1 1. INTRODUÇÃO A vegetação lenhosa da caatinga é até hoje a principal fonte de energia para a população nordestina. Com a crise mundial do petróleo, a partir de 1974, por decisão governamental, alguns setores industriais tiveram que buscar fontes alternativas de energia, concentrando-se na órbita da biomassa. Como resultado, a lenha e o carvão passaram a ser as fontes mais importantes de energia primária também para a indústria (BENEVIDES, 2003). A Caatinga é uma associação de plantas xerófilas, composta por árvores e arbustos com adaptações anátomo-fisiológicas de proteção para o grande período seco que atinge o território nordestino e que imprime ao Nordeste o seu caráter peculiar (LUETZELBURG, 1922 – 1923). A vegetação do Bioma Caatinga encontra-se degradada com a substituição de espécies nativas por pastagens e cultivos. O desmatamento e as queimadas são ainda práticas comuns no preparo da terra para a agropecuária, o que, além de destruir a cobertura vegetal, prejudica a manutenção de populações da fauna silvestre, a qualidade da água, o equilíbrio do clima e do solo (ANDRADE-LIMA, 1981). A caatinga vem sofrendo modificações fitofisionômicas e estruturais que estão relacionadas a processos antrópicos, desde a época da colonização do Brasil, principalmente no que se refere às práticas da pecuária bovina, agrícolas, bem como ao aumento da extração de lenha e a caça (ANDRADE et al., 2005). A utilização dos recursos da caatinga ainda se fundamenta em princípios puramente extrativistas, sem a perspectiva de um manejo sustentável, observando-se perdas irrecuperáveis na diversidade florística e faunística, como conseqüência da simplificação da rede alimentar, redução da resiliência e da estabilidade do ambiente diante dos fatores do meio (DRUMOND et al., 2000). A eliminação sistemática da cobertura vegetal e o uso indevido da terra têm acarretado graves problemas ambientais ao semi-árido nordestino, entre os quais se destacam: a redução da biodiversidade, a degradação dos solos, o comprometimento dos sistemas produtivos e a desertificação de extensas áreas na maioria dos estados que compõem a região (PEREIRA et al., 2001). 2 Grande parte da Paraíba enfrenta sérios problemas de erosão e redução de fertilidade dos solos, em decorrência dos constantes desmatamentos e da falta de manejo ambiental, o que, conseqüentemente, causam prejuízos também à vegetação (MONTEIRO, 1995). Na região do Seridó, segundo Vasconcelos Sobrinho (1974), a degradação da cobertura vegetal e do solo havia alcançado a condição de irreversibilidade, sendo portanto, um dos núcleos de desertificação do Nordeste. Ab'Saber (1977) definiu como processos parciais de desertificação, todos os fatores suficientes para criar degradações irreversíveis da paisagem e dos tecidos ecológicos naturais e enfatizou que era no Nordeste semi-árido que estes fatos eram mais facilmente percebidos. No Seridó Oriental paraibano, a vegetação predominante é a caatinga arbóreoarbustiva esparsa, com alto grau de degradação (ANDRADE-LIMA, 1981). Nesta região, a madeira advinda da caatinga é utilizada como principal fonte energética para abastecimento doméstico e industrial, sendo o corte raso da vegetação prática comum entre seus habitantes. Segundo Cândido, Barbosa e Silva (2002), a degradação da vegetação nativa, em função de atividades agrícolas e pastoris, além do corte raso para a produção de carvão e abastecimento das indústrias de cerâmica e de processamento do caulim, são fatores que colocam esta área entre aquelas com níveis acentuados de desertificação. O município de Tenório encontra-se situado em um núcleo de desertificação, área piloto 4, de acordo com Vasconcelos Sobrinho (1983). Possui grande riqueza mineral cuja exploração traz benefícios sócio-econômicos para a população, porém, ocasiona, por vezes, o empobrecimento do solo através da aceleração do processo de erosão causada pelo desmoronamento de minas abandonadas e o carreamento de partes desse solo, criando imensas voçorocas (AURINO; TROVÃO; SILVA, 2004). Este trabalho busca fazer um diagnóstico da situação atual da diversidade vegetal no município de Tenório, Seridó Oriental paraibano, uma vez que neste o corte da vegetação nativa está presente no cotidiano de grande parte dos agricultores e proprietários de terras da região. 3 2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.1. O Nordeste Brasileiro. O Nordeste brasileiro abrange uma área de 1.548.672 km², correspondente a 18,3% do território nacional (IBGE, 2001). É uma das regiões mais carentes e menos desenvolvidas economicamente do país, enfrentando inúmeros problemas ambientais, dos quais a seca, ou estiagem prolongada, é o mais difundido (MEDEIROS-FILHO; SOUZA, 1988). Analisando-se a história geológica do Nordeste, percebe-se que há fatos que comprovam a originalidade da província Nordestina no que se refere à evolução da flora e do meio físico. Para Fernandes e Bezerra (1990), os processos de transformações que se realizaram no médio Terciário (Mioceno) e que continuaram no Quaternário, atingiram o embasamento cristalino e deram molde ao pediplano sertanejo nordestino, onde se instalou posteriormente uma flora xerófila, que compôs a vegetação tropofítica do Nordeste. Segundo Paiva e Campos (1995), as condições de semi-aridez do Nordeste do Brasil vêm se intensificando a partir do Pleistoceno e sendo agravadas com a ocorrência de periódicas secas, que resultam da baixa pluviosidade na época normalmente chuvosa. Para Rodal (1992), a deficiência hídrica origina-se da baixa pluviosidade, má distribuição das chuvas ao longo do ano, da elevada taxa de evapotranspiração potencial, que em geral ultrapassa os 2.000mm anuais, e da baixa capacidade de retenção de água dos solos. Segundo esta autora, as chuvas são irregulares no tempo e no espaço, normalmente concentradas em três a quatro meses do ano, com índices pluviométricos que se reduzem a valores de até 300 mm/ano. De acordo com Medeiros-Filho e Souza (1988), o Nordeste foi marcado ao longo de sua história por monoculturas (principalmente cana-de-açúcar e algodão), pecuária extensiva, invasões, cangaço e migrações. O clima quente e seco propiciou, ao longo do tempo, uma forma de manejo da terra e de seus recursos muito degradante, porém a única disponível para grande parte da população rural, que sofria as conseqüências da estiagem. 4 O sertanejo desenvolveu técnicas de manejo e conservação baseadas no seu conhecimento e percepção da caatinga, sendo as ações impactantes no ambiente decorrentes da necessidade imediata de sobrevivência (BISPO, 1998). A economia da Região Nordeste vem crescendo, ao longo das quatro últimas décadas, num ritmo bem superior à média nacional, impulsionada pelos incentivos governamentais e pelas vantagens decorrentes do estágio embrionário de desenvolvimento local, como escassa competição e mão-de-obra abundante e barata (embora inicialmente pouco qualificada). Entretanto, a população local, muitas vezes, fica à margem do desenvolvimento regional como mera espectadora (GALVÃO, 2005). Segundo Bispo (1998), é preocupante a forma como são discutidos os problemas regionais. A desertificação que avança no semi-árido e o desmatamento de áreas cada vez maiores de vegetação nativa são questões totalmente interligadas. 2.2. O Semi-árido Brasileiro O semi-árido brasileiro tem, segundo o IMSEAR (2002), cerca de 975.000 km2, correspondendo a cerca de 11,5% do território nacional, incluindo oito estados do Nordeste e dois do Sudeste. É uma terra marcada pela irregularidade das chuvas, determinando longos períodos de secas, com forte deficiência hídrica e graves conseqüências sociais para seus habitantes, que apresentam elevada dependência dos recursos naturais e os piores indicadores sociais do país (FERREIRA, 1994). De acordo com Mendes (1992), o semi-árido brasileiro é conhecido como polígono das secas em virtude de seu formato poligonal e das secas que atingem a região. Considerase uma região como semi-árida no Brasil quando a precipitação é inferior a 800 mm anuais, há a ocorrência de secas, a vegetação é a caatinga, os solos são pobres em matéria orgânica com muitos sais e os rios são temporários (MENDES, 1997). As condições ecológicas típicas do semi-árido brasileiro estão representadas nas depressões interplanálticas, onde predomina a caatinga, e que contrastam com áreas das Chapadas, onde predominam o cerrado, campos rupestres e diferentes tipos de florestas (GALVÃO, 2005). De acordo com a ASABRASIL (www.asabrasil.org.br), não há para o 5 semi-árido políticas públicas eficientes que tratem da questão das secas periódicas de maneira permanente, com a participação efetiva dos atores que vivenciam sua realidade. De modo geral, o semi-árido tem sido encarado como um conjunto de problemas ambientais, sociais e desafios científicos, tecnológicos e de desenvolvimento (VERSENTINI, 2000). Segundo Barbosa (1998), dois dos maiores problemas associados ao semi-árido são o elevado grau de degradação ambiental e o baixo conhecimento quantitativo e qualitativo de sua biodiversidade. Esta é uma das regiões menos conhecidas da América do Sul, no que diz respeito à sua biodiversidade (MMA 1998, SILVA; TABARELLI, 2000). Não obstante, o Bioma Caatinga é um dos mais ameaçados, devido ao uso inadequado e insustentável dos seus solos e recursos naturais, e por ter somente uma pequena área (menos de 1%) protegida em unidades de conservação (ROCHA et al., 2006). Esta degradação provavelmente se explica pelo fato de vinte e cinco milhões de pessoas, aproximadamente 15% da população brasileira, viverem na caatinga (MITTEIRMEIER et al., 2002). Segundo Barbosa (2001), várias causas podem ser apontadas para esta situação, desde modelos inadequados às condições físicas e culturais até o distanciamento entre o conhecimento gerado no meio acadêmico e as populações locais. Para a ASABRASIL o semi-árido apresenta uma das biotas mais particulares do mundo, em composição e adaptações às condições do meio, representando um recurso vital para as populações locais (www.asabrasil.org.br). Mas, a desertificação nas regiões semi-áridas avança, na medida em que crescem os índices de alteração da vegetação nativa e a degradação dos recursos naturais (BRASIL, 1991). Para Queiroz (2006), o semi-árido apresenta a mais diversa das paisagens brasileiras, tanto em relação a geomorfologia quanto aos tipos de vegetação. Esta diversidade ambiental se reflete na biodiversidade, na taxonomia complicada dos grupos e em padrões biogeográficos complexos. Queiroz (2006) ressaltou ainda, a enorme dificuldade de estudar grandes e diversas áreas na região e, assim, propor planos de conservação para as mesmas. Rapini et al. (2006), afirmaram que conhecer a biodiversidade do semi-árido e os processos físico-químicos e biológicos que afetam sua biota é o primeiro passo para que seus recursos possam ser aproveitados de maneira sustentável, reduzindo a degradação ambiental e melhorando a qualidade de vida de seus habitantes. 6 2.3. A Vegetação no Semi-árido Brasileiro De acordo com Araújo et al. (2005), existem dois tipos de fisionomias de vegetação que dominam a área semi-árida brasileira: as florestas — que variam de semidecíduas a decíduas, e as fisionomias não florestais, que são representadas pela caatinga. A caatinga ocupa a maior parte do semi-árido nordestino e caracteriza-se por apresentar árvores de porte relativamente baixo (geralmente até 5 m de altura), sem formar um dossel contínuo, troncos de árvores e arbustos finos, freqüentemente armados, com folhagem decídua na estação seca. Cactos e bromélias terrestres são, também, elementos importantes da sua paisagem. O estrato herbáceo é efêmero e constituído principalmente por terófitas e geófitas que aparecem apenas na curta estação chuvosa (QUEIROZ, 2006). Para Egler (1951), dos grandes tipos de vegetação do Brasil, a caatinga sem dúvida, é o mais heterogêneo, englobando um grande número de formações e associações vegetais fisionômica e floristicamente distintas. Reconhecida a variedade de termos locais a ela aplicados, diversos autores passaram a citá-la no plural; caatingas, devido à multiplicidade de fisionomias apresentadas (LUETZELBURG, 1922-23; HUECK, 1972; GOMES, 1979; ANDRADE-LIMA, 1981; SOUZA, 1983). A caatinga que caracteriza o Nordeste brasileiro é definida por Duque (1980), como um conjunto de galhos e arbustos baixos e retorcidos, de aspecto seco, com folhas pequenas e caducas no período seco, para proteger a planta da desidratação pelo calor e pelo vento. Ou ainda, segundo Luetzelburg (1922 – 1923), é uma associação de plantas lenhosas de pouca altura, que se contentam com todo e qualquer solo. Kuhlman (1977) e Andrade-Lima (1981), já percebiam que a caatinga não era homogênea e o primeiro a considerava o ecossistema mais heterogêneo do Brasil. Ferri (1980), citou como formações de caatinga: agreste, carrasco, cariri, sertão e seridó. Estas diferem entre si na fisionomia e composição florística. Segundo AndradeLima (1981), são reconhecidos 12 tipos diferentes de Caatingas, que resultam da interação vegetação-clima-solo. Silva et al. (1993) dividiram o Nordeste em unidades agroecológicas, sendo a caatinga dividida em hiperxerófila e hipoxerófila, o que não permite um detalhamento 7 maior dos possíveis tipos de caatinga propostos por Andrade-Lima. Entretanto, a divisão em unidades de paisagens (20) e suas 172 unidades geoambientais, possibilitou um conhecimento mais amplo da quantificação de áreas ocupadas por caatinga e suas áreas de preservação. Segundo Rodal e Sampaio (2002), são 935.000 Km² de área de caatinga, sendo 297.000 catinga hiperxerófila, 237.000 caatinga hipoxerófila, 169.000 caatinga mesclada com florestas subperenifólias, subcaducifólias ou caducifólias, 110.000 mescladas com cerrado, 101.000 caatinga mais floresta e carrasco e 22.000 caatinga e campos de altitude. Rizzini (1997) afirmou que a caatinga está bem delimitada do ponto de vista biogeográfico, mas distante de ser homogênea do ponto de vista fisionômico. Segundo Prance (1987), quanto à fisionomia, a caatinga é similar às regiões áridas da América Central e do norte colombiano e venezuelano. De acordo com Mendes (1997), sua vegetação caracteriza-se por apresentar alta resistência à seca devido ao desenvolvimento de diferentes mecanismos anátomo-fisiológicos, destacando-se dentre estes os xilopódios ou tubérculos, caules suculentos clorofilados, folhas modificadas em espinho, caducifolia, mecanismos especiais de abertura e fechamento dos estômatos, processo fotossintético de absorção do CO2 durante a noite, sementes dormentes e ciclo vital curto, entre outros. Apesar de descrita como pobre em endemismos, considerando somente as plantas lenhosas e suculentas, existem 18 gêneros e 318 espécies endêmicas à caatinga, cerca de 34% das espécies conhecidas para a região (GIULIETTI et al., 2004). De acordo com Leal et al. (2005), são valores muito altos se comparados a trabalhos já realizados para outros biomas. Tabarelli e Vicente (2004) ressaltaram que o número de espécies lenhosas relacionadas para o bioma deve ser ainda maior, visto que 40% da região nunca foi sequer investigada. De acordo com Rodal e Sampaio (2002), a vegetação do bioma caatinga por sua heterogeneidade é identificada pelo conjunto de características e fatores ambientais que afetam as plantas, de modo que suas áreas de ocorrência se sobrepõem razoavelmente. Segundo esses autores, existem três caracteres básicos que são comuns nas definições e delimitações da caatinga: 1) é a vegetação que cobre uma área mais ou menos contínua de clima semi-árido que se localiza no Nordeste ou porção norte de Minas Gerais; 2) as plantas apresentam adaptações anatomo-fisiológicas a deficiência hídrica, predominando arbustos e arvoretas de copas descontínuas; 3) algumas espécies são endêmicas do semi- 8 árido e outras também ocorrem em outras áreas secas, mas não são encontradas em formações mais úmidas que fazem limite com o semi-árido. Na busca de conservar e entender melhor a biodiversidade da caatinga, foram propostas 8 ecorregiões naturais para o Bioma, combinando dados bióticos e abióticos (VELOSO et al., 2002). Das 8 ecorregiões propostas, as Depressões Sertanejas Meridional e Setentrional representam a área core da caatinga. Segundo os autores, as Depressões Sertanejas são as ecorregiões mais típicas da caatinga e, juntas, somariam 293 espécies, sendo 148 para Setentrional e 145 para a Meridional. Segundo eles, estes números indicam uma similaridade relativa, pois são áreas semelhantes climática e pedologicamente, porém muito amplas e com uma diversidade de condições particulares. Segundo Fernandes (2003), a separação entre elas se dá mais precisamente pela delimitação do Rio São Francisco e não por barreiras geográficas como séries de serras. Segundo Carvalho e Júnior (2005), a província da Borborema é uma área típica deste bioma, com quatro grandes paisagens: Depressão Sertaneja Setentrional (21% da área da caatinga), Depressão Sertaneja Meridional (44% do bioma), Paisagem de relevos residuais (0,5%) e Maciços e serras baixas (4%). Araújo et al. (2005) compararam 117 levantamentos florísticos e fitossociológicos em diversas fisionomias de caatinga em quase todos os estados do Nordeste, e apontaram, de forma inequívoca, sua heterogeneidade florística, mostrando, entretanto, que sua flora, no sentido restrito, é bem diferente das demais formações vegetais do semi-árido brasileiro. Ressaltaram que há uma compreensão melhor da caatinga em escala local, porém, com grandes lacunas no conhecimento em macro-escala. Zanetti (1994), considerou que alterações na caatinga tiveram início com o processo de colonização do Brasil, inicialmente como conseqüência da pecuária bovina, associada a práticas agrícolas rudimentares. Ao longo do tempo, outras formas de uso da terra foram sendo adotadas, promovendo a diversificação da agropecuária e o aumento da extração de lenha para produção de carvão. A maior parte da cobertura vegetal está em processo de recuperação depois de um corte raso prévio, ou sofre pelos efeitos da pecuária (SAMPAIO, 1996). Casteletti et al. (2004), mostraram que os remanescentes da caatinga não se constituem um único e grande bloco, mas estão distribuídos em muitos fragmentos de diferentes tamanhos. 9 Para Almeida et al. (2005), a caatinga sofre de grande pressão devido ao desmatamento que, somado ao uso irracional da terra, vem causando a erosão dos solos. Na visão dos autores isto dificulta a sustentabilidade dos recursos vegetais, piorando a pobreza da região sob o ponto de vista da conservação de biodiversidade. Para Sampaio et al. (1996), com relação à utilização das áreas trabalhadas, geralmente não se pode fazer nenhuma separação clara dos efeitos antrópicos e naturais. Para Tabarelli e Vicente (2002), é preciso ampliar rapidamente o conhecimento sobre os organismos e comunidades, além de sua distribuição nos ambientes de caatinga, já que este é o terceiro bioma brasileiro mais alterado pelo homem e o menos conhecido da América do Sul. Segundo os autores, faz-se necessário ampliar a amostragem dos trabalhos realizados, tendo em vista que a baixa riqueza de espécies alegada para o bioma, muitas vezes, pode significar amostragem insuficiente. Ainda segundo esses autores, o nível de informação sobre a organização e formas de ocorrência de plantas lenhosas da caatinga é reduzido ou até inexistente para 80% do Bioma. Assim, informações sobre riqueza, endemismo, distribuição geográfica e ecológica de plantas lenhosas da caatinga existem apenas de forma preliminar (SAMPAIO; GAMARRA-ROJAS, 2003). De acordo com Leal et al. (2005), as principais ameaças à conservação da catinga devem-se: 1) a 15% da população do Brasil viver na caatinga, sendo esta uma população rural extremamente pobre e que pratica atividades como corte de madeira para lenha, e contínuos desmatamentos para criação de pastagens para bovinos e caprinos, intensificando a desertificação; 2) ao assoreamento dos rios; e 3) à utilização de técnicas de irrigação que aceleram ainda mais o desgaste do solo e a desertificação. O bioma apresenta 47 unidades de conservação, sendo apenas 11 delas de proteção integral (menos de 1%). É o menor número e a menor extensão — 4.956 Km² - protegida dentre todos os biomas do Brasil (VELOSO et al., 2002). Por ser insuficientemente conhecida, a caatinga permanece atualmente ainda fora do cenário nacional e internacional, em termos de prioridade de conservação da diversidade biológica. Para ampliar o conhecimento científico, é uma condição essencial o estabelecimento de políticas públicas de conservação do bioma (TABARELLI; VICENTE, 2002). 10 2.4. A Dimensão Sócio-ambiental da Caatinga Segundo Versentini (2000), a região semi-árida brasileira possui características próprias, com peculiaridades há muito tempo conhecidas, sendo a seca um problema natural que deve ser enfrentado de modo a buscar maneiras de convivência adaptadas às suas características. Para esta porção significativa do território nacional, mostra-se a carência, de alguns séculos, de políticas públicas eficientes e que tratem da questão das secas periódicas de maneira permanente, com a participação efetiva das pessoas que vivenciam sua realidade. De acordo com Sato e Santos (2003), dentro das perspectivas biorregionais, é necessário resgatar as histórias locais que determinam a cultura da comunidade. Seus mitos, valores e diversidade em rostos transformados pelo suor do trabalho diário, que são próprios de cada comunidade de intervenção. Segundo Andrade (1986), os processos de ocupação do Nordeste não ocorreram de forma passiva, pois os vários grupos indígenas que dominavam as caatingas do Sertão revoltaram-se contra a penetração do homem branco que trazia escravos, gado e agregados, tomando e se instalando nas ribeiras mais férteis e afugentando os índios para áreas mais secas. De acordo com este autor, a revolta denominada Guerra dos Bárbaros durou mais de trinta anos e resultou na ocupação, pela pecuária, dos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e quase toda a Paraíba. Este processo, originou uma população que sem comunicação com os centros urbanos retirava do próprio meio o máximo para atender suas necessidades. A ocupação territorial da Paraíba teve início pelo litoral com a implantação da cultura da cana-de-acúcar que forçou a ocupação do interior pela pecuária e agricultura de alimentos (BARBOSA, 2001). Para Andrade (1986), esta ocupação deu-se especialmente pela pecuária que crescia para conquistar novas terras, na medida em que a população aumentava e as terras férteis eram utilizadas para a agricultura. O sertão paraibano foi povoado a partir da segunda metade do século XVII, quando grupos populacionais seguiram as margens de alguns rios, saindo de três pontos diferentes nas chamadas ribeiras, citadas por Joffily (1977). A entrada que atingiu o Planalto da Borborema partiu do litoral margeando o rio Paraíba e atingiu as terras habitadas por índios cariris, sendo a região conhecida desde então, por Cariris Velhos. Iniciou-se ali o 11 primeiro núcleo de povoamento — o Arraial de Boqueirão — a partir de uma aldeia de cariris (PARAÍBA, 1999). Existem, na região Nordeste do Brasil, cerca de 181.000 km² de áreas com processos considerados graves e muito graves de degradação e o controle da desertificação que atinge o semi-árido, além da concretização das políticas de desenvolvimento sustentável para uma melhor qualidade de vida da população, são necessidades dessa região (PERNAMBUCO, 2003). Segundo o Relatório do Brasil para a conferência das Nações Unidas sobre Meio ambiente e Desenvolvimento (1991), vive no Nordeste brasileiro cerca de um terço da população do país. Isto corresponde a cerca de 51 milhões de habitantes (IBGE, 2006a). Para Ab’ Saber (1985), o semi-árido brasileiro é uma das regiões semi-áridas mais populosas entre todas as terras secas tropicais. A biodiversidade da caatinga é um dos importantes recursos disponíveis para a população regional, da qual se obtém vários produtos: alimentos, medicamentos, energia e matéria-prima para diversos fins (MENDES, 1997). De acordo com Drew (1986), como o alimento é uma necessidade básica do homem, as suas fontes diretas, as plantas e os animais foram submetidos a maior grau de controle humano do que qualquer outro aspecto do ambiente natural. Segundo este autor, as alterações mais profundas na vegetação são aquelas que envolvem a agricultura intensiva e a pecuária que degradam grandes áreas e reduzem a diversidade das espécies e a biomassa, encaminhando a vegetação para um tipo árido. Mudanças irreversíveis, segundo o mesmo autor, ocorrem quando o solo também é alterado, seja pela própria erosão ou, principalmente, pela entrada de energia externa como fertilizantes artificiais, praguicidas, herbicidas ou irrigação e, até, por compactação deste por pisoteio intenso de herbívoros na pecuária. Uma visão poética, mas dramática da caatinga, é retratada por Euclides da Cunha em os Sertões, quando diz: a caatinga afoga; abrevia-lhe o olhar; agride-o e estonteia-o; enlaça-o na trama espinescente e não o atrai, repulsa – o com as folhas urticantes, com espinhos e com gravetos estalados em lanças e desdobra-se-lhe na frente em léguas e léguas, imutável no aspecto desolado: árvores sem folhas, de galhos estorcidos e secos, revoltos, entrecruzados, apontando 12 rijamente no espaço ou estirando-se flexuosos pelo solo, lembrando um bracejar imenso, de tortura, da flora agonizante....(CUNHA,2002, p. 35). Segundo Sato (1997), a mídia tem contribuído para a formação de (pré)conceitos sobre as questões relativas ao ambiente, ou por falta de informações adequadas, ou por parecem ser provocadas para prejudicar a imagem dos valores ambientais. De acordo com Mendes (1997), a caatinga guarda um grande número de plantas e animais que vêm sendo utilizados pelo homem desde antes da colonização. A população do semi-árido utiliza muitas plantas nativas produtoras de óleo, cera, borracha, resina, forragem, madeira, tanino, fármacos, cosméticos, perfumes, fibras e frutos. Para esse autor, destacam-se a cera e o chapéu de palha da carnaúba (Copernicia prunifera), o óleo de oiticica (Licania rigida), a borracha de maniçoba (Manihot glaziovvi), a fibra de algodão mocó (Gossypium hirsutum – var. Marié Galante), a fibra caroá (Neoglasiovia variegata), a castanha de caju (Anacardium occidentali) e o fruto do umbuzeiro (Spondias tuberosa) que recebeu o codinome de “árvore sagrada do sertão” por Euclides da Cunha. Dentre as frutíferas nativas da caatinga, destacam-se o umbuzeiro, cajueiro, quixabeira, mandacaru, joazeiro, uvaia, trapiá, marizeiro, ameixeira e pitombeira. Dentre as forrageiras arbustivas e arbóreas destacam-se a canafístula, joazeiro, mororó, jucazeiro, catingueira, sabiá, jurema-preta, jurema-branca, catanduva e turco, que são utilizadas como o único pasto disponível para gado, na época da estiagem (MENDES, 1997). Existem diversas plantas da caatinga que são usadas com fins medicinais: a faveleira, a jurema-preta, a aroeira, o angico, a baraúna, o marmeleiro, o mofumbo, a catingueira, a umburana, o joazeiro, o mororó e o pereiro, são algumas utilizadas para inflamações simples, cicatrização de ferimentos e contusões e, até, para o tratamento de doenças como tuberculose, infecções pulmonares, intestinais e diabetes (PEREIRA, 2005). Segundo Barbosa (2001), da vegetação da caatinga retira-se madeira para lenha, produção de carvão, estacas, mourões, tanino, forragem e outros recursos. Esta retirada, para a autora, é preocupante, já que não é realizada apenas para abastecimento e subsistência. A constante pressão sobre a caatinga, inclusive com sua retirada para implantação de outras atividades produtivas, gera a necessidade de elaboração de planejamento para o uso racional da vegetação, o que se consolidou com a adoção do 13 Plano Nacional de Manejo Florestal Sustentado da Caatinga (IBAMA, Instrução Normativa nº 1, de 06 de Outubro de 1998). Segundo Silva et al. (1998) e Soares et al. (1999), a dependência da população e de alguns setores da economia nordestina - como pólos cerâmicos e indústrias de cal – da lenha como fonte de energia corresponde a um valor entre 30% e 50% da energia primária. A lenha e o carvão vegetal representam 60% de toda a energia utilizada para cozinhar alimentos no Nordeste (TEXEIRA, 2002). 2.5. A Caatinga na Paraíba e no Seridó Paraibano A área de domínio da caatinga corresponde a cerca de 80% do território paraibano, distribuindo-se, porém, de maneira diferenciada em relação à fisionomia e à flora (BARBOSA et al, 2003). Todavia, a cobertura vegetal remanescente é pouco mais de 30% da vegetação original (PNUD/FAO/IBAMA/PARAIBA,1994; CAMPANILI 2001, MARTINS et al. 2004). A Paraíba, de acordo com Candido, Barbosa e Silva (2002), é o estado brasileiro que possui o maior percentual de áreas com nível muito grave de desertificação, correspondendo a cerca de 70% do território paraibano. Estudos sistemáticos sobre a flora da caatinga na Paraíba iniciaram–se na década de 90 com o trabalho de Moura e Barbosa, que registrou 56 famílias e 271 espécies para a caatinga paraibana (BARBOSA et al., 2003). No entanto, os primeiros estudos fitossociológicos na Paraíba ocorreram na década de 70, com Tavares et al. (1975) e Hayaishi e Numata (1976). Sampaio et al. (1996), apesar de considerarem que nenhum parâmetro fitossociológico isolado forma uma idéia ecológica clara das comunidades e populações vegetais, ressaltam que, em conjunto, estes são uma importante ferramenta para caracterizar o desenvolvimento das comunidades e suas populações. O Seridó localiza-se na Depressão Sertaneja Setentrional, sendo semelhante ao resto da Depressão quanto ao relevo subondulado com elevações residuais. A Depressão Sertaneja Setentrional, segundo Sampaio e Gamarra-Rojas (2003), é ocupada por caatinga típica do cristalino, evidenciando aspectos particulares na zona empobrecida do Seridó. 14 Os solos da região são bem característicos, geralmente pedregosos, tendendo a ser mais rasos, com alta fertilidade natural e grande potencial mineral. Predominam os brunos não cálcicos, ocorrendo também planossolos e solos podzólicos e litólicos. A altitude pode variar de 100 a 400m, com elevações chegando a 700m (VELOSO et al., 2002). A Depressão Sertaneja Setentrional é a mais ameaçada em termos de conservação das espécies, principalmente por causa da antropização e do número reduzido de unidades de conservação (VELOSO et al., 2002). Segundo Duque (1964), a Região Natural do Seridó do Nordeste cobre uma superfície de 33.669, 250 km², distribuídos entre os Estados do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. O Seridó Paraibano, é integrado por duas Microrregiões Geográficas: Seridó Ocidental e Seridó Oriental, abrangendo uma superfície territorial de 4.347,155 km², integrada por 15 municípios e possuindo uma população de 108.055 habitantes (IBGE, 2006a). De acordo com Leite et al. (2000), o Seridó paraibano partilha características peculiares com o Seridó do Rio Grande do Norte, porque seus processos de evolução histórica estão muito próximos, o que não ocorreu com o Seridó cearense, cujas semelhanças restringiram-se aos aspectos físicos, notabilizadas por inselbergs, como o da Pedra da “Galinha-Choca”, no município de Quixadá, Ceará. De acordo com Luetzelburg (1922 – 1923), não é possível precisar de onde deriva a denominação “Seridó”, porém afirma que é originária dos nativos da Paraíba, onde as denominações terminadas com “ó” são comuns. A origem indígena da palavra também é sugerida por Puntoni (1998), em estudo sobre a chamada “guerra de Açu ou dos bárbaros”, revolta de índios tapuias, na sua grande maioria pertencentes à nação dos janduís, que travaram grandes lutas nas áreas às margens do rio Açu e da ribeira chamada Seridó. A região seridoense se caracteriza pela vegetação baixa, de cactos espinhentos e agressivos, agarrados ao solo, de arbustos espaçados, com capins de permeio e manchas desnudas, em terra procedente do Arqueano, muito erodida e áspera; os seixos rolados existem por toda a parte e as massas de granito redondo sobressaem, aqui e ali, demonstrando como a erosão lenta, através dos séculos, deixa vestígios ciclópicos.” (DUQUE, 1964, p. 61) 15 A caatinga do Seridó está classificada na unidade IV proposta por Andrade-Lima (1981), com quatro associações de porte baixo, baixa densidade e pobre em espécies arbustivo-arbóreas. É uma vegetação baixa e esparsa com graves riscos de erosão e desertificação reforçadas pela retirada de lenha (RODAL; SAMPAIO, 2002). Segundo Barbosa et al. (2003), atualmente, no Seridó, a caatinga constitui-se praticamente de um estrato herbáceo com árvores isoladas e cactáceas em touceiras esparsas. Nos tempos atuais, a caatinga arbórea é rara, esparsa e fragmentada (PRADO, 2003). Interferências antrópicas têm favorecido a expansão do estrato arbustivo em detrimento do arbóreo, que diminui gradualmente. A redução da cobertura vegetal é uma realidade que também tem sido constatada pelos pesquisadores em outras áreas do bioma caatinga (RODAL; ARAÚJO; BARBOSA, 2005). No Seridó paraibano, atividades que degradam a vegetação nativa, como a agricultura, pecuária, indústrias cerâmicas, caieiras, além do corte raso para produção de lenha e carvão, são fatores que colocaram a área entre aquelas com nível de desertificação muito grave. Grande parte dos municípios do Seridó sobrevive da mineração, atividade esta que está intimamente ligada ao corte da vegetação nativa, que fornece matéria prima para aquecimento dos fornos das indústrias de cal. Nos municípios de Junco do Seridó e Tenório, a extração e decantação de caulim são atividades econômicas importantes, que requerem um grande potencial energético retirado da caatinga (CANDIDO; BARBOSA; SILVA , 2002). 16 3. METODOLOGIA 3.1 Caracterização Geral da Área de Estudo O município de Tenório está localizado na Mesorregião da Borborema, Microrregião do Seridó Oriental Paraibano (Figura 1), a cerca de 228 Km da capital João Pessoa, a 6º56’44’’ de latitude Sul e 36º38’11’’ de longitude Oeste. Possui área territorial de 105,27 Km², limitando-se ao norte com Equador/RN, ao sul com Juazeirinho/PB, a oeste com Junco do Seridó/PB e Assunção/PB e a leste novamente com Juazeirinho. O município, considerado uma das regiões mais secas de todo o Nordeste do Brasil, possui aproximadamente 3000 habitantes (IBGE, 2006a). Figura 1: Localização do Estado da Paraíba com destaque para a Microrregião do Seridó Oriental Paraibano. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Paraiba_Micro_SeridoOrientalParaibano.svg O acesso ao município de Tenório, a partir de João Pessoa, é feito através da rodovia federal BR-230, no sentido leste-oeste, até Juazeirinho. A partir de Juazeirinho, 17 através de rodovia de terra, em trecho de 15km, chega-se à sede-comarca do município (Figura 2). Figura 2: Mapa cartográfico de Tenório /PB. Fonte: Adaptado de IBGE (2006) O clima local é do tipo semi-árido quente com chuvas de verão (BSh), apresentando um bioclima do tipo 2b, com 9 a 11 meses secos, denominado de subdesértico quente de tendência tropical. A precipitação pluviométrica oscila entre 400 e 600 mm/ano, com 2800 horas de insolação, temperatura média anual de 27 ºC e 18 nebulosidade de 5 a 6/10 de céu encoberto. O tipo de solo predominante é o Nitossolo e Litossolo. Do ponto de vista geológico, é formado de estrutura do tipo cristalino da era Proterozóica com unidade geomorfológica denominada de Superfície da Borborema, com altitude variando entre 400 e 600 m (ATLAS GEOGRÁFICO DA PARAÍBA, 1985). As maiores altitudes ocorrem na porção oeste do município, como na serra de Teresópolis, onde a declividade é de média a elevada. Predomina o relevo com declividade média a baixa cujas cotas apresentam valores mínimos de 490 metros e aparecem no extremo norte, na confluência do rio Barraco com o limite do município (MASCARENHAS et al., 2005). A vegetação no município é a caatinga bastante heterogênea que, de acordo com Rizzini (1979), caracteriza-se pela presença de árvores, arvoretas e arbustos decíduos, freqüentemente armados de espinhos, e pela presença de cactáceas e bromeliáceas. A lenha oriunda da vegetação é utilizada diretamente para o abastecimento doméstico e para a produção de carvão, além de ser comercializada. O município possui grande riqueza mineral. A exploração de rochas graníticas, quartzitos, caulim, etc., gera emprego para a população e renda para o município (IBGE, 2006b). O setor primário da economia de Tenório sofre inúmeras dificuldades decorrentes de seu clima semi-árido. A agricultura e a pecuária são atividades de subsistência, desenvolvendo-se ainda por meio de técnicas ultrapassadas e instrumentos rudimentares de trabalho. 3.2. Seleção e Caracterização dos Remanescentes Realizou-se, numa primeira fase, o reconhecimento do local e entrevistas informais com os moradores, a fim de escolher as áreas com melhores níveis de conservação e idades de corte almejadas pelo trabalho. Foram escolhidas cinco áreas – quatro no Sítio Várzea do Cariri e uma no Sítio Bandarra - selecionadas pelo tempo em que ocorreu o corte raso da vegetação nativa e o nível de conservação. Foram selecionadas duas áreas que não sofreram corte raso, uma em 19 cada sítio, consideradas as mais conservadas. Outras três áreas, todas estas no Sitio Várzea do Cariri, cortadas há 2, 10 e 20 anos respectivamente, foram também escolhidas. 3.2.1. Sítio Várzea do Cariri O Sítio Várzea do Cariri, situado no município de Tenório, localiza-se a 06º58´15,5’’ S e 36º38´21,1” W, com altitude média de 625 m. De acordo com depoimentos de moradores, proprietários de terras e de informações, não publicadas, da Secretaria de Administração do município, a antiga área chamada Várzea do Cariri tinha cerca de 600 hectares. Com o passar do tempo, esta foi ganhando outros nomes, de acordo com a mudança de proprietários. Hoje tem aproximadamente 150 hectares, distribuídos entre quatro proprietários que utilizam os recursos da área de maneiras semelhantes. O sítio Várzea do Cariri, foco do atual trabalho, tem cerca de 75 hectares e um histórico de uso que data do final do século XIX, quando a família de José Francisco dos Santos e dona Teodora instalou-se na região. O uso da área foi, desde então, para agricultura, pecuária e mineração. O cultivo do milho, feijão, mandioca e palma é ainda hoje realizado. Até a década de 80, a produção de farinha de mandioca era muito intensa, mas hoje é uma atividade não mais praticada, sendo a produção de mandioca repassada para outras instalações de beneficiamento, chamadas popularmente de “casa de farinha”. A pecuária foi e ainda é realizada de maneira extensiva, com os bovinos soltos na propriedade, utilizando-se do potencial forrageiro, no período mais úmido de maneira intensa e, no período seco, confinados em currais. Os caprinos geralmente permanecem soltos, seja no período chuvoso ou seco. O extrativismo mineral atualmente é pouco praticado, porém observa-se a presença de grandes crateras deixadas por minas abandonadas que favorecem a erosão em determinados pontos da área. Há, também, uma pequena usina de beneficiamento de caulim, que utiliza muito mais o trabalho artesanal do que o de máquinas e, em seus fornos, usa lenha da vegetação nativa. 20 A área de estudo apresenta um mosaico de vegetação de caatinga em diferentes estádios de regeneração, intercalada com plantios agrícolas, com algumas poucas áreas remanescentes, consideradas conservadas por não terem sofrido corte raso de sua cobertura vegetal. Em alguns locais é praticado corte seletivo de lenha e outros estão em pousio — tempo de repouso após o corte raso (brocagem). A seleção das áreas para este estudo teve como critérios o tempo de pousio e o grau de conservação, no caso do remanescente selecionado por não ter sofrido corte raso. 3.2.2. Sítio Bandarra O sítio Bandarra localiza-se a 07°02’03” S e 37º38’30” W, com altitude de 526m. Possui 445 hectares, divididos entre sete proprietários da mesma família. O uso da área é semelhante ao anteriormente especificado, sendo que nesta a presença mais marcante é a do gado bovino em detrimento do caprino. A data de ocupação é também do final do século XIX. Esta área também se apresenta como um mosaico semelhante ao já descrito para Várzea do Cariri, porém suas áreas remanescentes aparentemente estão em um melhor grau de conservação, a julgar pelo porte da vegetação. 3.3. Procedimentos Metodológicos 3.3.1. Levantamento Florístico Realizaram-se coletas aleatórias entre os meses de janeiro e agosto de 2006. Foi coletado todo o material botânico fértil encontrado nas áreas de estudo, sem preocupação com o critério de inclusão fitossociológico, posteriormente utilizado no atual trabalho. Todas as amostras coletadas foram numeradas, prensadas e secas em uma estufa de lâmpada, por cerca de três a cinco dias. Depois de secas e etiquetadas, estas foram 21 depositadas no Herbário Lauro Xavier (JPB) da UFPB. A identificação do material foi realizada por comparação com o acervo do Herbário JPB e com o auxílio dos especialistas Maria Regina de V. Barbosa, Itamar Barbosa de Lima (identificação das espécies de Leguminosae) e Maria de Fátima Agra (identificação das espécies de Solanaceae). 3.3.2. Levantamento fitossociológico O Levantamento fitossociológico foi realizado entre os meses de março e agosto de 2006, tendo-se adotado o método de parcelas (MUELLER-DUMBOIS; ELLENBERG, 1974). As cinco áreas foram demarcadas com 25 parcelas cada, sendo quatro áreas demarcadas com parcelas contínuas, formando um quadrado (Figura 3) e, uma, com parcelas obedecendo o formato irregular do remanescente (Figura 4), como recomenda Rodal et al. (1992), já que havia em seu interior uma grande área de solo descoberto que, segundo os moradores da região, nunca teve cobertura vegetal. Foram delimitadas no total 125 parcelas, com dimensões de 10 X 10m (100 m²), tamanho freqüentemente usado nos levantamentos fitossociológicos (RODRIGUES, 1991), totalizando 1,2 hectares. Estas foram instaladas de forma semipermanente. 50m F E 50m D C B A Figura 3: Esquema de demarcação de parcelas contínuas. 22 1A 1B 1C 1D 1E 2A 1A 1A 2B 1B 1B 2C 1C 1C 2D 1D 1D 2E 1E 1E 2F 1F 3F 2G 3G 4F 5F 6F 4G 5G 6G 7F 8F 9F 10F 11F 12F 13F 14F 15F 16F 17F 7G 8G 9G 10G 11G 12G 13G 14G 15G 16G 17G Figura 4: Esquema de demarcação de parcela irregular. Foram considerados todos os indivíduos vivos com altura ≥ 1m e circunferência do caule na base (CAB) ≥ 9cm. Estes tiveram medidos CAB, posteriormente convertido em diâmetro e altura total. Os parâmetros fitossociológicos considerados foram: Densidades Absoluta e Relativa (DA e DR), Freqüências Absoluta e Relativa (FA e FR), Dominâncias Absoluta e Relativa (DoA e DoR), Valor de Importância e Valor de Cobertura (IVI e IVC), além de alturas, área basal e diâmetros médios. Estes foram calculados através do Programa FITOPAC 2 (SHEPHERD, 2006), de acordo com as seguintes fórmulas: 9 Densidade absoluta (DA) DA= ni.U/A Onde: ni = nº de indivíduos da espécie i, A = Área total amostrada em m², U = Unidade amostral (ha=10.000m²). 23 9 Densidade Relativa (DR) DRi = ni/N. 100 Onde: ni = nº de indivíduos da espécie i, N = n° total de indivíduos. 9 Freqüência Absoluta (FA) FA = Pi/P . 100 Onde: Pi = nº de parcelas que a espécie ocorreu, P = n° total de parcelas. 9 Freqüência Relativa (FR) FRi = FAi/FAT . 100 Onde: FAi = Freqüência absoluta da espécie, Fat = Freqüência absoluta total ( ΣFAi). 9 Dominância Absoluta (DoA) DoA = ΣAbi. U/A Onde: Abi = Área basal de individuos da espécie i, A = Área total amostrada em m², U = Unidade amostral (ha=10.000m²) 24 9 Dominância Relativa (DoR) DoR = ΣAbi/ABT . 100 Onde: ΣAbi = Soma das áreas basais dos indivíduos da espécie i, ABT = Soma das áreas basais de todas as espécies amostradas. 9 Valor de importância (VI) VI = DRi + DoRi + FRi Onde: DRi = Densidade relativa da espécie i, DoRi = Dominância relativa da espécie i, FRi = Freqüência relativa da espécie i. 9 Valor de Cobertura (VC) VCi = DRi + DoRi Onde: Dri = Densidade relativa da espécie i, DoRi = Dominância relativa da espécie i. 9 Índice de Diversidade de Shannon-Weaver (H’) H’ = Σ Pi ln (Pi) Onde: Pi = ni/N em que ni é o nº de indivíduos da espécie i e N é o nº total de indivíduos, Ln = Logaritmo neperiano. 25 3.3.3. Levantamento Sócio-ambiental Para esta vertente do trabalho, foi escolhida uma metodologia qualitativa baseada na proposta de Rey (2005), que permite que o pesquisador crie seu panorama de pesquisa de forma a qualificar e quantificar os dados enquanto interage com os agentes pesquisados, podendo-se redefinir estratégias ao longo do processo. O levantamento sócio-ambiental iniciou-se com visitas a famílias de agricultores do município de Tenório, preferencialmente residentes na zona rural e que trabalharam ou ainda trabalham com o corte de vegetação nativa. Houve ainda a participação em 2 reuniões do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, para vivenciar as preocupações dos atores sociais envolvidos na pesquisa. Realizaram-se 102 entrevistas, através de questionários semi-estruturados e conversas informais com moradores e agricultores da região, almejando investigar o histórico de uso das áreas de estudo, a percepção que estes possuem da caatinga, as possíveis causas geradoras de degradação da vegetação e os diferentes níveis de interferência que acarretam. As entrevistas e conversas informais foram realizadas com o uso de um minigravador digital, e os questionários semi-estruturados foram analisados segundo a tipologia de Sauvé (1997) e o método da triangulação proposta por Sato (1997), e Thiollent (1998). 26 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1. Flora Arbustivo-arbórea em Remanescentes de Caatinga no Município de Tenório, Seridó Oriental Paraibano. A flora arbustivo/arbórea de Tenório, representada pelos remanescentes presentes nos sítios Várzea do Cariri e Bandarra, apresentou um total de 83 espécies de 23 famílias (Tabela 1). Do total das espécies amostradas, 51 foram identificadas até espécie (61,4%), 18 até gênero (21,7%) e oito somente até família (9,6%) e seis espécies ficaram indeterminadas (7,2%) devido à falta de material fértil. As coletas aleatórias resultaram em 53 espécies e 17 famílias (Tabela 1). Nas parcelas, foram coletadas 59 espécies de 18 famílias; 30 destas espécies não foram representadas na amostragem aleatória. Houve 29 espécies que foram encontradas nos dois tipos de coleta (Figura 5). Coletas Parcelas Coletas aleatórias 24 53 29 30 59 Figura 5: Esquema de sobreposição de espécies, com intersecção entre métodos de coleta. Do total de 83 espécies levantadas, 24 foram encontradas exclusivamente nas coletas aleatórias e 30 dentro das parcelas, o que representa um percentual de 65% da lista florística obtida. Isto revela que somente o levantamento feito pelo método de parcelas não seria suficiente para representar a diversidade florística local, já que deixaria de levantar 29% das espécies encontradas. 27 TABELA 1. Espécies coletadas aleatoriamente e em parcelas nos Sítios Várzea do Cariri e Bandarra, Tenório – PB. Família Acanthaceae Amaranthaceae Anacardiaceae Anacardiaceae Anacardiaceae Apocynaceae Apocynaceae Apocynaceae Asteraceae Bignoniaceae Boraginaceae Boraginaceae Boraginaceae Burseraceae Cactaceae Cactaceae Cactaceae Capparaceae Capparaceae Combretaceae Combretaceae Combretaceae Erythroxylaceae Erythroxylaceae Euphorbiaceae Euphorbiaceae Euphorbiaceae Euphorbiaceae Euphorbiaceae Euphorbiaceae Euphorbiaceae Euphorbiaceae Leg. Caesalpinioideae Leg. Caesalpinioideae Leg. Caesalpinioideae Leg. Caesalpinioideae Leg. Caesalpinioideae Leg. Caesalpinioideae Leg. Caesalpinioideae Espécie Nome vulgar Coleta aleatória Aphelandra sp. Alternanthera brasiliana (L.) Kuntze Myracrodruon urundeuva Allemão Schinopsis brasiliensis Engl. Spondias tuberosa Arruda Allamanda blanchetii A.DC. Aspidosperma pyrifolium Mart. Aspidosperma sp. Wedelia villosa Gardner Tabebuia caraiba (Mart.) Bureau Cordia globosa (Jacq.) Kunth Cordia leucocephala Moric. Cordia multispicata Cham. Commiphora leptophloeos (Mart.) J.B. Gillett Cereus jamacaru DC. Opuntia palmadora Britton & Rose Pilosocereus pachycladus F.Ritter Capparis flexuosa (L.) L. Capparis yco Mart. Combretum leprosum Mart. Combretum sp. Thiloa sp. Erythroxylum caatingae Plowman Erythroxylum nummularia Peyr. Cnidoscolus sp. Croton moritibensis Baill. Croton sonderianus Müll. Arg. Croton sp1 Croton sp2 Jatropha mollissima (Pohl) Baill. Manihot glaziovii Müll. Arg. Sapium glandulatum (Vell.) Pax Bauhinia cheilantha (Bong.) Steud. — — X mandacaru palmatória facheiro feijão bravo icó mofumbo — sipaúba umbuzeiro-bravo umbuzeiro-bravo favela velame marmeleiro marmeleiro quebra-faca pinhão maniçoba leitosa mororó Caesalpinia ferrea Mart. aroeira baraúna umbuzeiro pente-de-macaco pereiro pereiro preto bem-querer craibeira — maria-preta — umburana Coleta em parcelas X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X jucá / pau-ferro X X Caesalpinia pyramidalis Tul. catingueira X X Peltogyne pauciflora Benth. coração-de-nêgo X X Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby Senna macranthera var. pudibunda (Mart. ex Benth.) H.S. Irwin & Barneby Senna martiana (Benth.) H.S. Irwin & Barneby canafístula-preta X X flor de São João X X canafístula X X 28 Leg. Caesalpinioideae Leg. Caesalpinioideae Leg. Faboideae Leg. Faboideae Leg. Faboideae Leg. Faboideae Leg. Faboideae Leg. Faboideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leguminosae sp1 copaíba X Leguminosae sp2 mata-pasto X Amburana cearensis (Allemão) A.C. Sm. Bowdichia virgilioides Kunth Dioclea grandiflora Mart. ex Benth. Dioclea sp. Leguminosae sp3 Leguminosae sp4 Anadenanthera colubrina (Vell.) Brenan Chloroleucon sp. Mimosa invisa Mart. ex Colla Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth. Mimosa paraibana Barneby Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. Mimosa sp1 Mimosa sp2 Mimosa sp3 cumaru X sucupira mucumã fava de boi branhona X Malvaceae Nyctaginaceae Plumbaginaceae Rhamnaceae Rubiaceae Mimosa sp4 Piptadenia moniliformis Benth. Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke Leguminosae sp5 Leguminosae sp6 Helicteres guazumifolia Kunth Helicteres cf mollis K. Schum. Helicteres sp. Pseudobombax marginatum (A. St.Hil., Juss. & Cambess.) A. Robyns Malvaceae 1 Nyctaginaceae 1 Plumbago scandens L. Ziziphus joazeiro Mart. Alibertia sp. Sapindaceae Solanaceae Solanaceae Verbenaceae Verbenaceae Verbenaceae Vitaceae Indeterminada Indeterminada Indeterminada Indeterminada Indeterminada Indeterminada 23 Allophylus sp. Solanum auriculatum Ailton Solanum baturitense Huber Lantana camara L. Lippia gracilis Schauer Vitex sp. Cissus sp. Indeterminada 1 Indeterminada 2 Indeterminada 3 Indeterminada 4 Indeterminada 5 Indeterminada 6 83 Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Malvaceae Malvaceae Malvaceae Malvaceae X X X angico X X X X — jurema-malícia jurema-branca X X X X X — malícia jurema-preta jurema-de-carrasco jurema-unha-de-gato jurema-malícia/ unha de gato — catanduba jurema malícia-da-serra espinheiro jurema (malícia-de-boi) guaxuma guaxuma guaxuma imbiratã — joão-mole/ murici — joazeiro canela-de-veado /cafezinho buji jurubeba roxa jurubeba branca cidreira-do-mato alecrim-da-serra — cabeça-de-nêgo — — — — — — 83 X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X 53 X X X X X X X X X 59 29 Constatou-se que em ambos os métodos de coleta adotados, encontrou-se praticamente a mesma quantidade de espécies e famílias botânicas. As espécies comuns encontradas nos dois métodos estão destacadas no Quadro 1. Estas representam 35% do total de espécies levantadas. As famílias Leguminosae, com 14 espécies, e Euphorbiaceae, representada por três espécies, compreendem 59% das espécie em comum, sendo que Leguminosae representa, sozinha, 48%. QUADRO 1. Espécies comuns encontradas nos dois métodos de coleta adotados. Família Espécie Nome vulgar Anacardiaceae Anacardiaceae Apocynaceae Boraginaceae Capparaceae Capparaceae Combretaceae Erythroxylaceae Euphorbiaceae Euphorbiaceae Euphorbiaceae Leg. Caesalpinioideae Leg. Caesalpinioideae Leg. Caesalpinioideae Leg. Caesalpinioideae Leg. Faboideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Myracrodruon urundeuva Allemão Schinopsis brasiliensis Engl. Aspidosperma pyrifolium Mart. Cordia leucocephala Moric. Capparis flexuosa (L.) L. Capparis yco Mart. Combretum leprosum Mart. Erythroxylum caatingae Plowman Croton moritibensis Baill. Croton sonderianus Müll. Arg. Manihot glaziovii Müll. Arg. Caesalpinia ferrea Mart. Caesalpinia pyramidalis Tul. Peltogyne pauciflora Benth. Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby Senna macranthera var. pudibunda (Mart. ex Benth.) H.S. Irwin & Barneby Senna martiana (Benth.) H.S. Irwin & Barneby Amburana cearensis (Allemão) A.C. Sm. Anadenanthera colubrina (Vell.) Brenan Mimosa invisa Mart. ex Colla Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth. Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. Mimosa sp2 Piptadenia moniliformis Benth. Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke Malvaceae Nyctaginaceae Rubiaceae Verbenaceae Helicteres guazumifolia Kunth Nyctaginaceae 1 Alibertia sp. Lippia gracilis Schauer Leg. Caesalpinioideae Leg. Caesalpinioideae aroeira baraúna pereiro maria-preta feijão bravo icó mofumbo umbuzeiro-brabo velame marmeleiro maniçoba jucá / pau-ferro catingueira coração-de-nêgo canafístula-preta flor de São João canafístula cumaru angico jurema-malícia jurema-branca jurema-preta jurema-unha-de-gato catanduba jurema malícia-daserra guaxuma joão-mole/ murici canela-de veado alecrim-da-serra Tanto nas parcelas quanto nas coletas aleatórias, as famílias mais diversas foram Leguminosae e Euphorbiaceae (Figuras 6 e 7), o que coincide com os resultados de 30 diversos levantamentos florísticos já realizados em outras áreas da caatinga (GOMES, 1979; FERREIRA; VALE, 1992; ARAÚJO; SAMPAIO; RODAL, 1995; RODAL et al., 1998; CORRÊA; COSTA et al., 2001; CANDIDO; BARBOSA; SILVA, 2002; LEMOS; RODAL 2002; ANDRADE et al., 2005, SANTANA; SOUTO, 2006). 5% 5% 29% 12% 12% 10% 7% 5% 15% Cactaceae Combretaceae Euphorbiaceae Leg.Caesalpinioideae Leg. Faboideae Leg. Mimosoideae Malvaceae Não identificadas Outras famílias Figura 6: Famílias mais diversas nas coletas em parcelas. 6% 6% 6% 28% 8% 6% 17% 23% Anacardiaceae Apocynaceae Boraginaceae Euphorbiaceae Leg. Caesalpinioideae Leg. Mimosoideae Malvaceae Outras famílias Figura 7: Famílias mais diversas nas coletas aleatórias. 31 Alguns poucos trabalhos foram realizados abordando a vegetação no Seridó Paraibano (CORRÊA; COSTA et al., 2001; CANDIDO; BARBOSA; SILVA, 2002), entretanto, não tiveram cunho florístico. Dessa forma, comparou-se os resultados obtidos neste trabalho com alguns levantamentos realizados em outras regiões da Paraíba e em outros estados vizinhos. Gomes (1979), no Cariri Paraibano, encontrou 40 espécies de 16 famílias, sendo as famílias mais diversas Leguminosae, Cactaceae, Euphorbiaceae, Anacardiaceae, Apocynaceae, Bombacaceae e Bromeliaceae. Também no Cariri Paraibano, Lira (1979) registrou 32 espécies de 12 famílias, sendo Leguminosae, Cactaceae e Euphorbiaceae as famílias mais representativas. Gadelha Neto e Barbosa (2000) encontraram no município de Souza, alto Sertão, 87 espécies de 40 famílias (Figura 8). Mais recentemente, Lima (2004), em um levantamento florístico realizado na fazenda Almas, município de São José dos Cordeiros, Cariri Paraibano, encontrou 195 espécies, das quais cerca de 80 apresentavam hábito arbustivo/arbóreo. 200 180 160 140 120 100 80 60 40 20 0 Espécies Famílias Li m A G RN Sa m om Lir ra nt a ú or ( an 19 es jo Tr lh ( im 1 20 a a a 9 9 e ( b 1 2) ta e 79 Ne et 04 al 9 S 7 l ) al ho ) to ou 9) (1 (2 to 99 (2 00 00 ( 5) 2 5) 0) 00 6) G a( ad e Es te A Figura 8: Número de espécies e famílias encontradas em diversos trabalhos realizados no semiárido da Paraíba e alguns estados do Nordeste. 32 O estudo de Lima (2004) destaca-se por ter sido realizado dentro da maior RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) de caatinga do Estado, tratando-se, portanto, de uma área bem preservada, como cita o próprio autor ao destacar o nível de preservação e dificuldade de acesso à área. Isto explica a diversidade relativamente maior se comparada ao estudo aqui apresentado, já que este foi feito principalmente em áreas de sucessão secundária e, mesmo nas áreas consideradas conservadas, o grau de conservação, não é o mesmo da RPPN, já que se prestam também ao pastoreio de caprinos e bovinos. Ferreira e Vale (1992), em levantamento feito na Estação Florestal de Experimentação (EFLEX) do Ibama em Açu, no Seridó do Rio Grande do Norte, levantaram 21 espécies de 12 famílias, das quais Leguminosae (subfamílias Caesalpinioideae e Mimosoideae) foi a mais diversa. Mais recentemente, Amorim et al. (2005) e Santana e Souto (2006), na Estação Ecológica do Seridó, em Serra Negra, outra área do Seridó rio-grandense, levantaram 15 espécies e 10 famílias e 22 espécies e 12 famílias respectivamente. Nos dois trabalhos, as famílias mais diversas foram Leguminosae subfamílias Caesalpinioideae e Mimosoideae, Euphorbiaceae, e Apocynaceae. Estas mesmas famílias foram também as mais diversas nos estudos de Pereira et al. (2002) e Andrade et al. (2005), no Agreste e Cariri Paraibanos, respectivamente e, no trabalho de Alcoforado-Filho et al. (2003), no Agreste de Pernambuco. Comparando-se os resultados do atual trabalho com aqueles obtidos por Amorim et al. (2005) e Santana e Souto (2006), verifica-se que 13 espécies foram comuns aos três estudos, o que significa que 87% e 59%, respectivamente, das espécies encontradas nos dois trabalhos realizados no Seridó do Rio Grande do Norte, estavam presentes também no Seridó Paraibano. Considerando-se os gêneros, verifica-se que o percentual de semelhança corresponde a, respectivamente, 93% e 91%. Os gêneros não representados foram apenas Pithecellobium, citado por Amorim et al. (2005), e Macfadyena e Cassia por Santana e Souto (2006). Quatro espécies foram comuns aos cinco últimos trabalhos supracitados e ao atual: Commiphora leptophloeos (Mart.) J.B. Gillett, Capparis flexuosa (L.) L., Croton sonderianus Müll. Arg. e Caesalpinia pyramidalis Tul. 33 4.2. Diversidade Florística e Estrutura Fitossociológica do Estrato Arbustivo-arbóreo em dois Remanescentes de Caatinga, Conservados há mais de Vinte Anos, no Município de Tenório, PB. Os dois fragmentos localizam-se em trechos não desmatados de duas propriedades rurais. O primeiro, AC – V, no Sítio Várzea do Cariri, está rodeado por áreas desmatadas em tempos diversos (Figura 9); o segundo, AC – B, no sítio Bandarra, está inserido em solo sedimentar, próximo a reservatórios de água e é cortado por um córrego temporário (Figura 10). A flora arbustivo-arbórea amostrada nos dois fragmentos está representada por 15 famílias e 49 espécies (Tabela 2). No total foram registrados 2.098 indivíduos, sendo 883 em AC-V e 1.215 em AC-B. Figura 9: Vista geral da área Conservada no Sítio Várzea do Cariri. Foto: Ana Nery Batista Aurino, 2006. Figura 10: Vista geral da área Conservada no Sítio Bandarra. Foto: Ana Nery Batista Aurino, 2006. Em AC-V foram registradas 12 famílias e 32 espécies, e em AC-B 13 famílias, porém 28 espécies. Verifica-se na Tabela 2 que as famílias Combretaceae, 34 Erythroxylaceae, Rubiaceae e Verbenaceae foram exclusivas de AC-V, enquanto Amaranthaceae, Anacardiaceae, Burseraceae, Capparaceae e Vitaceae, de AC-B. De acordo com Andrade et al. (2005), a presença de algumas famílias pode indicar o estado de conservação da flora de determinados ambientes, uma vez que não são adaptadas a colonizar ambientes fortemente antropizados. Algumas dessas famílias estão presentes nos fragmentos estudados, como é o caso de Anacardiaceae e Capparaceae. As famílias Capparaceae representada por duas espécies (Capparis flexuosa (L.) L. e Capparis yco Mart.); Anacardiaceae por uma; e Burseraceae por uma espécie na Bandarra, sem representante na área da Várzea. Isto pode ser explicado de acordo com Andrade et al. (2005), por esta última ser uma área mais protegida – menos antropizada. Burseraceae, que comumente se encontra em áreas de caatinga mais conservadas, foi encontrada apenas na Bandarra, e Rubiaceae, que geralmente se encontra em áreas de caatinga mais úmidas, de acordo com Alcoforado-Filho et al. (2003), foi encontrada na Várzea. Foram compartilhadas as famílias: Apocynaceae, Cactaceae, Euphorbiaceae, Leguminosae e Malvaceae. Estas famílias têm ampla distribuição na caatinga, seja degradada ou não (ARAÚJO et al., 1998; PEREIRA et al., 2001; ALBUQUERQUE; ANDRADE, 2002; LEMOS; RODAL, 2002; PAULA et al. 2002; BENEVIDES, 2003; MARACAJÁ et al., 2003; TROVÃO et al. 2004; AMORIM, 2005; ANDRADE et al., 2005). As famílias com maior número de indivíduos foram Euphorbiaceae e Leguminosae, sendo Leguminosae aquela que apresentou o maior número de espécies nas duas áreas. Estes resultados corroboram as observações de Rodal (1992), que apontou estas famílias como as principais na Caatinga, em número de gêneros e espécies e abundância de plantas. O número de espécies e famílias registradas para as duas áreas foi próximo, embora o fragmento da Bandarra tenha um acesso mais difícil e a proteção exercida por seu proprietário seja mais eficiente. A área da Várzea, por sua vez, sofre mais influência do pastoreio de caprinos e apresenta, em todo seu entorno, áreas destinadas ao plantio de feijão, milho ou mandioca, o que faz crescer a pressão antrópica sobre a mesma. 35 Tabela 2: Espécies arbustivo-arbóreas registradas no levantamento fitossociológico realizado nas áreas conservadas nos Sítios Várzea do Cariri (AC-V) e Bandarra (AC-B) em Tenório-PB. Família Espécie Nome vulgar Amaranthaceae Alternanthera brasiliana (L.) Kuntze Anacardiaceae Myracrodruon urundeuva Allemão aroeira Apocynaceae Aspidosperma pyrifolium Mart. pereiro Burseraceae Commiphora leptophloeos (Mart.) J.B. umburana AC-V — AC-B X X X X X Gillett Cactaceae Cereus jamacaru DC. mandacaru X X Cactaceae Opuntia palmadora Britton & Rose palmatória Cactaceae Pilosocereus pachycladus F.Ritter facheiro Capparaceae Capparis flexuosa (L.) L. feijão bravo X Capparaceae Capparis yco Mart. icó X Combretaceae Combretum leprosum Mart. mofumbo X Erythroxylaceae Erythroxylum caatingae Plowman umbuzeiro-bravo X Erythroxylaceae Erythroxylum nummularia Peyr. umbuzeiro-bravo X Euphorbiaceae Cnidoscolus sp. favela Euphorbiaceae Croton sonderianus Müll. Arg. marmeleiro Euphorbiaceae Croton sp. quebra-faca Euphorbiaceae Jatropha mollissima (Pohl) Baill. pinhão Euphorbiaceae Manihot glaziovii Müll. Arg. maniçoba X Euphorbiaceae Sapium glandulatum (Vell.) Pax leitosa X Leg. Caesalpinioideae Bauhinia cheilantha (Bong.) Steud. mororó X Leg. Caesalpinioideae Caesalpinia ferrea Mart. jucá / pau-ferro X Leg. Caesalpinioideae Caesalpinia pyramidalis Tul. catingueira X Leg. Caesalpinioideae Peltogyne pauciflora Benth. coração-de-nêgo X Leg. Caesalpinioideae Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & canafístula-preta X flor de São João X canafístula X X X X X X X X X X X Barneby Leg. Caesalpinioideae Senna macranthera var. pudibunda X (Mart. ex Benth.) H.S. Irwin & Barneby Leg. Caesalpinioideae Senna martiana (Benth.) H.S. Irwin & Barneby Leg. Faboideae Amburana cearensis (Allemão) A.C. Sm. cumaru X Leg. Faboideae Leguminosae sp3 branhona X Leg. Faboideae Leguminosae sp4 — X Leg. Mimosoideae Anadenanthera colubrina (Vell.) Brenan angico Leg. Mimosoideae Mimosa invisa Mart. ex Colla jurema-malícia X X X 36 Leg. Mimosoideae Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth. jurema-branca X Leg. Mimosoideae Mimosa paraibana Barneby malícia X Leg. Mimosoideae Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. jurema-preta X Leg. Mimosoideae Mimosa sp2 jurema-unha-de- X X X gato Leg. Mimosoideae Mimosa sp3 — X Leg. Mimosoideae Piptadenia moniliformis Benth. catanduba X Leg. Mimosoideae Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke jurema malícia- X X da-serra Malvaceae Helicteres guazumifolia Kunth guaxuma Malvaceae Pseudobombax marginatum (A. St.-Hil., imbiratã X X Juss. & Cambess.) A. Robyns Malvaceae Malvaceae 1 — X Rubiaceae Alibertia sp. canela-de- X veado/cafezinho Verbenaceae Lippia gracilis Schauer Verbenaceae Vitex sp. Vitaceae Cissus sp. alecrim-da-serra X — X cabeça-de-nêgo X Indeterminada Indeterminada 1 — X Indeterminada Indeterminada 2 — X Indeterminada Indeterminada 3 — X Indeterminada Indeterminada 5 — X Indeterminada Indeterminada 6 — X 49 49 15 32 28 Apenas 11 espécies foram comuns aos dois fragmentos: Aspidosperma pyrifolium Mart., Cereus jamacaru DC., Pilosocereus pachycladus F.Ritter., Croton sonderianus Müll. Arg., Jatropha mollissima (Pohl) Baill., Caesalpinia pyramidalis Tul., Senna macranthera var. pudibunda (Mart. ex Benth.) H.S. Irwin & Barneby, Amburana cearensis (Allemão) A.C. Sm., Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth., Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. e Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke. Na várzea foram encontradas 21 espécies que não apareceram na amostragem da Bandarra. São elas: Combretum leprosum Mart., Erythroxylum nummularia Peyr., Erythroxylum caatingae Plowman, Senna martiana (Benth.) H.S. Irwin & Barneby, Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby, Peltogyne pauciflora Benth., 37 Caesalpinia ferrea Mart., Piptadenia moniliformis Benth., Mimosa invisa Mart. ex Colla, Mimosa paraibana Barneby, Helicteres guazumifolia Kunth, Lippia gracilis Schauer, Alibertia sp. (canela-de-veado), Mimosa sp4, Vitex sp., Leguminosae sp3 (branhona), Leguminosae sp4, Malvaceae 1 e Indet 1, 2 e 3. Na Bandarra foram 17 as espécies exclusivas: Alternanthera brasiliana (L.) Kuntze, Myracrodruon urundeuva Allemão, Commiphora leptophloeos (Mart.) J.B. Gillett, Opuntia palmadora Britton & Rose, Capparis flexuosa (L.) L., Capparis yco Mart., Cnidoscolus sp. (favela), Manihot glaziovii Müll. Arg., Bauhinia cheilantha (Bong.) Steud., Anadenanthera colubrina (Vell.) Brenan, Pseudobombax marginatum (A. St.-Hil., Juss. & Cambess.) A. Robyns, Croton sp. (quebra-faca), Mimosa sp4 (juremaunha-de-gato), Sapium glandulatum (Vell.) Pax , Cissus sp., Indet 5 e 6. Estas espécies, porém, apresentaram densidade relativa muito baixa, sendo possível que, apesar de não terem sido amostradas em ambos os fragmentos, ocorram esporadicamente nas duas áreas. Espécies como a catanduba e o coração de nêgo, que foram encontradas apenas em AC-V e umburana e aroeira, que só apareceram em AC-B, são utilizadas na produção de lenha ou mesmo como madeiras e podem ter sofrido corte. Na Várzea, isto pode ser reflexo também de tênues diferenças no relevo - é uma área com morrotes – e da presença de algumas manchas de solo calcário-argiloso que, de acordo com os depoimentos de moradores locais, nunca teve cobertura vegetal (Figura 11). Os moradores em questão têm mais de 60 anos e nasceram na região. Nestas condições, é possível que existam fatores que restrinjam à ocorrência de algumas espécies a existência de sítios, cujas particularidades locais possam favorecer ou limitar a ocorrência das espécies em alguns pontos da área. Ambos os fragmentos apresentaram fisionomia arbóreo-arbustiva aberta, com densidade de 3.532 indivíduos/ha na Várzea e 4.860 indivíduos/ha na Bandarra. Estas densidades, apesar de superiores àquelas encontradas por Amorim et al. (2005), e segundo estes, superiores também às de 16 outros locais do Seridó, ainda são inferiores às de muitas áreas da caatinga, de acordo com Sampaio (1996). A área basal nas duas áreas foi respectivamente 3,538 m ²/ ha e 6,670 m ² /ha . Os valores de densidade e área basal indicam que a Bandarra possui uma cobertura vegetal mais fechada do que a Várzea, e que as plantas dessa última possuem porte relativamente menor do que as da primeira. 38 Figura 11: Solo descoberto no Sítio Várzea do Cariri (AC – V). Foto: Ana Nery Batista Aurino, 2006. As alturas médias nos remanescentes da Várzea e Bandarra foram respectivamente 2,8m e 3m. São valores compatíveis com os encontrados em outros trabalhos em caatinga arbustivo-arbórea. De acordo com Teles (2005), em trabalho no Cariri Paraibano, 63% da vegetação tem altura < 3m, corroborando com as informações de Chaves et al. (2002). Francelino et al. (2003) estudando o Sertão Norte rio-grandense encontrou a maioria dos indivíduos de sua amostragem com altura no intervalo de 2 a 3m. Apenas seis indivíduos apresentaram mais de 5m na Várzea e somente cinco apresentaram mais de 6m na Bandarra, sendo que a grande maioria dos indivíduos tinha entre 2 – 3m, nas duas áreas (Figuras 12 e 13). A maior altura foi alcançada por um indivíduo de Peltogyne pauciflora Benth. com 6,5m em AC-V e por um de Myracrodruon urundeuva Allemão, com 10m, em AC-B. Os diâmetros médios, nas duas áreas, foram respectivamente 6 e 7cm em AC-V e AC-B. Estas médias sofreram influências de indivíduos de grandes diâmetros, a exemplo de um indivíduo de Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. com 51cm de diâmetro na Várzea e um outro de Commiphora leptophloeos (Mart.) J.B. Gillett, com 53,2cm de diâmetro na Bandarra (Figura 14). 39 376 400 Nº de Plantas 350 300 250 200 203 197 150 100 33 50 5 1 5-< 6 6-< 7 0 1-< 2 2-< 3 3-< 4 4-< 5 Classes de Altura (m) Figura 12: Distribuição em classes de altura, dos indivíduos amostrados no Sítio Várzea do Cariri, Tenório-PB 700 608 Nº de Plantas 600 500 400 300 200 254 185 121 100 42 0 1-< 2 2-< 3 3-< 4 4-< 5 5-< 6 1 0 3 1 6-< 7 7-< 8 8-< 9 9-< 10 Classes de Altura (m) Figura 13: Distribuição em classes de altura, dos indivíduos amostrados no Sítio Bandarra, Tenório-PB. O Índice de Diversidade de Shannon foi de 1,5 nat/ind. na Várzea e 1,7 nat/ind. na Bandarra. São índices muito baixos se comparados a numerosos trabalhos realizados na caatinga de diversos locais do Nordeste (SAMPAIO, 1996; PEREIRA et al., 2002; ALCOFORADO-FILHO et al., 2003). Porém, foram mais altos que os encontrados por Andrade et al. (2005), em áreas antropizadas no Cariri Paraibano. São decididamente valores muito baixos para diversidade de áreas que supostamente seriam conservadas. 40 Quanto à riqueza, apesar dos remanescentes apresentarem mais espécies que alguns trabalhos realizados no Seridó ou em outras áreas da Paraíba e Pernambuco, os valores 2,179 e 2,933 respectivamente em AC – V e AC – B, são também considerados baixos (AMORIM et al., 2005; SANTANA; SOUTO, 2006; QUEIROZ et al., 2006 e ALCOFORADO-FILHO et al., 2003). Isto leva a crer que estas áreas passaram por elevado grau de perturbação a longo prazo, ou ainda que possuem limitações de solo, relevo ou clima. Figura 14: Indivíduo de Commiphora leptophloeos (Mart.) J.B. Gillett na área conservada Bandarra, Tenório,PB. Foto: Ana Nery Batista Aurino, 2006 É válido salientar ainda que, segundo Santana e Souto (2006), índices de diversidade e de riqueza taxonômica baixos, em áreas de caatinga do cristalino, podem ser resultado tanto do antropismo como das condições edafoclimáticas da área. As famílias de maior densidade em ordem decrescente em AC-V foram: Euphorbiaceae com 70% dos indivíduos amostrados e Leguminosae, subfamílias 41 Caesalpinioideae e Mimosoideae com 16% e 6% respectivamente. As outras famílias juntas somaram 8% (Figura 15). Em AC-B, destacaram-se: Euphorbiaceae (60%), Leguminosae subfamília Caesalpinioideae (16%), Leguminosae subfamília Mimosoideae (14%) e Apocynaceae (5%). As outras famílias somaram 5% (Figura 15). 70% 60% 50% 40% AC-V 30% 20% 10% AC-B 0% as íli am sf ra ut O e ea ac ct Ca ae ce na cy e po ea A ac yl ox e hr ea yt id Er so o ae im de M oi g. ni Le pi al es Ca g. e Le ea ac bi or ph Eu Figura 15: Famílias de maior densidade relativa, em duas áreas conservadas em Tenório – PB. Indivíduos de grande porte da família Cactaceae foram amostrados nas duas áreas estudadas. De acordo com Rodal et al. (1999) e Alcoforado-Filho et al. (2003), grandes cactáceas são comuns em áreas de caatinga de baixa pluviosidade, como é o caso do Seridó. Embora o número de indivíduos amostrados da família Cactaceae tenha sido pequeno, estes geralmente apresentaram CAB relativamente maior que os indivíduos de outras famílias que apareceram em maior número, como é o caso de Erythroxylaceae e Apocynaceae. Dessa forma, Cactaceae apresentou-se entre as quatro famílias de dominância relativa mais elevada, em virtude do porte do Pilosocereus pachycladus 42 F.Ritter (Figura 16) e do Cereus jamacaru DC. (Figura 17). Figura 16: Pilosocereus pachycladus F.Ritter Foto: Ana Nery Batista Aurino, 2006 Figura 17: Cereus jamacaru DC. Foto: Ana Nery Batista Aurino, 2006 Com relação à densidade relativa da espécies, em AC-V, Croton sonderianus Müll. Arg. apresentou 67% do total de indivíduos amostrados, Caesalpinia pyramidalis Tul. 7%; Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby 7%; Jatropha mollissima (Pohl) Baill. 4%; Piptadenia moniliformis Benth. 3% e Erythroxylum caatingae Plowman e Erythroxylum nummularia Peyr. 2% cada. As outras vinte e quatro espécies somaram 10% (Tabela 3). Em AC-B, a espécie que mais se destacou na densidade relativa foi também do gênero Croton, o quebra-faca, com 56% dos indivíduos, ficando Caesalpinia pyramidalis Tul., Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth., Bauhinia cheilantha (Bong.) Steud., Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke e Aspidosperma pyrifolium Mart. com 9%, 7%, 6%, 5% e 5%, respectivamente (Tabela 4). As outras vinte e duas espécies somadas representaram 12%. 43 Tabela 3: Espécies amostradas na área conservada do Sítio Várzea do Cariri (AC-V), município de Tenório, Seridó paraibano, e seus parâmetros fitossociológicos, ordenados em ordem decrescente, pelo valor do VI, em que NI= número de indivíduos; FR= freqüência relativa; DR= densidade relativa; DoR= dominância relativa; VI= valor de importância e VC= valor de cobertura. Espécie NI FR DR DoR VI VC Croton sonderianus Müll. Arg. 590 15.34 66.82 38.57 120.72 105.39 Caesalpinia pyramidalis Tul. 65 12.27 7.36 18.84 38.47 26.20 Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & 58 11.04 6.57 2.67 20.28 9.24 Piptadenia moniliformis Benth. 23 4.29 2.60 7.18 14.08 9.79 Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. 10 3.68 1.13 8.69 13.51 9.83 Jatropha mollissima (Pohl) Baill. 33 7.98 3.74 1.49 13.20 5.22 Pilosocereus pachycladus F.Ritter 5 3.07 0.57 5.57 9.20 6.13 Cereus jamacaru DC. 6 2.45 0.68 5.61 8.75 6.29 Peltogyne pauciflora Benth. 12 4.29 1.36 2.69 8.34 4.04 Erythroxylum nummularia Peyr. 17 3.68 1.93 1.30 6.91 3.23 Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth. 7 3.07 0.79 2.40 6.26 3.19 Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke 7 4.29 0.79 0.70 5.78 1.49 Alibertia sp. 10 4.29 1.13 0.34 5.77 1.48 Vitex sp. 5 3.07 0.57 0.18 3.81 0.74 Aspidosperma pyrifolium Mart. 4 2.45 0.45 0.17 3.07 0.62 Erythroxylum caatingae Plowman 4 1.23 0.45 1.35 3.03 1.80 Combretum leprosum Mart. 6 1.84 0.68 0.45 2.97 1.13 Caesalpinia ferrea Mart. 3 1.23 0.34 1.10 2.66 1.44 Mimosa paraibana Barneby 3 1.84 0.34 0.08 2.26 0.42 Leguminosae sp3 2 1.23 0.23 0.10 1.55 0.33 Malvaceae 1 2 1.23 0.23 0.04 1.49 0.26 2 0.61 0.23 0.05 0.89 0.28 Leguminosae sp2 1 0.61 0.11 0.15 0.88 0.27 Lippia gracilis Schauer 1 0.61 0.11 0.07 0.80 0.19 Helicteres guazumifolia Kunth 1 0.61 0.11 0.04 0.77 0.16 Mimosa sp4 1 0.61 0.11 0.04 0.77 0.15 Indet 1 1 0.61 0.11 0.03 0.76 0.15 Indet 2 1 0.61 0.11 0.03 0.75 0.14 Amburana cearensis (Allemão) A.C. Sm. 1 0.61 0.11 0.02 0.75 0.14 Senna martiana (Benth.) H.S. Irwin & 1 0.61 0.11 0.02 0.75 0.14 1 0.61 0.11 0.02 0.75 0.14 Barneby Senna macranthera var. pudibunda (Mart. ex Benth.) H.S. Irwin & Barneby Barneby Indet 3 44 Tabela 4: Espécies amostradas na área conservada do Sítio Bandarra (AC-B), município de Tenório, Seridó paraibano, e seus parâmetros fitossociológicos, ordenados em ordem decrescente, pelo valor do VI, em que NI= número de indivíduos; FR= freqüência relativa; DR= densidade relativa; DoR= dominância relativa; VI= valor de importância e VC= valor de cobertura. Espécie NI FR DR DoR VI VC Croton sp 685 11.63 56.38 28.66 96.67 85.04 Caesalpinia pyramidalis Tul. 112 11.16 9.22 27.28 47.67 36.50 Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth. 85 8.37 7.00 6.84 22.20 13.83 Aspidosperma pyrifolium Mart. 56 9.77 4.61 7.11 21.48 11.71 Bauhinia cheilantha (Bong.) Steud. 77 10.23 6.34 2.94 19.51 9.28 Pilosocereus sp. 26 7.91 2.14 8.47 18.51 10.61 Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke 60 6.05 4.94 3.26 14.24 8.20 Commiphora leptophloeos (Mart.) J.B. 13 5.12 1.07 5.87 12.06 6.94 Anadenanthera colubrina (Vell.) Brenan 18 6.05 1.48 2.05 9.58 3.54 Myracrodruon urundeuva Allemão 7 2.79 0.58 3.78 7.15 4.36 Croton sonderianus Müll. Arg. 33 3.26 2.72 1.05 7.02 3.77 Manihot glaziovii Müll. Arg. 7 2.79 0.58 0.60 3.97 1.18 Jatropha mollissima (Pohl) Baill. 7 2.79 0.58 0.11 3.47 0.68 Cissus sp. 5 1.86 0.41 0.29 2.56 0.70 Capparis yco Mart. 4 1.40 0.33 0.35 2.07 0.68 Opuntia sp. 3 1.40 0.25 0.09 1.74 0.34 Pseudobombax marginatum (A. St.-Hil., 3 0.93 0.25 0.05 1.23 0.30 Indet 6 1 0.47 0.08 0.67 1.22 0.75 Cnidoscolus sp. 2 0.93 0.16 0.08 1.17 0.24 Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. 2 0.93 0.16 0.06 1.15 0.22 Alternanthera brasiliana (L.) Kuntze 2 0.93 0.16 0.03 1.13 0.19 Cereus jamacaru DC. 1 0.47 0.08 0.14 0.69 0.22 Indet 7 1 0.47 0.08 0.09 0.63 0.17 Amburana cearensis (Allemão) A.C. Sm. 1 0.47 0.08 0.04 0.59 0.12 Capparis flexuosa (L.) L. 1 0.47 0.08 0.03 0.58 0.11 Mimosa sp2 1 0.47 0.08 0.03 0.58 0.11 Senna macranthera var. pudibunda (Mart. 1 0.47 0.08 0.02 0.57 0.10 1 0.47 0.08 0.01 0.56 0.10 Gillett Juss. & Cambess.) A. Robyns ex Benth.) H.S. Irwin & Barneby Sapium sp. 45 Segundo Pereira et al. (2001), os valores de densidade para o Croton sonderianus Müll. Arg., são inversamente proporcionais aos níveis de perturbação, o que significa que quanto mais alta for sua densidade mais baixa será a estabilidade das populações da área, pois a espécie mostra significativa tolerância a elevados níveis de perturbação. Sampaio et al.(1998) e Sampaio (1996) constataram que este padrão geralmente é observado para outras pioneiras típicas de ambientes antropizados da caatinga, como Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir., Bauhinia cheilantha (Bong.) Steud. e Caesalpinia pyramidalis Tul. O marmeleiro (Croton sonderianus Müll. Arg.), o quebra-faca (Croton sp), e a catingueira (Caesalpinia pyramidalis Tul.) são as espécies dominantes nos locais estudados. Houve apenas uma mudança na espécie dominante de Croton de uma área para a outra (Tabelas 3 e 4). Isto demonstra que, mesmo sendo conservadas atualmente, as áreas amostradas apresentam elevado grau de perturbação, tendo como espécies dominantes pioneiras muito comuns (SAMPAIO et al., 1998; SAMPAIO, 1996). Isto pode ser reflexo de usos anteriores, com a realização de corte raso, queimadas, ou mesmo extração seletiva intensa de madeira, embora os proprietários afirmem que estas áreas nunca passaram por estes processos pelo menos numa data inferior a 50 anos. As espécies que apresentaram maiores freqüências relativas em AC-V, em ordem decrescente, foram: Croton sonderianus Müll. Arg., Caesalpinia pyramidalis Tul., Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby e Jatropha mollissima (Pohl) Baill., com aproximadamente 15; 12; 11 e 8%, respectivamente (Tabela 3). As espécies Peltogyne pauciflora Benth., Piptadenia moniliformis Benth., Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke e Alibertia sp. (canela de veado) apresentaram a mesma freqüência relativa, cerca de 4% (Tabela 3). Em AC-B tem-se, também em ordem decrescente de freqüência relativa: Croton sp. (quebra-faca), Caesalpinia pyramidalis Tul., Bauhinia cheilantha (Bong.) Steud., Aspidosperma pyrifolium Mart. e Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth. As cinco espécies de maior dominância relativa, em AC-V, em ordem decrescente, foram: marmeleiro, catingueira, jurema-preta, catanduba e mandacaru, sendo que este último não apresentou valores de densidade e freqüência relativas significativos. Este fato pode ser explicado pela referida cactácea (Cereus jamacaru DC.) apresentar uma área basal maior que a de algumas outras espécies mais numerosas. A soma da dominância 46 absoluta dessas cinco espécies corresponde a aproximadamente 90% da área basal total do povoamento desta área. (Tabela 3). Em AC-B, as cinco espécies de maior dominância relativa, em ordem decrescente foram respectivamente: quebra-faca, catingueira, facheiro, pereiro e jurema-branca. A soma das áreas basais dessas cinco espécies corresponde a aproximadamente 95% da área basal total calculada para a área. Observa-se que entre as espécies que dominaram a área estudada, mandacaru e facheiro apresentaram densidades e freqüências relativas muito baixas, mas estiveram presentes entre as espécies dominantes por apresentarem áreas basais maiores do que muitas das demais espécies (Tabela 4). De acordo com Rodal et al. (1992), a área basal é um parâmetro de grande importância na dominância relativa das espécies, refletindo-se também no VI e, conseqüentemente, na comunidade como um todo, já que tais parâmetros estão interligados. A espécie que teve maiores freqüência, densidade e dominância relativa, na Várzea, foi o marmeleiro, que embora seja um arbusto de pequeno porte, apresentou um número de indivíduos muito grande (Tabela 3). De acordo com Araújo (2000), esta espécie é indicadora de uma sucessão secundária. Segundo Hardesty et al. (1988), Croton sonderianus é uma espécie invasora de caatingas antropizadas, que produz grande quantidade de sementes de fácil dispersão tanto na deiscência dos frutos, quanto através de vetores biológicos. Na Bandarra, a espécie que se destacou foi o quebra-faca (Croton sp.) com maiores freqüência, densidade e dominância relativas, além de VI e VC muito superiores aos das outras espécies (Tabela 4). Das 32 espécies amostradas na Várzea do Cariri, 22 apresentaram menos de 10 indivíduos. Entretanto, dentre estas está Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir., que apresentou um VI entre os mais altos, por possuir área basal maior que várias espécies com número de indivíduos superior. Na área conservada Bandarra, das 28 espécies registradas, 18 apresentaram menos de 10 indivíduos. As cinco espécies de maior VI em AC-V (Tabela 3) foram em ordem decrescente: marmeleiro, catingueira, catanduba, canafístula-preta e jurema-preta. Em AC-B as espécies foram: quebra-faca, catingueira, jurema-branca, pereiro e mororó (Tabela 4). Comparando-se o VI e o VC nas duas áreas (Tabelas 3 e 4), pode-se verificar que marmeleiro em AC-V, e quebra-faca, em AC-B, ambas Euphorbiaceae, apresentaram 47 tanto VI quanto VC muito superiores aos das outras espécies, em virtude do número de indivíduos de cada uma delas. Nota-se que grande parte das espécies com maior importância dentro dessas comunidades são pioneiras, sugerindo áreas altamente antropizadas. A exemplo do marmeleiro, já discutido anteriormente, a jurema-preta, segundo Sampaio (1998), é uma espécie que realmente se aproveita das situações de antropização, tornando-se dominante grande parte do tempo no processo de sucessão, sendo sua presença marcante, em algumas áreas de caatinga, atribuída a seguidas alterações. Pereira et al. (2001) sugeriram que este efeito se manifesta tanto na concentração como na ausência de algumas espécies nos ambientes mais perturbados; na predominância de determinadas espécies ou no surgimento gradual de outras à medida que diminui a intensidade da perturbação. O pereiro, o mororó e a catingueira, de acordo com Sampaio et al. (1998) e Sampaio (1996), são importantes pioneiras em processos de sucessão. A catingueira, apesar do crescimento inicial relativamente pequeno, possui uma forte resistência à seca e uma boa capacidade de competição por luz, tornando-se uma das espécies dominantes nas etapas posteriores do processo. Já o pereiro mostrou-se uma espécie pioneira muito ligada ao tipo de solo da área no estudo realizado por Amorim at al. (2005), no Seridó do Rio Grande do Norte. A jurema branca e a catanduba são comuns em várias áreas de caatinga (LACERDA et al., 2005; LEMOS JR., 2004; ARAÚJO et al., 1998; MARACAJÁ et al., 2003). Com relação à canafístula-preta (Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby), não foi constatada sua presença como pioneira em trabalhos realizados na caatinga. Entre as dez primeiras espécies nos valores de importância e cobertura na área AC-V, quatro apresentam hábito arbóreo (catingueira, catanduba, jurema-preta e coração de nêgo), mandacaru e facheiro apresentam hábito arborescente. Já entre as dez primeiras em AC-B, sete apresentaram hábito arbóreo: catingueira, jurema branca, pereiro, jurema malícia da serra, umburana, angico e mororó. A catingueira, na primeira área teve alturas entre 1,2 e 4m, com a média de 2,5m, embora tenham-se encontrado espécimes com 44cm de DNB (Diâmetro ao Nível da Base). Na segunda área, esta espécie apresentou alturas 48 entre 2 e 7m, com a média de 4m de altura. Estes indivíduos apresentaram diâmetros na base que variaram de 3 a 53cm. 4.3. Estudo Fitossociológico de Quatro Remanescentes de Caatinga em Diferentes Estádios de Sucessão, no Sítio Várzea do Cariri, no Município de Tenório, PB. Os quatro fragmentos estudados têm sua flora arbustivo-arbórea representada por 44 espécies e 14 famílias (Tabela 5). No total, foram registrados 2.467 indivíduos, sendo 260 na área cortada há dois anos (A – 2), 393 na área cortada há dez anos (A – 10), 931 na área cortada há vinte anos (A – 20) e 883 na área conservada Várzea do Cariri (AC – V). A flora de cada área apresentou-se da seguinte forma: A – 2 com sete espécies e quatro famílias; A – 10 com dez espécies e quatro famílias, A – 20 com 24 espécies e 11 famílias e AC – V com 32 espécies e 11 famílias (Tabela 5). Das 14 famílias, 6 foram representadas por apenas uma espécie. As famílias com maior número de espécies nas quatro áreas foram Leguminosae subfamília Mimosoideae com 7 espécies, Leguminosae subfamília Caesalpinioideae (6) e Euphorbiaceae (5). Estas três, quando somadas, respondem por mais de 40% do total de espécies. Em A – 2, a família que se mostrou mais diversa foi Euphorbiaceae, com três espécies. Leguminosae subfamília Caesalpinioideae teve 41% do número de indivíduos, mesmo tendo sido encontrada apenas uma espécie - Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby, que se mostrou muito freqüente na área. Cactaceae e Anacardiaceae tiveram duas e uma espécie, respectivamente, sendo importante salientar que esta última teve apenas um indivíduo de Schinopsis brasiliensis Engl. na amostragem, poupado no processo de brocagem, por fornecer sombra para os trabalhadores durante as refeições e o descanso (Figura 18). Na área A – 10 (Figura 19) a família que se destacou foi Leguminosae subfamília Mimosoideae, com densidade relativa de 65%; Euphorbiaceae apresentou aproximadamente 32%. As três outras famílias da área somaram 3% . Na área A – 20 (Figura 20), foram registradas onze famílias, porém, a maioria com poucos indivíduos. As famílias de maior densidade foram: Euphorbiaceae (82%), Leguminosae subfamília Mimosoideae (9%) e Leguminosae subfamília Caesalpinioideae (6%). 49 Na área conservada destacaram-se as mesmas famílias registradas em A – 20 (Figura 24), representando-se as maiores densidades da seguinte maneira: Euphorbiaceae (70%), Leguminosae subfamília Caesalpinioideae (16%) e Leguminosae subfamília Mimosoideae (6%). Figura 18: Aspecto de área cortada há dois anos (A- Figura 19: Aspecto de área cortada há dez anos (A2), no período chuvoso Tenório-PB. Foto: Ana Nery 10), no período chuvoso, Tenório-PB. Foto: Ana Batista Aurino, 2007. Nery Batista Aurino, 2007. Figura 20: Aspecto de área cortada há vinte anos (A- Figura 21: Flores e fruto de Caesalpinia pyramidalis 20), no período chuvoso, Tenório-PB. Foto: Ana Nery Tul., na área cortada há vinte anos (A-20), Tenório-PB. Foto: Ana Nery Batista Aurino, 2006. Batista Aurino, 2007. 50 Figura 22: Aspecto de área conservada Várzea do Figura 23: Flores de Caesalpinia ferrea Mart. Na Cariri (AC-V), no início do período chuvoso, área conservada (AC-V), após as primeiras Tenório-PB. Foto: Ana Nery Batista Aurino, 2006. chuvas, Tenório-PB. Foto: Ana Nery Batista Aurino, 2006. 90 A-2 80 60 A-10 50 40 A-20 30 20 AC-V 10 0 e ea ac en rb eae Ve dac n pi e Sa c e a a e a b i ac e R u g in c ta e ae Ny c ea oi de a s alv o M Mim eae e ae g. o id oi d Le Fab in i p g. sa l Le Cae ae ce g. a Le o rb i eae c p h y la Eu ro x ae h y t ac e Er ret b m C o cea e e a a c t ce C a in a e g r a ea c B o nia e o g n ea B i y na c a e oc ac e Ap a rd i ac An Densidade Relativa da Família (%) 70 Figura 24: Famílias de maior densidade relativa, em quatro áreas de caatinga em diferentes estádios de sucessão secundária, no Sítio Várzea do Cariri, Tenório – PB. 51 Estas famílias também foram as mais representativas em outras áreas do Seridó Paraibano (Bandarra, presente estudo) e do Rio Grande do Norte, e em outras áreas da Paraíba e Pernambuco (GOMES,1979; LYRA, 1982; EMPERAIRE, 1991; FONSECA, 1991; HORTA et al., 1991; FERREIRA; VALE, 1992; FERRAZ, 1994; ARAÚJO; SAMPAIO & RODAL, 1995; ARAÚJO 2000, PEREIRA et al., 2001; ALBUQUERQUE ANDRADE, 2002; LEMOS; RODAL, 2002; ALCOFORADO-FILHO et al., 2003; MARACAJÁ, 2003; LIMA, 2004; ANDRADE et al.,2005; SANTANA; SOUTO, 2006). As áreas com dois e dez anos após o corte apresentaram um número reduzido de famílias e espécies, sendo que a última, mesmo com cinco vezes a idade de corte da primeira, registrou somente três espécies e uma família a mais. Constatou-se que as áreas mais semelhantes entre si foram as duas com maior tempo de sucessão, mesmo uma delas tendo passado pelo processo de corte raso há vinte anos e a outra, segundo relatos dos proprietários, há mais de 50 anos. A-20 e AC-V apresentaram o mesmo número de famílias e gêneros, 11 e 17 em cada fragmento respectivamente, porém o número de espécies foi maior em AC-V. Foram 12 os gêneros comuns a essas duas áreas: Alibertia, Aspidosperma, Caesalpinia, Combretum, Croton, Erythroxylum, Helicteres, Jatropha, Mimosa, Pilosocereus, Piptadenia e Senna. As espécies comuns aos dois fragmentos foram 14: Alibertia sp., Aspidosperma pyrifolium Mart., Caesalpinia pyramidalis Tul., Combretum leprosum Mart., Helicteres Croton sonderianus Müll. Arg., Erythroxylum caatingae Plowman. guazumifolia Kunth, Jatropha mollissima (Pohl) Baill., Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth., Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir., Pilosocereus pachycladus F.Ritter, Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke, Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby e Senna macranthera var. pudibunda (Mart. ex Benth.) H.S. Irwin & Barneby. Cordia leucocephala Moric., Dioclea grandiflora Mart. ex Benth, Cnidoscolus sp. (favela), Croton sp. (quebra-faca), Thiloa sp. (mumcumã), e Allophylus sp.(buji) e Combretum sp. foram espécies exclusivas de A-20. Na área conservada apresentaram-se como exclusivas: Amburana cearensis (Allemão) A.C. Sm., Caesalpinia ferrea Mart., Erythroxylum nummularia Peyr., Lippia 52 gracilis Schauer, Mimosa invisa Mart. ex Colla, Mimosa sp4, Peltogyne pauciflora Benth., Piptadenia moniliformis Benth., Senna martiana (Benth.) H.S. Irwin & Barneby, Vitex sp. e mais seis espécies não identificadas. Os resultados obtidos por Pereira (2003) e Andrade et al. (2005) indicam que fragmentos de caatinga em melhor estado de conservação são efetivamente mais diversos que aqueles mais degradados. A maioria das famílias representadas na área com 20 anos de corte e na área conservada não teve representação nas outras duas áreas (A-2 e A-10). Entretanto, este trabalho, se comparado ao de Andrade et al. (2005), registrou maior número de indivíduos, espécies e famílias, mesmo considerando-se os menores tempos de sucessão, o que talvez possa ser explicado pelos índices pluviométricos levemente superiores - cerca de 560mm (média dos últimos sete anos – EMATER – TENÓRIO, 2006 – dados não publicados) - aos do Cariri paraibano. Tabela 5: Espécies e famílias registradas em quatro fragmentos de caatinga em diferentes estádios sucessão, no Sítio Várzea do Cariri, no município de Tenório, PB. Onde: A – 2 = área cortada há dois anos; A – 10 = área cortada há dez anos, A – 20 = área cortada há vinte anos e AC – V= área conservada. Família Espécie Nome vulgar A-2 Anacardiaceae Apocynaceae Bignoniaceae Boraginaceae Cactaceae Cactaceae Schinopsis brasiliensis Engl. Aspidosperma pyrifolium Mart. Tabebuia caraiba (Mart.) Bureau Cordia leucocephala Moric. Cereus jamacaru DC. Pilosocereus pachycladus F.Ritter Combretum leprosum Mart. Combretum sp. Thiloa sp. Erythroxylum caatingae Plowman Erythroxylum nummularia Peyr. Cnidoscolus sp. Croton moritibensis Baill. Croton sonderianus Müll. Arg. Croton sp. Jatropha mollissima (Pohl) Baill. Caesalpinia ferrea Mart. Caesalpinia pyramidalis Tul. Peltogyne pauciflora Benth. Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby Senna macranthera var. pudibunda (Mart. ex Benth.) H.S. baraúna pereiro craibeira maria-preta mandacaru facheiro X Combretaceae Combretaceae Combretaceae Erythroxylaceae Erythroxylaceae Euphorbiaceae Euphorbiaceae Euphorbiaceae Euphorbiaceae Euphorbiaceae Leg. Caesalpinioideae Leg. Caesalpinioideae Leg. Caesalpinioideae Leg. Caesalpinioideae Leg. Caesalpinioideae flor de São João A-20 AC-V X X X X X X mofumbo — sipaúba umbuzeiro-bravo umbuzeiro-bravo favela velame marmeleiro quebra-faca pinhão jucá / pau-ferro catingueira coração-de-nêgo canafístula-preta A-10 X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X 53 Malvaceae Malvaceae Nyctaginaceae Rubiaceae Irwin & Barneby Senna martiana (Benth.) H.S. Irwin & Barneby Amburana cearensis (Allemão) A.C. Sm. Dioclea grandiflora Mart. ex Benth. Leguminosae sp3 Leguminosae sp4 Mimosa invisa Mart. ex Colla Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth. Mimosa paraibana Barneby Mimosa sp4 Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. Piptadenia moniliformis Benth. Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke Helicteres guazumifolia Kunth Malvaceae 1 Nyctaginaceae 1 Alibertia sp. Sapindaceae Verbenaceae Verbenaceae Indeterminada Indeterminada Indeterminada Indeterminada 14 Allophylus sp. Lippia gracilis Schauer Vitex sp. Indeterminada 1 Indeterminada 2 Indeterminada 3 Indeterminada 4 44 Leg. Caesalpinioideae Leg. Faboideae Leg. Faboideae Leg. Faboideae Leg. Faboideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae Leg. Mimosoideae canafístula X cumaru X mucumã branhona — jurema-malícia jurema-branca malícia — jurema-preta catanduba jurema malícia-daserra guaxuma — joão-mole/ murici canela-deveado/cafezinho buji alecrim-da-serra — — — — — 44 7 X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X 10 X 24 32 Apenas Croton sonderianus Müll. Arg. e Jatropha mollissima (Pohl) Baill. estiveram presentes nas quatro áreas. Schinopsis brasiliensis Engl foi amostrada somente em A-2 e Tabebuia caraiba (Mart.) Bureau, em A-10. A área onde se realizou o corte há vinte anos (A-20) apresentou um número de indivíduos superior à soma das duas primeiras áreas juntas. Nesta foram registradas 24 espécies, das quais 12 não foram encontradas em A-2 e nem em A-10. São elas: Helicteres guazumifolia Kunth, Cordia leucocephala Moric., Dioclea grandiflora Mart. ex Benth., Aspidosperma pyrifolium Mart., Erythroxylum caatingae Plowman, Allophylus sp., Alibertia sp., Thiloa sp., Cnidoscolus sp., Croton sp., Combretum sp. e Nyctaginaceae 1. É interessante ressaltar a presença em A – 10 da Tabebuia caraiba (Mart.) Bureau, que não é comum em ambientes de solos secos. Seu registro, porém, deve estar associado 54 a existência de um pequeno riacho temporário que corta essa área, pois, de acordo com Cabral et al. (2004), a espécie apresenta esse comportamento. A densidade em A-2 foi de 1.040 indivíduos/ha, 1.572 indivíduos/ha em A – 10, 3.724 indivíduos/ha, em A – 20 e 3.532 indivíduos/ha em AC-V. Estas densidades são muito baixas se comparadas a outras áreas de caatinga. Entretanto, comparando-se as densidades de A – 20 e AC – V com o valor encontrado por Amorim et al. (2005), no Seridó do Rio Grande do Norte, estas foram superiores. A área basal nas quatro áreas foi: 0,580m ²/ha em A – 2, 2,394m ²/ha em A – 10, 2,823m ²/ha em A – 20 e 3.538m ²/ ha em AC – V. Fica clara a diferença entre A -2 e as três outras áreas, que apresentaram valores de área basal relaticamente próximos, com números de indivíduos muito diferentes, principalmente A -10 e A-20. As alturas médias em A - 2, A – 10, A – 20 e AC - V foram 1,7m, 2,8m e 2,6m e 2,8, respectivamente. Em A – 2, a maioria dos indivíduos foi de pequenos arbustos, principalmente de Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby e Croton sonderianus Müll. Arg. Somente cinco indivíduos apresentaram mais de 3m nessa área, sendo que um apresentou a maior altura registrada para as quatro áreas estudadas (Figura 25). Apenas nove indivíduos apresentaram mais de 4m de altura na área cortada há dez anos, sendo que o maior número de indivíduos permaneceu na classe de 2 a 3m (Figura 26). Na área cortada há vinte anos, os oito indivíduos mais altos atingiram entre 5 e 6m e a grande maioria permaneceu em níveis de altura também entre 2 e 3m. Em AC – V apenas seis indivíduos apresentaram mais de 5m (Figura 12). Amorim et al. (2005), no Seridó do Rio Grande do Norte, encontraram um padrão de altura superior ao do presente trabalho, com a altura da maioria dos indivíduos entre 3 e 4m, e um equilíbrio entre os indivíduos com alturas entre 2 e 3 e aqueles entre 4 e 5m. Os diâmetros médios nas quatro áreas foram, respectivamente, 4,8cm, 7,6cm e 5,6cm e 5,9cm em A-2, A-10, A-20 e AC-V. Porém, a média em A - 2 sofreu influência do único indivíduo de grande diâmetro de Schinopsis brasiliensis Engl., assim como na altura. O diâmetro médio em A -10, um pouco maior do que em A – 20 e AC - V, sugere a possibilidade de ter havido um corte seletivo mais recente em A – 20 e AC - V. 55 250 223 Nº de Plantas 200 150 100 50 31 5 0 0 0 1 3-< 4 4-< 5 5-< 6 6-< 7 7-< 8 0 1-< 2 2-< 3 Classes de Altura (m) Figura 25: Distribuição em classes de altura, das plantas amostradas na área cortada há dois anos (A – 2), no Sítio Várzea do Cariri, Tenório-PB. 250 231 Nº de Plantas 200 150 88 100 65 50 9 0 0 0 5-< 6 6-< 7 7-< 8 0 1-< 2 2-< 3 3-< 4 4-< 5 Classes de Altura (m) Figura 26: Distribuição em classes de altura, das plantas amostradas na área cortada há dez anos (A – 10), no Sítio Várzea do Cariri, Tenório-PB. 56 700 574 N° de Plantas 600 500 400 300 200 193 135 100 20 8 1 0 4-< 5 5-< 6 6-< 7 7-< 8 0 1-< 2 2-< 3 3-< 4 Classes de Altura (m) Figura 27: Distribuição em classes de altura, das plantas amostradas na área cortada há vinte anos (A – 20), no Sítio Várzea do Cariri, Tenório-PB. O Índice de Diversidade de Shannon, calculado para cada fragmento, foi muito baixo: 1,217 nat/ind., em A -2; 1,095 nat/ind., em A – 10; 1,093 nat/ind, em A – 20; e 1.495 nat/ind, em AC – V. Mas, considerando-se que as três primeiras passaram por corte raso a menos tempo, esperava-se números relativamente baixos. De acordo com AraújoFilho e Carvalho (1996), mais de 80% das caatingas são sucessionais e 40% deste percentual é mantido em estádios iniciais de sucessão secundária. Tabela 6: Espécies encontradas na Área cortada há dois anos (A - 2), município de Tenório, Seridó paraibano, e seus parâmetros fitossociológicos em ordem decrescente do VI, onde NI = número de indivíduos; FR = freqüência relativa; DR = densidade relativa; DoR = dominância relativa; VI = valor de importância e VC = valor de cobertura. Espécie NI Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & 107 FR DR DoR VI VC 34.92 41.15 33.24 109.31 74.39 Barneby Croton sonderianus Müll. Arg. 85 31.75 32.69 31.12 95.56 63.81 Croton moritibensis Baill. 60 20.63 23.08 11.07 54.78 34.14 Cereus jamacaru DC. 3 4.7 1.15 6.79 12.71 7.94 Schinopsis brasiliensis Engl. 1 1.59 0.38 9.92 11.89 10.30 Pilosocereus sp. 2 3.17 0.77 5.82 9.76 6.59 57 Jatropha mollissima (Pohl) Baill. 2 3.17 0.77 2.05 5.99 2.81 Tabela 7: Espécies encontradas na Área cortada há dez anos (A - 10), município de Tenório, Seridó paraibano, e seus parâmetros fitossociológicos em ordem decrescente do VI, onde NI = número de indivíduos; FR = freqüência relativa; DR = densidade relativa; DoR = dominância relativa; VI = valor de importância e VC = valor de cobertura. Espécie NI FR DR DoR VI VC Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. 222 35.71 56.49 68.79 160.99 125.28 Croton sonderianus Müll. Arg. 125 24.2 31.81 21.79 77.88 53.59 Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth. 28 20.00 7.12 6.36 33.48 13.48 Caesalpinia pyramidalis Tul. 7 7.14 1.78 0.76 9.68 2.54 Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke 2 2.86 0.51 1.01 4.38 1.52 Tabebuia caraiba (Mart.) Bureau 3 1.43 0.76 0.40 2.59 1.16 Jatropha mollissima (Pohl) Baill. 2 2.86 0.51 0.32 3.68 0.82 Mimosa paraibana Barneby 2 2.86 0.51 0.30 3.67 0.81 Senna macranthera var. pudibunda (Mart. 1 1.43 0.25 0.17 1.86 0.43 1.43 0.25 0.11 1.79 0.36 ex Benth.) H.S. Irwin & Barneby Combretum leprosum Mart. 1 Tabela 8: Espécies encontradas na Área cortada há vinte anos (A - 20), município de Tenório, Seridó paraibano, e seus parâmetros fitossociológicos em ordem decrescente do VI, onde NI = número de indivíduos; FR = freqüência relativa; DR = densidade relativa; DoR = dominância relativa; VI = valor de importância e VC = valor de cobertura. Espécie NI FR DR DoR VI VC Croton sonderianus Müll. Arg. 727 21.74 78.09 66.63 166.46 144.72 Caesalpinia pyramidalis Tul. 36 14.78 3.87 12.69 31.34 16.56 Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth. 66 14.78 7.09 7.54 29.41 14.63 Jatropha mollissima (Pohl) Baill. 22 8.70 2.36 1.89 12.95 4.25 Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & 16 6.96 1.72 2.08 10.76 3.80 Barneby Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. 13 3.48 1.40 2.49 7.37 3.89 Aspidosperma pyrifolium Mart. 7 3.48 0.75 2.14 6.37 2.89 Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke 8 4.35 0.86 1.01 6.22 1.87 Croton sp. 7 4.35 0.75 0.60 5.70 1.35 “Nyctaginaceae 1” 3 2.61 0.32 0.55 3.49 0.88 Senna macranthera var. pudibunda (Mart. 3 2.61 0.32 0.10 3.03 0.42 ex Benth.) H.S. Irwin & Barneby Cnidoscolus sp. 4 1.74 0.43 0.24 2.41 0.67 Combretum leprosum Mart. 4 1.74 0.43 0.17 2.34 0.60 58 Erythroxylum caatingae Plowman 1 0.87 0.11 0.79 1.77 0.90 Thiloa sp. 4 0.87 0.43 0.17 1.47 0.60 Pilosocereus sp. 1 0.87 0.11 0.41 1.38 0.51 Dioclea grandiflora Mart. ex Benth. 3 0.87 0.32 0.12 1.31 0.44 Croton moritibensis Baill. 1 0.87 0.11 0.08 1.06 0.19 Indeterminada 1 0.87 0.11 0.08 1.05 0.18 Combretum sp. 1 0.87 0.11 0.07 1.05 0.18 Helicteres guazumifolia Kunth 1 0.87 0.11 0.06 1.04 0.17 Allophylus sp. 1 0.87 0.11 0.05 1.03 0.16 Alibertia sp. 1 0.87 0.11 0.04 1.03 0.16 Cordia leucocephala Moric. 1 0.87 0.11 0.02 1.00 0.13 Tabela 9: Espécies encontradas na Área conservada Várzea do Cariri (AC-V), município de Tenório, Seridó paraibano, e seus parâmetros fitossociológicos, em ordem decrescente, pelo valor do VI, em que NI= número de indivíduos; FR= freqüência relativa; DR= densidade relativa; DoR= dominância relativa; VI= valor de importância e VC= valor de cobertura. Espécie NI FR DR DoR VI VC Croton sonderianus Müll. Arg. 590 15.34 66.82 38.57 120.72 105.39 Caesalpinia pyramidalis Tul. 65 12.27 7.36 18.84 38.47 26.20 Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & 58 11.04 6.57 2.67 20.28 9.24 Barneby Piptadenia moniliformis Benth. 23 4.29 2.60 7.18 14.08 9.79 Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. 10 3.68 1.13 8.69 13.51 9.83 Jatropha mollissima (Pohl) Baill. 33 7.98 3.74 1.49 13.20 5.22 Pilosocereus sp. 5 3.07 0.57 5.57 9.20 6.13 Cereus jamacaru DC. 6 2.45 0.68 5.61 8.75 6.29 Peltogyne pauciflora Benth. 12 4.29 1.36 2.69 8.34 4.04 Erythroxylum nummularia Peyr. 17 3.68 1.93 1.30 6.91 3.23 Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth. 7 3.07 0.79 2.40 6.26 3.19 Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke 7 4.29 0.79 0.70 5.78 1.49 Alibertia sp. 10 4.29 1.13 0.34 5.77 1.48 Vitex sp. 5 3.07 0.57 0.18 3.81 0.74 Aspidosperma pyrifolium Mart. 4 2.45 0.45 0.17 3.07 0.62 Erythroxylum caatingae Plowman 4 1.23 0.45 1.35 3.03 1.80 Combretum leprosum Mart. 6 1.84 0.68 0.45 2.97 1.13 Caesalpinia ferrea Mart. 3 1.23 0.34 1.10 2.66 1.44 Mimosa paraibana Barneby 3 1.84 0.34 0.08 2.26 0.42 59 Leguminosae sp3 2 1.23 0.23 0.10 1.55 0.33 Malvaceae 1 2 1.23 0.23 0.04 1.49 0.26 Senna macranthera var. pudibunda (Mart. 2 0.61 0.23 0.05 0.89 0.28 ex Benth.) H.S. Irwin & Barneby Leguminosae sp2 1 0.61 0.11 0.15 0.88 0.27 Lippia gracilis Schauer 1 0.61 0.11 0.07 0.80 0.19 Helicteres guazumifolia Kunth 1 0.61 0.11 0.04 0.77 0.16 Mimosa sp4 1 0.61 0.11 0.04 0.77 0.15 Indet 1 1 0.61 0.11 0.03 0.76 0.15 Indet 2 1 0.61 0.11 0.03 0.75 0.14 Amburana cearensis (Allemão) A.C. Sm. 1 0.61 0.11 0.02 0.75 0.14 Senna martiana (Benth.) H.S. Irwin & 1 0.61 0.11 0.02 0.75 0.14 0.61 0.11 0.02 0.75 0.14 Barneby Indet 3 1 Das sete espécies presentes em A – 2, Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby e Croton sonderianus Müll. Arg. destacaram-se pela grande quantidade de indivíduos e dominância relativa (Tabela 6). A espécie mais freqüente foi Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby, da família Leguminosae, seguida por duas espécies de Euphorbiaceae — Croton sonderianus Müll. Arg. Croton moritibensis Baill. Na área A – 10 também foi uma Leguminosae que teve maior freqüência, só que esta da subfamília Mimosoideae, Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. Logo depois destacando-se o Croton sonderianus Müll. Arg. (Tabela 7). Segundo Araújo Filho e Carvalho (1996), a presença de jurema-preta (Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir.), em A – 10, pode ser indicadora de solo ácido com drenagem limitada e de fertilidade natural baixa. Esta pode ser a explicação para a presença de poucas espécies nesta área, em comparação com A – 2 . As três espécies que apresentaram maior dominância relativa na área A – 20, em ordem decrescente foram: Croton sonderianus Müll. Arg., Caesalpinia pyramidalis Tul. e Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. (Tabela 8). Estas três espécies apresentaram-se também, respectivamente, na mesma ordem, com as maiores dominâncias relativas em AC-V. 60 Nesta área, destacaram-se logo em seguida Piptadenia moniliformis Benth. e Cereus jamacaru DC. (Tabela 9). Observando-se as três espécies de maior dominância relativa em cada área, vê-se que são todas espécies pioneiras de fácil adaptação em áreas de caatinga degradadas, de acordo com Sampaio et al. (1998). Além da dominância relativa, pode-se verificar que estas mesmas espécies destacaram-se em praticamente todos os parâmetros fitossociológicos calculados. Os valores de importância (VI) e cobertura (VC) nas quatro áreas destacaram as mesmas espécies que se sobressaíram nos outros parâmetros (Tabelas 6, 7, 8 e 9). No caso de A – 20 e AC – V, destacou-se o marmeleiro (Croton sonderianus Müll. Arg.), com superioridade inquestionável sobre as demais espécies. O maior número de indivíduos de marmeleiro (Croton sonderianus Müll. Arg.) nas áreas A – 20 e AC -V, comparativamente às áreas A – 2 e A – 10 (Tabelas 7, 8 e 9 e 10), demostra grande possibilidade de que essas áreas tenham efetivamente passado por corte seletivo mais recente, priorizando os indivíduos de maior diâmetro de Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. que é valorizada por fornecer lenha para diversos fins. 120 Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby Croton sonderianus Müll. Arg. 100 Croton moritibensis Baill. 80 Cereus jamacaru DC. 60 Schinopsis brasiliensis Engl. Pilosocereus pachycladus F.Ritter 40 Jatropha mollissima (Pohl) Baill. 20 0 VI VC 61 Figura 28: Espécies que apresentaram maior VI e VC na área A – 2. 180 Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. 160 Croton sonderianus Müll. Arg. 140 Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth. 120 100 Caesalpinia pyramidalis Tul. 80 Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke 60 Jatropha mollissima (Pohl) Baill. 40 Mimosa paraibana Barneby 20 0 VI VC Figura 29: Espécies que apresentaram maior VI e VC na área A – 10. Croton sonderianus Müll. Arg. 180 160 Caesalpinia pyramidalis Tul. 140 Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth. 120 Jatropha mollissima (Pohl) Baill. 100 80 Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby 60 Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. 40 Aspidosperma pyrifolium Mart. 20 0 VI VC Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke Figura 30: Espécies que apresentaram maior VI e VC na área A – 20. 62 Croton sonderianus Müll. Arg. 140 Caesalpinia pyramidalis Tul. 120 Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby Piptadenia moniliformis Benth. 100 Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. 80 Jatropha mollissima (Pohl) Baill. 60 Pilosocereus pachycladus F.Ritter 40 Cereus jamacaru DC. 20 Peltogyne pauciflora Benth. Erythroxylum nummularia Peyr. 0 VI VC Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth. Figura 31: Espécies que apresentaram maior VI e VC na área AC-V. Dentre as espécies de maior VI e VC, somente Croton sonderianus Müll. Arg e Jatropha mollissima (Pohl) Baill. destacaram-se nas quatro áreas. As espécies mais importantes nas áreas A-2, A-10 e A- 20 foram: Croton sonderianus Müll. Arg., Jatropha mollissima (Pohl) Baill., Senna acuruensis (Benth.) H.S. Irwin & Barneby, Croton moritibensis Baill., Cereus jamacaru DC., Pilosocereus pachycladus F.Ritter, Caesalpinia pyramidalis Tul., Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth., Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. e Combretum leprosum Mart. Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir., Mimosa ophthalmocentra Mart. ex Benth., Caesalpinia pyramidalis Tul., Piptadenia moniliformis Benth. e Piptadenia stipulacea (Benth.) Ducke foram destaque em A-10, A-20 e AC - V. Essas espécies, destacadas por VI e VC, são utilizadas geralmente na produção de lenha, para fornecimento a decantamentos de caulim, padarias e casas de farinha; na produção de carvão para uso doméstico ou comercial, em pequena escala, e na produção de estacas para cercamento das propriedades. 63 4.4 A Percepção Sócio-ambiental da Caatinga por Agricultores do Município de Tenório, Seridó Oriental Paraibano. Os atores sociais envolvidos na pesquisa foram majoritariamente do sexo feminino, uma vez que as mulheres geralmente estão mais dispostas a colaborar respondendo aos questionários. Entretanto, a diferença percentual entre homens e mulheres na amostragem não foi muito grande (Figura 32). A idade dos agricultores pesquisados também foi verificada a fim de analisar quem está mais presente nos trabalhos agrícolas ou de preparo da terra, porém os percentuais encontrados ficaram equilibrados, demonstrando que este tipo de atividade ainda é dividido por toda a família, independentemente do sexo (gênero) e da idade. Pôde-se observar, entretanto, algumas diferenças de funções, por exemplo, plantio, colheita, alimentação dos animais e coleta de lenha são mais realizadas pelas mulheres e pelos meninos mais jovens; já o processo de brocagem, corte e empilhamento (metragem) de lenha, são funções mais realizadas por homens e jovens mais robustos. Constatou-se ainda que, mesmo havendo equilíbrio entre as idades dos pesquisados, houve uma maior participação de indivíduos entre 20 e 40 anos (Figura 33). Feminino 58% Masculino 42% Figura 32: Distribuição dos agricultores pesquisados por gênero. Distribuição por Idade Distribuição por Gênero 61+ 51 a 60 41 a 50 10% 15% 18% 31 a 40 20% 21 a 30 14 a 20 21% 16% Figura 33: Distribuição dos agricultores pesquisados por intervalos de idade. 64 Com relação à escolaridade dos pesquisados, pôde-se constatar que 95% freqüentaram a escola em algum momento da vida. Verificou-se ainda que 50% deles estão situados no nível do Ensino Fundamental, sendo 28% na primeira fase (1ª a 4ª série) e 22% na segunda fase (5ª a 8ª série). Os não alfabetizados totalizaram 5% e aqueles apenas alfabetizados representaram 23%, salientando-se que, neste caso, são os agricultores que sabem escrever somente o próprio nome (Figura 34). O nível médio representou 21% e o superior 1%, o que foi surpreendente já que a agricultora em questão terminou Pedagogia, é professora, e usa lenha da caatinga juntamente com sua família no preparo de produtos cerâmicos — potes, panelas e outros utensílios de argila. Superior completo 1% 13% Escolaridade Médio completo 8% Médio incompleto 22% 5ª a 8ª série 28% 1ª a 4ª série Alfabetizado Não alfabetizado 23% 5% Figura 34: Escolaridade dos agricultores pesquisados no município de Tenório-PB. A visão dos agricultores sobre o meio ambiente certamente influencia suas opiniões sobre flora, fauna e outros recursos ambientais disponíveis no meio em que estão inseridos. Os agricultores pesquisados demonstraram, em sua maioria, uma visão naturalista do meio ambiente, de acordo com a tipologia de Sauvé (1997), vendo-o como Natureza (37%) e como lugar pra viver (33%) (Quadro 2). O meio ambiente como fonte de recursos representou a visão de apenas 7% dos entrevistados. A concepção mais ampla, do meio ambiente como Biosfera (Sauvé, 1997), representou também a perspectiva de apenas 7% dos entrevistados (Figura 35). 65 Quadro 2: Concepções de Meio Ambiente na Educação Ambiental segundo Sauvé (1997). AMBIENTE RELAÇÃO CARACTERÍSTICAS Como Natureza Para ser apreciado, Natureza como catedral, ou preservado. como um útero: pura e original. Como Recurso Para ser gerenciado Herança biofísica, coletiva, qualidade de vida. Como Problema Para ser resolvido Ênfase na poluição, deteriorização e ameaças. Como Biosfera Como local para ser dividido Espaçonave Terra, “Gaia”, a interdependência dos seres vivos com os inanimados. Como Lugar para viver Educação ambiental (EA) A natureza com seus para, sobre e no, para cuidar do componentes sociais, históricos e meio ambiente. tecnológicos. Como projeto Para ser envolvido A natureza como foco na análise comunitário crítica, na participação política da comunidade. Como natureza 14% Como recurso 7% 37% Como problema Como lugar pra viver Como biosfera 33% 2% 7% Não sabe Figura 35: Concepções dos agricultores de Tenório-PB sobre meio ambiente, de acordo com Sauvé (1997). Comparando-se estas visões com as registradas nos trabalhos de Barzano e Selles (2000) e Tamaio (2002), pode-se dizer que a visão do ambiente como Natureza por parte dos atores sociais pesquisados, divide-se entre Romântica, Naturalista e, em menor escala, Generalizante, assim como a percepção de meio ambiente como Lugar para viver corresponde à concepção Sócio-ambiental dos mesmos autores. Ainda de acordo com Barzano e Selles (2000) e Tamaio (2002), as percepções do meio como Recurso e 66 Problema podem se enquadrar na concepção Antropocêntrica (Utilitarista), e a visão como Biosfera pode ser entendida como Biocêntrica. Questionados sobre o que seria a caatinga, 95% dos agricultores afirmaram já ter ouvido falar no assunto, com algumas respostas associando o termo à expressão “maucheiro” e outras à forma de cultivo ou fenômeno climático. Para classificar as concepções sobre caatinga foi criada a tipologia demonstrada no Quadro 3. Houve a necessidade de criar uma tipologia própria, uma vez que não se encontrou literatura específica sobre este tema. Quadro 3: Tipologia para concepções sobre caatinga na visão de agricultores no município de Tenório-PB. CAATINGA (Visão) Florística Naturalista RELAÇÃO Mata ou vegetação Problematizada Elementos da natureza, seres vivos, fatores abióticos, etc. Necessita ser resolvida Utilitarista Para ser utilizada Sinonimista Odor, clima ou técnica agrícola Amplo-Paronimista Outros significados além de flora Conservacionista Deve ser conservada CARACTERÍSTICAS Interpreta como elementos da vegetação ou mata de determinada localidade ou do Nordeste brasileiro. A caatinga aparece como natureza de modo geral, com seres vivos e fatores ambientais. Ênfase nos problemas causados por ações humanas, desmatamento, queimadas, etc. Ênfase no meio como fornecedor de recursos que devem ser usados pelo ser humano. Equívoco de significados, relacionado a odores (mal cheiro), fenômenos climáticos (seca) ou técnicas de cultivo agrícola. Relaciona a um tipo de mata ou vegetação diferenciando-o porém do significado de odor fétido. Analisa como lugar, ambiente a ser conservado. A concepção de caatinga mais representativa foi a que se refere à Florística, isto é, 75% dos agricultores relacionam a caatinga a algum tipo de vegetação ou mata. É um 67 percentual elevado, considerando que a caatinga é mencionada como algo que não é percebido de forma correta por seus habitantes (SANTANA, 2003). Um dos fatos que pode ter influenciado neste percentual é o nível de escolaridade dos agricultores pesquisados, demonstrado na Figura 33, deixando implícito que estes já tiveram, ou pelo menos, deveriam ter tido noções básicas sobre o bioma aqui abordado. Entretanto, vale ressaltar que a percepção da caatinga como mata não está necessariamente associada à sua importância ecológica para os atores sociais que nela vivem. A percepção da caatinga relacionadas às visões sinonimista e naturalista representaram 8% e 6%, respectivamente, e aqueles que não souberam definir a caatinga sob nenhum aspecto representaram 5%. A necessidade de conservação do bioma foi expressa por apenas 1% dos agricultores (Figura 36). 75% Classificação de Caatinga Florística Sinonimista 8% Naturalista 6% Não sabe 5% Problematizada 2% Recurso (Utilitarista) 2% Amplo-Paronimista 1% Conservacionista 1% Figura 36: Concepções da caatinga para os agricultores de Tenório-PB. Considerando que houve várias menções à caatinga como forma de mata ou vegetação, procurou-se classificar as definições de acordo com a tabela 10. A concepção de Mata, Plantas ou Vegetação procurou abranger todas as definições de caatinga como um vegetal ou um conjunto de vegetais, de maneira indeterminada, sem enfatizar nenhum caráter regional ou climático na afirmação dada. 68 Na categoria de Mata típica do Nordeste ou de áreas nordestinas, procurou-se colocar indicações que trouxessem alguma menção regional da fala do pesquisado. Da mesma maneira, na definição de caatinga como Vegetação com adaptações à seca, procurou-se expressar de forma direta ou indireta o fenômeno climático das secas periódicas da região ou ainda algum tipo de adaptação anatomo-fisiológica das plantas descritas. A concepção daqueles que consideram caatinga como uma Vegetação fechada, isto é, mais conservada, densa e de difícil acesso é bem expressa com as frases dos entrevistados, de acordo com a Tabela 10. Geralmente, estes agricultores consideram a mata nativa no seu estádio mais puro e o menos intocado possível. Tais falas, dos agricultores, nas conversas informais, estão muito relacionadas com a visão naturalista do meio ambiente. Tabela 10: Classificação da Caatinga como mata ou vegetação, na percepção dos agricultores de Tenório-PB Tipologia F L O R Í S T I C A Mata, Plantas ou Vegetação (Geral) Mata típica do Nordeste (Regionalista) M A T A O U V E G E T Vegetação com adaptações à seca Definições dadas pelos agricultores “Árvore” “Árvores pequenas” “Diversidade de árvores” “Floresta baixa e campo rasteiro” “Mata com plantas espaçosas” “Plantas variadas” “Tipo de mata” “Mata deserta do Nordeste” “Mata do sertão nordestino” “Plantas do cerrado que existem mais no sertão paraibano” “Vegetação ou mata do nordeste” “Mata com plantas secas e derrubadas” “Plantas que agüentam seca” “Plantas revestidas na época do inverno” “Vegetação seca com espinhos” “Mata bruta com plantas Valor absoluto de cada opinião Percentual 1 1 1 1 1 50% 1 32 1 2 1 27% 17 1 4 1 8 2 18% 69 A Ç Ã O Vegetação fechada (Conservada) grandes” 1 “Mata virgem” “Plantas de carrasco, serra 1 ou gruta” 5% A percepção de modificação da Caatinga ao longo do tempo, foi verificada questionando-se os agricultores se estes percebiam alguma modificação na cobertura vegetal atual em relação àquela que eles memorizavam de tempos anteriores. Verificouse que 96% dos entrevistados afirmaram perceber diferenças da flora atual para a antiga. Quando se analisou essas mudanças como positivas ou negativas, o mesmo percentual (96%), referiu-se a mudanças negativas para a fase atual Entre aqueles que demonstraram uma visão negativa da fase atual, o desmatamento foi apontado como a principal mudança observada, seguido por destruição antrópica, diminuição da biodiversidade, alterações ou modificações naturais e urbanização correspondendo a 68%, 11%, 14%, 6% e 1% das respostas, respectivamente. Entre aqueles que viram as modificações da caatinga como algo positivo, 50% apontaram melhorias em virtude da fase climática (período chuvoso) que estavam vivenciando na época das entrevistas e 25% consideraram que atualmente há maior acesso aos recursos advindos da caatinga, como o extrativismo vegetal e a realização de cultivos e pecuária extensiva nas áreas arrendadas. O percentual restante, 25% dos agricultores que julgaram observar mudanças positivas, não explicitaram claramente suas razões, afirmando serem poucas as modificações na cobertura vegetal da caatinga (Figuras 37 e 38). 70% Desmatamento 60% Destruição por exploração humana 50% 35% 30% Diminuição da Biodiversidade 20% Alterações naturais 50% 40% 10% 0% 45% 40% Recurso/Cultivo 30% 25% 20% 15% Urbanização Fases anatomofisiológicas e climáticas 10% Poucas diferenças 5% 0% Figura 37: Causas de modificações negativas no Bioma caatinga ao longo do tempo. Figura 38: Causas de modificações positivas no Bioma caatinga ao longo do tempo. 70 O percentual de trabalhadores que afirmaram usar algum recurso da caatinga foi de 96%, sendo a lenha apontada por 80% destes. A utilização da madeira está mais relacionada a atividades de carpintaria ou construção e alimentação refere-se principalmente à coleta de frutos nativos como umbu, confundindo-se, por vezes, com cultivos de algumas culturas como a mandioca. A utilização como pastagem reflete o pastoreio de caprinos e bovinos e o uso medicinal já está implícito na própria palavra (Figura 39). É válido ressaltar, neste ponto, a constatação de Albuquerque e Andrade (2002b) ao afirmar que, quanto ao estudo da percepção, no qual o campo de enfoque é o processo mental dos envolvidos, faz-se necessária uma metodologia que abranja todas as formas de expressão da percepção pelo ser humano. De modo geral, a população que vive em regiões de caatinga tende a conceber os recursos vegetais dentro de um significado muito amplo de utilidade, que necessariamente não tem a ver com a compreensão dos cientistas. Assim o uso que descrevem pode está relacionado com atividades que não foram diagnosticadas nas respostas dos entrevistados. 3% 12% 4% Madeira 10% Pastagem Medicinal Lenha 71% Alimentação Figura 39: Recursos retirados da caatinga no município de Tenório, segundo trabalhadores rurais entrevistados. 71 Figura 40: Retirada de lenha a caminho de área conservada na Bandarra, Tenório-PB. Foto: Ana Nery Batista Aurino Figura 41: Lenha empilhada para venda, a caminho de área conservada na Bandarra, Tenório-PB. Foto: Ana Nery Batista Aurino A retirada de lenha é uma atividade comumente praticada na caatinga e no município de Tenório a situação não é diferente. No atual estudo verificou-se que 91% dos agricultores pesquisados já trabalharam ou tiveram algum membro de suas famílias trabalhando no corte de lenha para algum tipo de uso direto ou indireto. Isto reforça as observações de Aurino, Trovão e Silva (2004), que afirmaram ser a retirada de lenha, nesta área do Seridó Paraibano, atividade comum no cotidiano da população local. As atividades para as quais mais se retira ou corta-se lenha da vegetação nativa no município de Tenório são, respectivamente, em ordem decrescente: uso doméstico ou terceirizado da lenha, representando 44%; venda de lenha, com 37%; utilização em carvoeiras, 18%; e como profissão, 1% (Figura 42). De acordo com as respostas dos pesquisados, o uso doméstico refere-se principalmente à utilização da madeira ou lenha como fonte direta de energia no cozimento de alimentos para a própria família e na queima de tijolos, telhas ou produtos cerâmicos para uso próprio ou para vendas em pequena escala e na forma de mourões e estacas para cercar propriedades ou, ainda, na construção de currais para os caprinos ou bovinos. 72 1% 18% 37% Carvoeiras Uso doméstico ou terceirizado Venda da lenha 44% Profissão Figura 42: Utilização da lenha retirada da caatinga pelos agricultores do município de TenórioPB. As espécies que compõem a flora da caatinga constituem um conjunto muito amplo, de acordo com inúmeros trabalhos de levantamentos florísticos realizados em várias localidades espalhadas por todo o semi-árido brasileiro. Foram citadas pelos agricultores envolvidos na atual pesquisa, cerca de 80 nomes populares de plantas que ocorrem no município de Tenório. Estes podem corresponder ou não a 80 espécies, uma vez que várias espécies podem ter o mesmo nome vulgar. Porém, este aspecto não foi analisado neste momento, no qual se procurou fazer apenas uma análise das espécies mais reconhecidas pelos entrevistados como nativas da flora da caatinga. Numa outra abordagem do presente estudo, compôs-se uma lista florística com 83 espécies da flora arbustivo-arbórea da caatinga, no município de Tenório-PB. Constatou-se que há um grande número de plantas da flora nativa conhecidas pelos agricultores, porém estes citaram também como plantas da caatinga espécies exóticas introduzidas, o que já era esperado dado o nível de adaptação das espécies citadas, a exemplo da algaroba e do aveloz ou gravito . Foram citadas aproximadamente 500 plantas que eles acreditavam ser da flora local, dentre estas, as plantas nativas se destacaram sobre as demais, com mais de 400 menções nas respostas dos agricultores. As espécies citadas foram classificadas em quatro tipos distintos: nativas, exóticas introduzidas, cultivadas e de outro tipo vegetacional. As 73 plantas nativas da caatinga obtiveram 89% das citações (Figura 43). Aqueles que não souberam precisar nenhuma espécie de planta representaram apenas 2% dos entrevistados. 5% 5% 1% Nativas Exóticas introduzidas Cultivadas 89% De outro tipo vegetacional Figura 43: Classificação das espécies listadas pelos agricultores pesquisados em Tenório-PB. As plantas nativas mais citadas estão representadas na Figura 44. A catingueira foi a espécie mais lembrada, fato esperado já que seu nome se assemelha com o da vegetação. A jurema e o marmeleiro, espécies comumente encontradas nos levantamentos da flora da caatinga, também foram bem representadas, sendo as mais citadas pelos agricultores depois da catingueira. Em ordem decrescente de acordo com o número de vezes que foram mencionadas, as espécies mais lembradas, excluindo-se as três primeiras, foram: umbuzeiro, angico, mandacaru, joazeiro, baraúna, facheiro, xiquexique, aroeira e umburana (Figura 44). As espécies mais citadas pelos agricultores também estão relacionadas ao tipo de uso que representam no seu cotidiano. Das 12 espécies mais citadas (Figura 44), 9 têm importância econômica pela lenha ou madeira que fornecem. 74 60 Catingueira 50 40 Jurema Marmeleiro 30 Angico 20 Umbuzeiro Baraúna Mandacaru Facheiro Xiquexique Joazeiro Aroeira Umburana 10 0 Ajique Alecrim Amarra-cachorro Angico Angico-branco Ariú Aroeira Babosa Baraúna Barriguda Burra-leiteira Cacto Canafistula Caroá Catingueira Coração-de-nêgo Craibeira Crô-de-frade Crota Cumaru Facheiro Favela Guaxuma Imbiratã Jatobá Jicurí João-mole Joazeiro Jucá Jurema Jurema-preta Macambira Malva Mandacaru Maniçoba Marmeleiro Mofumbo Mororó Muçambê Mulungu Palmatória Pau-darc’o Pau-pedra Pega-pinto Pereiro Pinhão Pitombeira Quebra-faca Quixabeira Sucupira Umburana Umbuzeiro Umbuzeiro-bravo Urtiga Xiquexique Figura 44: Espécies nativas mais lembradas por agricultores no município de Tenório-PB. Quando se tratou das espécies que, na visão dos agricultores, diminuíram em número atualmente, o percentual de nativas citadas baixou de 89% para 66%, enquanto que o de plantas cultivadas e exóticas aumentou de 5% para 21% e 11% respectivamente, comprovando a degradação que atinge a caatinga, principalmente em função de atividades agrícolas. Porém, é importante ressaltar que os questionamentos se deram em torno das espécies que diminuíram ao longo do tempo. As respostas, por sua vez, demonstraram que atualmente há menos nativas. Acredita-se que estas respostas estejam vinculadas a cultivos realizados em larga escala no passado e que nos dias de hoje já não são mais praticados, a exemplo das culturas do algodão e do sisal. Entre as exóticas introduzidas, as mais lembradas foram algaroba e aveloz ou gravito, tendo sido a primeira, muito explorada na região, onde foram feitos grandes 75 investimentos governamentais para seu plantio, como mais uma solução para a seca nordestina. A segunda é muito usada em cercas vivas, já que oferece um emaranhado de galhos que se tornam barreiras para muitos animais. Notou-se, porém, que sua utilização está diminuindo, não sendo mais tão freqüentemente observada atualmente, fato que pode advir de suas propriedades tóxicas e principalmente, pela facilidade e rapidez que as cercas de arrame farpado oferecem ao agricultor no momento delimitar as propriedades. As plantas nativas mais lembradas quando se perguntou sobre a diminuição da diversidade florística foram: joazeiro, craibeira, umburana, aroeira, catingueira e baraúna. O percentual de plantas cultivadas expandiu-se consideravelmente quando se questionou os agricultores sobre as plantas que mais aumentaram nos últimos anos, comprovando definitivamente que a vegetação nativa está cedendo lugar para plantios agrícolas e atividades pecuárias. As plantas mais freqüentes nas regiões de caatinga foram bem representadas nas observações dos agricultores (Figura 45). Umbuzeiro 12 Jurema-preta 10 8 Jurema Marmeleiro 6 Juazeiro 4 2 0 Alecrim Angico Ariticum Barriguda Catingueira Crô-de-frade Icó João-mole Juazeiro Jurema Jurema-preta Maniçoba Marmeleiro Palmatória Pitombeira Quebra-faca Umburana Umbuzeiro Urtiga Figura 45: Vegetais nativos que aumentaram de número nos últimos tempos na flora de caatinga do município de Tenório-PB, segundo agricultores locais. 76 As juremas foram as mais citadas como espécies que aumentaram a quantidade de indivíduos na flora da caatinga em Tenório (Figura 45). Este fato é confirmado em vários trabalhos florísticos e fitossociológicos que indicam estas espécies entre as dominantes em áreas de caatinga antropizada (ARAÚJO 2000, PEREIRA et al., 2001, CORRÊA; COSTA et al., 2001, CANDIDO; BARBOSA; SILVA, 2002, ANDRADE et al., 2005, e SANTANA; SOUTO, 2006). Um fato não esperado foi a citação do umbuzeiro como espécie que aumentou consideravelmente na flora nativa da caatinga. Embora não corresponda à realidade, esta indicação pode ter sido influenciada pelo fato de que o umbuzeiro geralmente é poupado nos processos de corte, sobressaindo-se nos espaços abertos. Um outro fator poderia ser a atual valorização econômica do fruto desta espécie – o umbu – que é mais valorizado, econômica e culturalmente, que a maioria das frutíferas nativas do Nordeste do Brasil. As espécies cultivadas e exóticas mais citadas com relação ao aumento do número 1 Exóticas introduzidas Plantas Cultivadas de indivíduos, estão demonstradas nas Figuras 46 e 47 respectivamente. 1 0 10 20 30 40 50 Acerola Agave Algodão Bananeira Cajueiro Cana Capim Coqueiro Girassol Goiaba Graviola Jaca Laranjeira Mangueira Milho e feijão Palma Pinha 60 Figura 46: Espécies cultivadas que mais aumentaram de número atualmente, segundo agricultores de Tenório-PB. 0 10 Algaroba 20 30 Figo 40 Mamona Figura 47: Espécies exóticas que mais aumentaram de número atualmente, segundo agricultores de TenórioPB. 77 O cajueiro foi, sem dúvida, a espécie cultivada mais citada entre os agricultores locais, seguida pela mangueira e a pinha. Supõe-se que o valor econômico e cultural dos frutos destas espécies tenha influenciado este resultado. A algaroba foi a exótica mais lembrada, e a mamona aparece de maneira muito sutil nas citações dos agentes sociais envolvidos na temática agrícola do município de Tenório. Entretanto, há indícios de que isto possa ser modificado brevemente, já que plantios de algaroba não são mais incentivados e os da mamona tendem a crescer, sendo atualmente uma das principais espécies utilizadas na produção de biodiesel. O figo é uma árvore muito usada na arborização de ruas e avenidas, bem adaptada ao clima semi-árido e que permanece verde durante todo o ano. Atualmente, porém, não tem sido tão utilizada como dantes, abrindo espaço à chamada Acácia e ao Flamboyant. A situação da caatinga piorou, de acordo com 83% dos agricultores entrevistados, e melhorou para 17%. A piora ou melhora foi relacionada à diversidade vegetal. Para explicar as razões pelas quais a flora nativa vem diminuindo ou piorando, classificou-se as respostas dos agricultores, em quatro tipos de causas: 1) Causas antrópicas – que são provocadas direta ou indiretamente pelas alterações humanas no ambiente, como queimadas, desmatamento, caça e pesca predatória, extrativismo desordenado, etc.; 2) Causas Naturais – as mudanças ocorreram pelas modificações graduais e naturais da própria natureza, como fatores climáticos, quantidade de chuvas, etc.; 3) Generalistas – ênfase de que “tudo” mudou sem necessariamente explicar o que representaria essa totalidade e 4) Utilitarista – preocupação com a diminuição dos recursos naturais priorizando aqueles utilizados pelo homem, como madeira, pastagem entre outros. Constatou-se que os agricultores percebem e reconhecem que as maiores mudanças na diversidade vegetal são causadas pelo homem, que altera seu ambiente, degradando-o (Tabela 11). Na percepção daqueles que sugeriram melhorias na flora da caatinga, ao longo do tempo, o maior destaque foi dado à facilidade de utilização dos recursos vegetais nos dias de hoje, o que representou 40% das afirmações dos trabalhadores. Depois deste enfoque, as visões mais representativas foram a naturalista, que prioriza a natureza de uma forma geral, observando o espaço temporal que vivenciavam no momento das entrevistas (período de chuvas, “riqueza” na fala dos agricultores), e a antropocêntrica, pela mesma 78 motivação dos utilitaristas, que acham que o recurso deve estar disponível ao ser humano sempre que este necessitar utilizá-lo, com respectivamente 24 e 18%. Tabela 11: Causas de perda na diversidade vegetal da caatinga, segundo agricultores de TenórioPB. Classificação Principais causas de acordo com agricultores Percentual da classificação “Desmatamentos e queimadas” “Foi destruída pelo homem” “Se acabando as plantas e animais” Causas antrópicas “Estão mais destruídas por causa 91% das pessoas” “Secou, pois os rebanhos comeram” “Tem menos chuvas” 2% Causas naturais “Tudo mudou” 1% Generalista “Tem menos pastos” Utilitarista “Tem menos plantas de 6% remédios” De acordo com Albuquerque e Andrade (2002b), compreender a percepção das pessoas que vivem em um determinado ambiente, sobre os recursos locais e suas formas de relacionamento e condutas com relação a esses recursos, é imprescindivel na definição de estratégias para sua utilização e conservação. Desta forma, se o antropocentrismo e suas conseqüências foram as principais causas da degradação da flora da caatinga, na percepção dos agricultores de Tenório, o desmatamento foi a maior dessas causas (Figura 48). Isto não é um fato novo, porém confirma, de forma empírica, as causas da diminuição da flora nativa. 79 Desmatamento 2% 2% 5% Desmatamentos e queimadas Destruição antrópica 2% 1% Extinção de plantas e animais Mais destruídas 19% 63% 6% Menos plantas medicinais Queimadas Pecuária extensiva Figura 48: Principais causas antrópicas para diminuição da flora na percepção de trabalhadores rurais de Tenório-PB Apesar disto, a preservação da caatinga é importante e possível para 84% dos agricultores. Com relação à preservação do bioma, criou-se uma classificação baseada nas percepções dos entrevistados com tipologias que incorporaram visões positivas e negativas do processo (Tabela 12). Tabela 12: Percepção dos agricultores de Tenório sobre as possíveis razões para preservação ou não do Bioma caatinga em Tenório-PB. Possibilidade de causa para preservação do Bioma caatinga (Visões) Características Percepção positiva (Porque SIM) Utilitarista Conservacionista Conscientização Ecossistêmica Naturalista ou Romântica Indiferente Antropocêntrica Ato Criminoso (Legislação) Regionalista 84% Como recurso Para ser conservado Necessita de conscientização da população Os elementos da natureza estão interligados, incluindo o homem. A natureza de forma pura Não sabem porque deve ser preservado O homem precisa de um lugar pra viver É crime “É da nossa região” Percentual 31% 27% 22% 6% 6% 4% 2% 1% 1% 80 Percepção negativa (Porque NÃO) 16% Inconsciência humana Falta consciência no ser humano Pobreza de espécies (Seca) É vista como feia, seca e pobre em biodiversidade Utilitarista Precisa-se usar os recursos Indefinida Não se distingue porque não deve ser preservado Falta legislação Carência legislativa Generalista - problematizada “Tudo vai se tornar deserto” Sinonimista (confusão com odor) 31% 19% 19% 13% 6% 6% 6% É positivo que a maioria dos agricultores perceba que a caatinga deva ser preservada, estando dispostos a aprender e ajudar neste processo. Porém, não há incentivos para que isto ocorra, nem mesmo o conhecimento adequado por parte dos possíveis agentes multiplicadores. Esta é uma questão que deve ser trabalhada juntamente a população, com investimentos em educação e políticas públicas direcionadas para esse fim. Uma medida consolidada com este intuito foi a adoção do Plano Nacional de Manejo Florestal Sustentado da Caatinga, instituído pela Instrução Normativa nº 1, de 06 de Outubro de 1998 (IBAMA, 1998). O que resta saber é se a população envolvida, percebendo as alterações constatadas no presente trabalho, está efetivamente disposta a mudar hábitos culturais arraigados em seu modo simples de viver, ou se trata-se apenas, de mais uma constatação de que um ou outro faz a sua parte, mas não pode haver sustentabilidade, por falta do pensamento coletivo, da percepção “do todo”. 81 5. CONCLUSÕES Os dados obtidos e as análises realizadas permitiram chegar às seguintes conclusões: 9 A diversidade florística das áreas em melhor estado de conservação é efetivamente maior do que aquelas que passaram pelo processo de corte raso no período de até 10 anos, pois à medida que aumenta o tempo de sucessão pós-corte aumenta também o número de famílias e espécies nas áreas estudadas; 9 As maiores diferenças, entre os ambientes mais e menos conservados, podem ser percebidas na densidade e na área basal, que foram decrescendo severamente das áreas melhor conservadas para as cortadas mais recentemente, apontando para a necessidade de adoção de cuidados especiais para um eficaz manejo; 9 O tempo de vinte anos pós-corte raso mostrou-se suficiente para que a diversidade florística da área se restabelecesse, ou retornasse à condição semelhante a áreas que não sofreram corte há pelo menos 50 anos; 9 As famílias Leguminosae e Euphorbiaceae são as mais diversas, em função do número de espécies e, também, do maior número de indivíduos; 9 O Sítio Bandarra, apesar de apresentar um número de espécies menor do que o Sítio Várzea do Cariri, apresentou uma maior diversidade, demonstrando que a população arbustivo-arbóreo da área, está melhor distribuída; 9 A vegetação estudada nesta área do Seridó da Paraíba é muito semelhante a do Seridó Norte-rio-grandense, tanto pela diversidade florística mais baixa que outras áreas de caatinga, quanto pela semelhança ente famílias, gêneros e espécies presentes; 82 9 Embora as áreas mais conservadas sejam mais diversas, estas provavelmente passaram por corte seletivo mais recentemente, entre 10 e 20 anos após o corte inicial, o que se evidencia pela grande dominância de espécies de Croton, comparativamente com a área que sofreu o corte raso há cerca de 10 anos, e que apresentou um equilíbrio maior entre as espécies; 9 Há uma preferência por Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. no processo de corte seletivo pelos agricultores, o que foi constatado por sua baixa densidade nas áreas em melhor estado de conservação; 9 A diversidade florística nas áreas de caatinga se restabelece a médio e longo prazos, porém, os processos antrópicos de uso e extração vegetal sem manejo adequado, fazem com que a recuperação dessas áreas nunca atinja um equilíbrio, estando permanentemente em estádio de sucessão secundária; 9 A população que vive na área estudada e trabalha no meio rural percebe as modificações ocorridas no ambiente, ao longo do tempo, e sabe indicar as causas geradoras dos impactos. Ela compreende o que é caatinga e conhece as plantas que ocorrem na região, porém ainda confunde espécies nativas com espécies exóticas e cultivadas; 9 O desmatamento é reconhecido como a causa principal da degradação da área e a lenha é o recurso mais utilizado pela população, seja como fonte de energia direta ou para a venda em decantamentos (caieiras), padarias e casas de farinha. √ Os agricultores percebem a necessidade de preservação da Caatinga. No entanto, esta percepção demonstra, em maior grau, a visão antropocêntrica e utilitarista advinda da necessidade de uso dos recursos extraídos da flora nativa da região; 83 9 É necessário investir em educação ambiental para que a população entenda melhor a importância da Caatinga na sustentabilidade do ambiente em que vive e para que ocorram melhorias na qualidade de vida de todos. 84 6. REFERÊNCIAS AB'SABER, A.N. Problemática da desertificação e da savanização no Brasil intertropical. São Paulo: Instituto de Geografia da USP, 1977. 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