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CARVALHO, D. O. de.; SALGADO, K. A. v. 05, nº 2, p. 24-36, JUL-DEZ, 2013.
Revista Eletrônica “Diálogos Acadêmicos” (ISSN: 0486-6266)
PRODUZIR CAFÉ NO BRASIL: O PARADIGMA DA VENDA DA SAFRA
CARVALHO, Daltro Oliveira de 1
SALGADO, Kêlcio Antonio 2
RESUMO
Este estudo parte da hipótese de que é irrisória a participação dos pequenos e
pulverizados produtores, na invejável riqueza gerada pela indústria do café. As
vezes o café é vendido abaixo do custo de produção. Na primeira parte, caracterizou
o ambiente mercadológico do café no Brasil, em Minas Gerais, Sul e Sudoeste de
Minas Gerais. A riqueza gerada por uma única saca de café, em contraste com os
efeitos adversos gerados pela queda do preço do café. As mudanças ocorridas nos
últimos anos, criaram novas modalidades de negócio e a constante queda do preço
do café pago ao produtor, mesmo não sendo significativo o custo do processo
produtivo no preço final do café industrializado. Em seguida, no objetivo geral tratousede analisar o mercado nos aspectos da oferta mundial, da produção e o consumo.
A metodologia utilizada foi teórica descritiva a partir de referencial bibliográfico
Palavras Chaves: Café, mercado, oferta mundial, produção, consumo.
ABSTRACT
This study is part of the hypothesis that the negligible participation of small producers
and sprayed in the enviable wealth generated by the coffe industry. Sometimes coffe
is sold below the cost of the production. In the first part, characterized the market
environments of the coffe in Brazil. Minas gerais, South an Southwest of Minas
Gerais. The wealth generated by a single bag of coffe, in contrast to the adverse
effects, generated by the falling of its price. The changes that have occurred in recent
years, created new forms of business and the steady decline in coffe prices paid to
the producer, not even being mean to the cost of the production process in this final
price of the industrialized coffe. Then the overall goal heated to analyze the market in
the aspects of global supply, production and consumption. The methodology used
was descriptive theoretical framework from bibliographical.
Keys Words: Coffe, bussines, word suplly, production, consumption.
1
Doutor em Serviços Social pela UNESP de Franca-SP, Docente da UNIVESP de São Paulo e do
Curso de Gestão da Produção Industrial e Análise e Desenvolvimento de Sistemas da FATEC
Franca-SP. E-mail: [email protected].
2
Pós-Graduação em Gestão Empresarial pela Uni-Facef – Centro Universitário de Franca-SP.
http://www.uniesp.edu.br/fnsa/revista/
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INTRODUÇÃO
Não se pode falar em cotação de preços do café arábica sem levar em
consideração o ambiente mercadológico do agronegócio do café no Brasil, maior
produtor mundial e segundo maior consumidor.
A Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), em sua estimativa da
produção de café do Brasil para a safra 2012, calcula em 50.826,4 mil sacas, em
uma área de 2.049,738 mil hectares (CONAB, 2012). Com certeza é a maior safra já
produzida pelo País, assim o Brasil segue na liderança da produção mundial.
O fato novo é que o Brasil pode se tornar também o maior consumidor. De
acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Café, (ABIC, 2012), o consumo
interno de café, foi avaliado de novembro de 2011 a outubro de 2012, com um
consumo estimado de 20,47 milhões de sacas, o Brasil se aproxima do líder mundial
em consumo de café, os USA, com 23 milhões de sacas anuais. O fato é esperado
pela ABIC para 2014, pois o consumo aqui cresce mais rápido.
De acordo com César de Castro Alves, Engº. Agr. e Analista da MB Agro, “As
exportações de pelo menos 30 milhões de sacas projetadas para este ano também
garantem ao Brasil a liderança nas exportações mundiais de café” (CAFÉ POINT,
2012).
O Estado de Minas Gerais teve uma produção estimada em 26,94 milhões de
sacas cultivados em 1.028.425 ha, e a região Sul e Centro Oeste de Minas uma
produção de 13,79 milhões de sacas em 518.082 ha (CONAB, 2012). Ambos se
fossem um país, ainda assim seriam o segundo maior produtor mundial, no caso do
Estado de Minas Gerais ou no caso da Região Sul e Centro Oeste de Minas Gerais
local da nossa pesquisa. Neste ambiente, temos uma grande quantidade de
pequenos produtores, com uma produção muito variável entre si, devido ao nível de
tecnologia de cada um, e mesmo ao longo dos anos, devido à bienalidade do café.
Há também que considerar, que nos últimos 18 anos, não houve a ocorrência
de eventos climáticos como a geada, que pudesse dizimar a produção brasileira por
um período mais longo. Os eventos climáticos nestes últimos anos, se referem ao
déficit hídrico ou granizo, e são de ocorrência localizada.
Segundo Lewin (2004), no que se refere ao ambiente institucional, vê-se que
a produção de café é responsável por pelo menos 20% da renda de mais de 50
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países de economias subdesenvolvidas, particularmente, países da África e América
Central. Dessa forma, a queda de preços da commodity pode assumir proporções de
calamidade pública.
Quando analisamos o valor gerado por uma única saca de café, do lado do
consumidor, que pode chegar facilmente a US$ 6.000,00, a parte que vai para o
produtor se torna irrisória, mesmo quando são praticados bons preços. Comprova-se
que, o aumento do consumo de café fora de casa em cafeterias, não é sinônimo de
maior ganho para os produtores. O custo do café, em um cappuccino, servido nestas
lojas representa apenas 6% do custo total (FITTER; KAPLINSKY, 2012, p. 11-12).
As mudanças ocorridas nos últimos anos no mercado de café, criaram várias
novas modalidades de negócios, aumentaram o nível e a precisão de informações
sobre a produção, os estoques, ocorrências climáticas e previsões nos países
produtores, e a regulação no mercado futuro de commodities, possibilitaram criar
uma maior transparência e analogia, uma vez que, as cotações da BMF (Bolsa de
Mercadorias e Futuros, São Paulo), mantêm uma relação de paridade com a bolsa
de Nova York.
Há anos o preço do café pago ao produtor vem caindo, e a razão fundamental
dessa queda é a clássica relação entre oferta, demanda e câmbio. A análise
histórica mostrou que o preço do café se fixa principalmente em função da oferta e
da procura pelo produto (DÁVILA, 2010).
Esta situação de mercado, tem levado os cafeicultores, a uma perda
significativa de sua renda, provocando descapitalização e endividamento. Muitas
vezes, o café é vendido abaixo do custo de produção.
Tabela 1: Representativa dos custos de produção estimados do café arábica – safra
2012/2013, para as localidades e produtividades indicadas:
LOCALIDADES
PRODUTIVIDADE (sc/ha)
CUSTOSTIMADO (R$)
Franca-SP
25 sc/há
R$ 440,00
São Sebastião do Paraíso-MG
23 sc/há
R$ 384,39
Guaxupé-MG
30 sc/há
R$ 339,39
Fonte: CONAB (2012)
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Tabela 2: Representativa do Indicador CEPEA, para liquidação de Contratos
Futuros de café arábica da Bolsa de Mercadorias e Futuros de São Paulo:
CAFÉ ARÁBICA
28/02/2013
28/03/2013
R$ 310,20
R$ 300,27
Fonte: CEPEA (2013)
A comparação entre as duas tabelas nos mostra que, o preço de mercado do
café arábica em 28/02/2013 e 28/03/2013, apresentados na Tabela 2, é inferior ao
seu custo de produção estimado, para as localidades e produtividades apresentadas
na Tabela 1.
Por outro lado, a riqueza gerada pela indústria do café é invejável, e um
pequeno percentual a mais que fosse para estes produtores, teria pouca influência
no preço final e uma melhora significativa na renda dos cafeicultores. Em análises
feitas dos preços finais, nos supermercados do Reino Unido para cafés
instantâneos, cafés torrados e moídos, foram observados que o preço final do café
industrializado, apresenta grande variação em relação ao preço inicial. Quer o preço
dos cafés torrados e moídos, quer do café Premium, vendidos em supermercados.
Não sendo fundamental, portanto, o custo do processo produtivo no custo final do
produto (FITTER; KAPLINSKY, 2001).
O objetivo geral é analisar alguns fatores determinantes na formação do preço
do café arábica e a caracterização do mercado, na oferta da produção, na compra
da matéria prima pela indústria e na venda do produto final aos consumidores. O
objetivo específico será relacionar as formas de comercialização do café disponíveis
aos produtores, além do mercado físico à vista. A metodologia utilizada foi teórica
descritiva a partir de referencial bibliográfico
Qual a participação dos pequenos e pulverizados produtores de café do Brasil
na invejável riqueza gerada pela indústria do café?
Este trabalho tem por hipótese que é irrisória a participação dos pequenos e
pulverizados produtores de café do Brasil, no valor gerado pela indústria do café.
Produtores estes, que se comportam muitas vezes vendendo o café a
qualquer preço, de acordo com a necessidade de caixa, e têm dificuldades em fixar
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o preço do seu café, quer seja através do mercado futuro, venda a termo ou venda
antecipada, através da Cédula de Produto Rural.
A não fixação do preço, cria um ambiente propício a ação de fundos de
pensão e commodities e especuladores que atuam tanto na apreciação como na
depreciação das cotações do café, de modo que, o preço pago pela indústria está
cada vez mais distante do preço recebido pelos produtores. As cotações se mostram
em queda ao longo dos anos, e uma das causas, é a volatilidade, que é um fator
impeditivo para os produtores acessarem o mercado futuro, que ao invés de ajudar
na fixação de preço, acaba os afastando, devido aos altos aportes de curto prazo,
necessários para bancar as diferenças de margem e ajustes diários do contrato
(JUNQUEIRA, 2005).
Como gestor da Cooperativa Agropecuária de Cássia (COOPASSA), com
área de atuação em 10 municípios do sudoeste de Minas Gerais, sendo que, os
seus 2.676 associados têm no café, sua principal fonte de renda. O café na
COOPASSA representa 45% do seu faturamento, chegando a 60% quando se
considera toda a cadeia produtiva.
À Cooperativa, obriga-se agregar valor à produção de seus associados, na
maioria produtores familiares, assim nos chama a atenção o fato de uma pequena
parcela do valor gerado por uma saca de café retornar ao produtor.
O entendimento das modalidades de comercialização, disponíveis, propiciará
à Cooperativa uma maior eficiência na comercialização do café de seus associados,
no mercado físico à vista ou utilizando formas de comercialização alternativas, como
a venda a termo, por Cédula de Produto Rural ou no mercado futuro de
commodities, que poderão proporcionar um preço mais alto, suficiente para cobrir os
custos de se produzir o café.
1. CARACTERIZAÇÃO DO MERCADO DE CAFÉ, VERIFICANDO O QUE FOI
ESTUDADO SOBRE AS CONSTANTES OSCILAÇÕES DE PREÇO
1.1. Concentração
Segundo Dávila (2010), apesar da dificuldade de obter dados sobre a
aquisição de café verde, pelas multinacionais e sobre a participação das indústrias
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nos mercados consumidores que atuam, afirma que, este setor, apresenta
características de oligopsônio, um mercado com poucos compradores na aquisição
de café verde. De pulverização na produção e oligopólio na venda, caracterizado por
poucos vendedores do café industrializado nos mercados consumidores.
Em outro trabalho, diz que “a formação deste oligopsônio torna o mercado
muito mais atraente para as indústrias” (Dávila, 2009, p. 129).
Como exemplo, Dáavila afirma que nos anos 80 para um gasto com o café de
30 milhões de dólares pelos países consumidores, os países produtores ficavam
com 11 milhões de dólares. Já em 2005, o gasto dos países consumidores saltou
para 75 milhões de dólares e a parcela dos produtores caiu para 10 milhões de
dólares. Uma libra de café, (450 gramas), comprada em 2005 por US$ 1,00, passou
a ser comercializada a US$ 78,00 depois de processada e vendida em xícaras em
cafeterias (SILVA, et, al, 2008).
Outra comprovação da concentração do mercado é a influência dos Traders,
muitas vezes intermediários entre produtores e indústrias. Em 1999, as quatro
maiores Traders comercializaram 41% do café verde produzido em todo mundo Em
2006, as cinco maiores comercializaram 47% do café (DÁVILA, 2010).
Porém, ao estudar se as indústrias ampliam suas margens a custa do
empobrecimento dos produtores, não ficou comprovado, pois se o produto final da
indústria teve maior valor agregado, a matéria- prima, café, também sofreu alta.
Mas, se não foi o produtor quem lucrou, então quem lucrou?. Esta se tornou a
questão chave na pesquisa empírica realizada com representantes da COOXUPÉ
(Brasil)
e
FNC
(Colômbia),
as
duas
maiores
Cooperativas
mundiais
na
comercialização de café, e a conclusão foi: ”o mercado de café é atualmente
controlado pelo mercado financeiro e por fundos de pensão e commodities”
(DÁVILA, 2010, p. 130).
Alinhado com esta conclusão, estudando contratos futuros de café, como
alternativa para diminuir o risco de uma carteira, levantou-se a hipótese que
investimentos no mercado futuro de café ou outras commodities, pelos fundos de
pensão e commodities, como forma de diversificação nas carteiras e diminuição dos
riscos de seus portfólios, mostrou-se verdadeira, contudo não é suficiente para
explicar toda volatilidade no mercado futuro de café (JUNQUEIRA, 2005, p. 67).
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1.2. Pulverização da Oferta
O censo agropecuário de 2006 do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) estima que foram produzidas 2,3 milhões toneladas de café em
286.843 estabelecimentos rurais, sendo 70% café arábica e 30% café robusta,
sendo o café arábica, produzido por 200.859 estabelecimentos, com uma produção
total de 1.889.719 toneladas. São 174.542 estabelecimentos com área de produção
até
50
hectares,
que
produzem
1.152.060
toneladas.
Estes
87%
dos
estabelecimentos, produzem 61% do café. Os outros 13% dos estabelecimentos,
com área de produção superior a 50 hectares, são responsáveis por 39% da
produção de café arábica (IBGE, 2006).
De qualquer forma, pode-se concluir pela pulverização da produção de café
arábica do Brasil, mesmo existindo concentração de parte da produção nos
estabelecimentos com mais de 50 hectares de área plantada com café.
2. A PRODUÇÃO, O CONSUMO E A OFERTA MUNDIAL DE CAFÉ
A característica histórica do mercado internacional de café, mesmo quando a
safra anual fica menor que o consumo, os estoques conseguem suportar as
necessidades do mercado até a próxima safra. Esta realidade fica evidente no
gráfico abaixo, adaptado de Dávila (2010), que relaciona a oferta mundial de café de
1980 a 2013, com a produção e o consumo no mesmo período.
170000
160000
150000
140000
130000
120000
110000
100000
90000
oferta
80000
produç ã o
c ons umo
70000
60000
50000
40000
http://www.uniesp.edu.br/fnsa/revista/
30000
20000
10000
201
2/13
201
0/11
200
8/09
200
4/05
200
6/07
200
2/03
200
0/01
199
8/99
199
6/97
199
4/95
199
0/91
199
2/93
198
8/89
198
6/87
198
2/83
198
4/85
198
0/81
0
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Figura 1: Gráfico da Produção, o Consumo e a Oferta Mundial de Café
Fontes: OIC (2013)
De acordo com a Organização Mundial do Café - OIC (2013), relacionando a
produção dos diversos países produtores nas safras de 2000/01 a 2009/10, vemos
que em 10 anos, a produção cresceu de 110 milhões para 128 milhões. O aumento
dessa produção se deve principalmente ao Brasil, que de acordo com Saes (2008),
melhorou a produtividade de suas lavouras, mantendo a posição de maior produtor
mundial, e ao Vietnã, que rapidamente aumentou sua produção de robusta
superando a Colômbia, como segundo maior produtor. Nos anos seguintes, temos a
safra 2010/11 com produção de 133,5 milhões de sacas, 2011/12 com 135,9 milhões
de sacas e a safra 2012/13 com estimativa de 144,4 milhões de sacas, sendo as
maiores safras já produzidas se a estimativa for confirmada.
Já o consumo na década passada, 2000 a 2009, também de acordo com
dados estatísticos da Organização Mundial do Café - OIC (2013), iniciou-se com
111,5 milhões de sacas e terminou com mais de 130 milhões com um crescimento
médio de 2% ao ano. A estimativa mais atual da Organização Internacional do Café
projetou a manutenção do crescimento de 2% ao ano principalmente pelo aumento
do consumo nos países emergentes.
2.1. A Riqueza gerada pelo café
É evidente o crescimento do faturamento nos países consumidores pela
agregação de valor à cadeia nos produtos industrializados. Silva et al, (2008, p. 4243), mostra que:
países consumidores, nos anos oitenta, gastavam 30 milhões de
dólares com café, sendo 11 milhões a parte destinada aos países
produtores. Em 2005, o gasto com café nos países consumidores,
saltou para 75 milhões de dólares, enquanto que a parte destinada
aos países produtores caiu para 10 milhões. Uma libra de café
adquirida a um dólar passou a ser vendida até 78 vezes mais caro ao
consumidor final, depois de processada e vendida em cafeterias.
Fitter e Kaplinsky (2001), procurando identificar o incremento na parcela de
ganhos que ficaram com os países produtores e com os consumidores entre 1965 e
1999, comprova-se que, grande parte do incremento do preço do produto
industrializado, fica com os consumidores, porque a diferença entre o que se cobra a
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indústria de torrefação e o que se paga aos países consumidores é significativa.
3
CARACTERIZAÇÃO
DA
PRODUÇÃO,
DO
MERCADO
E
DA
COMERCIALIZAÇÃO DE CAFÉ
3.1. Como o Café é Produzido, especificidades da Cultura
Saes (2008, p. 81) explica com clareza o paradigma que vive o pequeno
produtor de café brasileiro:
O café é uma cultura perene com altos custos irrecuperáveis. O
cafeeiro leva de três a quatro anos para atingir a maturação
completa. Este ciclo prolongado determina que o setor produtor reaja
com muita lentidão aos estímulos de mercado. Um período de preços
altos estimula a produção por vários anos até que a oferta reaja
plenamente. E tão logo novos cafezais comecem a produzir, há a
tendência à superprodução, pois é necessário um longo período de
preços inferiores aos custos diretos para que os produtores decidam
abandonar seus investimentos, erradicando a lavoura. O mercado
funciona com pequenas barreiras à entrada e altas à saída.
Não é difícil imaginar o dilema de qualquer produtor em abandonar a
sua lavoura depois de ter investido quatro a cinco anos para sua
produção entrar em atividade. Os agentes tendem também a crer
que, no horizonte mais longo, os preços podem voltar a serem
compensadores (haverá uma geada ou seca providencial nas regiões
produtoras de outra localidade ou os produtores mais
descapitalizados irão abandonar a lavoura). Essa percepção de
negócio, denominada de escalada irracional do compromisso [...],
resulta em período de ajuste longo, quando considerado com relação
às culturas anuais.
3.2. Como comercializar o café de forma alternativa, além do mercado físico
A comercialização tradicional é o mercado físico de café à vista, em que o
produtor, vende de acordo com a cotação do dia, após ter suportado todos os custos
da produção e carregado o estoque até o momento decisivo da venda. Isto se torna
um paradigma, e muitas vezes, a decisão é adiada até que a necessidade de caixa a
obrigue.
Como alternativa ao mercado físico à vista, temos Cédula de Produto Rural
(CPR) e o mercado a termo, definidos por Silva (2011), como sendo a CPR, uma
negociação antecipada da safra pelo produtor, com recebimento à vista ou troca por
insumos agrícolas, utilizados na produção do café, e o mercado a termo, como a
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venda de quantidade e qualidade de café, a um preço fixado para liquidação futura.
São fontes baratas de financiamento e proteção contra riscos inerentes às atividades
agrícolas, comerciais e financeiras, argumenta o autor.
A alternativa de comercialização via mercado futuro, é realizada através de
contratos de venda em bolsa de mercadorias ou de opção de venda a preços
determinados. Ambos os contratos, podem ser liquidados a qualquer momento até a
data de vencimento. Na venda no mercado futuro, os ajustes do valor do café, são
diários e também, é necessário o depósito da margem de garantia. O produtor não
perde este dinheiro, mas precisa ter caixa para bancar estas despesas.
No mercado de opções, é negociado o direito de se vender uma quantidade
de café a um preço e data determinados, pagando prêmio por este direito, que pode
ser exercido ou não. Estas explicações estão no trabalho de Widonsky, C., 2.005,
que descreve o mercado de derivativos para commodities agrícolas. A vantagem de
se utilizar estas alternativas é que sabemos o preço que o café foi vendido.
CONCLUSÃO
Este estudo parte da hipótese que é irrisória a participação dos pequenos e
pulverizados produtores de café do Brasil na invejável riqueza gerada pela indústria
do café.
As pesquisas realizadas mostraram, no Brasil, um grande número de
pequenos estabelecimentos produtores de café, que produzem 61% do café
brasileiro, comprovando a pulverização da produção por pequenos produtores
(IBGE, 2006).
Também mostrou um mercado altamente concentrado, tanto na aquisição do
café verde, nas traders exportadoras quanto na venda pela indústria do café
processado com altíssima agregação de valor.
Quanto ao faturamento dos países produtores, este tem aumentado, pois
houve uma grande agregação de valor a matéria prima, café vendido em locais
especializados como as cafeterias, enquanto o faturamento dos países produtores
tem diminuído.
O preço do café torrado e moído vendido nestes locais especializados tem
grande variação, porém o custo do processo produtivo é pouco significativo no custo
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final.
O mercado de café ainda é controlado pelo mercado financeiro, por fundos de
pensão. O preço recebido pelos produtores fica cada vez mais distante do preço
pago pela indústria, a diferença fica com o mercado financeiro.
As cotações estão em queda ao longo dos anos devido a volatilidade que é
um fator impeditivo para os produtores acessarem o mercado futuro, e ao
comportamento histórico que a oferta de café sempre supre a demanda mesmo
quando a produção anual é menor que o consumo. Tudo isso aliado a concentração
na comercialização do café verde pelas traders e o produto final pelas indústrias,
com a produção pulverizada em um grande número de pequenos estabelecimentos.
Assim fica evidente que todos têm muito a ganhar na cadeia produtiva do
café, menos o produtor. De modo que considero a total comprovação da hipótese.
Os ganhos dos pequenos e pulverizados produtores de café do Brasil são
suficientes apenas para que eles não abandonem a produção.
O paradigma da venda da safra que vive o pequeno produtor de café
brasileiro é um constante dilema: o preço do café está baixo na maior parte do
tempo, mas pode subir a qualquer momento, de maneira que ele está sempre
aguardando preço até que venda o café no mercado físico à vista ao preço do dia,
por necessidade de caixa. Como necessita reais para seus compromissos, quanto
mais baixo o preço, maior quantidade deve ser vendida. A diferença de se vender
nas modalidades alternativas ao mercado físico, que são a Cédula de Produto Rural,
Venda a Termo e Venda em Contratos Futuros, é que nestas modalidades o preço é
conhecido antecipadamente, e sempre que for superior ao custo de produção, o
produtor deveria fixar o preço do seu café e se livrar do paradigma de quando
vender o café, porque a sua participação na riqueza gerada pelo café é irrisória,
apenas o suficiente para que não abandone a produção.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIAS
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necessidade do mercado ou necessidade social? São Paulo: Annablume, 2009.
DÁVILA, A. I. A História do Subdesenvolvimento da América Latina é a História
do Desenvolvimento do Capitalismo Mundial? O Caso do Café. Tese Doutorado
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Revista Eletrônica “Diálogos Acadêmicos” (ISSN: 0486-6266)
– Programa de Pós Graduação em Integração da América Latina, Universidade de
São Paulo: São Paulo, 2010.
FITTER, R.; KAPLINSKY, R. Who gains from product rents as the cofee market
becomes more differentiated? A value chain Analysis. Institute of Development
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<http://www.eldis.org/vfile/upload/1/document/0708/DOC8696.pdf>.
Acesso
em
27/08/2012.
JUNQUEIRA, F. Z. Contratos Futuros de Café Como Alternativa Para Diminuir o
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