MESA DE CUERPOS E INTERSECCIONALIDAD:
RAZA, GÉNERO/SEXO, ETNIA
ARTE GRÁFICA Y ACTIVISMO VIRTUAL DE LOS FEMINISMOS
Karine Freitas Sousa*
INTRODUÇÃO
O espaço-tempo não canônico impôs novas maneiras de produção artística e exibição.
Nestes tempos, os sentidos da arte, assim como as possibilidades das práticas sociais e
discursos críticos nas visualidades artísticas, permitem o uso de novas linguagens pelo
feminismo. Entretanto, as limitações da vida política, social e econômica impostas às
mulheres, assim como os usos dos espaços físicos, geraram a busca e criação de novas formas
de expressão. Por sua vez, a utilização dos meios de comunicação criaram espaços distintos
para as artes. Neste sentido, o ciberespaço é um campo sem limites para as ações e práticas do
feminismo, sendo possível o acesso às artes e às interações em rede nestes meios
(CASTELLS, 1999). As artes visuais encontraram no ciberespaço graus de liberdade e redes
de expansão sem limites. Muitas mulheres, artistas gráficas, aproveitaram os espaços virtuais
como uma prática de ativismo feminista que questiona a subalternidade e, de certo modo,
traduz o pensamento pós-colonial em Spivak. Os comics ou quadrinhos, as historietas,
charges e ilustrações constituem um universo de produção artística visual que utiliza os meios
de comunicação de massas de modo expoente em relação às críticas. O meio virtual alcança
uma maior quantidade de público de diferentes idades e portanto, gera instâncias de novas
formas de produção das artes, exibições e, por sua vez, novas maneiras de educação e
formação crítica das novas gerações de mulheres, sujeitos historicamente silenciados.
Assim, quem fala e por quem fala? Quem ouve? Se quer avançar nas análises e ao
mesmo tempo compartilhar um olhar sobre alguns destes ativismos em que a arte gráfica se
ocupa do feminismo pós-colonial. É um intento de compreender e compartilhar como as
mulheres tem discursado e trocado suas experiências marcando os novos espaços de vida. É
*
Doutoranda em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Email: [email protected]
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também uma forma de observar a arte gráfica e suas práticas, sobretudo nos discursos e
imagens dos feminismos contidos nas artes gráficas produzidas pelas mulheres na América do
Sul.
Arte gráfica sequencial e algumas considerações
O contato com as artes gráficas iniciou-se, para a maioria dos apreciadores e artistas
desse campo, durante a infância com a leitura dos quadrinhos. Para os mais aficionados, esses
veículos de massa são leitura cotidiana, mesmo que, por muito tempo, tenham recebido a
conotação exclusiva de lazer e tenham sido tratados como uma leitura de menor importância.
Estudos com base sociológica, histórica, de comunicação e artes indicam que em diversas
ocasiões, este meio de comunicação de massa (quadrinhos), foi utilizado como agente de
produção e reprodução cultural, um veículo atrelado aos desejos capitalistas em que a oferta
do produto está pré-fixada pela indústria cultural (SILVA, 2002, p. 33). Neste contexto são
selecionados os “valores a serem internalizados que se coadunam com os valores dominantes”
(SILVA, 2002, p. 34) e dessa maneira compreende-se a razão de os quadrinhos serem
utilizados como instrumentos ideológicos do Estado, como no Governo Roosevelt
(GAUDÊNCIO, In: MOYA, 1977, p. 121-136), ou atendendo interesses do patriarcado, como
na Espanha pós-guerra (RAMIREZ, 1975). Em geral, tais quadrinhos apregoavam condutas
de reforço dos axiomas sociais, principalmente no caso das mulheres (RAMIREZ, 1975, p.
13-20). Embora Nildo Viana (2013, p. 41) conteste seus pares ao afirmar que as histórias em
quadrinhos são, no máximo, “ideologêmicas”, por manifestarem apenas fragmentos de uma
ideologia, ele reafirma o caráter das representações da realidade no universo ficcional e sua
importância para novos estudos que promovam uma sociologia dos quadrinhos, ainda muito
incipiente em volumes de teses doutorais no Brasil. De igual modo, tais questões se aplicam a
outros tipos de artes gráficas como as charges e as ilustrações elaboradas por mulheres e com
conteúdos feministas.
Ao tratar mais especificamente dos quadrinhos, estudiosos do campo como Ramos,
Marny, Moya, Iturra (Chile), Selma Oliveira, Márcia Veronezi, Zilda Anselmo, Sonia Luyten,
Ana Maria Barale (Argentina), Renard, Couperie e Horn indicaram que, historicamente, este
meio de comunicação, criado há pouco mais de um século, derivou inicialmente de ilustrações
e evoluiu para ilustrações com legendas e modernamente para o uso dos balões. Nesta
pesquisa considera-se que também devem ser incluídos como predecessores históricos das
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ilustrações e dos quadrinhos nas Américas o glifo do selo cilíndrico Olmeca, datado da era
pré-colombina em 650 a.C. (KENNEDY, 2002) e as ilustrações do Codex Selden
(mesoamérica) de onde as falas são projetadas e desenhadas (POHL’S, 2014).
Os quadrinhos têm sido um campo de diversas pesquisas sociológicas cujas
possibilidades de estudos sobre mulheres são ainda mais recentes e coincidem com as pautas
feministas dos anos 70. Desde então, as temáticas de investigação tem abordado as
especificidades das heroínas, esposas, namoradas, noivas e seus aspectos comportamentais,
estéticos e as ideologias por trás das tramas. Notadamente, um campo onde os homens ainda
são maioria na produção, os quadrinhos feitos por mulheres chamam atenção pelas diferenças
na arte, nas temáticas abordadas e na inserção ainda mais difícil para elas no mercado
editorial. Este mercado apresenta restrições às publicações dos artistas gráficos devido às
dificuldades econômicas de cada região, a demanda por material desse tipo, e as condições
financeiras dos artistas, como verificado, por exemplo, na Argentina (RAMOS, 2010). Tais
dificuldades também apresentam-se em outros países da América do Sul como Bolívia,
Uruguay e Brasil. Ao mesmo tempo, a vivência em uma sociedade informacional e
tecnológica permite que os meios digitais sejam aliados indispensáveis na divulgação dos
trabalhos artísticos dos profissionais já consolidados e dos iniciantes neste campo.
Na internet podem ser encontrados fragmentos ou totalidades de trabalhos artísticográficos produzidos por mulheres. Tais fragmentos nem sempre são publicados pelos seus
autores, já que o próprio mundo social virtual é “diverso e contraditório”, tal como a
sociedade (CASTELLS, 2003, p. 48). Fragmentos dos trabalhos são escaneados,
compartilhados e projetados na rede, pois a obra de arte adquire o caráter de
obras-fluxo, obras-processo, ou mesmo obras-acontecimento pouco
adequadas ao armazenamento e à conservação (...) não possuem limites
nítidos. São ‘obras abertas’ (...) sobretudo porque admitem uma
multiplicidade de interpretações, mas sobretudo porque são fisicamente
acolhedoras para imersão ativa de um explorador e materialmente
interpenetradas nas outras obras da rede (LÉVY, 2000, p. 147. In:
VERONEZI, 2010).
Desse modo, a criação de um artista ganha interação no sentido de divulgação e
remodelagem nas mãos dos internautas que podem dar novas traduções a uma arte tornando-a
uma obra-aberta. Assim, o trabalho de um artista pode ser exponencialmente publicado e
socializado em rede ampliando sobremaneira seu alcance, provocando diálogos,
interpretações e reinterpretações. Histórias em quadrinhos, ilustrações, charges e caricaturas
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são cada vez mais socializadas na rede mundial. Algumas artistas iniciaram sua jornada na
internet para só depois publicar um livro ou uma graphic novel com suas produções, e viceversa. A democratização da rede permite que artistas iniciantes possam dar visibilidade às
suas obras do mesmo modo que fazem as artistas já consagradas, como afirma Veronezi
(2010). De igual modo os blogs, sites pessoais, fan pages, comunidades, fóruns e outros
espaços virtuais confirmam Castells (2011, p. 2-3), quanto às novas práticas sociais e as
mudanças radicais na comunicação que ocorrem em uma multiplicidade de formas, expansão
infinita e reconfiguração sem fronteiras. De fato, a internet permite novos arranjos sociais que
reorganizam a ação humana e de igual modo, a estrutura ocupacional, onde se inserem os
artistas. Por sua característica multimodal, a rede provoca e amplia o surgimento de
comunidades online como formas elaboradas das manifestações da vida cotidiana. Portanto,
na concepção de Castells (1999, p. 444-553), o espaço virtual é também uma transformação
da forma da experiência humana em relação ao espaço-tempo, já que o mundo virtual
caracteriza-se como um espaço social de realidade onde a criatividade artística encontra
formas de desenvolver sua própria rede e conexões. Não é difícil encontrar comunidades
virtuais, portfólios pessoais e muitas outras formas de exposição e interação capazes de criar
vínculos cibernéticos entre as pessoas e suas demandas por educação e expressão cultural, e a
construção de novos ambientes simbólicos onde é possível um permanente sentido de
interatividade. Em rede, o tempo é sempre presente no resgate da informação que literalmente
está a um click.
Arte gráfica feita por mulheres
Se por um lado a arte gráfica sequencial (quadrinhos), as caricaturas, as charges e as
ilustrações de cunho feminista são relativamente recentes, deve-se considerar que são
igualmente recentes os estudos feministas sobre os conteúdos imagéticos e discursivos em tais
gêneros artísticos, assim como sua inserção e alcance, tanto no meio físico quanto no virtual.
Estudos, reportagens e histórias de vida sobre a arte gráfica produzida, especificamente, pelas
artistas Patrícia Breccia (Argentina); Nani Mosquera (Colombiana - reside na Espanha produz
e envia seus trabalhos para diversos países, inclusive Argentina); Consuelo Lago (Colômbia);
Macumba – pseudônimo de Gisela Martino (Argentina que vive no Equador); Maitena
Burundarena (Argentina); as bolivianas Susana Villegas, Alexandra Ramírez, Avril Filomeno
(que retornou ao seu país, o Peru), Rafaela Rada, Paula Ramos, Paula Vázquez, Mery Nina,
Gladys Castro y Paula Guardia, enfim, um grande número de mulheres que contribuem para o
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universo dos comics femininos, ilustrações e narrativas com suas criações. Ainda na América
do Sul são citadas as artistas Alejandra Lunik (Chile); Sol Díaz (Chile), Maco pseudônimo de
Maria Concepción Algorta (Uruguay); Francesca Lasarte (Peru); Maliki pseudónimo de
Marcela Trujillo (Chile); Alexiel Vidam (Peru); Chiquinha nickname de Fabiane Bento
Lagona (Brasil); Julia Bax (Brasil); Pryscila Vieira (Brasil); Didi Helene (Brasil) e Francisca
Nzenze, (Angolana que vive no Brasil). Estudos sobre as obras destas artistas são incipientes,
mas evidenciam, sobretudo, características de uma maior inserção das mulheres em um
domínio anteriormente masculino na América do Sul. Algumas delas, já consagradas,
publicam em meio físico seus trabalhos em diversos países. Para as mais jovens na atividade,
a internet tem sido uma ferramenta indispensável na divulgação e transposição de fronteiras
físicas. Muitas destas artistas publicam suas tiras, charges, quadrinhos e ilustrações em jornais
de grande circulação ou editam seus próprios álbuns. Outras opções de publicação que
contrapõem o mercado editorial têm sido utilizadas como os fanzines.
Nesta pesquisa não incluímos as artistas que trabalham desenvolvendo roteiros, a
exemplo das brasileiras Petra Leão, roteirista de HQ que trabalha desde 2008 na Mauricio de
Sousa Produções, onde escreve a Turma da Mônica Jovem (HQ mais vendida no mundo
ocidental). Tampouco foram citadas as que trabalham exclusivamente como desenhistas ou
coloristas dos grandes estúdios, como Ana Luiza Koehler, ilustradora gaúcha que trabalha
para o mercado franco-belga; Adriana Melo que trabalhou para a DC e atualmente está na
Marvel, onde se destacou e se tornou a primeira mulher a desenhar o Justiceiro e o HomemAranha; Cris Peter desenhista e colorista que fez trabalhos para a Marvel, DC, Dark Horse e
foi colorista do premiado álbum "Magnetar", graphic novel do Astronauta, personagem de
Maurício de Sousa, e a primeira brasileira indicada ao Will Eisner, o Oscar dos quadrinhos
(CORTEZ; DURANTE, 2013).
No que se refere às dificuldades do mercado editorial, esta pesquisa encontrou
semelhanças entre a Argentina (RAMOS, 2010) e a Bolívia (CANDELA, 2012), onde, de
acordo com Leñero (2014), “No hay nadie que pueda vivir de la historieta en Bolivia. O vive
de ilustración, o vive de trabajos anexos a la historieta”. Semelhantes dificuldades existem
também no Paraguay (FERREIRA, 2014) e no Brasil, principalmente quando se trata de
publicações de autores iniciantes ou dos quadrinhos nacionais, pois o alto custo são fatores
impeditivos em diversos países da América do Sul (FREITAS, 2014). Por isso também, as
artistas gráficas, especialmente as quadrinistas, têm aumentado a participação no mundo
virtual (ABDALLA, 2014).
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No primeiro evento Lady´s Comics, realizado em 25 de outubro de 2014 no Brasil,
houve um extenso debate sobre o assunto na mesa as “Mídias Transgressoras contra
mercados uniformes”, onde foram apresentadas diversas quadrinistas que usam plataformas
como a internet e o fanzine para publicar seus trabalhos pelos motivos acima citados.
Alejandra Lunik (Chilena que vive na Argentina) é um exemplo. Em uma entrevista, ela
afirmou que iniciou suas publicações pela internet para só depois conseguir publicá-las em
meio físico (HEINRICH, 2014). Daniela González (Chile), autora de Cabralesa, também é
outro exemplo de um começo via internet (MARÍN, 2012).
O mercado de trabalho nas artes gráficas também não poupa os homens é bem
verdade, mas é ainda mais difícil para as mulheres, com tendência a mantê-las na
subalternidade, pois conforme Stiglitz (2002, apud SPIVAK, 2010.b, p. 27), as novas formas
da ocupação territorial de outrora manifestam-se também pela hegemonia da administração
em relação aos processos de gestão do trabalho e de pessoas, o que aplica-se ao meio
editorial, mesmo porque o subalterno mantém-se em uma classe, mas estará sempre disperso e
deslocado. Sob tal perspectiva, a questão agrava-se ainda mais em relação às mulheres, pois o
agenciamento feminino é manipulado e tem o masculino como dominante nas relações de
trabalho (SPIVAK, 2012, p. 80-90).
Feminismos nas Artes gráficas da América do Sul
Longe de um determinismo sem sentido, de que as mulheres que fazem quadrinhos
interagem somente com o público feminino, o que não é verdade em absoluto, é importante
compreender que as artes gráficas produzidas por mulheres tratam não somente de inseri-las
como produtoras em um nicho antes exclusivamente masculino, mas também permitem o
acesso da mulher nos espaços da escrita e de linguagem imagética. Assim entende-se que os
quadrinhos, ilustrações e charges feitas por mulheres, possibilitam uma ampliação da visão
sobre estas e ao mesmo tempo, uma maior contribuição para uma educação reflexiva e uma
“leitura crítica de mundo” (BARBOSA, 1995 apud ROSSI, 2003, p. 9-10).
Na GIBICON† de 2012 realizada no Brasil, as autoras Ana Luiza Koehler, Pryscila
Vieira e a pesquisadora Sônia Luyten confirmaram que os quadrinhos são voltados para o
público masculino e que a falta de identificação das meninas com as personagens femininas
†
Convenção Internacional de Quadrinhos de Curitiba – GIBICON.
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provoca questionamentos que, por sua vez, indicam a necessidade de artes gráficas que
consigam de algum modo representar as mulheres e dialogar com o público feminino
(KOEHLER, 2014). Sobre as mulheres idealizadas nos quadrinhos norte americanos e com as
quais o público feminino não se identifica, Selma Oliveira (2007) realizou uma profunda
análise ao evidenciar o quanto a idealização dos corpos e comportamentos femininos nas
histórias criam
matrizes de sentido sobre a sexualidade feminina – a atitude de proteção
masculina, a dependência feminina e sua imolação submissa, e a
maternidade – no intuito de compreender como esse meio reproduz práticas
sociais que estabelecem em nossa sociedade, o princípio do primado
masculino (OLIVEIRA, 2007, p. 183).
Embora muitas artistas não criem suas histórias em quadrinhos, charges e ilustrações
com teor essencialmente feminista, as temáticas dos quadrinhos criados por mulheres, em
geral, abordam a vida cotidiana, os sentimentos, a aparência, o machismo, os estereótipos, o
mercado de trabalho, a sexualidade, a maternidade, dilemas existenciais, os conflitos, a
violência doméstica, o aborto, os estudos, a ficção, entre outros. Isso difere do que Lefebre
(1991 Apud SILVA 2002, p. 37) afirmou em relação ao distanciamento existente entre a vida
cotidiana e a esfera de produção, pois nas temáticas femininas encontradas nas artes gráficas,
a vida cotidiana é abordada, discutida, problematizada e socializada, em suma, não se
distancia da produção. Elas se aproximam ou externam o corpo reprodutivo da mulher no
sentido de sujeito de direitos abstraídos (SPIVAK, 2010a, p. 77). Acredita-se que as temáticas
nos comics da Mulher do Terceiro Mundo, por se ocuparem da vida e questões femininas, não
encontram facilidades no meio editorial tradicional porque também
não é fácil que uma reinscrição literária completa prospere na fratura ou
descontinuidade imperalista, oculta por um sistema legal extrangeiro que
funciona como lei propriamente dita, uma ideologia estrangeira estabelecida
como verdade única (SPIVAK, 2010a, 137).
Artistas cujo foco de trabalho são quadrinhos feministas praticam uma forma de
ativismo gráfico. No Brasil são identificados, pelo menos, doze artistas com tal perfil em seus
trabalhos e de modo semelhante, outras artistas na América do Sul. Os desenhos e discursos
contidos nas artes gráficas produzidas pelas mulheres constroem uma forma de linguagem
imagética feminina que circula o mundo. Observando o Japão, por exemplo, o Shojo Mangá é
desenhado exclusivamente por mulheres e, em geral, possuem conteúdos românticos, embora
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haja “algo perturbador”, como afirma Luyten (2011, p. 44), por tais revistas exaltarem a
beleza e o suicídio de muitas personagens mulheres. São quadrinhos produzidos em uma
sociedade tradicionalmente machista e com outros valores de sentido milenar. De igual modo,
as ilustrações da cartunista alemã Franziska Becker, sabidamente uma militante feminista
desde a década de 70, ironizam e apresentam cruamente a realidade da vida em uma
sociedade machista européia. Pode-se mencionar também os desenhos e narrativas da iraniana
Marjane Satrapi em Persépolis e Bordados, onde ela criou uma autobiografia em quadrinhos e
deu voz às mulheres de sua família, respectivamente. Assim, as artes gráficas femininas
produzidas ao redor do globo possibilitaram diálogos, em algumas vezes, identificações pelas
projeções e contribuem para uma maior aproximação entre as mulheres de culturas tão
distintas, como um exercício de sonoridade.
De acordo com as propostas de inúmeras artistas gráficas estudadas, especialmente no
caso dos quadrinhos, verifica-se que suas obras comportam narrativas que se assemelham a
“fragmentos literários” (RAMIREZ, 1975, p.18), e cujos temas e conteúdos se aproximam,
não somente do feminismo, mas também se relacionam com o pós-colonialismo. Estas artes
gráficas sequenciais posibilitam representação e dão voz aos sujeitos marginalizados, pois
contemplam a vida, a sociedade e a política em fragmentos de um tipo de linguagem narrativa
ou imagética. As artes gráficas produzidas pelas artistas analisadas apresentam também as
relações entre homens e mulheres, os resultados das diferenças de poder e suas implicações
nas questões econômicas e socioculturais para as mulheres.
Essa possibilidade
multidisciplinar das artes gráficas em dialogar com diversas áreas do conhecimento, e também
das experiências femininas, evidencia importantes categorias chaves para o feminismo, como:
representação, essencialismo, identidade, mulheres do Primeiro Mundo e, consequentemente,
mulheres do Terceiro Mundo. Nesta concepção, diversas artes gráficas femininas estão dentro
do chamado ‘letramento transnacional’ e manifestação das vozes dos sujeitos subalternos
como contestação à heteronormatividade reprodutora de Spivak (2010a, p. 18). Nesta
perspectiva as produções artísticas das mulheres não estão contidas nas fronteiras, mas
ganham projeção internacional e mundial. As narrativas constantes nas obras de arte gráfica
dessas artistas indicam que o lugar de onde elas falam é um lugar onde todas as mulheres
estiveram, estão ou podem estar em algum momento e em qualquer parte, sem
necessariamente serem reduzidas a uma posição monolítica de representação ou colonização
discursiva, mesmo porque, a opressão que acomete as mulheres do Sul não está localizada
geograficamente, ela ocorre a todas as mulheres em todo o mundo, em suas diferentes
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diferenças e dinâmicas desiguais. Se a arte gráfica, especificamente os quadrinhos, faz com
que o sujeito utilize-se da projeção identitária com os personagens e as histórias
(GAUDÊNCIO, 1977, p. 123), a localização dos sujeitos é deslocada, não necessita fronteiras
físicas.
A arte gráfica produzida pelas mulheres nos quadrinhos, charges e ilustrações as
aproximam do que Spivak (2010a, p. 18) tratou ser o informante nativo repudiado, a mulher
mais pobre do Sul, no sentido de uma perspectiva política de localização da produção e
reprodução de conhecimento, em relação ao imperialismo que resultaram em mudanças e
práticas de sonoridade. Ao mesmo tempo, deve-se ter em mente que a representação “é
sempre ficcional ou parcial, porque deve construir imaginativamente o seu eleitorado (como
um retrato ou uma "obra de ficção") e porque pode inadvertidamente usurpar o espaço dos
que estão impossibilitados a se representarem” (BAHRI, 2013).
Quando Spivak (2010b) ratifica a educação como processo da elaboração e
manifestação das vozes dos sujeitos, ela explica que o sistema educacional é voltado para que
a oitiva desses sujeitos seja sempre na qualidade de “mendigos” (SPIVAK, 2010b, p.22),
assim denominados por apresentarem o resultado da qualidade e natureza da educação que
receberam. Deve-se considerar que a sua crítica à educação está relacionada com a
incapacidade da leitura das imagens sociais, do metafórico, do abstrato e das subjetividades
decorrentes de uma educação que não prepara o indivíduo para os aspectos críticos-sociais.
Com um sujeito sem autonomia para pensar e criticar o mundo, o que pode-se falar da
educação para leitura de imagens? E mais além, o que falar dos modos críticos de leitura da
escrita das mulheres? E sobretudo, o que falar sobre uma leitura crítica das artes gráficas
produzidas para ou pelas mulheres?
Ao utilizar como exemplo o ocorrido na Espanha (RAMIREZ, 1975), verifica-se que,
por meio dos quadrinhos, houve de fato uma educação para subalternidade em todos os
sentidos, pois nos anos 40 e 50 “a mulher foi empurrada para os comics femininos. Uma
separação educativa exigia uma separação dos jogos, das leituras e das expectativas de vida”
(RAMIREZ, 1975, p. 16). Desse modo, dos anos 40 aos anos 70 os quadrinhos na Espanha
foram definidos para um público com características geográficas e ideológicas que pertenciam
ao “domínio das realidades históricas que condicionam as atitudes do presente” (RAMIREZ,
1975, p. 19-20). Este exemplo espanhol demonstrou como uma educação pelas artes gráficas
em veículos de massa contribuiu para criar e manter de modo opressor as condições da
subalternidade dos sujeitos, especialmente as mulheres. Ainda hoje o poder dos quadrinhos,
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charges e ilustrações se mantêm, e alcançam pelo meio digital um maior público de diversas
faixas etárias. Em todo caso, o público leitor mais assíduo dos quadrinhos ainda é o mais
jovem.
É fato que, principalmente, as histórias em quadrinhos e as ilustrações norte
americanas serviram de modelo para formatar o ideal de mulher em diversos países no
mundo. As mulheres idealizadas nestes quadrinhos foram discutidas nos Estados Unidos
(MADRID, 2009), na Espanha (RAMIREZ, 1975) e na América do Sul, nas pesquisas de
Selma Oliveira (2007) e Del Buono (1983). Recentemente estudos mais profundos e
específicos que tratam de uma visão sobre os quadrinhos de produção nacional, cujos
feminismos são observáveis em suas diversas facetas, podem ser encontrados nas pesquisas de
Mariela Acevedo (Argentina), Amaro Braga (Brasil), Ediliane Boff (Brasil) e Maria Inés
Mendoza (Venezuela), para citar alguns. Evidencia-se a importância das mulheres na história
de formação da nação tratada nos quadrinhos coletivos no livro La Patria también es Mujer.
Historia e Historietas de las Mujeres Latinoamericanas de Las Juanas Editora.
Redes de apoio
Além do uso da internet as autoras de comics têm se organizado para divulgar e
vender seus trabalhos em propostas gráficas que, por vezes, se assemelham ao just-in-time das
empresas, com vendas online, e-books e a impressão sob demanda, além da participação em
feiras e coletivos. Estas são formas de uso do sistema editorial tradicional e também de
utilização das redes como apoio à divulgação de seus trabalhos e ideias. Um exemplo foi o
evento que ocorreu em outubro de 2014 no Brasil, o “1º encontro Lady’s Comics:
Transgredindo a representação feminina nos quadrinhos”, fruto de um coletivo na web
seguido no Facebook por 9175 pessoas. O evento foi realizado mediante doações que
totalizaram U$6.177 dólares e nele participaram muitos pesquisadores e autoras de
quadrinhos. Sobre esta modalidade de apoio existem vários sites de financiamento de projetos
mediante doações. Um exemplo é o Catarse.me, denominado ferramenta colaborativa, no
Brasil. Um outro grupo de autoras de comics alcançou o equivalente a U$ 5.791 dólares para a
publicação do livro “Mulheres nos Quadrinhos” (dois volumes) que reuniu trabalhos de 24
autoras brasileiras. Este coletivo surgiu no Facebook inicialmente para comentários sobre
quadrinhos. Com o passar do tempo amealhou mais de 50 mil seguidores também no twitter,
tumbrl e ampliou sua proposta de ações. Esses coletivos promovem a visibilidade das artistas
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e seus trabalhos, viabilizando publicações. Historicamente tem-se o exemplo das artistas
gráficas estadunidenses do final da década de 60 que estavam fartas do domínio masculino na
área e temas dos quadrinhos de então. Elas pretendiam inserir temas das pautas feministas nos
comics e assim surgiu um coletivo de 10 mulheres, que nas palavras de Terry Richards, uma
das participantes, reuniram-se porque
Decidimos que íbamos a producir sobre la marcha una publicación de de
cómics hechos por mujeres y que podría funcionar como un colectivo, un
término que se utiliza con poco rigor en estos días, en el sentido de que no
habría líder o director, sino una rotación editorial, con todo el mundo
aportando su energía a los trámites y el apoyo general del grupo. El espíritu
feminista era tan fuerte que unos años después decidieron cambiar el nombre
de Wimmen Comix a Wimmin Comix, porque no querían que la palabra
“men” estuviera dentro de su título (LAMBIEK, 2014).
Desde a década de 60, as artes gráficas produzidas pelas mulheres refletem em parte a
perspectiva de Hegel para quem “o verdadeiro significado, não só de uma obra de arte, senão
também de qualquer manifestação fenomênica, é a posição do espírito sobre o grafo de seu
caminho até a autoconsciência” (SPIVAK, 2010a, p. 50). Neste sentido, o desenvolvimento
das artes produzem uma “epistemografia da consciência”, ou seja, um ajuste dos signos com
os diferentes significados. Considerar as redes globais de interação, os coletivos online e o
próprio ciberespaço como lugares de novas práticas sociais, é compreender, portanto a
relevância que tais aspectos da vida moderna possuem na produção e circulação das artes
gráficas produzidas pelas mulheres e as possibilidades das vozes dos sujeitos serem
externadas em modo pictórico ao alcançarem um maior público. Assim, entende-se que as
artes gráficas produzidas pelas artistas referendadas neste estudo apresentam possibilidades de
leituras e diálogos sociais não monolíticos, que tratam das mulheres, dos feminismos e do
pós-colonialismo na América do Sul. Nas palavras de Bahri (2013):
Um letramento transnacional significativo exigirá o reconhecimento da
localização dos/as leitores/as e da leitura como atividade socializada dentro
de um contexto específico. Exigirá que aprendamos a ler literatura sobre, e
escrita por, mulheres do "Terceiro Mundo", considerando-a mais do que uma
sociologia informal, mesmo que isso nos imponha a necessidade de ler
experiências e acontecimentos globais como textos sociais complexos e
intrinsecamente interligados. Em outras palavras, seremos obrigadas a
reconhecer as complexidades da construção do sujeito em todo lugar e a
aprender a ler o mundo através do que eu chamaria de "lógica da
adjacência". Leríamos, então, as mulheres no mundo não como iguais, mas
como vizinhas, como "moradoras próximas" cuja adjacência pode tornar-se
mais significativa. Através dessa lógica – uma lógica que poderia ser
proveitosamente aplicada à orientação geral do pós-colonialismo –, leríamos
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o mundo não como único (no sentido de já estar unido), mas como um
conjunto.
Conclusões
As novas reconfigurações de mundo promoveram dinâmicas que e alteraram as formas
de interação social em todas as sociedades. As tecnologias e precisamente a internet
tornaram-se ferramentas úteis para a promoção de práticas e trocas sociais com um alcance
impossível de ser calculado, mas percebido pela multiplicidade de espaços virtuais para
socialização de ideias e axiomas, de acordo com Castells (1999). A capacidade transgressora
da arte permite não somente uma reestruturação da produção decorrente desta, mas também
explicita a criatividade humana em busca de soluções para transpor modelos e condições
materiais na produção e reprodução das artes. As artistas gráficas dinamizam o mundo das
charges, ilustrações e dos quadrinhos com desenhos e temáticas que não se distanciam da vida
cotidiana e das realidades em que vivem. Promovem olhares sobre as questões de seu tempo,
criticam, satirizam, relativizam e provocam os leitores a desenvolverem um exercício de
crítica social e uma nova visão de mundo e sociedade, dentro da perspectiva proposta por
Spivak (2012) de dar voz aos sujeitos silenciados e subalternos. Pelas características de seus
trabalhos pode-se inferir que as mulheres do Sul, neste caso as artistas gráficas da América do
Sul aqui tratadas neste estudo, se inserem na perspectiva de informantes nativas de Spivak
(2010a). Os trabalhos destas artistas nos quadrinhos, charges ou ilustrações dialogam com as
questões femininas e outras artes do gênero produzidas ao redor do planeta possibilitando
assim, trocas e diálogos transnacionais que não conhecem fronteiras físicas, e que se apóiam
nas experiências femininas, nos fragmentos literários e imagéticos das artes gráficas. É
pertinente, portanto relacionar indissociavelmente as artes gráficas na produção de um
letramento pós-colonial e transnacional que compreenda a linguagem em todas as suas
formas, inclusive a imagética, nas relações de subalternidade das mulheres.
Referências
BAHRI, D. Feminismo e/no pós-colonialismo. Rev. Estud. Fem, Florianópolis, v. 21, n. 2,
mai./ago. 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-026X2013
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CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
12
____________. A Galáxia da Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
DEL BUONO, O. As Mulheres em Quadrinhos. Oitenta. v. 8. Rio Grande do Sul: Ll&PM,
1983.
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