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Como uma verdadeira praga corporativa, o chefe idiota está
espalhado por todo o mundo. Aprenda a conviver com este mal
A
experiência de ser comandado por um chefe idiota
talvez seja uma das sensações
mais frustrantes que um profissional pode vir a experimentar.
Pior ainda, há sempre a idéia de
que essa seja uma situação inevitável, irreversível. “Melhor trabalhar para um babaca, do que ficar
desempregado”, pensam muitos. E
esse é o reconhecimento da vitória
da idiotice do seu chefe. As conseqüências lógicas e naturais desse
processo não poderiam ser outras:
queda da produtividade, da motivação, da auto-estima, do senso
de traba-lho em equipe; aumento
do nível de stress, do absenteísmo,
do número de funcionários doentes. Conclusão: o chefe idiota é
uma praga que pode destruir você
e dizimar organizações.
Mas tudo depende do ponto de
vista. Observando por um outro
prisma, com inteligência, pers-
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picácia e bom humor, é completamente possível analisar as lideranças corporativas atuais sem
adotar o tom catastrófico do parágrafo anterior. É exatamente isso
o que o americano John Hoover
propõe no livro “Como trabalhar
para um idiota” (ed. Futura) e na
entrevista exclusiva concedida à
revista profissional&negócios que
você encontra nas próximas páginas. “Se você um dia pensou que
as únicas maneiras de sobreviver
a um chefe idiota seriam medicarse, demitir-se ou aumentar a dose
do seu medicamento e despejá-lo
no café de seu chefe, espero trazer
esperança para seu espírito”, diz
ele na introdução do livro.
Atualmente, é absolutamente
espantosa a quantidade de cursos,
palestras, publicações e seminários
voltado para o tema “liderança”,
apresentados a todo o momento.
São milhares de profissionais tendo
contato com dezenas de correntes diferentes, ou seja, variadas
maneiras de se encarar a função
gerencial. Em decorrência disso,
é indubitável que a consciência
das organizações com relação à
importância da qualidade de suas
lideranças tem aumentado. Tanto é
que, segundo Betânia Tanure, professora da Fundação Dom Cabral,
no que diz respeito ao conhecimento do modelo de negócios e das
decisões empresarias, os executivos brasileiros não deixam nada a
desejar aos líderes de padrão internacional. “No entanto, quanto ao
comportamento e à forma de lidar
com as outras pessoas, há que se
considerar a influência da própria
cultura brasileira”, ela explica.
“Aqui, existem três eixos fundamentais para uma análise mais apropriada: o quanto o brasileiro é
flexível, relacional e como ele lida
com o poder.”
Nos dois primeiros aspectos,
Tanure enxerga características virtuosas. Para ela, o executivo brasileiro
tende a carregar consigo uma facilidade considerável na hora de se
adaptar a novas situações, sendo
assim bastante flexível. Quanto a
sua maneira de se relacionar com o
grupo, ela ressalta: “Em uma escala
de zero a cem, sendo zero extremamente coletivista, e cem extremamente individualista, o brasileiro
recebe uma pontuação de 31, o
que quer dizer que se trata de um
povo que valoriza suas relações
interpessoais. Isso é bom.” O ponto
fraco desse traço reside na falta de
discernimento na hora de separar
as atividades profissionais das pessoais. “Essa confusão, muitas vezes
dificulta feedbacks mais claros”,
afirma. Entretanto, é no terceiro
eixo descrito por Tanure que mora o
principal problema das lideranças
nacionais: como lidar com o poder.
dar, só falaram dos resultados que
precisam ser alcançados. Ok, ele
simplesmente sai massacrando
gente”, explica Cristian Parada,
executivo de RH da Wengamen
Learning & Development. “Não
é que eles nasceram ruins. Mas o
total despreparo para o cargo faz
com que eles se tornem idiotas a
partir do momento em que passam
a ser chefes.”
Essa linha de raciocínio conduz
à conclusão óbvia de que a empre-
Como se forma um idiota
Para diversos especialistas, é na
hora de assumir o cargo de liderança que a pessoa designada se
torna um idiota. Quando o poder
chega às suas mãos, o chefe simplesmente não sabe o que fazer.
Pode parecer piegas ou démodé,
mas a verdade é que o poder transforma as pessoas (ou revela quem,
de fato, elas sempre foram, como
salientam alguns).
Sem treinamento algum, o novo
chefe passa a imitar mode-los de
líderes que fizeram parte de sua
trajetória. O problema é que, em
geral, esses chefes anteriores também eram ruins. “Normalmente,
acontece da seguinte forma: um
profissional é promovido porque
ele era tecnicamente bom. Então,
ele passa a ser um gestor, embora não entenda nada sobre isso.
Ninguém se deu ao trabalho de
explicar como é que se deve coman-
“Pode-se olhar a cara dos funcionários. Eles estão contentes?”,
Cristian Parada, executivo de
RH da Wengamen Learning &
Development.
sa tem uma considerável parcela de
culpa pelas endiabradas idiotices
com as quais quase todo mundo
já se deparou, se depara ou ainda
vai se deparar. Sim, porque se você
acha que ter um chefe idiota é algo
que só acontece com os outros,
não se anime, porque mais cedo
ou mais tarde, você vai ter um. É
questão de tempo.
A partir do momento em que
um profissional sem treinamento
é colocado em um cargo de lide-
rança, não se sabe o que pode
acontecer. Como ele passa a agir
por intuição, sorte ou mesmo imitando chefes antecessores, há uma
grande gama de tipos de líderes
que eles podem se tornar. Idiota é
apenas uma das muitas classificações apresentadas no livro de John
Hoover. Vocês podem não acreditar, mas há até o tópico “bons chefes”. Veja a lista abaixo e analise
em qual categoria o seu chefe se
encaixa. Mas tome cuidado! Não
se espante se ele apresentar características suficientes para se encaixar
em várias categorias.
•Chefes maquiavélicos
Características: espertos, inescrupulosos, implacáveis.
Solução: essa categoria de superior não admite que ninguém ouse
entrar em seu caminho. Se isso
acontecer, melhor estar preparado
para o troco.
•Chefes masoquistas
Características: autocríticos,
depressivos, contagiantes.
Solução: este faz questão de não
terminar os trabalhos e prefere
liderar o departamento rumo ao
fracasso. Seu chefe age assim?
Então, de acordo com o livro, desligue-se o quanto antes.
•Chefes sádicos
Características: extremamente
críticos, perseguidores, cruéis.
Solução: não tente enfrentá-lo, ele
o combaterá; não tente mudar de
departamento, ele o perseguirá;
não demonstre prazer no trabalho,
ele irá incumbi-lo de cada vez mais
tarefas. Talvez o mais temível de
todos os chefes, o sádico é aquela
pessoa que, por ter sofrido muito
anteriormente, passa a ter prazer em
proporcionar o sofrimento alheio.
Por isso, uma das técnicas para lidar
com esse tipo é demonstrar descontentamento com a carreira.
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O
Ele conseguiu
se libertar
estrondoso sucesso do livro “Como trabalhar para
um idiota”, de John Hoover, não se deve apenas a
fácil identificação dos tipos de chefes ruins por parte do
público leitor. Claro que a experiência de se trabalhar
para chefes idiotas é tão universal que é bastante raro
não perceber algum tipo de reação quando alguém se
defronta com o título do livro, estampado em letras garrafais. Mas há outro fato que colabora fundamentalmente para o traço instigante da obra: ela é um tanto
autobiográfica.
Para se ter uma idéia, o primeiro capítulo do livro
chama-se “Confissões de um idiota em recuperação:
eu mesmo”. Nele, Hoover conta que jamais havia se
dado conta de como era realmente trabalhar para um
idiota até começar a atuar como autônomo, ou seja,
para ele mesmo. Depois de um determinado período,
ele percebeu como era um mau chefe e começou a
“deter a idiotice”, como gosta de salientar. Em entrevista
exclusiva à revista profissional&negócios, John Hoover
dá dicas para que os líderes consigam reparar seus defeitos, os subordinados consigam driblar as idiotices dos
chefes e o RH encontre seu caminho em meio a toda essa
confusão.
p&n – “Como trabalhar para um idiota” é um tremendo sucesso nos Estados Unidos, na Europa e na
América Latina, especialmente no Brasil. Como você
explica isso? O chefe idiota é uma praga de proporções mundiais?
John Hoover – O i-chefe (como chama o Chefe Idiota)
é um fenômeno mundial, uma catástrofe, uma epidemia
ameaçadora! É verdadeiramente um problema universal. Isto quer dizer que, por mais profundo que seja o
problema, ele não está enraizado em determinada cultura e sim na humanidade como um todo. Antes fronteiras nacionais pudessem conter essa doença! Quando
a gente tem a expectativa de que autoridades presentes
no nosso cotidiano irão se comportar de maneira sensata e, na prática eles seguem por caminhos escusos,
acabamos chamando-os de idiotas. A verdade é: nós
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é que somos idiotas de
sustentar essa expectativa. Acho que é por isso
que no livro refiro a mim
mesmo como um idiota
em recuperação.
p&n – Um líder se torna
um idiota quando assume um cargo gerencial ou
essas características são inatas?
Hoover – Idiotas simplesmente não sabem das coisas.
Eles não têm consciência alguma de como suas idéias,
palavras e ações podem afetar outras pessoas. E você
não consegue aprender coisa alguma dessa forma, sem
consciência. As pessoas não nascem espertas e ficam
bobas depois. Uma vez que você aprende algo, sempre
carregará aquilo com você. O caminho mais curto para
se tornar um i-chefe, é se tornar chefe antes de aprender
como suas idéias, palavras e ações podem influenciar
outras pessoas. Uma vez que você se dá conta disso, a
idiotice pára e até regride. Diz-se que líderes são feitos,
não nascem. Idiotas nascem assim, não se revelam depois. Idiotas só se tornam chefes porque as pessoas que
os promovem acham que eles sabem mais do que, de
fato, sabem. A verdade vem à tona mais tarde.
p&n – Muitos líderes têm medo de se tornar i-chefes, mas não sabem se são idiotas ou não. Como
eles podem identificar e evitar esse processo?
Hoover – Para ser sincero, a única maneira que eu
conheço, e que com certeza faz com que você evite ser
um chefe idiota, é se comprometer totalmente com seus
colaboradores. Constantemente conversar com eles e
sempre perguntar as suas opiniões sobre cada passo
dado. Então, é necessário respeitar essas visões e dar
chance a elas. Não restam dúvidas de que o RH da
empresa pode sempre ensinar os chefes a se comunicar
melhor com suas equipes e extrair várias lições deles.
Esse suporte e treinamento são muito importantes também. Comunicação é o remédio para a idiotice.
p&n – É possível que um chefe idiota faça de sua
equipe de trabalho um time de alta performance
e, conseqüentemente, obtenha bons resultados?
Hoover – Um chefe idiota pode ir bem em um curto
espaço de tempo por um erro ou por alguma coincidência. Mas o que é inegável é que esse mesmo
chefe idiota não vai conseguir construir e manter
uma equipe de alta performance por muito tempo.
Para fazer isto, ele necessita se ligar, se informar e
claro, deixar de ser um idiota. Mas como eu consigo
fazer isso? O primeiro passo é objetivo ao extremo:
você tem que confessar que é um
idiota. As pessoas adoram honestidade. Quando os empregados vêem
um chefe confessando seus erros,
admitindo que ele não tem todas as
respostas para todas as perguntas e
que, às vezes, age como um idiota, eles instantaneamente começam
a trabalhar mais arduamente e se
tornam mais leais. Muitos grandes
líderes nos Estados Unidos compraram cópias de “Como trabalhar para
um idiota” e as deram para seus empregados como uma forma simples
e bem-humorada de confessar sua
idiotice. Os colaboradores, sem dúvida, amaram.
p&n – Como o RH pode identificar quão bons ou ruins
são os lideranças na sua empresa?
Hoover – O pessoal de RH pode olhar e procurar por
quem tem uma opinião saudável e equilibrada de si
mesmo e quem demonstra ter um senso de humor apurado. Estes certamente serão os melhores líderes entre muitos. Humor pode não ser um bom indicador de
competência individual. Entretanto, as competências
necessárias para um líder comandar sua equipe com
mestria começam com humildade e um rico senso de
humor.
p&n – Para uma empresa, quais
são as principais conseqüências
decorrentes do gerenciamento
de chefes idiotas? Existe alguma
vantagem em se trabalhar para
eles?
Hoover – É impressionante, mas chefes idiotas conseguem desperdiçar
quantidades astronômicas de tempo
e de dinheiro. Isso só na fase de
planejamento! Pior ainda, eles são
capazes de perseguir e demitir bons
funcionários, causando uma incrível
perda na qualidade do talento do
material humano da empresa. Muitas vezes, chega a ser revoltante, é
só perguntar para alguém que já teve
John Hoover, autor do livro “Como trabalhar de conviver com chefes assim, caspara um idiota”
tradores. Se você trabalha para um
p&n – Talvez por causa do título do
idiota, você pode moldar seu próprio
livro, muitas pessoas acham que a
trabalho até um certo grau, porque ele (ou ela) não vai
publicação brinca com o tema “liderança”, sem persaber, de fato, o que você está fazendo. Geralmente,
ceber quão profundamente o assunto é abordado.
chefes idiotas são técnicos demais. Se você seguir os
O que você acha disso? Você acha que falar de um
conselhos apresentados em “Como trabalhar para um
problema como esse de uma forma bem-humorada
idiota”, você pode treinar seu i-chefe para gerenciar seu
ajuda os interlocutores a captarem melhor a mendepartamento da maneira que você deseja.
sagem contida na obra?
Hoover – Com certeza. Um toque mais sensível, um
p&n – O que é possível se esperar para o futuro? Há
olhar menos sério em um tema tão fundamental para o
algum livro engatilhado sobre o que líderes devem
dia-a-dia das organizações faz com que outros problemas difíceis de serem mencionados venham à tona.
fazer para lidar com colaboradores idiotas?
Hoover – Estou lançando uma nova publicação aqui
Acredito piamente que o senso de humor é capaz de
nos Estados Unidos chamada “How to sell to an idiot”
derreter o gelo e abrir caminho pela porta dura e espes(“Como vender para um idiota”, ainda sem tradução
sa das relações profissionais e pessoais. Os melhores
em português). Quanto a projetos futuros, em novemlíderes do mundo têm consciência de que a primeira
risada do dia tem de ser dada por conta deles mesbro deste ano lançarei um livro que vai abordar técnicas para motivar os funcionários de uma perspectiva,
mos. Líderes que se recusam a rir, simplesmente não
no mínimo, diferente. Acho que vai ser bem legal.
são bons motivadores.
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Características: compreensivos
demais, carentes, pegajosos.
Solução: ele quer que você seja
mais do que um simples subordinado, pois quer ser seu amigo. Se
você aceitar trocar tarefas por horas
de conversa fiada, este é o chefe
ideal. Mas se, ao contrário, você
desejar cumprir com suas funções,
tenha jogo de cintura e imponha
certos limites.
“Muitas vezes, o RH é colocado
de lado pela direção”, afirma
Arthur Diniz, especialista em
coaching.
•Chefes paranóicos
Características: acham que todos
estão contra eles, carecem de foco
na realidade são ansiosos e inseguros.
Solução: seja mais do que eficiente.
O chefe paranóico adora inventar
possíveis conspirações contra ele e,
mantendo-o constantemente atarefado, você impede que ele lhe faça
mal. Outra dica é deixá-lo sempre
a par dos acontecimentos e do seu
cotidiano.
•Chefes deuses
Características: egocêntricos, têm
pouca noção da realidade, são
sabe-tudo.
Solução: não contrarie um chefe
deus. Se ele se acha o máximo, não
discorde. Em essência, esse tipo
de superior age dessa maneira por
mera insegurança. Para driblar possíveis conflitos, não bata de frente
com ele e saiba ceder em pequenos
embates.
•Chefes camaradas
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•Bons chefes
Características: justos, tolerantes,
conscientes.
Solução: tem um chefe assim?
Então, aproveite, pois muitos gostariam de estar em seu lugar.
•Chefe idiota
Características: sem-noção, alheio
às situações ao seu redor, insano.
Solução: Leia esta matéria.
Depois de ter conhecimento dos
vários tipos de chefes que você
poderia ter, é completamente normal que você dê graças a Deus por
ter um chefe idiota. Não fique constrangido. Melhor um idiota, do que
um sádico, não é mesmo?
Manda quem pode. E quem
não tem juízo, faz o quê?
Depois de estabelecida claramente a origem das deficiências do
chefe idiota como sendo a falta de
treinamento do mesmo, resta saber
quais são as armas que o subordinado possui para combater esse mal.
E o caminho a ser seguido é mais
simples e rápido do que parece. Se
falta preparo para ele lidar com seus
colaboradores, estes podem treiná-lo,
mas sem que o chefe perceba, é claro.
Uma dica valiosa explanada por
John Hoover faz uso dos conceitos de
Condicionamento, há muito tempo
empregado em qualquer tipo de base
científica. O autor conta que, em seu
Qualquer
semelhança
não é mera
coincidência
Veja aqui depoimentos de quem já foi
vítima (ou ainda é) de um chefe idiota.
Não estranhe se essas histórias lhe parecer familiares...
“Trabalho com um idiota. A
minha visão de liderança é muito
mais humana que a postura que
esta pessoa assume perante seus
subordinados. Para mim, o líder
deve acompanhar e cuidar das
pessoas. Deve respeitar e compartilhar as opiniões divergentes,
e não apenas impor a sua percepção. Falta ao meu chefe, que
é o RH da empresa, habilidade
para lidar conosco. Falta respeito, falta educação. A única lição
que extraio disso tudo se resume
ao modo como eu não devo agir
no futuro, para que o idiota não
seja eu.”
Rafael, executivo de Recursos
Humanos.
“Durante um dos primeiros projetos em consultoria de que participei, tinha um supervisor ridículo. Nessa época, eu trabalhava
em São Paulo, mas morava no
Rio de Janeiro, assim como mais
uma meia dúzia de consultores.
Esse supervisor gostava de nos
torturar, não sei com que objetivo. Às sextas feiras, todos tínhamos que pegar a ponte aérea de
volta para o Rio de Janeiro, vôo
reservado, usualmente para às
19 horas, saindo do aeroporto
de Congonhas. Invariavelmente,
esse supervisor inventava reuniões de revisão a partir das 17
Bruna Gasgon, consultora em
comunicação e RH: “É preciso
dar chance para que novas e
diferentes opiniões surjam.”
tempo de faculdade, uma conspiração
se formou para “pegar” um professor
que lecionava Psicologia. Durante as
aulas de Condicionamento, os alunos
combinaram que se sentariam eretos e
prestariam muita atenção à aula quando o mestre estivesse do lado direito da
sala. Por outro lado, agiriam demonstrando total desinteresse e se sentariam
inclinados, quando o professor estivesse
do lado esquerdo da sala de aula.
Naturalmente, as aulas passaram a
ser ministradas apenas do lado direito
da sala. O feitiço havia virado contra o
feiticeiro.
Essa é a dica. Você pode condicionar
o seu chefe a lhe tratar decentemente.
Quando ele fizer o que você deseja,
mostre o quanto você gosta de fazer o
que lhe cabe e o quão interessado você
está. Quando ele agir de forma a aborrecê-lo, ignore-o e demonstre sua insatisfação. Esse processo certamente influenciará seu chefe de alguma forma.
É verdade também que buscar uma
melhor convivência com seu chefe idiota pode ser uma tarefa um tanto árdua.
É extremamente necessário que você
saiba até onde pretende ir para afinar
os ponteiros com seu chefe. Esse limite
envolve valores éticos e morais pessoais,
portanto cabe apenas a você definir o
que é válido ou não. Por exemplo, para
uma mulher, vale a pena discutir todos
os dias sobre futebol com seu chefe?
Tudo bem, você precisa do emprego,
mas a tal ponto? Só a tal mulher vai
saber.
De qualquer forma, uma boa
maneira de melhorar sua relação com
seu chefe idiota reside no fato de você
buscar informações sobre ele, sua família, suas aptidões, sua trajetória de vida.
Chefes idiotas adoram falar do quanto
sofreram, do quanto seus valores são
corretos e imutáveis. Entender isso, mais
do que fazer você se dar melhor com
seu chefe, faz com que você compreenda melhor as dificuldades encontradas
nas relações humanas de uma forma
geral. Antes de ser um chefe ruim, seu
superior é uma pessoa com vontades,
preferências e certezas. Saber quais são
elas e trazê-las à tona no momento adequado certamente fará com que vocês
se entendam melhor.
O idiota sou eu
Se você é o chefe idiota, fique calmo.
O primeiro passo para você deter a idiotice (e talvez o mais importante) já foi
dado: você reconheceu que está com
a tal síndrome. O próprio John Hoover
diz que é um idiota em recuperação.
Segundo a consultora em comunicação e RH, Bruna Gasgon, a intolerância
e a falta de flexibilidade precisam ser
estancadas imediatamente, para isso,
pedir um feedback honesto e aberto de
sua equipe, é fundamental. “É preciso
dar chance para que novas e diferentes
opiniões surjam, assim é possível modificar o astral do time.”
É inegável, porém, que certas reavaliações precisam ser feitas. A forma de
tratar os funcionários precisa ser pautada pelo respeito acima de qualquer
outra coisa. Como salienta o especialista em coaching, Arthur Diniz, é muito
comum ver chefes gritando com fun-
horas, no centro de São Paulo.
Dá para imaginar o nosso desespero para que a reunião terminasse e então, nós pudéssemos
pegar um táxi correndo para o
aeroporto! Eu fiquei preso em
São Paulo mais de uma vez por
conta dessa estupidez. Para piorar: nossa diária não cobria a
despesa de sexta para sábado.
Esse pesadelo durou meses, até
o dia em que o projeto foi questionado pelo cliente e, em função
disso, um diretor da consultoria foi ver o que estava acontecendo. Ele chamou os consultores para um interrogatório que
começou com perguntas operacionais, voltadas ao cliente, mas
que acabou culminando nos
aspectos de gerenciamento da
equipe, em que os problemas e
as queixas foram crescendo de
tal forma que, ao final daquela
semana, ficamos livres do tal supervisor. Ele foi demitido.”
Marcelo, vice-presidente de
uma multinacional
“Hoje dou risada, mas na época
foi muito desgastante. A minha
chefe achava que eu deveria ser
o braço direito dela. O que é ser
braço direito? Ir almoçar com
ela uma vez por semana para
contar todas as “fofocas” que
estavam sendo comentadas na
empresa. Existe idiotice maior?
Tem mais. Em reuniões, ela dava
broncas em equipe, mostrando
os pontos fracos de cada um em
público. As virtudes não precisavam ser mencionados porque
nós já deveríamos conhecer. Algumas pessoas riam, levavam na
brincadeira, outras choravam e
pediam demissão ali mesmo, tamanha a humilhação. Já pensou
ser chamado de incompetente,
na frente de outros 20 colegas?
Também não se podia falar em
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salário ou ter qualquer dúvida
sobre os benefícios recebidos,
porque não era uma atitude “bem
vista” e você poderia ficar “marcada”. Minha chefe se referia a
essas pessoas como “choronas”.
O mais triste: a minha chefe era
a diretora de RH da empresa.”
Gabriela, executiva de Recursos Humanos
“A responsabilidade do RH está em formular os conceitos e
divulgá-los”, Ana Teresa Marchi, diretora de RH da Monsanto.
cionários e justificando o ato por causa
dos erros dos profissionais. “Eles dizem
que não conseguem se segurar. Em
meus cursos, eu acompanho o líder em
reuniões e vejo como ele lida com o
chefe dele. Invariavelmente, eles são
muito mais tolerantes e pacientes com
os erros de seus superiores, pois não
gritam e esbravejam. Então pergunto:
você não consegue se segurar ou não
tem respeito por seu subordinado?”,
questiona.
O papel do RH
Outro tema extensivamente debatido trata-se da relação do RH com as
lideranças da organização. É indiscutível
que o RH tem a missão de desenvolver
e dar suporte aos seus líderes, mas isso
acontece na prática? Como anda o desempenho dos profissionais de Recursos
Humanos quando se deparam com um
idiota gerenciando determinado departamento da empresa?
Especialistas não têm respostas
positivas para as questões levantadas
acima. Arthur Diniz relata: “Eu trabalhei
em seis empresas diferentes e vi o RH
se omitindo na hora de mexer com as
lideranças da empresa. Muitas vezes, o
RH é colocado de lado pela direção. É
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“Isto aconteceu há 20 anos. Trabalhava com um gerente de RH.
Ele me dizia do alto de sua experiência, que estava começando
a trilhar o caminho dos recursos
humanos. ‘Não faça nada, pois
se fizer, você se tornará conhecido e todos saberão o seu nome
e quando houver a necessidade
de demitir pessoas, adivinhe
quem será mandado embora? A
pessoa da qual eles se lembram,
é claro’, ele disse uma vez. Refleti sobre as palavras do meu
executivo. Contudo, acreditava
que estávamos naquela empresa
para fazer o nosso melhor, para
fazer a diferença. E assim foi.
Quanto ao RH, eles não fizeram
nada. Como John Hoover explica no livro “Como trabalhar
para um idiota”, um pacto de
mediocridade acaba sendo selado na medida em que as pessoas
sobem hierarquicamente. Eu me
transferi para outra empresa,
aceitando uma proposta melhor.
O executivo continuou por lá
por mais dois anos e depois foi
demitido por estar envolvido em
um caso de desvio de dinheiro.”
Fernando, consultor em
Recursos Humanos e
professor universitário
muito complicado lidar com isso, mas o
profissional de gestão de pessoas precisa assumir essa postura mais ativa.”
Betânia Tanure enxerga da mesma
forma. “Realmente não é fácil, mas o
RH deve agir como interlocutor do presidente, tem que se posicionar.”
Mais do que nunca, a área de
RH tem de ser vista como um departamento estratégico, participando de
todas as decisões de negócio e organizando as diretrizes que vão nortear o
capital humano da empresa. Segundo
Ana Teresa Marchi, diretora de RH da
Monsanto, essa é a linha de raciocínio
que guia a companhia para qual trabalha. “A responsabilidade do RH está
em realmente formular os conceitos e
divulgá-los, tendo a certeza de que as
ferramentas e os processos estão caminhando com efetividade”, diz. A verdade é que cada vez mais os gestores
de departamentos acarretam a função
de gestores de pessoas também. O RH
não cuida de cada um dos milhares de
funcionários de uma empresa de grande
porte. Cuida de seus líderes. “Isso é fundamental. O RH vai acompanhar se a
empresa tem lideranças com comporta- Os nomes dos autores dos depoimenmento adverso da visão da companhia. tos foram trocados para preservar suas
Uma vez que isso foi identificado, você identidades.
tem ferramentas para trabalhar este problema.”
Segundo Cristian Parada, uma ótima forma de identificar se as equipes de sua empresa estão trabalhando
para um líder idiota reside em uma simples pesquisa
de clima organizacional. “Através disso, você consegue
checar rapidamente como anda o desempenho dos
líderes. Outro modo de diagnosticar está em simplesmente andar pelos corredores da empresa e olhar
para os funcionários. Eles estão contentes ou há uma
impressão de que estão sendo torturados? Você percebe isso na hora.”
Uma vez identificada a presença idiota na empresa,
é preciso tomar uma atitude. Desenvolver é a primeira opção. Mas demitir não está descartado segundo
salienta Arthur Diniz. “Acredito que as empresas consigam conquistar mudanças consideráveis em suas lideranças através de treinamento, principalmente através
do coaching. Mas não há dúvidas que treinar é investir
tempo e dinheiro. Se não houver tempo, demitir acaba
sendo uma solução, contanto que se tenha outro profissional qualificado para o cargo.”
Em um mercado cada vez mais democrático e aberto à informação, de fato, chega a ser idiota que alguém
se considere melhor por ocupar um cargo de liderança.
Sem dúvidas, as empresas de modo geral estão conectadas a essa nova realidade tornando suas estruturas mais
horizontais, não apenas porque é politicamente correto,
mas porque estão vendo que dá resultado apostar no
novo, em detrimento dos idiotas de plantão que vão
continuar cruzando os caminhos de todo o mundo.
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Como uma verdadeira praga corporativa, o chefe