GLT/005 21 a 26 de Outubro de 2001 Campinas - São Paulo - Brasil GRUPO III LINHAS DE TRANSMISSÃO CARREGAMENTO DE LINHAS DE TRANSMISSÃO AÉREAS : DOS CRITÉRIOS DETERMINÍSTICOS À MONITORAÇÃO EM TEMPO REAL Murilo Magalhães Nogueira (*) LIGHT Serviços de Eletricidade SA Georges Azzam LIGHT Serviços de Eletricidade SA RESUMO Neste informe, buscou-se traçar um cenário do atual estágio das técnicas de monitoração em tempo real de linhas de transmissão aéreas. São avaliadas as grandezas intervenientes e os fatores limitantes, identificando os "calcanhares de Aquiles" cujo controle permite definir a capacidade de transporte de energia das LTAs. Expõem-se os métodos determinístico e estatístico de estimação da capacidade da LTA e suas limitações. Passa-se então à análise dos produtos disponíveis no mercado para monitoração em tempo real do carregamento, suas vantagens e desvantagens. PALAVRAS-CHAVE: Linhas tempo real, Carregamento aéreas, Monitoração 1.0 - CONSIDERAÇÕES GERAIS A determinação da real capacidade de transporte de energia em linhas de transmissão foi sempre um desafio para os planejadores e projetistas de sistemas elétricos. Por depender de diversas grandezas de difícil aferição entre as quais se incluem parâmetros ambientais e climáticos caracterizados pela elevada dispersão e difícil previsibilidade o carregamento precisa ser estimado com algum grau de conservadorismo. Assim, o planejador/projetista deve definir a priori valores para parâmetros tais como temperatura ambiente e velocidade de vento. Seja baseada em critérios determinísticos ou estatísticos, tal definição sempre guarda uma margem de segurança para evitar que condições extremas imponham solicitações não suportáveis à LTA. Se por um lado evita-se assim o risco de comprometer a segurança e continuidade dos Flávio Luciano A. Souza LIGHT Serviços de Eletricidade SA serviços de transmissão de energia, por outro admitese a operação superdimensionada de um ativo caro, prejudicando a capacidade de investimento da concessionária. Até recentemente, a única alternativa para otimizar a utilização de linhas de transmissão residia no melhor conhecimento dos dados climáticos na área de concessão. Para tal era necessária a formação de uma grande massa de dados, o que demandava investimentos em estações coletoras e vários anos de aquisição de dados para obter resultados estatisticamente significativos. A partir da década de 90 começaram a se viabilizar comercialmente instrumentos de monitoração on line do carregamento de linhas de transmissão. Tais instrumentos buscam determinar a capacidade máxima de transporte de energia em tempo real, substituindo as tabelas de capacidade de LTs e dando ao pessoal de Operação um retrato mais acurado da disponibilidade de carregamento das linhas. Como a disponibilidade medida é normalmente superior àquela tabelada (devido às margens de segurança embutidas nos critérios de cálculo, já mencionadas) fica reduzida a probabilidade de manobras e cortes de carga durante contingências do sistema de transmissão. A disseminação, no mesmo período, de sistemas SCADA nas empresas concessionárias criou a possibilidade de enviar os dados de monitoração em tempo real para os Centros de Operação onde é possível, via software, acrescentar às informações sobre capacidade atual e máxima da linha, alarmes antecipando a superação do limite de carregamento. Por fim, as mudanças no setor elétrico com o advento do Mercado Atacadista de Energia instituindo a comercialização de "pacotes" de energia entre companhias geradoras, concessionárias e consumidores exigirão que as linhas de transmissão (*) Av. Marechal Floriano 168, 1º andar, sala 51-D – Rio de Janeiro, RJ – Brasil – 20080-002 tel: (021)211-4983 – fax:(021)211-7932 – e-mail: [email protected] 2 sejam usadas de maneiras não previstas em projeto: além do atendimento a cargas e contingências razoavelmente conhecidas e previsíveis, poderão servir de passagem a blocos de energia contratados "à parte". A posse de dados confiáveis sobre a capacidade real de transporte de energia das linhas será de grande valia para a definição de contratos, seja de longo prazo ou no mercado spot, permitindo maximizar a capacidade dos ativos de transmissão e aproveitar oportunidades de negócio sem perda da confiabilidade de fornecimento. 2.0 - CAPACIDADE DE CARREGAMENTO EM LTAs Se deixarmos de lado restrições de caráter sistêmico, como limites de tensão e de estabilidade, restará que a capacidade de transmissão de energia em linhas aéreas está ligada apenas a seu limite térmico, isto é, à máxima elevação de temperatura permitida nos cabos condutores. Inicialmente, esse limite térmico não é um fator restritivo à operação das linhas. Isso porque a escolha da seção dos cabos é fruto de avaliação técnica e 1 econômica que considera o custo dos materiais (cabos, ferragens e estruturas) e as perdas de energia em operação (pelos efeitos Joule, corona etc.). Mais raramente, como no caso de linhas compactas, podem ser relevantes outros fatores, tais como balanço de cabos sob vento ou radiointerferência. Tais restrições costumam levar a seções grandes o suficiente para reduzir as densidade de corrente nos cabos tornando incomuns, portanto, problemas de aquecimento excessivo. Com o passar do tempo, entretanto, o crescimento da carga leva ao aumento na densidade de corrente. Nessa condição o aquecimento dos condutores pelo efeito Joule pode se tornar fator limitante de extrema importância. Esse cenário tem se tornado comum no setor elétrico brasileiro, devido ao descompasso, nos últimos anos, entre o investimento em corredores de transmissão e o aumento da demanda, o que está demonstrado pelo crescimento recente do número de trabalhos voltados à recapacitação de linhas aéreas. Por fim, condições de sobrecarga impostas por contingências no sistema de transmissão podem levar à superação do limite térmico das linhas, o que usualmente implica a necessidade de manobras de alívio de carga, incluindo (não raro) desligamento de consumidores. 2.1 - Os riscos da superação do limite térmico A limitação da temperatura máxima permitida nos condutores visa prevenir três condições operativas de 2 risco , decorrentes dos fenômenos mecânicos e elétricos que acompanham o aquecimento dos cabos: 1 Pela conhecida Lei de Kelvin: "a seção economicamente ótima do condutor é aquela para a qual o custo anual das perdas = custo anual do capital investido na LT + depreciação anual". Cf. [1], pp. 47 a 50. 2 Adaptado de [2], p. 252 a) Aumento das flechas máximas: os projetos de circuitos de transmissão levam em consideração, entre outros aspectos, as flechas máximas admitidas nos condutores. Essas flechas, por sua vez, ocorrem sob a máxima temperatura (projetada) de operação. Qualquer acréscimo não previsto na temperatura aumentará as flechas, reduzindo as alturas de segurança ao solo (clearance) exigidas em norma. b) Deformação plástica e perda de resistência mecânica: quando submetido a altas temperaturas, o alumínio pode sofrer recozimento (annealing), levando à deformação plástica e à perda cumulativa de resistência mecânica. Esse fenômeno é menos relevante para condutores com alma de aço (CAA). c) Aumento das perdas técnicas: as perdas por efeito Joule (R.I²) são proporcionais à resistência do condutor, a qual aumenta com a temperatura. Assim, a decisão pelo sobreaquecimento dos cabos tem implicações econômicas ligadas ao custo das perdas. Por outro lado, sobrecargas de curta duração para evitar manobras ou cortes de carga serão quase sempre vantajosas do ponto de vista econômico, uma vez que o custo do não suprimento é sempre superior ao das perdas técnicas. Na prática, a preocupação com a superação do limite térmico ocorre após algum tempo de operação da LTA, quando o aumento da carga leva à inevitável busca pela "maximização" do uso da capacidade instalada, na expectativa de se adiarem novos investimentos em ativos de transmissão. Nessa condição, as restrições a) e b) anteriores trabalharão contra os planejadores e projetistas, estabelecendo os limites de carregamento da linha. 2.2 - Parâmetros térmicos de um condutor de LTA Os parâmetros que definem a temperatura de um 3 condutor aéreo em operação têm 3 origens distintas : ! ! ! corrente elétrica e a conseqüente perda ôhmica (RI²) nos cabos; condições climáticas (velocidade e direção do vento, temperatura ambiente e radiação solar); propriedades físicas do cabo (resistividade elétrica, emissividade, absorção solar e calor específico). Outros fatores, como a evaporação e fenômenos ferromagnéticos e ionizantes são menos relevantes e podem ser desprezados. Os parâmetros térmicos podem ser visualizados na figura 1. Em regime estático, há um equilíbrio entre o calor absorvido e perdido pelo cabo: Σ calor absorvido = Σ calor perdido Qj + Qs = Qc + Qr RI² + Qs = Qc + Qr 3 ⇒ I= Qc + Qr − Qs (eq. 1) R Adaptado de [3], capítulos 3 e 7 (inclusive a figura 1). 3 Qj : calor absorvido devido ao efeito joule (W/m) Qs : calor absorvido devido à radiação solar (W/m) Qc : calor perdido por convecção (W/m) Qr : calor perdido por irradiação (W/m) I : corrente no condutor (A) Manuais de referência [3] estabelecem que a operação do condutor sob máxima temperatura não deve reduzir em mais do que 10 % a resistência mecânica do cabo, ao longo da vida útil da linha (tipicamente 50 anos). Já a literatura técnica [4] [5] indica que, para cabos de alumínio, temperaturas de operação acima de 100 ºC ocasionam rápida, progressiva e cumulativa perda de resistência mecânica nos condutores. Aplicando-se o método de Harvey [4] a um cabo com fios de alumínio 4 duro (1350-H19) , verifica-se que uma perda de 9,4 % na resistência mecânica nesses fios pode ser atingida com qualquer dos regimes de operação abaixo: 15 10 h a 100 ºC 5 10 h a 110 ºC 12 h a 150 ºC OBS: a perda em todo o condutor será menor se o cabo tiver alma de aço R : resistência 60 Hz ac do condutor (Ω/m) Para prevenir o enfraquecimento mecânico do cabos e o conseqüente aumento das flechas, os projetistas de linhas de transmissão aéreas costumam estabelecer, como temperaturas máximas nos condutores, valores entre 75ºC e 100º C (regime normal) e de 100 ºC a 110 5 ºC (emergência) . FIGURA 1 - Diagrama representativo do balanço térmico em um condutor aéreo 2.4 - Relação de projeto entre temperatura no cabo e altura cabo-solo A análise detalhada do comportamento térmico do condutor como função das grandezas climáticas e das propriedades do cabo não é objetivo deste trabalho. Entretanto, é possível afirmar que: No momento da preparação do projeto executivo da LTA, já estão definidos o tipo do cabo condutor e a região onde será implantado o sistema de transmissão (com suas implicações climáticas). Ao projetista, cabe escolher o traçado e efetuar a locação das estruturas, de modo a garantir as alturas de segurança mesmo na condição mais desfavorável: condutor sob fluência de 10 anos e temperatura máxima de operação. ! ! ! ! O calor ganho por absorção solar (Qs) não é tão relevante, sendo contrabalançado (às vezes com folga) pelo calor irradiado (Qr). Os coeficientes de absorção solar e de emissividade estão correlacionados, aumentando gradualmente ao longo da vida útil do cabo e compensando mutuamente seus efeitos. O principal fator condicionante no carregamento dos cabos é a velocidade do vento, que impacta drasticamente o calor dissipado por convecção (Qc). Ventos fortes são mais favoráveis ao carregamento do que ausência de sol. Mesmo na ausência total de vento, o calor dissipado pela convecção natural (movimento ascendente do ar quente) é da ordem de grandeza do calor perdido por irradiação em cabos antigos (alta emissividade). Na maior parte do tempo, a linha de transmissão terá limites de carregamento muito superiores àqueles estabelecidos por critérios meramente determinísticos, que levam em conta cenários conservadores (velocidades baixas de vento, sol a pino, temperatura ambiente elevada etc.). Esta última observação é muito importante e será retomada adiante na análise das vantagens da supervisão em tempo real do carregamento de LTAs. Devido a essas considerações, toda vez que uma LTA operar sob condições-limite de carregamento ocorrerá violação simultânea de dois critérios de projeto: ! ! Isso significa que o controle da temperatura do cabo pode ser feito indiretamente monitorando sua altura em relação ao solo. Esta depende da flecha a qual é, por sua vez, função da tração mecânica do cabo. Conclui-se que a capacidade de transporte de energia de uma linha de transmissão pode ser calculada a qualquer momento tanto pela supervisão direta da temperatura nos cabos quanto, indiretamente, pelo controle da altura cabo-solo, da flecha ou da tração de esticamento. 4 Os resultados variam com o diâmetro dos fios. Aqui tomouse fio de 4,44 mm ∅, como no cabo CAA 795 MCM 26/7 (Drake). 5 2.3 - O efeito da temperatura no desempenho mecânico dos cabos temperatura máxima do cabo; altura cabo-solo (clearance). Os cabos ACAR (em alumínio termorresistente) são capazes de operar a temperaturas muito superiores sem sofrer recozimento, embora com grandes flechas. 4 3.0 - CARREGAMENTO DETERMINÍSTICO DE LTAs : MÉTODO Tradicionalmente, as concessionárias de energia têm estimado o carregamento máximo ao qual uma LTA pode ser submetida usando critérios determinísticos: partindo de valores pré-estabelecidos (e naturalmente conservadores) de velocidade de vento, temperatura ambiente, características do cabo etc. calcula-se (v. eq. 1), a corrente que leva o cabo à temperatura máxima de operação. Tomando como exemplo uma LTA com condutores Drake 795 MCM 26/7 operando a 100ºC, sob sol a pino, vento perpendicular de 0,6 m/s (2,2 km/h ou 2 ft/s) e temperatura ambiente 35ºC, entre outras considerações, chega-se a uma corrente de 1.080 A. Vale ressaltar que, uma vez repassado ao Centro de Operação, esse valor torna-se o teto de referência nas decisões sobre carregamento da linha, sob qualquer condição climática. Se, contudo, apenas elevarmos a velocidade de vento para 10 km/h a corrente máxima ultrapassa 1.500 A uma elevação da ordem de 40%. Assim, por desconhecer a real situação térmica da linha, o Centro de Controle pode ser levado, diante de uma sobrecarga de 30 % (1.400 A), a manobras desnecessárias ou até mesmo corte de carga. Verifica-se que a adoção do método determinístico, indo ao encontro da segurança operativa, acaba indo simultaneamente contra a qualidade e continuidade do fornecimento de energia. Outras conseqüência negativas são os gastos com recapacitação e/ou construção de novas linhas, quando os circuitos existentes guardam, na maior parte do tempo, capacidade extra não utilizada. 4.0 - CARREGAMENTO ESTATÍSTICO DE LTAs : MÉTODO Dado que a incerteza sobre as variáveis climáticas é o principal empecilho à determinação mais apurada da ampacidade em LTAs, nada mais natural que reduzir essa incerteza pela aplicação de técnicas estatísticas sobre grandes massas de dados climáticos. Além de um melhor conhecimento das variáveis é possível buscar resultados menos conservadores correlacionando-se diferentes variáveis cujas piores condições raramente ocorrem simultaneamente. Por exemplo, pode-se concluir que dias muito quentes apresentam brisas moderadas (Vv > 0,6 m/s). As variáveis analisadas e suas correlações podem ser muitas, com considerações de caráter espacial ou 6 temporal . 6 A referência [6] propõe, para o sistema aéreo de transmissão da Suécia, dois valores para cada uma das variáveis abaixo: ! coeficiente de emissividade ε (regiões com alto ou baixo nível de poluição industrial); ! temperatura ambiente (verão e inverno); ! velocidade de vento (operação normal/emergência). O método estatístico ganhou força na virada dos anos 70-80, devido principalmente à disponibilidade de computadores para manipulação dos dados. O maior problema reside, entretanto, na quantidade e confiabilidade desses dados: estações meteorológicas demoram vários anos para acumular séries estatisticamente coerentes. Torna-se então necessário agregar dados de diferentes origens o que, por outro lado, dificulta o estabelecimento de correlações entre eles. Some-se a esse fato a extrema dispersão espacial de algumas variáveis climáticas: trabalhos [7] [16] têm apontado, por exemplo, uma baixa correlação entre velocidades de vento medidas simultaneamente em vãos diferentes de uma mesma LTA. Todas essas dificuldades levam a maior parte das concessionárias a restringir, na prática, o uso da abordagem estatística ao mero desdobramento do cálculo determinístico em 2 ou 4 cenários. Tomando novamente como exemplo uma LTA com cabos Drake, 4 cenários podem ser criados : dia/noite e verão/inverno. No inverno (Ta = 25 ºC), à noite (Qs = 0), a ampacidade-limite sobe em 18 % (v. tabela 1). TABELA 1 - Ampacidade estatística para o cabo Drake Noite Dia Inverno (Ta = 25ºC) Verão (Ta = 35ºC) 1.273 A 1.193 A 1.170 A 1.080 A O uso do método estatístico permite maior flexibilidade operativa, porém eleva o risco de violar o limite térmico e as alturas de segurança dos cabos. Graves ocorrências registradas nos E.U.A. [8] [9] estão aparentemente ligadas à conjunção de fatores desfavoráveis que levaram a ampacidade real de LTAs abaixo das capacidades projetadas. 5.0 - CARREGAMENTO DE LTAs EM TEMPO REAL Representando uma evolução em relação aos métodos de avaliação anteriores, ditos estáticos (static rating), começaram a surgir nos anos 90 equipamentos que se propunham a supervisionar em tempo real a capacidade de carregamento de LTAs, reavaliando periodicamente a ampacidade (dynamic rating) com base na leitura de dados climáticos e/ou da própria linha. Esse equipamentos só precisam ser instalados nos vãos críticos ("elos fracos") da linha, onde pode ocorrer violação das condições-limite. Conjugando sensores e programas computacionais, esses sistemas buscam tirar partido da capacidade extra disponível nas linhas aéreas durante a maior parte do tempo. Integrada ao sistemas SCADA da concessionária, a monitoração da ampacidade em tempo real pode disponibilizar ao Centro de Operação relatórios on-line sobre a capacidade ociosa das LTAs, alarmes de violação das condições de segurança etc., o que significa óbvia vantagem em relação às singelas tabelas de capacidade até então disponíveis. 5 Embora a tecnologia de monitoração em tempo real de linhas aéreas esteja completando 10 anos, não há ainda um consenso quanto à melhor abordagem. Os itens abaixo apresentam as técnicas existentes, suas vantagens e desvantagens. 5.1 - Monitoração das variáveis climáticas O controle on-line das variáveis climáticas surgiu como decorrência natural da instalação, pelas concessionárias, de estações meteorológicas cujo objetivo primário era, muitas vezes, a coleta de dados para análise estatística. A automação do sistema elétrico criou a possibilidade de enviar as medições e 7 executar, em tempo real , os cálculos de ampacidade que anteriormente seriam realizados a posteriori nos escritórios da concessionária. A grande desvantagem de simples monitoração das variáveis climáticas são a elevada dispersão e baixa correlação temporal e espacial, já mencionadas. Seriam necessárias diversas estações ao longo da LTA para elevar a confiabilidade da capacidade calculada. O elevado custo/benefício não recomenda essa técnica. 5.2 - Monitoração da temperatura do cabo Sendo o limite térmico a restrição teórica para o carregamento de LTAs, a abordagem mais intuitiva para monitoração é o acompanhamento da temperatura no condutor. Essa idéia se concretizou em produtos surgidos no início dos anos 90 que se propunham a medir a temperatura superficial dos cabos. Em conjunto com uma estação meteorológica e um sistema de comunicação, tais dispositivos permitem avaliar em tempo real a capacidade da LTA. O produto comercial mais utilizado é instalado diretamente no condutor, medindo a temperatura superficial do cabo no ponto de fixação. A principal crítica a esse método está no fato de medir a temperatura localmente: em um vão longo, onde os cabos podem estar simultaneamente sob vento forte/fraco ou sob sol/sombra, a leitura em um só ponto específico pode levar a erros no cálculo da capacidade da linha [10]. Em adição, a medição é feita sobre o condutor energizado, criando uma dificuldade adicional para a instalação/manutenção do equipamento. 5.3 - Monitoração da altura cabo-solo Conforme já discutido no item 2.4, a medição da altura cabo-solo representa uma alternativa à supervisão da temperatura dos cabos, com a vantagem de refletir a resposta mecânica do condutor a sua temperatura média, evitando assim os possíveis erros de uma medição pontual. Um dos produtos comercialmente disponíveis se utiliza de técnica de sonar [11]: instalado no solo, no meio do vão, sob os cabos, esse equipamento mede a altura do cabo por ultra-som, enviando os resultados via celular ao Centro de Operação. A alimentação da aparelhagem é garantida por painéis fotovoltáicos e baterias. A desvantagem, nesse caso, é a necessidade de instalar o aparelho diretamente sob os cabos, o que é inviável em vãos sobre travessias (rodovias, estradas de ferro etc.), os quais são, muitas vezes, exatamente os vãos críticos cujo clearance deve ser monitorado. O fato de que, na maioria das LTAs, a concessionária não têm a posse do terreno sob a faixa também dificulta a instalação do equipamento, além de expô-lo à curiosidade de terceiros e ao vandalismo. Uma tecnologia em estudo [12] contorna esse problema, ao fazer uso de uma vídeo câmera (que pode ser montada na estrutura), direcionada a um alvo reflexivo sobre o condutor. A imagem é analisada para determinar a altura cabo-solo e os resultados podem ser enviados em tempo real ao centro de controle via celular ou rádio. 5.4 - Monitoração da tração mecânica do cabo A supervisão da tração dos condutores é uma estratégia particularmente interessante para monitorar a capacidade da linha e tem sido até o momento a tecnologia comercialmente mais bem sucedida. Estando diretamente relacionada à altura cabo-solo, a tração mecânica se apresenta como grandeza de fácil medição, cuja aplicação para cálculo do carregamento apresenta vantagens adicionais: ! seu valor é constante para todo o cabo; ! reflete o comportamento de vários vãos (entre estruturas de ancoragem); ! o sensor é instalado atrás da cadeia de isoladores (portanto, do lado "desenergizado" em ponto de fácil acesso). O produto comercial mais conhecido que aplica essa técnica baseia-se em uma célula de carga que mede continuamente a tração de um tramo. Em lugar de uma estação meteorológica, tem-se um conjunto mais simples: um sensor de radiação solar (na verdade, uma réplica do cabo, instalada no mesmo alinhamento que este) que fornece a temperatura do condutor desenergizado e um termômetro para a temperatura ambiente. Com esses dados (que permitem inferir o resultado de Qc + Qr - Qs) pode-se efetuar o cálculo de ampacidade. 7 Devido à relativa lentidão da resposta térmica e mecânica dos cabos à variação instantânea das condições climáticas, a monitoração "em tempo real" deve ser entendida como monitoração "a cada 5 a 15 minutos", o que reduz bastante o volume de dados e o processamento digital dos cálculos. A comunicação para o Centro de Operação é feita via rádio, com o transmissor alimentado por painéis fotovoltáicos e baterias instalado na estrutura. 6 5.5 - Comparação das técnicas de monitoração 7.0 - BIBLIOGRAFIA As características acima apresentadas sugerem que a medição da altura cabo-solo ou da tração mecânica, desde que realizadas por equipamentos montados na própria linha ou suas estruturas, são as técnicas mais indicadas para a monitoração em tempo real. [1] A. STILL. Electrical Power Transmission. McGrawHill. USA. 1927. [2] R.D. FUCHS. Transmissão de Energia Elétrica Vol. 1. LTC/EFEI. Brasil. 1977. [3] R. THRASH et al. Overhead Conductor Manual. Southwire Co. USA. 1994. [4] J.R. HARVEY. Effect of elevated temperature operation on the strength of aluminum conductors. IEEE-PAS Paper T 72 189-4. Vol Jul-Dec 1973, pp. 1769-1772. [5] V.T. MORGAN. The loss of tensile strength of hard-drawn conductors by annealing in service. IEEE-PAS Paper F 78 728-8. Vol May-Jun 1979, pp. 700-709. [6] L. SVENSSON, A. ENGQVIST, S. MELIN. Thermal design criteria for overhead lines with regard to load and short-circuit currents. CIGRÉ. Art. 22-009. France. 1980. [7] T. SEPPA et al. Use of on-line tension monitoring for real-time thermal ratings, ice loads, and other environmental effects. CIGRÉ. Art. 22-102. France. 1998. [8] Competition, deregulation: is the US rushing into the dark ? Electrical World T&D Vol 210. Oct 1996. [9] Tapani SEPPA. Risks, games and gambles. Electrical World T&D. Oct 1998. [10] R. STEPHEN. Description of state of the art methods to determine thermal rating of lines in real-time and their application in optimising power flow. CIGRÉ SC22 WG12. 2000. [11] Ontario Hydro develops solar-powered sonar line sag monitor. The UPVG Record. Fall 1996. [12] EPRI. Dynamic rating concepts for overhead lines. Report 1000439 - abstract. Dec 2000. [13] O. NIGOL, J.S. BARRET. Characteristics of ACSR conductors at high temperatures and stresses. IEEE Vol. PAS-100, nº 2. Feb 1981, pp. 485-493. [14] T. SEPPA, T. SEPPA. Conductor sag and tension characteristicas at high temperatures. Southeastern Exchange Annual E/O Meeting. USA. May 1996. [15] D.A. DOUGLAS, Y. MOTLIS, T. SEPPA. IEEE's approach for increasing transmission line ratings in North America. CIGRE Art. 22-048. France. 2000. [16] T. SEPPA, D. DOUGLASS. Safe weather assumptions for line ratings. Electrical World T&D. Jan-Feb 2001. Deve-se acrescentar que, sob temperaturas muito elevadas, as flechas reais em cabos CAA podem ser maiores do que as calculadas, devido a variações nos parâmetros de fabricação do cabo e transferência de carga do alumínio para a alma de aço [7] [13] [14]. Assim, a violação do clearance ocorre antes de se atingir a máxima temperatura no cabo, o que sugere ser a supervisão da altura cabo-solo ou da tração mais eficaz que o controle da temperatura no cabo. Essa conclusão coincide com análises do IEEE [15]. Após análise das tecnologias e produtos disponíveis, a LIGHT optou por instalar, em 2001, um sistema-piloto de monitoração da tração na LTA São José Cascadura 138 kV. 6.0 - CONCLUSÃO Após décadas limitando o carregamento de linhas aéreas de modo conservador (método determinístico), seguidas de tentativas de operá-las sob um risco calculado (método estatístico), as concessionárias podem hoje buscar maximizar o uso das linhas minimizando os riscos de violação dos limites térmicos e das alturas de segurança pela aplicação de técnica de monitoração em tempo real. Essa tecnologia parece estar atingindo a maturidade, com a disponibilização de diversos produtos no mercado. Dentre os produtos existentes, nos parecem mais promissores aqueles que buscam aferir a tração nos cabos (solução adotada pela Light) ou a altura cabosolo, usando aparelhagem instalada nas estruturas adjacentes, sem contato com partes energizadas.