Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 4-2: Glicélia Mendes - Pag 429 ROYALTIES DO PETRÓLEO E POBREZA EM SERGIPE: DESAFIOS E INCERTEZAS NA ABUNDÂNCIA Gicélia Mendes da Silva1 A indústria do petróleo apresenta especificidades em relação a outros tipos de empreendimentos em função da localização que não pode ser determinada por outros fatores senão a existência do mineral no subsolo. Estas e outras peculiaridades da indústria do petróleo são destacadas por Piquet (2007). Para a autora, o fato de as corporações que operam no setor atuarem de modo globalizado e organizarem o espaço de maneira “seletiva e extrovertida”, não caracteriza preocupação com o local onde a extração do minério é realizada. Desta maneira, as áreas produtoras funcionam como campos de fluxos, onde se articulam sofisticadas redes de unidades industriais, portos, dutos, aeroportos, bens, homens e informações. Não são, portanto, empreendimentos voltados a promover o desenvolvimento regional. (PIQUET, 2007, p. 23) Contudo, mesmo não havendo o comprometimento direto da indústria petrolífera com o desenvolvimento regional, os efeitos de encadeamento podem trazer benefícios ao local. É possível que um processo de industrialização seja desencadeado a partir das possibilidades criadas pelo setor. Além disso, outras atividades de apoio à atividade surgem em torno do empreendimento e, de certa maneira, contribuem para a dinamização econômica da área. Estas atividades de apoio às atividades de exploração, em certa medida, podem contribuir para o desenvolvimento econômico. Como bem destaca Piquet (2007), a indústria do petróleo pode funcionar como um enclave às regiões onde se localize ou oferecer benefícios, a depender do desenvolvimento do país e da região e o comprometimento político nacional e internacional no trato com criação de estratégias de desenvolvimento. 1 Professora Adjunto do Departamento de Geografia e do Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente Universidade Federal de Sergipe; Pesquisadora do GEOPLAN/UFS e do LACTA/UFF. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 4-2: Glicélia Mendes - Pag 430 No caso da indústria do petróleo, pela característica de exploração de recursos finitos, são pagos aos entes federados nos quais estão instalados os aparatos necessários à atividade, compensações financeiras, os chamados royalties, que têm contribuído para o aumento significativo das receitas municipais. No Brasil, a primeira legislação do petróleo data de 1953 e a mais recente é de 1997 que trouxe mudanças significativas ao processo de distribuição das participações governamentais do petróleo e do gás natural, especialmente da produção offshore. Durante alguns anos tramitaram no Congresso Nacional projetos de Lei que visavam o beneficiamento de Estados e Municípios por meio do recebimento de royalties provindos da produção offshore. A busca pela aprovação dos projetos de Lei respaldava-se nos esforços empreendidos pelos senadores e deputados federais que usavam de argumentos os mais variados para justificar as suas solicitações. O fato é que após a vigência da Lei 9478/97, Lei do Petróleo (LP), Estados e municípios brasileiros confrontantes com campos de petróleo passaram a ter direito a receber royalties da produção offshore, eventos que representaram um marco diferencial nos orçamentos estaduais e municipais, a partir daquela data. Em Sergipe, a distribuição dos royalties e participações especiais do petróleo, a partir da LP, trouxe alterações significativas nos orçamentos dos municípios produtores de petróleo, em especial aos municípios litorâneos. Contudo, o montante que tais municípios recebem em royalties, comparados ano a ano com alguns indicadores sociais, deixa clara a questão de que o crescimento econômico não elimina, por exemplo, a pobreza. Em alguns casos tem havido exatamente o contrário. A despeito dos valores monetários que circulam nos cofres públicos dos municípios petrolíferos de Sergipe, as condições sociais apresentadas pela maior parte deles levantam indagações a respeito da aplicabilidade dos recursos. Os números não falam por si só, mas contribuem para que a partir da junção de outros fatores, elaboremos um arcabouço investigativo e propositivo a respeito das compensações financeiras do petróleo e seus efeitos sociais e, mais especificamente, da pobreza. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 4-2: Glicélia Mendes - Pag 431 Se considerarmos as condições de vida nos municípios produtores de petróleo em Sergipe constataremos o antagonismo entre as riquezas que adentram os cofres públicos de boa parte dos municípios e as condições de vida da população. Após mais quarenta anos de exploração, encontra-se sobre o subsolo rico uma população empobrecida e com poucas possibilidades de usufruir dos benefícios que os recursos provindos da exploração das jazidas poderiam oferecer se a gestão dos recursos fosse adequada. Esta situação reforça a necessidade de que os municípios invistam em diversificação produtiva para que as comunidades tenham oportunidades de empregos que alavanquem a economia dos municípios. De que pobreza estamos falando? Entendemos que a discussão em torno do tema pobreza é bastante complexa. Os autores que discutem o tema têm apresentado critérios por vezes duvidosos do que venha a ser pobreza. Há muitos que associam pobreza à incapacidade de adquirir alimento como se o pobre usasse todo dinheiro que ganha na compra de alimentos. Santos (2000) apresenta três definições para a pobreza nos países subdesenvolvidos: a pobreza incluída, a pobreza marginalizada e a pobreza estrutural global. Estas formas de pobreza são apresentadas como resultado de processos de transformação social e econômica dos países e representam momentos históricos específicos. A primeira delas, a pobreza incluída, característica de um momento onde o consumo ainda não estava difundido e o dinheiro não assumia papel social de destaque, diz respeito àquela que acontece sazonalmente por consequência de acidentes naturais ou sociais. “Era uma pobreza que se produzia num lugar e não se comunicava a outro lugar”. (SANTOS, 2000, p.70). As soluções para o problema eram de origem provada, assistencialista e local. No segundo caso, a marginalidade, já caracteriza a pobreza de um momento onde o processo de comunicação já se encontrava em estágio mais avançado assim como o consumo. Por meio da ampliação da circulação e da comunicação as inovações passam a constituir um “dado revolucionário nas relações sociais”. (SANTOS, 2000, p. 71). Com a divulgação do êxito do bem-estar social nos países europeus, muitos países Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 4-2: Glicélia Mendes - Pag 432 pobres, inclusive o Brasil, sentiram-se na obrigação de buscarem solução para a pobreza, como confirma Santos pois, “ mesmo em países como o nosso, o poder público é forçado a encontrar fórmulas, saídas e arremedos de solução. Havia uma certa vergonha de não enfrentar a questão”. (SANTOS, 2000, p. 71) O último período descrito por Santos refere-se ao que vivemos atualmente. O período no qual está presente a pobreza estrutural globalizada. A pobreza atual resulta da convergência de causas que se dão em diversos níveis, existindo como vasos comunicantes e como algo racional, num resultado necessário do presente processo, um fenômeno inevitável, considerado até mesmo um fato natural. (SANTOS, 2000, p. 72) Por conseguinte, é em função da naturalização da pobreza e mesmo da fome que sua resolução torna-se mais difícil. Algo dado como natural acaba por se incorporar aos comportamentos e ações dos indivíduos, principalmente daqueles que sofrem a ação das desigualdades. Tais dificuldades são ainda mais evidentes quando as aparentes soluções vêm revestidas de todo um arcabouço moldado para a permanência das desigualdades e ratificação da exclusão. A pobreza estrutural globalizada, como a própria definição deixa transparecer, apresenta ramificações, tentáculos que alcançam a todos aqueles que os sistemas econômicos e político desejam alcançar para manter o padrão de equilíbrio necessário à disseminação do poder. Uma das grandes diferenças do ponto de vista ético é que a pobreza de agora surge, impõe-se e explica-se como algo natural e inevitável. Mas é uma pobreza produzida politicamente pelas empresas e instituições globais. Estas, de um lado, paga, para criar soluções localizadas, parcializadas, segmentadas, como é o caso do Banco Mundial, que, em diferentes partes do mundo, financia programas de atenção aos pobres, querendo passar a impressão de se interessar pelos desvalidos, quando, estruturalmente, é o grande produtor da pobreza. Atacam-se, funcionalmente manifestações de pobreza, enquanto estruturalmente se cria a pobreza ao nível do mundo. E isso se dá com a colaboração passiva ou ativa dos governos nacionais. (SANTOS, 2000, p. 73) Seguindo essa linha de raciocínio, percebe-se que a pobreza tem se adaptado às necessidades da política e da economia mundiais e que contam, em certa medida, com a colaboração dos governos nacionais, seja de forma ativa ou não. A pobreza, evidentemente, não pode ser definida de forma única e universal. Contudo, podemos afirmar que se refere a situações de carência em que os indivíduos não conseguem manter um padrão Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 4-2: Glicélia Mendes - Pag 433 mínimo de vida condizente com as referências socialmente estabelecidas em cada contexto histórico. (BARROS, et.al., 2000) A pobreza deve ser analisada considerando não só o nível de renda, mas também a precariedade de infraestrutura sanitária, pela deficiência calórica, pela esperança de vida e pelas taxas de analfabetismo. (CASTRO, 1992, p.105) Chama-nos a atenção quando a análise destes indicadores denuncia a pobreza em municípios enriquecidos pelas rendas petrolíferas. É sobre esta realidade que, neste texto, pretendemos discutir. Royalties e indicadores sociais: onde estão as prioridades? Analisando-se alguns dos indicadores de desenvolvimento econômico nos municípios da RPS, percebe-se que entre 1991 e 2000 houve melhoria no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), principalmente naqueles que apresentavam índice mais baixo a exemplo de Brejo Grande, Itaporanga D’Ajuda e Pacatuba. Contudo quando os componentes do IDH são analisados individualmente percebe-se que o aumento nos índices de educação e longevidade foram os grandes responsáveis pela melhoria do IDH na maior parte dos municípios da Região petrolífera Sergipana (RPS)2. O índice de renda, no entanto, não demonstrou aumento significativo entre os anos 1991 e 2000. Desta forma evidencia-se que o problema maior dos municípios produtores de petróleo em Sergipe encontra-se, principalmente, na má distribuição da renda. (Tabela 01) 2 A região petrolífera sergipana (RPS) é composta pelos municípios sergipanos produtores de petróleo. (SILVA, 2008) Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 4-2: Glicélia Mendes - Pag 434 TABELA 01 : REGIÃO PETROLÍFERA SERGIPANA ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO (1991-2000) Município Aracaju Areia Branca Barra dos Coqueiros Brejo Grande Capela Carmópolis Divina Pastora General Maynard Itaporanga D'Ajuda Japaratuba Laranjeiras Maruim N. S. do Socorro Pacatuba Pirambu Riachuelo Rosário do Catete Sto Amaro das Brotas São Cristóvão Siriri 1991 0,770 0,421 0,553 2000 0,794 0,644 0,676 IDH IDH renda longevidade 1991 2000 1991 2000 0,949 0,752 0,635 0,729 0,280 0,522 0,610 0,719 0,441 0,578 0,637 0,631 0,348 0,437 0,503 0,431 0,458 0,352 0,550 0,615 0,676 0,655 0,671 0,638 0,203 0,293 0,394 0,230 0,248 0,181 0,456 0,501 0,561 0,508 0,530 0,515 0,477 0,579 0,575 0,579 0,616 0,536 0,526 0,629 0,666 0,662 0,695 0,683 0,363 0,440 0,538 0,485 0,511 0,340 0,667 0,716 0,800 0,795 0,789 0,715 0,437 0,444 0,448 0,528 0,349 0,424 0,453 0,471 0,439 0,651 0,642 0,662 0,696 0,584 0,652 0,671 0,672 0,655 0,297 0,272 0,269 0,324 0,179 0,259 0,277 0,345 0,198 0,537 0,519 0,532 0,563 0,438 0,554 0,521 0,559 0,521 0,533 0,564 0,560 0,666 0,522 0,567 0,616 0,564 0,662 0,646 0,628 0,659 0,695 0,646 0,646 0,695 0,627 0,669 0,480 0,496 0,515 0,596 0,346 0,445 0,466 0,503 0,457 0,771 0,778 0,794 0,831 0,667 0,755 0,798 0,829 0,775 0,514 0,700 0,420 0,645 0,347 0,247 0,583 0,615 0,520 0,579 0,695 0,662 0,581 0,823 0,436 0,754 IDH IDH educação 1991 2000 0,726 0,901 0,374 0,691 0,581 0,818 Fonte: IPEA, 2007 A despeito da forte concentração da renda e da riqueza que há no histórico brasileiro, é preciso que as realidades sejam demonstradas para as transformações ocorrerem. A análise das relações entre os royalties per capita dos municípios petrolíferos de Sergipe e os índices indicativos das condições sociais da população oferecem subsídios que alertam para que sejam repensadas as formas atuais de investimentos das rendas petrolíferas. A correlação dos royalties per capita municipal (RP-M) e o Índice de Pobreza Humana Municipal (IPH-M) demonstra a inversão de posição entre os municípios na correlação entre as variáveis analisadas3. Este ruído é percebido quando os royalties são comparados ao IPH-M. Dos cinco maiores beneficiários 3 Royalties per capita e IPH-M referentes ao ano 2000. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 4-2: Glicélia Mendes - Pag 435 dois, Japaratuba e Divina Pastora, apresentam índices de pobreza significativa, estando entre os dez mais pobres da região. Carmópolis, General Maynard e Pirambu sofrem inversão negativa, mas estão mais bem posicionados no ranking da pobreza na RPS. A menor inversão ocorreu no município de Santo Amaro das Brotas que saiu da décima terceira pra a décima segunda posição. Nesta comparação também dica clara a inversão em todos os municípios da RPS. Maiores valores per capita em royalties correspondem, em linhas gerais, a índices de pobreza elevados. (Figura 01) Royalties per capita 2000 245,79 217,83 195,86 108,38 102,13 93,37 79,47 66,43 57,77 50,21 49,27 Municípios da RPS Divina Pastora Carmópolis Japaratuba General Maynard Pirambu Siriri Rosário do Catete Pacatuba Barra dos Coqueiros Riachuelo Brejo Grande Itaporanga D’Ajuda 47,45 26,79 22,12 13,57 10,57 4,31 2,17 1,97 1,66 Santo Amaro das Brotas Maruim Aracaju Laranjeiras São Cristóvão Areia Branca Nossa Senhora do Socorro Capela Municípios da RPS IPH-M 2000 Aracaju Nossa Senhora do Socorro São Cristóvão Barra dos Coqueiros Carmópolis Rosário do Catete Riachuelo Pirambu Maruim General Maynard Laranjeiras Santo Amaro das Brotas 13,01 16,62 18,48 20,20 21,07 21,91 24,20 24,27 24,59 24,64 Japaratuba Divina Pastora Siriri Areia Branca Itaporanga D'Ajuda Capela 27,46 28,15 28,88 29,35 32,05 33,02 Brejo Grande Pacatuba 35,42 37,58 Figura 01: REGIÃO PETROLÍFERA SERGIPANA- Correlação entre royalties per capita e índice de pobreza humana- 2000 Fonte de dados: ANP, 2007 - Elaboração própria Os números atestam que a existência de exploração e produção de petróleo nos municípios da RPS não tem contribuído para a resolução de 9,82 25,77 Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 4-2: Glicélia Mendes - Pag 436 problemas sociais. É preciso que os municípios elaborem suas próprias políticas sociais de combate a pobreza visando uma maior participação da população nos lucros do petróleo. As disparidades apresentadas pela comparação dos royalties per capita e o IPH-M apontam para a urgente necessidade de políticas sociais eficientes e que possibilitem aos municípios conterem a pobreza e o baixo nível de desenvolvimento social. Pelo exposto até aqui é notório que os municípios produtores de petróleo em Sergipe dispõem de recursos financeiros para a promoção das transformações sociais. A visualização espacial destas disparidades entre Royalties per capita, e IPH-M possibilita que sejam identificadas as áreas de maiores contrastes e as que demandam atenção específica. Givisiez e Oliveira (2007) elaboraram sugestões de investimentos das receitas petrolíferas para todos os municípios produtores de petróleo no Brasil a partir do cruzamento de dados do RP-M e IPH-M. (Quadro 01) TIPO 1 2 3 4 5 IPH-M Alto Alto Alto Médio Alto Médio Alto Médio Alto Médio Baixo Médio Baixo Médio Baixo Baixo Baixo Baixo Alto Médio Alto Médio Baixo Baixo Alto Médio Alto Médio Baixo Baixo RP-M Muito Alta Alta Média Muito Alta Alta Média Muito Alta Alta Média Muito Alta Alta Média Baixa Baixa Baixa Baixa Muito Baixa Muito Baixa Muito Baixa Muito Baixa Sugestão de investimentos das rendas petrolíferas Investimentos urgentes no desenvolvimento humano Investimentos no desenvolvimento humano Investimentos direcionados ao desenvolvimento humano e econômico Investimentos direcionados ao desenvolvimento econômico Renda petrolífera insuficiente para gerar grandes mudanças estruturais Quadro 01: Combinação de IPH-M e RP-M segundo investimentos prioritários para as rendas petrolíferas. sugestão de Fonte: (GIVISIEZ e OLIVEIRA, 2007, p. 158) Seguindo a metodologia adotada por Givisiez e Oliveira (2007) buscamos identificar os municípios petrolíferos que demandam mais atenção por parte do poder público a fim de que os royalties sejam alocados na Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 4-2: Glicélia Mendes - Pag 437 redução da pobreza. Os municípios foram classificados em categorias, considerando os royalties per capita comparados ao Índice de Pobreza Humana. O IPH-M foi escolhido pelos autores por não levar em consideração a renda das pessoas, oferecendo vantagens na comparação com os royalties per capita. Os municípios da RPS estão classificados em cinco categorias de royalties municipais per capita4. Foram utilizados dados de 2000 para efeitos comparativos com o IPH-M 2000. Na categoria ‘muito baixa’ estão 15% dos municípios da RPS; na categoria ‘baixa’ estão 20% dos municípios. Os 65% restantes integram as categorias ‘média’, ‘alta’ e ‘muito alta’. Os municípios foram também classificados, a partir do Índice de Pobreza Humana Municipal, em cinco categorias: baixo, médio baixo, médio alto, alto e muito alto. (Quadros 02 e 03) QUADRO 02 : REGIÃO PETROLÍFERA SERGIPANA CATEGORIAS DE ROYALTIES MUNICIPAL PER CAPITA (2000) CATEGORIA Muito Baixa Baixa Média Alta Muito alta 4 MUNICÍPIO Capela Nossa Senhora do Socorro Areia Branca São Cristóvão Laranjeiras Aracaju Maruim Santo Amaro das Brotas Itaporanga D’Ajuda Brejo Grande Riachuelo Barra dos Coqueiros Pacatuba Rosário do Catete Siriri Pirambu General Maynard Japaratuba Carmópolis Divina Pastora No âmbito deste trabalho, os dados foram divididos em categorias a partir da frequência. O quadro foi elaborado a partir da adaptação da metodologia sugerida por Givisiez e Oliveira (2007). Fonte de dados: quadro montado a partir de dados da figura 01 Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 4-2: Glicélia Mendes - Pag 438 QUADRO 03 REGIÃO PETROLÍFERA SERGIPANA CATEGORIAS DE ÍNDICE DE POBREZA HUMANA MUNICIPAL (2000) CATEGORIA Baixo Médio Baixo Médio Alto Alto Muito Alto MUNICÍPIO Aracaju Nossa Senhora do Socorro São Cristóvão Barra dos Coqueiros Carmópolis Rosário do Catete Riachuelo Pirambu Maruim General Maynard Laranjeiras Santo Amaro das Brotas Japaratuba Divina Pastora Siriri Areia Branca Itaporanga D’Ajuda Capela Brejo Grande Pacatuba Fonte de dados: quadro montado a partir de dados da figura 01. O quadro foi elaborado a partir da adaptação da metodologia sugerida por Givisiez e Oliveira (2007). Para a formulação dos grupos de municípios para os quais serão sugeridos direcionamentos dos recursos dos royalties serão utilizados as classificações dos royalties per capita e IPH-M. O cruzamento das informações dos RP-M e IPH-M será adotado como parâmetro para a definição de grupos de municípios para os quais serão sugeridos direcionamentos prioritários dos recursos dos royalties e também de outras receitas municipais. (GIVISIEZ e OLIVEIRA, 2007). A correlação entre as categorias de Royalties per capita e as de Índice de pobreza humana para os municípios da Região Petrolífera Sergipana permite juntá-los em quatro das cinco grupos propostos por Givisiez e Oliveira (2007). O grupo um, onde há necessidade de investimentos urgentes no desenvolvimento humano; o grupo dois que agrupa os municípios carentes de investimentos no desenvolvimento humano; o grupo três no qual devem ser feitos investimentos direcionados ao desenvolvimento humano e econômico e o grupo cinco formado pelos municípios nos quais as rendas petrolíferas são insuficientes para promover mudanças estruturais significativas. Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 4-2: Glicélia Mendes - Pag 439 Os autores propõem que os investimentos para os municípios do grupo um devam ser direcionados à educação, à infraestrutura de serviços urbanos e a programas de saúde com vista à diminuição da mortalidade infantil. Estão enquadrados neste grupo Divina Pastora, Japaratuba, Siriri, Pacatuba, Brejo Grande e Itaporanga D’Ajuda. (Tabela 02) TABELA 02: REGIÃO PETROLÍFERA SERGIPANA MUNICÍPIOS DO GRUPO 1 Investimentos urgentes no desenvolvimento humano MUNICÍPIO IPH-M Categoria de RP- RP-M M Divina Pastora 28,15 245,79 Muito alta Japaratuba 27,46 195,86 Muito alta Siriri 28,88 93,37 Alta Pacatuba 37,58 66,43 Alta Brejo Grande 35,42 49,27 Média Itaporanga D’Ajuda 32,05 47,45 Média Fonte de dados: ROLIM, 2002; ANP, 2007. Fonte metodológica: GIVISIEZ e OLIVEIRA (2007) No grupo dois estão General Maynard, Pirambu, Rosário do Catete e Riachuelo. Neste grupo os investimentos devem ser direcionados a programas de incentivo à geração de renda e no incremento de atividades econômicas. Considerado que os municípios do grupo têm população e área territoriais relativamente pequenas, a administração e aplicação dos recursos do petróleo podem ser direcionadas de modo mais eficiente. (Tabela 03) TABELA 03 : REGIÃO PETROLÍFERA SERGIPANA - MUNICÍPIOS DO GRUPO 2 Investimentos no desenvolvimento humano MUNICÍPIO IPH-M RP-M Categoria de RP-M General Maynard 24,59 108,38 Muito alta Pirambu 24,20 102,13 Muito alta Rosário do Catete 21,07 79,47 Alta Riachuelo 21,91 50,21 Média Fonte de dados: ROLIM, 2002; ANP, 2007. Fonte metodológica: GIVISIEZ e OLIVEIRA (2007) Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 4-2: Glicélia Mendes - Pag 440 O grupo três é composto pelos municípios que necessitam de investimentos no desenvolvimento humano e econômico. Neste grupo estão apenas dois municípios: Carmópolis e Barra dos Coqueiros. São municípios que estão na categoria de RP-M muito alta e alta, respectivamente, e IPH-M médio baixo. Apresentam melhorias sociais em relação aos grupos anteriores, mas ainda necessitam de investimentos em educação, saúde, infraestrutura urbana e em recursos de infraestrutura produtiva e programas de geração de renda. Têm apresentado melhoria nos índices de educação e saúde mas a distribuição de renda ainda é deficiente. (Tabela 04) TABELA 04 REGIÃO PETROLÍFERA SERGIPANA - MUNICÍPIOS DO GRUPO 3 Investimentos direcionados ao desenvolvimento humano e econômico MUNICÍPIO IPH-M RP-M Categoria de RP-M Carmópolis 20,20 217,83 Muito alta Barra dos Coqueiros 18,48 57,77 Média Fonte de dados: ROLIM, 2002; ANP, 2007. Fonte metodológica: GIVISIEZ e OLIVEIRA (2007) O quarto grupo não se configura entre os municípios da Região Petrolífera Sergipana. Neste grupo deveriam constar municípios nos quais os investimentos seriam destinados ao desenvolvimento econômico. A ausência de municípios da RPS nesta categoria demonstra que as necessidades sociais das populações ainda são significativas e que o investimento no desenvolvimento humano deve ser prioritário. No grupo cinco estão os municípios enquadrados da categoria de RP-M baixa e muito baixa. Estes municípios a despeito dos royalties que recebem, não apresentam condições de promoção de mudanças na estrutura social a partir das rendas petrolíferas. Contudo, cabe frisar que as rendas petrolíferas não são as únicas fontes de recursos dos municípios. No caso dos municípios do grupo cinco toma-se como exemplos Aracaju e Nossa Senhora do Socorro que concentram boa parte das atividades industriais do Estado. (Tabela 05) Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 4-2: Glicélia Mendes - Pag 441 TABELA 05 REGIÃO PETROLÍFERA SERGIPANA MUNICÍPIOS DO GRUPO 5 Renda petrolífera insuficiente para gerar grandes mudanças estruturais MUNICÍPIO IPH-M RP-M Categoria de RP-M Santo Amaro das Brotas 25,77 26,79 Baixa Maruim 24,27 22,12 Baixa Aracaju 9,82 13,57 Baixa Laranjeiras 24,64 10,57 Baixa São Cristóvão 16,62 4,31 Muito baixa Areia Branca 29,35 2,17 Muito baixa Nossa Senhora do Socorro 13,01 1,97 Muito baixa Capela 33,02 1,66 Muito baixa Fonte de dados: ROLIM, 2002; ANP, 2007. Fonte metodológica: GIVISIEZ e OLIVEIRA (2007) Pelo exposto fica evidente que os royalties do petróleo não vêm sendo aplicados em prol da melhoria da qualidade de vida das pessoas. Percebe-se que não há relação direta entre valores recebidos e mudanças sociais significativas. Prova disso é que em 2000 todos os municípios com RP-M média, alta ou muito alta, há necessidade ainda, de investimentos prioritários no desenvolvimento humano. Apenas em Carmópolis e Barra dos Coqueiros visualiza-se melhoria nas condições de vida da população. (Figura 02) Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 4-2: Glicélia Mendes - Pag 442 N W E S Categorias Prioridade no desenvolvimento humano Desenvolvimento humano Desenvolvimento humano e econômico 0 40 Km Royalties insuficientes para mudanças estruturais Figura 02: Região Petrolífera Sergipana- Categoria de Investimentos Prioritários Fonte de dados: ROLIM, 2002, ANP, 2007 Fonte Metodológica: GIVISIEZ E OLIVEIRA, 2007 Contudo, a diferença favorável em relação aos demais municípios da RPS ainda é insuficiente frente às possibilidades que os montantes financeiros podem proporcionar. A produção petrolífera tem aumentado no Estado e muitos dos municípios tiveram suas rendas melhoradas demonstrando que os recursos estão disponíveis, bastando apenas que os investimentos sejam Impactos sociais, ambientais e urbanos das atividades petrolíferas: o caso de Macaé Cap. 4-2: Glicélia Mendes - Pag 443 direcionados de modo eficiente. Municípios como Itaporanga D’Ajuda, São Cristóvão, Nossa Senhora do Socorro, Barra dos Coqueiros, Rosário do Catete, Brejo Grande e Santo Amaro das Brotas são exemplos de melhorias nos valores dos royalties per capita. A redução da pobreza não ocorre percentualmente de modo igual em todos os lugares e os números não podem ser únicos a explicar a situação da população, mas servem de termômetro para avaliações e guias para planejamentos. Os números atestam que a iniquidade social é ainda uma dura realidade para os municípios produtores de petróleo em Sergipe. A pobreza das pessoas da RPS indica também a impossibilidade de reagir aos desafios da convivência social em meio à atividade de ponta que é a exploração do petróleo. Ser pobre na RPS é também sofrer as imposições dos grilhões do sistema e da modernidade que acorrentam a ação por meio da impossibilidade de acesso aos meios de produção, de comunicação e de inserção e de transformação. Referências ANP, Guia dos Royalties, 2001. BARROS, Ricardo Paes de. Et al. Desigualdade e pobreza no Brasil: retrato de uma estabilidade inaceitável. Revista Brasileira de Ciências Sociais. Fevereiro, vol 15, n. 42, Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, Brasil, 2000. CASTRO, Iná Elias de. O mito da necessidade: discurso e prática do regionalismo nordestino. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992. GIVISIEZ, Gustavo Henrique Neves; OLIVEIRA, Elzira Lúcia de. A pobreza e a riqueza nas cidades do petróleo. In: PIQUET, Rosélia; SERRA, Rodrigo(Org.). 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