capa Como uma verdadeira praga corporativa, o chefe idiota está espalhado por todo o mundo. Aprenda a conviver com este mal A experiência de ser comandado por um chefe idiota talvez seja uma das sensações mais frustrantes que um profissional pode vir a experimentar. Pior ainda, há sempre a idéia de que essa seja uma situação inevitável, irreversível. “Melhor trabalhar para um babaca, do que ficar desempregado”, pensam muitos. E esse é o reconhecimento da vitória da idiotice do seu chefe. As conseqüências lógicas e naturais desse processo não poderiam ser outras: queda da produtividade, da motivação, da auto-estima, do senso de traba-lho em equipe; aumento do nível de stress, do absenteísmo, do número de funcionários doentes. Conclusão: o chefe idiota é uma praga que pode destruir você e dizimar organizações. Mas tudo depende do ponto de vista. Observando por um outro prisma, com inteligência, pers- 20 Fev/06 picácia e bom humor, é completamente possível analisar as lideranças corporativas atuais sem adotar o tom catastrófico do parágrafo anterior. É exatamente isso o que o americano John Hoover propõe no livro “Como trabalhar para um idiota” (ed. Futura) e na entrevista exclusiva concedida à revista profissional&negócios que você encontra nas próximas páginas. “Se você um dia pensou que as únicas maneiras de sobreviver a um chefe idiota seriam medicarse, demitir-se ou aumentar a dose do seu medicamento e despejá-lo no café de seu chefe, espero trazer esperança para seu espírito”, diz ele na introdução do livro. Atualmente, é absolutamente espantosa a quantidade de cursos, palestras, publicações e seminários voltado para o tema “liderança”, apresentados a todo o momento. São milhares de profissionais tendo contato com dezenas de correntes diferentes, ou seja, variadas maneiras de se encarar a função gerencial. Em decorrência disso, é indubitável que a consciência das organizações com relação à importância da qualidade de suas lideranças tem aumentado. Tanto é que, segundo Betânia Tanure, professora da Fundação Dom Cabral, no que diz respeito ao conhecimento do modelo de negócios e das decisões empresarias, os executivos brasileiros não deixam nada a desejar aos líderes de padrão internacional. “No entanto, quanto ao comportamento e à forma de lidar com as outras pessoas, há que se considerar a influência da própria cultura brasileira”, ela explica. “Aqui, existem três eixos fundamentais para uma análise mais apropriada: o quanto o brasileiro é flexível, relacional e como ele lida com o poder.” Nos dois primeiros aspectos, Tanure enxerga características virtuosas. Para ela, o executivo brasileiro tende a carregar consigo uma facilidade considerável na hora de se adaptar a novas situações, sendo assim bastante flexível. Quanto a sua maneira de se relacionar com o grupo, ela ressalta: “Em uma escala de zero a cem, sendo zero extremamente coletivista, e cem extremamente individualista, o brasileiro recebe uma pontuação de 31, o que quer dizer que se trata de um povo que valoriza suas relações interpessoais. Isso é bom.” O ponto fraco desse traço reside na falta de discernimento na hora de separar as atividades profissionais das pessoais. “Essa confusão, muitas vezes dificulta feedbacks mais claros”, afirma. Entretanto, é no terceiro eixo descrito por Tanure que mora o principal problema das lideranças nacionais: como lidar com o poder. dar, só falaram dos resultados que precisam ser alcançados. Ok, ele simplesmente sai massacrando gente”, explica Cristian Parada, executivo de RH da Wengamen Learning & Development. “Não é que eles nasceram ruins. Mas o total despreparo para o cargo faz com que eles se tornem idiotas a partir do momento em que passam a ser chefes.” Essa linha de raciocínio conduz à conclusão óbvia de que a empre- Como se forma um idiota Para diversos especialistas, é na hora de assumir o cargo de liderança que a pessoa designada se torna um idiota. Quando o poder chega às suas mãos, o chefe simplesmente não sabe o que fazer. Pode parecer piegas ou démodé, mas a verdade é que o poder transforma as pessoas (ou revela quem, de fato, elas sempre foram, como salientam alguns). Sem treinamento algum, o novo chefe passa a imitar mode-los de líderes que fizeram parte de sua trajetória. O problema é que, em geral, esses chefes anteriores também eram ruins. “Normalmente, acontece da seguinte forma: um profissional é promovido porque ele era tecnicamente bom. Então, ele passa a ser um gestor, embora não entenda nada sobre isso. Ninguém se deu ao trabalho de explicar como é que se deve coman- “Pode-se olhar a cara dos funcionários. Eles estão contentes?”, Cristian Parada, executivo de RH da Wengamen Learning & Development. sa tem uma considerável parcela de culpa pelas endiabradas idiotices com as quais quase todo mundo já se deparou, se depara ou ainda vai se deparar. Sim, porque se você acha que ter um chefe idiota é algo que só acontece com os outros, não se anime, porque mais cedo ou mais tarde, você vai ter um. É questão de tempo. A partir do momento em que um profissional sem treinamento é colocado em um cargo de lide- rança, não se sabe o que pode acontecer. Como ele passa a agir por intuição, sorte ou mesmo imitando chefes antecessores, há uma grande gama de tipos de líderes que eles podem se tornar. Idiota é apenas uma das muitas classificações apresentadas no livro de John Hoover. Vocês podem não acreditar, mas há até o tópico “bons chefes”. Veja a lista abaixo e analise em qual categoria o seu chefe se encaixa. Mas tome cuidado! Não se espante se ele apresentar características suficientes para se encaixar em várias categorias. •Chefes maquiavélicos Características: espertos, inescrupulosos, implacáveis. Solução: essa categoria de superior não admite que ninguém ouse entrar em seu caminho. Se isso acontecer, melhor estar preparado para o troco. •Chefes masoquistas Características: autocríticos, depressivos, contagiantes. Solução: este faz questão de não terminar os trabalhos e prefere liderar o departamento rumo ao fracasso. Seu chefe age assim? Então, de acordo com o livro, desligue-se o quanto antes. •Chefes sádicos Características: extremamente críticos, perseguidores, cruéis. Solução: não tente enfrentá-lo, ele o combaterá; não tente mudar de departamento, ele o perseguirá; não demonstre prazer no trabalho, ele irá incumbi-lo de cada vez mais tarefas. Talvez o mais temível de todos os chefes, o sádico é aquela pessoa que, por ter sofrido muito anteriormente, passa a ter prazer em proporcionar o sofrimento alheio. Por isso, uma das técnicas para lidar com esse tipo é demonstrar descontentamento com a carreira. Fev/06 21 capa O Ele conseguiu se libertar estrondoso sucesso do livro “Como trabalhar para um idiota”, de John Hoover, não se deve apenas a fácil identificação dos tipos de chefes ruins por parte do público leitor. Claro que a experiência de se trabalhar para chefes idiotas é tão universal que é bastante raro não perceber algum tipo de reação quando alguém se defronta com o título do livro, estampado em letras garrafais. Mas há outro fato que colabora fundamentalmente para o traço instigante da obra: ela é um tanto autobiográfica. Para se ter uma idéia, o primeiro capítulo do livro chama-se “Confissões de um idiota em recuperação: eu mesmo”. Nele, Hoover conta que jamais havia se dado conta de como era realmente trabalhar para um idiota até começar a atuar como autônomo, ou seja, para ele mesmo. Depois de um determinado período, ele percebeu como era um mau chefe e começou a “deter a idiotice”, como gosta de salientar. Em entrevista exclusiva à revista profissional&negócios, John Hoover dá dicas para que os líderes consigam reparar seus defeitos, os subordinados consigam driblar as idiotices dos chefes e o RH encontre seu caminho em meio a toda essa confusão. p&n – “Como trabalhar para um idiota” é um tremendo sucesso nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina, especialmente no Brasil. Como você explica isso? O chefe idiota é uma praga de proporções mundiais? John Hoover – O i-chefe (como chama o Chefe Idiota) é um fenômeno mundial, uma catástrofe, uma epidemia ameaçadora! É verdadeiramente um problema universal. Isto quer dizer que, por mais profundo que seja o problema, ele não está enraizado em determinada cultura e sim na humanidade como um todo. Antes fronteiras nacionais pudessem conter essa doença! Quando a gente tem a expectativa de que autoridades presentes no nosso cotidiano irão se comportar de maneira sensata e, na prática eles seguem por caminhos escusos, acabamos chamando-os de idiotas. A verdade é: nós 22 Fev/06 é que somos idiotas de sustentar essa expectativa. Acho que é por isso que no livro refiro a mim mesmo como um idiota em recuperação. p&n – Um líder se torna um idiota quando assume um cargo gerencial ou essas características são inatas? Hoover – Idiotas simplesmente não sabem das coisas. Eles não têm consciência alguma de como suas idéias, palavras e ações podem afetar outras pessoas. E você não consegue aprender coisa alguma dessa forma, sem consciência. As pessoas não nascem espertas e ficam bobas depois. Uma vez que você aprende algo, sempre carregará aquilo com você. O caminho mais curto para se tornar um i-chefe, é se tornar chefe antes de aprender como suas idéias, palavras e ações podem influenciar outras pessoas. Uma vez que você se dá conta disso, a idiotice pára e até regride. Diz-se que líderes são feitos, não nascem. Idiotas nascem assim, não se revelam depois. Idiotas só se tornam chefes porque as pessoas que os promovem acham que eles sabem mais do que, de fato, sabem. A verdade vem à tona mais tarde. p&n – Muitos líderes têm medo de se tornar i-chefes, mas não sabem se são idiotas ou não. Como eles podem identificar e evitar esse processo? Hoover – Para ser sincero, a única maneira que eu conheço, e que com certeza faz com que você evite ser um chefe idiota, é se comprometer totalmente com seus colaboradores. Constantemente conversar com eles e sempre perguntar as suas opiniões sobre cada passo dado. Então, é necessário respeitar essas visões e dar chance a elas. Não restam dúvidas de que o RH da empresa pode sempre ensinar os chefes a se comunicar melhor com suas equipes e extrair várias lições deles. Esse suporte e treinamento são muito importantes também. Comunicação é o remédio para a idiotice. p&n – É possível que um chefe idiota faça de sua equipe de trabalho um time de alta performance e, conseqüentemente, obtenha bons resultados? Hoover – Um chefe idiota pode ir bem em um curto espaço de tempo por um erro ou por alguma coincidência. Mas o que é inegável é que esse mesmo chefe idiota não vai conseguir construir e manter uma equipe de alta performance por muito tempo. Para fazer isto, ele necessita se ligar, se informar e claro, deixar de ser um idiota. Mas como eu consigo fazer isso? O primeiro passo é objetivo ao extremo: você tem que confessar que é um idiota. As pessoas adoram honestidade. Quando os empregados vêem um chefe confessando seus erros, admitindo que ele não tem todas as respostas para todas as perguntas e que, às vezes, age como um idiota, eles instantaneamente começam a trabalhar mais arduamente e se tornam mais leais. Muitos grandes líderes nos Estados Unidos compraram cópias de “Como trabalhar para um idiota” e as deram para seus empregados como uma forma simples e bem-humorada de confessar sua idiotice. Os colaboradores, sem dúvida, amaram. p&n – Como o RH pode identificar quão bons ou ruins são os lideranças na sua empresa? Hoover – O pessoal de RH pode olhar e procurar por quem tem uma opinião saudável e equilibrada de si mesmo e quem demonstra ter um senso de humor apurado. Estes certamente serão os melhores líderes entre muitos. Humor pode não ser um bom indicador de competência individual. Entretanto, as competências necessárias para um líder comandar sua equipe com mestria começam com humildade e um rico senso de humor. p&n – Para uma empresa, quais são as principais conseqüências decorrentes do gerenciamento de chefes idiotas? Existe alguma vantagem em se trabalhar para eles? Hoover – É impressionante, mas chefes idiotas conseguem desperdiçar quantidades astronômicas de tempo e de dinheiro. Isso só na fase de planejamento! Pior ainda, eles são capazes de perseguir e demitir bons funcionários, causando uma incrível perda na qualidade do talento do material humano da empresa. Muitas vezes, chega a ser revoltante, é só perguntar para alguém que já teve John Hoover, autor do livro “Como trabalhar de conviver com chefes assim, caspara um idiota” tradores. Se você trabalha para um p&n – Talvez por causa do título do idiota, você pode moldar seu próprio livro, muitas pessoas acham que a trabalho até um certo grau, porque ele (ou ela) não vai publicação brinca com o tema “liderança”, sem persaber, de fato, o que você está fazendo. Geralmente, ceber quão profundamente o assunto é abordado. chefes idiotas são técnicos demais. Se você seguir os O que você acha disso? Você acha que falar de um conselhos apresentados em “Como trabalhar para um problema como esse de uma forma bem-humorada idiota”, você pode treinar seu i-chefe para gerenciar seu ajuda os interlocutores a captarem melhor a mendepartamento da maneira que você deseja. sagem contida na obra? Hoover – Com certeza. Um toque mais sensível, um p&n – O que é possível se esperar para o futuro? Há olhar menos sério em um tema tão fundamental para o algum livro engatilhado sobre o que líderes devem dia-a-dia das organizações faz com que outros problemas difíceis de serem mencionados venham à tona. fazer para lidar com colaboradores idiotas? Hoover – Estou lançando uma nova publicação aqui Acredito piamente que o senso de humor é capaz de nos Estados Unidos chamada “How to sell to an idiot” derreter o gelo e abrir caminho pela porta dura e espes(“Como vender para um idiota”, ainda sem tradução sa das relações profissionais e pessoais. Os melhores em português). Quanto a projetos futuros, em novemlíderes do mundo têm consciência de que a primeira risada do dia tem de ser dada por conta deles mesbro deste ano lançarei um livro que vai abordar técnicas para motivar os funcionários de uma perspectiva, mos. Líderes que se recusam a rir, simplesmente não no mínimo, diferente. Acho que vai ser bem legal. são bons motivadores. Fev/06 23 capa Características: compreensivos demais, carentes, pegajosos. Solução: ele quer que você seja mais do que um simples subordinado, pois quer ser seu amigo. Se você aceitar trocar tarefas por horas de conversa fiada, este é o chefe ideal. Mas se, ao contrário, você desejar cumprir com suas funções, tenha jogo de cintura e imponha certos limites. “Muitas vezes, o RH é colocado de lado pela direção”, afirma Arthur Diniz, especialista em coaching. •Chefes paranóicos Características: acham que todos estão contra eles, carecem de foco na realidade são ansiosos e inseguros. Solução: seja mais do que eficiente. O chefe paranóico adora inventar possíveis conspirações contra ele e, mantendo-o constantemente atarefado, você impede que ele lhe faça mal. Outra dica é deixá-lo sempre a par dos acontecimentos e do seu cotidiano. •Chefes deuses Características: egocêntricos, têm pouca noção da realidade, são sabe-tudo. Solução: não contrarie um chefe deus. Se ele se acha o máximo, não discorde. Em essência, esse tipo de superior age dessa maneira por mera insegurança. Para driblar possíveis conflitos, não bata de frente com ele e saiba ceder em pequenos embates. •Chefes camaradas 24 Fev/06 •Bons chefes Características: justos, tolerantes, conscientes. Solução: tem um chefe assim? Então, aproveite, pois muitos gostariam de estar em seu lugar. •Chefe idiota Características: sem-noção, alheio às situações ao seu redor, insano. Solução: Leia esta matéria. Depois de ter conhecimento dos vários tipos de chefes que você poderia ter, é completamente normal que você dê graças a Deus por ter um chefe idiota. Não fique constrangido. Melhor um idiota, do que um sádico, não é mesmo? Manda quem pode. E quem não tem juízo, faz o quê? Depois de estabelecida claramente a origem das deficiências do chefe idiota como sendo a falta de treinamento do mesmo, resta saber quais são as armas que o subordinado possui para combater esse mal. E o caminho a ser seguido é mais simples e rápido do que parece. Se falta preparo para ele lidar com seus colaboradores, estes podem treiná-lo, mas sem que o chefe perceba, é claro. Uma dica valiosa explanada por John Hoover faz uso dos conceitos de Condicionamento, há muito tempo empregado em qualquer tipo de base científica. O autor conta que, em seu Qualquer semelhança não é mera coincidência Veja aqui depoimentos de quem já foi vítima (ou ainda é) de um chefe idiota. Não estranhe se essas histórias lhe parecer familiares... “Trabalho com um idiota. A minha visão de liderança é muito mais humana que a postura que esta pessoa assume perante seus subordinados. Para mim, o líder deve acompanhar e cuidar das pessoas. Deve respeitar e compartilhar as opiniões divergentes, e não apenas impor a sua percepção. Falta ao meu chefe, que é o RH da empresa, habilidade para lidar conosco. Falta respeito, falta educação. A única lição que extraio disso tudo se resume ao modo como eu não devo agir no futuro, para que o idiota não seja eu.” Rafael, executivo de Recursos Humanos. “Durante um dos primeiros projetos em consultoria de que participei, tinha um supervisor ridículo. Nessa época, eu trabalhava em São Paulo, mas morava no Rio de Janeiro, assim como mais uma meia dúzia de consultores. Esse supervisor gostava de nos torturar, não sei com que objetivo. Às sextas feiras, todos tínhamos que pegar a ponte aérea de volta para o Rio de Janeiro, vôo reservado, usualmente para às 19 horas, saindo do aeroporto de Congonhas. Invariavelmente, esse supervisor inventava reuniões de revisão a partir das 17 Bruna Gasgon, consultora em comunicação e RH: “É preciso dar chance para que novas e diferentes opiniões surjam.” tempo de faculdade, uma conspiração se formou para “pegar” um professor que lecionava Psicologia. Durante as aulas de Condicionamento, os alunos combinaram que se sentariam eretos e prestariam muita atenção à aula quando o mestre estivesse do lado direito da sala. Por outro lado, agiriam demonstrando total desinteresse e se sentariam inclinados, quando o professor estivesse do lado esquerdo da sala de aula. Naturalmente, as aulas passaram a ser ministradas apenas do lado direito da sala. O feitiço havia virado contra o feiticeiro. Essa é a dica. Você pode condicionar o seu chefe a lhe tratar decentemente. Quando ele fizer o que você deseja, mostre o quanto você gosta de fazer o que lhe cabe e o quão interessado você está. Quando ele agir de forma a aborrecê-lo, ignore-o e demonstre sua insatisfação. Esse processo certamente influenciará seu chefe de alguma forma. É verdade também que buscar uma melhor convivência com seu chefe idiota pode ser uma tarefa um tanto árdua. É extremamente necessário que você saiba até onde pretende ir para afinar os ponteiros com seu chefe. Esse limite envolve valores éticos e morais pessoais, portanto cabe apenas a você definir o que é válido ou não. Por exemplo, para uma mulher, vale a pena discutir todos os dias sobre futebol com seu chefe? Tudo bem, você precisa do emprego, mas a tal ponto? Só a tal mulher vai saber. De qualquer forma, uma boa maneira de melhorar sua relação com seu chefe idiota reside no fato de você buscar informações sobre ele, sua família, suas aptidões, sua trajetória de vida. Chefes idiotas adoram falar do quanto sofreram, do quanto seus valores são corretos e imutáveis. Entender isso, mais do que fazer você se dar melhor com seu chefe, faz com que você compreenda melhor as dificuldades encontradas nas relações humanas de uma forma geral. Antes de ser um chefe ruim, seu superior é uma pessoa com vontades, preferências e certezas. Saber quais são elas e trazê-las à tona no momento adequado certamente fará com que vocês se entendam melhor. O idiota sou eu Se você é o chefe idiota, fique calmo. O primeiro passo para você deter a idiotice (e talvez o mais importante) já foi dado: você reconheceu que está com a tal síndrome. O próprio John Hoover diz que é um idiota em recuperação. Segundo a consultora em comunicação e RH, Bruna Gasgon, a intolerância e a falta de flexibilidade precisam ser estancadas imediatamente, para isso, pedir um feedback honesto e aberto de sua equipe, é fundamental. “É preciso dar chance para que novas e diferentes opiniões surjam, assim é possível modificar o astral do time.” É inegável, porém, que certas reavaliações precisam ser feitas. A forma de tratar os funcionários precisa ser pautada pelo respeito acima de qualquer outra coisa. Como salienta o especialista em coaching, Arthur Diniz, é muito comum ver chefes gritando com fun- horas, no centro de São Paulo. Dá para imaginar o nosso desespero para que a reunião terminasse e então, nós pudéssemos pegar um táxi correndo para o aeroporto! Eu fiquei preso em São Paulo mais de uma vez por conta dessa estupidez. Para piorar: nossa diária não cobria a despesa de sexta para sábado. Esse pesadelo durou meses, até o dia em que o projeto foi questionado pelo cliente e, em função disso, um diretor da consultoria foi ver o que estava acontecendo. Ele chamou os consultores para um interrogatório que começou com perguntas operacionais, voltadas ao cliente, mas que acabou culminando nos aspectos de gerenciamento da equipe, em que os problemas e as queixas foram crescendo de tal forma que, ao final daquela semana, ficamos livres do tal supervisor. Ele foi demitido.” Marcelo, vice-presidente de uma multinacional “Hoje dou risada, mas na época foi muito desgastante. A minha chefe achava que eu deveria ser o braço direito dela. O que é ser braço direito? Ir almoçar com ela uma vez por semana para contar todas as “fofocas” que estavam sendo comentadas na empresa. Existe idiotice maior? Tem mais. Em reuniões, ela dava broncas em equipe, mostrando os pontos fracos de cada um em público. As virtudes não precisavam ser mencionados porque nós já deveríamos conhecer. Algumas pessoas riam, levavam na brincadeira, outras choravam e pediam demissão ali mesmo, tamanha a humilhação. Já pensou ser chamado de incompetente, na frente de outros 20 colegas? Também não se podia falar em Fev/06 25 capa salário ou ter qualquer dúvida sobre os benefícios recebidos, porque não era uma atitude “bem vista” e você poderia ficar “marcada”. Minha chefe se referia a essas pessoas como “choronas”. O mais triste: a minha chefe era a diretora de RH da empresa.” Gabriela, executiva de Recursos Humanos “A responsabilidade do RH está em formular os conceitos e divulgá-los”, Ana Teresa Marchi, diretora de RH da Monsanto. cionários e justificando o ato por causa dos erros dos profissionais. “Eles dizem que não conseguem se segurar. Em meus cursos, eu acompanho o líder em reuniões e vejo como ele lida com o chefe dele. Invariavelmente, eles são muito mais tolerantes e pacientes com os erros de seus superiores, pois não gritam e esbravejam. Então pergunto: você não consegue se segurar ou não tem respeito por seu subordinado?”, questiona. O papel do RH Outro tema extensivamente debatido trata-se da relação do RH com as lideranças da organização. É indiscutível que o RH tem a missão de desenvolver e dar suporte aos seus líderes, mas isso acontece na prática? Como anda o desempenho dos profissionais de Recursos Humanos quando se deparam com um idiota gerenciando determinado departamento da empresa? Especialistas não têm respostas positivas para as questões levantadas acima. Arthur Diniz relata: “Eu trabalhei em seis empresas diferentes e vi o RH se omitindo na hora de mexer com as lideranças da empresa. Muitas vezes, o RH é colocado de lado pela direção. É 26 Fev/06 “Isto aconteceu há 20 anos. Trabalhava com um gerente de RH. Ele me dizia do alto de sua experiência, que estava começando a trilhar o caminho dos recursos humanos. ‘Não faça nada, pois se fizer, você se tornará conhecido e todos saberão o seu nome e quando houver a necessidade de demitir pessoas, adivinhe quem será mandado embora? A pessoa da qual eles se lembram, é claro’, ele disse uma vez. Refleti sobre as palavras do meu executivo. Contudo, acreditava que estávamos naquela empresa para fazer o nosso melhor, para fazer a diferença. E assim foi. Quanto ao RH, eles não fizeram nada. Como John Hoover explica no livro “Como trabalhar para um idiota”, um pacto de mediocridade acaba sendo selado na medida em que as pessoas sobem hierarquicamente. Eu me transferi para outra empresa, aceitando uma proposta melhor. O executivo continuou por lá por mais dois anos e depois foi demitido por estar envolvido em um caso de desvio de dinheiro.” Fernando, consultor em Recursos Humanos e professor universitário muito complicado lidar com isso, mas o profissional de gestão de pessoas precisa assumir essa postura mais ativa.” Betânia Tanure enxerga da mesma forma. “Realmente não é fácil, mas o RH deve agir como interlocutor do presidente, tem que se posicionar.” Mais do que nunca, a área de RH tem de ser vista como um departamento estratégico, participando de todas as decisões de negócio e organizando as diretrizes que vão nortear o capital humano da empresa. Segundo Ana Teresa Marchi, diretora de RH da Monsanto, essa é a linha de raciocínio que guia a companhia para qual trabalha. “A responsabilidade do RH está em realmente formular os conceitos e divulgá-los, tendo a certeza de que as ferramentas e os processos estão caminhando com efetividade”, diz. A verdade é que cada vez mais os gestores de departamentos acarretam a função de gestores de pessoas também. O RH não cuida de cada um dos milhares de funcionários de uma empresa de grande porte. Cuida de seus líderes. “Isso é fundamental. O RH vai acompanhar se a empresa tem lideranças com comporta- Os nomes dos autores dos depoimenmento adverso da visão da companhia. tos foram trocados para preservar suas Uma vez que isso foi identificado, você identidades. tem ferramentas para trabalhar este problema.” Segundo Cristian Parada, uma ótima forma de identificar se as equipes de sua empresa estão trabalhando para um líder idiota reside em uma simples pesquisa de clima organizacional. “Através disso, você consegue checar rapidamente como anda o desempenho dos líderes. Outro modo de diagnosticar está em simplesmente andar pelos corredores da empresa e olhar para os funcionários. Eles estão contentes ou há uma impressão de que estão sendo torturados? Você percebe isso na hora.” Uma vez identificada a presença idiota na empresa, é preciso tomar uma atitude. Desenvolver é a primeira opção. Mas demitir não está descartado segundo salienta Arthur Diniz. “Acredito que as empresas consigam conquistar mudanças consideráveis em suas lideranças através de treinamento, principalmente através do coaching. Mas não há dúvidas que treinar é investir tempo e dinheiro. Se não houver tempo, demitir acaba sendo uma solução, contanto que se tenha outro profissional qualificado para o cargo.” Em um mercado cada vez mais democrático e aberto à informação, de fato, chega a ser idiota que alguém se considere melhor por ocupar um cargo de liderança. Sem dúvidas, as empresas de modo geral estão conectadas a essa nova realidade tornando suas estruturas mais horizontais, não apenas porque é politicamente correto, mas porque estão vendo que dá resultado apostar no novo, em detrimento dos idiotas de plantão que vão continuar cruzando os caminhos de todo o mundo. Fev/06 27