Ética na aqua 14 | MARÇO/ABRIL 2005 | diga lá | nº 42 rela do Brasil É preciso pintar um quadro novo para o turismo no país, excluindo a exploração sexual. nº 42 | diga lá | MARÇO/ABRIL 2005 | 15 ILUSTRAÇÕES ALÊ ABREU Valquíria Daher A maravilha de cenário da aquarela brasileira decantada por Silas de Oliveira em samba-enredo histórico do Império Serrano acaba de ganhar mais uma atração. Junta-se às verdes matas, cachoeiras e cascatas de colorido sutil um maior esforço por um turismo mais ético: o Plano Nacional de Enfrentamento à Exploração Sexual e Comercial de Adolescentes e Crianças no Turismo foi lançado pelo Governo Federal em dezembro, mas as ações serão permanentes. O Ministério do Turismo comemora o engajamento da sociedade civil e de empresários do setor no combate ao problema que afeta todas as regiões do país, apesar de não existirem estatísticas sobre quantos jovens com menos de 18 anos foram ou são submetidos a esse tipo de exploração. Na estratégia do Ministério do Turismo há um ponto crucial: é preciso educar, conscientizar, e não simplesmente punir. As autoridades e seus parceiros nessa empreitada – ONGs como a Save the Children – querem mostrar a quem vive do turismo que ética dá lucro: “Os empresários do setor têm se manifestado a favor da campanha e nós queremos ensinar a eles que o turismo familiar traz lucro. Todos ganham com isso. O turismo sexual afasta o turismo de qualidade. É uma lógica de sustentabilidade”, explica Sidney Alves Costa, coordenador de ações do Ministério do Turismo. Lançada pelo próprio presidente Lula no Fórum Mundial de Turismo, em Salvador, a campanha teve seu Plano de Ações Estratégicas apresentado no dia 3 de março e há metas estabelecidas para os próximos dois anos. “Haverá um monitoramento constante para que possamos ir corrigindo as ações. Tudo começou em dezembro, quando levamos a campanha ao mobiliário urbano, à imprensa e à tevê. O passo seguinte foi visitar um local por região antes do carnaval. Agora vamos visitar todos os estados do Brasil. Queremos promover uma conscientização nacional”, conta Alves Costa, destacando que não foram criados um departamento nem uma verba específicos para tal. “Optamos por verificar as ações que já estavam sendo realizadas e reuni-las para, a partir daí, criar o plano e novas estratégias.” Mas, para chegar à conscientização nacional, há um longo caminho a percorrer, na opinião da socióloga baiana Marlene Vaz, que estuda o tema há 30 anos. Ela elogia o esforço do Ministério do Turismo – “É a primeira vez que se assume o combate à exploração sexual” –, mas faz também algumas críticas: “Não se pode ficar só no populismo. Não adianta entregar ao turista, no aeroporto ou no avião, um folheto contra a exploração comercial de crianças e adolescentes, se no país de origem ele recebeu um folder que mostra nossas praias paradisíacas com meninas muito jovens em poses eróticas usando fio dental. É isso que o book de muitas empresas de turismo apresenta, e até mesmo o material de divulgação de algumas secretarias estaduais e municipais de turismo. Um país que se respeita não faz isso. Precisamos urgentemente de um código de conduta para o setor turístico, como o que entrou em vigor em Natal”, diz Marlene, co-autora do Plano de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes. O coordenador de Ações do Ministério do Turismo admite que, algumas vezes, o país ainda é vendido lá fora com apelos eróticos, mas destaca: “O material financiado pelo Governo Federal e pelos estados passa pelo nosso crivo e, aqui, somos extremamente exigentes. Não permitimos esse tipo de propaganda. Eu acredito que empresas sem ética e, eventualmente, alguma secretaria produzam material desse nível sem que o possamos identificar. A verdade é que não adianta dizer: ‘Está proibido’. Seria demagogia. Por isso, vamos visitar estado por estado, explicando que o turismo familiar elevará o padrão daquele destino”, avalia Alves Costa. 16 | MARÇO/ABRIL 2005 | diga lá | nº 42 Um código de conduta já em 2005 Um código de conduta está entre as ações previstas pelo Ministério do Turismo para 2005. Entretanto, a tarefa não é das mais simples: “O código terá a participação de todos os membros do Conselho Nacional de Turismo e haverá uma institucionalização, mas é importante afirmar que não vamos impor nada. Será livre a adesão. Também temos de pensar que cada região ou município tem suas peculiaridades, portanto o código precisa ser adaptado. Também está previsto um tipo de certificação para os estabelecimentos que aderirem ao código. O que vai ser mais uma sistematização, pois não queremos reinventar a roda”, destaca Alves Costa. Natal foi a primeira cidade brasileira a contar com um Código de Conduta do Turismo Contra a Exploração Sexual Infanto-juvenil, criado em 2001 num trabalho conjunto que envol- veu a ONG Casa Renascer, o Banco do Nordeste e a Universidade Potiguar. As ações incluem campanhas de conscientização de turistas, um selo de adesão para estabelecimentos e agências chamado Paulo Freire, além do monitoramento de casos de abuso ou desrespeito às regras que é feito por órgãos como o Ministério Público. “O código não é punitivo, é um código de ética. Hoje, 96 empresas, entre agências de turismo, hotéis, transportadoras e até motéis, já aderiram. Para participar, é preciso ter uma certidão negativa, mostrando que a empresa nunca esteve envolvida com esse tipo de crime”, explica Jurema Márcia Dantas da Silva, vice-presidente da ONG Resposta, que foi criada há cerca de dois anos para desenvolver ações relacionadas com o turismo ético. Professora de turismo da Universidade Potiguar, ela conta que estudantes, integrantes de ONGs e cidadãos se revezam nas campanhas feitas nos aeroportos, explicando para o turista que o Rio Grande do Norte tem muitas atrações que não envolvem sexo. “Esse tipo de medida conscientiza os turistas de que a exploração sexual de crianças e adolescentes é crime. A campanha do governo é importante porque se os italianos, por exemplo, souberem na sua terra que serão punidos se forem pegos em atitudes suspeitas com nossas crianças, não virão mais para cá com esse tipo de intenção”, diz Jurema, acrescentando que considera o código de conduta um sucesso. ”Hoje, muitos empresários denunciam quando ficam sabendo que existe turismo sexual em alguma praia. Eles sabem que isso pode atrair 20% dos turistas, mas afasta os outros 80% que trariam mais lucro. Fico emocionada quando vejo esse tipo de coisa. No início, achávamos que a resistência no setor seria muito grande”, completa a professora, que é membro do Conselho Nacional de Turismo. Um projeto de turismo cultural em lugar do sexual é o que propõe Marlene Vaz. “Acredito que o turismo gera riqueza, mas não nos interessa vender nossas crianças. Além da propaganda sem ética, você chega a alguns aeroportos e vê vôos charter chegando repletos de homens. Só homens desacompanhados. O que eles vêm buscar aqui? Esse tipo de turista se hospeda em qualquer lugar e tem despesas restritas. O que ele vem consumir aqui é sexo.” nº 42 | diga lá | MARÇO/ABRIL 2005 | 17 Diferenças de região para região Plano já está em vigor Durante o Fórum Mundial de Turismo, em dezembro de 2004 – quando foi realizado paralelamente um seminário sobre o combate à exploração infanto-juvenil no turismo sexual, com diversas experiências nacionais e internacionais –, também ficou acertado que 2005 seria o Ano da Infância e do Turismo Sustentável. Portanto, uma série de ações nesse sentido serão tomadas. Mas, se é grande o empenho em conscientizar as empresas e os funcionários do setor, como fica a situação das famílias que, muitas vezes, se sustentam com a exploração de crianças e adolescentes? “Eis a razão por que o combate a esse problema é uma ação intergovernamental. Além disso, as ONGs nos dão subsídios para enfrentar a questão social”, diz Sidney Alves Costa, acrescentando que, como cada estado, cada município tem características diferentes, as ações também são diversificadas. “Em alguns locais, a iniciação sexual precoce é 18 | MARÇO/ABRIL 2005 | diga lá | um problema que já está arraigado. Em outros, há o agenciamento no estilo mafioso. E em outros, ainda, trata-se simplesmente de uma questão de pobreza. O importante é admitir que o problema existe no país inteiro e difere de região para região.” O mapa do crime sexual contra crianças e adolescentes, feito em 26 de janeiro de 2005 pelo Unicef - Fundo das Nações Unidas para a Infância em parceria com o Ministério da Justiça e coordenado pela UnB - Universidade de Brasília, mostra que a exploração sexual infanto-juvenil está presente em 16,88% dos municípios do país, ou seja, em 937 das 5.551 cidades brasileiras. O levantamento revela que o problema não se restringe aos destinos turísticos, mas ocorre, principalmente, em pequenos municípios pobres, com população entre 20 mil e 100 mil habitantes. No Nordeste, 31,8% dos municípios tiveram registros de casos. No Sudeste, foram 25,7%; no Norte, 11,6%; no Centro-Oeste, 13,6%; e no Sul, 17,3%. No Rio de Janeiro, por exemplo, 33 municípios apareceram no levantamento com 764 casos, mas apenas 37 estão ligados ao turismo sexual. “Sabemos que há uma subnotificação dos casos e, por isso, não podemos falar em números. Mas o levantamento reafirmou que o problema existe em todo o país e não apenas no Nordeste. É que lá ele ganha mais visibilidade. Também é importante assinalar que fala-se muito nos turistas estrangeiros, mas os brasileiros também praticam esse abuso. É só lembrar que nas rotas onde é grande a presença de caminhoneiros o problema cresce”, diz Alves Costa. No dia 3 de março, o Conselho Nacional de Turismo se reuniu em Brasília e aprovou o Plano de Ação de Turismo Sustentável & Infância, que compromete todos os empresários do setor na constituição do código de conduta que vai envolver toda a comunidade. Nessa etapa, a principal meta do Plano é conscientizar empresários e trabalhadores do setor de turismo sobre a importância do combate à exploração sexual de crianças e adolescentes. Para isso, foram divulgadas as seguintes estratégias de trabalho: nº 42 Pobreza é a principal razão A socióloga Marlene Vaz não tem dúvida que a pobreza é a principal causa da prostituição e da exploração sexual infanto-juvenil. “Falo da pobreza absoluta, da fome. Muitas vezes, as pessoas não vêem outra saída, quando não têm o que comer. Mas o problema também atinge as meninas de classe média baixa, só que aí a motivação é outra. Elas acreditam que para serem aceitas socialmente, precisam ter boas roupas, celular etc. Como os adolescentes tendem a se ver como super-heróis que podem tudo, acabam sendo levados pelos exploradores”, explica Marlene. Apesar de considerar o turismo sexual o menor dos problemas quando o tema é a exploração e o abuso sexual infanto-juvenil, o pediatra Lauro Monteiro Filho, secretário-executivo da Abrapia, cita algumas das razões pelas quais as famílias e os próprios adolescentes permitem que ocorram tais crimes: “O que 1. favorece essas situações é a desestruturação familiar e a baixa auto-estima. Muitas vezes, a menina que se prostitui sofreu violência dentro de casa. Ela recebe dinheiro por uma coisa que fazia de graça em casa. O abuso é a porta de entrada para a prostituição infantil, mas insisto em afirmar que o turismo sexual representa uma realidade pontual”, diz Monteiro Filho, explicando que a Abrapia dirigiu até 2003 o disque-denúncia para casos de exploração sexual. “Cinqüenta e cinco por cento das denúncias eram de abuso sexual, principalmente dentro de casa, enquanto 45% eram de exploração comercial. Nesse caso, em primeiro lugar vinha a prostituição, seguida da internet e da pornografia. O turismo sexual e o tráfico de pessoas representavam 3% das denúncias.” Marlene Leal conta que viu, dentro de sua própria casa, um episódio bem ilustrativo de como é feito o aliciamento: “Minha empregada, que deve ter uns 20 anos, mas aparenta ter bem menos, trouxe algumas cartas em inglês para eu ler para ela. Eram de homens estrangeiros procurando mulheres brasileiras para casar. Eu contei os casos mais horríveis para ela, mas não tenho certeza se a convenci. Existem agências que traduzem as cartas desses homens e revistas que fazem a troca de correspondências. Jovens mulheres e meninas vêem nesse tipo de relacionamento uma chance de fugir à exclusão social, ficam na ilusão de que vão ganhar status para elas e Promover o tema Turismo Sustentável & Infância nos destinos turísticos, visando capa- citar a sociedade civil e o trade para a adoção e implantação do código de conduta no turismo, ao lado das boas práticas no setor. 2. Implantar o ambiente Turismo Sustentável & Infância no Brasil por meio de campa- nhas de mobilização social buscando preservar a imagem do país no exterior, aprimorar o ambiente de proteção legal relacionado ao Turismo Sustentável & Infância e promover a sua divulgação junto ao trade. 3. Estimular a adoção de estratégias de desenvolvimento sustentável no ambiente de atuação do trade, desenvolvendo programas de capacitação em responsabilidade social corporativa e incentivando as associações de classe a promover a discussão e a implantação de programas de relacionamento com a comunidade em destinos turísticos. FONTE: ABIH NACIONAL – 3/3/2005 nº 42 | diga lá | MARÇO/ABRIL 2005 | 19 para suas famílias. E o pior são aquelas que vão para o exterior, mandam fotos e tentam mostrar para a sociedade que ascenderam socialmente. Mesmo que a vida delas lá fora não seja boa. Nós temos aqui um grave problema social gerado pela sociedade de consumo.” Comissão investiga os hotéis Além do mapa do crime sexual, o relatório da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Congresso chegou à conclusão, em julho passado, que o turismo sexual tem a colaboração de agências, guias, hotéis, bares, restaurantes, barracas de praia, entre outros tipos de comércio. A CPI mostrou também que até prefeitos e vereadores estão envolvidos na exploração sexual infanto-juvenil. No âmbito dos hotéis, o Ministério do Turismo se uniu à ABIH Associação Brasileira da Indústria de Hotéis e ao Ministério do Trabalho para criar um meio de responsabilizar os funcionários que 20 | MARÇO/ABRIL 2005 | diga lá | nº 42 facilitam a exploração de crianças e adolescentes nos estabelecimentos hoteleiros. Foi formada uma comissão que conta com a participação de Sidney Alves Costa, do presidente da ABIH, Eraldo Alves Cruz, e de um membro do Ministério do Trabalho que, até final de fevereiro, ainda não havia sido escolhido. O presidente da ABIH explica que pela legislação atual, se um crime de exploração sexual infanto-juvenil ocorrer dentro de um estabelecimento, as pessoas responsabilizadas seriam o gerente ou o proprietário. “O problema é que em 99% dos casos, o dono e o gerente não se encontram no hotel e não ficam sabendo do que está ocorrendo. Como eles podem controlar o tempo todo um recepcionista ou um mensageiro? O que queremos é que o funcionário que tem ligação direta com o crime seja responsabilizado. Não adianta isso estar apenas no regimento do hotel. É preciso que essa norma seja incluída no contrato de trabalho do funcionário, ou que ele assine um termo”, diz Cruz, destacando, no entanto, que os sindicatos de funcionários já se mostraram contrários a essa medida. Cruz explica que, hoje em dia, os hotéis tentam coibir esse tipo de crime, mas nem sempre isso é possível. “Prostituição de indivíduos com mais de 18 anos não é crime. Também não podemos impedir ninguém de entrar no hotel. O que podemos fazer hoje – e qualquer hotel sério que se preza faz – é pedir para ver a carteira de identidade da pessoa, tirar uma cópia e solicitar que ela assine uma ficha de hóspede, antes de deixá-la subir. É claro que há adolescentes que aparentam ter mais de 18 anos que entram no hotel com uma carteira de identidade falsificada. Elas acabam subindo para os quartos dos hóspedes. O que podemos fazer para impedir isso?” O presidente da ABIH conta que, quando era jovem, tentou barrar uma mulher uma vez na porta de um hotel, desconfiando que ela fosse prostituta. “Foi a pior coisa que já fiz. Ela era a mulher de um comandante de avião. Arranjei um problema sério. Não se pode julgar só pela aparência. E repito: nenhum hotel pode impedir pes- soas de entrarem”, destaca Cruz, salientando que é preciso diferenciar os hotéis sérios de estabelecimentos de alta rotatividade, onde o sexo é o principal negócio. “Quanto a esses lugares, a ABIH não pode fazer nada. Eles nem são associados.” Cruz acredita que o Brasil hoje não é mais vendido no exterior com a imagem de mulheres de biquíni nas praias. “Nós estamos conseguindo divulgar o país por sua diversidade cultural, pelo respeito e pela riqueza da nossa natureza. Esse turismo é muito mais interessante. Mas, temos de ser realistas e saber diferenciar as coisas: há muitos estrangeiros que vêm para o Brasil em busca de uma esposa porque estão cansados do estilo das mulheres européias. É lógico que eles vão praticar sexo com as mulheres brasileiras, e isso não pode ser considerado turismo sexual, desde que as mulheres sejam maiores de idade. Nada podemos fazer em relação a isso.” Já Marlene Vaz tem outra preocupação: as campanhas que tratam todos os turistas como bandidos e desrespeitam as atrações nacionais. “Havia uma peça publicitária que mostrava uma foto com uns olhos ameaçadores, com a seguinte frase: ‘Turista, estamos de olho em você.’ Também me lembro de outra que mostrava as casas coloridas do Pelourinho atrás das grades. Isso é um grande desrespeito para com o patrimônio histórico”, reclama a socióloga. Com uma coleção de campanhas exemplares, além de um código de conduta bem-sucedido, a ONG Resposta acaba de lançar o site www.resposta.org.br, onde é possível ler o código na íntegra e conhecer as ações e os parceiros da organização do Rio Grande do Norte. “Queremos mostrar o potencial que o Nordeste tem e também proteger nossas crianças. As pessoas que nos visitam não estão preocupadas com isso. Este é o nosso papel”, diz a vicepresidente da Resposta, Jurema Dantas da Silva, enfatizando que a preocupação em lidar com o problema já se mostra presente nos cursos de turismo. nº 42 | diga lá | MARÇO/ABRIL 2005 | 21