que responderam e indicaram 39 designações diferentes. Devido a este elevado número de designações diferentes, e que conduziriam a uma compartimentação exagerada da informação e à ininteligibilidade da sua interpretação, foi necessária uma recodificação, ou seja, dividir estas designações como sendo da área específica ou de outra área, tendo em conta também o ciclo de ensino em que o respetivo professor leciona. Deste modo, no subgrupo do 1º CEB as designações diferentes foram 20, das quais cinco foram consideradas como da área específica do 1º CEB (Professor do Ensino Básico, Educador de Infância e 1º CEB, Professor do 1º CEB, Complementos de Formação e Bacharelato/Magistério), e as restantes 15 como sendo de outra área, sendo 11 das Ciências da Educação e quatro de outras ciências. Para o subgrupo do 2º CEB, que partilha sete designações com as indicadas por elementos do 1º CEB, foram apresentadas 26 designações diferentes, sendo que neste caso apenas três (Matemática, Matemática e Ciências da Natureza e Professor do Ensino Básico) foram consideradas como da área específica do ensino da Matemática no 2º CEB, e as restantes 23 categorizadas como de outra área, sendo quatro das Ciências Económicas, oito das Engenharias, quatro das Ciências da Vida e sete das Ciências Humanas e da Educação. Em termos globais da amostra (Tabela 3.14), houve 9% de não respostas, enquanto nos subgrupos do 1º CEB e do 2º CEB as taxas de não resposta foram de 9,7% e 6,5%, respetivamente. Considerando só os respondentes sobre a área ou especialidade da formação inicial, tanto a nível global como ao nível do 1º CEB e do 2º CEB quase 70% indicam uma 251 Aspetos metodológicos formação inicial na área específica e pouco mais de 30% indicam outra área. Este facto denota a diversidade de formações destes docentes, mas que parece refletir uma realidade deste grupo de profissionais que será ainda fruto do sistema de acesso à profissão no ensino português. Recorde-se que desde o 25 de abril de 1974 este sistema permitiu dar resposta às necessidades de professores e às exigências resultantes da democratização do ensino em Portugal desde essa altura, como descrito no primeiro capítulo. Tabela 3.14: Distribuição da área ou especialidade da formação inicial, a nível global e por ciclo de ensino Global 1º CEB 2º CEB Freq. % % Válida Freq. % % Válida Freq. % % Válida 695 63,3 69,6 535 62,8 69,6 160 65,0 69,6 Área específica 304 27,7 30,4 234 27,5 30,4 70 28,5 30,4 Outra área 999 91,0 100,0 769 90,3 100,0 230 93,5 100,0 Total 99 9,0 --83 9,7 --16 6,5 --Não respostas Fonte: Elaborada pelo autor Formação realizada para além da formação inicial Já em relação à formação realizada pelos professores para além da formação inicial (Tabela 3.15), ao nível da amostra global houve 9,6% de não respostas, sendo essa taxa de 11% e de 4,5% para os subgrupos do 1º CEB e do 2º CEB, respetivamente. Analisando apenas os respondentes, 70,2% desses professores indicaram não ter feito qualquer formação académica posterior, enquanto essas percentagens para o 1º CEB e para o 2º CEB são, respetivamente, de 68,7% e 74,9%. As pós-graduações e outras formações representam 19,9% das formações indicadas, surgindo com um valor considerável de 9,9% os mestrados. A obtenção do grau de Doutor é residual, apenas 1 docente do 1º CEB (0,1%). Nos professores do 1º CEB a percentagem de pós-graduações e outras formações é de 20,8% e a de mestrados é de 10,3%. No subgrupo do 2º CEB as pós-graduações e outras formações representam 16,6%, tendo os mestrados um peso percentual de 8,5%. Tabela 3.15: Distribuição da formação para além da inicial, a nível global e por ciclo de ensino Global 1º CEB 2º CEB Freq. % % Válida Freq. % % Válida Freq. % % Válida 697 63,5 70,2 521 61,2 68,7 176 71,5 74,9 Não fez 101 9,2 10,2 82 9,6 10,8 19 7,7 8,1 Pós-graduação 98 8,9 9,9 78 9,2 10,3 20 8,1 8,5 Mestrado 1 0,1 0,1 1 0,1 0,1 0 0,0 0,0 Doutoramento 96 8,7 9,7 76 8,9 10,0 20 8,1 8,5 Outra 993 90,4 100,0 758 89,0 100,0 235 95,5 100,0 Total 105 9,6 --94 11,0 --11 4,5 --Não respostas Fonte: Elaborada pelo autor 252 Aspetos metodológicos Cruzando a informação das duas últimas questões foi possível recodificar os dados (Tabela 3.16), por forma a obter a informação sobre as habilitações de modo a poder comparar com a informação correspondente que consta em DGEEC (2012), permitindo dessa maneira uma comparação com a realidade nacional, por ciclos de ensino. Na amostra total obtiveram-se 1006 (91,6%) resultados validados e desses 83,5% tem como habilitação uma licenciatura ou curso equiparado e 6,8% apresentam Bacharelato ou outras habilitações similares. Tabela 3.16: Distribuição das habilitações, a nível global e por ciclo de ensino Global 1º CEB 2º CEB Freq. % % Válida Freq. % % Válida Freq. % % Válida 68 6,2 6,8 66 7,7 8,5 2 0,8 0,9 Bacharelato/Outras Licenciatura ou 840 76,5 83,5 631 74,1 81,4 209 85,0 90,5 equivalente 98 8,9 9,7 78 9,2 10,1 20 8,1 8,7 Doutoramento/Mestrado 1006 91,6 100,0 775 91,0 100,0 231 93,9 100,0 Total 92 8,4 --77 9,0 --15 6,1 --Não respostas Fonte: Elaborada pelo autor Ao nível do subgrupo do 1º CEB (Gráfico 3.9) com bacharelato ou outras habilitações similares surgem 8,5% dos professores, abaixo do valor apresentado a nível nacional, 11,3% (embora neste caso estejam incluídos os professores do 1º CEB do ensino privado como já referido). Segundo dados em DGEEC (2012), este tipo de habilitações tem apresentado uma tendência acentuada de diminuição desde 2000/2001 (65,2%) até 2010/2011 (11,3%). Por outro lado, a percentagem de professores deste ciclo com licenciatura ou curso equiparado é menor na amostra do que a nível nacional, com 81,4% e 86%, respetivamente. Destaca-se ainda o facto de haver uma maior percentagem de docentes com mestrado ou doutoramento na amostra (10,1%) do que a nível nacional (2,6%). Todavia, este tipo de habilitações apresenta uma tendência nacional para aumentar lenta, mas sustentadamente, a sua percentagem desde 2000/2001 (0,4%) até 2010/2011 (2,6%). Em relação aos professores do 2º CEB, com bacharelato ou outras habilitações similares existem 0,9% dos professores da amostra com resposta validada, que é muito inferior ao valor apresentado a nível nacional, 9,1% (também estão incluídos os professores do 2º CEB do ensino privado e de outros grupos de recrutamento que não o de Matemática e Ciências Naturais, como já mencionado). Segundo dados em DGEEC (2012), também este tipo de habilitações tem apresentado uma tendência sustentada de diminuição desde 2000/2001 (23,1%) até 2010/2011 (9,1%). Por outro lado, a percentagem de professores deste 253 Aspetos metodológicos 2º CEB com licenciatura ou curso equiparado é maior na amostra do que a nível nacional, com 90,5% e 86,9%, respetivamente. O mesmo acontece para a percentagem de docentes com mestrado ou doutoramento, em que na amostra são 8,7% e a nível nacional são 4%. Neste tipo de habilitações também tem havido a nível nacional uma tendência para aumentar lenta, mas sustentadamente, a sua percentagem desde 2000/2001 (0,1%) até 2010/2011 (4%). Desta forma fica patente que, por ciclos de ensino, a amostra, ainda que de forma geral com maiores habilitações que a nível nacional, não tem uma distribuição muito diferente desta. Amostra (2º CEB) 0,9% Nacional (2º CEB) 9,1% Amostra (1º CEB) 8,5% Nacional (1º CEB) 11,3% Bacharelato/Outras 90,5% 86,9% 81,4% 86,0% Licenciatura ou equiparado 8,7% 4,0% 10,1% 2,6% Mestrado/Doutoramento Gráfico 3.9: Distribuição das habilitações por ciclo, comparando a amostra com dados nacionais. Fonte: Elaborado pelo autor com base em dados de DGEEC (2012) Formação em Estatística Em termos da aprendizagem da Estatística a questão de escolha múltipla não foi respondida por seis elementos do 1º CEB. Na amostra, em termos globais, 26,6% de professores indicaram não ter qualquer formação em Estatística, sendo essa percentagem ainda maior nos professores do 1º CEB (33%) e muito menor nos do 2º CEB (2,4%, ver ainda Tabela 3.17). De alguma forma, esta situação reflete as questões de falta de formação nesta área específica dos docentes, em particular nos do 1º CEB, que foi referenciada no primeiro capítulo. De igual modo, e refletindo ainda a mesma realidade, para a indicação de uma aprendizagem individual da Estatística na amostra a percentagem de professores é de 7,7%, enquanto por ciclos, no 1º CEB é de 9% e no 2º CEB é de 1,6%. Para os restantes elementos da amostra a aprendizagem da Estatística fez-se também em ambiente escolar havendo uma 254 Aspetos metodológicos diversidade de situações que incluem a escola, a universidade, a formação contínua e outras, ou combinações de várias destas opções. Analisando em conjunto as respostas múltiplas dos professores dos dois ciclos, na amostra 21,7% dos professores indicaram ter aprendido Estatística na escola. Este facto era expectável pois a amostra reflete o corpo docente com uma média de idades um pouco elevada e a introdução da Estatística no ensino em Portugal foi relativamente tardia. Esta situação faz-se sentir mais no subgrupo do 1º CEB com 18% de respostas, enquanto no 2º CEB são 35,4%. Em termos da formação contínua a percentagem correspondente na amostra é de 16,1%, enquanto é de 17% e de 13%, respetivamente para o 1º CEB e para o 2º CEB. Tal indica que a formação contínua ao nível da OTD, quer no âmbito do PAM, quer na implementação do PMEB de 2007, ainda não tinha abrangido muitos dos professores destes dois ciclos do EB. Por fim, e naturalmente na sequência dos dados sobre as habilitações já analisados, a aprendizagem da Estatística no ensino superior é indicada por 43,3% dos professores da amostra global, por 30,5% nos do 1º CEB e 87,4% nos do 2º CEB. A partir do Gráfico 3.10 reforça-se a ideia de que a menor formação em Estatística acontece nos professores com mais tempo de serviço docente no ensino básico. Assim, constata-se que os professores nas classes entre 20 e 29 e 30 ou mais anos de serviço apresentam as maiores percentagens dos que indicam não ter tido formação de Estatística. Em termos da formação contínua, naturalmente por terem menos tempo de serviço e provavelmente por terem mais formação inicial na área da Estatística, é nas classes 0 a 4 anos e 5 a 9 anos de serviço que surgem as percentagens com valores mais baixos, cerca de 7%, enquanto nas restantes classes os valores variam entre 16% e 19%. Relativamente à indicação de aprendizagem de Estatística na escola os professores nas classes entre 20 e 29 anos e 30 ou mais anos de serviço apresentam as menores percentagens, uma vez que estes estiveram na escola num período em que o ensino da Estatística ainda era insipiente no ensino básico e secundário em Portugal. Em termos da aprendizagem da Estatística no ensino superior é nas classes 20 a 29 anos e 30 ou mais anos de serviço que surgem as percentagens com valores mais baixos, enquanto nas restantes classes os valores mais altos nas classes 0 a 4 anos e 5 a 9 anos de serviço. 255 Aspetos metodológicos Tabela 3.17: Distribuição das formas de aprendizagem de Estatística, a nível global e por ciclo de ensino Global 1º CEB 2º CEB Freq. % % Válida Freq. % % Válida Freq. % Válida Nenhuma 291 26,5 26,6 285 33,5 33,7 6 2,4 Aprendi sozinho 84 7,7 7,7 80 9,4 9,5 4 1,6 Aprendi na Escola 103 9,4 9,4 92 10,8 10,9 11 4,5 Aprendi na Universidade 317 28,9 29,0 191 22,4 22,6 126 51,2 Aprendi na Formação Contínua 100 9,1 9,2 94 11,0 11,1 6 2,4 Aprendi na Univ. e na F. Cont. 42 3,8 3,8 26 3,1 3,1 16 6,5 Aprendi na Escola e na Univ. 99 9,0 9,1 33 3,9 3,9 66 26,8 Aprendi na Escola e na F. Cont. 20 1,8 1,8 17 2,0 2,0 3 1,2 Aprendi na Escola, na Univ. e na F. Cont. 14 1,3 1,3 7 0,8 0,8 7 2,8 Aprendi na Escola, na Univ. e Outra 1 0,1 0,1 1 0,1 0,1 0 0,0 Outra 21 1,9 1,9 20 2,3 2,4 1 0,4 Total 1092 99,5 100,0 846 99,3 100,0 246 100,0 Não respostas 6 0,5 --6 0,7 --0 --Fonte: Elaborada pelo autor 80% 71% 70% 70% 60% 61% 59% 58% 50% 50% 37% 40% 29% 30% 33% 30% 24% 20% 19% 20% 10% 32% 19% 18% 17% 14% 11% 9% 5% 7% 7% 5% 6% 0% 0% 2% 0% 3% 16% 12% 9% 4% 3% 1% 0% [0, 5[ Nenhuma [5, 10[ Aprendi sozinho [10, 15[ Aprendi na Escola [15, 20[ Aprendi na Universidade [20, 30[ [30, 50[ Aprendi na Formação Contínua Outra Gráfico 3.10: Distribuição das formas de aprendizagem de Estatística por tempo de serviço por classe. Fonte: Elaborado pelo autor Lecionação de Estatística Relativamente ao ensino de Estatística por parte destes professores, houve 18 (1,6%) professores que não responderam, 83,3% do 1º CEB e 16,7% do 2º CEB, (Tabela 3.18). Quanto aos respondentes 29,3% indicaram não terem ainda lecionado Estatística, sendo 98,4% destes professores do 1º CEB (37,2% dos respondentes desse ciclo), enquanto os restantes 1,6% são do 2º CEB (representam nesse grupo apenas 2%). Nos respondentes do 1º CEB 57,9% lecionou Estatística só no 1º CEB, sendo residuais os professores que já a 256 Aspetos metodológicos ensinaram no 1º e 2º ciclos do EB. De igual forma, nos respondentes do 2º CEB 58% ensinou Estatística apenas no 2º CEB, e 22,6% dos professores já a ensinaram no 1º e 2º ciclos do EB. Além disso, 17,3% indicaram ter ensinado Estatística no 2º e 3º ciclos do EB. Tabela 3.18: Distribuição dos ciclos em que ensinam Estatística, a nível global e por ciclo de ensino Global 1º CEB 2º CEB Freq. % % Válida Freq. % % Válida Freq. % % Válida 316 28,8 29,3 311 36,5 37,2 5 2,0 2,1 Não 485 44,2 44,9 485 56,9 57,9 0 0,0 0,0 1º CEB 141 12,8 13,1 0 0,0 0,0 141 57,3 58,0 2º CEB 96 8,7 8,9 41 4,8 4,9 55 22,4 22,6 1º e 2º ciclos do EB 42 3,8 3,9 0 0,0 0,0 42 17,1 17,3 2º e 3º ciclos do EB 1080 98,4 100,0 837 98,2 100,0 243 98,8 100,0 Total 18 1,6 --15 1,8 --3 1,2 --Não respostas Fonte: Elaborada pelo autor Considerações finais Após a descrição da forma como o estudo foi realizado, incluindo a explicitação dos pressupostos e da teoria subjacentes à investigação, bem como o processo de recolha de dados, julga-se ter conseguido uma boa qualidade neste estudo, nomeadamente para a sua validação. Em particular, no processo de recolha de dados foram tidos em conta os cuidados metodológicos indicados na literatura, tanto ao nível da construção do questionário, na escolha do instrumento de medida (a EAEE, uma escala já validada e testada e considerada ajustada ao estudo pretendido), bem como na implementação de um estudo exploratório, nos aspetos éticos envolvidos nesta investigação, no processo de contacto, de distribuição e recolha do inquérito e, também, na amostra recolhida. A qualidade e a validade dos resultados de um inquérito dependem também da dimensão da amostra e, nesse sentido, a amostra efetiva usada neste estudo é de grande dimensão, 1098 questionários obtidos para a EAEE e é bastante superior a 200 que é o valor mínimo indicado por Hill e Hill (2000, p. 149). Reforçando esta ideia Ghiglione e Matalon (2001) referem que, por vezes, até uma amostra representativa da população, mas de dimensão reduzida, pode correr o risco compreender um número limitado de elementos pertencentes a categorias importantes para o problema em estudo quando se pretende fazer análise quantitativa de dados. 257 Aspetos metodológicos Caracterizada a amostra constata-se que, para além da variedade de características geográficas com professores de escolas do interior e do litoral e de localidades com várias dimensões a amostra compreende uma variedade suficiente de casos para o estudo. Além disso, a reprodução das distribuições de critérios essenciais da população, que deve ser considerada como necessária para a qualidade de uma amostra, foi relativamente bem conseguida nesta amostra, em que as percentagens para as variáveis como o género, a idade ou o ciclo de ensino em que leciona, foram respeitadas pelo processo por si só e relativamente aos dados disponibilizados em DGEEC (2012), pelo que há a expetativa de que a amostra seja aproximadamente representativa segundo as outras variáveis (Ghiglione e Matalon, 2001). Nesse sentido, e com as devidas precauções, pode estabelecer-se como base para o perfil dos respondentes neste estudo que 79,6% são professoras, que as idades apresentam uma média de 45,5 8,3 anos, variando de 23 a 68 anos, e apresentando os professores uma média de idades ligeiramente superior à das professoras (47,2 8,5 anos e 45 8,3 anos, respetivamente). Além disso, 77,6% são professores do 1º CEB, sendo neste ciclo 82,4% mulheres e a média das idades de 46,3 7,8 anos, e sendo no 2º CEB inferior a percentagem de mulheres (69,9%) e também a média das idades (42,8 anos 9,5 anos). O envelhecimento do corpo docente, que é mais acentuado no 1º CEB, ainda se reflete no tempo de serviço. As formações iniciais são muito diversificadas em ambos os ciclos e a maioria dos professores, cerca de 70%, realizou a sua formação inicial na área específica do ciclo em que leciona. Apenas cerca de 30% dos professores da amostra realizou alguma formação académica para além da formação inicial, apresentando os do 1º CEB proporções ligeiramente superiores para os vários tipos de formação posterior à universitária. Globalmente, em termos de habilitações 83,5% indicam a Licenciatura e 9,7% Doutoramento/Mestrado, tendo o Bacharelato apenas alguma expressão nos professores do 1º CEB. No que se refere à formação estatística nos docentes do 2º CEB 87,4% obtiveram-na no ensino superior, enquanto nos do 1º CEB apenas são 30,5%, sendo que indicaram não ter qualquer formação ou tendo aprendido sozinhos 33% e 9%, respetivamente no 1º CEB e 2º CEB. Finalmente, em termos do ensino de Estatística salienta-se que 37,2% dos professores do 1º CEB indicaram ainda não ter lecionado Estatística, sendo essa percentagem residual no caso dos docentes do 2º CEB. Esta amostra não é aleatória em sentido estrito, mas a condição da representatividade da amostra é muito menos rigorosa quando se tenta verificar hipóteses sobre relações do que quando se pretende fazer a estimativa de grandezas (Ghiglione e Matalon, 2001). Ainda de acordo com estes autores, quando se estudam opiniões ou atitudes é-se remetido para “o 258 Aspetos metodológicos problema da evidenciação de relações, por consequência o da verificação de hipóteses, mais do que para o problema da estimativa” (Ghiglione e Matalon, 2001, p. 107). Descrita a amostra constata-se a inclusão de casos de cada característica de interesse para o problema, permitindo verificar se uma dada característica influencia, ou não, a relação observada entre as variáveis de interesse, garantindo assim a validade externa, como afirma Estrada (2002). 3.2.7. Considerações prévias para a análise de dados Para a análise quantitativa dos resultados do estudo, bem como para a sua discussão, serão usados métodos e técnicas estatísticas apropriadas. Como exemplos desses métodos e técnicas serão usados estatística descritiva, métodos paramétricos, métodos não paramétricos, análise de clusters e análise fatorial. Escolheram-se como softwares o SPSS e a folha de cálculo Excel para, depois de recolhidos os questionários e de se proceder à sua numeração, serem lançados os dados. Esta escolha foi feita com base na sua disponibilidade, da existência de literatura que conjuga a análise estatística com a utilização destes programas específicos e para aproveitar a possibilidade de troca de dados existente entre eles (e.g. Pestana e Gageiro, 2000; Muijs, 2011). Desta maneira no próximo capítulo, pretende-se obter um conjunto de resultados e iniciar a argumentação decorrente desta fase que servirá de alicerce para a validação, ou não, das hipóteses. Os resultados da análise de conteúdo categorias e as suas explicações também serão apresentados no próximo capítulo. O tratamento destes resultados será feito através de uma abordagem descritiva, similar à de Martins, Nascimento e Estrada (2012) para análise das pontuações nos itens (positivas e negativas) de alguns dos professores do 1º CEB. Espera-se que esta análise de conteúdo reforce a validação, ou não, das hipóteses, no sentido de ajudar a dar resposta e a atingir os objetivos deste estudo. 259 Aspetos metodológicos 260 Análise de dados 4. Análise de dados No capítulo anterior discutiram-se os aspetos metodológicos do estudo e caracterizou-se a respetiva amostra. Neste capítulo apresenta-se, analisa-se e discute-se os resultados do estudo implementado. Sabe-se que é fundamental que a apresentação dos resultados seja feita através de uma exposição e análise clara e de fácil interpretação, e que todas as hipóteses formuladas sejam testadas, utilizando os métodos estatísticos adequados, sendo a análise dos dados feita em consonância com o teste das hipóteses e a verificação dos objetivos. Pretende-se obter um conjunto de resultados válidos para permitir uma maior e melhor compreensão dos fenómenos em análise. A argumentação decorrente desta fase aspira servir de alicerce para a confirmação, ou não, das hipóteses, apresentando os resultados e as conclusões do estudo efetuado, desenvolvendo o processo crítico e argumentativo, e, desta forma, tentando atingir os objetivos propostos para esta investigação. Iniciar-se-á este capítulo pela abordagem dos resultados sobre as atitudes desde um ponto de vista da pontuação global, das componentes das atitudes e dos itens, bem como a fiabilidade e generalização possível da escala de atitudes usada. De seguida, procurar-se-á a relação entre as componentes das atitudes através da análise de correlações, da análise de clusters e da análise fatorial. Estudar-se-á também a influência das variáveis do estudo (descritas no capítulo anterior) sobre as atitudes, nomeadamente em termos da pontuação global, das componentes das atitudes e dos itens. Além disso, analisar-se-ão as justificações dadas pelos professores nos nove itens escolhidos e estabelecer-se-á uma relação com as respetivas pontuações atribuídas. 4.1. Resultados globais sobre as atitudes em relação à Estatística Apresenta-se a análise da pontuação total obtida pelos professores através da escala EAEE (Estrada, 2002) e recorde-se que toda a análise será feita com base na inversão da escala no caso dos itens com enunciado com redação negativa. Esta análise será realizada, tanto do ponto vista global, como do das componentes das atitudes consideradas no capítulo anterior e cuja correspondência biunívoca entre os itens da 261 Análise de dados versão da escala usada neste estudo (Anexo V) e as dimensões pedagógica e antropológica se resume na Tabela 4.1 (adaptada da Tabela 3.8 do capítulo anterior e também no Anexo VI). Além dessa abordagem, far-se-á uma análise da pontuação atribuída por item destacando os mais valorizados e os menos valorizados. Por fim, será feita uma análise da fiabilidade da escala em função dos resultados obtidos. Tabela 4.1: Correspondência entre os itens e as componentes das atitudes avaliadas na versão usada da escala EAEE Componentes antropológicas Social Educativa Instrumental Componentes Pedagógicas Afetiva 1, 17, 25 3, 9, 18 5, 16, 19, 23 Cognitiva 6, 7, 10 11, 13, 21 2, 24 Comportamental 15, 22 8, 14, 20 4, 12 Fonte: Elaborada pelo autor 4.1.1. Análise Global e por componentes Os resultados da análise global e por componentes resumem-se na Tabela 4.2. Aí pode constatar-se que as médias são sempre superiores ao ponto médio (entre o mínimo possível e o máximo possíveis, última coluna cinzenta), com variações positivas entre os 8%, no caso da componente Instrumental, e os 26% para a componente Social. No caso que engloba todos os itens da escala (caso global) a média de 87,97 é 17% superior a esse ponto médio, 75, ou seja, com uma diferença de (cerca de) 13 pontos, o que também corresponde a 70% do máximo possível. Resumindo, pode considerar-se que as atitudes são geralmente positivas, tanto a nível global, como por componentes. Relativamente à dispersão constata-se que os valores do coeficiente de variação (cv) estão entre 0,13 e 0,17, respetivamente para o caso global e para a componente Instrumental, sendo dispersões relativamente pequenas. Tabela 4.2: Resumo estatístico sobre a pontuação total em termos globais e por componentes das atitudes Pontuação Mínimo Máximo Ponto Mínimo Máximo Média DP cv Total possível possível médio 46 119 87,97 11,87 0,13 Componentes Global 25 125 75 Afetiva 16 50 35,47 5,56 0,16 10 50 30 Cognitiva 16 40 29,27 4,08 0,14 Pedagógicas 8 40 24 Comportamental 13 33 23,23 3,65 0,16 7 35 21 Social 15 40 30,33 4,27 0,14 8 40 24 15 44 31,82 5,14 0,16 Antropológicas Educativa 9 45 27 Instrumental 10 39 25,82 4,39 0,17 8 40 24 Fonte: Elaborada pelo autor 262 Análise de dados Reforçando o que foi referido, no que diz respeito a valores extremos pode-se observar (Tabela 4.3) que os mínimos foram sempre superiores aos mínimos possíveis e, em geral, foram superiores em termos relativos, uma vez que apresentam valores superiores desde os 25%, no caso da componente Instrumental, até aos 100%, no caso da componente Cognitiva. Em termos dos valores máximos verifica-se que no caso das componentes Afetiva, Cognitiva e Social foi atingido o máximo possível e o maior afastamento relativo foi atingido na componente Comportamental com -6%, que também não é muito grande e que, aliás, está muito próximo do -5% do caso global. Analisar-se-ão, agora, com mais detalhe, e separadamente, os dados da pontuação total para o caso global e para as componentes pedagógicas e antropológicas das atitudes em relação à Estatística. Na Tabela 4.3, a pontuação total, caso global, apresenta uma média de 88 pontos 130 11,9, o que é uma média claramente acima do valor de uma atitude de indiferença 75 pontos apresentando uma dispersão relativamente pequena. A amplitude interquartil é de 17 pontos, para uma pontuação mínima de 46 e uma máxima de 119. Em termos de assimetria e de achatamento verifica-se uma ligeira assimetria negativa com o valor do coeficiente de assimetria de -0,035 e o coeficiente do achatamento com o valor de -0,303. Esta será, portanto, uma distribuição aproximadamente simétrica e platicúrtica. Tabela 4.3: Resumo estatístico para a pontuação total no caso global Global Média 87,97 Mediana 88 Moda 96 Desvio padrão 11,866 Assimetria -0,035 Erro de assimetria Achatamento -0,303 Erro de achatamento Percentis 0,074 0,148 25 79 50 88 75 96 Fonte: Elaborada pelo autor 130 A partir de agora, para simplificar, no texto o valor do desvio padrão será indicado antecedido do símbolo “”. 263 Análise de dados Esta informação é complementada pela análise do Gráfico 4.1, em que se pode visualizar a quase simetria e um achatamento mais acentuado do que o da distribuição normal. Contudo, constata-se a não normalidade desta distribuição (teste de Lilliefors d=0,048, para 1098 g.l. e p=0,000 < 0,01; teste de Shapiro-Wilks, W=0,994 com 1098 g.l. e p=0,000 < 0,01). Em resumo, a maioria dos professores apresenta pontuações totais na escala superiores ao valor da indiferença, ou seja, fica a ideia de que as atitudes dos professores em relação à Estatística são globalmente positivas. Gráfico 4.1: Distribuição da pontuação total para toda a escala Fonte: Elaborado pelo autor Os resultados globais apresentados estão em linha com os valores obtidos por Estrada (2002; 2009a), em que a média foi 88,8 e a moda foi 91. No entanto, no estudo de Estrada (2002; 2009a) os professores em exercício apresentam uma média da pontuação total (91,32) superior à dos professores ainda em formação (85,38), estando a média do presente estudo entre essas duas médias. No estudo comparativo de Aparício, Estrada e Bazán (2010, como referido no segundo capítulo a escala usada apresentava apenas 22 dos itens), a média dos docentes espanhóis foi de 83,9 7,2, a dos professores peruanos foi de 72,9 11,1, estando a média dos professores do atual 264 Análise de dados estudo, e para os mesmos 22 itens, entre estas duas, com um valor de 79,6 12,3 e dispersão ligeiramente superior, mas numa amostra de muito maior dimensão. Para a componente Afetiva (Tabela 4.4) que envolve 10 itens da escala apresenta uma média de 35,5 5,6, o que corresponde a uma média 18% acima do valor correspondente a uma atitude de indiferença 30 pontos apresentando uma dispersão relativamente pequena. A amplitude interquartil é de 8,25 pontos, para uma pontuação mínima de 16 e uma máxima de 50. Verifica-se uma ligeira assimetria negativa com o valor do coeficiente de assimetria de -0,021 e o coeficiente de achatamento toma o valor de -0,271, pelo que se pode considerar uma distribuição simétrica e mesocúrtica. Tabela 4.4: Resumo estatístico para a pontuação total para a componente Afetiva Componente Afetiva Média 35,47 Mediana 35 Moda 34 Desvio padrão 5,558 Assimetria -0,021 Erro de assimetria Achatamento Erro de achatamento Percentis 0,074 -0,271 0,148 25 31 50 35 75 39,25 Fonte: Elaborada pelo autor A forma desta distribuição visualiza-se no Gráfico 4.2. Contudo, constata-se a não normalidade desta distribuição (teste de Lilliefors d=0,052, para 1098 g.l. e p=0,000 < 0,01; teste de Shapiro-Wilks, W=0,993 com 1098 g.l. e p=0,000 < 0,01). Resumindo, fica a ideia de que, no âmbito da componente Afetiva, os professores apresentam formas de expressar o sentimento em relação à Estatística maioritariamente positivo, englobando todas as emoções e sentimentos positivos que a Estatística provoca. 265 Análise de dados Gráfico 4.2: Distribuição da pontuação total para a componente Afetiva Fonte: Elaborado pelo autor Na Tabela 4.5 constam as medidas estatísticas para a componente Cognitiva que envolve 8 itens da escala e apresenta uma média de 29 4,1. Este valor corresponde a uma média 22% acima do valor correspondente a uma atitude de indiferença 24 pontos apresentando uma dispersão relativamente pequena. A amplitude interquartil é de 5 pontos, para uma pontuação mínima de 16 e uma máxima de 40. Em termos de assimetria e de achatamento o valor do coeficiente de assimetria é de -0,348 e o do achatamento toma o valor de -0,161. Pode, então, considerar-se esta distribuição assimétrica negativa e mesocúrtica. Tabela 4.5: Resumo estatístico para a pontuação total para a componente Cognitiva Componente Cognitiva Média 29,272 Mediana 30 Moda 31 Desvio padrão 4,076 Assimetria -0,348 Erro de assimetria Achatamento -0,161 Erro de achatamento Percentis 0,074 0,148 25 27 50 30 75 32 Fonte: Elaborada pelo autor 266 Análise de dados No Gráfico 4.3 complementa-se a análise descritiva da forma desta distribuição. Constata-se a não normalidade desta distribuição (teste de Lilliefors d=0,102, para 1098 g.l. e p=0,000 < 0,01; teste de Shapiro-Wilks, W=0,983 com 1098 g.l. e p=0,000 < 0,01). Em resumo fica a ideia de que, no âmbito da componente Cognitiva, os professores apresentam formas de expressar o pensamento, conceções e crenças em relação à Estatística globalmente positivas. Gráfico 4.3: Distribuição da pontuação total para a componente Cognitiva Fonte: Elaborado pelo autor Na Tabela 4.6 estão patentes medidas estatísticas para a componente Comportamental, que envolve 7 itens da escala. Apresenta uma média de 23 3,6, o que corresponde a uma média de 11% acima do valor de uma atitude de indiferença 21 pontos apresentando uma dispersão relativamente pequena. A amplitude interquartil é de 5 pontos, para uma pontuação mínima de 13 e uma máxima de 33. Em termos de assimetria e de achatamento o valor do coeficiente de assimetria é de 0,021 e o do achatamento toma o valor de -0,235. Assim, pode considerar-se esta distribuição simétrica e mesocúrtica. 267 Análise de dados Tabela 4.6: Resumo estatístico para a pontuação total para a componente Comportamental Componente Comportamental Média 23,227 Mediana 23 Moda 23 Desvio padrão 3,649 Assimetria 0,021 Erro de assimetria 0,074 Achatamento -0,235 Erro de achatamento Percentis 0,148 25 21 50 23 75 26 Fonte: Elaborada pelo autor No Gráfico 4.4 complementa-se a análise descritiva da forma da distribuição. Constata-se a não normalidade da distribuição (teste de Lilliefors d=0,064, com 1098 g.l. e p=0,000 < 0,01; teste de Shapiro-Wilks, W=0,992 com 1098 g.l. e p=0,000 <0,01). A maioria dos professores apresenta nesta componente valores de pontuação total superiores ao da indiferença, ou seja, com valores moderadamente altos, mas menos do que nas outras componentes pedagógicas. Assim, fica a ideia de que, no âmbito desta componente Comportamental, os professores têm ações ou intenções de conduta que representam a tendência relativamente positiva para atuar em relação à Estatística de uma forma concreta. Gráfico 4.4: Distribuição da pontuação total para a componente Comportamental Fonte: Elaborado pelo autor 268 Análise de dados Das componentes Antropológicas (Tabela 4.7) a componente Social envolve 8 itens da escala. A pontuação total apresenta uma média 30 pontos com um desvio 30,3 4,3, o que corresponde a uma média 26% acima do valor de uma atitude de indiferença 24 pontos sendo a maior percentagem entre a de todas as componentes. Além disso, apresenta uma dispersão relativamente pequena com o segundo menor valor do coeficiente de variação (0,14). A amplitude interquartil é de 6 pontos, para uma pontuação mínima de 15 e uma máxima de 40. Em termos de assimetria o valor do coeficiente de assimetria é de -0,202 e de achatamento o coeficiente toma o valor de -0,065. Considera-se, desta forma, a distribuição assimétrica negativa e mesocúrtica. Tabela 4.7: Resumo estatístico para a pontuação total para a componente Social Componente Social Média 30,326 Mediana 30,5 Moda 31 e 34 Desvio padrão 4,268 Assimetria -0,202 Erro de assimetria Achatamento Erro de achatamento Percentis 0,074 -0,065 0,148 25 27 50 30,5 75 33 Fonte: Elaborada pelo autor No Gráfico 4.5 complementa-se a análise descritiva da forma desta distribuição. Constata-se a não normalidade desta distribuição (teste de Lilliefors d=0,063, para 1098 g.l. e p=0,000 < 0,01; teste de Shapiro-Wilks, W=0,991 com 1098 g.l. e p=0,000 < 0,01). Resumindo, a maioria dos professores apresentam valores de pontuação total superiores ao da indiferença, ou seja, valores relativamente altos. Assim, fica a ideia de que, no âmbito da componente Social, e de uma forma geral, os professores mostraram percecionar e valorizar o papel da Estatística no âmbito socio cultural de todo o cidadão. Deste modo, apresentam uma visão alternativa da Estatística como contraponto a um tipo de conhecimento isolado da cultura ou dos valores culturais. 269 Análise de dados Gráfico 4.5: Distribuição da pontuação total para a componente Social Fonte: Elaborado pelo autor Na Tabela 4.8 constam as medidas estatísticas para a componente Educativa, que envolve 9 itens da escala. A pontuação total apresenta uma média de 32 5,1, o que corresponde a uma média 18% acima do valor de uma atitude de indiferença 27 pontos apresentando uma dispersão relativamente pequena e semelhante à das outras componentes. A amplitude interquartil é de 8 pontos, para uma pontuação mínima de 15 e uma máxima de 44. Em termos de assimetria e de achatamento o valor do coeficiente de assimetria é de -0,066 e o de achatamento toma o valor de -0,263. Esta distribuição é considerada assimétrica negativa e leptocúrtica. Tabela 4.8: Resumo estatístico para a pontuação total para a componente Educativa Componente Educativa Média 31,821 Mediana 32 Moda 32 Desvio padrão 5,145 Assimetria -0,066 Erro de assimetria Achatamento -0,263 Erro de achatamento Percentis 0,074 0,148 25 28 50 32 75 36 Fonte: Elaborada pelo autor 270 Análise de dados No Gráfico 4.6 complementa-se a análise descritiva desta distribuição e também se constata a não normalidade desta distribuição (teste de Lilliefors d=0,057, para 1098 g.l. e p=0,000 < 0,01; teste de Shapiro-Wilks, W=0,991 com 1098 g.l. e p=0,000 < 0,01). Resumindo, maioria dos professores apresentam valores de pontuação total na escala superiores ao da indiferença, ou seja, com valores relativamente altos. Deste modo, fica a ideia de que, no âmbito da componente Educativa, os professores apresentam uma atitude globalmente positiva em relação ao interesse pela Estatística e pela sua aprendizagem, à visão sobre a sua utilidade para o aluno, à opinião sobre a importância da sua inclusão no currículo e à dificuldade percebida em relação à mesma. Gráfico 4.6: Distribuição da pontuação total para a componente Educativa Fonte: Elaborado pelo autor Na Tabela 4.9 estão patentes medidas estatísticas para a componente Instrumental que envolve 8 itens da escala. A pontuação total apresenta uma média de 26 4,9, o que corresponde a uma média 8% acima do valor de uma atitude de indiferença 24 pontos que é a percentagem mais baixa das verificadas nas várias componentes. Além disso, apresenta uma dispersão relativamente pequena, embora, como já se referiu anteriormente, com o maior dos coeficientes de variação. A 271 Análise de dados amplitude interquartil é de 6 pontos, para uma pontuação mínima de 10 e uma máxima de 39. Em termos de assimetria com o valor do coeficiente de assimetria de -0,184 e do achatamento toma o valor de 0,306. Esta distribuição é considerada como assimétrica negativa e leptocúrtica. Tabela 4.9: Resumo estatístico para a pontuação total para a componente Instrumental Componente Instrumental Média 25,822 Mediana 26 Moda 27 Desvio padrão 4,385 Assimetria -0,184 Erro de assimetria 0,074 Achatamento 0,306 Erro de achatamento 0,148 Percentis 25 23 50 26 75 29 Fonte: Elaborada pelo autor A análise do Gráfico 4.7 permite completar a análise da forma desta distribuição. Também se constata a não normalidade desta distribuição (teste de Lilliefors d=0,064, para 1098 g.l. e p=0,000 < 0,01; teste de Shapiro-Wilks, W=0,992 com 1098 g.l. e p=0,000 < 0,01). Em síntese, a maioria dos professores apresentam nesta componente valores de pontuação total superiores ao da indiferença, ou seja, com valores moderadamente altos, mas menos do que nas outras componentes antropológicas. Isto é, fica a ideia que no âmbito da componente Instrumental apresentam valores positivos para uma atribuição de utilidade da Estatística a outras matérias como forma de raciocínio e como componente cultural, ainda que de uma forma menos vincada que nas outras componentes antropológicas. 272 Análise de dados Gráfico 4.7: Distribuição da pontuação total para a componente Instrumental Fonte: Elaborado pelo autor Em resumo, os valores médios da pontuação podem-se considerar globalmente como correspondentes a atitudes positivas, com valores correspondentes entre 65% e 76% do valor máximo possível (Anexo IX). Destaca-se que nas componentes pedagógicas aquela que surge com maior percentagem da média em relação ao máximo é a componente Cognitiva com 73%, não sendo muito superior aos 71% da componente Afetiva. Por outro lado, a componente Comportamental é que apresenta a percentagem menor, mas ainda assim com um valor relativamente alto, 66%. No caso das componentes antropológicas a que tem maior percentagem da média em relação ao máximo possível é a componente Social com 76%, seguindo-se depois os 71% da componente Educativa, enquanto a componente Instrumental é a que apresenta a menor percentagem, 65%. Em termos comparativos com os resultados de Estrada (2002), com os 25 itens da escala EAEE e com professores em exercício e em formação, não parece haver diferenças numéricas. No presente estudo constata-se que as médias das pontuações são ligeiramente superiores às dos professores espanhóis nas componentes Afetiva, Cognitiva, Social e Educativa, sendo menores nas componentes Comportamental e Instrumental (Anexo IX). No entanto, considerando apenas os 22 itens usados no trabalho de Aparício, Estrada e Bazán (2010), incluindo só professores em exercício, constata-se que os resultados do atual estudo estão, para todas as componentes, entre os 273 Análise de dados valores da pontuação média dos professores peruanos e os valores dos professores espanhóis. Os professores peruanos apresentam os valores menos altos, entre os 64% e os 71%, e os professores espanhóis patenteiam os maiores valores, entre os 75% e os 78% (Anexo IX). 4.1.2. Análise por itens da escala de atitudes Resumidos os resultados referentes à pontuação total obtida pelos professores através da resposta à escala de atitudes usada, tanto em termos globais, como por componentes, passa-se agora à apresentação dos dados referentes a cada um dos 25 itens constantes dessa escala, EAEE (Estrada, 2002) ordenados como no instrumento usado (Anexo V). Na Tabela 4.10, constam as respetivas frequências absolutas para cada uma das pontuações possíveis nesta escala de Likert: 1 – Totalmente em desacordo; 2 – Desacordo; 3 – Indiferente; 4 – Acordo; 5 – Totalmente de acordo. Na mesma tabela, recordemos que a soma por item é 1098 e para cada item apresentam-se também as respetivas moda131, mediana, média e desvio padrão (DP). Recorda-se, ainda, que para evitar o problema da aquiescência, e tal como já foi referido no capítulo anterior, onze dos itens (1, 2, 4, 6, 7, 9, 13, 15, 17, 20 e 25) são redigidas na forma negativa em relação à atitude face à Estatística que se está a medir usando a EAEE (Estrada, 2002). Como já se referiu (segundo e terceiro capítulos), para os dados serem comparáveis e interpretados no mesmo “sentido positivo” procedeu-se à inversão da pontuação no caso dos referidos itens. Exemplificando para o item 4 – Utilizo pouco a estatística fora da escola, que tem um enunciado redigido na forma negativa, houve 65 professores a indicar a opção ou pontuação 1, ou seja, que estão totalmente em desacordo com a afirmação de que utilizam pouco a Estatística fora da escola, o que é um indicador de uma atitude positiva em relação à Estatística. Precisamente por esta razão, aquela contagem da opção 1, 65, foi considerada a frequência da pontuação 5 que está associada às atitudes positivas no mencionado “sentido positivo” de interpretação e comparação entre itens132. Desta forma, consegue-se uma escala homogénea (Estrada, 2002), em que a pontuação atribuída aos itens tem sempre o mesmo “sentido”, o que permitiu o cálculo da pontuação total, bem como realizar, independentemente do tipo de enunciado do 131 132 Esta posição já foi apresentada no terceiro capítulo com base em Hill e Hill (2000, p.111). Da mesma maneira os 249, 349 e 132 que indicaram a opção 2, 4 e 5 surgem na frequência da pontuação 4, 2 e 1, respetivamente. 274 Análise de dados item, comparações entre os itens, em particular através das médias, podendo admitir que quanto maior (menor) for essa média esta indica uma atitude em relação à Estatística mais (menos) positiva. Tabela 4.10: Dados para cada item respeitantes ao total da amostra Pontuação 1 2 3 4 Itens 1- Incomoda-me a informação estatística 68 279 493 153 transmitida em alguns programas da TV 2- Através da estatística pode-se manipular a 358 516 136 54 realidade 3 - Divirto-me nas aulas em que se explica 95 99 419 355 estatística 4- Utilizo pouco a estatística fora da escola 132 349 303 249 5- A estatística apaixona-me porque ajuda a ver 74 150 471 330 os problemas objetivamente 6- A estatística só serve para as pessoas das 18 35 123 351 ciências 7- A estatística não serve para nada 30 39 79 244 8- É frequente explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não 216 271 438 164 entenderam 9- Se pudesse eliminar alguma matéria seria a 27 30 231 305 estatística 10- A estatística ajuda a entender o mundo de 0 19 453 596 hoje 11- A estatística é fundamental na formação 17 57 235 512 básica do futuro cidadão 12- Uso a estatística para resolver problemas do 45 160 352 458 dia-a-dia 13- Na escola não se deveria ensinar estatística 31 56 141 293 14- Para mim os problemas de estatística são 45 212 355 377 fáceis 15- Não entendo as informações estatísticas que 22 113 221 431 aparecem na imprensa escrita 16- Gosto da estatística porque ela me ajuda a compreender mais profundamente a 21 86 368 499 complexidade de certos temas 17- Sinto-me intimidado(a) perante dados 23 116 305 363 estatísticos 18- Acho interessante o mundo da estatística 19 64 343 498 19- Gosto dos trabalhos sérios onde aparecem 21 62 317 513 estudos estatísticos 20- Quando eu tive aulas de estatística entendia 24 123 322 380 pouco do que se dizia 21- A estatística é fácil 69 251 307 344 22- Percebo melhor os resultados eleitorais 34 64 228 482 quando aparecem representações gráficas 23- Gosto de resolver problemas quando uso 26 76 374 491 estatística 24- A estatística ajuda a tomar decisões mais 21 58 312 544 fundamentadas 25- Evito as informações estatísticas quando as 29 106 306 377 leio Fonte: Elaborada pelo autor 275 5 Moda Mediana Média DP 105 3 3 2,95 1,011 34 2 2 1,99 0,962 130 3 3 3,30 1,071 65 2 3 2,79 1,104 73 3 3 3,16 0,973 571 5 5 4,30 0,906 706 5 5 4,42 0,964 9 3 3 2,53 0,996 505 5 4 4,12 0,994 30 4 4 3,58 0,577 277 4 4 3,89 0,895 83 4 3 3,34 0,956 577 5 5 4,21 1,034 109 4 3 3,27 1,013 311 4 4 3,82 1,022 124 4 4 3,56 0,862 291 4 4 3,71 1,036 174 4 4 3,68 0,870 185 4 4 3,71 0,878 249 4 4 3,64 1,019 127 4 3 3,19 1,105 290 4 4 3,85 0,980 131 4 4 3,57 0,875 163 4 4 3,70 0,853 280 4 4 3,70 1,035 Análise de dados Destes resultados pode constatar-se desde logo que os desvios padrões dos vários itens não são grandes, havendo em 60% dos itens um desvio padrão com valor inferior a 1 e apresentando cv com valores entre 0,173 e 0,363, pelo que a média representa relativamente bem as pontuações atribuídas. No entanto, referem-se aqui os item 21 – A estatística é fácil – e item 4 – Utilizo pouco a estatística fora da escola – por serem os que apresentam os maiores valores do desvio padrão, com 1,105 e 1,104, respetivamente. No item 21 essa maior dispersão pode ser devida ao facto de coexistirem na amostra professores de dois grupos de formações matemáticas e estatísticas diferentes. Relativamente ao item 4 uma dispersão ligeiramente superior pode refletir disposições diferenciadas quanto à utilização da Estatística fora da escola (embora alguns que não reconhecem essa utilização poderão fazê-lo sem se aperceberem, ou seja, sem consciência de que a usam). Por outro lado, os intervalos de confiança com um nível de confiança de 95% (Gráfico 4.8) apresentam amplitudes entre 0,034 e 0,065, o que vem reforçar a ideia de que as médias obtidas representam razoavelmente bem as pontuações atribuídas em cada item não havendo grandes variações entre os sujeitos da amostra. Gráfico 4.8: Intervalos de confiança para a pontuação média nos itens da escala Fonte: Elaborado pelo autor 276 Análise de dados Comparativamente com os resultados obtidos em Estrada (2002), no presente estudo há 15 (60%) itens em que a média é inferior e, consequentemente, 10 (40%) em que a média é superior. Acrescenta-se que no trabalho de Estrada (2002) há seis (24%) itens com média inferior a 3 e no presente estudo há quatro (16%) itens, enquanto com médias superiores a 4 surgem cinco (20%) itens na investigação espanhola e quatro (16%) itens nesta investigação. Recorde-se agora os resultados de Aparício, Estrada e Bazán (2010) e Estrada et al. (2009) que fizeram um estudo transcultural comparando os resultados obtidos por professores espanhóis e peruanos com uma versão da escala EAEE com apenas 22 itens (rever segundo capítulo). Na presente investigação, apenas para esses 22 itens, surgem 17 (77%) itens com médias inferiores às respetivas médias dos docentes em Espanha e apenas cinco (23%) itens com médias inferiores às dos seus colegas peruanos. Ainda para os 22 itens referidos, e em termos do número de itens com médias inferiores a 3, para os professores portugueses há dois (9%) itens, para os docentes peruanos há seis (27%) itens, não havendo qualquer item para os professores espanhóis. Em termos do número de itens com médias superiores a 4, para os professores portugueses há três (14%) itens, para os docentes peruanos há um (5%) item, e cinco (23%) itens para os professores espanhóis, e para este último grupo de professores há ainda mais dois itens com média igual a 4. Perante estes resultados pretende-se, de seguida analisar os itens mais valorizados, ou seja, com valores da média superiores a 4, e os menos valorizados, considerados como tais os que apresentam média inferior a 3, como no trabalho de Estrada (2002). Itens mais valorizados O item mais valorizado em termos da média da pontuação para o total desta amostra é o item 7 – A estatística não serve para nada – com uma média de 4,42 0,964 (cv=0,218, Tabela 4.10 e Gráfico 4.8). De igual modo, o segundo item mais valorizado é o item 6 – A estatística só serve para as pessoas das ciências – com uma média 4,30 0,906 (cv=0,211). Estes itens, que estão redigidos de forma negativa, correspondem ambos à componente cognitiva (associada às componentes pedagógicas), e à componente social (associada às componentes antropológicas). Desta forma, para além de ficar patente alguma coerência nas pontuações atribuídas a este nível de 277 Análise de dados componentes, os professores expressam uma (forte) conceção e crença em que a Estatística é útil e mostram uma (forte) perceção e valorização do papel que esta tem no âmbito sociocultural para qualquer cidadão, independentemente da sua formação e não apenas no âmbito da ciência. Esta consciência está também em conformidade com a tendência das últimas décadas de dar cada vez mais importância à Estatística e à sua aplicação nas mais variadas áreas do saber e do quotidiano, como referido no primeiro capítulo. Com pontuações médias ligeiramente inferiores, mas ainda acima do valor 4, surgem o item 13 Na escola não se deveria ensinar estatística – com média 4,21 1,034 (cv=0,246), e o item 9 Se pudesse eliminar alguma matéria seria a estatística com média 4,12 0,994 (cv=0,241). Ambos os itens correspondem à componente educativa (associada às componentes antropológicas) e em termos das componentes pedagógicas o primeiro destes dois itens, 13, corresponde à componente cognitiva, enquanto o segundo, 9, corresponde à componente afetiva. Desta forma, os professores atribuem importância à aprendizagem da Estatística e manifestam ter uma visão clara e afirmativa sobre a utilidade da mesma para os alunos e uma reação positiva sobre a necessidade da inclusão da Estatística no currículo. Esta análise dos quatro itens mais valorizados, parece indicar que os professores interpretam que a referida importância atribuída à utilidade e aplicabilidade da Estatística é, naturalmente, um dos pilares que justificam a sua presença nos currículos do ensino obrigatório, bem como o reforço e alargamento dessa presença, também referido no primeiro capítulo, no que se refere ao PMEB de 2007. Destes itens, apenas o item 13 Na escola não se deveria ensinar estatística – coincide com os itens com média superior a 4 no estudo de Estrada (2002), em que surgem como itens mais valorizados, para além do item 13, os itens 23, 22, 8 e 25. Estes itens de Estrada (2002) centram-se na manifestação de afeto em relação à matéria, preferindo no âmbito da Estatística a resolução de problemas em detrimento do trabalho teórico, na constatação da importância que se atribui à presença da Estatística na vida quotidiana, na atribuição de interesse pelo ensino da Estatística, através do trabalho colaborativo entre pares para melhorar esse mesmo ensino, e na tendência de procurar informação estatística. No âmbito dos estudos de Estrada, Bazán e Aparício (2010a, 2010b) e Estrada et al. (2009), aparece como item mais valorizado, tanto nos professores espanhóis como peruanos, o item 13 Na escola não se deveria ensinar 278 Análise de dados estatística. De realçar que no caso dos professores peruanos este é o único item com média superior a 4. Além disso, nestes últimos estudos referidos, os professores em exercício espanhóis apresentam, de forma coincidente com os resultados dos professores portugueses no presente trabalho, uma média superior a 4 no item 7 A estatística não serve para nada. Itens menos valorizados O item menos valorizado em termos da média da pontuação para o total da amostra é o item 2 Através da estatística pode-se manipular a realidade – com uma média de 1,99 0,962 (cv= 0,483, Tabela 4.10 e Gráfico 4.8). Este item corresponde à componente cognitiva (associada às componentes pedagógicas) e à componente instrumental (associada às componentes antropológicas). Desta forma, os professores manifestam em termos negativos a sua perceção de que, enquanto prática cultural comum, a utilidade da Estatística pode ser e é posta ao serviço da manipulação e não apenas da verdade. O segundo item menos valorizado é o item 8 – É frequente explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não entenderam com uma média de 2,53 0,996 (cv=0,394). Neste caso o item corresponde à componente comportamental (associada às componentes pedagógicas) e à componente educativa (associada às componentes antropológicas). Deste modo, percebe-se a tendência negativa dos professores para decidir em termos de ação em relação ao trabalho colaborativo ou à partilha sobre problemas de Estatística com os colegas. Esta situação pode configurar eventual falta de interesse em relação à Estatística e/ou à sua aprendizagem, ou então dificuldade, ou falta dela, percebida em relação à Estatística (em linha com o referido no primeiro capítulo). Para além disso, talvez este item reflita uma separação ainda muito vincada entre o mundo académico e o da vida quotidiana, apesar dos esforços oficiais já realizados em sentido contrário, por exemplo, incentivando a formação de professores neste domínio. Contrariamente a esta valorização dos professores portugueses, este item obteve uma média superior a 4 no estudo de Estrada (2002). Ainda com valor da média inferior a 3 aparece o item 4 Utilizo pouco a estatística fora da escola – com média 2,79 1,104 (cv=0,396). Como no item anterior (item 8) este item corresponde à componente comportamental (componentes 279 Análise de dados pedagógicas), e à componente instrumental (componentes antropológicas). A valorização neste item é aparentemente contraditória com o referido nos itens mais valorizados, uma vez que, apesar de os professores apresentarem uma consciência da importância da utilidade e da aplicabilidade da Estatística com um papel fundamental para qualquer cidadão, bem como o lugar obrigatório que o ensino da Estatística deve ter no currículo e no ensino , neste item demonstram não utilizar (conscientemente) a Estatística no seu quotidiano fora do universo académico. Entre os quatro itens com média inferior a 3 o que apresenta o maior valor é o item 1 Incomoda-me a informação estatística transmitida em alguns programas da TV – que apresenta a média 2,95 1,011 (cv=0,343). Este item, em termos das componentes pedagógicas corresponde à componente afetiva e, no que diz respeito às componentes antropológicas, correspondente à componente social. Desta forma, os professores expressam um sentimento de alguma descrença em relação à utilização da Estatística e de um certo afastamento em relação à mesma, pelo menos ao nível da informação veiculada nas televisões. O item 2, o menos valorizado no presente estudo, é o único que simultaneamente surge com média inferior a 3 na investigação de Estrada (2002) (Gráfico 4.9), reforçando a ideia de que a Estatística por vezes tem uma má imagem na TV, o que também está patente na média do item 1 no caso dos professores portugueses. Esta situação pode ser devida ao abuso que é por vezes feito da Estatística, por exemplo, na na TV. Este facto é realçado por Estrada (2002, referindo Campbell, 1974), indicando que esta situação é assinalada por vários autores na publicidade, nos órgãos de comunicação social ou na política. Curiosamente dos outros itens que no estudo de Estrada (2002) apresentam médias inferiores a 3, os itens 3, 5, 6, 7 e 9, três deles (6, 7 e 9) são itens que no presente estudo surgem como dos mais valorizados (médias superiores a 4). Os restantes dois itens (3 e 5) revelam que os docentes espanhóis do estudo encaram a Estatística como uma disciplina que não os apaixona, mas que os professores em Portugal, não valorizando muito positivamente esta faceta, também não a desvalorizam. 280 Análise de dados Gráfico 4.9: Comparação das médias dos 25 itens (Portugal vs. Espanha) Fonte: Elaborado pelo autor Nos trabalhos de Aparício, Estrada e Bazán (2010) e Estrada et al. (2009), com apenas 22 itens (com a eliminação dos itens 2, 8 e 9), nos professores em Espanha não houve qualquer item com média inferior a 3, e nos professores peruanos surgem os itens 3, 4, 7, 14, 21 e 23 (Gráfico 4.10). Assim, excluindo os itens 2 e 8 que apresentam média inferior a 3 nos professores de Portugal (e não foram considerados nos estudos referidos), apenas o item 4 é coincidente nestes dois grupos de professores como item menos valorizado, evidenciando que estes professores pouco aplicam, pelo menos de forma consciente, a Estatística nas suas vidas para além da escola. Pontuação média 5 4 3 Portugal 2 Peru 1 Espanha 1 3 4 5 6 7 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 Itens Gráfico 4.10: Comparação das médias de 22 itens (Portugal. Peru vs. Espanha) Fonte: Elaborado pelo autor Finalmente, no ponto 4.4 serão analisadas as justificações apresentadas para as pontuações atribuídas pelos professores em nove itens, como foi mencionado no 281 Análise de dados capítulo anterior. Entre estes nove itens estão todos os que foram pior valorizados (1, 2, 4 e 8), bem como três dos quatro melhor valorizados (6, 7 e 9). Este facto permitirá complementar a análise realizada, através da análise de conteúdo das justificações. 4.1.3. Análise da fiabilidade da escala Neste ponto, far-se-á a análise da fiabilidade da escala para a presente amostra uma vez que uma escala só é útil se medir de forma consistente aquilo que se pretende medir, neste caso medir a atitude em relação à Estatística por parte dos professores do 1º e 2º ciclos do EB em Portugal. Ou seja, neste caso a escala só será fiável se der garantias de que a relação entre a atitude dos professores em relação à Estatística e as respostas nos itens da escala é forte. Uma das formas de analisar a fiabilidade é usar o alfa de Cronbach que é o mais referenciado na literatura sobre atitudes em relação à Estatística (segundo capítulo). O alfa de Cronbach foi desenvolvido por Lee Cronbach em 1951 e varia entre 0 e 1 (Cronbach, 1951; Loewenthal, 2001; Tavakoll e Dennick, 2011). Tavakoll e Dennick (2011, p. 53) escrevem que a “[i]nternal consistency describes the extent to which all the items in a test measure the same concept or construct and hence it is connected to the inter-relatedness of the items within the test.” Por outr lado, Hassad (2007, pp. 6263) menciona que o alfa de Cronbach “reflects the degree of homogeneity or coherence of the scale or each subscale (Freeman & Tyrer, 1995)” e que “the recommended minimum Cronbach’s alpha for exploratory studies is .6 (Nunnally, 1974; Robinson, Shaver, & Wrightsman, 1991).” O alfa de Cronbach é um coeficiente de consistência interna que avalia até que ponto os itens da escala medem o mesmo constructo (Aiken, 1996; Loewenthal, 2001; Pestana e Gageiro, 2000), ou que se define como “a proporção da variabilidade nas respostas que resulta de diferenças nos inquiridos. Isto é, as respostas diferem não porque o inquérito seja confuso e leve a diferentes interpretações, mas porque os inquiridos têm diversas opiniões.” (Pestana e Gageiro 2000, p. 415). Este coeficiente representa a proporção da variância total da escala que é atribuível a uma fonte comum que, presumivelmente, é a verdadeira pontuação da variável latente subjacente aos itens da escala (DeVellis, 2003). Para a escala EAEE com 25 itens usada nesta investigação e para a amostra de 1098 professores do 1º e 2º ciclos do EB em Portugal o coeficiente de consistência 282 Análise de dados interna, alfa de Cronbach, obtido foi de 0,869 (alfa de Cronbach estandardizado o valor de 0,879). Este valor está acima do limite inferior referido, pelo que se pode considerar haver uma boa consistência interna da escala neste estudo. Este valor está, também, acima do valor obtido por Estrada (2002), 0,774, com professores em formação e em exercício. Por outro lado, o valor obtido por Aparício, Estrada e Bazán (2010), com professores em exercício de Espanha e Peru, foi de 0,844, sendo o valor correspondente ao coletivo espanhol de 0,753 e o do coletivo peruano de 0,839. No entanto, neste último estudo só foram usados 22 dos 25 itens da escala EAEE e fazendo o cálculo para essa situação obteve-se para esta amostra de 1098 professores portugueses, um alfa de Cronbach de 0,874, ligeiramente superior ao valor para a escala com os 25 itens e aos valores obtidos nos estudos com 22 itens. Para analisar o efeito de cada item na consistência da escala para esta amostra apresenta-se o efeito que cada item produz na média (87,97), na variância (140,89) e no alfa de Cronbach (0,869), apresentando os respetivos valores, caso este item fosse eliminado da escala, bem como a relação entre cada item e os restantes em termos do coeficiente de correlação linear r de Pearson (Tabela 4.11). Pode realçar-se que, como em Estrada (2002), neste estudo o item 2 – Através da estatística pode-se manipular a realidade – apresenta uma correlação linear negativa muito próximo de zero (Tabela 4.11), -0,062, e é o item que dá origem a um maior valor da variância quando eliminado, o que indica que este item avalia algo diferente dos restantes. Este item é um dos três eliminados nos trabalhos de Aparício, Estrada e Bazán (2010), Estrada, Bazán e Aparício (2010a, 2010b), Estrada et al. (2009) e Estrada, Bazán e Aparício (2013). No entanto, na investigação de Estrada (2002) o item 9 Se pudesse eliminar alguma matéria seria a estatística – surge com uma correlação linear negativa, o que não acontece no presente estudo, pois esse valor é praticamente de 0,4. Ainda se deve salientar a existência de dois itens com valores de correlação linear abaixo de 0,2, ainda que superiores a 0,15 (valor abaixo do qual a correlação não foi considerado em Estrada, Bazán e Aparício, 2013). No estudo de Estrada (2002) o item 1 Incomoda-me a informação estatística transmitida em alguns programas da TV – teve valor inferior a 0,2. Quanto ao item 8 É frequente explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não entenderam – também foi inferior a 0,2 e um dos três itens eliminados em Estrada, Bazán e Aparício (2010a, 2010b) que usaram a escala EAEE com apenas 22 itens. Os itens com maiores valores de correlação linear são o 283 Análise de dados item 10 A estatística ajuda a entender o mundo de hoje, r=0,868, o item 23 Gosto de resolver problemas quando uso estatística, r=0,694, e o item 18 Acho interessante o mundo da estatística, r=0,648. Relativamente aos valores do alfa de Cronbach se fosse eliminado um item, constata-se que todos eles são superiores a 0,85 (Tabela 4.11), tomando valores entre 0,857 e 0,878, e apresentando valores bastante semelhantes entre os vários itens. Este facto parece indicar haver, de uma forma geral, uma contribuição mais ou menos equitativa dos vários itens. Tabela 4.11: Análise da consistência interna da escala para a amostra do estudo ITENS Média se eliminado o item Variância se eliminado o item Coeficiente correlação Alfa Cronbach Item 1 85,02 136,146 linear0,154 item-total se eliminado 0,873 o item Item 2 85,98 141,294 -0,062 0,878 Item 3 84,67 128,097 0,477 0,863 Item 4 85,18 132,676 0,271 0,870 Item 5 84,81 128,967 0,492 0,863 Item 6 83,67 131,383 0,414 0,865 Item 7 83,55 130,866 0,408 0,865 Item 8 85,44 135,529 0,184 0,872 Item 9 83,85 127,653 0,541 0,861 Item 10 84,39 129,077 0,868 0,858 Item 11 84,08 128,326 0,575 0,860 Item 12 84,63 128,478 0,526 0,862 Item 13 83,76 128,207 0,492 0,862 Item 14 84,70 129,693 0,436 0,864 Item 15 84,15 130,936 0,377 0,866 Item 16 84,41 128,863 0,571 0,861 Item 17 84,26 131,613 0,341 0,867 Item 18 84,29 127,317 0,648 0,859 Item 19 84,26 129,064 0,549 0,861 Item 20 84,33 132,582 0,306 0,868 Item 21 84,78 128,843 0,428 0,865 Item 22 84,12 131,099 0,389 0,866 Item 23 84,40 126,386 0,694 0,857 Item 24 84,27 129,064 0,568 0,861 Item 25 84,27 129,449 0,436 0,864 Fonte: Elaborada pelo autor Além disso, e coerentemente com os itens problemáticos já referidos, o valor do coeficiente de consistência interna apenas aumentou quando retirado um de quatro 284 Análise de dados (16%) itens 1, 2, 4 e 8 , sendo essa diferença maior (0,009) para o item 2 e menor (0,001) para o item 4. Destes quatro itens, dois (4 e 8) correspondem à componente comportamental (associada às componentes pedagógicas) e dois itens (2 e 4, sendo este último comum ao caso anterior) correspondem à componente instrumental (associada às componentes antropológicas). Assim, pelo que já se começou a delinear, serão estas as componentes mais frágeis em termos das atitudes dos professores em relação à Estatística. Por outro lado, no sentido de complementar esta abordagem da fiabilidade, em que está incluída a consistência interna analisada, aplicar-se-á a teoria da generalização (GT). Esta teoria surge como alternativa e/ou complemento da abordagem clássica da fiabilidade, baseando-se na noção geral de que a utilidade destes instrumentos psicométricos depende de até que ponto estes conseguem ser aplicados e generalizados em diferentes situações, contextos ou condições. Briesch, Swaminathan, Welsh, Chafouleas (2014, p.15) sintetizam que: “Cronbach, Rajaratnam, and Gelser (1963) introduced GT to the fields of education and psychology as an extension of the ICC [intraclass correlation]. In contrast to the ICC, GT takes into account the various sources of error that affect measurement rather than assuming a single source of measurement error”. Já em 1992 Brennan (1992, p. 33) recordava que a “classical theory has an undifferentiated error term, whereas the models and methods used in generalizability theory allow an investigator to systematically distinguish among multiple sources of error. Also, generalizability theory emphasizes the estimation of variance components, rather than F-tests (…)”. Brennan (1992, p.33) também escreveu que o conhecimento das “various sources of measurement error (…) aids an investigator in better understanding measurement itself.” Foram desenvolvidos métodos estatísticos com base na análise de variância, mas a teoria da generalização procura determinar a generalização da escala como função de mudanças na pessoa a quem se aplica, de diferentes grupos de itens para a escala, das condições ou situações em que se aplica a escala, ou dos métodos ou pessoas envolvidas na resposta, conseguindo-o através de um coeficiente (Aiken, 1996). Portanto, a análise a desenvolver vai depender dos fatores que forem objeto da investigação. 285 Análise de dados O coeficiente de generalização foi obtido como o quociente entre a variância “verdadeira” da pontuação e a variação observada (de modo geral, a variação observada obtêm-se somando a variância verdadeira e a variância originada pelo erro aleatório, Estrada, 2009a, Briesch et al., 2014). No presente caso, como em Estrada (2002; 2009a), considerou-se um modelo de dois fatores com dois efeitos aleatórios, os professores e os itens da escala. Deste modo, o valor do coeficiente de generalização a outros itens é de 0,949 e o coeficiente de generalização a outros professores é de 0,998 (Anexo X). O valor do coeficiente de generalização a outros itens é ligeiramente superior ao alfa de Cronbach obtido, 0,869, mostrando uma boa generalização dos resultados se aos mesmos professores fosse administrada outra escala com o mesmo número de itens e que medisse o mesmo, ou seja, se fosse mudado o enunciado dos itens, mas estes também medissem as atitudes em relação à Estatística dos professores (Estrada 2002, 2009a). O valor coeficiente de generalização a outros professores é ainda superior ao alfa de Cronbach, obtendo-se um valor bastante muito próximo de 1, indicando uma boa generalização dos resultados a outros professores, caso fosse administrada a mesma escala e os professores conservassem as características sociológicas e educativas dos professores da amostra deste estudo (Estrada 2002, 2009a). 4.2. Relação entre atitudes e suas componentes Importa também perceber se existe relação entre a pontuação total obtida na escala e a pontuação obtida nas componentes das atitudes consideradas, bem como entre elas. Nesse sentido, começa-se por fazer uma análise das correlações lineares entre a pontuação total na escala e da pontuação das componentes, bem como da pontuação das componentes entre si. Para a pontuação das componentes pedagógicas os coeficientes de correlação linear parcial estão na Tabela 4.12 e constata-se que a componente afetiva é aquela que, em relação à pontuação total, apresenta uma forte associação linear positiva com o coeficiente de correlação mais elevado, 0,938, o que reforça a importância que é atribuída ao domínio afetivo no âmbito das atitudes (salientado no segundo capítulo). No entanto, os coeficientes de correlação parcial para a pontuação da componente Cognitiva (0,89) e para a pontuação da componente Comportamental (0,829) também 286 Análise de dados são elevados. Este facto indica que estas componentes também têm a sua influência na pontuação total. No que diz respeito à correlação da pontuação das componentes entre si, verificam-se valores para os coeficientes de correlação compreendidos entre 0,769 (entre as componentes Afetiva e Cognitiva) e 0,607 (entre as componentes Cognitiva e Comportamental). Tendo sido todas as correlações estatisticamente significativas (todos os valores de p=0,000 < 0,01), e apesar de apresentarem valores mais baixos que os dos coeficientes de correlação em relação à pontuação total, não deixam de ser valores com intensidades moderadamente altas, pelo que se pode assumir que estas componentes das atitudes se influenciam entre elas, não deixando de ser aspetos diferenciados das atitudes, reforçando o mencionado no segundo capítulo. Tabela 4.12: Correlações de Pearson para as componentes pedagógicas Pontuação Componente Componente Componente Total Afetiva Cognitiva Comportamental Pontuação Total 1,000 0,938 0,890 0,829 Componente Afetiva 1,000 0,769 0,667 Componente Cognitiva 1,000 0,607 Componente Comportamental 1,000 Fonte: Elaborada pelo autor Para as pontuações das componentes antropológicas os coeficientes de correlação parcial estão na Tabela 4.13 e comprova-se que a componente educativa é que, em relação à pontuação total, apresenta uma forte associação linear positiva com o coeficiente de correlação mais elevado, 0,901. Este facto reflete a importância e a influência que, em termos das atitudes em relação à Estatística, têm os aspetos educativos, como o interesse em relação à Estatística e à sua aprendizagem, a visão sobre a sua utilidade para o aluno, a opinião sobre a importância da sua inclusão no currículo e mesmo até a dificuldade percebida em relação à mesma, como foi aludido no segundo capítulo. Contudo, os coeficientes de correlação para as pontuações da componente Instrumental (0,851) e para as pontuações da componente Social (0,820) são também elevados, revelando a influência que têm na pontuação total. Estes valores da correlação são ligeiramente mais baixos que os apresentados nas pontuações das componentes pedagógicas. Em termos da correlação das componentes entre si, verificam-se valores para os coeficientes de correlação compreendidos entre 0,671 (entre as componentes Educativa e Instrumental) e 0,531 (entre as componentes Social e Instrumental). Nas pontuações das componentes antropológicas todas as correlações foram estatisticamente significativas (todos os valores de p=0,000 < 0,01), e apesar de 287 Análise de dados apresentarem valores mais baixos que os dos coeficientes de correlação em relação à pontuação total, não deixam de ser valores com intensidades moderadas, pelo que também se pode assumir que estas componentes das atitudes se influenciam entre elas. Embora com menos intensidade que no caso das componentes pedagógicas, não deixam de ser aspetos diferenciados das atitudes a serem tidos em conta, como foi indicado no segundo capítulo. Tabela 4.13: Correlações de Pearson para as componentes antropológicas Pontuação Componente Componente Componente Total Social Educativa Instrumental Pontuação Total 1,000 0,820 0,901 0,851 Componente Social 1,000 0,609 0,531 Componente Educativa 1,000 0,671 Componente Instrumental 1,000 Fonte: Elaborada pelo autor Para além desta relação entre as pontuações totais e as pontuações das componentes, apesar da forte consistência interna obtida e dos bons coeficientes de generalização obtidos, pretende-se analisar possíveis relações entre os itens de modo a percecionar se alguns deles medirão, ou não, o mesmo que outros dos itens. Além disso, pretendem obter-se indicações que reforcem, ou não, a constituição de base das componentes consideradas em termos teóricos (Tabela 4.1). Para tal, nos próximos dois pontos, recorrer-se-á à análise clusters e à análise fatorial que poderão comparar-se com os resultados obtidos com os da análise psicométrica desta escala EAEE com os do trabalho de Estrada, Bazán e Aparício (2013). 4.2.1. Análise de clusters A análise de clusters é um método de análise multivariada através do qual se procura individualizar grupos homogéneos, identificando grupos de variáveis relacionadas entre si, tal como definem Härdle e Simar (2007, p.217) “Cluster analysis is a set of tools for building groups (clusters) from multivariate data objects. The aim is to construct groups with homogeneous properties out of heterogeneous large samples. The groups or clusters should be as homogeneous as possible and the differences among the various groups as large as possible” 288 Análise de dados Hair, Black, Babin e Anderson (2009, p. 488) salientam que a análise de clusters é usada como uma técnica exploratória de dados com soluções que não são únicas “(…) because the cluster membership for any number of solutions is dependent upon many elements of the procedure, and many different solutions can be obtained by varying one or more elements”. No entanto, neste estudo, poderá perceber-se a existência, ou não, de itens redundantes, no sentido em que medem o mesmo que outros itens através dos grupos identificados. Além disso, a possibilidade de estabelecer grupos de variáveis claramente diferenciados poderá complementar a análise fatorial a realizar e, consequentemente, ajudar a perceber melhor a estrutura das componentes consideradas, como foi executado por Estrada (2002; 2009a). Em particular, usar-se-á a análise de clusters hierárquica que é um método que tem a sua origem na classificação sistemática do reino animal e vegetal, ainda que aplicado a variados ramos da ciência, Cuadras (1981). Segundo o mesmo autor, este procedimento é predominantemente aplicado a variáveis qualitativas, embora se destine também a variáveis quantitativas, em especial na Psicologia. Em particular Everitt, Landau, Leese, Stahl (2011, p. 71) definem esta análise como: “Hierarchical clustering techniques may be subdivided into agglomerative methods, which proceed by a series of successive fusions of the n individuals into groups, and divisive methods, which separate the n individuals successively into finer groupings. Both types of hierarchical clustering can be viewed as attempting to find the optimal step, in some defined sense (...) at each stage in the progressive subdivision or synthesis of the data, and each operates on a (…) matrix of some kind”. Como definido, o método aqui usado foi o método hierárquico aglomerativo em que as relações entre as variáveis se estabelecem através de matrizes de semelhanças (ou dissemelhança) e as variáveis através de matrizes de correlações (ou de distâncias). Isto é, parte-se duma matriz n×n de semelhanças (ou de dissemelhanças) entre as n variáveis, cujo elemento genérico (i, j) é uma medida de semelhança entre a variável i e a variável j. No início, consideraram-se as n variáveis como constituindo n classes diferentes. Procedendo por etapas, vai-se fundindo um par de classes em cada etapa. A fusão a efetuar numa dada etapa é a fusão dos dois subgrupos (classes) considerados mais “semelhantes”. Este processo pode ser levado até à fusão de todos os indivíduos 289 Análise de dados numa única classe. Num método de classificação hierárquico, como o da análise de clusters, a forma usual de representar graficamente as sucessivas fusões de subgrupos é através dum dendrograma que é uma representação em forma de árvore. Everitt et al. (2011, p.88) completam esta descrição indicando que “[t]he nodes of the dendrogram represent clusters, and the lengths of the stems (heights) represent the distances at which clusters are joined”. Realizou-se uma análise hierárquica de clusters de variáveis (e não de casos) e Tryfos (2001, p.18) descreve a situação deste estudo referindo que “Clustering methods can also be employed to group variables rather than observations, as in the case of questionnaire design. These groupings are frequently based on the correlation coefficients of the variables”. Usou-se como índice de semelhança o coeficiente de correlação de Pearson que varia de -1 a 1 (Everitt et al., 2011). Se o coeficiente de correlação for positivo reflete uma relação linear de declive positivo, tão mais forte quanto se aproxime de 1 e indicando a semelhança entre os itens. Caso contrário, se for negativo reflete uma relação linear de declive negativo, indicando a dissemelhança entre os itens. Este também foi o processo adotado por Estrada (2002) usando como variáveis os itens da escala. Na análise hierárquica adotou-se o método de aglomeração do vizinho mais próximo, em que para formar os grupos as variáveis são combinadas em primeiro lugar com as que mais se correlacionam com elas. Aldenderfer e Blashfield (1984, p. 38) identificam Sneath (1957) como o criador desta técnica e indicam como as suas maiores vantagens: “It is invariant to monotonic transformations of the similarity matrix, and it is unaffected by ties (…)”. Além disso, Hair et al. (2009, p. 486) definem a medida deste método como: “Hierarchical clustering algorithm in which similarity is defined as the minimum distance between any single object in one cluster and any single object in another, which simply means the distance between the closest objects in two clusters”. A análise de clusters efetuada neste trabalho envolveu os 25 itens da escala EAEE e daí resultou o quadro de aglomeração (Tabela 4.14). Nesse quadro podem identificar-se que variáveis ou clusters são combinados em cada etapa. Assim, as primeiras variáveis a serem associadas foram as 18 e 19, dado apresentarem o maior coeficiente de correlação (0,639) na matriz de 25×25. Na segunda etapa, 18 e 19 passarão a representar um grupo e serão o novo elemento da nova matriz (24×24) e agora serão associadas as variáveis 10 e 23, cujo coeficiente de correlação é o segundo maior (0,631), e assim sucessivamente. Nas colunas referentes à etapa em que o cluster 290 Análise de dados aparece pela primeira vez surgem zeros nestes dois primeiros casos, pois essas variáveis aparecem pela primeira vez, ou seja, ainda não tinham surgido em qualquer etapa antes. Em relação à coluna da próxima etapa aparece o número 3, porque a próxima etapa em que surge de novo uma destas variáveis é na etapa 3, por exemplo, a variável 18 na primeira etapa e a variável 10 na segunda etapa voltam a ser associadas, neste caso uma com a outra, na terceira etapa. No processo hierárquico as associações vão apresentando cada vez menor coeficiente de correlação, neste caso a associação entre a variável 1 e 3, na iteração 24, mostra o mais baixo dos coeficientes de correlação, 0,192, havendo apenas 3 valores abaixo de 0,3, o valor mínimo usado por Estrada (2002, 2009a). Todos os coeficientes são positivos, o que era esperado no sentido em que todos os itens medem as atitudes em relação à Estatística (ponto 3.1.1 do capítulo anterior). Tabela 4.14: Evolução da aglomeração na análise de clusters Etapa em que o cluster Combinações de clusters Coeficientes aparece pela 1ª vez Etapa de correlação Cluster 1 Cluster 2 Cluster 1 Cluster 2 1 18 19 0,639 0 0 Próxima etapa 3 2 10 23 0,631 0 0 3 10 18 0,593 2 1 5 4 14 21 0,567 0 0 17 5 10 11 0,565 3 0 6 6 10 24 0,551 5 0 7 7 10 16 0,545 6 0 8 8 9 10 0,542 0 7 9 9 9 12 0,509 8 0 10 10 9 13 0,506 9 0 11 11 5 9 0,493 0 10 12 12 3 5 0,475 0 11 14 13 6 7 0,472 0 0 16 14 3 25 0,442 12 0 15 15 3 22 0,439 14 0 16 16 3 6 0,432 15 13 17 17 3 14 0,427 16 4 19 18 15 17 0,410 0 0 19 19 3 15 0,368 17 18 20 20 3 20 0,307 19 0 21 21 3 4 0,304 20 0 22 22 3 8 0,280 21 0 24 23 1 2 0,275 0 0 24 24 1 3 0,192 23 22 0 Fonte: Elaborada pelo autor 291 3 Análise de dados O dendograma é a esquematização da aglomeração, ainda que numa escala diferente da escala das distâncias (semelhanças ou de dissemelhanças) com valores de 0 a 25. Nesta escala os coeficientes maiores estão associados a clusters pouco homogéneos (barras de união de grupos relativamente compridas) e os coeficientes mais pequenos, pelo contrário, indicam aglomerações razoavelmente homogéneas. Segundo Pestana e Gageiro (2000, p. 436) se “existir uma queda rápida no tamanho das diferenças pode considerar-se que se obteve o número adequado de clusters”. Esta ideia é reforçada por Everitt et al. (2011, p. 95): “This defines a partition such that clusters below that height are distant from each other by at least that amount, and the appearance of the dendrogram can thus informally suggest the number of clusters.” Lendo o dendrograma obtido nesta análise, da direita para a esquerda (Gráfico 4.11), constata-se que entre as maiores distâncias 21 e 22 se obtêm dois clusters. Gráfico 4.11: Dendograma Fonte: Elaborado pelo autor 292 Análise de dados Para uma distância entre 19 e 20 obtêm-se quatro clusters e usando uma distância entre 12 e 13 obtêm-se oito clusters. Pelas elevadas distâncias percebe-se que para obter homogeneidade razoável são necessários vários clusters. Além disso, percebe-se a existência de um cluster que inclui grande parte dos itens (cluster 3, Tabela 4.15). Em termos das várias componentes consideradas a priori pode observar-se no dendograma (Gráfico 4.11) que não há aglomerações claramente coincidentes com essas componentes teóricas, pedagógicas (CP) ou antropológicas (CA). No entanto, para as CP, as primeiras associações apresentam um predomínio da componente Afetiva, ainda que com os itens intercalados com alguns itens da componente Cognitiva, e esta interrelação é destacada por Estrada (2002) como referida por vários autores. Posteriormente surgem vários itens da componente cognitiva, mas intercalados com itens da componente comportamental. Esta última aparece mais agrupada na parte de baixo do dendograma. Quanto às CA, na parte superior do dendograma surgem de forma intercalada itens das componentes Educativa e Instrumental. Depois, e de forma mais agrupada, surgem itens da componente Social, ainda que alternados com alguns itens da componente Educativa. Ou seja, de uma maneira geral, as componentes aparecem reunidas ou divididas em vários grupos com alguns dos seus itens unidos entre si. Os elementos para 2 clusters até 8 clusters, enquanto soluções obtidas através do método de aglomeração do vizinho mais próximo, são sintetizados na Tabela 4.15. Como sugerem Reis (1997) e Everitt et al. (2011), fez-se a partição na etapa a partir da qual deixa de haver alterações significativas na distância transformada de combinação entre clusters (escala do dendograma), nesta análise, a dos 8 clusters. Os respetivos elementos estão inseridos na Tabela 4.15 onde se constata de forma ainda mais evidente que no dendograma a existência de um cluster que inclui grande parte dos itens, como já referido. Na parte final do processo de aglomeração há um destaque dos itens 1 – Incomoda-me a informação estatística em alguns programas de TV – e 2 – Através da estatística pode-se manipular a realidade – como não fazendo parte do referido cluster. 293 Análise de dados Tabela 4.15: Elementos dos clusters Item 8 Clusters 7 Clusters 6 Clusters 5 Clusters 4 Clusters 3 Clusters 2 Clusters 1 1 1 1 1 1 1 1 2 2 2 2 2 2 2 1 3 3 3 3 3 3 3 2 4 4 4 4 4 3 3 2 5 3 3 3 3 3 3 2 6 7 8 9 10 11 12 3 3 5 3 3 3 3 3 3 5 3 3 3 3 3 3 5 3 3 3 3 3 3 5 3 3 3 3 3 3 4 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 2 2 2 2 2 2 2 13 3 3 3 3 3 3 2 14 15 16 3 6 3 3 6 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 2 2 2 17 18 19 7 3 3 6 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 2 2 2 20 8 7 6 3 3 3 2 21 22 23 24 25 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 2 2 2 2 2 Fonte: Elaborada pelo autor Em etapas anteriores, com mais clusters, surgem sucessivamente itens isolados a formar esses clusters, e com 8 clusters acrescentam-se nessa situação os itens 8 – É usual explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não entenderam, 4 – Utilizo pouco a estatística fora da escola, 20 – Quando eu tive aulas de estatística entendia pouco do que se dizia, 15 – Não entendo as informações estatísticas que aparecem na imprensa escrita e 17 – Sinto-me intimidado(a) perante dados estatísticos. Destes sete itens quatro (4, 8, 15 e 20) estão associados à componente pedagógica comportamental, evidenciando que a tendência para decidir em termos de ação em relação à Estatística de uma forma concreta e determinada por parte dos professores mostra-se diferente das ideias, crenças, imagens e perceções sobre a Estatística, bem como as formas de expressar o sentimento em relação à Estatística. Por outro lado, três daqueles itens (1, 15 e 17) estão associados à componente antropológica Social, destacando que os aspetos da perceção e valorização do papel da Estatística no âmbito 294 Análise de dados sociocultural de qualquer cidadão – em alternativa à visão da Estatística como um tipo de conhecimento isolado da cultura ou dos valores culturais – se afastam de alguma forma dos aspetos referentes ao interesse em relação à Estatística e à sua aprendizagem, à visão sobre a sua utilidade para o aluno, à opinião sobre a importância da sua inclusão no currículo, à dificuldade percebida em relação à mesma e ainda à atribuição de utilidade da Estatística a outras matérias como forma de raciocínio e como elemento cultural. Destaca-se ainda que quatro (1, 2, 4 e 8) dos sete itens referidos estão associados aos itens com mais baixas pontuações médias (referido no ponto 4.1.2), estando simultaneamente associados a uma diminuição do coeficiente de consistência interna, (já analisado no ponto 4.1.3). Concluindo, da análise de clusters realizada fica a ideia de que os itens da escala usada avaliam, de uma forma geral, o mesmo constructo, ou seja, a atitude em relação à Estatística. O modelo teórico para as componentes das atitudes, que serviu de base à escala EAEE e que é complexo, parece estar refletido nos resultados obtidos. As várias componentes consideradas aparecem misturadas ou divididas em vários pequenos grupos, ainda que alguns dos seus itens apareçam unidos entre si. Relembre-se que a escala EAEE é multidimensional, envolvendo três componentes pedagógicas e três componentes antropológicas inter-relacionadas, o que conduz a nove subconjuntos de itens. Além disso, surgem alguns itens que, coerentemente com resultados obtidos e anteriormente analisados, merecem alguma atenção e cuidado. Em seguida executar-se-á a análise fatorial para estes dados, pois Gorman e Primavera (1983) afirmam que “it can be seen that factor analysis and cluster analysis are not two competing techniques but, rather, can be two complementary techniques.” 4.2.2. Análise fatorial Apesar de se terem obtido neste estudo bons níveis de consistência interna para os dados da EAEE recolhidos (ponto 4.1.3), e na sequência da análise de clusters realizada (ponto 4.2.1), complementou-se o estudo executando uma análise fatorial. De forma resumida pode dizer-se que a análise fatorial é um procedimento estatístico que procura indicar até que ponto variáveis diferentes têm por base o mesmo conceito ou fator, com a indicação das que estão relacionadas entre si e das que não estão, através da correlação existente entre elas, vistas como um todo e não aos pares (Loewenthal, 295 Análise de dados 2001). De certa forma este instrumento permite organizar a forma como os respondentes interpretam o tema do estudo e os vários aspetos possíveis do mesmo. Além disso, Williams, Brown e Onsmam (2012, p. 2) acrescentam que: “Factor analysis is commonly used in the fields of psychology and education 6 and is considered the method of choice for interpreting self-reporting questionnaires. Factor analysis is a multivariate statistical procedure that has many uses (…). Firstly, factor analysis reduces a large number of variables into a smaller set of variables (also referred to as factors). Secondly, it establishes underlying dimensions between measured variables and latent constructs (…). Thirdly, it provides construct validity evidence of self-reporting scales.” Este método estatístico multivariado possibilita a transformação de um conjunto de variáveis correlacionadas entre si num conjunto com menos variáveis e em que estas novas variáveis (variáveis observáveis, fatores) não são correlacionadas, sendo constituídas por combinações lineares das variáveis iniciais. Os coeficientes nessas combinações lineares, designados por loadings ou pesos, são tais que os fatores explicam a máxima variação dos dados não estando aqueles correlacionados. Na análise fatorial a variância dos fatores é decomposta numa parte que é devida aos fatores comuns, conhecida por comunalidade, e noutra parte que não é explicada pelos fatores comuns, devida aos fatores únicos. Idealmente não deverão existir muitos fatores, a contribuição dos fatores únicos deverá ser pequena e os pesos ou loadings de cada variável deverão ser ou muito grandes ou muito pequenos, pois valores intermédios poderão indicar uma associação dessa variável a mais de um fator, dificultando a interpretação. Este processo permite, então, avaliar a validade das variáveis que fazem parte dos fatores e diminuir a complexidade na interpretação (Gnanadesikan, 1997; Pestana e Gageiro, 2000; Hair et al., 2009). Neste estudo optou-se por uma análise fatorial exploratória (EFA). Nesta análise não se pretende estabelecer até que ponto os dados se ajustam a um modelo, mas apenas obter uma indicação da relação entre as variáveis. Williams, Brown e Onsman (2010, p. 3) resumem-na de forma comparativa: “Broadly speaking EFA is heuristic. In EFA, the investigator has no expectations of the number or nature of the variables and as the title suggests, is exploratory 296 Análise de dados in nature. That is, it allows the researcher to explore the main dimensions to generate a theory, or model from a relatively large set of latent constructs often represented by a set of items (…) in C[onfirmatory] FA the researcher uses this approach to test a proposed theory (…) and in contrast to EFA, has assumptions and expectations based on priori theory regarding the number of factors, and which factor theories or models best fit”. Também se vai procurar fazer uma comparação entre os resultados desta análise e os obtidos por Estrada, Bazán e Aparício (2013) usando a escala EAEE aplicada a professores em formação e em exercício de Espanha e Peru. Uma vez que o que se pretende com esta análise é detetar fatores subjacentes no grupo das 25 variáveis (itens) da escala EAEE no presente estudo, é fundamental que a amostra tenha mais que 5 indivíduos por variável e pelo menos 100 no total, ou seja, que a amostra seja grande (Pestana e Gageiro, 2000; Hair et al., 2009). Williams et al. (2012, p. 4) na sua revisão escrevem que: “General guides include, Tabachnick’s rule of thumb that suggests having at least 300 cases are needed for factor analysis. Hair et al . suggested that sample sizes should be 100 or greater. A number of textbooks cite the work of Comrey and Lee in their guide to sample sizes: 100 as poor, 200 as fair, 300 as good, 500 as very good, and 1000 or more as excellent”. Um outro conjunto de recomendações relaciona o tamanho da amostra com o número de variáveis, pelo menos de uma forma empírica. Assim, Williams, Brown e Onsman (2012, p. 5) escrevem: “The same disparate recommendations also occur for sample to variable ratios as they do for determining adequate sample sizes. For example, rules of thumb range anywhere from 3:1, 6:1, 10:1, 15:1, or 20:1”. Estas condições são claramente verificadas neste estudo em que a dimensão da amostra é de 1098 > 1000 questionários validados, e em que o número de questionários por variável (itens) é superior a 43, muito acima de 5:1 ou até de 20:1. O processo usado neste estudo para a estimação das variâncias e dos pesos ou loadings nos fatores foi o método de estimação das componentes principais (PCA). Para Kline (2013, p. 182) “factors in PCA are estimated as composites, or weighted linear combinations of the indicators (i.e., total scores)”. 297 Análise de dados Para diminuir ou fazer desaparecer os pesos intermédios, aumentando os pesos elevados e diminuindo os pesos mais baixos, facilitando dessa maneira a interpretação, é usual aplicar métodos de rotação das variáveis. Neste estudo aplicou-se o método de rotação varimax, que é um método ortogonal, que produz fatores independentes, logo não correlacionados. Para Damásio (2012): “Tão importante quanto o método de retenção fatorial empregado, é o método de rotação de fatores. As rotações fatoriais têm o objetivo de facilitar a interpretação dos fatores, visto que muitas vezes as variáveis analisadas apresentam cargas fatoriais elevadas em mais de um fator. O objetivo das rotações fatoriais é, portanto, encontrar uma solução o mais simples e interpretável possível, na qual cada variável apresente carga fatorial elevada em poucos fatores, ou em apenas um (…)” (Damásio, 2012, p. 220). De acordo com Loehlin (2004) este método de rotação varimax é atribuído a Henry Kaiser em 1958 e Kline (2013, p. 185) resume-o como um dos métodos de rotação ortogonal: “The most widely used rotation method of any kind is Kaiser’s varimax rotation, which is also the default in SPSS. Varimax rotation maximizes the variance of the structure coefficients (i.e., it pushes them toward 0 or 1.0) for each factor, which tends to (a) limit the number of indicators with high correlations with that factor and (b) evenly distribute the indicators across the factors (…) it generally yields simple structure in perhaps most EFA studies where the factors are uncorrelated”. Neste método por fator é minimizado o número de variáveis com pesos elevados, e são considerados significativos pesos maiores ou iguais a 0,5 que são responsáveis por 25% ou mais da variância (Pestana e Gageiro, 2000; Hair et al., 2009; Williams et al., 2010). Estes métodos foram escolhidos para garantir a menor deformação possível na estrutura das relações entre as variáveis, permitindo a comparação com o trabalho de Estrada, Bazán e Aparício (2013). 298 Análise de dados A matriz de correlações resultante dos dados (Tabela 1, Anexo XI), bem como a matriz das probabilidades que lhes estão associadas (Tabela 2, Anexo XI) mostram que todas as variáveis apresentam correlações significativas ao nível de 0,05 em relação a mais do que uma variável, uma vez que têm associadas probabilidades inferiores a 0,05/300133=0,00017 (Pestana e Gageiro, 2000, p. 396, as células que não têm fundo cinzento na Tabela 2, Anexo XI). Também fica patente, para todas as variáveis, a existência de coeficientes de correlação de Pearson que asseguram um certo grau de partilha de fatores comuns e, dessa forma, obtêm-se melhores garantias para a aplicação do modelo fatorial (Kline, 2013). Destaca-se ainda que os itens com correlações menos significativas são os itens 1 e 2, com quatro correlações e três correlações, respetivamente. Além disso, o item 8 apresenta seis correlações negativas e o item 2 apresenta correlações negativas com quase todas as outras variáveis (apenas em quatro isso não acontece). Este facto vem reforçar a ideia de que, em especial, o item 2 talvez deva ser retirado da escala EAEE em aplicações ou estudos posteriores. Este facto foi sendo aludido ao longo deste capítulo, bem como nos trabalhos de Estrada et al. (2009), Aparício, Estrada e Bazán (2010), Estrada, Bazán e Aparício (2010a, 2010b) e Estrada, Bazán e Aparício (2013). Na etapa seguinte, e antes de se proceder à extração de fatores, devem ser usados vários testes para avaliar a adequação dos dados dos respondentes na análise fatorial. Williams, Brown e Onsman (2010, p. 5) escrevem que um desses indicadores é o coeficiente Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) e que “[t]he KMO index ranges from 0 to 1, with 0.50 considered suitable for factor analysis”. Por outro lado, Damásio (2012, p. 215-216) apresenta como regra para os valores de KMO: “valores menores que 0,5 são considerados inaceitáveis, valores entre 0,5 e 0,7 são considerados medíocres; valores entre 0,7 e 0,8 são considerados bons; valores maiores que 0,8 e 0,9 são considerados ótimos e excelentes, respectivamente (Hutcheson & Sofroniou, 1999)”. O KMO obtido neste estudo foi de 0,919, que estando entre 1 e 0,9 pode ser considerado conducente a uma análise fatorial muito boa. Complementando o grupo de testes para a adequação dos dados à análise fatorial, como indicam Williams, Brown e Onsman (2010, p. 5), também se usa o teste de esfericidade de Bartlett, em que se pretende testar a hipótese da matriz de correlações ser a matriz identidade. Da aplicação deste teste (Qui-quadrado =9225,764; g.l=300; p=0,000 < 0,05) conclui-se que matriz das correlações não é a matriz identidade, pelo 133 Isto é, 300=(25*25-25)/2 são o número de correlações geradas pelas 25 variáveis. 299 Análise de dados que se pode considerar que existe uma correlação entre as variáveis. Logo, é admissível a utilização da análise fatorial (Pestana e Gageiro, 2000; Williams, Brown e Onsman, 2010; Damásio, 2012). Hair et al. (2009, p. 98) ainda acrescentam que: “[i]t provides the statistical significance that the correlation matrix has significant correlations among at least some of the variables”. As medidas de adequação amostral (measures of sample adequacy, MSA) surgem na diagonal principal da matriz anti-imagem, e quanto maiores (próximos de 1) forem esses valores mais garantias se tem da aplicação da análise fatorial. Porém, se os valores forem efetivamente pequenos deve equacionar-se a eliminação da respetiva variável. Além disso, para uma eficaz aplicação da análise fatorial usando a extração de componentes principiais (AFcp) os elementos fora da diagonal deverão ser pequenos (Pestana e Gageiro, 2000; Hair et al. 2009). Estes pressupostos verificam-se na matriz anti-imagem obtida (Anexo XII). Esta verificação, uma vez mais, vem apoiar a aplicação da AFcp para os dados desta investigação. É de realçar que as variáveis com menor MSA, voltam a ser as dos itens 1 (0,697) e 2 (0,509), sendo os únicos abaixo de 0,9 e sendo também entre estes itens o maior valor fora da diagonal (-0,249), em valor absoluto. Este facto vem novamente chamar a atenção para estes dois itens e em particular para o item 2. As comunalidades, extraídas pelo método das componentes principais (AFcp), representam a proporção da variância de cada variável que é explicada pelas componentes principais retidas. O seu valor varia de 0 (quando os fatores comuns não explicam nada da variância da respetiva variável) até 1 (no caso dos fatores comuns explicarem a sua variância na totalidade). Hassad (2007, pp. 58-59) escreve que: “With reference to a particular item, a low communality (e.g. .2 or < 20%) (…) suggests that the item has little in common with the other items, and hence is not important to the analysis, and can be removed (…)”. Os valores das comunalidades no presente estudo variam entre 0,627 e 0,382 (Tabela 4.16), o que dá uma indicação de que todas as variáveis têm uma relação com os fatores retidos. Além disso, existe um fator único presente em todos que é a atitude em relação à Estatística. 300 Análise de dados Tabela 4.16: Comunalidades Itens Extração 1- Incomoda-me a informação estatística transmitida em alguns programas da TV 2- Através da estatística pode-se manipular a realidade 3 - Divirto-me nas aulas em que se explica estatística 0,624 0,627 0,382 4- Utilizo pouco a estatística fora da escola 5- A estatística apaixona-me porque ajuda a ver os problemas objetivamente 0,543 0,413 6- A estatística só serve para as pessoas das ciências 7- A estatística não serve para nada 8- É frequente explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não entenderam 9- Se pudesse eliminar alguma matéria seria a estatística 10- A estatística ajuda a entender o mundo de hoje 11- A estatística é fundamental na formação básica do futuro cidadão 12- Uso a estatística para resolver problemas do dia-a-dia 0,482 0,536 0,475 0,504 0,809 0,498 0,577 13- Na escola não se deveria ensinar estatística 14- Para mim os problemas de estatística são fáceis 15- Não entendo as informações estatísticas que aparecem na imprensa escrita 0,468 0,633 0,482 16- Gosto da estatística porque ela me ajuda a compreender mais profundamente a complexidade de certos temas 17- Sinto-me intimidado(a) perante dados estatísticos 0,558 0,510 18- Acho interessante o mundo da estatística 19- Gosto dos trabalhos sérios onde aparecem estudos estatísticos 0,603 0,547 20- Quando eu tive aulas de estatística entendia pouco do que se dizia 21- A estatística é fácil 22- Percebo melhor os resultados eleitorais quando aparecem representações gráficas 23- Gosto de resolver problemas quando uso estatística 24- A estatística ajuda a tomar decisões mais fundamentadas 25- Evito as informações estatísticas quando as leio 0,407 0,652 0,426 0,642 0,569 0,391 Fonte: Elaborada pelo autor Neste estudo verifica-se que o número de variáveis (itens da escala EAEE) é inferior a 30 e o número de casos é superior a 250, pelo que segundo Pestana e Gageiro (2000, p. 399) se pode considerar a solução dos 5 fatores como aceitável uma vez que existem cinco fatores com valores próprios superiores a 1. Esta conclusão também pode ser confirmada pela análise do scree plot (Gráfico 4.12) (valores no Anexo XIII), em relação ao qual Williams, Brown e Onsman (2010, p. 7) escrevem que: “(…) interpreting Scree plots is subjective, requiring researcher judgement. Thus, disagreement over which factors should be retained is often open for debate. Although this disagreement and subjectiveness is reduced when sample sizes are large, N:p ratios are (> 3:1) and communalities values are high. The ‘Scree Test’ was given its name by Cattell due to the Scree Test graphical 301 Análise de dados presentation, which has visual similarities to the rock debris (Scree) at the foot of a mountain”. Gráfico 4.12: Gráfico Scree Fonte: Elaborado pelo autor Na Tabela 4.17 são apresentadas a percentagem explicada por cada fator antes e após a rotação (varimax). Considerando para a explicação de cada fator os valores antes da rotação, os cinco fatores retidos explicam cumulativamente 53,44% da variabilidade das 25 variáveis (itens) da escala EAEE. O primeiro fator explica 29,22% da variância total, o maior valor, e os restantes fatores retidos explicam entre 8% e 5%, apresentando uma queda acentuada em relação ao primeiro fator, como nos trabalhos de Estrada (2002, 2009a). Apesar disso, apenas o último tem valor inferior a 5%, o valor indicado por Hair et al. (2009) para se reter o fator. Contudo, este último critério não será limitador, dada a verificação do critério de Kaiser-Guttman, o número relativamente elevado de variáveis envolvidas, bem como a verificação do limite dos 5% em termos relativos quando se consideram apenas os cinco fatores retidos. Após esta opção, e apenas considerando a contribuição dos cinco fatores retidos, o primeiro fator representa 54,68% da variância explicada desses fatores retidos. Portanto, o fator de maior peso é o primeiro, sendo a importância relativa dos restantes similar entre elas, mas com percentagens substancialmente mais baixas. 302 Análise de dados Tabela 4.17: Variância total explicada e fatores retidos Extração inicial de fatores Extração de fatores após rotação Fatores Total % da % % da Total Variância Cumulativa Variância % Cumulativa Fatores retidos % da % Variância Cumulativa 1 7,305 29,218 29,218 5,234 20,936 20,936 54,68% 54,68% 2 2,024 8,096 37,314 3,318 13,272 34,208 15,15% 69,83% 3 1,514 6,055 43,369 1,924 7,697 41,905 11,33% 81,16% 4 1,370 5,481 48,851 1,519 6,077 47,982 10,26% 91,42% 5 1,146 4,584 53,435 1,363 5,453 53,435 8,58% 100,00% Fonte: Elaborada pelo autor Em relação à percentagem explicada por cada fator após a rotação (Tabela 4.17) o valor da percentagem da variância total explicada pelos cinco fatores é quase igual ao total antes da rotação, ou seja, 53,4%. Williams at al. (2010, p. 6) escrevem que: “[i]n the humanities, the explained variance is commonly as low as 50-60%”. No entanto, no que diz respeito à percentagem explicada por cada fator após a rotação os valores já diferem dos obtidos antes da rotação, havendo uma diminuição do valor no primeiro fator e pequenos aumentos nos outros fatores. Este facto é também esperado na medida em que a rotação tem como objetivo precisamente extremar os valores dos pesos/loadings para que cada variável fique tendencialmente associada a um só fator. Através do método de rotação varimax, e após nove iterações, foram estabilizadas as estimativas das variâncias nas variáveis explicadas pelos fatores após rotação. No Anexo XIV listam-se pesos/loadings que correlacionam os itens com os fatores daí resultantes. Na Tabela 4.18 mostram-se os pesos com valor 0,4 ou superior (Loewenthal, 2001; Hair et al., 2009; Estrada, Bazán e Aparício, 2013). Nesta tabela, e para maior facilidade da sua leitura e da constituição dos fatores, as variáveis (itens) são apresentadas de forma decrescente de importância, em função dos valores das correlações fatoriais rodadas (negrito), para os sucessivos fatores retidos. Ainda nesta tabela as variáveis aparecem associadas às respetivas componentes das atitudes que em termos teóricos foram consideradas na base da construção da escala EAEE (CP Componentes Pedagógicas: A Afetiva, C Cognitiva e Co Comportamental; CA Componentes Antropológicas: S Social, E Educativa e I Instrumental). 303 Análise de dados Tabela 4.18: Pesos/loadings que correlacionam os itens com os fatores depois da rotação Fonte: Elaborada pelo autor Passa-se à interpretação dos fatores em função dos itens a eles associados, bem como uma designação que identifique as suas características essenciais. O primeiro fator é constituído por 10 (40%) variáveis, com pesos entre 0,73 e 0,45, sendo os itens: 24 A estatística ajuda a tomar decisões mais fundamentadas, 18 Acho interessante o mundo da estatística, 19 Gosto dos trabalhos sérios onde aparecem estudos estatísticos, 16 Gosto da estatística porque ela me ajuda a compreender mais profundamente a complexidade de certos temas, 23 Gosto de resolver problemas quando uso estatística, 11 A estatística é fundamental na formação básica do futuro cidadão, 10 A estatística ajuda a entender o mundo de hoje, 22 Percebo melhor os resultados eleitorais quando aparecem representações gráficas, 5 A estatística apaixona-me porque ajuda a ver os problemas objetivamente 304 Análise de dados e 3 Divirto-me nas aulas em que se explica estatística. Além disso, também o item 12 Uso a estatística para resolver problemas do dia-a-dia apresenta no primeiro fator um peso 0,518 > 0,4, mas 0,518 < 0,539 que é o seu peso no quarto fator. Em termos das componentes pedagógicas, estes itens estão maioritariamente associados à componente Afetiva (60% dos itens dessa componente e 60% dos itens do fator), ainda que também surjam itens da componente Cognitiva e, com menos preponderância, ainda da componente Comportamental. Relativamente às componentes antropológicas, os itens deste fator também estão maioritariamente associados à componente Instrumental (63% dos itens dessa componente e 50% dos itens do fator), embora também estejam presentes itens da componente Educativa e, com menor importância, da componente Social. Desta forma, e dada a alusão predominante da valorização pessoal e da utilidade da Estatística, este primeiro fator é designado por Gosto pessoal e reconhecimento da utilidade da Estatística. Assim, uma atitude positiva neste fator pressupõe que o professor assume a Estatística como uma área do saber e uma ferramenta pela qual nutre um gosto pessoal o qual, simultaneamente, não está dissociado do reconhecimento da utilidade da Estatística no quadro das exigências e necessidades presentes e futuras. Esta situação seria aquela que daria azo a um ensino mais motivador e aplicado, com maiores possibilidades de sucesso no ensino da Estatística por parte destes professores. O segundo fator é constituído por oito (32%) variáveis, com pesos entre 0,634 e 0,461, sendo os itens: 13 Na escola não se deveria ensinar estatística, 9 Se pudesse eliminar alguma matéria seria a estatística, 6 A estatística só serve para as pessoas das ciências, 15 Não entendo as informações estatísticas que aparecem na imprensa escrita, 7 A estatística não serve para nada, 17 Sinto-me intimidado(a) perante dados estatísticos, 25 Evito as informações estatísticas quando as leio e 20 Quando eu tive aulas de estatística entendia pouco do que se dizia. Todos eles estão redigidos de forma negativa (recorde-se que as pontuações destes itens foram invertidas) pelo que o seu enunciado deverá ser lido de forma inversa de maneira a estarem todos os itens no mesmo sentido positivo. Além disso, também o item 10 A estatística ajuda a entender o mundo de hoje apresenta neste fator um peso 0,512 > 0,4, mas 0,512 < 0,641 que é o seu peso no primeiro fator. Em termos das componentes pedagógicas, estes itens estão maioritariamente associados à componente Afetiva (30% dos itens dessa componente e 38% dos itens do fator) e à componente Cognitiva (38% dos itens dessa componente e 38% dos itens do fator) e com percentagens menores à componente Comportamental. 305 Análise de dados Relativamente às componentes antropológicas, os itens deste fator também estão na sua maioria associados à componente Social (63% dos itens dessa componente e 63% dos itens do fator) e os restantes itens estão ligados à componente Educativa. Logo, sendo predominante a referência dicotómica entre as questões da capacidade de entendimento da Estatística (ciência e ferramenta para ler o mundo que nos rodeia) e as questões do ensino da mesma (incluindo o papel que o ensino da Estatística pode ter no âmbito sociocultural de qualquer cidadão), este segundo fator é designado por Compreensão e valorização académica da Estatística. Assim, uma atitude positiva neste fator pressupõe que o professor considera compreender a Estatística, tanto em termos científicos, como em termos do seu papel alargado na sociedade atual, reconhecendo a Estatística como uma disciplina fundamental no ensino em todas as áreas. O caso contrário seria uma indicação de necessidade de maior e melhor formação desses professores, potenciando a mudança de atitude em relação à Estatística e, dessa forma, preparando melhor o professor para as exigências científicas, curriculares e motivacionais do ensino da Estatística na sala de aula. O terceiro fator é constituído por duas (8%) variáveis, com pesos 0,733 e 0,712, sendo os itens: 21 A estatística é fácil e 14 Para mim os problemas de estatística são fáceis. Além disso, também o item 17 Sinto-me intimidado(a) perante dados estatísticos apresenta neste fator um peso 0,41 > 0,4 mas 0,41 < 0,579 que é o seu peso no segundo fator. No que diz respeito às componentes pedagógicas, estes itens estão associados à componente Cognitiva (13% dos itens dessa componente e 50% dos itens do fator) e à componente Comportamental (14% dos itens dessa componente e 50% dos itens do fator). Em termos das componentes antropológicas, os itens deste fator estão apenas associados à componente Educativa (22% dos itens dessa componente e 100% dos itens do fator). Portanto, como os constituintes deste fator refletem a perceção individual da dificuldade que a Estatística envolve, tanto numa visão global, como na perspetiva da sua utilização, pelo que este terceiro fator é designado por Dificuldade percebida em relação à Estatística. Assim, uma atitude positiva neste fator pressupõe que o professor encara a Estatística e a sua aplicação como algo fácil. Este facto poderá permitir maior à vontade no ensino da Estatística, mas poderá também, em alguns casos, levar a assumir essa facilidade de forma generalizada e, dessa maneira, não ter em conta nem perceber as dificuldades que alguns alunos podem realmente sentir. Deste modo, não conseguem ajudá-los a superá-las, nem a promover o seu sucesso na aprendizagem 306 Análise de dados da Estatística. O caso de uma atitude negativa neste fator pode ser uma indicação de necessidade de maior e melhor formação desses professores, potenciando a mudança de atitude em relação à Estatística e, dessa forma, preparando melhor o professor para a promoção do sucesso no ensino da Estatística. O quarto fator é constituído por três (12%) variáveis, com pesos 0,672, 0,640 e 0,539, sendo os itens: 4 Utilizo pouco a estatística fora da escola, 8 É frequente explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não entenderam e 12 Uso a estatística para resolver problemas do dia-a-dia. No que diz respeito às componentes pedagógicas, estes itens estão apenas associados à componente Comportamental (43% dos itens dessa componente e 100% dos itens do fator). Em termos das componentes antropológicas, os itens deste fator associados à componente Instrumental (25% dos itens dessa componente e 67% dos itens do fator) e também à componente Educativa (11% dos itens dessa componente e 33% dos itens do fator). Assim, dado que estes elementos fazem alusão à tendência para a utilização da Estatística de uma forma concreta e determinada, tanto ao nível escolar, como ao nível do quotidiano, este quarto fator é designado por Predisposição para a utilização da Estatística. Assim, uma atitude positiva neste fator pressupõe, então, que o professor utiliza frequentemente e naturalmente a Estatística no seu dia-a-dia e encara positivamente o trabalho cooperativo com os colegas de escola no âmbito da Estatística. Desta forma poderá ser possível uma maior capacidade motivacional no ensino da Estatística, fazendo uma ligação natural entre a aprendizagem da Estatística em sala de aula e o papel que esta desempenha na sociedade atual. O quinto fator é constituído por duas (8%) variáveis, com pesos 0,778 e 0,771, sendo os itens: 2 Através da estatística pode-se manipular a realidade e 1 Incomoda-me a informação estatística transmitida em alguns programas da TV. No que diz respeito às componentes pedagógicas, estes itens estão associados à componente Afetiva (10% dos itens dessa componente e 50% dos itens do fator) e à componente Cognitiva (13% dos itens dessa componente e 50% dos itens do fator). Em termos das componentes antropológicas, os itens deste fator estão apenas associados à componente Social (13% dos itens dessa componente e 50% dos itens do fator) e à componente Instrumental (13% dos itens dessa componente e 50% dos itens do fator). Assim, estes itens refletem como os sujeitos encaram questões sobre a adequação da utilização da Estatística e da informação estatística transmitida nalguns programas de TV, pelo que 307 Análise de dados este quinto fator pode ser designado por Credibilidade da Estatística. Uma atitude positiva neste fator pressupõe que o professor tem confiança na Estatística, enquanto ciência e enquanto instrumento, bem como na informação baseada nela, colocando a ênfase no rigor metodológico da aplicação da Estatística e no espírito crítico das leituras e análises estatísticas. Uma atitude negativa neste fator pode ser uma indicação de pouca confiança na aplicação da Estatística, levando, eventualmente, à sua desvalorização. Esta situação poderá indicar a necessidade de, na formação desses professores, potenciar o uso de casos reais de utilização da Estatística em que contraste o uso adequado e desadequado da mesma. Deste modo, os exemplos usados nos meios de comunicação, com enfase nos programas da TV, podem propiciar modelos de grande riqueza didática e pedagógica que poderão vir a ser explorados na sala de aula com os alunos. Estes resultados indicam que a escala usada é multidimensional tal como nos resultados obtidos por Estrada, Bazán e Aparício (2013). Contudo, considerando apenas 22 itens da escala EAEE, tendo sido eliminados os itens 2, 7 e 9, e abrangendo 288 professores espanhóis e peruanos, no trabalho destes autores foram encontrados quatro fatores com mais de um item (oito, quatro, quatro e quatro itens, respetivamente, Anexo XV) e dois fatores constituídos por apenas um item (itens 4 Utilizo pouco a estatística fora da escola e item 1 Incomoda-me a informação estatística transmitida em alguns programas da TV), para além de um item (item 5 A estatística apaixona-me porque ajuda a ver os problemas objetivamente) que não foi enquadrado em qualquer fator sendo considerado um item multifatorial. Esses quatro fatores, que explicam 45% da variância total, foram designados por aqueles autores por Competencia y valoración académica de la Estadística, Valoración del rol de la Estadística, Utilidad y gusto personal por la Estadística e Disposición y comprensión de la Estadística (Estrada, Bazán e Aparício, 2013, pp. 14-15). A mesma análise fatorial exploratória foi também realizada para os dados dos 1098 professores portugueses, mas com apenas os 22 itens referidos, tendo-se obtidos resultados finais (Anexo XVI) muito semelhantes aos obtidos com a escala completa e que já foram apresentados, tendo apenas havido a eliminação nos fatores respetivos dos três itens mencionados. Nesta situação, o quinto fator passaria a ser constituído unicamente pelo item 1, tal como aconteceu em Estrada, Bazán e Aparício (2013), mas tendo estes autores mantido este item na escala, pois não constituindo por si só um fator 308 Análise de dados também não está associado nos outros fatores. Desta forma, para futuros estudos antevêse uma possível eliminação do item 2 (que aparece fortemente associado ao item 1, como já se viu) e não alteraria muito a escala EAEE. Apesar das diferenças entre os resultados das análises fatoriais exploratórias dos dois estudos relatadas, considera-se que, globalmente, estão presentes as características essenciais das componentes pedagógicas e antropológicas propostas na elaboração da escala EAEE utilizada. Foi possível evidenciar a multidimensionalidade da escala EAEE na medição das atitudes em relação à Estatística para os professores. Deste modo, a análise de clusters (ponto anterior) foi complementada por esta análise fatorial exploratória. No sentido de compreender melhor as atitudes dos professores em relação à Estatística analisar-se-á no ponto seguinte a influência das variáveis pessoais dos professores na atitude medida. 4.3. Influência das variáveis do estudo sobre as atitudes Apresentaram-se os resultados da relação entre as componentes e as atitudes, que vieram sustentar a estrutura teórica que esteve na base da construção da escala EAEE. Também se detalharam os resultados globais da amostra para a fiabilidade da escala e a valorização total em termos das atitudes em relação à Estatística e suas componentes por parte dos professores do 1º e 2º ciclos do EB em Portugal. Neste ponto apresentar-se-ão os efeitos das variáveis independentes, referidas no capítulo anterior, na pontuação total média, nas componentes das atitudes e nos itens isolados da escala para dar resposta às hipóteses formuladas no capítulo anterior. 4.3.1. Influência sobre a pontuação total A variável Ciclo de ensino em que leciona (V5) está associada à primeira hipótese formulada: H1 As atitudes em relação à estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português têm características significativamente diferentes. Na Tabela 4.19 resumem-se as medidas descritivas respetivas. Da observação da tabela a média da pontuação total é superior nos 246 professores de Matemática do 2º CEB, enquanto a dispersão é superior nos 852 309 Análise de dados professores do 1º CEB. Os intervalos de confiança a 95% para as médias da pontuação total refletem também as melhores pontuações globais apresentadas pelos professores de Matemática do 2º CEB. Considerando a normalidade para as pontuações totais dos docentes do 1º CEB a sua distribuição é quase simétrica e mesocúrtica e para as pontuações totais dos docentes do 2º CEB essa distribuição é assimétrica negativa e mesocúrtica (ponto 1 do Anexo XVII). Tabela 4.19: Resumo estatístico para a pontuação total por ciclo de lecionação Ciclo de Ensino Estatística Valor Erro Padrão Média 85,40 0,385 1º CEB (N=852) 2º CEB (N=246) Intervalo de Confiança para a Média (95%) Limite inferior 84,64 Limite superior 86,15 Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de Confiança para a Média (95%) 85,00 11,229 0,093 0,052 96,87 Limite inferior 95,68 Limite superior 98,06 Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento 97,00 9,477 -0,463 -0,132 0,084 0,167 0,604 0,155 0,309 Fonte: Elaborada pelo autor Para as pontuações totais médias destes dois grupos de professores (1º e 2º ciclos do EB) as médias amostrais das pontuações globais destes dois grupos de professores diferem significativamente em termos estatísticos (não assumindo a igualdade de variâncias, t de Student, t(462)=-16,021, p=0,000 < 0,05). Esta ilação é reforçada pelo intervalo de confiança a 95% para a diferença de médias destes dois grupos (Tabela 1.A do Anexo XVII). Deste modo, pode concluir-se que os professores de Matemática do 2º CEB português apresentam uma atitude em relação à Estatística mais positiva que os professores do 1º CEB. Desta forma, pode aceitar-se a hipótese H1, isto é, as atitudes em relação à Estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português têm características significativamente diferentes, considerando as pontuações totais médias dos dois grupos de professores. 310 Análise de dados Um dos aspetos que pode ter influência nesta situação é a constatação de que o ensino da Estatística é muito mais recente e incipiente no 1º CEB do que no 2º CEB (primeiro capítulo), razão pela qual os professores do 1º CEB terão talvez menor contacto profissional com a Estatística. Outro aspeto relevante, é o de que a formação inicial dos docentes dos dois ciclos estudados é, em muitos casos, diferente ao nível da Matemática e da Estatística, sendo menor a carga e a especificidade no caso dos professores do 1º CEB, em geral, e até ao momento em que o instrumento foi aplicado. Logo, e apesar das características em termos de pontuação total média de cada um destes grupos professores, da formação que tiveram no ensino obrigatório e da influência quase permanente da Estatística no quotidiano de cada um, julga-se que os dois aspetos referidos, distinguem os dois grupos de professores e podem levar às diferenças nas suas atitudes. Deste modo, espera-se que aumentando a experiência do ensino da Estatística, sobretudo no 1º CEB, diminuam as diferenças de atitude em relação à estatística por parte destes dois grupos de professores. Para tal será necessário que as alterações curriculares o permitam, bem como haja um reforço de uma formação contínua na área da Estatística, em particular para os docentes do 1º CEB. A variável género (V2) está associada à segunda hipótese formulada: H2 As atitudes em relação à estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português estão significativamente relacionadas com o género. Na Tabela 4.20 resumem-se as respetivas medidas descritivas. Da observação da tabela é visível que a média da pontuação total é ligeiramente superior para os 224 professores, sendo também a sua dispersão superior à das 874 professoras. Os intervalos de confiança a 95% para as médias da pontuação total refletem também os melhores resultados globais apresentados pelos homens. Tanto para os professores como para professoras a distribuição é quase simétrica e mesocúrtica (ponto 2 do Anexo XVII). Para estes dois grupos de professores (homens e mulheres) as médias amostrais não diferem significativamente em termos estatísticos, isto é, para os professores destes dois ciclos do EB deste estudo não há diferenças na pontuação total média entre homens e mulheres (não assumindo a igualdade de variâncias, t de Student t(310)= 1,605, p=0,109 > 0,05). Esta conclusão é reforçada pelo intervalo de confiança a 95% para a diferença de médias destes dois grupos (Tabela 2.A do Anexo XVII). No entanto, os 311 Análise de dados homens apresentam uma atitude em relação à estatística ligeiramente mais positiva que a das mulheres. Desta forma, pode rejeitar-se a hipótese: H2 – As atitudes em relação à estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português estão significativamente relacionadas com o género, considerando as pontuações totais médias dos dois géneros. Tabela 4.20: Resumo estatístico para a pontuação total por género Género Estatística Valor Erro Padrão Média 89,22 0,899 Intervalo de Limite inferior 87,45 confiança Limite superior 90,99 para a média (95%) Masculino 90,00 (N=224) Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de confiança para a média (95%) Feminino (N=874) Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Limite inferior 13,451 -0,193 -0,633 87,65 86,89 Limite superior 88,41 88,00 11,411 -0,002 -0,190 0,163 0,324 0,386 0,083 0,165 Fonte: Elaborada pelo autor Também no estudo de Estrada (2002) não se detetaram diferenças significativas entre homens (professores) e mulheres (professoras), embora em Estrada (2002) a média tenha sido superior no género feminino, ao contrário deste estudo. Os resultados sobre a influência do género na atitude em relação à Estatística não são consensuais nas várias investigações que abordaram o tema (segundo capítulo). No entanto, realçam-se dois exemplos. No estudo de Silva, Cazorla e Brito (1999) houve diferenças estatisticamente significativas entre os elementos dos dois géneros com atitudes mais positivas por parte dos 21 alunos do que por parte das 34 alunas. No estudo de Cazorla et al. (1999), com uma amostra de 1154 alunos (37% rapazes), verificou-se não haver diferenças por género, mas atitudes mais positivas por parte dos rapazes, como no presente estudo. Considerando as duas subamostras dos professores do 1º CEB (150 homens, 18%, e 702 mulheres) e dos professores de Matemática do 2º CEB (74 homens, 30%, e 172 mulheres) ainda se conclui que em cada um destes dois grupos se pode considerar 312 Análise de dados não haver diferenças estatisticamente significativas entre as médias da pontuação total dos dois géneros e para cada um dos ciclos considerados (Anexo XVIII). A variável Anos de tempo de serviço no ensino básico (V4) está associada à terceira hipótese formulada: H3 As atitudes em relação à estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português estão significativamente relacionadas com os anos de docência. Na Tabela 4.21 resumem-se as respetivas medidas descritivas. Da observação da tabela é visível que a média da pontuação total é ligeiramente superior para os professores com menos tempo de serviço e esta vai diminuindo à medida que esse tempo de serviço vai aumentando, com a exceção entre os intervalos de anos de serviço [0, 5[ e [5, 10[ Em termos da dispersão os valores do desvio padrão, bem como os dos coeficientes de variação, são muito semelhantes, sendo os maiores valores dos coeficientes de variação correspondentes aos intervalos [10, 15[ e [30, 50]. Os intervalos de confiança a 95% para as médias da pontuação total refletem os resultados já comentados. Relativamente à assimetria e ao achatamento verifica-se que para o intervalo [5, 10[ a distribuição é assimétrica negativa e platicúrtica e para os restantes intervalos a distribuição é quase simétrica e mesocúrtica (ponto 3 do Anexo XVII). Tabela 4.21: Resumo estatístico para a pontuação total por tempo de serviço Tempo de serviço (Dimensão) Estatística Média Intervalo de confiança para a média (95%) Mediana Limite inferior Limite superior [0, 5[ (N=57) Erro Valor Padrão [5, 10[ (N=104) Erro Valor Padrão [10, 15[ (N=128) Erro Valor Padrão [15, 20[ (N=104) Erro Valor Padrão [20, 30[ (N=449) Erro Valor Padrão [30, 50] (N=256) Erro Valor Padrão 91,16 91,34 89,91 89,58 86,90 86,08 1,608 1,133 1,076 1,126 0,547 0,746 87,94 89,09 87,78 87,34 85,83 84,61 94,38 93,58 92,04 91,81 87,98 87,55 90,00 92,50 90,00 91,00 88,00 85,50 Desvio Padrão 12,143 11,552 12,177 11,488 11,558 11,939 Simetria 0,109 0,316 -0,611 0,237 -0,140 0,214 -0,063 0,237 -0,043 0,115 0,203 0,152 -0,090 0,623 1,156 0,469 -0,700 0,425 -0,907 0,469 -0,395 0,230 0,094 0,303 Achatamento Fonte: Elaborada pelo autor Do teste de Kruskal-Wallis (χ2 =29,323, p=0,000 < 0,05, Tabela 3.C do ponto 3 do Anexo XVII) conclui-se que os grupos para os períodos do tempo de serviço considerados não têm todos a mesma mediana. Desta forma, pensa-se que a atribuição da pontuação total não é igual em todos os períodos de tempo de serviço. Para os 313 Análise de dados professores de Matemática do 2º CEB e professores do 1º CEB conclui-se que há diferenças na pontuação total mediana em função do tempo de serviço. Pode aceitar-se a hipótese H3 – As atitudes em relação à estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português estão significativamente relacionadas com os anos de docência, considerando as pontuações totais medianas para os vários grupos de tempo de serviço. Além disso, da aplicação do teste de Mann-Whitney para comparar a pontuação total mediana entre cada dois dos intervalos do tempo de serviço considerados constatou-se que as diferenças significativas são entre os grupos de professores com menos de 20 anos de serviço e os grupos de professores que têm 20 ou mais anos de serviço (Tabela 3.D do Anexo XVII). Desta análise retira-se que as pontuações totais medianas dos grupos de professores com menos de 20 anos de serviço são superiores às dos grupos de professores com 20 anos de serviço ou mais. Na análise do Gráfico 4.13 os professores com menos de 10 anos de serviço são os que apresentam maiores pontuações totais médias e, dentro destes, os que têm menos experiência, isto é, com menos de 5 anos de serviço, apresentam uma média ligeiramente inferior. Os professores com experiência letiva no ensino básico entre os 10 e 20 anos apresentam pontuações totais médias inferiores que os que têm menos de 10 anos de serviço. A maior queda nas pontuações totais médias dá-se nos docentes com 20 ou mais anos de serviço, sendo a pior das pontuações totais médias a do grupo com 30 ou mais anos de docência no ensino básico. Logo, em resumo, entre os diferentes períodos de tempo de serviço considerados há diferenças na pontuação final média e, à medida que aumenta o tempo de serviço, parece que essas pontuações revelam uma atitude cada vez menos positiva, o que reforça o referido em relação às medianas. Esta situação pode ser reflexo, no grupo com mais anos de serviço, da incipiente formação inicial relativa à Estatística e à sua didática (primeiro capítulo). No grupo de tempo de serviço entre os 10 e 20 anos a formação académica talvez já tenha abrangido, em maior ou menor grau, o ensino da Estatística e, além disso, talvez ainda seja um grupo motivado para a aprendizagem contínua. Por fim, o grupo com menos tempo de serviço, apesar da sua menor experiência, e que talvez tenha tido uma maior e mais atualizada formação em Estatística, tanto na escola, como no ensino superior, o que talvez contribua para essa atitude mais positiva. Ao contrário do presente estudo, no estudo de Estrada (2002) não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre as atitudes dos professores e 314 Análise de dados os respetivos anos de docência. Contudo, esta autora identificou também a tendência para que a atitude global em relação à Estatística seja pior com o aumento do tempo de serviço dos professores. Esta investigadora indicou como causa possível desta situação as dificuldades da Estatística que os professores vão encontrando nos alunos ou neles próprios (Estrada, 2002, p. 184). Tendo uma experiência cada vez maior a ensinar Estatística os professores, e em especial aqueles que apenas estão a começar, poderão, ou não, ir ganhando confiança e domínio dos conhecimentos estatísticos, bem como vivenciar várias experiências com os alunos. Estas situações contribuem para as atitudes dos professores em relação à Estatística. Gráfico 4.13: Gráfico das pontuações total médias por tempo de serviço Fonte: Elaborado pelo autor Analisando separadamente os grupos de professores do 1º CEB e de professores de Matemática do 2º CEB (teste de Kruskal-Wallis: 1º CEB χ2 =4,939, p=0,423 > 0,05; 2º CEB 2 =5,831, p=0,323 > 0,05, Tabela 3.E do Anexo XVII) constata-se que, dentro de cada um destes grupos, não existem de diferenças estatisticamente significativas relativamente aos anos de serviço de docência entre ciclos no ensino básico. Ou seja, pode concluir-se que para cada um dos grupos de professores 1º CEB ou 2º CEB entre os períodos do tempo de serviço não há diferenças estatisticamente significativas relativamente à pontuação mediana. Desta forma, percebe-se que dentro dos dois grupos 315 Análise de dados de professores a atribuição da pontuação total mediana não é diferente para cada período de tempo de serviço considerado. Talvez se possa considerar que as diferenças encontradas na amostra global relativamente ao tempo de serviço serão devidas às diferenças entre ciclos de lecionação. Nos professores do 1º CEB a pontuação total média para cada um dos períodos de tempo de serviço considerados apresenta um comportamento semelhante ao da pontuação total média da amostra global (Gráfico 4.14). A pontuação total média mais alta (88,21) é a dos professores com menos de 5 anos de docência, enquanto a mais baixa (84,67) é a dos professores com 30 anos ou mais de experiência. A pontuação total média diminui até aos 15 anos de experiência, depois aumenta ligeiramente até aos 30 anos de experiência para descer no último período. Os docentes do 1º CEB com menos de 10 anos de docência apresentam pontuações totais médias das atitudes em relação à Estatística mais positivas que os outros que têm maior experiência letiva, o que pode ter uma leitura semelhante à realizada para as pontuações totais médias da amostra global. Gráfico 4.14: Gráfico das pontuações totais médias dos professores do 1º CEB por tempo de serviço Fonte: Elaborado pelo autor Relativamente a cada um dos períodos de tempo de serviço considerados, nos professores de Matemática do 2º CEB a média da pontuação total mais alta (98,98) é para os professores com experiência entre os 10 e 15 anos, enquanto a mais baixa 316 Análise de dados (94,88) corresponde aos professores com experiência de docência entre 20 e 30 anos (Gráfico 4.15), de alguma forma diferente ao que se passa com as pontuações totais médias dos professores do 1º CEB. Nos professores de Matemática do 2º CEB da amostra a pontuação total média aumenta até aos 15 anos de experiência, depois diminui até aos 30 anos de experiência para crescer no último período de 30 ou mais anos de tempo de serviço. Fica a ideia de que os docentes do 2º CEB com menos de 5 anos de docência, bem como os que têm 20 ou mais anos de tempo de serviço apresentam pontuações totais médias das suas atitudes em relação à Estatística menos positivas, talvez por razões distintas. Nos primeiros, com menos tempo de serviço, a atitude menos positiva pode estar associada à falta de experiência letiva. Nos segundos, com mais tempo de serviço, a atitude menos positiva poderá está associada à menor formação estatística. Gráfico 4.15: Gráfico das pontuações totais médias dos professores de Matemática do 2º CEB por tempo de serviço Fonte: Elaborado pelo autor A variável Área ou especialidade da formação inicial (V6) está associada à quarta hipótese formulada: H4 As atitudes em relação à estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português estão significativamente relacionadas com a área de formação ou especialidade. Na Tabela 4.22 sumariam-se as medidas descritivas respetivas e da sua observação fica claro que a 317 Análise de dados média da pontuação total é superior nos 695 professores que tiveram uma formação inicial na área específica em que lecionam, sendo a dispersão destes praticamente igual à dos 304 professores que obtiveram formação inicial em outra área. Houve 99 (9%) professores que não indicaram a sua formação inicial. Os intervalos de confiança a 95% para as médias da pontuação total refletem também os melhores resultados das pontuações globais apresentados pelos professores da área específica. Para os docentes da área específica a distribuição é quase simétrica e platicúrtica e para os docentes de outra área a distribuição é quase simétrica e mesocúrtica (ponto 4 do Anexo XVII). Tabela 4.22: Resumo estatístico para a pontuação total por área ou especialidade Estatística Valor Erro Padrão Média Intervalo de confiança para a média (95%) Área específica Mediana Desvio Padrão Limite inferior Limite superior Simetria Achatamento Média Intervalo de Limite inferior confiança Limite superior para a média (95%) Outra área Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento 88,64 87,75 89,54 0,456 89,00 12,016 -0,048 -0,463 0,093 0,185 87,00 85,65 88,35 0,686 87,00 11,958 -0,059 0,109 0,140 0,279 Fonte: Elaborada pelo autor Quanto às médias das pontuações totais destes dois grupos de professores (da área específica e de outra área) considera-se que as pontuações totais médias são significativamente diferentes (assumida a igualdade de variâncias no teste t de Student t(997)=1,992, p=0,047 < 0,05). Deste modo, conclui-se que os professores com formação inicial na área específica apresentam uma atitude em relação à Estatística com pontuações médias maiores, mais positivas do que os professores com formação inicial de outra área. Esta ilação reflete-se no intervalo de confiança a 95% para a diferença de médias destes dois grupos (Tabela 4.A do Anexo XVII). Assim, aceita-se a hipótese H4 – As atitudes em relação à estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português estão significativamente relacionadas com a área de formação ou 318 Análise de dados especialidade – considerando as pontuações totais médias para as áreas de formação ou especialidade. Os professores com formação inicial na área da lecionação apresentam atitudes em relação à Estatística mais positivas (pontuações totais médias maiores) que aqueles que tiveram uma formação noutra área. Esta situação vê-se com naturalidade, pois é de esperar que uma formação superior mais vocacionada e específica prepare melhor esses professores para o ensino, nomeadamente na Estatística. Contudo, este facto só passou a ter expressão ao nível da Estatística nas últimas décadas em Portugal (primeiro capítulo). No entanto, podendo a formação inicial específica ser uma vantagem, os professores ao longo da sua carreira podem fazer outras formações e, por vezes, outras áreas abordam a Estatística de uma forma aplicada. Tal facto também poderá ser um aspeto promotor de atitudes positivas em relação à Estatística. Logo, com formação contínua específica sobre a Estatística e o seu ensino em especial para o grupo com atitudes menos positivas as diferenças de atitude em relação à Estatística por parte deste dois grupos de professores possam ser diminuídas com o aumento da experiência a ensinar estatística e, por outro lado, com a promoção de trabalho colaborativo entre os professores. Consideram-se agora as duas subamostras dos professores do 1º CEB (535 da área específica, 234 de outra área e 83 sem resposta) e dos professores de Matemática do 2º CEB (160 da área específica, 70 de outra área e 16 sem resposta). Dos resultados obtidos nos testes de comparação das pontuações totais médias respetivas, conclui-se que em cada um destes dois grupos se considera não haver diferenças estatisticamente significativas entre essas pontuações médias dos dois tipos de formação (Anexo XIX). No entanto, nos professores do 1º CEB parece haver maior semelhança na pontuação total média entre os de formação na área específica e os de formação em outra área, em relação aos professores de Matemática do 2º CEB. Esta situação é compreensível, pois nos professores do 1º CEB a formação em Estatística, mesmo nas áreas específicas era insipiente, até há relativamente poucos anos (primeiro capítulo). Por este motivo, a esse nível é natural não haver diferenças significativas na atitude em relação à Estatística (pontuações totais médias para cada ciclo). Enquanto nos professores de Matemática do 2º CEB com formação específica pela sua natureza científica e didática têm atitudes mais positivas do que os professores com formações em outras áreas. Ainda assim, nessas outras áreas podem ser constatadas outras aplicações. Esta discrepância vocacional e de abordagem na formação estatística entre os docentes podem estar na 319 Análise de dados origem de uma menor semelhança na pontuação total média e, consequentemente, nas respetivas atitudes em relação à Estatística. A variável Nível de estudo da Estatística (V8) está associada à quinta hipótese formulada: H5 As atitudes em relação à estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português estão significativamente relacionadas com o nível de estudo da Estatística. Na Tabela 4.23 sumariam-se as respetivas medidas descritivas. Como a questão era de resposta múltipla criaram-se níveis de combinações das opções base, como consta na tabela. Nesta questão seis (0,5%) professores não responderam. Deve-se ainda realçar a percentagem de professores que indicaram não possuir qualquer formação académica em estatística, 34%, que é superior aos 29% de professores que assinalaram ter tido apenas formação estatística na universidade. Por outro lado, apenas 18% indicaram ter tido formação em Estatística na formação contínua (só aí ou aí e também na escola e/ou na universidade). Na Tabela 4.23 é visível que a média da pontuação total é ligeiramente inferior para os professores com menor nível de estudo da Estatística – nenhuma, sozinho, etc. e que esta vai aumentando, de modo geral, à medida que esse nível aumenta escola, universidade, escola e universidade, etc.. O nível sozinho pode ser considerado com distribuição quase simétrica e leptocúrtica; no nível Universidade tem-se uma distribuição assimétrica negativa e mesocúrtica; no nível Universidade e Escola a distribuição é assimétrica negativa e 320 Análise de dados leptocúrtica; e para os restantes níveis a distribuição é quase simétrica e mesocúrtica (ponto 5 do anexo XVII). Do teste de Kruskal-Wallis (2=217,356, p=0,000 < 0,05, Tabela 5.C do Anexo XVII) conclui-se que os grupos para os níveis de estudo da Estatística não têm todos a mesma mediana. Desta forma, para os professores deste estudo as pontuações totais medianas não são iguais para os níveis de estudo da Estatística considerados. Pode, então, aceitar-se a hipótese H5 – As atitudes em relação à estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português estão significativamente relacionadas com o nível de estudo da Estatística – considerando as comparações das pontuações totais medianas. Tabela 4.23: Resumo estatístico para a pontuação total por nível de estudo da Estatística Formação estatística Nenhuma (n=291; 26,6%) Sozinho (n=84; 7,7%) Escola (n=103; 9,4%) Universidade (n=317; 29%) Formação Contínua ou Outra (n=121; 11,1%) Escola e Universidade (n=100; 9,2%) Medidas estatísticas Média Intervalo de confiança para a média (95%) Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de confiança para a média (95%) Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de confiança para a média (95%) Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de confiança para a média (95%) Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de confiança para a média (95%) Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de confiança Limite inferior Limite superior Limite inferior Limite superior Limite inferior Limite superior Limite inferior Limite superior Limite inferior Limite superior Limite inferior 321 Valor 81,058 79,938 82,179 80,00 9,708 0,236 0,572 85,26 83,14 87,38 85,00 9,778 -0,166 -0,022 87,10 85,12 89,07 88,00 10,101 -0,243 -0,490 91,24 89,92 92,57 92,00 12,016 -0,324 -0,065 88,13 86,12 90,14 88,00 11,164 0,060 0,607 97,19 95,17 Erro Padrão 0,569 0,143 0,285 1,067 0,263 0,520 0,995 0,238 0,472 0,675 0,137 0,273 1,015 0,220 0,437 1,019 Análise de dados Escola e/ou Universidade e Formação contínua (n=76; 7%) para a média (95%) Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de confiança para a média (95%) Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Limite superior Limite inferior Limite superior 99,21 97,50 10,190 -0,780 1,525 93,37 91,00 95,73 94,00 10,355 -0,528 -0,099 0,241 0,478 1,188 0,276 0,545 Fonte: Elaborada pelo autor Nos testes de Mann-Whitney (comparação da pontuação total mediana entre cada dois dos níveis de estudo de Estatística considerados, Tabela 5.D do Anexo XVII) constata-se que os dois únicos níveis que apresentam diferenças significativas com todos os outros níveis são o nível Nenhuma e o nível Escola e Universidade. Ou seja, a ausência de formação em Estatística conduziu a valores de pontuações totais medianas significativamente diferentes (inferiores – atitudes menos positivas) das de todos os outros grupos com formação nessa área, mesmo dos que apresentam formação não tão formal. Por outro lado, a formação conjunta na escola e na universidade mostrou induzir valores de pontuações totais medianas significativamente diferentes (superiores – atitudes mais positivas) das de todos os outros grupos, talvez devida a uma complementaridade da aprendizagem proporcionada nos dois níveis de ensino. No entanto, apesar desta última situação poder parecer contraditória pelas diferenças encontradas entre o grupo Escola e Universidade e o grupo Escola e/ou Universidade e Formação contínua pode ser que assim não seja, uma vez que o último grupo engloba professores cuja formação pode ter sido na Escola e Formação contínua, Universidade e Formação contínua e, também, Escola e Universidade e Formação contínua. Além disso, verificou-se que as diferenças só não são significativas entre o nível Sozinho e o nível Escola, o nível Sozinho e o nível Formação contínua, bem como o nível Escola e o nível Formação contínua e, ainda, o nível Universidade e o nível Escola e/ou Universidade e Formação contínua. Assim, pode destacar-se o valor que a aprendizagem individualizada não formal aparentemente tem, talvez devida a uma maturidade, uma autonomia e uma motivação que esses professores, enquanto aprendentes, tenham, mas, apesar disso, esse grupo não deixa de apresentar a segunda mediana mais baixa. Além disso, a formação contínua aparenta ter desempenhado bem o papel de compensação de ausência de formação estatística pré-universitária. 322 Análise de dados No Gráfico 4.16 as variações das pontuações totais médias são muito análogas às das pontuações totais medianas. Pormenorizando, os professores com menos ou nenhuma formação académica em Estatística são os que apresentam menores pontuações totais médias. Dentro destes os sem formação em Estatística apresentam pontuações totais médias inferiores, 81,06, acima do valor de 75, relativo à indiferença. Com maiores médias surgem os professores que indicaram ter estudos de Estatística ou só na escola, ou só na formação contínua ou só na universidade, por esta ordem e com valores de pontuações totais médias de 87,1, 88,13 e 91,24, respetivamente. No entanto, os maiores valores das pontuações totais médias estão associados aos docentes que indicaram ter estudos de Estatística, combinando dois ou mais tipos de formação, escola, formação contínua e universidade. Logo, entre os diferentes níveis de estudo da Estatística considerados há diferenças nas pontuações totais médias e, com o aumento do nível de estudos da Estatística, parece que as pontuações totais médias traduzem uma atitude cada vez mais positiva, como também no caso das medianas. Esta situação vem reforçar algumas das considerações já feitas que vão no sentido de se associar a uma atitude mais positiva a maiores níveis de formação em Estatística. Neste sentido, será importante para garantir uma atitude em relação à Estatística cada vez mais positiva por parte dos professores a continuação do esforço realizado nos últimos anos no reforço do ensino da Estatística na escola, na formação inicial no ensino superior e na formação contínua, mencionados no primeiro capítulo. Como neste estudo, Estrada (2002) obteve um resultado com diferenças estatisticamente significativas nas atitudes em relação à Estatística (pontuações totais médias maiores) e os níveis prévios de estudo da Estatística. Além disso, esta autora identificou também na sua investigação a tendência para que a atitude global em relação à Estatística seja tanto mais positiva quanto maior for o nível de estudo da Estatística. Resultados semelhantes a este foram também obtidos por Silva et al. (1999), e nos trabalhos de Gil Flores, em 1999, e de Cuesta, Rifá e Herrera (2001, referidos por Blanco, 2008). 323 Análise de dados Gráfico 4.16: Gráfico das pontuações totais médias por nível de estudo da Estatística Fonte: Elaborado pelo autor Analisando separadamente os grupos de professores do 1º CEB e de professores de Matemática do 2º CEB, constata-se, para cada grupo, a existência de diferenças estatisticamente significativas relativamente ao nível de estudo da Estatística, (teste de Kruskal-Wallis 1º CEB: 2=102,758, p=0,000 < 0,05; 2º CEB: 2=21,959, p=0,001 < 0,05, Tabela K no ponto 5 do Anexo XVII). Desta forma, pode considerar-se que dentro de cada um dos grupos (professores 1º e 2º ciclos do EB), como no total da amostra, a atribuição das pontuações totais medianas difere com os níveis de estudo da Estatística. Além disso, da aplicação do teste de Mann-Whitney para comparar nos professores do 1º CEB a pontuação total mediana entre cada dois dos níveis de estudo de Estatística considerados pôde-se constatar que as diferenças só são significativas entre o nível Nenhuma e todos os outros níveis e para o nível Escola e Universidade e para o nível Escola e/ou Universidade e Formação contínua com todos os outros – excetuando entre eles – (Tabela 5.F do Anexo XVII). Como no caso global, para o grupo constituído apenas pelos professores do 1º CEB, fica patente que a falta de formação estatística e uma formação estatística mais vasta e complementar fazem a diferença em relação à atitude face à Estatística por parte destes professores, no primeiro caso de forma negativa e no segundo caso de forma mais positiva. Nos professores do 1º CEB a pontuação total média para cada um dos níveis de estudo da Estatística apresenta um comportamento análogo ao da amostra global 324 Análise de dados (Gráfico 4.17). De forma geral, a pontuação total média aumenta com o aumento do nível de estudos. No entanto, nos professores do 1º CEB que apenas indicaram formação contínua apresentam melhor pontuação total média do que os que indicaram apenas universidade, ao contrário dos resultados relativos à amostra global. Gráfico 4.17: Gráfico das pontuações totais médias dos professores do 1º CEB por nível de estudo da Estatística Fonte: Elaborado pelo autor Nos testes de Mann-Whitney para comparação da pontuação total mediana dos professores de Matemática do 2º CEB entre cada dois dos níveis de estudo de Estatística considerados constata-se que as diferenças são significativas entre o nível Formação contínua e os outros níveis com exceção do Nenhuma e Sozinho, bem como entre o nível Nenhuma e o nível Escola e Universidade e, ainda, entre o nível Sozinho com os níveis Universidade e Escola e Universidade (Tabela 5.G do Anexo XVII). Neste grupo de professores do 2º CEB esbatem-se as diferenças, ainda que o realce seja também para o contraste entre ausência ou falta de formação estatística formal e uma formação estatística formal ao nível do ensino superior com complementaridade, ou não, do ensino não superior. Para estes professores as pontuações totais médias para cada um dos níveis de estudo da Estatística sintetizam-se no Gráfico 4.18. São três dos grupos com menor dimensão (Nenhuma, Sozinho e Formação contínua) os que apresentam as médias mais baixas, ainda que com valores superiores ou iguais a 84 que correspondem a atitudes em relação à Estatística positivas (> 75, indiferença). Para os professores de Matemática do 325 Análise de dados 2º CEB, o facto de a menor média da pontuação total ser no grupo dos professores que declararam ter estudado Estatística apenas na formação contínua, é motivo para em futuras investigações fazer uma análise sobre o assunto, com o intuito de encontrar as possíveis razões desta situação e formas de a melhorar. Gráfico 4.18: Gráfico das médias da pontuação total dos professores de Matemática do 2º CEB por nível de estudo da Estatística Fonte: Elaborado pelo autor A variável Lecionação de Estatística (V9) está associada à sexta hipótese formulada: H6 As atitudes em relação à estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português estão significativamente relacionadas com o terem lecionado, ou não, Estatística. Na Tabela 4.24 apresentam-se as respetivas medidas descritivas. Como a questão envolve opções referentes aos ciclos de lecionação criaram-se os grupos correspondentes aos que não lecionaram Estatística, maioritariamente professores do 1º CEB, os que a lecionaram apenas num dos ciclos do ensino básico e os que a lecionaram em dois ciclos, havendo a referir 18 (1,6%) não respostas. Há uma percentagem considerável de professores que indicaram não terem lecionado Estatística, 29,3%, que é superior aos 12,8% de professores que já lecionaram em mais do que um ciclo. As pontuações totais médias (Tabela 4.24) são inferiores para os professores que não lecionaram Estatística e que estas aumentam para os professores que o fizeram apenas no seu ciclo; aumentam ainda mais para os que lecionaram em mais de um ciclo. Em termos da dispersão os valores do desvio padrão são em termos relativos 326 Análise de dados semelhantes, com coeficientes de variação entre 0,118 e 0,129. Os intervalos de confiança a 95% para as médias da pontuação total refletem os resultados das respetivas médias. Para o grupo dos professores que lecionaram Estatística considera-se a distribuição como sendo quase simétrica e mesocúrtica (ponto 6 do Anexo XVII). Para o grupo de professores que indicaram não terem lecionado Estatística a distribuição é assimétrica positiva e leptocúrtica e, por fim, para o grupo dos professores que lecionaram no seu ciclo e noutro a distribuição é assimétrica negativa e leptocúrtica. A atribuição da pontuação total não é igual em todos os grupos de lecionação de Estatística (teste de Kruskal-Wallis: χ2=231,991, p=0,000 < 0,05, Tabela 6.C do ponto 6 do Anexo XVII), ou seja, para os professores de Matemática do 2º CEB e professores do 1º CEB português há diferenças nas pontuações totais medianas segundo a lecionação de Estatística. Aceita-se a hipótese H6 – As atitudes em relação à estatística dos professores do 1º ciclo e dos professores de Matemática do 2º ciclo do ensino básico português estão significativamente relacionadas com o terem lecionado, ou não, Estatística – comparando das pontuações totais medianas por ciclo de ensino e por lecionação ou não da Estatística. Tabela 4.24: Resumo estatístico para a pontuação total segundo a lecionação de Estatística Lecionação Medidas estatísticas Valor Erro Padrão de Estatística Média 80,29 0,584 Limite inferior 79,14 Intervalo de confiança para a média (95%) Limite superior 81,44 Não Mediana 79,00 (N=316, 29%) Desvio Padrão 10,389 Simetria 0,484 0,137 Achatamento 1,276 0,273 Média 90,11 0,424 Intervalo de confiança Limite inferior 89,28 para a média (95%) Limite superior 90,94 Sim, num ciclo Mediana 91,00 (N=626, 58%) Desvio Padrão 10,601 Simetria -0,113 0,098 Achatamento -0,090 0,195 Média 96,02 0,962 Intervalo de confiança Limite inferior 94,12 Sim, para a média (95%) Limite superior 97,92 em mais de um ciclo Mediana 98,00 (N=138, 13%) Desvio Padrão 11,303 Simetria -0,914 0,206 327 Análise de dados Achatamento 1,064 0,410 Fonte: Elaborada pelo autor Nos testes de Mann-Whitney para a comparação da pontuação total mediana entre cada dois dos níveis de estudo de Estatística considerados constata-se que em todos os casos as diferenças são significativas (Tabela 6.D do Anexo XVII). As atitudes em relação à Estatística por parte destes professores são influenciadas pela sua experiência letiva no ensino da mesma, estando as atitudes mais positivas relacionadas com uma experiência mais vasta no ensino da Estatística. No Gráfico 4.19 as variações das pontuações totais médias são análogas às das pontuações totais medianas. Percebe-se, então, que os professores que indicaram não ter ainda lecionado Estatística são os que apresentam menor pontuação total média. Com maiores pontuações totais médias surgem os professores que indicaram ter já lecionado Estatística, mas dentro destes os professores que declararam ter lecionado em mais do que um ciclo apresentam as maiores pontuações totais médias. Portanto, tal como acontecia com as medianas, parece que as pontuações totais médias correspondem a uma atitude mais positiva quando já se lecionou Estatística, sendo isso mais notório ainda se se lecionou em mais de um ciclo. Esta situação vem reforçar algumas das considerações já esboçadas no sentido de se associar uma maior experiência letiva a uma possível atitude mais positiva. Talvez a experiência letiva obrigue a um maior conhecimento estatístico e a uma reflexão sobre o ensino da Estatística, bem como a uma maior tomada de consciência da sua aplicabilidade, na prática letiva e no quotidiano. Estas são condições propícias à criação e/ou reforço de atitudes positivas em relação à Estatística por parte dos professores. Neste sentido, espera-se que134 o tempo, com a experiência letiva que daí advém, seja um aliado mais para garantir uma atitude em relação à Estatística cada vez mais positiva por parte dos professores. Também nesta componente a formação e a exploração das vantagens da entre ajuda, da troca de experiências e de um trabalho colaborativo com os colegas (mesmo com os de outras áreas) contribuam e tenham um papel importante. 134 Se não for diminuída a importância da Estatística nos planos curriculares no EB. 328 Análise de dados Gráfico 4.19: Gráfico das médias da pontuação total segundo a lecionação da Estatística Fonte: Elaborado pelo autor Analisando, agora os grupos de professores do 1º CEB e de professores de Matemática do 2º CEB, comprova-se que apenas nos professores do 1º CEB se encontraram diferenças estatisticamente significativas entre as atitudes e a lecionação da Estatística (teste de Kruskal-Wallis (1º CEB, 2=122,765, p=0,000 < 0,05; 2º CEB, 2=3,112, p=0,211 > 0,05, Tabela 6.E do Anexo XVII). Assim, no grupo dos professores do 1º CEB os níveis de lecionação da Estatística há diferenças estatisticamente significativas relativamente às pontuações totais medianas, mas nos professores de Matemática do 2º CEB não há. Apenas dentro do grupo de professores do 1º CEB a atribuição das pontuações totais medianas difere com os níveis de lecionação da Estatística, como acontecia para o total da amostra. Para os professores do 1º CEB, como no caso global, nos testes de MannWhitney para a comparação da pontuação total mediana entre cada dois dos níveis de estudo de Estatística considerados verifica-se que em todos os casos as diferenças são significativas (Tabela 6.F do Anexo XVII). Nos professores do 1º CEB a pontuação total média para cada um dos níveis de lecionação da Estatística considerados (Gráfico 4.20) apresenta um comportamento 329 Análise de dados semelhante ao da amostra global. A pontuação total média é menor nos professores que não lecionaram Estatística, aumenta para os professores que a lecionaram apenas no 1º CEB, sendo a maior média associada a atitudes em relação à Estatística mais positivas para os professores que a lecionaram nos dois primeiros ciclos do EB. Gráfico 4.20: Gráfico das médias da pontuação total dos professores do 1º CEB segundo a lecionação da Estatística Fonte: Elaborado pelo autor Dos professores de Matemática do 2º CEB só cinco (2%) indicaram não ter ainda lecionado Estatística. Este grupo de cinco professores de Matemática do 2º CEB são os que apresentam a menor pontuação total média, 88,2 > 75, o valor da escala para a indiferença. No entanto, os restantes professores de Matemática do 2º CEB apresentam pontuações totais médias de 96,55 e 97,94, respetivamente, dos que lecionaram Estatística apenas no 2º CEB e os que a lecionaram no 2º CEB e noutro ciclo do EB (Gráfico 4.21). Os valores destas médias estão muito próximos, o que vai ao encontro de não terem sido detetadas diferenças estatisticamente significativas para as medianas neste grupo de professores. Este facto pode ser consequência da maior formação estatística que este grupo de professores terá tido em comparação com os professores do 1º CEB. A situação de maior formação talvez retire alguma da influência que a lecionação possa ter na potenciação de atitudes mais positivas nos professores. 330 Análise de dados Gráfico 4.21: Gráfico das médias da pontuação total dos professores de Matemática do 2º CEB segundo a lecionação da Estatística Fonte: Elaborado pelo autor 4.3.2. Influência sobre as componentes das atitudes Após ter-se analisado no subponto anterior a influência das variáveis independentes sobre a pontuação total atribuída na escala, passa-se neste subponto a uma análise da influência dessas mesmas variáveis nas componentes das atitudes. Resumem-se na Tabela 4.25 as medidas descritivas para a variável Ciclo de ensino em que leciona (V5) segundo as componentes pedagógicas e componentes antropológicas. Da observação da tabela a média da pontuação é superior nos professores de Matemática do 2º CEB para todas as componentes, enquanto a dispersão relativa é inferior para esse mesmo grupo de professores, ainda que em termos absolutos a única exceção é na componente comportamental, mas com valores próximos. Os intervalos de confiança a 95% para as médias da pontuação em cada uma das componentes refletem também os melhores resultados apresentados pelos professores de Matemática do 2º CEB. Tabela 4.25: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes das atitudes por ciclo de lecionação 331 Análise de dados Fonte: Elaborada pelo autor Para as médias das pontuações em cada uma das componentes destes dois grupos de professores (1º e 2º CEB) verificou-se que as pontuações totais médias dos professores de Matemática do 2º CEB e dos professores do 1º CEB apresentam diferenças significativas de atitude em relação à Estatística, em todas as componentes (Tabela 1.A do Anexo XX). Pela comparação dos valores das diferenças das médias, as atitudes dos Ciclo de Lecionação 1º CEB 2º CEB Ciclo de Lecionação 1º CEB 2º CEB Componentes Pedagógicas Medidas estatísticas Média Intervalo de confiança Limite inferior para a média (95%) Limite superior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de confiança Limite inferior para a média (95%) Limite superior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Componentes Antropológicas Medidas estatísticas Média Intervalo de confiança Limite inferior para a média (95%) Limite superior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de confiança Limite inferior para a média (95%) Limite superior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Componente Afetiva Erro Valor Padrão 34,338 0,182 33,982 34,694 34 5,301 0,123 0,084 0,081 0,167 39,390 0,291 38,817 39,963 40 4,564 -0,515 0,155 0,146 0,309 Componente Social Erro Valor Padrão 29,610 0,144 29,329 29,892 30 4,189 -0,141 0,084 0,019 0,167 32,805 0,227 32,358 33,252 33 3,560 -0,259 0,155 -0,156 0,309 Componente Cognitiva Erro Valor Padrão 28,498 0,138 28,227 28,768 29 4,022 -0,237 0,084 -0,147 0,167 31,955 0,190 31,581 32,330 32 2,982 -0,401 0,155 -0,131 0,309 Componente Educativa Erro Valor Padrão 30,656 0,165 30,332 30,980 30 4,814 0,031 0,084 0,122 0,167 35,854 0,263 35,336 36,371 37 4,119 -0,532 0,155 -0,084 0,309 Componente Comportamental Erro Valor Padrão 22,562 0,117 22,332 22,793 23 3,427 0,030 0,084 0,027 0,167 25,528 0,221 25,094 25,963 26 3,460 -0,299 0,155 -0,525 0,309 Componente Instrumental Erro Valor Padrão 25,131 0,147 24,843 25,420 25 4,289 -0,130 0,084 0,549 0,167 28,215 0,245 27,732 28,699 28 3,847 -0,361 0,155 0,120 0,309 professores de Matemática do 2º CEB são tendencialmente mais positivas que as dos professores do 1º CEB (Tabela 4.25; Tabela 1.A do Anexo XX). Esta ilação é reforçada pelos intervalos de confiança a 95% para a diferença de médias destes dois grupos para todas as componentes que apresentam apenas valores negativos não incluindo o zero que corresponderia à igualdade das médias (Tabela 1.A do Anexo XX). Ou seja, na pontuação obtida nas várias componentes existe uma diferença estatisticamente 332 Análise de dados significativa entre os dois ciclos de lecionação dos professores semelhante à existente na pontuação total. Dado que nem todas as componentes têm o mesmo número de itens. Assim, em termos relativos, e para as componentes pedagógicas, na componente afetiva a média dos professores de Matemática do 2º CEB é 15% superior à dos seus colegas do 1º CEB, enquanto na componente cognitiva essa diferença é de 12% e na componente comportamental é de 13%. A maior variação percentual entre os ciclos nestas componentes pedagógicas é a que está associada às formas de expressar o sentimento em relação à Estatística, envolvendo as emoções e sentimentos que a Estatística provoca, que reforçam as relações dos professores com a Estatística e que podem contribuir para consolidar o poder motivacional das atitudes. Por outro lado, tendo como referência a pontuação correspondente à indiferença em cada uma daquelas componentes, no caso da componente afetiva a média da pontuação dos professores do 1º CEB é 14% superior, na componente cognitiva essa percentagem é de 19% e na comportamental é de 7%. Precisamente a componente comportamental em que os professores do 1º CEB – os que apresentam atitudes em relação à Estatística menos positivas – menos se afastam do ponto de indiferença em termos relativos é a que está associada às ações em relação à Estatística, abrangendo ações ou intenções de conduta que representam a tendência para decidir em termos de ação em relação à mesma. No sentido oposto, a média na componente cognitiva dos professores do 1º CEB é a que, em termos relativos, mais se afasta do ponto de indiferença, estando relacionada com as ideias, crenças, imagens e perceções dos professores sobre a Estatística. No que diz respeito às componentes antropológicas, na componente social a média dos professores de Matemática do 2º CEB é 11% superior à dos seus colegas do 1º CEB, enquanto na componente educativa essa diferença é de 17% e na componente instrumental é de 12%. Portanto, a maior diferença percentual entre as médias da pontuação dos ciclos nestas componentes antropológicas é a que está associada aos aspetos ligados à envolvente educativa e engloba o interesse em relação à Estatística e à sua aprendizagem, a visão sobre a sua utilidade para o aluno, a opinião sobre a importância da sua inclusão no currículo e também a dificuldade percebida em relação à mesma. Voltando a ter como referência a pontuação correspondente à indiferença em cada uma destas componentes, no caso da componente social a média da pontuação dos professores do 1º CEB é 23% superior à pontuação de indiferença, na componente educativa essa percentagem é de 14% e na instrumental é de 5%. Neste caso, a 333 Análise de dados componente instrumental é a componente em que os professores do 1º CEB menos se afastam do ponto de indiferença em termos relativos, estando associada à atribuição de utilidade da Estatística a outras matérias como forma de raciocínio e como componente cultural. A componente em que existe um maior afastamento relativo do ponto de indiferença é a componente social em que está em jogo a perceção e valorização do papel da Estatística no âmbito sociocultural do cidadão. Reconhecendo as diferenças existentes entre os professores dos ciclos de lecionação em estudo e as especificidades de cada um dos dois grupos, parece que os professores do 1º CEB do ensino básico necessitam, em relação aos professores de Matemática do 2º CEB, de maior atenção e trabalho em termos de atitudes em relação à Estatística ao nível afetivo e ao nível da importância educativa da Estatística. Esta diferença comparativa é talvez fruto da formação menos específica e da menor experiência letiva em termos da Estatística. Além disso, e apesar da importância de todas as componentes das atitudes, deve-se realçar a necessidade de melhoria das atitudes em relação à Estatística ao nível comportamental (ou das ações em relação à Estatística) e ao nível instrumental (ou da atribuição de utilidade da Estatística a nível pessoal). Na Tabela 4.26 apresentam-se as medidas descritivas para a variável Género (V2) segundo as componentes pedagógicas e componentes antropológicas. Da observação da tabela fica patente que a pontuação total média é superior nos homens em todas as componentes, sendo também superior tanto a dispersão absoluta como a relativa para esse mesmo grupo de professores. Os intervalos de confiança a 95% para as médias da pontuação em cada uma das componentes refletem também os melhores resultados apresentados pelos homens. Verifica-se (ponto 2 do Anexo XX) para os dados referentes aos professores que, nos casos da componente cognitiva e da componente educativa, as distribuições são assimétricas negativas, sendo de considerar nos outros casos a simetria. No que diz respeito às professoras a assimetria é negativa para as componentes cognitiva, social e instrumental, sendo, nos outros casos distribuições quase simétricas. Para o achatamento, considera-se que para ambos os grupos de professores e em todas as componentes as distribuições das pontuações totais médias podem ser consideradas mesocúrticas, excetuando as componente educativa e instrumental nas professoras que apresentam distribuição platicúrtica e leptocúrtica, respetivamente (ponto 2 do Anexo XX). 334 Análise de dados Tabela 4.26: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes das atitudes por género Componentes Pedagógicas Género Medidas estatísticas Média Intervalo de confiança para a média (95%) Masculino Limite superior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de confiança para a média (95%) Feminino Limite inferior Limite inferior Limite superior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Componentes Antropológicas Género Medidas estatísticas Média Intervalo de confiança para a média (95%) Masculino Limite superior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de confiança para a média (95%) Feminino Limite inferior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Limite inferior Limite superior Componente Afetiva Erro Valor Padrão 36,286 0,421 35,455 Componente Cognitiva Erro Valor Padrão 29,415 0,306 28,812 37,116 36,000 6,305 -0,157 -0,738 35,261 34,907 30,018 30,500 4,581 -0,477 -0,243 29,236 28,974 0,163 0,324 0,180 35,615 35,000 5,334 -0,011 0,083 -0,097 0,165 Componente Social Erro Valor Padrão 30,929 0,312 30,314 31,544 31,000 4,671 -0,298 -0,535 30,172 29,896 30,447 30,000 4,147 -0,199 0,117 0,163 0,324 0,140 0,083 0,165 0,163 0,324 0,133 29,497 30,000 3,939 -0,304 0,083 -0,168 0,165 Componente Educativa Erro Valor Padrão 32,205 0,377 31,462 32,948 32,500 5,642 -0,357 0,010 31,722 31,389 32,054 31,500 5,008 0,023 -0,366 0,163 0,324 0,169 0,083 0,165 Componente Comportamental Erro Valor Padrão 23,518 0,250 23,024 24,011 23,500 3,748 -0,035 -0,394 23,152 22,912 0,163 0,324 0,123 23,393 23,000 3,622 0,032 0,083 -0,181 0,165 Componente Instrumental Erro Valor Padrão 26,085 0,337 25,420 26,750 26,000 5,048 -0,192 -0,163 25,755 25,476 26,034 26,000 4,199 -0,200 0,443 0,163 0,324 0,142 0,083 0,165 Fonte: Elaborada pelo autor No teste t das diferenças de médias das pontuações em cada uma das componentes destes dois grupos de professores (homens e mulheres), observaram-se valores de prova p > 0,05, exceto no caso das componentes afetiva e social (Tabela 2.A do Anexo XX). Desta forma, só nas componentes afetiva e social as médias amostrais para os géneros em cada uma das componentes diferem significativamente em termos estatísticos, podendo considerar-se que não têm médias iguais. Resumindo, os homens e as mulheres abrangidos por este estudo apresentam diferenças de atitude em relação à Estatística nestas duas componentes afetiva e social, e não nas outras. Nestas duas componentes onde se detetaram diferenças as atitudes dos professores homens são tendencialmente mais positivas que as das professoras. Esta 335 Análise de dados ilação é reforçada pelos intervalos de confiança a 95% para a diferença de médias destes dois grupos nestas duas componentes (Tabela 2.A do Anexo XX). Na pontuação obtida nas outras componentes das atitudes não existe uma diferença estatisticamente significativa entre os dois géneros, situação semelhante à verificada na pontuação total. Para a componente afetiva a média da pontuação dos professores homens é 3% superior à das professoras, enquanto na componente social essa diferença é de 2%. Dessa forma, as diferenças referidas não se podem considerar muito acentuadas. Contudo, são suficientes para que deva haver uma atenção ao grupo das professoras sobre as emoções e sentimentos provocados pela Estatística, bem como sobre a perceção tida e a valorização que as professoras atribuem ao papel da Estatística. Esta ideia vem no sentido de reforçar a sua relação com a Estatística e contribuir para consolidar o poder motivacional das suas atitudes. Relativamente à variável Tempo de serviço (V4) apresentam-se na Tabela 4.27 e na Tabela 4.28 as medidas descritivas segundo as componentes pedagógicas e componentes antropológicas, respetivamente. Da observação das tabelas verifica-se que para todas as componentes a média da pontuação tendencialmente diminui à medida que aumenta o tempo de serviço, salvo pequenas flutuações em sentido contrário. Os intervalos de confiança a 95% para as médias da pontuação em cada uma das componentes refletem também estes resultados. A dispersão não é muito acentuada, mas apresenta oscilações entre os vários intervalos de tempo de serviço. Em termos da dispersão relativa a diferença entre o coeficiente de variação máximo e o mínimo é máxima, 0,032, na componente comportamental e mínima, 0,014, na componente social. Os valores dos coeficientes de variação máximos nas várias componentes estão compreendidos entre 0,182 e 0,148, enquanto os mínimos variam entre 0,156 e 0,122. Em termos de assimetria verifica-se para as componentes pedagógicas que no caso da componente afetiva para o intervalo de tempo de serviço [5, 10[ e no caso da componente cognitiva para os intervalos de tempo de serviço [5, 10[ e [20, 30[ as distribuições são assimétricas negativas, sendo quase simétricas nos outros casos. No que diz respeito às componentes antropológicas para o intervalo de tempo de serviço [5, 10[ nas três componentes a distribuição é assimétrica negativa e nos outros casos as distribuições são quase simétricas (ponto 3 do Anexo XX). Relativamente ao achatamento, e excetuando na componente afetiva para o intervalo [20, 30[ em que a 336 Análise de dados distribuição é platicúrtica, na componente cognitiva para o intervalo [5, 10[ e na componente social para o intervalo [0 , 5[ que são leptocúrticas, em todos os outros casos as distribuições podem-se considerar mesocúrticas (ponto 3 do Anexo XX). Do teste de Kruskal-Wallis pode considerar-se a rejeição da igualdade de medianas da pontuação por período de tempo de serviço para cada componente, com valores de p < 0,01, exceto na componente instrumental (Tabela 3.A do Anexo XX). Ou seja, as medianas para os vários intervalos de tempo de serviço em cada uma das componentes diferem significativamente em termos estatísticos. As atitudes vão sendo menos positivas à medida que o tempo de serviço aumenta, verificando-se este fenómeno em todas as componentes, em maior ou menor grau e com ou sem, pequenas variações pontuais. Nas várias componentes a pontuação obtida apresenta diferenças estatisticamente significativas entre os períodos de tempo de serviço dos professores semelhante à existente na pontuação total. Da aplicação do teste de Mann-Whitney constatou-se que as diferenças significativas são essencialmente entre os grupos de professores com menos de 20 anos de serviço e os grupos de professores que têm 20 ou mais anos de serviço, embora que para o grupo [20 , 30[ as diferenças só existem com todos os grupos com menos de 20 anos nas componentes afetiva e educativa (Tabela 3.B do Anexo XX). Constata-se também que, de forma geral, as pontuações totais medianas dos grupos de professores com menos de 20 anos de serviço são superiores às dos grupos de professores com 20 anos de serviço ou mais. 337 Análise de dados Tabela 4.27: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes pedagógicas das atitudes por tempo de serviço Tempo de serviço [0, 5[ [5, 10[ [10, 15[ Componentes Erro Erro Erro Medidas estatísticas Valor Valor Valor Pedagógicas Padrão Padrão Padrão Média 36,860 0,729 36,702 0,556 36,211 0,498 Limite inferior 35,400 35,600 35,226 Intervalo de Confiança para a Média (95%) Limite superior 38,319 37,804 37,196 Componente Mediana 36,0 37,0 36,5 Afetiva Desvio Padrão 5,501 5,669 5,631 Simetria -0,018 0,316 -0,476 0,237 -0,244 0,214 Achatamento -0,031 0,623 0,718 0,469 -0,236 0,425 Média Intervalo de Confiança para a Média (95%) Componente Cognitiva Limite inferior Limite superior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de Confiança para a Média (95%) Componente Comportamental Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Limite inferior Limite superior [15, 20[ Erro Valor Padrão 36,288 0,520 35,258 37,319 36,0 5,300 -0,037 0,237 -0,810 0,469 [20, 30[ Erro Valor Padrão 34,967 0,257 34,462 35,471 35,0 5,438 0,053 0,115 -0,482 0,230 [30, 50[ Erro Valor Padrão 34,840 0,352 34,146 35,533 34,5 5,633 0,149 0,152 0,128 0,303 30,193 29,216 31,170 30 3,681 -0,275 0,647 0,488 30,260 29,524 30,995 31 3,783 0,316 -0,782 0,623 1,405 0,371 29,867 29,196 30,539 31 3,840 0,237 -0,425 0,469 -0,416 0,339 29,635 28,820 30,449 30 4,190 0,214 -0,419 0,425 -0,556 0,411 29,047 28,670 29,423 30 4,060 0,237 -0,345 0,469 -0,016 0,192 28,617 28,095 29,139 28 4,243 0,115 -0,114 0,230 -0,425 0,265 24,105 23,054 25,157 24 3,963 0,099 -0,268 0,525 24,375 23,731 25,019 25 3,310 0,316 -0,437 0,623 0,346 0,325 23,828 23,130 24,526 24 3,990 0,237 0,036 0,469 -0,363 0,353 23,654 22,984 24,324 24 3,447 0,214 -0,121 0,425 -0,625 0,338 22,922 22,593 23,251 23 3,543 0,237 -0,039 0,469 -0,254 0,167 22,625 22,179 23,071 22 3,623 0,115 0,244 0,230 0,081 0,226 Fonte: Elaborada pelo autor 338 0,152 0,303 0,152 0,303 Análise de dados Tabela 4.28: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes antropológicas das atitudes por tempo de serviço Tempo de serviço [0, 5[ [5, 10[ [10, 15[ Componentes Erro Erro Erro Medidas estatísticas Valor Valor Valor Antropológicas Padrão Padrão Padrão Média 30,895 0,607 31,096 0,411 30,992 0,367 Limite inferior 29,679 30,281 30,265 Intervalo de Confiança para a Média (95%) Limite superior 32,110 31,911 31,719 Componente Mediana 31 31 31 Social Desvio Padrão 4,581 4,191 4,157 Simetria -0,566 0,316 -0,698 0,237 -0,320 0,214 Achatamento 1,270 0,623 1,412 0,469 0,244 0,425 Média Intervalo de Confiança para a Média (95%) Componente Educativa Limite inferior Limite superior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de Confiança para a Média (95%) Componente Instrumental Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Limite inferior Limite superior [15, 20[ Erro Valor Padrão 30,750 0,413 29,930 31,570 31 4,217 -0,073 0,237 -0,721 0,469 [20, 30[ Erro Valor Padrão 30,116 0,204 29,714 30,517 30 4,327 -0,168 0,115 -0,192 0,230 [30, 50] Erro Valor Padrão 29,750 0,257 29,243 30,257 30 4,118 0,015 0,152 -0,237 0,303 33,684 32,332 35,036 33,0 5,096 0,212 -0,924 0,675 33,548 32,598 34,498 34,0 4,883 0,316 -0,474 0,623 0,557 0,479 32,836 31,912 33,760 32,5 5,284 0,237 -0,136 0,469 -0,625 0,467 32,356 31,397 33,315 32,0 4,932 0,214 -0,274 0,425 -0,671 0,484 31,227 30,763 31,691 31,0 5,005 0,237 -0,113 0,469 -0,174 0,236 31,020 30,381 31,658 31,0 5,188 0,115 0,177 0,230 0,060 0,324 26,579 25,443 27,715 27 4,280 -0,109 0,316 0,567 26,692 25,797 27,587 27 4,603 0,316 -0,554 0,623 0,807 0,451 26,078 25,249 26,907 26 4,738 0,237 -0,228 0,469 0,061 0,419 26,471 25,666 27,276 27 4,138 0,214 0,240 0,425 -0,049 0,406 25,592 25,200 25,985 26 4,236 0,237 -0,203 0,469 0,261 0,200 25,313 24,769 25,856 25 4,419 0,115 -0,158 0,230 0,539 0,276 Fonte: Elaborada pelo autor 339 0,152 0,303 0,152 0,303 Análise de dados Reforçando a ideia das pontuações totais dos grupos de professores com menos de 20 anos de serviço serem superiores às dos grupos de professores com 20 anos de serviço ou mais, no Gráfico 4.22 vê-se a pontuação total média por componente evidenciando-se a tendência da sua diminuição com o aumento do tempo de serviço em cada período de tempo de serviço135. Gráfico 4.22: Rácio da média da pontuação pelo valor de indiferença para as várias componentes segundo o tempo de serviço Fonte: Elaborado pelo autor Na Tabela 4.25 apresentam-se as medidas descritivas para a variável Área ou especialidade da formação inicial (V6) segundo as componentes pedagógicas e componentes antropológicas. Constata-se que para todas as componentes a média da pontuação total é superior nos professores com formação inicial na área específica, enquanto a dispersão absoluta e relativa é inferior para esse mesmo grupo de professores com as exceções das componentes comportamental e social, mas com valores muito próximos. Os intervalos de confiança a 95% para as médias da pontuação em cada uma das componentes refletem também os melhores resultados apresentados pelos professores com formação inicial na área específica relativamente aos de outras áreas, não havendo 135 Esta forma de apresentação visou tornar os valores comparáveis e a sua interpretação mais clara, uma vez que as componentes têm números de itens associados que não são sempre coincidentes uns com os outros. 340 Análise de dados interseção dos intervalos apenas nos casos das componentes comportamental e educativa. Tabela 4.29: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes das atitudes por ciclo de lecionação Componente Componente Componente Componentes Pedagógicas Afetiva Cognitiva Comportamental Ciclo de Erro Erro Erro Medidas estatísticas Valor Valor Valor Lecionação Padrão Padrão Padrão Média 35,719 0,212 29,414 0,155 23,506 0,141 35,302 29,110 23,229 Intervalo de Confiança Limite inferior para a Média (95%) Limite superior 36,136 29,719 23,784 Área 36 30 23 Específica Mediana Desvio Padrão 5,599 4,092 3,725 Simetria -0,019 0,093 -0,427 0,093 -0,023 0,093 Achatamento -0,314 0,185 -0,303 0,185 -0,324 0,185 Média 35,128 0,326 29,112 0,238 22,757 0,203 34,487 28,644 22,357 Intervalo de Confiança Limite inferior para a Média (95%) Limite superior 35,769 29,580 23,156 Outra Mediana 35,0 29,5 23,0 Área Desvio Padrão 5,681 4,147 3,542 Simetria -0,092 0,140 -0,237 0,140 0,103 0,140 Achatamento -0,168 0,279 0,239 0,279 0,090 0,279 Componente Componente Componente Componentes Antropológicas Social Educativa Instrumental Ciclo de Erro Erro Erro Medidas estatísticas Valor Valor Valor Lecionação Padrão Padrão Padrão Média 30,455 0,164 32,174 0,196 26,012 0,166 Limite inferior 30,134 31,788 25,686 Intervalo de Confiança para a Média (95%) Limite superior 30,776 32,560 26,337 Área 31 32 26 Específica Mediana Desvio Padrão 4,311 5,178 4,372 Simetria -0,210 0,093 -0,042 0,093 -0,249 0,093 Achatamento -0,099 0,185 -0,542 0,185 0,092 0,185 Média 30,224 0,241 31,178 0,298 25,595 0,265 Limite inferior 29,749 30,592 25,075 Intervalo de Confiança para a Média (95%) Limite superior 30,699 31,763 26,116 Outra Mediana 30 31 26 Área Desvio Padrão 4,209 5,189 4,613 Simetria -0,180 0,140 -0,236 0,140 -0,017 0,140 Achatamento 0,032 0,279 0,357 0,279 0,651 0,279 Fonte: Elaborada pelo autor Em termos de assimetria verifica-se para os dados referentes aos professores com formação inicial na área específica que, no caso das componentes cognitiva, social e instrumental, as distribuições são assimétricas negativas e nas restantes quase simétricas. No que diz respeito aos professores com formação inicial em outras áreas as distribuições podem considerar-se quase simétricas para todas as componentes (ponto 4 do Anexo XX). Relativamente ao achatamento, e excetuando a componente educativa nos docentes com formação inicial na área específica e a componente instrumental nos 341 Análise de dados docentes com formação inicial noutras áreas, podem-se considerar todas as distribuições como mesocúrticas e as exceções como platicúrtica e leptocúrtica respetivamente (ponto 4 do Anexo XX). No teste t das diferenças de médias das pontuações em cada uma das componentes destes dois grupos de professores, só se rejeita a igualdade de médias da pontuação para as componentes comportamental e educativa (Tabela 4.A do Anexo XX). Ou seja, as médias amostrais para os dois tipos de formação inicial em cada uma daquelas duas componentes diferem significativamente em termos estatísticos. Deste modo, pode concluir-se que os professores com formação inicial na área específica e os professores com formação inicial em outras áreas apresentam diferenças de atitude em relação à estatística nas componentes comportamental e educativa, tal como o mostravam quanto à pontuação total. Nestas componentes as atitudes dos professores com formação inicial na área específica são tendencialmente mais positivas que as dos outros professores. Esta ilação é reforçada pelos intervalos de confiança a 95% para a diferença de médias destes dois grupos naquelas componentes (Tabela 4.A do Anexo XX). Assim, a diferença entre os professores destes dois grupos estará ligada às ações de conduta que representam a tendência para decidir em termos de ação em relação à Estatística e a aspetos como o interesse em relação à Estatística e à sua aprendizagem, a visão sobre a sua utilidade para o aluno, a opinião sobre a importância da sua inclusão no currículo e também à dificuldade percebida em relação à mesma. Por outro lado, nestes aspetos as atitudes em relação à Estatística mais positivas, refletidas em médias mais elevadas, são as dos professores com formação inicial na área específica. Este facto reforça a importância da implementação de formações específicas para a lecionação nestes ciclos do EB em Portugal que foi realizada nas últimas décadas (primeiro capítulo). Considera-se que nestes cursos que é necessário fomentar ainda mais o ensino vocacionado e focado para a Estatística, em particular dando ênfase, à sua importância, utilidade, aplicabilidade, em especial em questões do quotidiano e profissionais. Para a variável Nível de estudo da Estatística (V8) apresentam-se na Tabela 4.30 e na Tabela 4.31 as medidas descritivas segundo as componentes pedagógicas e componentes antropológicas, respetivamente. Da observação das tabelas fica claro que 342 Análise de dados para todas as componentes a média da pontuação tendencialmente aumenta à medida que aumenta o nível de estudo de Estatística, salvo pequenas flutuações. A dispersão não é muito acentuada, mas apresenta oscilações entre os vários níveis de estudo da Estatística. Em termos da dispersão relativa a diferença entre o coeficiente de variação máximo e o mínimo é máxima, 0,044, nas componentes cognitiva e social e é mínima, 0,024, na componente afetiva. Os valores dos coeficientes de variação máximos nas várias componentes estão compreendidos entre 0,140 e 0,171, enquanto os mínimos variam entre 0,096 e 0,144. Os intervalos de confiança a 95% para as médias da pontuação em cada uma das componentes refletem também os resultados referidos para as médias, pois em todas as componentes os intervalos de confiança não se intersetam entre si. Em termos de assimetria verifica-se para as componentes pedagógicas que no caso da componente afetiva para o nível Universidade e para o nível Escola e universidade e no caso da componente cognitiva para os mesmos níveis e ainda para o nível Escola e/ou universidade e formação contínua as distribuições são assimétricas negativas, enquanto as restantes podem ser consideradas quase simétricas. No que diz respeito às componentes antropológicas no caso das componentes social e educativa para o nível Universidade e para o nível Escola e universidade e no caso da componente instrumental no nível Sozinho, o nível Escola e universidade e o nível Escola e/ou universidade e formação contínua as distribuições são assimétricas negativas, enquanto as restantes podem ser consideradas quase simétricas. Quanto ao achatamento, verifica-se para as componentes pedagógicas que as curvas se podem considerar leptocúrticas na componente afetiva para o nível Nenhuma e o nível Escola e universidade, e na componente cognitiva no nível Escola e universidade, bem como, para as componentes antropológicas, na componente social para o nível Escola e universidade, na componente educativa para o nível Nenhuma e para a componente instrumental para o nível Nenhuma, o nível Sozinho e para o nível Escola. Para os restantes casos as curvas podem-se considerar mesocúrticas. 343 Análise de dados Tabela 4.30: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes pedagógicas das atitudes por nível de estudo de Estatística Formação Nível de estudo da Estatística Nenhuma Sozinho Escola Universidade contínua ou outra Componentes Erro Erro Erro Erro Erro Medidas estatísticas Valor Valor Valor Valor Valor Pedagógicas Padrão Padrão Padrão Padrão Padrão Média 32,361 0,275 33,905 0,519 35,126 0,463 37,101 0,314 35,702 0,475 31,819 32,872 34,207 36,483 34,762 Intervalo de Confiança Limite inferior para a Média (95%) Limite superior 32,903 34,937 36,045 37,719 36,643 Componente Mediana 32 34 35 38 36 Afetiva Desvio Padrão 4,700 4,758 4,702 5,590 5,223 Simetria 0,276 0,143 -0,025 0,263 -0,223 0,238 -0,323 0,137 0,195 0,220 Achatamento 0,834 0,285 0,249 0,520 -0,216 0,472 -0,146 0,273 0,402 0,437 Média Intervalo de Confiança para a Média (95%) Componente Cognitiva Limite inferior Limite superior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de Confiança para a Média (95%) Componente Comportamental Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Limite inferior Limite superior Escola e/ou universidade e Form. contínua Erro Erro Valor Padrão Padrão 0,497 37,987 0,578 36,836 39,138 39 5,037 0,241 -0,369 0,276 0,478 -0,390 0,545 Escola e universidade Valor 39,090 38,104 40,076 40 4,967 -0,800 1,457 27,237 26,798 27,676 27 3,808 -0,141 -0,345 0,223 28,798 28,045 29,551 29 3,470 0,143 0,011 0,285 -0,188 0,379 29,087 28,328 29,846 29 3,883 0,263 -0,341 0,520 -0,318 0,383 30,110 29,669 30,552 31 3,995 0,238 -0,555 0,472 0,267 0,224 29,421 28,729 30,114 30 3,849 0,137 -0,313 0,273 0,515 0,350 32,150 31,536 32,764 33 3,096 0,220 -0,512 0,437 1,208 0,310 21,460 21,117 21,804 21 2,975 -0,026 0,500 0,174 22,560 21,850 23,269 23 3,269 0,143 -0,294 0,285 -0,026 0,357 22,883 22,205 23,562 23 3,473 0,263 0,057 0,520 -0,046 0,342 24,032 23,612 24,451 24 3,793 0,238 -0,142 0,472 -0,443 0,213 23,008 22,385 23,632 23 3,465 0,137 0,118 0,273 0,588 0,315 25,950 25,315 26,585 26 3,198 0,220 -0,443 0,437 0,110 0,320 Fonte: Elaborada pelo autor 344 0,241 0,478 0,241 0,478 30,592 29,705 31,479 31 3,882 -0,980 1,044 0,445 24,789 24,069 25,509 25 3,151 -0,279 -0,280 0,361 0,276 0,545 0,276 0,545 Análise de dados Tabela 4.31: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes antropológicas das atitudes por nível de estudo de Estatística Formação Nível de estudo da Estatística Nenhuma Sozinho Escola Universidade contínua ou outra Componentes Erro Erro Erro Erro Erro Medidas estatísticas Valor Valor Valor Valor Valor Antropológicas Padrão Padrão Padrão Padrão Padrão Média 28,285 0,249 29,833 0,386 29,641 0,391 31,476 0,225 30,496 0,380 27,794 29,066 28,864 31,034 29,744 Intervalo de Confiança Limite inferior para a Média (95%) Limite superior 28,776 30,601 30,417 31,919 31,248 Componente Mediana 28 30 30 32 31 Social Desvio Padrão 4,255 3,536 3,973 4,005 4,178 Simetria -0,017 0,143 0,149 0,263 -0,197 0,238 -0,275 0,137 0,008 0,220 Achatamento 0,088 0,285 -0,295 0,520 0,333 0,472 0,059 0,273 -0,267 0,437 Média Intervalo de Confiança para a Média (95%) Componente Educativa Limite inferior Limite superior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de Confiança para a Média (95%) Componente Instrumental Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Limite inferior Limite superior Escola e/ou universidade e Form. contínua Erro Erro Valor Padrão Padrão 0,352 31,434 0,425 30,587 32,281 32 3,707 0,241 -0,278 0,276 0,478 -0,302 0,545 Escola e universidade Valor 32,920 32,222 33,618 33 3,515 -0,600 1,997 28,890 28,446 29,334 29 3,847 0,032 0,939 0,226 30,405 29,502 31,307 30 4,160 0,143 -0,138 0,285 0,442 0,454 31,583 30,633 32,532 32 4,858 0,263 -0,221 0,520 -0,566 0,479 33,082 32,498 33,666 33 5,287 0,238 -0,395 0,472 -0,015 0,297 31,760 30,865 32,656 32 4,975 0,137 -0,318 0,273 0,587 0,452 36,120 35,285 36,955 37 4,207 0,220 -0,714 0,437 0,691 0,421 34,382 33,294 35,469 35 4,758 0,241 -0,458 0,478 -0,167 0,546 23,883 23,425 24,342 24,0 3,973 -0,144 0,982 0,233 25,024 24,207 25,841 25,0 3,764 0,143 -0,847 0,285 2,035 0,411 25,874 25,146 26,602 26,0 3,725 0,263 -0,878 0,520 1,003 0,367 26,685 26,179 27,190 27,0 4,572 0,238 -0,101 0,472 0,194 0,257 25,876 25,146 26,606 26,0 4,055 0,137 -0,034 0,273 0,151 0,369 28,150 27,321 28,979 28,5 4,176 0,220 -0,655 0,437 0,572 0,418 27,553 26,590 28,515 28,0 4,212 0,241 -0,823 0,478 0,609 0,483 Fonte: Elaborada pelo autor 345 0,276 0,545 0,276 0,545 Análise de dados Da aplicação do teste de Kruskal-Wallis considera-se a rejeição da igualdade de medianas da pontuação por nível de estudo da Estatística para todas as componentes. Ou seja, em cada uma das componentes as medianas para os vários níveis de estudo em Estatística diferem significativamente em termos estatísticos, podendo-se considerar que não provêm todas de populações com medianas iguais. As atitudes vão tendencialmente sendo mais positivas à medida que o nível de estudo de Estatística aumenta, verificando-se este fenómeno em todas as componentes, em maior ou menor grau e com ou sem pequenas flutuações pontuais em sentido inverso. Nos testes de Mann-Whitney (Tabela 5.B e Tabela 5.C do Anexo XX) constata-se que nas várias componentes a pontuação mediana obtida apresenta diferenças estatisticamente significativas entre os níveis de estudo de Estatística dos professores semelhantes à existente na pontuação total. Para reforçar a ideia referida da pontuação ir tendencialmente aumentando com o incremento do nível de estudo de Estatística apresenta-se o Gráfico 4.23. Esse aspeto fica patente através da representação dos valores das médias da pontuação em cada nível de estudo divididas pelos respetivos valores do ponto de indiferença para cada componente das atitudes. Esta divisão foi realizada no sentido de tornar os valores mais comparáveis, uma vez que as componentes têm números de itens associados que não são sempre coincidentes uns com os outros. Na tendência referida realça-se que a formação contínua de professores, pós formação inicial e geralmente não de muito longa duração, é importante mas não supera os resultados de estudar Estatística na universidade em nenhuma das componentes. Parece claro que a combinação de estudar Estatística na escola e na universidade é a que conduziu a resultados mais positivos em todas as componentes, mesmo melhores que combinações que envolvam a aprendizagem da Estatística na escola e formação contínua ou na universidade e formação contínua (embora este grupo de 77 professores inclua também 14 professores que estudaram Estatística na escola, na universidade e na formação contínua). Um resultado a destacar é que a única média inferior ao ponto de indiferença é no nível de nenhuma aprendizagem de Estatística na componente instrumental. Talvez essa ausência de aprendizagem da Estatística dificulte a atribuição de utilidade da mesma a outras matérias como forma de raciocínio e como componente cultural, e diminua a possibilidade de desenvolver atitudes positivas em relação à Estatística. 346 Análise de dados Gráfico 4.23: Rácio da média da pontuação pelo valor de indiferença para as várias componentes segundo o nível de estudo de Estatística Fonte: Elaborado pelo autor Relativamente à variável Lecionação de Estatística (V9) apresentam-se na Tabela 4.32 e na Tabela 4.33 as medidas descritivas segundo as componentes pedagógicas e componentes antropológicas, respetivamente. Nas tabelas observa-se que para todas as componentes a média da pontuação tendencialmente aumenta à medida que aumenta a lecionação de Estatística. A dispersão não é muito acentuada, mas apresenta oscilações entre os vários níveis de lecionação de Estatística. Em termos da dispersão relativa a diferença entre o coeficiente de variação máximo e o mínimo é máxima, 0,046, na componente instrumental e é mínima, 0,002, na componente comportamental. Os valores dos coeficientes de variação máximos nas várias componentes estão compreendidos entre 0,144 e 0,182, enquanto os mínimos variam entre 0,106 e 0,146. Os intervalos de confiança a 95% para as médias da pontuação em cada uma das componentes refletem também os resultados referidos para as médias e em cada uma das componentes os intervalos de confiança para os vários níveis de lecionação da Estatística não se intersetam entre eles. 347 Análise de dados Tabela 4.32: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes pedagógicas das atitudes segundo a lecionação de Estatística Sim, em mais de Lecionação de Estatística Não Sim, num ciclo um ciclo Componentes Erro Erro Erro Medidas estatísticas Valor Valor Valor Pedagógicas Padrão Padrão Padrão 32,149 0,283 36,403 0,199 39,029 0,468 Média 31,592 36,011 38,104 Intervalo de Confiança Limite inferior para a Média (95%) 32,705 36,794 39,954 Limite superior Componente 32 36 40 Mediana Afetiva 5,026 4,984 5,493 Desvio Padrão 0,381 0,137 -0,061 0,098 -0,735 0,206 Simetria 0,929 0,273 -0,182 0,195 0,552 0,410 Achatamento Média Intervalo de Confiança para a Média (95%) Componente Cognitiva Limite inferior Limite superior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de Confiança para a Média (95%) Componente Comportamental Limite inferior Limite superior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento 26,820 26,392 27,247 27 3,865 0,049 0,075 0,217 29,965 29,675 30,254 31 3,687 0,137 -0,396 0,273 0,114 0,147 31,855 31,285 32,425 32 3,389 0,098 -1,264 0,195 3,276 0,288 21,326 20,975 21,676 21 3,167 0,156 0,432 0,178 23,744 23,472 24,017 24 3,475 0,137 -0,044 0,273 -0,120 0,139 25,138 24,510 25,766 26 3,730 0,098 -0,521 0,195 -0,169 0,318 Fonte: Elaborada pelo autor Em termos de assimetria verifica-se para as componentes pedagógicas (Tabela 4.32) que no caso da lecionação em mais de um ciclo para todas as componentes e no caso da lecionação num ciclo na componente cognitiva as distribuições são assimétricas negativas. No caso da não lecionação de Estatística na componente afetiva a distribuição é simétrica positiva, sendo nos restantes casos distribuições quase simétricas. No que diz respeito às componentes antropológicas (Tabela 4.33), no caso da lecionação em mais de um ciclo em todas as componentes e no caso da lecionação num ciclo na componente instrumental as distribuições são assimétricas negativas. Em todos os outros casos as distribuições são consideradas quase simétricas. Quanto ao achatamento, para a não lecionação de Estatística na componente afetiva e para a lecionação em mais de um ciclo na componente comportamental (componentes pedagógicas – Tabela 4.32), bem como para a não lecionação e para a lecionação em mais de um ciclo na componente educativa e para a não lecionação e 348 0,206 0,410 0,206 0,410 Análise de dados para a lecionação num ciclo na componente instrumental (componentes antropológicas – Tabela 4.33) as curvas podem ser consideradas leptocúrticas, enquanto as restantes se podem considerar mesocúrticas. Tabela 4.33: Resumo estatístico para a pontuação nas componentes antropológicas das atitudes segundo a lecionação de Estatística Sim, em mais de Lecionação de Estatística Não Sim, num ciclo um ciclo Componentes Erro Erro Erro Medidas estatísticas Valor Valor Valor Antropológicas Padrão Padrão Padrão 28,177 0,233 30,987 0,157 32,297 0,343 Média 27,719 30,678 31,618 Intervalo de Confiança Limite inferior para a Média (95%) 28,636 31,296 32,976 Limite superior Componente 28 31 33 Mediana Social 4,142 3,937 4,033 Desvio Padrão -0,077 0,137 -0,175 0,098 -0,465 0,206 Simetria 0,217 0,273 -0,118 0,195 0,468 0,410 Achatamento Média Intervalo de Confiança para a Média (95%) Componente Educativa Limite inferior Limite superior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento Média Intervalo de Confiança para a Média (95%) Componente Instrumental Limite inferior Limite superior Mediana Desvio Padrão Simetria Achatamento 28,339 27,873 28,805 28 4,211 0,090 0,879 23,778 23,300 24,257 24 4,319 0,111 0,785 0,237 32,744 32,385 33,104 33 4,576 0,137 -0,130 0,273 -0,126 0,243 26,380 26,055 26,706 27 4,145 0,137 -0,216 0,273 0,631 0,183 35,659 34,787 36,532 37 5,182 0,098 -1,059 0,195 1,296 0,441 0,166 28,065 27,423 28,708 28 3,817 0,098 -0,512 0,195 0,294 Fonte: Elaborada pelo autor Da aplicação do teste de Kruskal-Wallis considerou-se a rejeição da igualdade de medianas da pontuação por nível de lecionação de Estatística para cada componente (Tabela 6.A do ponto 6 do Anexo XX). Ou seja, em cada uma das componentes as medianas para os vários níveis de lecionação de Estatística diferem significativamente em termos estatísticos, considerando-se que não provêm todas de populações com medianas iguais. As atitudes vão tendencialmente sendo mais positivas à medida que o número de ciclo de lecionação de Estatística aumenta, verificando-se este fenómeno em todas as componentes, em maior ou menor grau. 349 0,206 0,410 0,325 0,206 0,410 Análise de dados Nos testes de Mann-Whitney (Tabela 6.B do Anexo XX) constata-se que nas várias componentes a pontuação mediana apresenta diferenças estatisticamente significativas entre todos os níveis de lecionação de Estatística dos professores, como aconteceu para a pontuação total. Para reforçar a ideia referida da tendência para a pontuação ir tendencialmente aumentando com o aumento do número de ciclos de lecionação de Estatística, verificada para os valores da mediana da pontuação, apresenta-se o Gráfico 4.24. Esse aspeto fica patente através da representação dos valores das médias da pontuação em cada nível de lecionação de Estatística divididas pelos respetivos valores do ponto de indiferença para cada componente das atitudes. Esta divisão foi realizada no sentido de tornar os valores mais comparáveis, uma vez que as componentes têm números de itens associados que não são sempre coincidentes uns com os outros. A tendência referida é verificada para todas as componentes e segue a tendência verificada para o caso da pontuação total. No entanto, salienta-se que a única média inferior ao ponto de indiferença é a correspondente à não lecionação de Estatística na componente instrumental. A ausência de lecionação de Estatística dificulta a atribuição de utilidade da mesma a outras matérias como forma de raciocínio e como componente cultural, bem como a tendência para decidir em termos de ação em relação à Estatística de uma forma concreta e determinada, diminuindo a possibilidade de desenvolver atitudes positivas em relação à Estatística. Gráfico 4.24: Rácios da média da pontuação pelo valor de indiferença para as várias componentes segundo a lecionação de Estatística Fonte: Elaborado pelo autor 350 Análise de dados 4.3.3. Influência sobre os itens da escala de atitudes Na sequência da análise realizada em 4.3.1 e 4.3.2 e para a complementar, far-se-á o estudo da influência das variáveis sobre os itens da escala. Iniciando esse estudo pela variável Ciclo de ensino (V5) e recordando que foram encontradas diferenças significativas entre os dois ciclos de ensino em estudo tanto para a pontuação total média como para as várias componentes, constatou-se que apenas no item 1 e no item 8 não foram encontradas diferenças significativas, pois apresentaram valores de prova p > 0,05 (Tabela 1 do Anexo XXI). Considera-se que para as diferenças de médias para os dois ciclos (Tabela 1 e Tabela 2 do Anexo XXI) no item1 - Incomoda-me a informação estatística transmitida em alguns programas da TV, os professores de ambos os ciclos encaram de forma semelhante o uso que se faz da Estatística nos meios de comunicação. Pelos valores das médias, 2,94 e 3,01, respetivamente no 1º CEB e no 2º CEB, mostram que não estando muito incomodados com esse uso também não estão muito confiantes com ele. Dado ser esta uma das questões a que foram solicitadas as justificações para a pontuação atribuída, pelo que estas serão exploradas com mais detalhe no ponto seguinte. No mesmo sentido, as diferenças das médias para os dois ciclos (Tabela 1 e Tabela 2 do Anexo XXI) no item 8 - É frequente explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não entenderam, considera-se que nem os professores do 1º CEB, nem os professores de Matemática do 2º CEB parecem ter o hábito de partilhar dúvidas e/ou dificuldades na resolução de problemas de Estatística, apresentando médias de 2,51 e 2,59, respetivamente. Nesta questão também foram pedidas as justificações para a pontuação atribuída, pelo que estas serão exploradas com mais detalhe no ponto seguinte. Em relação aos restantes itens, para os quais foram encontradas diferenças estatisticamente significativas (Tabela 1 do Anexo XXI), em todos eles, exceto no item 2, as atitudes são mais positivas no caso dos professores de Matemática do 2º CEB, apresentando médias superiores às dos professores do 1º CEB, estando em consonância com os resultados obtidos para a pontuação total e para as componentes. As diferenças das médias, em valor absoluto, variam entre 0,276 e 0,755. O item 2 - Através da estatística pode-se manipular a realidade, que apresenta diferenças estatisticamente significativas entre os professores dos dois ciclos com p=0,023 < 0,05, é o único em que a média dos professores do 1º CEB, 2,02, é superior à média dos professores de Matemática do 2º CEB, 1,87. Deste modo, embora em 351 Análise de dados ambos os grupos haja uma concordância com a frase, que está formulada no sentido negativo, os professores de Matemática do 2º CEB são os que mais admitem a manipulação da realidade através da Estatística. Também para este item foram solicitadas as justificações para a pontuação atribuída, pelo que os aspetos desta manipulação serão explorados com mais detalhe no ponto seguinte. Em termos da variável Género (V2), em relação à qual não se detetaram diferenças significativas entre os géneros, nem na pontuação total, nem nas componentes, com as exceções das componentes afetiva e social, constataram-se diferenças significativas entre os géneros nos itens 2, 4, 10, 17, 19, 20 e 25. Nestes itens os valores de prova p < 0,05, (todos os resultados na Tabela 1 do Anexo XXII). Estes itens apresentam médias superiores para o género masculino, exceto no item 2, e médias inferiores ao valor de indiferença 3 nos itens 2 e 4, sendo os valores das médias nos outros itens superiores a 3,55, como se comprova no Gráfico 4.25 (todos os itens na tabela 2 do Anexo XXII). No item 2 – Através da estatística pode-se manipular a realidade há diferenças estatisticamente significativas entre os valores dos professores dos dois géneros, sendo os professores os que consideram haver maior manipulação da realidade através da Estatística (médias 1,76 e 2,05 para os homens e as mulheres, respetivamente), embora em ambos os géneros haja uma concordância com a frase, que está formulada no sentido negativo pelo que a pontuação foi invertida e a média deve ser lida, neste caso, como quanto menor for o seu valor maior é a concordância dos professores com a afirmação do item. No item 4 – Utilizo pouco a estatística fora da escola, que também está escrito no sentido negativo, as diferenças estatisticamente significativas entre os valores dos professores dos dois géneros mostram que são os homens os que mais utilizam a Estatística fora da escola (médias 2,94 e 2,75 para os homens e as mulheres, respetivamente), apesar de tanto professoras como professores indicarem não o fazerem regularmente. Para o item 10 – A estatística ajuda a entender o mundo de hoje, ainda que em ambos os géneros haja um entendimento positivo do papel da Estatística na compreensão do mundo atual, há diferenças significativas entre os valores destes dois grupos de professores e os homens apresentam esse entendimento de forma mais positiva (médias 3,65 e 3,56 para os homens e as mulheres, respetivamente). Em termos do item 17 – Sinto-me intimidado(a) perante dados estatísticos, que está formulado no sentido negativo, e dadas as diferenças estatisticamente significativas entre os 352 Análise de dados valores dos professores dos dois géneros, constata-se que os homens se sentem ainda menos intimidados que as mulheres face a dados estatísticos (médias 3,84 e 3,68 para homens e mulheres, respetivamente). Tanto as professoras como os professores não apresentam níveis elevados de intimidação perante dados estatísticos. Este item também apresentou diferenças no estudo de Estrada (2002) e igualmente com média inferior no caso das professoras (médias 4,09 e 3,66 para homens e mulheres, respetivamente). No item 19 – Gosto dos trabalhos sérios onde aparecem estudos estatísticos, as diferenças estatisticamente significativas entre os valores dos professores dos dois géneros mostram que são os homens os que indicam apreciar mais os estudos estatísticos (médias 3,88 e 3,66 para os homens e as mulheres, respetivamente), apesar de tanto professoras como professores mostrarem ter algum gosto por trabalhos em que se aplique de forma séria a Estatística. Também este item apresentou diferenças na investigação de Estrada (2002), mas neste caso com média superior nas mulheres (médias 3,32 e 3,87 para homens e mulheres, respetivamente). Em relação ao item 20 – Quando eu tive aulas de estatística entendia pouco do que se dizia, e ainda que em ambos os géneros haja a manifestação de que quando aprenderam Estatística os agora professores entendiam algo do que era ensinado, há diferenças significativas entre os valores destes dois grupos de professores, sendo os homens os que manifestam ter percebido mais o que se dizia nas aulas de Estatística (médias 3,81 e 3,60 para os homens e as mulheres, respetivamente). Em termos do item 25 – Evito as informações estatísticas quando as leio, que está formulado no sentido negativo, e dadas as diferenças estatisticamente significativas entre os valores dos professores dos dois géneros, conclui-se que os homens se sentem ainda mais à vontade com as informações estatísticas do que as mulheres (médias 3,86 e 3,66 para os homens e as mulheres, respetivamente). Assim, genericamente, nem professoras, nem professores parecem evitar as informações estatísticas que lhes surgem nas leituras que fazem. Este resultado está em sintonia com o obtido nos itens 17 e 19, que são os três itens pertencentes à componente afetiva. 353 Média da pontuação no item Análise de dados 4,50 4,30 4,10 3,90 3,70 3,50 3,30 3,10 2,90 2,70 2,50 2,30 2,10 1,90 1,70 Item 2 Item 4 Item 10 Item 17 Item 19 Item 20 Item 25 Masculino Feminino Género Gráfico 4.25: Médias das pontuações nos itens com diferenças significativas por género Fonte: Elaborado pelo autor Em termos da variável Anos de tempo de serviço no ensino básico (V4), que apresentou diferenças significativas entre os períodos de tempo de serviço definidos tanto na pontuação total como nas componentes, constatou-se que foram encontradas diferenças significativas entre as medianas dos períodos de tempo de serviço nos itens 3, 8, 9, 10, 12, 13, 14, 15, 17, 20, 21, 23 com os valores de prova p < 0,05, (todos resultados na Tabela 1 do Anexo XXIII). Da aplicação do teste de Mann-Whitney constatou-se que as diferenças significativas são quase todas entre as medianas dos grupos de professores com menos de 20 anos de serviço e os grupos de professores que têm 20 ou mais anos de serviço (Tabela 2 do Anexo XXIII). Da análise dos casos dessas diferenças retira-se que, em geral, as pontuações medianas dos grupos de professores com menos anos de serviço são superiores às dos grupos de professores com mais anos de serviço. No sentido de reforçar esta ideia, menciona-se que para estes 12 itens se obtiveram, regra geral, médias superiores para os períodos de menor tempo de serviço, entre 0 e 10 anos e médias inferiores para os períodos de maior tempo de serviço, mais de 20 anos, tal como se verificou para a pontuação total e para as componentes. Além disso, com médias inferiores ao valor de indiferença 3 só surgiu o item 8, sendo os valores das médias nos outros itens superiores a 3 (Gráfico 4.26 e, para estes e para os outros itens, consultar tabela 3 do Anexo XXIII). 354 Análise de dados Gráfico 4.26: Médias das pontuações nos itens com diferenças significativas por anos de tempo de serviço no ensino básico Fonte: Elaborado pelo autor Para especificar cada um dos itens que apresentam essas diferenças entre os períodos de tempo de serviço no ensino básico, cada um destes itens será analisado de seguida (Tabela 2 e Tabela 3 do Anexo XXIII, no Gráfico 4.26). No item 3 – Divirto-me nas aulas em que se explica estatística – há diferenças estatisticamente significativas entre os valores dos professores com diferentes tempos de serviço, entre os dos professores com menos de 20 anos de experiência letiva, com exceção dos do grupo entre 10 e 15 anos de experiência letiva, e dos professores com 20 ou mais anos de experiência letiva (Tabela 2 do Anexo XXIII), sendo os dos professores com menos experiência de ensino aqueles que mais se divertem nas aulas em que se leciona Estatística e os professores com mais experiência letiva os que menos se divertem nessas aulas. Neste item também existem diferenças entre os valores dos professores com menos de 10 anos de experiência letiva e os dos professores com 10 a 15 anos de experiência. Verifica-se que as médias para menos de 10 anos de serviço são 3,67 e 3,62 e para os com 20 ou mais anos de serviço 3,18 e 3,20 (Tabela 3 do Anexo XXIII). No entanto, para os seis períodos analisados há uma indicação de que os valores dos professores em geral são capazes de encarar o ensino e a aprendizagem da Estatística com algum divertimento. Para este item também foram solicitadas as justificações para a pontuação atribuída, pelo que os aspetos deste divertimento serão explorados no ponto seguinte. 355 Análise de dados No item 8 – É frequente explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não entenderam – as diferenças estatisticamente significativas entre os valores dos professores com diferentes tempos de serviço surgem entre o grupo de professores com experiência letiva entre os 5 e 10 anos e os grupos de professores com 15 anos ou mais de experiência (Tabela 2 do Anexo XXIII), sendo as atitudes mais positivas nos primeiros. Os professores com experiência entre 5 e 10 anos são os que apresentam uma média menos baixa, 2,79, e são os que mais interagem com os colegas para explicar problemas de Estatística, e os que menos realizam essa interação são os professores com experiência entre os 20 e 30 anos que são os que apresentam a média mais baixa 2,43 (Tabela 3 do Anexo XXIII). Os restantes grupos de professores apresentam médias próximas. Este parece ser um dos aspetos mais críticos dos que estão ligados, em simultâneo, à envolvente educativa e associados às ações em relação à Estatística por parte dos professores. Nesse sentido, a promoção do trabalho colaborativo entre professores do mesmo ciclo ou de ciclos diferentes, talvez induza atitudes mais positivas em relação à Estatística. Além disso, este item foi selecionado para as justificações e a sua análise será realizada no ponto seguinte. O item 9 – Se pudesse eliminar alguma matéria seria a estatística – está apresentado no sentido negativo pelo que a pontuação foi invertida e a média deve ser lida, neste caso, como quanto maior for o seu valor menor é a concordância dos professores com a afirmação do item. Para este item constata-se que há diferenças estatisticamente significativas entre os valores dos professores com diferentes tempos de serviço, nomeadamente entre os professores com menos de 15 anos de experiência letiva e os professores com 20 ou mais anos de experiência letiva (Tabela 2 do Anexo XXIII), sendo as atitudes mais positivas nos primeiros. De forma complementar, os professores com menos de 10 anos de experiência de ensino são os que estão mais em desacordo com a afirmação do item, com médias 4,37 e 4,27. Os professores com 20 ou mais anos de experiência letiva são os que estão menos em desacordo, com médias 4,06 e 4,04 (Tabela 3 do Anexo XXIII). Para os seis períodos analisados há uma posição que, em geral, é de firme defesa da manutenção da Estatística no currículo. No estudo de Estrada (2002) também se encontraram diferenças neste item, verificou-se que a eliminação da Estatística no currículo era menos acentuada à medida que aumentava o tempo de docência da Matemática. No item 10 – A estatística ajuda a entender o mundo de hoje, e ainda que para todos os períodos de tempo de serviço considerados os professores demonstrem, em termos gerais, um razoável entendimento do papel da Estatística na compreensão do mundo atual, há 356 Análise de dados diferenças significativas entre os valores destes grupos de professores. Essas diferenças são verificadas entre os valores dos professores com tempo de serviço entre os 5 e os 10 anos e os dos professores com tempo de serviço entre os 20 e os 30 anos, bem como entre os dos vários grupos de professores com menos de 20 anos de serviço e os dos professores com 30 ou mais anos de serviço (Tabela 2 do Anexo XXIII), sendo as atitudes mais positivas nos primeiros. Além disso, verifica-se que os que estão há menos tempo a lecionar são aqueles que apresentam esse entendimento do papel da Estatística na compreensão do mundo atual de forma mais acentuada e positiva, com médias 3,68 e 3,73 para menos de 5 anos e entre 5 e 10 anos, respetivamente. Já os que estão há mais tempo a lecionar são os que indicam ter aquele entendimento menos acentuado, com médias 3,55 e 3,49 para experiência entre 20 e 30 anos e 30 ou mais anos, respetivamente (Tabela 3 do Anexo XXIII). Em termos do item 12 – Uso a estatística para resolver problemas do dia-a-dia – verifica-se que há diferenças estatisticamente significativas entre os valores dos professores com diferentes tempos de serviço, nomeadamente entre os dos professores com tempo de serviço entre os 5 e os 10 anos e os dos professores com tempo de serviço entre os 20 e os 30 anos, bem como entre os dos vários grupos de professores com menos de 20 anos de serviço e os dos professores com 30 ou mais anos de serviço (Tabela 2 do Anexo XXIII), sendo as atitudes mais positivas nos primeiros. Atesta-se ainda que os professores com menos de 10 anos de experiência de ensino (com médias 3,56 e 3,57, respetivamente) são os que mais usam a Estatística no seu quotidiano e os professores com 20 ou mais anos de experiência letiva os que menos a utilizam nesse âmbito (com médias 3,32 e 3,13, respetivamente, Tabela 3 do Anexo XXIII). Para os seis períodos analisados há uma indicação de que os professores, regra geral, fazem algum uso da Estatística na resolução de problemas no seu dia-a-dia. Este item também apresentou diferenças no estudo de Estrada (2002), embora nessa investigação o uso da Estatística aumentava com o aumento do tempo de docência da Matemática. No item 13 – Na escola não se deveria ensinar estatística, que está escrito no sentido negativo, as diferenças estatisticamente significativas surgem apenas entre os valores dos professores com experiência letiva entre 5 e 10 anos e os dos grupos de professores com 20 ou mais anos de experiência, bem como entre os dos professores com experiência letiva entre os 10 e 15 anos e os dos professores com 30 ou mais anos de experiência (Tabela 2 do Anexo XXIII), sendo as atitudes mais positivas nos primeiros. Os valores das médias mostram também que são os professores com menos de 15 anos de experiência letiva os que mais defendem o ensino da Estatística na escola (médias 4,32, 4,44 e 4,39, respetivamente) e os 357 Análise de dados que o defendem com ligeiramente menor intensidade são os professores com mais de 30 anos de experiência (média 4,07, Tabela 3 do Anexo XXIII). Estes resultados são consistentes com os do item 9. Destaca-se que este item é o item em que são apresentadas médias com valores mais elevados, mostrando um desacordo com a afirmação do item em todos os períodos de tempo de serviço. Também este item apresentou diferenças no estudo de Estrada (2002), e nessa investigação, como no presente estudo, verificou-se que a defesa da inclusão da Estatística no currículo diminuía com o aumento do tempo de docência da Matemática. Em termos do item 14 – Para mim os problemas de estatística são fáceis – há diferenças estatisticamente significativas entre os valores dos professores com tempo de serviço menor que 5 anos e os dos grupos de professores com mais de 20 anos de tempos de serviço, bem como entre os dos professores com tempo de serviço entre 10 e 15 anos e os dos grupos de professores com mais de 20 anos de tempos de serviço (Tabela 2 do Anexo XXIII), sendo as atitudes mais positivas nos primeiros grupos. Em termos das médias, os professores com menos experiência de ensino são os que indicam ter mais facilidade em resolver problemas de estatística e os professores com mais experiência letiva os que sentem menos facilidade em fazê-lo (médias 3,54 para menos de 5 anos de serviço e 3,20 e 3,19 para 20 ou mais anos de serviço, Tabela 3 do Anexo XXIII). Em termos gerais, para os seis períodos analisados há uma posição que não revela, nem grande dificuldade, nem grande facilidade face aos problemas de Estatística. Este facto poderá ser melhorado com mais formação, em especial para os professores com mais anos de serviço, e, dessa forma, melhorar a atitude dos professores em relação à Estatística. No item 15 – Não entendo as informações estatísticas que aparecem na imprensa escrita, que está formulado no sentido negativo, e ainda que para todos os períodos de tempo de serviço considerados os professores mostrem, em termos gerais, um razoável entendimento das informações estatísticas da imprensa, há diferenças significativas entre os valores destes grupos de professores, nomeadamente entre os professores com tempo de serviço entre 10 e 15 anos e os grupos de professores com mais de 20 anos de tempos de serviço (Tabela 2 do Anexo XXIII), sendo as atitudes mais positivas no primeiro grupo. Da análise dos valores das médias, os professores que estão há mais tempo a lecionar são aqueles que apresentam esse entendimento de forma menos acentuada (médias 3,95, 3,93, 3,99 e 3,90 para menos de 20 anos e médias 3,76 e 3,71 para experiência de 20 ou mais anos, respetivamente, Tabela 3 do Anexo XXIII). Julga-se que uma maior utilização nas aulas de Estatística de exemplos dos 358 Análise de dados meios de comunicação (jornais, revistas, TV, etc.), poderá potenciar atitudes mais positivas, tanto nos professores, como nos jovens alunos. No item 17 – Sinto-me intimidado(a) perante dados estatísticos, que está formulado no sentido negativo, as diferenças estatisticamente significativas surgem apenas entre os valores dos professores com tempo de serviço entre 5 e 10 anos e os dos professores com 30 ou mais anos de tempo de serviço, bem como entre os dos professores com tempo de serviço entre os dos 10 e 15 anos e os dos grupos de professores com 20 ou mais anos de tempo de serviço (Tabela 2 do Anexo XXIII). As atitudes são mais positivas nos primeiros grupos. Da observação das médias, os professores com mais tempo de serviço são os que apresentam médias mais baixas, talvez mais intimidados perante dados estatísticos (médias 3,82, 3,85, 3,94 e 3,81 para menos de 20 anos e médias 3,66 e 3,58 para 20 ou mais anos, respetivamente, Tabela 3 do Anexo XXIII). Perante estes valores os professores não apresentam níveis elevados de intimidação diante de dados estatísticos em nenhum dos períodos de tempo de serviço definidos. No item 20 – Quando eu tive aulas de estatística entendia pouco do que se dizia, que está formulado no sentido negativo, e ainda que nos vários períodos de tempo de serviço considerados haja a manifestação de que quando aprenderam Estatística estes professores entendiam algo do que era ensinado, há diferenças significativas entre os valores destes grupos de professores. Em particular, essas diferenças registam-se entre os valores dos vários grupos de professores com menos de 15 anos de tempo de serviço e os dos professores com tempo de serviço entre 20 e 30 anos, mas também entre todos os dos grupos de professores com menos de 30 anos de tempo de serviço e os dos que têm mais de 30 anos de experiência (Tabela 2 do Anexo XXIII). As atitudes são mais positivas nos primeiros grupos. Desta forma, verifica-se que as médias dos professores com menor experiência são as mais elevadas, manifestando ter percebido mais o que se dizia nas aulas de Estatística (médias 4,04, 3,85 e 3,86 para professores com menos de 15 anos de tempo de serviço e 3,59 e 3,41 para os com mais de 20 anos de experiência, respetivamente, Tabela 3 do Anexo XXIII). No item 21 – A estatística é fácil – as diferenças estatisticamente significativas surgem entre os valores dos grupos de professores com experiência letiva inferior a 20 anos e os dos professores com experiência letiva entre os 20 e os 30 anos (Tabela 2 do Anexo XXIII). As atitudes menos positivas são as destes últimos. A análise das médias revela que os professores com menos anos de experiência são os que pontuam a Estatística como mais fácil (médias 3,47, 3,41, 3,38 e 3,32 para menos de 20 anos de experiência letiva, e nos outros períodos 359 Análise de dados para mais de 20 anos de experiência 3,04 e 3,15, respetivamente, Tabela 3 do Anexo XXIII). Apesar dessas diferenças, e de nenhum destes grupos de professores considerar a Estatística difícil pode resumir-se que e os professores que entendiam melhor a Estatística nas aulas (item 20), os que se sentem menos intimidados perante dados estatísticos (item 17), os que melhor entendem as informações estatísticas (item 15) e os que consideram os problemas estatísticos mais fáceis (item 14) são os que, de forma coerente, consideram a Estatística mais fácil. Este item 21 também apresentou diferenças no estudo de Estrada (2002), e nessa investigação o aumento do tempo de docência de Matemática correspondia igualmente a um sentimento de menor facilidade em relação à Estatística, o que aquela investigadora equaciona como sendo consequência de diferenças nos planos curriculares para a aprendizagem da Estatística dos grupos da sua investigação. Em termos do item 23 – Gosto de resolver problemas quando uso estatística – verificam-se diferenças estatisticamente significativas entre os valores dos professores dos diferentes períodos de tempo de serviço, nomeadamente entre os dos grupos de professores com tempo de serviço entre 5 e 15 anos e os dos grupos de professores com 20 ou mais anos de tempo de serviço, bem como entre o do grupo de professores com tempo de serviço entre 15 e 20 anos e os dos professores com 30 ou mais anos de tempo de serviço (Tabela 2 do Anexo XXIII). As atitudes mais positivas são reveladas nos professores com menos tempo de serviço. Da análise dos valores das médias, os professores com menos de 20 anos de experiência são os que apresentam valores que indicam gostar mais de resolver problemas quando usam Estatística (médias 3,70, 3,75, 3,71 e 3,71, respetivamente) e os professores com experiência letiva de 20 anos ou mais são os que apresentam valores que indicam que gostam menos de fazê-lo (médias 3,46 e 3,53, respetivamente, Tabela 3 do Anexo XXIII). Em termos gerais, nenhum destes grupos de professores parece desgostar particularmente de resolver os problemas quando usa Estatística. Dos resultados neste item, e em consonância com o referido no item anterior, a questão da facilidade parece estar de alguma forma associada à questão do gosto pela Estatística, sendo este aspeto afetivo complexo e de intervenção mais difícil para melhorar as atitudes dos professores em relação à Estatística. Em termos da variável Área ou especialidade da formação inicial (V6), que apresentou diferenças significativas entre os valores das áreas na pontuação total, ao nível de significância de 5% e não no de 1%, e nas componentes comportamental e educativa, foram 360 Análise de dados encontradas diferenças significativas entre médias por áreas de formação inicial nos itens 8, 12, 18 e 20. Para estes itens os valores de prova foram inferiores a 0,05 (resultados de todos os itens na Tabela 1 do Anexo XXIV). Dos itens referidos, os itens 8, 12 e 20 estão associados à componente comportamental e os itens 8, 18 e 20 estão ligados à componente educativa, as duas componentes em que foram detetadas diferenças significativas entre as médias segundo as áreas de formação inicial. Além disso, estes itens apresentam médias superiores para os professores com formação na área específica da sua lecionação. Dessas médias só no item 8 é que a média é inferior ao valor de indiferença 3 (Gráfico 4.27 e a Tabela 2 do Anexo XXIV). Em seguida analisar-se-ão cada um dos itens que apresentam diferenças entre as médias para as áreas de formação inicial para percecionar melhor as especificidades de cada um deles (Gráfico 4.27 e Tabela 2 do Anexo XXIV). No item 8 – É frequente explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não entenderam – as diferenças estatisticamente significativas entre os valores dos professores com diferentes áreas de formação inicial, mostram que os professores com formação na área específica da sua lecionação interagem mais com os colegas para explicar problemas de Estatística (média 2,58) do que os professores com formação inicial em outras áreas (média 2,40) mas, em nenhum dos dois grupos parece que essa prática seja habitual (média inferior a 3, indiferença). No item 12 – Uso a estatística para resolver problemas do dia-a-dia – e dadas as diferenças estatisticamente significativas entre os valores dos professores dos dois grupos, constata-se que os professores com formação inicial na área se sentem ligeiramente mais à vontade para usar a Estatística na resolução de problemas do quotidiano do que os professores com formação inicial noutra área (médias 3,39 e 3,23, respetivamente). Nestes dois grupos de professores, tanto uns, como os outros não apresentam níveis elevados do uso da Estatística no seu quotidiano. No item 18 – Acho interessante o mundo da estatística – as diferenças estatisticamente significativas entre os valores dos professores com formação inicial na área específica da sua lecionação e os dos professores com formação inicial em outra área mostram que são os primeiros os que consideram o mundo da Estatística mais interessante (médias 3,72 e 3,60, respetivamente). De forma geral, os valores das médias indicam que em ambos os grupos os professores parecem ter algum interesse pelo universo da Estatística. 361 Análise de dados No item 20 – Quando eu tive aulas de estatística entendia pouco do que se dizia, formulado no sentido negativo, há diferenças significativas entre os valores de cada grupo ainda que, em ambos os grupos, haja a manifestação de que quando aprenderam Estatística entendiam algo do que era ensinado. Neste caso, são os professores com formação inicial na área da sua lecionação os que manifestam ter percebido mais o que se dizia nas aulas de Estatística (médias 3,72 e 3,53, respetivamente para professores com formação inicial na área e professores com formação inicial noutra área). Gráfico 4.27: Médias das pontuações nos itens com diferenças significativas por área de formação inicial Fonte: Elaborado pelo autor Para a variável Nível de estudo da Estatística (V8) recorda-se que foram encontradas diferenças significativas entre os valores das medianas dos vários níveis de estudo da Estatística em análise (nenhum, sozinho, escola, universidade, formação contínua ou outra, escola e universidade, e escola e/ou universidade e formação contínua), tanto para a pontuação total média, como para as várias componentes. Em relação aos itens da escala, tal como no caso da variável V5 - Ciclo de ensino, apenas no item 1 e no item 8 não se verificaram diferenças significativas, pois os valores de prova foram superiores a 0,05 (Tabela 1 do Anexo XXV). Dos resultados do teste de Kruskal-Wallis e das médias para os sete níveis de estudo da Estatística (Tabelas 1 e 2 do Anexo XXV), no Item 1 – Incomoda-me a informação estatística transmitida em alguns programas da TV os professores, independentemente, do 362 Análise de dados nível de estudo da Estatística que apresentam, não encaram de forma diferente o uso da Estatística que se faz nos meios de comunicação. Além disso, os valores das médias (2,91, 2,98, 2,90, 3,01, 3,00, 3,03 e 2,88, respetivamente) indicam que os professores, não estando muito incomodados com esse uso, também não estão confiantes nele. No mesmo sentido, dos resultados do teste de Kruskal-Wallis e das médias para os níveis de estudo da Estatística definidos (Tabelas 1 e 2 do Anexo XXV) no Item 8 – É frequente explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não entenderam, pode considerar-se que, de forma semelhante, em qualquer dos níveis de estudo da Estatística os professores não parecem ter hábitos de partilha de dúvidas e/ou dificuldades ou, ainda, de ser frequente explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não entenderam, apresentando médias de 2,40, 2,49, 2,52, 2,56, 2,61, 2,65 e 2,57, respetivamente. Nos itens em que foram encontradas diferenças estatisticamente significativas, aplicou-se o teste de Mann-Whitney para cada par possível de níveis de estudo da Estatística considerados (Tabela 3 do Anexo XXV). Em todos os itens, exceto no item 2, as atitudes são tendencialmente mais positivas quanto maior for o nível de estudo da Estatística, estando, regra geral, em consonância com os resultados obtidos para a pontuação total e para as componentes. O item 2 - Através da estatística pode-se manipular a realidade, apresenta diferenças estatisticamente significativas entre os valores dos professores que indicaram os níveis de estudo de Estatística Nenhum e Sozinho e os dos professores que indicaram o nível Universidade e o nível Escola e/ou Universidade e Formação contínua, sendo a atitude mais negativa nos dos dois últimos níveis indicados. Este item é o único em que a média dos professores que estudaram Estatística só na Universidade, 1,89, é a mais baixa, mostrando uma grande concordância com a afirmação do item. Também é o único em que à média dos professores que não estudaram Estatística é a mais elevada, 2,10. Ou seja, embora nos vários níveis considerados haja uma concordância com a frase (formulada no sentido negativo) a atitude negativa em consequência da falta de confiança na Estatística pela admissão da manipulação da realidade através da Estatística aumenta, de uma forma geral, com o aumento do nível de estudo da Estatística. Esta situação é contrária à tendência de o aumento do nível de estudos em Estatística corresponder a uma atitude mais positiva nos restantes itens. Para a variável Lecionação de Estatística (V9) foram encontradas diferenças significativas entre os valores dos vários ciclos de lecionação de Estatística em estudo (não lecionar, lecionar num ciclo e lecionar em mais de um ciclo), tanto para a pontuação total 363 Análise de dados média, como para as várias componentes. Como aconteceu nos casos das variáveis V5 - Ciclo de ensino e V8 – Nível de estudo da estatística, apenas no item 1 e no item 8 não foram encontradas diferenças significativas, pois surgiram valores de prova p > 0,05 (Tabela 1 do Anexo XXVI). No item 1 - Incomoda-me a informação estatística transmitida em alguns programas da TV – os professores, independentemente do nível de lecionação de Estatística, não encaram de forma diferente o uso da Estatística que se faz nos meios de comunicação. Os valores das médias (2,91, 3,00 e 2,83, respetivamente, Tabela 2 do Anexo XXVI) mostram que os professores não estando muito incomodados com esse uso também não estão confiantes. No mesmo sentido, no item 8 - É frequente explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não entenderam – pode considerar-se que em qualquer dos níveis de lecionação de Estatística os professores não parecem ter hábitos de partilha de dúvidas e/ou dificuldades ao nível da Estatística, apresentando, respetivamente, médias de 2,45, 2,54 e 2,56 (Tabela 2 do Anexo XXVI). Relativamente aos restantes 23 itens, para os quais foram encontradas diferenças estatisticamente significativas (Tabela 1 do Anexo XXVI), em todos eles, exceto no item 2, as atitudes são tendencialmente mais positivas quanto mais níveis de lecionação de Estatística já se tiver, estando, regra geral, em consonância com os resultados obtidos para a pontuação total e para pontuação total de cada uma das componentes. Além disso, comparando a pontuação total mediana entre cada dois níveis de lecionação considerados em cada um daqueles itens constatou-se que existem diferenças significativas entre os valores de todos os grupos de professores em todos os itens exceto nos itens 2, 4, 17 e 22 (Tabela 3 do Anexo XXVI). Em particular no item 2 – Através da estatística pode-se manipular a realidade, no item 17 – Sinto-me intimidado(a) perante dados estatísticos e no item 22 – Percebo melhor os resultados eleitorais quando aparecem representações gráficas – só o ter lecionado apenas num ciclo e o ter lecionado em mais de um ciclo é que não apresentam diferenças significativas. Já no item 4 – Utilizo pouco a estatística fora da escola – só o não ter lecionado Estatística e o ter lecionado em mais de um ciclo é que apresentam diferenças de valores medianos significativas. De uma forma geral, e da análise dos 23 casos referentes às diferenças significativas encontradas para as respetivas pontuações medianas, retira-se que as dos grupos de professores tendem a aumentar com o aumento dos níveis em que lecionaram Estatística. Realça-se ainda que o item 2 é o único em que a média dos professores que não lecionaram Estatística, 2,12, é mais alta que a dos dois 364 Análise de dados grupos de professores que já a lecionaram, mostrando uma grande concordância com a afirmação do item. Embora nos vários níveis considerados haja uma concordância com a frase (formulada no sentido negativo) a falta de confiança na Estatística pela admissão da manipulação da realidade através da Estatística aumenta com o aumento do número de ciclos em que os professores já ensinaram Estatística, de uma forma geral. Esta situação é contrária à tendência nos restantes itens em que o aumento do número de ciclos em que os professores já ensinaram Estatística corresponde a uma atitude mais positiva, com um aumento dos que ainda não lecionaram para os que já lecionaram. No entanto deve referir-se que, para além de no item 1 (em que não se verificaram diferenças significativas entre os níveis de lecionação) e no item 2 já referidos, esta tendência geral só não é integralmente cumprida no item 21 - A estatística é fácil. Para este item a média dos professores que lecionaram num ciclo (3,96) é superior à média dos professores que lecionaram em mais de um ciclo (3,93), ainda que essa diferença seja muito ligeira. 4.4. Resultados globais das justificações Já foi referido no capítulo anterior que se acrescentou ao estudo uma componente qualitativa. Tal deveu-se ao facto da possibilidade dos professores respondentes poderem justificar, por escrito, as suas razões para a pontuação atribuída em nove dos itens da escala usada para estudar as atitudes dos professores em relação à Estatística. O intuito desta abordagem era o de permitir complementar e ou aprofundar a compreensão e interpretação das informações obtidas por outras técnicas, nomeadamente as quantitativas, ou revelar aspetos novos e diferenciadores do problema, permitindo encontrar evidências que fundamentem afirmações e conclusões da investigação. Para proceder à análise das justificações escritas decidiu-se usar a metodologia da análise de conteúdo, através de uma descrição objetiva, sistemática e quantitativa da informação depois de ordenada e integrada em categorias previamente definidas em função dos objetivos, como foi sistematizado no capítulo anterior. Para além da definição das categorias, que se procurou serem exaustivas, exclusivas, objetivas e pertinentes, neste ponto proceder-se-á também à etapa da quantificação e da interpretação dos resultados. Deste modo, agregando um conjunto de ideias e/ou perspetivas sobre o item em causa, as categorias e as suas explicações, bem como os dados resultantes da codificação feita, serão explicitados nos subpontos seguintes que abrangem um a um os nove 365 Análise de dados itens em análise. Além disso, serão transcritas algumas das justificações que melhor representam a respetiva categoria. O tratamento dos referidos dados será feito numa abordagem descritiva para, dessa forma, ajudar a uma leitura da descrição do conteúdo das justificações e da formalização das relações entre temas detetados. Por fim, proceder-se-á à interpretação dos conteúdos analisados. Mais uma vez, neste processo foi considerada a pontuação atribuída com o valor invertido no caso dos itens expressos na negativa para que possam ser comparáveis. As justificações obtidas dos elementos da amostra foram separadas segundo a pontuação negativa (1 ou 2), pontuação neutra (3) ou pontuação positiva (4 ou 5) a elas associada. A abordagem será também a de fazer uma comparação entre os professores do 1º CEB e os professores de Matemática do 2º CEB, uma vez que são dois grupos em que houve diferenças estatisticamente significativas em relação à pontuação total, em relação a todas as componentes das atitudes e em relação a quase todos os itens da escala. A reforçá-lo está o facto de esta divisão ser institucional e formal que poderá ter interesse especial ao nível de possíveis ações futuras para promover atitudes mais positivas em relação à Estatística por parte dos professores destes dois ciclos do EB em Portugal. Desta forma, passam a constituirse grupos de elementos com semelhanças ao nível de características que se julgam importantes, conseguindo-se uma certa homogeneidade, como pressuposto referido no capítulo anterior. No entanto, antes da análise item a item, apresentam-se de seguida alguns dados gerais para melhor enquadrar e contextualizar estes resultados e esta análise. Foram proporcionadas todas as condições para que os professores pudessem responder ao questionário na sua totalidade, incluindo as justificações escritas. Contudo, a maioria não o fez ao nível das justificações para as pontuações atribuídas nos nove primeiros itens. Verificase na Tabela 4.34 que 58% dos professores não apresentaram justificação em qualquer dos itens, sendo essa percentagem superior no caso dos professores do 1º CEB, 61%, e inferior no caso dos professores de Matemática do 2º CEB, 46%. Estas taxas de não repostas altas eram já esperadas, pois as respostas implicavam uma maior reflexão e exposição pessoal e, consequentemente, também uma maior duração e morosidade no preenchimento do questionário. Esta situação parece ser particularmente verdadeira para muitos professores do 1º CEB por talvez ainda não terem refletido muito sobre estas questões à volta da Estatística e, em geral, se ter verificado terem menor formação em Estatística e menor experiência na sua lecionação. Contudo, e dadas os condicionalismos 366 Análise de dados inerentes referidos, considera-se que estas taxas de resposta podem garantir um certo aprofundamento da compreensão e interpretação de algumas das informações obtidas nos pontos anteriores deste capítulo. Porventura poderão também revelar aspetos novos e diferenciadores do problema em análise, permitindo fundamentar melhor algumas das afirmações e conclusões desta investigação. Tabela 4.34: Distribuição das justificações e não justificações a nível global e por ciclos 1º CEB 2º CEB Global fi fri fi fri fi fri Nenhuma (0) 523 61% 114 46% 637 58% Uma ou mais (> 0) 329 39% 132 54% 461 42% Total 852 100% 246 100% 1098 100% Nº de justificações Fonte: Elaborada pelo autor No entanto, a taxa de resposta referida implica a justificação em pelo menos um item, mas não forçosamente em todos os itens. Considerando apenas esse universo de professores com justificação num item ou mais, constata-se que justificaram todos os itens 28% dos professores e que 54% justificaram em seis ou mais itens (Tabela 4.35). A distribuição do número de justificações de cada professor é semelhante nos dois ciclos do EB, embora com ligeiramente maiores taxas de justificações no caso dos professores de Matemática do 2º CEB. Tabela 4.35: Distribuição do nº de justificações por professor a nível global e por ciclos 1º CEB 2º CEB Global Nº de justificações 1 fi 58 fri 18% Fri 18% fi 13 fri 10% Fri 10% fi 71 fri 15% Fri 15% 2 36 11% 29% 10 8% 17% 46 10% 25% 3 24 7% 36% 13 10% 27% 37 8% 33% 4 19 6% 42% 9 7% 34% 28 6% 39% 5 19 6% 47% 12 9% 43% 31 7% 46% 6 24 7% 55% 14 11% 54% 38 8% 54% 7 21 6% 61% 7 5% 59% 28 6% 61% 8 41 12% 74% 13 10% 69% 54 12% 72% 9 87 26% 100% 41 31% 100% 128 28% 100% 329 100% 132 100% 461 100% Total Fonte: Elaborada pelo autor Para além da distribuição do número de justificações não ser uniforme, também não o é a distribuição de justificações por item. Tanto a nível global como em cada um dos ciclos, o 367 Análise de dados número de justificações por item é mais alto nos primeiros itens (Gráfico 4.28), este depois vai diminuindo até ao item 6 (I6) - A estatística só serve para as pessoas das ciências em que há um aumento de justificações, para depois voltar a descer nos itens seguintes até ao item 9 (I9) – Se pudesse eliminar alguma matéria seria a estatística em que volta a haver um aumento de justificações. A nível global e para os professores do 1º CEB a maior percentagem de justificações ocorre no item 1 (I1) – Incomoda-me a informação estatística transmitida em alguns programas da TV, enquanto esse máximo é atingido para os professores de Matemática do 2º CEB no item 2 (I2) – Através da estatística pode-se manipular a realidade. Neste último grupo de professores no item 6 (I6) a percentagem é superior à do item 1 (I1) e do item 3 (I3) – Divirto-me nas aulas em que se explica estatística, o que não acontece nos professores do 1º CEB nem no grupo global. O item com menor percentagem de justificações nos professores do 1º CEB é o item 5 (I5) – A estatística apaixona-me porque ajuda a ver os problemas objectivamente, enquanto no grupo total e nos professores de Matemática do 2º CEB é o item 8 (I8) - É frequente explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não entenderam. Esta distribuição das justificações poderá ser explicada, de forma geral, pela vontade inicial de justificar como solicitado, mas que após os primeiros itens constatando a eventual morosidade e dificuldade em responder de maneira estruturada foram deixando de justificar, apenas quebrando essa tendência nos itens 6 e 9 dada talvez a sua formulação algo provocativa e que se pensa chocaria os professores, além de também permitir justificações mais objetivas. Contudo, esta explicação geral não é com certeza aplicável a todos os respondentes com justificações. Percentagem de justificações 45% 40% 35% 30% 25% 1º Ciclo 20% 2º Ciclo 15% Global 10% 5% 0% I1 I2 I3 I4 I5 I6 I7 I8 Itens Gráfico 4.28: Distribuição das justificações por item a nível global e por ciclo Fonte: Elaborado pelo autor 368 I9 Análise de dados Em termos das pontuações em cada um dos nove itens considerados, já com a inversão da escala no caso dos itens formulados de forma negativa em relação à atitude face à Estatística, constata-se que a percentagem de pontuações neutras, ou seja 3, é maior nos professores do 1º CEB em todos os itens, com diferenças percentuais que vão dos 2% aos 23% (Tabela 4.36). Para as pontuações negativas, isto é 1 e 2, em todos os itens a percentagem também é maior nos professores do 1º CEB, com diferenças entre os 2% e os 13%. Com a exceção dos itens 1 (I1), 2 (I2) e 8 (I8) em que são os professores de Matemática do 2º CEB que têm maior percentagem, com diferenças de 2%, 6% e 2%, respetivamente. Nas pontuações positivas, ou seja 4 e 5, com diferenças entre os 5% e os 36% a percentagem é maior nos professores de Matemática do 2º CEB em todos os itens, com a exceção do Item 2 (I2) em que os professores do 1º CEB apresentam mais 1%. Tabela 4.36: Média, desvio padrão, número e percentagem de pontuação positiva, neutra e negativa por ciclo em cada item dos 9 itens com possibilidade de justificação 1º CEB 2º CEB Item Média DP 1* 2,94 2* Pontuação Pontuação Pontuação Média DP Positiva Neutra Negativa 0,99 191 (22%) 394 (46%) 267 (31%) 3,01 2,02 0,95 70 (8%) 115 (13%) 667 (78%) 3 3,14 1,05 308 (36%) 369 (43%) 4* 2,71 1,10 218 (26%) 5 3,07 0,99 6* 4,18 7* Pontuação Pontuação Pontuação Positiva Neutra Negativa 1,07 67 (27%) 99 (40%) 80 (33%) 1,87 0,99 18 (7%) 21 (9%) 207 (84%) 175 (21%) 3,84 0,98 177 (72%) 50 (20%) 19 (8%) 238 (28%) 396 (46%) 3,06 1,08 96 (39%) 65 (26%) 85 (35%) 276 (32%) 377 (44%) 199 (23%) 3,48 0,84 127 (52%) 94 (38%) 25 (10%) 0,94 684 (80%) 120 (14%) 48 (6%) 4,68 0,62 238 (97%) 3 (1%) 5 (2%) 4,34 0,98 717 (84%) 79 (9%) 56 (7%) 4,70 0,84 233 (95%) 0 (0%) 13 (5%) 8 2,51 0,98 117 (14%) 360 (42%) 375 (44%) 2,59 1,06 56(23%) 78 (32%) 112 (46%) 9* 3,97 0,99 582 (68%) 221 (26%) 49 (6%) 4,65 0,79 228 (93%) 10 (4%) 8 (3%) * Item formulado no sentido negativo Fonte: Elaborada pelo autor Para além da distribuição do número de justificações e a distribuição de justificações por item não serem uniformes, também não o é a distribuição de justificações por tipo de pontuação. Regra geral, a percentagem de justificações nos três tipos de pontuação em relação ao número total de respondentes com a respetiva pontuação tende a diminuir dos primeiros para os últimos itens, com flutuações pontuais (Gráfico 4.29). Aquelas percentagens de justificações são também maioritariamente superiores para as pontuações positivas, com a exceção do item 1 – Incomoda-me a informação estatística transmitida em alguns programas da TV, do item 5 – A estatística apaixona-me porque ajuda a ver os problemas 369 Análise de dados objectivamente e do item 8 – É frequente explicar aos meus colegas problemas de estatística que eles não entenderam, em que foram inferiores às percentagens das pontuações negativas. As percentagens de justificações são também maioritariamente inferiores para as pontuações neutras, com exceção do item 7 – Estatística não serve para nada, em que a menor Percentagem de justificações percentagem é para as pontuações negativas. 50% 40% 30% Pontuação Negativa 20% Pontuação Neutra Pontuação Positiva 10% 0% Item 1 Item 2 Item 3 Item 4 Item 5 Item 6 Item 7 Item 8 Item 9 Itens Gráfico 4.29: Distribuição das justificações por item segundo o tipo de pontuação Fonte: Elaborado pelo autor Este comportamento (Gráfico 4.29) poderá ser interpretado, por um lado, pela diminuição do ânimo no preenchimento do questionário à medida que os professores iam avançando nos itens. Por outro lado, e de uma forma geral, os professores com pontuação positiva estariam mais confiantes e respaldados por estarem na linha do considerado mais “politicamente correto” e, portanto, mais motivados e dispostos a justificar a pontuação atribuída. Já os professores com uma pontuação negativa poderão ter sentido uma maior inibição em justificar que os das pontuações positivas, mesmo que com o mesmo grau de convicção, talvez precisamente por julgarem estar no lado “politicamente incorreto”. Em termos dos professores com uma pontuação neutra talvez estes tendam a justificar com menor frequência que os outros, dada a característica mais ambígua ou indefinida. Com este enquadramento proceder-se-á nos subpontos seguintes à definição das categorias e à quantificação, análise e interpretação dos resultados sobre as justificações escritas em relação à pontuação atribuída pelos professores nos nove itens considerados. 370 Análise de dados 4.4.1. Análise dos resultados no item 1 No item 1 – Incomoda-me a informação estatística transmitida em alguns programas da TV – 347 professores atribuíram uma pontuação associada a uma atitude negativa, ou seja, isto indica que estes 32% do total da amostra de professores concordam ou concordam totalmente com a afirmação deste item que tem a afirmação formulada no sentido negativo da atitude em relação à Estatística. Destes professores 267 são professores do 1º CEB, 31% do total desse grupo de professores, e 80 são professores de Matemática do 2º CEB, 33% do total desses professores. Contudo, foram 106 professores do 1º CEB, 40% dos 267, e 47 professores de Matemática do 2º CEB, 59% dos 80, os que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item. Neste item houve no global 153 justificações escritas, 44% dos 347 professores com pontuação associada a uma atitude negativa. Da análise às 153 justificações criaram-se 4 categorias que estão apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.37. Uma das categorias definidas, que será recorrente para todas as interpretações, é a categoria 0 – Sem informação – corresponde às justificações que não contribuem com qualquer informação interpretável ou útil para esta investigação. Exemplos destas justificações são: “Apresentação” e “Estou informado”. Outra categoria criada foi a categoria 1 – Sem interesse na informação da TV – que, tal como o título indica, agrupa as justificações dos professores que se sentem incomodados com a informação transmitida por alguns programas de televisão com base precisamente na sua falta de interesse pela informação transmitida nos programas de televisão. Exemplos destas justificações são: “Não estou atenta à estatística apresentada na TV” e “É muita informação ao mesmo tempo”. A categoria seguinte é a categoria 2 – Sem confiança na informação da TV – que agrega as justificações para a concordância com o item baseando-se na desconfiança em termos da interpretação e significados atribuídos às estatísticas veiculadas nas informações televisivas, bem como em dúvidas sobre questões metodológicas de aplicação da Estatística enquanto método ou ferramenta de aplicação. Exemplos destas justificações são: “Uso indevido dos dados estatísticos, desonestidade intelectual”, “Devido ao facto de que são impercetíveis, de não ser conhecido o público participante e de serem realizadas em áreas urbanas e não abrangerem as áreas rurais" e “Pela falta de rigor”. 371 Análise de dados Por último, a categoria 3 – Realidade e resultados estatísticos não coincidem – é aquela em que se juntaram as justificações que mostram que o afastamento entre a perceção da realidade desses professores e os resultados estatísticos que são transmitidos na televisão alicerçado numa manipulação, intencional ou não, é o que os incomoda. Exemplos destas justificações são: “As estatísticas revelam dados por vezes que não correspondem à realidade das coisas, são manipuladas”, “Por serem falsas”, “Não são considerados todos os dados” e “Por vezes a informação distorce a realidade e é transmitida de uma maneira sensacionalista e nem sempre verdadeira, o que influencia o espetador menos informado”. Na Tabela 4.37 a categoria 0 não tem grande expressividade, no entanto a percentagem é maior nos professores do 1º CEB. A categoria 1 é residual, tanto a nível global, como em cada um dos grupos de professores por ciclo. As categorias 2 e 3 representam as principais razões para o incómodo dos professores pela informação estatística transmitida na televisão. Em termos globais e para os professores de Matemática do 2º CEB as razões para aquele incómodo estão associadas com maior preponderância à categoria 2, ou seja, a questões relacionadas com falta de confiança na interpretação feita das estatísticas e na aplicação metodológica da Estatística. O outro grupo de razões para esse incómodo com expressão significativa, em particular nos professores do 1º CEB, é o que corresponde à categoria 3, mostrando a ideia destes professores na falta de veracidade, nas contradições e no desajustamento à realidade das informações estatísticas transmitidas, estando explícita ou implícita, a manipulação e a defesa de interesses que a Estatística permitirá. Tabela 4.37: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 1 Atitudes Negativas 1º CEB 2º CEB Total fr fr fr f fr f fr f fr Categorias (Global) (Global) (Global) 8 8% 3% 1 2% 1% 9 6% 3% 0 – Sem informação 1 – Sem interesse na informação 3 3% 1% 2 4% 3% 5 3% 1% da TV 2 – Sem confiança na informação 45 42% 17% 36 77% 45% 81 53% 23% da TV 3 – Realidade e resultados 50 47% 19% 8 17% 10% 58 38% 17% estatísticos não coincidem 106 100% 40% 47 100% 59% 153 100% 44% Total Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor No item 1 foram 493 os professores que atribuíram uma pontuação de 3 (associada a uma atitude neutra ou de indiferença), ou seja, isto indica que estes 45% do total da amostra 372 Análise de dados de professores não discordam nem concordam com a afirmação deste item. Destes professores 394 são professores do 1º CEB, 46% do total desses professores, e 99 são professores de Matemática do 2º CEB, 40% do total desses professores. Estes valores mostram que os professores com uma atitude neutra ou de indiferença neste item apresentam uma maior percentagem que a dos professores com atitudes negativas ou positivas. Contudo, foram 95 professores do 1º CEB, 24% dos 394 referidos, e 21 professores de Matemática do 2º CEB, 21% dos 99 mencionados, os que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item. Neste item houve no global 116 justificações escritas, 24% dos 493 professores que pontuaram com 3. Estes valores mostram que os professores com uma atitude neutra tendem a justificar as suas pontuações com menor frequência. Da análise feita às 116 justificações criaram-se 3 categorias para além da categoria 0 – Sem informação – transversal a todas estas análises. Estas categorias apresentam-se e quantificam-se para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.38. Além disso, duas destas categorias são idênticas a categorias definidas para os casos das atitudes negativas ou atitudes positivas, havendo uma terceira categoria só associada a este grupo de professores com atitudes de indiferença em relação à afirmação deste item. Na categoria 0 – Sem informação – os exemplos selecionados são: “Só acredito se quiser” e “Pura ignorância!”. A categoria 1 – Sem interesse na informação da TV – agrupa as justificações que invocam a falta de interesse pela informação transmitida nos programas de televisão (TV), ou mesmo pela própria TV, para que os professores não se sintam nem incomodados nem à vontade com essa informação. Exemplos destas justificações são: “Os temas em análise na globalidade não são do meu interesse” e “Vejo muito pouca TV”. A categoria 2 – Sem confiança na informação da TV – agrega as justificações para a indiferença em relação ao item baseando-se na desconfiança em termos da interpretação e significados atribuídos às estatísticas veiculadas nas informações televisivas e em dúvidas sobre questões metodológicas de aplicação da Estatística enquanto método ou ferramenta de aplicação. Estas dúvidas surgem, por vezes, num enquadramento mais negativo e noutras num mais positivo, nas posições de indefinição como a da pontuação 3 nesta escala. Exemplos destas justificações são: “A informação é sempre pertinente porém, às vezes não é apresentada da melhor forma”, “O que mais me incomoda é a falta de imparcialidade e o facto de serem sempre usadas as mesmas fontes”, “Não a acho fidedigna” e “Por vezes as questões não são claras. As amostras não correspondem ao universo estudado”. 373 Análise de dados A categoria 3 – Indiferença/relativização – é específica deste grupo de professores, e reúne as justificações que mostram indiferença perante as informações estatísticas que são transmitidas na TV, bem como uma relativização do incómodo que essas informações lhes poderão causar. Exemplos destas justificações são: “É-me indiferente tal situação”, “Não dou muita importância às estatísticas”, “Considero necessária mas atribuo importância relativa” e “Depende do tema a ser tratado”. Na Tabela 4.38 a categoria 0 é residual, a percentagem é maior nos professores do 1º CEB, como no caso dos professores com atitudes negativas. A categoria 1 não tem grande expressividade, tanto a nível global, como em cada um dos grupos de professores por ciclo. As categorias 2 e 3 que representam as principais razões para a indiferença dos professores pela informação estatística transmitida na TV. Em termos globais, e também ao nível dos professores dos dois ciclos, as razões para a indiferença face às informações transmitidas na TV estão associadas com maior preponderância à categoria 2, ou seja, a questões relacionadas com falta de confiança na interpretação feita das estatísticas e da sua aplicação metodológica. A categoria 3, com expressão significativa, mostra que estes professores não se sentem incomodados nem motivados em relação às referidas informações estatísticas, atribuindo-lhes por vezes apenas uma importância relativa. Tabela 4.38: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 1 Atitudes Neutras 2º CEB fr fr f fr (Global) (Global) 2% 1 5% 1% 1º CEB Categorias f fr 0 – Sem informação 1 – Sem interesse na informação da TV 2 – Sem confiança na informação da TV 3 – Indiferença/relativização Total 6 6% 14 15% 4% 5 43 32 95 45% 34% 100% 11% 8% 24% 8 38% 7 33% 21 100% 24% 5% 8% 7% 21% Total f fr 7 6% fr (Global) 1% 19 16% 4% 51 44% 10% 39 34% 116 100% 8% 24% Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor No item 1 foram 258 os professores que atribuíram uma pontuação associada a uma atitude positiva, o que indica que estes 23% do total da amostra de professores discordam totalmente ou discordam com a afirmação deste item. Destes professores 191 são professores do 1º CEB, 22% do total desse grupo de professores, e 67 são professores de Matemática do 2º CEB, 27% do total desses professores. Portanto, neste item este grupo de professores é menor do que o das atitudes negativas e o das atitudes neutras. Contudo, foram 66 professores 374 Análise de dados do 1º CEB, 36% dos 191, e 27 professores de Matemática do 2º CEB, 40% dos 67, os que neste item apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída. Neste item houve no global 93 justificações escritas, 36% dos 258 professores com pontuação associada a uma atitude positiva, numa taxa inferior aos de atitude negativa, mas superior aos de atitude neutra. Da análise feita às 93 justificações criaram-se 4 categorias, incluindo a categoria 0 Sem informação, que estão apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.39. Na categoria 0 os exemplos são: “Não me incomoda absolutamente nada” e “Nunca me deparei com a situação”. A categoria 1 – Sem interesse na informação da TV – agrupa as justificações dos professores que não se sentem incomodados com a informação transmitida por alguns programas de televisão com base na sua falta de interesse pela televisão em geral e, por consequência, pela informação nela transmitida. Esta categoria não tem qualquer justificação de professores de Matemática do 2º CEB, tendo apenas justificações de professores do 1º CEB. Exemplos destas justificações são: “Não incomoda pois eu não vejo TV” e “Não estou atenta à estatística apresentada na TV”. A categoria 2 – Sem confiança na informação da TV – agrega as justificações para a discordância com o item apesar da desconfiança em termos da interpretação e significados atribuídos às estatísticas veiculadas nas informações televisivas, bem como das dúvidas sobre questões metodológicas de aplicação da Estatística. Este aparente paradoxo, tem como possível explicação que estes professores não se sentem incomodados com a informação estatística na TV uma vez que já contam com as limitações e condicionalismos referidos e sentem-se capazes de os detetar, sentindo-se à vontade com isso. Exemplos destas justificações são: “A informação é sempre pertinente porém, às vezes não é apresentada da melhor forma”, “Nem sempre é fiável. Muitas vezes a amostra não é recolhida da forma mais correcta” e “A informação estatística transmitida na TV pode não ser a mais correcta, mas ajuda-nos a compreender a realidade”. A categoria 3 – Com confiança na informação da TV – reúne as justificações que mostram o gosto e a confiança na Estatística e na informação que a usa e é transmitida na TV, pelo que não cria qualquer incomodidade a estes professores. Exemplos destas justificações são: “Os dados estatísticos são um excelente indicador da realidade nos diversos itens”, “Porque percebo melhor a complexidade do tema com a estatística”, “As estatísticas fazem 375 Análise de dados parte da nossa vida e são importantes para a informação das pessoas” e “Não me incomoda. Se a informação estatística é apresentada é porque é necessária para melhor compreender os problemas (situações apresentadas) ”. Na Tabela 4.39 a categoria 0 não é relevante, e, neste caso, a percentagem é maior nos professores de Matemática do 2º CEB. A categoria 1 só está representada pelos professores do 1º CEB e não é relevante, nem a nível global, nem do grupo de professores do 1º CEB. São as categorias 2 e 3 que representam as principais razões para os professores não se incomodarem com a informação estatística transmitida na TV. Em termos globais e para os grupos de professores por ciclo as razões para aquela ausência de incómodo estão associadas com maior percentagem à categoria 3, ou seja, a questões relacionadas com gosto pela Estatística e confiança na interpretação feita das estatísticas, bem como na aplicação metodológica da Estatística subjacente à informação estatística aí transmitida. O outro grupo de razões para o não incómodo referido e ainda com alguma expressão, em particular nos professores do 1º CEB é o que corresponde à categoria 2, talvez mostrando que nem eventuais faltas de veracidade, contradições e desajustamentos à realidade das informações estatísticas transmitidas os incomoda, pois a utilidade e importância da informação estatística é para eles um dado adquirido, sobrepondo-se às limitações referidas. Tabela 4.39: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 1 Atitudes Positivas 1º CEB 2º CEB Total fr fr fr f fr f fr f fr Categorias (Global) (Global) (Global) 3 5% 2% 4 15% 6% 7 8% 3% 0 – Sem informação 1 – Sem interesse na informação 6 9% 3% 0 0% 0% 6 6% 2% da TV 2 – Sem confiança na informação 23 35% 12% 7 26% 10% 30 32% 12% da TV 3 – Com confiança na informação 34 52% 18% 16 59% 24% 50 54% 19% da TV 66 100% 35% 27 100% 40% 93 100% 36% Total Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor No item 1 a média da pontuação está abaixo do ponto de indiferença, com um valor de 2,95, sendo a média para os professores do 1º CEB de 2,94 e a dos professores de Matemática do 2º CEB de 3,01. Estes valores indicam uma atitude que não é positiva neste item, como se constatou no ponto 4.3 deste capítulo. Também se constatou que não apresenta diferenças significativas nem entre os ciclos em que os professores lecionam, nem entre os géneros, nem 376 Análise de dados entre os diferentes tempos de serviço no ensino básico, nem entre as áreas da formação inicial, nem entre os níveis de estudo da Estatística nem entre os níveis da lecionação da Estatística. De uma forma geral, considera-se que estes professores ficam incomodados ou indiferentes perante as informações estatísticas transmitidas na televisão. Além disso, as razões fundamentais apontadas pelos professores são algum desinteresse pela televisão e pelas informações estatísticas aí veiculadas, mas destaca-se a falta de confiança na interpretação feita das estatísticas e na sua aplicação metodológica, e também a falta de veracidade associada à manipulação e defesa de interesses e que a Estatística permitirá. Uma maior formação estatística dos professores deverá incidir sobre processos de amostragem, elaboração de questionários, metodologia das sondagens e estatística inferencial. Além disso, a utilização de fichas técnicas de estudos estatísticos e, em particular da informação transmitida pela TV (e, quem sabe, talvez outros meios de comunicação social) nas aulas de Estatística, ajudarão a aumentar nos professores as atitudes positivas em relação à Estatística nos âmbitos afetivo e social. Isto é especialmente verdade até porque essa utilização da informação estatística da TV (e, quem sabe, talvez outros meios de comunicação social) nas práticas letivas levará para a sala de aula assuntos do quotidiano, potenciando o interesse e o envolvimento, tanto de alunos, como de professores, e aumentando a visibilidade da importância e utilidade da Estatística. 4.4.2. Análise dos resultados no item 2 Relativamente ao item 2 – Através da estatística pode-se manipular a realidade – 874 professores atribuíram uma pontuação associada a uma atitude negativa, ou seja, isto indica que estes 80% do total da amostra de professores concordam ou concordam totalmente com a afirmação deste item que tem a afirmação formulada no sentido negativo da atitude em relação à Estatística. Destes professores 667 são professores do 1º CEB, 78% do total desses professores, e 207 são professores de Matemática do 2º CEB, 84% do total desses professores. Estes valores mostram que os professores com uma atitude negativa neste item apresentam uma muito maior percentagem que a dos professores com atitudes neutras ou positivas. Contudo, foram 199 professores do 1º CEB, 30% dos 667, e 94 professores de Matemática do 2º CEB, 45% dos 207, os que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item. Logo, neste item houve no global 293 justificações escritas, 34% dos 874 professores com pontuação associada a uma atitude negativa. 377 Análise de dados Na análise feita às 293 justificações criaram-se 4 categorias que estão apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.40. Na categoria 0 – Sem informação – os exemplos de justificações são: “Sem comentários”, “Seguir as tendências…” e “Apenas se abordam assuntos que possam ferir a verdade das pessoas”. A categoria 1 – Manipulação por interesse (incluindo a política) – agrupa as justificações dos professores que sentem que a realidade pode ser manipulada pela ou através da Estatística, tendo por base interesses de particulares ou de grupos e, em especial, interesses políticos. Exemplos destas justificações são: “Podemos influenciar para mais ou para menos, conforme o ‘nosso’ benefício”, “Especialmente na política antes das eleições” e “Pensando em estudos estatísticos realizados, por exemplo, pelos partidos políticos: em exercício governamental apresentam uns dados estatísticos e os da oposição outros. Qual deles reflete a realidade?”. A categoria 2 – Má utilização ou falseamento – agrega as justificações baseadas na desconfiança em termos das respostas recolhidas por serem, muitas vezes falseadas, bem como em dúvidas sobre questões metodológicas de aplicação da Estatística enquanto método ou ferramenta de aplicação, em especial na forma como os dados são recolhidos. Exemplos destas justificações são: “Quando os inquiridos não respondem com sinceridade”, “Dependendo da amostra escolhida e do tipo de perguntas”, “Se os dados foram viciados ou mal trabalhados alteram toda a realidade” e “A forma como um estudo estatístico é feito, nomeadamente, a forma de colocar as questões ou a amostra selecionada, pode efetivamente condicionar os resultados”. A categoria 3 – Vulnerabilidade dos recetores e/ou Desconhecimento da Estatística – reúne as justificações que mostram que a perceção entre estes professores de que através da Estatística se manipula a realidade está centrada em que isso é possível ou pela falta de conhecimento e cultura estatística ou pela vulnerabilidade dos recetores da informação estatística que, por vezes, é consequência do desconhecimento estatístico. Exemplos destas justificações são: “Os dados estatísticos podem influenciar as atitudes e os comportamentos das pessoas”, “Só a manipula quando há um desconhecimento total do que é a Estatística”, e “Há pessoas influenciáveis e que vão atrás da opinião dos outros”. Na Tabela 4.40 constata-se que a categoria 0 não tem grande expressividade, sendo a percentagem maior nos professores do 1º CEB. As categorias 1, 2 e 3 representam as principais razões para a perceção de que através da Estatística se poderá manipular a 378 Análise de dados realidade. Em termos globais, e em particular, para os professores de Matemática do 2º CEB as razões para aquela perceção estão associadas com o destaque a questões relacionadas com falta de confiança nas respostas obtidas, bem como na aplicação metodológica da Estatística, categoria 2. Os outros grupos de razões para essa perceção, e de igual modo com percentagens muito similares, são os que correspondem às categorias 1 e 3. Nestas categorias fica patente a convicção destes professores numa manipulação das informações estatísticas com base em interesses, por exemplo, os políticos, estando também presente a ideia da vulnerabilidade intrínseca de algumas pessoas e/ou a falta de conhecimentos estatísticos. Interpreta-se que estes professores viram a manipulação mencionada na afirmação do item em termos da realidade percebida pelas pessoas como a da realidade em si. Tabela 4.40: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 2 Atitudes Negativas 1º CEB 2º CEB fr fr f fr f fr f Categorias (Global) (Global) 26 13% 4% 1 1% 0% 27 0 – Sem informação 1 – Manipulação por interesse 58 29% 9% 20 21% 10% 78 (incluindo a política) 59 30% 9% 53 56% 26% 112 2 – Má utilização ou falseamento 3 – Vulnerabilidade dos recetores e/ou desconhecimento da 56 28% 8% 20 21% 10% 76 Estatística 199 100% 30% 94 100% 45% 293 Total Total 9% fr (Global) 3% 27% 9% 38% 13% 26% 9% 100% 34% fr Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor No item 2 foram 136 os professores que atribuíram uma pontuação de 3, ou seja, isto indica que estes 12% do total da amostra de professores não discordam nem concordam com a afirmação deste item. Destes professores 115 são professores do 1º CEB, 13% do total desse grupo de professores, e 21 são professores de Matemática do 2º CEB, 9% do total desses professores. Contudo, foram 16 professores do 1º CEB, 14% dos 115, e 3 professores de Matemática do 2º CEB, 14% dos 21, os que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item. Portanto, neste item houve no global 19 justificações escritas, 14% dos 136 professores que pontuaram com 3. Estes valores indicam que os professores com uma atitude neutra tendem a justificar com menor frequência as suas pontuações. Na análise feita às 19 justificações criaram-se 2 categorias para além da categoria 0. Estas categorias apresentam-se e quantificam-se para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.41. Além disso, uma destas categorias é idêntica a uma categoria definida para o 379 Análise de dados caso das atitudes negativas, havendo uma segunda categoria só associada a este grupo de professores com atitudes de indiferença em relação à afirmação deste item. Na categoria 0 – Sem informação – os exemplos selecionados são: “Não me debruço sobre esses aspectos” e “Não sei ao certo”. A categoria 1 – Má utilização ou falseamento – agrupa as justificações baseadas na desconfiança em termos das respostas recolhidas serem falseadas, bem como em dúvidas sobre questões metodológicas de aplicação da Estatística, pressupondo ou não intencionalidade. Exemplos destas justificações são: “Parece-me que a Estatística, por vezes, distorce a realidade porque os indicadores usados não são feitos com veracidade”, “Depende dos dados que introduzem” e “Depende da amostra utilizada”. A categoria 2 – Depende do contexto – é específica deste grupo de professores, reúne as justificações que mostram a ideia de que a manipulação da realidade através de Estatística acontece apenas às vezes, depende do contexto e também de quem recebe a informação estatística. Exemplos destas justificações são: “Às vezes acontece e é enganosa”, “Depende da situação”, e “A realidade terá de ser contextualizada”. Na Tabela 4.41 a categoria 0 só tem uma importância relativa nos professores do 1º CEB. A categoria 1 é a que tem maior expressão. Nela os professores realçam que a posição neutra se baseia na constatação de que, por vezes, a manipulação acontece e que se acontece tem por base com intencionalidade ou não um mau uso da Estatística ou uma abordagem sem veracidade por parte de quem faculta a informação. A categoria 2 representa uma menor percentagem que a categoria 1 e dá a ideia de que o acordo e a discordância relativamente à afirmação do item estão relacionados com o facto de se constatar que a manipulação às vezes não acontece, mas outras vezes acontece, dependendo do contexto. Tabela 4.41: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 2 Atitudes Neutras 2º CEB Total fr fr fr f fr f fr (Global) (Global) (Global) 5 4% 0 0% 0% 26% 4% 9 6% 2 67% 10% 47% 7% 5 3% 1 33% 5% 26% 4% 14% 3 100% 14% 19 100% 14% 1º CEB Categorias 0 – Sem informação 1 – Má utilização ou falseamento 2 – Depende do contexto Total f fr 5 31% 7 44% 4 25% 16 100% Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor 380 Análise de dados Em relação ao item 2 foram 88 os professores que atribuíram uma pontuação associada a uma atitude positiva, o que indica que estes 8% do total da amostra de professores discordam totalmente ou discordam com a afirmação deste item. Destes professores 70 são professores do 1º CEB, 8% do total desses professores, e 18 são professores de Matemática do 2º CEB, 7% do total desses professores. Neste item este grupo de professores é menor do que o das atitudes neutras e muito menor do que o das atitudes negativas. Contudo, foram 25 professores do 1º CEB, 36% dos 70, e 6 professores de Matemática do 2º CEB, 33% dos 18, os que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item. Neste item houve no global 31 justificações escritas, 35% dos 88 professores com pontuação associada a uma atitude positiva, numa taxa superior em 1% à dos de atitude negativa e superior à dos de atitude neutra. Da análise feita a estas 31 justificações criaram-se 3 categorias, incluindo a categoria 0, que se apresentam e quantificam para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.42. Na categoria 0 os exemplos são: “Nunca. Isso seria muito perigoso, penso que ainda não se chegou a essa confusão” e “Porquê?”. Na categoria 1 – A estatística como ciência – agrupam-se as justificações dos professores que não se revêm na realidade manipulada através da Estatística baseados precisamente na ideia de que a Estatística é uma ciência que implica precisão, o que não permite manipulação, por si só. Exemplos destas justificações são: “A estatística representa dados exactos”, “Não, porque a estatística é uma ciência exacta que trabalha com dados reais, concretos”, “Admito como possível mas não é essa a função da Estatística” e “A Estatística recolhe dados e tem margem de erro e desvio padrão associado, logo não manipula a realidade”. Na categoria 2 – Manipulação/desonestidade do homem – agregam-se as justificações para a discordância com o item colocando o ónus da possível manipulação existente apenas nas pessoas que usam a Estatística e não nela mesmo. Ou seja, apesar destes professores admitirem como possível a manipulação da realidade através da Estatística conseguem dissociar dessa manipulação a Estatística, centrando a questão no fator humano e sua possível desonestidade. Exemplos destas justificações são: “Se forem estudos sérios, não creio”, “A realidade não se pode manipular, poderão é manipular-se os dados para que a interpretação da realidade seja outra. A manipulação dos dados a ser feita não é na sua alteração mas sim no realce que se dá a uns itens em desfavor a outros” e “Por vezes são estudados e analisados 381 Análise de dados dados que não têm grande relevância e outros que seriam importantes analisar não são estudados”. Na Tabela 4.42 constata-se que a categoria 0 não tem grande expressividade. No entanto, neste caso a percentagem é maior nos professores de Matemática do 2º CEB, embora em termos absolutos apenas haja um caso em cada um dos ciclos. A categoria 1 é a mais significativa, destacando-se nesta categoria os professores de Matemática do 2º CEB, embora seja também relevante a nível global e no grupo de professores do 1º CEB. Para os professores que não se incomodam com a informação estatística transmitida na televisão a categoria 2 representa também razões a ter em conta, em particular nos professores do 1º CEB. Assim, em termos globais, e para os grupos de professores por ciclo, as razões para não considerarem a realidade manipulável através da Estatística estão associadas com maior preponderância à natureza intrínseca da Estatística enquanto ciência, pelo que não manipula, e quando consideram poder haver manipulação esta tem como única e exclusiva fonte a desonestidade científica e/ou ética de quem a realiza e não da Estatística enquanto ciência em si. Tabela 4.42: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 2 Atitudes Positivas 1º CEB 2º CEB Total fr fr fr f fr f fr f fr Categorias (Global) (Global) (Global) 1 4% 1% 1 17% 6% 2 6% 2% 0 – Sem informação 14 56% 20% 4 67% 22% 18 58% 20% 1 – A estatística como ciência 2 – Manipulação/desonestidade 10 40% 14% 1 17% 6% 11 35% 13% do homem 25 100% 36% 6 100% 33% 31 100% 35% Total Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor Globalmente no item 2 a média da pontuação está bastante abaixo do ponto de indiferença, 1,99, sendo a média para os professores do 1º CEB de 2,02 e a dos professores de Matemática do 2º CEB de 1,87. Estes valores indicam uma atitude não favorável neste item que, como se pôde constatar no ponto 4.3 deste capítulo, apresenta diferenças significativas entre os ciclos em que os professores lecionam, entre os géneros, entre os níveis de estudo da Estatística e entre os níveis da lecionação da Estatística. Pode, então, considerar-se que, de uma forma geral, estes professores consideram que através da Estatística se pode manipular a realidade. Além disso, por parte dos professores as razões fundamentais para tal são a falta de confiança em relação às respostas recolhidas porque as consideram ser falseadas, bem como 382 Análise de dados as dúvidas sobre as formas de aplicação da Estatística, com destaque para como os dados são recolhidos. Outras razões invocadas passam pelos interesses, em particular os políticos, que conduzem à manipulação da realidade através da Estatística, bem como pela existência de pessoas que se deixam manipular, quer seja pela sua maneira de ser, quer pelo seu desconhecimento estatístico. No entanto, e ainda que poucos, os professores que atribuíram uma pontuação positiva neste item conseguem desligar a manipulação da Estatística, centrando os seus argumentos no rigor que está subjacente à Estatística. Contudo, também são capazes de distinguir o que é devido à Estatística e o que é devido ao fator humano, sendo este último o responsável pela manipulação que possa existir. Além disso, para este professores associados a atitudes positivas neste item fica claro que não é a realidade que será manipulada, mas sim os dados, a escolha e/ou a interpretação das estatísticas e uma apresentação truncada e parcial da realidade analisada. Em todo o caso, ficou patente a existência de uma crença de que existe na sociedade uma manipulação da realidade sistemática e generalizada através da Estatística, ficando denegrida as suas imagem e eficácia. Este facto não abona a criação e a sustentação de atitudes positivas em relação à Estatística, pelo que seria importante encontrar formas de contrariar esta visão negativa da Estatística que, aos níveis cognitivo e instrumental, se vai instalando como um estigma que parece ultrapassar este grupo de professores impregnando-se na sociedade. Precisamente por isso, a par das associações ligadas à promoção e divulgação da Estatística, o papel dos professores junto dos alunos, e a partir dos primeiros anos de escolaridade, pode ser fundamental para conseguir diminuir ou inverter aquela situação. 4.4.3. Análise dos resultados no item 3 No que se refere ao item 3 – Divirto-me nas aulas em que se explica estatística – 194 professores atribuíram uma pontuação de 1 ou 2 (associada a uma atitude negativa), ou seja, isto indica que estes 18% do total da amostra de professores discordam totalmente ou discordam com a afirmação deste item. Destes professores 175 são professores do 1º CEB, 21% do total desse grupo de professores, e 19 são professores de Matemática do 2º CEB, 8% do total desses professores. Estes valores mostram que os professores com uma atitude negativa neste item são em menor percentagem que a dos professores com atitudes neutras ou positivas. Contudo, foram 39 professores do 1º CEB, 22% dos 175 referidos, e 7 professores de Matemática do 2º CEB, 37% dos 19 mencionados, os que apresentaram uma justificação 383 Análise de dados escrita para a pontuação atribuída neste item. Portanto, neste item houve no global 46 justificações escritas, 24% dos 194 professores que pontuaram com 1 ou 2. Da análise feita às 46 justificações criaram-se 4 categorias que estão apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.43. Na categoria 0 – Sem informação – os exemplos de justificações são: “Não” e “Falta de veracidade”. A categoria 1 – Falta de motivação – agrupa as justificações dos professores que não sentem suficientemente motivados para poderem encarar de forma divertida a aula em que se explica Estatística. Exemplos destas justificações são: “Não a acho interessante”, “Não me divirto, acho muito desmotivante” e “Não vejo porquê”. A categoria 2 – Sem conhecimento de estatística – agrega as justificações para a discordância com o item baseando-se na falta de conhecimentos estatísticos, que consideram essenciais para haver alegria e divertimento genuínos numa aula de Estatística. Exemplos destas justificações são: “Não tenho formação adequada nesta área” e “Porque nunca tive aulas de estatística”. A categoria 3 – As aulas são um assunto sério (com que não se deve brincar) – é aquela em que se reuniram as justificações que mostram a convicção de que, sendo as aulas um assunto sério, estas são incompatíveis com divertimento e alegria. Exemplos destas justificações são: “Levo a estatística a sério”, “Não tenho que me divertir, pois se são aulas é para aprender”, “Levo muito a sério o facto de alertar os meus alunos para as incorreções em que podemos cair se não tiverem sentido crítico” e “Não considero isso muito divertido. É um trabalho como os outros”. Na Tabela 4.43 mostra-se que a categoria 0 não tem grande representatividade, no entanto a percentagem é maior nos professores de Matemática do 2º CEB. Tanto em termos globais, como ao nível dos dois ciclos, mas em especial para os professores de Matemática do 2º CEB, a categoria 3 representa a principal razão para a incapacidade ou indisponibilidade para encarar as aulas de Estatística com alegria e potencial divertimento, ou seja, a conceção das aulas como algo sério e incompatível com o bem-estar no fruir de uma aula. Outras razões com destaque, em particular nos professores do 1º CEB, são as associadas à categoria 1, ou seja, a questões relacionadas com a falta de divertimento face às aulas onde se explica Estatística. Apenas para os professores do 1º CEB há também a referir a falta de conhecimentos de Estatística, na categoria 2, como um fator a impedir o divertimento nas aulas de Estatística. 384 Análise de dados Tabela 4.43: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 3 Atitudes Negativas 1º CEB 2º CEB fr fr f fr f fr Categorias (Global) (Global) 3 8% 2% 2 29% 11% 0 – Sem informação 14 36% 8% 1 14% 5% 1 – Falta de motivação 2 – Sem conhecimento de 5 13% 3% 0 0% 0% estatística 3 – As aulas são um assunto sério 17 44% 10% 4 57% 21% (com que não se deve brincar) 39 100% 22% 7 100% 37% Total Total f fr 5 15 11% 33% fr (Global) 3% 8% 5 11% 3% 21 46% 11% 46 100% 24% Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor No item 3 foram 419 os professores que atribuíram uma pontuação de 3, ou seja, isto indica que estes 38% do total da amostra de professores não discordam nem concordam com a afirmação deste item. Destes professores 369 são professores do 1º CEB, 43% do total desse grupo de professores, e 50 são professores de Matemática do 2º CEB, 20% do total desses professores. Contudo, foram 56 professores do 1º CEB, 15% dos 369 referidos, e 14 professores de Matemática do 2º CEB, 28% dos 50 mencionados, os que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item. Portanto, neste item houve no global 70 justificações escritas, 17% dos 419 professores que pontuaram com 3. Estes valores, reforçam a ideia de que os professores com uma atitude neutra tendem a justificar com menor frequência dada a característica mais ambígua ou indefinida da sua posição. Na sequência da análise feita às 70 justificações criaram-se 4 categorias, para além da categoria 0. Estas categorias estão apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.44. Além disso, uma destas categorias é idêntica a uma categoria definida para o caso das atitudes negativas, havendo uma segunda categoria só associada a este grupo de professores com atitudes de indiferença em relação à afirmação deste item. Na categoria 0 – Sem informação – surge um único caso nos professores do 1º ciclo que é: “Nunca pensei nisso”. A categoria 1 – Indiferente, depende ou não é especial (igual às outras matérias) – agrupa as justificações que se baseiam na ideia de que as aulas em que se explica Estatística não são especiais nem diferentes das outras. Para estes professores é indiferente estas aulas ou outras, pressupondo que, regra geral, não há espaço para as viver de forma divertida, embora por vezes fique implícita a possibilidade de exceções. Exemplos destas justificações são: “A nível do 1º ciclo é um assunto tratado com o mesmo grau de exigência dos outros”, “É-me indiferente”, “Depende do assunto e do modo como a informação é apresentada”, “A minha 385 Análise de dados atitude é a mesma que nas outras temáticas, os alunos é que são mais facilmente motivados para estudar situações reais e do seu dia-a-dia” e “É um tema a que não ligo especificamente”. Na categoria 2 – Sem conhecimento de estatística ou não a ensinou – que é similar a uma das categorias definida para o caso das pontuações associadas a atitudes negativas, reuniram-se as justificações que mostram a falta de conhecimentos estatísticos como uma das causas para que o professor não sinta divertimento nas aulas de Estatística. Nesta categoria juntaram-se também algumas referências ao facto do professor ainda não ter lecionado Estatística. Exemplos destas justificações são: “Não tenho formação específica desta área”, “Tive estatística, breves noções há imensos anos, não me lembro”, “Provavelmente porque tenho pouca formação e não invisto neste tópico do programa” e “Não é uma área particularmente trabalhada no 1º Ciclo”. A categoria 3 – As aulas são um assunto sério – agrupa as justificações que, tal como numa categoria das atitudes negativas, se baseiam na convicção de que as aulas são um assunto sério e, portanto, inconciliáveis com divertimento. Exemplos destas justificações são: “Pela seriedade do assunto”, “Considero que se pode explicar mais concretamente” e “Não vejo dificuldade na aprendizagem da Estatística mas não vejo isso como uma diversão, mas sim utilidade”. Na categoria 4 – Motivação e interesse professor e/ou alunos – que apesar da indiferença subjacente na pontuação atribuída no item envolve fundamentalmente um carácter negativo, reuniram-se as justificações que envolvem questões de motivação e interesse, ou de falta deles, em relação à Estatística, tanto do ponto de vista do professor, como do aluno, ou ainda da sua interação. Exemplos destas justificações são: “Por norma não tenho especial empatia com esta ciência”, “É uma área que necessita de alguma concentração e interesse”, “Não é a área que mais motiva”, “É um tema que não apraz muito aos alunos”, “Divirto-me em todas as aulas quando os alunos correspondem” e “Depende da turma, do ano letivo e do conteúdo estatístico”. Na Tabela 4.44 constata-se que a categoria 0 é residual e só surge nos professores do 1º CEB. A categoria 4 é a que tem maior expressividade, tanto a nível global, como no grupo dos professores de Matemática do 2º CEB, realçando alguma falta de motivação e interesse na Estatística como razão para a neutralidade em relação ao divertimento nas aulas de Estatística. A categoria 2 representa a categoria com maior percentagem nos professores do 1º CEB, embora com apenas mais 2% que na categoria 4, e é a segunda mais representativa a nível global, mostrando que a falta de conhecimentos condiciona o divertimento para encarar a aula 386 Análise de dados de Estatística. Esta categoria 2 não tem grande expressão nos professores de Matemática do 2º CEB. A constatação da Estatística ser como outro conteúdo e, portanto, não merecer um destaque em termos de divertimento nas aulas, refletida na categoria 1, é a segunda mais importante nos professores de Matemática do 2º CEB e a terceira a nível global e dos professores do 1º CEB. Menos importante é o sentimento de alguns professores de que, sendo o ensino (da Estatística) algo sério, não deverão divertir-se nas aulas (incluindo as de Estatística). Tabela 4.44: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 3 Atitudes Neutras 2º CEB fr fr f fr (Global) (Global) 0% 0 0% 0% 1º CEB Total f fr 1 1% fr (Global) 0% 10% 19 27% 5% 7% 2% 20 29% 5% 2 14% 4% 6 9% 1% 5% 6 43% 12% 24 34% 6% 15% 14 100% 28% 70 100% 17% Categorias f fr 0 – Sem informação 1 – Indiferente, depende ou não é especial (igual às outras matérias) 2 – Sem conhecimento de estatística ou não a ensinou 3 – As aulas são um assunto sério 4- Motivação e interesse professor e/ou alunos Total 1 2% 14 25% 4% 5 36% 19 34% 5% 1 4 7% 1% 18 32% 56 100% Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor Em relação ao item 3 foram 485 os professores que atribuíram uma pontuação de 4 ou 5 (associada a uma atitude positiva), ou seja, isto indica que estes 44% do total da amostra de professores concordam ou concordam totalmente com a afirmação deste item. Destes professores 308 são professores do 1º CEB, o que corresponde a 36% do total desse grupo de professores, e 177 são professores de Matemática do 2º CEB, 72% do total desses professores. Em resumo, neste item este grupo de professores é maior do que o das atitudes neutras e muito maior do que o das atitudes negativas. Contudo, foram 105 professores do 1º CEB, 34% dos 308 referidos, e 73 professores de Matemática do 2º CEB, 41% dos 177 mencionados, os que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item. Neste item houve no global 178 justificações escritas, 37% dos 485 professores que pontuaram com 4 ou 5, numa taxa ligeiramente superior à dos de atitude negativa e superior à dos de atitude neutra. Da análise feita às 178 justificações criaram-se 3 categorias, incluindo a categoria 0, que estão apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.45. 387 Análise de dados Os dois casos na categoria 0 são: “Não sendo em relação à economia” e “São manipulados. Influencia as pessoas mais vulneráveis”. A categoria 1 – Para os professores as aulas são interessantes/desafiantes – agrupa as justificações dos professores que se sentem suficientemente motivados, interessados, desafiados e entusiasmados para se divertirem nas aulas de Estatística. Exemplos destas justificações são: “É uma matéria de que gosto. É interessante a interpretação e análise de gráficos, tabelas…”, “É interessante e divertida a forma como se trabalha”, “Divirto-me em todas. Tento lecionar todos os conteúdos de forma atrativa”, “É um conteúdo em que podemos aplicar e utilizar a Matemática na vida real” e “É um tema que me dá prazer ensinar”. A categoria 2 – Para os alunos, de acordo com a visão do professor – agrega as justificações para a concordância com o item colocando no centro, segundo o professor, o gosto e o interesse dos alunos que permite tornar as aulas em que se ensina Estatística divertidas. Exemplos destas justificações são: “Porque são aulas interessantes em que os alunos participam e estão motivados”, “Porque neste nível de ensino são trabalhados dados com base nos problemas do dia-a-dia, há bastante participação e interesse”, “Sim, porque os alunos gostam desta matéria” e “Os alunos aderem com muito entusiasmo, querendo sempre resolver atividades e tarefas que tenham a ver com turma”. Na Tabela 4.45 a categoria 0 apenas tem dois únicos casos, ambos de professores do 1º CEB. A categoria 1 é a mais representativa para os professores do 1º CEB. A categoria 2 representa também razões com uma importância representativa, em particular nos professores de Matemática do 2º CEB. Em termos globais e para os grupos de professores por ciclo as razões invocadas têm por base a motivação e o interesse de professores e de alunos nas aulas de Estatística. Tabela 4.45: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 3 Atitudes Positivas 1º CEB 2º CEB Total fr fr fr f fr f fr f fr Categorias (Global) (Global) (Global) 2 2% 1% 0 0% 0% 2 1% 0% 0 – Sem informação 1 – Para os professores as aulas 62 59% 20% 30 41% 17% 92 52% 19% são interessantes/desafiantes 2 – Para os alunos, de acordo com 41 39% 13% 43 59% 24% 84 47% 17% a visão do professor 105 100% 34% 73 100% 41% 178 100% 37% Total Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor 388 Análise de dados Globalmente no item 3 a média da pontuação está acima do ponto de indiferença, com um valor de 3,30, sendo a média para os professores do 1º CEB de 3,14 e a dos professores de Matemática do 2º CEB de 3,84. Estes valores indicam uma atitude favorável neste item que, como se pôde constatar no ponto 4.3 deste capítulo, apresenta diferenças significativas entre os ciclos em que os professores lecionam, entre os intervalos de tempo de serviço, entre os níveis de estudo da Estatística e, ainda, entre os ciclos da lecionação da Estatística. Então, considera-se que, de uma forma geral, estes professores consideram que se divertem nas aulas de Estatística ou, pelo menos, em algumas delas. Além disso, por parte dos professores as razões fundamentais para tal são a motivação e interesse – divertimento – por parte dos professores e também dos alunos em relação aos seus conteúdos e à sua aplicabilidade. Ainda que com menor representatividade, há que realçar como razões invocadas para a atribuição de pontuação neutra ou pontuações negativas a consideração de que as aulas são algo de muito sério, pelo que não se lhes pode associar uma componente de divertimento, mas também questões como a falta de motivação e de interesse, ou de falta de conhecimentos estatísticos. Estes últimos serão então os aspetos a ter em conta para potenciar atitudes mais positivas em relação à Estatística por parte de alguns dos professores nestes ciclos do EB. Relembrando aqui uma das justificações dada por uma professora do 1º CEB com pontuação positiva neste item, “Por acaso gosto! Era importante uma formação”, acredita-se que numa formação contínua adequada e específica para o ensino da Estatística nestes ciclos de ensino se poderão melhorar os níveis de conhecimento estatístico, os níveis de motivação e interesse pela Estatística e, de modo complementar, a descoberta e exploração de formas entusiasmadas e entusiasmantes de explicar a Estatística nas aulas. Deste modo, talvez se contribuísse ao nível da componente afetiva e educativa para estimular junto dos professores atitudes mais positivas em relação à Estatística. 4.4.4. Análise dos resultados no item 4 Nos resultados do item 4 – Utilizo pouco a estatística fora da escola – 481 professores atribuíram uma pontuação associada a uma atitude negativa, ou seja, isto indica que estes 44% do total da amostra de professores concordam ou concordam totalmente com a afirmação deste item (a afirmação formulou-se no sentido negativo da atitude em relação à Estatística). Destes professores 396 são professores do 1º CEB, 46% do total desse grupo de professores, e 85 são professores de Matemática do 2º CEB, 35% do total desses professores. Estes valores 389 Análise de dados mostram que os professores com uma atitude negativa neste item têm uma maior percentagem que a dos professores com atitudes neutras ou positivas. Contudo, os que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item foram 92 professores do 1º CEB, 23% dos 396 referidos, e 28 professores de Matemática do 2º CEB, 33% dos 85 mencionados. Neste item houve no global 120 justificações escritas, 25% dos 481 professores com pontuação associada a uma atitude negativa. Da análise realizada às 120 justificações criaram-se 5 categorias que estão apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.46. Na categoria 0 – Sem informação – os exemplos de justificações são: “Utilizo pouco a estatística fora da escola” e “Não tenho opinião formada”. A categoria 1 – Não usa estatística (não sente necessidade de a usar) – agrupa as justificações dos professores que assumem que não usam a Estatística fora da escola porque não têm oportunidade e/ou não sentem necessidade e/ou interesse de o fazerem. Exemplos destas justificações são: “Utilizo pouco uma vez que não me interessa”, “O meu trabalho diário não me permite fazer reflexões para partir para estudos estatísticos”, “Não necessito, no dia-a-dia há muito mais coisas importantes” e “Nunca senti necessidade de utilizar a Estatística”. A categoria 2 – Só usa informação indireta – agrega as justificações para a concordância com o item considerando que a utilização da Estatística fora da escola não é feita na sua vida quotidiana, apenas a usam pontualmente de forma indireta. Exemplos destas justificações são: “Utilizo a estatística na escola muitas vezes, fora da escola nunca a utilizo eu apenas a observo em programas da TV”, “Só se for num artigo ou num trabalho académico”, “Se os dados foram viciados ou mal trabalhados alteram toda a realidade” e “Apenas utilizo quando analiso as informações dadas pela comunicação social”. A categoria 3 – Às vezes usa a estatística no dia-a-dia – reúne as justificações que mostram que, apesar de não utilizarem muito a Estatística fora da escola, estes professores têm consciência de que o fazem por vezes, por exemplo, quando necessário e útil. Exemplos destas justificações são: “Apenas em algumas situações do quotidiano”, “Ajuda-me a organizar as contas mensais”, “Só o necessário”, “Nos tempos em que vivemos conscientemente ou não, utilizamos a Estatística diversas vezes” e “Nem sempre carecemos da sua utilização”. A categoria 4 – Não tem formação estatística – junta as justificações que mostram que a parca utilização da Estatística fora da escola entre estes professores é sobretudo 390 Análise de dados consequência da sua perceção face à falta de conhecimento e cultura estatística que não lhes permite uma maior utilização da Estatística na sua vida quotidiana. Exemplos destas justificações são: “Porque os meus conhecimentos são somente básicos”, “Não tenho formação adequada nesta área” e “Há pessoas influenciáveis e que vão atrás da opinião dos outros”. Na Tabela 4.46 constata-se que a categoria 0 não é significativa, estando apenas representada nos professores do 1º CEB. A categoria 1 representa a principal razão para a pontuação negativa neste item por parte destes professores, quer a nível global, quer a nível dos dois ciclos de ensino envolvidos, e reflete a ausência de necessidade de utilização da Estatística nas suas vidas. Em termos globais, para os professores do 1º CEB e particularmente para os professores de Matemática do 2º CEB as razões englobadas na categoria 3 surgem numa segunda linha de importância, mostrando uma consciência da sua utilização esporádica no quotidiano. Os outros grupos de razões não têm uma expressão significativa. A categoria 4, em que a falta de conhecimento estatístico leva à pouca utilização da Estatística, apenas está representada nos professores do 1º CEB; e o uso da Estatística feito de forma indireta, maioritariamente pelo contacto com os meios de comunicação, espelhado na categoria 2, é mais representativo nos professores de Matemática do 2º CEB. Tabela 4.46: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 4 Atitudes Negativas 1º CEB 2º CEB fr fr f fr f fr f Categorias (Global) (Global) 6 7% 2% 0 0% 0% 6 0 – Sem informação 1 – Não usa estatística (não sente 69 75% 17% 15 54% 18% 84 necessidade de a usar) 3 3% 1% 4 14% 5% 7 2 – Só usa informação indireta 3 – Às vezes usa a estatística no 11 12% 3% 9 32% 11% 20 dia-a-dia 4 – Não tem formação estatística 3 3% 1% 0 0% 0% 3 92 100% 23% 28 100% 33% 120 Total Total 5% fr (Global) 1% 70% 17% 6% 1% 17% 4% 3% 100% 1% 25% fr Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor No item 4 foram 303 os professores que atribuíram uma pontuação de 3, ou seja, isto indica que estes 28% do total da amostra de professores não discordam nem concordam com a afirmação deste item. Destes professores 238 são professores do 1º CEB, 28% do total desse grupo de professores, e 65 são professores de Matemática do 2º CEB, 26% do total desses professores. Contudo, foram 29 professores do 1º CEB, 12% dos 238 referidos, e 14 391 Análise de dados professores de Matemática do 2º CEB, 22% dos 65 mencionados, os que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item. Houve no global 43 justificações escritas neste item, 14% dos 303 professores que pontuaram com 3. Estes valores mostram que os professores com uma atitude neutra tendem a justificar com menor frequência dada a característica mais ambígua ou indefinida da sua posição. Da análise das 43 justificações criaram-se 2 categorias para além da categoria 0. Estas categorias, que são em tudo semelhantes às definidas com a mesma designação para as pontuações negativas, mas agora justificando a posição neutra, estão apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.47. As justificações incluídas na categoria 0 – Sem informação – são: “Nem tudo são números e resultados” e “Estatísticas”. Na categoria 1 – Não usa estatística (não sente necessidade de a usar) – os exemplos de justificações são: “Raramente utilizo porque não é essencial no meu quotidiano”, “Não tenho necessidade”, “A minha vida diária não precisa de muita estatística” e “Não uso com frequência, mas também não a rejeito”. Os exemplos de justificações na categoria 2 – Às vezes usa a estatística no dia-a-dia – são: “Aplico quando acho necessário e quando sei”, “No dia-a-dia vai-se utilizando pouco, mas há situações em que usamos”, e “Na minha vida do dia-a-dia não há assim tantas situações em que utilize a Estatística para dizer que uso muito”. Tabela 4.47: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 4 Atitudes Neutras 2º CEB fr fr f fr (Global) (Global) 0% 1 7% 2% 1º CEB Total f fr 2 5% fr (Global) 1% 9% 25 58% 8% 50% 11% 16 37% 5% 14 100% 22% 43 100% 14% Categorias f fr 0 – Sem informação 1 – Não usa estatística (não sente necessidade de a usar) 2 – Às vezes usa a estatística no dia-a-dia Total 1 3% 19 66% 8% 6 43% 9 31% 4% 7 29 100% 12% Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor Na Tabela 4.47 constata-se que a categoria 0 tem uma importância pouco relevante, mas em termos relativos com maior peso nos professores de Matemática do 2º CEB. A categoria 1 é a que tem maior expressividade a nível global e nos professores do 1º CEB, embora apresente também um peso relativo digno de menção nos professores de Matemática 392 Análise de dados do 2º CEB, realçando que a posição neutra se baseia em constatar que não sentem necessidade de usar muito a Estatística fora da escola. A categoria 2 tem a maior percentagem nas razões invocadas por estes professores de Matemática do 2º CEB, mas também apresenta valores altos, tanto a nível global, como a nível dos professores do 1º CEB. Neste item 4 foram 314 os professores que atribuíram uma pontuação associada a uma atitude positiva, ou seja, isto indica que estes 29% do total da amostra de professores discordam totalmente ou discordam com a afirmação deste item. Destes professores 218 são professores do 1º CEB, 26% do total desse grupo de professores, e 96 são professores de Matemática do 2º CEB, 39% do total desses professores. Neste item este grupo de professores é ligeiramente maior do que o das atitudes neutras mas menor do que o das atitudes negativas. Contudo, foram 52 professores do 1º CEB, 24% dos 218, e 37 professores de Matemática do 2º CEB, 39% dos 96, os que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item. Houve no global 89 justificações escritas neste item, 28% dos 314 professores com pontuação associada a uma atitude positiva, numa taxa superior à dos de atitude negativa e superior à dos de atitude neutra. Da análise às 89 justificações criaram-se 4 categorias, incluindo a categoria 0, que estão apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.48. Exemplos da categoria 0 – Sem informação – são: “Não” e “Por vezes a nossa vida é regulada segundo o ponto de vista de outros”. A categoria 1 – Usa ou necessita de acordo com as situações do dia-a-dia – agrupa as justificações dos professores que consideram usar bastante a Estatística por ser bastante necessária e útil no seu dia-a-dia. Exemplos destas justificações são: “Para fazer uma leitura coerente, credível, organizada da realidade a observar necessito muitas vezes de fazer estatísticas”, “Uso a estatística fora da escola porque ela me ajuda a tomar decisões mais fundamentadas”, “Sempre que necessário, e isso implica inúmeras vezes que recorro à Estatística. Exemplos: compras, vendas, arrendamentos e bolsa” e “Utilizo na aula, no dia-adia”. A categoria 2 – No dia-a-dia a estatística está em tudo – agrega as justificações para a discordância com o item constatando que usam bastante a Estatística, pois esta está presente em quase tudo e em muitas situações do quotidiano. Crê-se que estes professores encaram a utilização regular da Estatística nas suas vidas não como uma mera necessidade, mas como algo quase natural no seu quotidiano. Exemplos destas justificações são: “Na vida diária é difícil não nos depararmos com situações que envolvam estatística”, “A estatística acaba por 393 Análise de dados estar quase sempre presente no nosso dia-a-dia e muitas vezes usamo-la sem sequer nos apercebermos”, “Discordo, porque tudo o que existe à nossa volta pode-se fazer um estudo para a Estatística, como: incêndio nas florestas, consumo de álcool, pessoas que fazem férias fora de Portugal, e outras”, “Hoje em dia a Estatística é usada em todas as situações do quotidiano” e “Ela está por todo o lado”. A categoria 3 – Usa estatística no trabalho mas não a reconhece presente na vida do dia-a-dia – reúne as justificações para a discordância com o item colocando a utilização da Estatística fora da escola centrada em questões relacionadas com o trabalho, não a relacionando com o seu quotidiano extra laboral. Exemplos destas justificações são: “Está sempre presente de uma maneira ou de outra na profissão docente (avaliações, cotações…)”, “Na vida privada pouco preciso, mas já trabalhei noutras áreas profissionais” e “Porque faço vários estudos estatísticos em relação aos alunos”. Na Tabela 4.48 a categoria 0 não tem expressividade, sendo a percentagem maior nos professores do 1º CEB. A categoria 2 é a mais expressiva, destacando-se nesta categoria os professores de Matemática do 2º CEB. A categoria 1 representa também razões a ter em conta para a utilização da Estatística fora da escola, com maior destaque nos professores do 1º CEB. A categoria 3 não tem grande expressividade, sendo menor ainda para os professores de Matemática do 2º CEB. Em termos globais, e para os grupos de professores por ciclo, as razões para utilizarem com regularidade a Estatística fora da escola têm por base a perceção por parte destes professores de que a Estatística está em quase tudo à nossa volta, donde resulta uma utilização comum e quase natural ou, pelo menos, será bastante necessária no quotidiano, e daí a sua utilização frequente. No entanto, alguns apenas referem a utilização fora da escola num contexto de trabalho. Tabela 4.48: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 4 Atitudes Positivas 1º CEB 2º CEB Total fr fr fr f fr f fr f fr Categorias (Global) (Global) (Global) 3 6% 1% 1 3% 1% 4 4% 1% 0 – Sem informação 1 – Usa ou necessita de acordo 18 35% 8% 8 22% 8% 26 29% 8% com as situações do dia-a-dia 2 – No dia-a-dia a estatística está 25 48% 11% 26 70% 27% 51 57% 16% em tudo 3 – Usa estatística no trabalho mas não a reconhece presente na 6 12% 3% 2 5% 2% 8 9% 3% vida do dia-a-dia 52 100% 24% 37 100% 39% 89 100% 28% Total Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor 394 Análise de dados Globalmente no item 4 a média da pontuação está abaixo do ponto de indiferença, com um valor de 2,79, sendo a média para os professores do 1º CEB de 2,71 e a dos professores de Matemática do 2º CEB de 3,06. Estes valores indicam uma atitude não favorável neste item que, como visto no ponto 4.3 deste capítulo, apresenta diferenças significativas entre os ciclos em que os professores lecionam, entre os géneros, entre os níveis de estudo da Estatística e entre os níveis da lecionação da Estatística. De forma geral estes professores consideram que não utilizam ou utilizam relativamente pouco a Estatística fora da escola. Por parte dos professores as razões fundamentais para tal são a falta de necessidade ou as oportunidades esporádicas de utilizar a Estatística no dia-a-dia. Outras razões invocadas, com menor peso, passam por uma utilização reduzida que é imposta por falta de conhecimentos estatísticos (acontece com alguns professores do 1º CEB) ou então feita de forma indireta por estar apenas centrada nas estatísticas dos meios de comunicação. Em menor número, os professores que atribuíram uma pontuação positiva neste item conseguem ver e utilizar a Estatística no seu quotidiano, centrando os seus principais argumentos na difusão da Estatística e na necessidade da mesma em muito do que nos rodeia e, consequentemente, no quotidiano de cada um. Em todo o caso, ficou patente a existência de uma visão ainda maioritária em que a Estatística não é ou é pouco utilizável no dia-a-dia. Este facto, que separa a importância e a aplicabilidade da Estatística, não contribui para a criação e sustentação de atitudes positivas em relação à mesma. Este facto evidencia a importância de encontrar formas de contrariar esta visão negativa da Estatística aos níveis comportamental e instrumental. Na formação inicial e na formação contínua dos professores, deveria ser dado um papel especial à ligação da Estatística com o quotidiano. Esta ligação poderia ir invertendo a situação atual e teria também, posteriormente, consequências positivas junto dos alunos. 4.4.5. Análise dos resultados no item 5 No item 5 – A estatística apaixona-me porque ajuda a ver os problemas objetivamente – 224 professores atribuíram uma pontuação de 1 ou 2 (associada a uma atitude negativa), ou seja, isto indica que estes 20% do total da amostra de professores discordam totalmente ou discordam com a afirmação deste item. Destes professores 199 são professores do 1º CEB, 23% do total desse grupo de professores, e 25 são professores de Matemática do 2º CEB, 10% do total desses professores. Estes valores mostram que os professores com uma atitude 395 Análise de dados negativa neste item apresentam uma menor percentagem que a dos professores com atitudes neutras ou positivas. Contudo, foram 52 professores do 1º CEB, 26% dos 199 referidos, e 10 professores de Matemática do 2º CEB, 40% dos 25 mencionados, os que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item. Houve no global 62 justificações escritas neste item, 28% dos 224 professores que pontuaram com 1 ou 2. Da análise das 62 justificações criaram-se 4 categorias que estão apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.49. Neste caso, para a categoria 0 – Sem informação – as justificações são apenas referentes a professores do 1º CEB e foram selecionados os seguintes exemplos: “Tenho opinião diferente” e “Não entendo assim”. A categoria 1 – Não me apaixona/Não gosto/Falta de formação ou de conhecimentos – agrupa as justificações dos professores para não concordarem com a afirmação do item em que estes indicam não gostar da Estatística, bem como sentir falta de formação ou conhecimento (enquanto inibidora de poderem modificar os seus modos de sentir). Exemplos destas justificações são: “Não é uma área que me desperte esse tipo de sentimento”, “Não sinto grande paixão, pois no dia-a-dia não me identifico com alguns resultados apresentados” e “Porque não possuo conhecimentos nesta área de modo a apaixonar-me”. A categoria 2 – Não é objetiva/Nem sempre é objetiva – agrega as justificações para a discordância com o item centradas na questão da não objetividade, ou seja, justificações que indicam que estes professores consideram que a Estatística nem sempre é objetiva. Exemplos destas justificações são: “A estatística não ajuda a ver os problemas objetivamente mas ilusoriamente”, “A objectidade é um mito”, “A estatística não é objectiva”, “A Estatística é um pouco subjectiva” e “Nem sempre é objectiva. Há que considerar outros fatores que condicionam o trabalho, principalmente quando o fator humano está em jogo”. A categoria 3 – Manipulação/Incorreção – reúne as justificações da discordância destes professores em relação ao item baseada na convicção de que existe manipulação, incorreção e falta de adesão à realidade por parte das estatísticas que lhes são apresentadas. Exemplos destas justificações são: “Porque às vezes não corresponde à realidade”, “Desacordo porque as estatísticas raramente são fiáveis”, “Nem sempre a informação que é transmitida está correta”, “Visto que me apercebo que a estatística distorce a realidade é motivo para não me agradar principalmente quando se refere a pessoas” e “Nem sempre os resultados correspondem à realidade. Não se pode crer em estatísticas baseadas apenas em inquéritos realizados em zonas restritas”. 396 Análise de dados Na Tabela 4.49 vê-se que a categoria 0 não tem grande representatividade apenas está associada às justificações de professores do 1º CEB. A categoria 1 representa o principal grupo de razões para não haver paixão pela Estatística, enquanto meio de ajuda para ver mais objetivamente os problemas, tendo como razões expressas a falta de motivação e/ou de gosto pela Estatística e/ou de conhecimentos e formação na mesma. Outras razões com destaque, em particular nos professores de Matemática do 2º CEB, são as associadas à categoria 2, que estão relacionadas com a falta de objetividade com que encaram a Estatística. Com alguma representatividade ainda surge a categoria 3, reunindo considerações em torno de uma visão de uma Estatística manipulada, manipuladora, incorreta e enviesada em relação à realidade. Tabela 4.49: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 5 Atitudes Negativas 1º CEB 2º CEB fr fr f fr f fr Categorias (Global) (Global) 7 13% 4% 0 0% 0% 0 – Sem informação 1 – Não me apaixona/Não gosto/Falta de formação ou de 27 52% 14% 2 20% 8% conhecimentos 2 – Não é objetiva/Nem sempre é 10 19% 5% 6 60% 24% objetiva 3 – Manipulação/Incorreção 8 15% 4% 2 20% 8% 52 100% 26% 10 100% 40% Total Total f fr 7 11% fr (Global) 3% 29 47% 13% 16 26% 7% 10 62 16% 100% 4% 28% Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor No item 5 foram 471 os professores que atribuíram uma pontuação de 3, ou seja, isto indica que estes 43% do total da amostra de professores não discordam nem concordam com a afirmação deste item. Destes professores 377 são professores do 1º CEB, 44% do total desses professores, e 94 são professores de Matemática do 2º CEB, 38% do total desses professores. Contudo, foram 47 professores do 1º CEB, 12% dos 377 referidos, e 22 professores de Matemática do 2º CEB, 23% dos 94 mencionados, os que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item. Houve no global 69 justificações escritas neste item, 15% dos 471 professores que pontuaram com 3. Estes valores voltaram a mostrar que os professores com uma atitude neutra tenderam a justificar com menor frequência dada a característica mais ambígua ou indefinida da sua posição. Da análise feita às 69 justificações criaram-se 4 categorias para além da categoria 0. Estas categorias estão apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.50. Além disso, duas destas categorias são idênticas a categorias definidas para o 397 Análise de dados caso das atitudes negativas, havendo uma categoria similar a uma definida para o caso das atitudes positivas neste item. Na categoria 0 – Sem informação – apenas surgem justificações dos professores do 1º CEB, sendo: “De forma quantitativa”, “Não estou habituado a ver a Estatística por esse prisma” e “Não tenho opinião”. A categoria 1 – Não me apaixona/Não gosto ou indiferença/Sem conhecimentos ou formação – agrupa as justificações que se baseiam na ideia destes professores de que não gostam ou sentem indiferença pela Estatística, bem como de que não têm conhecimentos ou formação estatística que lhes permita sentir de forma convicta paixão pela Estatística, enquanto meio de ajuda para atacar os problemas com mais objetividade. Exemplos destas justificações são: “Não me apaixona, mas gosto minimamente”, “É importante mas não, pessoalmente, a esse ponto”, “Sou indiferente”, “A Estatística pode ajudar-me a ver os problemas mais objetivamente, mas não me apaixona”, “Tenho de aprofundar conhecimentos e aprender a lidar com ela mais frequentemente” e “Se tivesse conhecimentos, talvez conseguisse apaixonar-me”. A categoria 2 – Gosto da Estatística – que é similar à categoria 2 definida para as atitudes positivas, é a que reúne as justificações que mostram gosto moderado pela Estatística. Exemplos destas justificações são: “Gosto da estatística”, “O meu interesse pela Matemática é geral e apaixonante em todos os seus ramos” e “Gosto da Estatística porque me facilita e me permite mais rapidamente ver a solução dos problemas”. A categoria 3 – A Estatística é útil/necessária – agrupa as justificações que, tal como na categoria 3 das atitudes positivas, se baseiam na convicção destes professores de que a Estatística é útil e necessária, permitindo a abordagem e solução de vários problemas, mas não o suficiente para se apaixonarem. Exemplos destas justificações são: “Não me sinto apaixonada, mas reconheço a sua utilidade e pertinência”, “Não considero fundamental, no entanto, necessária”, “Ajuda a interpretar os resultados com mais rigor”, “É uma muleta útil e um instrumento útil para a análise da realidade” e “É natural que, em certos casos, resolva alguns problemas”. Por último, envolvendo fundamentalmente um carácter negativo, apesar da indiferença subjacente na pontuação do item, a categoria 4 – Não é objetiva/Nem sempre é objetiva/Sem garantias de fiabilidade – é a que reúne as justificações em que os professores se focam na consideração de que a Estatística não é ou nem sempre é objetiva na resolução de problemas. Também surgem justificações que colocam dúvidas sobre as estatísticas. Exemplos destas 398 Análise de dados justificações são: “Apaixona-me mas nem sempre me ajuda a ver os problemas objectivamente”, “Nem sempre traduz a realidade”, “Não penso que resolvam os problemas objetivamente”, “Nem sempre corresponde à verdade”, “É sempre preciso ter um espírito crítico e nem sempre um tratamento estatístico nos dá todas as informações sobre todos os aspetos do problema em estudo” e “Sim e não; Às vezes acho que faz perder a objetividade”. Na Tabela 4.50 a categoria 0 tem uma presença relativa pequena e só nos professores do 1º CEB. A categoria 1 é a que tem maior expressividade, realçando que a indiferença da pontuação neste item é devida ao facto de, em termos moderados, não gostarem de Estatística e/ou de sentirem não ter conhecimentos ou formação em Estatística. A categoria 4 é a categoria com o segundo lugar de importância a nível global e dos professores do 1º CEB, mas com a maior percentagem nos professores de Matemática do 2º CEB, mostrando que a conceção da Estatística por parte destes professores como não é ou é pouco objetiva, para além de aparecer como desfasada da realidade e/ou incorreta, condiciona o entusiasmo na Estatística para ajudar a ver os problemas com objetividade. As categorias 3 e 2, associadas a aspetos mais positivos, surgem depois, e por essa ordem, com menor importância. Tabela 4.50: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 5 Atitudes Neutras 1º CEB 2º CEB Total fr fr fr f fr f fr f fr Categorias (Global) (Global) (Global) 3 6% 1% 0 0% 0% 3 4% 1% 0 – Sem informação 1 – Não me apaixona/Não gosto ou indiferença/Sem 28 60% 7% 6 27% 6% 34 49% 7% conhecimentos ou formação 3 6% 1% 3 14% 3% 6 9% 1% 2 - Gosto da Estatística 5 11% 1% 4 18% 4% 9 13% 2% 3 - A Estatística é útil/necessária 4 – Não é objetiva/Nem sempre é objetiva/Sem garantias de 8 17% 2% 9 41% 10% 17 25% 4% fiabilidade 47 100% 12% 22 100% 23% 69 100% 15% Total Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor Neste item 5 foram 403 os professores que atribuíram uma pontuação de 4 ou 5 (associada a uma atitude positiva), ou seja, isto indica que estes 37% do total da amostra de professores concordam ou concordam totalmente com a afirmação deste item. Destes professores 276 são professores do 1º CEB, 32% do total desses professores, e 127 são professores de Matemática do 2º CEB, 52% do total desses professores. Portanto, neste item o número destes professores é maior do que o das atitudes negativas e menor do que o das 399 Análise de dados atitudes neutras. Contudo, foram 63 professores do 1º CEB, 23% dos 276 referidos, e 38 professores de Matemática do 2º CEB, 30% dos 127 mencionados, aqueles que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item. Portanto, neste item houve no global 101 justificações escritas, 25% dos 403 professores que pontuaram com 4 ou 5, numa taxa ligeiramente inferior à dos de atitude negativa e superior à dos de atitude neutra. Da análise dessas 101 justificações criaram-se 5 categorias, incluindo a categoria 0, que estão apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.51. Na categoria 0 foram incluídas as justificações sem informação, por exemplo: “Não é bem assim…”, “Sem dúvida” e “Concordo”. A categoria 1 – Gosto da Matemática/Estatística – agrupa as justificações dos professores que sentem que a Estatística os apaixona pois ajuda-os a ver objetivamente os problemas graças ao seu gosto e interesse pela Estatística, que surge associada também à Matemática, por vezes. Exemplos destas justificações são: “É um tema que sempre me motivou”, “Gosto de matemática em geral”, “Gosto de analisar informação pela estatística”, “Para quem ensina e tem o gosto por Matemática ou formação universitária com esta área é lógica alguma paixão ou encantamento” e “É uma matéria verdadeiramente interessante”. A categoria 2 – Permite a objetividade – que agrega as justificações para a concordância com o item colocando no centro, segundo o professor, a objetividade da Estatística para encarar os problemas e que contribui para estimular essa sua paixão. Exemplos destas justificações são: “Pela própria objectividade que proporciona a estatística”, “É uma ciência que proporciona essa objectividade”, “Os problemas parecem mais objectivos e mais simplificados porque ajuda a descodificar a complexidade de muitos problemas” e “É um dos contributos, mas não exclusivo, para ver os problemas objetivamente”. A categoria 3 – A Estatística é útil/necessária – agrupa as justificações que baseiam a paixão pela Estatística na ajuda para ver os problemas objetivamente na convicção de que a Estatística é útil e necessária, permitindo a abordagem de vários problemas. Exemplos destas justificações são: “Pode-se tornar útil”, “Através da Estatística pode ter-se uma visão correta da realidade”, “A organização, tratamento e interpretação dos dados facilita leituras. Permite a transversalidade com outras áreas disciplinares” e “Permite compreender certas realidades que de outro modo seria difícil”. A categoria 4 – Sim… mas não uso! – reúne as justificações de professores do 1º CEB em que estes assumem que a paixão pela Estatística é uma “paixão platónica” uma vez que praticamente não a usam. As justificações incluídas são: “Penso que isto é uma verdade 400 Análise de dados incontornável mesmo que nem sempre a aplique” e “Como referi anteriormente, não utilizo como gostaria de a utilizar”. Na Tabela 4.51 a categoria 0 apresenta percentagens relativamente baixas, mas superiores às da categoria 4. A categoria 3 é a mais significativa para os professores dos dois ciclos, centrando na utilidade e necessidade da Estatística a razão pela concordância com o item. A categoria 2 representa também razões com uma importância significativa, realçando a objetividade como característica da Estatística. Em termos percentuais surge em terceiro lugar a categoria 1, englobando as razões do gosto pela Estatística como justificação por esta paixão e pela ajuda que esta faculta nalguns problemas. Tabela 4.51: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 5 Atitudes Positivas 1º CEB 2º CEB fr fr f fr f fr f Categorias (Global) (Global) 5 8% 2% 2 5% 2% 7 0 – Sem informação 1 – Gosto da 6 10% 2% 4 11% 3% 10 Matemática/Estatística 19 30% 7% 12 32% 9% 31 2 – Permite a objetividade 11% 20 53% 16% 51 3 – A Estatística é útil/necessária 31 49% 2 3% 1% 0 0% 0% 2 4 – Sim… mas não uso! 63 100% 23% 38 100% 30% 101 Total Total 7% fr (Global) 2% 10% 2% 31% 50% 2% 100% 8% 13% 0% 25% fr Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor No item 5 a média da pontuação está ligeiramente acima do ponto de indiferença, com um valor de 3,16, sendo a média para os professores do 1º CEB de 3,07 e a dos professores de Matemática do 2º CEB de 3,48. Estes valores indicam uma atitude neutra ou favorável neste item que, como se viu no ponto 4.3 deste capítulo, apresenta diferenças significativas entre os ciclos em que os professores lecionam, entre os níveis de estudo da Estatística e, ainda, entre os ciclos da lecionação da Estatística. De uma forma geral estes professores consideram que nutrem uma paixão moderada em relação à Estatística como meio para ver os problemas objetivamente. Além disso, do ponto de vista positivo, as razões fundamentais são a objetividade que a Estatística pode proporcionar perante muitos problemas, a utilidade que a Estatística tem para encarar alguns problemas e o gosto intrínseco pela Estatística., Em termos dos aspetos negativos, associados às pontuações negativas ou neutras, destacam-se, com menor preponderância e em particular nos professores de Matemática do 2º CEB, a consideração de que a Estatística não é objetiva na abordagem dos problemas e que, muitas vezes, está envolta em manipulação e incorreções. Além disso, a área da Estatística não é a 401 Análise de dados sua predileta e/ou sentem não ter conhecimentos e formação suficientes em especial nos professores do 1º CEB. Estes últimos serão os aspetos a ter em conta para potenciar atitudes mais positivas em relação à Estatística ao nível afetivo e instrumental nalguns dos professores nestes ciclos do EB. 4.4.6. Análise dos resultados no item 6 No item 6 – A estatística só serve para as pessoas das ciências – 53 professores atribuíram uma pontuação associada a uma atitude negativa, ou seja, isto indica que estes 5% do total da amostra de professores concordam ou concordam totalmente com a afirmação deste item que tem a afirmação formulada no sentido negativo da atitude em relação à Estatística. Destes professores 48 são professores do 1º CEB, 6% do total desses professores, e 5 são professores de Matemática do 2º CEB, 2% do total desses professores. Estes valores mostram uma percentagem muito baixa de professores com uma atitude negativa neste item, sendo menor que a dos professores com atitudes neutras e muito menor que a dos professores com atitudes positivas. Contudo, foram 8 professores do 1º CEB, 17% dos 48 referidos, e 1 professor de Matemática do 2º CEB, 20% dos 5 mencionados, aqueles que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item. Neste item só houve 9 justificações escritas, 17% dos 53 professores com pontuação associada a uma atitude negativa. Da análise feita às 9 justificações criaram-se 2 categorias que estão apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.52. Neste caso a categoria 0 – Sem informação – não teve qualquer justificação que nela fosse enquadrável. A categoria 1 – Não é necessário no quotidiano – é constituída por duas justificações de professores do 1º CEB que consideram que a Estatística serve só para pessoas das ciências uma vez que esta não é necessária ou usada no quotidiano das pessoas em geral. Essas justificações são: “No dia-a-dia ninguém se vai dar ao trabalho de estudar estatística apenas para compreender melhor a realidade económica e social” e “Serve para quem se interessa pela ciência e não no quotidiano”. A categoria 2 – Serve essencialmente para as ciências – agrega as justificações para a concordância com o item considerando que a Estatística realmente serve sobretudo as pessoas ligadas à ciência. Exemplos destas justificações são: “Serve principalmente nessa área”, “Porque, como já referi antes, esses sim precisam dela para elaborar as suas hipóteses e para 402 Análise de dados testá-las e tirar conclusões” e “Geralmente é usada pelos estudiosos na matéria e que têm profissões ligadas à mesma. Mas há exceções”. Na Tabela 4.52 observa-se que o número de justificações é residual. No entanto, fica registado que só nas justificações dos professores do 1º CEB surge a categoria 1 que apresenta como razão para esta pontuação negativa que a Estatística não sendo usada no quotidiano, só serve e é utilizada regularmente pelas pessoas ligadas à ciência. Além disso, o principal tipo de justificação apontado pelos professores que pontuaram negativamente surge na categoria 2, indicando a convicção de que a Estatística serve e é necessária e é usada sobretudo na área das ciências. Tabela 4.52: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 6 Atitudes Negativas 1º CEB 2º CEB fr fr f fr f fr Categorias (Global) (Global) 0 0% 0% 0 0% 0% 0 – Sem informação 1 – Não é necessário no 2 25% 4% 0 0% 0% quotidiano 2 – Serve essencialmente para as 6 75% 13% 1 100% 20% ciências 8 100% 17% 1 100% 20% Total Total f fr 0 0% fr (Global) 0% 2 22% 4% 7 78% 13% 9 100% 17% Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor No item 6 foram 123 os professores que atribuíram uma pontuação de 3, ou seja, isto indica que estes 11% do total da amostra de professores não discordam nem concordam com a afirmação deste item. Destes professores 120 são professores do 1º CEB, 14% do total desses professores, e 3 são professores de Matemática do 2º CEB, 1% do total desses professores. Contudo, para este item foram 12 professores do 1º CEB, 10% dos 120 referidos, e 1 professor de Matemática do 2º CEB, 33% dos 3 mencionados, os que apresentaram uma justificação escrita para a sua pontuação. Neste item houve no global 13 justificações escritas, 11% dos 123 professores que pontuaram com 3, mantendo-se a tendência das não justificações nas atitudes neutras. Da análise feita às 13 justificações criaram-se 3 categorias, para além da categoria 0. Dado o diminuto número de justificações as categorias têm poucos casos, mas dão indicação das possíveis razões para estas pontuações neutras. Além disso, uma das categorias é semelhante a uma categoria definida para as atitudes negativas neste item e outra é semelhante a uma categoria referente às das atitudes positivas. Desta forma realça-se uma posição mais ou menos definida da posição neutra destes professores, isto é, pode ter na sua 403 Análise de dados génese aspetos mais negativos ou mais positivos. Estas categorias estão apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.53. A única justificação incluída na categoria 0 – Sem informação – é “Não concordo”. Na categoria 1 – Presente em vários domínios/Serve para todos – os professores indicam a sua nem discordância nem concordância com a afirmação do item baseados na constatação de que a Estatística nem sempre será usada apenas pelas pessoas das ciências, estando presente em diversas outras áreas e que poderá servir para todos. Exemplos de justificações nesta categoria são: “Não só mas também”, “Nem só” e “Toda a gente pode ter acesso, desde que seja bem leccionada e bem percebida”. Na categoria 2 – Serve essencialmente para as ciências – apenas está incluída a justificação “Em princípio” que mostra que o professor do 1º CEB aceita que a Estatística servirá para as pessoas das ciências, mas admitindo implicitamente haver exceções. Na categoria 3 – Falta de conhecimento ou formação – incluiu-se apenas a justificação “Não conheço o suficiente para dar opinião” em que um professor do 1º CEB invoca a falta de conhecimento para a sua posição de neutralidade em relação à afirmação do item. Na Tabela 4.53 as categorias 0, 2 e 3 têm uma importância pouco significativa e são apenas referentes a justificações de professores do 1º CEB. A categoria 1 é a que tem maior expressividade a nível global e nos professores dos dois ciclos, realçando que a posição neutra se baseia no facto de que a Estatística não é só usada apenas pelas pessoas das ciências, admitindo a existência de outros domínios em que a Estatística é também usada, mas em menor grau, e considerando inclusive que até no quotidiano de qualquer pessoa poderá ser feita essa utilização. Tabela 4.53: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 6 Atitudes Neutras 2º CEB fr fr f fr (Global) (Global) 1% 0 0% 0% 1º CEB f fr 1 8% fr (Global) 1% 33% 10 77% 8% 0% 0% 1 8% 1% 0 0% 0% 1 8% 1% 1 100% 33% 13 100% Categorias f fr 0 – Sem informação 1 – Presente em vários domínios/Serve para todos 2 – Serve essencialmente para as ciências 3 - Falta de conhecimento ou formação Total 1 8% 9 75% 8% 1 100% 1 8% 1% 0 1 8% 1% 12 100% 10% Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor 404 Total 11% Análise de dados No item 6 foram 922 os professores que atribuíram uma pontuação associada a uma atitude positiva, ou seja, isto indica que estes 84% do total da amostra de professores discordam totalmente ou discordam com a afirmação deste item. Destes professores 684 são professores do 1º CEB, 80% do total desses professores, e 238 são professores de Matemática do 2º CEB, 97% do total desses professores. Neste item este grupo de professores é claramente maior do que o das atitudes neutras e ainda maior do que o das atitudes negativas. Contudo, neste item foram 170 professores do 1º CEB, 25% dos 684, e 97 professores de Matemática do 2º CEB, 41% dos 238, aqueles que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída. Neste item houve no global 267 justificações escritas, 29% dos 922 professores com pontuação associada a uma atitude positiva, numa taxa superior à dos de atitude negativa e à dos de atitude neutra. Da análise feita às 267 justificações criaram-se 4 categorias, incluindo a categoria 0 das justificações sem informação relevante para a investigação, apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.54. Exemplos da categoria 0 – Sem informação – são: “Falta definir ciência”, “Estou a usar na tese de mestrado”, “Não é tanto assim” e “Então e as das outras áreas? E as outras pessoas?”. A categoria 1 – Todos a necessitam – agrupa as justificações dos professores que consideram que a Estatística não serve só para as pessoas das ciências dado a Estatística ser necessária a todos. Exemplos destas justificações são: “Cada vez mais todos precisamos de estar atentos e dominar as diferentes áreas do saber e do conhecimento”, “A Estatística pode ser útil em qualquer situação e para qualquer cidadão”, “Serve para qualquer pessoa, porque se veem os resultados de outra forma”, “Tem que ver com todos os cidadãos, toda a gente a utiliza empiricamente” e “É necessária para todos”. A categoria 2 – Presente em vários domínios ou no ensino – agrega as justificações para a discordância com a afirmação do item, onde se constata que a Estatística está presente em vários domínios do saber e da vida, incluindo no ensino. Exemplos destas justificações são: “A estatística serve e deve servir todos os ramos não somente das ciências”, “A estatística pode ser usada por todas as áreas e auxilia na organização de dados e na estruturação do pensamento”, “Em termos gerais, a Estatística pode ser usada pelas mais diversas ciências e pela sociedade, se devidamente instruída, que infelizmente não é o caso do povo português” e “A Estatística está presente em todas as áreas”. 405 Análise de dados A categoria 3 – Presente no quotidiano – reúne as justificações para a discordância com a afirmação do item e coloca a utilização da Estatística, não só na ciência, mas também no quotidiano. Exemplos destas justificações são: “Porque no dia-a-dia toda a gente usa estatística”, “A Estatística está presente no dia-a-dia das pessoas e permite compreender e interpretar diversos fenómenos, tantos matemáticos, como socias”, “Discordo porque se for bem utilizada poderá ajudar no quotidiano das diferentes pessoas (sejam pessoas das ciências ou não)”, “Qualquer pessoa no seu dia-a-dia faz Estatística: o consumo de água por cada mês do ano, gastos escolares por anos diferentes, etc.” e “A estatística está completamente integrada em todas as situações da nossa vida”. Na Tabela 4.54 observa-se que a categoria 0 não tem grande expressividade, sendo a percentagem maior nos professores do 1º CEB. A categoria 2 é a mais expressiva, tanto a nível global como nos dois ciclos; e para estes professores o centro da sua discordância é o de que a Estatística, para além do domínio das ciências, está presente em outras áreas. A categoria 1, com maior destaque nos professores do 1º CEB, é aquela em que as justificações para a sua discordância estão focadas na ideia de que a Estatística não serve apenas as pessoas das ciências, mas que serve/ou pode servir todas as pessoas. A categoria 3, com menor representatividade que as duas anteriores, indica que a presença e utilização da Estatística no quotidiano das pessoas é razão para que não se possa considerar que esta sirva apenas as pessoas das ciências. Tabela 4.54: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 6 Atitudes Positivas 1º CEB 2º CEB fr fr f fr f fr f Categorias (Global) (Global) 5 3% 1% 1 1% 0% 6 0 – Sem informação 63 37% 9% 27 28% 11% 90 1 – Todos a necessitam 2 – Presente em vários domínios 70 41% 10% 46 47% 19% 116 ou no ensino 32 19% 5% 23 24% 10% 55 3 – Presente no quotidiano 170 100% 25% 97 100% 41% 267 Total Total fr (Global) 2% 1% 34% 10% fr 43% 13% 21% 100% 6% 29% Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor No item 6, relacionado com a componente cognitiva e social, a média da pontuação está acima do ponto de indiferença, com um valor de 4,30, sendo a média para os professores do 1º CEB de 4,18 e a dos professores de Matemática do 2º CEB de 4,68. Estes valores indicam uma atitude bastante favorável neste item que, como se constatou no ponto 4.3 deste 406 Análise de dados capítulo, apresenta diferenças significativas entre os ciclos em que os professores lecionam, entre os níveis de estudo da Estatística e entre os níveis da lecionação da Estatística. Considerou-se que maioritariamente estes professores consideram que a Estatística não serve apenas as pessoas da Estatística. As razões fundamentais para tal, são a de que a Estatística está presente em mais domínios para além do das ciências, alargando a necessidade da Estatística a todos, nomeadamente pela presença útil da mesma no dia-a-dia de todas as pessoas. No entanto, e ainda que em menor número, os professores que atribuíram uma pontuação negativa ou neutra, e que contrastam com as razões referidas, mencionam basicamente considerar que realmente a Estatística serve essencialmente as pessoas das ciências, não sendo necessária e útil no quotidiano das pessoas em geral. Em todo o caso, ficou patente a existência de uma visão maioritária em que a Estatística é utilizável no dia-a-dia, mas que esta contrasta com a ideia transmitida no item 4 em que bastantes professores admitem não utilizar a Estatística no seu quotidiano. Assim, parece essencial que, para além da visão global sobre a importância e aplicabilidade alargada da Estatística que ficou clara neste item, se reforce e promova a visão dessa importância no concreto da vida de cada um, e em particular de cada professor. Isto poderá ser conseguido através de uma formação inicial e também formação contínua de professores que dê especial atenção a esta situação, bem como através da lecionação que tenha muitas vezes por base a realidade envolvente e exemplos concretos do dia-a-dia. 4.4.7. Análise dos resultados no item 7 Em relação ao item 7 – Estatística não serve para nada – 69 professores atribuíram uma pontuação associada a uma atitude negativa, o que indica que estes 6% do total da amostra de professores concordam ou concordam totalmente com a afirmação deste item que tem a afirmação formulada no sentido negativo da atitude em relação à Estatística. Destes professores 56 são professores do 1º CEB, 7% do total desses professores, e 13 são professores de Matemática do 2º CEB, 5% do total desses professores. Estes valores mostram uma percentagem muito baixa de professores com uma atitude negativa neste item, sendo menor que a dos professores com atitudes neutras e muito menor que a dos professores com atitudes positivas. Contudo, foram 3 professores do 1º CEB, 5% dos 56, aqueles que apresentaram uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item, não havendo qualquer justificação de professores de Matemática do 2º CEB, ou seja 0% dos 13. Portanto, 407 Análise de dados neste item houve no global 3 justificações escritas, 4% dos 69 professores com pontuação associada a uma atitude negativa. Da análise feita às 3 justificações apenas se definiu uma categoria, Tabela 4.55. Neste caso, a categoria 0 – Sem informação – não teve qualquer justificação enquadrável. A categoria 1 – Manipulação – que é única, reúne as três justificações dos professores do 1º CEB que consideram que a Estatística não serve para nada com base na manipulação que é feita através da Estatística. Essas justificações são “Depende dos objetivos que temos, pode ser-nos muito útil, exemplo se quisermos manipular opiniões”, “Serve para constatar o que nos querem impingir” e “Serve sempre para alguma coisa, nem que seja para mentir sobre esse assunto”. Tabela 4.55: Frequências das categorias associadas a atitudes negativas no item 7 Atitudes Negativas 1º CEB 2º CEB fr fr f fr f fr Categorias (Global) (Global) 0 0% 0% 0 0% 0% 0 – Sem informação 3 100% 5% 0 0% 0% 1 – Manipulação 3 100% 5% 0 0% 0% Total Total f fr 0 3 3 0% 100% 100% fr (Global) 0% 4% 4% Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor No item 7 foram 79 os professores que atribuíram uma pontuação de 3, ou seja, isto indica que estes 7% do total da amostra de professores não discordam nem concordam com a afirmação deste item, sendo todos estes professores do 1º CEB, 9% do total desses professores. Contudo, foram 8 professores do 1º CEB, 10% dos 79, os únicos a apresentarem uma justificação escrita para a pontuação atribuída neste item. Este valor reforça que os professores com uma atitude neutra tendem a justificar pouco as suas pontuações. Da análise às 8 justificações criaram-se duas categorias e, desta vez, não houve qualquer justificação na categoria 0. Apesar do diminuto número de justificações, as categorias dão algumas indicações das possíveis razões para as pontuações neutras dos professores. As categorias são apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.56. A categoria 1 – Serve para algo... – é a mais representativa, indicando que a pontuação neutra neste item reflete que os professores pensam que a Estatística servirá para algo, mas tendo implícita a ideia de que não será tão importante ou útil. Exemplos de justificações nesta categoria são: “Nalgumas situações é necessária e corresponde à 408 Análise de dados realidade”, “Para alertar para algo serve” e “Serve para aferir objetivos estabelecidos em projetos que posteriormente não têm aplicação real”. Na categoria 2 – Não tem formação ou conhecimentos – apenas está incluída a justificação “Não conheço o suficiente para dar opinião” que mostra que o professor do 1º CEB assume não ter conhecimento suficiente. Tabela 4.56: Frequências das categorias associadas a atitudes neutras no item 7 Atitudes Neutras 1º CEB 2º CEB fr fr f fr f fr f Categorias (Global) (Global) 0 - Sem informação 0 0% 0% 0 0% 0% 0 1 - Serve para algo... 7 88% 9% 0 0% 0% 7 2 - Não tem formação ou 1 13% 1% 0 0% 0% 1 conhecimentos 8 100% 10% 0 0% 0% 8 Total Total fr (Global) 0% 0% 88% 9% fr 13% 1% 100% 10% Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor No item 7 foram 950 os professores que atribuíram uma pontuação associada a uma atitude positiva, ou seja, isto indica que estes 87% do total da amostra de professores discordam totalmente ou discordam com a afirmação deste item. Destes professores 717 são professores do 1º CEB, 84% do total desses professores, e 233 são professores de Matemática do 2º CEB, 95% do total desses professores. Neste item o grupo de professores é maior do que o das atitudes neutras e ainda maior do que o das atitudes negativas. Contudo, foram 174 professores do 1º CEB, 24% dos 717, e 80 professores de Matemática do 2º CEB, 34% dos 233, os que apresentaram uma justificação escrita. Neste item houve no global 254 justificações escritas, 28% dos 950 professores com pontuação associada a uma atitude positiva, numa taxa superior à dos de atitude negativa e à dos de atitude neutra. Da análise das 254 justificações criaram-se 4 categorias, incluindo a categoria 0, apresentadas e quantificadas para cada um dos ciclos e para o total na Tabela 4.57. Exemplos de justificações incluídas na categoria 0 – Sem informação – são: “Para mim é mentira”, “Discordo totalmente”, “Obviamente falso” e “Sem comentários”. A categoria 1 – É útil e importante e/ou objetiva – agrupa as justificações dos professores que consideram que a Estatística não serve só para as pessoas das ciências dado a Estatística ser necessária a todos. Exemplos destas justificações são: “A Estatística serve um pouco para todas as áreas do saber e para todas as atividades profissionais”, “Serve para trabalhar melhor e com mais objectividade”, “Discordo. A estatística é útil em vários estudos 409 Análise de dados de observação e serve para estimar ou prever fenómenos e acontecimentos futuros”, “Praticamente todas as decisões importantes envolvem tratamento estatístico antes de serem tomadas” e “É uma ciência objectiva que serve como recurso para a leitura e compreensão rápida”. A categoria 2 – Se existe é porque é útil agrega as justificações para a discordância com o item alicerçadas na premissa de que se a Estatística existe é porque serve para alguma coisa. Exemplos destas justificações são: “Se não servisse para nada não teria razão de existir nem tão pouco de ser leccionada por pessoas formadas e devidamente esclarecidas, muito menos fazia sentido que o mundo a utilizasse nos mais variados estudos”, “Discordo porque se não servisse para nada não teria razão de existir” e “Se não servisse para nada não nos era metida pelos olhos a dentro, todos os dias, na comunicação social”. A categoria 3 – Serve no quotidiano – reúne as justificações que colocam a utilização da Estatística não só na ciência mas também no quotidiano. Exemplos destas justificações são: “Ajuda no dia-a-dia a obter respostas, a resolver problemas e a fazer escolhas”, “A Estatística é muito importante no dia-a-dia a todos os níveis”, “A estatística é indispensável para percebermos muitas situações do quotidiano”, “A estatística serve para estudar muitos aspectos importantes para a vida diária das pessoas” e “Ela está ligada ao quotidiano de cada um”. Na Tabela 4.57 a categoria 0 não tem grande expressividade, mas a percentagem é maior nos professores do 1º CEB. A categoria 1 é a mais significativa, ficando claro que o centro da sua discordância é o de que a Estatística serve para algo uma vez que é útil, necessária e objetiva. Na categoria 3, com maior destaque nos professores de Matemática do 2º CEB, as justificações para a sua discordância focam a ideia de que a Estatística serve bastante, pois está presente no dia-a-dia das pessoas. A categoria 3, com menor representatividade que as duas anteriores, mais sentida no grupo de professores do 1º CEB, representa a ideia de que a Estatística não pode não servir para nada, pois nesse caso não faria sentido existir, logo, como existe, é porque serve para algo. No item 7 a média da pontuação está bastante acima do ponto de indiferença, com um valor de 4,42, sendo a média para os professores do 1º CEB de 4,34 e a dos professores de Matemática do 2º CEB de 4,70. Estes valores indicam uma atitude bastante favorável neste item que está relacionado com a componente cognitiva e social. O item 7, como se constatou no ponto 4.3 deste capítulo, apresenta diferenças significativas entre os ciclos em que os professores lecionam, entre os níveis de estudo da Estatística e entre os níveis da lecionação 410 Análise de dados da Estatística. Considera-se que, maioritariamente, estes professores vêm a Estatística como útil e necessária, alargando inclusive essa utilidade e necessidade a todos, pela sua presença no dia-a-dia das pessoas. Ainda que em menor número, os professores que atribuíram uma pontuação negativa ou neutra, e que contrastam com a posição referida, dizem considerar que a Estatística não serve para nada devido à manipulação que lhe está subjacente ou que a Estatística para algo servirá, mas não para muito. Tabela 4.57: Frequências das categorias associadas a atitudes positivas no item 7 Atitudes Positivas 1º CEB 2º CEB fr fr f fr f fr Categorias (Global) (Global) 20 11% 3% 1 1% 0% 0 – Sem informação 14% 51 64% 22% 1 – É útil e importante e/ou objetiva 102 59% 19 11% 3% 3 4% 1% 2 – Se existe é porque é útil 33 19% 5% 25 31% 11% 3 – Serve no quotidiano 174 100% 24% 80 100% 34% Total Total fr (Global) 21 8% 2% 153 60% 17% 22 9% 2% 58 23% 6% 254 100% 28% f fr Valores arredondados às unidades, mas cálculos realizados sem arredondamentos Fonte: Elaborada pelo autor Neste item, como no caso do item 6, ficou patente a existência da ideia de que a Estatística se usa no no dia-a-dia, mas esta ideia contrasta com a transmitida no item 4 em que bastantes professores admitem não utilizar a Estatística no seu quotidiano. De igual modo são preconizadas abordagens na formação inicial e também na formação contínua de professores que possam dar ênfase às situações concretas de aplicação da Estatística no dia-a-dia das pessoas; bem como a promoção de um ensino que tenha por base exemplos reais do quotidiano social, económico e cultural dos alunos. 4.4.8. Análise dos resultados no item 8 No item 8 – É usual explicar aos meus colegas prob