FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS
Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil- CPDOC
Mestrado Profissional em Bens Culturais e Projetos Sociais
Andréa Maria Abreu Borges
A dois passos do paraíso? Análise sobre a construção da favela
Paraisópolis (São Paulo-SP) como destino turístico
Rio de Janeiro, março de 2012
Andréa Maria Abreu Borges
A dois passos do paraíso? Análise sobre a construção da favela
Paraisópolis (São Paulo-SP) como destino turístico
Dissertação apresentada como requisito para
obtenção do título de Mestre ao Mestrado
Profissional em Bens Culturais e Projetos
Sociais da Fundação Getúlio Vargas, FGV-RIO.
ORIENTADORA: Professora Doutora Bianca Freire-Medeiros
Rio de Janeiro
2012
DEDICATÓRIA
A minha mãe Vitalina Santana Abreu Borges
Ao meu pai Baltazar de Sousa Borges (in memorian)
AGRADECIMENTOS
A Deus, por ter criado tudo.
A minha orientadora e amiga, Bianca Freire-Medeiros, pela acolhida,
puxões de orelha, discussões, empurrões e por me ajudar a descobrir minha
afinidade e paixão pelo estudo antropológico do Turismo, mais precisamente o
turismo na favela.
Agradeço especialmente a cada membro da banca: a Mariana
Cavalcanti por seus valiosos ensinamentos acerca dos métodos e técnicas da
pesquisa qualitativa. A Lia Rocha, pelas imprescindíveis contribuições dadas
na qualificação, essenciais para a conclusão desse trabalho. E a Celso Castro,
pelas indicações fornecidas em sala de aula sobre pontos a serem analisados,
nessa pesquisa. E aos três, pela disposição em fazer parte da minha banca.
Aos amigos conquistados em Paraisópolis: Estevão, Edilene, Antenor,
Rui. E em especial Berbela, pela alegria de sempre e pelo cuidado dispensado
a mim quando estava em campo.
À equipe do CPDOC/FGV, pelo apoio e trocas de ideias.
Às professoras Dulce Pandolfi, Christiane Jalles e Lucia Lippi, pela
participação essencial na minha formação ao longo do mestrado.
A minha “pãe”, mulher, batalhadora, militante. Que me legou a vida, a
garra e a sensibilidade.
Aos meus irmãos, Alexandre, Mônica e Denise por me apoiarem em
tudo. Ao meu sobrinho Pedro Vitor, que, com sua presença doce e inocente me
encanta e me acalma.
A meus primos, tios, vizinhos, parentes e amigos, que ficaram “do lado
de lá”, torcendo por mim.
Aos novos amigos que o Rio de Janeiro me deu de presente, em
especial: Thaís, Isabela (s), Roberta, Maria Angélica, Stephane, Helena, Mário
(s), Lui, Serginho, Larissa, Êla, Chiara, Elenilda, Paulinha e Mafalda.
A, Tales Américo, que sempre esteve ao meu lado. Virou noites
revisando textos, lendo e debatendo ideias.
Resumo:
Essa dissertação versa sobre a construção da favela Paraisópolis (São PauloSP) como destino turístico. Estevão, Berbela e Antenor, moradores da favela,
realizam “trabalhos artísticos” que compõem o elemento principal da
atratividade turística de Paraisópolis. A partir do trabalho de campo, do tipo
observação participante, descrevo os posicionamentos divergentes dos
artistas, guias de turismo e a União de Moradores de Paraisópolis. Aponto que
esses posicionamentos geram disputas simbólicas e relações de poder entre
os diversos atores envolvidos no processo de transformação de Paraisópolis
em um destino turístico. A intenção principal é entender como esse processo é
perpassado por conflitos, tanto de ordem econômica quanto de ordem política
e ideológica. A perspectiva de análise tem como enfoque central as visões em
disputa sobre o turismo e as práticas que as tomam por base. Assim, procuro
entender como os valores e práticas locais se articulam com ações e discursos
exógenos voltados para o desenvolvimento do turismo.
Palavras-chaves: Paraisópolis, turismo, favela, relações, conflito
Abstract:
This thesis deals with the construction of the Paraisópolis slum (São Paulo-SP)
as a tourist destination. Estevão, Berbela and Antenor, slum dwellers, perform
"artworks" which represent the main element of the tourist attractiveness of
Paraisópolis. From the field work, as a participatory observation, I describe the
divergent attitudes of artists, tourist guides and the Residents' Union of
Paraisópolis. I point that these attitudes generate symbolic disputes and power
relations among the actors involved in the process of transformation of
Paraisópolis into a tourist destination. The main guideline is to understand how
this process can be affected by conflicts, whether due to political, economic or
ideological issues. The perspective of analysis focuses on the central disputed
views on tourism and the practices in which are based on. Thus, I am trying to
understand how the local values and practices are articulated with exogenous
speeches and actions geared to the development of tourism.
Keywords: Paraisópolis, tourism, slum, relationships, conflict
Sumário
1. Introdução............................................................................................. 09
2. Paraisópolis: o paraíso em meio à selva de pedras......................... 14
2.1 E a violência?................................................................................... 19
2.2 Como encontrar o paraíso?............................................................. 26
2.3 O paraíso pode ser na favela?......................................................... 29
3. Bem-vindos ao paraíso........................................................................ 38
3.1 Estevão........................................................................................... 41
3.2 Berbela........................................................................................... 50
3.3 Antenor........................................................................................... 56
3.4 Flavia Liz – o psicopompo de Paraisópolis.................................... 60
4. Turismo, a “salvação”?..................................................................... 75
4.1 Afinal, de quem são as chaves do Paraíso?................................. 82
4.2 Novas possibilidades para o turismo em Paraisópolis.................. 92
5. Comentários Finais............................................................................ 96
6. Referências bibliográficas................................................................ 100
9
1. Introdução:
Fiz parte da segunda turma de Turismo da Universidade Estadual do
Piauí e, desde meu ingresso no curso, tenho me interessado pelos aspectos
antropológicos e sociológicos próprios da prática do turismo. O trabalho da
minha orientadora Bianca Freire-Medeiros sobre o turismo na favela me
despertava grande interesse, mas não via como trabalhá-lo. O período de
dúvidas sobre o que desenvolver na dissertação coincidiu “divinamente” com o
período em que surgiram na internet notícias relatando que o turismo começara
a ser realizado na favela de Paraisópolis, localizada na cidade de São Paulo.
Resolvi investigar essas informações e, depois de algumas dificuldades
narradas ao longo do trabalho, decidi-me por estudar o turismo, esse novo
fenômeno.
A atividade turística em Paraisópolis ainda é incipiente. Nenhum trabalho
acadêmico tendo as práticas turísticas em Paraisópolis como objeto de estudo
havia sido realizado; portanto, sofri as desvantagens e vantagens de se realizar
um estudo que foi, em certa medida, pioneiro. A desvantagem foi ter começado
praticamente do zero, ter poucas referências, porém isso representou um
desafio maior que impulsionou minha curiosidade por saber mais sobre o
campo. A vantagem é que pude estabelecer meus próprios pressupostos sobre
o local e sobre os aspectos a serem considerados na pesquisa, sem que
houvesse a preocupação de pesquisar trabalhos anteriores para saber se algo
já havia sido analisado da mesma forma. Considero-me afortunada também por
ter chegado a Paraisópolis no momento “inicial” do desenvolvimento da
atividade turística e por acompanhar de perto os seus primeiros passos (por
isso o título do trabalho: A dois passos do paraíso? Análise sobre a construção
da favela Paraisópolis (São Paulo-SP) como destino turístico) que, espero,
sirvam de contribuição para pesquisas futuras.
***
Há cerca de seis anos a favela de Paraisópolis passou a receber, com certa
frequência e em números ainda pouco expressivos, a presença de um grupo de
indivíduos – os turistas. Esses indivíduos procuram a favela de Paraisópolis a
fim de conhecer Berbela, o mecânico que cria veículos e objetos com ferro
10
velho de sua oficina; Estevão, o jardineiro que constrói sua exótica casa a partir
de uma estrutura de concreto (que lembram os galhos de uma roseira) com
vários objetos incrustados; e Antenor, o pedreiro aposentado, que adiciona
garrafas PET à estrutura de sua casa. Esses são os “artistas” que moram na
favela e desenvolvem os trabalhos que conferem atratividade turística a
Paraisópolis.
Os turistas, porém, não chegam sozinhos aos artistas, eles são levados
por mediadores que estabelecem o contato entre visitantes e visitados. Em
Paraisópolis essa mediação é feita, basicamente, por guias de turismo e pela
União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis – UMP. Guias, UMP,
visitantes e visitados desempenham papéis diferentes e decisivos na
construção de Paraisópolis como destino turístico. O contato entre esses
diferentes agentes sociais produz um espaço de relações que é tão real quanto
o espaço geográfico; cada agente social possui posição nos diferentes campos
e cada campo social tem uma lógica e hierarquia próprias, conforme suas
diferentes espécies de posse de capital, (BOURDIEU, 2007). Observando o
desenrolar de relações no espaço de Paraisópolis – a propósito de sua
construção como destino turístico –, esse estudo tem como objetivo central
entender o que tem sido selecionado e o que tem sido “apagado” no processo
de construção de Paraisópolis como destino turístico e quem são os atores que
reivindicam,
a
partir
de
questionamentos,
práticas,
disputas
e
representabilidades, a apropriação do lugar.
A metodologia aplicada para o desenvolvimento desse trabalho
consistiu-se de períodos de trabalho de campo sob uma perspectiva
antropológica, fundamentada em métodos qualitativos, abrangendo observação
participante, entrevistas, análise de artigos publicados na internet e leituras de
textos e publicações acerca do objeto em questão.
Meu trabalho de campo dividiu-se basicamente em duas etapas. Na
primeira delas realizei o (re) conhecimento do campo; fui apresentada aos
artistas da favela por Flavia Liz, “guia de luxo” que realiza passeios em
Paraisópolis. Nessa fase pude observar de perto a relação guia/visitados
permeada de várias peculiaridades, expostas ao longo do texto.
11
A segunda – e mais importante – foi marcada pelo aprofundamento das
relações entre mim e os artistas. Realizei entrevistas, observei aspectos do
cotidiano e tive um sem-fim de conversas informais que me fizeram perceber
suas opiniões sobre os mais variados assuntos, relacionadas ou não ao
campo. Nessa fase também pude observar as expectativas que a UMP
deposita nos artistas, através de uma suposta representabilidade política
conferida a eles. Além de perceber, com a entrada de uma nova agência
fazendo o passeio, o surgimento de novas possibilidades para o turismo em
Paraisópolis.
Preferia ir a campo por volta do meio-dia, passava na oficina de Berbela,
minha primeira parada (nesse horário o movimento era mais fraco);
cumprimentava-o rapidamente e saía para almoçar ali perto. Um dia Berbela
me perguntou por que nunca o convidava para almoçar; a partir de então
almoçamos juntos repetidas vezes. Os almoços eram sempre muito divertidos,
mas em meio às bobagens, Berbela fazia comentários interessantes relativos
ao campo. Certa vez, em um desses comentários, aproveitei que ele estava
distraído e saquei discretamente meu caderno de campo da bolsa e comecei a
fazer anotações. Berbela percebeu e tomou-me rapidamente: “agora eu vou
descobrir os teus segredos! O que tu tanto escreve aqui?” Não fiz nenhum
esforço para reaver o caderno, Berbela continuou:
“Deixa isso aqui comigo, agora a gente tá comendo, não é hora de
estudar, aposto que tem várias coisas do que eu digo aí nesse teu
caderno, mas não tem problema não, sei que só tem coisas boas, por
que a gente é amigo, e amigo não fala mal do outro”.
As palavras de Berbela me impressionaram por demonstrar um
sentimento de confiança que não esperava, considero essa amizade um
presente proporcionado pela pesquisa de campo.
A finalização da pesquisa coincidiu com o período de eleições na UMP; o
clima de disputa política na favela era tenso, duas chapas estavam
concorrendo. Havia carros de som, panfletos, faixas e podiam-se ouvir os
“debates” por onde se passava. Alguns dias antes da minha última ida a
campo, ocorreu um tiroteio entre traficantes e policiais em uma das entradas da
favela; os moradores ficaram alvoroçados, eles afirmavam que as pessoas
12
envolvidas não eram da favela e que esse tiroteio estava “mal explicado”.
Percebi um clima diferente na localidade, talvez influenciada pelos rumores e
pela tensão estabelecida por conta do tiroteio e pela realização das eleições;
confesso que ao terminar fiquei aliviada e com a certeza de que a pesquisa
tinha terminado no momento certo.
***
Para apresentar a discussão proposta nesse trabalho apresento esta
dissertação dividida em três capítulos:
No capítulo 1 recupero em linhas gerais o histórico de formação da
favela de Paraisópolis e apresento a ordem social existente na favela
atualmente. Faço breve explanação sobre a associação (que se faz através do
imaginário coletivo) entre a busca de um “paraíso perdido” e a prática de
atividades turísticas. O fio condutor da explanação será o livro da turismóloga
Sabáh Aoun, A procura do paraíso no Universo do Turismo (2003). Com base
nas características necessárias para que uma determinada modalidade de
turismo se assemelhe a uma experiência de “paraíso”, sugeridas por Sabáh,
apresento
algumas
assemelham-se
ao
interseções
turismo
que,
realizado
surpreendentemente
em
áreas
de
(ou
não),
pobreza,
mais
especificamente no turismo de favelas. Para tecer essa trama utilizo como
principal fonte de pesquisa o livro produzido por Bianca Freire-Medeiros,
Gringo na laje (2009).
No capítulo 2 apresento Berbela, Estevão e Antenor, os “artistas” que
moram na favela e desenvolvem os trabalhos que conferem atratividade
turística a Paraisópolis e os seus posicionamentos em relação ao
desenvolvimento do turismo em seu lugar de moradia. Apresento, também,
Flavia Liz, o “psicopompo”, habilitado a levar os turistas à cidade do paraíso e
que tenta “organizar” o paraíso a fim de “melhor” receber os visitantes.
No último capítulo faço uma retomada de minhas entradas em campo,
detalhando as técnicas de pesquisa utilizadas. Descrevo atores envolvidos e
exponho os conflitos provocados pelo convívio de lógicas, valores e práticas
13
diferentes, num contexto em que decisões são tomadas e ações são
empreendidas em nome do turismo.
14
2. Paraisópolis: o paraíso em meio à selva de pedras
Localizada em área nobre do bairro Morumbi, em São Paulo-SP, entre
as avenidas Giovanni Gronchi e Morumbi, está Paraisópolis, considerada a
segunda maior favela da cidade, com aproximadamente 800.000 metros
quadrados e uma população ente 80.000 e 100.00 habitantes 1. Divide-se em
cinco regiões: Grotão, Grotinho, Centro, Antonico e Brejo.
Fonte: Levantamento da Secretaria de Habitação – HAGAPLAN – 2005. Disponível em Levantamento da Secretaria de
Habitação - 2005. Disponível em http://paraisopolis.org/arquivos/2008/05/Paraisopolis_Final.pdf
A quantidade de moradores, dita anteriormente, baseia-se nas
estimativas das diferentes entidades políticas locais juntamente com o
levantamento da Secretaria de Habitação de São Paulo – HAGAPLAN,
realizado em 2005. O último Censo realizado em 2010 traz em seu resultado
um número inferior de moradores (apenas 42.826 habitantes), fato visto com
preocupação por representantes políticos de Paraisópolis, segundo Joildo
Santos – Vice-presidente da União dos Moradores e do Comércio de
Paraisópolis – “A divulgação de informação populacional incorreta pode
acarretar vários problemas para as comunidades, a começar pela elaboração
de políticas públicas, que leva em conta as estatísticas oficiais”.
1
Fonte: Levantamento da Secretaria de Habitação - 2005. Disponível em:
http://paraisopolis.org/arquivos/2008/05/Paraisopolis_Final.pdf. Acesso em 18/04/2011
15
Algumas das maiores favelas do Brasil também tiveram seus números
mal contabilizados, apontando a favela da Rocinha, por exemplo, com apenas
70.000 habitantes, quando na realidade somam aproximadamente 125.000. O
próprio IBGE afirma que há a possibilidade de que algumas comunidades
sejam maiores do que os números indicam, já que os critérios utilizados
tiveram como base cadastros da prefeitura, como divisão legal, e em várias
áreas das cidades estes dados podem estar defasados 2.
Segundo o site da União de Moradores de Paraisópolis – UMP, Grotão,
Grotinho, Brejo e algumas áreas do entorno do campo Palmeirinha
(representadas no mapa acima por Grotão, Grotinho, Brejo e uma parte do
Centro), foram desconsideradas pela pesquisa. Segundo a UMP, essas regiões
juntas somam quase metade dos domicílios da favela 3.
Fonte IBGE:http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/aglomeradossubnormais
/tabelas_pdf/tab1.pdf
O Censo do IBGE de 2010 enquadrou Paraisópolis na categoria
denominada “aglomerados subnormais”, termo formal utilizado pelo instituto
para designar as áreas que concentram no mínimo 51 domicílios carentes de
2
Fonte: http://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/noticias/rocinha-e-a-maior-favela-do-brasil-afirmaibge-20111221.html . Acesso em 07/10/2011
3
Fonte: http://paraisopolis.org/ibge-divulga-levantamento-impreciso-sobre-populacao-deparaisopolis/ Acesso em 10/10/2011
16
serviços públicos essenciais – como saneamento básico e energia elétrica –
que tenham ocupado, até período recente, terreno de propriedade alheia –
pública ou particular – e que estejam dispostos de forma “desordenada e
densa”, incluindo-se invasões, grotas, baixadas, comunidades, vilas, ressacas,
mocambos, palafitas, entre outros assentamentos irregulares para o conjunto
do País, Grandes Regiões, Unidades da Federação e municípios 4.
A região do Morumbi, onde está localizada Paraisópolis, no século XIX e
talvez até mesmo antes, fazia parte de uma grandiosa fazenda produtora de
café, a fazenda Morumbi 5. Durante muito tempo a fazenda foi herdada por
várias gerações, e em um dado momento, já no início do século XX, os
herdeiros, por algum motivo, não mais reivindicaram a posse das terras,
resultando no seu loteamento pelo governo. Os proprietários dos lotes não os
ocuparam e no início da década de trinta começaram a ser invadidos por
japoneses que fundaram ali pequenos sítios para criação de suínos. A
apropriação em massa acontecera em dois momentos, primeiro na década de
1950 e depois entre os anos de 1970 e 1975, em sua maioria por migrantes
advindos do Norte-Nordeste do Brasil. Os períodos de intensa apropriação
coincidem com o desenvolvimento urbano-imobiliário do bairro Morumbi,
merecendo destaque a construção do Estádio do Morumbi e do Hospital Albert
Einstein em 1953 e 1971, respectivamente (SARMENTO, 2003).
Paraisópolis, hoje, conta com cerca de 60 instituições (governamentais e
não governamentais), número contabilizado em 2010 através de um trabalho
conjunto realizado através da Prefeitura de São Paulo, UMP e Rádio Nova
Paraisópolis. O trabalho agrupou as instituições nos seguintes setores:
equipamentos educacionais, cooperativas de trabalho, associações de
moradores e equipamentos de saúde.
4
Fonte:http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/
aglomerados_subnormais/default_aglomerados_subnormais.shtm . Acesso em 22/01/2012
5
Existem pouquíssimos dados escritos que comprovem a trajetória do que hoje é Paraisópolis.
Durante a pesquisa reuni apenas um livro de romance ambientado na favela Paraisópolis –
Caminhos de Vida e Morte (SARMENTO, 2003), que traz um pouco da história, um pequeno
trabalho contendo relatos orais e entrevistas colhidas durante a pesquisa, ferramentas que uso
para contar um pouco de Paraisópolis.
17
Fonte: http://paraisopolis.org/forum-multientidades-de-paraisopolis/quem-somos/
Em “O nascimento de uma comunidade” 6, a história de Paraisópolis é
contada através do relato de sete moradores, dos quais o mais antigo chegara
no ano de 1957. As histórias são variadas, mas com muitos traços confluentes,
por isso as apresentarei de forma breve, pontual e sem identificação dos
relatantes:
A presença inicial dos japoneses:
“Havia uma chácara de um japonês, foi bem no período em que eu
cheguei, os policiais estavam desmanchando uma divisão que tinha
entre a minha casa e a casa dele, o policial perguntou se eu queria
6
Trabalho apresentado à Universidade Presbiteriana Mackenzie, como projeto realizado por
alunas do curso de Psicologia Comunitária, que visava conhecer a história oral dos moradores
mais antigos de Paraisópolis, a fim de divulgar esses “contos” aos mais jovens.
18
ajudar, eu fui porque ai melhorou meu terreno eu tinha vacas e ficou
tudo aberto, assim elas podiam pastar”.
O trabalho nas obras do vizinho Morumbi:
“A gente trabalhava nas obras aqui perto, e como não tinha lugar para
colocar o entulho, eu trazia tudo pra cá, eu até aterrei um lago que
havia ali na frente”.
A condição precária das ruas e a falta de saneamento:
“Aqui quando chovia tudo virava lama, o lixo a gente enterrava porque
diziam que era bom para as plantas e o banheiro era uma fossa que
cavávamos de qualquer jeito, em qualquer lugar”.
Ausência de energia elétrica:
“Usávamos luz de lampião, geladeira a gás, isso por vezes
ocasionava pequenos incêndios aqui, quem tinha dinheiro comprava
postes, que só podiam ser instalados em terrenos particulares a
energia era bem fraquinha por isso a imagem da televisão ficava um
quadradinho pequeno no meio da tela, só melhorava tarde da noite,
quando a maioria das pessoas desligava pra dormir”.
Miséria e segregação social:
“Parece piada, mas não é, na escola cozinhavam aquele panelão de
sopa com lentilha e um talhinho de couve, faziam uma lata de
lavagem bem grande, mas a gente comia com uma vontade, ou era
aquilo ou era nada... O problema era que a escola municipal, além de
ser longe não tinha vaga pra todo mundo, ai tinha uma escola
particular mais longe ainda, na Giovanni Gronchi que cedia um
espaço pra estudarmos no mesmo lugar dos ricos, mas estávamos
longe de ser com eles... Só depois construíram uma escolinha e
mesmo para ir pra lá, era tudo muito mato”.
Tempos bons que não voltam mais:
“Quando a gente era pivetinho e começou a bater perna por aí nós
tínhamos medo de ir aos fazendões, eram as casas abandonadas da
fazenda, o meu finado pai disse que os escravos ali sofreram muito e
por isso ficou assombrado, mas a gente era criança, ficava com
medo, mas mesmo assim voltava, era a nossa aventura... Tinha
também uma chácara de peras, o dono dizia que não vendia, não
dava e não deixava roubar, nós ficávamos esperando, quando ele
não estava a gente entrava chacoalhava e pegávamos as frutas que
caiam no chão...A rua era muito tranquila, a gente brincava de tudo,
jogava bola, os adultos ficavam conversando e depois a gente ia
tomar banho no laguinho que tinha com moinho e tudo, era muito
bom...”
19
2.1 E a violência?
Falar em favela, aglomerados subnormais, territórios marginais ou
muitos outros adjetivos utilizados para qualificá-la, traz em seu bojo visões
estereotipadas ou nos termos de Valladares, (1999): dogmáticos. No artigo Que
favelas são essas, a socióloga aponta os três dogmas que inspiram os
pensamentos dos que olham de fora a favela: especificidade – a favela é o
diferente por excelência. “Os geógrafos chamam atenção para o diferencial da
ocupação irregular do território, os arquitetos ressaltam as construções e o
urbanismo que foge à racionalidade arquitetônica [...]”. (p.65). Lócus da
pobreza – praticamente o habitat dos pobres, “como território da pobreza, a
favela passa a símbolo do território dos problemas sociais”. Por fim a unicidade
– à favela é dado um tratamento único, o termo favela é pouco relativizado,
analisa-se a favela e não as favelas.
Os dogmas apresentados por Valladares parecem ser os “ingredientes”
para a formação do elemento que, arrisco em dizer, vem a ser o maior foco da
visão estereotipada e tema “obrigatório” quando se estuda favelas: a violência.
Como explica Machado da Silva (2008), na introdução do livro Vida Sob Cerco
- coletânea organizada por Luiz Antônio Machado da Silva que traz artigos
relativos à violência e rotinas nas favelas do Rio de Janeiro.7
[...] O antigo fantasma das classes perigosas agora reencarna na
ameaça representada pela violência criminal, que é rotineira e,
portanto, “próxima”, personalizada. O medo correspondente não é
mais, como antes, de uma revolta popular capaz de abalar a
dominação burguesa, nem do contágio da (i) moralidade derivada de
uma suposta desorganização familiar tipicamente atribuída aos mais
pobres. O medo se reifica e se especializa nos perigos imputados aos
territórios de pobreza, cujo caso exemplar na representação popular
são as favelas, vistas como lugares prenhes de violência
descontroladas. [...] Toda a população moradora de favelas passou a
ser vista como composta por bandidos, em razão da contigüidade
territorial inescapável com a minoria que integra os bandos armados.
Emparedada, vive uma vida sob cerco. (p.14)
7
Ao longo da minha explanação sobre Paraisópolis, utilizarei análises e referências contidas
em Vida Sob Cerco. Optei por usar Vida Sob Cerco, mesmo trazendo como objeto de estudo o
Rio de Janeiro, primeiro porque em algumas passagens existem referências às favelas
brasileiras de modo geral, segundo porque ao longo de minha pesquisa não encontrei estudos
que servissem de referência para o caso específico da “sociabilidade em favelas paulistanas ou
em Paraisópolis” e por fim, em vários momentos as descrições, entrevistas e observações
contidas nos artigos do livro apresentaram-se similares às minhas observações em campo.
20
Infelizmente, Paraisópolis não fugiu à “regra” de ser uma favela
dominada, em certa medida, por algumas “modalidades” de violência. Em todos
os depoimentos contidos nos relatos “O nascimento de uma comunidade”, os
moradores fazem um apanhado do passado e descrevem um pouco do
presente.
Nas
narrativas
do
presente
estão
contidas,
basicamente,
comparações relativas ao melhoramento de toda a infraestrutura de
Paraisópolis, mesmo com a nostalgia dos bons momentos vividos no passado:
“Mas pensando hoje Paraisópolis pelo que era há 30 anos, aqui é o
paraíso, falando sério, aqui ninguém mexe com ninguém, quem
trabalha, trabalha, quem não trabalha vive do jeito que quiser.
Ninguém mexe com ninguém”.
Notei que nesses depoimentos, nenhuma referência ou relato foram
feitos em relação à violência – passada ou presente, explico: durante a
pesquisa fiz pessoalmente entrevistas com alguns moradores antigos de
Paraisópolis, seus relatos sempre eram introduzidos por uma rápida
comparação com o passado: “Aqui à vista do que era antes é bom demais...” e
continuavam descrevendo os problemas estruturais, mas sempre trazendo a
violência como pano de fundo das suas narrativas:
“O grupo de cima vivia em confronto com o de baixo, havia muita
morte, quase todo dia tinha um dois cadáveres, era uma matança
danada, hoje aqui não é perigoso, pra quem não mexe com ninguém
que não se mistura com as coisas erradas, aqui eles não matam
ninguém, mas “eles” (referindo-se aos traficantes) têm um poder sim,
outro dia mesmo aqui na frente eu vi, um deles pegou um moleque e
falou: – “Tô sabendo que tu tá bagunçando na escola, se eu souber
de mais uma reclamação tua, eu te encho de porrada e mato teu pai”
(D, morador a 27 anos).
Enquanto entrevistava D, sua esposa, dona R, o repreendia para que
não falasse sobre os casos da “violência do presente”. Pude observar em
outros momentos a mesma repreensão vinda das “esposas” – talvez por estas
serem mais cautelosas em relação a isso, conto um caso: estava entrevistando
Estevão
8
, minhas perguntas eram relativas ao seu trabalho “artístico”,
perguntei como era morar em Paraisópolis e ele se adianta em dizer que é
8.
Apresento Estevão no próximo capítulo, onde falarei sobre os artistas da favela.
21
muito bom, fora os últimos acontecimentos; nesse momento, Edilene, sua
esposa, o repreende:
“Não fala disso Estevão, ela está gravando”.
Estevão continua:
“Eu sei que ela está gravando, mas não estou falando nada demais,
nenhuma mentira, tá acontecendo mesmo e eu não tenho nada a ver
com isso, então posso falar.”
Estevão se referia a uma onda de assaltos e confrontos com policiais
que estavam ocorrendo nas proximidades de Paraisópolis, e que segundo ele,
era a causa da redução no número de visitas à sua casa. Depois, já em
conversa informal com o gravador desligado, Edilene continuou falando sobre
esses incidentes, afirmando que as pessoas envolvidas não eram de
Paraisópolis e que a polícia culpava os moradores apenas por morarem
próximo ao acontecido. Investiguei com outros moradores e através de uma
busca na internet 9 e ao que tudo indica os envolvidos eram mesmo de lá.
Michael Pollak, em seu ensaio intitulado Memória, Esquecimento e
Silêncio, expõe, através de exemplos, várias formas em que a história
individual ou de um determinado grupo pode ser contada por eles mesmos ou
por terceiros e, dessa forma, extrai algumas pistas que podem nos sugerir o(s)
porquê(s) da ausência dos relatos sobre a violência nas narrativas contidas em
“O nascimento de uma comunidade”. O livro expõe em sua apresentação a
seguinte justifica para elaboração:
E quando escolhemos o estágio em psicologia comunitária na
Universidade Presbiteriana Mackenzie, escolhemos o estágio na
comunidade de Paraisópolis tivemos em mente o seguinte aspecto,
poder ter liberdade de propor um projeto em que visasse os anseios
de comunidade, tendo assim o privilégio de ter acesso as ruas, casas
e moradores da mesma, ou seja, não a partir de uma instituição
específica, mas sim a partir do contato com os moradores (...) um dia
ouvimos a conversa de dois moradores da comunidade, um morava
ali a 3 meses e o outro a 30 anos, o mais antigo contou algumas
histórias para os moradores mais jovens essa, história, através de um
impresso que seria distribuída a todas as instituições da região. [sic]
(p. 5-6)
9
Nesses casos, não identificarei os informantes por se tratar de situações delicadas. Notícia
disponível em: http://blogdomorumbi.com.br/?p=10917. Acesso em 08/12/2011.
22
O objetivo da publicação se resume, portanto, em deixar um legado
histórico para os mais jovens através de um estágio de Psicologia comunitária,
parecendo ter como “modelo” o que Pollak chama de “memória enquadrada”,
em seus termos:
Estudar as memórias coletivas fortemente constituídas, como a
memória nacional, implica preliminarmente a análise de sua função.
A memória, essa operação coletiva dos acontecimentos e das
interpretações do passado que se quer salvaguardar, se integra,
como vimos, em tentativas, mas ou menos conscientes de definir e de
reforçar sentimentos de pertencimento e fronteiras sociais entre
coletividades de tamanhos diferentes: partidos, sindicatos, igrejas,
aldeias, regiões, clãs, famílias, nações etc. A referência ao passado
serve para manter a coesão dos grupos e das instituições que
compõem uma sociedade, para definir seu lugar respectivo, sua
complementaridade, mas também as oposições irredutíveis. Manter a
coesão interna e defender as fronteiras daquilo que um grupo tem em
comum em que se inclui (como o território...). Eis as duas funções
essenciais da memória comum. Isso significa fornecer um quadro de
referências e de pontos de referência. (p.9)
A herança de um passado coletivo com “boas recordações”, pelas
razões elencadas acima, pode ter sido determinante na organização da
memória coletiva dos entrevistados no relato. Pollak, (1989), explica que ao
serem contadas histórias, historiadores ou outros profissionais se valem de
algumas ferramentas. Quando há intenção por parte desses em alcançar
objetivos pessoais ou de um determinado grupo, a ferramenta utilizada é o
enquadramento de memória. Por outro lado, há que se considerar também os
entrevistados como “agentes” na construção dessa memória, como continua
Pollak:
Em face de alguma lembrança traumatizante, o silêncio parece se
impor a todos aqueles que querem evitar culpar as vítimas (ou a
si). E algumas vítimas, que compartilham essa mesma lembrança
"comprometedora", preferem, elas também, guardar silêncio. Em
lugar de se arriscar a um mal-entendido sobre uma questão tão
grave, ou até mesmo de reforçar a consciência tranqüila e a
propensão ao esquecimento dos antigos carrascos, não seria melhor
se abster de falar? (...) mesmo no nível individual o trabalho da
memória é indissociável da organização social da vida. Para certas
vítimas de uma forma limite da classificação social, aquela que quis
reduzi-las à condição de "sub-homens", o silêncio, além da
acomodação ao meio social, poderia representar também uma recusa
em deixar que a experiência do campo, uma situação limite da
experiência humana, fosse integrada em uma forma qualquer de
"memória enquadrada" que, por princípio, não escapa ao trabalho de
definição de fronteiras sociais. Como se esse sofrimento extremo
exigisse uma ancoragem na memória muito geral, a da humanidade,
uma memória que não dispõe nem de porta-voz nem de pessoal de
enquadramento adequado. (p.8-12)
23
No caso específico da violência, a indissociação da organização social
da vida parece exercer papel fundamental no silenciamento ou no medo que os
relatantes têm em falar sobre esse aspecto de sua memória, sobretudo porque
a “violência do presente” exerce forte influência nas relações sociais dos
indivíduos que habitam locais regidos por uma certa ordem “oculta”. É o que
Machado da Silva, (2008), caracteriza como “violência urbana” – um complexo
de práticas sociais que ganham sentido para os atores (e não para um
observador independente) que incorpora todos os tipos de atitudes e condutas
capazes de romper a “normalidade” do cotidiano (superficial, pontual ou
continuamente), agindo em seus aspectos cognitivo, instrumental e moral. A
“violência urbana” é mais do que uma simples descrição neutra; no mesmo
movimento em que identifica relações de fato, aponta aos agentes modelos
com níveis mais ou menos obrigatórios de conduta, contendo, portanto, uma
dimensão prática normativa institucionalizada, ainda que informalmente. A
“violência urbana” é uma categoria coletivamente construída para identificar um
complexo de práticas do qual a força é o principal meio de obtenção de
interesses; além das condutas ela identifica um ator, ou seja, reconhece a
presença de uma ordem social
10
. Essa conjuntura constrói uma massa de
vítimas atuais ou potenciais, que se reconhecem como participantes de duas
ordens sociais coexistentes, expressando de maneira clara a fragmentação da
vida cotidiana nas grandes cidades brasileiras. Como exemplo disso, cito dois
episódios ocorridos em uma das minhas visitas a campo:
10
Violência e ordem social não foram focos dessa pesquisa, não os investiguei a fundo,
apenas dei ouvidos a alguns moradores que me relataram um pouco do seu dia-a-dia,
inevitavelmente se confundindo com o cotidiano da favela. Faço um breve relato de como está
configurada essa “ordem” a partir da junção de vários depoimentos: em Paraisópolis existem
sim os traficantes, eles fazem parte de um comando geral (os moradores não deram detalhes
sobre esse “comando”, e eu não julguei importante para minha pesquisa, não perguntei nada
em relação a isso); a favela é como um ponto de distribuição de drogas, os traficantes não são
autorizados pelo comando a andar armados e não intervêm em “serviços” como vans e
internet, esses equipamentos funcionam na favela de maneira “legal”. Os moradores que
correm risco são apenas os que se “envolvem com os caras”. Por meio da força, os traficantes
ameaçam, intimidam e punem os que deixam transparecer “reprovação” à sua autoridade ou
que interfiram no “bom funcionamento” da vida na favela, como será exemplificado mais
adiante. Certamente existem muitos outros detalhes e complexidades nessas relações, e mais
uma vez repito que não fiz uma investigação detalhada acerca do assunto, apenas pretendo
ambientar um pouco o leitor.
24
Estava andando por uma das ruas principais de Paraisópolis quando
11
uma moto passou em alta velocidade. Berbela , que estava comigo
no momento comentou: “isso não vai dar certo”! Minutos depois os
motoqueiros atropelaram uma criança que estava saindo da escola.
Berbela foi até o local onde o acidente aconteceu e na volta comentou
comigo: “olha, você não queria saber quem eram os “caras”, então,
são aqueles ali”, me apontando uns rapazes que carregavam a moto
do acidente. E continuou: “eles apreenderam a moto do “atropelador”
e os proibiram terminantemente de andar de moto aqui dentro, isso tá
mais do que certo”. Questionei Berbela sobre seu posicionamento,
ele explica: “tá certo sim, em um lugar desses com esse tanto de
gente morando, tem que ter alguém para colocar ordem na coisa, pra
ser uma referência”.
Em uma conversa informal na mercearia de seu Antônio, seu João,
morador de Paraisópolis há 20 anos, relata:
“Aqui hoje em dia é bom, pra quem é honesto, que não se envolve
com coisa que não presta. Aqui o problema é que a gente mora numa
região muito boa, muito visada, já me disseram várias vezes que se
chegarem com um papel pra eu não assinar de jeito nenhum porque
pode ser algo pra eu sair da minha casa, aqui é muito valorizado. Eu
não me envolvo com nada de ruim, mas tem muita gente desonesta
principalmente esses policiais que vêm aqui pra receber dinheiro dos
“caras”, isso é um absurdo, eu não confio em policial nenhum porque
eu vejo isso acontecendo aqui sempre. Pra ficar cem por cento, só
faltam duas coisas: um hospital e uma delegacia, com a delegacia
aqui ia ter polícia direto, e aí melhorava.”
As passagens relatadas acima trazem dois aspectos interessantes: o
primeiro a necessidade de haver algo que regule e imponha “ordem” na
localidade; como nesses espaços os mecanismos legais institucionalizados não
funcionam “corretamente”, deposita-se a alternativa na ordem imposta pelos
traficantes, nos termos de Machado da Silva, (2008):
Os moradores não podem confiar em uma política de segurança que
não os contempla, em agentes do Estado que neles não reconhecem
a dignidade indissociável da cidadania, não consideram nem
protegem sua vida e seus direitos (...). Essa aversão aos
procedimentos típicos da ação institucional da polícia e à conduta dos
seus agentes tem sido entendida como “conivência” com o crime
violento (...) p. 62
O segundo aspecto é o fato que ao mesmo tempo em que condenam as
atitudes “desonestas” dos policiais, expressam certa confiança ou esperança
11
Apresentarei Berbela no próximo capítulo, onde falarei sobre os artistas da favela.
25
relativa à sua presença na localidade, através da instalação de uma delegacia
que contribuiria para o melhoramento da vida em Paraisópolis.
A segurança ou a falta dela, a violência, em suas mais diversas formas,
reproduz no cotidiano de Paraisópolis uma determinada ordem que influencia a
vida dos moradores e que direta ou indiretamente forma o cenário do paraíso
que apresentarei a seguir.
26
2.2 Como encontrar o paraíso?
Por ser graduada em turismo, sempre ouvi, em diversos contextos, a
palavra paraíso, em vários discursos “técnicos” na área: “Quero passar férias
no paraíso”; “Planeje determinado local para ser um paraíso”, ou ainda, “Tal
cidade é o paraíso na Terra”, dentre outros. Os motivos pelas quais essa
denominação é com frequência utilizada não eram para mim motivo de
estranheza, pelo contrário, apresentavam-se totalmente tácitos. Decidi, então,
ir à biblioteca e reunir todas as publicações que encontrasse trazendo em seu
título a palavra “paraíso”, já que, a meu ver, se os autores utilizaram este termo,
deveriam de alguma maneira atribuir uma definição ao que de várias formas
eles estavam considerando o “paraíso”.
Dentre as 11 obras que encontrei, as mais variadas significações eram
dadas ao termo paraíso, ora se fazia referência à Amazônia, ora ao Brasil, ora
ao Rio de Janeiro, às Índias, enfim, o fato é que de todas essas obras apenas
uma se deu ao trabalho de explicar o que efetivamente é o paraíso. Trata-se da
obra de Sérgio Buarque de Hollanda (1994), Visão do Paraíso.
O seu conteúdo é composto por uma vasta explanação sobre as origens
dessa busca paradisíaca em várias religiões e crenças, dando destaque ao
mito da criação de Gênesis: Deus criou o homem e a mulher e os presenteou
com um lugar farto, belo e harmonioso, que necessitava apenas de zelo e
obediência à ordem divina para não comer o fruto proibido; porém o homem
desobedeceu a Deus e, por isso, foi expulso do paraíso. O anseio por
reencontrar esse paraíso permaneceu, e foi perpetuado entre outras crenças,
religiões e ambições, daí a busca incessante dos europeus por encontrar e
conquistar a todo custo o Novo Mundo, que em vários aspectos se assemelha
ao paraíso divino. Nas suas palavras:
“O que nele se tencionou mostrar é até onde, em torno da imagem
do Éden, tal como se achou difundida na era dos descobrimentos
marítimos, se podem organizar num esquema altamente fecundo
muitos dos fatores que presidiram a ocupação pelo europeu do Novo
Mundo, mas em particular da América hispânica, e ainda assim
enquanto abrangessem e de certa forma explicassem o nosso
passado brasileiro” p. IX
27
Passadas as explorações marítimas, conquistas, descobrimentos, onde
e como podemos, afinal, encontrar o paraíso? Como dito no início, o turismo
parece, de alguma forma, atender a essa busca.
12
É o que nos sugere Sabáh
Aoun (2003), no seu livro: A procura do paraíso no universo do turismo:
O turismo, hoje, transforma a idéia de paraíso perdido numa forma
terrena e atraente ao alcance de todos. Ele a vende no presente, por
meio de novas e atualizadas formas de discurso. Ressurge, assim, o
turismo como mago que, com poderes especiais, consegue promover
o encontro do homem com o paraíso [...]
Mas a autora aponta o diferencial entre o paraíso do Gênesis e aquele
comercializado pelo turismo:
[...] O paraíso aqui oferecido não é o do estado perfeito e harmonioso,
mas sim o jardim das delícias, feitos na medida e ao gosto de
qualquer pessoa disposta a aventurar-se, a romper com seu
cotidiano, dando vazão aos desejos e às mais extravagantes
fantasias, pois de lá não é expulso, ao contrario, permanece-se e
desfruta-se de tudo o que ele pode oferecer. Nele o pecado e a
serpente não existem para interromper a permanência desse estado
[...] p.116-117
O conteúdo da discussão, trazido pela autora, é pautado em três pontos
principais: o turismo, o marketing e a propaganda turística; a formação histórica
e conceitual do “paraíso” no imaginário ocidental e, finalmente, a análise do
paraíso em três revistas turísticas.
Para fins dessa exploração, tomarei apenas o último ponto. Este nos
exemplificará os requisitos necessários (dentro dos elementos utilizados pelo
marketing turístico), para que um determinado local seja considerado um
paraíso turístico; o perfil dos que o procuram e podem desfrutá-lo e por fim, a
forma de entrada.
Acesso limitado – o paraíso não é para todos, o paraíso encontra-se
afastado, fora das rotas turísticas tradicionais; o paraíso é exclusivo. “O
12
Freire-Medeiros apud Galani-Moutafi 2009, p. 86. aponta que, “no curso da história,
colonialismo, missões religiosas, pesquisas etnográficas e turismo têm oferecido escapes
poderosos para a busca da autorrepresentação; em face do individualismo, da mobilidade e da
fragmentação – qualidades intrínsecas à modernidade – tal busca encontra motivação na
nostalgia por uma comunidade ideal completa”. A citação de Moutafi parece legitimar que a
busca do “paraíso”, sempre esteve presente manifestada em diferentes situações (citadas
acima) e que, em tempos atuais, encontram campo de expressão na prática da atividade
turística.
28
sucesso desse lugar está justamente na ausência de pessoas, ao contrário dos
grandes centros urbanos, que precisam estar lotados para a comemoração da
indústria turística” (URRY, 1996). Ou seja, um lugar caro, único e excludente. A
palavra acesso não está apenas relacionada com deslocamento, mas ao
“valor”. Outro aspecto é o “natural”: a natureza é mostrada como o lugar por
excelência, capaz de “recarregar as baterias” do ser humano. As pessoas que
vão ao paraíso devem ter na mochila “certa atitude, um comportamento
característico, ser despojado e principalmente ter um claro propósito de
respeito para com o natural, uma identidade com valores preservacionistas,
para fazer parte desse grupo seleto de turista” (AUON, 2003). Por fim, o guia:
afinal, não se pode ir ao paraíso sem um psicopompo 13, pois “ele é quem dá
garantia da manutenção dos privilégios, das comodidades, enfim de um
atendimento vip” (Auon, apud Freire, 2003). Você pode até ir ao paraíso, mas
precisa estar sobre a companhia de quem realmente entende sobre o mesmo.
13
Psicopompo é a palavra que tem origem no grego psychopompós, junção de psyché (alma)
e pompós (guia), designa um ente cuja função é guiar ou conduzir a percepção de um ser
humano entre dois ou mais eventos significantes. Guia interior, o psicopompo pode ser de
natureza humana, (Ariadne), animal (coelho de Alice no País das Maravilhas) ou espiritual
(Hermes, Daimon). http://pt.wikipedia.org/wiki/Psicopompo. Acesso em 06/06/2011
29
2.3 O paraíso pode ser na favela?
A ideia do paraíso remete, como dito anteriormente, a um lugar
“perdido”, dotado de uma vocação natural para ser turístico. Como estudante
de turismo essa ideia “vocacional”, sempre nos foi apresentada por discursos
acadêmicos e por estudos que qualificam certos lugares como atrativos
turísticos. Num primeiro momento a denominação “atrativo” pode soar simples,
mas na verdade ela traz consigo um sem-fim de valores atribuídos. Gayer
(2008), por exemplo, destaca o atrativo turístico como um conceito central,
orientador das práticas de produção e desenvolvimento do turismo, que tem
inclusive a capacidade de remodelar os espaços onde se projeta o fenômeno.
No campo acadêmico do turismo, o conceito é usado como se a atratividade
fosse um fator inerente ao objeto. Discorrem-se listas infindáveis de locais e
“manifestações”
de
interesse
para
serem
explorados
pelo
turismo,
especialmente nos estudos que têm como objetivo descobrir ou revelar as
potencialidades turísticas de um determinado lugar. Através dessa perspectiva
– de atrativos naturalmente dados – é que pesquisas no campo acadêmico do
turismo, muitas vezes furtam-se apenas a “levantar dados” (relativos aos
recursos naturais e culturais, atrativos turísticos e infraestrutura urbana e de
apoio turístico, acesso, estrutura social, etc.), a fim de planejar da “melhor
maneira”
14
a atividade turística de uma determinada região. (BRAGA, 2003,
p.192).
Há então, que se problematizar a ideia de que o turismo é uma vocação
natural. A perspectiva de levantamento de dados, muito comum no campo
acadêmico do turismo, contrasta com aquela normalmente adotada na
Antropologia e nas Ciências Sociais em geral, que é a de que o fato é
construído, não dado: “o real nunca toma a iniciativa, já que só dá “resposta”
quando é questionado ou quando é analisado” (BOURDIEU et al., 2004. p. 48).
É o que analisa Castro (2006), falando sobre turismo: Nenhum lugar é
“naturalmente turístico” e a ideia de que um lugar possui ou não uma “natureza
turística” é socialmente construída através de um processo que envolve a
14
A discussão turismo bom x turismo ruim, planejamento sustentável x planejamento ruim,
turista consciente x turista ruim são outros pontos recorrentes em pesquisas relativas à
atividade turística, não irei entrar nesse mérito, para isso ver Hall, (2004); Lemos, (2005); Beni,
(2006).
30
criação de um sistema integrado de significados e narrativas a respeito da
cidade como atrativo turístico. Para compreender o turismo e como ele
acontece, é necessário que se compreenda elementos não-turísticos que lhe
servem como base e que certamente influenciam na percepção de um
determinado local como um destino turístico, através da construção de uma
imagem favorável (ou não) à prática do turismo (URRY, 1996).
A interpretação que determina o que é e o que não é turístico fica ligada,
então, a uma lógica orientada por tendências externas. É assim com o olhar do
turista e é assim com o olhar dos produtores do turismo: empresários da
iniciativa privada, gestores públicos do turismo e população local, que
procuram adaptar seu produto aos interesses dos consumidores – os turistas.
Trata-se de um processo inter-retroativo: o olhar é construído através de signos
e o turismo abrange uma coleção dos mesmos, constantemente reiterados
pelos produtores do turismo, o que reforça ainda mais o olhar do turista sobre
aqueles e assim por diante, ou seja, é o turista que escolhe o seu destino de
férias, mas ele faz isso baseado em um imaginário criado, mantido e difundido
através de narrativas sobre o local como destino turístico (CASTRO, 2006;
URRY, 1996), que não é exclusivamente construído pelo turista.
“Os lugares são escolhidos para ser contemplados porque existe uma
expectativa, sobretudo através dos devaneios e da fantasia, em
relação a prazeres intensos, seja em escala diferente, seja
envolvendo sentidos diferentes daqueles com que habitualmente nos
deparamos. (URRY, 1996. p.18)
Em 2008 conheci o trabalho desenvolvido por Freire-Medeiros sobre o
turismo nas favelas cariocas. Sim, as favelas, lugares permeados de
imaginários relacionados à violência, miséria, sujeira, entre outros aspectos
considerados negativos. Não seria de estranhar o fato de que um lugar assim
fosse “não turístico”, porém, como dito anteriormente, o que é ou não turístico é
socialmente construído. Por meio de tramas diversas, locais de pobreza
revelam-se e emergem como destinos turísticos, como é o caso da tão
conhecida favela da Rocinha no Rio de Janeiro, ou das Townships em Soweto
e Dharvari, favela localizada no centro de Mumbai (FREIRE-MEDEIROS,
2009).
31
Não pretendo aqui fazer uma retrospectiva histórica acerca das práticas
de turismo em áreas de pobreza (mais especificamente turismo na favela),
muitos estudos já têm sido realizados nesse sentido. Furtarei-me apenas a
apresentar as equivalências entre as motivações, características e perfil das
pessoas que buscam o “paraíso no universo do turismo” e aqueles que visitam
ou visitaram a favela com fins turísticos.
Freire-Medeiros, (2009) sugere que:
O consumo da pobreza pela via do turismo transmuta-se, por mais
paradoxal que possa parecer, em elementos de distinção social que
cria novas e complexas hierarquias [...]
Cresce o número dos chamados pós-turistas que, política e
ecologicamente corretos, evitam a todo custo “o lazer de ir ver o que
se tornou banal” [...]
Homens e mulheres passam a procurar, cada vez mais, experiências
inusitadas, interativas, aventureiras e autênticas em destino cujo
apelo reside na antítese daquilo que se costumava classificar como
“turístico”. No processo, localidades “marginais” ao mercado
convencional são reinventadas em suas premissas históricas e
estéticas. p. 33
A partir da citação acima, e de outras contidas no livro, encontrei três
características confluentes entre os turistas que buscam o paraíso e os turistas
que visitam a favela: acesso limitado – os turistas que visitam a favela têm
como perfil o fato de que formam um grupo “limitado e heterogêneo”, que tem a
necessidade de diferenciar-se, distinguir-se dos turistas convencionais (que
visitam os grandes centros e fazem os circuitos chamados de massa). E ainda,
buscam a distinção, não como uma simples forma de satisfação trazida pela
possibilidade de consumir determinado bem, através de uma moeda de troca,
mas pela escassez desses bens e a impossibilidade que outros os possuam.
Busca do natural – do turista “paradisíaco”, espera-se certa atitude, o esperar é
aqui empregado no sentido da definição de um determinado perfil. Por meio
dos seus deslocamentos, “esses turistas buscam o que sentem ter perdido em
sua própria sociedade: natureza, pureza, bom senso, relações autênticas e
liberdade”. (p.87).
Ao encontrar esses elementos consideram-nos raros, e
tratam-nos como dignos de respeito. Procuram-nos porque têm como estilo de
vida a tão falada consciência ambiental. Acreditam estar colaborando de
alguma forma para a manutenção do paraíso/favela. E por fim o guia, ou o
psicopompo? Em ambos os casos (paraíso/favela) é necessário ir como quem
32
conhece o lugar – a certeza de um passeio bem feito, autêntico e exclusivo. A
exemplo disso temos o caso do que acontece na favela da Rocinha: “cada
turista acha que a agência por ele (a) escolhida, bem como o tipo de transporte
utilizado, garantiram-lhe a interação adequada, porém especulam sobre a
experiência de outros turistas que não teria sido supostamente tão proveitosa
quanto a sua”. (p.84).
A prática da atividade turística de maneira geral pressupõe, antes de
tudo, um princípio básico: o deslocamento. O deslocamento é a chave utilizada
em todas as definições de turismo, como exemplo:
“Existe um movimento físico dos turistas que, por definição, são os
que se deslocam fora de seu lugar de residência;
“O turismo compreende tanto a viagem até o destino como as
atividades realizadas durante a estada.” (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL
DO TURISMO, 2001, p.39)
E para Barretto (2009):
“O turismo consiste no deslocamento de pessoas que, por diversas
motivações, deixam temporariamente seu lugar de residência e
visitam outros lugares, utilizando uma série de equipamentos e
serviços – geralmente prestados por pessoas – especialmente
implementados para esse tipo de visitação, cuja operação é um
negócio” (p. 55)
Kaplan (1998) nos lembra, contudo, que o deslocamento não é uma
prerrogativa ou desejo universalmente disponível para grande parte dos
indivíduos, não chegando nem mesmo a ser experimentado em muitos casos.
Durante minhas entrevistas realizadas com alguns moradores de Paraisópolis
pude observar um dado intrigante, vindo de vários dos entrevistados, como
compartilho.
O nome da favela Paraisópolis, desde o início da pesquisa, sempre me
intrigou, queria descobrir a todo custo o porquê desse curioso nome, afinal
“casaria” com a perspectiva que pretendia dar à minha análise, a busca do
paraíso no universo do turismo e as intercessões entre os perfis dos turistas
que buscavam o paraíso “das revistas de turismo” e dos turistas que visitam a
33
favela
15
. Todas minhas tentativas em descobrir a origem do nome foram
frustradas, apesar das inúmeras pesquisas nos raros documentos escritos e
nas entrevistas, em uma tentativa quase “desesperada” procurava sempre o
morador mais antigo a fim de conseguir uma pista sequer e mesmo assim não
obtive sucesso. O máximo que consegui saber é que antes a favela era
chamada Jardim Paraisópolis depois (também por motivo desconhecido) o
“Jardim” foi suprimido passando a ser chamada apenas por Paraisópolis.
Minhas perguntas eram feita basicamente assim:
– Seu fulano, o senhor sabe por que chamam aqui de Paraisópolis? De
onde vem esse nome? A resposta era sempre desapontadora:
“Não, não sei, nunca ouvi falar, quando eu cheguei aqui já era assim”.
Mas o senhor sabia que Paraisópolis significa cidade do paraíso?
Todos respondiam que não, então continuava: Mas, para o senhor,
Paraisópolis é o paraíso?
“Sim, minha filha, aqui é o paraíso sim porque foi aqui que eu
consegui criar meus cinco filhos, sai do norte sem nada, aqui construí
essa casa depois esse comércio, tiro meu sustento daqui, meu lugar
é aqui, meu paraíso é aqui.” (D, morador há 27 anos)
“Ah, é aqui sim! Foi esse lugar aqui que me abrigou quando eu
cheguei da Bahia, aqui encontrei minha mulher, vi crescer meus filhos
16
e agora meus netos, estou feliz de mais aqui no meu Paraisópi” .
(J, morador há 32 anos)
“Eu gosto muito daqui, se eu tivesse lá no norte eu não teria nada do
que eu tenho hoje, nem a oficina, nem minha casa, nem meus amigos
e muito menos seria famoso, tá bom de mais aqui, é meu paraíso.”
(Berbela, morador há 13 anos)
“Aqui tá minha casa, minha arte, eu vou trabalhar e volto encontro
meus filhos, meu paraíso é ter esse lugar aqui pra eu voltar, se me
dessem outra casa em outro lugar eu não iria.” (Estevão, morador há
20 anos)
15
Como não utilizei os turistas como objeto de pesquisa, os perfis foram extraídos do livro
Gringo na Laje de Freire-Medeiros (2009) que trata sobre o turismo na favela da Rocinha no
Rio de Janeiro-RJ; mesmo não tendo entrevistado turistas em Paraisópolis, arrisco dizer,
através das minhas observações em campo, que o perfil é praticamente o mesmo.
16
Alguns moradores falam “Paraisópi”, talvez por não conseguirem pronunciar Paraisópolis
corretamente.
34
Ao longo das entrevistas, perguntava se algum deles tinha vontade de
voltar a morar no nordeste, a resposta era unânime, ninguém queria. Falavam
dos inúmeros problemas estruturais e da “ordem social” existentes em
Paraisópolis (os quais já citei em parte no tópico anterior), mas no final todos
reforçavam a ligação forte com o lugar “meu lugar é aqui”.
O interessante dessas entrevistas foi notar o contraponto surgido, ao
tempo em que os turistas necessitam viajar, se deslocar para chegar ao
paraíso, os moradores de Paraisópolis já estão nele, o seu lugar, a sua “terra”
17
. Essa ligação com o lugar, com a terra, é chamada de topofilia, que é o laço
afetivo que um grupo estabelece com um lugar específico, que considera seus,
é um conceito estático, descritivo e passivo, não integra um componente ativo
na
(re)
afirmação
da
identidade
territorial
numa
perspectiva
pró-
desenvolvimentista, apenas reconhece-se como do lugar (ROCA, 2002).
Birman (2008), em seu artigo: “Favela é comunidade?”, diz ainda que os
lugares de moradia exercem sobre os moradores uma densidade afetiva
própria, diretamente ligada às suas experiências de vida. Os espaços
participam da construção de pessoas, das relações interpessoais, das formas
de sociabilidade e dos acontecimentos que as envolvem, por isso a relação
com o espaço/paisagem merece atenção especial e talvez por isso seja tão
presente nos relatos dos moradores entrevistados (MAFRA, 2007 apud
BIRMAN, 2008):
(...) a definição de paisagem utilizada aqui (...) refere-se ao entorno
como testemunhos de vidas e trabalhos executados por gerações
passadas que se chocaram uns com os outros, constituindo camadas
de um mesmo lugar. A paisagem, nesse sentido, se parece menos
com um cenário de fundo e mais com um sítio arqueológico, pois diz
respeito a camadas de processos e de materiais que tanto ocultam
como revelam significados (p.111)
Ao mesmo tempo em que os moradores falam dos aspectos positivos
elucidados através da satisfação em ter seu lugar/espaço (de estarem no
paraíso), eles não escondem o descontentamento com a falta de alguns
17
. Vale ressaltar que o termo “paraíso” é usado aqui como uma inferência, um conceito usado
para denotar uma visão “de dentro para fora” da favela. Os moradores da favela de
Paraisópolis a consideram o “paraíso” a partir da forte relação que têm com o lugar. No
entanto, olhando-se de fora para dentro da favela, (a ótica dos turistas) o referido conceito não
se torna válido, provavelmente os turistas nem saibam o que o topônimo “Paraisópolis” significa
e talvez, o referencial de “paraíso” que possuam seja aquele apresentado por Auon (2003).
35
serviços ou mesmo com a presença da já referida “ordem violenta”, existente
em Paraisópolis, formando um arranjo, explicado ainda por Birman, (2008):
Mostra-se, assim, possível conjugar de forma não contraditória
identificações negativas e positivas: lugar de tradição e também lugar
de violência. Lugar de relações harmônicas entre vizinhos, mas
também lugar de incivilidade, da barbárie e da morte associada ao
tráfico de drogas e às balas perdidas. Lugar da família, mas também
lugar de uma juventude desregrada, das igrejas petencostais, dos
bailes funk e das metralhadoras [...] (p.113)
A despeito disso, os moradores entrevistados não falam com tristeza, ou
menosprezando-se, pelo contrário, falam de maneira jocosa e descontraída. D,
morador há 27 anos enquanto me contava sobre o dia em que sua mulher R se
sentiu mal e eles passaram um sufoco para levá-la ao médico (por não terem
meio de transporte apropriado muito menos um hospital na favela), ria-se,
imitando os gemidos de R e me oferecia uma dose de cachaça, feita por ele
mesmo: “Tome minha filha, isso é pra relaxar e vê a vida mais leve”. O rir-se da
“própria desgraça" é interpretado por (GOLSTEIN, 2003 apud BIRMAN, 2008),
como a prática da depreciação irônica, usando sempre o riso e a brincadeira
como forma de crítica permanente a certas identificações negativas e a
situações difíceis que os moradores enfrentam no dia-a-dia – como exemplo,
tem-se o “slogan” estampado num dos carros de Berbela:
Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora
36
Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora
“Tá ruim mais tá bom”. Quando perguntei a Berbela o que significava essa
frase, ele foi categórico em explicar: “Isso aí significa como a gente vive hoje
aqui em Paraisópolis, tem muita coisa pra melhorar, muita coisa a ser feita, mas
tem muita coisa boa também”.
Aos poucos, Paraisópolis começa a figurar como um destino turístico.
18
Considero aqui a transformação de um lugar como destino turístico pautado no
desdobramento de várias relações sociais, de antagonismos, convergências,
conflitos dentre outros. Parto do pressuposto de que os deslocamentos
humanos classificados sob o conceito de turismo são parte de todo um aparato
moderno de pensamento e de estruturação das relações sociais (adiante
tentarei analisar essas relações) 19.
18
No capítulo seguinte falarei sobre como a atividade turística está se desenvolvendo em
Paraisópolis. O que chamo aqui de destino turístico remete apenas à “destinação”, um lugar
para onde se vai quando se realiza uma viagem, desconsidero definições técnicas dos estudos
em turismo que conceituam destino turístico como o “lugar para onde tem de se deslocar a
demanda, a fim de consumir um produto turístico. O deslocamento é um dos elementos
determinantes da experiência turística. Justamente o lugar para o que se dirige pode ter a de
um núcleo, zona, município ou região, mas o importante é que esse destino constitui o objetivo
do turista” (SANCHO,2001).
19
A análise dessas relações tem como objetivo entender o que faz de Paraisópolis um destino
turístico e quem são os atores, que reivindicam a partir de questionamentos, práticas, disputas
e representabilidades, a apropriação do lugar.
37
Diante do sucinto panorama que apresentei acerca do histórico,
entrevistas e impressões de alguns moradores de Paraisópolis sobre suas
“histórias de vidas”, penso haver uma correlação com o proposto por Kaplan
(1998) em seu livro Questions of Travel: Postmodern discourses of
displacement. Buscando focar na produção de discursos pós-modernos sobre
deslocamento, o livro ressalta as continuidades e descontinuidades entre
termos e práticas relativos a viagem, lugares, identidades, exílio, turismo e
nomadismo. Kaplan afirma que os deslocamentos não são uniformes, e que
imigrantes, refugiados, exilados e sem-teto, contrariamente a escritores,
poetas, etnógrafos e turistas, não são historicamente reconhecidos como
autores de conhecimento ou de discursos críticos. A autora trata ainda sobre
mobilidade e retoma a questão da oposição entre “exílio” e “turismo”. O exílio
implica a coerção enquanto o turismo celebra a possibilidade de fazer
escolhas. Uma situação de exílio narraria o distanciamento individual de uma
comunidade de origem, enquanto o turismo trataria de comunidades em escala
global, resultado de uma cultura de consumo, diversão e inovação tecnológica
fundamentalmente pós-moderna.
Se pudermos considerar os moradores de Paraisópolis como “exilados”,
ao passo que se encontram longe de sua terra natal em busca de melhores
condições econômicas,
20
a presença de turistas na favela de Paraisópolis,
coloca então, frente a frente, turistas e exilados, ou melhor, turistas visitam
exilados. E enquanto o turista tem o privilégio de poder ir em busca de
experiências fragmentadas ao redor do mundo, para o “exilado”, Paraisópolis –
com todas as suas peculiaridades – é o paraíso que lhes cabe.
20
Não existem dados estatísticos que comprovem que todos, ou a maioria dos moradores de
Paraisópolis tenham origem nordestina, porém todos os meus entrevistados eram e afirmavam
que a maioria em Paraisópolis é de nordestinos. Minha análise, nesse ponto, se trata de uma
observação pessoal e não tem a intenção de generalizar a situação dos moradores.
38
3. Bem-vindos ao paraíso
O turismo se desenvolve de maneiras diferentes em lugares diferentes: o
processo de transformação de um lugar em destino turístico depende dos seus
aspectos internos e das forças externas envolvidas. Os atrativos são
construídos socialmente, sejam “naturais” ou “artificiais”. A diferença reside,
portanto, na orientação do desenvolvimento do turismo e nas peculiaridades
locais, nas diferentes respostas locais a um processo mais geral de
desenvolvimento do turismo.
Urry (1996) argumenta que o caráter do olhar é fundamental para o
turismo. Olhar, no sentido usado pelo autor, não significa apenas ver, mas sim
uma maneira específica de entender o mundo, socialmente organizada e
sistematizada. O autor discorre sobre como o olhar do turista é construído,
desenvolvido e reforçado, inclusive através de formas não-turísticas de
experiência e consciência social. Fazendo uma referência a MacCannel (1976
apud URRY, 1996), o autor sugere a complexidade do processo de produção
de centros de atração, através do qual, além de tudo, o olhar do turista é
gerado e mantido: “as pessoas têm de aprender como, quando e para onde
‘olhar’. Marcos claros precisam ser providenciados e, em alguns casos, o
objeto do olhar é apenas um marco que indica algum acontecimento ou
experiência, que aconteceram previamente naquele lugar” (p. 26).
Nos estudos acadêmicos no campo do turismo, existem conceitos
técnicos para qualificar termos como “destino” e “atrativo turístico”; o destino é
uma unidade territorial que possui certa capacidade administrativa, aí inclusos
países, regiões, estados, ou lugares.Já o atrativo é o elemento inerente ao
lugar que desencadeia o processo turístico, que faz com que as pessoas se
desloquem das suas casas e permaneçam fora dela (VALLS, 2006). Como dito
no capítulo anterior, considero a transformação de um lugar em destino turístico
um processo socialmente construído. Essa construção baseia-se no fator o
qual chamo aqui de atratividade – elemento não inerente, mas criado e
reforçado por agentes internos e externos à localidade, que encadeiam a
“transformação” de um lugar em destino turístico. Por exemplo, enquanto a
visitação à favela da Rocinha tem, como principais elementos de atratividade, a
39
violência, a pobreza e a vista para o mar (FREIRE-MEDEIROS, 2009), o
turismo na favela de Paraisópolis é “justificado” pela presença da arte.
Estevão, Berbela e Antenor, os artistas da favela, com trabalhos
totalmente distintos, compõem os pontos visitados em Paraisópolis. Os três
ficaram conhecidos primeiramente através de jornais e revistas (como discorro
adiante). Primeiro a visita era realizada pelos mais variados profissionais que
divulgavam a arte que vinha da favela, não tardou para que curiosos – pessoas
da cidade e também de fora – começassem a procurar os artistas, que
geralmente chegavam até eles diretamente ou em sua maioria por intermédio
da UMP.
Distintos também foram os períodos em que a visitação a cada um dos
artistas começou a ser realizada, coincidindo com o período em que,
individualmente, começaram a criar suas obras. O primeiro artista a chegar à
favela foi Estevão, no ano de 1985, que logo começara a construir sua exótica
casa – comparada mais tarde com a obra de Antonio Gaudí. Depois, Berbela,
que há onze anos mora em Paraisópolis e há dez começou a produzir
bicicletas e outros objetos com sobras de materiais de sua oficina. Por último,
Antenor, que chegou a Paraisópolis em 1988, e em 2008 começou a construir
sua casa com garrafas PET incorporada à estrutura.
Quando as pessoas chegavam à UMP desejando conhecer os artistas,
alguém era destacado para acompanhar a pessoa até a casa de cada um
deles, de maneira gradual – à medida que cada um se tornou conhecido dentro
da favela por sua arte – e então as visitas passaram a compor um único
“circuito”
21
. Até hoje, a despeito das operadoras de turismo profissionais, a
UMP segue levando visitantes para conhecer os três.
Tem-se notícia de uma agência, a Check-Point, ter tentado organizar,
sem sucesso, visitas guiadas à favela. Durante cerca de seis anos a empresa
Unique Turismo Cultural Personalizado detinha exclusividade na realização de
passeios à favela, mas recentemente, no ano de 2011, uma nova agência
também passou a realizar visitas, a Around SP. A seguir apresento os artistas e
21
Adiante explicarei como os artistas se relacionam dentro desse circuito.
40
Flavia Liz, guia da agência Unique Turismo Cultural Personalizado. Essas
quatro pessoas merecem uma primeira atenção, por serem os principais atores
no desenvolvimento de Paraisópolis como destino turístico 22.
22
No próximo capítulo trarei para a discussão a UMP e a agência Around SP, essa segunda
pouco explorada, porque o início da sua atuação na favela coincidiu com a etapa final da minha
pesquisa de campo.
41
3.1 Estevão
Natural de Santo Estevão na Bahia, Estevão, 44 anos, mora há 16 anos
em São Paulo. Na infância trabalhou como lavrador junto com seus pais; com
18 anos mudou-se para a capital, Salvador, onde permaneceu por seis meses
como ajudante de pedreiro e logo depois decidiu ir junto com um amigo “tentar
a sorte” em São Paulo. Estevão começou a trabalhar em uma construção em
Guarulhos e morava com colegas de profissão em um alojamento. “Assim que
eu cheguei aqui pra essas bandas tinha muito emprego, mas era coisa rápida,
acabava em no máximo seis meses, aí eu tinha que ir atrás de outro, nisso eu
mudei de cidade mais ou menos umas seis vezes para cidades aqui mesmo no
interior de São Paulo, mas cheguei até o Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro.
Até que um dia um amigo meu, aqui de São Paulo capital, disse que tinha uma
vaga pra jardineiro e como eu sempre gostei de plantas resolvi pegar esse
emprego. Eu gostava, mas não sabia como trabalhar com elas, lá mesmo eu fui
aprendendo e estou no mesmo emprego até hoje”.
Estevão sempre morou em alojamentos, mas em 1985, com um
dinheirinho que ele tinha conseguido juntar, comprou uma casa em
Paraisópolis, a mesma em que vive até hoje. Pouco a pouco, foi adquirindo
terrenos ao redor e aumentando o espaço da casa.
Estevão conta que ficava pouco tempo em casa, e foi gostando cada vez
mais de trabalhar com jardim; quando estava em casa gostava de relaxar,
arrumar tudo para se sentir confortável, já que havia passado quase dez anos
sem morar em uma casa de verdade. Decidiu então colocar um banco de
madeira no jardim que de início continha poucas plantas. Um dia Estevão
comprou uma muda de roseira, plantou e teve a ideia de fazer com que o
jardim subisse, criando uma estrutura de concreto, já que não havia espaço
para o jardim se expandir horizontalmente. O pé de roseira não parava de
crescer, seus galhos se tornaram pesados; Estevão resolveu criar uma
estrutura de ferro e cimento que serviu para apoiar os galhos, mas a roseira
cresceu ainda mais, tomando o espaço também das outras plantas que já
ocupavam a parte de cima do jardim. Toda essa estrutura de concreto fazia
com que o interior da casa ficasse muito quente, foi então que Estevão teve a
42
ideia de colar pedrinhas sobre os “galhos” da estrutura, deixando o ambiente
mais fresco. Durante muito tempo, a estrutura tinha apenas as pedrinhas, por
isso a casa de Estevão ficou conhecida em Paraisópolis como a “casa de
pedra”. Certo dia quebrou-se um prato da casa de Estevão (de que ele gostava
muito), ao que ele decidiu fixá-lo em um dos galhos de concreto; Estevão
gostou do resultado e a partir daí passou a adicionar os mais variados objetos à
estrutura da casa.
Primeiro prato afixado na casa de Estevão. Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora
O primeiro andar da casa abriga os quartos do casal, Estevão e a
esposa Edilene, e dos filhos, Stefânia e Enrique. A decoração dos quartos é
feita com objetos recortados em tábuas finas de madeira, que foram lixadas e
pintadas por Edilene e que ficam grudados nas paredes. Estevão disse que fez
essa decoração, em que predominam os recortes de estrelas, porque tinha
“saudades de vê-las no céu como as via na Bahia”.
Turista no quarto de Estevão. Foto: Jamile Abdallah
43
A casa de Estevão chamou a atenção dos vizinhos – afinal a construção
é bem diferente das outras casas de Paraisópolis – e logo os membros da UMP
também tomaram conhecimento da casa. Sempre procurada por jornalistas,
ONG’s e documentaristas para a realização de projetos e reportagens, a UMP,
em um desses contatos, falou sobre a existência da casa de Estevão à
jornalista, arquiteta e artista plástica, Carla Caffé, que na época, há cerca de 20
anos, escrevia a uma coluna da Revista da Folha de São Paulo intitulada
“Cidade Nua”
23
. A coluna tinha o objetivo de retratar, através de um pequeno
relato e uma pintura realizada por ela, algum aspecto interessante da cidade de
São Paulo – geralmente relacionado à arte. A casa de Estevão foi tema de uma
dessas reportagens. Essa foi a primeira “aparição” pública da obra de Estevão
e desde então as visitas à sua casa se tornaram frequentes – profissionais,
estudantes, curiosos da favela e de fora e, por fim, de turistas.
Primeira reportagem de Estevão por Carla Caffé. Fonte: Revista da Folha. Ano IV. Ed: 83, 1992
23
Pelo que pude perceber, a grande procura pela UMP, por parte desses profissionais está
relacionada com a multiplicação cada vez mais recente de organizações não governamentais e
realização de projetos sociais na favela.
44
O trabalho de Estevão é constantemente comparado ao de Antonio
Gaudí, artista nascido em 1852 em Reus, na Catalunha, Espanha, e falecido
em Barcelona. De inspiração neogótica, Antonio Gaudí criou um estilo único –
marcado pela verticalidade, com curvas próximas de formas da natureza
(Ambrosio, 2007). No ano de 2000 uma estudante de arquitetura visitou a casa
de Estevão e percebeu a semelhança entre seu trabalho e o de Gaudí. Ela
levou livros com a obra do artista espanhol para que Estevão visse a
semelhança. A partir daí o jardineiro começou a ser apresentado nas
reportagens como “o Gaudí brasileiro”.
Em 2001, quando foram celebrados os 150 anos de nascimento do
arquiteto catalão, os organizadores da comemoração ligados ao Centro de
Estudos Gaudinistas, buscaram pelo mundo inteiro artistas que possuíssem
trabalhos parecidos ao de Gaudí, chegando então a Estevão, que teve sua
casa e seu trabalho filmados em todas as suas atividades. Naquele ano
levaram Estevão a Barcelona para conhecer as obras de Antonio Gaudí. Em
2007, Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes pela Universidade
Estadual Paulista (Unesp), escreveu um pequeno livro, “Contando a Arte de
Estevão”. O livro faz parte de uma coleção que tem por objetivo contar a
história de artistas autodidatas brasileiros. No ensaio, Ambrosio (2007)
recupera um pouco da história de vida de Estevão, chegando a como Estevão
começou a desenvolver seu trabalho “artístico”, comparado minuciosamente –
numa linguagem artística e técnica – com o trabalho de Gaudí. No livro, o autor
conta ainda um pouco da impressão de Estevão sobre sua ida à Espanha:
“Ele comenta que adorou tudo e reconhece que sua obra é de
pequenas dimensões perante as grandes construções do arquiteto,
que incluem prédios inteiros, casas, igrejas e parques. O trabalho que
mais o impressionou e no qual viu mais proximidade com o que fez é
o parque Guëll. Ali estão, também, troncos falsos que parecem ser de
madeira, mas que são de fato de pedra. O traçado repleto de
curvaturas é parecido, além do próprio processo de montagem, em
que pedras são coladas na estrutura para que o resultado final pareça
natural. Antes de ser convidado pelos espanhóis, Estevão tinha em
Gaudí uma referência apenas distante”. p. 23
O apelido de “Gaudí brasileiro” de início agradava a Estevão, mas hoje o
jardineiro, sempre que pode, tenta se desvincular da imagem do artista. É o
caso, por exemplo, de um comercial gravado em 2011 de uma marca de
45
cachaça que reuniu alguns brasileiros que tivessem tido uma “boa ideia” –
relacionando com o slogan da cachaça – para fazer uma peça promocional que
contasse em dois minutos como a pessoa tinha desenvolvido essa “boa ideia”.
No final da peça Estevão declara:
“Todos os gringos e madames que vêm aqui, falam que parece com
as coisas daquele artista espanhol, Antonio Gaudí, mas não sei quem
é ele não [...]. Eu fiz mais assim porque eu queria criar a roseira, mas
eu não sabia que ia virar isso e ter essa repercussão toda. Vim lá da
Bahia com a moringa debaixo do braço, chegar aqui e fazer essa
obra de arte e depois dá toda essa reviravolta.”
Embora um pouco confuso, no depoimento Estevão afirma que não
conhece Gaudí, mesmo depois de ter ido à Espanha exclusivamente para
conhecer o seu trabalho e com isso perceber que o que ele próprio faz é arte,
algo que nunca pensou poder realizar. Essa negação, ao mesmo tempo em
que parece mostrar certa recusa pela semelhança a Gaudí, aciona também um
referencial para que seu trabalho seja reconhecido como arte. Edilene contoume que Estevão não gosta mesmo da comparação, que ele sempre diz: “aqui
não é nada de Gaudí brasileiro, aqui tudo é obra do Estevão”
24
. Quando
perguntei a Estevão se ele é um artista, a resposta vem prontamente, deixando
claro que seu papel de artista é legitimado por ser comparado com a obra do
“maior arquiteto do mundo”, Antonio Gaudí:
“No começo eu não me considerava artista não, mas agora eu acho
que sou sim, pela divulgação meu trabalho já é conhecido no mundo
inteiro, já fui comparado com o maior arquiteto do mundo, o Antonio
Gaudí, lá da Espanha, o que não é pra qualquer um, então eu sou
sim um artista. Cada artista tem um dom de fazer uma arte, eu faço
quadro, vaso, além de todo esse trabalho aqui na minha casa. Tem
muita gente que coloca nos jornais que eu sou pedreiro, eu nunca
trabalhei de pedreiro, eu até sei fazer serviço de pedreiro, sei rebocar,
arrumar uma laje, mas nunca foi meu trabalho. Eu sou jardineiro e
artista plástico”.
Estevão continua falando que seu trabalho artístico tem uma importância
para Paraisópolis:
“Minha arte é muito importante aqui para a favela porque junto com os
outros, o Berbela e o Antenor, conseguimos divulgar o que há de bom
24
Nas entrevistas e conversas que tive com Estevão, nunca tive coragem de abordar esse
assunto, por saber que é algo que lhe deixa chateado e por não ter conseguido construir um
relacionamento tão próximo com ele, considero isso um ato falho na minha pesquisa e que
merece ser investigado em pesquisas futuras.
46
em Paraisópolis e pode também incentivar outras pessoas aqui
dentro a fazerem igual, ou melhor”.
Atualmente, a casa de Estevão tem 8 metros de altura, dois pavimentos
e mais um emaranhado de caminhos que levam até os jardins e os inúmeros
cantos da casa. Estevão sempre repete que a sua casa não está pronta e que
nunca vai estar.
“Todos os dias eu acordo cedo e antes de sair para trabalhar eu
arrumo alguma coisa, coloco uma peça nova, faço algum quadro ou
vaso. Nos dias que tenho folga eu aproveito pra ficar o dia inteiro
arrumando ou então saio pra comprar mais alguma coisa para colocar
na casa”.
Pouquíssimos objetos que compõem a casa de Estevão são doações,
ele compra quase tudo em bazares, antiquários e lojinhas de variedades no
centro da cidade, além do material de construção que é necessário para
encaixar as peças (cimento branco e argamassa). Todo o material custa caro, o
cimento, por exemplo, que não poder ser de baixa qualidade, segundo
Estevão, “custa cinquenta reais o pacote e dá pra fazer pouca coisa... Às vezes
eu vou num bazar e quando os vendedores me reconhecem, aumentam o
preço, eles pensam que eu tenho muito dinheiro”. Na casa de Estevão apenas
ele possui renda fixa; seus filhos ainda são menores de idade e sua esposa é
dona-de-casa, por isso a renda mensal da família é baixa. Cabe a Edilene a
limpeza e organização da casa:
“Sou eu que faço tudo aqui, todo dia de manhã Estevão rega as
plantas lá em cima, aí cai água e folhas em baixo, eu venho, varro,
seco tudo e passo o pano. Sou eu também que faço almoço, cuido
das crianças e recebo as visitas, quando tem”.
Edilene também faz as vezes de secretária de Estevão, anota os
recados dos inúmeros telefonemas, agenda visitas; cabe a ela também a tarefa
de lidar com o dinheiro, dilema sempre presente.
Na casa de Estevão, o pagamento das visitas é obrigatório; Edilene
justifica: “o dinheiro aqui é sempre pouco, a gente vive apertado, tudo que
Estevão pega é pra comprar as coisas, material pra continuar construindo,
quando não tem dinheiro de visitas ou de alguma coisa que ele vende, ele pega
do salário mesmo, aí aperta mais ainda, ele trabalha demais aqui, investe
também o tempo dele, por isso que a gente cobra”.
47
O dilema do dinheiro é motivado por várias questões. Edilene e Estevão
querem receber, mas sentem vergonha de cobrar, alguns turistas sabem que a
visita é paga, mas, como explica Edilene,
“se eles não lembrarem, a gente não tem coragem de cobrar; quando
a pessoa vem visitar com Flavia Liz, aí ela fala pra eles e fica tudo
certo, mas quando vem pela UMP, por exemplo, a gente recebe
quando eles tomam iniciativa. Só que muitas vezes vêm grupos
grandes trazidos pelo presidente da UMP e ninguém paga, ele fala
que não é pra cobrarmos porque a presença deles é bom aqui pra
Paraisópolis, mas não vemos nada melhorar pra gente. Depois que
os turistas saem os vizinhos comentam – é hoje vocês ganharam
muito dinheiro, com todas essas pessoas que visitaram a casa – mas
na verdade nem ganhamos”.
Berbela e Antenor não cobram pela visita. Berbela ainda recebe, mas se
a pessoa não quiser pagar não tem problema. Como a casa de Estevão é o
único lugar onde a visita deve ser paga, o jardineiro acaba sendo criticado
pelos outros dois. Para Estevão, melhor seria se todos cobrassem, assim
ficaria como um padrão e não acarretaria desconforto para cobrar dos turistas,
por isso o jardineiro sempre que pode tenta convencer os outros dois a
imporem essa “regra”, fazendo isso, por vezes, de maneira impositiva – fato
que gera conflitos que serão analisados no próximo capítulo.
Em campo, meu contato com Estevão foi pouco, a maioria das
informações foi-me passada por Edilene; quando ia à favela deixava para ir à
casa deles no final, geralmente à tarde, quando ela não tinha tantos afazeres.
Conversávamos bastante e pude perceber sua preocupação constante em
relação ao dinheiro. Ela afirma que em certos períodos, como nos finais de
ano, a visitação é muito baixa e por isso o dinheiro arrecadado é muito pouco:
“Já falei pro Estevão, se continuar assim eu vou procurar serviço fora,
gosto muito de receber os turistas, mas tem que ser uma coisa que
dê um retorno, que compense, os meninos estão agora em casa, de
férias, aí eles começam a pedir as coisas, pra comprar, pra passear e
a gente não tem como dar, eu fico doente com isso, não vou ficar aqui
esperando turista, olhando pro teto e correr risco de virem e ainda
não pagarem, e eu ainda tenho que ficar aqui engolindo desaforo e
todo tipo de pepino”.
Edilene refere-se a episódios constrangedores que já teve que passar
por conta do dinheiro. O primeiro deles foi o clássico da “Cowdí”: em 2005 o
evento “Cow Parade” espalhou, entre 4 de setembro a 6 de novembro, 83
48
vacas de vibra de vidro pela cidade de São Paulo, em tamanho natural e com
peso aproximado de 50 kg; elas foram trabalhadas por artistas que as
personalizaram com as mais diferentes técnicas, e Estevão foi convidado para
participar do evento. Batizara sua vaca de “Mimoz”, mas os organizadores do
evento mudaram seu nome para “Cowdí”, aludindo à semelhança do trabalho
de Estevão com as obras de Antonio Gaudí. No final do evento a Cowdí foi
leiloada e arrematada pela quantia de 31 mil reais; desse montante apenas mil
reais ficou com Estevão (segundo Edilene esse valor cobriu apenas o material
utilizado por Estevão) e o restante foi doado ao projeto “Vivendo com Arte”, que
trabalha com crianças carentes em Paraisópolis. Sete anos se passaram desde
o Cow Parade, mas sempre alguns curiosos lembram da exposição e do valor
que a Cowdí rendeu e perguntam sobre o dinheiro e o que Estevão teria feito
com ele; cansado da insistência, certa vez Estevão respondeu: “foi para o
brejo”. Quando a diretora do projeto soube dessa declaração de Estevão, foi
até a casa de Edilene e lhe falou palavras duras, ofendendo-a, alegando que
não deveria ter recebido o dinheiro se fosse para depois Estevão humilhar
assim as crianças que receberam a doação.
Estevão e Cowdí. Fonte: Arena SP, Ano I Nº 1
49
Observando que muitos jornalistas e documentaristas, dentre outros, iam
visitá-lo e depois publicavam fotos, vídeos e entrevistas, Estevão pensou ser
justo cobrar para a execução desses trabalhos em sua casa:
“Eles vêm aqui, fazem todo o trabalho, publicam e depois vendem, se
pensar bem, eles ganham dinheiro às minhas custas, eu também
mereço receber um pouco disso, porque aqui é meu trabalho”.
Ao instituir o pagamento para as entrevistas, não tardou para que uma
jornalista ligasse para agendar uma reportagem; Edilene repassou o recado de
Estevão: “agora Estevão está cobrando R$ 100,00 para dar entrevistas.
Segundo Edilene, a repórter teria retrucado: “Cem reais? Isso é um absurdo,
como assim? É por isso que vocês são pobres e morrerão pobres”. Edilene
conta que ficou sem palavras: “nesse dia eu quase choro de tanta raiva, depois
ela ainda teve coragem de ligar e Estevão deu a entrevista de graça, por mim
ele não teria dado”.
Quando finalizei a pesquisa em campo, fui à casa de Edilene para me
despedir, na saída ele me pergunta o que eu acho sobre o “cobrar”. Fiquei
receosa em me posicionar e de alguma maneira interferir nos dilemas do
campo. Ao mesmo tempo pensei que é difícil estabelecer uma barreira entre
mim, a pesquisadora, e eles, os “pesquisados”, e que a minha presença ali,
mesmo que só observando ou conversando, já exercia alguma influência no
campo. Procurei então pensar como turismóloga, cuja formação é toda
direcionada para o “bom desenvolvimento do turismo” (se é que isso existe,
mas não irei entrar nessa discussão) e respondi que acho justo. Primeiro para
que a atividade se “sustente”, economicamente falando; segundo pelo
reconhecimento e valorização do trabalho de Estevão; e por último por saber
que esse valor, muito significativo para eles, pouco ou quase nada representa
para os turistas e para os profissionais que os procuram.
50
3.2 Berbela
Nascido em 1965, em Trindade, interior de Pernambuco, Antônio
Edinaldo da Silva chegou a São Paulo, mais precisamente em Paraisópolis, no
ano de 2001. No norte (como ele se refere ao lugar onde nasceu), Berbela –
assim apelidado desde que morava em Pernambuco – era mecânico e vivia
“fazendo bicos”, mas ganhava muito pouco. Foi quando um amigo comentou
que a vida dele – trabalhar muito, ganhar pouco e ainda “tomar umas” – estava
errada:
“Eu bebia porque a situação era difícil, um monte de menino dentro
de casa pra dá de comer e a situação não melhorava nunca. Então
esse amigo disse que eu deveria mudar para São Paulo porque eu já
tinha uns parentes aqui em Paraisópolis, eu disse que não vinha
porque aqui era perigoso demais, eu pensava era o que eu via na
televisão, o que passava de São Paulo inteira. Só que aquilo ficou
martelando na minha cabeça, aí eu comecei a juntar dinheiro, quando
foi um belo dia eu lembro, era uma quarta-feira, comprei a passagem,
dei um dinheirinho na mão da mulher e quando foi sexta-feira, eu
peguei o ônibus e “acunhei” no meio do mundo, vim embora pra cá
sozinho. Quando cheguei minha prima foi me buscar na rodoviária, no
outro dia eu já fui trabalhar em um lava rápido e com dois meses já
mandei chamar a mulher e os meninos, aluguei essa casinha que
hoje é a oficina.”
Berbela contou que já morou em vinte lugares, ou mais, no estado do
Pernambuco. Só em uma cidade ele mudou de casa cerca de nove vezes:
“Mas Paraisópolis foi a melhor cidade que eu já morei, o melhor lugar,
foi o único lugar onde consegui comprar a minha casa própria, eu
derrubei ela e comecei a construir outra do nada, hoje são nove
25
cômodos, cada menino
tem seu quarto pra morar, tem sete
televisões, dois computadores, tem tudo, graças a Deus, tem o nosso
carrinho, duas motos, um dinheiro guardado, todo mundo trabalha, tá
tudo sossegado.”
No decorrer dos vários encontros que tive com Berbela, sempre que
tinha oportunidade ele enfatizava que as maiores conquistas que ele alcançou
foram sua família e seus bens, e que só tinha conseguido tudo por morar em
Paraisópolis:
“Eu não posso sair daqui de Paraisópolis, nem pra visitar meus
parentes, se eu sair e largar tudo aqui, quando eu voltar não tem mais
25
No nordeste, “menino” é um termo utilizado para denominar “criança” ou “filhos”,
independentemente do sexo.
51
nada, se alguém quiser vir me visitar eu ajudo, pago tudo, pago
passagem, mas eu não vou lá...”
Ora Berbela justifica não ir a Trindade – por não querer deixar suas
“coisas”, ora pela falta de condições suficientes para fazer o que gostaria, mas
a questão financeira está presente nas duas justificativas.
Berbela me conta como começou a produzir suas peças:
“Quando meu filho mais velho, Rui, chegou do norte, levei ele no
Parque Ibirapuera, lá ele viu as bicicletas diferentes, grandes, com
lugares para mais de uma pessoa, ficou impressionado e pediu para
que eu fizesse uma daquelas pra ele. No outro dia, enquanto ele
estava na escola, eu peguei uma bicicleta velha que tinha aqui, cortei,
emendei, soldei, fiz ela bem grande, com 4 pneus e lugar para duas
pessoas, quando ele chegou da escola a bicicleta já estava pronta, ai
todo mundo viu, queria andar fez o maior sucesso, então eu fui
pegando gosto em fazer.”
Primeira bicicleta de Berbela. Fonte: arquivo pessoal da pesquisadora
E como as pessoas de fora da favela te descobriram?
“Foi através da bicicleta que eu fiz em homenagem à Copa do Mundo
de 2002. Eu pintei um lado dela de verde e outro de amarelo, aí
quando chegou o Natal eu vi aquelas luzinhas e coloquei duas, 3, 5,
10, 20 até chegar em 5 mil lâmpadas de led, 5 telas de DVD, rádio
amador, GPS. Um dia estava andando com ela na Avenida Jorge
João Saad no Morumbi e me parou uma mulher da revista VEJA, ela
pediu meu cartão e depois me ligou pedindo pra vir aqui., Ela veio,
52
tirou foto de tudo e saiu na revista, assim que saiu, no mesmo dia
começaram a me ligar, televisão, jornal, revista aí era todo dia aqui
era Globo, Record, Band, era televisão de fora e até hoje não parou
ainda de vir gente. Desse dia pra cá a fama cresceu mesmo, a fama
do Berbela.”
Primeira reportagem de Berbela. Fonte: Veja São Paulo 27/02/2002
A oficina, localizada em um lugar central, foi meu ponto de apoio durante
a pesquisa. Além disso, na oficina também trabalha Rui, o filho mais velho de
Berbela, que é bastante empolgado com as visitações que acontecem na
oficina do seu pai; ele participa das conversas com os guias, tem opiniões
sobre como deveria ser o turismo em Paraisópolis e interfere quando acha que
Berbela está “falando demais”. Por ficarmos muitas horas acompanhando o
dia-a-dia de Berbela tivemos várias conversas sobre os mais variados
assuntos, comentários sobre a vida das pessoas que procuram seus serviços,
casos engraçados de pessoas que moram na favela, relações familiares, enfim,
muitas vezes almoçamos juntos, momentos que proporcionaram uma certa
relação de confiança
26
. No começo, Berbela fazia questão de falar sobre o
reconhecimento que ele tinha acerca do trabalho realizado por Estevão e
Antenor, mas no decorrer do tempo, sempre que tinha oportunidade,
comentava comigo que achava seu trabalho bem mais interessante.
“As minhas coisas sou eu que faço desde o começo, não é nada
pronto, porque o que eles fazem é fácil demais, pegar um prato que já
tá pronto e grudar na parede. Não tem graça nenhuma, assim é fácil,
qualquer um sabe fazer isso pegar uma coisa que já tá feita e colocar
26
Berbela é uma figura bastante conhecida na favela, “desenrolado” e sempre pronto a ajudar,
tem amizades com os moradores comuns e com “os caras”. Essa característica é um dos
elementos que faz com que Berbela tenha uma representabilidade “política” em Paraisópolis,
adiante falarei sobre isso.
53
enfeitando um lugar. Difícil é fazer como eu faço começar do zero,
criar.”
Quando Rui via Berbela falando isso ele repreendia o pai:
“Moço não fale isso não, faça suas coisas e fique na sua, cada um
tem seu jeito de criar, não existe isso de melhor ou pior não”.
Berbela o ignorava e mandava que ao invés, ele que ficasse quieto. A
comparação dos trabalhos é presente também em como Berbela se vê em
relação ao seu próprio trabalho. Em uma ocasião perguntei: “Por fazer essas
coisas que você faz, o que você é? Um artista?”
“Não, eu não sou um artista porque não realizei meu sonho ainda. No
dia que eu realizar meu sonho eu vou me considerar um artista. Na
verdade eu acho que sou um pouquinho só. Quando eu tiver meu
espaço pra trabalhar, tirar as crianças da rua, aquelas que não têm o
que fazer, que vivem no mundo da perdição. Outro dia eu vi cinco
meninos dormindo dentro de um carro abandonado aqui em
Paraisópolis, todos novos, bons de trabalhar, teve até um deles que
me pediu para trabalhar comigo aqui, mas como eu vou fazer isso?
Como eu vou deixar eles trabalhando aqui se não tem lugar? Se eu
tivesse um lugar, eu colocaria, seis, dez pessoas trabalhando aqui,
fazer peças grandes, um parquinho pras crianças brincarem,
enquanto os pais vem aqui fazer visita. Aí sim eu vou me considerar
um artista porque eu quero fazer muitas coisas grandes, fazer história
aqui em Paraisópolis, eu não posso dizer que sou um artista sem ter
realizado o meu sonho. Quando eu olhar e ver que fiz um helicóptero,
uma nave espacial, o carro que eu quero fazer do meu jeito, tudo
arrumadinho, pintadinho, vou olhar e dizer, agora sim sou um grande
artista, o Berbela. Tudo que eu fiz até agora, tudo é besteira.”
Berbela evidencia que para ser considerado artista é necessária a
realização de “grandes obras” e outros aspectos revelados pelo mecânico ao
estabelecer uma comparação entre ele e os outros ‘artistas’ da favela. Essa
comparação foi feita espontaneamente por Berbela quando perguntei como ele
conheceu Antenor e Estevão:
“Eu sempre ouvia falar do Antenor, dessa casa que ele construiu com
garrafa, mas conhecer tem pouco tempo, foi a Flavia Liz que me
levou lá e aí eu conheci ele, eu achei legal por ser um trabalho de
reciclagem, mas eu não tenho nenhuma relação com ele”.
“Já o Estevão, eu conheci ele pela televisão, assim que eu vim morar
aqui, mas ele é artista de muitos anos, há mais de 20 anos que ele
começou a fazer a casa dele e o pessoal começou a filmar, ele é um
grande artista aqui da comunidade. A casa dele hoje é o castelo mais
lindo que eu já vi aqui no Estado de São Paulo. O Estevão é um
artista, ele já foi pra fora do Brasil, acho que pra Espanha, teve um
54
homem que veio aqui, era produtor daquela banda, U2, ele disse que
ia me levar na casa dele lá nos Estados Unidos pra eu enfeitar o
jardim. Quando a Madonna veio fazer show aqui no Morumbi, eu não
sei se foi ela ou alguém que trabalha com ela que me viu andando
com uma das minhas bicicletas na rua, me encontraram não sei como
e ligaram pra mim pra eu ir levando uma bike porque a Madonna
queria que eu andasse com ela no palco no meio do show, só que no
dia choveu e não teve como eu ir, já pensou? Ia ser muito doido, com
a Madonna, ia ficar famoso no mundo todo, se alguma dessas duas
coisas (ter ido pro Estados Unidos ou subir no palco com a Madonna)
já tivessem acontecido na minha vida eu já seria um artista.
“Cada um de nós tem o seu trabalho, o Estevão é fazer vaso com
massa, argamassa, o Antenor é fazer a casa com a garrafa PET, já eu
trabalho com ferro, é um trabalho mais pesado, mais perigoso. Todos
esses trabalhos trazem coisa boa aqui pra Paraisópolis porque só
aqui que tem isso, além de tudo eu acho que ajudo com as crianças,
vêm aqui as escolas aí eu falo pra elas não fazerem nada de errado,
estudar, respeitar o pai e a mãe, respeitar as pessoas na rua, tudo
isso é um incentivo pras crianças. Teve um rapaz daqui que tava
preso, aí quando ele foi solto veio aqui me dizer que quando tava lá
me viu na televisão, passou a rua dele, deu uma saudade tão grande
de casa e pensou que se estivesse como eu fazendo coisa boa não
estaria lá preso. Eu dou bons conselhos, ajudo no que posso, eu acho
que é por isso que me chamaram pra fazer parte da União de
Moradores já fazem 3 anos e agora vou continuar”.
O “ser artista”, para Berbela está relacionado com a realização de um
sonho, o reconhecimento “internacional” através de uma viagem ou um
trabalho feito para alguém de fora do país que o “legitime” e a possibilidade de
realizar uma “intervenção social” positiva em Paraisópolis. Ao mesmo tempo
fala que faz obras de arte e ao que parece, o “ser artista” também está
associado à fama; sabe “fazer arte”, mas não é suficientemente famoso – e por
isso não é artista.
E a inspiração para fazer as peças? De onde vêm?
“Ah, vem do nada, você acabou de ver que em 15 minutos eu fiz uma
moto, eu estou aqui conversando com você, mas estou pensando em
outras coisas, daqui a pouco eu me levanto e vou ali fazer outra obra
de arte, eu não me atrapalho no meu pensamento, tô aqui falando,
mas o meu pensamento está em outra coisa”.
Sobre a “visitação” à sua oficina, Berbela mostra-se entusiasmado:
“Eu acho muito bom que os turistas venham aqui, porque aí eles
levam meu trabalho pra longe, pros Estados Unidos e assim meu
trabalho fica divulgado, porque eles filmam, tiram foto, eu fico muito
55
27
agradecido que você , a Flavia e as outras pessoas tragam turistas
aqui porque a gente tira até um dinheirinho para fazer mais coisas,
cada dia que você chega aqui tem uma coisa diferente, só coisa
bonita de se ver. Pena que os brasileiros não vêm aqui eu acho que
eles não vêm porque o pessoal do Brasil é que nem eu, só querem
trabalhar, que nem eu, eu só quero trabalhar, o pessoal de fora é que
gosta de ver e o pessoal daqui gosta de fazer. Brasileiro que vem aqui
são os parentes das pessoas de Paraisópolis que vêm passear aqui e
querem vir conhecer porque me viram na televisão aÍ eles vêm pra ter
certeza que é verdade. Vai melhorar cada vez mais a visitação com a
copa de 2014, vai vir muita gente visitar e agora eu vou começar a
fazer as peças pra vender.”
A questão do dinheiro também presente no discurso de Berbela é
encarada como um problema. No início da pesquisa, o “pagamento” pela
visitação só era feito por insistência de Flavia Liz: os turistas eram orientados a
deixarem R$ 10,00. Em todas as situações Berbela deixava claro que recebia o
pagamento à revelia: “Faço isso porque gosto, não é pra ganhar dinheiro, meu
trabalho é aqui na oficina, sou mecânico, não artista”. Hoje, Berbela justifica o
recebimento do dinheiro como um “reconhecimento” de seu trabalho, e por
servir para comprar material para investir na produção das peças, mesmo que
a maioria do material utilizado seja restos de ferro velho da oficina.
27
Por mais que eu tenha explicado várias vezes a Berbela que não sou guia e sim
pesquisadora, ele insistia em me tratar como tal, pedindo por vezes que eu levasse turistas até
lá (em alguns momentos fiz isso, levando amigos) ou me pedindo para ajudar na apresentação
de sua oficina em momentos em que minha presença coincidia com a de turistas.
56
3.3 Antenor
Antenor Clodoaldo Alves Silva, 48 anos, mora em São Paulo há 24 e
veio sozinho de Alagoas porque queria conhecer São Paulo; tinha vários
conhecidos que diziam que havia muito emprego e que pagavam bem. Quando
chegou, Antenor morou em alojamentos junto com colegas da construção civil;
depois alugou uma casa no bairro de Capão Redondo e três anos depois
conseguiu comprar uma casa em Paraisópolis que ficava em uma área de
risco; depois comprou a atual, que era pequena e tinha apenas 3 cômodos. Aos
poucos, Antenor reformou sua casa que atualmente conta com 11 cômodos,
onde mora sozinho. Com um problema no coração, Antenor foi aposentado por
invalidez e passa o dia inteiro se dedicando aos acabamentos de sua casa. A
ideia de adicionar garrafas PET à construção surgiu em 2008:
“Eu tinha terminado de construir a laje, aí eu vi que precisava de uma
proteção, então tive a ideia de fazer uma paredezinha em volta da laje
com as garrafas, verdinho ia ficar bonito. Aí depois eu fiz uma parede
com as garrafas também na laje pra fazer sombra e as ideias não
paravam de surgir, coloquei garrafas por toda casa”.
Antenor no terraço de sua casa, ao fundo o famoso prédio do Morumbi com vista para Paraisópolis. Fonte:
http://paraisopolis.org/em-paraisopolis-antenor-e-sua-casa-verde/
57
O que sua casa é para você?
“Eu considero uma obra de arte, eu me sinto bem quando eu olho e
vejo que fiz uma coisa tão grande, tão bonita dessas com essa
quantidade de garrafas, é um trabalho único praticamente, eu acho
que ajuda a comunidade porque é divulgado fora aqui de Paraisópolis
e tem sempre alguém querendo ver, sei que o meu trabalho já está
muito longe daqui, fora do Brasil, todo mundo gosta adulto e criança”.
Como começou a visitação aqui na sua casa?
“Primeiro veio um jornal aqui de Paraisópolis, saiu no jornal da União
de Moradores, depois veio uma televisão de fora, tinha uma pessoa
que falava comigo em Português e depois pra eles em Inglês e
depois disso veio 3 televisões, jornais aqui do Brasil mesmo e acho
que foi vendo isso que os turistas quiseram vir aqui conhecer. Quem
trouxe os primeiros turistas foi a Flavia Liz, fizeram até um livro com
umas fotos da minha casa. Eu fico muito feliz quando as pessoas
vem pra ver meu trabalho”.
Antenor no interior de sua casa. Fonte: Jamile Abdallah
Ao longo das várias conversas, Antenor sempre falava do grande
incômodo que sentia em relação a receber dinheiro dos turistas, sempre
enfatizando que achava errado cobrar pela visita:
“Eu não acho justo cobrar, outro dia eu estava no ônibus e uma
pessoa veio do nada e me perguntou por que eu não cobrava pela
visita à minha casa. Eu achei estranho porque eu nunca tinha visto
aquela pessoa e veio assim do nada me falar isso, depois que eu vim
ligar as coisas e perceber que era o cara da casa de pedra, o
Estevão, depois aconteceu de novo eu estava na feira e senti um tapa
assim nas costas por trás, era ele outra vez dizendo que eu tenho que
58
cobrar a visita porque é meu trabalho. Eu me assustei, e depois fiquei
me sentindo muito mal com aquilo que ele me disse, meu coração até
doeu, eu senti no marca-passo, como é que a pessoa nem conhece e
vem falar assim comigo? Isso aqui não é meu trabalho, aliás é um
trabalho porque eu que faço ele, mas é meu, eu não quero ganhar
dinheiro, eu fiz porque eu gosto, as pessoas elogiam meu trabalho,
eu não fiz a fim de ganhar dinheiro não, enquanto der certo eu vou
continuar fazendo, aqui não tá acabado, nunca vai acabar, vai sempre
surgir ideia e eu vou ficar fazendo”.
Atualmente, apenas Luiz
28
tem levado turistas à casa de Antenor. Este
acredita que o motivo da ausência de Flavia Liz na sua casa se deva ao fato de
ele não concordar em receber o dinheiro da visitação.
“Acho que ela vai na casa dos outros dois e eles falam pra ela não vir
aqui, não sei... só pode ser isso, porque o outro guia, o Luiz, vem aqui
sempre e porque ela não vem?
Luiz conseguiu convencer Antenor a aceitar dos turistas, como ingresso
em sua casa, um tubo de cola de silicone (usada para unir as garrafas) que
custa aproximadamente R$ 10,00 e nem mesmo isso é “obrigatório” para entrar
em sua casa: “se a pessoa quiser trazer, bem, mas se não ela entra também e
eu mostro minha casa com toda satisfação”, justifica Antenor.
Além do impressionante trabalho feito com as garrafas, a casa de
Antenor tem um diferencial em relação à casa de Estevão e à oficina de
Berbela: de sua laje é possível ver claramente o contraste entre a favela e o
nobre vizinho bairro do Morumbi. Certa vez perguntei informalmente a Antenor
o que ele achava da vista e da imagem de Paraisópolis que sempre é
reproduzida nos jornais (o prédio luxuoso com uma piscina em cada varanda
ao lado da favela). Fiquei impressionada com a resposta: disse que a vista
melhorou com a obra da construção dos prédios ao lado de sua casa
29
que
assim “tava bonito de ver e saber que as pessoas iriam ter um lugar para
morar”. Antenor pareceu ignorar a presença dos vizinhos ricos e o contraste.
Perguntei então, o que ele achava que as pessoas do Morumbi pensavam
sobre a favela:
28
Luiz é um guia, proprietário de outra agência com proposta semelhante à de Flavia Liz, que
recentemente começou a fazer passeios na casa dos artistas de Paraisópolis. No próximo
capítulo falarei um pouco sobre ele.
29
Antenor referia-se aos prédios que a prefeitura está construindo para abrigar pessoas que
moram próximo à sua casa em local considerado “área de risco”.
59
“Eu não sei o que eles pensam, mas eu espero que eles olhem para
cá, vejam minha casa e tenham uma razão boa para fazer um
comentário sobre Paraisópolis: olha que bonito, tem uma coisa muito
bonita lá em Paraisópolis!”
60
3.4 Flavia Liz – o “psicopompo” de Paraisópolis
No capítulo anterior falei das interseções existentes entre os perfis dos
turistas que visitam a favela com os perfis dos turistas que buscam o paraíso
no universo do turismo. Relembrando, eles compõem um grupo limitado que
buscam o natural, dotados de “consciência ambiental” e guiados por quem
realmente entende do lugar – capaz de lhes propiciar a experiência mais
“autêntica”
30
. Flavia Liz, em Paraisópolis, faz as vezes do profissional
procurado por esse tipo de turista.
Quando decidi investigar a atividade turística em Paraisópolis, fiz uma
pesquisa prévia na internet, encontrei duas agências que diziam fazer o tour.
“Check-Point” oferecia passeios às favelas de Paraisópolis e Helióplis e ainda à
Cracolândia (local então conhecido no centro de São Paulo por agrupar
consumidores do entorpecente crack). No anúncio havia o seguinte convite:
“Temos de mostrar não só o que São Paulo tem de bonito, mas o
outro lado também. Quando levo alguém para uma favela ou para a
Cracolândia, faço questão de mostrar que temos um problema, mas
que estamos melhorando e logo mais não teremos aquilo. É algo que
também faz parte da cidade.”
A segunda se trata da Unique Turismo Cultural Personalizado, que traz
na apresentação do site a seguinte chamada:
“A Unique in SP proporciona um serviço de turismo vivencial de alto
nível sociocultural a todos que desejam ter uma experiência fora do
comum ao conhecer São Paulo, a maior cidade do Hemisfério Sul.
Vanguarda em moda, design, arte contemporânea, arte de rua e
arquitetura, São Paulo é também a capital mundial dos contrastes.
Aqui, é possível passear por um parque de Mata Atlântica em pleno
coração financeiro. No centro antigo, ficar simultaneamente frente à
arquitetura antiga de um mosteiro beneditino e de painéis de arte
contemporânea, sentir o impacto de ver um prédio com uma piscina
por andar ao lado da segunda maior favela da capital, escolher entre
fazer compras na maior e mais exclusiva loja de departamentos do
30
A autenticidade tem sido chave em várias pesquisas antropológicas no campo do turismo.
Parece haver consenso em torno da ideia de que os turistas buscam mais, e a todo custo, a
vivência de experiências que lhes proporcionem o máximo de exclusividade e autenticidade,
cada vez mais raras em tempos de globalização, onde culturas são postas a todo o momento
em contato, realizando trocas e influências que extinguem “o autêntico, o intocado”. No artigo
“A construção da favela carioca como destino turístico”, Freire-Medeiros (2006) observa que: “A
possibilidade da revelação de si através do encontro com “a comunidade” onde permanece
resguardada “a cultura autêntica”, livre das influências corrosivas do meio externo, é um
elemento fundamental na composição do produto turístico dito “alternativo” p. 3
61
mundo ou nas lojas populares da Rua 25 de Março, além de poder
visitar 3 tribos indígenas de etnia tupi guarani.”
A apresentação do site faz o convite para um público específico,
“aqueles de alto nível sociocultural” ou, para fins desse texto, os “turistas
paradisíacos”. O site segue com uma lista de tours que prometem proporcionar
uma experiência diferente e exclusiva – Street art; São Paulo fashion;
Observação de aves; São Paulo verde; FuteSampa – futebol em São Paulo;
São Paulo arquitetura & design; São Paulo arte moderna & contemporânea;
Cidade do sabor; Shopping Day; Noite e cultura; Sincretismo religioso; Fazenda
e barões do café; Praias, ilhas e culturas; Zapping for Kids; Mixed tour;
Familiarização para expatriados; O seu tour; Business for you e por fim: Por
dentro das favelas:
Vivencie a realidade das favelas e a sua expressão cultural e artística
– um retrato autêntico da população mais humilde da cidade de São
Paulo.
Especial Paraisópolis – Na favela de Paraisópolis mora Estevão, na
sua Casa de Pedra. Conhecido como o “Gaudi brasileiro”, ele é um
artista singular que tem o poder de expandir a visão do visitante sobre
o uso de objetos do dia a dia. Outro artista de Paraisópolis é Seu
Berbela que transforma magicamente elementos da sua oficina de
carros em esculturas de surpreendente delicadeza e movimento.
Os dois convites me chamaram a atenção por seu contraste. Trata-se do
mesmo lugar-alvo, mas anunciados de formas completamente diferentes: a
primeira como o problema, o feio, o outro lado; a segunda enfoca sua
expressão cultural e artística, que remete a coisas “boas”.
Tentei contato com as duas agências, mas não consegui com a Check
Point. Depois de muito tentar percebi que os passeios com esta agência, se
existiram em algum momento, foram muito pontuais e não estavam
acontecendo mais (fato confirmado mais tarde por pessoas responsáveis pelos
“pontos turísticos” de Paraisópolis). Já com a Unique, consegui contato na
primeira tentativa e no mesmo dia marquei um encontro com a guia e dona da
agência, Flavia Liz, dona e única funcionária da agência.
Encontramo-nos no centro antigo de São Paulo, mais precisamente no
prédio da BOVESPA. Flavia Liz se apresentou como “guia de luxo”; seus
passeios
são
realizados
para
pessoas
de
altíssima
renda,
quase
62
exclusivamente para estrangeiros. Ela se mostra uma pessoa muito ativa e
bastante familiarizada com a cidade de São Paulo, fala seis línguas, conhece e
já morou em vários países. Na ocasião a guia me falou sobre seu trabalho de
maneira geral, e me explicou de maneira detalhada como funciona o passeio
em Paraisópolis; por fim, deixou claro que não cobra por esse tour, apenas os
turistas são “intimados” por ela a deixar dez reais em cada ponto visitado.
Flavia Liz começou a frequentar a favela de Paraisópolis quando tinha
16 anos – a empregada de sua casa morava na favela e nos fins de semana
Flavia ia com seus pais até lá levar a moça em sua casa. Seu primeiro contato
como profissional com o campo das favelas deu-se na favela Monte Azul, cuja
associação de moradores “adotou a filosofia antroposófica de Rudolf Steiner,
criador da pedagogia Waldorf”
31
. Flavia Liz levava os turistas para visitar a
favela de Monte Azul para conhecer a referida pedagogia. Sim, levava: apesar
de o tour da favela de Monte Azul ainda estar contido no site da agência de
Flavia Liz como passeio oferecido, as visitas não são mais realizadas. Como
relata a própria guia:
“Eu parei de levar os turistas na Monte Azul porque agora eles tem os
próprios guias locais deles, e ainda tem que pagar dez reais, eles
tinham voluntários estrangeiros, japoneses, holandeses e alemães,
principalmente, que faziam uma visita monitorada e quem quisesse
fazia uma doação no final. Agora eles colocaram pessoas locais da
comunidade que falam “nóis vai, nóis foi”; não falam nenhuma língua,
quando eu levava alguém lá tinha o tempo todo que atrapalhar a
moça, dando opiniões do que mostrar, além de fazer intervenções o
tempo inteiro para traduzir o que a guia falava, então eu fiquei
decepcionada com a falta de qualidade, com o valor imposto a ser
pago a uma guia que não sabe quase nada e por isso resolvi não
voltar mais lá. Quando alguém insiste muito que quer conhecer, eu
vou e nem aviso mais, explico do meu jeito, levo na lojinha que tem lá
pra que os turistas comprem alguma coisa para ajudar, mas para
serem guiados por eles, eu não levo turistas lá.”
Essa colocação de Flavia Liz remete ao que é estudado por Teresa
Mendonça em sua tese de doutorado “Que paraíso é esse? A turismização em
Ilha Grande-RJ (2010), que caracteriza o desenvolvimento do turismo na Ilha
31
A Antroposofia, do grego "conhecimento do ser humano", introduzida no início do século XX
pelo austríaco Rudolf Steiner, pode ser caracterizada como um método de conhecimento da
natureza do ser humano e do universo, que amplia o conhecimento obtido pelo método
científico convencional, bem como a sua aplicação em praticamente todas as áreas da vida
humana. Fonte: http://www.sab.org.br/antrop/. Acesso em 06/06/2011
63
através de um processo que transforma o modo de vida local, criando e (re)
criando uma “etiqueta” referida ao turismo. Conforme Mendonça (2010), essa
etiqueta, por muitos anos estudada principalmente por profissionais da
Geografia – chamada de turistificação – refere-se ao preparo do espaço para
receber o turismo/turista, através de “potencialidades” já existentes ou da
“criação” de lugares “inventados” para o desenvolvimento da atividade turística.
A autora traz em sua tese um novo olhar sobre esse processo, é o que ela
chama de turismização, que leva em conta, antes de tudo (o que também eu
defendo na minha análise), a transformação de um lugar em destino turístico
como um fenômeno sociocultural, constituindo um sistema de valores que
marca o modo de vida do lugar, refletindo nos discursos e nas práticas.
[...] Enquanto a ideia de turistificação toma o espaço como elemento
de intervenção e apropriação pelo turismo, a ideia de turismização
que aqui proponho é inspirada na mesma proposta de Lopes (2006,
p. 34), sobre a ambientalização, como um “neologismo semelhante a
alguns outros usados nas Ciências Sociais, para designar novos
fenômenos ou novas percepções de fenômenos vistos das
perspectivas de um processo”. Ao ser adicionado o prefixo “zação” ao
turismo, indico, como no emprego de ambientalização e em outros,
que a “turismização” é um processo histórico de construção de um
fenômeno associado a um processo de interiorização das diferentes
facetas do turismo pelos grupos e pelas pessoas, que influencia nas
relações e no modo de vida de determinado lugar. p. 226
De forma semelhante ao processo ambientalizador, o processo
turismizador leva a transformações no comportamento cotidiano das
pessoas, seja no trabalho ou no lazer; dita novas regras, novas
etiquetas a seguir; molda comportamentos referidos às novas
configurações locais [...] p. 229
A atitude de Flavia Liz de não levar mais turistas à favela de Monte Azul
perpassa então por uma das observações acerca do processo de turismização
– a “etiqueta”: os guias locais não corresponderiam aos requisitos exigidos para
atender ao seu público de alto nível.
Já em relação a Paraisópolis, Flavia Liz conta que não se recorda como
tomou conhecimento do trabalho de Estevão (o primeiro artista que conheceu).
Perguntei diretamente a ele, mas ele também não se recorda, só lembra que
faz entre 5 e 6 anos que a guia leva turistas à sua casa. A partir do contato com
Estevão – observando a potencialidade que este tinha para se tornar um
destino turístico e depois de levar muitos turistas à sua casa – Flavia Liz conta
64
que tentou articular com a UMP uma parceria para incrementar a visitação ali,
já que Estevão relatou que os visitantes chegavam à sua casa na maioria das
vezes através da UMP. Nessa época, há cerca de dois anos, a guia foi
apresentada a Berbela, que foi prontamente reconhecido por Flavia Liz como
mais um ponto a ser visitado, formando-se o “circuito de artistas da favela de
Paraisópolis”. A tentativa de articulação, porém, não teve sucesso: a diretoria
demonstrou um suposto interesse, mas não levou adiante o combinado de
formar turmas para capacitar guias que fossem residentes da favela e
conseguir junto às ONG’s locais cursos de línguas para os alunos, e Flavia Liz
entraria com a formação específica do “guiamento”. Mesmo sem a parceria
com a UMP, Flavia Liz continuou a levar turistas, agora também à oficina de
Berbela – fato encarado com reprovação pela UMP, mas aceito por parte dos
visitados 32.
Durante minha permanência em campo pude observar que a atividade
turística em Paraisópolis ainda é pouco expressiva, tanto pelo fluxo reduzido de
turistas – que segundo os artistas variam de acordo com o mês, de cerca de 4
a até no máximo 20 ou mais, em casos esporádicos, quando aparecem grupos
maiores – quanto pelo fato de que para os moradores, dos vários que
entrevistei para saber sobre a história da favela, poucos sabiam da existência
da visitação. Mesmo porque a favela é grande e nem todo mundo se conhece,
o entra-e-sai de pessoas pelos vários acessos é constante. A presença de
estrangeiros também não é estranhada pelos moradores devido ao grande
número de ONG’s que atuam em Paraisópolis com voluntários de fora do país.
Portanto, não posso dizer que o processo de turismização em Paraisópolis
ocorre tal como exposto por Mendonça (2010), alterando ou interferindo no
cotidiano da favela. Contudo, observei alguns casos que apontam para a
potencialidade desse processo de turismização.
A oficina de Berbela é, antes de um ponto de visitação, seu local de
trabalho. A quantidade de clientes varia, como em qualquer oficina; às vezes,
quando o trabalho é pouco, Berbela tem tempo de limpar e organizar os objetos
32
No próximo capítulo falarei sobre os conflitos que essa prática tem causado.
65
antes que os turistas cheguem
33
. Quando a oficina está cheia, ele não tem
tempo para fazer isso, as peças ficam escondidas e empoeiradas, fato que
deixa Flavia Liz bastante irritada:
“Mas Berbela, eu já te falei, tem que deixar tudo limpo, tudo
organizado pra quando os turistas chegarem; não pode deixar assim,
tem que ficar tudo exposto, pra que eles possam ver tudo”.
Nesses casos Berbela argumenta que não teve tempo porque tinha
muito trabalho, ou que o espaço é pouco, não tem como deixar tudo sempre à
vista. Na chegada dos turistas à oficina de Berbela, Flavia Liz o apresenta
como uma “figura”, uma pessoa diferente, descontraída, e avisa que apenas
fará a tradução, mas que ele mesmo apresentará sua oficina e peças. Na
verdade isso não ocorre: a guia, a todo tempo, interfere no que Berbela mostra
ou diz – como disse fazer com os guias de Monte Azul. Observando as visitas
percebi que ela tentava estabelecer um “fio condutor padrão” para a visita, mas
Berbela quase nunca obedece a esse padrão, e no fim o que prevalece é a
apresentação que Flavia Liz faz. Além do controle que ela impõe no momento
da visitação, com as constantes interferências, também existe a barreira da
língua que impede qualquer autonomia que Berbela possa ter ao guiar os
turistas dentro de sua própria oficina. Não estou dizendo com isso que Flavia
Liz não traduz corretamente ou não dá voz a Berbela, mas que ela facilmente
tem o “controle” sobre a visitação. Por fim, Berbela sempre hesitava em receber
o dinheiro dos turistas; ele sempre deixa claro que isso não é o seu trabalho e
por isso não acha justo receber ao final das visitas. A guia sempre lembrava
aos turistas que era necessário pagar dez reais; Berbela, constrangido, não
queria aceitar, mas acabava recebendo, e aos poucos Flavia Liz o convenceu
que não havia problema nenhum em aceitar o dinheiro dos turistas, sob o
argumento de que era uma valorização do seu trabalho.
Estevão trabalha fora, quase nunca está em casa quando há turistas;
Edilene, sua esposa e dona de casa, é quem sempre recebe as visitas. Flavia
Liz conduz a visita por dentro da casa e por vezes solicita que Edilene ajude a
contar a história, mas esta, muito tímida, fala pouco. Nas raras vezes em que
Estevão está em casa, Flavia Liz prefere que ele não conduza o tour, apenas
33
Flavia Liz sempre telefona para Berbela e Estevão antes das visitas para que eles deixem
tudo arrumado e fiquem esperando os turistas.
66
faça uma breve introdução de como tudo começou. Certa vez, quando Estevão
estava em casa, os turistas sentaram na “sala de estar”, como de costume,
enquanto ele contava a história de sua casa. Empolgados, os turistas
levantaram e seguiram Estevão, que os guiou fazendo um caminho diferente
do “roteiro” habitual. Ao perceber isso, Flavia Liz interferiu dizendo em tom de
brincadeira que Estevão não sabia guiar e que fazia tudo errado. “Não sei é?
Então tá”. Após falar isto, Estevão saiu da nossa companhia até o que o tour
acabasse. No final da visita Estevão chamou Flavia Liz para mostrar-lhe uma
peça que ele havia conseguido recentemente, que ele julgava datar de 1899.
Flavia foi verificar e falou que na verdade essa data era da inauguração do
local retratado na peça e não da idade da mesma. Estevão esboça uma clara
decepção, pois parecia que ele tentava desfazer o mal-estar anterior de seu
“sumiço”.
Em outra ocasião, Edilene conta a Flavia Liz que na semana anterior
chegou um grupo com mais de 20 turistas, trazidos por uma pessoa da UMP.
Era sábado e Estevão também estava em casa. Os dois se dividiram com as
pessoas e um pensou que o grupo tivesse pago a visita ao outro, mas isso não
aconteceu e eles deixaram de ganhar 200 reais, fato muito lamentado por
Edilene. Flavia Liz fala em tom de repreensão:
“Olha aí, se tivessem feito como eu falei, colocado a placa que eu
trouxe escrita em português e inglês com o preço da visita na porta da
casa e cobrado o ingresso, logo na entrada, como eu expliquei
naquela reunião que fizemos nós três –, eu, você e Estevão –, isso
não teria acontecido. Eu sei das coisas Edilene, trabalho há muito
tempo nesse ramo, quando eu digo pra vocês o que é pra ser feito
não é à toa não, eu tenho experiência; isso é um negócio e eu tenho
toda a boa vontade de explicar pra vocês, mas vocês precisam fazer
o que eu digo”.
Não estive presente em nenhuma ocasião que Flavia Liz levasse turista
à casa de Antenor, aliás, só vi os dois juntos uma única vez, quando a guia
levou a fotografa Jamile Abdallah, amiga sua, que precisava fotografar sua
casa pois já estava com uma exposição marcada no consulado do Brasil em
Los Angeles, sobre o trabalho dos artistas de Paraisópolis. A casa de Antenor
não faz parte do circuito feito por Flavia, apesar da criatividade e originalidade
dispensadas na construção de sua casa e de ser, como dito antes, o único
67
ponto (dentre os locais visitados) de onde se pode observar o emblemático
prédio luxuoso com as varandas viradas para a favela (apresentado como
atrativo no site da agência de Flavia Liz). Antenor mora sozinho e está doente
com problemas no coração, por isso sua casa é “suja” e “inadequada” para
receber turistas (de acordo com as palavras de Flavia Liz). Antenor só
concordou com nossa ida à sua casa com a condição de não haver nenhum
pagamento. Na saída Flavia Liz sugere a Antenor que aceite o pagamento dos
turistas quando forem à sua casa e com esse dinheiro pague alguém para
manter sua casa sempre limpa. Proposta imediatamente recusada por Antenor.
“Enquanto lá for assim, eu não posso levar turistas, a casa é suja, tem
um mau cheiro, também tenho que pensar na qualidade do serviço
que ofereço, não posso proporcionar algo desagradável para os meus
clientes”, afirma.
A boa vontade a que Flavia Liz se refere tem um preço, apesar de
supostamente os turistas não pagarem à guia pelos passeios a Paraisópolis 34:
“Eu não cobro pela visita à favela, quando um turista entra em contato
comigo querendo fazer o passeio somente à favela, eu converso,
proponho que escolha um outro tour no meu site, e aí depois eu o
levo até os artistas; a pessoa me paga pelo outro passeio, não por
esse especificamente. Antes que eu feche com um turista eu
converso bastante, troco emails, não é uma negociação rápida, eu
tenho que conhecer meu cliente pra saber que ele quer o que ele faz
e assim poder fazer uma coisa mesmo exclusiva, direcionada”.
Ou seja, mesmo que a guia não receba pelo passeio à favela,
diretamente, o trabalho não é de todo de graça. Outro ganho vem também da
constante publicidade que os artistas da favela tem tido pela presença de
jornalistas,
documentaristas,
fotógrafos
e
“blogueiros”;
muitos
desses
profissionais chegam até Paraisópolis através de Flavia Liz, que quase sempre
tem presença garantida em suas reportagens 35.
34
Não tive como descobrir a veracidade dessa informação, já que nunca presenciei o
pagamento ou qualquer forma de negociação entre ela e os turistas. Os preços dos tours não
estão contidos em seu site.
35
O blog de Flavia Liz contém várias dos trabalhos feitos com os artistas onde ela também está
presente: http://uniqueinspbyflavializ.tumblr.com/. Acesso em 22/01/2012
68
A despeito disso, destaco aqui a exposição que citei acima da fotógrafa
Jamile Abdallah, intitulada “O extraordinário efeito especial do dia-a-dia na
cidade de São Paulo”, que reuniu fotos dos trabalhos de Berbela, Estevão e
Antenor. No catálogo – onde se observa todas as fotos e textos que estavam
expostos – a referência aos artistas é feita apenas através da impressão de
seus nomes e fotos de perfil nas páginas que antecedem a seus respectivos
trabalhos e uma curtíssima descrição contida no texto de apresentação, nada
mais que isso, nem um pouco de suas histórias de vida, ou explicação sobre
suas “obras”. Os textos contidos na exposição fazem referência apenas a
Flavia Liz e à “importância de seu trabalho para a favela”. No meu entender, ao
que parece, os artistas foram postos em segundo plano. Segue a apresentação
do ensaio:
“Efeito especial
Em meio a correria do dia a dia de uma grande cidade como São
Paulo encontramos pessoas únicas que com seu trabalho e
disposição descobrem coisa incríveis sobre a cidade.
Flavia Liz é uma delas, guia de turismo que nos leva em tours
customizados e construídos de acordo com o interesse da pessoa,
onde você pode aprender mil coisas sobre São Paulo.
Fizemos o tour e conhecemos além de outros lugares a favela de
Paraisópolis. Lá descobrimos pelo olhar de Flavia Liz vários artistas e
com trabalhos impressionantes, além de levar nas visitas ela conhece
a realidade local e participa contribuindo na divulgação de projetos e
artistas da comunidade. Estevão considerado o Gaudí brasileiro, que
até hoje continua construindo sua casa, Berbela que tem uma oficina
mecânica e transforma sucata em miniaturas de motos, câmeras,
tudo vira arte, Antenor que nem faz do tour ainda mas que visitamos e
que reformou sua casa com garrafa pet”. [sic]
69
Apresentação de Flavia Liz no catálogo da exposição “Efeito especial”, por Jamile Abdallah
Quando o trabalho ficou pronto, Flavia Liz se encontrou com os três
artistas e apresentou o trabalho com grande “exaltação”. As fotos foram feitas
sem que os artistas soubessem sua finalidade e tampouco tiveram a
70
oportunidade de deliberar sobre seu aparecimento ou não na exposição. Uma
cópia do catálogo da exposição foi dada de presente a cada um deles, que o
receberam de maneiras diferentes: Berbela o guardou como mais uma das
reportagens em que ele aparece; Antenor presenteou sua professora de
alfabetização e Estevão ficou bastante chateado, primeiro por essas fotografias
terem sido publicadas sem seu consentimento e sem que ele tivesse recebido
algo por isso (já que Estevão é o único que encara sua casa como um negócio)
e, segundo, por receio, devido ao contrato assinado com o autor do livro que
conta sua história, em que consta uma cláusula proibindo a publicação de
qualquer outro trabalho por período ainda não findado.
As relações descritas anteriormente, de Flavia Liz com cada visitado,
mostram a tentativa – ou mesmo a imposição – de uma conduta para
transformar Paraisópolis (ao menos os locais visitados) em um lugar turístico. A
apresentação é toda mediada por ela, algo como a relação “nativo-civilizado”.
O visitado e suas “obras” são o “atrativo”, mas não estão no mesmo nível nem
do visitante nem daquilo que é considerado “arte”. Na fase atual do turismo em
Paraisópolis, em que o mesmo ainda é uma prática emergente, a atividade
atravessa a turismização vista com um caráter quase educacional, direcionado
aos visitados que devem, a todo custo, aprender a trabalhar com o turismo.
Mendonça (2010) relaciona sua análise do processo de turismização com o
processo civilizador proposto por Elias (1993), quando o autor fala das
alterações que esse processo causa na conduta e nos sentimentos humanos
quando orientados para alguma direção (Mendonça apud Elias, 2010):
Esse tecido básico, resultantes de muitos planos e ações isolados,
pode dar origem a mudanças e modelos que nenhuma pessoa
isolada planejou ou criou. Dessa interdependência de pessoas surge
uma ordem sui generis, uma ordem mais resistível e mais forte do
que a vontade e a razão de pessoas isoladas que a compõem. p. 184
[...] a civilização não é “razoável” e nem “racional”, como também não
é irracional. É posta em movimento cegamente e mantida em
movimento pela dinâmica autônoma de uma rede de
relacionamentos, por mudanças especificas de maneira como as
pessoas se veem obrigadas a viver. (p. 195)
Esse processo nem sempre diz respeito a fatores diretamente
“turísticos”, mas que ditam uma conduta de (re) educação necessária para o
desenvolvimento do turismo, a exemplo de um episódio que ocorreu quando
71
fomos à casa de Estevão: ao chegar, fomos recebidos pelo saltitante Eduardo,
filho mais novo de Estevão, que correu ao encontro de Flavia e lhe deu um
beijo no rosto; depois ela percebe que ele está com os olhos vermelhos e
pergunta o porquê. Ele fala que está com conjuntivite, ela se mostra um pouco
aborrecida – em outra oportunidade, quando voltamos à casa da Estevão,
Flavia Liz chamou Edilene e disse que ela deveria ter informado da conjuntivite
de seu filho, pois ela tinha contraído a doença e isso era algo muito grave: “já
pensou se passa pra algum dos meus clientes?”. Falou dos cuidados que ela
deveria ter e pedia que eu confirmasse que isso era importante. Edilene,
apesar de se mostrar muito constrangida com tais “instruções”, não comentou
nada.
Camila Moraes, (2011), em sua dissertação de mestrado que aborda o
turismo nos Morros do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo, na cidade do Rio de
Janeiro, examina como o turismo tem sido visto, em alguns casos, como a
“melhor forma para se educar um povo”: “O turismo nessa visão dos seus
promotores locais se equaciona com educação, com a “civilização” da
população para o turismo – a nova etiqueta da turismização” – (MORAES, C
2011). Em seu trabalho, a autora está falando em outro contexto, onde há
interferência de instituições públicas, privadas e não governamentais atuando
na “moldagem” do espaço e preparando moradores locais para receber turistas,
ao passo que em Paraisópolis o processo “educacional”, por enquanto,
acontece apenas direcionado aos visitados por parte, sobretudo, de Flavia Liz.
Além da relação guia-visitados já analisada, outra merece destaque: a
relação guia-favela-turista. De maneira geral, o passeio começa já no carro de
Flavia Liz; ela geralmente busca o turista no local onde ele está hospedado, ou
mesmo o turista vai até sua casa, localizada em um bairro nobre na zona sul de
São Paulo, relativamente perto de Paraisópolis. No caminho, ela apresenta
alguns centros comerciais e, chegando ao Morumbi, Flavia Liz sempre faz
questão de enfatizar que se trata de um bairro de “novos ricos” e por isso o
mau gosto na arquitetura das casas, a mistura de estilos, as cores destoantes e
até o “caso bizarro” de uma pessoa que havia transformado uma antiga igreja
em sua casa, preservando toda sua arquitetura original. Na entrada de
Paraisópolis, os turistas são convidados a olhar para o lado direito do carro,
72
nesse momento é possível enxergar o já citado prédio emblemático com uma
piscina por andar que arrisco dizer que é o símbolo de o símbolo de
Paraisópolis 36.
Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4581158-EI6579,00favela+de+Sao+Paulo+tera+passeio+turistico+em.html
No caminho os turistas são convidados também a observar o comércio,
as agências bancárias, as creches, posto de saúde:
“Aqui tem de tudo, uma boa infraestrutura, os moradores só precisam
sair para trabalhar, tudo que eles precisam encontram aqui mesmo
dentro da favela”.
Tudo é observado de dentro do carro. A primeira parada é realizada
apenas dentro da oficina de Berbela; antes de chegar à oficina, os turistas são
orientados a não tirar fotos do lado de fora da oficina, da rua e muito menos
das pessoas:
“Não podemos registrar porque na frente da oficina tem uma “boca de
fumo”, nada perigoso, nada comparado ao Rio de Janeiro, mas
precisamos estar atentos”.
36
Durante vasta pesquisa realizada na internet acerca da favela de Paraisópolis, essa imagem
é repetidamente apresentada. Cito aqui três fontes, incluindo o próprio site da União de
Moradores de Paraisópolis, que traz essa imagem em seu layout. São eles:
http://paraisopolis.org/
73
A relação guia-favela-turista é operada pela chave da violência que aqui
parece ser destacada e elucidada como parte integrante do tour. A passagem
em que Flavia Liz fala: “nada perigoso, nada como no Rio de Janeiro” parece
atender ao desejo dos atores sociais de experimentar a ansiedade
contemporânea entre liberdade e segurança, ou seja, o “contato seguro com a
violência”, como pondera Freire-Medeiros, (2009), apud Bauman (2001) e
Guiddens (1991).
Em determinada ocasião, a assessoria de um evento –
realizado para um grupo de vinte empresários em São Paulo – fechou com
Flavia Liz um passeio à favela sem que os empresários soubessem para onde
estavam indo. Quando o grupo chegou a Paraisópolis a guia os instruiu para
que não tirassem fotos (devido à proximidade com a boca de fumo). Ao
reconhecerem o “território” onde estavam, Adalberto
37
contou que os turistas
começaram a guardar os relógios de pulso e outros acessórios de valor,
precavendo-se do “perigo iminente”, mas não se recusaram a fazer o passeio,
num clara expectativa em “experimentar” o perigo.
A oficina de Berbela e a casa de Estevão são próximas uma da outra,
mas o trajeto entre elas é feito de carro; após uma visita tive a oportunidade de
almoçar com dois turistas que relataram:
“Eu não me senti visitando a “favela”, eu visitei os artistas que são da
favela... Eu acho que aqui não é como no Rio de Janeiro, porque pelo
que sei lá as pessoas vão visitar a favela, a miséria e isso eu acho
que não faria”.
Talvez, o “não ter se sentido na favela”, ir-se de carro de um ponto a
outro, deve, sem dúvida, auxiliar a direcionar o olhar do turista para o foco que
Flavia Liz deseja dar ao passeio. Voltando ao tour dos empresários, quando
chegaram à casa de Estevão – onde se pode observar a construção pelo lado
de fora –, os turistas se “espalharam” rapidamente: um grupo subiu a escada
que dá acesso à casa do vizinho de Estevão e, ao perceber essa
movimentação, Flavia Liz ficou claramente preocupada, tratando de tirar
rapidamente os turistas de lá.
37
Adalberto é estudante da graduação em turismo e morador da maior favela de São Paulo,
Heliópolis, e também está realizando uma pesquisa sobre o turismo em Paraisópolis para seu
trabalho monográfico. Em campo, eu e Adalberto viramos colegas e parceiros; trocávamos
ideias e observações quando o outro não estava presente – como nesse dia da visita do grupo
de empresários, em que eu não estava, e o que descrevo é de acordo com suas observações.
74
Grupo de turistas na entrada da casa de Estevão com Flavia Liz e Berbela. Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora
Depois do tour do grupo, Flavia Liz disse que dificilmente repetirá esse
passeio com um grupo tão numeroso:
“É muito difícil controlar todo mundo, é muita responsabilidade, pelo
nível que têm os meus clientes eu não posso correr o risco de expôlos a riscos e muito menos fazer algo mal feito”.
Os turistas são orientados a todo o momento para onde olhar, por onde
andar, o que fazer; é um cuidado excessivo para que a experiência seja feita de
acordo com o que a guia quer mostrar.
O
panorama
exposto
sobre
os
papéis,
histórias
de
vida
e
posicionamentos dos artistas e de Flavia Liz servirá de base para a explanação
do próximo capítulo, em que os atores do campo estarão “discutindo” para
tentar decidir de quem são as chaves do paraíso.
75
4. Turismo, a “salvação”?
Na graduação em Turismo os discursos e bibliografia que nos são
apresentados quase sempre mostram o turismo como uma atividade
promissora,
capaz de
“desenvolver”
uma
localidade
economicamente,
preservar o meio-ambiente e ainda valorizar os aspectos culturais, a exemplo
do que discorre Gândara et al. (2006), um dos estudiosos em Turismo no
Brasil:
O turismo é, portanto, uma atividade econômica e social geradora de
impactos positivos e/ou negativos na comunidade receptora e em seu
meio ambiente, tanto quanto em sua economia. Pode-se utilizar o
turismo como instrumento de desenvolvimento econômico e social de
forma sustentável, criando uma situação em que os impactos
positivos são aumentados e os negativos minimizados. Assim, o
turismo pode ser desenvolvido no sentido de ajudar a estimular o
interesse da população local pela própria cultura, uma vez que,
incluídos na atividade turística, os elementos culturais podem ser
recuperados, conservados e valorizados através do estabelecimento
de uma relação entre áreas de cultura e turismo, utilizando dentro de
sua dinâmica processos culturais de muita relevância e abrangência.
p. 4
A referida “sustentabilidade” que o desenvolvimento do turismo
proporciona ‒ conforme a citação acima ‒ deve ser conquistada através de um
planejamento turístico correto:
“(...) processo pelo qual se analisa a atividade turística de um país ou
região, diagnosticando seu desenvolvimento e fixando um modelo de
atuação, mediante estabelecimento de objetivos, metas e
instrumentos, com os quais se pretende impulsioná-la, coordená-la e
integrá-la ao conjunto macroeconômico em que se encontra inserida.”
(SOUZA e CORREA, 2000. Apud BRAGA, 2003, p.196)
A elaboração desse planejamento, em minha opinião, compõe ponto
central na formação do turismólogo – profissional graduado em turismo.
Podem-se encontrar listas infindáveis de livros contendo métodos e técnicas de
como elaborá-lo, quase sempre atribuindo ao Estado a maior responsabilidade
em fazê-lo:
“Apenas a ação regulatória do Estado permite controlar ou impedir a
inexorabilidade advinda da incorporação dos lugares à economia de
mercado, cabe a ele liderar articulações com outros grupos
interessados em desenvolver o turismo” (MORAES, A 2002).
Ainda segundo os estudos do turismo, o planejamento turístico deve
ser executado em lugares que tenham vocação inerente ao lugar (fato do qual
76
discordo, como já falei anteriormente, por entender a transformação de um
lugar em destino turístico como um processo de construção social). Quando o
lugar não dispuser de atrativos “originais”, devem ser criados atrativos
“artificiais” para que o fluxo turístico seja estimulado. Diante de uma possível
resistência dos moradores locais frente ao desenvolvimento do turismo, devese trabalhar com a sensibilização e conscientização sobre a importância do
turismo. Em suma, a maioria dos estudos do turismo afirma que a todo custo o
turismo deve ser desenvolvido, pois, se bem conduzido, só traz benefícios para
os lugares em que se desenvolve.
O pequeno panorama exposto, em relação ao desenvolvimento do
turismo proposto pela academia, representa uma crítica pessoal à formação
acadêmica do turismólogo, que simplifica o processo (de desenvolvimento do
turismo) e parece querer nos fazer seguir uma receita para realizar uma
atividade que na verdade envolve relações sociais complexas (a exemplo do
tratado aqui nessa dissertação) e que estão longe de serem resolvidas com
fórmulas mágicas. O discurso “benfeitor” do turismo transpõem os muros da
academia e é reiterado também por agentes econômicos.
Na década de 1970, por exemplo, agências internacionais de
desenvolvimento já apostavam no turismo como solução para os problemas
econômicos das nações periféricas (FREIRE-MEDEIROS, 2009), visão que
prevalece até hoje é que é constantemente evocada. O turismo, portanto, seria
um verdadeiro redentor, capaz de proporcionar o desenvolvimento econômico,
ambiental e social de uma localidade.
Steil, (2004), faz um apanhado de como o turismo passou a ser objeto de
estudo na antropologia. Os primeiros estudos, realizados nos anos 70,
criticavam o turismo porque julgavam que este retirava das localidades
receptoras sua autenticidade configurando um “fator de desequilíbrio e
desarmonia de uma economia local de troca de bens simbólicos que deveriam
permanecer isoladas dos processos mundiais de modernização (STEIL, 2004)”.
Depois, já nos anos 90, as narrativas mudaram e passaram a caracterizar o
turismo como vetor de “reinvenção da tradição” das comunidades, cujo
passado não é mais idealizado e o futuro depende fundamentalmente de como
77
os nativos e turistas vão lidar com os ganhos e perdas que esse encontro
proporciona (STEIL, 2004). A retrospectiva apresentada por Steil certamente
não concentra uma totalidade dos estudos antropológicos do turismo, mas
mostra os pormenores das relações proporcionadas pelo turismo, num primeiro
momento vistas de forma negativa, mas posteriormente consideradas como
positivas. O autor conclui a análise detectando que os trabalhos recentes no
campo da antropologia do turismo “têm apontado para uma crescente
dissociação entre turistas e os residentes locais, através de uma série de
mediadores e instâncias que se interpõem entre esses dois polos” (STEIL,
2004).
Os mediadores a que Steil se refere exercem um papel pelo menos tão
relevante quanto o desempenhado por visitantes e visitados, tido, nas primeiras
pesquisas em antropologia do turismo, como o mais “impactante, para o bem
ou para o mal”. É o caso, por exemplo, da relação descrita no capítulo anterior
entre Flavia Liz e os “visitados” em Paraisópolis. A guia não exerce apenas a
intermediação entre os turistas e os artistas da favela, Flavia Liz também dita
regras e condutas que devem ser seguidas pelos visitados para receber os
turistas. Essa relação guia/visitados parece ser operada pelo que trata Corrêa
(2006), a respeito do processo de ambientalização, que parte do conceito de
civilização de Elias, associado à ideia de colonização – imposição de formas
sociais, de estilos de condutas e de um jeito de viver considerados melhores e
mais corretos. Os visitados só teriam conhecimento dos supostos “jeitos de
viver melhores e mais corretos”, trazidos pelo “colonizador/guia” que, portanto,
representaria a “salvação” para os visitados, já que (o turismo) seria um dos
poucos meios de que os visitados disporiam para estar em contato com a
“civilização”.
Em Paraisópolis, a constante procura de profissionais e turistas aos
artistas da favela fez com que a UMP também visse no turismo uma
possibilidade de “salvação”, sem dúvida, partindo da perspectiva difundida dos
efeitos “benéficos do turismo”. A UMP realiza tours de maneira “informal” na
favela. Quando comecei a recolher materiais sobre o turismo em Paraisópolis,
me chamou atenção artigos que falavam da intenção da UMP em criar um tour
próprio, chamado “Visite a cidade do paraíso”, com o objetivo de receber
78
turistas que virão a São Paulo na Copa de 2014. Jovens guias, moradores da
favela, seriam formados para conduzir o tour e seria criada uma “marca” para
que a favela seja de alguma forma comercializada. Ao entrevistar Gilson,
presidente da UMP e idealizador do tour, perguntei o porquê da idealização
desse projeto.
“Por conta disso tudo, da vizinhança com o bairro Morumbi, do
contraste, dos artistas que vêm aqui, do programa de urbanização e
da visibilidade que temos, a gente recebe muitas ligações de pessoas
que querem visitar Paraisópolis, querem conhecer sempre com o
primeiro intuito de ajudar. Paraisópolis hoje é referência por conta dos
nossos trabalhos sociais, somos uma das localizações do Brasil que
mais tem instituições atuando, o que nos transformou em vitrine pra
uma série de coisas, na área política, na área social, na área de
mobilização, tudo que a gente quer acaba conseguindo. Como você
vê muitas pessoas vêm a Paraisópolis e, sempre que vinham, a gente
tinha que tirar alguém da Associação pra fazer esse passeio, o que
tomava uma ou duas horas do nosso tempo. Isso acabou ficando
muito frequente, a gente não podia parar o que tinha que fazer só pra
ficar passeando com as pessoas que vêm aqui. Então a gente pensou
em criar, em vista da Copa do Mundo no Brasil, a gente acredita que
vai ter jogo no Morumbi e que muitas pessoas irão querer visitar
Paraisópolis. A gente pensou em criar esse programa pra organizar o
trabalho e em 2014 podermos transformar essas visitas em alguma
coisa que dê retorno para a comunidade. Porque muita gente vem
aqui, visita, mas não dá nenhum retorno pra comunidade . Então
pensamos em dois movimentos: um é formar os guias para fazerem o
passeio, pra fazer isso precisamos criar um curso de capacitação
para moradores de Paraisópolis, pra que eles aprendessem sobre a
história de Paraisópolis, como se formou, os moradores que vieram
pra construir o bairro Morumbi, o Hospital Albert Einsten, os que
foram ficando por aqui... E o outro seria a criação de uma marca para
Paraisópolis, a pessoa que viesse aqui não daria dinheiro, adquiria
produtos da marca Paraisópolis e esse dinheiro se reverteria para os
projetos e para o salário dos guias. Então essa é a idéia inicial”.
Durante a conversa com Gilson me pareceu bastante clara a visão que a
UMP (aqui representada pela opinião de Gilson) tem sobre o turismo: segundo
ele a atividade turística traria um “retorno” para a comunidade, as pessoas
deixariam algo de bom para a localidade. Durante minha permanência em
campo o projeto proposto pela UMP não foi iniciado; vale lembrar que o
período em que realizei a pesquisa coincidiu com o ano de eleições para a
diretoria da UMP. Perguntei a Estevão e Berbela sobre esse tour que a UMP
pretendia realizar, os dois afirmaram que isso não passa de “enrolação” e que
na verdade a UMP estaria preocupada com outros projetos.
79
Os tours realizados pela UMP contemplam as casas dos três artistas,
cabendo ao turista decidir quais deles gostaria de visitar. Algum funcionário da
UMP ainda é destacado para levar o turista; conforme a importância do (s)
visitante (s), o próprio Gilson o (s) leva (como contei no capítulo anterior, sobre
o episódio em que Gilson levou um grupo de turistas à casa de Estevão). Os
visitantes, em sua maioria, querem conhecer os projetos de Paraisópolis para
ajudar a favela de alguma forma, como relatado pelo próprio presidente da
UMP. Geralmente as pessoas que vão às casas dos artistas através da UMP
não pagam pelo passeio, apesar de Gilson dizer na entrevista que a intenção
em realizar o tour é trazer um “retorno”; esse retorno não vem quando o
passeio é feito com o presidente, pelo contrário, Gilson fala para os visitados
que eles não devem cobrar essas visitas porque apenas com o fato dos
visitantes irem até lá estes já estariam colaborando de alguma forma para a
comunidade.
Pude observar que a UMP deposita nos artistas da favela uma
determinada importância “política”, capaz de atrair “coisas boas” para a
comunidade. Na minha primeira ida à oficina de Berbela, chamou-me atenção,
em meio às paredes repletas de peças, uma foto de Gilson. Num primeiro
momento achei melhor não comentar nada; mais tarde, em outra visita onde
estavam presentes dois professores de turismo da USP, comentei: “Berbela,
esse é o Gilson, não é?” “– Sim, eu pertenço à diretoria da UMP”. “Ah é? E qual
o teu cargo?” “– Tudo, faço qualquer coisa que precisar”. E continuou
explicando suas obras, como que desconversando. Minutos depois ele reclama
do alto custo do aluguel da oficina e das contas de água e luz; o professor
pergunta por que ele não busca apoio junto à UMP. Berbela se mostra
incomodado com a pergunta e fala apenas que já tentou, mas que esse
pessoal é “muito enrolado”. Essa afirmação me faz supor que, na verdade,
Berbela não tem nenhuma participação na UMP, parece compor a “direção”
apenas por ser uma figura de destaque dentro da favela. Mais tarde, fiquei
sabendo que Estevão também faz parte da “diretoria” da UMP, os dois são
sempre chamados para eventos da favela onde estejam pessoas de grande
importância; Berbela conta empolgado que até já cumprimentou o expresidente Lula.
80
Foto Gilson e Berbela na parede do minimuseu de Berbela (material de divulgação da chapa eleitoral).
Fonte: arquivo pessoal da pesquisadora
A diretoria da UMP é formada por várias pessoas, quase trinta, dentre
elas Berbela e Estevão. No período de eleições, observei posições adversas
dos dois em relação à representabilidade política conferida a eles. Berbela ora
se mostra engajado, ajudando na divulgação da chapa, ora ele questiona e
critica:
“Esses caras não fazem nada não, eles tão preocupados é com
outras coisas, coisas dos interesses deles, pra mim mesmo aqui não
chega nada, nada de bom, tô precisando aqui de várias coisas, de um
espaço maior, e nada, não tem nada pra mim”.
Estevão é mais apartado do processo político em Paraisópolis, mas é a
“personalidade” mais conhecida dentro e fora da favela. No período da
campanha, os membros da chapa o procuraram insistentemente para que
estivesse presente na foto que seria colocada no jornal de divulgação com
todos os membros da diretoria. Mas Estevão não foi, como relata Edilene:
“Toda vez que tem eleição, ou alguma coisa importante, na televisão,
por exemplo, eles vêm aqui chamar Estevão, mas ele disse que
agora não vai mais, porque só colocam o nome e a foto dele lá, mas
na verdade ele não é nada e não ganha nada”.
81
Mesmo com a recusa de Estevão, seu nome foi posto no jornal como
sendo componente da diretoria da chapa. A importância conferida aos artistas
por parte da UMP tem pouco a ver com o turismo e mais com a
representabilidade “política” que eles exercem dentro e fora da favela. Para
Birman (2008), as favelas, territórios permeados por estereótipos negativos,
parecem ter quase que uma obrigação “moral” de mostrar o que há de bom em
contraposição ao imaginário depreciativo que as cercam. Destacam-se as
qualidades que seriam próprias da população favelada, acionado o termo
comunidade como principal forma de iniciar um contradiscurso a favor dos
habitantes das favelas, como sugere a autora:
Um dos usos mais generalizados do termo comunidade tem sido,
pois, aquele de um contradiscurso que argumenta a favor dos
habitantes das favelas, destacando as boas qualidades morais que
estes teriam, passíveis de serem comprovadas pelos seus modos de
vida e pela cultura que possuem. Esses contradiscursos buscam
responder, no mesmo diapasão, àqueles que produzem enunciados
segregadores (...), que identificam entre outras coisas, a favela como
fábrica de marginais. p.103
Os habitantes da favela buscam o tempo inteiro mostrar o “outro lado”
desses territórios, um lado social positivo, como apontado por Birman (2008). A
exemplo dessa constante busca, tem-se o posicionamento de Gilson quando
destaca que “hoje a nossa comunidade é uma vitrine para uma série de coisas
boas” e também os discursos dos três artistas da favela (relatados no capítulo
anterior) quando destacam que a importância de seus trabalhos é além de
servir de exemplo para os outros moradores, mostrar o que há de bom na
comunidade.
Em Paraisópolis, a melhor forma de mostrar o que a favela tem de bom
tem sido através dos trabalhos dos artistas da favela que, além da visibilidade
positiva que trazem para a comunidade, ainda são capazes de atrair o turismo
para “a salvação”.
82
4.1 Afinal, de quem são as chaves do Paraíso?
Estive em campo em três momentos diferentes durante a pesquisa.
Primeiro fui sozinha a Paraisópolis, consegui agendar uma visita com Gilson –
presidente da UMP, já identificado anteriormente – através de email. Na
ocasião, Gilson afirmou veementemente que os passeios à favela só
aconteciam através da UMP e que, se eu quisesse realizar a pesquisa, deveria
entrar em contato posteriormente com ele para agendar as visitas em
Paraisópolis. Várias foram as tentativas de estabelecer outro contato, apesar
da minha insistência através de emails e telefonemas.
Esse primeiro momento representou uma crise no andamento da minha
pesquisa; já estava envolvida com a possibilidade de estudar o turismo em
Paraisópolis, inclusive já tinha refeito todo meu projeto de dissertação com a
nova temática. Comecei a temer que a pesquisa não rendesse, seria difícil
procurar, sozinha, os “pontos turísticos” anunciados nas reportagens, não fazia
ideia de como era a favela, se era perigosa ou não, precisava de alguém que
me levasse a eles. Que motivos o presidente teria para não me atender
38
?
Revendo as respostas que Gilson havia me dado na entrevista percebi que
eram todas “formatadas”, iguais às que eu já tinha visto em artigos na internet.
Com a agência Check Point (que sempre aparecia nas reportagens como
sendo a agência que fazia o passeio), não consegui agendar nenhum tour.
Apesar de ter me identificado como uma turista e eles terem me passado o
valor de seiscentos reais “para três pessoas”, quando tentei agendar o passeio,
o funcionário anotou meu telefone, garantindo enviar as coordenadas para o
tour que em tese seria realizado no fim de semana seguinte, mas não tive
nenhum retorno 39. Enfim, tudo indicava que as informações não passavam de
38
Como falei no capítulo anterior, as pessoas que fazem o passeio à Paraisópolis através da
UMP não são “turistas comuns”, são pessoas que querem “ajudar” a favela de alguma forma.
Na entrevista, me identifiquei como uma simples pesquisadora, interessada apenas em saber
como o turismo acontece em Paraisópolis; sem dúvida a minha condição não atraiu o interesse
de Gilson e por isso ele não fez questão de me ajudar.
39
Mais tarde, perguntei a Berbela e Edilene sobre a Check Point e os dois afirmaram que essa
agência nunca levou turistas a suas casas. Berbela completou: “aqui vem muita gente, só se for
o nome de uma pessoa que eu não lembro, mas agência ou guia não tem com esse nome não,
só Flavia e Luiz”.
83
uma grande falácia e que na verdade os passeios a Paraisópolis não
aconteciam.
Persistindo mais um pouco com as pesquisas na internet, encontrei o
site de Flavia Liz. Com ela o contato foi bem mais rápido, na primeira tentativa
já consegui agendar um encontro; expliquei como pretendia desenvolver a
pesquisa, a guia gostou muito da ideia e disse que estava disposta a me
ajudar. Na mesma semana, Flavia Liz me levou à favela com dois turistas
italianos, e a partir de então, sempre que eu estava em São Paulo entrava em
contato com a guia e ia até a favela na sua companhia e na de turistas,
repórteres, documentaristas, etc.
Os artistas da favela me conheceram por intermédio de Flavia Liz – esse
foi o segundo momento da pesquisa. A proximidade com a guia fez com que eu
percebesse os pormenores da relação dela com os atores do campo (os
artistas, seus parentes e a UMP), já relatados no capítulo anterior. Os artistas
sempre receberam Flavia Liz com empolgação e mesmo quando ela fazia
intervenções
constrangedoras
ou
impositivas,
demonstravam
uma
“subordinação pacífica”. Nessa fase eu falava pouco, ficava observando como
se fosse uma visitante (mesmo que já tivesse sido apresentada como
pesquisadora aos artistas); nas poucas vezes em que eu falava Flavia Liz
também tentava direcionar a repostas que os artistas me davam, assim como
fazia com os turistas.
Passada a qualificação, realizei a última etapa da pesquisa, na qual
passei a ir sozinha a Paraisópolis, ou acompanhada do meu colega Adalberto.
Pude conversar e entrevistar os artistas e alguns de seus parentes. Em relação
à Flavia Liz; Berbela, Estevão e Edilene não demonstraram qualquer tipo de
reprovação ao seu trabalho ou à sua postura em relação a eles, pelo contrário,
mostraram-se
agradecidos
e
felizes
por
ela
sempre
levar
turistas,
principalmente Estevão e Edilene que afirmavam ser apenas através da guia a
garantia que eles seriam pagos pela visita. A única crítica vem de Antenor, que
como dito, não entende o porquê de Flavia Liz não levar turistas à sua casa.
Nessa fase pude observar os detalhes do relacionamento entre os artistas;
artistas e UMP; artistas e Flavia Liz; artistas e o turismo. Por fim, houve a
84
inserção de uma nova agência realizando passeios aos artistas, incluindo
Antenor.
Julguei importante relatar as etapas da pesquisa porque, ao percorrê-las,
pude observar os atores em momentos diferentes, quando falavam sobre o que
faziam – especialmente através das entrevistas e quando eram observados
durante a realização dos tours – e sobre seus posicionamentos em relação às
mais diversas questões que permeavam o campo; através de conversas
informais, observação e participação em momentos e situações variadas da
dinâmica social. A partir daí desenhei os pontos geradores de conflito e disputa
entre os atores do campo que estão em jogo na construção de Paraisópolis
como destino turístico.
A relação artistas/UMP, descrita no tópico anterior, é dada pelo uso, por
parte da UMP, da imagem positiva dos artistas para mostrar o que há de bom
na favela através de uma suposta representabilidade política conferida a eles. A
relação Flavia Liz/visitados, também evidenciada anteriormente, é operada
através da imposição de regras e condutas que devem ser seguidas com o
objetivo maior de “orientar” para o recebimento dos turistas.
A relação entre os artistas e estes com o turismo merece destaque: a
tentativa de Estevão em regulamentar a “atividade turística” – exigindo que os
outros artistas cobrassem pela visitação; o uso da imagem dos artistas pela
UMP – para atrair “ajuda” para a favela; os “ensinamentos” de Flavia Liz –
sobre como deve ser o turismo; e o posicionamento de cada artista em relação
a receber ou não dinheiro dos turistas.
Em todas as relações citadas acima a questão “dinheiro” está presente,
perpassando-as; os sentidos atribuídos a ele, por cada ator do campo, é o
pano de fundo presente em todos os conflitos 40. Freire-Medeiros (2009), com
base na discussão encaminhada por Viviana Zelizer, explica a influência que o
dinheiro exerce nas relações sociais estabelecidas no campo da favela
turística:
40
O que caracterizo aqui como conflito está relacionado com os diferentes posicionamentos
dos atores em relação à mesma questão quando são postos em “debate”.
85
As teorias econômicas e sociológicas clássicas insistiram no caráter
instrumental do dinheiro e em sua função como meio universal de
troca. O “vil metal” de Karl Marx seria um agente corruptor que, ao se
colocar entre os seres humanos e seus objetos de desejo, “entre sua
vida e os seus meios de vida”, deformaria o que houvesse de
intenções legítimas. Desde então, não tem sido poucos os cientistas
sociais de diferentes filiações ideológicas que continuavam a enfatizar
a capacidade do dinheiro de transformar, produtos, relações sociais e
até mesmo sentimentos em equivalente numérico. “Mas o dinheiro
não é nem culturalmente neutro nem socialmente anônimo”,
argumenta com pertinência Vivian Zelier (1994:18). A socióloga
demonstra que o “dinheiro pode ‘corromper’ valores e converter laços
sociais em números, mas valores e relações sociais reciprocamente
transmutam o dinheiro investindo-o de significados e padrões sociais”.
p. 120.
Estevão tenta regulamentar, de algum modo, o turismo em Paraisópolis.
Ele sempre vai até a oficina de Berbela, dando-lhe “conselhos” para que ele
exija o pagamento, não apenas aceite quando este for feito, para que ele venda
suas peças e cobre para a realização de reportagens. O mecânico sempre
discorda de Estevão, o que acabou criando uma rivalidade entre os dois, como
relata Berbela:
“O Estevão só pensa em ganhar dinheiro, ele é convencido, pensa
que é o melhor e por isso pode mandar na gente, mas eu não vou
mudar meu jeito de fazer minhas coisas só porque ele tá falando não.
Eu acho ele estranho demais, não gosto nem de ir na casa dele,
quando entro lá fico todo arrepiado, acho que tem alguma coisa de
magia negra, cheio de ‘cinco Salomão’ lá dentro. Ele trabalha, vende
as coisas que faz, cobra a entrada e mesmo assim vive reclamando
que não tem dinheiro, ele deve usar com essa coisa de macumba, só
41
pode” .
Quando houve o passeio do grupo grande de turistas levados por Flavia
Liz, Berbela os acompanhou até à casa de Estevão, permanecendo lá durante
todo o passeio. A guia usou o encontro dos dois como uma atração à parte,
falando para os turistas “seize the moment, take photos, that moment is unique,
these two are never together, live like dog and cat”.
41
A casa de Estevão é constantemente associada por moradores da favela com “magia negra”:
dentre os objetos que ele usa na construção de sua casa, os moradores identificam símbolos
utilizados nesse “ritual”. Não julguei importante pesquisar o que significa a expressão “cinco
Salomão”, à qual Berbela se referiu, apenas lhe perguntei e ele respondeu “menina, não gosto
de falar sobre essas coisas; não precisa tu saber o que é, só digo que é coisa ruim”.
86
Berbela e Estevão sendo fotografados por turista. Foto: Adalberto Reis
Estevão por duas vezes falou com o Antenor para que ele cobrasse
(como contei no capítulo anterior), mas este não concordou e se sentiu
ofendido com a abordagem. Estevão tenta estabelecer um consenso sobre o
cobrar para que não acarrete constrangimentos no momento em que ele ou
Edilene cobrem dos visitantes.
A UMP, por sua vez, usa os artistas como “vitrines” para que visitantes,
ao verem o que há de bom na favela, sintam-se impelidos a ajudá-la; é
evidente o interesse da UMP no “retorno” que os artistas trazem para a favela.
A UMP não esconde dos artistas o objetivo das visitas realizadas por ela a suas
casas; os artistas, no entanto, não escondem o descontentamento por não
receberem nada do suposto retorno prometido pela UMP.
Flavia Liz usa de sua “experiência em turismo” para “ajudar” os artistas
na organização das visitas. Por muito tempo Berbela não queria aceitar o
dinheiro da visita, mas com a insistência constante da guia e de seus discursos
sobre a valorização do trabalho e sobre o ganho financeiro que o turismo pode
proporcionar, o mecânico acabou cedendo e hoje recebe o dinheiro sem
contestar. Já com Estevão não foi necessária a orientação de Flavia Liz para
que ele recebesse o dinheiro. Mas há uma pressão por parte da guia sobre
Estevão e Edilene para que estes não sistematizem o acesso à casa cobrando
87
dos visitantes logo na entrada e negando a entrada àqueles que não pagarem.
E por fim Antenor, que não seguiu o proposto por Flavia Liz (de aceitar o
pagamento dos turistas e reverter parte do dinheiro para a manutenção da
“limpeza e organização” de sua casa) e por isso encontra-se fora do tour feito
por Flavia Liz.
Quando cheguei a campo para a última etapa da minha pesquisa,
Berbela e Edilene me contaram sobre uma nova agência, a Around SP, que
começara a realizar visitas guiadas à favela. A proposta da agência é
semelhante à de Flavia Liz, conforme apresentação contida no site:
Around SP é uma empresa focada em turismo receptivo na cidade de
São Paulo.
Temos grande experiência em receber turistas, levando-os para
conhecer as principais atrações da cidade e seus arredores. Nossos
tours privativos são executados com excelência e de forma
personalizada com guias de turismo que falam diversos idiomas e
possuem um grande conhecimento do local. Seja o motivo de sua
viagem negócios ou lazer nós possuímos uma variada oferta de tours
e excursões adaptadas às suas necessidades.
Nossos guias de turismo são profissionais qualificados que amam a
cidade onde vivem! Nossos serviços são executados com segurança,
conforto e muita simpatia!
Se essa é a primeira vez que você visita São Paulo ou se já esteve
aqui e deseja conhecer diferentes lugares não hesite em nos
contactar!
42
Esperamos seu contato .
Os guias que fazem os passeios são apenas os dois sócios da agência,
ambos têm o mesmo nome, Luiz. O público-alvo da agência também são
pessoas “de alto nível”, que pagam caro pelo serviço. A Around SP chegou até
aos artistas de Paraisópolis através de reportagens na mídia e pela demanda
por passeios à favela que começou a surgir. Não tive oportunidade de
entrevistá-los, mas meus informantes contaram que a agência chegou primeiro
à casa de Estevão, onde foram recebidos por Edilene, que prontamente lhes
passou os contatos de Berbela e Antenor; após uma conversa com os três
artistas, separadamente, ficou acordado que eles também levariam turistas até
42
Fonte: http://www.aroundsp.com/pt/Quem+Somos.aspx. Acesso em 31/10/2011.
88
Paraisópolis. O tour foi incluído no site da agência com a seguinte
apresentação, inserido na categoria de “tours alternativos”:
TOURS ALTERNATIVOS
Os Tours Alternativos foram elaborados para pessoas interessadas
em conhecer um local a partir de outras perspectivas. A cidade de
São Paulo tem muito a oferecer e esses roteiros tratam mais a fundo
assuntos específicos.
Favela Tour - 3 horas
Cerca de 2 milhões de pessoas vivem em favelas da região
metropolitana de São Paulo! Estes locais são geralmente
associados a violência, miséria e exclusão social. São famosos por
suas curiosas construções, em geral sobrepostas umas as outras e
marcadas pela ausência de equipamentos urbanos e infra-estrutura
adequada para seus habitantes.
Visitar uma favela é uma oportunidade única de conhecer mais a
fundo a realidade brasileira, sua cultura e seus gargalos. Um local
complexo onde a alegria de pessoas criativas, que anseiam por uma
vida mais digna, convive com a falta de condições apropriadas de
moradia, saúde e educação.
Nosso tour se realiza em Paraisópolis, uma favela central da
cidade de São Paulo, próxima ao rico bairro do Morumbi. Iremos
visitar a Casa de Pedra, local onde vive Estevão, conhecido
como o Gaudi Brasileiro. Estevão vêm construindo sua casa por
mais de 25 anos e já ganhou diversos prêmios por sua arte, citada
por especialistas como uma construção similar as do arquiteto Gaudi
de Barcelona.
Também vamos conhecer Seu Berbela, um mecânico de
profissão que em seu tempo livre realiza esculturas feitas de lixo
e materiais reciclados. Berbela se recusa a vender seus objetos e
prefere presentear amigos e entes queridos com sua arte.
Durante nosso tour também iremos caminhar pelas ruas de
Paraisópolis e entraremos em contato com seus habitantes, tradições,
43
costumes e modo de viver .
Na tentativa de observar como o passeio da agência era realizado,
aproveitei a presença da minha orientadora, Bianca Freire-Medeiros, em São
Paulo e sua curiosidade em conhecer Paraisópolis, para tentarmos realizar o
tour com a agência. Ela entrou em contato e perguntou o custo do passeio,
eles não responderam e orientaram-na a pesquisar no site da agência.
Encontramos então, abaixo da descrição do tour, a seguinte tabela de preços:
43
Fonte: http://www.aroundsp.com/pt/favela+tour++3+horas-55.aspx. Acesso em 31/10/2011.
89
Fonte: http://www.aroundsp.com/pt/favela+tour++3+horas-55.aspx. Acesso em 15/11/2011.
Achamos o valor altíssimo, e como Flavia Liz supostamente não cobra
pelo passeio, essa foi minha única referência sobre o valor que os turistas são
capazes de pagar por um passeio a Paraisópolis. Bianca retornou afirmando
que tinha achado o valor muito alto, mas ele apenas agradeceu a ligação, sem
oferecer nenhuma possibilidade de negociação. Na ocasião, Flavia Liz não
podia nos conduzir no passeio, então decidi eu mesma guiar Bianca pela
favela.
O valor cobrado pela agência me deixou bastante pensativa,
principalmente porque Edilene havia me contado que, apesar de ela ter
explicado a eles no primeiro contato que a visita era paga, eles não agem como
Flavia Liz, que no final da visita lembra os turistas de pagarem o passeio, “às
vezes os turistas que vêm com eles pagam, às vezes não, mas é melhor que
nada porque eles acabam comprando uma peça, ou um livro”. Quando os
guias, “Luizes” (como Berbela os chama), foram pela primeira em sua oficina,
perguntaram se ele cobrava pela visita. Berbela respondeu:
“Eu falei pra eles que cobrar, eu não cobro não, mas quando os
turistas vêm com a outra guia, eles me dão dez reais, e que se os que
eles trouxerem quiserem me dá eu aceito também, aí às vezes eles
dão, às vezes não, pra mim assim tá bom”.
No primeiro contato da agência com Antenor ele conta que avisou logo
de cara que receberia sim os turistas, desde que eles não pagassem pela
visita:
“Aí quando eu mostrei os tubos de cola que eu uso na construção da
casa eles me perguntaram quanto custava cada tubo, eu disse que
era mais ou menos dez reais, eles me perguntaram se os turistas
poderiam trazer um tubo de cola pra mim, e aí eu disse que aceitava,
90
porque aí não é um pagamento, é um presente, eles nem sempre
trazem a cola, mas eu os recebo mesmo assim.”
Cabe aos guias avisar aos turistas que o passeio deve ser pago, já que
são eles que fazem toda a intermediação entre os visitantes e os visitados. Ao
contrário de Flavia Liz, a Around SP não tem a questão do dinheiro como
prerrogativa principal para que os artistas sejam visitados e não consideram a
casa de Antenor “indigna” de receber turistas.
Eu me vi frente a um dilema: sentia-me na obrigação de falar aos artistas
o valor que a Around SP recebia dos turistas para realizar o passeio, mas não
via como poderia fazer isso sem gerar um mal-estar no campo, temia que
algum deles questionasse os guias e me apontassem como a “semeadora da
discórdia”. Antes que eu tivesse que pensar muito em uma solução para a
questão, Bianca, assim que chegou à oficina de Berbela, contou a Rui sobre o
preço (sem saber que estava me poupando dessa “ingrata” tarefa). Rui ficou
calado, mas quando voltei a campo sozinha, Berbela me perguntou se a
informação que Rui tinha lhe passado acerca do valor era verdadeira, eu
confirmei, ele falou pensativo:
“Rapaz, então tem alguma coisa errada aí, porque eu que faço a
‘arte’, ganho só dez reais? Quando ganho! E eles que só trazem os
turistas ganham isso tudo? A Flavia também deve ganhar por aí, e eu
não tiro nada nessa história”.
Não sei até que ponto saber disso influenciou na postura de Berbela,
mas logo depois desse fato, ele passou a vender esporadicamente algumas
peças para os turistas; quando eu chegava à oficina, se ele tivesse vendido
algo, a primeira coisa que ele fazia era me contar (não foram muitas vezes,
porque isso já foi no final do trabalho de campo). Um dia quando cheguei ele
tirou do bolso várias notas de cinquenta reais e me mostrou:
“Sabe o que é isso aqui? Acabei de vender uma ‘tartaruga’ pra um
gringo que veio aqui com o Luiz, por quinhentos reais e agora eu já tô
terminando de fazer outra, rapidinho eu faço outra pra colocar no
lugar, tá pensando que eu sou besta, menina? Sou besta, não”.
Quando Berbela falou isso, parecia querer provar-me que não estava
sendo enganado. Eu apoiei sua atitude, falei que ele deveria vender sim, já que
é uma coisa que não toma muito seu tempo, que ele gosta de fazer e que
91
poderia lhe render algo. Depois falei também do valor cobrado pela agência a
Edilene, que também ficou surpresa, “nossa, tudo isso!”, mas não se
posicionou.
Ao saber da postura da agência Around SP em relação ao não
pagamento aos artistas e o valor cobrado por eles pelo tour, Flavia Liz se
mostrou bastante chateada, “isso é uma falta de respeito com os artistas, eles
estão ganhando muito à custa deles”. Presenciei a guia várias vezes se
expressando contra a Around SP para os artistas. Penso que esse
posicionamento é uma tentativa de garantir a sua exclusividade e preferência
dentro do campo, além de firmar-se como a pessoa que faz o turismo “do jeito
certo” em Paraisópolis.
Se eu fosse me posicionar como turismóloga, falaria que os artistas
precisariam passar por uma capacitação, para entender os benefícios
econômicos que o turismo pode trazer para eles e para a localidade,
submetendo-os a lições de administração, para que eles – como “donos do
lugar” – criassem ou deliberassem sobre regras de visitação que trouxessem,
antes de tudo, um retorno financeiro para eles. E falaria ainda sobre a
necessidade de aprenderem a ser empreendedores para transformar seu
“talento” em negócio. Porém o que vemos desenrolar aqui é mais do que uma
atividade sendo desenvolvida em prol de um bem estar econômico. É, antes de
tudo, um jogo de lógicas que são imbricadas de sentidos socioculturais que
cada ator do campo carrega consigo passíveis – ou não – de interferências e
subordinações internas ou externas dificilmente controláveis a partir de um
simples “planejamento turístico”. Esse jogo torna a disputa pelas chaves do
paraíso uma batalha (quase) sem fim.
92
4.2 Novas possibilidades para o turismo em Paraisópolis
O passeio realizado pela agência Around SP em Paraisópolis é feito a
pé, como descrito no site da agência. Além da visita à casa dos artistas, os
turistas conhecem o campo de futebol “Palmeirinha”, onde são realizados jogos
e aulas gratuitas dos mais variados esportes para os jovens da comunidade.
No deslocamento entre os pontos turísticos, os turistas observam tudo que há
no caminho, as casas, as ruas, as vielas, as obras de urbanização da favela.
Enfim, a agência oferece um passeio à favela, não apenas aos artistas.
Aos poucos, Flavia Liz também tem ampliado os pontos visitados na
favela; já no final da minha presença em campo, a guia começou a fazer os
passeios também a pé e investigou junto a Berbela novos pontos a serem
visitados em Paraisópolis. O mecânico apresentou Flavia Liz a Claudemir,
idealizador da biblioteca “BECEI” (Biblioteca Escola Crescimento Educação
Infantil), localizada a poucos metros de sua oficina. Aos treze anos, Claudemir
teve a ideia de montar sua própria biblioteca, ele tinha apenas 15 livros, que
emprestava aos seus amigos da favela. Quando Claudemir tinha 16 anos,
Paraisópolis foi inundada devido às fortes chuvas que caíram aquele ano; na
ocasião, sua casa foi destruída, e com ela, os livros que compunham a
biblioteca. Sua história ganhou destaque na mídia e a partir daí Claudemir não
parou de receber incentivos e doações para que sua biblioteca fosse
reconstruída e ampliada. A Graded – Associação Escola Graduada de São
Paulo –, mais conhecida como “Escola Americana”, localizada no Morumbi, se
responsabilizou pela reconstrução da casa, que ganhou um pavimento superior
(onde Claudemir mora com a mãe), sendo o inferior, o espaço onde funciona a
biblioteca. Hoje a biblioteca de Claudemir conta com 11 mil livros, cursos de
espanhol e oficina de leituras (ministrados por voluntários), além de livre
acesso à internet para os moradores de Paraisópolis. A biblioteca passou,
então, a compor mais um ponto visitado por Flavia Liz. Na visita, a guia conta a
história de Claudemir e da biblioteca.
Outra indicação dada por Berbela foi o salão de beleza do Val.
Nordestino, proveniente de Teresina, Val chegou a Paraisópolis há cerca de 10
anos e aos poucos conseguiu montar seu salão de beleza. Por ser uma pessoa
divertida e expansiva, Val conquistou rapidamente uma clientela fiel em
93
Paraisópolis. Todos os anos Val comemora o aniversário do salão com uma
grande festa, onde “produz” algumas clientes e promove um desfile bastante
conhecido dentro de Paraisópolis. Wanderley Nunes, famoso cabeleireiro
paulista que mora no Morumbi, ao procurar a UMP com o desejo de ajudar a
favela, foi apresentado a Val, que foi convidado a conhecer um de seus salões.
A partir daí o cabeleireiro de Paraisópolis passou a ser “afilhado” de Wanderley
Nunes, que envia produtos para que Val utilize em seu salão e cita sua relação
com Val quando fala de seu apoio a “projetos sociais”. Quando os turistas
chegam ao salão de Val, ele conta, com orgulho, sobre sua relação com
Wanderley Nunes, mostra uma foto dos dois que fica afixada na parede. Fala
também sobre a festa que promove todos os anos; enquanto os turistas
folheiam álbuns com fotos da festa, Val faz questão de destacar que também é
um artista: “vejam aí o meu trabalho, como eu transformo essas pessoas, deixo
todas lindas, eu também sou um artista”. A visita é feita sem que se interrompa
a rotina do salão; as clientes são fotografadas pelos turistas – Val lavando os
cabelos das clientes no lavatório, passando tintura no cabelo das clientes.
Flavia Liz conversa com as clientes: “Não tem problema eles (os turistas)
tirarem fotos de vocês assim não, né? Isso é muito bom, a foto de vocês vai pra
fora do Brasil”. As clientes não retrucam, mas percebo que ficam
envergonhadas.
E por fim a “Empório das Delícias” – uma padaria “comum” que vende
lanches e um pouco de produtos de mercado (leite, açúcar, cereais, etc.).
Acompanhei Flavia Liz apenas uma vez nessa visita. A guia explicou para a
turista que ela poderia comer, pois naquela padaria a comida era “confiável”,
“mas não escolha sanduiches com algo cru ou carnes porque não sabemos a
procedência, nem quanto tempo estão aí”. Quando Flavia Liz fala “pode comer
que é confiável”, parece marcar uma distinção entre os alimentos da favela e
os de fora dela e que apenas aquele lugar se distinguia dos outros da favela,
que supostamente oferecem alimentos “não confiáveis”. A turista gostou da
comida, “esfiha de palmito, só aqui mesmo na favela, nunca ouvi falar no
mundo, e olha que já viajei o mundo inteiro... Esfiha de palmito... O pessoal
aqui é mesmo muito criativo”, declarou Flavia Liz, numa tentativa, que julguei,
94
de classificar o lanche na padaria de Paraisópolis como uma “experiência sem
igual”, para impressionar a turista.
Na maioria das vezes o passeio de Flavia Liz é feito apenas às casas
dos artistas:
“Eu vejo como é o cliente, dependendo de como ele é, o tempo que
ele tem disponível; se é alguém mais ligado à educação eu levo na
BECEI, se são aqueles que gostam de uma interação maior eu levo
no salão ou que gostam de experimentos eu levo também na padaria,
eu só não deixo de levá-los na oficina do Berbela e na casa de
Estevão, essas sim são paradas obrigatórias”.
Aos poucos, a visitação em Paraisópolis sai do foco da arte e se
expande para o “território da favela”.
A agência Around SP também tentou contato com a UMP para ajudar na
elaboração do projeto de turismo de Paraisópolis, fiquei sabendo desse contato
através de Rui:
“Eles foram lá procurar Gilson pra dizer que queriam ajudar no projeto
de turismo que a UMP tava montando, eu mesmo nem sabia disso, os
‘Luizes’ que comentaram que viram essa proposta na internet, mas o
Gilson nem recebeu eles, uma pessoa lá anotou o contatos deles e
até hoje não retornaram”.
Os guias da Around SP tornaram-se amigos de Rui, filho de Berbela.
Combinaram então um passeio à favela, em que Rui os guiaria, junto com
representantes da São Paulo Turismo, indicando o que ele mostraria para os
turistas caso fosse um guia. Nas palavras de Rui:
“Eu combinei com eles lá em baixo, na entrada que fica mais perto
daqui, aí eu já vim mostrando a favela, os clubes, o comércio, as
Casas Bahia, o Banco do Brasil. Chegamos aqui na oficina do meu
pai e aí ele que mostrou as coisas como ele queria, sozinho mesmo,
meu pai, do jeito dele, brincalhão, falando tudo que vinha na cabeça.
Saindo daqui mostrei o campo Palmeirinha, falei que sempre tem jogo
e que a nova sensação dos moleques é um grupo, acho que dos
Estados Unidos, que tá dando aula de rúgbi de graça. Depois mostrei,
só de longe mesmo, o “prédio do PAC” aqui de Paraisópolis. Fomos
na casa de Estevão, eles fizeram a visita lá na casa dele, aí aproveitei
e entrei lá também, porque nunca tinha entrado, achei legal demais,
muito criativo. De lá fomos almoçar no “Canto da Ema”, um
restaurante de comida nordestina muito bom que tem aqui. Meu pai
ficou brigando por eu ter ido lá porque ele acha longe, que eu fiz o
pessoal andar muito, mas eu não liguei porque eles disseram pra eu
mostrar o que eu quisesse e eu acho a comida de lá muito boa. Aí por
95
último fomos na casa do Antenor, no caminho eles iam me
perguntando coisas sobre a favela, quantas pessoas moravam aqui,
se as ocupações eram irregulares, o que as pessoas faziam pra se
divertir, se era perigoso, eu fui respondendo o que eu sabia. No final
eles gostaram e me agradeceram muito, disseram que vão fazer de
tudo pra incluir Paraisópolis nos passeios oficiais daqui da cidade de
São Paulo.”
Não tive como verificar se realmente o turismo em Paraisópolis está
sendo sob análise da São Paulo Turismo - SpTur para ser incorporado de fato
aos passeios oficias da cidade de São Paulo, nem como ocorreu o contato
entre os guias da Around SP com a SpTur. De todo modo, o relato de Rui e as
novas perspectivas que as agências estão dando ao turismo em Paraisópolis
evidenciam que, em breve, novos atores serão inseridos no campo.
Provavelmente, ocorrerá a incorporação de novos pontos visitados (além dos
recentemente incorporados); novas agências certamente começarão a realizar
os passeios em Paraisópolis e talvez novos agentes tentem “regulamentar” o
campo, adicionando novas práticas que, por sua vez, entrarão em novas
disputas.
96
Comentários Finais
Ao longo do trabalho procurei descrever e analisar alguns aspectos da
“transformação” da favela de Paraisópolis (São Paulo – SP) em um destino
turístico. Parti do histórico de sua formação até uma breve descrição de certos
aspectos da ordem social ali existente.
Entrevistei alguns moradores que forneceram pistas que me fizeram
concluir que Paraisópolis para eles é o “paraíso”, por ser o lugar onde moram,
construíram raízes e realizaram sonhos. A intensa ligação existente entre o
sujeito e o “seu lugar” obedece, essencialmente, às condições econômicas.
Adrião (2003) explica como as pessoas são atribuídas a determinados lugares.
O lugar pertence ao grupo assim como o grupo pertence ao lugar. Acredito que
as duas noções se complementam, já que a forma como as pessoas se ligam a
certos lugares não obedece somente a questões econômicas ou afetivas, mas
ao conjunto desses fatores. Os moradores que entrevistei atrelam a conquista
do seu lugar (o paraíso) ao estabelecimento de laços afetivos e principalmente
à conquista de um bem estar econômico. Ao contrário dos turistas, que não
habitam o “paraíso”, mas buscam viver um pouco dele, viajam à sua procura ao
redor do mundo e por meio de tramas diversas chegam a Paraisópolis.
Apresentei Berbela, Estevão e Antenor – artistas a quem se deve a
atratividade turística de Paraisópolis –, e o posicionamento de cada um deles
em relação ao desenvolvimento do turismo na favela. Apresentei também
Flavia Liz, o psicopompo que leva os turistas ao paraíso e tenta prepará-lo para
receber os visitantes “da melhor maneira”. Critico os estudos acadêmicos do
Turismo (em sua maioria) por reduzirem o processo de desenvolvimento do
turismo à realização de um “bom planejamento turístico”, capaz de trazer
benefícios para a população local e minimizar os impactos negativos que
porventura a atividade possa acarretar. Falar em termos de impactos redime os
sujeitos porque os invisibiliza e lhes tira o papel de ativos na construção do
destino turístico – ao contrário do que foi exposto nesse trabalho, onde os
artistas (os locais), mesmo sofrendo as condições de subordinação a que são
submetidos (a despeito do processo de turismização e de ambientalização),
estão a todo o momento deliberando sobre o processo de “construção” de
97
Paraisópolis como destino turístico e consequentemente interferindo em sua
dinâmica.
A noção de atrativo turístico, via de regra, envolve um suposto repertório
de características consideradas “naturalmente” despertadoras do interesse
turístico: o turismo se desenvolveria “espontaneamente”, portanto, nos lugares
que possuíssem essas características “intrínsecas”. Em contrapartida, alguns
autores têm questionado essa ideia ao introduzir na reflexão sobre a
atratividade turística os valores historicamente estabelecidos que determinam
características vistas como “naturalmente” turísticas (CASTRO,2006).
Vejo a transformação de Paraisópolis em destino turístico como um
processo de mudança social, justamente porque envolve a inserção de novos
atores, com diferentes perspectivas e expectativas, na dinâmica social, mas
não penso que a mudança social tenha um papel desintegrador. Divisões e
fusões, como procurei demonstrar, são inerentes à estrutura social da favela, e
o conflito é o que origina os grupos, definidos em oposição uns aos outros.
Também levei em consideração a forma como valores e grupos diferentes
exercem influência sobre os indivíduos, produzindo conflitos na sua própria
personalidade e moldando suas ações e decisões circunstancialmente.
Analisei o desenrolar das relações estabelecidas entre os atores em
campo que, portando uma multiplicidade de lógicas, valores e práticas
diferentes, inevitavelmente entram em conflito. Não se trata de dois polos, o
“bem” contra o “mal”, mas de perspectivas e expectativas variadas que se
confrontam, se anulam ou se mesclam com a finalidade de conquistar, manter
ou transpor a ordem social que engloba o “território turístico” de Paraisópolis.
Considerando que são múltiplas as vozes que precisam ser
interpretadas, tentei ouvir os diferentes atores envolvidos no processo, a fim de
explorar e compreender suas relações. Talvez essas tenham sido pouco
analisadas, ou houve detalhes que não fui capaz de detectar.
Ao finalizar o trabalho, penso que outras perspectivas poderiam ter sido
abordadas. A discussão da arte, por exemplo, presente nos discursos de
Berbela, Estevão e Antenor – que a utilizam como forma de reconhecimento,
98
autoafirmação ou negação. A arte como categoria também é utilizada pelos
atores externos ao campo
44
, no caso, turistas e agências de turismo, no
sentido de qualificar os trabalhos dos visitados. Os parâmetros que são
utilizados para essa qualificação certamente serviriam de base para outros
questionamentos.
Outra perspectiva que mereceria ser analisada seria a realização do
passeio de membros da SpTur em Paraisópolis, porém, tomei conhecimento do
passeio nos últimos dias de pesquisa de campo. Para falar mais sobre isso
precisaria fazer uma análise detalhada através de investigações junto à SpTur
e à Around SP. Como as pesquisas têm prazos e datas, precisei delimitar o
tempo, por isso esse dado novo sobre a SpTur ficou fora da análise, mas
provavelmente merecerá atenção em pesquisas futuras.
A elaboração dessa dissertação, em todas as etapas (pesquisas,
entrevistas, observações, leituras), foi um grande desafio para mim e significou,
antes de tudo, abandonar muitos dos pressupostos aprendidos na graduação
em turismo e desenvolver uma afinidade (quase) antropológica.
***
Em fevereiro de 2011, às vésperas da entrega da dissertação final aos
membros da banca para análise, retornei a Paraisópolis, mas desta vez não
mais na condição de pesquisadora: pensava em negociar com Berbela a
compra de algumas peças. Sabia que seria difícil convencê-lo, já que ele se
recusa a vender e quando o faz, o preço é bem elevado. Almoçamos juntos e,
quando fiz a proposta da compra, Berbela desviou o assunto. Na volta à oficina
ele me perguntou o que eu queria, falei sobre os insetos feitos com velas de
carro, escolhi alguns e consegui comprar a um preço acessível.
Na saída da oficina, Berbela diz: “quando for teu aniversário vem aqui
que eu te dou um presente”. Voltei rapidamente e mostrei minha identidade a
Berbela (meu aniversário era no dia seguinte), rimos muito, ficamos surpresos
com a coincidência e claro, reivindiquei meu “presente”. Berbela me levou até
44
O que chamo aqui de “atores externos” é uma simples colocação para designar os
atores do campo que não são os “visitados”.
99
uma prateleira e disse que eu poderia escolher qualquer “moto”. Sem dúvida,
esse foi o melhor entre os presentes que ganhei em Paraisópolis.
100
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DissertacaoAndreaBorges[FINAL-com-ata] (1)