Pergunta/Respostas
Colaboração Inteligente
Uma conversa sobre inteligência coletiva e colaboração com o renomado teórico organizacional e autor
de O Futuro dos Empregos, Professor Thomas W. Malone
Entrevista de Chris Beveridge, Cisco Executive Thought Leadership
Thomas W. Malone é titular da
cadeira Patrick J. McGovern de
administração do MIT Sloan School
of Management e fundador e diretor
do MIT Center para Inteligência
Coletiva. Ele foi diretor e fundador
do MIT Center para Ciência da
Coordenação e um dos dois
co-diretores fundadores da
Iniciativa da MIT sobre “Inventando
as Empresas do Século XXI”.
As últimas duas décadas da
pesquisa de Malone podem ser
resumidas em O Futuro dos
Empregos: Como o Barateamento
dos Custos e a Utilização das
Telecomunicações Vão Alterar a
Organização Operacional, as
Condições de Trabalho e a Vida das
Pessoas nas Empresas: (Harvard
Business School Press, 2004).
Nesse livro, ele aborda como as
empresas podem aproveitar o
potencial da colaboração e da
inteligência coletiva.
ETL: Como você definiria colaboração?
E como ela pode ser comparada à
inteligência coletiva?
Thomas Malone: Bem, a própria raiz da
palavra colaboração significa “trabalhar
juntos”. Portanto acredito que
colaboração seja essencialmente
trabalhar junto, mas acho que, na
verdade, significa trabalhar junto de
forma independente para chegar a uma
meta comum. A minha definição de
inteligência coletiva são grupos de
indivíduos trabalhando coletivamente de
formas que pareçam inteligentes.
Acho que essas duas definições são
bastante parecidas. É importante
perceber que as duas têm implícita a
idéia de um objetivo comum ou
compartilhado, e a noção de que há
interdependências entre as partes.
Acredito que a inteligência coletiva seja
essencialmente um subconjunto da
colaboração. Podemos pensar em
inteligência coletiva como colaboração
inteligente. Por exemplo, você poderia ter
um grupo de pessoas colaborando para
cavar um buraco, mas provavelmente
não chamaria isso de inteligência
coletiva. Por outro lado, um grupo de
pessoas criando coletivamente um artigo
no Wikipedia, se fizer um bom trabalho,
certamente pode ser considerado
inteligência coletiva.
ETL: A colaboração é mais intensa hoje
do que era no passado?
Thomas Malone: Acredito que sim. Acho
que a colaboração está acontecendo de
formas diferentes. Tornou-se possível
para muito mais pessoas colaborar
através de distâncias bem maiores com
muito mais pessoas ao mesmo tempo do
que jamais foi possível em outros
períodos, devido às novas tecnologias da
informação.
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Artigo do Thoughtleaders (segundo trimestre 2008) • Copyright © 2008 Cisco Systems, Inc. Todos os direitos reservados. • cisco.com/go/thoughtleaders
ETL: Por que você acha que as pessoas
estão cada vez mais interessadas na
colaboração?
Thomas Malone: Acho que é porque as
novas tecnologias possibilitam um
compartilhamento mais amplo das
informações. E elas permitem que um
número muito maior de pessoas tome
mais decisões de forma independente.
Isso significa que muito mais pessoas
podem colaborar em nível de igualdade,
como colegas, em vez de receber ordens
de alguém em uma posição
hierarquicamente superior.
ETL: Que efeito a redução drástica do
custo e da complexidade das
comunicações tem nas empresas?
Thomas Malone: Eu acho que isso tem
um efeito gigantesco. Na minha opinião,
ainda estamos nos estágios iniciais de
um aumento da liberdade humana nos
negócios que pode, a longo prazo, ser
uma mudança tão importante para as
empresas como a mudança para a
democracia foi para os governos. Agora,
pela primeira vez, é possível obter, ao
mesmo tempo, os benefícios
econômicos de uma grande empresa,
como a economia de escala, e os
benefícios humanos característicos de
empresas bem menores— como
liberdade, flexibilidade, motivação e
criatividade. E o que torna isso possível é
uma nova geração de tecnologias da
informação — e-mail, web, ligações de
longa distância mais baratas, a Internet
em geral. Todas essas tecnologias estão
reduzindo os custos da comunicação
para um nível tão baixo que é agora
possível para um grande número de
pessoas, mesmo em grandes empresas,
ter informações suficientes para tomar
decisões conscientes por elas próprias.
Mas só porque algo é possível não
significa que vá necessariamente
acontecer. Nesse caso, o que eu acho
que promoverá essas mudanças é que
as pessoas querem que ela ocorra e, em
particular, a empresa se beneficia de dar
as pessoas mais liberdades. Quando
mais pessoas estão tomando mais
decisões de forma independente, elas
normalmente ficam mais motivadas, mais
dedicadas e mais criativas. Elas têm mais
flexibilidade e, muitas vezes,
simplesmente preferem assim.
Esses benefícios não serão importantes
para todos os setores corporativos. Em
alguns setores, como na fabricação de
determinados tipos de semicondutores,
os fatores mais importantes para o
sucesso da empresa são apenas
economias de escala. E, nesses casos,
acredito que a diminuição dos custos da
comunicação leve a uma centralização
ainda maior, para aproveitar melhor as
vantagens das economias de escala.
Entretanto — e aqui temos um ponto
chave — na nossa economia cada vez
mais baseada no conhecimento e
voltada para a inovação, os fatores
críticos que definem o sucesso de uma
empresa são freqüentemente os
benefícios da tomada de decisão
descentralizada, fatores como motivação,
criatividade e inovação.
Portanto, é por isso que eu acho que,
embora isso não vá ocorrer em todos os
aspectos da nossa economia,
provavelmente veremos mais e mais
exemplos de uma tomada de decisão
descentralizada, com mais pessoas
tendo a liberdade de tomar mais
decisões sozinhas. É provável que
vejamos mais e mais exemplos disso em
cada vez mais setores da nossa
economia ao longo das próximas
décadas.
ETL: Você acha que a descentralização
é o futuro das empresas?
Thomas Malone: Acho. Não me refiro
apenas a vice-presidentes das divisões
terem mais poder em oposição aos
CEOs. Por descentralização, quero dizer
a vasta quantidade de pessoas em
grandes organizações que têm mais
poder para tomar mais decisões por elas
próprias.
Essa é uma das mais importantes
mudanças de rumo no futuro das
empresas. Acredito que a longo
prazo—daqui a 50, 100 ou 150
anos—poderemos olhar para as
primeiras décadas do século XXI como
uma época de mudanças nas empresas
que foi tão importante quanto as
mudanças trazidas pela revolução
industrial.
ETL: Você acredita que algumas
pessoas são colaboradoras natas?
Thomas Malone: Bem, isso me lembra
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uma pergunta semelhante que é muito
freqüente sobre líderes, que é: “Os
líderes nascem líderes ou são
formados?” Minha resposta favorita para
essa pergunta é do General George C.
Marshall, um dos poucos generais cinco
estrelas da história do Exército
Americano. Alguém perguntou a ele,
“General Marshall, o senhor acha que
líderes nascem líderes ou são
formados?” Ele refletiu por um minuto e
respondeu, “Eles nascem … e depois são
formados.” Acho que essa resposta é
válida tanto para colaboração como para
liderança. Todos nascemos com algumas
habilidades naturais, o que podem fazer
com que seja mais fácil para alguns de
nós liderar ou colaborar com outros. Mas
acho que todos nós, se quisermos e esse se quisermos é fundamental —
somos capazes de aprender para
sermos melhores líderes e melhores
colaboradores. Na verdade, o que acho
que acontecerá é que a diferença entre
as duas coisas tende a desaparecer.
Meus colegas e eu conversamos muito
sobre liderança distribuída e a crescente
importância da liderança não ser apenas
o que acontece nas esferas máximas de
uma organização, mas sim algo que pode
acontecer no topo, na base e em
qualquer lugar no meio. E neste mundo
em rápida transformação, é cada vez
mais importante que as pessoas sejam
capazes de compreender o que está
acontecendo em torno delas, mais e mais
pessoas precisam ser capazes de ter
suas próprias idéias sobre o que deve
ser feito e descobrir por elas mesmas
como fazer o que precisa ser feito.
Acredito que a capacidade de colaborar
efetivamente com outras pessoas, a
capacidade de liderar outras pessoas,
quer você tenha ou não uma autoridade
formal sobre elas, pode ser aprendida e
desenvolvida. Se você quiser...
ETL: Como as empresas podem medir
os benefícios da colaboração?
Thomas Malone: Deixe-me responder de
duas formas. A primeira é uma resposta
simples: você tem alguma medida para o
desempenho de uma empresa que
possa, em parte, medir a eficácia da
colaboração? Se estiver avaliando uma
empresa, por exemplo, com base na sua
lucratividade ou na eficácia das suas
vendas ou mesmo no seu retorno para o
acionista, você pode usar qualquer
desses tipos de medidas gerais para
medir a eficácia não apenas do quanto
os indivíduos fazem bem seus trabalhos,
mas também do quanto eles colaboram
para um objetivo geral.
Existe uma resposta mais interessante,
no entanto, que é que você pode
considerar uma organização como uma
entidade que tenta ser coletivamente
inteligente. Portanto, você pode ver uma
organização como uma forma de
inteligência coletiva. E exatamente como
podemos medir o grau de inteligência
das pessoas individualmente, um dos
projetos de pesquisa interessantes que
estamos conduzindo aqui no MIT,
financiado em parte pela Cisco, envolve a
tentativa de medir a inteligência coletiva
de grupos e organizações. Acreditamos
que seja possível aplicar algumas das
técnicas e conceitos usados para medir a
inteligência individual na medição da
inteligência de um grupo.
Acho que uma das formas mais
interessantes de medir a eficácia da
colaboração é medir a inteligência que
resulta das tecnologias e das técnicas de
colaboração que uma empresa inteira
usa. Isso sugere, por exemplo, que nós
não só queremos medir indicadores
como qual o lucro que eles obtiveram?
Ou, quantos aparelhos eles fabricam por
mês? Também queremos ser capazes
de medir o quanto a organização foi
responsiva em situações de mudança.
Com que rapidez eles conseguem
aprender a fazer as coisas, não só
simplesmente fazer, mais fazer com mais
eficiência? Portanto, acho que esse é um
aspecto sutil, mas cada vez mais
importante que podemos começar a
medir para avaliar o quanto a
colaboração é eficaz.
É possível para muito mais
pessoas colaborar em
distâncias bem maiores
com um número bem maior
de pessoas ao mesmo
tempo do que jamais foi
possível em outros períodos,
devido às novas tecnologias
da informação.
– Professor Thomas W. Malone
ETL: As pessoas são mais produtivas
quando trabalham em projetos pelos
quais elas se interessam?
Thomas Malone: Sim. Acho que na
maioria dos casos. Nós humanos quando
estamos empolgados com alguma coisa,
quando pensamos no assunto como
nosso em vez de algo que alguém está
nos obrigando a fazer, costumamos nos
sentir bem mais motivados. Somos mais
criativos. E se o tipo de trabalho puder
ser ajudado pela motivação e pela
criatividade, isso costuma se refletir em
maior produtividade.
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As pessoas podem fazer coisas que as
empolgam. Mas para aumentar a
produtividade, elas precisam fazer isso
de uma forma que também contribua
para o objetivo geral da empresa. Sem
isso, sem os incentivos corretos ou as
informações corretas, elas podem fazer
coisas que as deixam empolgadas, mas
cada um estará tomando uma direção
diferente, portanto não haverá nenhuma
coerência geral, nenhum benefício para a
organização. Mas a tecnologia, quando
usada com inteligência e com incentivos
apropriados e assim por diante, pode nos
proporcionar tanto paixão como
coerência.
ETL: Quais são as maiores barreiras
para uma colaboração eficaz?
Thomas Malone: Acredite ou não, as
maiores barreiras para a colaboração não
são técnicas. Na minha opinião, elas são
humanas. Duas pessoas que não querem
conversar uma com a outra continuarão
sem conversar mesmo que você lhes
ofereça excelentes telefones de voz
sobre IP, e um fantástico programa de
email e todos os outros tipos de
ferramentas de colaboração. Sei que é
um clichê, mas as pessoas costumam
dizer que a parte humana é que é difícil.
Acredito que isso seja verdade neste
campo. Acho que descobrir como
estabelecer relacionamentos humanos
adequados, o tipo certo de expectativa
cultural e, talvez mais importante ainda,
os tipos certos de incentivos, essas sim
sejam as maiores barreiras para uma
colaboração efetiva.
ETL: Você teria alguma consideração
final sobre o futuro da colaboração e da
inteligência coletiva?
Thomas Malone: Sim. Tenho duas. A
primeira é que as tecnologias sobre as
quais estamos falando hoje nos
permitem colaborar, não apenas dentro
de uma única organização ou entre
algumas organizações, ou mesmo entre
alguns milhares de organizações, elas
também nos permitem colaborar em
escala global.
E acho que uma das coisas mais
interessantes que podemos fazer é
tentar aproveitar a inteligência coletiva
de toda a nossa espécie para descobrir
como resolver problemas importantes
como mudança climática global ou
pobreza, entre outras coisas.
Próximos passos
Essa entrevista foi editada devido a
limitações de espaço. Visite
cisco.com/go/etl-maloneinterview para
acessar os vídeos em que o Professor
Malone aborda o assunto em mais
detalhes e oferece alguns dos seus
exemplos preferidos de colaboração.
Para saber mais sobre o
conteúdo com a equipe do Cisco
Executive Thought Leadership, vá para
cisco.com/go/etl.
Visite o MIT Center para
Inteligência Coletiva em
http://cci.mit.edu.
Ainda mais profundo do que isso, acho
que as escolhas que fazemos como
indivíduos enquanto vivemos nossas
vidas e fazemos nosso trabalho nas
próximas décadas provavelmente terão
um impacto bem maior do que
percebemos na criação do mundo em
que vivemos e em que nossos filhos e os
filhos de nossos filhos viverão pelo
restante do século. Portanto, se
optarmos por fazer essas escolhas com
inteligência, acho que precisamos pensar
com mais profundidade do que
costumamos sobre o que realmente
queremos e que tipo de mundo
gostaríamos de criar.
Artigo do Thoughtleaders (segundo trimestre 2008) • Copyright © 2008 Cisco Systems, Inc. Todos os direitos reservados. • cisco.com/go/thoughtleaders
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