EDUCAÇÃO DO CAMPO na UFMG: do sonho aos desafios Antônia Vitória Soares Aranha1 “Salete Stronzaq, estamos com você Para ocupar de frente o latifúndio do saber: a UFMG!” 2 Introdução Este artigo resulta de uma pesquisa exploratória sobre a experiência de formação docente no âmbito da Educação do Campo. É um balanço, ainda inconcluso, de uma grande experiência que se iniciou em 2004 na Faculdade de Educação da Universidade de Minas Gerais - UFMG. Trata-se do curso de Pedagogia da Terra, em parceria com o INCRA, demandado por movimentos sociais, tais como o MST e a Via Campesina. A 1ª Turma de Licenciatura em Educação do Campo – Pedagogia da Terra – é formada por homens e mulheres militantes de Movimentos da Via Campesina de Minas Gerais (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, Movimento de Mulheres Camponesas – MMC, Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas – CAA, Comissão Pastoral da Terra – CPT, Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA e Cáritas) (TURMA VANESSA DOS SANTOS, 2009, p. 163). Na época da sua implantação, a autora era Vice-diretora da FAE-UFMG e integrou-se, ativamente, nas articulações internas e externas à Unidade para a realização desse curso. Foram inúmeras reuniões, incontáveis idas aos órgãos superiores e de registro acadêmico até que o mesmo pode se iniciar em 2005. Em fevereiro de 2010, a Professora Associada da Faculdade de Educação da UFMG e membro da equipe da Educação do Campo 2 Palavra de ordem dos alunos ao iniciarem o curso em novembro de 2005 1 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 143 turma vai se formar. Atualmente, a Faculdade de Educação conta não apenas com cursos de graduação voltados para os povos do campo, mas inicia também cursos de especialização como a Pedagogia da Alternância, participa de projetos de formação docente como a Escola Ativa, já formou e tem formado um número cada vez mais de mestres e doutores envolvidos com a temática. Enfim, a FAE-UFMG conta hoje com um Programa de Educação do Campo, que viceja, dá frutos e tende a se expandir cada vez mais. Para se ter uma ideia do vigor dessa discussão no âmbito da FAE-UFMG, apresentamos um quadro, mostrando a evolução de teses e dissertações defendidas com a temática na Instituição: Ano Dissertações Teses Até 2004 0 2 (obs.: defendidas por professores da FAE) 2004 – 2006 2 1 2006 – 2009 7 3 O número é sempre crescente e envolve praticamente todas as linhas de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Educação. O direito à educação dos povos do campo Muito já tem sido dito e registrado sobre a Educação do Campo, portanto, é desnecessário reproduzir neste texto esse debate. Mas, interessa aqui, resgatar as dimensões de como essa discussão processou-se no interior da UFMG. Ao iniciarmos a experiência, foi necessário enfrentar alguns debates. Duas questões, em especial, se colocavam: 1. A necessidade da reforma agrária, em contraposição ao modelo hegemônico de agronegócio. 2. O direito a uma educação diferenciada dos povos do campo. A discussão relativa ao primeiro ponto não se circunscreve apenas ao campo da educação. Trata-se de um debate econômico, político e social da atualidade, com um apoio significativo da mídia ao agronegócio. Portanto, em determinadas circunstâncias, é um debate em condições desiguais pois os movimentos sociais dos povos do campo não só não tem acesso aos meios de comunicação na mesma dimensão dos seus opositores como, com regularidade, são criminalizados pela 144 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE mídia. No projeto político, social e econômico do agronegócio, encontram-se as grandes monoculturas, as grandes extensões de terra, o uso intensivo da tecnologia e do agrotóxico, os transgênicos, as culturas para exportação, a concentração de terra, o trabalho assalariado e o desemprego e o desrespeito ao meio ambiente. (...) Por outro lado, no projeto camponês, trabalhadores lutam por terra, produzem alimentos diversificados para o consumo interno e vivem, muitas vezes, um mundo de carências. São considerados pelos defensores do agronegócio como ineficientes para os padrões de produção capitalista (MENEZES NETO, 2009, p. 25). Portanto, posicionar favoráveis ao direito dos povos do campo de acesso à terra e considerar a reforma agrária, a agricultura familiar, as pequenas cooperativas agrícolas como necessárias ao desenvolvimento econômico e não como algo anacrônico, foi uma primeira necessidade da equipe responsável pela implantação do projeto. A segunda questão posta já vinha sendo trabalhada em diversas instituições e órgãos governamentais. Neste momento em que antagônicos projetos políticos lutam pela hegemonia no campo, a educação também está em disputa. Para que essa não seja submetida e subjugada aos interesses da reprodução ideológica e material do capital, torna-se de fundamental importância a disputa contra-hegemônica e a construção de novas discussões educativas na educação do campo (MENEZES NETO, 2009, p. 36). Caldart (2004), aponta o avanço dentro do próprio MST, um dos pólos mais dinâmicos dos movimentos sociais do campo, quanto à questão da educação. Ela afirma que, desde 1999 o Movimento foi amadurecendo as suas reivindicações educacionais e a sua relação com a Escola. Inicialmente, o MST mobilizava-se pelo direito à Escola e “pela possibilidade de uma escola que fizesse diferença ou tivesse realmente sentido em sua vida presente e futura (preocupação com os EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 145 filhos)” (idem, p. 224). A seguir, o próprio Movimento toma para si a tarefa de “organizar e articular por dentro de sua organicidade essa mobilização, produzir uma proposta pedagógica específica para as escolas conquistadas e formar educadoras e educadores capazes de trabalhar nessa perspectiva” (idem, p. 225). E, por fim, o MST incorporou a escola em sua dinâmica e, assim, a escola “passou a ser vista como uma questão também política, quer dizer, como parte da estratégia de luta pela Reforma Agrária, vinculada às preocupações gerais do Movimento com a formação de seus sujeitos.” (idem, p. 226). Caldart (idem) afirma ainda que o MST tem auxiliado, decisivamente, numa das discussões mais importantes da história da educação, contribuindo para o que chama de pedagogia da práxis. Assumindo-se como herdeiro dos aprendizados políticos e organizativos de outros movimentos em diferentes tempos e lugares da história, o MST, desde o início, acreditou que seria possível formar seus próprios intelectuais (dirigentes e formadores) e também aproximar organicamente alguns intelectuais de ofício de modo que pudessem ajudar nessa formação interna (idem, p. 312). Gonsaga (2009, p. 80), corroborando com a perspectiva de Caldart, chama a atenção para a necessidade da formação dos intelectuais orgânicos, nos processos educativos – escolares ou não, do MST: “Esta concepção do curso, relacionada à formação do educador enquanto intelectual orgânico está amparada nos pressupostos de Gramsci, autor deste conceito. Segundo ele, a função deste intelectual seria a de difundir no grupo ao qual pertence uma determinada concepção ideológica.” Tal perspectiva do MST e de outros movimentos do campo como o Sindical, a CPT, as Escolas Famílias Agrícolas entre outros contava e conta cada vez mais com adeptos dentro e fora da Academia. E, com a convicção de que os povos do campo, os movimentos sociais camponeses têm direito a uma educação diferenciada, a equipe da FAE-UFMG iniciou, então, os procedimentos para a implantação do primeiro curso, o Pedagogia da Terra. 146 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE Construção da Pedagogia da Terra, do Le Campo e do Le Campo Reuni Nosso tempo é de urgências. Urge o tempo da luta de todos pela dignidade roubada de cada um de nós. Mas a sabedoria camponesa nos ensina que esta luta urgente é uma luta de resistência e persistência. É preciso trabalhar pensando na próxima safra, preservando com cuidado as sementes e prestando atenção no tempo certo de seu plantio (CALDART, 2008). O primeiro curso de educadores do campo implantado na Faculdade de Educação da UFMG foi o Pedagogia da Terra. Demandado principalmente pelo MST e financiado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, através do PRONERA, foi pensado inicialmente para atender a formação de professores e professoras dos anos iniciais do ensino fundamental. Porém, no decorrer dos debates foi se colocando a necessidade de ampliação e que a equipe propusesse um curso que respondesse a necessidade de docentes do campo para toda a Educação Básica. A escola do campo demandada pelos movimentos sociais vai além da escola das primeiras letras, da escola da palavra, da escola dos livros didáticos. (...) O curso proposto, em seus objetivos e formas de estruturação, deveria buscar a formação de educadores e educadoras compromissados com esse projeto educativo e com competência para levá-lo a cabo, com qualidade e responsabilidade social (ANTUNES-ROCHA, 2009, p. 40). Além do mais, como afirma Gonsaga (2009, p. 75), há outras especificidades da Escola do Campo que deveriam ser consideradas: “pois o que se configura é que muitas vezes estas são fechadas pelo governo municipal ou estadual porque têm poucos alunos e, desta forma não acham “compensador” enviar vários educadoresentendendo que são várias as disciplinas- para atendê-los.” Assim, essa nova configuração da formação por área “vem justamente para suprir essa demanda, além de se pautar na concepção de que o ensino não deve ser fragmentado em EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 147 pedaços, em disciplina, perdendo, assim, o seu caráter totalizante.” Não dava, portanto, para construir esse curso como o mesmo modelo e mesma lógica das licenciaturas tradicionais. Novos tempos e espaços de aprendizagem faziam-se necessários. Do ponto de vista legal, o curso contou com o respaldo de instrumentos tais como o Parecer 9/2001 do CNE que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica e mesmo como base na LDBN 9394/96, além do “que é conferido à Educação do Campo na Resolução do CNE/CEB n° 1/2002, em seu Artigo 5°, ao dizer que: As propostas pedagógicas das escolas do campo, respeitadas as diferenças e o direito à igualdade e cumprido imediata e plenamente o estabelecido nos artigos 23, 26 e 28 da Lei 9.394, de 1996, contemplarão a diversidade do campo em todos os seus aspectos: sociais, culturais, políticos, econômicos, de gênero, geração e etnia” (GONSAGA, 2009, p. 98). Assim, o curso foi definido com algumas características bem marcantes: 1. Outra organização dos espaços e tempos escolares. Utilizouse a Pedagogia da Alternância, cuja organização do “tempo escola” é diferenciado, ocorrendo concentrado em dois meses do ano. Mas, o “tempo comunidade”, o período em que o aluno/aluna está em seu assentamento também passou a ser tempo de aprendizagem, com atividades a serem cumpridas e acompanhadas pela equipe de trabalho. 2. A formação não disciplinar mas, por área de conhecimento, capaz de garantir uma flexibilidade na atividade dos/das docentes do campo, de acordo com as necessidades colocadas pela realidade. As necessidades presentes na escola do campo exigem um profissional com uma formação mais ampliada, mais totalizante, já que ele tem que dar conta de uma série de dimensões educativas presentes na realidade (ANTUNESROCHA, 2009, p. 41). 3. A necessidade de articulação dos professores, responsáveis pelo encaminhamento do curso. Embora essa atividade tenha se dado de forma diferenciada em cada área, em todas elas foi necessário o diálogo, o acordo, o por-se em debate, para que fossem definidos conteúdos essenciais, atividades básicas a serem dadas. Se levarmos em consideração a pouca tradição 148 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE da existência dessas articulações no interior das licenciaturas tradicionais, veremos que houve também aí a quebra de um paradigma: o isolamento do trabalho docente no interior das Universidades. Eu acho que nós estamos trabalhando num movimento que a gente está chamando de integrador, a partir da temática, a partir de alguma abertura. (...) As questões que estão sendo postas pelo curso nessa área são questões que ultrapassam o limite disciplinar. Disso eu não tenho dúvida. Como nós estamos lidando, do ponto de vista da elaboração do pensamento, para formação para esses alunos, nós estamos acertando nas diferentes condições teórico/metodológicas, nos diferentes campos disciplinares, no sentido de encontrarmos um articulador para impulsionarmos um mínimo para que esse aluno consiga, além de uma perspectiva disciplinar dessa área, compreender o contexto, o fenômeno no qual ele está. (...) Para esse tempo de retorno (...) a nossa escolha foi compreender a sociedade brasileira, compreender a sociedade brasileira no contexto que é dado a pensar essa sociedade contemporânea nos diferentes momentos. Isso nós estamos fazendo a partir de algumas leituras. E essas leituras seguem a base comum para todos os alunos, mas os seminários articulam diferentes momentos dessa reflexão. E no momento prático da realização desse seminário, nós acertamos numa coisa que eu acho muito bacana: o diálogo com os diferentes professores. A perspectiva e o olhar dos diferentes professores no momento dos seminários (Depoimento de uma professora, extraído de GONSAGA, 2009, p. 89). 4. O acesso a outras linguagens e outros instrumentos de comunicação. A equipe responsável, ao implementar o curso, entendeu a necessidade de uma maior inclusão em todos os níveis. Assim, foram oferecidos cursos e atividades voltados para a inclusão digital, filmagens, produção de textos, entre outras. 5. Processo seletivo especial, ou seja, foi realizado um vestibular onde uma das exigências para a participação dos EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 149 concorrentes era que residissem ou estivessem envolvidos em práticas educativas em acampamentos e assentamentos da reforma agrária. Para certificar essa condição deveriam apresentar uma carta de apresentação do presidente da associação comunitária do assentamento ou do acampamento, atestando sua residência ou prática com os mesmos. 6. Participação intensa dos alunos e membros dos movimentos, seja na coordenação do curso, seja através de estruturas próprias. Gonsaga (2009), descreve detalhadamente essa estrutura que merece aqui ser apresentada: Os estudantes se organizam em coletivos, aos quais chamam de Núcleo de Base, ‘que é um espaço de debate, reflexão, avaliação, propostas e encaminhamentos. É também um espaço de decisão política a respeito do processo organizativo’. Cada núcleo, no caso do Pedagogia da Terra, tem até oito pessoas, onde periodicamente alterna o coordenador ou coordenadora, sendo seus membros trocados a cada dois Tempos-Escola. Os núcleos são personalizados com um nome e ‘grito de ordem’, sempre homenageando alguém, seja pensadores, membros do Movimento que, de alguma forma deixaram sua marca, ou ainda, pessoas que lutaram e deram a própria vida para defender uma causa ou ideal, como Chico Mendes, por exemplo (GONSAGA, 2009, p.82). E mais: As questões demandadas nos Núcleos de Base são encaminhadas à equipe de coordenação pedagógica dos movimentos sociais presentes no curso. Esta, por sua vez, é composta por um membro da coordenação do Setor de Educação em Minas Gerais e por membros indicados entre os educandos da turma. Além dessas indicações, fazem parte também da coordenação pedagógica os coordenadores de turma, que são dois, indicados a cada Tempo-Escola. Com exceção dos coordenadores de turma, a equipe da coordenação pedagógica é permanente, do início ao fim do curso (idem, p. 83). Por fim: Após os encaminhamentos das questões demandadas pelos 150 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE Núcleos de Base à coordenação pedagógica, esta se reúne com a coordenação do curso na UFMG, quando é o caso, para discuti-las e encaminhá-las da melhor forma possível. Para viabilizar as discussões, debates e encaminhamentos nos Núcleos de Base, criaram-se os setores, que tem como atribuição “elaborar e manter atualizadas as linhas políticas e suas normas de funcionamento. Deverá potencializar o fortalecimento da organização” . Nesse sentido, os setores cumprem o papel de assessoria e norteamento aos Núcleos de Base. Os setores são compostos pelos membros dos núcleos, de modo que todos os setores tenham um ou dois membros de cada Núcleo de Base. Essa composição dos setores alterna em todas as etapas, de forma que todo educando do curso irá participar de todos os setores até o final do curso. Os setores são classificados em: Setor de Secretaria, Finanças, Saúde, Educação Infantil, Relações Humanas, Cultura, Comunicação e Memória (idem, p. 83). Enfim, o Pedagogia da Terra, com duração de cinco anos, confere aos egressos a habilitação de Professor Multidisciplinar, nas séries iniciais do Ensino Fundamental, e de Professor por Área do Conhecimento em Ciências da Vida e da Natureza, ou em Ciências Sociais e Humanidade, ou em Línguas, Artes e Literatura ou em Matemática, nas séries finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio (ANTUNES-ROCHA, 2009, p. 49). Implementado o curso, a partir de uma longa e às vezes tensa tramitação nos órgãos superiores da Universidade, em especial o CEPE, tratava-se agora de estabelecer convivências, aprendizagens mútuas, e dar andamento ao mesmo. Seguindo processo semelhante e simultâneo, implantava-se, também, na FAE-UFMG o curso de Formação Intercultural de Educadores Indígenas (o FIEI), voltado para alunos indígenas, com o ensino médio, que já fossem ou serão professores nas comunidades indígenas. A tramitação conjunta dos dois cursos fortaleceu a ambos e permitiu uma abrangência maior de atendimento da formação EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 151 docente na FAE-UFMG. Esta história, em fase de resgate, através de pesquisa da Equipe de Professores responsável pelo curso Pedagogia da Terra, utilizando instrumentos como análise documental, história oral, grupo focal, entre outros começa a ser sistematizada e merecerá artigos específicos para que seja trabalhada de forma mais aprofundada. Porém, pode-se, de imediato apontar traços marcantes da mesma, tais como: 1. O MEC passa a interessar-se também pela implantação de experiências de formação de educadores do campo. Desta forma, uma das suas iniciativas foi o envio de uma equipe a Belo Horizonte para analisar a experiência da Pedagogia da Terra da FAE-UFMG. Tendo como modelo o curso aí implantado, o MEC convida cinco Universidades Públicas para que ofereçam o curso de Licenciatura do Campo, entre elas a própria FAE. Alterando alguns aspectos, tal como a extensão do curso, tanto em duração como em abrangência, o Licenciatura do Campo (carinhosamente chamado por nós de Le Campo) é ofertado em quatro anos, com as mesmas habilitações do Pedagogia da Terra. No entanto, outros sujeitos do campo passam a dialogar e a integrar esse curso, tais como: Escolas Rurais de Prefeituras Municipais, assentamentos e acampamentos do movimento sindical, em especial da FETAEMG, educadores das Escolas Famílias Agrícolas, quilombolas, entre outros. E, assim, em 2008, inicia-se outra turma de educadores do Campo, o Le Campo, na Faculdade de Educação da UFMG. 2. Com o REUNI, inicia-se na Faculdade de Educação um grande debate. Se com o Pedagogia da Terra o debate ocorreu mais em nível dos órgãos superiores da Universidade que queriam esclarecimentos, apresentavam problemas a serem superados, agora o debate ocorre, fundamentalmente, no interior da Faculdade. Inicialmente, discute-se a adesão ou não ao Reuni. Superada essa questão, qual a ampliação a ser ofertada pela Faculdade. De imediato, a equipe sabia que haveria um impacto via expansão das 152 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE licenciaturas tradicionais. Mas, não se contentaram apenas com isso. Queríam que a Faculdade mostrasse mais a sua cara – contribuindo de forma significativa para o processo de inclusão social na Universidade. E, assim, foi proposto pelas equipes do Le Campo e FIEI e pela Direção da Faculdade3 , que os dois cursos fossem incluídos no REUNI, tornando-se, desta maneira, cursos regulares da Universidade. Verifica-se que um profundo e fecundo debate ocorreu: qual a qualidade dos cursos? Eles competem ou não com as outras licenciaturas? Teremos ou não professores suficientes para eles? Onde alocá-los na Faculdade? Enfim, mais de seis meses de discussões nas instâncias deliberativas da Faculdade, nos e-mails institucionais, no interior dos próprios cursos. Vale a pena registrar que no decorrer do debate, os alunos indígenas enviaram uma carta à Congregação da Escola solicitando que o FIEI integrasse o Reuni. Os alunos do Pedagogia da Terra e do Le Campo também acompanharam, interessadíssimos, o desenrolar dos debates bem como os movimentos sociais do Campo. Somente esse debate merecerá, certamente, um capítulo à parte. Ele é revelador de nossas inseguranças, tradições e até mesmo preconceitos. Outro estudo que efetive a coleta e análise de documentos deste processo poderá resgatálo na sua plenitude. De toda forma, registra-se que, em 2009, inicia-se a terceira turma de educadores do Campo, o Le Campo Reuni. Agora, como curso regular da Universidade. Porém toda conquista, toda opção provoca também deslocamentos, outras necessidades, outras possibilidades. Assim, há também algumas preocupações que agora acompanham a equipe a tornar a Licenciatura do Campo um curso regular. Estas preocupações explicitaram-se no grupo focal que objetiva resgatar o histórico dos cursos bem como nos encontros com os movimentos sociais. 1. Não diluir a questão da Reforma Agrária. Uma das características do Pedagogia da Terra é que de maneira muito explícita – seja nas místicas, nas bandeiras carregadas pela turma, nas palavras de ordem – a questão da luta pela terra estava permanentemente colocada. Agora, com a ampliação para novos sujeitos, é preciso garantir que ela não seja diluída nem perca a referência enquanto um conducto pedagógico dos 3 Antônia Vitória Soares Aranha (Diretora) e Orlando Aguiar (Vice-Diretor). EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 153 novos cursos. 2. O processo de seleção, o vestibular. Até o Le Campo 2008 estava garantida a presença obrigatória somente de alunos vinculados ao campo. Agora, embora o vestibular continue a ser preparado e realizado pelas equipes da FAE, tanto no Le Campo como no FIEI não tem sido possível garantir a obrigatoriedade desse vínculo para não ferir o princípio da universalidade de oportunidades via Vestibular da UFMG. Desta forma, observa-se a convivência com alunos que não apresentam essa vinculação e ate mesmo com alunos não indígenas como no caso do FIEI-Reuni. Esse é considerado um grande complicador, pois advoga-se que os cursos não podem perder o foco ao se institucionalizarem na Universidade. São, então, alguns dos impasses, algumas questões novas, postas a partir de uma realidade rica, fecunda e desafiadora. “O curso, sob a coordenação da Profa. Maria Isabel Antunes Rocha, da UFMG, e da Profa. Marta Helena Roseno, do MST, encerra-se em 2010. Muitas mudanças ocorreram e muitas conquistas foram alcançadas após a aprovação do curso PTerra (carinhosamente assim chamado). Pode-se dizer que mexeu com a vida de todos os parceiros. Hoje já está aprovado, e em exercício na UFMG, o curso de Licenciatura do Campo e também está em andamento o projeto REUNI, no formato de curso regular e de alternância, que tem como objetivo dar continuidade à formação de educadores para atuar nas escolas do campo e escolas indígenas. Ambos são heranças do curso de pedagogia da terra e licenciatura indígena, que seguem com o desafio de não perder de vista o protagonismo dos movimentos sociais” (ROSENO & ROSENO, 2009, p. 63). Falam os educandos do Pedagogia da Terra Explicitado o histórico, é necessário, ainda que brevemente, trazer depoimentos dos educandos, da nossa primeira experiência, o Pedagogia da Terra. 154 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE Como veem o curso? O que trouxe de novo em suas vidas e em sua atividade no Movimento Social? Como se veem dentro da estrutura da UFMG? Que perspectivas têm, a partir de agora? A equipe responsável pelo curso está programando um balanço mais completo do mesmo em fevereiro, com a conclusão da primeira turma. Mas, verifica-se que os alunos já produziram textos. Um deles, um artigo da turma, publicado no livro que relata essa experiência. Destaca-se algumas questões. 1. Relação indivíduo-coletivo: O exercício da coletividade, apesar de ser uma prática nos movimentos sociais, organizações e instituições ligadas às causas populares, na turma tem um significado especial, no que tange aos aprendizados: estamos percebendo a importância de cada um e cada uma. Com isso nos tornamos mais sensíveis aos pontos de vista, às opiniões e às críticas. Percebemos que é possível alcançar a unidade da turma, respeitando as diferenças (TURMA VANESSA DOS SANTOS, 2009, p. 164). Dos mais experimentados aos mais jovens nas lutas, todos, cada um a seu modo, têm contribuído para o aprendizado do coletivo. Cada um, no processo, forma-se e conforma-se, aprende a viver e a conviver como diferente sem perder a individualidade, fato importante porque a coletividade não se torna apenas um número, soma das individualidades, mas um conjunto capaz de unificar-se em torno de um propósito comum (idem, p. 165) . No tempo escola, os tempos educativos, organização por núcleos de bases, setores, coordenação da turma, coordenação político-pedagógica constituem-se numa prática participativa e democrática que, a cada dia, aprimora-se e desperta para o exercício do diálogo e da construção coletiva. Tais práticas propiciam a autodisciplina e a formação de valores, como espírito de solidariedade e cooperação. O tempo comunidade, continuidade do tempo escola, permite-nos desenvolver, aplicar, avaliar, dar significado e (re)significar o nosso processo formativo na comunidade. O trabalho, o estudo e a militância apontam o rumo e não nos deixam esquecer que o movimento é a nossa principal matriz formadora (idem, p. 165). EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 155 2. Desafios: O espaço universitário tem se mostrado um terreno fértil; contudo podemos dizer que é um território dominado por um modo de fazer instituído por relações de poder que transcendem tal espaço, tem fragilidades e pode vir a ser disputado, à medida que atuamos em nossos locais, juntamente com nossos movimentos e organizações (idem, p. 165). Há perspectiva de construirmos coletivamente novas formas de acesso e socialização do conhecimento universitário e socialização dele, de maneira a ir ocupando os espaços que nos foram negados historicamente, por não termos acesso às condições materiais e objetivas, e superando, uma vez que nós, do campo, temos muita dificuldade de acesso (idem, p. 166). O primeiro desafio foi a construção do Memorial por cada educando e educanda. Escrever, resgatando nossa história, mexeu com os nossos sentimentos pessoais e do grupo como um todo. Escrever o Memorial nos fez lembrar de momentos de sofrimentos. Como as pessoas estavam em grupos, a solidariedade para com o companheiro e/ou a companheira que recordava o seu momento de dor levou a turma a ir trabalhando e exercitando a tolerância e a compreensão (idem, p. 166). Exercitar a compreensão menos fragmentada do conhecimento tem sido um enorme desafio. Superar o condicionamento histórico de aprender-ensinar-aprender por pedaços, ou seja, por disciplinas, é um desafio. A ‘especialização’ por disciplina dificulta a percepção das relações e interações, no processo de construção do conhecimento (idem, p. 169). Acreditamos que, potencialmente, a prática que vem sendo construída na universidade de os professores se desafiarem a formar educadores do campo por área do conhecimento e, ao mesmo tempo, os educadores do campo atuarem nas escolas do campo nessa perspectiva, sem dúvida, ‘mexe’ com as estruturas do fazer pedagógico (idem, p. 169). Somos a 1ª Turma do Brasil de Licenciatura em Educação do Campo, que contempla todas as áreas do conhecimento, incluindo Pedagogia e vários Eixos Temáticos, o que desperta 156 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE em nós um deslumbramento, muita responsabilidade e disciplina (idem, p. 169). 3. Perspectivas: Só o fato de estarmos cursando uma faculdade na UFMG alimenta uma perspectiva grande de sairmos da faculdade capacitados para trabalhar em sala de aula nas nossas escolas, lutar pela emancipação de políticas de Educação do Campo que vão muito além de ter escola no campo, mas de construção de um projeto popular para o nosso país, que defenda e valorize todas as formas de vida e condene todas as formas de morte, entendendo que o agronegócio, a monocultura, as multinacionais são práticas que geram a morte e não a vida (idem, p. 167). Espera-se que possamos, inclusive, contribuir para a proposição de políticas públicas que venham a atender a demanda e a realidade do campo, no sentido de contribuir com uma vida digna do povo camponês (idem, p. 167). Por essa ótica, a formação por área de conhecimento permite uma visão mais ampla do educando frente à realidade do campo: perceber as contradições, problematizar as questões aparentemente imutáveis, buscando os nexos dos acontecimentos (idem, p. 168). Conclusão Como já foi afirmado, a experiência do PTerra – juntamente com as novas experiências, passa por um processo de reflexão, alimentado por pesquisas em andamento na Faculdade de Educação. No entanto, além dos aspectos já apontados ao longo do texto, é possível explicitar outras assertivas, conclusões e perspectivas. Em primeiro lugar, a Equipe responsável pelos cursos, provocou inúmeros deslocamentos, tanto na Faculdade de Educação como na UFMG. Deslocamentos e mesmo desconfortos de toda ordem: simbólicos, através da presença marcante de sujeitos que nunca adentraram outros espaços na UFMG, com suas bandeiras de luta, seus símbolos, seus corpos, enfim (por que não?); pedagógicos, com a alteração de novos tempos e espaços escolares, por exemplo e mesmo burocráticos EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 157 como o registro acadêmico dos cursos, em formatos muito distintos dos outros cursos da Universidade. No entanto, por mais que esse deslocamento tenha ocorrido, pode-se afirmar que apenas arranhou as estruturas pedagógicas e mesmo burocráticas da FAE e da UFMG. Assim, o estudo revela que o impacto dessas licenciaturas em outras licenciaturas da FAE ainda é pequeno. Renovou-se muito, mas existem dificuldades em expandir essas inovações. Isso se deve tanto a estrutura rígida das Universidades, a necessidade de ampliação do diálogo para muitos outros sujeitos quanto a incipiente sistematização dessas experiências. Outro aspecto a ser ressaltado é que esses sujeitos, moradores e atuantes nos movimentos sociais do Campo, precisam ampliar sua presença para além da FAE. Suas necessidades são infinitas, como é infinita a dívida social para com eles. Mas, essa ampliação precisa ser conquistada, dificilmente será oferecida. Desta forma, verefica-se que, para a equipe responsável urge a necessidade de ampliar parceiros em outros cursos, repetir essa experiência em outras Unidades. Enfim, para os atores que vivenciam tal experiência, é preciso não perder a perspectiva de que: A compreensão de educação originária desse movimento, que evite reduzi-la às práticas inovadoras sobre as necessárias, mas insuficientes, dimensões dos processos pedagógicos escolares vividos no território rural, exige a construção de práticas de Educação do Campo capazes de contribuir para a realização de processos formativos que contribuam com a promoção da desalienação do próprio trabalho (MOLINA, 2009, p. 189). 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Possibilidades e Limites de Transformações das Escolas do Campo: reflexões suscitadas pela Licenciatura em Educação do Campo – UFMG. In: ANTUNES-ROCHA, M. I.; MARTINS, A. A. (Orgs.). Educação do Campo: desafios para a formação de professores. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. ROSENO, S. M. & ROSENO, M. H. Movimento Social e Universidade: construindo parcerias. In: ANTUNES-ROCHA, M. I.; MARTINS, A. A. (Orgs.). Educação do Campo: desafios para a formação de professores. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. TURMA VANESSA DOS SANTOS. Licenciatura em Educação do Campo: sob o nosso olhar de lutadores e lutadoras do campo. In: ANTUNES-ROCHA, M. I.; MARTINS, A. A. (Orgs.). Educação do Campo: desafios para a formação de professores. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 159