Comércio internacional, segurança alimentar e agricultura familiar Setembro 2001 Comércio internacional, segurança alimentar e agricultura familiar UMA INICIATIVA ActionAid Brasil Grupo de trabalho em agricultura, meio ambiente e comércio da Rede Brasileira pela Integração dos Povos (Rebrip) COPYRIGHT ActionAid Brasil Rua Corcovado, 252 – Jardim Botânico CEP 22460-050 Rio de Janeiro – RJ Tel.: +(21) 2540-5707 – Fax: +(21) 2540-5841 Email: [email protected] Internet: www.actionaid.org.br COORDENAÇÃO EDITORIAL ActionAid Brasil EDIÇÃO Iracema Dantas REVISÃO FINAL Marcelo Bessa ILUSTRAÇÕES Marta Strauch PROJETO GRÁFICO Mais Programação Visual FOTOLITO Ace Digital IMPRESSÃO Grafitto – Gráfica e Editora TIRAGEM 1.200 exemplares O conteúdo desta publicação pode ser reproduzido, desde que citada a fonte. Sumário Apresentação ............................................................................................................................................ 5 Capítulo 1 ..................................................................................................................................................... 7 Liberalização comercial e agricultura familiar no Brasil Fernando Homem de Melo Capítulo 2 .................................................................................................................................................. 45 Integração nas Américas – uma abordagem a partir do rural Arnoldo de Campos, Marcos Antônio de Oliveira e Valter Bianchini Capítulo 3 .................................................................................................................................................. 83 Multifuncionalidade da agricultura familiar Adriano Campolina Soares Capítulo 4 .................................................................................................................................................. 95 Agricultura na OMC – estágio atual das negociações Arnoldo de Campos Apresentação A ActionAid Brasil integra a rede ActionAid internacional, que teve início em 1972 e possui sede na Inglaterra. A rede ActionAid trabalha com parceiros e comunidades em mais de 25 países na África, Ásia, América Latina e Caribe. Sua missão é apoiar esforços de eliminação da pobreza e de injustiça social, através de projetos de desenvolvimento local, políticas públicas em benefício dos pobres e excluídos, prevenção e reabilitação em tempo de emergências. Fundada em 1999, a ActionAid Brasil é uma organização não-governamental que busca a erradicação da pobreza através do empoderamento dos pobres e de suas organizações. Sediada no Rio de Janeiro, participa em projetos de desenvolvimento local em áreas urbanas do Sudeste e em áreas rurais do Nordeste, por meio de parcerias com outras ONGs e movimentos sociais. A ActionAid Brasil participa de campanhas nacionais que têm como objetivo o aumento do acesso e controle dos pobres na formulação e gestão de políticas públicas, como é o caso da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, da Campanha por um Brasil Livre de Transgênicos e da Campanha em Defesa da Segurança Alimentar, Agricultura Familiar e Meio Ambiente nas Negociações Comerciais Internacionais. A presente publicação se insere nessa última campanha. Comércio internacional e pobreza Os acordos internacionais de comércio atualmente em curso vêm remodelando a economia internacional e influenciando, de maneira decisiva, o desenvolvimento dos países pobres. Diante desse quadro, o Grupo de Trabalho em Agricultura e Meio Ambiente da Rede Brasileira pela Integração dos Povos (Rebrip) vem promovendo um esforço de análise e articulação de movimentos sociais, ONGs e universidades, visando influenciar a posição brasileira nas negociações comerciais em defesa da agricultura familiar, do meio ambiente e da segurança alimentar. 5 Os textos desta publicação demonstram que as posições defendidas pelo governo brasileiro nas negociações comerciais internacionais não têm levado em consideração as necessidades dos pobres ou dos agricultores familiares. Nesse sentido, o artigo de Arnoldo de Campos, Marcos Antônio de Oliveira e Valter Bianchini analisa as implicações para o meio rural do processo de integração proposto pela Área de Livre Comércio entre as Américas (Alca). As evidências aqui relatadas mostram a urgente necessidade de que os interesses dos pobres e agricultores familiares sejam levados em conta nas negociações comerciais internacionais em curso. No Brasil, a desigualdade está na raiz da exclusão social e da pobreza. A liberalização comercial da década de 90 veio aprofundar ainda mais essa desigualdade, principalmente se observarmos que a diminuição da renda na agricultura familiar está ocorrendo mais acentuadamente do que em outros setores da agricultura. Cabe destacar que 50% dos brasileiros em condições de pobreza encontram-se justamente no meio rural. O artigo do professor Fernando Homem de Melo aborda os impactos da liberalização comercial sobre a agricultura familiar, 6 fornecendo evidências que mostram como a liberalização comercial, associada às políticas monetária e cambial, aumentaram a exclusão desse setor. Contudo, os processos de liberalização não se encerraram na década passada. Ao contrário, esses processos tendem a aumentar nos próximos anos. Várias negociações regionais e multilaterais de comércio encontram-se em curso. Uma das mais importantes é a revisão do acordo agrícola da Organização Mundial do Comércio (OMC). O artigo de Arnoldo de Campos descreve a situação dessas negociações e analisa as diferentes posições dos diversos países e/ou blocos de países já apresentadas à OMC. Nesse artigo, destacam-se as posições brasileiras, que parecem se orientar muito mais para o acesso a novos mercados – e, portanto, aos interesses dos setores agroexportadores – do que à segurança alimentar ou à defesa da agricultura familiar. Nos últimos anos, também tem se incorporado aos debates travados no âmbito da OMC o conceito de multifuncionalidade. O artigo de Adriano Campolina Soares analisa e debate esse conceito, refletindo sobre as múltiplas funções, ou multifuncionalidade, da agricultura familiar brasileira. Com a publicação de Comércio internacional, segurança alimentar e agricultura familiar, esperamos contribuir para o debate e para inclusão – ou ampliação – das preocupações sobre o modelo de desenvolvimento rural, a agricultura familiar e a segurança alimentar nas estratégias brasileiras de negociação comercial. ActionAid Brasil Setembro de 2001 1 Liberalização comercial e agricultura familiar no Brasil 7 Liberalização comercial e agricultura familiar no Brasil Fernando Homem de Melo1 A década de 90 foi caracterizada por mudanças extremamente importantes na macroeconomia brasileira. Da década de 50 até 1990, com algumas diferenciações e nuances, predominou uma estratégia econômica largamente baseada no modelo de substituição de importações, modelo, aliás, com bastante prestígio nos diversos países da América Latina durante aquela época. Por inúmeras razões, esse modelo de desenvolvimento foi se esgotando. As duas crises do petróleo na década de 70, a subseqüente crise da economia internacional, o problema do endividamento externo e a estagnação da economia brasileira na década de 80 foram fatores importantes para esse esgotamento. A partir de 1990, entre outras mudanças, o Brasil passou a adotar uma estratégia de desenvolvimento inteiramente diferente da anterior. Da substituição de importações de produtos industriais, o país foi caminhando para um modelo com uma inserção maior na economia internacional, principalmente nos aspectos comercial, financeiro, tecnológico e de investimentos. Para muitos, isso significou que a economia brasileira tornou-se “globalizada”. Essa mudança macroeconômica foi muito clara, especialmente numa retrospectiva de dez anos. Mais difícil é identificar todos os efeitos na economia brasileira. Neste artigo, pretende-se identificar essa mudança especificamente no setor agropecuário e no contexto de seu componente da agricultura familiar. Em outras palavras, como essa importante mudança de política econômica afetou a agricultura familiar? Hoje, ao início de 2001, a economia brasileira é substancialmente mais aberta ao comércio internacional do que ao final da década de 80. Adicionalmente, as mudanças nas políticas monetária e cambial foram importantes, a inflação foi controlada. A resposta é difícil, mas a pergunta é válida: o que mudou em nossa agropecuária (principalmente a familiar) como resultado da radical alteração na orientação macroeconômica brasileira? 1 Professor titular do Departamento de Economia da FEA-USP e pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE). 9 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR 10 Modelo de desenvolvimento até 1989 e mudanças da década de 90 O esgotamento do modelo de substituição de importações pode, de certa maneira, ser caracterizado pelo baixíssimo crescimento do PIB na década de 80 (a chamada década “perdida”) e pela intensificação do processo inflacionário. Economia estagnada e próxima da hiperinflação era a situação em 1989, após o Plano Verão. As mudanças posteriores, iniciadas em 1990, foram muitas: a liberalização econômica e comercial, a reforma do Estado, as desregulamentações dos mercados de vários produtos, o Mercosul, a desindexação do Plano Real, o controle da inflação, as políticas monetária, cambial e outras mais. Entretanto, é preciso colocar o desenvolvimento brasileiro em melhor perspectiva. Ainda em 1940, 67% da população economicamente ativa no Brasil estava no setor primário.2 Pouquíssima mudança estrutural havia acontecido até então, apesar da crise mundial da década de 30. A economia brasileira era predominantemente agropecuária e cafeeira (mais cana-de-açúcar, algodão, cacau e produtos alimentícios de mercado interno). A década de 50, por sua vez, marcou o início, no Brasil, da política deliberada de substituição de importações, ao lado de outros países da América Latina e em linha com o pensamento econômico da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). Como analisado em Homem de Melo, “diversos países latino-americanos já enfrentavam problemas associados às altas taxas de crescimento demográfico, absorção de trabalho nas atividades agrícolas e lento crescimento das exportações de produtos primários, o grande contribuidor à receita de divisas”.3 Quais foram os instrumentos utilizados pelo governo brasileiro nessa deliberada estratégia de desenvolvimento? A correta identificação dos efeitos no setor agropecuário depende desses instrumentos. Os principais foram: elevadas tarifas de importação de produtos industriais, controles de câmbio, importações favorecidas de bens de capital, insumos básicos e bens intermediários, financiamentos subsidiados, investimentos em infra-estrutura básica e participação estatal em alguns setores industriais (mineração, siderurgia, eletricidade, entre outros). Em conseqüência da aplicação desses instrumentos, a economia brasileira passou a experimentar um rápido processo de transformação estrutural. Em 1970, por exemplo, a proporção da população economicamente ativa no setor primário já havia caído para 40,1%, e sua participação na renda nacional era de apenas 19,6%.4 Os incentivos setoriais e seus preços relativos mudaram. O setor industrial-manufatureiro passou a ser o motor do crescimento econômico brasileiro devido à substituição de importações. De modo 2 Veja BAER, W. Industrialization and Economic Development in Brazil. Homewood, Illinois. Richard D. Irwin, Inc., 1965. Em 1920, essa proporção era de 69,7%, indicando uma mínima mudança estrutural ocorrida em 20 anos. 3 Veja HOMEM DE MELO, F. Políticas de desenvolvimento agrícola no Brasil. In: SAYAD, J. (Org.). Resenhas de economia brasileira. São Paulo: Saraiva, 1979, p. 45–116. O trecho citado à página 49. 4 Veja HOMEM DE MELO, op. cit., p. 51. simplificado, esse foi o modelo de economia fechada, com inúmeras distorções, que predominou até 1990. A década de 70, com a crise do petróleo, marcou uma nova etapa de substituição de importações, passando a incorporar insumos básicos e bens de capital. tudo o mais constante, do incremento do produto agrícola, ainda que diferenciações pudessem ocorrer, inclusive por aspectos específicos da política voltada ao setor (açúcar e trigo). Os mais prejudicados tenderiam a ser os produtos de exportação, anteriormente citados, já que uma das conseqüências mais importantes do modelo de economia fechada seria a sobrevalorização da taxa de câmbio. O final da década de 80 registrou o agravamento do processo inflacionário brasileiro após o fracasso do Plano Cruzado. Economia com baixo crescimento e próxima da hiperinflação caracterizou o ano eleitoral de 1989. As mudanças propostas a partir do novo governo, em 1990, eram profundas. Reconhecia-se o esgotamento do modelo de substituição de importações, de economia fechada ao mercado internacional e de elevada participação do setor público na atividade econômica. Os anos iniciais da década de 90 foram de grandes mudanças econômicas e turbulências políticas. O processo inflacionário foi, finalmente, controlado por intermédio da política econômica do Plano Real, a partir de julho de 1994. Atualmente, a inflação é da ordem de 4,0–6,0% ao ano. A década de 90 foi marcada pela radical modificação da estratégia econômica brasileira. Houve a abertura econômica, nos aspectos comercial, tecnológico, financeiro e de investimentos, caracterizando uma maior inserção brasileira na economia internacional. As tarifas de importação, de modo geral, foram substancialmente reduzidas. O Mercosul foi implementado e, no contexto do comércio com Argentina, Uruguai e Paraguai, as tarifas de importação foram zeradas e uma tarifa externa comum (TEC) foi introduzida. Mudanças na política cambial ocorreram. As privatizações, polêmicas no início da década, foram obtendo apoio da sociedade. Problemas, todavia, ocorreram. Os maiores, em suas conseqüências ao setor agropecuário, estiveram associados às políticas cambial e monetária, nos aspectos de câmbio sobrevalorizado e juros elevados. Novamente, aparece a questão: como o setor agropecuário e a agricultura familiar foram afetados pela abertura econômica da década de 90? O que mudou relativamente ao período de economia fechada? Tipos de mercados agrícolas e efeitos das mudanças econômicas Essas são as primeiras questões levantadas neste artigo. Quem ganhou e quem perdeu com a passagem de uma economia brasileira internacionalmente fechada a uma outra progressivamente mais aberta? Existiram políticas compensatórias ao setor agropecuário? E a agricultura familiar? As respostas a essas questões passam pelo reconhecimento de que a atividade agrícola brasileira, em termos de produtos produzidos, assim como seus produtores, não é um conjunto homogêneo. Ao contrário, pode-se mencionar a coexistência de três grupos de produtos, que são os seguintes: LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL Muito resumidamente, esse modelo de crescimento econômico não seria estimulador, 11 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR a) produtos de comércio exterior ou comercializáveis no mercado internacional – nesse grupo, estão incluídos os produtos de exportação e os de importação. Os principais, entre os primeiros, são soja/derivados, café, açúcar, fumo, laranja/ suco, cacau, carnes bovina e de frango. Entre os de importação, há o trigo e, mais recentemente, algodão e leite. O mais importante a ressaltar é que a determinação dos preços internos desses produtos é mais (mas não unicamente) influenciada por duas variáveis: preços internacionais e taxa de câmbio (além dos custos internos de comercialização). Isso ocorreria mais intensamente quanto maiores fossem as exportações/importações no total da produção interna e menores fossem as intervenções governamentais (existiram preços administrados para açúcar e trigo, por exemplo). Nos casos dos produtos de importação, devem-se acrescentar as tarifas de importação, elevadas até 1989 e bem menores a partir de então; b) produtos de mercado interno (domésticos) ou não-comercializáveis internacionalmente em maior escala – nesse grupo, estão incluídos os produtos cuja perecibilidade impede um comércio internacional mais ativo (tomate, batata, certas frutas e verduras), assim como aqueles com pouca demanda internacional (feijão e 12 mandioca). A cebola teve seu comércio ativado em certas épocas do ano após a implementação do Mercosul.5 Os mercados desses produtos determinam os preços aos produtores, predominantemente, em função de variáveis ligadas às ofertas e demandas internas. A taxa de câmbio teria um efeito indireto, por meio dos efeitossubstituição na produção e no consumo a partir dos produtos do grupo (a); c) produtos de mercado interno (domésticos) que são comercializáveis no mercado internacional – nesse grupo, estão alguns produtos para os quais existe comércio internacional, mas o Brasil nele tem pouca ou nenhuma competitividade. Nesse caso, os preços internos têm como limite superior o preço CIF de importação e, como limite inferior, o preço FOB de exportação (ou o preço mínimo da política agrícola). No intervalo, entretanto, predominam as variáveis da oferta e da demanda internas na determinação dos preços aos produtores. Milho, arroz e suínos, principalmente os dois primeiros ao longo do tempo, são os principais produtos dessa categoria. Com o advento do Mercosul, o caso do arroz ficou alterado, em função da proximidade dos produtores da Argentina e Uruguai. Os preços-limite mencionados são diretamente afetados pela taxa de câmbio, pelos preços internacionais (as tarifas de importação influenciam o limite superior), enquanto os preços de equilíbrio no intervalo dependem dos preços dos produtos do grupo (a) e, portanto, via efeitosubstituição (produção e consumo), dependem da taxa de câmbio, principalmente com o passar do tempo. 5 Veja CAMARGO FILHO, W. P.; MAZZEI, A. R. Produção e mercado de cebola no Mercosul, 1990-98. Informações Econômicas, 29 (4): 19-30, 1999. As importações de cebola passaram de 58,8 mil toneladas (6,6% da produção brasileira) em 1990 para 392,3 mil (42,1% da nossa produção) em 1995, decaindo nos anos seguintes. Essas importações ocorrem nos meses de abril a junho. Essa classificação dos produtos agrícolas brasileiros em mercados com diferentes características não é nova. Entretanto, ela ficou mais refinada com o passar dos anos. Castro, em seu clássico estudo sobre a agricultura brasileira, já falava da coexistência de apresentar, além do setor exportador, uma agricultura de subsistência e, naturalmente, atividades de natureza urbana”.6 A maneira como os produtos foram divididos – comércio exterior e domésticos – teve origem em Homem de Melo.7 Naquele momento, a hipótese era de que um ritmo diferenciado de inovações tecnológicas entre produtos ao longo do tempo levaria à formação, em uma economia mais fechada, de mercados com diferentes formações de preços. A razão seria a maior/menor competitividade internacional resultante das inovações tecnológicas. Essa explicação seria mais válida para os grupos (a) e (c). O grupo (b) teria outras razões (perecibilidade, distância dos mercados e hábitos de consumo). Mendonça de Barros8 utilizou uma estrutura conceitual semelhante para analisar as grandes mudanças na economia agrícola brasileira na década de 70, quando houve uma expressiva expansão da agricultura de exportação e uma contração na de domésticos (alimentares). De outro lado, a literatura internacional9 passou a utilizar a expressão “semi-aberta”, visando descrever uma economia agrícola não inteiramente aberta ou fechada ao mercado internacional, em contraposição ao clássico estudo de Johnston e Mellor10 do início da década de 60. Nesse estudo, predominava uma visão mais próxima de economia fechada, na qual o comércio internacional de produtos alimentares ficava em um plano secundário. Produtos produzidos pela agricultura familiar brasileira Abramovay caracteriza a agricultura familiar de maneira precisa: “sem empregados permanentes e/ou sem mais de cinco empregados temporários em algum mês do ano”.11 Ao contrário, a agricultura patronal teria empregados permanentes e/ou mais de cinco empregados temporários em algum mês do ano. O objetivo deste artigo é traçar os efeitos, positivos e negativos, da política econômica da década de 90 sobre os produtos produzidos pela agricultura familiar. 6 Veja CASTRO, A. B. Agricultura e desenvolvimento econômico no Brasil. In: Sete ensaios sobre a economia brasileira. São Paulo: Forense, 1967, p. 79–144. Citação à página 96. 7 HOMEM DE MELO, F. B. Agricultura brasileira e disponibilidade de tecnologia. 1978. Tese (Livre Docência) – FEA-USP, São Paulo. 8 MENDONÇA DE BARROS, J. R. Política e desenvolvimento agrícola no Brasil. In: VEIGA, A. (Ed.). Ensaios sobre política agrícola. São Paulo: Secretaria da Agricultura, 1979, p. 9-35. 9 Veja MYINT, H. Agriculture and Economic Development in the Open Economy. In: REYNOLDS, L. G. (Ed.). Agriculture in Development Theory. Yale University Press, 1975, p. 327-54. 10 JOHNSTON, B. F.; MELLOR, J. W. The Role of Agriculture in Economic Development. American Economic Review, 51 (4): 566-93, setembro, 1961. 11 ABRAMOVAY, R. Agricultura, diferenciação social e desempenho econômico. Projeto IPEA-NEAD/MDA – Banco Mundial, São Paulo, FEA-USP, 2000. Citação à página 3. LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL dois subsetores: “Estruturas econômico-sociais mais complexas, estas nações deveriam 13 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Durante algum tempo, pelo menos entre os acadêmicos brasileiros, a terminologia 14 era de “pequena produção”, “agricultura de subsistência” e “agricultura de baixa renda”, expressões utilizadas de modo menos formal.12 Utilizava-se, também, o termo “camponeses” de um lado, e “empresários familiares”, de outro. 13 Este artigo adotará a metodologia de “pequena produção” para se chegar aos produtos produzidos pela agricultura familiar. Utilizando os dados do censo agropecuário 1995/96 (IBGE), serão identificados os produtos produzidos, predominantemente, pelas propriedades agrícolas abaixo de 100 hectares. Esse será o procedimento operacional para a parte empírica do trabalho. Antes, entretanto, é preciso ver as seguintes evidências. Rezende, ao estudar o “problema da produção de alimentos” no Brasil da década de 70, concluiu que, em ordem crescente, feijão e mandioca eram (censo agropecuário de 1975) produzidos em pequena escala/cultivos, seguindo-se milho e algodão arbóreo.14 Seguiram, em ordem para escalas maiores, arroz, fumo, laranja, algodão herbáceo, batata-inglesa, trigo, soja, tomate, cacau, café e cana-de-açúcar, sendo esta “certamente uma grande lavoura”. 15 Ao utilizar, alternativamente, o valor da produção do estabelecimento como base de comparação, a ordenação crescente foi a seguinte: feijão, mandioca, milho, arroz, soja, café, cacau, trigo e cana-de-açúcar, sempre com dados do censo agropecuário de 1975. Na linha de análise sobre “pequena produção”, destaca-se a contribuição de Santos.16 Avaliando o censo agropecuário de 1985, ele concluiu “que os estabelecimentos de até 50 ha participaram no ano de 1985 com 26,8% da produção de arroz, 52,4% de milho, 66,8% de feijão, 75,0% de mandioca, 34,7% de café, 25,8% de soja e 53,2% de algodão”. Ao rever a literatura sobre pequenos produtores, esse autor identificou quatro tipos de situações por eles vividas: produtores inseridos na economia de subsistência; produtores em fase de acumulação e trânsito até formas de economia familiar capitalizada; produtores dependentes principalmente de assalariamento; e produtores que buscam, no assalariamento e na parceria, a necessária complementação de renda. Esses grupos, evidentemente, não são estanques ao longo do tempo. Ao contrário, em um contexto dinâmico, com inovações tecnológicas e mudanças em mercados, e dependendo de certas precondições (os recursos ao dispor de cada um, por exemplo), produtores poderão passar de uma situação para outra. 12 Veja, por exemplo, PASTORE, J. Agricultura de subsistência e opções tecnológicas. Estudos Econômicos, 7 (3) : 9-18, 1977. 13 Veja KAGEYAMA, A. A. et al. Diferenciação camponesa e mudança tecnológica: o caso dos produtores de feijão em São Paulo. 10º Encontro da ANPEC, 1982, Águas de São Pedro, São Paulo. 14 REZENDE, G. C. Crescimento econômico e oferta de alimentos no Brasil. Revista de Economia Política, 6 (1) : 64-81, 1986. 15 Idem, ibidem, p. 68. 16 SANTOS, M. L. Abastecimento alimentar e o pequeno produtor. 1993. Tese (Doutorado) – IPE-FEA-USP, São Paulo. Citação à página 92. Mais recentemente, entretanto, Nunes apresentou uma justificativa para a existência de categorias do tipo “pequena produção”, como acima mencionado: “As dificuldades de operacionalizar o conceito de agricultura familiar com dados coletados a partir de contribuído para o surgimento de interpretações que reduzem o conceito de agricultura familiar a categorias como agricultura de subsistência (contraposta a uma agricultura comercial), pequena produção, ou campesinato”.17 Para o Incra,18 ao procurar quantificar a agricultura familiar, duas condições devem ser atendidas simultaneamente para que assim seja caracterizada: a direção dos trabalhos do estabelecimento é exercida pelo produtor, e o trabalho familiar é superior ao trabalho contratado. Operando com tabulações especiais do censo agropecuário 1995/96, esse trabalho chegou aos seguintes números: a agricultura familiar correspondia a 85,2% (4.139 mil estabelecimentos) do total de estabelecimentos; a 30,5% (107,8 milhões de ha) da área total; a 37,9% (R$ 18,1 bilhões) do valor bruto da produção; e a 25,3% (R$ 938 milhões) do financiamento total. De outro lado, ela ocupava 13,8 milhões de trabalhadores, sendo 1,3 milhão na forma de assalariados (permanentes e temporários). Esses são números extremamente expressivos, evidenciando a importância dessa categoria de produtores. A seção anterior deste artigo caracterizou os tipos de mercados agrícolas e seus respectivos produtos. O objetivo era poder identificar os efeitos das políticas econômicas, inclusive a abertura comercial, o que será feito em seguida. Entretanto, torna-se necessário caracterizar quais são os produtos predominantemente produzidos pela agricultura familiar. Nesse contexto, retornamos ao problema da operacionalização do conceito de agricultura familiar, mencionado anteriormente por Nunes. Isto é, para o prosseguimento da análise empreendida por este artigo, é preciso que essa identificação seja feita e, em seguida, os resultados devem ser cruzados com os tipos de mercados e seus produtos. O censo agropecuário de 1995/96 identificou a existência de 4.859.865 estabelecimentos agropecuários no Brasil, com uma redução de 941.944 estabelecimentos em relação ao levantamento de 1985. Isso já poderia ser uma indicação dos problemas econômicos enfrentados. Ocorreram reduções na área dos estabelecimentos, nas áreas em lavouras (permanentes e temporárias), nas matas plantadas e nas pastagens naturais. Aumentos verificaram-se apenas em pastagens plantadas. Do total de estabelecimentos, 89,3% correspondiam aos grupos de área total inferiores a 100 hectares, em um número de 4.339.859 estabelecimentos, com 20,0% da área total. Há, portanto, alguma correlação com os números do Incra para a categoria de agricultura familiar, o que favorece a utilização dos dados publicados do censo agropecuário 1995/96 para a identificação dos produtos produzidos pela agricultura familiar. 17 NUNES, R. Agricultura familiar: custos de transações, forma organizacional e eficiência. 2000. Tese (Doutorado) – IPE-FEA-USP, São Paulo. Citação à página 55. 18 INCRA. Novo retrato da agricultura familiar: o Brasil redescoberto. Ministério do Desenvolvimento Agrário, Brasília, Fevereiro, 2000. LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL matrizes teóricas que não contemplam a distinção das formas patronais e familiares têm 15 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Echenique,19 citado na tese de doutorado de Nunes,20 coloca três condições para a 16 correta caracterização da agricultura familiar: a agricultura como principal ocupação e fonte de renda da família; os membros da família fornecem a maior parte do trabalho empregado na atividade, e integração das unidades doméstica e produtiva. Visando sua análise empírica, Echenique classificou como familiares, no Brasil, aqueles estabelecimentos agropecuários com menos de 100 hectares, assim como indicando valores diferentes para outros países. Nesse contexto, este artigo utilizará a linha divisória de 100 hectares de área total para a identificação dos produtos produzidos pela agricultura familiar. A expectativa é de que exista uma bem razoável correlação com aquilo que seria obtido com a utilização da definição mais recente desse tipo de organização da produção agropecuária. Os resultados, obtidos com as tabelas publicadas do censo agropecuário 1995/96, estão indicados na Tabela 1. A operacionalização, para a finalidade deste artigo, do conceito de agricultura familiar exigiria tabulações especiais desse censo agropecuário. Isso será mencionado adiante. TABELA 1 Distribuição da produção agropecuária por grupos de área total, 1995/96 (em %) PRODUTOS < 10 10–100 100–1.000 1.000–10.000 > 10.000 Algodão 10,1 34,4 33,8 14,6 Amendoim 36,5 39,8 23,7 – 7,2 – Arroz 7,9 21,2 40,1 26,1 4,7 Batata 11,4 51,8 29,2 7,6 – Cacau 8,2 47,7 41,5 2,4 0,2 Café 9,3 45,0 40,9 4,7 0,1 Cana 1,0 11,0 38,2 40,0 9,8 Cebola 74,5 19,0 6,5 – – Feijão 26,4 44,6 20,4 7,7 0,9 Fumo 38,1 60,3 1,6 – – 4,6 32,9 43,3 16,8 2,4 Laranja Mandioca Milho 35,0 50,0 12,8 2,1 0,1 8,5 35,9 35,8 17,9 1,8 4,2 Soja 1,7 23,4 39,9 30,9 Sisal 28,5 53,5 18,0 – – Tomate 30,2 37,1 25,2 7,3 0,2 Trigo 2,5 42,9 43,7 10,9 – Uva 29,9 60,8 6,3 3,1 – Bovinos 3,6 19,9 39,7 31,3 5,6 Suínos 21,8 59,4 15,9 2,6 0,3 Frangos 23,8 56,9 17,7 1,5 0,1 47,6 39,3 5,1 0,2 Leite 7,8 Fonte: censo agropecuário de 1995/96; elaboração do autor. 19 ECHENIQUE, J. Tendencias y Papel de la Tecnologia en la Agricultura Familiar del Cone Sur. Montevideo: PROCISUR/BID, 1999. 20 NUNES, op. cit., p. 55. Foram 22 os produtos considerados nesse levantamento, sendo 18 vegetais e 4 animais. Isso se tornou delimitado pela existência de dados para preços recebidos pelos produtores, o que será fundamental na parte empírica deste artigo. Isto é, não bastava a exigiria dados de preços e de valores da produção, situação que limitou o levantamento ao uso desses 22 produtos que têm séries de preços divulgadas, na revista Agroanalysis, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Na realidade, a lista de produtos contidos no censo agropecuário é maior do que os 22 mostrados na Tabela 1. Nessa tabela, 15 dos 22 produtos mostram a distribuição da produção em cinco grupos de área total, sendo dois desses grupos abaixo de 100 hectares. Os demais sete, por seu lado, têm apenas três grupos de área total, sendo os dois primeiros abaixo de 100 hectares. Os números da Tabela 1 nos permitem chegar à seguinte classificação: AGRICULTURA FAMILIAR AGRICULTURA PATRONAL Amendoim Algodão Batata Arroz Cebola Cacau Feijão Café Fumo Cana-de-açúcar Mandioca Laranja Sisal Milho Tomate Soja Uva Trigo Suínos Bovinos Frangos Leite A comparação dessas duas listas com os produtos mencionados nos trabalhos revistos anteriormente mostra uma razoável concordância, apesar de o número dos produtos considerados ser diferente. Adicionalmente, os momentos foram diferentes. Por exemplo, as transformações mais recentes nos padrões de produção de algodão e milho podem tê-los colocado, na década de 90, entre os produtos produzidos pela agricultura patronal (por exemplo, algodão em Mato Grosso e seu declínio no Paraná e em São Paulo). De outro lado, as tabulações especiais do censo agropecuário 1995/96 (Projeto de Cooperação Técnica Incra/FAO) divulgado em Agroanalysis (setembro de 2000) mostraram os seguintes resultados: “Os agricultores familiares produzem 24% do VBP [valor bruto da produção] da pecuária de corte, 52% da pecuária de leite, 58% dos suínos e 40% das aves e ovos produzidos. Em relação a algumas culturas temporárias e permanentes, a agricultura familiar produz 33% do algodão, 31% do arroz, 72% da cebola, 67% do feijão, 97% do fumo, 84% da mandioca, 49% do milho, 32% da soja, 46% do trigo, 58% da banana, 27% da laranja, 47% da uva, 25% do café e 10% do VBP da cana-de-açúcar” (p. 37–38). Novamente, a concordância com a classificação aqui proposta é bem razoável, sendo exceção a produção de frangos. LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL disponibilidade de dados de produção através do censo agropecuário. A parte empírica 17 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR 18 Efeitos agrícolas da política econômica da década de 90 Como descrito na segunda seção deste artigo, a mudança de orientação estratégica da política econômica brasileira a partir de 1990 foi radical. Muito resumidamente, o país passou de uma economia fechada, baseada no modelo de substituição de importações, para uma economia bem aberta, nos aspectos comercial, tecnológico, financeiro e de investimentos. Nesse contexto, ao se procurar analisar os efeitos, positivos e negativos, dessa mudança, não se pode ficar limitado apenas à liberalização comercial, entendida como a redução das tarifas de importação de produtos e insumos agropecuários (e dos não-agrícolas). As bases monetária, fiscal e cambial são importantes, assim como as diferentes ênfases da política agrícola (crédito, preços mínimos e estoques reguladores) ao longo do tempo. A hipótese a ser testada neste artigo é de que as mudanças ocorridas no conjunto dessas políticas foram prejudiciais à rentabilidade do setor agrícola como um todo e, em particular, à rentabilidade da agricultura familiar, principalmente através dos preços de seus produtos. O sentido prejudicial não é apenas em relação ao período de economia fechada. Afinal, o modelo em uso até 1989 mostrava claros sinais de esgotamento e não deveria ser continuado. Ao contrário, ele se refere, também, a uma possível combinação diferente de políticas fiscal, monetária, cambial e comercial na década de 90, que, por sua vez, pudesse ter alcançado os mesmos objetivos de estabilização econômica e abertura comercial, sem os excessivos custos da política adotada. Antes, contudo, é preciso integrar os tipos de mercados agrícolas com os produtos produzidos pela agricultura familiar brasileira. Isso é feito a seguir. A letra D indica o tipo de mercado “produtos domésticos”, enquanto a letra X indica o tipo “produtos de comércio exterior”, sejam eles de exportação ou de importação: AGRICULTURA FAMLIAR AGRICULTURA PATRONAL Amendoim : X/D Batata : D Cebola : D/X Feijão : D Fumo : X Mandioca : D Sisal : D Tomate : D Uva : D Suínos : D Frangos : X/D Leite : D/X Algodão : X Arroz : D/X Cacau : X Café : X Cana-de-açúcar : X Laranja : X Milho : D/X Soja : X Trigo : X Bovinos : X Em algumas circunstâncias, um determinado produto é identificado duplamente como D/X ou X/D. Isso significa que o produto em questão evoluiu de um para outro tipo de mercado ao longo do tempo, ou, alternativamente, o mercado desse produto funcionou, entre anos/meses, como D ou X. Neste caso, estão milho, arroz e cebola. Adicionalmente, não se deve confundir o tipo de mercado “produtos domésticos” com a categoria genérica de “produtos alimentares”. Estes podem estar em X ou D. A conclusão que fica é que a agricultura familiar brasileira produz, predominantemente, produtos domésticos, ainda que nem todos sejam produtos alimentares (fumo, por exemplo). De outro lado, a agricultura patronal produz, predominantemente, produtos importantes (como o trigo). Essa é uma conclusão interessante e provoca a questão do porquê disso. Isso fica como uma outra questão levantada por este artigo. Rezende, ao tratar o problema da produção de alimentos na década de 70, indica que o motivo estaria no fato de que a situação subcapitalizada dos pequenos produtores de alimentos os impede de “entrar nas demais atividades agrícolas e assim obter a taxa de retorno maior (ou com menor grau de risco)”.21 Um ritmo diferenciado de inovações tecnológicas também poderia levar a isso,22 via maior competitividade. Após essa caracterização, é preciso retornar à mudança do modelo de desenvolvimento econômico brasileiro a partir de 1990. A mudança principal, como se viu, foi a liberalização comercial ou a gradual passagem de uma economia fechada para uma economia substancialmente mais aberta, por reduções das tarifas de importação de uma enorme gama de produtos. Paralelamente, ocorreu também gradual implementação do Mercosul (integração comercial de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), com, via de regra, tarifas de importação zeradas. A abertura comercial a partir de 1990, tudo o mais constante, deveria provocar uma desvalorização da taxa de câmbio real, pelo efeito aumento da demanda de importações (anteriormente reprimidas). Isso, aliado às reduções de preços internos de insumos comercializáveis externamente, como fertilizantes, medicamentos, equipamentos e defensivos, em função das menores tarifas de importação, deveria identificar um primeiro grupo de ganhadores, isto é, os produtores de produtos de exportação (em comparação ao período de economia fechada). Eles teriam tido preços maiores de seus produtos (via câmbio) e menores custos de produção (via menores tarifas de importação de insumos). Para os demais grupos de produtos, os efeitos da liberalização comercial seriam menos claros. Isto é, para eles teríamos de considerar, além desses dois efeitos favoráveis, o efeito desfavorável das reduções das tarifas de importação dos respectivos produtos – produtos de importação do grupo (a) e do grupo (c) –, além do “efeito Mercosul”. Entretanto, como mostrado através do Gráfico 1, a abertura comercial brasileira não veio acompanhada de desvalorizações reais da taxa de câmbio. Parece ter havido uma tentativa, pela política econômica, de que isso ocorresse, principalmente em 1991 (taxa de câmbio nominal deflacionada pelo IGP-DI). Entretanto, essa tentativa já havia sido revertida em 1993. Os anos de 1994 e 1995, por seu lado, marcaram o início da chamada “âncora” cambial do Plano Real, tão importante (mas custosa) para o controle do processo inflacionário brasileiro. De 1996 a 1998, tivemos câmbio real estável e, em 1999, a 21 REZENDE, op. cit., p. 73. 22 Veja HOMEM DE MELO, F. B. O problema alimentar no Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 1983. Isto é, produtos com mais inovações poderiam tornar-se produtos de exportação, internacionalmente competitivos. LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL de comércio exterior (exportação e importação), alguns deles sendo produtos alimentares 19 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR forçada desvalorização da moeda. Esse longo período de valorização cambial marca o 20 atual grande problema acumulado da economia brasileira: os expressivos crescimentos das dívidas externa e interna, conseqüências da circunstância de se ter adotado uma política monetária de elevados juros reais. Ao analisarem o Plano Real e a sua dependência de juros elevados e câmbio valorizado, Pastore e Pinotti se expressaram da seguinte maneira: “se a defesa da taxa cambial tiver que repousar neste tipo de política monetária, o mínimo que deveremos esperar são custos sociais muito elevados, sem que se ganhe significativamente na restauração do equilíbrio externo. O desaquecimento da economia, em uma circunstância como esta, teria que ser realizado reduzindo o consumo do governo, o que significa uma política fiscal contracionista, cujos efeitos são neutros sobre a taxa de juros e, conseqüentemente, evitam a valorização cambial”.23 Examinando-se, novamente, o Gráfico 1, percebe-se uma bem razoável correlação entre a evolução temporal da taxa de câmbio real e do índice de preços recebidos pelos produtores agrícolas 24 de São Paulo. Na tendência da década, a valorização da taxa de câmbio real foi repassada aos preços dos produtos, isto é, menores preços aos produtores. O “Índice de Preços Recebidos”, mostrado no Gráfico 1, inclui 11 produtos dos três tipos de mercados anteriormente analisados. Eles são os seguintes: feijão, milho, soja, algodão, batata, laranja, arroz, café, bovinos, frangos e suínos. Portanto, é muito interessante notar-se que um conjunto heterogêneo de produtos, no contexto da diferente formação de seus preços, foi afetado pelas variações da taxa de câmbio no período de uma década. Isso é uma indicação da importância da variável macroeconômica taxa de câmbio, pois, inclusive, os preços de produtos domésticos podem ter sido negativamente afetados. Isso será examinado mais adiante, na parte empírica do artigo. GRÁFICO 1 Evoluções dos índices da taxa de câmbio real e dos preços recebidos, 1989/2000 (1989 = 100) Fonte: IEA e FGV. Elaboração do autor. 23 PASTORE, A. C.; PINOTTI, M. C. A questão do câmbio e o controle da inflação. Gazeta Mercantil, 9-11 de junho, 1995. Citação à página 3. 24 Essa correlação para o período 1989/96 é examinada em HOMEM DE MELO, F. Os efeitos negativos da política cambial sobre a agricultura brasileira. Economia Aplicada, 3 (nº especial) : 35-46, 1999. Insistindo nesse ponto, como é que os preços de produtos domésticos podem ter sido negativamente afetados por um período de valorização da taxa de câmbio real? Os caminhos são dois: efeito-substituição na produção, e efeito-substituição no consumo. O primeiro e milho, feijão, mandioca e arroz, de outro, principalmente na região Centro-Sul. O segundo ocorre via preços relativos nas funções demanda no mercado interno. Talvez o melhor exemplo seja o do trigo (farinha, massas, pão) e seus produtos substitutos nos hábitos alimentares (arroz/feijão, batata, farinhas de milho e mandioca). Isto é, a valorização cambial, ao rebaixar o preço do trigo, produto X (de importação), levaria, por substituições no consumo, também a menores preços de seus produtos substitutos; tanto mais isso ocorreria quanto maior fosse o período de tempo da valorização cambial. Esta, como vimos, foi de uma década. Essa possibilidade será empiricamente examinada mais adiante neste artigo. De outro lado, as bases monetária e cambial, principalmente do Plano Real, provocaram o efeito desfavorável do aumento das importações de produtos agroindustriais. Uma razão para isso foi a arbitragem financeira de juros. Juros elevados (“âncora monetária”) no Brasil, câmbio valorizado e importações com financiamento levaram a um substancial aumento dessas importações. Os números são os seguintes:25 US$ MILHÕES 1987/89 1.731 1995/97 6.974 Houve, portanto, um aumento das importações agroindustriais de 303% no período em questão. As importações de leite e derivados, em especial, cresceram substancialmente, chegando a US$ 521 milhões em 1998. A desvalorização cambial brasileira de janeiro de 1999 começou a reverter esse processo (e da arbitragem financeira). Uma boa parte desse aumento de importações de produtos agroindustriais deveu-se ao tipo (o “mix”) de política macroeconômica adotada pelo Brasil, o que não teria ocorrido caso tivesse sido outra a política adotada, como anteriormente indicado. É importante ressaltar que esse substancial aumento das importações agroindustriais não pode ser inteiramente creditado à liberalização comercial em seu aspecto positivo, de eficiência econômica entre países. Em resumo, o setor agropecuário brasileiro teve, na década de 90, de se adaptar ao seguinte: a) política monetária de juros elevados; b) política cambial de câmbio sobrevalorizado; c) importações financiadas, para se auferir o benefício do diferencial de juros (pelos importadores). 25 Dados do professor Marcos Jank, ESALQ/USP. LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL ocorre via mercado de fatores nas produções de X e D, sendo exemplos soja, de um lado, 21 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Foi nesse quadro já desfavorável que veio a liberalização comercial, na forma de menores 22 tarifas de importação de produtos agroindustriais (zero no Mercosul). Em princípio, esse processo, iniciado em 1990, não estaria errado. Afinal, como já foi observado, seria a gradual passagem de uma economia excessivamente fechada para uma mais aberta. Ao final da década de 80, as tarifas de importação desses produtos eram bastante elevadas, muitas vezes superando a alíquota de 50%. Como comparação, as tarifas de importação foram as seguintes (a chamada Tarifa Externa Comum/TEC dos países do Mercosul)26 em 2000: Carne bovina Arroz Milho Trigo Farinha Feijão Fibras (algodão, juta e sisal) Frutas Hortaliças/legumes Leite/derivados Óleos vegetais Ovos Vinho 13–19% 13% 11% 13% 13–15% 13% 6–11% 13% 13% 19–33% 13–15% 11% 23% Desse modo, o Brasil está, hoje, trabalhando com tarifas de importação substancialmente menores que as do período de economia fechada, o que o caracteriza como um país bem mais aberto ao comércio internacional de produtos agroindustriais. Entretanto, é muito provável que essa maior abertura tenha sido feita em um grau excessivo. Por quê? Por duas razões: o mix de política macroeconômica da década de 90 já favorecia, excessivamente, as importações, como visto acima; a política de reduções tarifárias ignorou a existência de um elevado protecionismo agrícola nos países industrializados. A existência desse protecionismo provoca sérias distorções no mercado internacional de produtos agroindustriais, principalmente ao causarem menores preços de equilíbrio e alterações de fluxos comerciais.27 O acordo da Rodada Uruguai foi concretizado ao final de 1993, e sua implementação foi iniciada em 1995. Nele, ocorreu uma parcial remoção das distorções do comércio mundial de produtos agrícolas, em parcelas redutoras que vieram até 2000. Entretanto, as evidências que foram obtidas em estudos especializados nos levam à conclusão de que o Brasil reduziu, de modo excessivo, suas tarifas de importação de produtos agroindustriais. Um estudo da época estimava os seguintes aumentos de preços internacionais de equilíbrio na eventualidade da completa eliminação das políticas protecionistas dos países industrializados: 28 26 CONAB. Indicadores da Agropecuária, 08 (10) : p. 46, 1999. 27 Veja KOESTER, U. International Trade and Agricultural Development in Developing Countries: Significance of the Uruguay Round of GATT Negotiations. Agricultural Economics, 8 (1993), 275-294. 28 Magnitudes obtidas com os dados de GOLDIN, I. et al. Trade Liberalisation: Global Economic Implications. Paris: OECD e Banco Mundial, 1993, p. 91. Arroz Grãos forrageiros 30,2% 5,6% 19,0% Carne bovina 27,0% Lácteos 52,6% Algodão 15,6% Açúcar 59,3% Óleos vegetais 17,7% Uma interpretação desses números leva à seguinte questão: qual deveria ser a correspondente modificação nas tarifas de importação para “compensar” as distorções do protecionismo agrícola internacional? Nesse contexto, a comparação com as alíquotas que o Brasil utiliza, acima revistas, indica que elas foram fixadas, com essa liberalização comercial, em magnitudes excessivamente baixas. Isto é, elas desconsideraram a existência de grandes distorções no mercado internacional de produtos agroindustriais. Esses números são apresentados no contexto de meados da década de 90. É provável que uma nova avaliação, tão necessária hoje, resulte em números diferentes, possivelmente menores, em função das mudanças ocorridas, principalmente as da implementação das medidas da Rodada Uruguai. Como observado, as importações brasileiras de produtos agroindustriais aumentaram expressivamente na década de 90. Em 1998, antes da correção cambial, seus valores foram os seguintes:29 US$ MILHÕES Trigo-grãos 814 Legumes e frutas 979 Lácteos 521 Algodão em bruto 527 Arroz 545 Óleos, gorduras, ceras 414 Carne e preparados 199 Milho 195 Alho 109 Total 6.852 Com a desvalorização cambial de janeiro de 1999, o total das importações agropecuárias foi reduzido a US$ 4.978 milhões no ano, ou seja, uma diminuição de 27,3%. Isso é mais uma evidência de como a política cambial prejudicou o setor agrícola durante a década de 90. Na realidade, esse prejuízo foi o resultado de juros elevados, câmbio valorizado, importações financiadas (arbitragem de juros) e excessivamente baixas 29 CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA AGRICULTURA. Indicadores Rurais, jan./fev., 2000. LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL Trigo 23 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR tarifas de importação. Ao final desse longo processo, a economia brasileira teve um cresci- 24 mento estagnado (0,22% em 1998 e 0,79% em 1999), prejudicando também a demanda interna de produtos agrícolas. Esses eventos desfavoráveis deveriam provocar, tudo o mais constante, menores preços aos produtores e menores rentabilidades, principalmente do subgrupo produtos de comércio exterior, constituído por dez produtos acima identificados. Entretanto, nem tudo ficou constante. O mais importante é que a liberalização comercial e a valorização cambial causaram a ocorrência de menores preços de insumos importados ou com similares nacionais. Isso não apenas favoreceu, por menores preços internos, maiores importações (e uso na agricultura) de insumos convencionais, como fertilizantes e defensivos, mas também possibilitou a importação de novos insumos, como uma enorme gama de máquinas e implementos agrícolas, vários de última geração, vacinas e medicamentos veterinários. O caso de matérias-primas para a produção de fertilizantes é um bom exemplo. Até 1988, as tarifas de importação de amônia anidra, ácido fosfórico, superfosfato triplo, fosfato monoamônio e fosfato diamônio estavam contidas no elevado intervalo de 40–50%. As de rocha fosfática e ácido sulfúrico eram de 30%. Tarifas baixas existiam para uréia (15%) e superfosfato simples (5%). Em 1995, de outro lado, essas alíquotas das tarifas de importação já eram substancialmente menores, pois todos esses produtos citados tinham alíquotas contidas no intervalo zero–6,0%. A partir de então – e, inclusive, como resultado de negociações no âmbito do Mercosul – essas alíquotas foram ligeiramente aumentadas:30 MATÉRIA-PRIMA Amônia Ácido fosfórico Enxofre Rocha fosfática 4,0% 5,0–13,0% 3,0% 3,0% Produto intermediário 3,0–9,0% Produto formulado 3,0–9,0% No caso de defensivos – inseticidas, fungicidas e herbicidas –, os seus produtos formulados têm, atualmente, tarifas de importação de 11–17%, portanto, um pouco maiores que as de produtos formulados de fertilizantes. Para máquinas e implementos agrícolas – tratores, colheitadeiras e implementos –, as alíquotas estão entre 5–20%. Esse rebaixamento de tarifas de importação de insumos agropecuários ocorrido na década de 90 foi repassado aos preços pagos pelos produtores. Por exemplo, entre 1990 e 1997, o preço real pago pelos produtores nas compras de fertilizantes caiu 44% (deflator, IGP-DI). No mesmo período, o de defensivos diminuiu 35%. Ao contrário, os preços de sementes, insumo pouco comercializável externamente, não apresentou tendência de queda.31 30 CONAB, op. cit., p. 46. 31 Veja HOMEM DE MELO, F. Uma proposta de política agrícola para o Brasil. São Paulo: FEA-USP, 1997, p. 67. Trabalho não publicado. Essas mudanças provocaram alterações nos preços relativos dos insumos utilizados na produção e viabilizaram a introdução de novos insumos que, até então, não eram importados em função de elevadas tarifas. Ficou diminuído o preço desses insumos “modernos”, sua vez, é o fator básico de produção da agricultura familiar. Essas reduções de preços de insumos deveriam provocar, tudo o mais constante, aumentos dos índices de produtividade na agricultura brasileira. Entretanto, isso precisa ser qualificado. Determinados produtos e produtores seriam mais beneficiados do que outros. Os produtos com mais inovações tecnológicas, com produtores mais capacitados a interpretar essas inovações e as mudanças de mercado, mais capitalizados ou com mais acesso ao crédito rural, tenderiam a ser mais beneficiados.32 Nesse contexto, a liberalização comercial na área de insumos deve ser encarada como uma condição necessária, ainda que não suficiente, ao crescimento da produtividade na agricultura familiar. Para completar esta seção do artigo, é preciso, ainda que brevemente, analisar as principais mudanças ocorridas na política agrícola governamental. Houve, em resumo, uma drástica redução das intervenções do Estado com respeito a preços mínimos, estoques reguladores e crédito agrícola. A exceção a essa tendência ficou com a criação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Esse bem sucedido e inovador programa disponibilizou, em 1999, R$ 2 bilhões em empréstimos à agricultura familiar. Para tanto, foram gastos R$ 94 milhões em equalização de juros e R$ 153 milhões em custos administrativos.33 Isso não é muito, considerando-se a política monetária de juros elevados e o baixo valor unitário dos empréstimos. Esse foi o lado bom da política de crédito agrícola. Ela corrigiu uma distorção do passado, em que os maiores empréstimos eram privilegiados e, até mesmo, subsidiados. As taxas de juros do Pronaf são baixas, estando no intervalo de 1,0–4,0% ao ano para investimento, dependendo da renda anual dos produtores. Os assentados da reforma agrária têm uma taxa de 1,15% ao ano; empréstimos de custeio do Pronaf são, atualmente, feitos à taxa anual de 5,75%. Isso pode ser comparado à taxa de 8,75% nos financiamentos normais do crédito agrícola (os chamados “recursos controlados” do Sistema Nacional de Crédito Rural/SNCR), assim como a uma inflação da ordem de 4,0–6,0% ao ano. Entretanto, os recursos disponibilizados pelo SNCR sofreram pesadas perdas com o passar do tempo, como mostram os dados da Tabela 2. Não se pretende, com essa comparação, defender o retorno simples a uma política de crédito abundante e, muitas vezes, altamente subsidiado.34 Todavia, a comparação do início com o fim da década de 90 32 Veja SANDERS, J. H.; LYNAM, J. K. New Agricultural Technology and Small Farmers in Latin America. Food Policy, (fevereiro 1981): 11-18. Os autores argumentam que uma nova política de apoio aos pequenos produtores deveria, além de inovações tecnológicas, incluir os insumos educação e extensão de maneira melhorada, assim como o acesso ao crédito e a outros insumos complementares à utilização da nova tecnologia. 33 Veja ABRAMOVAY, R. Custos de uma política social necessária. Gazeta Mercantil, 31 de jul. 2000, p. A-3. 34 Veja MUELLER, C. C. Políticas governamentais e expansão recente da agropecuária no Centro-Oeste. Planejamento e Políticas Públicas, 03 (jun. 1990) : 45-74. LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL comprados de firmas no mercado, principalmente os relativos à mão-de-obra. Esta, por 25 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR parece muito significativa para se evidenciar a perda de importância da política de crédito agrícola. Entre o triênio 1990/92 e o qüinqüênio do Plano Real, 1995/99, a redução dos empréstimos foi de R$ 15.448 milhões para R$ 10.101 milhões (-34,6%). Isso ocorreu, exatamente, junto à desfavorável política macroeconômica, analisada anteriormente. Na avaliação de Villa Verde, “a política de garantia de preços mínimos vem passando por um processo de ajuste que busca adequá-la às limitações dos gastos públicos e à abertura da economia”.35 Isso teria levado a uma drástica redução do papel governamental em suas funções como estabilizador dos preços dos produtos agrícolas de mercado interno e como financiador da comercialização (em uma economia com elevadas taxas de juros). Essa redução do papel governamental representa, antes de tudo, um equívoco conceitual.36 Uma correta política de estabilização de preços internos de produtos domésticos não exige, a médio prazo, dispêndios líquidos, assim como a abertura comercial não elimina sua necessidade. Os problemas recentes com feijão e milho evidenciam isso, com grandes flutuações dos preços aos produtores, inclusive ficando abaixo de seus preços mínimos em determinados momentos. Agora, em 2001, isso acontece com o milho. TABELA 2 26 Evolução dos valores de créditos agrícola (SNCR) no Brasil (R$ milhões de 1999) PERÍODOS/ANOS MILHÕES DE REAIS 1969/73 19.487 1974/78 50.199 1979/83 53.585 1984/88 35.059 1989 25.547 1990 14.594} 1991 15.056} 1992 16.694} 1993 14.337 1994 20.713 1995 8.986} 1996 7.854} 1997 11.379} 1998 12.394} 1999 15.448 10.101 9.892} Fonte: José Garcia Gasques – IPEA. Aparentemente, pesaram muito mais as distorções passadas dessa política, inclusive as que levaram a uma indesejável acumulação de estoques (por exemplo, o instrumento Empréstimo do Governo Federal – Com Opção de Venda/EGF-COV). No entanto, essas eventuais distorções, com bom senso, poderiam ter sido corrigidas e, assim, o país poderia 35 VILLA VERDE, C. M. Modificações recentes na política de garantia de preços mínimos. Informações Econômicas, 29 (12) : 21-32, dez. 1999. 36 Veja HOMEM DE MELO, 1997. ter alcançado um bom nível de política agrícola.37 Foram, é certo, criados novos instrumentos, destacando-se os contratos de opções e o Programa de Escoamento de Produto (PEP).Todavia, como apontado por Villa Verde, “o efeito colateral dessa nova política é alguns produtos, níveis preocupantes”. 38 Em 31 de dezembro de 1998, os estoques governamentais como proporção do consumo interno eram de apenas 1,9% para arroz, 3,8% para feijão e 6,9% para milho. Em suma, o Brasil praticamente deixou de ter, em poucos anos, uma política de estabilização de preços para seus principais produtos domésticos. Isso precisa ser reavaliado. Conseqüências em preços, áreas, produções e valores na agricultura brasileira Como foi visto, os efeitos das diversas mudanças de política econômica e agrícola na década de 90 devem ter sido significativos, especialmente em função da radical alteração do modelo de desenvolvimento adotado até 1989. É importante ressaltar que a peculiar maneira como essa alteração foi efetuada, inclusive considerando-se os erros cometidos (por exemplo, na liberalização comercial), acarretou excessivos custos ao setor agropecuário. As principais características das políticas foram: a) política monetária de juros elevados; b) política cambial com câmbio sobrevalorizado; c) liberalização comercial, com excessivas reduções das tarifas de importação de produtos agropecuários; d) importações financiadas e arbitragem de juros; e) importantes declínios de ênfase na política agrícola; e, como conseqüência desse conjunto; f) baixo crescimento da economia brasileira (estagnação em 1998 e 1999). Anteriormente, mostrou-se a existência de efeitos diretos (curto prazo) e indiretos (médio prazo). Por exemplo, as políticas caracterizadas como (b), (c) e (d) prejudicariam mais diretamente (e mais rapidamente) os produtos de comércio exterior (X), predominantemente produzidos pela agricultura patronal, alguns de exportação, outros de importação (algodão e, eventualmente, milho e arroz). As exceções, na agricultura familiar, ficariam por conta do fumo e dos frangos, produtos de exportação, e do leite, que se tornou de importação. 37 O caso do feijão é analisado em HOMEM DE MELO, F. Feijão: a necessidade de uma política de estabilização de preços. Informações FIPE, 229 (out. 1999), p. 11-13. 38 VILLA VERDE, op. cit., p. 29. LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL que os estoques governamentais vêm se reduzindo sistematicamente e atingindo, para 27 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Os produtos domésticos (D), predominantemente produzidos pela agricultura 28 familiar, seriam mais diretamente prejudicados pelas políticas caracterizadas como (a), (e) e (f). Em (e), a exceção seria o Pronaf, que, em termos de crédito agrícola, muitos benefícios trouxe aos produtores familiares. Entretanto, é preciso lembrar que o declínio acentuado do SNCR muito prejudicou a agricultura patronal (veja Tabela 2 para os valores de financiamentos concedidos). O baixo crescimento da economia brasileira prejudicaria mais os produtores de produtos domésticos em duas maneiras. Primeiro, através de um menor crescimento das demandas internas dos produtos da agricultura familiar. Segundo, pelo menor crescimento da demanda de trabalho do setor urbano da economia, setor que absorveria o excedente da mão-de-obra familiar, inclusive em momentos de aumentos de sua produtividade.39 Essa reorientação do modelo brasileiro de desenvolvimento tomou uma década. Esse período relativamente longo nos remete às conseqüências indiretas, de médio prazo, causadas pelos efeitos-substituição na produção e no consumo. Seria difícil os produtos domésticos, produzidos pela agricultura familiar, escaparem, com o passar dos anos, dos efeitos desfavoráveis das políticas acima caracterizadas como (b), (c) e (d). Por exemplo, o declínio do preço relativo do trigo causaria reduções dos consumos de arroz, feijão, mandioca, batata, entre outros e, conseqüentemente, de seus próprios preços (produtos substitutos). A seguir examinaremos o que ocorreu com preços, áreas cultivadas, quantidades produzidas, rendimentos e valores das produções dos produtos produzidos pelas agriculturas familiar e patronal. Os dados da produção e área cultivada são do IBGE. Os de rendimentos foram deles derivados. Os de preços recebidos são da FGV-Agroanalysis. Não foram considerados produtos cujos preços não eram disponíveis. Os dados de valores das produções foram obtidos como resultado das informações de quantidades produzidas e de preços recebidos. Todos os valores dessas séries foram coletados para o período 1989/99, contando, portanto, com 11 observações. Os valores de 1989 antecedem aqueles influenciados pelos efeitos das políticas econômicas descritas anteriormente. Efeitos sobre preços recebidos A Tabela 3 mostra o comportamento dos preços reais recebidos pelos agricultores brasileiros durante o período de 1989 a 1999 para cinco agregados:40 a) índice de preços total (23 produtos vegetais e animais); b) índice de preços da agricultura familiar (12 produtos vegetais e animais); c) índice de preços da agricultura patronal (nove produtos vegetais e mais carne bovina); d) índice de preços total vegetal (19 produtos, incluindo mamona), e e) índice de preços total animal (carnes bovina, suína, de frango e leite). 39 Veja SCHUH, G. E. The Household: The Neglected Link in Research and Programs for Poverty Alleviation. Food Policy, 25 (3) : 233-41, jun. 2000. 40 A parte empírica desta e das próximas seções contou com a colaboração do economista Francisco Santos, mestrando do IME–USP. A última linha da Tabela 3 inclui os valores das respectivas taxas anuais médias de crescimento (declínio), estimadas por regressões-tendência na forma P = a e bt + cD , onde P são os preços reais recebidos, t é o tempo (1 a 11) e D é uma variável binária ponderia ao teste da hipótese do efeito negativo da sobrevalorização cambial do período do Plano Real. Entretanto, nas regressões, ficou-se com apenas 8 graus de liberdade. O deflator utilizado foi o IGP-DI. TABELA 3 Evolução dos índices de preços reais recebidos pelos agricultores brasileiros de 1989 a 1999 (1989 = 100) ANOS TOTAL TOTAL VEGETAL TOTAL ANIMAL FAMILIAR PATRONAL 1989 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 1990 82,7 80,4 82,9 81,2 83,3 1991 82,2 83,8 76,1 76,6 85,1 1992 78,2 80,7 70,7 70,1 82,1 1993 80,1 81,3 74,2 74,7 82,4 1994 79,5 83,2 70,4 72,8 83,1 1995 69,2 71,6 61,3 67,5 69,9 1996 66,4 72,8 53,6 61,4 69,1 1997 66,2 73,8 51,8 57,8 71,0 1998 68,1 77,0 51,9 61,7 70,8 1999 64,9 70,7 52,9 55,7 69,6 Taxa anual média (%)a -3,24 -2,13 -5,48 -4,74 -2,56 Fonte: dados básicos da FGV–Agroanalysis; elaboração do autor. (a) Os coeficientes foram considerados como significativamente diferentes de zero ao nível de 15% de probabilidade. As cinco séries de preços recebidos, mostradas na Tabela 3, indicam a ocorrência de acentuadas tendências de declínios de preços aos produtores na década de 90, confirmando os efeitos desfavoráveis da política econômica. Conforme as taxas da última linha, os maiores declínios ocorreram para os produtos animais, seguidos pelos produtos da agricultura familiar, do índice total, dos produtos da agricultura patronal e, finalmente, dos produtos vegetais. Uma das possíveis razões para a evolução menos desfavorável dos dois últimos subgrupos foi o comportamento relativamente favorável dos preços internacionais de nossos produtos vegetais de comércio exterior na década de 90. Por exemplo, o índice de preços internacionais de um subconjunto de produtos vegetais em 1997 era, em dólares, 8,3% superior ao valor de 1989 e 30,5% maior que o valor de 1991. Eles caíram apenas em 1998 e 1999.41 No conjunto do período, eles atuaram de modo compensatório à desfavorável política econômica. 41 Esse índice de preços internacionais, aqui estimado, é composto por café, suco de laranja, algodão, açúcar, cacau, soja, trigo e milho. São eles, portanto, produtos produzidos predominantemente pela agricultura patronal brasileira. Seu defeito é não incluir produtos animais. LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL (zero entre 1989 e 1994 e mais 1999, e 1 para 1995 a 1998). A última variável corres- 29 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Essas são evidências de que a década de 90, em termos de política econômica, foi 30 bastante prejudicial à agricultura brasileira em geral e à agricultura familiar em particular. Apenas um forte processo de redução de custos de produção poderia, em termos de rentabilidade, compensar isso. Esse processo poderia ter acontecido como resultado de menores preços de insumos (a liberalização comercial levou a isso) e, eventualmente, de um apropriado ritmo de inovações tecnológicas (e adoção, principalmente pelos produtores familiares). Com isso, a produtividade agrícola aumentaria. Examinando-se os dados das cinco séries da Tabela 3, pode-se notar a existência de um degrau (para baixo) a partir de 1995. Isso tenderia a corroborar a hipótese dos efeitos negativos do período de sobrevalorização cambial do Plano Real (até 1998, pois a desvalorização corretiva deu-se em janeiro de 1999). Em função disso, incluímos a variável binária D nas regressões-tendência, como anteriormente especificadas. Entretanto, nas cinco regressões realizadas para os índices agregados, essa variável foi significativamente diferente de zero apenas nos casos dos produtos animais e da agricultura patronal. Esta, como vimos, é largamente composta por produtos de comércio exterior (X), cujos preços internos são mais diretamente influenciados pela taxa de câmbio. Todavia, é preciso considerar-se o número pequeno (oito) de graus de liberdade e a complexidade do processo de formação dos respectivos preços internos. Por exemplo, as regressões não consideraram outras variáveis relevantes, como preços internacionais. A seguir, veremos os resultados das regressões para os produtos individuais da agricultura familiar e patronal. Isto é, mostraremos as taxas anuais médias de crescimento (declínio) dos preços recebidos (variável t) e a significância/não-significância da variável binária D, incluída para testar-se a hipótese do efeito-preço negativo da sobrevalorização cambial do período 1995/98. Os testes de significância sempre foram feitos ao nível de 15% de probabilidade, considerando o pequeno número de graus de liberdade em nossa série de dados. Os resultados foram os seguintes (s, significante; ns, não-significante): t (TAXA ANUAL EM %) D (CÂMBIO) Agricultura familiar t (TAXA ANUAL EM %) D (CÂMBIO) -4,74 ns Agricultura patronal ns ns Algodão Batata ns ns Arroz ns ns Cebola -14,32 ns Cacau ns ns ns Amendoim -2,56 s ns ns Feijão ns ns Café ns Fumo ns ns Cana-de-açúcar ns ns -5,07 s Laranja -5,46 ns Milho -3,32 ns Mandioca Sisal Tomate Uva ns s -5,53 ns Soja ns ns Suínos -6,42 ns Frangos -8,29 ns Leite -6,38 ns ns ns Trigo -4,80 ns Bovinos -3,12 s Ainda que os índices agregados – agriculturas patronal e familiar – tenham apresentado significativas taxas de declínio de preços recebidos pelos seus produtores, nem todos os produtos componentes desses dois índices os apresentaram. Entre os produtos da suínos, leite,42 tomate e mandioca. No agregado, os produtos da agricultura familiar tiveram um declínio anual médio de 4,74% na década de 90, uma taxa extremamente elevada e bem maior do que a da agricultura patronal (-2,56% ao ano). Entre os produtos da agricultura patronal, é interessante notar-se o forte e significativo declínio dos preços aos produtores de trigo. Isso, como anteriormente observado, deveria provocar efeitos-substituição no consumo de produtos substitutos, o que parece ter ocorrido nos casos de mandioca e milho (derivados). Finalmente, vale notar que nenhum dos 22 produtos analisados teve uma tendência de preços maiores na década de 90. Dez tiveram declínios e 12 tiveram taxas não significativamente diferentes de zero, o que indica preços constantes. Quanto ao teste da hipótese de efeitos-preços negativos da sobrevalorização cambial do período do Plano Real (a variável binária D para 1995 a 1998), os resultados foram muito modestos: apenas quatro dos 22 produtos apresentaram coeficientes significativamente diferentes de zero. Repetindo, o número de graus de liberdade era muito pequeno. Visando contornar esse problema, outra série de dados foi utilizada, de elaboração do autor (base São Paulo, dados originais do Instituto de Economia Agrícola), para o período de janeiro de 1989 a setembro de 2000. São, portanto, 129 observações, um número substancialmente maior. Entretanto, essa série incluía apenas dez produtos, sete da agricultura patronal e três da familiar. A especificação foi semelhante: P = a e bt + cD + dD 1 2 , onde P é o preço real (deflator, IGP-DI) aos produtores de São Paulo, t é a variável tempo (1 a 129), D1 é uma variável binária para o período da sobrevalorização cambial do Plano Real e D2 é uma outra variável binária para o período pós-desvalorização cambial (janeiro de 1999 a setembro de 2000). Os resultados podem ser resumidos da seguinte maneira: t (TAXA MENSAL EM %) D1 D2 S Total -0,13 S Suínos (F) -0,56 Ns S Frangos (F) -0,42 S Ns ns S – 0,14 S Ns Feijão (F) Soja (P) Milho (P) -0,33 S S Laranja (P) -0,88 Ns Ns Café (P) -0,19 – Ns Bovinos (P) -0,20 S S ns Ns S -0,59 – Ns Arroz (P) Algodão (P) 42 De acordo com a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), 42 mil produtores de leite abandonaram a produção apenas entre 1997 e 1999, considerando-se um levantamento junto às 12 maiores empresas de laticínios. Esses dados estão em Revista Gleba, 172 (out./nov. 2000), p. 04. LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL agricultura familiar, expressivos declínios de preços ocorreram nos casos de cebola, frangos, 31 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR A grande maioria dos produtos teve uma expressiva tendência de declínio dos 32 preços aos produtores na década de 90. Agora, com maior número de graus de liberdade, adotamos o nível de significância de 5%. Uma taxa mensal de – 0,13% para o total dos 11 produtos não é para ser menosprezada (-18,1% para o período todo). Na agricultura familiar (F), suínos e frangos apresentaram fortes declínios de preços. Na agricultura patronal (P), os maiores declínios ocorreram nos casos de laranja e algodão. Em três casos – feijão (D2), café (D1) e algodão (D1) – os resultados para os coeficientes foram significativos, mas com sinal contrário às hipóteses. Por isso, aparece um traço no respectivo espaço. É interessante notar que, no caso do índice total de preços recebidos, os três coeficientes foram significativamente diferentes de zero. Isto é, os preços foram declinantes na década, prejudicados pela sobrevalorização cambial do Plano Real e favorecidos pela desvalorização de janeiro de 1999. Cinco dos dez produtos dessa nova série de regressões apresentaram coeficientes significativamente diferentes de zero para a variável binária D 1 – a sobrevalorização cambial do Plano Real –, o que é um resultado mais expressivo que o anterior. Os cinco produtos foram frangos e feijão da agricultura familiar, e mais soja, milho e bovinos da agricultura patronal. Infelizmente, não se teve acesso aos dados para o trigo, que permitiriam examinar um pouco as relações mencionadas para os efeitos-substituição no consumo desse produto e de seus substitutos. Entretanto, é interessante observar que a variável binária cambial D1 foi significativa nos casos de feijão e milho, dois produtos com menor exposição internacional. Adicionalmente, o preço do milho aos produtores apresentou uma tendência declinante na década (-0,33% ao mês, -52,5% no total). Por fim, cabe notar que os produtos suínos, milho, bovinos e arroz (quatro entre os dez) tiveram o coeficiente da variável binária D2 – o período da desvalorização cambial – significativamente diferente de zero. Esse já foi um período de quedas dos preços internacionais, o que pode ter influenciado um pouco os resultados, isto é, apenas quatro produtos com significância. Em resumo, a década de 90 foi bastante desfavorável à agropecuária brasileira – familiar e patronal – no contexto dos preços recebidos pelos seus produtores. Os preços dos produtos da agricultura familiar diminuíram mais que os da agricultura patronal. Nenhum produto específico, vegetal ou animal, apresentou tendência crescente de preços recebidos. Todos tiveram tendência de menores preços ou ficaram com preços reais constantes (no sentido estatístico). Isso aconteceu mesmo na presença de maiores preços internacionais (até 1997). O evento de maoiores preços internacionais pode ter contribuído para o menor ritmo de queda dos preços dos produtos da agricultura patronal, predominantemente de comércio exterior. As indicações, portanto, são da ocorrência de um efeito-preço bastante desfavorável na agropecuária brasileira como resultado do tipo de política econômica adotada na década de 90. Desempenho físico: produções, áreas e rendimentos A Tabela 4 mostra os índices de quantidades produzidas para os mesmos agregados da Tabela 3 – total, total vegetal, total animal, total familiar e total patronal. A última coluna da Tabela 4 mostra os índices da população brasileira, com base na taxa anual média de 1,63%, recentemente anunciada pelo IBGE e baseada no censo demográfico de 2000. Com essas informações, pode-se avaliar o comportamento anual dos cinco agregados em termos per capita. A última linha da tabela, por sua vez, mostra as respectivas taxas anuais médias de crescimento estimadas através de regressões-tendência (Q = a e bt ). Em ordem decrescente, os melhores desempenhos das quantidades produzidas foram: total, animal, agricultura familiar, total geral, agricultura patronal e, finalmente, total vegetal. As taxas de crescimento desses cinco agregados ficaram acima do crescimento populacional de 1,63% ao ano, o que indica, em grau maior ou menor, aumento per capita. Entretanto, nos casos dos agregados total vegetal e patronal, as quantidades produzidas ficaram, em inúmeros anos, com valores inferiores aos índices de população, significando menores quantidades produzidas per capita. É interessante observar que a ordenação das taxas de crescimento das quantidades produzidas dos cinco agregados é exatamente a inversa daquela para os índices de preços recebidos (Tabela 3). Em uma economia inteiramente fechada ao mercado internacional, isso não seria surpresa (maior crescimento da produção, maior queda de preços). Entretanto, esse não é o caso da economia brasileira, que, adicionalmente, se abriu mais ao exterior na década de 90, embora mantivesse diferentes tipos de mercados (e suas formações de preços), conforme anteriormente analisado. O grande destaque foi o crescimento anual médio de 5,08% para os produtos animais. No geral, considerando-se a extremamente desfavorável política econômica da década, o desempenho agropecuário pode ser considerado como bem razoável (excetuando-se os totais vegetal e patronal). Com base nos elementos dessa política, a expectativa inicial não seria tão boa. É fato, entretanto, que o comportamento excepcional dos produtos animais influenciou essa avaliação, pois o crescimento do total vegetal foi de apenas 1,97% ao ano ou 0,33% per capita (visto que a taxa de crescimento populacional foi de 1,63% ao ano).43 43 Esse pior comportamento da produção de produtos vegetais, dada a política econômica adotada, deveria levar a maiores quantidades importadas. Considerando-se os anos-safra de 1990/91 a 1997/98 (antes da desvalorização) a quantidade total importada de grãos (algodão, arroz, feijão, milho e trigo) aumentou de 5,15 milhões para 10,72 milhões de toneladas, principalmente em função da de trigo. Veja Revista Gleba, 173, dez. 2000. LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL Esta parte do artigo examinará o desempenho da agropecuária brasileira – familiar e patronal – no contexto das produções obtidas, áreas cultivadas e rendimentos físicos. 33 TABELA 4 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Evolução dos índices de quantidades produzidas na agropecuária brasileira, de 1989 a 1999 (1989 = 100) 34 ANOS TOTAL TOTAL TOTAL VEGETAL ANIMAL FAMILIAR PATRONAL POPULAÇÃO 1989 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 1990 95,6 90,6 109,0 104,1 91,6 101,6 1991 98,4 92,5 114,4 108,9 93,6 103,3 1992 105,5 98,5 124,3 116,4 101,1 104,9 1993 104,3 97,0 124,0 117,8 98,8 106,6 1994 111,6 105,0 129,2 126,4 104,8 108,4 1995 117,1 105,3 148,8 132,4 110,0 110,2 1996 117,7 104,8 152,3 133,5 110,5 112,0 1997 121,9 108,9 156,7 141,9 112,9 113,8 1998 121,0 107,8 156,6 134,1 116,3 115,6 1999 130,7 116,6 168,4 148,4 123,5 117,5 2,96 1,97 5,08 3,79 2,60 1,63 Taxa anual média (%)a Fonte: dados básicos do IBGE para produtos vegetais; CONAB, safras e mercados para produtos animais; elaboração do autor. (a) Os cinco coeficientes foram significativamente diferentes de zero ao nível de probabilidade de 1,0%. O exame das taxas de crescimento das quantidades dos produtos individuais permitirá uma análise mais completa dos dados. Isso é mostrado a seguir (ns: não-significante): TAXA ANUAL MÉDIA (%) TAXA ANUAL MÉDIA (%) Agricultura familiar 3,79 Agricultura patronal Amendoim 1,68 Algodão Batata 2,83 Arroz ns Cebola ns Cacau -4,71 Feijão ns Fumo 2,45 Café Cana-de-açúcar 2,60 -6,17 ns 3,41 Mandioca ns Laranja 2,48 Sisal ns Milho 3,34 Tomate 3,37 Soja 4,81 Uva 1,41 Trigo -5,42 Suínos 5,72 Bovinos Frangos 8,74 Leite 4,29 4,05 Da mesma maneira que na análise anterior sobre preços recebidos, o teste de significância foi feito ao nível de 15%. Entretanto, a maioria dos coeficientes foi significativamente diferente de zero ao nível de 1,0%. Novamente, ns indica “não-significante” ou, estatisticamente, valor não-diferente de zero. A agricultura familiar (com doze produtos), além de ter mostrado um crescimento de produção bem maior que o da agricultura patronal, 3,79% contra 2,60% ao ano, não apresentou qualquer de seus produtos com declínios de produção. Ao contrário, a ques para frangos, suínos, leite, tomate e batata. Ausências de crescimento foram observadas para cebola, feijão e mandioca. As importações favorecidas (Mercosul) de cebola podem ter prejudicado esse produto. Nos casos de feijão e mandioca, é possível que a razão esteja com o efeito-substituição do trigo (preços menores e importações maiores).44 A despeito das condições desfavoráveis da política econômica, a agricultura familiar foi capaz de contribuir decisivamente para as altas taxas de crescimento das produções de produtos animais.45 Adicionalmente, é preciso mencionar que feijão e farinha de mandioca apresentaram, ainda recentemente, valores negativos para suas respectivas elasticidadesrenda.46 Ou seja, mesmo com o crescimento populacional de 1,63% ao ano, é possível que não tenha havido aumento da demanda interna desses produtos. Quanto à agricultura patronal, por sua vez, o comportamento foi mais modesto e heterogêneo. A taxa de crescimento total, de 2,60% ao ano, foi bem menor que a da agricultura familiar (3,79% ao ano). Adicionalmente, três dos dez produtos mostraram expressivos declínios de produção, casos do algodão, cacau e trigo. As produções de arroz e café ficaram, em termos estatísticos, sem alterações na década. Crescimentos de produção ocorreram para cana-de-açúcar, laranja, milho, soja e bovinos. A produção de cana-de-açúcar foi favorecida pela continuidade, na década, de uma política especial de preços, eliminada apenas a partir de 1999, o que provocou uma séria crise no setor sucro-alcooleiro. Evidentemente, razões produto a produto podem ser lembradas para se explicar os diferentes comportamentos. Entretanto, é importante salientar o melhor desempenho, durante a década de 90, da produção derivada da agricultura familiar em comparação com a patronal. Esta é mais ligada ao comércio exterior do que a primeira. Todavia, os preços internacionais foram favoráveis até a crise asiática em 1997. Rezende,47 em seu clássico artigo sobre a “crise da produção de alimentos” da década de 70, salienta que o desempenho desse segmento, caracterizado por pequenos produtores, tende a ser melhor em períodos de recessão econômica (década de 80, segundo Rezende, e, provavelmente, década de 90, na interpretação deste artigo). O desempenho das produtividades (tecnológico) será examinado a seguir. 44 A eliminação da política especial ao trigo nacional no início da década de 90 também contribuiu para menores preços aos produtores e desestímulo à produção. 45 Evidentemente, essa afirmação, para ser inteiramente correta, precisaria ser confirmada pelo exame da distribuição dos aumentos de produção por diferentes extratos de área total. 46 Veja HOFFMAN, R. Elasticidades-renda das despesas e do consumo físico de alimentos no Brasil metropolitano em 1995-96. Agricultura em São Paulo, 47 (1) : 111-122, 2000. 47 REZENDE, op. cit. LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL maioria de seus produtos registrou crescimentos expressivos de produção, com desta- 35 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR As Tabelas 5 e 6 apresentam, respectivamente, as evoluções dos índices de áreas 36 plantadas e das produtividades (rendimentos físicos) dos mesmos agregados (menos o total animal) anteriormente mostrados (Tabela 3 e 4). Evidentemente, os crescimentos (declínios) das quantidades produzidas podem ser decompostos nos crescimentos (declínios) das áreas e dos rendimentos. Dessa vez, entretanto, os totais familiar e patronal não incluem os produtos animais anteriormente considerados. Agora, serão analisadas as áreas cultivadas e as produtividades por hectare, o que não é o caso para os produtos animais. Os resultados para áreas e produtividades são, também, bastante interessantes. Resumidamente, eles mostram para a agricultura brasileira, em uma difícil situação de política econômica, um forte ajuste na direção de menores áreas cultivadas e maiores produtividades. Isso é coerente com a expectativa teórica, considerando-se o conjunto das medidas econômicas da década de 90. As piores áreas, assim como os produtores com maiores problemas, tenderiam a sair da produção com a ocorrência de menores preços e rentabilidades. Entretanto, os novos e mais baratos insumos decorrentes da maior abertura comercial (e câmbio sobrevalorizado), e mais as inovações tecnológicas dos sistemas público e privado de pesquisas, levariam a maiores investimentos em produtividade (e menores custos). TABELA 5 Evolução dos índices de área cultivada na agricultura brasileira de 1989 a 1999 (1989 = 100) ANOS TOTAL VEGETAL TOTAL FAMILIAR TOTAL PATRONAL 100,0 1989 100,0 100,0 1990 91,0 93,9 90,3 1991 90,9 104,4 88,4 1992 90,9 99,8 89,4 1993 83,2 82,9 83,5 1994 92,0 101,6 90,4 1995 91,2 97,4 97,2 1996 89,3 97,0 88,2 1997 88,0 91,1 87,6 1998 83,2 73,1 85,5 1999 87,1 83,6 88,1 -2,00 ns Taxa anual média (%) -0,99 Fonte: dados básicos do IBGE; elaboração do autor. TABELA 6 Evolução dos índices de rendimento físico na agricultura brasileira de 1989 a 1999 (1989 = 100) TOTAL VEGETAL 1989 100,0 100,0 1990 99,6 110,8 101,5 1991 101,8 104,3 105,8 1992 108,4 116,6 113,0 1993 116,6 142,2 118,4 1994 114,2 124,3 115,9 1995 115,5 136,0 113,1 1996 117,4 137,6 125,4 1997 123,8 155,8 128,8 1998 129,5 183,5 136,0 1999 133,9 177,5 140,2 2,95 5,80 3,29 Taxa anual média (%)a TOTAL FAMILIAR TOTAL PATRONAL 100,0 Fonte: dados básicos do IBGE; elaboração do autor. (a) Os totais vegetal e familiar foram significantes ao nível de 5,0%; ns: não-significante. De fato, os dados mostram expressivos aumentos de produtividade física, medidos como índices agregados de produção por hectare cultivado, principalmente no caso da agricultura familiar (5,80% ao ano). A agricultura patronal teve um crescimento menor, ainda que expressivo, de 3,29% ao ano. Isso permitiu a obtenção de menores custos de produção, a única saída para compensar os fortes declínios dos preços recebidos. Um resumo da década de 90 pode ser mostrado da seguinte maneira (em % ao ano) para os respectivos totais (sem os produtos animais): VEGETAL Produção Área Rendimento FAMILIAR PATRONAL 1,97 3,80 -0,99 -2,00 3,29 Ns 2,95 5,80 3,29 É preciso mencionar que os números para as taxas de crescimento da produção dos agregados familiar e patronal diferem um pouco dos anteriormente mostrados (Tabela 4), pois eles foram estimados como resíduos e excluem os respectivos produtos animais. Novamente, é preciso salientar o expressivo desempenho da agricultura familiar no contexto da taxa de crescimento anual média do rendimento físico em sua produção (5,80% ao ano). Mesmo excluindo-se os respectivos produtos animais, a taxa de crescimento da produção agregada da agricultura familiar (3,80% ao ano) foi superior à da agricultura patronal (3,29% ao ano). LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL ANOS 37 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Passando-se aos resultados para os produtos individuais, chega-se aos seguintes 38 números (expressos em % ao ano; ns: não-significante): ÁREA RENDIMENTO ÁREA Agricultura familiar -2,00 5,80 Agricultura patronal Amendoim 1,01 Algodão ns RENDIMENTO ns 3,29 -12,31 6,14 Batata 1,16 1,67 Arroz -3,10 3,59 Cebola -1,03 1,92 Cacau ns -5,15 Feijão -2,56 3,96 -4,12 4,00 Fumo 1,82 ns Cana-de-açúcar Mandioca -1,38 ns Laranja Sisal Café 2,09 1,32 ns 1,43 ns 3,86 -7,09 2,42 Milho Tomate ns 2,86 Soja 1,58 3,23 Uva ns 1,58 Trigo -7,99 2,57 No contexto do agregado da agricultura familiar, o país teve um expressivo declínio de área cultivada (-2,00% ao ano) e um forte crescimento de produtividade, de 5,80% ao ano. Dos nove produtos da agricultura familiar, sete tiveram aumentos de produtividade e dois ficaram com rendimentos constantes (no sentido estatístico). Nenhum produto apresentou declínio de rendimentos. A agricultura patronal também teve um ótimo desempenho tecnológico-produtividade (3,29% ao ano). Excetuando-se o cacau, os oito outros produtos tiveram crescimentos de produtividade. Esse positivo e generalizado desempenho é uma indicação de que todos os produtores brasileiros – familiares e patronais – buscaram ajustar-se à desfavorável política econômica por uma estratégia de aumento de produtividade e redução de custos, o que foi favorecido pela abertura comercial (menores preços de insumos). Entretanto, é muito provável que o ajuste enfrentado pelos produtores brasileiros tenha sido diferenciado entre as agriculturas familiar e patronal. A primeira teve, em seu agregado, uma redução acumulada de 18,3% (-2,00% ao ano) em sua área cultivada. Tomando-se os anos extremos, tivemos os seguintes números para as áreas totais cultivadas pela agricultura familiar: 1989 8.061 mil hectares 1998 5.893 mil hectares 1999 6.741 mil hectares Portanto, houve uma redução de 1.320 mil hectares em cultivo, considerando-se o período de 1989 a 1999. Isso pode ser interpretado como uma medida da pressão sofrida pelos produtores familiares brasileiros no curto período de uma década. Essa mesma intensidade de pressão não foi experimentada pelos produtores patronais, pois sua área total cultivada não se alterou (no sentido estatístico). Uma das razões para essa menor pressão foi a melhoria dos preços internacionais entre 1991 e 1997, como anteriormente mencionado. Tomando-se o número de propriedades rurais no Brasil por classes de tamanho, consideradas como familiares, reduziram-se de um total de 5.225.162 em 1985 para um total de 4.318.861 em 1995, ou seja, ocorreu uma diminuição de 906.301 propriedades familiares (censo agropecuário 1995/96). Mais ainda, a crise agrícola causada pela política econômica do Plano Real não está refletida nesses números, visto que se deu após o censo. Essa redução foi de 17,3% em dez anos. Para as propriedades superiores a 100 hectares, a redução em número foi de apenas 6,2% no mesmo período. A redução do número de produtores é um processo que acompanha o crescimento da produtividade (inovações tecnológicas), a geração de excedentes e o desenvolvimento econômico (industrialização e urbanização). Esse é um aspecto abordado por Alves e Homem de Souza48 no caso da produção brasileira de leite, caracteristicamente de pequenos produtores. Em 1995/96, no censo agropecuário, 1.810.041 informantes produziram 17.931 milhões de litros, com uma média extremamente baixa de 9,9 litros por informante. Caso essa média passasse, em 15 anos, a 50 litros e a produção aumentasse (com o crescimento da demanda interna e a redução das importações) para 32.293 milhões de litros, o número de produtores deveria cair para 645.854. Tudo indica que o devido tempo não foi dado aos produtores de leite para a realização de um ajuste economicamente mais racional e socialmente mais aceitável. É possível que isso também tenha ocorrido com os demais produtores familiares. Isto é, um ajuste que deveria acontecer gradualmente verificou-se, ao contrário, em poucos anos. Até este ponto do artigo, foram analisados os efeitos da política econômica em preços, áreas cultivadas, quantidades produzidas e rendimentos dos produtos das agriculturas familiar e patronal brasileiras. Antes de se passar ao último tópico – os efeitos nos valores das produções –, é necessário ver um resumo dos principais resultados obtidos: a) preços recebidos:: os preços caíram bem mais para o conjunto de produtos da agricultura familiar (-4,74% ao ano) do que para o da agricultura patronal (-2,56% ao ano). No total (23 produtos animais e vegetais), a redução anual média foi de 3,24%. Pode-se dizer que os consumidores foram os grandes beneficiados pela política econômica da década, em especial aqueles com menores rendas; b) quantidades produzidas:: a taxa anual média de crescimento da quantidade produzida da agricultura familiar, 3,79%, foi bem maior que a observada para a agricultura patronal, de 2,60%. No total dos 23 produtos, o crescimento foi de 2,96%, enquanto o crescimento populacional ficou em 1,63%. Houve, portanto, um aumento da produção per capita de 1,31%. O desempenho mais modesto ficou com o total vegetal, pois o crescimento foi de apenas 1,97% ao ano, um pouco acima do crescimento populacional; 48 ALVES, E. R. A.; HOMEM DE SOUZA, D. P. Produção brasileira de leite. Economia Rural, 11 (1) : 20-22, 2000. LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL é interessante observar-se que as propriedades com menos de 100 hectares, por nós 39 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR c) 40 áreas cultivadas:: ocorreu um expressivo declínio da área cultivada com os produtos da agricultura familiar, de 2,00% ao ano. Em termos estatísticos, a agricultura patronal ficou com sua área constante. De outro lado, o conjunto total vegetal teve um declínio de área cultivada de 0,99% ao ano. Em 1989, o Brasil cultivou 52.775 mil hectares. Em 1999, esse total havia caído para 45.976 mil hectares; d) rendimentos físicos:: a taxa de crescimento dos rendimentos físicos dos produtos da agricultura familiar foi bem elevada, de 5,80% (sem os produtos animais). Aliás, os produtos da agricultura patronal também tiveram, em seu agregado, uma expressiva taxa de crescimento da produtividade, de 3,29% ao ano. Essa foi uma característica muito importante da agricultura brasileira na década de 90, isto é, um forte crescimento de produtividade, evento que, beneficiado pela abertura comercial, atenuou os outros efeitos desfavoráveis da política econômica dessa mesma década; Efeitos sobre valores da produção A Tabela 7 mostra, para o período 1989/99, o comportamento dos valores das produções dos mesmos agregados anteriores – total geral, total vegetal, total animal, total familiar e total patronal. Eles são valores monetários, utilizando-se o IGP-DI como deflator da série de preços (R$ de 06/99). Como já mencionado no caso das quantidades produzidas, os anos de 1990 e 1991 foram, em muito, negativamente afetados por aspectos do Plano Collor e por dois anos de intensa seca na região Sul do país. Com isso, as séries mostram um desnível muito acentuado entre 1990 e 1992. Alguma recuperação dos valores de produção começou a ser esboçada em 1994. TABELA 7 Evolução dos valores das produções na agricultura brasileira de 1989 a 1999 (R$ milhões de 06/99) ANOS TOTAL VEGETAL ANIMAL FAMILIAR 1989 73.405 47.290 26.116 24.608 48.730 1990 58.074 34.458 23.616 20.812 37.216 1991 59.361 36.637 22.724 20.520 38.807 1992 60.578 37.631 22.947 20.073 40.476 1993 61.349 37.309 24.040 21.667 39.668 1994 65.097 41.329 23.768 22.628 42.453 1995 59.503 35.666 23.837 22.003 37.490 1996 57.393 36.065 21.327 20.169 37.210 1997 59.245 38.033 21.212 20.167 39.052 1998 60.493 39.268 21.225 20.352 40.137 1999 62.251 38.995 23.256 20.344 41.900 ns ns -1,24 -0,97 Ns Taxa anual média (%)a PATRONAL Fonte: dados anteriores de preços e quantidades; elaboração do autor. (a) Nível de significância de 15%; ns: não-significante. Essa recuperação, entretanto, foi abortada em 1995 e 1996 em função dos efeitos desfavoráveis da política econômica do Plano Real, o que já foi analisado anteriormente. A partir de 1997, ocorreu uma certa recuperação para o total agropecuário, causada, trouxe maiores benefícios aos produtos animais. Entretanto, pode-se observar que todos os totais da Tabela 7 tiveram, em 1999, valores reais menores do que os de 1994, ano que, em parte, precedeu o Plano Real. No caso específico do total familiar, houve uma redução no valor da produção de R$ 2.461 milhões entre 1994 e 1997 (-10,9%). O setor patronal perdeu 8,0% em seu valor da produção nesse mesmo período, mas contou com a vantagem de ter tido alguma melhoria com a desvalorização cambial de 1999. Entre o início do período analisado (1989) e a segunda metade da década de 90, todos os setores agrícolas brasileiros mostraram expressivas quedas em seus valores de produção, o que é mais uma evidência da gravidade da situação econômica da década passada. As magnitudes foram as seguintes (entre 1989 e 1998): Total Vegetal Animal Familiar Patronal -R$ 12.912 milhões (-17,6%) -R$ 8.022 milhões (-17,0%) -R$ 4.891 milhões (-18,7%) -R$ 4.256 milhões (-17,3%) -R$ 8.593 milhões (-17,6%) LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL principalmente, pelos produtos do setor patronal. A desvalorização de 1999, por sua vez, 41 Entretanto, mesmo com essas fortes reduções entre os anos extremos, a última linha da Tabela 7 mostra que apenas os totais animal e familiar tiveram taxas de declínio estatisticamente significantes. Elas foram, respectivamente, de -1,24% e -0,97% ao ano. Isso evidencia, mais uma vez, as dificuldades enfrentadas pela agricultura familiar na década de 90. O pequeno número de graus de liberdade nas séries e as oscilações causadas por problemas climáticos e planos econômicos podem ter contribuído para o resultado estatístico observado. Considerando-se os produtos específicos, houve os seguintes resultados para as taxas anuais médias de crescimento (declínio) de seus valores da produção (em % ao ano): Agricultura familiar -0,97 Agricultura patronal Amendoim Batata Cebola Feijão Fumo Mandioca Sisal Tomate Uva Suínos Frangos Leite ns ns -8,00 ns ns ns ns ns ns ns ns -1,40 Algodão Arroz Cacau Café Cana-de-açúcar Laranja Milho Soja Trigo Bovinos ns -8,50 ns -5,39 6,19 2,21 -2,65 -2,01 ns -9,39 -1,71 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR É interessante observar que nenhum produto da agricultura familiar apresentou 42 crescimento de valor da produção. No caso da agricultura patronal, dois produtos – café e cana-de-açúcar – tiveram crescimento. Evidentemente, os resultados para valor da produção resultam das evoluções de preços e quantidades produzidas. Conclusões Este artigo procurou esclarecer a radical mudança de orientação da política econômica brasileira ocorrida a partir de 1990. O país mudou de uma economia fechada para outra sensivelmente mais aberta às transações internacionais. Houve o esgotamento do modelo de substituição de importações, e a política macroeconômica orientou-se para uma inserção bem maior na economia internacional, principalmente nos aspectos comercial, financeiro, tecnológico e de investimentos. A importância de uma política macroeconômica que não discrimine a agricultura e pequenos produtores foi recentemente salientada por De Janvry e Sadoulet.49 A expectativa era de que isso não aconteceria no Brasil da década de 90. Ainda que essa mudança de orientação econômica tenha sido muito clara, não é uma tarefa fácil identificar todos os seus efeitos na economia brasileira. Este artigo, de maneira mais específica, procurou identificar como essa importante mudança afetou a agropecuária brasileira e, em especial, a agricultura familiar. Tomando-se o modelo de substituição de importações como ponto de partida analítico, a literatura indica que os setores mais prejudicados seriam os de produtos de exportação, já que uma das conseqüências mais importantes do modelo de economia fechada seria a sobrevalorização da taxa de câmbio. A identificação dos efeitos da política de abertura econômica exigiu, como metodologia de trabalho, que fossem caracterizados os produtos produzidos pela agricultura familiar, visto que esses efeitos ocorreram através dos preços de produtos nos mercados. Isso, por sua vez, teve a necessidade de mostrar a agricultura brasileira como um conjunto heterogêneo de produtos, basicamente, um subconjunto de comércio exterior, de exportação e de importação, e outro de mercado interno (domésticos). Este artigo utilizou a linha divisória de 100 hectares de área total para a identificação dos produtos produzidos pela agricultura familiar. Utilizando-se os dados do censo agropecuário 1995/96, a conclusão obtida 49 DE JANVRY, A.; SADOULET, E. Rural Poverty in Latin America: Determinants and Exit Paths. Food Policy, 25 (2000) : 389-409. é de que a agricultura familiar brasileira produz, predominantemente, produtos domésticos (mercado interno), ainda que nem todos eles sejam produtos alimentares, caso típico da cultura do fumo. As tabulações especiais A hipótese colocada neste artigo foi a de que as mudanças introduzidas na política econômica a partir de 1990 e, especialmente, a partir de 1994, com o Plano Real, foram prejudiciais à rentabilidade do setor agrícola como um todo e, em particular, à agricultura familiar, através dos efeitos negativos sobre os preços de seus produtos. A esse respeito, não se tratou apenas da comparação com o período de economia fechada, anterior a 1990. Afinal, esse modelo apresentava claros sinais de esgotamento. Ao contrário, a comparação considerou uma possível diferente combinação de políticas fiscal, monetária, cambial e comercial na década de 90 que pudesse ter levado à estabilização econômica sem os desacertos e excessivos custos da política adotada. Entre as principais características (ou desacertos) da política econômica adotada, estariam juros extremamente elevados, câmbio sobrevalorizado e excessivamente baixas tarifas de importação. Entre os acertos, menção deve ser dada às reduções das tarifas de importação de insumos agrícolas. A sobrevalorização cambial, “âncora” do Plano Real no contexto da inflação, impediu que os produtos de exportação se tornassem os maiores beneficiários da mudança de política econômica. Os produtos da agricultura familiar, por sua vez, foram muito prejudicados pela combinação de políticas, em especial as excessivas reduções das tarifas de importação que desconsideraram o protecionismo agrícola dos países industrializados. Adicionalmente, não se deve esquecer a importância dos efeitos-substituição, principalmente no consumo. O declínio do preço relativo do trigo, por exemplo, traria prejuízos a vários produtos da agricultura familiar (feijão, mandioca e batata, entre outros). A parte empírica deste artigo examinou as conseqüências em preços recebidos, áreas cultivadas, produções e seus valores para 22 produtos de nossa agropecuária, sendo 12 da agricultura familiar e 10 da agricultura patronal. A conclusão é de que a década de 90 foi extremamente difícil para os produtores agrícolas brasileiros, a despeito de ter sido relativamente favorável em termos de preços internacionais. Houve, no país, uma acentuada redução dos preços recebidos pelos produtores. Essa redução foi bem mais acentuada para o conjunto de produtos da agricultura familiar (-4,74% ao ano). Os produtos da agricultura patronal foram favorecidos pelos bons preços no mercado internacional e, com isso, caíram menos. Entretanto, apesar do declínio de seus preços, a quantidade total produzida pela agricultura familiar cresceu bem mais que a da agricultura LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL E AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL do censo, como divulgadas pelo Incra, corroboraram esta classificação. 43 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR patronal (3,79% ao ano contra 2,60% ao ano). Houve, todavia, uma redução 44 da área cultivada pela agricultura familiar em 2,00% ao ano. Comparando-se 1989 e 1999, ocorreu uma diminuição de 1.320 hectares cultivados com os 12 produtos da agricultura familiar, algo nada desprezível. Aliás, tomando-se os dados do censo, houve uma redução de 906 mil propriedades familiares entre 1985 e 1995. É preciso considerar, adicionalmente, que o período maior da crise foi a partir de 1995. Finalmente, cabe mencionar e destacar o ótimo desempenho da agricultura familiar em termos dos rendimentos físicos obtidos. A taxa de crescimento do índice agregado da produtividade da terra foi de 5,80% ao ano (sem os produtos animais), em comparação à taxa de 3,29% ao ano da agricultura patronal. Isso ajuda a explicar o bom desempenho da produção familiar brasileira, pois significou menores custos de produção. Esse evento, em parte favorecido pela abertura comercial (via menores preços de insumos), atenuou os efeitos desfavoráveis da política econômica da década de 90. 2 Integração nas Américas Uma abordagem a partir do rural 45 Integração nas Américas Uma abordagem a partir do rural1 Arnoldo de Campos Marcos Antônio de Oliveira Valter Bianchini 2 Os atuais rumos do desenvolvimento brasileiro vêm acentuando o intenso processo de exclusão social, característico da natureza histórica da estrutura econômica e social do país. A partir da inserção do Brasil, principalmente depois de 1991, no processo internacional de globalização da economia, uma série de transformações vem modificando profundamente o cenário econômico, social e político do país. A política econômica predominante até a década de 80, de substituição de importações, foi trocada por uma política econômica articulada em três eixos fundamentais: abertura comercial, liberalização econômica e desregulamentação do mercado de trabalho. Essas transformações não são resultado de políticas de desenvolvimento harmonizadas por um novo pacto social ou estabelecidas por uma política clara de governo, mas são resultado, principalmente, de fortes pressões do mercado internacional. A ausência de políticas de desenvolvimento econômico – seja agrícola, de reforma agrária, industrial ou de geração de empregos – mostra o quanto é determinante, hoje, a subordinação do governo federal às estratégias exclusivamente financistas do capital dominante globalizado. No meio rural, a reprodução do cenário descrito acima tem a ver com pelo menos três fenômenos distintos, embora estreitamente relacionados ao modelo de desenvolvimento em curso Brasil e no Mercosul: a abertura comercial; o desmantelamento das políticas públicas voltadas para a agricultura; o modelo tecnológico implementado nos últimos anos. 1 CAMPOS, Arnoldo de; OLIVEIRA, Marcos Antônio de; BIANCHINI, Valter. Integração nas Américas: uma abordagem a partir do rural. In: Fórum Continental – área de livre comércio nas Américas: atores sociais e políticos nos processos de integração. Rio de Janeiro, Fase-Inesc-Cedec-CUT, 2001. 2 Arnoldo de Campos, Marcos Antônio de Oliveira e Valter Bianchini são técnicos do Departamento de Estudos Sócio-Econômicos Rurais (Deser). 47 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR 48 Abertura comercial e ocupação no meio rural brasileiro O primeiro fenômeno é a acelerada abertura comercial da economia brasileira na década de 90, especialmente em relação aos parceiros do Mercosul. Esse processo, à primeira vista, parece ter sido benéfico para todos os países do bloco, uma vez que o comércio intrabloco cresceu muito nesses últimos anos. Contudo, quando os números são analisados mais detalhadamente, percebe-se que alguns setores foram mais afetados que outros. No caso do Brasil, certamente a agricultura, principalmente na região Sul, foi o segmento mais afetado pela integração regional. Se a indústria brasileira teve oportunidade de ganhar espaço nos mercados da Argentina, Uruguai e Paraguai, o contrário ocorreu com a agricultura, que perdeu espaço para os parceiros do Mercosul, além do espaço perdido para outros países fora do Mercosul. A abertura comercial e o conseqüente aumento das importações, aliados à desestruturação das políticas públicas e à incorporação de um modelo tecnológico inadequado, afetaram os agricultores em geral, deixando uma parcela significativa deles sem condições de competir e sem apoio de políticas governamentais para intensificar a reconversão produtiva, sendo excluídos do processo produtivo. Na região Sul, uma das mais afetadas pelo processo de integração, o número de pessoas ocupadas, de acordo com os dados do censo agropecuário do IBGE, reduziu-se de 4.489.358, em 1985, para 3.382.422, em 1995/96, ou seja, uma redução de mais de 1 milhão de postos de trabalho em dez anos. No mesmo período, foram fechados nessa região mais de 195 mil estabelecimentos, dos quais a grande maioria era composta por pequenos proprietários, arrendatários e parceiros. Pode-se atribuir ao processo de abertura comercial uma boa parte dessa redução. Em âmbito nacional, os mesmos dados do censo agropecuário mostram uma redução de mais de 900 mil estabelecimentos e mais de 5 milhões de postos de trabalho. Contribui com a análise dessa tendência a contagem populacional de 1996 do IBGE, que mostra uma redução da população rural de mais de 2 milhões de pessoas em relação ao censo de 1980, ou seja, exatamente o período em que se deu a abertura comercial. Em 1996, cerca de dois terços da população da região Sul concentravam-se em cidades com mais de 50 mil habitantes e com níveis de urbanização superior a 75%. Apresentam atividades centradas principalmente na indústria, comércio e serviços. Essas cidades concentram também os incentivos fiscais e boa parte da riqueza gerada no país. Os municípios com mais de 50% da população rural ou em transição para o urbano (75% dos municípios da região) representam aproximadamente 33% da população da região Sul e estão sofrendo um processo de esvaziamento. Esses municípios têm uma economia predominantemente rural e grande absorção de mão-de-obra na agricultura. A fragilidade da sustentação econômica dessas atividades garante a permanência de uma população mínima com níveis de crescimento abaixo do vegetativo. Com as mudanças no papel do Estado desde o início da década de 90, a agricultura brasileira deixou de contar com uma quantidade significativa de recursos, que antes era empregada na sustentação dos preços ao produtor, no oferecimento de crédito subsidiado, em programas de assistência técnica e pesquisa, armazenagem etc. Apesar de apresentarem inúmeros problemas, essas políticas mantinham um certo nível de renda e reduziam, em parte, as oscilações dos preços dos produtos agrícolas. Com o desmantelamento dessas políticas, o processo de exclusão do campo, que vinha diminuindo no final da década de 80 e início da década de 90, voltou a aumentar. O processo só não é mais acelerado devido às condições precárias em que se encontra a maioria das grandes e médias cidades do país. Modelo tecnológico do agrário brasileiro O terceiro fenômeno é o desenvolvimento de um modelo tecnológico no meio rural brasileiro que privilegia a intensificação produtiva, minimizando a utilização de trabalho. Há uma nítida preferência por processos produtivos intensivos em capital, visando aumentar escalas de produção e alcançar maiores níveis de produtividade, apropriadas das economias centrais onde a conjuntura social e econômica obriga a se trabalhar com um mínimo de empregos na agricultura. Outros países, como os asiáticos, optaram por adaptar desenvolvimento tecnológico e aumento da eficiência com processos produtivos intensivos em mão-de-obra, aproveitando-se da vantagem de ter uma mão-de-obra especializada em agricultura e relativamente barata. As exigências embutidas no atual modelo econômico, centradas nos interesses das grandes agroindústrias, têm levado à reconversão produtiva intensiva em capital, provocando desocupação da força de trabalho e desperdício do enorme potencial produtivo dos trabalhadores rurais e dos agricultores familiares. Esse modelo é incapaz de contribuir contra a situação de desemprego no país, deixando uma enorme parcela de trabalhadores do campo, ocupados em seus estabelecimentos familiares, sem perspectivas de trabalho em suas localidades, estimulando e êxodo. Nesse sentido, essa força de trabalho, que pode contribuir com a produção de riqueza no país, é deslocada para outras atividades ou para o desemprego, onde a capacidade de geração de riqueza e trabalho é muito limitada. No Brasil, tem-se verificado, nos últimos anos, um crescimento da participação dos grandes estabelecimentos na produção de grãos de soja, trigo, arroz e, mais recentemente, milho e algodão e, ainda, de forma menos intensiva, feijão. A produção de leite também não escapa a essa lógica, com as empresas e cooperativas exigindo escalas de produção maiores dos produtores. INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL Deterioração das políticas públicas voltadas para a agricultura 49 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Na avicultura, é possível perceber um processo de reorganização espacial da produção 50 com um aumento da participação da região Centro-Oeste, onde a matéria-prima (soja e milho) tem melhores preços. Ao mesmo tempo, cresce a seletividade dos avicultores, com um processo de intensificação da produção por meio do aumento do número de aviários por unidade de produção, ou seja, mais de um aviário num mesmo estabelecimento, além de existir um aumento da capacidade dos aviários através da adoção de novas tecnologias, viabilizadas pelas facilidades de importação. A automação também chega a essas propriedades, aumentando a produtividade do trabalho. Na suinocultura, há também um processo semelhante, porém acrescido de uma especialização entre criadores e engordadores, ambos com intensificação de escala. Na pecuária de leite, cujo processo de intensificação está mais atrasado, a seletividade avança por pagamentos diferenciados à produção em maior escala, armazenada em tanques de resfriamento. Dos atuais 1,2 milhão de estabelecimentos que trabalham integrados às indústrias de laticínios e que são responsáveis por uma produção de 20 bilhões de litros/ano, devem sobrar apenas 400 mil nos próximos dez anos. A atual portaria do Ministério da Agricultura que regulamenta novos padrões de qualidade do leite obriga a ordenha mecânica e a armazenagem em tanques resfriadores e pode acelerar esse processo de exclusão. Atualmente, dez laticínios controlam quase 60% da recepção do leite CIF e integram pouco mais de 200 mil agricultores. Alternativas apresentadas pelo governo federal e pelo empresariado – flexibilização do emprego; redução de encargos sociais; criação de cooperativas de trabalho; uma tímida política de assentamentos; políticas compensatórias (tipo Comunidade Solidária); entre outras – têm objetivos articulados muito mais aos interesses econômicos de poucos grupos que privilegiam a elevação da competitividade comercial do que em relação à garantia dos direitos básicos dos trabalhadores. O Relatório sobre Desenvolvimento Humano, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), mostra que o processo de globalização da economia acentuou as desigualdades econômicas e sociais. O relacionamento da indústria com os produtores rurais se alterou em função desse processo sem precedentes de concentração e centralização de capitais. As indústrias passam a impor preços, quantidades e especificações de qualidade, permitindo-lhes um controle direto sobre os métodos de produção, a tecnologia etc. Outro aspecto importante da reestruturação produtiva na década de 90 foi o poderoso processo de fusões e aquisições, entre as empresas e as cooperativas, que, desde longa data, desempenham função importante no Brasil (assim como em outros países), particularmente na produção e na comercialização de grãos e leite, mas, agora, se vêem pressionadas por todos os lados devido às mudanças recentes. Certamente, há muito ganho de competitividade da agropecuária brasileira em função dessas mudanças. Entretanto, convém não exagerar no potencial virtuoso desse processo de modernização desregulamentada, que não coloca barreiras ao poder concentrado da indústria e deixa os produtores espremidos entre uma indústria de insumos altamente oligopolizada e, agora mais do que nunca, uma indústria de processamento que está se convertendo em autêntico oligopsônio. em setores como tabaco, soja, frango e suco de laranja. Atualmente, apenas 17 empresas, cujo faturamento supera a casa dos US$ 300 milhões anuais, controlam 43% das exportações agropecuárias no Brasil. Os quatro maiores exportadores controlam mais da metade das vendas de carne bovina e soja, mais de 70% da laranja e do frango e mais de 90% do fumo. No setor de soja, por exemplo, a participação das empresas multinacionais nas exportações passou de 30%, em 1994, para quase metade, em 1998, cifra igual ao percentual da capacidade de esmagamento, tudo como resultado da aquisição de 12 empresas nacionais por quatro das grandes operadoras mundiais na área. Em vários setores, o capital nacional praticamente foi expulso (as agroindústrias cooperativas são exemplos da exclusão e da concentração de capitais). Apesar disso, a agricultura familiar é o setor econômico que mais emprega mão-de-obra no país, sendo responsável pela ocupação de 18% da população economicamente ativa. É ela também responsável pela produção da maioria dos alimentos consumidos no Brasil. Segundo dados da Food and Agriculture Organization (FAO), com base no censo agropecuário, os agricultores familiares da região Sul estão presentes em 77% dos estabelecimentos agrícolas. Mesmo dispondo de apenas 36% da área agrícola, produzem 70% da mandioca, 60% do milho, 41% do soja, 65% do leite e 52% das aves produzidas na região. Se forem consideradas as atuais políticas macroeconômicas e projetos dos setores político-econômicos (neoliberais, subordinadas às diretrizes do Fundo Monetário Internacional etc.) que controlam o país, esse processo tende a se acirrar. Com a implantação do Plano Real e das políticas de abertura e desregulamentação, a agricultura foi seriamente penalizada. A renda agrícola tem caído sistematicamente por causa da queda dos preços dos produtos, dos altos juros cobrados pelo setor financeiro e da alta constante dos preços dos insumos agrícolas. A abertura das fronteiras e a queda nas alíquotas de importação tornaram os produtos estrangeiros mais competitivos frente aos nacionais, e não houve qualquer estímulo ou auxílio para que os agricultores familiares se reorganizassem e se readequassem a essa nova conjuntura comercial, em ritmo de globalização. Os agricultores familiares brasileiros entraram num processo de concorrência internacional justamente num momento de profunda fragilidade econômica de suas unidades produtivas. Esse é o cenário que o Brasil apresenta para um novo processo de negociações multilaterias para a constituição da Área de Livre Mercado nas Américas (Alca). As negociações na Rodada Uruguai (na qual o Brasil e os países em desenvolvimento decidiram abrir suas economias sem uma contrapartida na mesma intensidade dos países desenvolvidos) e a constituição do Mercosul sem uma participação ativa da sociedade civil (principalmente daqueles que seriam mais impactados, como, por exemplo, a agricultura familiar) evidenciam que as negociações multilaterais têm de ser democratizadas e deliberadas com a participação da sociedade civil, pois afetam diretamente todo o conjunto da população dos países envolvidos. INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL Como resultado desses movimentos todos, o agronegócio brasileiro passou por um brutal processo de concentração e desnacionalização, particularmente após o Plano Real e 51 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Com o objetivo de contribuir com esse debate, o Departamento de Estudos Sócio- 52 Econômicos Rurais (Deser) apresenta uma análise dos possíveis impactos da Alca, os diferentes interesses de países e blocos envolvidos, a visão dos diferentes atores da sociedade civil, os possíveis impactos na agricultura familiar do Brasil e os principais beneficiários nesse processo de integração. Como os Estados Unidos da América (EUA) são a principal economia da região, o texto apresenta, com detalhes, a evolução da política agrícola norte-americana e as atuais barreiras tarifárias e não-tarifárias para o acesso ao mercado daquele país. Concluindo o artigo, apresenta-se uma síntese de propostas das organizações da sociedade civil para um processo de integração participativo, justo e solidário a partir dos povos da região. Histórico da Alca A Alca decorre da chamada “Iniciativa para as Américas”, proposta pelo então presidente dos EUA, George Bush, no início da década de 90. Assim como o Nafta (México, EUA e Canadá), a Alca foi um projeto gestado por um governo republicano, mas negociado durante o governo de Bill Clinton, democrata que assumiu em 1992, após 12 anos de republicanos no poder. Agora, com a eleição de George W. Bush, os republicanos voltam a dirigir o país e, conseqüentemente, as negociações internacionais. A reunião de Cúpula de Miami, de dezembro de 1994, reuniu chefes de Estado e de governo de 34 países das Américas, sendo Cuba o único o país ausente. Na ocasião, foi lançada a idéia de iniciar-se a negociação de uma área de livre comércio no continente americano, do Alasca à Patagônia, visando sua conclusão em 2005. As decisões da Cúpula de Miami encontram-se consolidadas na Declaração de Princípios e no Plano de Ação aprovados na ocasião. Solicitou-se à OEA, ao BID e à Cepal a assistência técnica ao processo de integração e decidiu-se promover reuniões anuais de ministros para avaliar e coordenar o processo.3 Basicamente, a Alca pretende ser uma área de livre comércio de produtos, dinheiro e, em alguns casos, serviços. Além disso, o acordo pretende disciplinar investimentos, propriedade intelectual, entre outros temas de interesse maior dos EUA e Canadá. Não é seu desejo a criação de uma integração econômica completa, nos moldes da União Européia, por exemplo. Assim, não haverá espaço para a livre circulação de pessoas. Nem chega a ser uma proposta parecida com o Mercosul, no qual existe uma tarifa externa comum, além de várias políticas integradas. A proposta é restrita a eliminação das barreiras comerciais entre os países da região, mais parecida com o Nafta. 3 Todos os documentos oficiais dos acordos firmados para a construção da Alca podem ser acessados pela Internet na página da Alca: <www.ftaa-Alca.org>. Após a Cúpula de Miami, foram realizadas, até o momento, cinco reuniões ministeriais sobre a Alca. As quatro primeiras foram: em 1995, em Denver, nos Estados Unidos; em de 1998, em San José da Costa Rica. Esta reunião ministerial marcou o final da fase preparatória e o início efetivo das negociações. Foi criado o Comitê de Negociações Comerciais (CNC), que se reuniu pela primeira vez em Buenos Aires. Em abril de 1998, reuniu-se em Santiago no Chile, a Segunda Cúpula das Américas, que discutiu o estágio das negociações da Alca e diversos outros temas. Com relação à Alca, a cúpula recordou que as negociações deveriam estar concluídas até 2005. Também foi acordado que os Ministros aprovariam, até o ano 2000, medidas de facilitação de negócios. Em novembro de 1999, realizou-se em Toronto, Canadá, a quinta reunião ministerial da Alca, durante a qual foram adotadas 18 medidas de facilitação de negócios (oito na área de procedimentos aduaneiros e dez na área de transparência) e estabelecidas diretrizes para o futuro das negociações até a reunião ministerial de Buenos Aires, em abril de 2001. Por intermédio da CIOLS/ORIT (representante das organizações sindicais das Américas), o movimento sindical realizou em Denver, em 1995, uma conferência paralela, que aprovou um documento no qual manifestava as preocupações e reivindicações em relação ao processo de integração. No entanto, a declaração final dos governos em Denver aprovou a participação dos “setores econômicos” (empresários) e definiu que o respeito e a promoção dos direitos dos trabalhadores devem se dar por meio dos respectivos governos, ignorando o documento da CIOLS/ORIT. A partir daí, a CIOLS/ORIT vem participando de todos os eventos da Alca em conferências paralelas, articulando e fortalecendo os fóruns da sociedade civil. As centrais sindicais entendem que só a democratização e a garantia da dimensão social podem assegurar os direitos e interesses dos trabalhadores. Nesse sentido, a Alca começa mal, dando espaço oficial para que o setor empresarial participe do processo, enquanto que é negado aos trabalhadores o direito de influenciar no debate. Como veremos, as discussões da Alca desenvolvem-se em nove grupos de negociação (acesso a mercados; agricultura; serviços; investimentos; compras governamentais; solução de controvérsias; direitos de propriedade intelectual; subsídios, antidumping e medidas compensatórias; e políticas de concorrência) e em três instâncias não-negociadoras (Grupo Consultivo sobre Economias Menores; Comitê de Representantes Governamentais sobre a participação da Sociedade Civil; e Comitê Conjunto de Especialistas do Governo e do Setor Privado sobre Comércio Eletrônico). Os grupos negociadores e as três instâncias não-negociadoras se reportam ao CNC. O Brasil exerce a presidência do grupo negociador de agricultura (GNAG). A definição dos mandatos dos nove grupos de negociações da Alca ocorreu em Buenos Aires, durante a I Reunião do CNC, realizada de 17 a 19 de junho de 1998. As diretrizes do CNC para o GNAG acolheram, na sua totalidade, a proposta do Mercosul, que era, por sua vez, calcada nos aportes do Brasil e da Argentina. O programa de trabalho acordado cobre as áreas-chave para o comércio agrícola, a saber: acesso a mercados (tarifas e medidas não-tarifárias), subsídios às exportações e outras medidas que podem distorcer INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL 1996, em Cartagena, na Colômbia; em 1997, em Belo Horizonte, no Brasil; e em março 53 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR significativamente esse comércio. O CNC decidiu, ainda, concentrar no programa do GNAG todas as tarefas relacionadas com a aplicação de medidas sanitárias e não-sanitárias. Os países do Mercosul têm mantido encontros de coordenação prévios a todas as reuniões do GNAG, além de várias reuniões com outros blocos e países. Apenas representantes do setor patronal da agricultura e do agronegócio têm acompanhado essas reuniões. Do Brasil, participam a Sociedade Rural Brasileira, a Confederação Nacional de Agricultura, Associação Brasileira de Exportadores de Frango, além de técnicos da Confederação Nacional da Indústria. Com o intuito de estabelecer um campo de interação com órgãos governamentais, entidades sindicais e patronais e com a sociedade em geral, o governo brasileiro criou, em outubro de 1996, a Seção Nacional de Coordenação dos Assuntos Relativos à Alca, (Senalca), órgão colegiado que se reúne periodicamente, com a finalidade de preparar as posições brasileiras para as negociações da Alca. Os principais atores no processo de discussão da Alca são: EUA, Mercosul, México, Canadá, Chile e Comunidade Andina (CAN). Calendário de reuniões da Alca e suas deliberações4 54 • Cúpula de Miami – dezembro de 1994 Os chefes de Estado e de governo das Américas, na Declaração de Princípios da Cúpula de Miami, em dezembro de 1994, identificaram a integração econômica e o livre comércio como elementos essenciais para a prosperidade dos povos do continente americano e resolveram iniciar o processo de construção da Alca, na qual as barreiras ao comércio e ao investimento serão progressivamente eliminadas em algum momento, a partir de 2005. A Cúpula de Miami encarregou os ministros responsáveis pelo comércio do hemisfério a prepararem as negociações da Alca. Os ministros estabeleceram mais duas instâncias intergovernamentais: as reuniões de vice-ministros e os grupos de trabalho técnicos, que tinham a tarefa de reunir subsídios especializados para as decisões políticas sobre o início e as modalidades das negociações da Alca. • Reunião ministerial de Denver (EUA) – junho de 1995 Em Denver, os ministros definiram um programa de trabalho para preparar o início das negociações e reiteraram que as mesmas deverão ser concluídas, no máximo, em 2005. Foram criados sete grupos de trabalho, cobrindo as seguintes áreas: acesso a mercados; procedimentos aduaneiros e regras de origem; investimentos; normas e barreiras técnicas ao comércio; medidas sanitárias e fitossanitárias; subsídios, antidumping e direitos compensatórios; e economias menores. 4 O calendário de reuniões e deliberações da Alca pode ser acessado na íntegra na página da Alca <www.ftaa-Alca.org>. • Reunião ministerial de Cartagena (Colômbia) – março de 1996 Na II Reunião Ministerial sobre Comércio, em Cartagena, os ministros reiteraram o concretos até o final do século XX; remeteram para a reunião ministerial de Belo Horizonte, em maio de 1997, o exame de “quando e como lançar as negociações da Alca”; e definiram os termos de referência para quatro novos grupos de trabalho, nas áreas de: compras governamentais; direitos de propriedade intelectual; serviços; e política da concorrência. Ainda em Cartagena, os ministros reconheceram a importância do setor privado (empresas e agricultura patronal) e da sua participação ativa no processo da Alca. • Reunião ministerial de Belo Horizonte – maio de 1997 O Brasil exerceu a presidência pro tempore do processo negociador da Alca desde a reunião ministerial de Cartagena até o encontro de Belo Horizonte. Durante esse período, ocorreram quatro reuniões prévias entre vice-ministros, em Florianópolis, Recife, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Os ministros responsáveis por comércio, reunidos em Belo Horizonte, em 16 de maio de 1997, acordaram ou reiteraram os seguintes pontos: • • o consenso como princípio fundamental do processo decisório da Alca; o sentido de que os acordos e decisões da Alca constituirão um compromisso único (single undertaking); • a coexistência da Alca com acordos bilaterais e sub-regionais de integração e de livre comércio mais amplos ou profundos; • • a compatibilidade com os acordos da Organização Mundial do Comércio (OMC); a possibilidade de os países negociarem individualmente ou em bloco, como integrantes de um grupo de integração sub-regional (reivindicação do Mercosul, principalmente); • a necessidade de estabelecer uma secretaria administrativa de caráter temporário para prestar apoio às negociações; • • o ano de 2005 para a conclusão das negociações; e a transformação da reunião de vice-ministros de Comércio em comitê preparatório das negociações. A declaração ministerial conjunta de Belo Horizonte reafirmou também a importância da participação do setor privado, inclusive dos setores sindicais, no processo da Alca, por intermédio de mecanismos de diálogo e consulta com os governos. Paralelamente à mobilização em âmbito federal, estadual e municipal, gerada pelo encontro de Belo Horizonte, a sociedade civil e a opinião pública brasileira focalizaram sua atenção no tema do livre comércio hemisférico. Nesse sentido, pela relevância das contribuições apresentadas aos ministros de Comércio, cabe especial menção ao III Fórum Empresarial das Américas, também realizado INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL compromisso presidencial, firmado em Miami, de que deverão ser alcançados progressos 55 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR em Belo Horizonte, de 13 a 15 de maio de 1997. O evento foi organizado pelo empresa- 56 riado brasileiro, sob a liderança da Confederação Nacional da Indústria e da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais. Participaram do encontro representantes de todo o hemisfério. A CUT, a CIOLS/ORIT e entidades da sociedade civil promoveram um amplo fórum paralelo, no qual reivindicaram do governo o reconhecimento oficial da participação do movimento sindical e da sociedade civil nas decisões do processo de constituição da Alca. Por falta de consenso entre os países, a sociedade civil continua marginalizada do processo de integração. O México e o Peru foram os mais resistentes em aceitar uma representação oficial da sociedade civil nas negociações. O governo brasileiro, por interesses táticos nas negociações, defendeu abertamente a participação da sociedade civil no processo decisório da Alca. • Reunião ministerial de San José – março de 1998 As decisões adotadas na reunião ministerial de San José compõem o acordo demandado em Belo Horizonte. Elas constituem conjunto capaz de refletir satisfatoriamente nas parcelas essenciais dos interesses dos representantes governamentais dos países participantes do exercício hemisférico, tanto no que diz respeito ao tratamento dos temas substantivos quanto à montagem da estrutura e da organização das negociações. O principal resultado político dessa reunião foi a recomendação aos chefes de Estado e de governo da II Cúpula das Américas, ocorrida em Santiago, de 18 a 19 de abril de 1998, para que sejam iniciadas as negociações sobre a Alca. Ficou determinado que o objetivo geral das negociações seria estabelecer uma área de livre comércio no continente, na qual seriam eliminadas, progressivamente, as barreiras ao comércio de bens e de serviços e aos investimentos. As negociações deveriam estar concluídas no mais tardar até 2005 e alcançar progressos concretos até o final do século XX. Segundo os enfoques ou princípios combinados, o acordo final sobre a Alca será equilibrado, abrangente, congruente com as regras e disciplinas da OMC e constituirá um compromisso único (single undertaking), levando em conta as necessidades, condições econômicas e oportunidades das economias menores. As negociações serão transparentes e baseadas no consenso, e a Alca coexistirá com os acordos bilaterais e sub-regionais de integração e de livre comércio existentes (a exemplo do Mercosul), na medida em que esses acordos são mais profundos e abrangentes (ou seja, mais integracionistas ou liberalizadores nas relações entre seus membros) do que será a futura área de livre comércio continental. A confirmação dos citados princípios para as futuras negociações corresponde aos interesses brasileiros e do Mercosul. De acordo com o resultado dessa reunião, confirmado, em 1998, pelos chefes de Estados e de governo na II Cúpula das Américas, as negociações foram estruturadas da seguinte forma: • reunião de ministros, responsável pela supervisão e direção superior das negociações, a convocar-se pelo menos uma vez a cada 18 meses; • Comitê de Negociações Comerciais, integrado pelos vice-ministros responsáveis por Comércio, encarregado da orientação permanente das negociações, a reunir-se pelo • nove grupos de negociação, sobre os seguintes temas: acesso a mercados; investimentos; serviços; compras governamentais; solução de controvérsias; agricultura; direitos de propriedade intelectual; subsídios, antidumping e medidas compensatórias; e políticas de concorrência; • três instâncias não-negociadoras sobre os seguintes assuntos: - Grupo Consultivo sobre Economias Menores, vinculado diretamente ao Comitê de Negociações Comerciais, para manter sob exame os interesses específicos das economias menores do continente; - Comitê de Representantes Governamentais, para receber e analisar os pontos de vista dos diferentes setores da sociedade civil. - Comitê Conjunto sobre Comércio Eletrônico, integrado por especialistas governamentais e do setor privado, para apresentar recomendações à próxima reunião ministerial. Cada uma dessas instâncias terá um presidente e um vice-presidente, substituídos a cada 18 meses. A presidência do processo da Alca será rotativa, cabendo ao mesmo país sediar a próxima reunião ministerial e presidir o Comitê de Negociações Comerciais, como segue: Canadá (maio de 1998 a outubro de 1999); Argentina (novembro de 1999 a abril de 2001); Equador (maio de 2001 a outubro de 2002); e co-presidência entre Brasil e Estados Unidos (de novembro de 2002 a dezembro de 2004, ou até a conclusão das negociações). Os grupos de negociação se reunirão numa sede única, onde se instalará também a secretaria administrativa para apoiar as negociações, conforme o seguinte rodízio: Miami (1998 a 2001); Cidade do Panamá (2001 a 2003); e Cidade do México (2003 e 2004, ou até a conclusão das negociações). • Reunião ministerial de Toronto – novembro de 1999 Essa reunião, realizada em Toronto, de 3 a 4 de novembro de 1999, apresentou os seguintes resultados principais: • adoção de oito medidas de facilitação de negócios na área de procedimentos aduaneiros e de outras dez na área de transparência; • estabelecimento de diretrizes para o futuro das negociações até a reunião ministerial de Buenos Aires, a realizar-se em abril de 2001; • grupos negociadores – os nove grupos negociadores voltaram a reunir-se em Miami, em janeiro de 2000, e deverão preparar, até a próxima reunião ministerial, minuta de acordo em suas respectivas áreas, contendo textos de consenso, alternativas e textos entre colchetes. Esse material será submetido ao CNC até 12 semanas antes da reunião ministerial para que possa compilar os textos e preparar seu relatório aos INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL menos semestralmente; 57 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR ministros. Os grupos negociadores relacionados com acesso a mercados para bens e 58 serviços deverão discutir modalidades e procedimentos para as negociações nas suas respectivas áreas; • a par de examinar o material submetido pelos grupos negociadores, o CNC deverá iniciar discussões sobre a arquitetura geral de um acordo da Alca (aspectos gerais e institucionais do acordo); • designação de presidentes e vice-presidentes dos grupos e comitês do processo Alca. O Brasil foi escolhido para a presidência do Grupo Negociador de Agricultura, na pessoa do embaixador Francisco Thompson Flores; • aprovação de mensagem dos ministros de países participantes da Alca a ser enviada ao Conselho da OMC, por ocasião da Rodada do Milênio, sobre a eliminação de subsídios agrícolas. Foi criado por decreto um mecanismo de coordenação entre os diversos órgãos internos do governo brasileiro para questões da Alca, chamado Seção Nacional de Coordenação dos Assuntos Relativos à Alca (Senalca). Logo depois, entidades representativas da sociedade civil – como, por exemplo, a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Força Sindical, dentre outras organizações – passaram a participar dos trabalhos da Senalca, que é presidida pelo subsecretário-geral de Assuntos de Integração, Econômicos e de Comércio Exterior do Itamaraty, a quem incumbe representar o Brasil no CNC. Interesses e posição dos EUA, Canadá e do Mercosul nas negociações Considerando que o objetivo da Alca é deixar livre o comércio entre os países da América, dos hemisférios Norte e Sul, podem-se identificar dois grandes grupos de países. Em relação aos do Norte, interessa saber quais os interesses e as possíveis ações dos Estados Unidos, em particular, e do Canadá, secundariamente, visto que são as duas grandes economias da região. Do hemisfério Sul, interessa saber qual a posição, os interesses e as ações concretas dos países que compõem o Mercosul, em especial do Brasil e da Argentina, visto que são as economias mais importantes desse bloco. As demais nações americanas fatalmente irão atrás do resultado do jogo de poder entre esses países. Também tem papel importante o México, por sua participação no Nafta e por sua influência regional, além de ser um importante interlocutor do Norte com o Sul das Américas. A bandeira do livre comércio é, hoje, hasteada pelos EUA e secundada de longe pelos demais países ricos, como sendo de interesse universal e a grande chave para a prosperidade mundial. Vários argumentos a favor da queda de barreiras comerciais constam de documentos do BID, FMI, Banco Mundial e de agências norte-americanas que defendem a Alca: melhor divisão e especialização internacional do trabalho, economias de escala, alocação mais eficiente dos fatores de produção, otimização das vantagens comparativas, dinamismo concorrencial, identificação de nichos de mercado, processos de Além disso, a liberalização comercial induz o aumento de produtividade ao patrocinar a importação de know-how, técnicas de gerenciamento e investimentos diretos. É interessante notar que a nação que propõe a liberalização comercial, os EUA, é a mesma que detém 76% do PIB do continente. É bom lembrar, também, que as nações líderes da produção global de bens industriais e serviços (EUA, Japão, França, Alemanha e Inglaterra) são as mesmas que têm em suas fronteiras as matrizes dos verdadeiros atores do processo econômico mundial – as grandes corporações transnacionais. Embora tenham grandes divergências entre si, esses países sabem que suas empresas transnacionais têm muito a ganhar com a liquidação das barreiras ao comércio internacional. Na Tabela 1, pode-se verificar que os países integrantes da Alca possuem, em conjunto, um PIB que ultrapassa US$ 9 trilhões, representando mais de 31% do PIB mundial. O Nafta terá um grande peso na Alca, concentrando mais de 85% do PIB do bloco, mais de 40% da população e 89% do comércio total. É importante ressaltar que os EUA isoladamente representam cerca de 76% do PIB da Alca, 34% da população, 69% das exportações e 71% das importações totais do bloco. O Brasil, dentro do Mercosul, detém 64% do PIB desse bloco, mas apenas 5,3% do PIB da Alca. TABELA 1 Indicadores selecionados da Alca, Nafta e Mercosul ALCA NAFTA MERCOSUL UNIÃO MUNDO EUROPÉIA População (milhões hab.) % População mundial Comércio (US$ bilhões) % Comércio mundial PIB (US$ bilhões) % PIB mundial 737 378 215 373 13 6,6 3,7 6,5 5.768 100 2.374 2.111 173 4.446 10.615 22,3 19 1,6 42 100 9.024 7.932 874,6 8.654 29.200 31 27,2 3 29,6 100 Fonte: FMI – Annual Report/FAO – FAOSTAT e documentos oficiais Alca. In: Preços Agrícolas (nov. 1998). Isso explica o interesse e a pressão dos EUA para uma liberalização cada vez maior dos países americanos e pela assinatura de um acordo de livre comércio. A intenção dos EUA em implantar rapidamente a Alca tem como objetivo central maximizar o seu poderio econômico e de suas corporações globais de modo a se encontrarem bem posicionados quando houver a abertura geral patrocinada pelos amplos acordos de comércio no âmbito da OMC e de outros fóruns mundiais. Para justificar sua estratégia, os norte-americanos usam o argumento de que os países da América Latina têm muito mais a perder ficando de fora do que se integrando aos EUA. Essa posição norte-americana decorre também da falta de outros espaços para exercer sua influência econômica e política, visto que a Ásia, região de grande crescimento, tende a aumentar sua soberania (com maior influência da China, Japão e Coréia em detrimento dos EUA) e a Europa ocidental tende a dominar o INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL racionalização, queda de preços e conseqüente aumento de bem-estar para o consumidor. 59 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR leste europeu (outra região de potencial crescimento). A única área econômica continental 60 com a qual os norte-americanos possuem um superávit comercial é a América Latina. O que está em jogo na formação da Alca é o prazo para a sua criação e a forma de como vai se dar o processo de união comercial. Existem três propostas em discussão: dos EUA, do Canadá e do Mercosul. Os EUA querem o acordo concluído e implementado até 2005, enquanto o Mercosul considera essa data para o término das negociações e apenas o início do processo de integração. Os EUA querem começar justamente por onde o Brasil e o Mercosul pretendem terminar: a redução de tarifas. Os EUA cogitam criar a Alca por intermédio de de negociações individuais por país. Essa posição se choca com a política do Brasil e dos demais integrantes do Mercosul, que querem o fortalecimento do Bloco Mercosul (acrescido do Chile e Bolívia) e negociação em bloco com posições assumidas em grupos de países. Os EUA e o Canadá vêem a Alca como um processo independente dos acordos sub-regionais do comércio: Mercosul, Nafta e Pacto Andino. O Mercosul pretende manter sua unidade para negociações, fortalecendo o bloco como algo mais do que uma zona de livre comércio. Os EUA querem proteção à propriedade intelectual maior do que a OMC oferece. Querem também o início das discussões sobre reduções tarifárias. O Mercosul não quer compromissos de aceitar reduções tarifárias antes da data-limite (2005). O Canadá quer assegurar a conclusão das negociações para 2003, pois os congressos precisariam de todo o ano de 2004 para ratificar o acordo que entraria em vigor no ano seguinte. O Mercosul possui um plano de três etapas para a construção da Alca. A primeira, que iria até o final de 2001, seria sobre a facilitação de negócios: medidas na área de documentação aduaneira, certificação de origem, simplificação do transporte de mercadorias, reconhecimento de certificados sanitários e fitossanitários e redução do custo de informação. Nessa etapa, o Mercosul propõe ainda discutir a criação de um banco de dados, unificando toda a regulamentação dos países da Alca sobre as condições de admissão de mercadorias, especialmente na área agrícola, além de outras informações sobre o continente. Na segunda etapa, seriam negociadas, em 2001 e 2002, as disciplinas não relacionadas ao acesso de mercados, ou seja, à harmonização das normas técnicas e dos procedimentos administrativos das alfândegas, além da eliminação das restrições injustificáveis de barreiras não-tarifárias ao comércio e da definição de mecanismos para solução de controvérsias, principalmente para a área agrícola, visando um acordo sobre o fim dos subsídios. Finalmente, numa terceira etapa, o Mercosul propõe a discussão da redução das tarifas, que só deveria entrar em vigor a partir de 2005. Do lado dos países do Mercosul, especialmente Brasil e Argentina, seus governos e parte da sociedade (principalmente os empresários) aderiram à idéia de que o livre comércio proposto pelos americanos traz desenvolvimento. Para que as negociações da Alca fossem aceitáveis ao Brasil, seria fundamental a garantia de melhora significativa das condições de acesso ao mercado norte-americano e de nenhuma discriminação em relação a fluxos comerciais e de investimentos diretos dos parceiros tradicionais do Brasil fora do continente. Estes fluxos comerciais, como será visto adiante, são compromissos que o governo norte-americano não tem condições de assumir. em melhores condições de competição com a produção brasileira. Além de subsidiar também as exportações, há, ainda, um grande número de obstáculos à entrada dos produtos brasileiros no mercado norte-americano, colocando em risco a obtenção de vantagens para o Brasil com a criação da Alca. Atualmente, predomina a idéia de uma área de integração regional cuja redução de tarifas se concentraria no período de 2005 a 2015. Mas ainda permanecem as dúvidas sobre os subsídios à agricultura, as barreiras não-tarifárias, os subsídios às exportações e as restrições ao acesso ao mercado praticado pelos EUA. Em outras palavras, os norteamericanos querem que os demais países da América abram suas economias, mas não dá nenhuma garantia de que fará o mesmo com o seu país. Política agrícola norte-americana Como os EUA representam isoladamente cerca de 76% do PIB da Alca, 34% da população, 69% das exportações e 71% das importações totais do bloco, esse país caracteriza-se por uma forte economia agroexportadora competitiva com países como o Brasil ou blocos como o Mercosul. Em relação à política agrícola, os EUA possuem, historicamente, instrumentos de apoio interno e externo competindo com a União Européia e demais integrantes da OCDE na utilização de elevados subsídios e de barreiras protecionistas à agricultura doméstica. Nos últimos anos (1998/99), foram dados aos agricultores pelo Estado US$ 15 bilhões, apenas em ajuda adicional (US$ 6 bilhões em 1998 e US$ 9 bilhões em 1999). Neste momento em que se discute a Alca, é interessante conhecer-se a política agrícola norte-americana. O surgimento dos EUA como uma economia de características hegemônicas se deu a partir do início do século passado, quando este país se transformou num pólo de atração de mão-de-obra, capital e espírito de iniciativa dos europeus. Ao contrário da Inglaterra, os EUA nunca levaram a sério os ideais de adoção do livre comércio. A estratégia norteamericana foi manter o mercado fechado aos produtos estrangeiros e aberto ao capital e talentos externos, enquanto forçavam a abertura de outros países a seus produtos e empresas. No período posterior à Primeira Guerra Mundial, os EUA passaram a defender a eliminação de todas as barreiras econômicas e o estabelecimento de uma igualdade comercial entre todas as nações. O artigo 23 do Pacto da Sociedade das Nações estipulou um tratamento igualitário de comércio entre os seus membros. As conferências econômicas que se realizaram em Bruxelas e em Gênova fracassaram. Uma terceira conferência, realizada em Genebra, em 1927, tentou impor a liberalização do comércio com a redação de um texto de desarme aduaneiro, mas que, apesar de assinado, nunca foi ratificado. INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL Para o agronegócio, verifica-se uma concorrência desleal devido à política agrícola nos EUA, que subsidia fortemente a produção interna e as exportações, colocando o país 61 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Nessa época, surgiram os primeiros blocos econômicos ou áreas preferenciais dentro 62 dos impérios (particularmente Inglaterra e França). As metrópoles estabeleciam um regime aduaneiro e monetário “favorável” às suas colônias (franquias aduaneiras, livre circulação dos capitais etc.) em troca de um acesso privilegiado aos seus mercados. Em 1934, o presidente Franklin D. Roosevelt, conseguiu aprovação, junto ao congresso de seu país, do Reciprocal Trade Agreement Act (acordo de comércio recíproco), que permitia ao presidente realizar acordos comerciais com outros países com uma diminuição recíproca de tarifas aduaneiras. Nesse acordo, foram adotados os seguintes princípios: • cláusula de nação mais favorecida; • não-discriminação; • tratamento leal e equitativo; • cláusula de salvaguarda. Futuramente, os quatro princípios fundamentais dessa lei seriam incluídos nos textos dos acordos do GATT. É importante ressaltar que, um ano antes, o presidente Roosevelt conseguira a aprovação de uma lei, com muitos dispositivos ainda vigentes, que ditava as bases essenciais da política agrícola americana. Essa política tinha como principal objetivo proteger a agricultura americana e garantir a segurança alimentar do país contra os possíveis problemas causados pelos acordos comerciais que os EUA viessem a adotar. A lei agrícola americana, Adjustement Agricultural Act, instituiu as seguintes medidas: • sistema de pousio, com pagamentos compensatórios aos produtores com o objetivo de controlar a oferta; • pagamento aos agricultores e/ou agroindústrias da diferença entre os preços do governo e de mercado (deficiency payment); • proteção ao mercado interno por meio de restrições quantitativas às importações. Esta lei criou o Commodity Credit Corporation (CCC), similar à Companhia de Finan- ciamento da Produção (CFP), e que operaria diretamente na compra e venda de produtos agrícolas. Também criou a Agricultural Adjustment Administration/AAA (Administração de Ajuste da Agricultura), que deu poder para controlar o volume da produção através do controle da área plantada. A CCC, com recursos do Tesouro, fazia empréstimos aos produtores que desejassem reter sua produção para colocá-la futuramente no mercado em melhores condições de preços. Essas operações seriam balizadas por preços de empréstimos (loan rates), pela CCC estabelecidos, que funcionam na prática como uma política de preços mínimos. A AAA, servindo-se de estimativas de demanda e de níveis desejáveis de estoques para os principais produtos, determinava a área a ser plantada para cada cultura. Essa área era repartida entre os estados e depois entre os agricultores, tendo por base a evolução recente de sua produção. Os agricultores que concordassem em manter a área plantada dentro dos limites estabelecidos recebiam uma compensação paga pelo Tesouro. O programa foi processamento do produto agrícola, sendo, mais tarde, incorporado ao orçamento do governo federal. A seca de 1934 e as tempestades de areia de 1935 sensibilizaram a opinião pública. Isso facilitou a aprovação, pelo Congresso, de uma outra lei que instituiu um programa de preservação e melhoria do solo agrícola, oferecendo pagamentos compensatórios à retirada de culturas esgotantes do solo e à adoção de práticas de conservação. Em 1938, a lei foi revisada, estabelecendo, com mais precisão, a idéia de paridade. Os preços recebidos pelos produtores deveriam atingir níveis tais que lhes assegurassem o mesmo poder de compra (relação preços recebidos/preços pagos), vigentes no período 1910-14 e que tinha sido muito favorável aos agricultores. A nova lei incorporou o programa de conservação do solo e acoplou aos preços de paridade as compensações asseguradas aos agricultores que se engajassem no programa de controle da oferta agrícola. Estes passaram a receber um pagamento compensatório igual à diferença entre o preço de paridade e o preço de mercado, multiplicado pela produção que seria obtida, em condições normais na área retirada do plantio. Essa lei instituiu, ainda, os programas de distribuição gratuita de alimentos, com o objetivo de utilizar domesticamente os excedentes obtidos pela CCC e também admitia a redução de preços caso os excedentes atingissem níveis elevados. Mas a solução para os excedentes só viria mais tarde, com os subsídios às exportações e não com a redução dos preços internos. Essa legislação agrícola norte-americana da década de 30, apesar de seu caráter emergencial, em geral, permanece em vigência até hoje, constituindo a principal fonte jurídica do programa agrícola dos EUA. Cardoso e Pessoa (2000) fazem uma cronologia da política agrícola norte-americana de 1949, quando foi estabelecido o Agricultural Act, até a nova lei agrícola de 2000, Farm Safety Net, ainda em discussão no Congresso dos EUA. Em 1949, foi estabelecido o Agricultural Act – junto com o Agricultural Adjustmente Act, de 1938, esse é o conjunto de leis que definiu o modelo de política agrícola norteamericana até a década de 70. Ainda é a lei básica. As Farm Bills nos anos seguintes são consideradas leis temporárias, embora façam mudanças no Agricultural Act. A lei de 1949 determinou mandatory support (uma espécie de preço mínimo) para uma série de produtos, de madeira a mel, passando por leite e batata. Em 1954, foi aprovada a lei PL-480 (oficialmente, Agricultural Trade Development and Assistance Act), instalando-se uma política comercial que seria fundamental para a manutenção e estabilidade dos programas agrícolas domésticos nos anos posteriores. As doações de alimentos e os financiamentos para a importação de produtos agrícolas, com prazos e juros extremamente favoráveis, concedidos no quadro da PL-480 para um grande número de países, permitiram aos Estados Unidos, por um lado, que se desembaraçassem dos estoques de produtos agrícolas e, por outro, transformarem – como era INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL financiado, inicialmente, por um imposto cobrado das indústrias que faziam o primeiro 63 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR seu propósito – muitos países receptores da ajuda em clientes comerciais para seus 64 produtos agrícolas. Essa política ajudou a impulsionar a enorme expansão das exportações norte-americanas. A partir da década de 60, as exportações agrícolas norte-americanas cresceram vigorosamente, tornando a renda da agricultura cada vez mais dependente das vendas externas. Entre 1962 e 1971, em média, 49,5% do trigo, 13% do milho e 3% da soja produzidos pelos EUA foram destinados ao mercado internacional. Entre 1971 e 1983, essas proporções cresceram para, respectivamente, 58%, 26% e 39%. Em meados da década de 80, 25% da renda bruta dos agricultores dependia das exportações. Em 1965, é estabelecido o Food and Agriculture Act. A lei agrícola de 1970 foi a legislação que iniciou as mudanças na política de suporte de preços. Farm Bill de três anos, a lei agrícola diminuiu as restrições de plantio e determinou um limite anual de pagamento aos produtores (US$ 55 mil). Em 1973, o Agriculture and Consumer Protection Act foi uma lei agrícola de quatro anos que adotou target prices (preços-meta) e deficiency payments como o modelo de suporte à renda agrícola, mas tentando diminuir a acumulação de estoques agrícolas. O Congresso reduziu o limite de pagamento anual a cada produtor para US$ 20 mil. Baseados, primeiro, nos preços pagos pelos produtores (lei de 1973) e, depois, nos custos de produção (lei de 1977), os preços-meta são preços ideais que, se vigorassem no mercado assegurariam um nível de renda líquida mínimo para os agricultores. Caso os preços de mercado viessem a cair abaixo dos preços-meta, corroendo a renda dos produtores, estes receberiam, em dinheiro, um complemento à renda, chamado deficiency payment. Em 1977, o Food and Agriculture Act ampliou os preços-meta e estabeleceu o National Agricultural Research, Extension, and Teaching Policy Act, que fez do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) o grande responsável pela extensão, pesquisa e educação agropecuária nos EUA. A intenção das leis de 1973 e 1977 foi flexibilizar os preços mínimos para empréstimos de comercialização (loan rates) a fim de mantê-los abaixo dos preços de mercado e, naqueles casos em que os EUA são formadores de preços, abaixo dos preços internacionais. Com isso, em situações de excesso relativo de oferta, os preços domésticos, sem o suporte de preços mínimos elevados, ficariam mais flexíveis para baixo. O produtor, em lugar de entregar seu produto à CCC, poderia colocá-lo no mercado a esses níveis mais baixos de preços, sem ver erodida sua renda, que estaria assegurada pelo acesso ao deficiency payment. O deficiency payment é igual à diferença entre o preço de mercado ou os loan rates (o mais elevado prevalece) e o target price ou preço-meta, multiplicada pelo volume da produção normalmente obtida na área permitida. Além dos deficiency payments, os agricultores têm direito a indenizações em caso de calamidades naturais, ao reembolso com a estocagem de produtos vinculados aos empréstimos de comercialização e aos pagamentos de incentivo ao controle de área. Em 1981, a lei agrícola continuou a modificar a política agrícola, reduzindo os preços-suporte para leite e derivados e estabelecendo target prices para os anos seguintes. programas do USDA, especialmente nos programas de conservação ambiental. Em 1990, a lei agrícola Food, Agriculture, Conservation and Trade (FACT), também de cinco anos, ampliou a tendência de uma agricultura mais orientada para o mercado nos EUA, além de congelar os target prices e ampliar a flexibilidade de plantio. A partir de 1990, aparecem duas idéias intimamente relacionadas: permitir ao agricultor maior flexibilidade para implantar diferentes culturas em sua área base e romper o vínculo entre a ajuda direta e as decisões de produção. Desde que o produtor seguisse determinadas regras os deficiency payments seriam transformados numa ajuda direta por hectare paga ao produtor, desvinculada do produto e do volume de produção. Em 1996, o Federal Agriculture Improvement and Reform Act (FAIR) foi a lei agrícola que acabou com o suporte de renda para a agricultura norte-americana baseado nos preços agrícolas. Também estabeleceu um programa de sete anos de pagamentos fixos baseados no histórico de pagamentos dos anos anteriores. Os produtores passaram a ter liberdade de plantar o que quisessem, pois esses pagamentos não estavam vinculados a determinados limites de área plantada. Após dois anos da assinatura do Acordo sobre Agricultura da Rodada Uruguai e após pouco mais de um ano da sua vigência, o Congresso dos EUA deu continuidade ao processo de reforma das suas políticas, aprovando uma nova lei agrícola para o país em abril de 1996. Essa lei modificou significativamente o sistema de proteção da renda da agricultura, baseado na garantia de preços, no controle da oferta via restrição da área cultivada e na formação de estoques, e estabeleceu metas para disponibilidade de recursos até o ano 2002. Os principais motivos econômicos que levaram à reforma da política agrícola foram: • existência de programas domésticos excessivamente restritivos e considerados inadequados à competição internacional; • despesas governamentais altas e imprevisíveis, pressionando o orçamento federal; • maior integração entre os mercados mundiais; • conjuntura econômica favorável, com perspectiva de expansão da demanda e do mercado mundiais. O ponto fundamental da nova legislação está nas medidas que permitem flexibilidade no plantio, deslocando para os produtores as decisões sobre o que e quanto plantar, de acordo com as condições do mercado. Foram feitas várias modificações nos programas de seguro, crédito, preservação ambiental e, sobretudo, nos relativos às exportações agrícolas. Nesse caso, o objetivo foi garantir créditos e subsídios às vendas ao exterior, além de desenvolver novos mercados, principalmente para produtos de alto valor agregado e com elevada participação de componentes norte-americanos. INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL Em 1985 o Food Security Act, lei agrícola de cinco anos, novamente reduziu preçossuporte e pagamentos de garantia de renda. Foram feitas mudanças em uma série de 65 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Segundo análises de técnicos do Ministério da Agricultura do Brasil, os impactos de 66 curto e médio prazo da nova lei nos EUA serão os seguintes: • modelo de produção ficará mais orientado pelo mercado. Os pagamentos do governo aos agricultores ficarão desvinculados da produção e dos preços. Serão reduzidos os níveis de proteção estatal ao setor produtivo no caso de mudanças de preços; • os custos orçamentários poderão ser predeterminados; • os preços e a renda agrícola terão maiores variações e os produtores terão que administrar maiores riscos. Hoje, os ideais liberalizantes que motivaram a reforma da política agrícola dos EUA, em 1996, nunca estiveram tão desacreditados. Agricultores, parlamentares, economistas e até o ex-presidente Bill Clinton diziam que a lei FAIR de 1996 não atingiu seus objetivos. Se havia alguma esperança de que a lei FAIR pudesse marcar o fim do intervencionismo na agricultura, a atual Farm Safety Net (Rede de Segurança para a Agricultura) indica que o Estado vai continuar determinando o desempenho do setor no mercado interno e externo. Em 2000, a Farm Safety Net ainda está em discussão no Congresso. A lei deve manter a tendência de substituir a garantia de preços pela garantia de renda. Os pagamentos podem crescer ou diminuir de acordo com o que acontecer com a renda rural. O projeto destaca a necessidade de manter a autonomia dos agricultores norte-americanos para decidir o que plantar e a redução das barreiras para o comércio mundial. Pelo reconhecimento da multifuncionalidade da agricultura, a renda aos agricultores estaria garantida, sem depender dos preços no mercado internacional. Atualmente, 40% da renda agrícola dos agricultores vem dos subsídios do Estado. Em síntese, a política agrícola norte-americana não sofreu modificações essenciais. Seus três instrumentos básicos – os preços de suporte como indicativo de renda (diretas e indiretas), os controles de produção e os deficiency payments – sobreviveram, ainda que submetidos a ajustes para dar conta de restrições orçamentárias e de acordos multilaterais no GATT e OMC. No território da política comercial, o esforço de recuperação de espaços nos mercados mundiais continua calcado sobre os antigos programas de créditos preferenciais e no recurso aos subsídios diretos às exportações. Essa realidade não deve se alterar significativamente nem com a Rodada do Milênio da OMC nem com o estabelecimento da Alca, o que torna muito desigual a competitividade entre os países membros, em uma área de livre comércio com políticas tão diferenciadas. Alca e agricultura brasileira Como foi visto, as negociações sobre agricultura na Alca se dão dentro do Grupo de Negociações da Agricultura (GNAG). O GNAG reuniu-se em setembro de 1998, janeiro, março, maio e setembro de 1999 e maio de 2000. Geralmente, essas reuniões contaram com quórum elevado, em que se verificou a presença, em média, de 22 a 25 países. Os países do Mercosul mantiveram encontros de coordenação prévios a todas as reuniões do GNAG, além de várias reuniões bilaterais com outros blocos e países (CAN, Chile, EUA e Canadá). Acompanharam os trabalhos do grupo representantes do setor privado do do Brasil no GNAG: para participar das discussões, apenas foram convidados representantes do setor patronal e das grandes agroindústrias brasileiras, ficando de lado segmentos importantes da agricultura brasileira, como a agricultura familiar, representada entre outros, pela Contag/CUT e pela Frente Sul da Agricultura Familiar, que participam de outros fóruns de decisão governamental, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável. Dessa forma, os interesses desses segmentos enfrentarão maiores dificuldades nas negociações, visto que o governo brasileiro não os escutou, negociando com base exclusivamente nos interesses dos grupos econômicos tradicionais do agronegócio. Temas substantivos do GNAC Em geral, as discussões concentram-se na busca de consenso entre os principais atores no processo da Alca. Existe um trabalho inicial de diagnóstico em cada país para cada tema acordado. Os temas prioritários para o grupo são: acesso a mercados, subsídios às exportações e medidas sanitárias e fitossanitárias. Nos três temas as posições do Mercosul enfrentam grandes obstáculos, principalmente por conta da posição dos EUA e do Canadá. No que diz respeito ao acesso a mercados, como será visto, os americanos tem um verdadeiro arsenal de barreiras à entrada de produtos agrícolas em seu mercado interno e não aceitam discuti-las no âmbito da Alca, alegando que esses são temas prioritários para as negociações da OMC. Já o Mercosul coloca a resolução do tema como condição para o avanço das demais negociações do bloco, ou seja, sem tratar do tema de acesso a mercados, o interesse do Mercosul na Alca diminui substancialmente. Quanto ao tema dos subsídios às exportações, a situação não é diferente, com os norte-americanos resistindo em tratá-lo no âmbito da Alca e preferindo discuti-lo nos fóruns da OMC. Os norte-americanos argumentam que outros países, como os da União Européia, continuarão praticando políticas de subsídio, independentemente da vontade dos países das Américas. Quanto às medidas sanitárias e fitossanitárias, nas quais os norte-americanos escondem boa parte de suas políticas protecionistas, a possibilidade de avanços que facilitem a entrada de produtos brasileiros ou do Mercosul no mercado americano é bastante remota. O acordo da Rodada Uruguai estabelece que todas as medidas sanitárias e fitossanitárias que possam afetar o comércio internacional devem ser defendidas somente se tiverem por objetivo garantir a proteção da vida e da saúde dos seres humanos 5 Pedro de Camargo Neto, da Sociedade Rural Brasileira; Gilman Vianna e Antonio Donizete Beraldo, da Confederação Nacional de Agricultura; Cláudio Martins, da Associação Brasileira de Exportadores de Frangos; e técnicos da Confederação Nacional da Indústria. INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL Brasil5 e da Argentina. Cabe, aqui, uma primeira crítica aos representantes governamentais 67 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR e dos animais e a preservação das plantas. O objetivo principal é garantir que essas 68 medidas não sejam usadas para distorcer o comércio internacional. Na Alca, as barreiras sanitárias e fitossanitárias vão além desses objetivos e dificultam o acesso ao mercado, principalmente nas relações comerciais do Mercosul com os EUA. Processo de integração do Mercosul deve servir de lição para negociações na Alca No processo de integração do Mercosul, o impacto sobre o setor agrícola foi grande, principalmente para o Brasil. A agricultura serviu de moeda de troca nas negociações com os países vizinhos, que ganharam em agricultura e perderam em indústria e serviços. A não-integração da política cambial (real valorizado) no bloco e a maior fertilidade dos solos na Argentina e parte do Uruguai e do Paraguai deram a esses países vantagens na produção de grãos, algodão e leite em detrimento da produção brasileira. Para alguns produtos, como o trigo e algodão, o Brasil se tornou um grande importador, desestruturando sua produção interna. Para outros produtos, como o leite, milho e arroz, a integração também não foi boa para os produtores brasileiros, que passaram a concorrer com os países do bloco. O modelo agrícola do Mercosul levou os países à concorrência e não à complementariedade, como previa o acordo. Além disso, todo um conjunto de políticas previstas no início das negociações do Mercosul, que deveriam ajustar a produção brasileira ao novo cenário, não foi implementado, levando milhares de produtores ao abandono da produção por falta de condições para a competitividade. A Tabela 2 descreve essa situação, mostrando como as importações brasileiras impactaram um número expressivo de estabelecimentos rurais. TABELA 2 Importações brasileiras por produto e redução de estabelecimentos PRODUTO QTDE (t) UNIDADES ÁREA PRODUTIVIDADE PRODUTIVAS MÉDIA (t/ha) AFETADAS (ha) Algodão 494.842 188.153 5 Arroz 774.465 16.135 20 2,4 Trigo 5.662.643 48.193 50 2,35 492.010 37.847 5 2,6 1.582.181 16.655 50 1,9 5 Milho Soja Feijão 150.000 37.500 Leite 193.000 193.000 Total 9.349.141 1,58 0,8 10 t/ano 537.482 Fonte: Secex, Conab, IBGE e Deser. Elaboração: Deser. Se dentro do Mercosul, onde as políticas agrícolas não são tão diferentes, o impacto sobre o setor agrícola já foi grande, em um modelo de integração com os EUA e Canadá, impacto tende a ser ainda mais negativo para os países do Mercosul, especialmente o Brasil. Os quatro países praticam políticas agrícolas com poucos subsídios. Na integração proposta com a Alca, os impactos serão grandes nas economias dos países da região, já que o bloco possui acentuadas desigualdades econômicas e sociais em relação às grandes potências do continente (EUA e Canadá). Os EUA e o Canadá possuem uma política agrícola bastante subsidiada e o mercado interno bastante protegido com barreiras tarifárias e não-tarifárias. A presença de grandes transnacionais da cadeia agroalimentar nesses países, fortalecidas com políticas internas, principalmente nos EUA, provocarão uma competitividade desleal em nosso mercado interno e externo. Por outro lado, os produtos do agronegócio brasileiro representam 60% das exportações totais do Brasil para a União Européia. Para os EUA e Canadá, o agronegócio corresponde a 24% do total de nossas exportações. Esses dados evidenciam que, apesar das restrições tarifárias, a Europa, para o agronegócio, é um importante parceiro. Já as exportações do agronegócio para os países da Alca, principalmente para os EUA e Canadá, além das barreiras comerciais, que serão vistas adiante, encontram similaridade na produção e, conseqüentemente, competitividade nas exportações. Esses são os casos da soja, algodão, milho, trigo, entre outros. Os parceiros comerciais do Brasil no Mercosul são os principais fornecedores de produtos agroalimentares ao país. Como se pode observar na Tabela 3, aproximadamente 51% das compras de algodão vêm da Argentina e do Paraguai, 78% das compras de arroz vêm da Argentina e do Uruguai, 88,5% das aquisições de milho vêm da Argentina e do Paraguai, 95% das de trigo vêm da Argentina e 71% das aquisições de leite vêm da Argentina e do Uruguai. TABELA 3 Importações por produto e país de origem em 1998 (% sobre o valor total) PRODUTO ARGENTINA PARAGUAI URUGUAI MERCOSUL OUTROS Algodão 32,7 18,6 – 51,3 Arroz 38,5 – 38,6 77,1 48,7 22,9 Milho 68,9 19,5 – 88,4 11,6 Trigo 95,1 – 0,0 95,1 4,9 Leite e derivados 55,6 – 15,6 71,2 28,8 Fonte: MDIC. Elaboração: Deser. Com a Alca não se pode garantir que o Brasil continuará comprando esses produtos de seus vizinhos, na medida em que os norte-americanos são também produtores dos mesmos produtos, o que pode levar a uma enorme crise de produção no Mercosul, não somente no Brasil. Como a produção norte-americana é fortemente subsidiada, poderá haver alguma coisa parecida com dumping, forçando os produtores do Sul a reduzirem seus preços ou a abandonarem a atividade. INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL que subsidiam fortemente sua produção agrícola e protegem seus mercados locais, o 69 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR As importações dentro do bloco estão isentas de taxas de importação. Existe um 70 acordo que consolidou as tarifas de importação entre os países membros do bloco e os terceiros países. Ou seja, há impostos de importação quando os produtos são oriundos de países que não integram o Mercosul. Essas taxas, denominadas de Tarifa Externa Comum (TEC), dos principais produtos agrícolas importados pelo Brasil são os constantes na Tabela 4. TABELA 4 Taxas de importação do Mercosul - TEC PRODUTO ALÍQUOTA Algodão não cardado 6 Algodão cardado e penteado 11 Arroz em casca 13 Arroz descascado 13 Milho 11 Feijão 13 Trigo 13 Leite 33 Iogurtes 19 Manteiga 19 Musarela 33 Requeijão e queijo 19 Fonte: Indicadores da agropecuária/Conab. Elaboração: Deser. Apesar de o Brasil apresentar um saldo comercial positivo para o agronegócio em relação ao comércio com os EUA, o país tem enfrentado um déficit em relação aos parceiros da Alca, principalmente em relação ao Mercosul. O superávit obtido no saldo da balança comercial agroindustrial advém basicamente das transações comerciais com a União Européia. A seguir, discutem-se as principais barreiras que, atualmente, os produtos do Brasil enfrentam nos EUA, supostamente o maior mercado potencial para os produtos do agronegócio brasileiro e do Mercosul. A possibilidade de explorar o mercado agroalimentar norte-americano é a principal justificativa para a criação da Alca por parte dos setores patronais da agricultura brasileira. Empresas como Sadia e Perdigão, além de empresas do setor de suco de laranja e fumo, têm grande interesse nesse processo. Contudo, as perspectivas de os EUA reduzirem suas barreiras à entrada de produtos do Mercosul são bastante remotas. Barreiras às exportações agrícolas brasileiras para os EUA Com base em estudo promovido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, em 1999, os EUA são o segundo maior mercado para os produtos brasileiros, respondendo por 22% do total exportado em 1999. Apesar disso, o vertiginoso crescimento das compras brasileiras a partir de 1994 fez com que o saldo comercial, que era favorável ao Brasil desde 1981, invertesse o sinal, e o Brasil apresentasse um déficit de aproximadamente US$ 1,12 bilhão em 1999. Em relação ao agronegócio, o Brasil ainda esse país apresenta ao livre mercado. A seguir, são descritas as principais políticas de proteção ao mercado interno praticadas pelos norte-americanos. Tarifas, taxas e preferências A estrutura tarifária norte-americana é composta de tarifas ad valorem, específicas e compostas. Com relação à sua estrutura tarifária, houve a consolidação junto à OMC de todos os itens tarifários, com exceção de dois itens relativos ao petróleo bruto e com a incorporação à estrutura tarifária (“tarifação”) das barreiras não-tarifárias aplicadas às importações agrícolas. Adicionalmente, como previsto no Acordo Agrícola da OMC, introduziram-se quotas tarifárias como forma de garantir o acesso de produtos cujas tarifas finais tornaram-se proibitivas.6 O país vem seguindo o acordado na Rodada Uruguai com reduções tarifárias anuais, apesar de partirem de um teto bastante elevado para muitos produtos agrícolas. As tarifas ad valorem mais elevadas se concentram nas seções 1 (animais vivos e produtos do reino animal), 2 (produtos do reino vegetal), 4 (produtos das indústrias alimentícias, bebidas e fumo), 11 (matérias têxteis e suas obras) e 12 (calçados), como ilustrado na tabela seguinte. Esses são justamente os grupos de produtos nos quais o Brasil e o Mercosul têm maior interesse. Os EUA aplicam, ainda, tarifas específicas sobre muitos itens da pauta de exportações brasileiras. Destacam-se os seguintes: fumo, açúcar, suco de laranja, álcool etílico, abacaxi, abacate, laranja, limão, uva e pêra. Note-se que alguns desses produtos não registram exportação para os EUA, seja por causa da proteção tarifária ou da incidência de outras barreiras, como proibições fundadas em razões sanitárias ou fitossanitárias. Todavia, para alguns produtos como a goiaba e a manga, as importações brasileiras estão isentas de pagamento de tarifas específicas, em virtude de sua inclusão no Sistema Geral de Preferências (SGP). Os EUA também utilizam tarifas compostas, nas quais o tributo de importação é resultante da incidência de uma tarifa ad valorem acrescida de uma tarifa específica. As importações de cigarros, por exemplo, estão sujeitas a esse tipo de tarifa. A seguir, a Tabela 5 exibe os diferentes tipos de atuais barreiras à entrada no mercado americano dos principais produtos de interesse do Brasil, apresentados no estudo patrocinado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. 6 Pelo sistema de quotas, os norte-americanos permitem que uma determinada quantidade de produto entre no país com tarifas relativamente baixas. A partir de determinado volume de importações, as tarifas passam a ser mais elevadas, tornando o produto menos competitivo no mercado norte-americano. INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL apresenta um saldo positivo em relação aos EUA, apesar das barreiras comerciais que 71 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR TABELA 5 72 EUA: tarifas de importação por seção do sistema harmonizado (1998) SEÇÃO DISCRIMINAÇÃO TARIFA SH MÉDIA TARIFA TARIFA Nº DE MÁXIMA MÍNIMA ITENS 1 Animais vivos e produtos do reino animal 6.7 7.3 28.0 502 2 Produtos do reino vegetal 5.9 14.9 173.4 491 3 Gorduras e óleos animais e vegetais 3.8 5.8 20.2 66 4 Prod. ind. alimentares, bebidas e fumo 13.3 45.8 350.0 724 5 Produtos minerais 0.3 1.1 7.0 185 6 Produtos das indústrias químicas 4.3 3.9 16.3 1663 7 Plásticos, borracha e suas obras 3.7 2.6 14.0 353 8 Peles, couros e suas obras 5.2 5.5 20.0 156 9 Madeira e suas obras 2.7 3.5 18.0 186 10 Pasta de madeira, papel e suas obras 1.2 1.4 10.2 223 11 Matérias têxteis e suas obras 10.2 6.7 33.6 1545 12 Obras de pedra, cimentos e semelhantes 12.0 12.9 48.0 168 13 Calçados, chapéus e semelhantes 5.7 6.6 38.0 299 14 Pérolas naturais, pedras preciosas 3.4 3.7 16.3 104 15 Metais comuns e suas obras 3.2 2.2 15.0 982 16 Máquinas e aparelhos elétricos 2.1 2.0 25.0 1456 17 Material de transporte 2.9 4.9 16.8 238 18 Instrumentos e aparelhos de óptica 2.8 2.5 5.7 530 19 Armas e munições e suas partes 1.8 1.9 32.0 37 20 Mercadorias e produtos diversos 3.3 3.8 0.0 277 21 Objetos de arte e antiguidades 0.0 0.0 6 Fonte: elaborada pela Funcex com base em informações da UNCTAD. Barreiras ao suco de laranja As compras norte-americanas de suco de laranja concentrado congelado provenientes do Brasil estão sujeitas a uma das mais altas tarifas de importação aplicadas pelo governo dos EUA. Conforme acordado na Rodada Uruguai, essa tarifa segue um cronograma de redução de 2,5% ao ano, entre 1996 e 2001. Em 1999, a tarifa vigente sobre as importações de suco concentrado congelado era de 8,08 centavos de dólar por litro de suco reconstituído; no caso de suco não-concentrado, é de 4,6 centavos de dólar por litro. Observe-se que, mesmo ao final do período de redução gradual da tarifa específica, o equivalente ad valorem continuará bastante elevado. As exportações brasileiras de suco de laranja vêm sofrendo esse tipo de barreira há muito tempo. No decorrer dos anos, a elevada taxação norte-americana serviu para estimular a produção local, principalmente na Flórida. Com isso, o suco brasileiro não só perdeu mercado nos EUA, como também sofreu com a queda dos preços internacionais, em virtude do aumento da produção mundial. Criou-se, ademais, um incentivo para a produção de suco de laranja no México e na Costa Rica, países que detêm vantagem tarifária sobre o Brasil em função do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e do Acordo para Recuperação Econômica da Bacia do Caribe (CBERA). Assim, as Por fim, cabe ressaltar que as importações norte-americanas de suco de laranja provenientes do Brasil também estão sujeitas a um direito antidumping. O suco de laranja foi um dos primeiros produtos brasileiros a sofrer uma investigação anti-subsídio nos EUA (1982), embora, naquela ocasião, não tenha sido imposto nenhum direito definitivo (medida suspensa). Posteriormente, em 1986, o governo norte-americano abriu uma investigação antidumping contra as importações de suco de laranja provenientes do Brasil. A imposição de um direito definitivo em meados de 1987 representou uma barreira adicional à entrada do suco brasileiro no mercado norte-americano. Os EUA mantêm, ainda, taxas sazonais sobre as importações de alguns produtos, geralmente na época de colheita desses produtos nos outros países, além de tarifas especiais como taxas de utilização de alfândegas e portos. Quotas tarifárias Além dessas taxas, o governo norte-americano mantém quotas para importação de vários produtos. Em decorrência do Acordo Agrícola da Rodada Uruguai, os EUA se comprometeram a incorporar barreiras não-tarifárias à importação de produtos agrícolas à sua estrutura tarifária. Dado o caráter proibitivo das medidas não-tarifárias precedentes, as tarifas resultantes praticamente impedem a entrada de produtos importados. Como forma de garantir o acesso ao mercado doméstico, o Acordo Agrícola prevê a utilização de quotas tarifárias. Desse modo, as importações até o limite da quota estariam isentas ou sujeitas a tarifas significativamente inferiores às incidentes sobre as importações extraquota. Atualmente, 171 itens tarifários são administrados pelo sistema de quota tarifária, compreendendo produtos como carnes de bovino, laticínios, açúcar e produtos contendo açúcar, fumo, algodão, amendoim, chocolate, laranjas e azeitonas. Considerando que as importações de carnes de bovino provenientes do Brasil estão proibidas por razões fitossanitárias (outro tipo de proteção), os principais produtos exportados pelo Brasil atualmente sujeitos a quotas tarifárias são o açúcar e o fumo. Barreiras ao açúcar As importações de açúcar são controladas por uma quota tarifária. Em 1999, as importações de açúcar em bruto realizadas dentro da quota estão sujeitas a uma tarifa específica de 1,46 centavo de dólar por quilograma. As importações extraquota são taxadas a 34,87 centavos de dólar por quilograma, ou seja, 23 vezes maior. Note-se que o imposto não é sobre o preço de mercado, mas sim sobre a quantidade. Dessa forma, em anos de preços menores no mercado internacional, o imposto tende a subir ainda mais em termos relativos. INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL exportações brasileiras têm sido duplamente prejudicadas por essa medida protecionista. 73 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR O Brasil é o único país latino-americano a não receber isenção tarifária, por intermédio 74 do SGP, nas suas exportações dentro da quota. O governo norte-americano alega que a exclusão do açúcar deve-se à vantagem comparativa da indústria açucareira brasileira. A introdução do sistema de quotas em 1982 fez com que as exportações de açúcar brasileiro caíssem, imediatamente, em mais de 60%. Na época de sua adoção, o governo norte-americano alegou tratar-se de uma medida temporária com o intuito de compensar a instabilidade dos preços internacionais. Porém, ao invés de eliminá-la, após a Rodada Uruguai, o governo norte-americano substituiu a quota por uma tarifa elevada (tarifação) e instituiu uma quota tarifária. Além das quotas tarifárias negociadas no âmbito da Rodada Uruguai, os EUA impõem quotas tarifárias sobre as importações dos seguintes produtos: álcool etílico, anchova, atum, fumo, tangerina e vassouras. Barreiras ao fumo Com o objetivo de proteger os produtores domésticos, o Congresso norte-americano aprovou, em 1993, no âmbito da lei orçamentária, um dispositivo estabelecendo o percentual de 75% de conteúdo local para fumos utilizados na produção de cigarros. As exportações brasileiras foram severamente afetadas por essa medida. Com esse dispositivo, a participação do fumo brasileiro nos cigarros produzidos nos EUA ficou restrita à disputa por um mercado equivalente a 10% do mercado total. Após a implementação da legislação em questão, o Brasil e outros países iniciaram um processo no âmbito do GATT. Com a expectativa de um resultado contrário no panel instituído no GATT, os EUA iniciaram negociações bilaterais com o Brasil, amparados no artigo XXVIII do GATT. Como resultado dessas negociações, foi alocada ao Brasil, a partir de 1º de setembro de 1995, uma quota de 80.200 toneladas métricas anuais, válida até 31 de julho de 1999, para determinados itens tarifários relativos a fumo. Em 1999, no caso das importações classificadas na posição 2401.20, as entradas até o limite da quota estão sujeitas a tarifas de US$ 0,386 e US$ 0,421 por quilograma. As importações extraquota estão sujeitas a uma tarifa de 350%. Barreiras sanitárias Além dessas tarifas e quotas, há barreiras sanitárias para a entrada de produtos brasileiros no mercado norte-americano. As exportações brasileiras de frutas, vegetais e carnes são grandemente prejudicadas pela aplicação de regulamentos sanitários, fitossanitários e de saúde animal. Obter autorização de importação para esses produtos envolve um processo longo e custoso. Adicionalmente, após a autorização da importação, as frutas e vegetais ficam ainda sujeitos a inspeções rigorosas nas duas pontas do processo de exportação, ou seja, as inspeções são realizadas tanto no país exportador quanto nos portos de entrada dos EUA. Barreiras às frutas e vegetais (USDA) opera, de maneira vagarosa e burocrática, a realização de exames e provas que visam o efetivo controle de doenças e pragas, bem como as análises de risco (pet risk analysis). Esses exames podem levar anos, pois existe uma longa fila de produtos para serem analisados. No caso do mamão papaia brasileiro, por exemplo, o processo de aprovação das importações do produto teve início em 1993, sendo concluído apenas em 13 de março de 1998. Mesmo assim, as importações desse produto estão sujeitas ao cumprimento de severas condições de cultivo, tratamento, embalagem e transporte, inclusive de sanitização do campo de plantação, sendo exigida ainda utilização de armadilhas para a mosca da fruta (fruit fly). Chama a atenção o contraste entre o processo administrativo de análise de risco norte-americano e o brasileiro. No caso das importações brasileiras de laranjas dos EUA (Flórida), a importação foi aprovada em três meses. Considerando-se ainda as elevadas tarifas de importação, o sistema de preço de entrada, a licença prévia de importação e as marketing orders, conclui-se que esse setor é um dos mais protegidos contra as importações, o que explica a grande dificuldade para a penetração de frutas e vegetais brasileiros no mercado norte-americano. Barreiras às carnes As carnes brasileiras também sofrem inúmeras restrições no mercado norte-americano. O Brasil não pode exportar carne bovina in natura ou congelada, sob alegação de contaminação de febre aftosa. No entanto, o acordo sobre a aplicação de medidas sanitárias e fitossanitárias da OMC reconhece áreas livres de doença e/ou pragas dentro do país. Os EUA mostraram-se inclinados a aceitar a importação de carne bovina in natura do Brasil originária dessas regiões, porém nada foi definido até o momento. As importações de carne enlatada não sofrem proibições de caráter fitossanitário, porém as fábricas brasileiras que desejam exportar seus produtos precisam ser certificadas previamente pelas autoridades norte-americanas e devem estar sujeitas à inspeção sanitária periódica. Cada carregamento deve ser acompanhado de certificado sanitário emitido pelo Ministério da Agricultura do Brasil, e os fabricantes nacionais precisam adequar-se também ao sistema americano. Os bovinos vivos e o sêmen de bovinos também têm entrada permitida nos EUA, mas estão sujeitos a severas exigências de quarentena. As carnes de aves brasileiras in natura, bem como os produtos à base de carne de ave não cozidos, então proibidas de entrar nos EUA. A proibição baseia-se na alegação de contaminação pela doença de New Castle. A proibição por razões sanitárias e por doença animal tão afeta os exportadores de carne suína. Para a APHIS, o Brasil não é um país/área livre de cólera suína (hog cholera), doença visicular suína (swine vesicular disease), rinderpest (tipo de peste bovina), sendo considerado, ainda, um país/área afetada pela febre suína africana (african swine fever). INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL Conforme ressaltado pela Cepal, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos 75 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Relação Alca/OMC 76 O Mercosul vem trabalhando, nas reuniões do GNAG, a tomada de posições conjuntas do hemisfério em reuniões da OMC. Para a reunião de Seattle, chegou a ser proposto um projeto de Declaração dos Países do Hemisfério em prol da eliminação dos subsídios à exportação, a ser realizada durante a conferência ministerial da OMC. Os EUA ficam numa posição tranqüila: apóiam a posição na OMC, mas se esquivam de assumir o compromisso da Rodada Uruguai para o disciplinamento dos créditos à exportação, que distorcem o comércio, e têm dificuldade em apoiar qualquer documento no que se refere à simples menção do compromisso de disciplinamento dos créditos à exportação. Os norte-americanos adotam posturas dúbias e contraditórias em determinados assuntos. Preferem a OMC como fórum de decisão sobre o comércio, quando se trata de defender-se juntamente com os demais países ricos ou quando o assunto que não lhe agrada tende a não avançar nesse fórum. Quando se trata de defender seus interesses contra os demais países ricos, que também disputam espaço na América Latina, o fórum apropriado é a Alca. Em torno do Mercosul, há uma posição cada vez mais coesa, com adesões do Chile, Bolívia e Comunidade Andina. Também aparecem pontos concordantes com o México e países do Caricom. Posição da CUT e de organizações da sociedade civil sobre a Alca Desde a declaração de Miami, em 1994, evidencia-se a ausência de preocupações sociais e da participação da sociedade civil nesses processos. Apenas o livre comércio vem sendo motivo das gestões e preocupações dos chefes de Estado, ministros de Comércio e de Relações Exteriores. Nada se fez em relação aos compromissos de como avançar no processo de democratização, erradicar a pobreza, promover o respeito pelos direitos humanos e garantir um desenvolvimento sustentável em toda a região. Neste artigo, os diferentes olhares sobre os diferentes processos de integração ao nível do Mercosul, Alca e OMC serão tratados de uma maneira simplificada por parte dos principais atores envolvidos. Marques (1998), em seu artigo “A agricultura na OMC: balanço e perspectivas”, analisa as políticas de diferentes atores nos processos de integração. Embora a análise não se restrinja apenas à Alca, ela é um importante referencial para se entender o papel desses atores e das diferentes possibilidades de articulação nesse processo de integração regional. A Confederação Internacional de Organizações Sindicais Livres (CIOLS) tem se pronunciado a favor de um sistema mundial de comércio aberto, eqüitativo, transparente e democrático com uma clara dimensão social, apoiada, entre outras medidas, na aplicação de cláusulas sociais e ambientais. Tem lutado em diferentes instâncias pelo reconhecimento da participação das organizações dos trabalhadores e da sociedade civil nos fóruns de decisões sobre os diferentes processos de integração regional e de decisões multilaterais como a OMC. propostas de política global contrárias às decisões do GATT. Essa vontade foi reafirmada em abril de 1996, quando os seus integrantes deliberaram interferir nas decisões da OMC e promover mudanças nos acordos existentes para que eles atendessem aos interesses dos camponeses. Além disso, decidiu-se desenvolver respostas regionais frente aos tratados comerciais bilaterais e regionais, como a Alca, o Mercosul, o Nafta e outros. A Via Campesina, em maio de 1998, propôs retirar imediatamente a regulamentação do comércio internacional de produtos agrícolas do controle da OMC. Os principais argumentos que sustentam essa proposta são: I) o suporte da agricultura sustentável não pode ser considerado uma barreira comercial; II) a agricultura de subsistência não pode estar submetida às regras do GATT; III) a agricultura sustentável já está apoiada pela Convenção da Biodiversidade e pela Agenda 21. No âmbito do Mercosul, a Coordenadora de Centrais Sindicais do Cone Sul (CCSCS) não formulou, até o momento, propostas específicas sobre os temas relacionados ao comércio agrícola internacional. Nos documentos da Coordenadora analisados, existem referências gerais à política de defesa comercial do Mercosul, afirmando que o bloco deve servir para a organização de um poder de negociação regional capaz de limitar o impacto negativo derivado do protecionismo e das operações de dumping praticadas pelos países desenvolvidos. Em 1994, a Coordenadora de Organizações de Produtores Familiares do Mercosul caracterizou o Projeto de Acordo Agrícola do Mercado Comum como um marco adequado para a implantação de políticas diferenciadas dirigidas à agricultura familiar e considerou, num primeiro momento, imprescindível a sua aprovação. Posteriormente, a Coordenadora expressou a preocupação de que os programas de ajuda interna decorrentes desse acordo poderiam favorecer outros segmentos que não os de agricultores familiares. Explicitou também a intenção de avançar na articulação das políticas agrárias internas de cada país para ir chegando, gradualmente, a uma política agrária comum para o Mercosul. Em 1996, a Coordenadora propôs aos governos algumas medidas de caráter regional, como programas de fortalecimento da agricultura familiar e políticas de comercialização e financiamento. Além disso, procurou reforçar a sua integração em redes de organizações e movimentos que atuam diretamente sobre temas específicos relacionados ao Acordo sobre Agricultura e outros no âmbito da OMC. Em outubro de 2000, na última reunião da Coordenadora com os representantes do grupo governamental dos quatro países, foi reivindicado um reconhecimento dessa organização para opinar sobre as decisões que afetem a agricultura familiar nos diferentes fóruns de debates sobre o Mercosul e a Alca. INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL Desde pelo menos o final de 1994, a Via Campesina estabeleceu, como necessidade para a sua ação, a formação de um bloco coeso de camponeses para realização de 77 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Além de outras iniciativas em nível internacional, diversas entidades sindicais, de 78 camponeses, povos indígenas, populares, ambientalistas, de consumidores e outras nãogovernamentais estão se organizando para atuar em conjunto e definir estratégias unificadas em nível nacional frente às negociações no âmbito da OMC. De uma forma geral, elas buscam conformar alianças e desenvolver campanhas públicas e pressão sobre os governos de cada país para influenciá-los em seu posicionamento diante dos conflitos internacionais. A percepção estratégica da necessidade de acompanhamento e participação ativa nas negociações da OMC, Alca e Mercosul, entre outras, serviu de sustentação política para a criação pelo governo federal do Fórum Nacional da Agricultura (FNA), em setembro de 1996. Esse fórum tem como objetivo funcionar como uma instância de negociação de políticas públicas permanentes para a agricultura brasileira. Embora o FNA se autodefina como um amplo e legítimo espaço de representação política dos interesses dos diferentes segmentos sociais, foi composto basicamente por membros de órgãos governamentais, sob coordenação do Ministério da Agricultura e empresários, inclusive dirigentes da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag), da Sociedade Rural Brasileira (SRB) e dos sistemas da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), entre outras. O FNA não contou com a participação das principais organizações dos trabalhadores. De uma forma geral, as entidades empresariais que participam do FNA têm manifestado críticas ao viés antiexportador das políticas macroeconômicas brasileiras, especialmente aquelas vinculadas ao câmbio, às taxas de juros e aos tributos. Até o momento, couberam a elas as principais iniciativas de reclamar oficialmente a aplicação de salvaguardas e medidas compensatórias para produtos agrícolas. Em relação às políticas comerciais internacionais, o discurso dessas entidades pode ser associado à obtenção dos seguintes resultados: I) redução rápida e ampla das barreiras tarifárias e não-tarifárias ao comércio internacional, buscando aumentar o acesso aos mercados. Transparência na administração e aumento nas quotas tarifárias e redução das tarifas agrícolas aos níveis dos produtos manufaturados; II) redução ou eliminação total dos subsídios domésticos e ao comércio nos países desenvolvidos. Inibição da utilização abusiva de subsídios enquadrados na “caixa verde”; III) definição de regras para os diversos incentivos e créditos para exportação e para a defesa da concorrência, contra os monopólios, estatais ou privados, de exportação ou importação. Em relação à adoção de cláusulas sociais e ambientais ao comércio, a posição dessas entidades tem sido a de evitar que elas se tornem novas formas de protecionismo. Entre as medidas específicas sobre comercialização negociadas no FNA, podem ser destacadas a participação ativa e permanente do Brasil na OMC e em outros órgãos de ração de propostas de política de comércio exterior. Essas políticas visariam, entre outras medidas, definir políticas tarifárias no longo prazo, aperfeiçoar a aplicação das políticas de defesa comercial (legislação antidumping, regras de origem, salvaguardas etc.), de barreiras não-tarifárias (sanitárias, ambientais, normas técnicas) e de promoção de exportações (financiamento, empresas mistas setoriais). Em relação às políticas domésticas, o FNA propõe o desenvolvimento de um sistema nacional de comercialização baseado no fortalecimento das bolsas de mercadorias e dos mercados de futuros e opções, aperfeiçoamento do sistema oficial de informações e implantação de câmaras arbitrais para solução de problemas relativos à classificação de produtos e à execução de contratos, entre outros. A idéia de intervir de forma articulada nas discussões sobre as negociações da OMC em diversos níveis está presente, pelo menos em parte, em entidades brasileiras. Em abril de 1998, o congresso da Contag (filiada à CUT) decidiu dar prioridade a uma atuação da confederação na revisão do acordo sobre agricultura de 1994. Para isso, definiu traçar uma estratégia de ação em conjunto com outros setores para buscar influenciar as decisões a serem tomadas. Na mesma ocasião, a Contag resolveu filiar-se à UITA e participar, entre outras organizações, da Coordenadora das Organizações Familiares do Mercosul e Chile e da Via Campesina, revelando uma intenção em ampliar sua presença no cenário internacional. Em 1999, a Contag, representando as organizações dos agricultores familiares do Mercosul e Chile, participou dos fóruns da sociedade civil, em Seattle, na abertura da Rodada do Milênio da OMC. Em síntese, no próximo período, importantes negociações que incluem a agricultura estarão ocorrendo, ao mesmo tempo, no âmbito da OMC, da Alca, do Mercosul, entre outros. Elas tendem a ter grande importância para as definições das políticas nacionais e provavelmente pressionarão por posicionamentos e ações por parte do movimento sindical. A perspectiva de influenciar essas negociações tende a exigir um maior esforço das entidades sindicais para acompanhar, debater e promover iniciativas e propostas concretas, dentro e fora das suas instâncias. Nessa situação, será preciso pensar e atuar sobre cada uma dessas negociações em particular e, sobretudo, buscar uma articulação clara entre todas elas. Para isso, o conteúdo das diversas discussões em andamento em nível nacional e internacional e a possibilidade de construção de pautas comuns e alianças com outros setores sugerem que o movimento sindical deva procurar incorporar novos temas à sua agenda. INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL regulação do comércio e a criação, no país, de um órgão consultivo tripartite para elabo- 79 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR 80 Conclusões As centrais sindicais dos países das Américas, afiliadas e fraternais à ORIT/ CIOLS, as organizações de agricultores familiares, a Contag/CUT, a Coordenadora de Organizações de Agricultores Familiares do Mercosul e outros movimentos da sociedade civil integrantes da Conferência dos Povos das Américas têm reivindicado um processo de integração dos povos que leve em conta os seguintes princípios: • a participação da sociedade civil e o acesso à informação; • reconhecimento do fórum sindical nas decisões da Alca sobre temas trabalhistas é requisito mínimo para outorgar uma dimensão social a esses processos; • reconhecimento da representação das organizações campesinas e de agricultores familiares nos processos de negociações sobre a agricultura, reconhecendo-se a especificidade e a importância econômica, social e ambiental desses agricultores; • as políticas comerciais devem fortalecer o desenvolvimento sustentável econômico, social e ambiental em toda a região; • é necessário o reconhecimento e a criação de mecanismos de cumprimento efetivo de direitos fundamentais, como a liberdade de organização sindical e negociação coletiva, combate ao trabalho infantil, ao trabalho escravo, à discriminação racial e de gênero; • uma integração equilibrada requer respeito às culturas e aos hábitos locais, à segurança alimentar e à preservação da biodiversidade em cada país, à identificação de oportunidades e às ameaças para diferentes setores econômicos, regiões e grupos sociais, garantindo um processo participativo, em que os benefícios sejam equilibrados; • no meio rural, o desenvolvimento sustentável da região passa pelo fortalecimento da agricultura campesina e familiar, pela reforma agrária e pela implementação de mecanismos de proteção ambiental como uma exigência da justiça social e da qualidade de vida das populações rurais e dos trabalhadores urbanos; • direito à informação e ao estabelecimento de mecanismos de negociação coletiva e de monitoramento e controle democrático das operações das empresas transnacionais que trabalham no continente, para que estas não sejam as únicas beneficiárias do processo de abertura comercial. Na agricultura, grandes empresas controlam a biotecnologia, a indústria de máquinas e insumos e a distribuição e transformação de alimentos. Por meio da integração acabam dominando o processo produtivo, retendo lucros crescentes, apropriando-se de parcelas maiores da renda gerada nas cadeias A integração entre os países da América do Sul deve ser a prioridade da política externa brasileira. As negociações na Alca, da maneira como estão, não tendem a produzir resultados positivos para a economia brasileira, e menos ainda para a sociedade em geral. A iniciativa da Área de Livre Comércio Sul-Americana (Alcsa) é a mais concreta no momento. Em relação à agricultura, os problemas são vários. A integração tende a forçar um processo ainda maior de concentração e aumento de escala, excluindo milhares de produtores e empresas de menor porte. A entrada com maior intensidade das grandes empresas multinacionais do setor, seja no setor de insumos seja no setor de transformação de alimentos, deve ser um dos motores desse processo. As políticas de subsídios nos EUA e no Canadá e a existência de barreiras não-tarifárias nesses países levarão a um processo de integração desigual, fazendo aumentar a dependência e a exclusão social na região. Para uma integração de interesse dos povos das Américas, é necessário um fortalecimento das organizações da sociedade civil para impulsionar a globalização dos direitos sociais e econômicos frente ao processo de globalização dos capitais e dos mercados. Em relação à articulação das organizações dos agricultores familiares para uma atuação conjunta nacional e regionalmente ampliada e representativa da sociedade civil em nível de Mercosul, Alca, OMC, devem-se buscar eixos de atuação conjunta das organizações brasileiras (Contag, Frente Sul da Agricultura Familiar, MST, MAB, MPA, MMTR etc.), regionais (Coordenadora das Organizações dos Agricultores Familiares, Cloc etc.) e mundiais, como a Via Campesina. Em um outro nível deve-se sincronizar a articulação desse movimento com os fóruns sindicais (CUT, CCSCS, CIOLS/ORIT etc.) e destes com a sociedade civil (ONGs, movimentos, partidos políticos etc.). Iniciativas como as da ORIT e Conferência dos Povos das Américas, Via Campesina, Coordenadora de Organizações de Agricultores Familiares, fóruns de ONGs e redes de organizações têm oferecido sinais de resistência e de luta contra esse processo de integração econômica meramente comercial, que exclui e amplia a desigualdade e a pobreza no continente, oferecendo um processo alternativo e solidário de desenvolvimento entre os seus povos. INTEGRAÇÃO NAS AMÉRICAS – UMA ABORDAGEM A PARTIR DO RURAL agroindustriais, levando muitos produtores a péssimas condições de vida. 81 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 82 ARRIGHI, G. O longo século XX. São Paulo, Editora da Unesp, 1996. CARDOSO, F.; PESSOA, A. Ilusões perdidas. Agroanalysis, abril, 2000. DUPAS, G. A Alca e os interesses do Brasil.. Disponível em: <http://www.mre.gov.br/nalca/alcadupas.htm>. FONSECA, R. B. A reforma das políticas agrícolas dos países desenvolvidos. 1994. Tese de doutoramento – Unicamp, Campinas. FUNCEX. As barreiras às exportações brasileiras. Disponível em: <http://www.mdic.gov.br>. LIMA, J. A. G. A Alca e o Mercosul. Disponível em: <http://www.mre.gov.br/nalca/teste.htm>. MARQUES, V. de A. A agricultura na OMC: balanço e perspectivas. In: O desenvolvimento do comércio mundial. Florianópolis: Escola Sul da CUT, 1998. 3 Multifuncionalidade da agricultura familiar 83 Multifuncionalidade da agricultura familiar1 Adriano Campolina Soares 2 O debate sobre a multifuncionalidade da agricultura ganhou notoriedade durante as negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC). Em dezembro de 1999, ocorreu a conferência de Seattle, nos Estados Unidos, onde deveriam se iniciar as negociações sobre a reforma de importantes temas no comércio internacional, com destaque para agricultura e serviços. Contudo, não houve consenso entre os países membros da OMC, nem em relação à agenda sobre a qual deveria se concentrar a chamada Rodada do Milênio. Essa falta de consenso se deu em meio a grandes manifestações populares contra a OMC e seus pressupostos neoliberais que levaram às ruas de Seattle dezenas de milhares de manifestantes, duramente reprimidos pela polícia. O fracasso da conferência evidenciou diversos processos: a falta de acordo sobre a pauta de negociações comercias, a oposição popular à OMC enquanto instrumento de liberalização comercial indiscriminada e as duras críticas à própria estrutura da OMC, claramente antidemocrática e sem transparência. Foram várias as diferenças de conteúdo que levaram à impossibilidade até mesmo de uma declaração conjunta. Mas se destacaram nesse processo as diferentes posições sobre comércio agrícola. De um lado, países exportadores de commodities, como Argentina, Austrália, Brasil, Chile, Nova Zelândia e Uruguai – que, dentre outros, compõem o chamado Grupo de Cairns – buscavam a liberalização do comércio agrícola e a remoção de barreiras comerciais na Europa, Estados Unidos e Japão aos produtos agrícolas. Em contraposição a esse argumento, a Comunidade Européia lançou mão da chamada multifuncionalidade da agricultura, argumentando que as funções múltiplas exercidas pela agricultura exigiam que esse setor não tivesse um tratamento meramente comercial. Evidentemente, os europeus buscavam a manutenção, ainda que parcial, de seus subsídios agrícolas através do argumento da multifuncionalidade. Em que pesem os diversos e complexos interesses que motivaram o surgimento do conceito de multifuncionalidade da agricultura nas negociações comerciais internacionais, esse conceito é extremamente útil para se analisarem os papéis da agricultura no desenvolvimento brasileiro e, sobretudo, para se verificar qual tem sido o tratamento recebido pela agricultura nas políticas públicas domésticas e no posicionamento do governo brasileiro em negociações comerciais internacionais. O objetivo deste artigo é introduzir alguns elementos para esse debate, com um recorte sobre a agricultura familiar. 1 SOARES, Adriano Campolina. A multiplicidade familiar. In: Revista Proposta, nº 87. Rio de Janeiro, Fase, 2000/2001. 2 Agrônomo, coordenador de campanhas da ActionAid Brasil. 85 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR 86 Conceitos de multifuncionalidade da agricultura O debate sobre multifuncionalidade da agricultura não é novo e nem começou com as discussões de Seattle. Na ECO-92, realizada no Rio de Janeiro, em 1992, os governos reconheceram o “aspecto multifuncional da agricultura, particularmente com respeito à segurança alimentar e o desenvolvimento sustentável”.3 Em março de 1998, a OECD, organização que reúne os países mais ricos, declarou: “além de sua função primária de produção de fibras e alimentos, a atividade agrícola pode também moldar a paisagem, prover benefícios ambientais tais como conservação dos solos, gestão sustentável dos recursos naturais renováveis e preservação da biodiversidade e contribuir para a viabilidade socioeconômica em várias áreas rurais... Agricultura é multifuncional quando tem uma ou várias funções adicionadas ao seu papel primário de produção de fibras e alimentos”.4 Segundo Aldington, o conceito do caráter multifuncional da agricultura e da terra é derivado do conceito de agricultura e desenvolvimento rural sustentável (ADRS). Este conceito é resultado das reflexões da Food and Agriculture Organization (FAO) e de outras instituições nas décadas de 70 e 80 a respeito da evolução da agricultura e de sua relação com a segurança alimentar, produtividade e sustentabilidade.5 O conceito de ADRS, no contexto de instituições como a FAO, pode ser resumido como um desenvolvimento sustentável que conserva o solo, a água, os recursos genéticos vegetais e animais, não degrada o meio ambiente e é tecnicamente apropriado, economicamente viável e socialmente aceitável. O conceito de multifuncionalidade ampliaria essa abordagem, pelas seguintes maneiras: • ampliando o alcance do conceito de ADRS para incluir os serviços prestados pela agricultura para a sociedade em geral; · estabelecendo um marco para a valorização das compensações mútuas e sinergias entre as diferentes funções da agricultura e o correspondente uso da terra; • examinando as relações dinâmicas entre as zonas urbanas e rurais em diferentes escalas; • incorporando toda a gama mundial de situações, desde as sociedades predominantemente rurais, nas quais a produção primária de alimentos e de outras mercadorias é prioridade, até as nações altamente industrializadas, com uma pequena população rural e uma importância da produção primária igualmente modesta.6 3 Agenda 21, capítulo 14. 4 OECD. Declaration of Agricultural Ministers Committee, 1998. 5 Aldington, T.J. Multifunctional Agriculture: A Brief Review from Developed and Developing Country Perspectives. Roma. FAO 1998. 6 Idem, ibidem. Enfim, o conceito de multifuncionalidade, nessa abordagem, é um instrumento para se analisar a importância dos sistemas agrícolas e suas relações com outros setores da economia. Em um texto apresentado à OMC,7 a Noruega classificou os bens gerados pela agri- Agricultura multifuncional BENS PRIVADOS BENS PÚBLICOS Alimentos e fibras Segurança alimentar de longo prazo Paisagem agrícola Agroturismo Viabilidade rural Diversidade agrobiológica Outros produtos comerciais Herança cultural Saúde fitossanitária Conservação do solo Outros bens públicos Com o conceito de multifuncionalidade, a análise da agricultura e das políticas públicas que afetam a agricultura (inclusive a comercial) deve ser feita sobre todos os aspectos e ou funções da agricultura. Funções múltiplas da agricultura e diferentes agriculturas Na discussão do conceito de multifuncionalidade, identificam-se as seguintes funçõeschave da agricultura: • contribuição à segurança alimentar; • função ambiental; • função econômica; • função social. Evidentemente, os diferentes setores da agricultura desempenham cada uma dessas funções de uma maneira distinta. Dessa forma, a utilização desse conceito sem a devida diferenciação sobre qual agricultura se está falando pode levar a uma uniformização tal que pouco contribuirá para se analisar criticamente o desenvolvimento da agricultura. A contribuição para a segurança alimentar exercida por uma comunidade de agricultores familiares ou um assentamento de reforma agrária é consideravelmente distinta da contribuição de uma grande propriedade patronal especializada no monocultivo de soja para o mercado externo. Da mesma maneira, os impactos ambientais de um policultivo tradicional são muito diferentes dos impactos da monocultura mecanizada e altamente dependente de insumos químicos. Em relação às funções social e econômica, as diferenças entre diversos modelos de uso da terra são ainda mais óbvias. 7 Paper from Norway, 1999 (WTO-AIE/68). MULTIFUNCIONALIDADE DA AGRICULTURA FAMILIAR cultura em privados e públicos, da seguinte forma: 87 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Dessa forma, o conceito de multifuncionalidade como interessante instrumento de 88 análise deve ser contextualizado à nossa realidade: um setor agrícola fortemente desigual, onde um enorme fosso separa as realidades da agricultura familiar e da agricultura patronal. Isso significa dizer que as múltiplas funções da agricultura não são comuns ao conjunto da agricultura e que os serviços prestados à sociedade também são distintos, sendo, em alguns casos, até antagônicos. Em função dessa realidade, serão analisadas as múltiplas funções de um setor da agricultura brasileira: a agricultura familiar. Com esse recorte, a discussão sobre o conceito de multifuncionalidade pode ser muito útil para compreender melhor a evolução da agricultura familiar, seu papel no desenvolvimento da sociedade brasileira e, principalmente, analisar criticamente de que maneira as políticas públicas se relacionam com as múltiplas funções da agricultura familiar brasileira. Agricultura familiar e segurança alimentar No processo de elaboração do documento brasileiro para a Cúpula Mundial da Alimentação, representantes do governo e da sociedade civil chegaram à seguinte definição: segurança alimentar e nutricional significa garantir a todos o acesso a alimentos básicos de qualidade, em quantidade suficiente, de modo permanente e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, com base em práticas alimentares saudáveis. Assim, isso contribui para uma existência digna, em um contexto de desenvolvimento integral do ser humano. A agricultura familiar estabelece várias relações com a segurança alimentar. A mais lembrada é como provedora de alimentos para a sociedade. Contudo, ao se analisarem os dados do mapa da fome, elaborado pelo IPEA, em 1993, vê-se que cerca de 50% dos 32 milhões de brasileiros da população abaixo da linha da pobreza vivem no campo. Grande parte dessa população rural empobrecida é composta de agricultores familiares excluídos. Conforme o censo de agropecuário de 1996, existem no Brasil 4.139.369 estabelecimentos rurais familiares (segundo a metodologia utilizada pelo Incra/FAO), ocupando uma área de 107,8 milhões de hectares. Por outro lado, há 554.501 estabelecimentos patronais, ocupando uma área de 240 milhões de hectares. Os agricultores familiares representam 85,5% do total de estabelecimentos, ocupam 30,5% da área e são responsáveis por 37,9% do Valor Bruto da Produção Agropecuária Nacional (VBP), apesar de receberem apenas 23,5% do financiamento destinado agricultura.8 Em relação à produção de alimentos propriamente dita, vejam-se alguns exemplos, baseados no censo de 1985: tanto em relação à quantidade quanto em relação ao valor, é predominantemente familiar a produção de mandioca e milho nas regiões Norte, 8 Incra/FAO Novo retrato da agricultura familiar: o Brasil redescoberto. Brasília, 1999. Nordeste e Sul e, no caso do Nordeste, também a de arroz. Pelo critério da quantidade, a agricultura familiar é também predominante na produção de leite e aves, no Sul, e de aves, no Norte e no Nordeste. Considerando-se somente o valor da produção, é basicamente familiar a produção de feijão no Norte e no Sul. Em suma, pode-se afirmar que, nas regiões Norte, Nordeste e Sul, a produção de base familiar, de grãos básicos e aves, para a agricultura patronal.9 Com base no censo de 1995/96, os agricultores familiares produzem 24% do VBP da pecuária de corte, 54% da pecuária de leite, 58% dos suínos, 40% das aves e ovos, 33% do algodão, 72% da cebola, 67% do feijão, 97% do fumo, 84% da mandioca, 49% do milho, 32% da soja, 46% do trigo, 58% da banana e 25% do café.10 A dimensão da importância da agricultura familiar para a produção de alimentos fica ainda mais nítida quando se observa que 55% da população brasileira em condição de indigência vive no Nordeste, sendo que 63% da população rural em condição de indigência vive no Nordeste. Por outro lado, importantes componentes da dieta da população excluída, como mandioca e arroz (no caso do Nordeste), são produzidas justamente pela agricultura familiar. A importância da agricultura familiar para segurança alimentar vai além da produção primária. Sua característica de distribuição de renda e geração de empregos possibilita que milhões de pessoas tenham condições de ter acesso aos alimentos. Mas é bom salientar que grande parte da insegurança alimentar do Brasil provém da inviabilização da agricultura familiar. O descaso histórico com esse setor da agricultura, seja pela falta de financiamento adequado, falta de infra-estrutura de produção e comercialização, ausência de políticas públicas de saúde e educação, leva à saída acelerada de agricultores do campo para a cidade. Por exemplo, somente dois anos de Plano Real foram suficientes para expulsar do campo 400 mil agricultores familiares. Diversos outros permanecem em situação de extrema pobreza. Enfim, é estratégico o papel desempenhado pela agricultura familiar para segurança alimentar, tanto pelo lado da produção de alimentos quanto pelo efeito distribuidor de renda desse setor da agricultura, criando condições para o acesso ao alimento. Quando políticas públicas, inclusive a política comercial, são elaboradas e executadas, deve-se levar em conta também essa função. Assim, ao reduzir unilateralmente as tarifas de um produto (como o governo fez centenas de vezes), deve-se avaliar qual sua conseqüência não apenas de curto prazo, mas também de longo prazo, caso se desestruturem setores inteiros da agricultura familiar. 9 Incra/FAO Perfil da agricultura familiar no Brasil: dossiê estatístico. Brasília, 1996. 10 Incra/FAO Novo retrato da agricultura familiar: o Brasil redescoberto. Brasília, 1999. MULTIFUNCIONALIDADE DA AGRICULTURA FAMILIAR tende a predominar, enquanto no Sudeste e no Centro-Oeste a situação é mais favorável 89 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR 90 Agricultura familiar e função ambiental A agricultura é uma das atividades com maior impacto sobre o meio ambiente. Os sistemas agrários ocupam cerca de 45% da superfície total dos ecossistemas brasileiros.11 Há inúmeros exemplos de impactos negativos da agricultura, especialmente do modelo de agricultura da chamada revolução verde: substituição das florestas por monocultivos, erosão de solos (e assoreamento de rios e lagos), contaminação de águas e alimentos com agroquímicos, desequilíbrios na população de insetos e plantas silvestres etc. Contudo, a agricultura pode prover um conjunto de serviços ambientais, como a conservação de solos e águas, manejo sustentável da biodiversidade, produção de biomassa etc., cujo valor para as gerações presentes e futuras é incalculável. Mais uma vez, as políticas públicas exercem grande efeito na adoção de determinado modelo de agricultura. No Brasil, por exemplo, uma série de políticas públicas, desde a pesquisa agropecuária à extensão rural e ao crédito rural atrelado ao pacote tecnológico, moldou, na década de 70, o presente modelo altamente devastador. Um conjunto de interesses econômicos molda, mais uma vez, as políticas públicas no país: no momento, em relação aos transgênicos, cujos potenciais impactos ambientais são igualmente graves. A agricultura familiar tem um papel ímpar no que se refere à função ambiental da agricultura. Por diversas razões, a agricultura familiar tem melhores condições para um desenvolvimento sustentável do ponto de vista ambiental: • “seu funcionamento econômico não se fundamenta na maximização da rentabilidade do capital e na geração do lucro a curto prazo, mas está orientado para o atendimento das necessidades da família e para a manutenção a longo prazo das potencialidades produtivas do meio natural, percebido como um patrimônio familiar; • por sua própria vocação de unidade de produção e consumo, a agricultura familiar valoriza a diversidade, através de policultivos e criações, distribuídos de forma equilibrada no tempo e espaço; • a unidade de produção familiar, quer por sua extensão quer pela forma de organização do trabalho, favorece maiores cuidados técnicos nas operações de manejo, na medida em que aquele que tomas as decisões é também o que as coloca em prática; • enraizada em um meio físico conhecido e sob controle, a agricultura familiar mantém uma relação positiva com o território, o que se revela, sobretudo, na capacidade de valorizar as potencialidades próprias aos ecossistemas naturais em que está inserida, inscrevendo estas potencialidades em suas estratégias de reprodução econômica.”12 11 CORDEIRO, A.; PETERSEN, P.; ALMEIDA, S. Crise sócio-ambiental e conversão ecológica da agricultura brasileira: subsídios à formulação de diretrizes ambientais para o desenvolvimento agrícola. Rio de Janeiro, 1996. Mimeo. 12 Idem. Ibidem. A função ambiental é um bem público que a agricultura familiar produz para a sociedade (e tem potencial de produzir muito mais se converter seu modelo de produção em direção à agroecologia). No entanto, ao debater o financiamento agrícola, o governo mantém algumas normas que praticamente obrigam o agricultor a usar o máximo possível de pesticidas. Ao mesmo tempo, ao discutir as condições de financiamento, o governo rural deve se balizar pelo mercado. Entretanto, os serviços ambientais, assim como os sociais e os relativos à segurança alimentar, vão muito além do privado. A compensação pelos serviços ambientais, além de justa, é necessária. Afinal, todo o potencial ambiental da agricultura familiar se compromete, quando a falta de um componente do sistema leva à perda do equilíbrio. Isso vale para a falta de terra, falta de renda etc. E, quando o sistema se desestabiliza, a lógica da sobrevivência leva o agricultor a exaurir aquele ambiente. Agricultura familiar e função econômica Agricultura continua sendo fundamental para o crescimento da economia mesmo em países majoritariamente urbanizados, como o Brasil. A agricultura familiar responde por uma parte importante desta contribuição. Como já foi visto, apesar de ocupar somente 30,5% da área e receber somente 25,3% do financiamento da produção, a agricultura familiar é responsável por 37,9% do VBP, que corresponde a R$ 18,1 bilhões.13 Nas regiões Norte e Sul, mais de 50% do VBP é produzido em estabelecimentos familiares. Segundo o estudo do Incra/FAO, “A Renda Total por hectare demonstra que a agricultura familiar é muito mais eficiente que a patronal, produzindo uma média de R$ 104,00/ha/ano contra apenas R$ 44,00 ha/ano pelos agricultores familiares”.14 Essa maior eficiência ocorre em todas as regiões. Apesar da maior eficiência econômica, o financiamento agrícola não corresponde sequer à parte do VBP produzido pela agricultura familiar. Obviamente, o financiamento rural no Brasil continua sendo privilégio da agricultura patronal, que, além de socialmente injusta e concentradora de terra e renda, é economicamente ineficiente. Agricultura familiar e função social Os movimentos sociais costumam rechaçar, com razão, o posicionamento do governo de encarar a agricultura familiar como “política social compensatória”. Quando se fala de função social no conceito de multifuncionalidade, isso vai muito além desse tipo de política. 13 Incra/FAO. Novo retrato da agricultura familiar: o Brasil redescoberto. Brasília, 1999. 14 Idem, ibidem. MULTIFUNCIONALIDADE DA AGRICULTURA FAMILIAR exige a inclusão de juros mais correção monetária usando o argumento de que o crédito 91 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Muitas zonas rurais, especialmente as comunidades de agricultores familiares, pesca- 92 dores artesanais e extrativistas, estão associadas aos conceitos de cultura, tradição e identidade. O atual fluxo de informações vem transformando aceleradamente algumas dessas comunidades. Nessa perspectiva, é interessante a adoção de olhar mais amplo, que leve em conta inclusive o impacto das políticas públicas sobre a sociedade nos aspectos culturais. Trata-se de buscar um olhar que não seja exclusivamente baseado na produção. A viabilidade social da agricultura familiar não depende somente da produção, mas há um conjunto de fatores sociais, como educação, cultura, lazer, saúde etc., que pode ser tão determinante quanto o econômico na determinação da viabilidade. Outro fator fundamental ao se utilizar esse enfoque mais amplo é a reflexão sobre os diferentes impactos das políticas públicas em diferentes grupos da mesma comunidade (homens, mulheres, jovens, idosos etc.). Ao se debater a função social da agricultura, deve-se, mais uma vez, repetir a necessidade de contextualizá-la à realidade de desigualdade da sociedade brasileira. Por exemplo, a renda média por estabelecimento familiar no Brasil, com base no censo 1995/96 (segundo a classificação do Incra/FAO), foi de R$ 2.217,00. Já os estabelecimentos patronais apresentaram a renda média de R$ 19.085,00 anuais,15 ou seja, cerca de nove vezes superior. Evidentemente, não se pode falar de função social da agricultura para dois grupos tão distintos. É sabido, por exemplo, que o setor patronal rural é um dos piores empregadores do país, a ponto de 70% dos assalariados rurais brasileiros sequer terem registro em carteira, além dos casos de trabalho forçado que são recorrentes. Enfim, o patronato rural desrespeita, de forma contumaz, os direitos sociais e trabalhistas dos assalariados rurais, além de gerar pouco emprego. De acordo com o Incra/FAO, “A agricultura familiar é a principal geradora de postos de trabalho no meio rural brasileiro. Mesmo dispondo de 30 % da área, é responsável por 76,9% do pessoal ocupado. [...] Entre os agricultores patronais são necessários em média 67,5 ha para ocupar uma pessoa, enquanto entre os familiares são necessários 7,8 ha para ocupar uma pessoa”.16 (Naturalmente, pessoal ocupado inclui a mão-de-obra familiar.) Enfim, políticas públicas desenhadas somente pelo olhar do mercado podem ignorar desde valores culturais intangíveis até a geração de emprego e renda. Multifuncionalidade em disputa Embora os países europeus venham buscando o reconhecimento da multifuncionalidade nas regras multilaterais de comércio com um objetivo claro de justificar a perpetuação de seus altos subsídios, o conceito está em disputa. Como foi visto, a agricultura familiar brasileira cumpre múltiplas funções para sociedade, indo muito além da mera produção primária. O reconhecimento da multifuncionalidade 15 Idem, ibidem. 16 Idem, ibidem. da agricultura familiar pode significar que seu tratamento não pode ser unicamente comercial ou de mercado. A agricultura familiar provê um conjunto de serviços e bens públicos, tangíveis e intangíveis, de elevado valor para a sociedade em geral. Os meros instrumentos de mercado não são suficientes para dar conta da complexidade do desenvolvimento da agricultura familiar, em seus diversos aspectos. transformações nas políticas públicas domésticas e nos posicionamentos do governo em negociações internacionais. No caso das políticas públicas domésticas, a multifuncionalidade pode servir de instrumento de análise a ser utilizado na avaliação de alternativas de políticas públicas de forma a refletir sobre seus impactos nas diferentes funções e nas relações entre elas. Mais do que instrumento analítico, o reconhecimento dessa multifuncionalidade tem a implicação política de transformação das políticas públicas para agricultura familiar. O financiamento da agricultura familiar, por exemplo, não pode ser submetido a condições simplesmente de mercado. Devem-se buscar formas e condições de financiamento que dêem conta da diversidade de funções desse setor. O conjunto de bens e serviços prestados pela agricultura familiar justifica plenamente que esse setor seja subsidiado efetivamente pela sociedade. Naturalmente, não se levam em conta os ínfimos subsídios da equalização de juros do Pronaf, que chegam à beira do ridículo se comparados às somas de subsídios agrícolas europeus e norte-americanos. O papel desempenhado pela agricultura familiar na sociedade brasileira justifica a destinação de valores muito superiores aos atuais para esse setor. As políticas de pesquisa agropecuária, além da dimensão da produção, precisam ser revistas para responder a demandas apresentadas por outras funções, como a ambiental, por exemplo. Dessa maneira, o conjunto das políticas públicas que afetam a agricultura familiar – desde o financiamento da produção, política de preços (hoje quase inexistente), políticas de educação e saúde etc. – deve ser revisto no sentido de analisar em que medida contribui para garantir as melhores condições para o exercício das múltiplas funções da agricultura familiar. A política brasileira de comércio agrícola internacional necessita bem mais que a ampliação de seu enfoque para dar conta da complexidade de nossa agricultura. Na realidade, os tomadores de decisão da política comercial agrícola parecem ignorar solenemente a existência desse setor. Pelo menos, é isso que se pode entender das posições brasileiras na OMC e na Alca. O governo tem uma política comercial “de uma nota só”, ou seja, quer maior acesso ao mercado europeu e norte-americano para alguns produtos brasileiros, como soja, suco de laranja, café, açúcar etc. Não por acaso, é exatamente aí que reside o interesse da agricultura patronal. Para atingir esse objetivo, o governo está preparado até mesmo para uma nova redução tarifária, como afirmou o ministro de Estado das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampréia em audiência pública, na Câmara dos Deputados, anterior à conferência de Seattle. Desse modo, o governo está disposto a liberalizar ainda mais o setor agrícola sem, antes, sequer avaliar quais foram as conseqüências da última onda de liberalização em termos de queda de renda do setor, inviabilização MULTIFUNCIONALIDADE DA AGRICULTURA FAMILIAR Esse reconhecimento das funções múltiplas da agricultura familiar pode implicar 93 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR de centenas de milhares de estabelecimentos familiares etc. Apesar de existirem alguns 94 setores da agricultura familiar envolvidos com exportação, é óbvio que o posicionamento internacional do governo está balizado pelos interesses do patronato agroexportador, muitas vezes com graves conseqüências para o conjunto da agricultura familiar. A inclusão dos interesses desse setor na agenda internacional brasileira, inclusive no que se refere às suas múltiplas funções, é uma tarefa árdua. Na realidade, isso só será possível na medida em que a sociedade civil e, especialmente, os movimentos sociais no campo – como CUT, Contag, MST, MPA e outros – incluírem essa temática do comércio internacional em suas agendas. Enquanto isso, o governo segue negociando acordos agrícolas mundo afora (atualmente OMC e Alca), os quais, futuramente, poderão ser utilizados como argumento para o não-atendimento de demandas de políticas domésticas. Quanto à posição européia de multifuncionalidade, cabem alguns comentários. Seu posicionamento em defesa do reconhecimento do caráter multifuncional da agricultura na OMC tem como objetivo, na realidade, a manutenção da chamada caixa azul (que permite alguns pagamentos diretos dos governos aos agricultores) e a continuidade da cláusula de paz e das salvaguardas especiais. Esses instrumentos, na prática, permitiram que os países desenvolvidos mantivessem seus elevados subsídios e seu protecionismo, levando, muitas vezes, à depressão internacional dos preços agrícolas. Talvez falte incluir no conceito europeu de multifuncionalidade a função internacional, ou seja, os impactos de sua política agrícola em países em desenvolvimento, quando, por meio de subsídios, se mantêm os preços agrícolas europeus abaixo do mercado mundial, promove-se a superprodução ou utiliza-se de subsídios à exportação. Enfim, se a demanda européia por multifuncionalidade é sincera, a União Européia deve reconhecer e respeitar a multifuncionalidade da agricultura dos países em desenvolvimento. Isso significa que a UE teria que apoiar regras mais flexíveis para os países em desenvolvimento no Acordo Agrícola da OMC, apoiar a eliminação dos subsídios à exportação e outras formas de dumping, apoiar a cláusula de paz e a eliminação do uso de salvaguardas especiais pelos países desenvolvidos, se comprometer a reduzir os pagamentos da caixa azul e ter um posicionamento multifuncional também em outros temas relacionados à agricultura, como o Trips (capítulo da OMC que estabelece normas sobre propriedade intelectual, como patentes e outras). Concluindo, pode-se afirmar que a agricultura familiar exerce múltiplas funções estratégicas para sociedade e que isso deve ser reconhecido e traduzido em políticas públicas adequadas. O conceito de multifuncionalidade, na perspectiva deste artigo, é útil para o fortalecimento deste ator social: a agricultura familiar. A discussão sobre as múltiplas funções da agricultura não pode, entretanto, ignorar a profunda desigualdade existente tanto no campo quanto no cenário internacional. Isso significa que não podem ser tratadas como iguais as diferentes funções da agricultura familiar e da agricultura patronal e muito menos as diferentes funções da agricultura européia e da agricultura brasileira. 4 Agricultura na OMC Estágio atual das negociações 95 Agricultura na OMC Estágio atual das negociações Arnoldo de Campos 1 A Organização Mundial do Comércio (OMC) encontra-se num impasse desde a tentativa frustrada da Rodada do Milênio. Os países não conseguem estabelecer agendas comuns nem consensos sobre a maioria dos temas. O questionamento das organizações sociais, da mídia e da opinião pública em geral em relação à ineficiência da OMC e à sua tendenciosidade tem colocado em xeque a própria legitimidade da organização. Um dos principais nós dessa questão é o tema agricultura. A dificuldade de acordos sobre esse tema foi a principal causa do prolongamento da Rodada Uruguai do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio/GATT (1986/94). Sete anos depois de encerradas as negociações e iniciado o processo de implementação do Acordo Agrícola da OMC, as mais diferentes avaliações apontam resultados bastante negativos para os países em desenvolvimento. Prometido para ser o instrumento para a redução das desigualdades de condições entre ricos e pobres, o Acordo Agrícola permitiu a retomada da produção e a ampliação e/ou manutenção da participação no comércio internacional dos países mais desenvolvidos do planeta. A União Européia (UE) e o Japão chegaram até a diminuir sua participação nas importações mundiais de produtos agrícolas. Por outro lado, os países em desenvolvimento, segundo dados da própria OMC, aumentaram expressivamente sua participação nas importações mundiais, sem que o mesmo ocorresse com as exportações. O Brasil, infelizmente, é exemplo emblemático do que ocorreu com a maioria dos países em desenvolvimento. Sua produção agrícola reduziu drasticamente o ritmo de crescimento, ficando, hoje, bem abaixo do potencial. As exportações agrícolas cresceram em ritmo menor que as importações, mantendo a participação no mercado internacional ainda inferior à ocupada no final da década de 80. O Brasil também pode ser considerado emblemático porque aplicou, voluntária e unilateralmente, uma série de políticas estimuladas pelo acordo, como a redução de tarifas de importação e os cortes de gastos públicos com políticas de apoio à agricultura. 1 Economista do Departamento de Estudos Sócio-Econômicos Rurais (Deser). 97 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR As conseqüências desse tipo de processo para a maioria dos países em desenvolvi- 98 mento foram mais pobreza e exclusão no meio rural, menos renda para os agricultores que permanecem na atividade, crescimento desordenado das grandes cidades, degradação ambiental, dependência alimentar, entre outras. A agricultura continua sendo importante para o Brasil e para a maioria dos países em desenvolvimento, até mesmo para os Estados Unidos da América (EUA), que, declaradamente, dizem que a defesa dos interesses da agricultura americana é fundamental para o país. Evidentemente, os interesses brasileiros (ou dos países em desenvolvimento) são bastante distintos dos norte-americanos. Isso exige dos governos e também das organizações sociais estratégias e propostas concretas que permitam a defesa de outros interesses, representativos de um outro projeto de desenvolvimento. Este artigo reúne informações que permitam uma visão mais abrangente do processo de negociações agrícolas da OMC. Inicialmente, traz um conjunto de dados e informações sobre a economia agrícola mundial, sobre o comércio internacional de produtos agrícolas e a participação dos principais países ou grupos de países. Os dados permitem um dimensionamento desse ambiente econômico e uma análise dos movimentos ocorridos na década de 90. Em seguida, faz uma breve retrospectiva e avaliação da implementação do Acordo Agrícola da OMC para iniciar apresentação das atuais negociações, dos temas em discussão e a identificação dos principais países e grupos de países que participam das negociações. O artigo discute, ainda, o posicionamento e os objetivos dos principais países envolvidos. Por fim, algumas considerações são apresentadas na conclusão, lançando questionamentos e desafios para as organizações sociais envolvidas com a temática. Este artigo não pretende esgotar as questões apresentadas ou fazer avaliações conclusivas sobre os temas e as posições dos países e blocos. Seu objetivo central é trazer informações que permitam às organizações e às pessoas interessadas no assunto utilizarem-se desse material para estimular o debate e refletir sobre os possíveis caminhos que devem ser traçados pelo país em relação a essa importante questão. Agricultura: produção e comércio internacional Produção A produção agrícola total do mundo não conta com levantamentos completos, mas é estimada em mais de 3 bilhões de toneladas, o que representa uma produção por habitante do planeta de quase 500 kg por ano. A produção agrícola mundial dos cinco principais produtos (algodão, arroz, milho, soja e trigo) no ano 2000 chegou perto de 2 bilhões de toneladas (Tabela 1), segundo dados da Food and Agriculture Organization (FAO). Segundo a mesma organização, entre 1980 e 2000 a produção mundial desses produtos cresceu 37%, significando uma taxa anual de quase 2%. Na década de 80, isoladamente, esse desempenho foi de 2,8% aa. Na década de 90, o desempenho desse ao ano, um dos piores desempenhos dos últimos 50 anos. Os estoques desses produtos, em média, permitiriam a manutenção dos atuais níveis de consumo por aproximadamente três meses. TABELA 1 Produção agrícola mundial – produtos selecionados (mil toneladas) ANOS ARROZ ALGODÃO* MILHO SOJA TRIGO TOTAL 1980/81 410.029 45.342 446.722 88.523 449.588 1.440.204 1984/85 469.174 50.649 485.357 101.154 499.399 1.605.733 1989/90 520.053 53.626 483.177 108.439 592.341 1.757.636 1994/95 547.086 56.577 516.579 126.837 550.597 1.797.676 1998/99 606.656 52.938 605.204 156.812 584.697 2.006.307 1999/00 597.155 50.777 589.355 161.042 580.015 1.978.344 Fonte: FAO – <www.fao.org>. (*) Caroço de algodão. Atualizado em 09/02/2001. Em termos de produção, é importante observarem-se alguns números para que se entenda um pouco mais o cenário internacional, principalmente a partir dos principais atores. A Tabela 2 é montada a partir do volume produzido dos principais produtos (carnes, leite e grãos). TABELA 2 Carnes, leite e grãos: produção agrícola internacional – regiões selecionadas (1999) PAÍS/REGIÃO Estados Unidos PRODUÇÃO (MILHÕES DE t) 477,89 Brasil 124,09 Índia 137,41 China 429,54 Japão União Européia Argentina Total 12,03 197,89 80,33 2102,71 Fonte: USDA. Elaboração: Deser. Obs.: contém manteiga, queijo, leite em pó, carne suína e bovina, arroz, algodão, milho, trito e soja. AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES conjunto de produtos foi pior, com a produção crescendo a uma taxa de apenas 1,5% 99 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Segundo a OMC, a produção agrícola, em termos de valor componente do PIB mundial, 100 cresceu 18% na década de 90, enquanto o setor de manufaturas cresceu 22% e o de serviços relacionados ao comércio cresceu 82%. O pior desempenho ficou por conta da indústria extrativa, com 15%. Nesse mesmo período, a produção mundial cresceu 20% em média para todos os setores. Ou seja, quem puxa, hoje, o crescimento mundial é, principalmente, o setor de serviços. Comércio de produtos agrícolas As principais fontes de dados sobre comércio internacional de produtos agrícolas são a OMC, a FAO e o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). No Brasil, as fontes são o próprio USDA, a Conab e o Ministério da Agricultura. O comércio mundial de produtos agrícolas movimentou US$ 544 bilhões em 1999, segundo a OMC, ou quase 10% de todo o comércio internacional e praticamente 50% de todo o comércio de produtos primários. A taxa de crescimento desse tipo de comércio na década de 90 foi de 3,5%, contra aproximadamente 8,4% do comércio total. O comércio de produtos agrícolas passou por grandes mudanças no seu comportamento a partir de 1996. Mesmo em ritmo menor que o das demais mercadorias, o comércio de produtos agrícolas vinha crescendo desde, pelo menos, 1970. O ápice foi atingido em 1996, quando as transações agrícolas chegaram a mais de US$ 592 bilhões. Nesses últimos anos, o valor do comércio agrícola diminuiu quase 3% ao ano. O principal motivo é a evolução dos preços. Segundo o USDA, os preços dos alimentos, juntamente com bebidas e tabaco, caíram 36% entre 1996 e 1999. Dos dez grupos de produtos acompanhados pelo USDA, apenas o tabaco não teve os seus preços reduzidos no período. Esse movimento pode ser acompanhado na Tabela 3. TABELA 3 Índice de preços das commodities agrícolas (1990 = 100) TIPO 1991 1996 1999 1996/99 Alimentos, bebidas e tabaco 99 125 89 Alimentos, bebidas e tabaco 99 128 84 -43 Cereais Trigo 98 95 148 153 84 83 -64 -70 -36 Milho 98 151 83 -68 Arroz 109 125 92 -33 Óleos vegetais, proteínas e farelos Carnes em geral 101 101 137 76 94 75 -43 -2 Carne bovina 104 70 72 2 87 120 96 -25 89 106 101 90 67 91 -35 1 Café 94 139 116 -23 Algodão 93 98 64 -33 Commodities primárias (todas) 90 109 87 -23 Carne de ovinos Açúcar Tabaco Fonte: USDA. Elaboração: Deser. Com isso, a participação do comércio agrícola no comércio total vem se reduzindo ainda mais da década de 90, e os países que dependem mais de exportações agrícolas estão enfrentando maiores dificuldades. Na Tabela 4 podem ser observados os dados da TABELA 4 Valores e participação dos produtos agrícolas no comércio total ANO AGRÍCOLA % NÃO-AGRÍCOLA % TOTAL 1970 53,5 18,9 228,5 81,1 282,0 1980 232,5 14,4 1.801,5 85,6 2.034,0 1990 326,6 10,8 3.112,4 89,2 3.439,0 1995 442,5 9,1 4.633,5 90,9 5.076,0 1996 465,5 8,5 4.878,5 91,5 5.344,0 1997 455,5 8,2 5.076,5 91,8 5.532,0 1998 438,1 8,1 4.995,9 91,9 5.434,0 1999(1) 417,3 7,4 5.193,7 92,6 5.611,0 2000(2) 409,2 6,6 5.770,8 93,4 6.180,0 FONTE: FAO <www.fao.org>. (1) (2) Preliminar. Previsão. Apesar dessa visível redução da participação do comércio agrícola no comércio mundial, para muitos países o comércio desse tipo de produto ainda tem importância significativa. A Tabela 5 mostra a participação do comércio agrícola nas importações e exportações totais para as grandes regiões do planeta. Como se pode observar, a agricultura continua sendo elemento importante para a América Latina. TABELA 5 Participação dos produtos agrícolas no comércio total, por regiões (1999) Total mundial EXP. IMP. 9,9 9,9 América do Norte 10,6 6,4 América Latina 20,2 9,6 Europa Ocidental 10,0 10,8 Europa C./O.(a), Estados Bálticos, CEI(b) 10,1 12,4 África 19,8 16,6 Oriente Médio 3,7 13,9 Ásia 7,1 10,6 Fonte: OMC. (a) (b) Europa Central e Oriental. Comunidade dos Estados Independentes (antiga URSS). AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES participação do comércio agrícola no comércio mundial, segundo a FAO. 101 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Distribuição do comércio agrícola internacional Em termos de grandes regiões, o comércio agrícola tem, na Europa Ocidental, praticamente metade de todo o comércio. Em seguida, a Ásia é o continente mais importante, depois a América do Norte e América Latina. A seguir, a participação das grandes regiões no comércio internacional de produtos agrícolas. GRAFICO 1 Comércio internacional de produtos agrícolas por regiões, 1999 (%) 102 Analisando um pouco mais esses dados, pode-se observar a participação dos principais países no comércio agrícola internacional (Tabela 6). A UE é a principal participante desse comércio, respondendo por mais de 40% das exportações e 46% das importações mundiais. Dentro da UE, destacam-se a França, Alemanha e Holanda. Os EUA vêm em segundo lugar, participando com aproximadamente 12%, tanto das exportações como das importações. O Japão destaca-se como grande importador mundial, representando 11% das importações totais. Em seguida, o Canadá, com 6% das exportações mundiais, e um conjunto de países participa, cada um, com algo em torno de 2% e 3% das exportações e importações mundiais. O Brasil participa com 3% das exportações mundiais e 1% das importações. TABELA 6 Comércio internacional de produtos agrícolas por países selecionados, 1990 a 1999 (em US$ milhões) 1990 EXP. 1996 IMP. EXP. 1998 1999 PARTE EM 99 (%) IMP. EXP. IMP. EXP. IMP. EXP. IMP. EUA 59.403 39.965 81.952 56.900 69.846 62.395 65.941 66.138 12,1 12,2 Brasil 9.779 2.691 16.050 7.811 17.065 7.149 15.980 5.130 2,9 1,0 Argentina 7.482 - 13.285 - 13.942 - 11.917 - 2,2 - 175.847 208.502 221.004 250.333 40,6 46,4 - 50.459 - 11,1 2,8 0,0 U. Européia Japão Austrália 12.073 233.034 263.612 226.709 257.008 - 73.157 17.736 - 56.588 14.516 - 59.735 15.292 Índia 3.505 1.720 7.040 3.034 6.235 4.632 - - 1,1 0,8 China 10.059 8.325 14.944 14.257 14.314 12.698 14.209 11.319 2,6 2,1 África - - - - - - - - - - 311.662 384.041 418.771 362.627 400.470 344.343 392.655 Total parcial 278.148 63,3 72,7 Mundo 414.190 415.000 592.870 590.000 560.560 560.000 543.820 540.000 100,0 100,0 Fonte: WTO. Elaboração: Deser. A década de 90 marca a entrada da agricultura nas negociações internacionais a partir da OMC e do Acordo Agrícola (Tabela 6), porém poucos movimentos expressivos ocorreram nesse período. Pelo lado das exportações, praticamente não ocorreram alterações significativas. Os EUA perderam 15% da participação que detinham no início da década, e o Brasil aumentou em 25% sua participação, juntamente com a Argentina, que aumentou sua participação em 21%. Pelo lado das importações, merece destaque a diminuição da participação da UE nas importações mundiais, de 50% para 46%, entre 1990 e 1999. O Japão também reduziu um pouco sua participação. Novamente, o Brasil se destaca, sendo um dos países com o maior índice de crescimento da participação nas importações agrícolas (45%), embora a base das importações no início da década fosse bastante reduzida. A Índia aumentou em 99% sua participação nas importações mundiais, mas, como o Brasil, com uma base reduzida no início da década. Na Tabela 7, podem ser observadas as variações e as taxas de crescimento das exportações e importações agrícolas para os principais países do mercado internacional. TABELA 7 Indicadores do comércio agrícola para países selecionados REGIÃO EUA Brasil Argentina U. Européia Japão Austrália Índia China África Total parcial Mundo EXPORTAÇÕES IMPORTAÇÕES VAR. 90/99 TX ANUAL VAR. 90/99 TX ANUAL 11,0 63,4 59,3 25,7 26,7 77,9 41,3 23,8 31,3 1,22 7,05 6,59 2,85 2,96 9,74 4,58 2,64 3,48 65,5 90,6 7,3 10,1 20,1 18,4 2,2 2,0 169,3 36,0 26,0 21,2 4,0 2,9 Fonte: WTO. Elaboração: Deser. Obs.: em US$ milhões. AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES REGIÃO 103 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Principais produtos comercializados Segundo a FAO, pelo menos 17 produtos ou grupos de produtos destacam-se no comércio internacional (Tabela 8). O leite é o produto que movimenta a maior quantia: US$ 25,4 bilhões. O tabaco é o segundo mais importante, movimentando US$ 24 bilhões. Seis grupos destacam-se por apresentar taxas de crescimento do comércio acima da média mundial: óleo de palma, carne de frango, arroz, vinho, soja e frutas. Os demais apresentam taxas inferiores, representando produtos menos dinâmicos. TABELA 8 Exportações agrícolas mundiais – principais produtos (1990 – 2000) – US$ bilhões 1990 1995 1996 1997 1998 1999(2) Complexo leite 19,6 Complexo tabaco 18,3 14,1 Frutas (1) Complexo soja 13,0 Carne suína 11,6 Vinho 8,5 Trigo 17,7 Carne bovina 14,5 Complexo cacau 8,3 Café 7,7 Açúcar 13,6 Milho 9,8 Carne de frango 3,7 Arroz 4,1 Algodão (em fibras) 8,4 Óleo de palma 2,5 Couros 6,7 Outros 144,1 27,8 22,3 20,4 16,1 15,0 9,3 17,4 17,2 12,6 9,2 11,2 9,3 7,3 5,8 10,8 7,1 7,1 216,6 27,6 25,8 21,6 20,5 17,0 11,5 19,8 14,5 13,6 10,5 12,9 12,7 8,8 7,1 10,1 5,7 7,6 218,2 26,4 25,6 21,7 24,1 15,5 12,4 17,7 15,0 12,8 13,1 12,8 10,2 8,1 6,9 9,1 6,6 7,4 210,1 26,1 24,3 21,6 21,1 15,5 13,8 15,2 14,5 13,3 12,0 12,1 9,1 8,2 9,6 7,9 6,4 6,0 201,4 24,8 21,8 21,2 17,9 14,2 14,1 14,4 15,6 12,9 9,7 9,9 8,7 8,1 7,9 5,7 6,0 5,2 199,2 25,4 23,8 21,9 20,4 15,7 15,3 14,6 14,5 13,6 9,6 9,5 9,0 8,2 8,2 7,7 6,8 5,6 179,4 29,6 30,1 55,3 56,9 35,3 80,0 -17,5 0,0 63,9 24,7 -30,1 -8,2 121,6 100,0 -8,3 172,0 -16,4 24,5 3,0 3,0 5,5 5,7 3,5 8,0 -1,8 0,0 6,4 2,5 -3,0 -0,8 12,2 10,0 -0,8 17,2 -1,6 2,4 TOTAL 442,5 465,5 455,5 438,1 417,3 409,2 25,4 2,5 PRODUTOS 104 326,2 2000(3) VAR. 00/90 TX ANUAL FONTE: FAO <www.fao.org>. Inclui bananas, maçãs, laranjas, uvas, passas, tangerinas, clementinas, pêras, pêssegos, nectarinas, morangos, kiwis, grapefruits, melancias, mangas, abacaxis, abacates, cerejas, damascos, limões, limas, mamões e melões. (1) Desempenho do Brasil A produção agrícola brasileira na década de 90 apresentou um dos seus piores desempenhos dos últimos tempos. Foram dez anos sem sair da casa das 80 milhões de toneladas de grãos. Esse desempenho tem a ver com as políticas econômicas adotadas na década de 90, principalmente a abertura econômica e o desmantelamento das políticas públicas para o setor. Apesar disso, as exportações agrícolas ainda ocupam espaço importante, representando, atualmente, 29% das exportações totais. Segundo a OMC, a taxa de crescimento anual das exportações agrícolas do país foi de 7%. Em 2000, as exportações de produtos agrícolas chegaram a US$ 15 bilhões. O melhor desempenho do Brasil ocorreu em 1997, quando foram exportados US$ 18 bilhões. Pelo lado das importações, a década de 90 foi marcada pelo crescimento acelerado, com taxas anuais de 10%. As importações agrícolas do país saíram de US$ 2,4 bilhões em 1990 e passaram a US$ 4,6 bilhões em 2000. O pior desempenho ocorreu em 1997, Ou seja, a década de 90 não permitiu que o Brasil aumentasse sua participação no comércio internacional de produtos agrícolas. Até o final da década de 80, a participação brasileira nas exportações mundiais era superior a 4%. Atualmente, essa participação está em 3,8%. Em 1975, esse número chegou a 7%. Com relação às importações, o comportamento foi inverso. No início da década de 90, a participação brasileira no total de importações mundiais era de menos de 0,6%. Atualmente, esse número está em 1,1%. O perfil de nossas exportações agrícolas, segundo dados da Secex, é predominantemente de produtos primários, sem elaboração. Esse tipo de produto representa 67% do total de exportações agrícolas. Os produtos semimanufaturados representam 16%, e os manufaturados, 17%. O perfil das importações é praticamente o mesmo, com o predomínio de produtos primários. É importante destacar que, desde 1996, o Brasil vem reduzindo o valor gasto com importação agrícola. Quatro motivos podem ser apontados: a redução do crescimento econômico; a diminuição dos preços agrícolas no mercado internacional; a desvalorização do real a partir de 1999; e a elevação nas tarifas de importação em geral e, especificamente, de alguns produtos, como leite e derivados, vinhos e bebidas, entre outros. Este motivo merece destaque, na medida em que pequenas alterações tarifárias foram capazes de reanimar a produção interna. Esse é o caso do leite, que, a partir de 1998, quando suas tarifas foram alteradas, passou a apresentar crescimento mais acelerado da produção. Na região Sul, esse processo foi acompanhado do crescimento do número de estabelecimentos produtores. Com relação aos principais produtos no mercado internacional, o Brasil participa, de forma expressiva, nas exportações em 5 dos 17 mais importantes: soja (20%); café (18%); couros (14%); açúcar (13%); e frango (10%). Existe, ainda, um segundo bloco de produtos em que o Brasil tem participação marcante, como tabaco, frutas, carne bovina, cacau e algodão. Pelo lado das importações, o Brasil participa com maior expressão das importações de trigo (6%), algodão (5%), arroz, milho e leite, estes com menos de 2%. Entre os mercados mais dinâmicos, o Brasil tem participação no complexo da soja e da carne de frango. Este tem sido o mercado mais dinâmico da década. A participação brasileira nas exportações do complexo soja se dá, principalmente, a partir da soja em grão e farelo. As exportações de óleo bruto e refinado esbarram em tarifas elevadas. Outros produtos brasileiros de exportação encontram muitas barreiras no mercado internacional. O tabaco encontra barreiras crescentes no seu principal mercado: o norte-americano. O Brasil praticamente está proibido de exportar cigarros para os EUA. Outras barreiras estão sendo implementadas em relação ao fumo em folhas, dado o lobby dos produtores norte-americanos. Com relação ao açúcar, este é um dos produtos mais protegidos do planeta, e o Brasil é AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES quando foram importados US$ 7,1 bilhões em produtos agrícolas. 105 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR um dos países mais competitivos, ou seja, o açúcar é um produto de grande potencial, 106 mas as barreiras comerciais não tendem a diminuir em curto prazo. Com relação ao café, o problema do país passa por acordos preferenciais que os países ricos (Europa principalmente) estabelecem com certos países, em que quotas são distribuídas e as importações não funcionam exclusivamente através do mercado. Já a carne bovina enfrenta fortes restrições sanitárias nos EUA e na Europa. Agora, quando novos critérios de qualidade passam a ser valorizados, é possível que a carne bovina brasileira ganhe maior espaço, na medida em que é um tipo de carne mais saudável devido à qualidade da alimentação animal. Acordo Agrícola da OMC O Acordo Agrícola da OMC foi assinado em abril de 1994, encerrando as negociações da Rodada Uruguai do antigo GATT. Esse acordo marca a entrada do tema agricultura nas negociações multilaterais de forma mais efetiva. Até então, o tema agricultura não era objeto de políticas multilaterais de redução de barreiras comerciais e de regulamentação de políticas internas de apoio e subsídios. Alguns produtos eram objeto de acordos, mas sem grandes compromissos com a liberalização. O principal motivo para a não-entrada efetiva do tema agricultura nas negociações multilaterais era a total falta de interesse de norte-americanos e europeus, que recorriam a argumentos sociais, econômicos e políticos para justificar suas políticas de apoio e proteção à produção doméstica. As negociações agrícolas no âmbito do GATT foram iniciadas em 1982, com a criação de um comitê sobre o tema. A Rodada Uruguai do GATT foi iniciada oficialmente em 1986, em Punta del Este. Esse período (1982/86) marcou o auge das políticas de subsídio à agricultura em praticamente todo o mundo. Uma crise de produção se estabeleceu em 1986, fruto principalmente da superprodução norte-americana e européia, o que reacendeu a prática de subsídios à exportação, como forma de esses países se livrarem dos elevados estoques. Ao mesmo tempo, vários países importadores passaram a desenvolver políticas de auto-suficiência alimentar. Como conseqüência, os preços internacionais dos principais produtos despencaram. As negociações do Acordo Agrícola do GATT foram iniciadas com propostas ousadas de redução do apoio interno e dos subsídios, lançadas principalmente pelos norteamericanos, com apoio do nascente Grupo Cairns.2 O Japão, que ainda possui um número razoável de agricultores, sobretudo produtores de arroz, se opôs, desde o início, ao estabelecimento de acordos no sentido que os norte-americanos estavam propondo. Além do Japão, alguns países em desenvolvimento, principalmente os importadores de alimentos, apresentaram preocupações com a possível elevação dos preços no mercado internacional. 2 O Grupo Cairns foi fundado em 1986 na Austrália e é composto por: Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Uruguai, Fiji, Indonésia, Malásia, Filipinas, Tailândia e Hungria. Recentemente, também integraram o grupo a África do Sul, Costa Rica, Venezuela, Paraguai e Guatemala. Mais adiante, esse grupo será abordado. Entre idas e vindas, principalmente por parte dos europeus e norte-americanos, o acordo acabou reduzindo sua abrangência, sendo estabelecido a partir dos interesses comuns desses dois blocos. O acordo foi assinado por 111 países e entrou em vigor no 1999, o que acabou não ocorrendo até o momento,3 embora negociações continuem sendo feitas informal e formalmente. Ao longo da Rodada, as negociações agrícolas se deram em três áreas específicas: acesso a mercados; programas de apoio interno; e subsídios às exportações. Separadamente, também foi negociado um acordo sobre medidas sanitárias e fitossanitárias e a Cláusula de Paz. Os resultados alcançados constam do acordo sobre agricultura da parte integrante da ata final da Rodada Uruguai e como compromissos consolidados perante a nova OMC. Apoio à produção doméstica Na área do apoio interno, as políticas dirigidas ao setor agrícola foram classificadas de duas formas. Numa das classificações, as políticas financiadas com recursos públicos orçamentários, que não envolvem transferências dos consumidores, não possuem efeito de suporte aos preços e seus efeitos sobre o comércio e a produção são nulos ou mínimos. Essas políticas são excluídas dos compromissos de redução e estão incluídas na chamada caixa verde. Nessa categoria, estão as políticas de defesa sanitária, informações de mercado, educação rural, programas de segurança alimentar, programas ambientais, ajustes estruturais, apoio à renda desvinculada da produção, desenvolvimento regional e todas as demais especificadas no Anexo II do Acordo Agrícola. Ao se incluir nesse campo o apoio à renda agrícola desvinculada da produção, foi dada a oportunidade aos países desenvolvidos de continuarem subsidiando sua agricultura. Na outra classificação, estão as políticas que geram distorções na produção e no comércio, sujeitas a compromissos de redução. As medidas sujeitas a compromissos de redução (sustentação de preços, pagamentos diretos vinculados à produção, subsídios ao crédito e outras que não se enquadrem nos critérios da caixa verde) passaram a ser quantificadas em termos de uma Medida Global de Ajuda (MGA), a ser calculada em valores monetários, produto a produto, sendo agregadas às políticas que não são específicas por produto, com base no período 1986/88, obedecidos determinados critérios estabelecidos no acordo. As medidas sujeitas a reduções e compromissos de revisão formam o que os negociadores chamam de caixa amarela. A MGA total é a soma das medidas de apoio específicas por produto com as medidas de apoio não-específicas por produto. A MGA deverá ser reduzida 20%, em seis anos, para os países desenvolvidos e 13%, em 10 anos, para os países em desenvolvimento, com os percentuais incidindo sobre o total da MGA e não sobre o apoio específico ao produto, o que possibilita a transferência de subsídios entre produtos, mesmo na redução acordada da MGA, para o total do setor. 3 Adiante, esse assunto voltará a ser discutido com mais profundidade. AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES início de 1995. O acordo previa também a realização de sua revisão ao final do ano 107 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR O Acordo Agrícola da OMC estabeleceu, ainda, mais duas caixas (ou compartimentos): 108 a vermelha, na qual se enquadram as políticas proibidas; e a azul, uma exceção, na qual várias políticas vinculadas a controles de produção não são objeto de reduções e compromissos, mas estão sob observação. O Artigo 6 da parte IV do Acordo Agrícola, a chamada cláusula de minimis, estabelece que estão desobrigados de compromissos de redução os países membros com MGA inferior a 5% do valor total da produção (para os países desenvolvidos) e a 10% (para os países em desenvolvimento). Acesso a mercados Na área de acesso a mercados, o documento final estabelece os seguintes compromissos: todas as medidas não-tarifárias de comércio de produtos agrícolas serão objetos de um processo de tarificação, incluindo as medidas contempladas no Artigo XI: 2c (restrições quantitativas na importação de produtos agrícolas) do GATT, que irão estimar a proteção equivalente em termos de tarifas ad valorem, ou específicas das medidas não-tarifárias adotadas. Em resumo, todas as medidas não-tarifárias serão valoradas e acrescidas às alíquotas de importação. Nas medidas não-tarifárias, estão incluídas as restrições quantitativas a importações, direitos niveladores, preços mínimos de importação, licenças de importação arbitrárias, medidas de comércio de empresas estatais, restrições voluntárias às exportações e outras medidas não-tarifárias vinculadas aos problemas de equilíbrio da balança de pagamentos. O cálculo para tarificação deverá ser feito utilizando-se a diferença existente entre os preços internos e os internacionais do produto em questão e o período-base deve ser 1986/88. Todos os países se comprometem a consolidar 100% das tarifas de produtos agrícolas, inclusive as resultantes do processo de tarificação (para os produtos industriais, esse percentual cai para 83%) e a promover durante seis anos, a partir de 1995, a redução de, no mínimo, 15% por linha tarifária e de 33% na média do conjunto tarifário (10% e 24%, respectivamente, para os países em desenvolvimento durante o período de 10 anos). Todos os percentuais de redução tarifária incidem sobre a média aritmética simples das tarifas e não sobre uma média ponderada pelo volume de importações. Esse fato, aliado ao alto patamar das tarifas do período-base 1986/88, quando os preços agrícolas internacionais estavam muito baixos, resultou numa tarificação com uma base de alíquotas elevadas, tornando pouco efetiva essa redução tarifária para o acesso aos mercados dos países desenvolvidos pelos países em desenvolvimento. Prevaleceu a regra do “mudar para manter” a proteção. Caso as tarifas resultantes do processo de tarificação tornem as importações proibitivas, o país deverá se comprometer a manter o acesso corrente, viabilizando, no mínimo, a média das importações do período 1986/88, ou, então, o acesso mínimo de 3% do consumo interno, devendo atingir 5% no final da implementação da Rodada. Como o acesso pode ser cumprido por grupo de produtos (por exemplo, grupo de cereais) ou por produtos individuais que componham esse grupo, existe liberdade para Exportações subsidiadas Na área de negociações sobre redução dos subsídios às exportações agrícolas, os países se comprometeram a reduzir em 36% o valor dos subsídios e em 21% a quantidade do produto exportado com subsídio. O período-base para o cálculo é 1986/90 ou 1991/92. A redução não será obrigatoriamente linear. Ainda acerca dos subsídios – tanto os que se dirigem às exportações quanto os que se dirigem aos programas de ajuda interna, incluindo os agora previstos na caixa verde –, eles estão sob o amparo da Cláusula de Paz. Válida por nove anos, essa cláusula será negociada no último ano de vigência do acordo e prevê um abrandamento na aplicação dos direitos compensatórios previstos no acordo. Medidas sanitárias e fitossanitárias Esse acordo foi estabelecido por fora do Acordo Agrícola e facilita a distinção entre temas relacionados à saúde, segurança e proteção disfarçada. O acordo não estabelece metas quantitativas e nem procedimentos e métodos específicos, delegando aos países o direito de estabelecer os critérios que julguem necessários para proteger a vida, a saúde dos seres humanos, plantas e animais. Cláusula de Paz Salvo no caso de não-cumprimento das disposições do Acordo Agrícola, as partes contratantes não poderão acionar o GATT para alegar direitos comerciais contrariados pelos efeitos das políticas agrícolas. Quadro sintético do acordo PAÍSES DESENVOLVIDOS PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO 6 ANOS: 1995–2000 10ANOS:1995 –2004 Redução da média geral para todos os produtos agropecuários –36% –24% Redução mínima por produto –15% –10% AJUDA INTERNA Reduções da MGA total por setor –20% –13% EXPORTAÇÕES Valor dos subsídios (desembolsos) –36% –24% Quantidades de subsídios –21% –14% TARIFAS ; Nota: os países menos adiantados não têm de assumir compromissos de reduzir as tarifas nem os subsídios. AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES que um país libere seu mercado de acordo com seus interesses internos. 109 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Estágio atual das negociações 110 O último informe das negociações agrícolas no âmbito da OMC foi divulgado em maio de 2001. Ainda em 2001, ocorrerão mais duas reuniões (setembro e dezembro). Para 2002, já estão programadas outras três reuniões. Segundo esse informe, 121 países já apresentaram propostas, sendo que 22 deles apresentaram propostas globais para as negociações. Os demais apresentaram propostas para os mais diferentes temas. Estão em discussão no Comitê de Agricultura da OMC os seguintes temas: ajuda interna; acesso a mercados; concorrência das exportações; contingenciamento tarifário; tratamento especial e diferenciado; impostos e restrições às exportações; países em desenvolvimento; ajuda alimentar; questões não-relacionadas ao comércio; qualidade dos alimentos; países em desenvolvimento importadores de alimentos; entre vários outros. O atual estágio das negociações não permite a observação de possíveis consensos entre os países. As propostas são bastante contraditórias e, muitas vezes, conflitantes. As negociações ocorrem, informal e formalmente, a partir de países individuais e de grupos de países, que apresentam suas propostas em bloco ou individualmente, conforme as circunstâncias. Vários países fazem parte de diferentes grupos, dependendo do interesse que os une. O Brasil, por exemplo, negocia a partir do Mercosul e do Grupo Cairns, além de fechar com outros grupos e países conforme o interesse em jogo. Os principais grupos ou países negociadores são: • União Européia; • Estados Unidos; • Japão; • Grupo Cairns (14 países, entre os quais Brasil, Austrália, África do Sul, Nova Zelândia, Indonésia) – caracterizado pela defesa dos interesses de exportadores agrícolas; • Grupo Africano (41 países, entre eles África do Sul, Namíbia, Nigéria, Egito, Moçambique) – defende os interesses africanos, com discurso predominante na defesa dos países em desenvolvimento e dos importadores de alimentos; • Mercosul e Mercosul ampliado – em geral fecha com o Grupo Cairns; • Asean (sete países, entre eles, Indonésia, Malásia, Cingapura e Tailândia) – defende interesses de economias dinâmicas, de rápido crescimento econômico e com interesses agrícolas relacionados tanto à exportação como à importação; • Coricon (formado basicamente pelos países da América Central e Caribe) – pequenos países em desenvolvimento e, em alguns casos, importadores líquidos de produtos agrícolas; • países em desenvolvimento (tem, entre seus membros, Cuba, Haiti, Paquistão e Índia) – reforça o discurso da necessidade de tratamento diferenciado para os países em desenvolvimento. O Brasil já foi mais articulado nesse grupo; • pequenos países insulares em desenvolvimento (Cuba, Jamaica etc.). Como foi visto, existe um mandato oriundo do próprio Acordo Agrícola no sentido de sua revisão e renegociação. Desde o final de 1999, já foram realizadas 7 reuniões, nas quais foram apresentadas A seguir, serão apresentados os objetivos gerais, as propostas e posicionamentos dos principais países envolvidos nas negociações. Principais atores nas negociações agrícolas da OMC Estados Unidos Ao lado da UE e do Japão, os EUA são um dos países com a maior quantidade de recursos aplicados na agricultura. Na década de 80, antes do Acordo Agrícola, os norteamericanos já gastavam mais de US$ 50 bilhões com políticas de apoio à agricultura. Em 2000, quando essa quantidade deveria ter sido reduzida por conta dos compromissos com a redução de gastos, os norte-americanos gastaram US$ 90 bilhões. Os principais instrumentos da política agrícola nos EUA são os pagamentos diretos e os créditos à exportação, mas os norte-americanos se utilizam também de vários outros instrumentos, como a sustentação de preços. Os norte-americanos contam com um grande aparato institucional e técnico voltado exclusivamente para as negociações do tema agricultura. Existe um representante comercial do Estado, um comitê no Congresso, além do envolvimento direto do Departamento de Estado para a Agricultura (USDA). Há um processo de envolvimento de todos os órgãos governamentais relacionados a essa questão. Além disso, reuniões com setores privados e organizações da sociedade civil estão sendo realizadas com o objetivo de fazer consultas e construir propostas. Cabe destacar o grande envolvimento e interesse do Congresso norte-americano em assuntos relacionados à agricultura, biotecnologia etc., além dos fortes lobbies de grupos privados. Existem leis em discussão no Congresso com o objetivo de proibir que o Estado norte-americano negocie acordos sobre determinados produtos. Existe também uma pressão dos estados para que seja criado o cargo de negociador agrícola dos EUA. Em maio de 2000, uma declaração presidencial destacava: “a agricultura é um elemento fundamental para a economia americana [...,] devem ser buscadas nas negociações a diminuição de tarifas, subsídios e outras distorções que limitam a produtividade agrícola e as exportações americanas [...e] devem ser estabelecidas regras que fomentem o pleno desenvolvimento da biotecnologia”. Os norte-americanos prevêem também que dificilmente não prevalecerão nas negociações os interesses dos países desenvolvidos. Enquanto isso, prometem combater fogo com fogo, ou seja, subsídios com subsídios. AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES 45 propostas, envolvendo 121 países, ou 81% dos membros da OMC. 111 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Cabe destacar ainda, que a sociedade norte-americana não é homogênea, coexistindo 112 grupos organizados e com interesses bastante distintos: ambientalistas e defensores dos direitos do consumidor, de um lado; representantes de grandes grupos privados, de outro. A atuação dos norte-americanos em relação à agricultura já foi marcada pela influência política e pela defesa de interesses estratégicos. Em matéria publicada na Gazeta Mercantil,4 Celso Lafer, então ministro de Estado das Relações Exteriores, descrevia: “[...] Em diversas ocasiões nos anos 70 os Estados Unidos buscaram utilizar sua posição de preeminência como produtor e exportador de grãos para fins políticos. A União Soviética foi objeto de vários embargos – trigo em 1972, soja em 1973, trigo novamente após a invasão do Afeganistão em 1979. Em 1974, quando Bangladesh sofreu inundações que destruíram sua produção agrícola, os envios de alimentos sob a PL 480 foram retardados em vários meses, enquanto várias agências discutiam se as vendas de juta a Cuba no ano anterior não desqualificavam Bangladesh como receptor de ajuda alimentar. Quando os alimentos chegaram, a crise havia sido superada. Naquele mesmo ano, um relatório da CIA sugeria a utilização da posição dos EUA como exportador de cereais para recuperar a posição de primazia na cena internacional que havia ocupado imediatamente após a II Guerra Mundial. Cunhou-se então a expressão ‘arma alimentar’, ameaça utilizada pelo próprio Presidente Ford, ainda que na negativa, em discurso na ONU em 1974, quando afirmou que ‘não tem sido nossa política utilizar os alimentos como arma política, apesar do embargo do petróleo e das recentes decisões sobre o preço e sobre a produção de petróleo’ [...]”. Objetivos gerais Em termos de objetivos mais gerais, os norte-americanos pretendem:5 • • obter reduções tarifárias para seus produtos de exportação; recusar a redução de tarifas, quotas e outras barreiras para produtos sensíveis, como açúcar, tabaco e suco de laranja; • lutar contra barreiras aos produtos obtidos via biotecnologia; • ter a Ásia como o espaço geográfico, na OMC, de maior interesse em relação a abertura de novos mercados. • conceder o mínimo de benefícios multilaterais em relação ao espaço da Alca, preferindo negociar esses benefícios apenas no interior do bloco. Com relação às negociações oficiais, os norte-americanos já apresentaram propostas de caráter global, sobre ajuda interna e acesso a mercados. A seguir, o resumo das principais propostas. 4 LAFER, Celso. Concentração para a Rodada do Milênio. Gazeta Mercantil, 1º jul., 1999. 5 Conclusões baseadas em estudo do SELA: “Objetivos de los Estados Unidos en las negociaciones sobre ”, Junho 1998. comercio agrícola en la OMC”, Proposta global • Avançar no processo de liberalização e redução de tarifas a partir do atual acordo, sem prejudicar a capacidade de atuação dos governos, desde que estes não distorçam • Diminuir as resistências à redução dos gastos com subsídios que distorcem o comércio. • Diminuir as resistências ao desenvolvimento pleno da biotecnologia. • Discursar na defesa dos países em desenvolvimento e menos adiantados, que são os maiores perdedores, segundo os norte-americanos, na guerra de subsídios. Temas específicos Acesso a mercados • Redução de barreiras aplicadas às exportações americanas. • Maior interesse em abrir mercados na Ásia, que é bastante fechada em termos de agricultura. Os asiáticos taxam suas importações em 5% a 50%, enquanto que a América Latina taxa em 5% a 20%, segundo o informe americano. • Os americanos não pretendem abrir muito mais o mercado latino-americano na OMC, preferindo fazer isso na Alca, na qual os benefícios da abertura seriam maiores para eles próprios. Subsídios à exportação • Os EUA dizem que gastaram, com pagamentos diretos e subsídios, US$ 5,4 bilhões, enquanto a UE gastou US$ 46,8 bilhões. Para os norte-americanos, essa situação não é aceitável, prometendo, caso não sejam alteradas essas práticas, combater fogo com fogo. O que eles não divulgaram no documento é quanto gastaram com subsídios aos créditos de exportação. • Propõe indenizar exportadores norte-americanos por vendas perdidas em conseqüência de barreiras artificiais, propondo, inclusive, a cobertura de risco às exportações. Segurança alimentar e barreiras ao comércio • Barreiras sanitárias e fitossanitárias - Preocupação com barreiras na América Latina e em outros países - Contraditoriamente, elas têm preocupação em reforçar “segurança” sanitária dentro dos EUA, propondo rótulos especiais para produtos importados. - Principais produtos americanos com barreiras às exportações em terceiros mercados: suínos, trigo, frutas e gado, batatas, cereais, alimentos processados e vinhos. AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES o comércio. 113 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Biotecnologia 114 • Permitir a continuidade dos avanços e combater as possíveis exigências de especificação em rotulagem vinculadas a produtos derivados da biotecnologia, especialmente os OGMs (organismos geneticamente modificados). • Preocupação com barreiras a esse tipo de tecnologia, na qual os norte-americanos são líderes. • Preocupação com regras de patenteamento e proteção à propriedade intelectual; • Preocupação com as possíveis perdas de mercado para os produtores norteamericanos que utilizam biotecnologias. • Contraditoriamente, o Congresso dos EUA ainda não aprovou a UPOV 91, que regulamenta patentes em nível mundial. • Os EUA também querem maior rigor nas disciplinas que regulamentam patentes em países em desenvolvimento. Tratamento especial e diferenciado • Os EUA não querem perder esse mecanismo que permite a concessão de privilégios a parceiros individuais, com os quais os americanos mantêm relações especiais, colocando, assim, esses países em situação de certa dependência. União Européia A UE conta com, aproximadamente, 800 mil estabelecimentos agropecuários, que geram uma produção de quase 200 milhões de toneladas, apenas dos principais produtos (leite, carnes e grãos). Além disso, a UE discute a agricultura como sendo uma atividade fundamental para o meio rural, mas não a única. O que os europeus consideram rural ocupa 80% do território e abriga 25% da população. Os problemas do meio rural, destacados na introdução de seu projeto para o rural, são o esvaziamento populacional, envelhecimento da população e a situação de fragilidade de seus ecossistemas. Na década de 80, antes do Acordo Agrícola, a UE gastava com políticas de apoio à agricultura algo em torno de US$ 35 bilhões. Em 2000, esses gastos chegaram a US$ 106 bilhões, de acordo com a OCDE. Segundo dados da OMC, a UE gastou US$ 116 bilhões em políticas de ajuda interna em 1996 (último dado disponível). Os setores mais protegidos da agricultura européia são os cereais, açúcar, gado e leite. Alguns países, como a França, concorrem diretamente com os americanos em vários produtos, como os cereais. A política agrícola européia é uma das principais responsáveis pela elevação da produção agrícola mundial. A produção do bloco cresceu, durante a década de 80 e parte da década de 90, bem acima do consumo, gerando excedentes que levaram políticas de produtos agrícolas. Outra questão importante que merece destaque e que terá grande influência nas posições sobre agricultura é a relação do bloco com o Leste Europeu, onde um grande número de países negocia a integração à UE. A maioria desses países tem na agricultura uma das atividades mais importantes e com grande fragilidade. Documentos da UE apontam sua preocupação em integrar esses países e a necessidade de estabelecer relações com outros países que não prejudiquem a agricultura desses países. É na UE que as organizações sociais (federações e sindicatos), ONGs, ambientalistas etc. conseguem influenciar mais o posicionamento oficial dos países e do bloco como um todo. São interesses distintos que aparecem nas negociações, como dos agricultores, ambientalistas e consumidores. Nesse continente, também se percebe maior articulação entre esses diferentes grupos de interesse e os negociadores oficiais. A UE apresentou propostas para quase todos os temas discutidos na OMC relacionados à agricultura. O bloco já apresentou uma proposta global para as negociações, para acesso a mercado, ajuda interna, concorrência das exportações e preocupações não-comerciais. Proposta global Os objetivos gerais da UE constam na proposta global apresentada na OMC e são resumidos a seguir: • reduzir ajuda interna e proteção à agricultura; • dispensar políticas de tratamento diferenciado aos países em desenvolvimento; • propõe renegociar o tema agricultura, desde que outros temas entrem nas negociações. A justificativa é que a UE só tem a oferecer nessa questão tendo pouco espaço para barganhas; • negociar propostas que tenham apoio social e que levem em conta o caráter multifuncional da agricultura, considerando os seguintes aspectos: proteção ao meio ambiente, viabilidade das comunidades rurais e qualidade dos alimentos; • as negociações agrícolas devem levar em consideração a transição que vem ocorrendo nas economias ex-socialistas. É claro o interesse em manter certo nível de estabilidade para proteger o Leste Europeu. Vários países dessa região estão em negociação para a entrada no bloco. Nesse sentido, a UE informa que seu posicionamento levará em conta essa situação e que a comunidade internacional deve entender que a entrada desses países no bloco vai favorecer a todos. AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES subsídios à exportação. A UE é o maior exportador e o maior importador mundial de 115 Temas específicos COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Acesso a mercados • Propõe que as atuais metodologias de redução de tarifas vigentes no Acordo Agrícola da OMC devam ser mantidas, sendo estabelecidas novas metas de redução. Ou seja, os europeus pretendem que as reduções tarifárias sejam feitas a partir da média geral das tarifas e da redução mínima de cada produtos ou linha de produtos. • Propõe que alguns novos regulamentos sejam estabelecidos com relação às quotas tarifárias.6 • A UE defende que sejam estabelecidos regulamentos que garantam maior proteção aos processos de certificação de origem e de valorização de processos produtivos que levam em consideração aspectos culturais e tradicionais. • O bloco também propõe que sejam estabelecidos novos critérios de qualidade, vinculados ao modo de produção, aos insumos utilizados e aos cuidados com o meio ambiente e com os animais. • Defende a continuidade da Cláusula Especial de Salvaguardas.7 116 Concorrência das exportações • A UE reconhece o problema e se propõe a discuti-lo. Contudo, reclama que, atualmente, só os subsídios à exportação são objeto de regulamentação, devendo-se incluir a regulamentação dos créditos à exportação, bastante utilizados pelos EUA. • Propõe, de forma superficial, revisar as políticas de ajuda alimentar, criticando a lógica de colocação de excedentes e os créditos para compra de alimentos vinculados à compra do país credor. Além disso, aponta que poderiam ser feitos acordos no sentido de priorizar políticas de ajuda alimentar em que os países em desenvolvimento fossem prioritariamente os fornecedores dos alimentos. • Propõe também maior disciplina à atuação das empresas de comercialização estatal. Ajuda interna Esse é um dos temas em que a UE mais sofre pressões. A UE anuncia que pretende abandonar a sustentação de preços, principalmente para produtos de exportação, e adotar mecanismos de ajuda direta vinculada à multifuncionalidade. A seguir, as principais propostas para essa questão: • defesa da manutenção das atuais caixas verde e azul, com algumas reformas; 6 As quotas são estabelecidas com o objetivo de garantir um acesso mínimo ao mercado receptor. A partir de uma determinada quota, as tarifas são elevadas. Esse tipo de política também é conhecido como contingenciamento tarifário. 7 Possibilidade que os países têm de estabelecer restrições à entrada de produtos importados sem prova de dano ao comércio interno. • sugestão para que se vinculem os gastos da caixa verde a metas sociais, ambientais, de renda e combate à pobreza; • defesa da manutenção da caixa amarela, por entender que é um instrumento que Questões não-comerciais A UE tem especial atenção nessa questão e declara que, se os demais membros querem apoio social aos acordos da OMC sobre agricultura, devem entender que a agricultura, além de produzir alimentos, deve ser entendida como produtora de bens públicos. Apresenta as seguintes propostas: • • reconhecer o papel multifuncional da agricultura; reconhecer a qualidade dos alimentos, chamando atenção para o fato de que a OMC deixa dúvidas em relação à preocupação com essa questão; • quer que a OMC dedique mais atenção à regulamentação de procedimentos que garantam maior quantidade de informação aos consumidores; • propõe que a OMC se preocupe também com o bem-estar dos animais, levantado a possibilidade de que seja permitido o pagamento aos agricultores de diferenciais para aqueles que cuidarem melhor dos animais. Países em desenvolvimento A UE se coloca como o principal comprador de produtos agrícolas de países em desenvolvimento e reconhece que o faz em grande medida por meio de acordos preferenciais. Nesse sentido, a UE propõe: • a manutenção de políticas diferenciadas para os países em desenvolvimento, incentivando outros países a fazerem o mesmo; • o apoio a políticas de desenvolvimento e de aumento da qualidade dos alimentos; • a oposição à concessão de créditos para compra de alimentos pelos pobres; • o estabelecimento de políticas de “ajuda” internacional em assistência técnica, mas não trata do desenvolvimento de pesquisas tecnológicas para a produção adaptada às condições dos países em desenvolvimento; • a defesa pela manutenção da Cláusula de Paz. AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES serve para a redução de riscos para as exportações. 117 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Japão 118 O Japão é um importante negociador internacional, principalmente pelo fato de ser o maior importador líquido de produtos agrícolas. Ou seja, os japoneses não se destacam no cenário internacional participando das exportações. Sua agricultura é voltada, principalmente, para o mercado interno, contando com grande apoio público e barreiras protecionistas. As importações são complementares ao consumo interno e chegaram a US$ 12 bilhões em 1999. Os japoneses também sofrem forte pressão das organizações sociais e de ONGs. Segundo o governo, estão sendo realizadas consultas junto a esses movimentos, especialmente entre os agricultores, consumidores e indústrias, que já levaram o país a apresentar uma proposta global para as negociações. Proposta global A proposta global japonesa trata de questões básicas e princípios, acesso a mercados, ajuda interna, normas para exportações, comércio de empresas estatais, países em desenvolvimento e preocupações com os consumidores e sociedade civil. O princípio fundamental da proposta japonesa é o da coexistência de diversos tipos de agricultura, o que deve, segundo a proposta, ser refletido nas negociações. Ou seja, para os japoneses, as negociações internacionais não podem deixar de levar em consideração os diferentes modelos e estágios da produção agrícola dos países membros da OMC. Os japoneses avaliam que o Acordo Agrícola resultante da Rodada Uruguai levou à superprodução nos países desenvolvidos e à escassez de alimentos entre os países em desenvolvimento, além de não conseguir resolver os problemas relacionados à instabilidade no mercado internacional. Para eles, o acordo também não dá conta de regular todos os aspectos de relevância para o tema, como a questão dos transgênicos, que, segundo os japoneses, não conta com normas de regulação satisfatórias. Princípios da proposta global • Adoção do conceito de multifuncionalidade como um dos princípios norteadores das negociações agrícolas. • Defende que os países têm o direito de constituir políticas de segurança alimentar. • Necessidade de corrigir as distorções causadas pelas políticas de exportação. • Defende a necessidade de atenção especial aos países em desenvolvimento. • Considera fundamental incorporar nas negociações as preocupações dos consumidores e da sociedade civil. Objetivos • As próximas rodadas de negociações não podem beneficiar exclusivamente um pequeno grupo de países exportadores competitivos em detrimento de outros interesses • Incorporar o conceito de multifuncionalidade e de sustentabilidade na agricultura. • Garantir um sistema que permita maior estabilidade na oferta agrícola. • Incorporar preocupações com a instabilidade climática, que poderá provocar grandes alterações na produção. Diante desses objetivos, a proposta global japonesa trabalha a idéia de que, para garantir essas diferentes funções da agricultura e regular melhor o mercado agrícola (maior estabilidade), é necessário que o Estado intervenha, não sendo o mercado capaz de responder a todos esses desafios. Grupo Africano Esse grupo é formado por 41 países, com grande heterogeneidade de interesses e situações, coexistindo países industrializados (como a África do Sul) e países exportadores agrícolas com outros pequenos países importadores, dependentes de políticas de ajuda alimentar. Para os países do Grupo Africano, a agricultura é um dos temas mais importantes. O setor emprega dois terços da força de trabalho, representa um terço do PIB da região e responde por 40% das exportações. Nesse sentido, o grupo constata que o crescimento econômico da região ainda continuará dependendo, em grande medida, da agricultura. A participação da região nas exportações e importações mundiais vem diminuindo desde a década de 80. A produção agrícola está relativamente estagnada há quase 20 anos. Segundo documento do grupo, esses são os principais problemas da agricultura na região: • baixa produtividade e falta de sinergia entre as políticas; • ciclos de baixo crescimento e pobreza, com falta de alimentos; • proteção nos países ricos; • concorrência nos mercados locais de produtos subsidiados; • falta de estímulo à produção local devido às importações subsidiadas ou às políticas de ajuda alimentar; • promoção da abertura econômica sem contrapartidas; • falta de recursos para investir no setor. AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES relevantes de um grande número de países. 119 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Proposta global 120 O Grupo Africano apresentou uma proposta global para as negociações, propondo um conjunto de princípios e objetivos, que, segundo o grupo, deveria nortear as negociações. Princípios • As negociações não devem ser balizadas apenas em aspectos comerciais. • Os países em desenvolvimento devem ter tratamento especial e diferenciado. • Aspectos como segurança alimentar e desenvolvimento sustentável devem ser garantidos nas negociações. • A agricultura tem um papel importante na redução da pobreza e o acordo deve refletir essa função. • O tema acesso a mercado é de fundamental importância para um mercado internacional mais equilibrado. • O acordo deve permitir a igualdade de oportunidades no mercado internacional. • Os países importadores líquidos de alimentos devem ter políticas de transição para um mercado mais justo e menos subsidiado. Objetivos • Redução de tarifas para produtos processados. • Créditos especiais para a região voltar a investir na agricultura. • Acesso preferencial dos países em desenvolvimento aos mercados dos países desenvolvidos. • Facilitação das exportações em pequena escala. • Proteção aos produtos de maior necessidade. • Revisão das políticas de salvaguarda especial. • Revisão das políticas de subsídios e créditos à exportação. • Redução dos gastos com políticas de apoio interno que distorcem o comércio e facilitação da adoção de políticas de apoio interno para os países em desenvolvimento. • Revisão da caixa verde. • Regulamentação das políticas de ajuda alimentar de forma que elas não prejudiquem a produção local. Índia A Índia é o segundo país mais populoso do mundo: 1 bilhão de pessoas. A produção de carnes, leite e grãos foi de 140 milhões de toneladas em 2000, segundo o USDA, mas número. Sua participação no mercado agrícola internacional não é expressiva, com importações de pouco mais de US$ 800 milhões e exportações de US$ 1,3 bilhão. Para os indianos, a década de 90 significou maior abertura externa, embora em ritmo muito inferior ao de outros países, como o Brasil e a Argentina. A Índia também conta com uma sociedade civil ativa, que desenvolve diferentes experiências organizativas e que participa dos espaços globais de articulação. Apesar disso, o Estado indiano declarou, em novembro de 1999, que ONGs e movimentos devem se relacionar internamente em seus países, não devendo ter espaço oficial nas negociações internacionais da OMC. A Índia declarou também que é contra a vinculação de metas sociais, ambientais e trabalhistas na OMC. Segundo a declaração do país, já existem espaços e instituições internacionais responsáveis por essas questões. Um dos temas de maior interesse da economia indiana nas negociações internacionais é questão dos têxteis, tema dos mais difíceis nas negociações. A Índia ainda é um país cuja maioria da população vive no meio rural, a maior parte dedicando-se à atividade agrícola, principalmente para própria subsistência. A Índia apresenta-se como uma grande economia rural e, por isso, vai participar das negociações agrícolas. Para os indianos, a agricultura é um modo de vida que deve ser respeitado e mantido. Além disso, a agricultura tem um papel fundamental na redução da pobreza. Nesse sentido, as grandes economias agrícolas devem ter flexibilidade para desenvolver suas políticas para a agricultura. O Acordo Agrícola, na visão dos indianos, não trouxe os benefícios esperados. O tratamento especial e diferenciado para os países em desenvolvimento não foi aplicado na prática. A metodologia das caixas, principalmente a verde, legitima as políticas dos países desenvolvidos, enquanto que a maioria dos países em desenvolvimento não as utiliza. Os indianos declararam que as negociações agrícolas não devem partir do princípio da reciprocidade, como querem alguns países e blocos. As negociações agrícolas devem ter como objetivo principal a redução dos desequilíbrios vigentes no comércio agrícola internacional. Com relação à multifuncionalidade, a Índia considera a questão importante, mas entende que ela não pode ser utilizada para criar novas formas de os países ricos continuarem praticando políticas de proteção. O Acordo Agrícola deve incorporar a concepção de que a agricultura é a questãochave no combate à pobreza mundial e a manutenção do emprego nos países em desenvolvimento, já que não existem outras alternativas de trabalho para essa população. Além disso, dizem os indianos, devem ser tomados cuidados especiais em relação ao preço dos alimentos, já que para boa parte da população dos países em desenvolvimento AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES existem vários outros produtos que não entram nessas contas e que elevam bastante esse 121 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR a comida tem grande peso no orçamento. Por fim, a agricultura tem um papel fundamental no desenvolvimento e na sustentabilidade das economias dos países em desenvolvimento. Outro tema importante que os indianos tratam é a questão da propriedade intelectual. Segundo a declaração indiana, o acordo sobre patentes e propriedade intelectual deu direitos excessivos aos donos de patentes e poucos direitos aos verdadeiros donos dos recursos biológicos e dos conhecimentos tradicionais. Na visão do governo indiano, poucos países desenvolvidos reconhecem essas questões, o que para eles é um mau sinal para as negociações futuras. Proposta global Objetivos e propostas iniciais da Índia nas negociações agrícolas: • eliminar subsídios à exportação e outras políticas que distorcem o comércio, praticadas pelos países desenvolvidos; • garantir flexibilidade para a implementação de políticas agrícolas e alimentares para as grandes economias rurais e países em desenvolvimento, principalmente em relação à proteção da produção nacional e a políticas de segurança alimentar 122 e emprego; • garantia da segurança alimentar deve ser objetivo fundamental nas negociações, principalmente para os países em desenvolvimento; • não aceitará acordos que pretendam regulamentar internacionalmente investimentos; • não aceitará vincular comércio agrícola ao tema meio ambiente na OMC; • redução de barreiras tarifárias e não-tarifárias nos países desenvolvidos; • qualquer redução tarifária nos países em desenvolvimento só deve ocorrer se políticas de subsídio à exportação e de apoio que distorcem o comércio forem realmente reduzidas; • revisão das tarifas consolidadas pelos países em desenvolvimento de produtos sensíveis e que foram estabelecidas em níveis baixos nas negociações anteriores; • revisão da caixa verde, incorporando novas políticas para países em desenvolvimento; • isentar dos cálculos da MGA os gastos com a recuperação da renda, combate à pobreza e desenvolvimento rural pelos países em desenvolvimento; • os países em desenvolvimento deveriam ser isentos de compromissos de acesso mínimo; • permitir mecanismos de proteção contra oscilações nos preços e grandes flutuações nas importações pelos países em desenvolvimento; • redução dos níveis tarifários em 50%, com base nas tarifas de 2001 pelos países desenvolvidos, para ser implementada ainda até final de 2001; • redução da escalada tarifária, mecanismo pelo qual as tarifas são elevadas a níveis proibitivos depois que excedem determinadas quotas; • abolição da Cláusula de Paz para os países desenvolvidos e prazo de pelo menos dez • redução de 50% nos gastos com políticas de apoio interno ainda em 2001 por parte dos países desenvolvidos, como um sinal de boa vontade nas negociações; • revisão da metodologia de cálculo da MGA que leve em consideração uma cesta de moedas e a inflação dos países membros; • abolição de todos os subsídios à exportação num prazo de dois anos depois de estabelecido o acordo. Os países desenvolvidos deveriam reduzir em 50% seus subsídios à exportação ainda em 2001 como um sinal de boa vontade nas negociações; • as políticas de crédito e seguros à exportação deveriam ser disciplinadas da mesma forma que os subsídios à exportação. Grupo Cairns O Grupo Cairns foi fundado em 1986 por conta das negociações da Rodada Uruguai do GATT e é formado atualmente por 18 países: Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Uruguai, Fiji, Indonésia, Malásia, Filipinas, Tailândia e Hungria; os mais recentes são Guatemala, Costa Rica, Bolívia e Paraguai. É um grupo formado quase que exclusivamente para defender interesses relacionados à exportação agrícola em contraposição aos grupos liderados pela UE, EUA e Japão. No grupo, coexistem países desenvolvidos e em desenvolvimento, assim como países com sistemas agrícolas “modernos” e menos adiantados. Os interesses nem sempre são os mesmos, sendo mais difícil a apresentação de propostas mais abrangentes. O Grupo Cairns respondeu por 22% das exportações agrícolas totais em 1999. Essa participação é praticamente a mesma de 1990, quando participou com 21%. Pelo lado das importações, o grupo representava apenas 4% em 1990, passando a 6% em 1999. Os principais líderes são o Canadá, Brasil e Austrália, que, juntos, representam mais de 50% do total das exportações do grupo. O Grupo Cairns se apresenta como um dos mais interessados na liberalização do comércio agrícola e, nesse sentido, é um dos mais frustrados com os desdobramentos do atual acordo. O grupo é um dos principais espaços de atuação do governo brasileiro nas negociações agrícolas. É principalmente por esse grupo que o país defende suas posições nas negociações. Uma das principais divergências do grupo com os países desenvolvidos, especialmente os representados pela UE, é a questão da multifuncionalidade, tida pelo grupo como mais uma forma de manutenção dos elevados gastos com agricultura. AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES anos para os países em desenvolvimento continuarem utilizando esse instrumento; 123 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR As diferenças dentro do grupo não permitiram a apresentação de uma proposta global. Recentemente, o Canadá apresentou isoladamente sua proposta de acesso a mercado, não compartilhando com a íntegra da proposta do Grupo Cairns. Este, por sua vez, apresentou, até maio de 2001, propostas conjuntas sobre acesso a mercado (sem o Canadá), ajuda interna e concorrência das exportações. Acesso a mercados Para o Grupo Cairns, existem grandes e injustificadas diferenças de tratamento entre produtos agrícolas e os demais produtos objeto de negociações na OMC, especialmente os industriais. As tarifas de produtos agrícolas, segundo o grupo, chegam a ser em média oito vezes superior aos produtos industriais. Algumas tarifas de produtos agrícolas chegam à casa dos 300%. Ainda segundo o grupo, essas distorções prejudicam os países que adotaram políticas de liberalização, favorecendo agricultores ineficientes em detrimento principalmente dos países em desenvolvimento mais competitivos. Objetivos em acesso a mercados 124 • Aumentos reais e substanciais de acesso para todos os produtos. • Redução dos subsídios que distorcem o comércio. Como sinal de boa vontade nas negociações, o Grupo Cairns propõe que sejam reduzidos em 50%, ainda em 2001, os gastos com subsídios que distorcem o comércio. • As reduções tarifárias devem ser maiores para as mais elevadas tarifas e para os picos tarifários. • Eliminação da progressividade tarifária.8 • Estabelecimento de níveis máximos para todas as tarifas. • Transparência e simplicidade na definição das tarifas. • Fim dos preços mínimos de importação. • Aumento no volume de todos os contingentes tarifários. • Fim da salvaguarda especial para os países desenvolvidos. Tratamento especial e diferenciado Com relação a essa questão, o Grupo Cairns propõe: • regras mais claras e transparentes; • mais oportunidades dadas aos países em desenvolvimento; 8 A maioria dos países desenvolvidos adota políticas tarifárias através das quais as porcentagens são maiores conforme o grau de processamento do produto. • liberação total dos produtos tropicais; • favorecimento a produtos que venham a substituir produtos ilícitos em países me- Ajuda interna Para o Grupo Cairns, as metas do Acordo Agrícola não foram cumpridas satisfatoriamente. Nos últimos anos, os gastos com ajuda interna subiram, atingindo patamares históricos. Segundo o informe do grupo, somente os três maiores (EUA, Japão e UE) gastaram mais de US$ 110 bilhões com as políticas da caixa amarela. A UE sozinha gastou mais de US$ 20 bilhões com políticas da caixa azul. Assim, a ajuda à agricultura continua sendo muito superior a outros setores entre os países desenvolvidos. Dessa forma, os benefícios gerados pela intensificação do comércio internacional favoreceram apenas um pequeno grupo de países. Algumas propostas do Grupo Cairns • Construção de um novo método para o estabelecimento de compromissos de redução da ajuda interna, inclusive da MGA e da caixa azul, visando reduzir drasticamente as disparidades. • Redução substancial dos gastos com ajuda interna ainda no primeiro ano de aplicação, por exemplo, de 50% dos gastos com políticas que distorcem o comércio. • Devem ser garantidas reduções de gastos com todos os produtos. • Rever a caixa verde de forma que somente as políticas que não distorcem o comércio sejam permitidas. Concorrência das exportações O tema concorrência das exportações é o que mais unifica o Grupo Cairns. Para o grupo, o subsídio à exportação é o mecanismo que mais distorce o comércio e o que mais prejudica todos os países, principalmente os países em desenvolvimento. Esse tipo de política reduz a entrada de divisas por conta da redução nos preços e causam danos à produção interna dos países importadores. Esses subsídios prejudicam, na visão do grupo, a produção ecologicamente sustentável adotada por boa parte dos agricultores dos países em desenvolvimento, que são obrigados a competir com os erários dos países ricos, provocando mais pobreza no meio rural, aumento do êxodo, com conseqüente agravamento da situação dos grandes aglomerados urbanos desses países. O grupo lembra que o GATT já proibiu, há mais de 40 anos, a utilização de subsídios à exportação para produtos industrializados. Dos 137 membros da OMC, apenas 25 utilizam esse tipo de política. AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES nos desenvolvidos. 125 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Esse tipo de mecanismo é utilizado principalmente pela UE, na forma de pagamentos, 126 pelo Tesouro, da diferença entre o preço do mercado internacional em relação aos preços no mercado interno ou aos preços do governo, e pelos EUA, na forma de créditos e seguros à exportação. Propostas do Grupo Cairns • Eliminação e proibição de subsídios à exportação. • Redução inicial, por exemplo, de 50% dos gastos com subsídios já no primeiro ano de implementação do novo acordo, seguido de um calendário rigoroso de eliminação total desse tipo de política. • Redefinição do conceito de subsídio à exportação, incluindo todos os mecanismos, nem sempre evidentes, de subsídios, como os créditos à exportação e os seguros. Mercosul O Mercosul pode ser caracterizado como uma grande economia agrícola. Quase um quarto da população ocupada trabalha diretamente na agricultura. São quase 14 milhões de pessoas apenas no Brasil.9 A participação do PIB agropecuário na região é de mais de 10%, sem contar a indústria agroalimentar e de insumos. Para os países da região, as exportações agrícolas formam a mais importante categoria de produtos, representando mais de 84% das exportações do Paraguai, 59% do Uruguai, 51% da Argentina, 38% do Chile e 33% do Brasil. O Mercosul participou com 6,5% das exportações mundiais em 1999. Em 1990, esse número era de 5%, mas já chegou a ser 7% em 1997. Tudo indica que o desempenho do bloco foi pior em 2000, estabelecendo um ciclo de redução da participação da região no comércio mundial, que já dura três anos. Apesar disso, o bloco figura entre os três maiores exportadores mundiais, perdendo apenas para a EU e os EUA. Pelo lado das importações, a participação do bloco aumentou de forma mais expressiva, embora a base de importações do bloco fosse pequena no início da década passada. Em 1990, a participação nas importações era de aproximadamente 0,8%; passou a quase 1,5%, em 1997; e caiu para 1,1%, em 1999. Em 2000, as importações devem ter perdido mais espaço. 9 Segundo dados do IBGE, estavam empregadas diretamente na agricultura 13,8 milhões de pessoas em 1999, para uma população economicamente ativa de aproximadamente 17,3 milhões. A indústria de transformação emprega metade desse total, 7,0 milhões de pessoas segundo a mesma fonte. Fonte: OMC. Elaboração: Deser O principal mercado de destino das exportações agrícolas do Mercosul é a UE, representando mais de 40% das exportações do bloco. Em segundo lugar, as exportações para dentro do próprio bloco são as mais importantes, representando mais de 35% das exportações totais. Esse desempenho se deve principalmente às exportações dos parceiros para o Brasil. Os EUA vêm em terceiro lugar, representando aproximadamente 10% das exportações do bloco. A relação comercial com os países da Ásia ainda não tem grande importância para as exportações agrícolas do Mercosul. As importações realizadas pelos países do Mercosul têm no próprio bloco sua principal origem, o que indica complementaridades internas importantes. A UE é a segunda maior fornecedora de alimentos da região. Interesses defendidos nas negociações O Mercosul tem participado das negociações agrícolas da OMC defendendo, principalmente, o aumento do espaço para suas exportações. O bloco vem preparando-se para a abertura do setor desde o início da década de 90, reduzindo tarifas, abrindo a economia agrícola, cortando gastos com políticas de apoio à agricultura. As políticas adotadas no Mercosul relacionadas à agricultura derivaram principalmente do Acordo Blair House,10 primeira versão do Acordo Agrícola da OMC. Havia uma indicação do estabelecimento de uma política agrícola comum no bloco, o que acabou não ocorrendo. Prevaleceu a orientação do GATT, que preconizava políticas agrícolas orientadas ao mercado. 10 Acordo estabelecido entre a UE e os EUA em novembro de 1992, que serviu de base para o Acordo Agrícola da OMC. Criou, entre outras coisas, a Cláusula de Paz. AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES Mercosul: participação nas exportações mundiais (%) 127 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR Esse processo ocorreu sem a reciprocidade esperada pelos países. A participação nos 128 principais mercados consumidores de produtos agrícolas praticamente não se alterou. Nesse sentido, a postura do bloco nas negociações tem sido a de tentar forçar a abertura de mercado nos países desenvolvidos, especialmente UE, EUA e Japão. O bloco já se manifestou nessa direção em várias oportunidades, criticando abertamente a política agrícola de europeus, americanos e japoneses. A postura do Mercosul, algumas vezes, coloca como precondição para a negociação de outros temas a abertura do mercado agrícola dessas regiões. O Mercosul articula-se apresentando propostas em conjunto com outros países sul-americanos, especialmente Chile e Bolívia. Na OMC, contudo, o bloco articula-se principalmente com o Grupo Cairns, liderando-o juntamente com Austrália e Canadá. Por conta disso, as principais propostas do grupo já foram apresentadas no Grupo Cairns. Além dessas, o Mercosul apresentou de forma mais consistente apenas uma proposta, a de créditos à exportação. A proposta sobre empresas estatais é ainda bastante preliminar, e o texto sobre segurança ou dependência alimentar traz uma análise das conseqüências das políticas de subsídio à exportação para os países em desenvolvimento e para a segurança alimentar. Créditos à exportação e empresas estatais Essa questão relaciona-se diretamente com um dos principais instrumentos de promoção das exportações agrícolas utilizados pelos EUA. Havia um compromisso decorrente do Acordo Agrícola para que fossem feitos esforços para elaborar disciplinas sobre créditos à exportação ou programas de seguro. Não existem disciplinas sobre essa questão, e, na visão do Mercosul, esse deve ser tema prioritário nas negociações da OMC. Segundo o bloco, esse tipo de mecanismo não pode ser utilizado como forma de escapar dos compromissos gerais de redução de subsídios à exportação. O objetivo principal do bloco nessa questão é que os créditos e seguros para exportação devem estar sujeitos a uma disciplina multilateral específica, para, com isso, por fim a esse tipo de subsídios. Nesse processo, os interesses dos países em desenvolvimento exportadores devem ser levados em consideração. Com relação às empresas estatais que comercializam produtos agrícolas, a queixa do Mercosul diz respeito à quebra do monopólio e à não-interferência dessas empresas nas condições de mercado. Brasil O Brasil é a principal economia agrícola do Mercosul, a segunda do Grupo Cairns, perdendo apenas para o Canadá, e uma das maiores do mundo. As exportações agrícolas do Brasil e norte-americano. A participação do mercado asiático também é expressiva, porém ainda muito baixa, sendo esse um dos principais mercados do planeta. A atuação brasileira individualmente é bastante restrita, sendo a construção de propostas conjuntas com o Mercosul e com o Grupo Cairns a estratégia principal nas negociações da OMC. Nesse sentido, a expressão das posições do governo brasileiro pode ser observada na postura desses dois grupos. Em geral, o governo brasileiro denuncia as resistências que tem encontrado para tratar de temas do seu interesse e discorda dos rumos das atuais negociações. O Brasil declarou, inclusive, que aceita discutir outros assuntos que não sejam relacionados à agricultura, desde que as negociações avancem em agricultura. Para o governo brasileiro, a agricultura continua sendo a grande anomalia do comércio internacional. O Brasil negocia o tema agricultura simultaneamente no Mercosul, na Alca, com a UE e na OMC. Em todos os espaços, o discurso principal bate em duas questões: acesso a mercados e subsídios à exportação. O Brasil não se apresenta como um país resistente a determinados tipos de tecnologia. A posição brasileira dá claros sinais de que o país não pretende desenvolver tecnologias próprias e defendê-las contra a importação de pacotes tecnológicos, sobretudo norteamericanos, como os transgênicos. O Brasil não discute também a questão da qualidade e dos direitos do consumidor. Para o governo brasileiro, esse tema está diretamente relacionado a políticas protecionistas dos países desenvolvidos. Nesse sentido, fica clara a ausência de estratégias para o comércio de produtos diferenciados, cada vez mais exigidos pelos principais países consumidores. Em relação ao tema da multifuncionalidade na agricultura, por diversas ocasiões, representantes governamentais declararam que esse tema, se colocado nas negociações da OMC, serviria apenas para atender aos interesses protecionistas de europeus e japoneses. Essa posição também é bastante incoerente com o sistema produtivo da agricultura brasileira, que ainda é representativo de uma parcela significativa da população e tem estreita relação com a ocupação territorial do país e com as condições ambientais. Raramente, a posição brasileira apresenta-se na defesa de sua grande economia agrícola, do ponto de vista do emprego, da manutenção da população no meio rural, do desenvolvimento sustentável e da segurança alimentar. A visão predominante dos negociadores é a defesa do agronegócio de exportação, baseado nas cadeias tradicionais já estruturadas no país. Até mesmo essa visão do agronegócio é limitada, não observando AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES estão perto dos US$ 15 bilhões e dirigem-se, principalmente, para os mercados europeu 129 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR importantes oportunidades para a produção brasileira livre de transgênicos, ecológica ou 130 relacionada ao que se chama comércio justo.11 Os grupos de negociação brasileiros também têm dificuldades de incorporar reivindicações e propostas das organizações sociais. Poucas consultas, debates e seminários promovidos pelo governo são realizados, ao contrário do que ocorre com os segmentos empresariais mais interessados nas negociações, como os ligados à cadeia de carnes, soja, laranja, café etc. Conclusões Um primeiro aspecto que precisa ser ressaltado é que as negociações sobre agricultura não estão desligadas das demais negociações, dentro da própria OMC ou em outros espaços de negociação. Um exemplo disso é a postura norte-americana nas negociações da OMC sobre agricultura. Os norteamericanos não pretendem discutir certos temas na OMC com o objetivo de discuti-los apenas dentro da Alca, na qual os benefícios pretendidos não seriam estendidos aos seus concorrentes europeus. Os norte-americanos, por intermédio do FMI, também pressionam, impondo condições relacionadas ao comércio quando trata de questões financeiras. A posição da UE também reforça essa tese. O bloco já avisou que não aceita discutir apenas agricultura, exigindo que outros temas sejam incorporados nas negociações da OMC, com interesses evidentes de utilizar a agricultura como moeda de troca em concessões possíveis em outras áreas. Nesse sentido, imaginar que algumas concessões em agricultura significam vitória para os países em desenvolvimento, sem levar em consideração as conseqüências de acordos em outras áreas, é um equívoco. O governo brasileiro dá sinais de que não resistirá à incorporação de novos temas nas negociações, como, inclusive, já declarou oficialmente, desde que ocorram avanços em agricultura. Um segundo aspecto sobre as negociações agrícolas é que não estão em jogo apenas questões relacionadas ao comércio de produtos agrícolas. Há uma disputa também em relação ao mercado de tecnologias. Esse é o tema mais importante para os norte-americanos e para os europeus. É evidente o interesse de tentar impor determinados modelos tecnológicos com o objetivo de promover a padronização da produção e colocar a maior parte possível do planeta dependente de um único modelo tecnológico. O mercado tecnológico e biotecnológico movimenta bilhões de dólares e é 11 O chamado comércio justo é crescente em todo o mundo e demandado principalmente pelos países desenvolvidos, nos quais os consumidores querem comprar produtos produzidos social e ambientalmente dentro de certos critérios. controlado, hoje, principalmente por empresas norte-americanas, que pressionam o governo dos EUA e dos demais países a defenderem seus interesses. A luta contra os transgênicos não é uma questão apenas relacionada também como uma disputa pela manutenção da diversidade de sistemas produtivos, pela retenção da renda gerada com tecnologia dentro do próprio país e de autonomia tecnológica. Nesse sentido, os temas tratados pelo comitê de agricultura da OMC não respondem a essas questões, sendo tratadas em outros comitês, como o de propriedade intelectual e de investimentos. As negociações agrícolas também devem levar em conta o futuro do setor agroindustrial. As grandes empresas agroalimentares atuam com bastante empenho na defesa de seus interesses, muitas vezes em conjunto com outros setores, como o tecnológico. O desenho do setor agroindustrial de cada país também está em jogo nas negociações. O Brasil, por exemplo, abriu o setor agroalimentar ao capital estrangeiro, durante a década de 90, num momento de extrema dificuldade para as empresas e cooperativas nacionais, levando a um processo bastante acentuado de desnacionalização do setor, que, hoje, afeta milhões de agricultores, interfere nos padrões de consumo da população e na balança de pagamentos do país. Por fim, vale chamar a atenção para a necessidade das organizações sociais aumentarem sua participação nesse processo. A década de 90 foi marcada por acordos em que a sociedade não teve oportunidade de opinar e nem de ser prevenida dos possíveis impactos desses acordos. A participação da sociedade, por intermédio de suas diferentes organizações, é fundamental para que as negociações não agravem a situação de dificuldades das populações menos protegidas. Atualmente, há um intenso processo de articulação entre as organizações sociais dos mais diferentes segmentos sobre os processos de negociação internacional. No caso da agricultura, é interessante observar a aproximação de três setores organizados fundamentais: os agricultores, os consumidores e os ambientalistas. Estreitar relações entre esses segmentos é fundamental para que interesses diversos, mas importantes, possam articular-se na defesa de um novo projeto de desenvolvimento para o país e para a humanidade. AGRICULTURA NA OMC – ESTÁGIO ATUAL DAS NEGOCIAÇÕES aos direitos do consumidor ou a questões ambientais. Deve ser entendida 131 COMÉRCIO INTERNACIONAL, SEGURANÇA ALIMENTAR E AGRICULTURA FAMILIAR REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BIANCHINI, Valter; CAMPOS, Arnoldo de. 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