UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E ENSINO DE PÓS-GRADUAÇÃO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS – CAMPUS I PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDO DE LINGUAGENS ADILMA NUNES ROCHA O TEXTO MACHADIANO NO TRÂNSITO DOS OBJETOS CULTURAIS NA CONTEMPORANEIDADE: ENTRE CONTOS E REQUADROS. Salvador 2012 2 ADILMA NUNES ROCHA O TEXTO MACHADIANO NO TRÂNSITO DOS OBJETOS CULTURAIS NA CONTEMPORANEIDADE: ENTRE CONTOS E REQUADROS. Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Estudo de Linguagens, no âmbito da Linha de Pesquisa I – Leitura, Literatura e Identidades, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Estudo de Linguagens, pela Universidade do Estado da Bahia. Orientador: Professor Dr. Carlos Augusto Magalhães Salvador 2012 3 FICHA CATALOGRÁFICA Sistema de Bibliotecas da UNEB Rocha, Adilma Nunes O texto machadiano no trânsito dos objetos culturais na contemporaneidade: entre contos e requadros San/ Adilma Nunes Rocha . - Salvador, 2012. 213f. Orientador: Prof. Dr. Carlos Augusto Magalhães. Dissertação (Mestrado) – Universidade do Estado da Bahia. Departamento de Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em Estudo de Linguagens. Campus I. 2012. Contém referências. 1. Assis, Machado de, 1839-1908. 2. Literatura brasileira - História e crítica. 3. Cultura. 4. Semiótica. 5. Histórias em quadrinhos. I. Magalhães, Carlos Augusto. II.Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Ciências Humanas . 4 ADILMA NUNES ROCHA O TEXTO MACHADIANO NO TRÂNSITO DOS OBJETOS CULTURAIS NA CONTEMPORANEIDADE: ENTRE CONTOS E REQUADROS. Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Estudo de Linguagens, no âmbito da Linha de Pesquisa I – Leitura, Literatura e Identidades, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Estudo de Linguagens, pela Universidade do Estado da Bahia, perante a banca examinadora composta pelos professores: _____________________________________________________________________________________ Prof.º Dr. Carlos Augusto Magalhães - Orientador Universidade do Estado da Bahia _____________________________________________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Márcia Rios da Silva Universidade do Estado da Bahia _____________________________________________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Nancy Rita Vieira Universidade Federal da Bahia Salvador 2012 5 “Cada um de nós pode ser um e outro, em diferentes momentos de um mesmo dia, num caso, buscando uma excitação de um tipo altamente especializada, no outro, uma forma de entretenimento capaz de veicular uma categoria de valores específica.” (ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. 2008, p.58.) “E onde esse sensorium se faz social e culturamente visível hoje é no entretempo dos jovens, cujas enormes dificuldades de conversa com as outras gerações apontam para tudo o que na mudança geracional há de mutação cultural.” (MARTÍN-BARBERO, Jesús. Ofício de Cartógrafo: travessias latino-americanas da comunicação na cultura, 2004, p.37.) 6 Dedico este trabalho às minhas filhas Aieska Rocha Assis, Nikole Rocha Assis e Bianka Rocha Assis; ao esposo companheiro Otávio de Jesus Assis; aos sobrinhos Matheus, André, Pietra, Geovane, Gabriel, Amanda e Heitor; aos meus pais, Tuninho e Irene e irmãos Karla, Arylene, Tone, Alex, Aldo , Adilson e Adailton – alteridades que me completam e me fazem acreditar na luta para que os sonhos e objetivos se realizem. E a todos os meus alunos de ontem, de hoje e de sempre, partícipes das minhas aprendizagens. 7 AGRADECIMENTOS Neste mundo amplo, ao mesmo tempo, próximo e distante, no qual lutamos para representar nossos sentimentos e eventos, sonhos e desejos pelo frágil instrumento que é o signo, vale tentar registrar que nem tudo ele consegue abarcar. Um exemplo desta indócil situação, é a palavra AGRADECIMENTO. Não cabe na palavra agradecimento, a energia de Deus em nossas ações. Não cabe na palavra agradecimento a falta, a tristeza, a paciência vividas por Aieska, Nikole e Bianka. Não cabe na palavra agradecimento, o apoio, a cumplicidade de Otávio. Não cabe na palavra agradecimento a atenção do meu orientador Carlos Magalhães. Não cabe na palavra agradecimento o cuidado e a atenção de Karla para comigo e para com minhas filhas. Não cabe na palavra agradecimento a energia positiva dos meus pais e de minha sogra. 8 Não cabe na palavra agradecimento o encorajamento de Arylene, o desejo de meu êxito sempre renovado no olhar de Tone, Alex, Aldo, Adilson e Adailton. Não cabe na palavra agradecimento o incentivo de Sayonara, Izabel, Arlete e Jussy, estímulo sempre renovado na pergunta E como está lá? e na afirmativa Tudo vai dar certo. Não cabe na palavra agradecimento os variados momentos de aprendizagem propiciados pela turma de mestrando de 2008. Não cabe na palavra agradecimento a dedicação dos professores do PPGEL. Não cabe na palavra agradecimento a constante disposição em atender com um sorriso estampado no rosto e o profissionalismo de Camila e Danilo. Apesar desta incompletude do signo em relação ao evento, agradeço de coração: todo esse encontro e experiências de alteridades propiciadas, toda alegria vivenciada, todos as descobertas realizadas, algumas decepções vividas, o cansaço acumulado, a sensação de esvaziamento para buscar mais conhecimento, e a sempre presentes vontade e prazer de aprender sempre mais. 9 LISTA DE FIGURAS Figura 1, 3, 4 5, 6 – ALENCAR, José de. Ubirajara. Adaptação e desenhos André Le Blanc; capa Monteiro Filho. Rio de Janeiro: Brasil-América, 1976. Figura 2,7,8 ,9, 10, 11, 12 – MACEDO, Joaquim Manuel de. A moreninha. Desenhos do texto e capa Gutemberg Monteiro. Rio de Janeiro: Brasil-América, 1976. Figura 13, 14 – CAMÕES. Os Lusíadas. Adaptação, arte e capa Fido Nesti. São Paulo: Peirópolis, 2006. Figura 15, 16 – QUEIROZ, Eça de. A relíquia. Ilustrações Marcatti. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2007. Figura 17, 18 – SIMMONDS, Posy. Gemma Bovery. Tradução Ludimila Hashimoto. São Paulo: Conrad Editora, 2006. Figura 19 e 20 – HOSSEINI, Khaled. O caçador de pipas. Adaptação de: The kite runner; ilustrado por Fábio Celoni e Mirka Andolfo; Tradução de Maria Helena Rouanet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. Figura 21 – SOUZA, Marcio. Galvez, o imperador do Acre. Roteiro de Miguel Ipiriba e imagens de Domingos Demasi. Belém: Secretaria de Cultura do Pará, 2004. Figura 22 – BARRETO, Lima. O homem que sabia javanês. Roteiro, desenhos Francisco S. Vilachã; cor Fernando A. Rodrigues e Francisco S. Vilachã. São Paulo: Escala Educacional, 2006. Figura 24 – MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida Severina em quadrinhos. Recife: Fundaj. Ed. Massagana, 2005. Figura 25 – MACEDO, Joaquim Manuel de. A luneta mágica. Roteiro de Patari: desenhos de Marcio de Castro. 1. Ed. São Paulo: Panda Books, 2009. Figura 26 – GUIMARÃES, Bernardo. A escrava Isaura. Roteiro de Ivan Jaf; arte de Guazzelli. São Paulo: Ática, 2010. 10 Figura 27 – ALENCAR, José de. O guarani. Adaptação e roteiro Ivan Jaf; roteiro e desenhos Luiz Gê. São Paulo: Ática, 2009. Figura 28, 29 – ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um Sargento de milícias Roteiro Ivan Jaf; ilustrações Rodrigo Rosa. São Paulo: Ática, 2010. Figuras 30, 31 – ALMEIDA, Manuel Antonio de. Memórias de um Sargento de milícias adaptação, roteiro e desenhos de Lailson de Holanda Cavalcante. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008. Figura 32, 34, 35 – AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. Roteiro Ivan Jaf; ilustrações Rodrigo Rosa. São Paulo: Ática, 2009. Figura 33, 36, 37 – AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. Roteiro e adaptação Ronaldo Antonelli; desenhos Francisco S. Vilachã; cores Fernando A. Rodrigues. São Paulo: Escala Educacional, 2007. Figura 38, 39 – LOBATO, Monteiro. O minotauro. Roteiro Stil. São Paulo: Globo, 2009. Figura 40, 41 – LOBATO, Monteiro. Dom Quixote das crianças. Adaptação, ilustrações de Cor e Imagem André Simas. 2ed. São Paulo: Globo, 2009. Figura 42, 43 – LOBATO, Monteiro. As aventuras de Hans Staden. Adaptação e roteiro Denise Ortega e Stil. Ilustrações Arcon. São Paulo: Globo, 2009. Figura 44, 45, 46,47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 68, 69 – ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Roteiro e ilustrações Sebastião Seabra. São Paulo: Escala Educacional, 2008. Figura 56, 57, 58, 59, 60, 61, 62, 63, 64, 65, 66, 67, 70, 71, 72, 73,74, 75, 76 – ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Roteiro de Wellington Srbek e ilustrações João Batista Melado. Rio de Janeiro: Desiderata, 2010. Figura 77, 78,79, 80, 81, 82 – ASSIS. Machado de. Dom Casmurro: em quadrinhos. Ilustrações de Ruy Trindade. Salvador: Bureal Gráfica e editora, 2005. 11 Figura 83, 84, 85, 86, 87, 88, 89, 90,91, 92, 93, 94, 95, 96, 97 – ASSIS. Machado de. Dom Casmurro de Machado de Assis. Roteiro de Wellington Srbek e ilustrações José Aguiar. Belo Horizonte: Editora Nemo, 2011. Figura 98, 99, 100, 101, 102, 103, 146, 147, 148, 154, 155, 173 – ASSIS. Machado de. O alienista. Roteiro e ilustrações Francisco S. Vilachã e cores Fernando A. A. Rodrigues. São Paulo: Escala Educacional, 2006. Figura 104, 105, 106, 107, 108, 109, 110, 111, 112, 113, 114, 149, 156, 157 – CAVALCANTI, Lailson de Holanda. O alienista/Machado de Assis; adaptação de Lailson de Holanda Cavalcanti. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008. Figura 115, 116, 117, 118, 119, 120, 121, 122, 123, 124,125, 126, 127, 128, 129, 130, 131, 132, 150, 158, 159, 160 – ASSIS. Machado de. O alienista. Adaptação e arte Cesar Lobo e roteiro Luiz Antonio Aguiar. 1.ed. São Paulo: Ática, 2008. Figura 133, 134, 135, 136, 137, 138, 139, 140, 141, 142, 143, 144, 145, 151, 152, 153, 161, 162, 163 – MOON, Fábio. O alienista de Machado de Assis. Adaptação de Fábio Moon e Gabriel Bá. Rio de Janeiro: agir, 2007. Figura 164, 165, 166, 167, 168, 169, 170 – ASSIS, Machado de. Contos de escola em quadrinhos. Adaptado por Silvino. São Paulo: Peirópolis, 2010. Figura 171 – ASSIS, Machado de. A cartomante. Roteiro, desenhos e arte final Jô Fevereiro. Cores Jô e Ciça Sperl. São Paulo: Escala Educacional, 2006. Figura 172, 176, 177, 178, 179,180, 181, 182, 183, 184, 185, 186, 187,188, 189, 190, 191,192, 193, 194, 195, 196, 197, 198, 199, 200, 201, 202, 203, 204, 205, 206, 207, 208, 209, 210, 211, 212, 213, 214, 215, 216, 217, 218, 219, 220, 221, 222, 223, 224, 225, 226, 227, 228, 229, 230 – ASSIS, Machado de. A causa secreta. Roteiro Francisco S. Vilachã. Cores Fernando A. A. Rodrigues. São Paulo: Escala Educacional, s/d. Figura 174 – ASSIS, Machado de. O enfermeiro. Roteiro, desenhos Francisco S. Vilachã. Cor Fernando A. Rodrigues e Francisco S. Vilachã. São Paulo: Escala Educacional, 2006. Figura 175 – ASSIS, Machado de. Uns braços. Roteiro e desenhos Francisco S. Vilachã. São Paulo: Escala Educacional. s/d. 12 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ...............................................................................................................15 1. O TRÂNSITO DOS OBJETOS CULTURAIS: A LITERATURA EM QUADRINHOS 1.1 O TRÂNSITO DOS OBJETOS CULTURAIS .........................................................23 1.2 HISTÓRIA EM QUADRINHOS: DA GÊNESE À CONDIÇÃO DE ARTE SEQUENCIAL E PRODUTO DE MASSA ..................................................................28 1.3 A LITERATURA EM QUADRINHOS COMO TRADUÇÃO ...............................41 1.4 EMERGÊNCIA E DIVERSIDADE DA LITERATURA EM QUADRINHOS ......45 2. A LITERATURA MACHADIANA ENTRE CONTOS E REQUADROS 2.1 A LITERATURA MACHADIANA .........................................................................68 2.1.1 LITERATURA MACHADIANA: ENTRE CONTOS ...................................81 2.1.2 UM OLHAR SOBRE A CAUSA SECRETA ................................................88 2.2 A LITERATURA MACHADIANA: ENTRE REQUADROS .................................92 2.2.1 UM OLHAR SOBRE A QUADRINIZAÇÃO DE “A CAUSA SECRETA”142 3. OS CONTOS E REQUADROS MACHADIANOS NA APRECIAÇÃO DO LEITOR CONTEMPORÂNEO 3.1 O LEITOR CONTEMPORÂNEO .........................................................................160 3.2 O CONTEXTO DA ATIVIDADE INVESTIGATIVA ENTRE CONTOS E REQUADROS: A RECEPÇÃO DO TEXTO MACHADIANO NA CONTEMPORANEIDADE ..........................................................................................167 3.3 O LEITOR CONTEMPORÂNEO ENTRE CONTOS E REQUADROS: RELATOS DE RECEPÇÃO .........................................................................................173 CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................................202 13 RESUMO O presente trabalho tem por objetivo uma análise de como ocorre na contemporaneidade o diálogo entre produtos culturais distintos, prática que se concretiza nos textos híbridos que democratizam o acesso às variadas produções das culturas. Tais diálogos são motivados por um mercado que passa a investir em novas sensibilidades identificadas com as tramas comunicativas que rompem fronteiras geográficas, sociais e culturais. Neste contexto, procuramos estabelecer a relação entre a literatura de Machado de Assis na versão tradicional e a literatura em quadrinhos machadiana, por intermédio da tradução intersemiótica observando como os jovens percebem estes textos. As quadrinizações literárias tornam-se objeto de atenção tanto pela nova linguagem engendrada no encontro do verbal (clássico) e o icônico, como pela recepção que provocam, no sentido de que propiciam ao público leitor o conhecimento e apreciação das experiências de outros tempos-lugares. Em consonância com este intento, realizouse pesquisa bibliográfica na qual foram fundamentais as discussão de Jésus MartinBarbero, Nestor García Canclini, Umberto Eco, Walter Benjamin, Moacy Cirne, Will Eisner, Júlio Plaza, Wolfgang Iser, Hans Robert Jauss, entre outros. Outra vertente do trabalho foi pesquisação, atividade que se centrou na leitura, análise e discussão do conto A causa secreta na versão tradicional e na quadrinizada. A experiência desenvolveu-se mediante círculos de leitura, em que se envolveu uma escola da rede pública de Jequié-Ba. Palavras-chave: Cultura; literatura em quadrinhos; tradução intersemiótica; Machado de Assis. 14 ABSTRACT This study aims to analyze how one occurs in the contemporary dialogue between different cultural products, a practice that is realized in hybrid texts that democratize access to varied crop yields. Such dialogues are driven by a market that is investing in new sensitivities identified with the communicative frames that break geographical boundaries, social and cultural. In this context, we establish the relationship between literature Machado de Assis in the traditional version and literature in comics Machadiana, intersemiotic translation through observing how young people perceive these texts. The literary quadrinizações become the object of much attention engendered by the new language in the meeting of verbal (classic) and iconic, like the reception that cause, in the sense that the readers provide the knowledge and appreciation of the experiences of other time-places. In line with this intent, there was literature in which the discussions were critical of Jesus Martin-Barbero, Nestor García Canclini, Umberto Eco, Walter Benjamin, Moacy Cirne, Will Eisner, Jules Plaza, Wolfgang Iser, Hans Robert Jauss, among other. Other work wertwente was pesquisação, activity which focused on reading, analyzing and discussing the story The secret cause in the traditional version and quadrinizada. The experience developed through reading circles, which involved public school of the Jequié –Ba. keywords: Culture; literature in comics; intersemiotic translation; Machado de Assis. 15 INTRODUÇÃO A segunda metade do século XX e o início do século XXI foram marcados pelo signo das grandes transformações sócioeconômicas e culturais, as quais se apresentam impregnadas pela velocidade da tecnologia. À mercê do poder do mercado globalizado, tais transformações descentralizam paradigmas e aproximam espaços e culturas e promovem a possibilidade de formação de novas sensibilidades. A descentralização do modelo eurocêntrico elitista, elemento caracterizador das produções culturais e identitárias, é resultante da expansão do mercado e das relações de mundialização. O olhar antes focado na Europa e nas potências mundiais volta-se para a periferia, espaço onde o diálogo dominador X dominado, elite X povo é ressignificado nos mais variados produtos, a partir da ideia do entrelugar. As margens sociais e as massas consumidoras tornam-se também alvos de expectativas, o que possibilita novos espaços e olhares diferenciados para seus produtos culturais. Nessas circunstâncias, os frutos da cultura elitista do centro passam a dialogar com os produtos culturais das margens, os quais se tornam espaços de trânsito por se apresentarem como adequados para a aproximação e hibridização das linguagens em constante revisionismo, no que concerne à adoção de propósitos identificados com uma melhor compreensão do presente. A literatura, entre tantos produtos da cultura, está exposta a este revisionismo, no qual se inserem também as novas linguagens como os quadrinhos, o cinema, as minisséries, as novelas. É neste contexto que surge o nosso questionamento: que causas remetem a literatura, produto da elite, a estágios de diálogos com os produtos culturais considerados antes como das margens, como no caso específico da interação da literatura com os quadrinhos, fruto da cultura de massa? Como se processa o diálogo entre a literatura e os quadrinhos nas quadrinizações literárias? A literatura em quadrinhos ou as quadrinizações literárias (como costuma ser denominado este novo produto cultural) traz em si um caráter híbrido. Refletindo sobre a hibridização, assim se expressa García Canclini (2008, p.14-15): Parto de uma definição: entendo por hibridação processos sócioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de 16 forma separada, se combinam para formar novas estruturas, objetos e práticas. [...] Uma forma de descrever esse trânsito do discreto ao híbrido, e as novas formas discretas, é a fórmula “ciclos de hibridação” proposta por Brian Stross, segundo a qual, na história, passamos de formas mais heterogêneas a outras mais homogêneas, e depois a uma relativamente mais heterogênea, sem que nenhuma seja pura ou plenamente homogênea. Ganha relevo nesta discussão a literatura em quadrinhos, como produto híbrido, formatação resultante da junção de um texto mais ou menos homogêneo – o literário canônico – e de outro de natureza heterogênea – a história em quadrinhos. O último assume o formato de um texto que traz, no próprio bojo, marcas e traços de linguagens outras (fotografia, cinema, teatro, a da própria literatura). Por ostentar, na origem, a condição híbrida, tal produto desperta olhares curiosos e faz surgir posições controversas e questionadoras no que se refere à discussão se, efetivamente, ele apresenta a legitimidade de texto artístico identificado com propósitos específicos. Da confluência dos dois textos surge um novo objeto cultural, um entrelugar, enfim uma linguagem outra, na verdade, um produto outro com especificidades e códigos próprios. A literatura em quadrinhos seria uma espécie de entrelugar, pois é fruto da confluência da história em quadrinhos com a literatura clássica, ambas apresentando linguagens próprias, distintas. O encontro dos dois produtos faz nascer o icônico, por sua vez produto com natureza própria e diversa da história em quadrinhos e da literatura clássica, isto é, se cada uma delas é olhada isoladamente. O produto cultural híbrido (texto em quadrinho) carrega o estigma do preconceito por se apresentar como texto pronto, desprovido de elementos que funcionariam como desafios ao leitor, e também por não se enquadrar na proposta de erudição, em termos da exibição de aspectos característicos de uma linguagem tradicionalmente elaborada, valores normalmente atribuídos à literatura. Assim, numa proposta de identificação com certos traços dos estudos culturais, esboça-se a neutralização de determinados aspectos da literatura tradicional. Nesta direção, criam-se espaços para a adoção de gêneros de natureza heterogênea, responsáveis pelo desvendamento de olhares novos identificados com a cultura de massa e, que não raras vezes, se apresentam atrelados à indústria cultural. Tal redimensionamento também trilha as discussões de Lucia Santaella, pesquisadora que nomeia esta nova instância como a cultura das mídias. 17 Trata-se de processo cultural diferente do que se denominava de cultura de massa, visto que “[...] a cultura das mídias inaugurava uma dinâmica que, tecendo-se e se alastrando nas relações das mídias entre si, começava a possibilitar aos seus consumidores a escolha de produtos simbólicos alternativos” (SANTAELLA, 2008, p.53). Neste trabalho, entendem-se como mídias os variados suportes de leitura que fazem transitar a informação, e a cultura, as quais passam a circular a partir da passagem e da adaptação de aspectos de um veículo que assimilam feições de outro veículo. É o que se observa no caso do livro que se torna disponível na feição do filme, do quadrinho na feição do filme, do livro no cinema, do livro na minissérie, da minissérie no livro. Também faz parte desta nova dinâmica cultural a literatura em quadrinhos – trânsito da obra literária para as revistas em quadrinhos. Tal objeto cultural identifica-se com novas concepções da comunicação voltadas para a ressignificação e a apreensão de objetos e práticas em que se interligam aspectos da esfera culta, popular e de massa. Tradicionalmente, a comunicação é descrita como uma estrutura polarizada, cristalizada a partir da enunciação da mensagem, cujo emissor assume a função primordial na estruturação do processo comunicativo. Caberia ao receptor a função de apenas receber a mensagem, isto é, resta-lhe o papel de receptáculo do processo, uma vez que apenas decodificaria o conteúdo previamente determinado. A partir da segunda metade do século XX, diante dos processos de fragmentação da identidade e das novas concepções e vivências da instância espaço-temporal, as discussões acerca do processo de comunicação ganham nova dinâmica. O emissor e o receptor têm seus papéis revistos e, nesta direção, vão participar de um processo interativo cuja meta é a construção do sentido. Neste contexto, os objetos e as práticas culturais passam a ser focados considerando-se as novas sensibilidades, produtos das novas relações espaciais e temporais, múltiplas e heterogêneas. Tais sensibilidades mostram-se atentas às condições definidas pela globalização, instância em que se configuram espaços de encontros, misturas e assimilações culturais e que ressignificam continuamente os processos de comunicação, agora não apenas interpessoais, mas também intertemporais, interespacias e interculturais. É no seio deste processo interativo que se situam a literatura, os quadrinhos e o leitor. O estudo que aqui se inicia nasceu da curiosidade em compreender como a literatura machadiana é transportada para os quadrinhos e como o leitor contemporâneo 18 interage com o conto de Machado de Assis, tanto em sua forma tradicional como na quadrinizada. Pensar o deslocamento e a aceitação deste texto não se resume a confirmar e referendar o autor no cânone da literatura. A propósito, a literatura é compreendida aqui como uma instituição que, a partir da perspectiva da sociologia das emergências, conforme explicitações de Boaventura Souza Santos (2004) tende a aglutinar todas as formas de literatura e de linguagens que dialogam e corroboram com a ecologia dos saberes. Pensa-se, sobretudo, na valorização de todas as experiências de vida e de leitura, atentando-se para o risco iminente de desperdício de oportunidades, etapas com que costuma se envolver um elitismo excludente e empobrecedor. O instigante e desafiador texto machadiano constitui o norte das abordagens que se pretendem aqui, numa proposta que busca repensar as seriações da historiografia literária. As análises terão como operadores empíricos dois produtos culturais específicos – o conto A Causa Secreta (1884) e a quadrinização do referido conto, construída pela Editora Escala Educacional. Dentro do universo literário machadiano, a escolha do conto, dentre os variados gêneros textuais, dá-se pela possibilidade de leitura rápida, tendo em vista a proposta temporal de investigação. O romance demandaria mais tempo, pensando-se em um leitor sem muita prática de leitura. Não obstante, é reconhecida a grande importância do conto, gênero com que se ilustra o caráter de singularidade da obra machadiana, tida como inigualável. O conto aqui analisado, A Causa Secreta (1884), é um texto pinçado entre os mais encontrados nos manuais didáticos, além de ser bastante estudado por teóricos e críticos acadêmicos. A narrativa em si é denominada, neste trabalho, texto-base, pois serviu de motivo para filmes, minisséries, animações, novelas e histórias em quadrinhos, produtos que são considerados traduções intersemióticas. Produzido na segunda metade do século XIX, o conto machadiano traz em sua temática discussões atuais. Tal narrativa surge no Brasil num contexto histórico entremeado pela desgastada monarquia conservadora e oligárquica e pela recémchegada República, com foros de modernidade tardia e influenciada pela visão burguesa eurocêntrica, cujo paradigma tem raízes na França. Trazer estas experiências de vida deste período histórico, metaforizadas na literatura clássica, para uma melhor compreensão das instâncias passado-presente-futuro da trajetória humana, por meio de uma linguagem mais acessível na 19 contemporaneidade, é o que rege o processo de tradução intersemiótica, base da literatura em quadrinhos. Adotaremos o termo tradução pelo fato de ele expressar a transmutação dos textos literários machadianos isto é, a transubstanciação do signo verbal para o icônico (HQ), técnica chancelada pela ressignificação do leitor quadrinista. Muito mais que adaptar uma linguagem à outra, num processo estrutural semiótico, trata-se de constatar que a literatura em quadrinhos é um instrumento de acesso à leitura da relação passado-presente. Sendo os quadrinhos um produto de massa, o interesse aqui é compreender como a quadrinização literária, objeto híbrido, consegue fundir o clássico e o massivo e que efeitos provocam no leitor. Foram observadas, inicialmente, quadrinizações de textos literários de diversos autores (José de Alencar, Manuel Antonio de Almeida, Bernardo Guimarães, Eça de Queirós, Luis Vaz de Camões, Monteiro Lobato...) de variadas editoras (Agir, Ática, Top Books, Panda Books, Cortez, Desiderata, Companhia Editora Educacional, Globo, Peirópolis, Companhia das Letras, Pallas, Nemo). Neste levantamento, destacamos as primeiras quadrinizações e analisamos o boom de publicações nos últimos dez anos. Por fim, focou-se na literatura machadiana quadrinizada que circula no mercado editorial, por ter Machado de Assis um texto inquietante. Dentre a vasta produção do referido autor foi escolhida a quadrinização A causa secreta feita pela Escala Educacional, editora paulista que tem muitos títulos nesta tendência contemporânea. Esta é uma das editoras que se debruçam sobre a leitura dos clássicos com o argumento da facilitação da leitura por meio de uma tradução/adaptação em textos de quadrinhos. Há o intuito de observar mais atentamente essa ressignificação, visto que não se trata apenas de mera mudança de linguagem, da literária tida como “superior”, para o iconográfico, produto da cultura de massa. Os interesses implícitos nesta nova produção cultural e a identidade do leitor envolvido neste processo merecem atenção especial. Assentar um pouco nossas reflexões na cultura de massa e nos objetos culturais híbridos pode nos conceder luz para enxergarmos o que vem a ser este novo produto da cultura. O texto aqui desenvolvido apresenta, em seu Capítulo 1 – O TRÂNSITO DOS OBJETOS CULTURAIS: A LITERATURA EM QUADRINHOS – uma exposição acerca da produção cultural em momento de intersecção mediada pelo mercado globalizado. São apresentadas as transformações das concepções de cultura que alargam a percepção, na contemporaneidade, dos objetos culturais, reconfigurados na hibridização pelo diálogo de culturas antes distanciadas e restritas a grupos sócioeconômicos determinados. 20 A crítica cultural, como tendência teórica que abre espaços para a percepção dos diálogos culturais de produtos da margem, que descentram práticas culturais da elite, torna-se o embasamento que sustenta nossa discussão. A aplicação de aspectos da crítica cultural se embasa em princípios explicitados e elaborados em textos de Eneida Maria de Souza, Eneida Leal Cunha e Heloísa Buarque de Holanda. Focaliza-se a literatura em quadrinhos, objeto de atenção desta pesquisa, na perspectiva de objeto artístico cultural híbrido e descentralizador, resultado de uma nova sensibilidade na cultura e na comunicação, e adotam-se como suporte as discussões de Umberto Eco sobre o produto cultural das massas, Jesus Martín-Barbero, no concernente à comunicação cultural no cenário da sociedade tecnológica e globalizada, Néstor García Canclini, nas considerações sobre o texto híbrido na socialização da arte, Mario Feijó, no que diz respeito ao histórico dos quadrinhos, Will Eisner, Paulo Ramos e Moacyr Cirne, olhando-se as considerações acerca da linguagem quadrinística. A literatura em quadrinhos é destacada como produto cultural resultante da congruência dos dois olhares. Vale salientar também a leitura do quadrinho sob a ótica da reprodução técnica da obra de arte, conforme explicitações de Walter Benjamin. Interessa aqui destacar os poucos estudos existentes encontrados em textos, inclusive os que circulam na mídia (internet), e apresentar os aspectos característicos de quadrinizações antigas e atuais que circulam no mercado. Por fim, a literatura em quadrinhos é discutida na perspectiva do processo de tradução intersemiótica pela transmutação de códigos, conforme os estudos de Júlio Plaza, e discutida criticamente nas perspectivas de leituras da História, que se consolidam nas traduções, segundo Walter Benjamin. O Capítulo 2 – A LITERATURA MACHADIANA: ENTRE CONTOS E REQUADROS – apresenta a literatura machadiana em dois objetos culturais distintos: na literatura e nas quadrinizações. Na literatura, afunilando para o gênero conto, buscam-se nos posicionamentos de críticos e especialistas como Afrânio Coutinho, Eugênio Gomes, Valentin Facioli, Sônia Brayner e Antonio Candido, as diversas percepções sobre o texto machadiano. Igual busca há também na leitura crítica difundida em algumas revistas produzidas nos últimos vinte anos, textos que vinculam posicionamentos de críticos renomados e de estudiosos da atualidade do meio acadêmico e da crítica jornalística. Tais leituras se aproximam e guardam certa semelhança com o que é conhecido como crítica de rodapé. 21 A aproximação se concretiza a partir da produção de textos críticos por parte de intelectuais não especialistas em literatura, dotados de uma linguagem menos rebuscada e de construções argumentativas mais diretas. Também são expostos levantamentos e leituras de algumas quadrinizações da literatura machadiana disponíveis no mercado editorial para discutir alguns elementos da transmutação semiótica nelas percebidas. Por fim, desembocamos na leitura intersemiótica da quadrinização A Causa Secreta de Francisco Vilachã, utilizada na atividade investigativa, por meio de comparação com o conto (texto-base). Foi observado como se constituem as releituras dos contos primeiros realizadas pelo quadrinista por meio da materialização do verbal-literário para o não-verbal imagético da linguagem dos quadrinhos. No Capítulo 3 – OS CONTOS E REQUADROS MACHADIANOS NA APRECIAÇÃO DO LEITOR CONTEMPORÂNEO – tem-se por meta a observação e análise de como o leitor contemporâneo acolhe e constrói a leitura do texto machadiano em gêneros textuais distintos (o texto literário e o texto quadrinístico). Os dados colhidos foram analisados sob a ótica da estética da recepção, a partir das discussões relacionadas com o conceito de “prazer estético”, de Hans Robert Jauss. Busca-se observar o desmembramento da fruição estética e da reflexão estética; tal intento se faz presente também no “jogo do texto”, marcado pelas indeterminações e hiatos a serem complementados pelo leitor conforme Wolfganger Iser. O presente capítulo está organizado em duas etapas: a primeira situa o leitor do texto literário na contemporaneidade, na visão da academia e do que os PCNs afirmam sobre a leitura literária na escola. Na segunda, são apresentadas a descrição da atividade investigativa e a análise dos resultados. Tal atividade investigativa denominada Entre contos e requadros: a recepção do texto machadiano na contemporaneidade concretizou-se por meio de círculos de leitura, realizados no Colégio Polivalente Edivaldo Boaventura, escola pertencente à rede estadual de Educação em Jequié, Bahia. O público-alvo foi constituído por alunos de 15 a 18 anos, da 2ª e 3ª séries do Ensino Médio, colaboradores voluntários, que participaram de três círculos de leituras, nos quais fizeram a leitura do texto literário e da quadrinização do conto A causa secreta. Eles apresentaram as leituras construídas, situaram as percepções e as dificuldades acerca do texto machadiano, destacaram 22 detalhes do texto quadrinístico que favorecem uma melhor construção do sentido da história e confrontaram o texto-base com a literatura em quadrinhos. Neste trabalho, as discussões travadas e as análises construídas voltaram-se para a percepção de como o leitor procede a leitura, em face a dois objetos culturais distintos, os quais vão ganhando novas dimensões à medida que se vai desmistificando a visão centralizadora do livro. Este novo olhar é estimulado por um mercado editorial que torna o antigo livro um dentre vários veículos de leitura e, neste sentido, torna-se necessário que se acerque de aspectos outros, como observa Fischer (2006, p.288) ao comentar sobre circulação e a pequena lucratividade editorial: [...] Além disso, uma vez que o livro, como fonte principal de informações gerais, foi obrigado a dividir espaço com o rádio, a televisão, e, agora com o computador pessoal, é necessário que ele se atenha em outros ingredientes para que consiga assegurar sua função na sociedade: a evasão proporcionada por romances de amor e de aventuras; o apoio aos recursos educacionais, referências e estudos; ou a inspiração dos clássicos. A literatura em quadrinhos talvez seja um novo ingrediente que possivelmente venha atender às demandas do leitor na era imagética, tecnológica e intercultural. Fica evidente que na quadrinização literária há o surgimento de um novo texto hibrido e difundido em livros e revistas que talvez venha a facilitar a acessibilidade dos leitores, independente da condição social e da erudição de que sejam eles dotados. Tem-se como acréscimo uma leitura de maior poder de atração que socializa com grupos populares produtos antes restritos à elite letrada. Este objeto cultural reflete condições de entendimento de mundo e de vida, além de desfazer os guetos que a diferença social, de certa forma, promove. Tentar compreender os trâmites do processo de tradução intersemiótica do texto machadiano, produto da cultura de elite, para os quadrinhos, elemento da cultura de massa, e descrever como os leitores contemporâneos reagem a esta nova opção de interação cultural são metas que norteiam esta pesquisa. As reflexões aqui construídas não se pretendem únicas, mas buscam fomentar novos diálogos e futuros questionamentos. Afinal o homem é este constante ir e vir dentro da História. 23 1- O TRÂNSITO DOS OBJETOS CULTURAIS: A LITERATURA EM QUADRINHOS 1.1 O trânsito dos objetos culturais No mundo globalizado, ganham cada vez mais espaço as redes informacionais cujas ações interferem profundamente nas percepções e vivências do presente, passado e futuro e influenciam também nas elaborações inusitadas do imaginário. É lógico que todas estas transformações vão repercutir socialmente e possibilitarão o surgimento de novos objetos culturais. Como se sabe, o conceito de cultura abrange desde as produções básicas para a sobrevivência humana, como as formas de interferência no mundo natural e biológico, até as densas elaborações do mundo simbólico. Neste sentido, situam-se como manifestações culturais, entre outras, a arte, a língua, a ciência, a religião. As próprias discussões sobre tal conceito tornam-se produto de investigações e da própria trajetória da cultura no mundo ocidental. Segundo Eneida Leal Cunha (2009), entre os diversos debates sobre cultura se destacam, nos dois últimos séculos, três concepções: a iluminista do século XVIII, segundo a qual cultura equivale à noção de progresso, sobretudo o intelectual e o material, responsáveis, de certa maneira, pelo bem-estar social. Neste sentido, ganha vulto a questão urbana, uma vez que viver na cidade representa a interação com a excelência e com a elegância das boas maneiras, qualidades que se contrapõem à vida anterior nas pequenas comunidades, cujo acesso às benesses e aos padrões do mundo moderno era limitado ou inexistente. Opondo-se aos valores metropolitanos, desenha-se a barbárie, condição em que se encontram aqueles não integrados neste universo de civilização e que, por isso mesmo, careciam, urgentemente, de um trabalho de convencimento voltado para o propósito de adesão aos paradigmas europeus – o mundo moderno e progressista. A força desses princípios com os quais o conceito de cultura foi lido chega à contemporaneidade, momento em que não raramente o indivíduo, não incluso neste universo de crenças, valores e modelos, costuma ser rotulado como inculto. Outro sentido de cultura se articula de maneira muito próxima com a noção de Estado Nacional, proposta tão característica do século XIX e que se apresenta como 24 uma das grandes conquistas da modernidade. O Estado Nacional, prerrogativa de evolução com que sonham os povos colonizados, se empenha com a construção ou com o resgate da própria singularização em termos do engrandecimento dos costumes, produções populares, crenças, passado mítico e histórico e, em especial, da língua – elementos integrantes da identidade nacional e cultural de um povo e de um país, segundo os modernos princípios nacionalistas do século XIX. A terceira significação de cultura se apresenta, conforme Eneida Cunha, como a mais restritiva. Interligada intimamente com as questões estéticas e da arte, esta acepção contempla um número reduzido de indivíduos que detêm e dominam as produções artísticas, condição que atribuiria àquele grupo uma suposta superioridade (século XIX). Eneida Cunha conclui afirmando que, a despeito da diversidade e da mobilidade conceitual, essas três concepções ainda ressoam na virada do século XX para o XXI e não poucas vezes se constata o emprego da noção de cultura com este sentido tão delimitador. A partir do olhar que vê as concepções excludentes e conservadoras como inadequadas, emerge a crítica cultural indiciadora de novos caminhos. A discussão desta crítica se volta para uma tentativa de leitura que não priorize apenas um aspecto, isto é, busca-se, sobretudo, o afastamento de dicotomias e polarizações, como a crença na existência da superioridade de um povo ou classe social ou, ao contrário, a desvalorização do homem tido como não letrado – o homem inculto. É nas rasuras da discriminação e marginalização que ocorrem os encaminhamentos das duas vertentes da crítica cultural, conforme explicitação de Eneida Cunha (2009): a primeira, na legitimação das vozes das minorias silenciadas (o negro, o índio, a mulher, o homossexual) e suas representações culturais; e a segunda, na desconstrução do confinamento do valor cultural atribuído apenas à esfera letrada ou erudita e na valorização das produções artísticas populares e das massas. Conforme Heloísa Buarque de Holanda (2004), historicamente, os estudos culturais credenciaram-se como uma área do conhecimento pensada em função do contexto histórico, social e cultural. Neste campo, a produção de saber migra de uma disciplina para outra, alterando prioridades e determinando discursos e práticas estruturalmente diversificadas. É necessário subentender-se a ideia de deslocamento – migração na trajetória das ideias e teorias para além do geográfico. Valendo-se do pensamento de Bakhtin, assim se expressa a pesquisadora: 25 Bakhtin chama ainda a atenção para a flutuação histórica das fronteiras das áreas de produção cultural e observa que sua vida mais intensa e produtiva sempre ocorre nas fronteiras de suas áreas individuais e não nos espaços onde estas áreas tornam-se encerradas em sua própria especificidade. (HOLANDA, 2004, p.33). Assim, poderia afirmar-se que a motivação dos estudos culturais residiria também na ideia de deslocamento das fronteiras do saber, proposta esta relacionada com certa neutralização do conceito de centro (elite), ideia tida, reconhecida e credenciada socialmente como superior. O afastamento seguiria em direção ao universo das produções e representações construídas pelas e para as margens [grifos nossos] grupos subalternos. Heloísa Buarque de Holanda observa que a própria gênese dos estudos culturais nos encaminhava para a abertura, para a busca de novas experiências e sensibilidades antes ocultadas. Na Inglaterra1, as transformações da classe operária do pós-guerra reclamaram novos sujeitos políticos construídos fora do modelo sociológico tradicional de classe, pautados na historicidade e experiências próprias. Nos Estados Unidos, o campo das Letras (especialmente a Literatura) foi o espaço no qual as discussões e as disputas em torno dos direitos das minorias (mulher e negro) e dos imigrantes ganharam foco. Desfraldando a bandeira do multiculturalismo, as discussões encontraram afluência na preocupação com a análise das diversas expressões culturais, inclusive as que não se balizavam pelas estratificações e canonizações. Na América Latina, a reinserção democrática dos países sufocados cultural e economicamente pela condição histórica da colonização e a dicção dos regimes ditatoriais tornaram o momento propício para a chegada dos estudos culturais. Abremse espaços para as pesquisas emergenciais na área da sociologia e antropologia, com foco na construção de novas políticas culturais, socialmente mais justas, realizadas por teóricos2 que primaram pela análise dos objetos culturais da esfera da comunicação de 1 As obras inglesas inaugurais dos Estudos Culturais foram Usos da Leitura, de Hoggart, com as reflexões sobre a vida de um cidadão antes e depois da alfabetização; Cultura e Sociedade, de Raymond Willians, texto que traz o debate sobre a cultura dentro da estrutura social tradicional. Ambas pautam-se na construção de um novo sujeito social. 2 Destacam-se os trabalhos de Néstor García Canclini, nas discussões das culturas híbridas e da socialização da arte; de Jesús Martín-Barbero, com foco nos debates entre cultura e comunicação; e Beatriz Sarlo, com as pesquisas acerca da recepção dos produtos culturais televisivos. 26 massa e mídia, em especial a televisão, como observa Heloísa Buarque de Holanda (2004.). É nesta condição de revisão do que se entende por cultura e das representações e produtos culturais antes contestados pela elite social e econômica, que se constata o crescimento da percepção e experimentação de novas sensibilidades. Nesse contexto, abre-se espaço para o desenvolvimento das pesquisas relacionadas com objetos culturais híbridos, produtos de uma sociedade que se estrutura para além das noções de nacional e internacional, intentando chegar sempre ao transnacional, o que representa o alargamento das próprias fronteiras. É o que constata Jesús Martín-Barbero (2004, p. 258): Há nas transformações da sensibilidade que emergem na experiência comunicacional um fermento de mudanças no próprio saber, o reconhecimento de que por aí passam questões que atravessam por inteiro o desordenamento da vida urbana, o desajuste entre comportamento e crenças, a confusão entre realidade e simulacro. As ciências sociais não podem ignorar então que os novos modos de simbolização e ritualização do laço social se acham a cada dia mais entrelaçados às redes comunicacionais e aos fluxos informacionais. O despedaçar-se das fronteiras espaciais e temporais que eles introduzem no campo cultural deslocaliza os saberes e deslegitima suas fronteiras entre razão e imaginação, saber e informação, ciência e arte. Isso modifica tanto o estatuto epistemológico como o institucional das condições de saber e das figuras de razão, que constituem os traços de mudança de época, em sua conexão com as novas formas de sentir e as novas figuras da sociedade. Amplia-se a visibilidade de objetos culturais, antes legada apenas aos produtos da elite, como a música clássica, escultura, a pintura, a literatura, para os produtos não seletos e não canônicos, como música popular, artesanato, grafite, quadrinhos. Com essa transformação, fomenta-se, em nome da comunicabilidade e da acessibilidade, a construção de diálogos entre objetos culturais tidos como de elite com os considerados de massa (cinema, quadrinhos, música popular), o que fará surgir novas possibilidades de comunicação, como a literatura em quadrinhos. Martín-Barbero (2004) enfatiza a importância de se estar cauteloso para não se permitir que a função do componente tecnológico restrinja-se à questão mercadológica, o que faria com que a esfera cultural fosse reduzida a interesses econômicos. Torna-se necessária a percepção de que a cultura está além deste patamar. Neste sentido, a própria concepção de cultura seria ressignificada; ela se tornaria mais sólida, mais 27 espessa, cabendo-lhe o papel de expressar as novas sensibilidades e práticas do mundo tecnológico que (devem evidenciar) evidenciam não apenas a excelência das máquinas. Em observância a tais princípios, o sentido de cultura passaria a englobar novas acepções, novas configurações. É o próprio Martín-Barbero (2004) quem afirma: [é preciso contemplar-se] o novo lugar da cultura na sociedade quando a mediação tecnológica deixa de ser puramente instrumental para espessar-se, densificar-se e se converter em estrutural, pois a tecnologia remete hoje não a novas máquinas ou aparelhos, mas a novos modelos de percepção e de linguagem, a novas sensibilidades e escritas. Em especial, chama-nos a atenção o modo como se renova a experiência do leitor diante da literatura. A arte da palavra escrita, tradicionalmente expressa no suporte livro, passa a circular em outros instrumentos. Neste sentido, o texto literário se integra com outros meios de difusão e, com a utilização da imagem, ampliam-se as possibilidades da linguagem, que agora dispõe de recursos de comunicação e de expressão, além do livro e da palavra. O acesso ao texto de Machado de Assis, Luiz de Camões, Eça de Queiroz, José de Alencar, Clarice Lispector, entre outros, torna-se variado por intermédio da atuação de outros mecanismos e suportes técnicos, como o livro digital, a televisão, o cinema, os quadrinhos. Ganham espaço novos elementos culturais, produto das transformações socioeconômicas e culturais do último século, reconhecido como tempo-espaço da modernidade e da globalização. Nosso interesse repousa na abordagem destas tendências contemporâneas, identificadas com a revisão dos objetos culturais resultantes da desterritorialização do texto escrito culto. Nesta direção, a atenção se volta para as metamorfoses dos textos literários em diálogo com produtos da cultura de massa, em seus variados suportes, priorizando-se aqui as histórias em quadrinhos. Ganha terreno, o resgate da função da imagem na comunicação, elemento presente e determinante desde a era das cavernas. A imagem deixa de merecer certa credibilidade a partir da instauração do texto escrito, potencializado e valorizado na era de Gutemberg entre as elites cultas. A partir da segunda metade do século XX, com o crescimento da cultura de massa, o texto imagético quadrinístico passa a ser observado com menos restrições pelo olhar elitista. A literatura em quadrinhos configura-se, desta maneira, como objeto cultural híbrido, uma vez que carrega em si a Literatura, arte sacralizada da palavra em sua 28 articulação polissêmica, e os quadrinhos, tidos como produto da cultura de massa que busca sedimentação como objeto cultural artístico. 1.2- História em quadrinhos: da gênese à condição de arte sequencial e produto da cultura de massa Afinal, como surgiram no século XIX os quadrinhos, produto predominantemente imagético, para uns, arte sequencial, para outros, produto da cultura de massa? Como esse objeto cultural se configura? A dinâmica de vida acelerada e condicionada pela produção em série, instaurada a partir da Revolução Industrial e sedimentada pelo progresso tecnológico, faz com que o homem moderno se depare com a circulação de uma grande diversidade de produtos culturais. São objetos da cultura que não se restringem aos elaborados por e para [ grifos nossos] a elite socioeconômica, como acontecia antes do século XX, e que ecoaram com exclusividade e relevância por muitos anos deste século. Refletindo sobre cultura, aristocracia e burguesia, Feijó (2007, p.10) observa: Lembre-se de que, até o século passado [séc. XIX], a ideia de cultura era quase sempre associada a aristocratas e burgueses ricos e bem educados. Normalmente, os artistas e intelectuais eram patrocinados por parentes e amigos. Com sorte, arranjavam algum rei ou nobre para ser seu mecenas. É a partir do período de consolidação do capitalismo que as massas surgem como protagonistas na vida associada3. Os elementos culturais passam a ser pensados em nome dessa coletividade. Estas produções deveriam atender os trabalhadores alijados das experiências de fruição dos objetos culturais, até então elaborados sob medida para as aspirações e desejos das elites. Eco (2008, p.24), por sua vez, aponta um descompasso na concepção dos objetos culturais elaboradas por e para as massas visto que, “[...] paradoxalmente, o seu modo de divertir-se, de pensar, de imaginar, não nasce de baixo: através das comunicações de massa, ele [o produto de consumo] lhes [às classes populares] é proposto sob a forma de mensagens formuladas segundo a classe hegemônica”. Temos, então, um proletariado 3 Conforme Feijó, a vida associada refere-se ao surgimento do proletariado em suas manifestações de vida social: o trabalho, o lazer e a família na dinâmica da vida urbana. 29 que passa a consumir modelos culturais burgueses, mantendo-os em uma forma de expressão autônoma. É neste contexto que aparecem novos produtos da cultura que, a princípio, não herdam o status de arte devido à procedência não elitista. É o que ocorre de início com a fotografia, a música popular, o cinema e os quadrinhos. Os quadrinhos, objeto de atenção aqui, despontam com todo vigor neste ambiente social. Sobre esse momento, afirma Feijó (2007, p.10): [...] surgia uma nova sociedade, altamente urbana e industrial, com muitos milhões de seres humanos anônimos circulando, trabalhando, consumindo. Esta sociedade tão grande, formada por tantas pessoas, tão heterogênea e complexa acabou gerando códigos e regras próprias. Dentre essas regras, uma nova para os produtos de cultura chamada mercado: muitos artistas e profissionais passariam a criar para vender entretenimento para o grande público. Os quadrinhos assemelham-se aos folhetins romanescos do século XIX, por terem o jornal e a revista como veículos de disseminação. Os enredos folhetinescos influenciaram, ou melhor, constituíram as matrizes das radionovelas e telenovelas do século XX, tão apreciadas e de tão elevados índices de audiência. As narrativas de folhetim eram produzidas em capítulos e publicadas em fragmentos nos jornais e revistas da época. Posteriormente, tais obras eram editadas em livros, atentando-se para o fato de que o sucesso dos romances era a garantia da comercialização em grande escala dos jornais e revistas. Como já foi dito, era nesses veículos que os capítulos eram publicados, semanal ou mensalmente, e aguardados com indisfarçável sofreguidão pelos ansiosos leitores. Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, no continente europeu; A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, alguns romances de Machado de Assis e O Ateneu, de Raul Pompéia são exemplos de narrativas de folhetim que, no Brasil, passaram por aquele processo de divulgação. Ocorre que os efeitos são díspares: na Europa, tais procedimentos de circulação eram rechaçados pelos críticos que priorizavam a editoração em livros, no Brasil, a ausência de editoras determinava a profícua circulação do romance através dos jornais, único instrumento por meio do qual as obras se tornavam acessíveis para o pequeno grupo de alfabetizados. Mesmo os quadrinhos não sendo considerados como um produto cultural nobre como a literatura clássica, sua origem e a dos romances guardam semelhanças: 30 os quadrinhos aparecem em forma de tiras humorísticas ou de aventuras nos jornais que circulavam no referido período. Tiveram como pioneiro o suíço Rodolph Topffer, que produziu, ainda na primeira metade do século XIX, a literatura de estampas, numa referência aos desenhos caricaturados. Na Alemanha, destacou-se Wilhelm Busch em 1865, com seus personagens Max e Moritz. No Brasil, o italiano naturalizado Ângelo Agostini notabilizou-se, em 1859, com As aventuras de Nhô Quim. Na França, o destaque é Georges Colomb, que em 1889, lança A Família Fernouillard. Semelhantemente ao romance de folhetim, que, como já foi dito, se valia do jornal e da revista como instrumentos de circulação, em 5 de maio de 1895, a história em quadrinhos é publicada num jornal. Nasce também como gênero narrativo próprio da cultura de massa, com a publicação de Yellow Kid, do americano Richard Outcaut. E o sucesso tornou-se fato. É ainda Feijó (2007, p.19) quem relata: Em páginas coloridas dominicais e depois em tiras diárias, as histórias em quadrinhos se transformavam em fenômeno. Os grandes jornais travavam uma disputa feroz para publicar as tiras mais populares, pois elas ajudavam, e muito, a vender mais. Aos poucos o tema básico [...] foi se ampliando. Das travessuras de crianças [...] evoluiu para situações cômicas de famílias quase comuns. [...] A fórmula para fazer sucesso foi inventar coisas absurdas e engraçadas, a partir de situações típicas do cotidiano das famílias. A história começava e terminava na mesma tira (ou página dominical). Prevalecia o desenho caricatural, não havendo nenhum realismo estético [...]. Os quadrinhos não gozaram da aprovação da elite cultural por ser uma arte sequencial, associada sempre à ideia de comunicação para um público inculto e, como tal, privilegiava a linguagem iconográfica. A adoção do imagético acarreta, ainda hoje, preconceitos nos leitores tradicionalistas que acreditam na superioridade da escrita em detrimento de outros códigos de linguagem. Este pensamento elitista permeou os meios intelectuais até o final do século XX, passando a ser rechaçado de modo mais veemente, com o advento das tendências e ideias dos chamados Estudos Culturais. Atualmente, além de serem defendidos como arte, os quadrinhos conquistam espaço na escola, uma das instituições que tradicionalmente oficializam o saber, a arte e a cultura. A princípio utilizados como material de ilustração das análises lingüísticas e gramaticais nos manuais de língua portuguesa foram tratados, posteriormente, como objeto de arte nas práticas reprodutoras da educação artística até serem estudados como gênero textual em livros didáticos de redação. 31 No âmbito da academia, surgem alguns esforços para colocar os quadrinhos no patamar de objeto de estudo, num trânsito entre a interação com a comunicação de massa e as reflexões que timidamente buscam colocá-los no universo da cultura e da linguagem. Ao se observar essa tentativa, torna-se importante elencar as marcas e aspectos da linguagem com a qual os quadrinhos passariam a se qualificar como objeto de cultura. Paulo Ramos (2009) observa que, em sua constituição, os quadrinhos apresentam-se como produto da cultura que dialoga com recursos inerentes a outros resultados culturais. Valem-se da caricatura para a acentuação das formas; do desenho, retira alguns predicados, que ajudam na caracterização da personagem; da fotografia, observam como se realiza a retratação e a aproximação com o real; da pintura, exploram o jogo com as cores, já que o cromatismo também pode ser utilizado na composição de aspectos informacionais; do texto dramático, comungam com a base dialogal, elemento importante na construção do enredo, sem se perder de vista que, assim como no texto dramático, também aqui o narrador praticamente inexiste; do cinema tomam emprestada a habilidade com o trabalho de angulações e perspectiva de cenas. Para o teórico, os quadrinhos constituem uma forma de linguagem que há mais de um século ostenta marcas próprias: O ambiente quadrinístico já teria se “emancipado” e constituído [...] possibilidades próprias de linguagem. [...] O espaço da ação é contido no interior do quadrinho. O tempo da narrativa avança por meio da comparação entre o quadrinho anterior e o seguinte ou condensado em uma única cena. O personagem pode ser visualizado e o que ele fala é lido em balões, que simulam o discurso direto. (RAMOS, 2009, p.18). Moacy Cirne (2000, p.174) conceitua os quadrinhos destacando-lhes o corte – espaço em branco entre cada quadro –, um dos elementos próprios da gramática desta linguagem. Segundo esse teórico, [...] as historietas em quadrinhos, com mais de um século de existência, sempre se marcaram por uma textualidade gráfico-visual, determinada por mecanismos narrativos impulsionados pelos cortes que, como já vimos, são igualmente gráficos: cortes que, em última instância, em sendo espaciais e/ou temporais, preenchem e alimentam o imaginário da própria narrativa, aqui, nesta precisa articulação entre o dito (as imagens) e o não-dito (as elipses provocadas pelos cortes), se dá o lugar semiótico das “historietas seqüenciadas”. 32 Ramos destaca a riqueza de possibilidades das variantes dessa linguagem, o que leva os estudiosos a considerar os quadrinhos um hipergênero que agrega outros, cada um com suas peculiaridades. Em suma, trata-se de um rótulo abrangente com que se nomeiam os diversos subgêneros, resguardando-se, é lógico, as especificidades com que cada um se apresenta, como a charge, o cartum, a tira cômica, a tira seriada, a tira seriada cômica e as histórias em quadrinhos. Existem, conforme Ramos, tendências de abordagens que preferem sistematizar as histórias em quadrinhos por temáticas, tais como super-heróis, terror, infantil, faroeste, ficção científica, humor, mangá, erótica, as extintas fotonovelas, o jornalismo em quadrinhos e a literatura em quadrinhos (esta última, foco desta pesquisa). Nota-se a complexidade tipológica e a diversidade que não está fixada. Podem surgir novas possibilidades, por se tratar de um produto cultural. Também é fato a identificação dos quadrinhos como gênero que recebe dos estudiosos pelo menos três tratamentos teóricos. Há os que consideram os quadrinhos como um grande rótulo que congrega diferentes possibilidades de gêneros; há os que englobam as produções de gênero cômico como um rótulo maior denominado de humor gráfico ou caricatura (charge, cartum caricatura e tiras); e os que aproximam parte dos gêneros às charges e tiras da linguagem jornalística. Ramos (2009, p.24), de forma bem didática, assim explica esta incidência tipológica dos quadrinhos e aponta para a complexidade deste assunto, que carece de estudos mais aprofundados: A diversidade de gêneros, neste caso, está atrelada a uma série de fatores, como a intenção do autor, a forma como a história é rotulada pela editora que a publica, a maneira como a trama será recebida pelo leitor, o nome com o qual o gênero foi popularizado e que o tornou mais conhecido junto ao público. A discussão aqui travada se alinha aos estudos que percebem os quadrinhos como uma grande denominação, à qual se aglutinam diferentes possibilidades de texto, entre eles a história em quadrinhos. Em última análise, são elaborações, ora defendidas como arte, ora como mero produto de massa. Independentemente do tratamento teórico, trata-se de um objeto cultural cuja recepção apresenta patamares históricos dignos de nota também na academia. 33 Como arte, os quadrinhos são uma forma de linguagem cuja textualidade se materializa na associação entre imagem e palavra para o desvelamento de uma narrativa e primam pela centralização no iconográfico. Ou seja, apesar da importância da palavra e do discurso, a função tida como fundamental reside na manipulação da imagem, o que permite ser o quadrinho rotulado também como arte. Um dos defensores das histórias em quadrinhos como arte sequencial é Will Eisner, quadrinista respeitado por construir peças em que se privilegiam a riqueza da trama narrativa e as inovações gráficas dos trabalhos. Ele é o criador do personagem mítico Espírito, da obra The Spirit, série de revistas cuja publicação inicial ocorreu em março de 1947. O quadrinista elaborou um compêndio conhecido como Quadrinhos e Arte Sequencial (1989). Neste trabalho, discorre sobre os postulados do produto artístico, reflexões estas oriundas de cursos ministrados ao longo de vários anos na School of Visual Arts de New York. Eisner defende os quadrinhos como arte sequencial que requer um tratamento mais sério e acadêmico. Tal comportamento deve advir tanto por parte dos profissionais como da crítica, uma vez que “[...] desde a primeira aparição dos quadrinhos na imprensa diária, na virada do século, essa forma popular de leitura encontrou um público amplo e, em particular, passou a fazer parte da dieta literária inicial da maioria dos jovens” (EISNER, 1999, p.7). A arte sequencial é apresentada pelo pesquisador em questão como uma antiga forma artística ou método de expressão com origem na pintura rupestre dos homens da caverna na Pré-História. Esta arte está presente nos vasos egípcios e greco-romanos da Antiguidade e nos afrescos das igrejas da Idade Média. Desenvolveu-se até chegar à forma das tiras e histórias em quadrinhos nos jornais e revistas, a partir da disseminação dos produtos da imprensa. É indubitável a conquista de uma posição de aceitabilidade desta forma de arte na cultura popular do século XX. Na academia, por motivo de preconceito em relação ao público-leitor, circulação, uso e temática, tal arte tem sido ignorada como objeto de discussão. Apesar de cada elemento constituinte desta forma artística (design, desenho, criação artística) ter merecido consideração de forma isolada no campo da arte, esta combinação única tem recebido um espaço ainda reduzido no meio artístico e literário. Para serem considerados dignos de um exame intelectual sério, Eisner destaca que os quadrinhos devem se ocupar de temas de maior importância, não se restringindo 34 apenas a trabalhos artísticos de boa qualidade. Há de se observar, também, a necessidade de atenção da crítica e do profissional dos quadrinhos para o novo momento da história do homem. Trata-se de uma época na qual o rápido avanço da tecnologia gráfica e o grande enfoque na comunicação visual apontam para a emergência de se reconsiderar a arte sequencial como objeto de cultura em franco crescimento, no que concerne a sua receptividade entre o leitor moderno. Eisner ressalta que a história em quadrinhos não é uma arte de comunicação visual simples. Segundo ele, este objeto [...] lida com dois importantes dispositivos de comunicação, palavra e imagens. Decerto trata-se de uma separação arbitrária. Mas parece válida, já que no mundo moderno da comunicação esses dispositivos são tratados separadamente. Na verdade, eles derivam de uma mesma origem, e no emprego habilidoso de palavras e imagens encontra-se o potencial expressivo do veículo. (p. 13) O referido pesquisador também observa que a tradicional produção instintiva, liderada pelos profissionais da arte sequencial, possibilita uma leitura depreciativa dos quadrinhos por parte dos apreciadores da arte clássica. Estes artistas contentam-se apenas em concentrar esforços para desenvolver a técnica artística e perceber o público e as exigências do mercado. Por se tratar, porém, de uma arte de comunicação visual e não de uma simples aplicação de arte, torna-se necessário o desvendamento dos componentes complexos dos elementos até então considerados instantâneos, com que se procederá à explicação dos parâmetros desta forma artística. Na constituição das histórias em quadrinhos, Eisner destaca os elementos complexos, Ramos focaliza a linguagem específica e Eco (2008) fixa a semântica própria desta arte. Trata-se de elementos constituintes do texto quadrinístico, nos quais o leitor deve centralizar sua atenção com vistas à melhor leitura e compreensão da história. Entre os diversos elementos, o quadrinho ou requadro, é o elemento caracterizador desta arte sequencial. Cada quadrinho reúne o fragmento da história em que estão presentes o local, o momento e as personagens envolvidas. É como se o instante fosse congelado e ocorresse, então, a encapsulação do fragmento da ação do quadrinho, possuidor de diversas formas de contorno. Estas molduras trazem informações semânticas específicas de acordo com o contexto. A sucessão de requadros 35 compõe uma forma de continuidade ideal, por meio de uma fatual descontinuidade. Cabe ao leitor, com sua imaginação, soldar esses elementos, aparentemente disjungidos. Assim, a leitura como continnum possibilitará a resolução de uma série de elementos estáticos e tornará a história uma cadeia dinâmica. Outro elemento importante é a expressão do tempo, decisiva para o sucesso da narrativa visual. Para que a impressão de realidade se confirme, o tempo (ordenamento e sequências de imagens) e o timming (cadência visualizada de uma ação em curto espaço de tempo) tornam-se elementos ativos da criação. Destaca-se também a primeira página da história em quadrinhos, que se comporta como a introdução da história. Ela é o trampolim para a narrativa, estabelecendo um quadro de referências do que transcorrerá no enredo. Acresçam-se a postura do corpo e os gestos das personagens como elementos desta linguagem que assumem papel preponderante, visto que a maneira como são utilizados pode modificar e definir o significado que se pretende dar às palavras. Neste sentido, Eisner (1999, p.100) observa: Não se sabe muito sobre o local ou o modo de armazenamento no cérebro dos incontáveis fragmentos de lembrança que se tornam compreensíveis quando dispostos em certa combinação. Mas é óbvio que, quando uma imagem é habilidosamente retratada ao ser apresentada, ela consegue deflagrar uma lembrança que evoca o reconhecimento e os efeitos colaterais sobre a emoção. Trata-se aqui, obviamente, da memória comum da experiência. De igual importância, a perspectiva funciona como mecanismo artístico com que, de certa forma, se instaura a questão do ponto de vista, assumindo função primordial na leitura. Neste sentido, torna-se possível encaminhar o leitor a propósitos que estejam de acordo com o plano narrativo do autor. O discurso nos quadrinhos é o elemento que instaura a enunciação do narrador e em maior grau das personagens, tornando-se fio condutor da narrativa. Está relacionado com a disposição do balão e da legenda. O balão é um recurso gráfico de representação da fala ou pensamento, apresentado geralmente por um signo de contorno, que busca recriar um solilóquio, um monólogo ou uma situação de diálogo. A legenda, por sua vez, representa a voz do narrador onisciente ou narrador-personagem. Aparece envolvida por um contorno, geralmente no canto superior do quadrinho, por anteceder a voz da personagem. Pode acontecer a legenda-zero, ou seja, a que se apresenta 36 desprovida da linha de contorno e também o recordatário, forma semelhante à legenda usada nas tiras, a princípio utilizada como recurso de síntese da ação anterior, e que, posteriormente, passou a indicar a simultaneidade de eventos. O tipo de letra utilizado na composição das palavras assume uma expressividade diferente. O formato da letra pode indicar a nacionalidade ou características da personagem. Como afirma Eisner (1999, p.10), “[...] o letreiramento, tratado “graficamente” e a serviço da história, funciona como a extensão da imagem. Neste contexto, ele pode fornecer o clima emocional, uma ponte narrativa, ou a sugestão do som”. As estratégias de oralidade, por sua vez, são elementos que objetivam a simulação da estrutura de uma conversação natural nas histórias em quadrinhos. Elas são efetivas com o uso dos turnos conversacionais, dos assaltos de turno, dos recursos gráficos, da presença de marcadores conversacionais, da representação da fala sem o uso de palavras aceitas na ortografia da língua, das onomatopeias e de caracteres desconhecidos ou signos icônicos como pregos, caveiras, estrelas para expressar termos de baixo calão, por exemplo. A cor nos quadrinhos, conforme propõe Ramos (2009, p.87), apresenta-se como “[...] signos plásticos que contêm informação ora mais, ora menos relevante para compreensão do texto narrativo, mas sempre com conteúdo informacional”. Destacam-se também as metáforas visuais que são convenções gráficas – imagens metafóricas – com que se expressa o estado psíquico dos personagens. Para Santos (2009, p.112), elas ocorrem quando a imagem estabelece associação com um conceito cuja explicitação se apresenta de modo diferente daquele apresentado pelo significado previsível da expressão de base denotativa. Eco (2008, p.144) defende o ponto de vista de que as metáforas visuais são instrumentos próprios do gênero, que se torna estatuto iconológico, já canonizado. Mesmo apresentando as formas de composição próprias acima pontuadas que as qualificam como arte, as histórias em quadrinhos são, costumeiramente, colocadas em circulação não como um fato estético de prestígio e de estrutura cada vez mais elaborada. O texto quadrinístico é considerado muito mais como um modificador de hábito, isto é, o quadrinho normalmente costuma ser visto, pejorativamente, apenas 37 como produto da cultura de massa, produto menor, de menos valia, que não merece crédito e atenção, especialmente no ambiente escolar. Como todo produto da cultura de massa, o quadrinho também interfere nos padrões relacionados com o seleto universo dos objetos que apresentam uma linguagem cuja fruição e recepção seriam privilégio apenas de um grupo igualmente privilegiado. Como produto de massa dirigido a um público heterogêneo, a história em quadrinhos, na verdade, circula como cultura homogênea no sentido de que, feita para consumo, mostra-se como produto atento à média de gosto do público-alvo. A adequação do objeto cultural ao gosto do consumidor é vista pelos apreciadores puristas e identificados com os critérios do cânone como arte de mau gosto. De forma intolerante, é entendida como de mau gosto aquela arte produzida em obediência às predileções do grande público e que desconsidera os paradigmas ditados pela cultura erudita. Assim, os quadrinhos, como todo produto da cultura de massa, também são rotulados como arte menor, comprometida principalmente com o mercado e resultante dos propósitos da indústria cultural4 da qual emergem frutos que [...] tendem a provocar emoções intensas e não mediatas: [...] ao invés de simbolizarem uma emoção, de representá-la, provocam-na: ao invés de a sugerirem, entregam-na já confeccionada [...] colocados dentro de um circuito comercial, estão sujeitos à “lei da oferta e da procura” [...] seguindo as leis de uma economia baseada no consumo e sustentada pela ação persuasiva da publicidade, sugerem ao público o que devem desejar. (ECO, 2008, p.70). Para os apreciadores e consumidores dos quadrinhos, há nas histórias um objeto cultural de massa que traz um acervo de informações e dados diversos acerca do mundo, sem sugerir índices de discriminação próprios dos produtos dirigidos à elite. Além de sensibilizar o homem contemporâneo, o texto quadrinístico torna o indivíduo mais participante da vida social, visto que sua recepção, a princípio, não contempla apenas um público restrito. Ao contrário, aquele texto assumiria aspectos democráticos, uma 4 Mecanismo criado pela sociedade capitalista que fabrica produtos adaptados ao consumo das “massas”, os quais, geralmente, surgem como resultado do gosto destas massas que os consumem. Visa-se, antes de tudo, ao mercado. Dentro dessa perspectiva, tudo o que é produzido pela indústria cultural é considerado “mercadoria”, conceito aqui trazido tal como Marx o cunhou – unidade dotada de valor de uso e valor de troca, destacando-se este último como mola-mestra do consumo (valor simbólico). (MACHADO, Rose Marques, 2009. p.87). 38 vez que a abrangência de sua recepção atenuaria ou neutralizaria o sentido de diferença de classes. As histórias em quadrinhos – objeto originalmente elaborado para a cultura de massa – não aspiram ao lugar de uma suposta cultura superior identificada com a das elites. Tal classe social seria a princípio o público-alvo ao qual se destinaria o texto literário. Tradicionalmente tida como produto da cultura letrada, a literatura primaria pela ostentação de uma linguagem verbal específica e dotada de certa singularidade, cuja riqueza inesgotável se renovaria por meio do contato com cada leitor. Convém observar que a linguagem literária não seria um código acessível e disponível a qualquer leitor, pois seus componentes e significados nem sempre são decifrados e interpretados com facilidade. Em oposição a esses aspectos, os quadrinhos dispõem de melhores possibilidades de inserção no universo maior de leitores. Em refutação a tal argumento, os críticos defensores da arte sacralizada ou canônica afirmam que o largo consumo promovido por tal acesso gera certo embotamento das capacidades receptivas do consumidor, em razão de ser a cultura de massa portadora de uma linguagem extremamente simplificada. Não se perca de vista que, desde o final do século XIX, algumas posições vão-se fazendo notar no que concerne à abertura e à democratização da obra de arte, isto é, desenvolvem-se, agora, mecanismos identificados com propostas de disponibilização das representações artísticas também ao grande público. Assim as novas relações econômicas instauram sentidos, propostas, objetivos, abrangências inusitados e revolucionários também no campo da arte. Neste sentido, Walter Benjamin (1994, p.166) aponta para as tendências evolutivas da arte já assinaladas nas condições produtivas do capitalismo. Ele desenvolve discussões acerca da reprodutividade técnica, atividade intensificada pela indústria cultural – mecanismo próprio deste sistema econômico – e assinala que “[...] em sua essência, a obra de arte sempre foi reprodutível. O que os homens faziam sempre podia ser imitado por outros homens”. O referido filósofo situa a reprodutividade técnica como um acontecimento natural e que gera exposições não costumeiras da arte, colocando em cheque o que, habitual e tradicionalmente, chama-se de autenticidade e aura. A reprodução artística rompe e desfaz sentidos identificados com “[...] o aqui e o agora do original [que] constitui o conteúdo da autenticidade [da obra, da qual brotaria] [...] uma tradição que 39 identifica [o produto artístico] [...] até os nossos dias, como sendo aquele objeto, sempre igual e idêntico a si mesmo”, destaca o teórico (1994, p.167). Assim, o objeto reproduzido torna-se outro objeto, normalmente visto de modo pejorativo e como de menos valia artística. É com base nessa perspectiva depreciativa que sempre se defendeu a aura do objeto de arte como um elemento próprio de sua essência, inerente a sua estrutura e que o sacraliza ante outras produções. A aura é defendida de modo abstrato como “[...] uma figura singular, composta por elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que esteja” (BENJAMIN, 1994, p.167). Conforme Walter Benjamin (1994, p.168), a reprodutividade técnica passa a gerar a quebra da aura do objeto de arte por aproximá-lo das massas, como ele explicita: [...] o que se atrofia na era da reprodutibilidade técnica da obra de arte é a sua aura. Esse processo é sintomático, e sua significação vai muito além da esfera da arte. Generalizando, podemos dizer que a técnica da reprodução destaca do domínio da tradição o objeto reproduzido [grifos do autor]. Na medida em que ela multiplica a reprodução, substitui a existência única da obra por uma existência serial. E, na medida em que essa técnica permite à reprodução vir ao encontro do espectador, em todas as situações, ela atualiza o objeto reproduzido. Atualmente, no rastro das discussões de Benjamim, difunde-se uma nova visão da cultura de massa e da indústria cultural: na sociedade globalizada, o grande alcance dos produtos centrados na imagem e no audiovisual provoca uma ressignificação do consumo e da própria sociedade que o promove. Este processo não se centra na visão da produção desenfreada, que disponibiliza bens culturais desencadeadores da alienação da massa. Cada consumidor-receptor, em sua subjetividade, ressignifica com a própria experiência os bens disponíveis ao consumo. Neste sentido, desponta uma nova visão de indústria cultural que possibilita ao receptor o status de sujeito e não de mero objeto passivo na engrenagem do sistema capitalista. Desenha-se, desse modo, a ideia de economia criativa. Há na economia criativa o desvelamento de um novo olhar sobre os produtos da indústria cultural, a qual redireciona a atenção do consumidor para detalhes que captam a dinâmica da vida social. Numa leitura distanciada da condição de alienado, o indivíduo é visto antes de tudo como ser que, além de pensar e agir, experimenta 40 sentimentos, ressignifica e transforma os bens culturais. Neste sentido, há o afastamento da condição de consumidor passivo e acrítico que age impensada e aleatoriamente. Sobre essa nova postura, assim se expressa Rosi Marques Machado (2009, p. 91): [...] pode-se perceber o significado, ou re-significado, do próprio consumo dos bens culturais que esse tipo de abordagem permite, ao voltar-se para os “detalhes” e com isso captar a dinâmica da vida social, onde os indivíduos não só pensam e agem de acordo com a razão instrumental, mas também conferem significados distintos aos mais diversos elementos que compõem a sua vida e que lhe dão um sentido próprio. Se os bens materiais são também importantes nas interações humanas para além de sua dimensão econômica, certamente, ao contrário do que afirmaram os frankfurtianos, os bens culturais não são exclusivamente mercadorias, sem qualquer valor cultural. Afinal, eles são o “alimento subjetivo” dos indivíduos, servindo-lhes de referência para constituírem suas identidades, para se reconhecerem ou se estranharem neles, por isso mesmo a escolha sobre aquilo que vai se “alimentar” não se alimenta por uma razão instrumental somente. Assim como também esses bens culturais “alimentam” as relações inter-individuais, incluindo a “forma lúdica de socialização”, a sociabilidade. Cirne (2000, p.23) é contundente ao afirmar que, na contemporaneidade, a falta de informação é responsável pela leitura enviesada dos produtos da indústria cultural. Observemos sua argumentação: A desinformação criará falsas leituras, falsos questionamentos, falsas perspectivas. Aliás, deixemos claro: a desinformação, seja em relação aos bens estéticos da indústria cultural, seja em relação aos demais discursos artísticos e literários, servirá apenas para gerar preconceito e/ou desvios ideológicos. Dizer que a indústria cultural provoca “atrofia da imaginação”, como fizeram Horkheimer e Adorno, é simplesmente ignorar o que ela produziu de mais significativo em nosso século. Segundo este pesquisador, a percepção diferenciada para produtos da indústria cultural dependerá da forma de olhar. Ela implica conhecimento, inventa novos modos cada vez melhores de ver determinados discursos e projetos artísticos, reinventa a leitura e repensa o próprio viver. Nas histórias em quadrinhos, constata-se não a alienação e, sim, o desafio ao leitor, que conforme as argumentações de Cirne (2000, p.25) exercitará habilidades específicas de leitura: 41 [...] que se dá, ao mesmo tempo, de forma múltipla e simultânea, que constrói sua temporariedade específica no interior da narrativa que, se de um lado, é a narrativa proposta pelo autor, do outro é a narrativa mentalmente trabalhada pelos leitores. Dessa forma, visualizamos as histórias em quadrinhos como um produto cultural perpassado por duas perspectivas de recepção. A primeira vê o quadrinho como arte que se destaca por ostentar uma linguagem rica e específica, conectada à comunidade audiovisual das últimas décadas. A segunda visualiza o quadrinho como produto de massa caracterizado pela significativa acessibilidade e pelas possibilidades de ressignificação que estabelece, mas tradicionalmente visto como universo pleno de carga pejorativa de que resulta o embotamento e depauperação dos estilemas 5. Preconceitos à parte, esta arte sequencial/produto da cultura de massa deve ser tomada no sentido proclamado por Alain Rey, para quem ela seria um “[...] fragmento fértil de uma história do desejo social [...] que renova os caminhos do olhar, reinventa a leitura, modifica a linguagem” (apud CIRNE, 2000, p.24). Neste patamar encontra-se a modalidade dos quadrinhos que dialoga com a literatura e passa a ser denominada quadrinizações literárias por uns e literatura em quadrinhos para outros. 1.3- A literatura em quadrinhos como tradução Como todo objeto da cultura, a literatura em quadrinhos, perpassada por linguagens, estabelece, por sua natureza sígnica, processos de diálogo e por esta dimensão, requer um olhar mais crítico em relação ao processo que a instaura: a transmutação entre o literário e o quadrinho. Aqui este processo recebe denominações específicas de tradução e adaptação, que em si podem ser tomadas como sinônimas. A tradução,processo comumente entendido como transformar uma língua em outra para efetivar entendimentos entre culturas, sempre foi tomada como o transitar de um código verbal para outro também verbal, utilizados para promover entendimento entre comunidades cultural e linguisticamente distintas. Entre os diversos estudos referentes à tradução, destaca-se o trabalho de Roman Jakobson que amplia a percepção desta atividade em três possibilidades de realização: a intralingual como interpretação 5 Segundo Eco (Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Perspectiva, 2008), trata-se dos elementos de caráter unitário que se identificam na obra enquanto estrutura e apresentam características que os reassociam aos outros estilemas e estrutura original. 42 dos signos verbais por outros também verbais da mesma língua; a interlingual, interpretação de signos verbais de uma língua para outra distinta; e a intersemiótica, interpretação dos signos verbais através de signos não verbais, ou seja, a transposição “de um sistema de signos para outro, por exemplo, da arte verbal para a dança, o cinema, a pintura” (apud PLAZA, Júlio.2008, p.26) Desta forma, pode-se situar literatura em quadrinhos, ou quadrinização literária, como um processo de tradução intersemiótica, no qual o signo verbal é transmutado para o signo não-verbal, num processo de transposição criativa. Apesar de aparentar erroneamente um simples processo de “cópia” do literário por meios de ilustrações, fazse necessário tecer algumas considerações que comprovarão o intrincado processo de criação signíca que se dá neste objeto ainda muito mal compreendido. Quatro pontos devem ser norteadores: o entendimento de signo icônico, a relação entre signos estéticos distintos neste tipo de tradução, a questão da fidelidade ao texto literário e os motivos de tradução intersemiótica entre literatura e quadrinho. Conforme Plaza (2008), por ícone entende-se o signo que opera pela semelhança entre suas qualidades, seu objeto e seu significado. Ele potencializa-se porque propicia sentimentos (percepções subjetivas) e não a leitura objetiva própria da remessa de comunicação fora dele. Tais signos são materializados em formas primárias nas imagens, nas relações análogas dos diagramas e no paralelismo das metáforas, diferente do índice, que opera na proximidade estabelecida com o objeto real instaurando comunicação direta e distinta do símbolo, que se configura pela proximidade instituída entre material e significado, e relacionando-se com o objeto real pela convenção. Contudo, todo signo difere da coisa significada, pois não há identidade nem função representativa. A função representativa se dá entre signo e pensamento. Os três signos se interpenetram na semiose, processo este entendido como ação do signo de transformar-se em outro signo numa cadeia ininterrupta com meta de estabelecimento da comunicação. Na plenitude tricotômica dos processos de semiose ocorre porém, a dominância do simbólico sobre o icônico e indicial. Sendo o ícone o dominante no signo estético, observa-se que as qualidades estão em seu objeto imediato (significado construído) e não se pretende à remessa fora dele, como afirma Plaza: “O signo estético não quer comunicar algo que está fora dele, nem “distrair-se de si” pela remessa a outro signo, mas colocar-se ele próprio como objeto.”(p.25). Neste sentido, o signo estético que não tem aptidão para substituir outro 43 objeto, constitui-se como objeto real no mundo e em sua totalidade é visto como fenômeno que se erige na dominância do icônico visto que, conforme Mukarovski (apud.Plaza, Julio.p. 23) [A produção] da linguagem em função estética significa, antes de mais nada, uma reflexão sobre as suas próprias qualidades. É no âmago destas qualidades que cria a diferença entre signo autônomo, autoreferente e a linguagem funcional de uso comunicativo. Neste patamar encontram-se as artes como a literatura, que por meio da ambiguidade poética concede um tom de imprecisão à mensagem criando a tendência para a auto-verberação. E daí surge a necessidade de recriá-la pela tradução poética. Na tradução poética o que se pretende é a produção dos efeitos do texto-base, utilizando, para isso, diferentes meios. É o que ocorre nas quadrinizações literárias: um processo de tradução do símbolo estético (literatura) por meio de outro símbolo igualmente estético-icônico (os quadrinhos), ao que Paz denomina “transmutação”, também nominada de transcodificação criativa. Trata-se de um processo relacional, promovido pelo trânsito de um código a outro, ambos estéticos e por conseqüência icônicos, tendo como guia a criatividade. No produto final – a literatura em quadrinhos – o verbal passa a ceder espaço à imagem. Procede-se, então, a ampliação dos efeitos do texto literário na literatura em quadrinhos, visto que ela se torna mais compreendida pela imagem. Por conseguinte, segundo Plaza (2008, p.31-32), na tradução a relação entre signos estéticos distintos se dá pela semelhança entre suas qualidades posto que: [...] o signo estético, quando é traduzido por outro signo estético, mantém com este uma conexão por similaridade e contigüidade por referência. A tradução mantém uma relação íntima com seu original, ao qual deve a sua existência, mas é nela que “a vida do original alcança sua expressão póstuma mais vasta e sempre renovada”. A tradução modifica o original, porque esta também é produto de uma leitura e, ambos, original e tradução, estariam impossibilitados de chegarem a completar sua intenção que é precisamente a de atingir “a língua pura”. Assim, entre literatura e quadrinização temos a conexão pela similaridade e continuidade pela referenciação, pois a leitura da primeira provoca sentimentos que terão continuidade e amplificação na expressão renovada da segunda. 44 É nesta conexão que se abrem as discussões sobre a fidelidade do texto traduzido em relação ao texto-base. A criação na tradução intersemiótica caracteriza-se pelas escolhas no sistema sígnico que determinam a dinâmica da criação e afastam a tradução do traduzido. Mesmo relacionado ao texto-base, um novo texto é construído com outros signos que tendem a propiciar novos objetos imediatos, novas estruturas que se disvinculam do original. Assim, [...] a tradução como signo enraizado no icônico tem no princípio da similaridade a única responsabilidade de conexão. A cadeia signo-designo, mesmo a nível icônico, comporta tempo, mudança e transformação, onde a identidade está excluída de antemão, comportando incompletude e diferença, intervalos que são preenchidos pelo signo tradutor, pois o signo sugere, elide, aponta, delimita, indica, mas sempre dentro do sistema de relações analógicas de sua semiose.(PLAZA,2008,p.32). A quadrinização literária tem com a literatura, seu texto-base, a relação de similiridade, não de identidade. A representação icônica pela imagem não é igual ao texto literário, pois o signo tradutor transforma o texto-base, fazendo surgir novas possibilidades de complementação da incompletude do texto, via leitura do tradutor. A fidelidade, neste caso, é “mais uma questão de ideologia, porque o signo não pode ser “fiel” ou “infiel” ao objeto”, visto que ambos são em si, signicamente, diferentes. A tradução é um substitutivo que aponta para o texto-base. A maior ou menor proximidade da tradução em relação ao texto-base dependerá do potencial de criação e referenciação do tradutor, que propiciará o aumento ou diminuição da informação estética, o que nos fornecerá o nível e a qualidade da operação tradutora. A tradução literária não pode se fechar na questão diminuta e ilusória da não existente igualdade entre o texto-base e o texto traduzido. A questão maior está na compreensão do motivo de traduzir objetos estéticos de outra época. A tradução intersemiótica pode ser tomada de forma conservadora, uma recuperação do passado como nos moldes de um fetiche a ser mantido nostalgicamente. Ou de forma crítica, como modo de propiciar melhor compreensão do presente pela percepção das ações do passado. É o protocolo de leitura instaurado sobre a tradução que determinará a função deste novo objeto da cultura. A tradução intersemiótica estará colaborando com a manutenção da exclusão, da superioridade de um objeto cultural sacralizado enquanto mantiver uma política de conservação apenas da forma estética da elite que se propaga por signos favoráveis à 45 democratização da arte letrada. Em contrapartida, se esta recuperação da história se der pela aproximação de culturas antes distanciadas pelas linguagens distintas (aqui a verbal da elite letrada e a icônica dos produtos quadrinísticos) e propiciar uma leitura crítica do passado em confronto com o presente, isto torna o projeto poético da tradução também político, no sentido de transformação de visão, de atuação e de possibilidades. Neste sentido, torna-se crucial a discussão de Benjamin com relação à visão de história como linguagem e linguagem como história, para compreender a tradução como uma forma mais atenta de ler a história do homem. Nesta perspectiva, o passado é uma constelação de possibilidades em potencial, não apagadas na escolha feita que se tornou o presente. O passado pode ser recuperado na leitura crítica e iluminar outras possibilidades, instaurando novos presentes. E na literatura em quadrinho é possível este repensar o homem e suas possibilidades históricas em meio à abertura de outras possíveis leituras 1.4- Emergência e diversidade da literatura em quadrinhos A literatura, objeto da cultura letrada, a partir da segunda metade do século XX passa a dispor no mercado de novas formas de visibilidade que vão ao encontro das linguagens contemporâneas, no que diz respeito às adaptações/ressignificações de produtos inicialmente destinados a um consumo massivo – novelas, minisséries, filmes e histórias em quadrinhos. Tais ressignificações descentralizam a palavra escrita, antes tomada como categoria superior integrante de mensagem e agora recuperada como linguagem despojada, ampliada, identificada e articulada com os recursos da imagem e do audiovisual. A literatura em quadrinhos surge como objeto cultural que promove a dessacralização da arte, dispondo, de certa forma, da neutralização da pecha de veículo de alienação, como foram rotulados os produtos da cultura de massa pelos frankfurtianos6. Ela é também entendida como objeto cultural híbrido cuja divulgação pode se fundar na socialização da arte. Neste sentido, a socialização não deve ser 6 Estudiosos da Escola de Frankfurt, elaboradores da Teoria Crítica na qual Horkheimer e Adorno analisam a cultura de massa e a indústria cultural como elaboradores de produtos culturais que reorientam as massas, não permitindo evasão e impondo esquemas para um comportamento conformista, que sustentam as metas do capitalismo ( MACHADO, 2009). 46 vislumbrada apenas como a popularização do objeto, mas também como meio de produção que encaminha a multiculturalidade e a interculturalidade, como observa García Canclini (2008, p.XXVI-XXVII): A hibridação, como processo de intersecção e transações, é o que torna possível que a multiculturalidade evite o que tem de segregação e se converta em interculturalidade. As políticas de hibridação serviriam para trabalhar democraticamente com as diferenças [...] A esta altura, há que dizer que o conceito de hibridação é útil em algumas pesquisas para abranger conjuntamente contatos interculturais que costumam receber nomes diferentes: as fusões raciais ou étnicas denominadas mestiçagem, o sincretismo de crenças e também outras misturas modernas entre o artesanal e o industrial, o culto e o popular, o escrito e o visual nas mensagens midiáticas. [grifos nossos]. Nem unicamente literatura, nem especificamente quadrinhos, mas como outro objeto cultural, a literatura em quadrinhos reelabora a literatura já estabelecida na tradição como clássica e de elite, dotando-a de uma linguagem nova – a dos quadrinhos –, produto da cultura de massa, de natureza popular e urbana. As polarizações – de um lado, a narrativa da palavra-arte para a elite letrada e, de outro, a narrativa da imagem para as massas – transformam-se num entrelugar, isto é, numa intersecção das possibilidades antes segregadas. Para Martín-Barbero (2004), a trama comunicativa da revolução tecnológica, marca do processo de globalização, acaba por introduzir um novo modo de relação entre os processos simbólicos e as formas de produção e distribuição dos bens e serviços. Apresentam-se intrincadas a produção e a comunicação, pois há uma conversão do conhecimento em força produtiva direta. Neste sentido, a novidade seria a capacidade tecnológica de reelaboração dos elementos simbólicos, afirma Martín-Barbero. Segundo esta abordagem, novas sensibilidades são instauradas e visivelmente percebidas, especialmente “[...] no entre-tempo dos jovens, cujas enormes dificuldades de conversar com as outras gerações apontam para tudo o que na mudança geracional há de mutação cultural” (MARTÍN-BARBERO, 2004, p.36). Esta dificuldade é bastante vivenciada na relação do jovem com a literatura clássica, que representaria a geração não afeita às inovações. A literatura em quadrinhos surge nessa trama comunicativa a partir de 1930, como um veículo que atende às novas sensibilidades, resgatando dois objetos culturais 47 distanciados no espaço de produção e no de recepção cultural. Há uma literatura tradicionalmente identificada com a elite e com o deleite dos letrados na tradição da escrita. Em outra direção, despontam os quadrinhos, pensados pelo mercado e adequados à circulação de textos icônicos. Quanto à recepção, a literatura sacralizada circula predominantemente no espaço acadêmico e escolar. Os quadrinhos eram vistos como vulgarizados, até por serem consumidos na rua, nas teias do urbano. A congruência dos dois objetos culturais na literatura em quadrinhos possibilita um consumo mais intenso da produção literária, disponibilizada agora também em quadrinizações. Tal modalidade encaminha propostas de leituras do texto sacralizado numa perspectiva de contemporaneidade, o que vale dizer que esta forma de interação com o texto torna-o menos distanciado no tempo. Neste sentido, o quadrinho se apresenta como um dos mecanismos através do qual a interação com a literatura referendada como de excelência continua ocupando espaços de recepção. O quadrinho como veículo de preferência das camadas mais jovens contribui com tal acerto. A trama comunicativa dos quadrinhos se processa através da transmutação de linguagens, uma vez que eles não se resumem à simples passagem de um código para outro, ou seja, apenas a transladação da palavra para a imagem. Faz-se presente, pois, um sistema de mediações e ressignificações propiciadas pela e para a leitura. De um lado, há a literatura, linguagem centrada em si mesma, potencializadora das significações do verbal escrito e cuja percepção semântica nem sempre é assimilada por todos. Em outra direção, vicejam os quadrinhos que na linguagem icônica se mostra por inteiro, logo, imediatamente, aproximando-se do receptor. Nos quadrinhos, ambas as características descritas e qualificadas se fazem presentes, uma colaborando para o desvelamento da outra, ambas imbuídas do propósito de montagem da interpretação. Há uma reelaboração em termos da transferência da linguagem escrita para o icônico de que resulta um produto caracterizado como cultura de massa. Este texto híbrido conserva os elementos originais e constituintes de cada um dos objetos culturais. Este novo produto textual/cultural ambienta-se ricamente nas discussões com que se envolvem a comunicação e a educação, uma vez que ele entrelaça dois espaços de saberes antes distanciados pela ideia purista de separação entre cultura de elite/arte (literatura) e cultura de massa (quadrinhos). O quadrinho parece apagar a ideia corrente de cultura superior, cultura inferior e média, até porque a presença deste novo produto 48 ultrapassa a noção de cultura de elite de certa forma relacionada com classe social privilegiada. Por assim dizer, o quadrinho empreenderia o desfazimento de tal barreira, possibilitando a própria circulação entre os leitores, numa identificação com princípios e práticas deste momento também de globalização cultural. Cirne (2000, p.177), pesquisador do tema, apresenta um posicionamento mais cético quanto à literatura em quadrinhos. Para ele, tal produção não seria um texto literário, haja vista que apresenta grafia, especificidade e ritmo próprios. A novidade seriam as adaptações, para ele não merecedoras de tanto crédito, pois elas afastam os quadrinhos de linguagem e objetivos que lhes são específicos, o que certamente dificulta o diálogo com outras linguagens: Há, decerto, uma primeira aproximação, a que diz respeito às adaptações. Só que, grosso modo, tomadas historicamente, são adaptações medíocres, se não pelas adaptações em si, pelo resultado quadrinizante das mesmas. Não nos esqueçamos: são linguagens e discursos substancialmente diferentes, com propostas e objetivos díspares. A dificuldade maior para a quadrinização da literatura, segundo Cirne, reside na questão da transposição da poeticidade7 do texto literário para as imagens. Assim como há o encantamento com a magia do verbal, os quadrinhos devem ser contemplados a partir da riqueza gráfico-visual, advinda da aura literária. Transportar esta poeticidade da palavra para a imagem, que se apresentaria dotada de certa temperatura gráfica, não constitui uma habilidade do mundo quadrinístico. Ressalvas à parte, é fato que um dos espaços em que este objeto cultural híbrido circularia de modo bem adequado seria o da escola, lugar tradicionalmente visto como palco da leitura literária. Neste sentido, na recente virada do século, a literatura em quadrinhos ilustra bem os desafios da comunicação no campo da educação. Como observa Martín-Barbero, a nova proposta de educação não só aponta para uma mudança de antigos conteúdos, mas também sugere uma transformação na natureza do processo. Vive-se um mundo de múltiplas demandas, que decorrem das tão enfatizadas questões sociais e também das solicitações de natureza cultural. 7 Para o estudioso, a poeticidade não reside apenas no tecido textual dos poemas e contos; encontra-se em filmes e quadrinhos. Aqui, o termo não se refere aos conceitos aristotélicos de poética, mas aos derivados dos formalistas russos e do poema-processo com um caráter subjetivo-emocional. Existe mais como leitura do que propriamente como informação. (CIRNE, 2000). 49 Conforme Martín-Barbero, muitos são os descompassos que retardam a aplicação desta nova visão cultural do processo de conhecimento na América Latina. Como elementos típicos desta condição, ele destaca o não cumprimento da universalização da escolaridade básica, a deteriorização da qualidade do ensino, que produz o analfabetismo funcional, e a encarnação e o prolongamento do regime de saber, que privilegiam o texto escrito e a leitura passiva. Assim, o tradicional modelo da comunicação pedagógica balizada pelo texto escrito ainda reina nas salas de aula. Mesmo sendo “[...] assediado pelos quatro cantos [pelo audiovisual, este paradigma] não só segue vivo hoje como se reforça ao colocar-se na defensiva, defasando-se aceleradamente dos processos de comunicação que hoje dinamizam a sociedade” (MARTÍN-BARBERO, 2004, p.337). Esta posição encaminha processos de resistência ao “descentramento cultural”, isto é, dificulta o afastamento ou pelo menos a neutralização da ideia do livro como único instrumento de excelência. As barreiras oriundas das dificuldades de aceitação das mudanças vão incidir nos modos de utilização das linguagens visuais e audiovisuais, chegando-se até a negar suas potencialidades textuais e intertextuais. Neste descompasso, a literatura em quadrinhos – objeto cultural que privilegia não apenas o texto escrito, mas também possibilita o diálogo deste com os saberes da sociedade imagética – não encontra muito espaço no mundo escolar e acadêmico. A maior parte dos tímidos estudos acerca deste objeto cultural circula muito mais em textos na internet que nas pesquisas e publicações da academia, carecendo, portanto, de aprofundamento. Destacam-se neste campo alguns posicionamentos de estudiosos dos quadrinhos da área da comunicação e quadrinistas que produzem quadrinizações literárias, como Waldomiro Vergueiro e Paulo Ramos, professores da Escola de Arte da USP, participantes do Núcleo de Pesquisa em Histórias em Quadrinhos, que sempre apresentam textos na internet e blogs com observações acerca da literatura em quadrinhos. Em seu livro intitulado A literatura em quadrinhos (2009), Vergueiro situa esta literatura em quadrinhos como uma antiga prática de transposição de importantes obras da literatura para a linguagem gráfica seqüencial, cuja origem remontaria ao ano de 1941, a partir de um empreendimento do norte- americano Albert Kanter. O referido empresário acreditava que os quadrinhos poderiam ter fins muito mais nobres que o 50 entretenimento e, neste sentido, denomina-os de classic-comics. Posteriormente, as quadrinizações tornam-se mais Cult e denomina a coleção de Classic Illustrated. No Brasil, a quadrinização das obras literárias tem início em 1947 com O Guarani, de José de Alencar, na série Clássicos Ilustrados da Editora Brasil-América. Perdura nos anos 1950 com as traduções da literatura quadrinizada norte-americana e ganha certa posição de relevo na década de 1960 com obras de Machado de Assis, Jorge Amado, Joaquim Manuel de Macedo, José Lins do Rego, Gastão Cruls e Raul Pompéia, nesta mesma editora. As duas obras abaixo são exemplos deste projeto: Figura 1 : Ubirajara Clássicos Ilustrados: capa da primeira quadrinização, 1952. Figura 2 : A Moreninha Clássicos Ilustrados:capa da primeira quadrinização, 1952. Na figura 1 temos a capa da primeira quadrinizada de Ubirajara, de José de Alencar, da Edição Maravilhosa, nº 57, de André Le Blanc, datada de 1952. A utilização do preto, branco e variações de cinza indicam o trabalho inicial na quadrinização de obras da literatura brasileira, ainda em passos lentos nesta produção. A retratação da personagem principal no espaço onde ocorrerão os fatos era o chamariz para a leitura do texto. Na figura 2 destaca-se a adaptação de 1952 de A Moreninha que destaca, já na capa, as principais personagens da trama urbana romântica em traços leves e bens juvenis, típicas do público a que se destinava. Notemos a obra Ubirajara: Figura 3 : Ubirajara Capa 1 Figura 4: Ubirajara Capa 2 51 Figura 5: Ubirajara Editora Brasil-América, Pág.1 Figura 6: Ubirajara Editora Brasil-América, pág. 9 Nas figuras 3 e 4 temos a capa (1 e 2) da história Ubirajara ainda encontrada na década de 70. Na capa 1, além de estampar título, autor e gênero textual (quadrinização de romance), encontramos alguns requadros relacionados à história que funcionam como um convite à leitura. Também na capa 2 outros requadros são dispostos, antecedidos pelos títulos da coleção. Na parte superior inseriu-se a marca da editora Brasil-América. Toda a disposição dos elementos funciona como propaganda da coleção. Na figura 5 destacamos a primeira página que apresenta a personagem-principal (Ubirajara) no ambiente onde ocorre a história (a mata) em postura de busca (síntese da temática da história que trata da busca da identidade do índio araguaia). Na figura 6 são perceptíveis os traços bem delineados em cenas nas cores preto, branco e cinza, em paisagens de mata sem enriquecimento de detalhes como se nota no terceiro requadro. Observemos a quadrinização da obra A Moreninha, circulante na década de 1970, que traz ainda incipiente produção das adaptações literárias no Brasil: Figura 7 : A Moreninha Figura 8: A Moreninha Editora Brasil-América, Capa 1 Editora Brasil-América, Capa 2 52 As capas 1 e 2 (figuras 7 e 8) continuam seguindo o padrão adotado pela Editora Brasil-América – apresentação de requadros com cenas das histórias. Destaque para o título e autor da obra literária, em letras maiores e estilizadas, o que indica a ressignificação como forma de divulgação da cultura de elite. Neste trabalho, a estratégia de apresentação da história é diferenciada, como se pode perceber abaixo: Figura 9: A Moreninha Editora Brasil-América, pág. 1 Figura 10: A Moreninha Editora Brasil-América, Pág. 4 Figura 11: A Moreninha Editora Brasil-América, Pág.19 Figura 12: A Moreninha Editora Brasil-América, Pág. 24 Primeiro (figura 9) temos uma página com as personagens de destaque, sendo colocado na parte superior o casal protagonista, com maior destaque para Carolina (a moreninha). Posteriomente é apresentada a biografia do autor e sua prestigiada 53 produção literária. A história quadrinizada é iniciada com um texto-comentário da temática da obra (figura 10), seguido pela ilustração da personagem principal em primeiro plano, tendo como fundo imagens em marca d’agua da mesma personagem em supostos movimentos que a caracterizam, em conformidade com o texto descritivo, na parte inferior da página. Esta estratégia acaba por focalizar Carolina como centro da história. Do lado esquerdo, estão sobrepostos, de cima para baixo, os quadrinhos que dão início à história com a conversa entre quatro estudantes no Rio de Janeiro. Na figura 11, temos a materialização imagética do momento do jantar, quando os estudantes chegaram à ilha onde residia a avó de um deles. Os traços semelhantes a esboços indica a frágil qualidade das quadrinizações, percebida nos vazios do requadro: em boa parte apresenta as personagens e pouco se exploram as possibilidades dadas pelo texto romântico, rico em descrições, para uma melhor composição das cenas – ambiente e paisagem. Na figura 12 vemos como o quadrinista recria a rememoração de infância de Augusto: desenhos tipos rascunho e traços mais infantis, emoldurados por requadros curvilíneos, para enfatizar o ato de rememorização. Nos anos posteriores, decrescem estas produções, só voltando a ganhar corpo na primeira década dos anos 2000, em função do aquecimento do mercado editorial das histórias em quadrinhos que foram incluídas nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). As obras quadrinísticas passaram a ser sugeridas como forma de complementação didática do ensino formal. Destaca-se, nesse período, o Livro de contos em quadros com adaptações dos contos “Pai contra mãe”, de Machado de Assis, “O bebê de Taratana Rosa”, de João do Rio, e “O apólogo brasileiro sem véu de alegoria”, de Alcântara Machado. Em 2004, surge a obra Galvez, o imperador do Acre, obra patrocinada pela Secretaria de Cultura do Pará. A literatura em quadrinhos não se limita apenas a obras da literatura brasileira. A Editora Zahar avança na seara de livros quadrinizados, publicando Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust; a Peirópolis trouxe Dom Quixote, de Cervantes, e Os Lusíadas, de Camões; a Conrad lança as quadrinizações de A Metamorfose, de Kafka, e A Relíquia de Eça, de Queiróz. Atualmente, as editoras trazem trabalhos bem estilizados e singulares, de acordo com roteirista responsável pelo texto escrito e o ilustrador das imagens. Em boa parte dos trabalhos de tradução, é o quadrinista o detentor dessa dupla atividade. Notemos algumas produções deste período: 54 Figura 13: Os Lusíadas Figura 14: Os Lusíadas Peirópolis, Capa 1 Peirópolis, pág. 6 Na figura 13 temos a quadrinização de Os Lusíadas (2006), pela Peirópolis. Fido Nesti é o responsável por este trabalho que na capa já traz traços marcantes: o título da obra refere-se apenas aos quadrinhos sem reportar-se à literatura – o título Os Lusíadas (em letras maiores) seguido pela especifícação do gênero textual (em quadrinhos), a autoria (por Fido Nesti), uma cena de destaque da história e o especificativo da coleção (série clássicos em quadrinhos). O texto traz um mapa sintetizado dos principais fatos da narrativa resumidos, que de forma inusitada, tem como narrador o próprio autor da obra literária (Luis de Camões). Na figura 14 temos uma página da quadrinização que retrata muito bem o estilo do artista que oscila entre traços fortes e delicados, com cores intensas. Figura 15: A Relíquia Conrad, Capa 1 Figura 16: A Relíquia Conrad, pág. 91 A figura 15 traz, da Conrad, a capa da quadrinização A Relíquia (2007), pontuando o autor da obra literária (Eça de Queiroz) e o ressignificador nos quadrinho (Marcati). Destaca-se a sombra da personagem principal a pensar (com o diagrama- 55 balão do pensamento circundado de várias situações da história em desenhos minúsculos. Na figura 16 destacamos uma página da história na qual se percebem os desenhos em linhas caricaturais, com a predominância do preto, branco e cinza, com texto verbal num português mais abrasileirado. Figura 17: Gema Bovary Figura 18: Gema Bovary Conrad, Capa 1 Conrad, pág. 21 Na figura 17 temos também, da mesma editora, a quadrinização Gemma Bovary (2006) que traz a atualização da história Madame Bovary, de Flaubert, em contexto contemporâneo, século XX, com a preservação dos argumentos da obra literária. A capa em cores escuras destaca a personagem com nome modificado para Gemma, visual moderno e um leve toque de sensualidade. Na figura 18 destaca-se uma página da história na qual se percebe a grande presença do texto verbal, acompanhada das ilustrações em requadros dispostos de forma mais livre. Figura 19: O caçador de pipas Figura 20: O caçador de pipas Nova Fronteira, Capa 1 Nova Fronteira, pág. 13 Na figura 19 a capa da quadrinização de O caçador de pipas (2011), da Nova Fronteira, em parceria dos ilustradores Fabio Celoni e Mirka Andolfo apresentando 56 alguns requadros como chamariz. Na figura 20 destacam-se os desenhos com traços bem delineados e cores fortes e harmônicas, conforme o ambiente retratado. O trabalho de quadrinização da literatura atualmente não se detém somente aos romances, contos, poesias, peças teatrais considerados produtos da cultura da elite letrada, como também alcança a literatura em cordel, produto da cultura popular. São obras literárias de diferentes épocas e autores, que tornaram releituras pelas transmutações sígnicas, como se percebe nas ilustrações abaixo: Figura 21: Galvez, o imperador do Acre. Quadrinização do romance de Márcio Souza, patrocinado pela Secretaria Executiva de Cultura do Pará em 2004. Figura 23: O Pavão Misterioso Quadrinização do cordel de José Camelo pela co-edição da Luzeiro/ Tupyniquim em 2010. Figura 22: O homem que sabia javanês. Quadrinização do conto de Lima Barreto pela Escala Educacional em 2004. Figura 24: Morte e Vida Severina Quadrinização do auto de João Cabral de Melo Neto pela Editora Massangana em 2006. A diversidade estilística nas produções quadrinizadas da literatura brasileira é um capítulo à parte que merece destaque. Várias editoras contemplaram a proposta de quadrinizar romances da literatura brasileira, como Ática, Agir, Escala Educacional, 57 Top Books, Panda Books, Desiderata, Cortez, Companhia Editora Nacional, Editora Globo, Peirópolis, Companhia das Letras, Pallas, Nemo, todas embaladas pela adesão ao governo federal, novo cliente. Como amostragem, temos: Figura 25: A Luneta Mágica Editora Banda Books, 2006 . Figura 26: A escrava Isaura Editora Ática, 2010. Figura27: O Guarani Editora Cortez, 2007. As obras quadrinizadas passam a circular com o título seguido pelo especificativo em quadrinhos, como na figuras 25 e 27, destacando logo o novo produto cultural, ou o titulo acompanhado pela conjunção “por”, como indício de uma releitura, uma ressignificação, destacando a presença do novo autor, a exemplo da figura 26. As capas trazem as personagens principais em uma cena de destaque da história. As obras quadrinizadas sempre são acompanhadas, no final, por uma sessão que contextualiza a obra literária que é o texto-base, com informações biográficas sobre o autor, o adaptador e/ou ilustrador (obras das figuras 25 e 27). Algumas quadrinizações trazem informações de como se realiza o trabalho de adaptação, caso da Ática (figura 26) em seção no final do livro. Tal processo pode ser sinteticamente explicitado: inicia-se com leitura do texto base, em seguida cria-se o roteiro, fracionando o texto em cenas nas quais predominam as falas das personagens ou do narrador ( trechos narrativos também são convertidos em falas); por fim, são criados os desenhos, que para chegar ao requadro final, passam por processos de composição das ilustrações. As quadrinizações geralmente são acompanhadas de um encarte, famosa ficha de leitura, com a predominância de questões que enfatizam a leitura do texto verbal e muito pouco se explora da leitura do icônico. 58 Também ocorrem variadas quadrinizações de uma mesma obra literária por diferentes editoras, o que pontua dois fatos: a crescente circulação da literatura em quadrinhos no mercado de produtos culturais; e a prática de focalizar diferentes sensibilidades e olhares sobre a obra literária, legado aos leitores-quadrinistas pela possibilidade de diferentes leituras. Observemos as obras que se seguem: Figura 28: Memórias de um Sargento de Milícias Ática, capa 1 Figura 30: Memórias de um Sargento de Milícias Companhia Nacional do Livro, capa 1 Figura 29: Memórias de um Sargento de Milícias Ática, pág. 6 Figura 31: Memórias de um Sargento de Milícias Companhia Nacional do Livro, pág. 9 Na figura 28, da Ática, os quadrinistas apresentam a capa de Memórias de um sargento de milícias com uma cena-fundo do cotidiano, ao retratar uma via pública do Rio de Janeiro do início do século XIX, ambientando a história nos meios populares. 59 Em primeiro plano temos a personagem principal, Leonardo Pataca filho em suas variadas fases da vida, até a condição de jovem perseguido pelo major Vidigal. Já na figura 30, o quadrinista Lailson de Holanda Cavalcante apresenta alguns requadros em que foca algumas cenas importantes da história e centra o olhar nos dois personagens principais, Leonardo Pataca pai e Leonardo Pataca filho. As figuras 29 e 31 apresentam o episódio do primeiro encontro entre Leonardo Pataca pai e Maria das Hortaliças. Rosa e Jaf (29) apresentam o momento do primeiro contato com detalhes, desde o flerte, as trocas de carícias inusitadas (pisão no pé, beliscão nas nádegas) em cadenciamento, até a chegada e o produto final deste contato (viver juntos, Maria grávida). Lailson Cavalcante (31) apresenta o flerte de forma aligeirada, trocando o beliscão nas nádegas pelo aplicado na mão direita e apresenta o recém-nascido e a cena coletiva da festa do batizado. Figura 32 : O Cortiço Ática, capa 1 Figura 33 O Cortiço Escala Educacional, capa 1 A capa da Ática para O Cortiço (figura 32), a representação dos personagens em traços grotescos para enfatiza-lhes a condição de populares. Apresenta em perspectiva especial os personagens de maior foco na obra, apresentando uma cena do cotidiano do lugar numa amostragem do coletivo. Na capa da Escala Educacional (figura 33) temos a divisão em requadros de uma cena, o que ilustra a fragmentação da própria vida no cotidiano do cortiço, focando a sensualidade de Rita Baiana em primeiro plano e a observação apaixonada de Gerônimo em segundo plano, perspectiva esta de leitura utilizada pelo roteirista e pelo ilustrador. 60 Figura 34: O Cortiço Ática, pág. 37 Figura 36: O Cortiço Escala Educacional, pág. 34 Figura 35: O Cortiço Ática, pág. 38 Figura 37: O Cortiço Escala Educacional, pág. 35 A cena da briga de Jerônimo e Firmo por Rita Baiana é apresentado em focos distintos. Jaf e Rosa da Ática (34 e 35) exploram a luta em timming (cadenciando cada golpe) e utilizando onomatopéias para enfatizar a brutalidade, com os personagens em trajes que indicam a condição social e caracteres físicos que revelam a etnia. Antonelli e Vilachã da Escala (36 e 37) sintetizam a briga em poucos requadros, guardando as característas das personagens nas posturas corporais. As vestimentas e a ilustração do ambiente revelam o cortiço como um lugar da malandragem, de aspecto boêmio. Um trabalho bem específico é o realizado pela Editora Globo, com a obra de Monteiro Lobato. Ele surge a partir da criação do Sítio do Picapau Amarelo, uma 61 minissérie criada no final da década de 70 e retomada no início dos anos 90 pela emissora de televisão Globo, além de desenho animado, exibido na TV Bandeirantes em 2011/2012. A história em seriação de acontecimentos retrata o lugar onde vivem Pedrinho, Narizinho, Emília, Visconde, Dona Benta, Tia Nastácia, em aventuras adaptadas das obras literárias infantis do referido autor. No final da década de 1990 o Sítio torna-se história em quadrinhos, nas quais a turma passa a viver novas histórias com temas contemporâneos ou retornando no tempo para revisionar fatos históricos, numa linguagem própria ao público infantil. Na última década, acompanhando o momento das quadrinizações literárias, os textos infantis lobateanos são adaptados para os quadrinhos, na dinâmica das aventuras das personagens do sítio. Textos como O Minotauro, Dom Quixote e As aventuras de Hans Staden são retomados nos quadrinhos com estratégias narrativas específicas e ilustrações próximas ao universo infantil, como se nota nas figuras abaixo: Figura 38: O Minotauro Figura 39: O Minotauro Globo, capa 1 Globo, pág. 38 Figura 40: Dom Quixote das crianças Globo, capa 1 Figura 41: Dom Quixote das crianças Globo, pág.19 62 Figura 42: Aventuras de Hans Staden Globo, capa 1 Figura 43: Aventuras de Hans Staden Globo, pág. 42 Nas capas dos textos quadrinizados do Sítio do Picapau Amarelo (figuras 38, 40 e 42) destacam-se as personagens principais das histórias revisitadas; ao lado, é disposto em sentido vertical uma série de requadros nos quais as personagens do Sítio presentificam as histórias. O diagrama de fala na parte superior indica o propósito dos textos, ou seja, Monteiro Lobato (metonímia da obra literária do referido autor) em quadrinhos. As estratégias narrativas nestes textos são diversificadas. Na figura 39 as personagens do Sítio viajam no tempo graças ao pó de pirlimpimpim e vivenciam fatos do passado na Grécia Antiga; na figura 41 temos uma das personagens assumindo as perspectivas do herói Dom Quixote e na figura 43 Dona Benta assume o papel de contadora de história e os fatos expostos nos quadrinhos em dois planos - o da enunciação (momento do ato de contar, mostrando as indagações dos ouvintes acerca da história) e do enunciado (os fatos contados são ilustrados). A técnica quadrinistica atende bem às expectativas do universo infantil: desenhos bem definidos com traços mais infantis bem delineados, jogo de cores suaves e harmônicas e em conformidade com o ambiente físico e psicológico que quer demonstrar, requadros traçados ou sobrepostos segundo a intenção da mensagem do texto. Apesar da diversidade de produção que atende a públicos variados, as quadrinizações literárias ainda não conseguem amplos espaços, sendo, não raras vezes, visualizadas apenas como objetos de leituras pedagógicas, pouco exploradas na escola. Vergueiro (2010) afirma que, apesar da obrigatoriedade na sala de aula, as histórias em 63 quadrinhos continuam a ser vistas como um material infantil. Somente foram incorporadas ao ensino médio no formato de literatura em quadrinhos em 2009, inclusão que parece demonstrar a evolução do pensamento das autoridades governamentais, que passaram a acreditar no alcance e na potência do diálogo deste objeto cultural com o ensino formal. Tais autoridades acreditam que a leitura do texto em quadrinhos pode funcionar, ao longo do tempo, como trampolim para os romances, obras do cinema e do teatro. Paulo Ramos8, autor dos livros Quadrinhos na educação: da rejeição à prática e Como usar as histórias em quadrinho na sala de aula, apresenta uma série de publicações literárias em quadrinhos. Esta ampliação das publicações traz como ponto positivo o fato de a literatura se tornar mais atraente para o aluno. Ele destaca como aspecto negativo o fato de tais produções afastarem os estudantes da obra inicial. O pesquisador reitera que a adaptação não substitui a versão original e que pode haver uma saturação do mercado com o aumento das publicações. Em outro artigo9, Ramos confere relevância a este tipo de texto que também exige habilidades do leitor e destaca que “se há dificuldades no uso de obras literárias, imagine dos quadrinhos”. Ramos e Vergueiro enxergam a inclusão dos quadrinhos na sala de aula como um avanço, mas consideram insatisfatórios os resultados iniciais desta prática emergente. Eles nutrem uma visão pessimista ante tal ação pedagógica, já que os quadrinhos têm sido pouco usados no ensino. Esta constatação decorreria do desconhecimento e da ausência de habilidade por parte do docente quanto à leitura da linguagem icônica, o que atrofiaria o emprego deste objeto em sala de aula. O Jornal Metodista da Universidade Metodista de São Paulo10 traz o reconhecimento de que a literatura em quadrinhos tornou-se, nos últimos anos, um nicho em crescimento no mercado dos gibis. Também afirma que as editoras “ganharam um novo e poderoso cliente”, o que acentua a tônica mercadológica deste objeto cultural hibrido, além de apresentar o posicionamento de pesquisadores acerca desta temática. 8 Cf. Aberta temporada 2009 de adaptações. Disponível em: <blogdosquadrinhos.blog.uol.com.br >. Acesso em: 26/mai/2010. 9 Cf. Obras em quadrinhos, sem super-heróis, são obrigatórias.. Ano. Disponível em: <jovem.ig.com.br >.Acesso em: 26/mai/2010. 10 Cf. Literatura em quadrinhos . Disponível em:< www.metodista.br >. Acesso em: 28/jun/2009. 64 Dentre estes, Alexandre Linhares, da Boitempo Editora, um dos responsáveis pela transposição do livro A Relíquia, de Eça de Queirós, para os quadrinhos, destaca que o aumento destas publicações se deve a uma combinação de fatores e não apenas à indicação ao Programa Nacional de Bibliotecas nas Escolas (PNBE). Acredita que as adaptações ganharam atenção especial muito antes, pois “[...] seriam formas de ajudar os quadrinistas brasileiros a melhorar os roteiros e, assim, ganhar prática e experiência na roteirização de histórias” (2010). Destaca-se também o posicionamento dos professores Lielson Zeni e de Elydio dos Santos Neto, diretor da Faculdade de Educação e Letras da Universidade Metodista de São Paulo. Para o primeiro, é fundamental saber o que se pretende com a adaptação, isto é, se a quadrinização funciona como um auxílio ao texto original, buscando-se ser o mais fiel possível a ele, ou é uma releitura que terá como ponto marcante a utilização dos recursos da peculiar linguagem quadrinística. Nesta percepção, é centrado o trabalho do quadrinista, o qual se destaca como o autor que recria o texto imagético a partir do texto literário. No texto “Literatura em quadrinhos”, integrante da obra Quadrinho na Educação: da prática á rejeição (2009, p. 127) ele defende a autonomia das quadrinizações literárias, um novo texto, que muito pode contribuir para a leitura literária: As produções em quadrinhos baseadas em obras literárias devem ser avaliadas por seu valor como arte autônoma, e não à sombra da produção original. Podemos, entretanto, aproveitar a proximidade dessas adaptações e do texto que lhe serviu de base para buscar uma leitura diferenciada, uma outra visão da obra literária. Para o professor Elydio, a qualidade da adaptação independe da história que a motiva, posto que apenas a preocupação com a fidelidade ao texto-base pode tornar a adaptação não interessante, sem força semântica na nova linguagem. Ressalta também a possibilidade de o trabalho conjunto acontecer em sala de aula, o que enriquecerá o aluno no referente ao domínio dos recursos que as diferentes linguagens possibilitam. Ele observa que se torna indispensável a consciência do leitor ante as adaptações, porque a história não será contada da mesma forma, e afirma: [...] a adaptação é, já em si, uma leitura do artista que a adaptou para os quadrinhos. Isso não é, a princípio, bom ou ruim. É importante que quem esteja lendo uma adaptação saiba que não está lendo a própria 65 obra literária, mesmo quando a adaptação mantém-se fiel ao texto literário. O referido autor ainda ressalta que a leitura dos quadrinhos no ambiente escolar pode estabelecer um desenvolvimento mais harmonioso entre a análise racional e a leitura com sensibilidade. Também adverte para uma pedagogização das histórias em quadrinhos, o que provoca o empobrecimento delas, uma vez que se trata somente da exploração superficial desta linguagem, isto é, o potencial artístico e o comunicacional não são verdadeiramente trabalhados. No rastro deste olhar raso, as histórias em quadrinhos são tomadas apenas como pretextos para estudos linguísticos, técnicas de cópia de arte ou mera facilitação de entendimento da linguagem literária ou de fatos históricos. Mesmo tendo sido tema da Bienal do Livro de Minas Gerais em agosto de 2010, a literatura em quadrinhos convive com o rótulo de subliteratura, posicionamento rechaçado pelo quadrinista Lelis11. Ele é contundente em depoimento sobre a literatura em quadrinhos: “Um país deve se orgulhar das formas de expressão e não rotulá-las dando maior importância a uma em detrimento da outra. Ninguém questionou se era literatura ou sub-literatura. É uma forma de expressão, uma das mais completas e só” (2010). Spacca, quadrinista paulista que adaptou Jubiabá, de Jorge Amado, destaca que a arte literária utiliza a expressão verbal enquanto os quadrinhos usam imagens e símbolos e nem sempre palavras. Isto confere à literatura em quadrinhos a caracterização de extraliteratura. Ele explicita: “[...] a HQ utiliza o mesmo suporte físico da literatura, o livro, as páginas impressas têm a mesma direção de leitura e organização editorial de uma obra literária. Os novos formatos ainda não oferecem ao leitor a mesma praticidade do formato clássico” (2010). A editora da Coleção Clássicos em Quadrinhos da Peirópolis, em apresentação da obra Os Lusíadas quadrinizada, caracteriza esta literatura como um rito de iniciação para o leitor, que se depara com um nível de complexidade menor do que no texto literário. O quadrinista, autor deste trabalho, Fito Nesti, observa que a quadrinização do texto literário processa-se a partir da extração das passagens mais relevantes e populares da obra para daí produzir as imagens. Utiliza-se também da estratégia do encontro entre 11 Cf. blog.com.br/quadrinhos. Acesso em: 26/mai/2010 66 o autor místico da obra literária com o autor-personagem da história em quadrinhos, o que propicia um trânsito melhor da leitura do texto. Para ele, nasce uma nova história, um novo livro, que inspira o leitor a olhar com humor para os eventos narrados (NESTI, 2006). No livro em quadrinhos A Relíquia, da Conrad, o quadrinista Marcatti constrói uma revisitação à obra literária homônima de forma bem criativa. Produz o novo objeto cultural por meio de um processo de ressignificação da história: no texto quadrinizado ocorre a junção de três personagens em um, são realizadas supressões de trechos vistos como importantes pela leitura tradicional (a exemplo da visão maligna das personagens) e mantém poucos trechos da linguagem original “abrasileirando” a língua de Portugal. Independente da instabilidade de compreensão, de conceituação, da real funcionalidade do texto quadrinístico e da falta de percepção da linguagem específica e rica que tem, ou de como se dão as trocas e as mediações entre ela e os elementos que a compõem (palavra e imagem), torna-se imprescindível vislumbrar a literatura em quadrinhos como objeto cultural enriquecedor da construção das práticas de leitura, sem estar-se preso a elitismos textuais e sociais. Para isso, é importante observar, como afirma Michel de Certeau que “[...] a autonomia do leitor depende de uma transformação das relações sociais que determinam sua interação com os textos. A criatividade do leitor cresce na medida em que cai o peso da instituição que a controla” (apud MARTÍN-BARBERO, 2004, p.337). Neste sentido, a escola deverá repensar as práticas leitoras que promove e o discurso que as rege. Nesse jogo de indefinições acerca da literatura em quadrinhos, há posições que deslocam a preocupação com a acessibilidade do texto literário via mediação da imagem. Tal prática pode desencadear leituras equivocadas, segundo as quais haveria a mera substituição de um objeto cultural por outro que o simplifica. As interpretações deturpadas provocam o desperdício das experiências do confronto, da interculturalidade, da experimentação de novas sensibilidades. Equívocos dessa natureza não raramente constituem práticas pedagógicas como a do texto intitulado Precisa estudar literatura pro vestibular? Leia um gibi, ora bolas! (2009). Este artigo chega a afirmar que deveria haver a substituição dos textos, uma vez que o fato de clássicos da literatura fazerem parte das listas do vestibular não garante a efetividade da leitura daquelas obras. As obras literárias são caracterizadas sempre como dotadas de uma linguagem complicada e de vocabulário difícil. Assim, aponta-se 67 para a conveniência das versões em quadrinhos, uma vez que, por serem dotadas de imagens e também por exibirem certo caráter de síntese, tornar-se-iam de leitura mais fácil. Todos esses aspectos ofereceriam comodidade ao leitor, em detrimento da leitura do texto literário, desprovido de todas aquelas essas facilidades. Esse procedimento acaba por vulgarizar o objeto cultural híbrido e por provocar desconfiança quanto a seu estatuto ontológico. O duplo equívoco – a canonização da literatura e o desprestígio e mau uso dos quadrinhos – deve ser repensado, sob pena do apagamento deste objeto cultural, cabendo-lhe apenas o rótulo de mais um “lixo” da mídia circundante. Este processo também fortalecerá o ostracismo crescente da literatura, que se fechará ainda mais como texto intransitivo e identificado com uma tradição passada, pertencente apenas às práticas de leituras acadêmicas. O texto literário é tido como fechado em si, distante do mundo altamente tecnológico cada vez mais audiovisual e, em última análise, se distancia-se, do tempo e do espaço de circulação e recepção contemporâneas. Torna-se pertinente invocar o pensamento de Benjamin (1994) para situar a literatura em quadrinhos num patamar que se assemelharia aos processos de reprodutividade técnica da obra de arte. Neste sentido, o quadrinho, por assim dizer, deslocaria a arte literária do nicho onde o cultivo de sua aura a colocou e a remeteria para espaços outros, propícios e adequados a interações e ressonâncias, possibilitados também pela atuação da imagem. Desta forma, a reprodutividade técnica se identificaria com os estágios de repaginação assumidos pela arte literária, agora veiculada pela linguagem icônica. É o próprio Benjamin (1994, p.168-169) quem afirma: [...] a técnica da reprodutividade destaca do domínio da tradição o objeto reproduzido. Na medida em que se multiplica a reprodução, substitui a existência única da obra pela existência serial. E, na medida em que esta técnica permite à reprodução vir ao encontro do espectador, em todas as situações ela atualiza o objeto reproduzido. Neste novo processo, a arte literária sacralizada pela aura do elitismo, afasta-se de tal posição e, ao se apresentar refuncionalizada nas quadrinizações, empreende diálogos entre o culto e o massivo, de que resulta possibilidade de interações com novas sensibilidades. 68 2. A LITERATURA MACHADIANA ENTRE CONTOS E REQUADROS 2.1. A literatura machadiana nas leituras críticas Autor de um texto que, em muitas situações, parece dizer o mesmo através de títulos e gêneros variados, Machado de Assis é um escritor sobre quem, a princípio, se poderia dizer que fala de uma posição e espaço de elite, sendo por isso tomado como um dos melhores exemplos da literatura clássica. Entretanto ao mergulhar em seus textos, nota-se que se trata de um ficcionista cuja profundidade instiga e provoca e se apresenta como detentor de uma escrita que transcende o momento, o espaço, a etnia; do jovem que faz o trajeto do arrabalde para o centro. Ao se debruçar sobre as obras, muitos caminhos de leitura são anunciados e muitos posicionamentos são construídos, tamanha a habilidade das estratégias de contar, engendradas em rica sutileza e fina ironia. Destacaremos alguns posicionamentos da crítica especializada que circulam na academia nos trabalhos de Afrânio Coutinho, Eugênio Gomes, Sonia Brayner, Antonio Callado, Roberto Schwartz, Luiz Roncari, Jonh Gledson e Antonio Candido. Também trilharemos por algumas revistas especializadas, veículos informacionais que primam pela linguagem mais acessível para professores, estudantes e interessados na área, cotejando discussões acerca da literatura machadiana. Optamos pela Entrelivros (2007), Proleitura (1999) e Nova Escola (2008) que circularam no período de homenagem ao centenário da morte e dos cento e cinqüenta anos de nascimento de Machado de Assis, respectivamente. Entre os críticos especializados, Coutinho (1990), debuça-se sobre o estilo de Machado de Assis e apresenta-o como resultado da lida de um escritor que muito laborou ante o próprio texto. Nos cinquenta anos de produção, tal escritor vivencia as marcas de uma evolução literária que o coloca desvinculado de qualquer manifestação da historiografia literária. Por outro lado, ele se utiliza das possibilidades e matizes dos variados estilos de época: Não foi homem de escolas, no sentido estrito. Absorvia o que tinha de válido, incorporando-o ao seu ideal estético, que era de cunho clássico, no culto da medida, do equilíbrio, das verdades eternas e universais. Reagia contra os exageros, pois sabia reconhecer as virtudes de cada escola e se deixar impregnar por elas. (COUTINHO, 1990, p.31). 69 O referido crítico faz uma leitura da obra como culminância da maturação estética que resulta, por sua vez, do amadurecimento existencial do próprio homem, que não se diz claramente no texto. Nesta direção, trata-se de um escritor que não se revelaria por inteiro na produção literária. Três marcas da escrita, vistas pelos críticos como não gratas, merecem certo esclarecimento da parte de Afrânio Coutinho: a questão das influências, a falta de conexão com a realidade em que vivia (classe e raça) e o estilo elitista de escrita. No tocante às influências, o texto machadiano é uma elaboração pessoal, construída por meio da assimilação das várias leituras que o formaram (COUTINHO, 1990) A partir de Pascal, Machado elabora ideias identificadas com o descrédito no homem, ser doente e corruptível, sempre incerto, flutuante e marcado pela condição de miséria da própria existência e que traz de origem a propensão ao mal. De Montaigne, capta a noção de consciência do homem como ser natural, que vê a vida como instância nem má, nem boa. Esta percepção é construída por meio do conhecimento que possibilita a descrição íntima do homem, isto é, fundada na penetração psicológica que desvenda o universo humano. O homem é um ser extremamente preocupado com a opinião alheia e dotado de incoerências e variabilidades. Machado se inspira em Cervantes, Swift, Sterne, Dickens, para construir um humorismo que surpreende qualquer leitor. Assim, Coutinho afirma que Machado de Assis toma essas posições para construir certa concepção de mundo a partir de um modo muito próprio de dizê-lo. No que diz respeito a uma suposta desconexão com a realidade do Brasil, segundo o autor supracitado, Machado de Assis foge à tendência da unicidade enfática no nacionalismo carregado de cor local – “Instinto de nacionalidade”. Ele prefere mostrar o cotidiano com imagens e figuras do Rio de Janeiro do final do século XIX, com seus dilemas sociais, políticos e econômicos, espaço onde transita um homem entregue aos próprios impasses existenciais. Para Coutinho, apontá-lo como um escritor elitista é não perceber naquele texto a elaboração personalíssima, que preserva a tradição sim, mas acolhe também elementos da cultura popular. Neste sentido, Machado “[transforma] com seu molho, a matériaprima proveniente de fontes das mais díspares – dos escritores lidos, do patrimônio comum, do acervo popular, dos tesouros de frases feitas, da sabedoria anônima, dos fatos da vida cotidiana” (COUTINHO, 1990, p.48). 70 Eugênio Gomes (1958) afirma que com Machado de Assis o romance brasileiro atingiu o mais avançado grau de refinamento formal, produto do entrelaçamento das habilidades do cronista, crítico e romancista. O texto torna-se um objeto híbrido, pois o leitor é seduzido e deleitado não só pelos meandros da ficção em si, mas também pela percepção do fazer textual marcante. Na percepção de Gomes, Machado de Assis é o crítico dissimulado no romancista, que vive a liberdade de criação responsável pela excessiva agudeza de conhecimento e de malícia moral em suas recriações. O crítico é contundente ao afirmar que o escritor não foi o frio praticante da arte pela arte. Em suas melhores produções encontra-se, antes de tudo, o homem interessado pela vida. Sonia Brayner (1982) vê Machado de Assis muito mais que um reformulador do modelo literário do final do século XIX. O texto do escritor questiona não apenas o modelo literário vigente, como também a própria racionalidade com que se faz a leitura do real – a mimese documental tão em voga. Em outra direção, estabelece-se uma técnica metafórica escudada num jogo de desnudamentos por meio de uma estratégia sofisticada de assimilação e desassimilação dos conteúdos. Segundo a crítica em foco, a obra machadiana instaura um desafio e uma desestabilização do pensamento racional do Ocidente. Nela encontra-se a lógica da ambivalência e do paradoxo que desnuda os apoios lógicos de classes e de propriedade, recursos verbais não tão facilmente encontrados. Ainda segundo a crítica citada, o texto machadiano traz dois aspectos que merecem atenção especial: um posicionamento singular próprio de seu discurso intertextual, que tanto o legitima, e a manipulação do universo ficcional por intermédio da apropriação de formas arcaizantes de humor, características do século XIX. Desta forma, quebra-se a previsibilidade do bom senso do texto, de que resulta a indagação profunda, própria da atribuição de sentido. Em depoimento de sua vivência como leitora de tal obra, a crítica assim se coloca: [...] bom, pensando nas minhas vivências machadianas, talvez a coisa que mais me tenha impressionado no texto do Machado tenha sido o próprio jogo do texto [...] quer dizer, a capacidade que ele teve em articular tantos elementos narrativos de forma tão complexa e variada. [...] Em nenhum momento ele deixou de tentar uma forma através da qual pudesse dizer o que tinha para dizer da melhor forma possível. E a capacidade de mudança não arrefeceu até uma modificação, fruto das tentativas deste percurso. [...] Há, entretanto, um segundo Machado, que atrai e me desnorteia. Eu nunca cheguei a uma 71 conclusão definitiva sobre como Machado coloca a mulher dentro de sua obra [...]. (BREYNER, 1982, p.326). Antonio Callado tem Machado de Assis como a grande figura do mundo ocidental. Para ele, Machado é um autor que também traz inquietações à crítica ocidental, no que concerne inclusive à alegoria política e social que se debruça sobre o Brasil. Nas narrativas, o Rio de Janeiro e os sujeitos que ali transitam, tornam-se recorrentes, contudo o adensamento e a profundidade com que é apresentada cada situação constituem algo que lhe é específico, vez que “[...] ele parte de dentro das coisas e realmente toma conta da gente de uma forma absoluta, primeiro insinuante, a gente nem sente” (CALLADO, 1982, p.324). Roberto Schwarz, em seus estudos sobre a luta ideológica no Brasil a partir da segunda metade do século XIX, percebe como elemento básico da obra machadiana a presença do narrador volúvel. Tal narrador, a cada momento, mostra-se desidentificado em relação a um posicionamento defendido anteriormente, o que faz com que o humor ocupe papel-chave no desvendamento do texto. Segundo Schwarz (1982, p.318), “[...] é como se a relativização das idéias dominantes de uma época no centro tivesse um peso explosivo e a relativização dessas mesmas idéias na periferia tivesse uma dimensão realista porque a sua relatividade é palpável”. A história brasileira, não raras vezes mal contada e inexplorada, assume na obra machadiana uma elaboração sutil e aprofundada, ainda que leituras desatentas vislumbrem nela um caráter a-histórico, conclusão fundamentada na ausência da mimese documental. Para o crítico paulista, na experiência leitora do texto machadiano, há um discurso sempre significativo, uma vez que Machado vai se impondo ao longo dos anos, e não é tanto pelo lado da simpatia que ele dura. Os outros, com o passar do tempo, vão parecendo ingênuos; comparados com ele, vão parecendo bobocas. E o Machado, não, ele volta a se impor e vai durando... Os outros somem, e ele sempre está ali. Isso tem a ver com o pessimismo, tem a ver com a falta de entusiasmo, de que os contemporâneos têm raiva. [...] Machado [...] não faz a menor diferença entre um rico e um pobre quanto a sutileza. Para ele, pobre é gente como não é para nenhum naturalista, inclusive de esquerda. [...] Há em Machado de Assis, com toda a afinidade dele pela sociedade restrita, um sentimento da pobreza que é uma coisa extremamente extraordinária. (SCHWARZ, 1982, p.325). 72 Luiz Roncari, identificado com a leitura cultural, por sua vez vê um Machado de Assis afinado com a valorização da arte culta, da literatura e língua cultas. Nota que o escritor apresenta uma percepção da cultura popular, do local, mas parece não saber integrar as novas vozes emergentes na cultura brasileira. Segundo o crítico, o escritor percebe a mudança que está por ser instaurada nos fins do século XIX, mas defende com outros escritores e intelectuais da época a proposta de [...] levar para o futuro o que merece sobreviver do passado, o que está vivo ainda do passado. Buscava-se evitar a ruptura brusca, que algumas vozes literárias, de certa forma, vinham afinando e que diminuiria o espaço de encontro do velho com o novo, o espaço de encontro também das diferentes regiões, do regional. (RONCARI, 1982, p.316). Roncari acredita que a relação entre Machado de Assis e o leitor, inicialmente seria marcada pela complicação e solidão, mas em momento posterior se chegaria à intimidade e por fim ao prazer. Identificam-se escritor, leitor, narrador e personagens que trazem uma espécie de doença na alma, da qual brota o encontro responsável pelo prazer do texto. Na obra Machado de Assis: ficção e história, John Gledson (2003) retoma o debate da relação da literatura machadiana, tida e havida como realista na concepção reducionista e documental do século XIX, e a reposiciona em sua singularidade de construção da História, processo denominado de realismo enganoso. Este conceito se volta para a desestabilização do entendimento do real, que, desta maneira, se torna oculto e não imediato ao leitor. A percepção do sentido documental se faria notar somente através da análise e leitura das entrelinhas da narrativa. Através da alegoria política/histórica, Machado elege uma das interpretações da trama – o adensamento histórico. Neste sentido, não se trata da “[...] dedução de uma visão machadiana da História a partir de uma massa de detalhes; é uma exposição sobre a maneira pela qual essa visão da história molda os próprios romances” (GLEDSON, 2003, p.32). Desta sorte, destacam-se a sutileza e a profundidade na forma de como o texto espelha as condições locais, brasileiras, o que inaugura uma nova tradição de leitura. Uma leitura bastante sólida é apresentada por Antonio Candido (2004), em texto intitulado “Esquema de Machado de Assis”, integrante da obra Vários escritos. Negando toda a visão de homem marcado pelo sofrimento e pelo estigma da cor, da 73 origem humilde e da doença como elementos desencadeadores da condição de genialidade, o crítico apresenta Machado como escritor que teve apoio e que recebeu mais louros que críticas em vida. Se, por um lado, apresentou um texto muito bem elaborado e digno de reconhecimento, também foi um homem com posições conservadoras nas práticas sociais. Negando o biografismo e o psicologismo da criação literária, prática comum nas leituras críticas da década de 30 do século XX, Candido (2004, p.18) reclama para a obra todos os holofotes, assim afirmando: Podemos dizer, como Moisés Vellinho, que sua vida é sem relevo comparada à grandeza de sua obra, e que interessa pouco, enquanto esta interessa muito mais. Sob o rapaz alegre e mais tarde o burguês comedido que procurava ajustar-se às manifestações exteriores, que passou convencionalmente pela vida, respeitando para ser respeitado, funcionava um escritor poderoso e atormentado, que recobria seus livros com a cutícula do respeito humano e das boas maneiras para poder, debaixo dela, desmascarar, investigar, experimentar, descobrir o mundo da alma, rir da sociedade, expor algumas das componentes mais esquisitas da personalidade. Na razão inversa da sua prosa elegante e discreta, do seu tom humorístico e ao mesmo tempo acadêmico, avultam para o leitor atento as mais desmedidas surpresas. Candido (2004, p.18) explicita como principal mérito da obra diante do leitor “[...] a atualidade quase intemporal de seu estilo e desse universo oculto que sugere os abismos”, que vai ser marca da literatura do século XX. O traço de modernidade de Machado de Assis, apesar do seu arcaísmo de superfície, configura-se por meio da técnica em sugerir as coisas mais descabidas de maneira suave; em estabelecer a contradição entre a normalidade social dos fatos e sua anormalidade essencial; ou em sugerir que o ato excepcional é normal, e anormal seria o ato corriqueiro, sob a aparência do contraditório. Pelo viés das revistas especializadas, destacamos a Entre Livros, produzida pela Duetto Editorial, revista de circulação mensal, que traz na edição nº 30, de outubro de 2007, como reportagem de capa “O Machado desconhecido”, texto que sugere que há muito do autor a ser pesquisado. Comenta-se o importante papel do escritor na literatura e cultura brasileiras, reconhecendo-o como voz única, talento e criatividade incontestáveis e singulares, mulato vitorioso numa sociedade escravocrata. A seção dossiê traz o instigante artigo “O escritor de sete faces”, assinado por Cláudia Nina 74 (2007) que comenta as nuanças da obra machadiana, numa percepção bastante diferente das postulações trazidas pela crítica acadêmica especializada tradicional. Ela apresenta novos críticos que, na virada do século XX para o XXI, buscaram desvendar no arguto texto temas antes inimagináveis, como feminismo, homossexualismo e discussões voltadas para as questões da afrodescendência. Uma das leituras indicadas nessa reportagem é “Machado de Assis Afrodescendente”, de autoria de Eduardo de Assis Duarte, texto que aponta para sutis posicionamentos políticos e étnicos do escritor mulato, integrado no sistema burguês vigente, condição que, a princípio, o colocava numa posição de não envolvimento com as questões raciais. Numa leitura em outra direção, Eduardo de Assis Duarte (2007, p.24) advoga que “[...] o viés político se mostra no escritor-caramujo, protegido, no jornal, pelo pseudônimo e, na ficção, pela ironia e por todo um conjunto de procedimentos dissimuladores”. Por não concordar com as acusações a Machado de Assis de oportunismo, aburguesamento, absenteísmo e omissão na luta pelo fim da escravidão, o crítico buscou nos estudos das crônicas um meio para a descoberta do sentido político na obra do referido escritor. E aponta para um texto arguto que veicula [...] uma literatura que não endossa o preconceito; que vai na contramão do cientificismo hegemônico na época; que se posiciona, sim. Contra a desigualdade e a injustiça; que rebaixa os heróis e dá à mulher um papel substantivo; que faz a crítica da classe dominante de um olhar externo, de baixo para cima, identificado ao subalterno; e que retira deste, sobretudo do escravo, a lição de que a astúcia é a grande arma do oprimido. (DUARTE, 2007, p.26). Outro estudioso apresentado é Paulo Ubiratan, jornalista, escritor e tradutor, autor não só da Bibliografia machadiana – 1959-2003, obra na qual copila escritos diversos de jornais, revistas e livros, como também de Três vezes Machado de Assis, obra em que são reunidos ensaios sobre o contexto histórico do Rio de Janeiro da época. Em tais textos, Machado de Assis é caracterizado como escritor contemporâneo, visto que “[...] num mundo de tanta desconfiança como o nosso, as histórias e as personagens criadas por Machado permanecem absolutamente atuais. O gosto de duvidar de tudo, a dificuldade e impossibilidade de ter certezas são também características do nosso tempo” (UBIRATAN, 2007, p.27). 75 Hélio Guimarães, autor de Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público do século XIX, analisa o papel da figura do leitor na produção ficcional romanesca machadiana no Brasil do final do século XIX e início do século XX, momento em que somente 18% da população era alfabetizada e apenas 2% eram capazes de ler livros. Em entrevista para a Entre Livros, n. 30, assim se expressa Guimarães (2007, p.25): Machado foi um escritor muito festejado em vida, o que não significa que tinha sido compreendido. [...] O que houve certamente foi uma enorme dificuldade de descrever e de classificar a obra dentro das categorias críticas então disponíveis. Mesmo os melhores críticos em atividade não sabiam onde encaixar aquilo. Daí uma visão inicial da obra toda calcada em negativas e faltas. Apesar de todos reconhecerem as habilidades e talentos de Machado como escritor, ele foi visto como um escritor frio, de pouca imaginação, pouco interessado no povo brasileiro e nas suas questões, indiferente às questões políticas, etc. Para as expectativas da época, Machado era um renomado capítulo de negativas: faltava emoção, faltava paisagem [...]. O referido crítico afirma que pouco ou quase nada se sabe acerca da recepção das obras machadianas naquele período, pois não há nenhuma carta de leitor a ele destinada. Com relação aos leitores atuais, apesar do grande volume de estudos nestes cem anos, Hélio Guimarães acredita que há muito ainda a ser dito, levando-se em conta, principalmente, a poesia e o conto. Alcides Villaça, no artigo “Os apuros de Machado de Assis”, traz a lume a questão instigante de como é o trabalho com a literatura no interior da academia e no processo de formação cultural, tradicionalmente pautada por valores humanos universais, quando os autores que mais reverberam referem-se ao particular do “nefasto das experiências humanas”. A obra de Machado de Assis é um exemplo claro da contraposição, no qual a tão louvada intenção construtiva da ação pedagógica de firmação de valores humanos passa por séria desestabilização. Villaça (2007, p.38) observa: A escola acolhe, honrada, um escritor, cujos sólidos princípios acabam por erigir uma ponte pênsil sobre o abismo. É só chegarmos um pouquinho mais perto de seus textos e sofreremos a ação dos ácidos infiltrados na perspectiva do narrador, que destilam do fundo de sua consciência e se infiltram na nossa, resultando no ganho de uma 76 estranha e alta lucidez que parece se alimentar de si mesma e paralisar-se, gostosamente, em seu mirante privilegiado. Para Villaça, segundo experiências advindas de curso ministrado a partir dos contos de Machado de Assis, cujos participantes eram jovens leitores, três reações à leitura foram observadas: desestabilização de valores já instáveis em si, numa fase da vida em que o jovem procura assentar suas escolhas; reclamação de quem não admite a contestação de princípios já definidos e cristalizados, especialmente no que se refere à religião; estranhamento por parte de leitores puristas que não veem na prosa machadiana uma poética estruturalmente definida. Em todos os casos, o crítico pontua como motivador o modo como o Bruxo de Cosme Velho relativiza os valores pessoais, sociais e literários. E assim comenta: Ora, um evidente efeito de tamanha relativização é atiçar em nós a emergência de um valor que se sustente altaneiro na prática da vida, em resposta ao seu escandaloso rebaixamento. Se isso não é muito, também não é pouco, e, aliás, é político. As situações narrativas de Machado acusam a complexidade das contradições essenciais, detectadas no plano da vivência íntima e na dinâmica da vida pública. O que fazemos com ela é nosso problema. Não estamos habituados a um confronto deste tipo, em que nos sentimos cobrados não pela abstração de um elenco de virtudes clássicas ou de princípios ideológicos, mas pela concreção de experiências muito detalhadas, que expõem o processo de mascaramento, escandalosamente familiar das violências grandes ou pequenas, sobretudo nossas. (VILLAÇA, 2007, p.39). Perceber o ganho pedagógico no trabalho com Machado de Assis no ambiente escolar a partir da condição de desestabilizador e relativizador de valores é possível, sim, para Alcides Villaça. O crítico pontua três vantagens: primeiro, não é perda pedagógica trabalhar com as contradições que alvejam princípios alternativos, pois se promovem questionamentos que fazem repensá-los; segundo, a violência da relativização dos valores promove a relativização do leitor ao propor como resposta interpretações diversas, visto que a narração machadiana, ao simular descompromisso, acaba comprometendo a todos; e, por fim, a literatura tem como papel dar expressão ao que não dispõe de tal, revelar disfarçadamente o que está disfarçado de fato, acusar eficazmente a ineficácia de abstrações ingênuas, ou seja, revelar o mundo de forma a provocar um repensar do próprio homem. 77 Milton Hatoum, no texto “Machado para o jovem leitor”, presente na seção Norte da referida Revista, acredita que um dos problemas está na seleção das obras para a leitura do aluno. Segundo ele, há um pressuposto de que o estudante seria incapaz de realizar leituras de textos complexos. Texto complexo não necessariamente é pesado, chato e difícil. Texto difícil é aquele que carrega na ênfase do vocabulário precioso e não aquele que inova na estratégia narrativa e na linguagem inusitada. Observa que há, como sempre, imposições curriculares não poucas vezes equivocadas, pois terminam por promover o ódio pela literatura brasileira como um todo no jovem e inexperiente leitor, ao insistir no trabalho com “textos ásperos, cuja leitura é sinônimo de suplício” (HATOUM, 2007, p.47). A seleção deveria ter como critério textos literários bem construídos, mesmo considerados complexos, pois produzem prazer pela cognição (reflexão) e pela emotividade. E o crítico comenta a respeito da ausência de recepção do texto machadiano no leitor-estudante: É inadmissível que tantos jovens desperdicem a oportunidade de ler “A causa secreta”, “O Enfermeiro”, “Missa do galo”, “O Espelho”, “Uns braços” [...] e outros contos do Bruxo, um verdadeiro mestre da narrativa breve, que se situa no mesmo patamar de excelência de seus contemporâneos europeus. É muito provável que esses contos sejam lidos e comentados sem enfado. Porque uma leitura enfadonha e arrastada é, para o leitor jovem – e talvez para todo leitor –, um ato de flagelação ao espírito. Claro que há textos intrincados e nada tediosos, que são imprescindíveis para quem gosta de literatura. (HATOUM, 2007, p.47). Também merece atenção o periódico especializado Proleitura da UNESP/Assis, publicado em parceria com a UEL (Universidade Estadual de Londrina) e com a UEM (Universidade Estadual de Maringá) do Paraná, texto voltado para os professores de Língua Portuguesa dos níveis fundamental e médio. Em sua edição n.21, de agosto de 2008, a Proleitura, intitulada Quem tem medo de Machado de Assis, apresenta no editorial uma sugestão que indicaria caminhos para uma desmistificação do texto machadiano. Destaca-se o potencial instigador daquele texto que, apesar de contar com uma extensa fortuna crítica, continua a provocar novos e interessantes estudos, por parte de pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Vale ressaltar que Machado de Assis é causa de inquietação do profissional de Letras ligado à Educação, que constantemente se interroga até que ponto o interesse sobre o escritor encontraria eco também no jovem 78 leitor em formação. Questões como o papel da obra para o leitor em formação e o que deve ser lido de e sobre Machado de Assis são aspectos motivadores das discussões desta edição. Dois textos chamam atenção: “Por um Machado de Assis sem medalhinhas”, de Marisa Lajolo, e “Como ler Machado de Assis”, de Valentim Facioli. No texto “Por um Machado de Assis sem medalhinhas”, entrevista concedida por Marisa Lajolo a Proleitura, n.21 (2008), a pesquisadora confessa-se leitora de Machado de Assis, considerando-o um grande escritor, indispensável à bagagem de qualquer leitor, especializado ou não. Ela contesta o endeusamento feito ao escritor e, neste sentido, não compartilha com a política de exclusão do cânone, pois não acredita na qualidade de um texto literário em detrimento de outros e, sim, no resultado de um tipo de leitura. Para Lajolo, o processo de promoção, de avivamento/aceitabilidade de uma obra literária/escritor se dá processualmente, a partir de uma leitura espontânea, prazerosa, que evolua para leituras outras, endossadas pela escola. Tais práticas devem contar com a mediação de professores entusiasmados e que venham a contagiar os alunos. Ela observa que a acessibilidade ao texto machadiano ocorre por várias vias, apesar da crise que se torna vultosa na era da comunicação visual. Sobre a recepção da produção machadiana, ela ressalta: Machado é, por assim dizer, uma grife de leitura. O dele é um dos nomes que primeiro ocorre à consciência quando se pensa em leitura, em aperfeiçoamento cultural. Cai em concursos e em vestibulares, é mencionado em situações culturalmente marcadas, é fonte de citações eruditas [...] ele é um bom negócio para a indústria produtora de objetos de leitura. [...] O que torna Machado mais vendável, mas não necessariamente mais legível [...] creio que esse desencontro se transforma num desafio para a escola mas sua aura, transbordando dela, torna-o um produto sedutor para um ponto de venda tão sem pedigree cultural quanto uma banca de jornal. (LAJOLO, 2008, p.4). Já Valentim Facioli, no artigo “Como ler Machado de Assis”, busca situar o que é ler este autor quase um século e meio depois da época da elaboração e publicação de seus textos. Tido como escritor antigo e de texto difícil, a não visitação da obra machadiana se deve também à crise de leitura, apesar da exagerada mercantilização do livro. Não se pode esquecer de que a considerada pequena recepção do texto literário 79 estaria relacionada com sua substituição “[...] pela assepsia sórdida do lixo da indústria cultural e pelas facilidades da imagem visual e eletrônica” (FACIOLI, 2008, p.4). O referido estudioso aponta para a estrutura autoritária do aparelho escolar e da própria sala de aula como elementos que dificultam a leitura dos textos de Machado de Assis, já que a escolha raramente considera o ponto de vista do aluno. Acima de tudo, a seleção é apoiada no fato de se tratar de autor consagrado e visto como “portador de valores positivos e universais”. Tudo conflui para que o texto machadiano seja rotulado como “leitura obrigatória”. Neste sistema de institucionalização conservadora, o texto torna-se mero instrumento ideológico de reprodução de autoritarismo que se emparelha com a prática alienante da indústria cultural, no concernente ao reducionismo de uma leitura rasa e unilateral. Passa então a dizer o que já circula nas relações sociais, nos meios de comunicação de massa, na própria sala de aula e em autores e meios cuja intenção é torná-lo fácil e agradável, nada trazendo de desafiante para o leitor contemporâneo. Na opinião desse crítico, convém salvar Machado de Assis deste massacre perpetrado pelo aparelho escolar, pela indústria cultural (TV, cinema), pelas edições comerciais descuidadas, pela crítica incompetente, pelas médias dos livros didáticos. A resolução desta problemática repousa na indicação de alguns caminhos para uma leitura interessante com um progressivo esclarecimento das estratégias construtivas textuais que engendram a força, a vitalidade e a permanência/atualidade da obra machadiana. Ou seja, é necessário munir o leitor de elementos que possibilitem um encontro específico e mais eficiente com o texto machadiano que se livraria de apreciações institucionalizadas e predeterminadas. A Nova Escola, publicação da Editora Abril, que circula com o propósito de socializar modernas práticas pedagógicas em sala de aula, apresentou, na edição 215 de setembro de 2008, sua parcela de exaltação do texto machadiano. Com a reportagem de capa “Machado para todas as idades”, a Revista acena com a possibilidade de tornar os textos machadianos – complexos, questionadores e ricos em ironia – acessíveis para o leitor desde o 3º ano do ensino fundamental. Esta discussão é detalhada na reportagem “Machado, um clássico para todos”, na qual o jornalista Anderson Moço explora a necessidade de ler Machado/clássicos, fundamentado em argumentos de Ítalo Calvino e nos pontos de vista da escritora Ana 80 Maria Machado e da especialista Heloisa Celli Ramos, oficineira de leitura da Fundação Victor Civita. O autor da referida reportagem considera equivocada a justificativa dos professores segundo a qual o texto machadiano seria difícil, complexo e extremamente refinado. Em posição oposta, assim ele se coloca: É por meio de clássicos, como é o caso de Machado de Assis, que crianças e adolescentes passam a compartilhar referenciais lingüísticos, artísticos e culturais que permitem a eles estabelecerem vínculos com gerações anteriores e se integrar à cultura. [...] A qualidade narrativa, a complexidade com que os conflitos são nela expostos, a força das idéias que transmitam e os questionamentos que suscitam dão esse status a muito dos escritos de Machado. O autor se destaca por unir o erudito ao popular de forma única. Ele revolucionou a cultura nacional. Mulato, gago e epilético, em pleno período escravocrata, se tornou admirado e respeitado nos mais nobres salões da corte, contando histórias que ajudaram a moldar a noção que temos do que é ser brasileiro [...]. Se atualmente é considerado erudito, um medalhão inalcançável, em sua época era popular. (MOÇO, 2008, p. 47; 48). Para o crítico, o grande desafio é saber o modo de trabalhar o texto machadiano em sala de aula, respeitando a fase do desenvolvimento do aluno. Para isso é de grande valia outros meios de apresentação da obra de Machado, como as adaptações cinematográficas que se tornam suporte para a leitura do texto literário. Contudo, é imprescindível que o professor seja um leitor apaixonado, entusiasmado e muito bem preparado e veja o leitor como copartícipe na construção do sentido do texto. Desta forma, assim ele se expressa: Os estudantes se encantam pelo amor que o mestre sente pelas histórias e isso ajuda a mostrar que a leitura não é uma atividade mecânica. Muito pelo contrário. “A participação do leitor na construção do sentido do que está escrito é fundamental”, ressalta Heloisa. Para Helena Weisz [...] o bom autor sempre deixa fios soltos. “Cabe ao leitor uni-los, fazendo perguntas e criando respostas.” A função do professor é dar meios para que essas pistas sejam descobertas e, com elas, surjam significados. (MOÇO, 2008, p.48-49). 81 Nesse breve levantamento de leituras críticas sobre a produção de Machado de Assis, textos especializadas pela academia ou acessível pelas revistas, fica patente a variabilidade de tratamento interpretativo que a obra extremamente rica em significado permite. Torna-se evidente a necessidade de um pacto de leitura entre leitores e obra para o desvendamento desta produção literária. Neste sentido, os primeiros buscariam, por meio de arsenais teóricos distintos, estabelecer um diálogo possível e a segunda concederia estratégias específicas de sedução na dicotomia cognição/sensibilidade que provoca a revelação não só do texto fechado/obra, mas do texto aberto/homem/mundo. Enfim, é um convite sem medo a um Machado mostrado a partir de várias nuanças, hábil contador de histórias e construtor de envolventes estratégias narrativas, de escrita elegante e que abre espaços diversos para o leitor, num movimento constante de contar, encantar e desencantar, sempre a mostrar a natureza do homem em suas variadas possibilidades. 2.1.1- A literatura machadiana: entre contos Da vasta produção machadiana, o conto recebe um tratamento estilístico que o torna uma experiência ímpar de leitura em todos os tempos. Juntamente com a crônica, tornou-se um espaço de experimentações do escritor, até o encontro com um estilo ficcional inconfundível, que se expande nos romances a partir de 1880, conforme pontua Sonia Brayner (1979, p.65): Se a crônica permite a Machado um exercício variado e constante do discurso na perspectiva de um narrador (no caso, reconhecidamente o autor, que lhe imprime as características próprias do seu relatar), o conto lhe dará a oportunidade de explorar outros ângulos e categorias importantes nesta sua renovação da arte literária. No ensaio de 1873, intitulado “Instinto de nacionalidade” o próprio Machado de Assis situa o ponto de vista acerca dessa produção, caracterizando-a como “[...] gênero difícil, a despeito da aparente facilidade, e [...] essa mesma aparência lhe faz mal, afastando-se dele os escritores, e não dando-lhe, [...], o público toda a atenção de que ele é muitas vezes credor” (ASSIS, 1997, p. 24) Para Machado de Assis, muito mais que um laboratório de experimentação literária, o conto delineia o contato com um gênero que conquistará mais espaço e 82 significação na modernidade. E para contribuir com o alcance desse propósito, Machado de Assis destaca a necessidade da qualidade, pois se trata de um texto curto que não deve ser enfadonho, ao contrário, deve se apresentar como sedutor e inquietante. No encalço da experimentação, conforme Brayner (1981), as primeiras recriações machadianas, publicadas até 1880 não vão constituir as produções tidas como grandiosas, verdadeiras referências do gênero (Contos Fluminenses, de 1870, e Histórias da meia-noite, de 1873). Tais produções constituem-se como narrativas longas e subdivididas em partes, aproximando-se das novelas, gênero com bastante aceitação popular. Não por acaso, constroem-se enredos carregados de teatralidade romântica, com tramas amorosas convencionalizadas em que se entrançam histórias de namoros, encontros, desencontros, noivados atados e desatados, adultérios possíveis, enfim, envolvimentos condenados pelo olhar do Machado de Assis conservador e moralista. Procede-se à ilustração de tipos sociais e perfis recorrentes na sociedade aristocrático-burguesa da segunda metade do século XIX. Para a pesquisadora (1981, p.9), nessas primeiras produções, Machado “[...] é o retratista da sociedade carioca na segunda metade do século XIX [pois] a população de seus contos é retirada de uma classe média urbana surpreendida na construção de sua imagem”. Nesta, fica patente a desatinada, vazia e pretensiosa imitação estrangeira, ridicularizada com o bom humor de um narrador sempre a conduzir a atenção do leitor. Na produção inicial, nota-se a tendência de adesão a estratégias narrativas que visam convidar o leitor a se envolver com a ideia de presentificação do ato de narrar, isto é, o leitor é induzido a integrar a história no momento em que ele, como expectador, passa a conhecer os fatos e com eles começa a interagir. Retomando-se as estratégias anunciadas, delineiam-se aqui os três métodos: o dramático, o amplo uso do diálogo e o ponto de vista em primeira pessoa. Nesse momento, segundo Brayner (1981, p.11), uma atenção especial será dispensada ao receptor, agora despertado e atiçado, pois “[...] ativar o leitor não permitindo sua passividade é uma tarefa insistente na pretensão de trazer à tona um questionamento central”, isto é, o leitor, mais do que nunca, se verá envolvido nas indagações existenciais da trama. Esta estratégia que se identifica com a presença determinante de nuanças, ganhará mais consistência e mais propriedade na medida em que a maturação da escrita também se for configurando. 83 Alfredo Bosi (2003), no ensaio “A máscara e a fenda”, elabora um estudo detalhado acerca da ideologia implícita no texto machadiano, o que se torna perceptível já nestas produções iniciais. Para ele, Machado é o contista do mascaramento social: Machado foi também um escritor afeito às práticas de estilo de revistas familiares do tempo, principalmente nas décadas de 1860 e 70. O jovem contista exercia-se na convenção estilística das leitoras de folhetins, em que os chavões idealizantes mascaravam uma conduta de classe perfeitamente utilitária. (BOSI, 2003, p.75). Segundo esse pesquisador, nos Contos fluminenses e Histórias da meia-noite, “[...] a maior angústia oculta ou patente de certas personagens é determinada pelo horizonte do status; horizonte que ora se aproxima, ora se furta à mira do sujeito que vive uma condição fundamental de carência” (BOSI, 2003, p.75). O suprimento dela ocorreria pela obtenção de um patrimônio em herança de parente próximo ou um protetor ou pelo matrimônio com um parceiro mais abonado. Em ambos os casos, tornase evidente a máscara no desejante, a qual se concretizaria nas ações com vistas à obtenção do benefício, apresentando-se as relações posteriores não raramente marcadas pela ingratidão ou traição. Esse mascaramento social identificado com o propósito de ascensão é retratado nos contos e em alguns romances desta fase. O desejo de alçar posições tidas como superiores costuma ser rotulado como um traço autobiográfico, sendo o escritor comumente olhado como alguém que realiza a migração de classe social, na leitura psicossocial empreendida por Lúcia Miguel Pereira. Com esse perfil, Bosi não vê Machado como um romântico convicto, mas, sobretudo, como um autor que nutre um gosto “sapiencial” pela fábula, construindo nas entrelinhas uma lição para o leitor. A necessidade constante da máscara é uma relativa novidade para a ficção literária da época, o que ocorre, talvez por intuição. A prática articulada com uma rendição franca à consciência e à crítica só ocorrerá posteriormente, no momento do amadurecimento de sua obra. John Gledson, em “O machete e o violoncelo”, ensaio que compõe a obra Por um novo Machado de Assis (2006), observa que a produção de contos de Machado de Assis fez parte de toda a vida do escritor; desde o início, em 1858, até o ano anterior de sua morte, 1907. O gênero é considerado espaço de constantes reelaborações de estilo e de temáticas. Apesar de não gozar da mesma popularidade dos romances, é, conforme o 84 crítico, o gênero mais condizente com o gênio do escritor. Segundo Gledson (2006, p.35): Machado gosta muito de anedotas, e de focalizar detalhes aparentemente triviais, mas que lançam uma luz inesperada sobre assuntos “importantes”; orgulha-se até de sua miopia. Gosta de autores que contam fábulas curtas, com uma moralidade irônica – Esopo, La Fontaine, Swift –, ou que escolhe gêneros mistos, metade ensaio, metade ficção, como Charles Lamb ou Tomas Carlyle. E os próprios romances não seguem as convenções do realismo do século XIX, contendo episódios que em si poderiam ser contos [...]. Para Gledson, os contos produzidos até 1880 se destacam mais pela compreensão da evolução estilística do contista que pela qualidade. Ele observa que a circulação de O Jornal das Famílias, veículo em que foi publicada a maioria dos contos desta fase, tornou-se determinante para o tema e para a forma do texto nesse período. Eram narrativas mais longas que a média, publicadas em fascículos, destinadas a um público feminino de classe média, e abordavam temas como o amor e o casamento. Vale ressaltar que a mulher, sua vida, desamores e frustrações continuariam no leque de temáticas que se ampliariam, merecendo tratamento crítico. No final da década de 70 do século XIX, vivendo a “crise dos quarenta anos”, o autor já apresentava indícios de preocupação com a configuração da própria obra, no que tange à atitude, ao tom e ao gênero a adotar. É o momento em que se aprofundam o humor e a ironia chocantes, como se cada conto passasse a exibir uma forma própria: [...] é que o poder de prosa de Machado ganha uma intensidade e uma confiança inéditas. É como se, de fato, tivesse dominado uma série de efeitos novos, uma música nova. Temos até a impressão de que esse poder se enquadra menos sem limites de gênero [...] É como se ele tivesse que criar uma forma própria para cada conto: diálogo, pastiche, sátira, contos longos, médios, curtos. A prosa também se torna multidimensional, em grande parte por conta do humor. (GLEDSON, 2006, p.47). Assim, para os leitores especializados, os melhores contos de Machado de Assis são os publicados nas coletâneas que, a partir de 1882, foram reunidas nas antologias Papéis Avulsos (1882), Histórias sem data (1884), Várias Histórias (1897), Páginas Recolhidas (1899) e Relíquias da Casa Velha (1906). Brayner vê a elaboração dos contos dessa fase como demonstração do alto nível de experimentação de Machado de Assis, o qual acredita na autonomia e nas 85 possibilidades estéticas, retratadas na variedade de estratégias narrativas. Através delas se constatam a mescla de tipos e hábitos socioculturais do Rio de Janeiro da época e também as generalizações de conceitos e observações voltados para a natureza humana. Enfim, tais textos desembocam no teatro do mundo “[...] no qual os homens passeiam seus vícios mais do que suas possíveis virtudes” (BRAYNER, 2006, p.12). Nessas produções, há uma tendência ao conto relato de observação e de caráter psicológico, cuja personagem central narra as próprias percepções e justifica seus comportamentos, ou ocorre a onisciência do ponto de vista que permite a perscrutação dos recantos da alma humana por parte do Outro. Desenha-se um narrador que capta as mínimas variações e se mostra sempre atento às transformações dos valores da consciência. Brayner percebe, nesse momento da produção machadiana, não só um traço distintivo entre o ser e o parecer, como também o atrelamento do homem à opinião como tema geral da relatividade, identificada com a presença da dupla face. É perceptível a estratégia do mascaramento social nas atitudes convencionalizadas que ostentam a identidade e a diferença em um mesmo indivíduo, experiência esta tomada como faceta da mutabilidade interna e contraditória do ser humano. Frente ao amadurecimento da escrita machadiana, Bosi continua a perceber o mascaramento social como tema da maturação estilística, que se inscreve na forma sinuosa dos contos, e que acaba por esconder a contradição entre a aparência e a essência, entre a máscara e o desejo, entre o feito e o dito. Mesmo reconhecendo esse antagonismo, o escritor parece conformar-se com a capitulação do sujeito à aparência dominante na sociedade. São as produções escritas a partir dos quarenta anos, rascunhos de teorias que revelam o sentido das relações sociais mais comuns que atingem a estrutura profunda das instituições. Denominado por Bosi de conto-teoria, por apresentar, através das marcas de humor, a submissão do ser humano, “alma frouxa e veleitária” às formas instituídas, aquelas narrativas têm como verdade fundante a relação de dependência do mundo interior para com a conveniência do mais forte. Essa postura se explica muito bem numa sociedade marcada pela desigualdade: a necessidade de se proteger e vencer na vida – mola universal – só se torna saciada pela alienação do sujeito ante a aparência dominante. Tece-se, no texto, uma crítica silenciosa que tem como alvo o processo, devendo o leitor manter um olhar astuto para 86 percebê-la. São exemplos marcantes os contos “O alienista”, “A sereníssima república”, “O segredo de Bonzo”, “O espelho”. Através da produção machadiana, Bosi (2003, p.104) vê o homem com uma certeza: As diferenças entre as pessoas, embora sensíveis a olho nu, afundam raízes no solo comum dos instintos, que quer o prazer, e da sociedade, que persegue o interesse. E prazer e interesse responderiam à pergunta: o que está atrás da máscara? De qualquer modo, são tão matizados os graus e os momentos do mascaramento e tão várias, se não infinitas, as combinações tecidas pelo acaso, que o modo próprio de ser de cada pessoa parecerá ainda e sempre um enigma. E assim, nos contos-retratos como “D. Benedita”, “Verba Testamentária”, “Cantigas de Esponsais”, Machado desperta no leitor a certeza de que “[...] só há consistência no desempenho do papel social: aquém da cena pública a alma humana é dúbia e veleitária” (BOSI, 2003, p.102), o que confirma a inconsistência do sujeito, que experimenta a convivência da singularidade com o universal dos interesses e instintos. Muito mais que um laboratório para aperfeiçoamento do estilo, Antonio Candido (2002), vê na obra machadiana, especialmente nos contos, traços precursores de tendências da contemporaneidade: discussões sobre identidade, fragilidades humanas, mundo das aparências, tênues limites entre a realidade e a fantasia, processos de manipulação e de uso do homem pelo homem Paul Dixon, pesquisador norte-americano, em Os contos de Machado de Assismais do que sonha a filosofia (1992), apresenta um trabalho mais organizado sobre os contos do primeiro contista brasileiro, apontando para a necessidade de estudos deste gênero literário, tão relegado ao esquecimento. O crítico justifica que tal ausência é compreendida “[...] porque em muitos aspectos os contos machadianos são uma glorificação do estranho e do inesperado – das singulares ocorrências, dos lapsos e das excursões milagrosas [sendo que] [...] este reino maravilhoso está dentro de nós” (DIXON, 1992, p.10). O estudo de Dixon contempla as peças literárias que fazem parte do conjunto de contos produzidos a partir de 1880 nos quais o autor posiciona-se contrariamente não só ao realismo documental, mas também ao objetivismo e ao positivismo, princípios cientificistas que dominavam o ambiente intelectual da época. O crítico norte-americano (1992, p.14) observa que “[...] o discurso machadiano satirizará o pensamento 87 enciclopédico, destruirá as hierarquias, glorificará a alinearidade e o subjetivismo, e proclamará as verdades relativas”. Numa tentativa de ironizar o positivismo, o pesquisador nos indica “leis” e padrões de interpretação dos contos machadianos. De imediato, ele afirma que uma tentativa de estabelecimento de “leis” para interpretação da obra machadiana – lembrança irônica dos postulados e paradigmas do positivismo – se torna inconcebível, visto que Machado de Assis opera, na verdade com “antileis” e, neste sentido, a única “lei” vigente em sua ficção é a dos “caminhos oblíquos” da ambiguidade. Entretanto essas leituras críticas, lideradas por especialistas do mundo acadêmico – Brayner, Bosi, Candido, Paul Dixon, Gledson e outros aqui não trabalhados – tornam-se não apreciáveis por todo leitor. Ou por serem construídas numa linguagem empolada, voltada principalmente para o mundo acadêmico, ou por só reverberarem entre aqueles que abraçam as filiações teóricas dos especialistas. O fato é que possibilidades de desvendamento dos contos não são exploradas como merecem. Algumas revistas, uma variante mais acessível pela linguagem, também apresentam leituras críticas dos contos nos quais são possíveis leituras mais perspicazes da sociedade, além de possibilitarem mergulhos consistentes no caráter polivalente da obra do escritor. Vicente Luís de Castro Pereira (s/d) observa: Os contos papéis avulsos (1882) promovem uma revolução na narrativa brasileira comparável à operada pelo romance Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Após os livros Contos Fluminenses (1870) e Histórias da Meia-Noite (1873), o conto machadiano atinge o grau máximo da sátira dos costumes, do desvelamento de aparências, da crua exposição dos vínculos de exploração entre os homens e da denúncia da precariedade dos comportamentos individuais que espelham a hipocrisia da própria coletividade. Na Nova Escola, Anderson Moço (2008, p.50) expressa que a iniciação do pequeno leitor da contemporaneidade nos textos machadianos deve se dá pelos contos, observando peculiaridades próprias da idade, como descreve: Nos ciclos iniciais, o ideal é começar a trabalhar Machado pelos contos, compreensíveis por leitores de qualquer idade e com história bem próxima da realidade infantil. “Para adquirir o gosto pela leitura é fundamental que a escolha dos títulos seja adequada à fase do desenvolvimento do aluno” recomenda Cláudio Bazzoni, selecionador do Prêmio Victor Civita educador nota 10. O que não quer dizer que 88 devam ser apresentados exemplos simples. É saudável haver um certo estranhamento e até um descontentamento com as leituras, pois um pouco de dificuldade ajuda a formar a capacidade leitora. “Ao longo do ano, opções mais fáceis são intercaladas às mais refinadas para que cada um forme sua opinião sobre as histórias e com isso se posicione criticamente frente a elas”, recomenda Ceccantini, da Unesp. Percebe-se, nos depoimentos, o destaque tanto para o estilo como para o efeito que este provoca nas mais variadas temáticas e leituras dos contos. No texto machadiano, mesclam-se o cognoscível e a emotividade, sem deixar de provocar alguma forma de crítica no leitor. Neste sentido, Antonio Candido (2004, p.32) observa: [...] não procuremos na sua obra uma coleção de apólogos nem uma galeria de tipos singulares. Procuremos as situações ficcionais que ele inventou. Tanto aquelas onde os destinos e acontecimentos se organizam segundo uma espécie de encantamento gratuito, quanto as outras, ricas de significado em sua aparente simplicidade, manifestando com uma enganadora neutralidade de tom, os conflitos essenciais do homem consigo mesmo, com os outros homens, com as classes e os grupos. A visão resultante é poderosa [...]. Aqui, Candido acentua a necessidade de o leitor não se perder com o afastamento que os excessos das teorias acadêmicas podem promover devido as suas abordagens sofisticadas em relação ao texto machadiano. A condição primaz que o referido pesquisador pontua como determinante para melhor se chegar à obra machadiana, reside não numa leitura pedante e tecnicizada, mas naquela em que o íntimo e as percepções do leitor possam dar vazão a tudo que esse texto desperta. 2.1.2- Um olhar sobre “A Causa secreta” O conto “A causa secreta” tem foco específico por ser objeto de apreciação na atividade investigativa realizada com um grupo de leitores. Tal escolha procedeu por se tratar de um texto que circula nos manuais didáticos com muita frequência e ser extremamente instigante muito mais pelo não dito. Torna-se importante continuar situando os olhares provenientes da crítica acadêmica e das revistas de cunho didático em relação a este conto. 89 “A Causa secreta” faz parte de Várias histórias, coletânea publicada em 1897. Há certo amadurecimento do escritor diante do gênero literário, o que leva Gledson (2006, p.68) a afirmar sobre este momento da escrita machadiana: “[...] não há dúvida de que a tensão da prosa sofre um relaxamento. Um indício curioso, quer-me parecer, é que esses contos quase não precisam de notas. Aqui tudo está claro como água”. Essa coletânea é uma das mais volumosas como o próprio Machado de Assis (1964, p.00) adverte na Apresentação, justificando que “[...] o tamanho não é o que faz mal a este gênero de histórias, é naturalmente a qualidade”. Nessa antologia, encontramos contos renomados e muito referendados, que também integram os livros didáticos. São eles: “A Cartomante”, “Entre santos”, “Uns Braços”, “Um Homem célebre”, “A Desejada das gentes”, “A Causa secreta”, “Trio em lá menor”, “O enfermeiro”, “O Diplomático”, “Mariana”, “Conto da escola”, “Um apólogo”, “D. Paula”, “Viver”. O conto “A Causa Secreta” traz a história de Fortunato, empresário de quarenta anos, casado com Maria Luiza, mulher frágil e discreta. O empresário desenvolve uma relação de amizade e posteriormente vem a compor uma sociedade numa casa de saúde com Garcia, jovem recém-formado em Medicina. O primeiro encontro de Garcia e Fortunato ocorre quando o empresário acompanha, até a pensão onde mora o médico, um homem atacado por capoeiras. Travam-se contatos de que resulta a sociedade na clínica. Garcia vem a se apaixonar pela esposa do sócio e os contatos permanentes lhe possibilitam perceber o comportamento estranho do esposo de sua amada. Qual seria a causa secreta? A princípio, poderia ser o comportamento sádico de Fortunato, o que se revela no prazer com que ele vê o sofrimento do outro – no caso, o homem da pensão atacado pelos desordeiros. O narrador mostra também a satisfação de Fortunato ao desferir chutes em animais nas ruas, bem como há certo gozo na sua excessiva dedicação aos doentes da clínica. Há prazer mórbido nas experiências de anatomia e fisiologia realizadas com animais na casa de saúde. É o que se observa claramente na tortura perpetrada contra um rato na biblioteca e, por fim, o inconfundível e excitante prazer ante a dor de Garcia diante da amada Maria Luiza morta. Mas será essa a causa secreta do conto, investigação que o próprio título do texto nos instiga realizar? Será que existe apenas uma causa secreta? Por que o interesse de Garcia para com Fortunato, o que se observa mesmo antes de o médico conhecê-lo pessoalmente e com ele passar a conviver, a ponto de já observá-lo demoradamente 90 quando o via por acaso? Por que o silêncio de Maria Luiza, o que aparece como indício do terror que o marido lhe imprime? Como se explica o desconhecimento da esposa das ações de bondade que todos viam nos atos de Fortunato? Vale retomar uma citação de Afrânio Coutinho (1990, p.126) sobre Machado de Assis, escritor que qualifica a desconfiança de modo muito próprio: Para ele os homens só são capazes de vícios, ambições, sentimentos contraditórios, perversidades, ingratidões, inconstância, e, na sua obra, assistimos à procissão de todos os vícios e defeitos morais, más qualidades e pecados, que inteiramente dominam os homens em sua vida individual e social. Há sempre uma causa secreta, que é preciso pesquisar, nos atos humanos, e esse é um trabalho constante do romancista. Deve-se acrescentar que Machado transfere também para o leitor a pesquisa e a investigação dos atos humanos, quando o instiga a destrinchar o simples que não é tão simples. E, nesta direção, é como se ele abrisse um grande leque de possibilidades de leituras da condição humana. Gledson (2006) vê em Machado uma tendência a construir personagens dotados de satisfações sádicas diante da dor, aí disfarçadas pela obstinação científica ou pela suposta generosidade do ato de caridade. O prazer de Fortunato diante da dor alheia assemelha-se ao prazer estético vivenciado por uma pessoa defronte de um objeto artístico. Assim, o melodrama que a personagem assiste “cozido a facadas”, a tortura do rato, entre outros, provocam-lhe um prazer quieto e profundo, similar ao que a audição de uma música ou a visão de uma bela estátua daria a um apreciador das artes. Para o pesquisador, isso também pode ser traduzido como a desconfiança permanente em relação à ciência e à objetividade, que podem camuflar motivos bastante sórdidos. Candido (2004) vê em “A Causa Secreta” um paradigma da relação social construída a partir de normas e padrões que disfarçam e escondem a ação devoradora do homem pelo próprio homem. Assim se expressa o crítico (2004, p.31): [...] é interessante comparar a anormalidade essencial de Fortunato [...] com a sua perfeita normalidade social de proprietário abastado e sóbrio, que vive de rendas e do respeito coletivo. O senso machadiano dos sigilos da alma se articula em muitos casos com a compreensão igualmente profunda das estruturas sociais. 91 Para Dixon (1992), o olhar do comportamento anormal não está apenas em Fortunato, mas também em Garcia. O crítico os vê como duplos que existem numa condição de implicação mútua, pois “[...] Garcia possui as mesmas qualidades de Fortunato; a maneira com que suas qualidades são manifestadas é que aparece num nível mais aceito para a sociedade. Fortunato disseca os corpos e Garcia disseca as almas [...]” (DIXON, 1992, p.62). A descrição da cena no início da narrativa – os três personagens em posições estáticas – juntamente com o título, de certa forma, já indiciam a ambiguidade com que se apresentarão não só Fortunato, mas também Garcia e Luiza. Para Ariadne Olimpo (s/d) contos machadianos como A cartomante e A causa secreta “[...] são exemplos de como os valores da consciência humana podem modificar-se segundo seus interesses.” ( Discutindo Literatura Especial, p.43). Em A causa secreta ocorre a relativização de valores pela consciência em vários momentos, segundo Ariadne. Há a mobilização da consciência entre a ética e o interesse quando Garcia, que já observava a fragilidade da saúde de Maria Luisa, converte a possibilidade de amor por ela em certeza e passa a acompanhá-la mais de perto. Outro momento ocorre na tortura do rato: mesmo com repugnância diante do ato executado por Fortunato, o jovem médico sente prazer em observá-lo, mantendo-se como espectador à distância para alimentar a sua curiosidade. Trata-se de um conto inquietante, que não se revela como um todo, apesar da aparente simplicidade. Há o convite a um mergulho na essência dos fatos e das personagens, o que nos possibilitaria uma sondagem da natureza humana. O escritor Machado de Assis convoca a participação do leitor que se aventura na leitura do conto, dando-lhe uma posição ativa, mediante os questionamentos provocados, as dúvidas suscitadas e as contradições promovidas. E faz essa convocação não por meio de textos de leituras correntes, mas através de narrativas com estruturas sofisticadas, o que desafia o leitor e o enreda nas arestas do próprio texto. Ler Machado de Assis não representa o encontro com uma suposta mensagem do texto ou com as conformações aderidas a filiações teóricas; trata-se, na verdade, de um mergulho na condição do homem no tempo-espaço da sua trajetória. Entender esse texto em diálogo constante requer a existência de um leitor habilidoso. Até que ponto os leitores do século XXI, não familiarizados com teorias que provocam e desencadeiam discussões sofisticadas, tão próprias da academia, podem também ter acesso ao 92 manancial do texto machadiano? As produções das revistas contemporâneas, de linguagem mais direta, dão conta de expor tudo que estes textos podem oferecer? É por meio do contato direto com a obra, o que vale dizer é por intermédio do exercício da autonomia de leitura que o leitor consegue um encontro mais fecundo com o texto machadiano. Na contemporaneidade, esse encontro se concretiza também pela ação do diálogo da obra literária com as releituras adaptadas e empreendidas pelo cinema, TV e quadrinhos. Torna-se desafiador compreender como as quadrinizações trabalham o texto machadiano, para muitos apenas possibilidade de maior acesso a obra machadiana, para outros apenas mais um produto cultural de consumo rentável. E ainda: investigar como o leitor reage ante estas novas possibilidades de texto e como interage com elas. 2.2. A literatura machadiana: entre requadros A literatura, como também outras artes, na contemporaneidade vive num momento no qual produtos culturais distintos dialogam, o que faz surgir novos espaços de transmutação de signos, que vislumbra atingir novos apreciadores. A música, o cinema, os quadrinhos, a minissérie, a novela, o desenho animado são artes/linguagens que mais aderem a esta inter-relação de produtos culturais híbridos, típica do mundo globalizado, no qual as culturas até para subsistir buscam romper fronteiras. Dentro da perspectiva da literatura em quadrinhos como objeto cultural híbrido, é preponderante averiguar de que forma se processa a tradução do texto literário machadiano com sua linguagem específica e ambígua, aberta a diversas leituras, para esta outra linguagem – dos quadrinhos. É importante salientar que os textos que se entrecruzam para a composição da literatura em quadrinho têm papel salutar no surgimento deste objeto cultural. São os roteiristas e ilustradores, na condição de leitores com olhares mais direcionados à recriação, quem seleciona e ressignifica o texto base em linguagem de quadrinhos, produto da percepção e significação, isto é, da re-elaboração do texto literário. A literatura machadiana foi alvo de diferentes olhares e tratamentos estilísticos nas quadrinizações que se encontram no mercado. Os romances e contos aguçaram a imaginação e a criatividade de vários ilustradores que, em parceria com roteiristas 93 (quando a dupla função é exercida por pessoas distintas), apresentaram leituras que muito reverberaram o potencial da escrita machadiana. Dentre os variados trabalhos destacam-se as duas traduções do romance que definitivamente instauraram o estilo de escrita de Machado de Assis – Memórias Póstumas de Brás Cubas de 1881. Trata-se da história do burguês Brás Cubas, que teve uma vida ociosa, aos sabores de falidos projetos políticos, profissionais e amorosos, fatos estes contados de forma irônica e sarcástica pelo próprio personagem após sua morte, do além-vida. O livro é ressignificado tanto pela Editora Escala Educacional em 2008 e pela Desiderata em 2010. A tradução da Escala Educacional, que recebe o mesmo título da obra, transmuta as aproximadamente 200 páginas do texto-base em um texto quadrinístico de quarenta páginas com roteiro e ilustração de Sebastião Seabra. Figura 44: Memórias Póstumas de Brás Cubas Escala Educacional, capa 1 Figura 45: Memórias Póstumas de Brás Cubas Escala Educacional, pág. 1 Figura 46: Memórias Póstumas de Brás Cubas Escala Educacional, pág. 5 A capa da quadrinização (figura 44) destaca uma série de requadros que apresentam personagens de destaque (Quincas Borba, Marcela e Brás Cubas) e uma cena da história (reencontro de Brás e Quincas já adultos). Observa-se que só traz a inscrição do nome do autor da obra literária. Na primeira página (figura 45), encontram-se os mesmos requadros (das personagens) na parte superior e as cenas do 94 pai levando Brás da casa de Marcela à força, a solidão da viagem para Europa e novamente o encontro já retratado na capa. No centro, a especificação do trabalho, o título da história, o nome do autor e por fim do artista responsável pelo trabalho, Sebastião Seabra. A não-identificação do quadrinista na capa 1 pode ser vista como a supremacia da obra literária no texto híbrido. Tal percepção se fortalece quando se parte para a leitura da história, na qual a roteirização preserva o texto-base que se apresenta mais sintético nas legendas e falas. O início da história traz a marca da liberdade da recriação oferecida pelo signo estético: o espírito de Brás Cubas desencarna no caixão, presencia seu velório e sepultamento, para em seguida rememorar sua vida (figura 46). O personagem-narrador alterna o lugar de onde conta: ora do além-vida, lugar representado por requadros vazios em uma única cor, geralmente com a personagem em perspectiva próxima, em close-up (fig. 47 e 49) ou meio-corpo (48) , dirigindo o olhar para um suposto ouvinte como quem busca diálogo; ou voltando à cena do passado, dela fazendo parte como espectro e indicando os acontecimentos como analista cônscio de seus comentários (fig.50, 51 e 52). Figura 47: Memórias Póstumas de Brás Cubas Escala Educacional,pág. 13 Figura 48: Memórias Póstumas de Brás Cubas Figura 49: Memórias Póstumas de Brás Cubas Escala Educacional, pág. 36 Escala Educacional, pág. 36 95 Figura 50: Memórias Póstumas de Brás Cubas Escala Educacional, pág. 11 Figura 51: Memórias Póstumas de Brás Cubas Escala Educacional. pág. 19 Figura 52: Memórias Póstumas de Brás Cubas Escala Educacional, pág. 29 Figura 53: Memórias Póstumas de Brás Cubas Escala Educacional, pág. 44 Apenas nos requadros finais (figura 53) fica clara a mudança de espaço. Do ambiente noturno, com aspecto soturno de fantasma, Brás, por meio de pilérias de feições jocosas, parte para o além-vida (representado em requadro negro) como se tivesse quite com a vida, sem nada deixar para traz conforme mostram as expressões faciais e posturas corporais. Outro recurso usado pelo quadrinista é a bricolagem entre desenhos com traços simples e marcantes (em cores e tons suaves) com fotos de ambientes em cena ao fundo, o que dá à história uma nuança realista, como se percebe nas figuras que se seguem: 96 Figura 54: Memórias Póstumas de Brás Cubas Figura 55: Memórias Póstumas de Brás Cubas Escala Educacional, pág. 23 Escala Educacional, pág. 39 A Editora Desiderata, por sua vez, intitula a série de obras literárias quadrinizadas de Grandes Clássicos da Graphic Novel, o que já indica certa autonomia da obra produzida em relação ao texto base. Isto é firmado nas indicações das autorias (figura 48): obra de Machado de Assis recriada por João Batista Melado & Wellinton Srbek. Trata-se de uma quadrinização de 85 páginas em desenhos bem definidos, que busca retratar a época de forma bem humorada. Já na capa 1 (figura 56) e capa 2 (figura 57) são apresentadas as personagens Brás Cubas, Virgília e Quincas Borba, com um destaque especial para Brás (capafrente) como um mago da criação com as palavras pois, de sua mão iluminada, brotam letras que constituíram as palavras da história (referência à forma inusitada de contar – um defunto em sua pós-vida, utilizando rememoração em enunciações ácidas sobre os seus contemporâneos). É o que se pode observar nas figuras que se seguem: 97 Figura 56: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, capa 1 Figura 57: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, capa 2 O texto de apresentação da quadrinização, nas primeiras páginas, de autoria de Moacyr Scliar, constitui um depoimento em defesa dos textos imagéticos, como a literatura em quadrinhos. Para o escritor, todo leitor traduz o verbal em imagens e destaca a tradução criativa dos ilustradores: [...] todo leitor traduz, quase que automaticamente, as palavras que está lendo no texto em imagens. Visualização é parte da fantasia, como mostram os sonhos e devaneios. Mas os grandes ilustradores vão mais além e, a partir da tarefa que lhe é delegada, criam obras de arte... (p.7) O referido escritor destaca que o aspecto inovador e revolucionário da obra literária é uma petição para ser quadrinizada. Ele lembra que o trabalho imagético já havia acontecido em três versões cinematográficas (com Fernando Cony – 1967, Julio Bressane – 1985 e André Klotzel – 2001), o que indica o quanto fascinante é a obra. Defende, em seu ponto de vista, o objetivo da literatura em quadrinhos, que é “colocar ao público, sobretudo o jovem, a obra de Machado de forma atraente, acessível”(p.9). A quadrinização em questão é iniciada com uma página negra, simulando o vazio, o nada (figura 58) e na página seguinte a ilustração de raízes entrelaçadas com vermes e a dedicatória da obra no centro da página, nos reporta a idéia da pós-morte (figura 59). 98 Figura 58: Memórias Póstumas de Brás Cubas Figura 59: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pág. 8 Desiderata, pág. 9 Na página 10 (figura 60) a personagem-narradora explica a motivação e a pretensão de sua narração, de forma direta, como se estivesse a dialogar com o leitor, o que podemos perceber nas figuras da página seguinte: Figura 60: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pág.10 Na quadrinização, durante a enunciação, o além-vida é representado em requadros em tom azul celeste (fig. 60), com pontos brancos, o que nos pode insinuar o céu, o infinito. Braz mostra nas feições a segurança no que conta e um ar de certa superioridade, por estar em lugar onde não pode ser atingindo por ninguém, diante das revelações e avaliações das pessoas com quem conviveu. 99 A partir daí o texto quadrinístico é subdividido em capítulos, em conformidade com o texto-base. Em tais capítulos se observa um trabalho de síntese acurada, efetuado pelo roteirista que além de condensar muito bem cada parte, traveste o texto de uma linguagem mais corrente na contemporaneidade. O narrador passa a contar os fatos de forma distanciada, sem se apresentar dentro da história, postando-se fora do alcance dos efeitos de sua narração irônica. Assim, em vários momentos, interrompe-se a narrativa quadrinística e aparece o narrador-personagem no plano da enunciação em posturas corporais de descontração e descaso, o que enfatiza seu tom zombateiro, como no caso com Marcela (figura 61); em posição de descanso e sonho (a possibilidade da paternidade, figura 62); em posição de cabeça para baixo (sonhos desmoronados, figura 63). Figura 61: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pág. 31 Figura 62: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pág . 71 Figura 63: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pág . 74 Outra estratégia utilizada pelo quadrinista para materializar a qualidade do signo estético literário é também metaforizar o signo icônico. As duas faces da ideia 100 citada no verbal (figura 58) são materializadas nos requadros com o rosto do próprio narrador em posições opostas nos quadrinhos paralelos para insinuar o conteúdo manifesto das ideias – filantropia e lucro. Figura 64: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pág. 13 Uma situação de habilidade narrativa na quadrinização ocorre quando Brás pára o enunciado de apresentação de um amor adolescente e posta-se entre dois requadros (figura 64) : no primeiro requadro, a legenda sugere uma situação de mistério com as reticências, que é intensificado com a utilização do recurso da sombra da dama para ocultá-la; em seguida aparece o narrador, no plano da enunciação (pós-vida), a interromper a apresentação da identidade da dama com um comentário irônico; por fim é revelada a imagem da dama. Nesta parte parece que o narrador-personagem brinca com seu narratário. Figura 65: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pág. 29 Na parte 27 da quadrinização (figura 66) que se refere ao capítulo das negativas, no qual o narrador faz a avaliação de sua vida, o quadrinista utiliza do recurso de não mostrar o narrador por completo. Cada requadro apresenta uma parte do corpo ( e meio corpo: metade do rosto, metade do torax), insinuando a incompletude de suas ações em 101 vida. É uma situação de transposição criativa da condição de inacabamento das ações da personagem Brás Cubas, que teve uma vida mal aproveitada, por comodismo e falta de objetivos. Figura 66: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pág.85 A última página da quadrinização materializa a última frase do romance “Não tive filhos. Não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria” que é a máxima do pessimismo humano. A materialização deste tom pessimista se dá na própria imagem da personagem Brás, em meio corpo e ar de fracasso, desintegrando-se, desaparecendo no nada, como se pode observar abaixo: Figura 67: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pág. 86 A forma de cada quadrinista traduzir a mesma obra revela como cada um percebe a leitura e o que mais enfatiza no poético, preservando o máximo ou mínimo de informação 102 estética do original. Observemos como Sebastião Seabra (Escala Educacional) e João Batista Melado & Wellinton Srbek (Desiderata) materializam o mesmo episódio da história. Trata-se de “O delírio”, que corresponde a um dos capítulos mais impressionantes da literatura brasileira pelo conjunto de livres associações de imagens descritas em metáforas singulares, produtos do delírio de Brás Cubas no momento em que a pneumonia já se encontrava em estado avançado. A quadrinização da Escala Educacional: Figura 68: Memórias Póstumas de Brás Cubas Escala Educacional, pág.9 Figura 69: Memórias Póstumas de Brás Cubas Escala Educacional, pág.10 Na quadrinização acima, o capítulo O devaneio é traduzido em vinte e quatro requadros, observando-se que algumas imagens sofrem o aumento da informação estética como a referência ao diálogo com Pandora (figura 68) que ganha espaço em nove quadrinhos, além da perspectiva de superioridade quando ela é gigante e Brás um insignificante ponto preto no quinto quadrinho. O desfilar dos séculos é ressignificado em doze requadros (figura 69) com ícones que representam as diferentes épocas (homem das cavernas, hieróglifos, esfinge, cavaleiros, Cristo crucificado, As Cruzadas, canhões, castelos, descobertas tecnológicas). 103 A quadrinização da Desiderata: Figura 70: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pág.16 Figura 72: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pág.18 Figura 74: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pag. 20 Figura 71: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pág.17 Figura 73 Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pág.19 Figura 75: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pág.21 104 A tradução da Desiderata destaca-se por ilustrações maiores, em traços mais definidos. Explora o capítulo O Devaneio em vinte e sete requadros, centrando-se na viagem com o hipopótamo, ser de aspecto alucinante, à origem dos séculos, que é iconizada em oito requadros (figuras 70 e 71); o encontro com Pandora, cuja imagem apresenta-se feminina, altiva e superior, é apresentado em oito quadrinhos (figuras 72 e 73), neles Brás é apresentado em imagem minúscula, o que indica a própria insignificância; e o desfile dos séculos em dois requadros (primeiro da figura 74 e primeiro da figura 75) no qual a aglomeração das personagens marcantes da história desfilam. O recobrar da consciência se dá na transformação da imagem do hipopótamo (ser imaginário de sua angústia delirante) na figura do gato de estimação. Nota-se neste trabalho a ampliação do signo estético literário no icônico, o que o faz reverbarar mais. Destaca-se também nesta quadrinização o trabalho feito com o capítulo O velho diálogo entre Adão e Eva que a editora Escala Educacional suprime no seu texto quadrinístico. No texto base ele é constituído de pontilhados e sinais de pontuação. Na tradução da Desiderata ele é concretizado nas imagens que sugerem o ato de despir-se do casal, insinuando relações íntimas, como se percebe abaixo: Figura 76: Memórias Póstumas de Brás Cubas Desiderata, pag. 55 Outro romance que foi ressignificado na íntegra foi Dom Casmurro. A quadrinização a que aqui nos reportamos trata-se do trabalho de Ruy Trindade que faz parte do projeto “Transcrever para quadrinhos romances inteiros”, iniciado em 1991, 105 com o objetivo de incentivar a (boa) leitura. No estilo de ilustração bem sugestiva, em Dom Casmurro – em quadrinhos sem cortes (2005) o autor utiliza pontilhados e tracejados para compor as imagens,o que já nos conduz a certa subjetividade de percepção, favorecendo ao olhar global para melhor leitura da imagem. A própria técnica escolhida evoca o clima que se estabelece na leitura do romance: nada se diz por inteiro, trata-se de percepções isoladas nas reminiscências da vida da personagem Bentinho que de convicto apaixonado, passa a descobrir-se marido traído. Para melhor apreender os acontecimentos faz-se necessário um posicionamento imparcial do leitor, ou seja, a leitura global para perceber todas as variantes possíveis da história, como são variáveis os traços e pontilhados para a percepção com acuidade. Já na capa (figura 77) a ilustração acaba por nos conduzir a situação mais corriqueira de leitura de Dom Casmurro: as três personagens principais (Escobar, Capitu e Bentinho) caminham juntas, a sugerir o triângulo amoroso. Na figura 78 o intróito da quadrinização ilustra a designação do título do livro: a explicação para o apelido da personagem Bento que em alguns traços faz lembrar a imagem do próprio escritor Machado de Assis. Figura 77: Dom Casmurro Bureal Gráfica e Editora, capa 1 Figura 78: Dom Camurro Bureal Gráfica e Editora, pág. 1 106 Toda a quadrinização segue a ordem capitular da obra literária, que é traduzido em requadros conforme a percepção do quadrinista. O capítulo A inscrição, um dos mais belos da obra literária, por tratar-se da revelação dos sentimentos adolescentes, ganha a tradução icônica em treze requadros (figura 79 e 80), nos quais do sexto ao décimo terceiro explora-se a metáfora “Estávamos ali com o céu em nossas mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas, uma só, em uma só criatura seráfica.”, a partir da utilização da perspectiva de cima, como se o casal fosse olhado do céu, e o universo semelhante a uma câmara em perspectiva circular, centrasse nos dois. Figura 79: Dom Casmurro Bureal Gráfica e Editora, pág. 31 Figura 80: Dom Casmurro Bureal Gráfica e Editora, pág. 32 O capítulo No céu (figura 81) que nos reporta ao casamento de Bento, carregado de metáfora e citações bíblicas referentes ao amor matrimonial foi tratado de forma intensa pelo artista. Ele explora a perspectiva de cima para enfatizar a grandeza do momento tão esperado do casamento (segundo requadro). A explosão dos sentimentos é traduzido nas metáforas visuais nos requadros 3, 4, 5 e 6: contornos em formas de nuvens para destacar o momento especial do casal nubente e as estrelas e os corações enfatizando a paixão e a luz do encontro consumado dos amantes. São estas formas idôneas, destacadas pelo narrador, que o quadrinista preservou para ilustrar momento tão intenso. 107 Figura 81: Dom Casmurro Bureal Gráfica e Editora, pág 214 No Capítulo Olhos de ressaca (figura 82), o quadrinista utilizou a mesma contenção que o narrador supôs perceber na esposa, no momento da dor da morte do amigo Escobar. Capitu é mostrada no conjunto dos participantes da cena, destacando-se sutilmente como a portadora de um olhar de busca e apreensão. A sensação do narrador é explorada na cena pela constituição da imagem discreta da esposa e a fixação do olhar sobre o corpo de Escobar. Figura 82: Dom Casmurro Bureal Gráfica e Editora, pág. 250 108 O quadrinista, em sua tradução preserva a sua afinidade eletiva à obra, pois “ não se traduz qualquer coisa, mas aquilo que conosco sintoniza como eleição da sensibilidade...” A mesma contenção das metáforas verbais da obra literária é percebida nos signos icônicos escolhidos para traduzir a paixão, e a desconfiança que emana do narrador-personagem do romance Dom Casmurro. Tanto Machado quanto o quadrinista utilizam deste mesmo expediente de reserva,o que provoca no leitor a sensação da dúvida em relação aos fatos. O grupo editorial Autêntica lançou-se, em 2011,aos quadrinhos literários e produziu quadrinizações de obras da literatura mundial, dentre elas Dom Casmurro de Machado de Assis. A versão quadrinizada teve como roteirista Wellington Srbek e desenhos do arte-educador José Aguiar, num trabalho com muitos qualificativos. Nas capas encontramos a motivação da obra, síntese da história: a rememoração da vida de Bentinho, por ele próprio. Na capa 1 (figura 83), o presente da enunciação, Bento maduro, relembrando sua história e escrevendo-a em sua escrivaninha é apresentado em tons mais escuros e cores frias, com exceção do amarelo sobre sua face a qual apresenta expressão de tristeza e dúvida. Atrás de sua poltrona aparecem as principais personagens de sua rememoração, os quais predominam na cena de fundo da capa 1 e tem continuidade na capa 2 (figura 84): Capitu faceira, Bentinho adolescente correndo afoito sobre os longos cabelos da companheira e mais atrás a figura do jovem seminarista Escobar. Tudo em tons de vermelho, ora mais claro, ora mais escuro. Ao fundo, o meio rosto de Capitu, com foco no olhar triste e decepcionado. Figura 83: Dom Casmurro de Machado de Assis Nemo, capa 2 Figura 84: Dom Casmurro de Machado de Assis Nemo, capa 1 109 A quadrinização da Nemo destaca-se pelos traços retos, cores preta e branca e texto condensado, que conserva os principais fatos da história, numa linguagem enxuta. É dividida em vinte partes, em conformidade com os capítulos do romance. Alguns aspectos da transmutação criativa neste trabalho merecem destaque. Na parte dois – Do livro – a materialização da descrição da casa de Bentinho, cópia da casa da mãe, se dá pelo ícone inacabado do prédio ( requadro 1) acompanhado paralelamente pelo requadro 2 da casa concluída.O ato da mão que desenha a casa no primeiro quadrinho é uma alusão à reconstrução da vida, metaforizada na casa materna, pela memória do escritor. A rememoração é uma tentativa de preencher a lacuna que ele próprio se tornou pela grande dúvida que passou a carregar. Esta dúvida afetiva e existencial é concretizada por dois requadros paralelos (3 e 4) : no primeiro ele presente em sua poltrona, no segundo o seu vazio representado pela silhueta branca. Observemos: Figura 85: Dom Casmurro Nemo, pág. 5 A parte 4 – Capitu – trata-se da descoberta de Bentinho do amor pela vizinha. O ilustrador materializa na corrida para o quintal de Capitu o processo de descoberta do sentimento. A magnitude da distância não é física, mas do sentimento recém-descoberto que parece ampliar o espaço percorrido, ora apresentado com requadros em perspectiva 110 distante, simbolização da sensação de liberdade que o sentimento amoroso proporciona, ora em perspectiva próxima, demarcação da subjetivação dos sentimentos agora conscientes pelo jovem, gerando-lhe reflexões, como se nota: Figura 86: Dom Casmurro Nemo, pág. 5 A materialização da descrição das personagens, apresentadas com posturas físicas e feições que intensificam as características, merece atenção: José Dias, postura ereta e imponente revelando certa autoridade; Capitu, expressões faciais de quem está a maquinar ideias atrevidas, semblante de quem tem iniciativa; Dona Gloria, ar de pessoa contrita e firme em seus propósitos. Figura 87: Dom Casmurro Nemo, pág. 10 Figura 88: Dom Casmurro Figura 89: Dom Casmurro Nemo, pág. 17 Nemo, pág. 9 111 A metáfora do olhar de Capitu, muito explorada no romance machadiano, ganha também destaque nesta quadrinização. Ele é focado em muitos momentos e nuanças: na desconfiança de José Dias diante do olhar “oblíquo e dissimulado” (figura 90), no olhar doce, introspectivo e misterioso em busca de saídas para evitar o afastamento do jovem Bentinho (figura 91), no olhar colérico, sofrido, vencido pela consumação da ida do enamorado para o seminário (figura 92), no olhar enigmático e distante, guardado pela lembrança do Casmurro Bento Santiago (figura 93). Muito ficou ocultado, porém insinuado na forma de olhar de Capitu, o que foi bem reforçado pelo icônico. Figura 90: Dom Casmurro Nemo, pág. 20 Figura 92: Dom Casmurro Nemo, pág. 31 Figura 91: Dom Casmurro Nemo, pág. 24 Figura 93: Dom Casmurro Nemo, pág. 77 112 A transposição criativa também merece destaque em outras passagens da quadrinização. O primeiro beijo entre Bentinho e Capitu reverbera o jogo de sedução da cena do penteado e todo o centramento no universo subjetivo dos adolescentes apaixonados nos requadros esvaziados e negros, apenas figurando as faces em posições opostas e o encontro dos lábios para o encaixe perfeito no beijo (figura 94). Figura 94: Dom Casmurro Nemo, pág. 26 A crise de ciúmes de Bentinho quando Capitu acompanha o olhar de um estranho que a admira é materializada em um descontrole dantesco. Este momento é marcado pela angústia e pela raiva do jovem, reforçadas na multiplicação sequenciada de sua imagem, nas lágrimas e expressões de cólera e desespero, no close-up dos traços que intensifica sua ira (boca, olhos e sobrancelhas): Figura 95: Dom Casmurro Nemo, pág. 43 113 A plenitude da realização amorosa dos jovens Bento e Capitu com o casamento é uma página, ao mesmo tempo bela pelo sentimentalismo e sensualidade (casal destro do coração consumando a relação amorosa) e sutil pela crítica subliminar aos interesses que moviam a jovem (necessidade de Capitu de se mostrar aos outros como esposa – casal caminhando pela rua): Figura 96: Dom Casmurro Nemo, pág. 58 Por fim, o recurso utilizado pelo quadrinista para mostrar a semelhança entre o menino Ezequiel e o amigo Escobar: a sombra de um traz o perfil do outro – o menino tinha a sombra de Escobar e Escobar tinha a sombra do menino, o que sugere a semelhança entre ambos em idades diferentes. Tal semelhança encaminha para a desconfiança sobre a paternidade de Ezequiel e suposta traição de Capitu. A partir deste momento a decepção e indiferença domina a alma de Bento e provoca a destruição da sua família: Figura 97: Dom Casmurro Nemo, pág. 70 114 Outra obra de Machado de Assis que merece menção é a novela, ou long short story, O alienista. A história do ilustre médico Simão Bacamarte, seus estudos e teorias sobre a mente humana, nas conjecturas sobre equilíbrio e desequilíbrio coadunando com as conveniências sociais possui uma adaptação para o cinema como Azyllo muito louco (1971), dirigido por Nelson Pereira dos Santos e uma para a TV, realizada pela Rede Globo (1993) com título homônimo a obra literária. Atualmente, dispõe de quatro quadrinizações. A Escala Educacional, a Companhia Editora Nacional, a Ática e a Agir lançaram-se nesta empreitada de tradução intersemiótica desta história emblemática, potencializando nas imagens, o signo estilístico machadiano, na literatura em quadrinhos. O trabalho da Escala Educacional com ilustração e roteiro de Francisco Vilachã e cores de Fernando A. A. Rodrigues preservam todo o texto-base, tanto nas legendas que contam a narração e dominam todo o texto como nos parcos discursos diretos. A capa 1 da quadrinização (figura 98) traz cinco requadros: no centro a imagem do Dr. Simão Bacamarte, destacando seu olhar desconfiado acompanhado diagonalmente da esquerda para direita, por dois requadros que se refere à parte de paisagens; e dois da direita para a esquerda que trazem as personagens da história. A quadrinização já apresenta em sua primeira página um Simão Bacamarte muito bem visto e considerado socialmente, relação materializada pelos olhares e acenos do padre e escrivão da cidade. Ele é um homem que se dedica incansavelmente ao estudo, numa Itaguai colonial com traços arquitetônicos e culturais ingleses, tanto no casario, nas feições urbanas e na vestimenta das personagens (fig.99). Figura 98: O alienista Escala Educacional, capa 1 Figura 99: O alienista Escala Educacional, pág. 3 Figura 100: O alienista Escala Educacional, pág. 52 115 Destaca-se a exploração do signo icônico quando o artista amplia a imagem de Simão materializando o aumento de poder e influência de Bacamarte que se torna maior que a Casa Verde quando recolhe como insanos o amigo, vereador, secretário e presidente da câmara (fig.100). A crescente insatisfação contra Simão pelos populares da cidade é apresentada pelas figuras em meio corpo, com expressões faciais de irritação, mostrada em perspectiva de cima para baixo e a posição de circularidade, indicando o crescente sentimento de insatisfação que percorre a todos (fig.101). Na figura 102, o artista explora os requadros em linhas curvas com a rememoração dos fatos ocorridos com a esposa os quais Simão utiliza para justificar ao padre o motivo do recolhimento para a Casa Verde como desequilibrada. Ele sempre apresentado em figura centralizada na página, com olhar desconfiado. No final da história (figura 103), o alienista passa a definhar, sendo o objeto de suas especulações científicas. Do olhar desconfiado para todos, a personagem passa a ostentar um olhar de desencanto, produto da sua vida de estudos e pesquisas. E o mesmo padre que perscruta Simão com feição de deferência no primeiro requadro da história, é o suposto divulgador das qualidades que vitimaram Simão Bacamarte. No último requadro da história a expressão facial do sacerdote é do típico estrategista, que defende a tranqüilidade da pequena cidade. Figura 101: O alienista Figura 102: O alienista Figura 103: O alienista Escala Educacional, pág. 21 Escala Educacional, pág. 44 Escala Educacional, pág. 58 116 O Alienista de Lailson de Holanda Cavalcanti é uma quadrinização de cinqüenta e oito páginas, muito bem articuladas no jogo imagem e palavras, como afirma o editor, “ a imagem deve mostrar o que o texto literário não necessita escrever. Já o texto deve apresentar o que a narrativa visual não pode mostrar.” (2008, p.59) A capa (figura 104) traz requadros das personagens que produzem a urdidura da trama: Simão Bacamarte aficcionado pelos estudos e elocubrando teorias sobre sanidade e loucura, e a Casa Verde, um sanatório que funcionará como laboratório onde três quartos da população de Itaguai passará, com o apoio de Crispim Duarte, o boticário; ele enfrentará a oposição de populares, representado pelo barbeiro revolucionário Porfírio. A imagem de Simão Bacamarte é explorada pelo quadrinista como um homem veemente em seu discurso, ostentando traços de severidade em sua expressão facial enérgica, com olhar atemorizante na terceira página, como prova a figura 105. Os gestos contundentes destes já sugerem a radicalidade das ações e ideias que perpassarão toda a história. Na sexta página, o artista expõe a galeria das principais personagens e funções que conduziram as ações da história (figura 106). Figura 104: O alienista Companhia Editora Nacional, capa 1 Figura 105: O alienista Companhia Editora Nacional, pág. 1 Figura 106: O alienista Companhia Editora Nacional, pág. 6 No trabalho de Laerte, a mítica Itaguaí é caracterizada como uma típica cidade do período colonial. São explorados o casario e as calçadas de pedras, elementos de destaque da época (figura 107). Também os espaços interiores das casas e igreja trazem a atmosfera colonial da época, tanto na arquitetura como nos móveis (figura 108 e 109). 117 Simão Bacamarte é apresentado de forma altiva, com olhar de constante determinação e muitas vezes com semblante maquiavélico (figura 107). O autor explora as elocubrações de Bacamarte a partir do jogo da perspectiva: próxima e restrita (focalização na parte superior da face, nos olhos com ar alucinado) para enfatizar a loucura como um objeto de estudo discreto ( metaforizada verbalmente como ilha perdida no oceano da razão); e da perpectiva distante e ampliada para realçar a dominação da ideia que a insanidade está em tudo ( metaforizada verbalmente como um continente). (figura 108, dois últimos requadros). Destaque especial para a tradução estilística da relação ciência e fé na figura 109. O encontro de Simão e do padre para apresentação da teoria do alienista, nesta quadrinização se dá na igreja. A defesa de Bacamarte da loucura como uma onda crescente feita pelo alienista e a contraposição do padre na afirmação de que entre sanidade e loucura as fronteiras são perfeitamente delimitadas conclui-se com o aperto de mão dos dois e o estabelecimento da dúvida na teologia. A saída de Simão remete a idéia de que a Igreja (padre) vê a ciência abrir um novo caminho (porta aberta, mundo sem fronteiras) para compreensão do mundo, dos homens, bem diferente da teologia (igreja fechada, com cantos escuros e centro luminoso) com suas restrições. Figura 107: O alienista Companhia Editora Nacional, pág. 7 Figura 108: O alienista Companhia Editora Nacional, pág. 21 Figura 109: O alienista Companhia Editora Nacional, pág. 58 Podem ser constatados dois aspectos no texto verbal desta quadrinização: enxugamento das expressões carregadas de erudição semântico-sintática, o que se dá 118 com a síntese de algumas passagens; e a substituição, em muitos trechos, do foco narrativo constituído pelo narrador onisciente a contar os fatos ditos anônimos, pelas falas de diversas personagens que fazem circular diversos fatos imputados ao alienista. Esta segunda estratégia encena o anonimato das informações e fortalece a condição de anônima à história contada, o que concede uma maior verossimilhança ao texto (figuras 110 e 111). Figura 110: O alienista Companhia Editora Nacional, pág. 20 Figura 111: O alienista Companhia Editora Nacional, pág. 21 O final da quadrinização centra-se na crise de Bacamarte, representada na oscilação de luz no ambiente onde se encontra a personagem. Dá-se espaço ao monólogo interior que aponta para as últimas conjecturas de seus pensamentos (figura 112). Na consulta às pessoas próximas o ambiente ganha claridade, na conclusão final da personagem ele volta a escurecer, recurso utilizado pelo quadrinista para tornar mais expressiva a ilustração da crise que o alienista vive até chegar a sua última conclusão: ele é o alienado que merece estudos teóricos e práticos. Nas últimas imagens Bacamarte é mostrado na posição lateral em metade da face, revelando o desconhecimento de si e de costa em perspectiva distante, deixando-se vencer pela sua nova teoria. (figura 113). Por fim, a última página não nos apresenta mais a figura do ilustre alienista, apenas a Casa Verde, o cortejo de seu enterro e seu túmulo com um busto: torna-se um homem enterrado pelas próprias concepções cientificas. (figura 114). 119 Figura 112: O alienista Figura 113: O alienista Figura 114: O alienista Companhia Editora Nacional, pág. 51 Companhia Editora Nacional, pág. 53 Companhia Editora Nacional pág. 54 Um dos trabalhos de tradução gráfico-imagético em quadrinhos mais criativo de O Alienista, é o perpretado por Cesar Lobo (arte) e Luiz Antonio Aguiar (roteiro), da Editora Ática. Nele ocorre o que Plaza chama “[...] tornar visível o concreto do original, virá-lo pelo avesso [...] [pois] tradução e invenção se retroalimentam”. Nele é percebido um aumento da informação estética fornecendo nível e qualidade a operação tradutora que complementa o signo traduzido, visto que confirma o que Otávio Paz (Apud JULIO PLAZA, 2008, p.40), pois [...] o signo estético é um sistema de escolha irrepetível e, por isso mesmo, congelado. Traduzir é colocar esse cristal em movimento, para fixá-lo num sistema de escolhas outro, no entanto, análogo. Traduzir é, nesta medida, repensar a configuração do original, transmutando-a numa outra configuração seletiva e sintética. Nesta quadrinização a ideia de terror que é o sentimento vivido na Vila de Itaguaí, é desfraudada inicialmente por meio de dois signos já na capa ( figura 115): o doutor Simão Bacamarte em imagem medonha (que lembra o conde Drácula na tradução da obra de Bran Stock), recluso em seu gabinete de estudo e as sombras de populares na fachada da casa. Um dos elementos de criatividade introduzido pela tradução é o duplo de Simão Bacamarte, o Alienista-Alienado. É o elemento novo que materializa em forma de 120 espírito fantasmagórico a loucura presente, desde o início no médico e na cidade inteira, que vai ser descoberta por Simão no decorrer dos acontecimentos. O AlienistaAlienado abre a história quadrinizada, em preto e branco, tece comentários sobre os fatos durante a narrativa, o que dá maior dramaticidade ao texto. Ele, nas páginas iniciais (figuras 116 e 117), se propõe revisar as crônicas que contam seu grande empreendimento em Itaguaí – lugar onde predomina a insanidade, uma vez que até a razão e a lógica são pura insânia. Figura 115: O alienista Ática, capa 1 Figura 116: O alienista Ática, pág.5 Figura 117: O alienista Ática, pág. 6 A quadrinização é marcada pelo grande teor de dramaticidade na materialização das personagens, o que se faz perceptível nas posturais corporais. O corpo diz a personagem: Simão Bacamarte em reverência mostra-se cordato com a autoridade, em posição de relaxamento revela-se dedicado e ávido pelo estudo (figura 118) e o corpo em posição de aceitação de louvores, coloca-se como empreendedor na ciência em benefício da instituição pública (figura 119). A dramaticidade também é percebida na contextualização da sociedade escravocrata, na qual a figura dos negros escravos materializa as condições de exploração no trabalho (como pajem durante as refeições dos senhores brancos ou em trabalhos pesados) e condições de subvida, alimentando-se dos restos da mesa do homem branco (figura 120). 121 Figura 118: O alienista Figura 119: O alienista Figura 120: O alienista Ática, pág.7 Ática, pág.11 Ática, pág.14 Dois processos criativos são evidentes para o alto tom de expressividade da quadrinização. Primeiro, a constituição do desenho se aproximar das posturas psicológicas e sociais das personagens: Crispim, de pequena estatura, bajulador e asqueroso tem sua insignificância metaforizada no desenho em traços e expressões faciais que o aproximou da imagem de um rato (figura 121). Segundo, apesar da praxe de condensamento das adaptações, o artista amplifica em vários requadros alguns acontecimento breves no texto-base, o que destaca ainda mais o terror e a dramaticidade como na figura 122, o confinamento de uma ex-namorada que veio pedir pelo primo. Figura 121: O alienista Ática, pág.16 Figura 122: O alienista Ática, pág.20 122 As cenas da revolução decorrentes da insatisfação dos populares de Itaguaí com relação ao clima de medo e terror, na política de recolhimento dos considerados alienados, são marcadas de forte teatralidade. A entrada dos Canjicas na Câmara de Vereadores em imagens nas cores cinza e vermelho e a imagem-signo da insurreição popular francesa acima do líder, insinuando sua pretensão política, marcam o grotesco da situação que é amplificada com o quebra-quebra e as agressões físicas entre populares e vereadores (figuras 123 e 124). A figura 125 apresenta a ínfima reação da criadagem e de Dona Evarista frente à agitação que está em frente de sua casa; quando relacionada à comoção que toma os populares, esta situação é materializada pelos artistas com o requadro menor do núcleo familiar dentro do requadro maior, página inteira, para a percepção da agitação dos populares. Figura 123: O alienista Figura 124: O alienista Ática, pág.26 Ática, pág.28 Figura 125: O alienista Ática, pág.30 As ações e reações de Bacamarte tornam-se capítulos à parte para a percepção de sua situação psicológica. Em meio à agitação de sua casa e dos populares na rua, ele reage com indiferença, guardando o livro que lia, e arrumando-o para que não desconcertasse o alinhamento dos outros (figura 126). Em seguida ele tem a mesma reação ao dirigir-se à sacada da casa e tentar travar uma conversa com os populares agitados, numa postura de superioridade: ele parece querer alinhar e extirpar os ânimos 123 exaltados pela má interpretação das suas ações meramente científicas (figura 127). Por fim, ao retirar-se da sacada o embate entre os populares e as forças de segurança pública se intensificam. Bacamarte retorna para suas leituras e sua ciência e considera insanas as cenas a que apenas assiste pela janela. (figura 128). Em todo momento, a sua preocupação com a retidão das coisas e sua postura distante e descomprometida com os fatos que o rodeiam são materializadas nas expressões faciais de alheamento e posturas corporais descansadas (figura 128). Figura 126: O alienista Ática, pág.26 Figura 127 O alienista Ática, pág.28 Figura 128: O alienista Ática, pág.30 A mudança de posição teórica de Simão Bacamarte em relação à caracterização dos insanos que passam a ser vistos como os que detêm o equilíbrio e a normalidade, amplia a sua indiferença frente aos amigos em nome de uma impessoalidade científica. A materialização desta passagem na quadrinização ganha um aspecto de terror e crueldade pela condição subumana das celas de prisão, das pessoas vestidas com farrapos de roupas e expressões faciais de terror frente à privação da liberdade. Tais aspectos são notados nas pessoas íntimas do convívio particular do médico que também são detidos, a exemplo do padre. Todo este caos humano é perpassado pelas variações da cor cinza, o que dá maior intensidade a atmosfera insensível disseminada pela visão científica do alienista que se mantém incólume ao desespero dos que enclausurou na Casa Verde (figura 129). 124 Figura 129: O alienista Ática, pág.30 Os requadros que indicam a derrocada da percepção científica de Bacamarte são expressos em quadrinhos que tomam a páginas inteira, tornando-se a maior revelação da história. Primeiro, do alto de sua varanda em imagem em cores claras, o que indica momento de paz (do alto de sua superioridade científica, parece analisar as intervenções que promoveu nos pacientes, com as quais atacavam as belezas morais que disfarçavam as conveniências e ações nada nobres ) ele questiona se realmente curou a todos. (figura 130). Posteriormente, (figura 131) o médico se abate com uma crise moral, ao perceber que não havia insanos na cidade (o ambiente é retratado em tons de vermelho e preto) e desconfia que o melhor exemplo de sua teoria ainda não havia sido estudado. Por fim (figura 132), após investigações descobre que ele é o melhor exemplo de insânia, pois era o único normal e equilibrado da cidade; o que em última análise revela que ele deva ser recolhido à Casa Verde. Assim, dirige-se nu para aquele local de recolhimento. O ato de despir-se metaforiza a ação de mostrar-se, de revelar-se como realmente é. Seu vulto caminhando em frente ao sanatório, com a lua coroando-lhe a cabeça, insinua seu estado de lunático. Observemos isto nas figuras que se seguem: 125 Figura 130: O alienista Figura 131: O alienista Ática, pág. 67 Figura 132: O alienista Ática, pág. 68 Ática, pág. 69 O Alienista da Editora Agir é uma quadrinização, que compõe a série Grandes Clássicos em Graphic Novel, realizada pelos irmãos Fabio Moon e Gabriel Bá. Já traz na primeira capa a temática dos estudos científicos que impregna as obras literárias da época: a figura do cérebro domina boa parte da cena, com os livros na parte superior em perspectiva próxima, e o homem, o estudioso em perspectiva distante. Nestas sobreposições sígnicas da capa 1 (figura 133), percebe-se o maior valor dado ao conhecimento. Assim como no texto base, nota-se a crítica à alucinação pelo cientificismo, que é metaforizado na capa 2 (134) em negro, imagem em que se destaca apenas a figura do cérebro e da personagem Simão, ou seja, o homem que apenas enxerga a ciência em tudo e acaba por cegar-se ( a cor preta dominando a cena) para outros possibilidades ao seu redor de se assimilar o conhecimento. Figura 133: O alienista Agir, capa 1 Figura 134: O alienista Agir, capa 2 126 Trata-se de uma tradução que conserva o texto-base, alterando alguns aspectos da linguagem e da sequência narrativa. A narrativa gráfica preserva como fio condutor as ações de Simão Bacamarte, cuja imagem e feitos são centralizados: estudo na Europa, regresso a Itaguaí, dedicação aos estudos de psiquiatria (figura 135), construção da Casa Verde (figura 136), constantes pesquisas, criação e comprovações de teorias (figura 137). A história de Dona Evarista é deslocada na ordem da narrativa para um momento posterior, e a referida personagem é apresentada com nuanças românticas. Figura 135: O alienista Figura 136: O alienista Agir, pág. 9 Agir, pág. 11 Figura 137: O alienista Agir, pág. 15 Na primeira página da novela gráfica Simão Bacamarte é materializado como um homem modesto e empreendedor no encalço dos novos caminhos da medicina frente aos mistérios da alma. Chega a ser metaforizado visualmente pelo destaque da luz (último requadro da figura 135), símbolo de homem diferenciado numa Itaguaí tradicional e conservadora A Casa Verde (figura 136) é o espaço onde o médico se dedicará á caridade (cuidar dos loucos que nunca tiveram tratamento e atenção particularizada) e ao aprofundamento do estudo da loucura, seu principal objetivo. Nesta quadrinização a casa dos alienados é retratada como um espaço aberto, cheio de luz, um mundo diferenciado. Apenas as celas fechadas são apresentadas como quartos escuros (figura 137 – requadros 2 e 3), na verdade uma metáfora da mente humana ainda desconhecida pelos estudos da época – século XIX. 127 Um aspecto estético que merece destaque é a ressignificação de Itaguaí próxima ao modelo das cidades do velho oeste americano nos quadrinhos, observado na estrutura das ruas, o meio de transporte, a vestimenta das personagens, tudo nas cores pastéis e amarelas, em tom desértico, como se nota na figura abaixo: Figura 138: O alienista Agir, pág. 30 O momento da insurreição popular decorrente da insatisfação com relação aos critérios de recolhimento dos considerados anormais é materializado com moderação, no tradicional confronto entre representantes da elite e representantes do povo. O encontro entre Bacamarte e os revoltosos retrata bem esta relação (figura 139). Bacamarte, bem vestido, na sacada de seu sobrado, em porte imponente e superior é a representação da elite; os populares, liderados por alguém que lhes determinam as ações, reclamam, ouvem as justificativas, sempre prontos a agir. Figura 139: O alienista Agir, pág. 42 128 Um recurso bem diferenciado dos quadrinistas é o modo de compor a rememoração dos fatos relacionados com Dona Evarista e que desencadearam seu recolhimento para a Casa Verde (figuras 140 e 141). Bacamarte recebe a visita do padre e passa a relatar as ações suspeitas da esposa, atitudes tais denunciaram certo desequilíbrio mental. Até aí os requadros tem cores mais escuras. A sequência que segue constitui um flashback dos atos suspeitos de Evarista, nos quais as imagens correspondem a atos já acontecidos e retomados pela memória da personagem e para tal assumem a forma de esboços com cor bastante clara, o que dá às cenas um tom fluído para sugerir lembranças. Quando a história retoma o tempo presente da conversa com o padre, os requadros voltam a ter linhas mais definidas e cores mais fortes. Figura 140: O alienista Agir, pág.56 Figura 141: O alienista Agir, pág.57 O signo da cor como recurso metafórico e informacional também é utilizado nos requadros que remetem à liberação dos alienados que foram recolhidos por realizarem ações baseadas na retidão da conduta (figura 142). Em dado momento, as teorias de Bacamarte indicam que o equilíbrio não era “normal” e passaram a ser considerarados “anormais” quem apresentasse esta conduta. Após intervenções que liberaram a verdadeira natureza das ações nada virtuosas, as pessoas que estavam reclusas foram liberadas. A saída destes indivíduos da Casa Verde é transposta para a quadrinização como um momento iluminado; as pessoas parecem não acreditar na liberdade. O momento da liberação é ilustrado com grande incidência de luz (cor clara, embranquecimento da imagem). Também a Casa Verde passa a ser vista com mais luminosidade. 129 . Figura 142: O alienista Agir, pág.59 Na parte final da história, Bacamarte descobre, mediante pesquisa e observações dos amigos e pessoas íntimas, ser ele o único insano da Itaguaí por ter ostentado desde sempre uma “conduta virtuosa” (figura 143). Para estudo final da sua teoria ele se recolhe à Casa Verde como objeto das especulações científicas (figura 144). Figura 143: O alienista Agir, pág.68 Figura 144: O alienista Agir, pág.69 Os passos do médico que o encaminham para a cela escura (figura 145) metaforizam o adentramento no lado desconhecido da mente, o mergulho no universo 130 da insânia. A Casa Verde passou a ter uma única cela fechada, um único insano prisioneiro nas ideias que Bacamarte acreditava. Figura 145: O alienista Agir, pág.70 Nos processos de traduções de O alienista realizados pelos diferentes artistas observa-se que as “andanças do tradutor se dão na procura das semelhitudes e falas adormecidas no original” (PLAZA, 2008), que se revelam mediante o ato da leitura tomado como processo de cognição de um signo (texto-base) que é re-configurado na transmutação em outro signo (aqui o verbal em icônico). O diálogo mediado pela ação do signo, entre a mente que conhece e o objeto conhecível, reporta a experiências, percepções e recriações singulares nas quadrinizações. Esta transposição criativa de um código para outro resulta em um novo texto híbrido nas linguagens que lhe dão suporte, não oculta o original nem lhe rouba a luz. Na realidade, traz o desejo do tradutor de superação do texto-base que se dá na complementaridade, pelo alargamento de seus sentidos e focalização do original em pontos de seu significado ainda não percebido. Observemos como isso ocorre nas quatro quadrinizações de O Alienista. Destacamos duas passagens da história, que recebem tratamento bem diferenciado pelos quadrinistas: O capítulo II, A torrente dos loucos; e o capítulo VII, O inesperado. O capítulo A torrente dos loucos traz a passagem da chegada dos alienados na Casa Verde, e a recepção de Bacamarte. Ele mostra ao padre o ambiente e o histórico 131 que cada insano traz. Esta concretização é feita de modo específico em cada quadrinização. Waldomiro Seabra transmuta este episódio para treze requadros: ilustra os inúmeros alienados, em cenas individualizadas, como portadores de algum distúrbio, tornando a moléstia mental perceptível a nível de discurso verbal e gestual dos enfermos. O aspecto físico das vestimentas dos alienados nada denunciava, como se nota nas figuras abaixo: Figura 146: O alienista Escala Educacional, pág. 8 Figura 147: O alienista Escala Educacional, pág. 9 Figura 148: O alienista Escala Educacional, pág. 10 O quadrinista Lailson apresenta coletivamente, no pátio, os insanos da Casa Verde, em apenas dois requadros (figura 149). Lá, simultaneamente, cada um parece estar em seu mundo, proferindo em discursos particulares suas histórias individuais, o que sugere as crises. O aspecto físico (vestimentas, gestos, expressões fisionômicas) é bem caricatural, o que denuncia a constante insanidade. Figura 149: O alienista Companhia Editora Nacional , pág. 11 132 Cesar Lobo e Luiz Antonio Aguiar traduzem a rotina dos alienados (figura 150) de forma bastante realista: nus, em autoflagelo, andrajosos, em crises assustadoras. Todo isso é composto em um requadro de página inteira e enquadrado na perspectiva de visão de Bacamarte. Detalhe especial para a retirada do padre deste episódio e a presença de Bacamarte do alto da varanda, distante e superior, a anotar de forma incólume, tudo o que observa. Figura 150: O alienista Ática, pág. 14 Fábio Moon e Gabriel Bá apresentam os convivas da Casa Verde (figuras 151, 152 e 153) em quinze requadros: primeiro, em panorâmica, visualiza todos para em seguida particularizar sete casos, nos quais os trajes e os comportamentos incomuns e repetitivos (conversas com parede, correr até o fim do mundo...) indicavam problemas mentais. Nesta quadrinização, Bacamarte, modesto, caminha entre os insanos com o padre. Figura 151: O alienista Agir, pág. 12 Figura 152: O alienista Agir, pág. 13 Figura 153: O alienista Agir, pág. 14 133 Um dos episódios de maior tensão no texto literário é o relato do confronto das forças da segurança pública de Itaguaí ( os dragões) com os participantes da insurreição popular, liderados por Porfílio, o barbeiro. Waldomiro Seabra apresenta o fato de maneira contida (figuras 154 e 155): ultimato para dispersão, relutância liderada pelo barbeiro, avanço dos dragões com arma em punho, adesão de alguns dragões à rebelião, entrega das armas pelo capitão e caminhada de todos para a Câmara. Figura 154: O alienista Figura 155: O alienista Escala Educacional, pág.33 Escala Educacional, pág.34 Lailson de Holanda materializa o mesmo momento de tensão, não de forma tão contida (figuras 156 e 157), explora o ar de desentendimento de forma mais performática, explorando o embate corporal e a exaltação de ânimos no carregamento da expressão facial dos dois grupos. Figura 156: O alienista Companhia Editora Nacional , pág.40 Figura 157: O alienista Companhia Editora Nacional , pág.41 134 A quadrinização de Cesar Lobo e Luiz Antonio Aguiar intensifica com grande dramaticidade o embate entre os populares e os dragões explorando as posições corporais e expressões fisionômicas, além de utilizar o discurso direto em medida adequada, deixando a imagem falar pelas palavras. O primeiro requadro da página 36 (figura 158) traz a cena do início do confronto de forma que nos faz recordar momentos históricos de batalhas em prol da liberdade, tamanha expressividade na luta. No segundo requadro o barbeiro Porfílio encena com maestria o papel do líder da rebelião. Na página 37 (figura 159) em requadro único, ocorre o ápice do combate, um verdadeiro banho de sangue defronte à casa de Simão Bacamarte. Da casa destaca-se a varanda com a luz acesa. É este o elemento novo nesta tradução (figura 160): o alienista acompanha “de camarote” a carnificina, considera por ele como insânia, preocupado apenas com seus estudos. Figura 158: O alienista Ática, pág. 36 Figura 159: O alienista Figura 160: O alienista Ática, pág. 37 Ática, pág. 38 A quadrinização de Fábio Moon e Gabriel Bá traz a cena da batalha de modo mais estilizado. Ela se inicia com o disparo do capitão que exige que a multidão se disperse. Ora um requadro focaliza os dragões, ora os revoltosos (figura 161), que em cólera avançam sobre os dragões, apesar dos tiros (figura 162). O trabalho com os gritos e as onomatopéias relacionadas com os tiros intensifica a violência do combate. Os quadrinhos apresentam cenas nas quais os populares são 135 atingidos pelos tiros e a batalha parece fenecer com a vitória dos dragões. Percebe-se que no último requadro, à distancia do lugar do combate, alguém vislumbra a vila de uma varanda e ouve o estampir dos tiros. Este recurso é utilizado para aguçar a curiosidade do leitor em relação à próxima página: quem é a pessoa que observa? Qual o resultado do confronto? Na página seguinte (figura 163) revela-se que os observadores são os vereadores, que vêem, aos poucos o inusitado resultado do confronto: união dos rebeldes com os dragões (imagem em perspectiva distante, silhuetas que se deslocam irreconhecíveis no requadro 4 e 5, vão se aproximando e revelam a inesperada união de forças no requadro 6). Figura 161: O alienista Agir, pág. 44 Figura 162: O alienista Figura 163: O alienista Agir, pág. 45 Agir, pág. 46 Observa-se que a tradução retoma o texto-base, sendo fiel a ele nas legendas, mas confere ao quadrinista a liberdade de transmutar em ícones de acordo com a interpretação e criatividade do tradutor, pois: [...] o signo estético, quando traduzido por um outro signo estético, mantém com este uma relação por similaridade e contigüidade por referência. A tradução mantém uma relação íntima com seu original, ao qual deve a sua existência, mas é nela que “a vida do original alcança sua expansão póstuma mais vasta e sempre renovada”. A tradução modifica o original porque este também é um produto de uma leitura e, ambos, tradução e original, estariam possibilitados de 136 chegarem a completar sua intenção que é precisamente de se atingir “a língua pura”. (PLAZA, 2008) As quadrinizações literárias como um signo estético que se origina de outro signo estético surgem como uma possibilidade de leitura entre outras. Trata-se de um processo de semiose pelo icônico que comporta tempo, mudança e transformação e o novo signo busca sempre preencher os intervalos do original pela transposição criativa, com signos balizados na visão de mundo do artista que a compõe. Além dos romances e da novela, também contos machadianos passaram pelo processo de transposição criativa em quadrinizações. A Peirópolis traz o Conto da escola traduzido por Laerte Silvino, na coleção Clássicos em Quadrinhos em HQ que tem como mérito inquestionável, apontado na apresentação por Maurício Soares Filho “[...] apresentar a leitores obras fundamentais para formação de um repertório intelectual, sem facilitar os textos ou diminuir sua profundidade e grandeza” (p.3). Nota-se desde já que o texto-base será preservado na íntegra como legenda ou diálogos entre as personagens, estando aí, na opinião de Maurício, o desafio para o quadrinista. É ele quem afirma: As metáforas pouco convencionais são um aspecto muito significativo do trabalho de Machado, e esta versão em quadrinhos, que traz o texto na íntegra, não poderia eliminar o prazer do leitor em descobri-las. Laerte Silvino contribui com a narrativa machadiana ao explicitar, por meio de cores, alguns elementos fundamentais para a sua apreciação, especialmente ao explorar a subjetividade do narrador, que conta a sua história em primeira pessoa. Difícil tarefa para um quadrinista esta, ficar em silêncio para deixar Machado falar. Silvino não só dá conta do recado como aproxima o leitor do século XXI de um dos maiores exploradores da alma humana que já existiram. Ao reverberar o texto machadiano, o quadrinista se mostra num processo criativo interessante, percebido desde a capa 1 (figura 164) e capa 2 (figura165), que abertas se complementam trazendo a própria crítica do texto-base em questão: o menino saindo do seu espaço de liberdade (lugar onde mora) e sente-se diminuindo, castrado quando vai para a escola. Para demonstrar isso, Silvino utiliza a imagem gingante meio corpo, cintura para baixo, que se reduz em uma sombra minúscula. Existe aqui a ideia da perda de liberdade e consequentemente, de identidade, como se pode ver nas figuras que se seguem: 137 Figura 164: Conto da escola Figura 165: Conto da escola Peirópolis, capa 1 Peirópolis, capa 2 A quadrinização é realizada em técnica de ilustração infantil que metaforiza a forma da criança olhar o mundo: o narrador adulto conta a partir das suas memórias da infância, como via e sentia as situações. Além deste, outro recurso que torna coerente esta perspectiva de narração é a materialização do temor que sentia pelo professor na forma agigantada do mestre (figura 166); a perspectiva do requadro direto na ação praticada (figura 167). Figura 166: Conto da escola Peirópolis, pág. 10 Figura 167: Conto da escola Peirópolis, pág. 26 138 A utilização da cor como forma de representar emoções fortes é uma estratégia marcante nesta quadrinização: o branco indica sentimento de realização (figura168), o vermelho enfatiza a dor (figura 169); o cinza, situação de desencanto; e o preto, a condição de vergonha e medo (170). Figura 168: Conto da escola Peirópolis, pág. 27 Figura 169: Conto da escola Peirópolis, pág. 36 Figura 170: Conto da escola Peirópolis, pág. 37 A Escala Educacional é outra editora que vem explorando os contos machadianos em seu projeto de acessibilidade da literatura clássica. Deteremo-nos em análise mais específica da sua quadrinização pelo fato de seu trabalho com os contos constituir um aspecto desta pesquisa nas vivências de leitura com alunos. Já no texto de apresentação das quadrinizações, que é comum a todas as obras, os editores destacam como condição precípua para a adaptação a presença dos elementos descritivos no texto. Eles advertem que a nova linguagem não substitui a forma original da obra a qual é indubitavelmente importante para uma boa formação do leitor. A capa da referida coleção apresenta em letras maiúsculas, pretas e brancas, o título da coleção literatura brasileira em primeiro plano, centralizado, como referência ao objeto cultural que é ponto de partida do trabalho. Em seguida tem-se o termo especificativo em quadrinhos, mais à esquerda, também em letras maiúsculas, 139 proporcionalmente menor e de cor destacada, a indicar o novo processo, o novo suporte – a literatura quadrinizada. Esta forma de apresentar o título da coleção direciona para a transposição de um leitura clássica e de tradição (sugerida no jogo das cores preta e branca) para uma leitura marginalizada e mais criativa dos quadrinhos (percebida pelo colorido no termo especificativo “em quadrinhos”, não centralizado). O oposto ocorre nos elementos que se seguem: o título da obra literária é apresentado em letras menores, dando-se maior destaque a um conjunto de requadros que sintetizam a história em uma cena. Neste jogo espacial e dimensional do título da coleção e cena-síntese pode-se perceber a valoração dos objetos culturais envolvidos na composição do texto. Menor e acima - a literatura brasileira. Maior e um pouco abaixo, mais tomando o centro e o foco da folha - o requadro. Esta é a metáfora da situação social e de mercado dos elementos formadores deste novo objeto cultural híbrido. Observemos a disposição do título da coleção na capa 1 : LITERATURA BRASILEIRA EM QUADRINHOS A estrutura do título da coleção, acima transposto, pode ser reportado a uma leitura crítica da origem dos objetos culturais que compõem o novo produto: situação de prestígio (literatura) e desprestígio (quadrinhos) na origem dos objetos culturais que formam a literatura em quadrinho. Na continuidade, os elementos que também compõem a capa 1 – título da obra/ autor e requadro, metaforizam a situação atual das quadrinizações, na qual a imagem ganha destaque em relação a palavra, percebidos na leitura subliminar e cultural. Ao observar este jogo mais diretamente, percebe-se que a capa é uma metáfora da relação dos objetos culturais (literatura e quadrinho) e o suposto ganho de espaço do 140 novo objeto cultural híbrido na sociedade imagética contemporânea, como se observa abaixo: Figura 171: A cartomante LITERATURA BRASILEIRA: Titulo principal centralizado, dominante, em cores clássicas, indicando o prestigio, o centro para a literatura clássica. EM QUADRINHO à esquerda, um pouco menor. Sugere algo fora do centro, buscando o centro, o prestígio. TÍTULO DA OBRA , em cor preta padrão, em caixa menor, retirando o destaque da obra literária. NOME DO AUTOR da obra literária e ausência do nome do autor da quadrinização revela ainda a condição de maior prestígio social para a literatura. CENA-SÍNTESE DA HISTÓRIA, quadrinizada, maior e mais colorida, ganha destaque na capa. A imagem ganha maior visibilidade, caso se observe o título da obra. Escala Educacional: capa 1 O mesmo processo de composição é percebido em outros títulos da mesma coleção, especialmente nas ressignificações de textos machadianos, como se observa a seguir: 141 Figura 172: A causa secreta Figura 173: O alienista Escala Educacional, capa 1 Escala Educacional, capa 1 Figura 174: O enfermeiro Figura 175: Uns braços Escala Educacional, capa 1 Escala Educacional, capa 1 Nota-se o jogo de paralelismo na capa que já apresenta a relação entre os dois objetos culturais (literatura e quadrinhos) que apesar das linguagens específicas e do prestígio que gozam ante os públicos delimitados a que se destinam, aglutinam-se em um objeto cultural híbrido. Este novo produto cultural propicia a acessibilidade do leitor 142 para a literatura clássica, sem perder as marcas específicas de cada linguagem que o compõe. 2.2.1- Um olhar sobre a quadrinização de “A Causa secreta” A quadrinização de “A causa Secreta” é um trabalho de roteiro e desenhos de Francisco Vilachã e cores de Fernando A. A. Rodrigues. Apresentada num formato de livro composto por quarenta e oito páginas: as duas iniciais como contracapa e apresentação do trabalho pelos editores e a denominação da equipe responsável pela coleção; quarenta páginas repletas de requadros e legendas; e as seis últimas com uma pequena biografia/bibliografia e uma ficha de leitura contendo quinze questões que focam muito mais a linguagem verbal que a imagética. O texto base que dá origem à literatura em quadrinho é constituído de setenta e três (73) parágrafos. Ele é traduzido para a linguagem visual em 317 requadros, acompanhados quase que totalmente por legendas narrativas e pouquíssimos diálogos. Toda a parte verbal escrita nas legendas dos quadrinhos mantém-se literalmente fiel ao conto machadiano do qual é originário, que foi segmentado conforme a interpretação do artista para estruturar a quadrinização. Como exemplo da liberdade de criação do artista no que se refere a estruturação do texto verbal para transmutação ao icônico, observemos o fragmento do texto base. Trata-se do parágrafo 19: O pobre-diabo saiu mortificado de lá, humilhado, mastigando a custo o desdém, forcejando por esquecê-lo, explicá-lo ou perdoá-lo, para que no coração só ficasse a memória do benefício; mas o esforço era em vão. O ressentimento, hóspede novo e exclusivo, entrou e pôs fora o benefício, de tal modo que o desgraçado não teve mais que trepar a cabeça e refugiar-se ali como uma simples idéia. Foi assim que o próprio benfeitor insinuou a este homem o sentimento de ingratidão. (ASSIS, p.513) O quadrinista fragmentou o parágrafo e o traduziu para a forma de sete requadros, com imagens que retratam o contexto histórico e geográfico da época. Isto é percebido pelos casarões, ruas, vestuário dos personagens, como se pode perceber a seguir: 143 Figura 176: A causa secreta Escala Educacional, pág.16 No trecho destacado do texto base, sentimentos são personificados poeticamente (ressentimento torna-se hóspede da cabeça e refugia-se na idéia e ingratidão) e sensações ganham força na metáfora (mastigando a custo o desdém). Na quadrinização, a transmutação criativa da temperatura poética deste trecho em imagens se deu em conformidade a subjetividade e liberdade da leitura do artista quadrinista, que traduz estes sentimentos nas posturas de corpo, expressões faciais e formas de olhar da personagem. Gouveia, a personagem da trama em destaque nos requadros, é apresentada nas imagens com postura corporal desanimada (cabeça baixa, olhar voltado para o chão) para indicar o estado de espírito de decepção. Nos requadros 2, 3, 2 4, o homem é 144 focado em perspectiva distante, com as vistas baixas acentuando a condição de humilhado. A partir do quinto requadro a centralização do olhar, em perspectiva frontal e em aproximação gradativa, revela, aos poucos, o surgimento de uma expressão dura e carregada. A aproximação contínua com foco no olhar sugere uma atividade mental de introspecção, ou seja, o nascimento, de forma dolorosa, do sentimento de ingratidão, provocada em Gouveia pela frieza de Fortunato. Por outro lado, a liberdade de criação é delimitada pela preservação do texto literário, transposto como legendas nos requadros, com as características da escrita da época da produção. A ilustração torna acessível a enunciação verbal graças às imagens, pois somente a primeira pode parecer difícil para compreensão de algum leitor não afeito às construções subjetivas do texto literário machadiano. Na totalidade da obra, poucas foram as reduções ocorridas no texto literário ao ser transposto segmentado para as legendas. E quando isso ocorreu deu-se pela eliminação de palavras que se tornaram elementos imagéticos constituindo a cena. Mantê-las seria redundância desnecessária nesta transposição como se observa no parágrafo 13 do conto que foi fragmentado para oito requadros. O trecho “[...] Durante o curativo, ajudado pelo estudante, Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar nada, olhando friamente para o ferido, que gemia muito”. (ASSIS, Machado. Várias Histórias. A Causa Secreta, p.513) foi traduzido para os três requadros que se seguem: Figura 177: A causa secreta Escala Educacional, pág. 11 145 Naturalmente o trecho descritivo da ação da personagem Fortunato “segurando a bacia, a vela, os panos” tornou-se imagem no primeiro requadro, o que dipensou as palavras correspondentes na legenda. Outra forma de redução do texto literário na legenda do quadrinho dá-se quando a imagem contribuiu para a caracterização da personagem Fortunato, sendo suprimidos os termos descritivos que não acrescentariam nenhuma informação, como se observa nos fragmento abaixo: Olhou para ele, viu-o sentar-se tranquilamente, estirar as pernas, meter as mãos na algibeira da calça, e fitar os olhos do ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar e tinham a expressão dura, seca e fria. Cara magra e pálida; uma tira estreita de barba, por baixo do queixo, e de uma têmpora a outra, curta, ruiva e rara.Teria quarenta anos. (ASSIS, p.513) O referido fragmento, ao ser transmutado para as imagens, é transformado em cinco requadros (figura 178), como se observa abaixo: Figura 178: A causa secreta Escala Educacional, pág. 12 Na legenda do primeiro requadro, a expressão “sentar-se traquilamente” abarca as informações semânticas consecutivas “estirar as pernas, meter as mãos na algibeira”, presentes no conto, entretanto, eliminadas no quadrinho. O advérbio tranquilamente e a 146 imagem elaborada para ilustrar Fortunato supõem implicitamente esta postura corporal, não havendo necessidade das palavras. Também as expressões adjetivas “Cara magra e pálida; uma tira estreita de barba, por baixo do queixo, e de uma têmpora a outra, curta, ruiva e rara.” são descartadas por já estarem concretizadas nas imagens do terceiro e quarto requadros. Um dos trechos mais reveladores e detalhados em ações no conto, também sofre redução nas legendas. Observemos o trecho, abaixo transcrito: [...] Viu Fortunato sentado à mesa, que havia no centro do gabinete, e qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o polegar e o indicador da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. [...] No quadrinho eliminou-se a legenda e inicialmente apresenta a imagem do objeto das torturas (figura 179) que passa a insinuar algo insólito: Figura 179: A causa secreta Escala Educacional, pág. 29 Somente nas quatro páginas seguintes será apresentada cada etapa da tortura, que é antecipada por dois requadros (figura 180): o primeiro com a imagem de Garcia, em perspectiva próxima, em close-up com foco no olhar atônito; o que sugere a sua chegada, e o segundo, ato que Garcia começou a presenciar – o início do ritual de tortura do rato. A colocação de apenas uma legenda para os dois requadros indica a importância do foco de observação na narrativa – de Garcia para com Fortunato. Nela a omissão do verbo viu ocorre por esta ação já está materializada na imagem. O segundo requadro não apresenta uma legenda com descrição do ocorrido, que é bem detalhado no texto base (Entre o polegar e o indicador da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura), pois a imagem por si só relatou todos os atos, evitando uma legenda que seria redundante. Notemos as imagens: 147 Figura 180: A causa secreta Figura 181: A causa secreta Escala Educacional, pág. 30 Escala Educacional, pág. 31 Figura 182: A causa secreta Figura 183: A causa secreta Escala Educacional, pág. 32 Escala Educacional, pág. 33 Garcia assite ao início da tortura, mesmo incomodado com o que vê, supondo uma ação única e rápida na queima do rato. Quando a tortura se torna mais atroz, mutilação intermediada pela queima lenta, ele interfere solicitando o término (figura 180 – último quadrinho). Fortunato absorto no prazer da ação não nota a presença do jovem médico que continua como espectador da cena. 148 A partir daí momentos de atrocidade com mutilações e queimas lentas do rato se sucedem, alternando-se com requadros de Fortunato em meio busto, close-up da face e meia face transbordando expressão de prazer (figuras 181 e 182). Para provocar o efeito de terror nos quadrinhos, o artista utiliza-se de um olhar materializado de forma enviezada e macabra, além do sombreado e as cores amarela e vermelha reluzindo no rosto de Fortunato, como chama, a intensidade de seu prazer . Na figura 183 tem-se o final da tortura na perceptível sensação de satisfação de Fortunato, que só então dá se conta da presença de Garcia e tenta disfarçar o ocorrido. Assim fica evidente que por mais que o quadrinista conserve o texto literário nas legendas dos requadros, enquanto leitor ele processa uma recriação, uma reconstrução do verbal no imagético. Também na condição de criador tem ele a liberdade de retirar trechos que se tornariam redundantes no ato de confronto do verbal e visual. A fidelidade ao texto existe até o momento em que o próprio texto não comprometa a fruição e a leveza da interpretação imagética do artista. E esta liberdade de recriação do quadrinista é contundente nas duas primeiras páginas da quadrinização pela estratégia de ficcionalização do próprio escritor do texto base. Tal estratégia torna-o narrador-personagem testemunha do novo texto. Ou seja, enquanto no conto o escritor Machado de Assis é criador de uma entidade imaginária para narrar o que viu e ouviu – narrador-personagem-testemunha, nesta quadrinização o escritor é transformado em criatura – o próprio Machado de Assis é a personagem que se dirige ao leitor para contar-lhe os fatos, como se nota nos requadros abaixo: Figura 184: A causa secreta Escala Educacional, pág. 3 149 Figura 185: A causa secreta Escala Educacional, pág. 3 Figura 186: A causa secreta Escala Educacional, pág. 4 Figura 187: A causa secreta Escala Educacional, pág. 4 A materialização do narrador é reconhecida nas ilustrações que trazem o perfil do escritor real: óculos pequenos, traje ao estilo inglês, gestos graves. Esta estratégia é utilizada para diluir a complexidade que se dá nos dois parágrafos do conto, quando a narração apresenta um fato já adiantado da história, o que dificulta ao leitor situar quem são narrador, personagens e o que realmente aconteceu. No texto base, o primeiro parágrafo apresenta uma montagem da cena com os personagens para depois situar a voz que conta, o que desconserta o leitor menos persistente, como se observa abaixo: Garcia em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o tecto; Maria Luisa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha. Havia cinco minutos que nenhum deles dizia 150 nada. Tinham falado do dia, que estivera excelente, - de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço. (ASSIS, Machado de. Obras Completas: Contos. Várias Histórias. A Cause Secreta, p.511) Nos quadrinhos, a primeira página (figura 188) é uma das mais interessantes da obra. Ela é o que preconiza Eisner (1999, p.64), “um trampolim para a narrativa, [...] Se bem utilizada, ela prende a atenção do leitor e prepara a sua atitude para como os eventos que se seguem.”. Nela tem-se como meta a centralização do leitor na instalação da situação narrativa, na qual fica clara a criatividade do quadrinista e a percepção do leitor arguto que ele demonstra ser. Observemos: Figura 188: A causa secreta Escala Educacional, pág. 3 Fica evidente a técnica quadrinística de apresentação sucinta do cerne da história já nas posturas corporais e faciais das personagens: Garcia e Maria Luisa apresentados 151 em perspectiva próxima, em figura média, nos requadros 2 e 4, parecem decepcionados. A imagem destas personagens são complementadas sintática e semanticamente em meio corpo nos requadros 5 e 7, revelando gestos de tensão. Fortunato, em close-up no quadrinho 3, complementado no requadro 6, transparece uma mistura de distanciamento e deleite. As posturas das personagens revelam uma velada discordância entre eles. Instaura-se um clima de tensão e mistério na suposta relação entre as três personagens. No segundo parágrafo, o narrador foca o presente da narrativa para o mote de desvendamento da cena instalada, ou seja, o flashback da história, como se nota: Tinham falado também de outra cousa, além daquelas três questões, coisa tão feia e grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora mesmo, os dedos de Maria Luisa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. Em verdade, o que se passou foi de tal natureza, que para fazê-lo entender, é preciso remontar a origem da situação. (ASSIS, p.511) Por sua vez, na página da quadrinização (figura 189), o narrador-personagem materializado insinua uma problemática para a história que está prestes a iniciar: Figura 189: A causa secreta Escala Educacional, pág. 4 152 É nos requadros 1, 2, 3, 4 que temos o momento de maior revelação do contador dos fatos: o narrador-personagem retratado em diferentes ângulos, posições e enquadramentos – perspectiva frontal, ora próxima, ora distante, em figura de corpo inteiro, médio e close-up – estabelece sua posição na narrativa. Mediante os seus gestos corporais, ele se mostra bem performático na ação de narrar, o que insinua uma interlocução com o receptor. Esta é a forma que o quadrinista encontrou para materializar a condição de diálogo que Machado de Assis cultiva com o leitor no texto base. No texto base, o escritor nos propicia um breve perfil das personagens caracterizadas conforme suas reações (dedos trêmulos de Luísa, rosto com expressão de severidade de Garcia); nos quadrinhos (figura 190) o quadrinista explora estas informações também nos traços faciais que ganham através das marcas de sombreamento e olhar declinado, um estado emocional de mistério, desengano e certa tristeza. Acrescenta-se a imagem de Fortunato no requadro sem legenda, o que insinua perversidade e alheamento no olhar distante. Figura 190: A causa secreta Escala Educacional, pág. 3 A cousa tão feia e grave que provocara o nervosismo de Maria Luísa e o ar severo de Garcia nos quadrinhos da figura anterior é o estopim para a narrativa ser 153 retomada nas origens. Assim situa-se a história da relação entre os três personagens, o foco das ações, passando à linearidade do ato narrativo. Têm-se desta maneira a apresentação de uma situação de mistério na página 1 e a instauração do processo narrativo na página 2, ambas entronizando a diegese para melhor explicitar a história ao leitor. Isto não ocorre no conto, no qual apenas é apresentada a cena inicial, descrita como um quadro por um narrador que não se revela para que o leitor o situe no processo de enunciação. As duas principais técnicas da arte dos quadrinhos, muito bem utilizadas nesta quadrinização do texto machadiano para intensificar as informações semânticas do texto base, é o uso do sombreado para indicar algo recôndito, que passa no íntimo das personagens, que não se revelam com clareza; e a utilização do close-up no rosto, realçando o olhar, oblíquo, enviesado que dá a impressão de ocultamento de algo que não se mostra na aparência das ações das personagens. Estes recursos trazem mais efeito às conotações que caracterizam as personagens durante toda a narrativa. É nas ilustrações de Fortunato que mais se percebe a utilização desta técnica intensificando suas características, como se pode notar: Figura 191: A causa secreta Escala Educacional, pág. 6 Figura 192: A causa secreta Escala Educacional, pág. 7 154 Figura 193: A causa secreta Escala Educacional, pág. 28 Figura 194: A causa secreta Escala Educacional, pág. 16 Figura 195: A causa secreta Escala Educacional, pág. 34 Figura 196: A causa secreta Figura 197: A causa secreta Escala Educacional, pág. 25 Escala Educacional, pág. 42 O sombreamento é constante em parte, em meia ou na totalidade da face. O olhar sempre de lado, enviesado, sempre distante, dando um ar muitas vezes 155 maquiavélico. O rosto sempre de perfil tanto em figura inteira, quanto em close up . São marcas de quem não se revela por completo e sempre tem algo a ocultar. Em Garcia, o sombreamento se dá de maneira mais leve (figuras 198, 199, 202), exceto nos momentos de maior tensão (figuras 200 e 201). O rosto em close-up mostrase mais frontal ou ligeiramente em perfil. O olhar em diagonal, geralmente mais claro, traz curiosidade, dúvida, busca, (figura 203) características típicas do observador. Figura 198: A causa secreta Figura 199: A causa secreta Figura 200: A causa secreta Escala Educacional, pág. 21 Escala Educacional, pág. 23 Escala Educacional, pág. 32 Figura 201: A causa secreta Escala Educacional, pág.36 Figura 202: A causa secreta Escala Educacional, pág. 6 Figura 203: A causa secreta Escala Educacional, pág. 17 156 Em Maria Luíza, o sombreamento é leve, em metade da face, indicativo de temor. Os olhos sempre focados para baixo, mesmo quando de perfil, acentuam-lhe um ar servil, de resignação. Quando focados para frente, mostram-se sofredores e angustiados, como se quisessem revelar algo e faltasse coragem. Em muitas cenas o olhar aparece extremamente voltado para baixo que os olhos parecem fechados, o que evidencia o aspecto da solidão e decepção da jovem. Figura 204: A causa secreta Escala Educacional, pág. 19 Figura 206: A causa secreta Escala Educacional, pág. 37 Figura 205: A causa secreta Escala Educacional, pág. Figura 207: A causa secreta Escala Educacional, pág. 19 O artista também utiliza de outras estratégias próprias da linguagem dos quadrinhos para dar mais vivacidade ao texto impondo-nos com clareza que não se trata de simples ilustrações da obra literária, mas de um novo texto imagético, no qual o quadrinista-leitor reverbera a obra literária. Assim, observa-se Cena em requadros de continuidade, intensificando as emoções e informações que quer passar ao leitor. Na figura abaixo a ausência da legenda no último quadrinho associado a esta técnica dá expressividade máxima à ação malévola de Fortunato. 157 Figura 208: A causa secreta Escala Educacional, pág. 8 A utilização de elementos icônicos de forma criativa para dar certo sentido à cena, como na figura 206 quando o formato da fumaça e as expressões das personagens sugerem o ar de descontração e familiaridade no encontro entre Fortunato, Garcia e Maria Luíza. Figura 209: A causa secreta Escala Educacional, pág. 19 Um pequeno fragmento do texto-base ganha uma série de requadros, unificados em uma única legenda. Na figura 169, para indicar um clima de desconfiança, dúvida e curiosidade, o fragmento do texto-base é materializado em nove quadrinhos, com uma legenda sobreposta nos três primeiros requadros, e os seis restantes buscando detalhar o acontecimento a partir pontos de vistas diferenciados: 158 Figura 210: A causa secreta Escala Educacional, pág. 13 Utilização de imagens a mais do que sugere o texto-base, o que mostra a visão do quadrinista enquanto leitor da obra. Na figura 208, a colocação da imagem de Fortunato já impinge algum mistério a ser descoberto, o que reforça ainda mais a atenção do leitor para sua figura um tanto incomum. Na figura 209 a imagem de Fortunato a espreitar o homem ao qual ajudara é criação do artista para intensificar ainda mais sua postura de desdém em relação ao outro. São acréscimos que atestam a transposição criativa do tradutor, o que potencializa o texto-base enquanto signo estilístico. Figura 211: A causa secreta Escala Educacional, pág. 4 159 Figura 212: A causa secreta Escala Educacional, pág. 16 Desta maneira, a literatura em quadrinhos A Causa Secreta de Vilachã torna-se um objeto cultural híbrido, ao assumir a proposta de aglutinar as distintas linguagens dos objetos que antes pareciam atender a públicos distintos, mas que neste entrecruzamento tende a alcançar um universo maior de leitores. A hibridez acaba se efetivando via tradução intersemiótica, ou seja, há transposição criativa de signos estéticos verbais para signos estéticos icônicos, o que origina um novo texto. O quadrinista é um leitor/criador que, muito além de conservar ao máximo o texto literário base, amplifica-lhe o sentido via ressignificação processada em sua leitura. Aqui, traduzir é materializar em imagens o texto verbal machadiano, levando-se em consideração a forma peculiar do quadrinista ler as suas metaforizações. 160 3. OS CONTOS E REQUADROS MACHADIANOS NA APRECIAÇÃO DO LEITOR CONTEMPORÂNEO 3.1 O leitor na contemporaneidade No processo comunicacional literário, o leitor contemporâneo não é mero elemento passivo que se porta como auscultador da cultura e do saber da literatura da elite letrada, esta tomada como referência de formação do sujeito. Muitos e diversos são os objetos culturais híbridos de leitura que dialogam com a literatura. Muitas são as compreensões do ato de ler. Nos dois últimos séculos, o leitor tornou-se uma figura bastante discutida frente às transformações culturais. Compreender quem é este sujeito da leitura está atrelado ao entendimento do processo que ele executa e dos objetos culturais que ele vasculha. A visão da leitura como mero processo de decodificação da palavra escrita está sendo ampliada. Não se trata apenas de decifrar os códigos verbais escritos como nos textos pragmáticos cotidianos. Muito menos de assenhorear-se dos mecanismos das obras literárias canônicas que requerem leitores iniciados, isto é, indivíduos dotados de habilidades que facilitam e permitem o domínio dos estratagemas específicos daquelas produções. Ao lado da leitura meramente informativa, que inunda a vida cotidiana do trabalho e das relações sociais, há outra proposta de leitura cuja interpretação carece de habilidades linguísticas consideradas do padrão culto – a da literatura letrada. Tais produções determinam por si só certo caráter de exclusão, por não serem de fácil acesso a um grande público. Existe um descompasso, alimentado pela desconsideração dos leitores das culturas periféricas, grupos desprivilegiados por não deterem poder socioeconômico, mas que nem por isso deixam de ser olhados como consumidores em potencial. Neste universo de descompasso emergem práticas leitoras fomentadas pelo mercado e favorecidas pela gama de textos que rompem a fronteira do código verbal letrado e que se articulam com experiências e saberes antes relegados à marginalidade. O texto literário culto passa a dividir espaços com a literatura popular, com os objetos culturais antes considerados como pertencentes apenas à cultura de massa (cinema, quadrinho...) e com produtos da tecnologia que negam a condição de exclusivismo ao livro tradicional. Esta perspectiva é confirmada nas palavras de Martin-Barbero (2004) 161 quando este acena para novas tendências do conceito e domínio da cultura na sociedade moderna, tecnológica e globalizada, que tende a “[...] densificar-se e se converter em estrutural, pois a tecnologia remete hoje não a novas máquinas ou aparelhos, mas a novos modelos de percepção e de linguagem, a novas sensibilidades e escritas.”. Frente a esta gama de possibilidades, o sujeito leitor passa a ser visto como um indivíduo cujas identificações em muito vai definir sua escolha de leitura. Esta atitude, no entanto, não segrega a atividade leitora a um único gênero textual, visto que a grande circulação dos textos híbridos amplifica a atividade leitora. Ler, neste contexto sóciohistórico e na presente pesquisa, passa a ser um ato tradutor, de domínio de diferentes códigos que dialogam e ressignificam práticas culturais diferenciadas, o que faz com que se ampliem as fronteiras de apreciação. É forçoso, entretanto, abrir espaço para um questionamento: num país onde o ato de ler está atrelado ao domínio dos textos seletos da elite letrada e é quase que restrito ao ambiente escolar, como o leitor literário contemporâneo tem acesso a este produto da leitura? A academia idealiza o leitor literário como um dos partícipes do percurso da obra literária tradicionalmente estruturada na tríade autor/obra literária/leitor. As abordagens teóricas de leitura variam conforme o foco, segundo Antoine Compagnon (2001,p. 139): [...] A abordagem objetiva, ou formal, da literatura se interessa pela obra; a abordagem expressiva, pelo artista; a abordagem mimética, pelo mundo; e a abordagem pragmática, enfim, pelo público, pela audiência, pelos leitores. Os estudos literários dedicam um lugar muito vulnerável ao leitor [...] O lugar destinado ao leitor é delimitado pela contradição, segundo Compagnon. Por um lado, nas correntes de leitura imanente ao texto, ele é ignorado, visto como um mero receptor da obra-organismo autônomo ou simples elemento constituinte da obraestrutura sistêmica organizada. É visto como um apreciador da obra, produto social pela sociologia da literatura. Em outras discussões o leitor é extremamente valorizado e o ato de leitura da obra literária procede pela simpatia e reações deste leitor, que muitas vezes confunde o processo de compreensão do texto literário com a leitura de si mesmo. Assim, de acordo com o teórico, coexistem diferentes denominações acadêmicas, com que se qualifica o leitor, conforme o papel que a teoria lega. Destacase o leitor empírico, real, do cotidiano, isto é, aquele leitor que faz a leitura voltada para 162 aspectos pragmáticos. Geralmente só terá contato com o texto literário quando chega ao mundo da escola. Para o estruturalismo, corrente literária que prima pela leitura objetiva, a obra literária é tomada como uma estrutura. Segundo Eagleton (2001), tal corrente trazia em sua prática a separação do conteúdo real da história e concentrava-se na forma. O leitor não é considerado como um sujeito histórico e social, o leitor ideal, “[...] apenas uma espécie de espelho refletor da obra – alguém que a compreendia ‘tal como era’. [...] perfeitamente equipado de todo o conhecimento técnico essencial para [decifrá-la].” ( p. 166). Assim o leitor, elemento sem subjetividade, tem a leitura regulada pelas imposições textuais, realizando a descrição estrutural do texto e não a interpretação, o que o torna uma espécie de elemento funcional do texto. Para o new-criticism, o leitor-aprendiz é o indivíduo “[...] a quem é preciso ensinar a ler mais cuidadosamente, a superar suas limitações individuais e culturais [...]” (Compagnon, 2001, p. 142). A obra é tomada como unidade orgânica suficiente, da qual deveria ser realizada uma leitura fechada, objetiva e descritiva. Para Candido (2008), um dos representantes da crítica sociológica no Brasil, a literatura é um sistema vivo de obras que agem umas sobre as outras e sobre os leitores. Estes é que dão permanência à obra – produto fixo ante o público. Obra e público atuam um sobre o outro. Contudo o leitor é denominado público, não um grupo social específico, mas uma coleção de indivíduos organizados ou não, que trazem em comum o interesse pelo fato que a obra literária veicula. O foco não se centra no leitor, mas no contexto de produção e na representação social veiculada na obra. Na estética da recepção, segundo Compagnon, “[...] o objeto literário não é o texto objetivo, nem a experiência subjetiva, mas o esquema virtual (uma espécie de programa ou partitura) feito de lacuna, de buracos e de indeterminações. Em outros termos, o texto instrui e o leitor constrói. [...] (p.150)”. Nesta relação texto/leitor, Iser defende o princípio do leitor implícito, calcado no autor implícito que, segundo Booth, tratava-se de um substitutivo do autor na obra. Aqui, “[...] haveria, assim, em todo texto, construído pelo autor [...] um lugar reservado para o leitor, o qual é livre para ocupar ou não” (idem). Apesar das diversas definições teórico-acadêmicas, o leitor que a escola secularmente cultiva (ou imagina cultivar) ainda está extremamente relacionado ao decodificador passivo frente à supremacia da obra literária, no processo de leitura que 163 produz apenas uma única possibilidade de entendimento do texto, tomada como correta. A escola, por sua vez, busca ensinar ao aluno a literatura culta, o que é alcançado via aprendizagem dos recursos de linguagem, da estrutura do texto, da contextualização do momento de produção e da biografia do autor. Ocorre pouca ou quase nenhuma experimentação do texto e as respostas aos questionamentos são condicionadas aos manuais utilizados pelos professores. Não obstante, a educação oferecida pelo aparelho estatal prevê a estética da sensibilidade, além da igualdade e identidade como fundamentos para as experiências de aprendizagens na escola, pressuposta na Constituição e na LDB. Tal estética substitui, no ambiente escolar, a padronização e a repetição dos modos de agir e pensar, instauradoras de ideologias homogêneas, pelo estímulo à criatividade, ao espírito inventivo, à afetividade para facultar a construção da identidade numa sociedade na qual o incerto, a inquietação, o imprevisível e o diferente tornam-se a tônica das relações e produções. O leitor, neste contexto, passa a ser visto como um sujeito de ação e integração no ato de leitura e com acessibilidade às diversas formas de textos produzidos na cultura. Nos Parâmetros Curriculares: do Ensino Médio (1999, p. 76) está previsto que: A estética da sensibilidade não é um princípio inspirador apenas do ensino de conteúdos ou atividades expressivas, mas uma atitude diante de todas as formas de expressão [...]. Ela não se dissocia das dimensões éticas e políticas da educação porque quer promover a crítica à vulgarização da pessoa; às formas estereotipadas e reducionistas de expressão da realidade; às manifestações que banalizam e brutalizam as relações pessoais. Neste contexto da estética da sensibilidade, o leitor enquanto sujeito histórico e cultural teria a liberdade de elaboração de leituras e possibilidade de apreciação dos diversos produtos da cultura, visto que ela “[...] não exclui outras estéticas, próprias de outros tempos e lugares. Como forma mais avançada de expressão ela as subassume, explica, entende, critica, contextualiza porque não convive com a exclusão, a intolerância e a intransigência.”(PCN p. 76). Muito diferente do previsto, a prática leitora promovida pela escola autointitulada de democrática é, em muito, arcaica, autoritária e excludente. Quando muito, privilegia apenas o domínio de textos interligados com as necessidades do mundo referencial em que o sujeito é solicitado a agir de modo pragmático, uma vez 164 que ele se depara com a necessidade de atuações objetivas. A leitura literária é apenas uma exigência do currículo para os exames vestibulares, pretexto para estudos gramaticais e não uma prática comunicativa promotora do prazer estético, em tudo bem distante, portanto, do que descreve Reis (1992, p.76): O ato de leitura é um fenômeno altamente complexo e possui um caráter eminentemente dialogal: na leitura não interagem não apenas o leitor e o texto, mas, através do texto, o leitor entabula uma conversação com o autor, com o contexto histórico e social, com uma cultura, uma tradição literária, uma visão de mundo, um acervo linguístico. Neste sentido, a pretendida formação para a leitura literária orientada pela estética da sensibilidade conduz a um posicionamento político de consciência individual e social pelo respeito às diferentes produções e formas de expressões que estabeleçam a percepção das realidades sócio-culturais e promovam trocas de experiências capazes de tornar o sujeito crítico. Para isso, urge uma análise textual balizada em caminhos teóricos que ofereçam uma prática leitora para além da mera percepção estrutural e da reverberação do discurso elitista que permeiam a leitura dos clássicos na escola, como comenta Reis (idem, p.86): [...] a análise textual não é por si só bastante para dar conta do fenômeno literário em toda a sua extensão e complexidade – em particular se pensamos em surpreendê-lo em sua interseção com a trama social – cabe acentuar que uma abordagem do texto, mesmo daqueles canônicos, que esteja animada pelo mencionado paradigma e que exponha a uma diferente maneira de ler já faz emergir um leque de idéias fecundas para se pensar a literatura e a cultura brasileira, as quais deveriam ser arrematadas, num outro simultâneo gesto de leitura, pelo inventário das condições de circulação, reprodução, legitimação e consumo deste mesmo texto no interior do campo e da sociedade em que figurar. Trata-se de possibilidades de ler que privilegiem a leitura da sociedade e da cultura multifacetadas. Dois caminhos são recorrentes nos últimos anos: na teoria literária, a estética da recepção; nas discussões culturais, o interculturalismo. A estética da recepção, teoria da crítica literária discutida com mais fervor na década de 60 e 70 do século XX, é retomada como uma nova atitude diante das práticas de leituras contemporâneas. Segundo destaca Costa Lima (2002), a princípio a referida teoria colocava o leitor como centro da pesquisa recepcional defendida com vigor por Jauss. Com Iser, houve uma tendência para uma compreensão do texto enquanto 165 estrutura marcada por indeterminações que orientam o leitor e ativam a sua participação nas variadas construções de sentido. Posteriormente, Gumbrechet teoriza o deslocamento do foco para a compreensão do processo realizado pelo leitor como construtor das diferentes exegeses de um texto, abandonando a clássica ideia de uma única interpretação correta que erige a imagem do leitor ideal. Nesta recondução do papel do leitor no ato da leitura, enquanto sujeito social, ele teria historicidade e identidade respeitadas dentro da escola, espaço destinado para as práticas leitoras, especialmente as literárias, o que o faria caminhar ao encontro da postulada estética da sensibilidade. Vale salientar que, segundo Jauss12 a leitura literária que deveria então, como em qualquer arte, promover no leitor o prazer estético, recebe, na atualidade, novas compreensões. Tais compreensões são motivadas pela dissociação entre trabalho e prazer e pelas constantes críticas à reação de prazer relacionada à espiritualização da arte, em contraponto ao efeito de consumo promovido pelos produtos da cultura de massa. Este contexto promove posições ideológicas distintas quanto ao entendimento do tão discutido prazer estético, que para algumas reflexões marxistas, nada mais é que uma forma burguesa de apreciação. Para este teórico o prazer estético: [...] perdeu muito de seu sentido elevado. Outrora, o prazer justificava, como um modo de domínio do mundo e de autoconhecimento e, a seguir, como conceito da filosofia da história e da psicanálise, as relações com a arte. Hoje, para muitos a experiência estética só é vista como genuína quando se priva de todo o prazer e se eleva a um nível de reflexão estética. (JAUSS, 2002) Diante dos diferentes posicionamentos, interessa-nos observar que a comunicação literária só preserva o caráter de experiência estética, de acordo com Jauss, se a atividade da poiesis (técnica), da aistheses (visão de mundo) ou da katharsis (comunicação) mantiver o caráter de prazer, afirmando a autonomia da ação humana, aqui, ação do leitor. Desta maneira, a oscilação entre prazer sensorial e reflexão estética, típica da moderna teoria da arte, confirma as diferentes abordagens do leitor frente ao texto. Tais abordagens, ainda segundo Jauss, são muito bem definidas e reelaboradas 12 JAUSS, Hans Robert. A estética da recepção: colocações gerais. In LIMA, Luiz Costa (Org.). A Literatura e o leitor: textos da estética da recepção. Rio de Janeiro: terra e Paz. 2002 166 por Goethe (Apud. JAUSS, Hans Robert in LIMA, Luiz Costa (Org.) p.103 ) na antecipada inversão da aiesthesis em poesis, ao afirmar que “Há três classes de leitores: o primeiro, o que goza sem julgamento, o terceiro, o que julga sem gozar, o intermédio, que julga gozando e goza julgando, é o que propriamente recria a obra de arte.” As diferentes formas de apreciação do leitor acima observadas já nos encaminham para uma postura recorrente do leitor contemporâneo: os textos literários considerados por ele difíceis não provocam satisfação, uma vez que lhe dão trabalho para a realização da leitura e interpretação. Esta postura provoca uma tendência à preferência pelos textos híbridos icônicos, considerados facilitadores do entendimento de obras literárias na contemporaneidade. Neste sentido, produtos das diferentes culturas (da elite, da popular e da de massa) são reelaborados e facilitam a percepção dessa variedade cultural. Diversidade esta, própria do ambiente escolar por ser compostos de sujeitos de variadas realidades culturais e que na vida cotidiana é seduzido por produtos multiculturais. Tais produtos que ainda não circulam devidamente na escola, aparecem esporadicamente em práticas dúbias. O processo da multiculturalidade não se limita apenas à percepção da existência da diversidade cultural. Ele avança para um posicionamento político segundo o qual, no mundo globalizado, as culturas se confrontam e se aglutinam, produzindo textos híbridos numa tendência à interculturalidade. Esta interculturalidade, compreendida como a promoção de diálogos com as diferentes culturas, concretiza-se nos novos produtos culturais descortinadores de novas sensibilidades, promotores da socialização das artes e das diversas experiências de vida. Neste contexto, a escola, para sobreviver, necessita tornar-se um espaço propício para os diferentes produtos culturais em suas práticas de leitura, estas tomadas como forma de comunicação de conhecimento. E para evitar o ostracismo e a repulsa do texto literário, devido ao “trabalho” empreendido no ato de ler, precisa ser promovido o diálogo dos diversos produtos, com vistas à possibilidade de prazer do leitor. Tais produtos vêm ganhando visibilidade pela cultura das mídias que faz surgir novos textos, transformados por intermédio da tradução intersemiótica. São textos híbridos que circulam na sociedade contemporânea em variados suportes e promovem o encontro da literatura na música, da música nos quadrinhos, dos quadrinhos no cinema, da literatura nos quadrinhos, da literatura no cinema, do cordel nos quadrinhos, do 167 cordel na TV. Neste processo de linguagem intercultural, a estética da sensibilidade e o senso crítico do sujeito leitor são privilegiados. É neste contexto que nos interessa compreender como produtos distintos - o conto literário e a quadrinização - são apreciados pelo leitor contemporâneo. A interação deste leitor com o texto machadiano, produto da literatura clássica, e hoje, também inscrito, na cultura das mídias pela via do filme, da minissérie, e neste caso particular, da história em quadrinhos, torna-se objeto interessante para estudo. 3.2 – O contexto da atividade investigativa Entre contos e requadros: a recepção do texto machadiano na contemporaneidade Com esta percepção de distanciamento entre o que a academia imagina como leitor nas teorias literárias clássicas e a realidade da(s) identidade(s) leitora(s) numa sociedade multi e intercultural, associada à dificuldade da escola interagir com este novo paradigma de cultura, buscamos construir uma análise de como age e interage o leitor contemporâneo frente ao texto da literatura clássica machadiana e a literatura em quadrinhos. Neste intuito, foi realizada uma pesquisa mais pontual, uma atividade investigativa, intitulada Entre contos e enquadramentos: a recepção do texto machadiano na contemporaneidade, que teve como objetivo observar como o leitor empírico reage e como fazia emergir a sua experiência estética diante do texto de Machado de Assis (literatura clássica) e da obra quadrinizada do referido autor (produto cultural híbrido). Descreveremos este processo em todos os seus constituintes: onde, quando, como e quem. A análise dos dados se configurou em uma seção específica do nosso texto. O local da atividade investigativa foi o Colégio Polivalente Edvaldo Boaventura, uma escola tradicional em Jequié. Ela traz um passado de glórias por ter sido um colégio público que oferecia o ensino fundamental de 5ª a 8ª série, cujas vagas eram disputadas por todas as classes sociais da cidade. Seu público discente era constituído por estudantes, em sua maioria, oriundos da classe média-alta e que ocupavam boa parte dessas vagas por terem alcançado as maiores nota na seleção. A forma de entrada na escola na década de 1970 até meados dos anos 1980 era uma avaliação escrita das 168 disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática. Esta era a única escola pública de Jequié que realizava processo de seleção, haja vista a grande procura por suas vagas, o que comprova sua tendência elitista. A partir de 1984, devido à política educacional de democratização do ensino, foi eliminado o teste seletivo e ampliou-se o universo da escola, que passou a oferecer o Ensino Médio, com o curso Propedêutico diurno, e implantou o ensino noturno nesta mesma modalidade. Aos poucos a escola diminuiu a sua oferta de ensino fundamental, que passou a ser de responsabilidade da rede municipal de ensino, concentrando-se no Ensino Médio. Em 2009 instituiu a oferta do Ensino Médio Profissionalizante em conformidade com as novas metas da educação básica no estado, que prevê também, a preparação do jovem para o mundo do trabalho. Tal escola vive ainda o saudosismo de seu período áureo, momento no qual possuía o ensino fundamental, o qual para muitos professores, melhor preparava os alunos que chegavam ao Ensino Médio, desenvolvendo suas habilidades de leitura, escrita e cálculo. Houve tentativas de recolocação das séries finais do ensino fundamental, de 2008 a 2010, com o objetivo de amainar este déficit de aprendizagem, o que não surtiu o efeito desejado. Atualmente o colégio apresenta baixas médias no IDEB, Prova Brasil, ENEM e exames vestibulares. Estes resultados insatisfatórios são atribuídos pelos professores à entrada de alunos de diferentes escolas, geralmente dos bairros periféricos e alguns oriundos da zona rural. O espaço de leitura no colégio ainda é restrito, destinado quase que especificamente às aulas de Língua Portuguesa, predominantemente gramaticalistas, nas quais a literatura culta é trabalhada pontualmente com seminários sobre os estilos de época, escolas literárias e biografias de autores consagrados. A leitura literária não é estimulada, poucos alunos recorrem, por conta própria, à biblioteca que tem um espaço e acervo diminutos. A leitura de produtos culturais diferenciados, quando realizada, dáse de forma mecânica, sem reflexão e estímulo à formação leitora: assiste-se a filmes para responder algumas questões de sociologia, filosofia, história e ecologia, em práticas disciplinares isoladas. 169 A atividade investigativa foi realizada no mês de setembro de 2010. O período foi escolhido por se tratar de um mês do calendário escolar em que, pelo menos em tese, 70% dos conteúdos já estariam ministrados e as habilidades pretendidas já teriam sido alcançadas. Nesta altura, a escola já havia realizado boa parte dos projetos planejados. Restavam ainda três semanas para o final da terceira unidade. Os alunos da 3ª série já tinham realizado o ENEM e buscavam definir suas escolhas de curso para prestar o vestibular. A atividade foi executada em quatro dias, em período oposto às aulas, em salas do próprio colégio; foram realizados quatro encontros com duração de quatro horas cada um. A chegada dos alunos não era marcada pela pontualidade, visto que eles saíam do seu turno de aulas às 11h40 e teriam de estar de volta às14h para esta atividade voluntária. Nenhum deles residia próximo à escola, e a participação na pesquisa já indicava interesse incomum entre os alunos. Geralmente, estes só participavam das atividades promovidas pela escola, caso estas objetivassem atribuição de notas para as disciplinas do currículo. A formação do grupo de leitores deu-se a partir de convite informal feito pela assistente de direção do turno matutino, Leila Graciela, funcionária contratada na escola sob Regime Especial de Direito Administrativo - REDA, com formação superior em Pedagogia. Todo o projeto foi explicado à referida funcionária, destacando-se que o gosto pela leitura era o requisito para participação nos encontros de leituras do texto de Machado de Assis. Ela contactou diversos alunos do 1º, 2º e 3º ano do Ensino Médio, que sempre costumavam frequentar a biblioteca em momentos livres. Eram adolescentes que constantemente buscavam a biblioteca para empréstimos de livros. O primeiro encontro ocorreu no dia 02/09/2010, ao qual compareceram dezessete adolescentes, sendo um rapaz e dezesseis moças, com idades entre quinze e dezoito anos. Quando indagados sobre o porquê da aceitação do convite, eles quase que unanimemente apontaram a curiosidade como motivação. Duas constatações já poderiam ser feitas: primeira, a leitura literária é uma prática que atrai um número 170 reduzido de alunos; segunda, a falta de uma prática consistente deste tipo de leitura, o que só ocorre em momentos mínimos no horário de aula. O projeto da atividade investigativa foi apresentado em linhas gerais e foi explicada a metodologia dos encontros. Apenas uma garota se apresentou como leitora assídua do texto machadiano. Todos ficaram surpresos quando informados de como procederiam nos círculos de leitura: eles falariam sobre o entendimento que teriam do texto lido e o pesquisador se portaria como ouvinte. Alguns ficaram apreensivos e esboçaram o receio de participar devido à timidez e ao medo de errar. Ficou claro que os alunos traziam consigo experiências de aulas com leitura nas quais o professor era quem sabia e falava do texto, cabendo a eles o silêncio pelo receio de errarem. Foi explicitado ao grupo que todo leitor tem algo a dizer sobre o texto que lê, com o que corrobora Reis (1992), ao afirmar que: Um texto literário, escreve Jenaro Talens, não é uma presença, mas um vazio, cuja semantização está para ser produzida pela práxis historicamente determinada do leitor. É o ato de leitura que faz com que o espaço vazio se transforme em uma obra literária, produzida depois de ter sido transformada em algo dotado de um significado pela apropriação do leitor. Esclareceu-se que nada do que fosse falado por eles seria utilizado indevidamente, de forma que os constrangessem. Foi solicitado que lessem e assinassem o termo de aceite para participação na pesquisa e que levassem para os pais ou responsáveis, para que estes tivessem ciência sobre a pesquisa e demonstrassem aquiescência à participação dos filhos na atividade. O grupo foi consultado a respeito do calendário dos encontros, sendo a princípio agendados às segundas-feiras, durante três semanas. Este cronograma não funcionou, pois o primeiro círculo de leitura antecedia a um feriado, o que fez com que fosse reprogramado para três dias consecutivos: 13, 14 e 15 de setembro de 2010. O primeiro círculo de leitura teve como texto o conto machadiano A causa secreta. Inicialmente justificou-se aos alunos voluntários que o gênero conto foi escolhido para a prática leitora por caber temporalmente na proposta do círculo e o texto A causa secreta, porque além de instigante, era facilmente encontrado nos manuais didáticos, e possivelmente já seria conhecido por eles. 171 Foi entregue o texto xerografado para a leitura individual estimada em quarenta minutos. Antes de iniciarem, pediram folha de ofício e caneta para anotações. Nenhum participante concluiu a leitura antes de cinquenta minutos, o que denotou um ritmo lento de leitura, frente ao texto literário. O segundo círculo de leitura foi realizado com a adaptação em quadrinhos de A causa secreta, que foi recebida como uma novidade pelos voluntários. Foi explicado que tipo de texto era e solicitado, em seguida, uma apreciação do texto quadrinizado, destacando qual a novidade deste tipo de texto. Cada aluno recebeu uma quadrinização colorida, evitando a xerografia (em preto e branco) pelo fato de anular as informações pertinentes à linguagem das cores, próprias das histórias em quadrinhos. O terceiro encontro foi destinado ao confronto dos dois textos e a avaliação dos alunos sobre como perceberam cada texto, como interagiram e que efeito cada um lhes causou, na condição de leitor. Os registros dos círculos de leitura foram feitos de duas formas: a gravação dos depoimentos e a compilação por escrito das principais impressões relatadas. O público alvo da atividade investigativa Entre contos e enquadramentos: a recepção do texto machadiano na contemporaneidade foi realizada, como já apontado, com alunos do Ensino Médio, do turno matutino. A escolha deste turno se deu por possuir um universo maior de alunos cursando a 2ª e a 3ª, séries, que já teriam travado algum contato com o texto de Machado de Assis, considerando o currículo da escola. Vale destacar que não foi destinado nenhum momento da pesquisa para descrever a obra e o estilo do referido autor, isto porque interessou-nos observar o contato do aluno com o texto, a partir do qual supostamente seriam utilizadas as habilidades para leitura literária, em tese, trabalhadas nas aulas de Língua Portuguesa. No encontro de apresentação da atividade, os dezessete alunos que se fizeram presentes traziam um misto de curiosidade e a vontade de ter mais informações, aspectos típicos dos jovens comprometidos com os exames vestibulares. Apenas oito continuaram no processo, os outros desistiram porque seria um trabalho com leitura e teriam um espaço maior para exposição de idéias, com pouca participação do mediador. A timidez, a crença no conhecimento ditado pela autoridade do professor e não na construção coletiva do grupo foram os elementos determinantes para a desistência. 172 Dos oito alunos participantes da atividade investigativa, dois cursavam a 3ª série e seis a 2ª. Eram sete garotas e um garoto com idades diferenciadas: um tinha 15; dois, dezesseis; três, dezessete; e dois, dezoito anos. Os oito alunos expuseram de forma diferenciada o motivo de estar no grupo da pesquisa: três disseram que queriam aprender para o vestibular, dois desejavam conhecer mais literatura, dois justificaram não terem sido chamados, mas souberam da proposta por meio dos colegas e vieram movidos pela curiosidade, e apenas uma aluna confessava-se leitora de textos machadianos. A maioria dos alunos disse que só lia textos literários quando o professor solicitava na sala de aula para teste, trabalho em grupo ou prova. Uma aluna informou que Machado de Assis foi trabalhado pelo seu professor de Língua Portuguesa mediante a leitura em grupo de alguns contos (inclusive A causa secreta) com o objetivo de responder algumas questões formuladas previamente; ela informou, também, que muitos alunos sequer entenderam o texto. O perfil de leituras preferido dos alunos era bem diversificado: revistas, jornais, livros de auto-ajuda, literatura infanto-juvenil contemporânea (Crepúsculo, Eclipse, Amanhecer, Coleção Harry Potter...), história em quadrinhos. Apenas uma aluna era leitora da literatura “clássica” (Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego, José de Alencar, José Saramago...). Podemos afirmar que tivemos leitores de textos diversos, mas distantes da literatura clássica que era caracterizada como de difícil compreensão devido à linguagem de “outra época”, sendo, na visão deles, melhor pegar resumos da internet ou ver os filmes adaptados dos romances. Pelo menos duas observações podem ser feitas referentes a esses jovens leitores, a partir do diálogo inicial travado com o grupo de pesquisa: primeiro, o paradigma de leitura imposto pela escola afasta os alunos da leitura literária clássica, visto que a literatura é apresentada com uma única possibilidade de leitura, uma leitura correta (do professor que impõe as respostas, tidas como certas, dos manuais didáticos, diante de outras erradas, construídas pelos alunos); segundo, a linguagem dos textos clássicos traz um repertório vocabular diferente do vivenciado pelos alunos, o que os afasta da compreensão do texto. 173 3.3- O leitor entre contos e requadros: relatos de recepção Numa proposta de leitura que ressoe a estética da sensibilidade e ao mesmo tempo o faça confrontar com o interculturalismo dos meios de produção, circulação e reprodução do texto literário, os alunos voluntários realizaram leituras do conto literário machadiano e da quadrinização na atividade investigativa intitulada Entre contos e enquadramentos: a recepção do texto machadiano na contemporaneidade. O primeiro passo foi a realização do Círculo de Leitura Nº 01 intitulado O leitor contemporâneo e o conto machadiano “A causa secreta”. A princípio os participantes estavam tímidos, sendo necessária a mediação para serem instigados a posicionar-se com sua leitura. Para isso contamos com a colaboração da Profª Adlene Karla Nunes Rocha, pertencente ao quadro docente da escola, mas que não é professora dos participantes da pesquisa. A participação da professora nos ajudou no sentido de termos uma ação mediadora o mais imparcial possível, sem privilegiar aos alunos já considerados leitores literários. A leitura silenciosa prevista para cinqüenta minutos ampliou-se para mais de uma hora. Quando confrontados com o conto literário, os leitores apresentaram dificuldade em construir uma leitura seqüenciada, expondo as informações gerais, que apareciam claras no texto, evitando as indeterminações. A princípio, foi solicitado dos leitores que colocassem suas impressões sobre o texto. Eles destacaram os fatos que julgaram marcantes e que estavam explícitos na primeira leitura. O texto foi tomado, neste primeiro momento, muito mais como espaço no qual se veiculam comportamentos individuais dignos de discussão e não como objeto estruturado para apreciação estética, como se observa na fala de Leiliane: Eu começaria com a personagem tipo Garcia (...) a frieza de uma pessoa com animais que não apresentava nenhum tipo de risco para ele... Ele faz questão de cutucar, no caso do cachorro... e a frieza parte por parte de um rato. No caso, ainda chamava a mulher de medrosa pelo fato de ela não assistir tal fato... E aí eu... por isso que eu acredito na frieza dele com o que não apresentava nenhum risco para ele. Como a sequência narrativa do conto era inversa e a narração iniciava com o relato do episódio posterior ao clímax, houve confusões na identificação das personagens por Leiliane, o que foi ratificado por Ana Carolina, em comentários que 174 progrediram na direção dos fatos e atos mais contundentes para a caracterização da personagem Fortunato, tomada como referência na leitura do texto: Fortunato, né? Que tinha essa frieza com os animais. Ele era frio mesmo... No começo ele falava que o amigo dele, Garcia, como estudante de medicina. Ele aí ... ele pede Fortunato para ajudar uma tal pessoa que tinha sido agredida na rua. Depois que ele ajuda essa pessoa, que vai na casa agradecer, quando essa pessoa sai, ele vai falar para essa pessoa que o agressor era ele. E aí começa... ele ser uma pessoa extremamente fria... e depois que começa a estudar anatomia, fisiologia começa com os animais, como ela falou aí. Ele tem prazer de torturar animais. Raquel, uma leitora com prática de leitura maior, como se pôde perceber nos comentários que teceu durante todo o trabalho, avançou da leitura intuitiva, de fruição, para uma reflexão estética, quando avaliou o estilo do autor: Ele faz... Ele descreve bem as características pessoais, o caráter de cada um [com relação ao autor]. No caso de Fortunato, quando ela fala da frieza, mas também salienta que no fundo ele gostava... do prazer que ele tinha de ver o outro sofrer... O autor descreve bem as características e sentimentos das pessoas. Marília foi uma leitora que buscou ampliar a visão do texto, quando rompeu com a imagem de Fortunato como o “frio da história”, em suas palavras, destacando a falta de ação da esposa, Maria Luisa, como preponderante no comportamento do esposo, apesar do foco permanecer em Fortunato: No texto, Maria também é muito fria. Mostra ela cometendo o adultério. Mostra que ela não tinha piedade. Ela não fez nada com as crueldades dele [Fortunato]. Ela é muito fria. Na hora que Garcia beija Maria Luiza, beija uma vez, volta a beijar... ele mostra o prazer com a dor que ele tem com a dor das pessoas. Toda leitura caminhou para a frieza de Fortunato ou para a história do amor secreto de Garcia e Maria Luiza, já destacada na fala de Marília e tomada como tônica nas observações que se seguiram, como “Eu achei muito bonito quando ele beijou.”, na fala de Siérico e “Garcia beijou e chorou. Na verdade, entre beijar e chorar ele gosta de Maria. Ele gostava dela. Ele amava Maria.” observação de Aiala. Neste momento a tônica da leitura romântica e ingênua tornou-se dominante, ao ponto de a figura feminina sofredora dominar o comentário de Liliane: Eu vi como a representação até... de um sentimento no momento que ele foi beijá-la. Ele chorou. Passou um ponto positivo. Mas eu... 175 discordando de Marília... Eu não considero ela tão fria. Por dentro ela não queria, mas não fez nada para se opor. Ela sente na pele, não pelo fato de assistir o rato. Além da postura cortês romântica de Garcia, própria da burguesia, ser defendida por Raquel: “Mas eu acho que Garcia, no caso dele foi questão de respeito. Era um amigo dele. Guardou o sentimento por respeito. Porque era um amigo... Pelo fato de respeitar a instituição casamento... No meu entender não houve adultério”. Percebeu-se, nesta altura das discussões, a continuidade da tendência romântica, mas agora acrescida do elemento maniqueísta. Três proposições foram observadas nos comentários do grupo de leitores, que confirmam esta tendência: primeiro, Fortunato era extremamente frio, cruel, próximo daquilo que a literatura tradicional chama de vilão; segundo, Garcia e Maria Luiza viviam uma história de amor secreta, incentivada até pela frieza e falta de atenção de Fortunato enquanto marido; e, por fim, Maria Luiza era a vítima, sofredora e submissa às pressões oriundas do comportamento estranho e distante do marido. Tal comportamento de Fortunato passa a ser notado como um desvio patológico da personalidade, assim definido por Ana Carolina, uma das participantes do círculo: Tem uma parte [episódio do rato] que fala que ele não sentia nem raiva, nem ódio. Era isto prazer... uma sensação estranha. Ele tava gostando daquilo e fingindo que não gostava. Para mim era uma doença – o sadismo – que a pessoa faz o mal a pessoa ou animal e sente prazer com aquilo. Neste ponto, ficou claro que os leitores traziam consigo um arsenal de proposições oriundas das suas impressões um tanto intuitivas, e de uma pequena bagagem da leitura inocente da literatura do texto romântico oferecida pelo parco trabalho com a literatura no Ensino Médio. Norteados por tais elementos, os leitores voluntários demonstraram tentar cingir sua leitura a uma única interpretação, fugindo de uma série de indeterminações13 que o texto machadiano oferece. 13 Por inderterminação entendamos os elementos que provocam diferentes efeitos nos leitores e a leitura como a transformação dos signos do autor. Descrever a relação texto e leitor passa pela pesquisa de três estágios, segundo Iser: primeiro a indicação das qualidades singulares do texto literário; segundo, nomeação e análise dos elementos básicos dos efeitos que as obras literárias produzem (as indeterminações); e terceiro, o esclarecimento do visível crescimento das indeterminações na literatura a partir do séc. XVIII. (Cadernos do Centro de Pesquisas da PUCRS, série Traduções, Porto Alegre, vol.3. n.2, março de 1999) 176 Quatro indeterminações puderam ser notadas nas estratégias utilizadas pelo autor e que foram detectadas mais tarde durante as discussões entre os alunos nas tentativas de reconstrução do texto lido. A primeira, a estrutura narrativa inversa, o que dificultou o entendimento dos fatos e de quem os realizou. A segunda, a sutil parcialidade do narrador para centralizar os fatos conforme o olhar da personagem Garcia, sem declarar tal tendência, o que causou dificuldades para uma percepção mais acurada sobre as personagens e ludibriou os leitores na avaliação das ações. A terceira, o título do texto visto como “pegadinha”, posto que trazia notória ambigüidade por trás de uma história de tônicas superficialmente maniqueístas. Por fim, a quarta, embutida nos comentários do narrador. Das quatro indeterminações, não expressas com consistência pelas leituras construídas pelos alunos voluntários, o comentário do autor, aspecto próprio do repertório de indeterminação do texto que pode direcionar a resposta do leitor, foi a primeira percebida por uma das leitoras do grupo. Em linhas gerais esta estratégia é de natureza avaliativa sobre o acontecimento e era utilizada de tal forma, que diminuía a participação do leitor por remover as lacunas. Alguns romancistas do século XVIII e XIX, a exemplo de Machado de Assis, souberam utilizar este artifício, criando lacunas de modo que [...] as observações do autor são feitas visando não a interpretar o sentido dos eventos, mas a assumir uma posição exterior a eles – para olhá-los como se fosse à distância. Os comentários, então, atingem como meras hipóteses e parecem sugerir outras possibilidades de avaliação diferente daquelas que surgem diretamente dos fatos descritos. (ISER, 1999, p.16 ) No texto em questão esta estratégia foi utilizada e percebida por Franciele, que não conseguiu expressar com clareza sua interpretação, assim externada: “Eu acho assim... pelo fato de ele não sentir dor nenhuma, na parte do texto “A sensação de poder de um homem é ver a dor alheia.” No fundo dele... ele tem um ser bom. Ao ver a mulher assim... tocou no fundo... dentro dele tem ternura.” Contudo, notou-se que a referida aluna voluntária divergia da visão de frieza total da personagem Fortunato dominante no grupo, percebendo-o como portador de uma pequena centelha de sentimento, mesmo tendo o espírito propenso a satisfazer-se com a dor alheia. Tal percepção destoou da visão maniqueísta assumida pelo grupo e sugerida aparentemente pelo texto. 177 Quando a mediadora pedia que os leitores atentassem mais para os perfis e a suposta relação entre as personagens, observando o lugar social de cada uma, as opiniões passaram a ser revistas, como a de Raquel na conjectura de que “Eh... Não era amizade. Era como uma conveniência para Garcia aquela relação de amizade. Ele apenas freqüentava a casa. Não era amigo. Se fosse amigo, ele faria a interferência.”. Os mesmos passos foram seguidos por Leiliane que reconfigura sua opinião sobre a esposa de Fortunato, dizendo que “Maria também foi fria porque aceitou que ele fizesse aquela casa lá... onde ele ia pegar as pessoas debilitadas... ela poderia evitar ‘não faça isso’. Fazê-lo procurar um tratamento.” A esta altura, boa parte dos leitores enveredou na tentativa de uma leitura mais crítica, e passaram a construir uma série de proposições, que se misturam com posturas românticas das personagens, como se nota nos comentários abaixo: Liliane: “Garcia não tinha coragem de praticar os atos como Fortunato e sentir bem. Ele se põe frio também naquela situação, mas não faz nada para interferir.” Raquel: “O mesmo sofrimento do rato era o de Maria Luiza.” Siérico: “Não era o mesmo sofrimento. Mas ela sentiu.” Leiliane: “Não era conveniência para Maria Luiza aquilo... Ela não lucrava nada... Ela via aquilo e sentia-se mal, cada vez mais...” Raquel: “Para Garcia aquela relação era conveniente para ficar perto de Maria Luiza.” No processo de reconstrução do texto durante o debate das opiniões, alguns avançaram da fruição, o sentir o texto, para a reflexão estética, ou seja, o ato de pensar a forma como o autor constrói o texto em suas minúncias. Esta postura de leitura requereu mais atenção do leitor que passa a relativizar as interpretações. Tal atitude vai ao encontro das observações do jornalista Alcides Vilaça no que diz respeito à desestabilização provocada pelo texto machadiano nos jovens leitores, tanto no que tange ao estranhamento provocado pela poética estrutural do texto como na desestabilização dos valores humanos universais (rever p.76). Esta postura foi notada Leiliane que fez a seguinte avaliação: “No caso, o romance está explícito no texto. Houve algum detalhe que não conseguimos pegar. Estamos voltados ao sentimentalismo e nos voltamos à frieza... e levamos o texto ao lado sentimental.”. Também Raquel observou isso: “Ninguém nunca tem a mesma interpretação. O texto de Machado de Assis sempre deixou reticências. Ninguém nunca interpreta do mesmo jeito.” 178 A discussão até aqui trouxe vários focos: perfil das personagens Fortunato, Garcia, Maria Luiza; a intrincada relação entre as personagens com destaque para Fortunato/sadismo; o amor entre Garcia/Maria Luiza; e daí para qual seria e de quem seria a causa secreta. O título, A causa secreta, passou a ser utilizado como fomento para inquietude dos leitores. Cada um passou a repensar as personagens e possíveis causas secretas. Assim tivemos variados posicionamentos pela lacuna provocada a partir do título: Aiala: “Eu pensava, a primeira vista, a causa secreta era o amor de Garcia.” Leiliane: “Poderia ser o amor de Maria Luiza por Garcia. Porém não relata com clareza como relata o amor de Garcia por ela. É mais complicado.” Raquel: “A causa secreta é de Fortunato. A frieza dele, o sofrimento por dentro dele.” Leiliane: “Ele não tem amor. Ele desconta nos animais algo que fizeram com ele. Ele poderia ter algum tipo de sentimento dentro de si, mas não demonstrava. Ele sentia prazer, de certa forma, ou totalmente, em fazer aquilo.” Ana Carolina: “[A causa secreta] É de Maria Luiza. Maria Luiza é assim... Ela sofre, porém não expõe o que sente ao ver Fortunato fazer aquelas ações.” Siérico: “[A causa secreta] é de Maria Luiza. Ela vivia o amor por Garcia e não podia viver o amor com ele. Sentia vontade de ficar com ele, mas ela não podia – era casada.” Neste momento, os leitores passaram a ser instigados a observar mais atentamente as relações entre as personagens Garcia e Fortunato, e se havia algum tipo de vantagem na relação. Ainda mais inquietude e construção de novos posicionamentos críticos foram percebidos: Raquel: “Para Fortunato que ele queria abrir uma Santa casa... um hospital. Garcia era o passaporte... Por ser médico daria possibilidade para isso.” Leiliane: “Havia uma troca de interesse. Fortunato iria usar o recém-formado.” Raquel: “Garcia, recém-formado, iria ter possibilidade de atuar.” Raquel: “Eu ainda vejo Fortunato. Ele ainda tinha um interesse maior: abrir uma Santa Casa.” Leiliane: “Ele iria usar o recém-formado para isso. E Garcia?” Franciele: “A causa secreta é de Fortunato e Garcia. De certa forma, um precisava do outro.” A intrincada relação das personagens tornou-se, assim, alvo das especulações dos leitores mais questionadores, como Raquel, Leiliane e Franciele. Outros acompanhavam os posicionamentos dos colegas sem lançar opiniões. 179 Notou-se que os leitores voluntários, enquanto alunos, não estavam habituados a serem instigados a construir suas leituras. Frente às provocações lançadas pela mediadora, alguns se entusiasmavam a construir e reconstruir suas opiniões, outros se impacientavam dizendo que não falariam mais nada, que era complicado, um trabalho difícil. Uma aluna se exaltou a ponto de questionar se o escritor havia deixado escrito qual era a causa secreta. A percepção de outra indeterminação começou a despontar: toda a leitura apresentada pelos alunos foi conduzida pelo olhar de Garcia, para o qual pende a visão apresentada pelo narrador. Raquel chegou a tecer comentário que ia ao encontro dessa percepção, sem contudo, notar claramente este estratagema do autor: Fortunato é... Ele é mais visado. Quando a gente lê, visa primeiramente ele, como se fosse a história dele. É como se você fizesse a leitura ele como personagem principal e Maria Luiza parece ser parte da história dele. Ele tem características mais fortes E Maria Luiza não aparecem muitos traços da personalidade dela. Quando questionados sobre Garcia, as observações passaram a ser mais incisivas com uma visão mais crítica do texto: Beatriz: “Ele era frio, apaixonado, traidor...” Siérico: “Ele fica observando tudo de fora... Igual a Fortunato. Uma pessoa fria e calculista.” Leiliane: “Ele não tinha a mesma audácia de Fortunato, de praticar os mesmos atos. Poderia ter algo que ele queria, mas não tinha a mesma audácia.” Ana Carolina: “A audácia é no final, quando ele beija Maria Luiza.” Leiliane: ‘Isso é o que está explícito. E o que não está?” As inquietudes agora observadas nos leitores passaram a coadunar-se com as afirmações de Coutinho (1990,p.125-126), que assim descreve a percepção do ser humano na ótica machadiana, retratada nas personagens construídas pelo escritor: [...] Para ele os homens só são capazes de vícios, ambições, dissimulações, sentimentos contraditórios, perversidades, ingratidões, inconstância, e, na sua obra, assistimos à procissão de todos os vícios e defeitos morais, más qualidades e pecados, que inteiramente dominam homens na vida individual e social. Há sempre uma causa secreta, que é preciso pesquisar, nos atos humanos [...] O circulo nº 01 foi encerrado com os leitores tendo a sensação de que havia questões em aberto sobre as personagens. Notou-se que, a princípio, os leitores frente ao conto literário, limitavam-se ao dito de forma explícita no texto sem ater-se ao não dito, 180 às lacunas. Quando eram indagados pela mediadora, sentiam-se perdidos, descentrados e até surpresos. O segundo momento da pesquisa configurou-se no Círculo de Leitura Nº 02 intitulado O leitor contemporâneo e a quadrinização “A causa secreta” que se iniciou num misto de satisfação e desconfiança diante da literatura em quadrinhos. Os leitores adeptos dos quadrinhos mostraram-se mais motivados pelo texto quadrinizado, que, conforme Siérico era mais fácil de ler. Raquel, por sua vez, um tanto precavida, afirmou que “Os quadrinhos é bom. Tem coisas que você deixa passar quando você lê só o texto... que às vezes até olhar você presta mais atenção.Você vai olhar as personagens.”. Entretanto, manteve sua preferência pelo texto literário, enfatizando que “[...] o conto sem as imagens deixa você mais livre para imaginar tudo o que você quiser”. Notou-se que para ela, o texto icônico explora potencialmente detalhes do texto verbal que passam despercebidos na leitura. Contudo, o conto na forma literária clássica, não condiciona a uma só percepção do texto, dando ao leitor a liberdade de recriação. Ana Carolina, por sua vez, afirmou ter percebido que o texto icônico não castra a imaginação, apenas a torna “mais possível”, de outra forma, defendendo que “É até mais fácil. E mesmo nos quadrinhos a pessoa ainda tem imaginação. Eu mesmo tive outra imaginação... até mesmo no quadrinho a imaginação é outra.” De forma mais concreta, Aiala enfatizou a contribuição maior do texto quadrinístico para compreensão da rede de enunciações, visto que “Dá pra entender melhor quem falou tal fala. Porque ontem a gente ficava sem saber quem falou isso. Nos quadrinhos dá pra ver mais quem, as personagens falou o que, o que foi que ela falou. Dá pra entender mais a história.” A quadrinização superou as expectativas de Raquel, leitora constante da literatura clássica, que defendeu a integridade deste texto nos quadrinhos, como se pode observar: Ah! É por isso que eu digo que os quadrinhos superaram as espectativas. Quando você ler outros quadrinhos que não é literatura não há tanta narração. É mais centrado, eu achei que fosse assim também, na ação, mais no momento...geralmente não há muito flashback, é centrado naquilo... Eu achei que os quadrinhos fossem 181 cortar muitos pedaços, como se fossem aquelas adaptações que você faz... que você acha muito fraca. Igual quando você resolve resumir algum livro de literatura e você sente que falta aquela coisa... como se fosse bem fraquinha. Mas aqui é diferente. Por aqui, os elementos da narrativa [do texto base] estão todos aqui. Em linhas gerais, os leitores do grupo perceberam o texto quadrinístico como uma forma nova de leitura do texto literário, a qual melhora a interpretação, visto que, conforme Raquel, “Os quadrinhos redobra a atenção pela leitura e também para as imagens que você está associando. Você não pode ler assim, só por correr os olhos. Eu acho que prende mais a atenção.”, quebrando um pouco da ideia de leitura supostamente facilitada. Além disso, a versão em quadrinhos não se distanciou do texto-base, mas intensificou a mensagem do mesmo, como destaca Marília, ressaltando que “Ele mostra os detalhes, aqui, os olhos. Também ele divide cada parte, a cada sensação, sabe, a cada reação da personagem.”, referindo-se aos requadros a seguir: Figura 213: A causa secreta Escala Educacional, pág. 7. Os elementos da linguagem quadrinística como timming e perspectiva, são destacados por Raquel de forma intuitiva: “Ele colocou vários quadrinhos. Às vezes é como... tem quadrinho que você tem no lugar e daqui a pouco você já está em outro totalmente diferente. E ele vai detalhadamente, mesmo que seja a mesma cena, aparece duas, três vezes.” 182 Para Carol, os quadrinhos foram elucidativos ao ponto de afirmar que “Agora que eu vi entender o conto, né. Mas ai eu encontrei no primeiro uma visão totalmente diferente da história em quadrinhos.”, sem, contudo, explicitar como se deu a contribuição da quadrinização para a sua compreensão do conto. Raquel, por sua vez, confessou ter compreendido o conto só com o texto-base, e percebeu a quadrinização como uma forma de ler do quadrinista, da qual nos apossamos: Eu consegui pegar só no conto, eu acho que consegui, a essência. Porque quando a gente não tem recurso da imagem a gente dá asas a imaginação... quando a gente vê as imagens, a gente muda um pouquinho. Porque a gente tá vendo também a visão de quem ilustra. A gente pega um pouquinho emprestado a visão de quem ta ilustrando. Porque a pessoa pra ilustrar, primeiro ela tem que interpretar porque o autor usa tal palavra ou porque tal pessoa tem tal gesto, tal semblante. Então ele interpreta pra desenhar. Então a gente rouba um pouquinho da interpretação da pessoa. Tal percepção de Raquel dialoga muito bem com as análises do Professor Elydio Neto (ver p.65) posto que a adaptação/tradução é a leitura do artista. Também aproxima-se da discussão de Plaza em relação ao tradutor intersemiótico. Aqui ele é o quadrinista, leitor que tem uma visão do texto-base pela empatia e simpatia, e através da analogia materializa o sentido depreendido do verbal. Assim, ele “empresta sua leitura” para o outro, leitor da sua recriação, pois: Leitura para a tradução é um movimento hermenêutico onde o tradutor escolhe e é escolhido. É evidente que tudo parece traduzível, mas não é tudo que se traduz. Traduz aquilo que nos interessa dentro do projeto criativo (tradução enquanto arte), aquilo que em nós suscita empatia e simpatia como primeira qualidade do sentimento, presente à consciência de modo instantâneo e inexaminável, no sentido de que uma coisa está a outra conforme os princípios da analogia e da ressonância.(PLAZA,2008,p.33-34) Apesar do posicionamento diverso frente ao alcance do texto literário quadrinizado, alguns alunos foram taxativos com relação à necessidade de se ler o conto literário antes da quadrinização, como se nota a seguir: Siérico: “Agora, assim: primeiro a gente lê o conto normal.” Marília: “Eu acho que se ler os quadrinhos primeiro, a gente já vai ter essas imagens. Antes de ter a imagem dos quadrinhos tem que, em primeiro lugar, ver o conto.” 183 Raquel: “Isso. É como no filme. Quando a gente vê o filme primeiro pra depois lê o livro, a gente recorda da personagem que já sofria aquela dor. A gente traz as imagens para o livro, como nos quadrinhos.” Tais proposições dos alunos caminham para os posicionamentos de Plaza de que “A tradução mantém uma relação íntima com seu original, ao qual deve a sua existência [...]”. Ao relacionar o texto-base à tradução, de certa forma os leitores comungam da ideia de que “a vida do original alcança sua expansão póstuma mais vasta e sempre renovada” (BENJAMIN, apud PLAZA, p. 32.) na quadrinização, mas não elimina a necessidade da leitura do texto literário. Isto também pode ser interpretado como uma forma de o leitor, enquanto tradutor, não deixar a imaginação ser condicionada unicamente pela leitura do quadrinista, a qual pode castrar o exercício de criatividade e até de emotividade mais ampla, promovido pelos signos do texto-base. Tal texto é extremamente rico de informação estética, que é filtrada pelo quadrinista no processo de seleção e associação, para proceder à recriação quadrinizada. E a leitura do original torna-se fundamental para a apreensão do conteúdo, dando-lhe uma dinâmica afetiva sem similar, o que se pode perceber no depoimento de Siérico sobre o episódio da tortura do rato: No conto a cena do rato foi mais forte que agora [nos quadrinhos]. Não sei se foi a primeira vez [primeira leitura]... Eu achei assim... começou com a primeira pata... a segunda... Eu fiquei olhando as perninhas do rato. Ele só mostra lá quando arranca a última pata. O impacto foi maior [ no conto]. E que tem a aquiescência de Raquel quando afirma que: “Também. Eu achei que aqui o rato não parecia estar mais sofrendo. Talvez tenha sido o choque da primeira leitura e depois é diferente também de quando a gente já conhece a história. A gente já percorreu. Quando a gente faz a releitura não é mais pra conhecer.” Também foi reconhecido pelos leitores que o quadrinista, via imagem, pode criar novos estratagemas no texto para a composição das cenas como detalhamento de traços, elementos antes não explorados pelo autor do conto e que passariam despercebidas na imaginação do leitor. Estes novos elementos tornaram-se significativos para a leitura. Como as imagens dos pacientes e do cão na experimentação, não tão explorados no texto-base, como se pode notar: 184 Figura 214: A causa secreta Escala Educacional, pág. 25. Figura 215: A causa secreta Escala Educacional, pág. 27. As referidas cenas são destacadas na quadrinização pelo aluno Siérico da seguinte forma: “Essa aqui foi mais forte pra mim no quadrinho que no conto: a parte do velho com a boca aberta, o cão com a boca aberta agonizando de dor”... Estas percepções e comentários de Siérico e Raquel caminham na direção do que Plaza (2008) aponta sobre a tradução intersemiótica induzir à descoberta de novas realidades no texto-base pela constituição sintática da nova linguagem. Tal observação de Plaza sustenta-se na afirmação de Décio Pignatari (apud PLAZA, 2008, p.30): “[...] na criação de uma nova linguagem não se visa simplesmente uma outra representação de realidades ou conteúdos já pré-existentes em outras linguagens, mas a criação de “novas realidades, de novas formas-conteúdos.” Outra novidade foi percebida por Marília. No conto o narrador é testemunha, conta o que viu ou ouviu. Ao transpor a história para os quadrinhos, Machado de Assis tornou-se o narrador, assim descrito pela referida aluna: “E também nas duas páginas do 185 conto aparece aqui Machado de Assis. Eu acho que é Machado de Assis, né? Contando, como se fosse ele o narrador. Ai mostra aqui o começo, como se fosse a introdução pra a apresentação da história.” Os leitores também ganharam novas tônicas para a percepção das personagens, que para uns confirmaram o que o texto-base dizia e para outros impregnaram a interpretação de novos contornos. Para Marília, a frieza de Fortunato tornou-se patente até na variabilidade do olhar explorado pelo quadrinista, como ela descreve: “Fortunato continua frio. As expressões dele, o rosto, os gestos, a reação dele diante do sofrimento, no teatro... quando ele vê a parte das facadas lá... ele olhando assim... O olhar tem horas que fica mais leve, tem horas mais forte... pra chamar atenção.” Para Franciele, Fortunato transparece mais frieza no conto. Nas imagens, ele lhe desperta compaixão, numa leitura bastante particularizada: Já eu achei ele mais frio no conto. Aqui, assim... olhando, aqui eu tive pena dele. Ele parece uma pessoa que não era normal. É sério, filha. Parece que era um trauma que ele tinha... que algum tempo fazia isso. No conto ele parecia mais frio. Aqui eu não achei ele tão frio assim. Vai ver ele faz isso devido a alguma coisa que aconteceu com ele... Que ele tem medo de ser bom. Também Garcia teve (mereceu) apreciações diferenciadas a partir da imagem. Para Siérico a referida personagem ficou aquém do conto, como ele mesmo diz: Eu não via Garcia com essa cara de tristeza. No quadrinho tem cara de gay. É demais. É sério. Eu não sei. Ele tem cara assim, de ... de meio bestalhado. Não que ele seja sério, mas aquela coisa assim, mais séria, mais séria de jovem, mas de um jovem mais sério, mais ativo...E aí ele tem cara de besta, com esse cabelo enroladinho... Já para Raquel ele ganha ainda mais ênfase em suas ações de observador e é o foco que o narrador passa a dar na narração: Eu vi ele no quadrinho... como mais observador. Eu achava que... depois você vai olhar e vai ver... que ele a descrição toda é isso: ele vai observando a vida de Fortunato. Eu vi ele mais como um narrador vai da visão dele. É que sempre passa ele, a imagem dele observando. Aí eu percebi melhor é que tudo aqui é como ele, a visão dele de Fortunato e de Maria Luisa. Também Marília percebeu maior ênfase das ações de Fortunato nos quadrinhos, tornando mais intensas e claras as reações de Garcia, assim descritas: “Garcia espantado com as coisas que ele faz [Fortunato]... A admiração dele. Aqui no conto ilustrado a 186 expressão dele já muda para mim. Fica mais clara a indignação dele com os atos de Fortunato.”, referindo-se aos seguintes requadros: Figura 216: A causa secreta Escala Educacional, pág.31. Figura 217: A causa secreta Escala Educacional, pág.32. Figura 218: A causa secreta Escala Educacional, pág.33 A referida aluna também destaca a seguinte passagem: Figura 219: A causa secreta Escala Educacional, pág. 16. Ela teceu comentários que apontam para a percepção da intensidade dada na quadrinização aos sentimentos da personagem Gouveia. Pela utilização da perspectiva frontal do rosto em close-up e aproximação dos olhos, desvenda-se o novo sentimento de ingratidão, marcado pela insatisfação e raiva percebidas nas feições do olhar, o que amplia a probabilidade de leitura, como a aluna discorre: Aqui na página 36 mesmo, do Gouveia, o cara que foi humilhado... Ele fala do sentimento de ingratidão, a expressão do olhar dele como de raiva de Fortunato e aí no conto sem ilustração não parece que ele 187 ficou tão, tão insatisfeito com aquilo. E já no quadrinho já dá pra ver a expressão mais forte. Outro episódio também destacado refere-se ao estado de terror de Maria Luiza, que ganha uma nova tônica de sentimento na quadrinização, conforme Raquel, nos requadros que se seguem: Figura 220: A causa secreta Escala Educacional, pág. 27. A aluna assim descreve a sua leitura: Agora tem uma cena que parece diferente. Da página 27. É como se ela tivesse com raiva. Desse quadrinho debaixo. É uma parte que... da cena... como se ela estivesse com raiva. Pra mim o autor fez as expressões parecer como se ela estivesse com raiva. Mas se você observar a cena não era que ela estava com raiva... Ela estava fazendo um pedido. Mesmo defendendo o ponto de vista de que os quadrinhos propiciaram uma leitura mais elucidativa, a subjetividade do leitor também foi observada diante da leitura da imagem. Foi o que se pôde perceber na discussão da seguinte passagem: Figura 221: A causa secreta Escala Educacional, pág. 41. Figura 222: A causa secreta Escala Educacional, pág. 42. 188 Para alguns alunos, o último fato traduzido iconicamente nas duas últimas páginas da quadrinização, gerou variadas percepções que diferenciaram um pouco as leituras como se pode perceber no debate abaixo transcrito: Marília: “Uma coisa que eu não entendi foi esse final. De tortura...” Siérico: “Acho que ele ficou meio intrigado e com raiva.” Raquel: “Foi a expressão que colocou aqui. Está difícil um pouquinho pra decifrar. Pra mim é a penúltima que você não sabe, é mais difícil. Você não consegue dizer o jeito... porque a sombrancelha e a boca é que mais emoldura a expressão. E aí eu não sei dizer se é raiva, ou se é tristeza, ou se foi prazer de o ver chorar.” Franciele: “É tanto que quando eu li o conto que falou assim... esse negócio com certo rigozijo, pra mim ele estava dando uma risada quando ele vê aquela cena de Garcia beijando a mulher. Mas aqui não, ele mostra certa indignação vendo aquilo.” Raquel: “Se você olhar... é como se fosse um sorriso. O prazer de...” Franciele: “Mas, no caso como eu falei, como eu achei ele mais frio no conto, nunca achei que ele dava risada. Entendeu? Pelo prazer de ser frio...” Marília: “Uma risada tendenciosamente longa... como se... é... ele... fosse pra... a imagem de Fortunato que pelo prazer de gostar de ver o sofrimento do outro.” Aiala: “Pra mim esta expressão foi como se estivesse ... é ... descoberto alguma coisa... um segredo que estivesse escondido. Pra mim foi isso: ter descoberto algo de Garcia.” Siérico: “Porque eu acho que ele conteve a raiva dele em vê um cara ... Garcia... beijando a mulher dele. Mas ele conteve a raiva e ao mesmo tempo teve satisfação, prazer, em saber que ele tinha a mulher que Garcia tanto desejava e nunca pôde ter.” Raquel: “É quando você vê o quadrinho, você confronta a visão de como o ilustrador viu a cena e de como a gente viu a cena.” Tais conjecturas de leitura confirmam a autonomia do leitor não só em relação ao conto literário, como também frente à quadrinização, pois ele, ao buscar vencer as dificuldades de leitura, avança na criatividade e cognicidade para a construção de seus posicionamentos. Confirmou-se a proposição de Iser (1999,p.22), no texto literário verbal e também quadrinizado, com relação a defesa de que : [...] o texto oferece ao leitor nada mais que um conjunto de posições as quais apresenta em uma variedade de relacionamentos, sem nunca formular um ponto focal a que convergem, pois este está na imaginação do leitor e, na verdade, só pode ser criado através de sua leitura. E assim encerrou-se a segunda etapa da pesquisa que se pautou na leitura e apreciação das interpretações da quadrinização A causa secreta. Aqui ficou evidente a aceitação deste texto híbrido, motivador de um arsenal de variantes de leituras, frente a 189 um leitor que, instigado, torna-se um caçador de possibilidades para uma interpretação coerente. O terceiro momento da pesquisa, concretizado no Círculo de Leitura Nº 03 intitulado O leitor contemporâneo entre conto e requadro, centrou-se no confronto direto entre os dois textos, vislumbrando perceber o posicionamento dos leitores com relação aos textos, em especial, a literatura em quadrinhos. Leiliane, diante dos dois textos, relata diferentes sensações. Para ela, no texto escrito o envolvimento subjetivo é maior, enquanto nos quadrinhos ela sente certo distanciamento do fato, posturas assim descritas: Eu me sinto, de certa forma, dentro do texto [conto]. Porque eu me sinto como estivesse ali, vendo cada cena, vendo cada momento. E ... quando saio para o ilustrado, de certa forma me sinto dentro, mas não como se estivesse lá. É um fora que dá pra perceber bem. Agora a ilustração, ela relata bem, dá pra relatar bem a época, a maneira das roupas que as personagens estão muito bem usando que tá muito bem colocado, os desenhos estão muito bem ilustrados, as calçadas, as casas... Então, cada momento dá pra distinguir muito bem. Tá muito bem definido um pro outro... As imagens, se por um lado provocaram nela um olhar de “fora”, por outro situaram bem o tempo e o espaço, dando-lhe clareza na contextualização do acontecimento relatado. Neste processo de leitura do texto quadrinizado, a imaginação apóia-se no real de uma época (aqui século XIX) materializada pelo signo, o que faz a interpretação transcorrer de forma mais clara, posto que, segundo Franciele “apenas a história [conto], a gente apenas lê... e imagina às vezes como é. Mas as figuras mostram como era antigamente, as casas, as roupas, e dá pra vê como é realmente que a história aconteceu.”. Para Siérico a contribuição do texto quadrinístico ainda é maior, posto que exterioriza de forma mais concreta as ações da personagem, visto que “Você sente cada gesto da personagem, a maneira como ele se porta.” Ao serem provocados com relação a como se deu a transposição do verbal para o icônico, a surpresa dos alunos foi logo externada, uma vez que a quadrinização superou as expectativas, como relata Raquel: “Foi isso que me surpreendeu. Eu esperava que quem fizesse os quadrinhos resumisse. E aí eu já estava logo pensando que eu não fosse 190 gostar, certo? , enquanto que os quadrinhos fosse bem resumido. E isso me surpreendeu.” Mesma reação foi percebida em Leiliane que melhor detalhou a permanência dos elementos do texto literário escrito na quadrinização, chegando a hipotetizar que a manutenção do primeiro na transposição poderia tornar cansativo o segundo. Tal sensação, todavia, não se confirmou, pois o que poderia ser propensão para o cansativo no texto verbal tornou-se, em sua opinião, elementos de riqueza no conto quadrinizado, assim descrito: Hoje, quando eu e Raquel estava saindo, Leila tinha me dado e eu já tinha lido. Eu li aqui na escola mesmo. Ai ela me comentou o que surpreendeu foi isso; de não ter cortado nenhuma parte do texto. Ai eu falei assim: É! Porque eu pensei assim... já que vão ter partes ilustradas pra não ficar muito cansativo, porque... é... iria ficar cansativo, que iria cortar. Foi o mesmo pensamento de Raquel. E ai vê que... procurou guardar cada pedacinho sem cortar. E mesmo assim não ficou algo cansativo. Ficou algo ilustrado e algo rico pelo fato de estar todo o texto na história em quadrinho. Apesar da recepção positiva para os quadrinhos, a preferência em relação aos textos foi muito dividida e os argumentos bem definidores. Para Raquel, defensora da interpretação criativa no ato de recriação do texto pelo leitor, nos quadrinhos: Eu acho que a linguagem, ela facilita. Mas o meu favorito continua sendo o texto escrito. Eu acho que eu me divirto mais criando as cenas na minha cabeça do que ver as cenas prontas. Mas se for analisar as linguagens, os quadrinhos ajudam, mas eu acho mais divertido ler o texto puro. Também para Leiliane, defensora da inserção do leitor no texto pela imaginação, o texto puro – como ela denomina o texto literário verbal – permite um maior envolvimento subjetivo, uma maior fruição estética, assim descrita: Em relação ao texto puro, Quel, eu também gosto pelo fato de ...aqui eu não tava lá dentro. Eu já tava vendo todo mundo no seu lugar. E quando tá o texto vazio, sem as ilustrações, eu estou aqui. E em algum momento, às vezes só em alguns momentos eu vejo a história inteira. Não sei aonde eu estou, eu tô vendo cada cena... Para Siérico, leitor assíduo de quadrinhos, seu posicionamento subjetivo frente aos textos também é bem definido. Em seu ponto de vista ocorre a supremacia do envolvimento maior do leitor no texto literário escrito, e destacou que: “No texto só de 191 palavras, eu me sinto como o narrador. No texto das imagens parece que eu estou assistindo”... Ana Carolina aponta que a diferença na percepção dos dois tipos de textos aqui discutidos está na arbitrariedade interpretativa possível do texto literário escrito, posto que “No texto em palavras a gente cria a cena do jeito que a gente quer. E aqui não, já está criado, então pra gente é assim como se a gente estivesse mesmo recebendo.” Foi destacado que a quadrinização, releitura-recriação do texto literário pelo ilustrador, acabou esclarecendo outras indeterminações do texto não percebidas na leitura do conto literário. Carol evidenciou isso na estratégia de narração. Para ela, foi na leitura dos quadrinhos que começou a se esclarecer como se configurou a cena inicial da história, como ele afirma: Ó, professora, eu achei diferente. Muito diferente [no conto]. Esse momento ajuda a gente a entender. Quando começa a falar de Garcia em pé, Fortunato na cadeira, pra cada um estava separado, cada um num canto ... Eu estava sem entender o início da história. E eu vim perceber assim... que ele e Garcia já se conheciam e eram amigos. E aí esta história de Casa de Saúde já vinha falando desde o começo. E no momento que fala da Casa de Saúde já mostra que Maria Luiza não ia gostar... Já fala que ela está com os dedos trêmulos. Realmente eu não tinha entendido esta parte. Pra mim, cada um estava em seu canto... mas eles já estavam juntos... E depois vem o encontro. Aquela parte que Garcia entra na universidade. O que vai ser confirmado por ela com a retomada das imagens em outro momento da quadrinização, como destaca: E na página 36, aqui, eu agora é que eu vim ver aqui o que ela realmente falou do começo. É que a página 36 volta para o final. É a mesma cena do início. É ...que é Fortunato sentado, o médico Garcia em pé e na página 35 mostra Maria Luiza costurando. É a mesma cena do começo. Raquel foi quem explicitou todo o processo realizado na técnica do flashback, por ela percebido desde a leitura do conto. Ela provou, em outra fala, seu ponto de vista com passagens do texto literário escrito, o qual continuou a defender. Na sua exposição, fica patente a ideia da quadrinização como uma releitura do conto por meio do signo icônico, exatamente o que Plaza chama de tradução intersemiótica. Esta tradução que é releitura/refeitura é confrontada com a sua leitura do conto, ocorrendo convergências e divergências nas percepções da citada leitora: 192 Pra mim foi diferente. Eu entendi que ele estava fazendo um flashback. Ele usou o recurso: diz uma parte mais adiante do que ele conta a história. Ai ele volta atrás, quando eles não se conheciam pra que a gente entenda aquele ponto que eles tinham chegado. Agora, eu acho que, quando ...o ilustrador fazer isso ele tem que interpretar pra colocar os desenhos, o que às vezes confrontam com a nossa forma de ver. É uma expressão diferente, certas cenas imaginei diferente, imaginei um sentimento diferente das personagens. Às vezes muda um pouquinho, às vezes sai igualzinho como eu tinha imaginado. .............................................. No fim da página 4 ele fala: “Pra fazê-lo entender é preciso remontar a origem da situação.”. Outra indeterminação do texto literário que perdurou até a leitura dos quadrinhos, na opinião de Carol, foi a participação de Fortunato no episódio do espancamento de Gouveia, visto que também a quadrinização preservou o ar enigmático da referida personagem. A princípio, chegou-se a pensar que ele era o enfermeiro que surgiu para socorrer a vítima dos capoeiras. Posteriormente Aiala cogitou que seria ele (Fortunato) o autor da atrocidade, até que Raquel provou que ele era um observador, acompanhante de todos os fatos de forma bastante estranha, como se nota no diálogo travado: Carol: “Ó, eu ainda continuo acreditando, pra mim, que Fortunato era enfermeiro. Porque aqui nesta parte o homem está na cama, página 4, último quadrinhos. Ai fala assim, que depois de pôr ele na cama, Garcia disse que era preciso chamar o médico. Ai um dos homens que tava na casa falou “ai vem um”. É quando entra Fortunato, Então alguém chamou ele. Ele também age como enfermeiro. Depois fala Garcia olhou e era o mesmo homem da Santa casa e do teatro.” Raquel: “Mas na página 11 ele diz “não caiu logo; disse onde morava e, como era a dois passos, achei melhor trazê-lo. Ele presenciou e trouxe o homem.” Aiala: “No conto, eu também pensei que fosse ele.” A contribuição da quadrinização para melhor compreensão do conto foi destacada pelos alunos ao indicarem os elementos da linguagem quadrinística que mais acrescentaram informações à leitura. O detalhamento da ação da personagem utilizando variadas posturas corporais, em diferentes requadros, foi o primeiro a ser citado. Um exemplo indicado por Liliane diz respeito ao narrador, que durante a narração é mostrado em diferentes focos frontais. Neste caso, o detalhamento ocorre para dar ênfase à performance narrativa do enunciador (aqui, a representação do próprio escritor), como se nota nos requadros abaixo: 193 Figura 223: A causa secreta Escala Educacional, pág. 3. Figura 224: A causa secreta Escala Educacional, pág. 3 Figura 225: A causa secreta Escala Educacional, pág. 4. Figura 226: A causa secreta Escala Educacional, pág. 4. A aluna em questão assim explicita este processo, apresentando a leitura das posturas e expressões do narrador no icônico: 194 O detalhamento da ação é maravilhoso. Porque assim... quando a gente... É igual a visão que a gente faz de cada vez que a gente lê. Nós não teríamos essa... acho que tanta criatividade de pôr cena por cena. Aqui na página 04 aparece Fortunato três vezes num só momento, um do lado do outro, se fosse eu não colocaria assim. Eu colocaria uma vez só e sairia falando tudo o que fosse pra falar. Mas quem teve a ideia de fazer os quadrinhos, foi bem rico nisso. Que teve esse ponto de detalhe, de pôr cada em seu lugar. E cada detalhe mostra ele com a feição diferente, a indicação, o rosto, o sorriso, em pé... É o narrador? Desculpa. Se fosse eu, colocaria ele de uma vez só para falar tudo. O detalhamento com ênfase nas expressões faciais da personagem para narrar como transcorre o fato foi destacado por Aiala como de grande importância visto que “O quadrinho foi melhor, mas o conto deixa imaginar mais. [No quadrinho] A pessoa pode não estar falando nada, as expressões dizem alguma coisa, se está alegre ou se está triste”. Isto ocorre na descoberta da doença e definhamento de Maria Luiza, assim explorada pelo quadrinista: Figura 227: A causa secreta Escala Educacional, pág. 37. Figura 228: A causa secreta Escala Educacional, pág. 38. 195 Também Leiliane teceu as seguintes observações sobre esta passagem, corroborando com as impressões de Aiala: Na morte de Maria Luiza, aos pouco eu fui acompanhando passo a passo. Ela não estava no momento falando nada. Mas a expressão facial via que ela estava definhando, definhando aos poucos. Aqui fala assim: “Maria Luiza cismava e sofria.”. Ela não falava nada apenas tossia. E ai foi:“Ela tossia e não passou muito tempo que a moléstia não tirasse a máscara. Então só foi mostrando. Dá pra ver assim... A expressão facial é algo que... nós temos a mania de querer as coisas prontas. A princípio fomos fazendo cada imagem na cabeça e quando pegamos um texto ilustrado que distorce um pouco daquilo que imaginávamos acabamos gostando porque ele... neste texto ele mostra os detalhes e põe Maria Luiza em várias cenas, porém cada uma vai mostrando o detalhe do rosto diferente, vai deixando...aqui na página 37 dá pra ver isso bem. As diferentes angulações da postura corporal para melhor detalhamento da ação e percepção da pretensão da personagem no fato foi intuitivamente percebido por Aiala quando destacou a seguinte passagem “Na página 20 mostra Garcia indo pra ... de frente... pra faculdade. E antes dele, já mostra o lado dele. Aqui tá de costas, já cá mostra o lado dele. O lado do rosto dele...”, assim materializado na imagem: Figura 229: A causa secreta Escala Educacional, pág. 17. Também Siérico fez menção à continuidade da mesma passagem “Do lado de uma árvore, depois da árvore, de costas e depois subindo a escada, ao lado de ... Fortunato. 196 Por trás de Fortunato” que ganhou expressividade com a mesma técnica, como se pode observar : Figura 230: A causa secreta Escala Educacional, pág. 18. As referidas contribuições, destacadas pelos leitores, em dado momento foram classificados como elementos facilitadores para a leitura do texto literário. Contudo, a aluna Raquel observou as variantes no ato interpretativo do quadrinista e do leitor. Neste jogo de percepções confrontadas, o leitor acresce para si a interpretação do quadrinista, o que favorece uma melhor apreensão do texto literário. Assim ela descreveu o processo: Uma diferença que você nota é a seguinte: quando você lê o texto puro, você faz a sua interpretação; mas quando você lê o quadrinho, além de você fazer a sua, a visão de quem ilustrou passa para você. Eu acabo pegando um pouquinho a visão da pessoa que ilustrou. Eu faço a junção da minha ou, às vezes, eu mudo a percepção de tal cena dependendo do que ele ilustra. Ele passa a interpretação dele para mim também. Neste momento das discussões, notaram-se duas posturas dos leitores, frente ao texto quadrinístico: uma mais crítica, do leitor que confronta sua leitura com a do ilustrador e ora concorda, ora discorda; a outra do leitor que acha o texto dos quadrinhos perfeito, exatamente o que ele necessitava para compreender o conto, aceitando, na íntegra, a leitura do ilustrador. Discutido o motivo da aparente facilidade das quadrinizações, os posicionamentos se alinharam no argumento do mínimo esforço para a imaginação, como se observou nas falas de Leiliane: Sim. É algo que... são detalhes como Carol colocou aí. Três quadrinhos que estamos dando importância a mais detalhes e tal... e quando vê ilustrado a gente consegue captar detalhes que nós não 197 tínhamos conseguido captar. Então é algo que vem mais fácil... Eu acho... ....................................................................................................... Assim... Eu e Raquel, eu acho que tu chegou a ler O primo Basílio, não foi? Nós assistimos o filme e lemos o livro. O livro, ele também é rico em detalhes como Siérico colocou, só que... quando vai assistir o filme é algo que... é mais fácil de entender porque até então quando estamos apenas lendo... lá começa também dizendo que o primo Basílio estava em tal lugar e no filme a gente não precisa imaginar assim... porque a gente já tá vendo tudo ali. Siérico também não deixou de destacar a riqueza do texto literário, entretanto, para ele “O quadrinho... é como se fosse o filme. É muito mais fácil você entender e apreciar o filme do que ler o livro. O livro é rico em detalhes, mas o filme lhe dá tudo pronto ali... cada expressão, cada coisa, cada gesto. E o livro não.”. Ao focar o processo imaginativo no ato da interpretação, os leitores enfatizaram que se dá de diferentes formas e intensidade em cada tipo de texto: literário escrito, filme ou quadrinho. Contudo, para Raquel, o adaptador da obra literária percebe em sua leitura a intensidade do conteúdo e o rearranja em novos elementos (signos icônicos) para melhor expressá-la no novo texto que produz. Independente do texto, é o hábito de leitura que vai ser determinante para a interpretação, a imaginação, que deverá vencer os obstáculos, as indeterminações para a produção do sentido. Assim ela discorreu: Eu acho assim que a diferença entre O primo Basílio - livro e filme: quem adapta, olha o tempo que vai ter, se você vê o livro é denso, ele tem que cortar, ele tem que resumir, às vezes ele muda coisa, então fica mais fácil. Agora eu acho que o quadrinho ajuda, é importante, mas tanto um quanto o outro se tornam difícil para as pessoas que não tem hábito de leitura. Se eu pego uma pessoa que tem a mesma idade que eu, mas ela não tem hábito de ler nenhum livro, revista, nem o livro didático, vou dar um livro de Machado de Assis, a pessoa vai ficar perdida como um cego em tiroteio. Mas quando você já tem o hábito de leitura, quem já leu muito livro antigo... Aí tem termos que os alunos ficam azuados. Quando fala “tílburi” e, no caso, que não fala carroça nem carruagem. Quando fala tílburi e você já sabe o que é , quando fala de doença, a bexiga, você vai habituando e não precisa mais consultar dicionário embaixo. Mas o primeiro livro antigo assim, de Machado de Assis, que eu li, que foi um fenômeno, só que o primeiro diálogo dele eu falava “eu não vou conseguir ir adiante. Por que é muito difícil e extremo, principalmente no livro daquela época era um diálogo bem mais monótono e cansativo. A partir do momento que você já tem um hábito de leitura, você vai se acostumando e se torna uma coisa corriqueira. 198 A aluna Marília destacou a quadrinização como mecanismo de facilitação do conto, e apesar de transparecer a leitura pejorativa dos quadrinhos, estes tomados como causadores do empobrecimento do exercício mental, também defendida por Franciele, percebeu que o leitor diante da leitura quadrinística tem a participação ativa da recriação motivada pela presentificação do texto no ato de ler. Assim as alunas, respectivamente, discorreram: Eu escolho o quadrinho, pelo fato de facilitar a intepretação do conto. Eu acho que a imagem, como se diz, reduz o nosso exercício com a mente. Em vez da gente se esforçar mais em imaginar aquela cena, a gente já recebe pronta e aí com base naquela figura a gente vai recriando aquilo como se fosse um filme, acontecendo naquele momento, como se fosse ao vivo. ...................................................................................................... É mais fácil porque... como a menina aí falou, porque exercita a mente, né. E é mais interessante... você tá vendo aquela imagem é melhor. Você tá vendo cada imagem, cada frase do texto. Basta só interpretar porque quando a gente lê, não acontece como o texto [escrito]. Eu mesmo, é mais fácil interpretar com imagens. Posicionamento e adesão similares ao de Marília ocorreram com Ana Carolina, que pode ser vista como uma típica leitora contemporânea, afeita às benesses da era tecnológicae imagética. Ela reconheceu nas leituras das quadrinizações um momento de fruição estética propiciado pelo icônico: Pra mim também... a gente... parece que é uma aventura que a gente tá vendo... Pra mim o quadrinho é a mesma coisa de tá assistindo um filme. E a gente vê, a gente se emociona e é muito bom mesmo. Eu gosto. Minha mãe mesmo reclama porque eu sou muito viciada em computador, e eu sinceramente pra não ficar no computador disse pra ela comprar um bocado de revista em quadrinho pra eu ler. Ela falou que ia comprar mesmo. Eu amei que gosto. Isso aqui prende minha atenção. Eu, assim que cheguei em casa, li esse negócio aqui três vezes: duas vezes ontem e uma antes de vir pra cá. Porque eu realmente gosto mesmo. Aiala se mostrou mais ponderada em relação à suposta facilidade da leitura dos quadrinhos e destacou a necessidade de percepção apurada para a linguagem deste tipo de texto: É... Eu já tenho minha opinião. Eu acho fácil e difícil. Porque assim... no ilustrado você tem que olhar cada traço, cada pontinho... o rosto mesmo, mostra sombra em Fortunato. Porque essa sombra? É mais intrigante descobrir esta sombra. E no texto não, você vê e imagina normal, tranquilo. Já nesse não. 199 E teve a corroboração na fala de Raquel, que foi mais contudente ao apontar para a necessidade de dupla habilidade de leitura que o texto quadrinístico requer, similar aos filmes: “Deixa eu cortar aqui. Eu não acho mais fácil porque quando você lê um texto, faz análise apenas do texto. Aqui, o mesmo texto e ainda tem que fazer análise da imagem. Agora, o que muda é que pra muita gente é mais prazeroso vendo a imagem. Ai quando você gosta mais de ver imagem, pra você se torna mais fácil. É igual: pergunta aí quem gosta mais de assistir filme legendado ou dublado? Filme dublado é bem mais fácil. Agora quando você vai no legendado, tem que ler aquela legenda e não perder o fio da meada da imagem. É o que muita gente não gosta e aí fala: “eu não consigo acompanhar”, “eu não consigo fazer a conexão”. Então acho que fica mais cômodo e prazeroso para o leitor”. Leiliane cogitou a necessidade de método de leitura para uma melhor apreensão do texto literário ou da quadrinização, como tentou explicitar: “Se me desse esse conto pra ler, eu não ia ter um apoio, um suporte em nenhuma pessoa pra discutir. Ia achar a causa secreta qualquer uma – o amor de Garcia por Luiza. E ali, para mim, ia ficar assim. E ia dar vontade que outras pessoas lessem, mas para mim a causa secreta era aquela. Eu não ia ficar me remoendo, procurando de quem seria a causa secreta. Agora vem na cabeça: se estivesse só as imagens sem a escrita, como é que nós iríamos narrar, se cada imagem (um homem de frente, dedos estalando...), as imagens são muito ricas? A gente ia ficar imaginando”... Quando questionados se os quadrinhos são mera facilidade, economia de ato de pensar ou uma possibilidade de interação com a alteridade ao se buscar confirmação da leitura no texto iconográfico, Siérico buscou um consenso dos posicionamentos, afirmando que “É facilidade e confirmação na leitura do ilustrador. “Um pouco dos dois. É mais fácil você olhar, ler aqui e ver a imagem. Você olha, imagina ‘será isso mesmo’? E aí você pega e olha a imagem e é isso mesmo.” Ana Carolina, por sua vez, percebeu uma relação de interdependência entre o verbal e o não-verbal, muito bem engendrada na quadrinização literária, uma vez que: “A imagem, ela depende muito do texto. É como ela falou, se tivesse só a imagem aqui, eu ia ficar perdida sem saber o que estava acontecendo. Então no caso também do conto, só a escrita a gente sempre imagina as imagens. E a imagem só a gente ficaria perdida. Um depende do outro”. Independente do conto literário ou da quadrinização, Aiala mostrou-se muito motivada pela leitura do texto machadiano “A causa secreta”, muito instigante em suas 200 indeterminações, o que a levou a socializá-lo com o pai, a mãe e o namorado, dos quais colheu as seguintes leituras: “Ontem eu dei esse livro pro meu pai ler. E ai ontem foi uma discussão! Ele disse que Maria Luiza parece que tinha uma doença e Fortunato estaria pesquisando esta doença ou procurando um método pra curar esta doença, que quando Garcia falou assim...que ele tinha salvado um homem, mas ele não ficou feliz. Mas que Fortunato não queria que descobrisse esse ato de bondade dele”. .................................................................................................. “Ontem minha mãe leu e ela disse que a causa era Garcia que gostava de Fortunato. Eu disse que não, não é. Tá aí um segredo, mas não é”. Conforme Iser, mesmo sabendo que o texto representa algo e o significado daquilo que é representado existe independente de cada reação singular que desperte, por outro lado, esse significado, independentemente de cada concretização, é mais uma experiência de leitura individual identificada com o próprio texto. Observa-se que os leitores, diante das indeterminações dos textos, sentem-se extremamente estimulados e provocados, como também se observa no comentário de Leiliane ao afirmar que a causa secreta do conto “Poderia ser um acordo dos três [personagens]. Cada um poderia ter uma [causa secreta]. É algo que cada vez que a gente lê, cada vez que a gente discute, aparece algo que ainda não foi discutido, aparece algo que ainda falta se descobrir. Gente! É muita coisa!”. Assim, muito mais que a elitização do texto literário, ou o acesso a ele propiciado pelos textos híbridos como a quadrinização aqui estudada, a recepção do texto machadiano ou de qualquer literatura dependerá da socialização destes textos com o universo dos leitores. É o do método de leitura que torna um texto ou autor mais apreciado conforme Marisa Lajolo (rever p.79). Este ponto de vista é manifestado, em outras palavras, por Raquel: O que tornou a leitura diferente é isso. Porque... é... quando a gente se reúne para discutir tem sempre alguém instigando. Então agente tá sempre buscando um elemento a mais dentro da leitura. Se eu pegasse o conto para ler na biblioteca, eu não ia ficar pensando qual era a causa secreta. Realmente ia terminar, conhecer a história e fechar o livro. Ia ler ali e acabou. Ia comentar e iria morrer ali. Como tá todo mundo instigando, ... a gente presta mais atenção, porque às vezes não tem opinião, mas a gente quer mostrar opinião, e a gente tem que conhecer o evento para dizer não é assim não. É assim,no texto de 201 Machado de Assis é isso. A gente vê de forma diferente. É igual a Dom Casmurro, um dia a gente sentou pra discutir. Um dizia que traiu, outro dizia que não. Cada um quer defender seu ponto de vista... Desta maneira, foi observado no confronto estabelecido, que os leitores da pesquisa, à princípio se portaram tímidos frente às indeterminações do texto literário, não enfrentando a maioria delas. No máximo, em alguns momentos buscaram descrever as dificuldades. Graças às provocações da mediadora e debates promovidos frente ao texto é que as barreiras foram vencidas. Já frente à quadrinização, os leitores mostraram-se mais receptivos, sem desconsiderar a necessidade da leitura do texto literário e a percepção dos detalhes da linguagem quadrinística. 202 CONSIDERAÇÕES FINAIS O mundo contemporâneo apresenta-nos novas possibilidades de vivenciar as variadas culturas por meio das re-elaborações dos objetos culturais. Tais possibilidades vêm motivadas pelas aproximações espaciais, sociais e temporais promovidas pelo mercado globalizado que reconfigura também a ideia de consumidor. As expressões das culturas, produtos consumíveis, antes delimitadas pelas fronteiras geográficas, cronológicas e sociais, passam por revisões na tradição que as redirecionam para um diálogo com novas linguagens. Tal diálogo ocorre com o fito de intercambiar as experiências diversas do presente-passado e fundamenta-se na busca da sobrevivência de objetos culturais tradicionais frente às mais diversas criações tecnológicas. Neste contexto, variados produtos culturais saem de suas redomas clássicas, das margens populares e da subalternidade das massas e são traduzidos em novas linguagens por meio do diálogo que possibilita e promove a hibridização dos textos. Literatura, cinema, quadrinhos, música, telenovela, minisséries, desenho animado tornam-se espaços artísticos e comunicacionais sem fronteiras para novas produções que ampliam a recepção da arte e do conhecimento, antes fechados em castas, ou restritos aos guetos populares e massificados. Trata-se de um panorama lido em dois vieses: o do mercado avassalador e seletivo, o qual, por meio dos recursos midiáticos e tecnológicos de que dispõe, amplia seu poder econômico e ideológico derrubando as fronteiras culturais, impondo produtos perpassados por valores típicos das classes dominantes, considerados como detentores da qualidade; o outro viés é o do mercado ciente da diversidade cultural e que a utiliza para ampliar seu raio de ação, apostando em novas sensibilidades e no resgate das expressões marginalizadas para circular numa comunicação planetária que o dinamiza. A literatura clássica, foco de atenção neste trabalho, caracterizada como expressão restrita a determinados grupos, passa a dialogar com outras artes e saberes e ganha nova roupagem para tornar-se mais atraente aos olhos de um leitor que busca e encontra entretenimento gerado pelas facilitações e dinamismos oriundos do mercado globalizado, tecnológico e cibernético. Dos variados diálogos construídos, nosso olhar voltou-se para o estudo das quadrinizações literárias ou literatura em quadrinhos, 203 produções que no Brasil surgiram na década de 1940 do século XX e ganharam propulsão no mercado editorial na primeira década deste século XXI. O romance, o conto, autos, peças teatrais, poesia e até literatura de cordel são repaginados na linguagem quadrinística, que promove um novo texto que prima pela iconicidade para atender ao mercado multicultural. Se de um lado, a literatura clássica se restringia ao livro acessível a uma pequena parcela de leitores acadêmicos, de outro os quadrinhos eram objeto das massas em busca de entretenimento rápido e direto, que não costuma se fixar nas delongas e meandros das conotações verbais rebuscadas; a literatura em quadrinhos torna-se, desse modo, um intermédio. Trata-se de um novo objeto cultural híbrido que utiliza o melhor das duas linguagens, no sentido de instigar e atrair o leitor contemporâneo. Determinar o que vem ser a literatura em quadrinhos torna-se uma ação espinhosa. Porém, podemos embeber-nos dos diferentes teóricos aqui visitados para, em diálogo com seus pensamentos, situar este objeto cultural. À luz das postulações de Canclini, as quadrinizações literárias podem ser tomadas como textos híbridos, que se prestam à socialização da arte, como forma de fazer circular trocas de experiências e vivências de novas sensibilidades necessárias para a subsistência de culturas. Tomando as lições de Martin-Barbero, a literatura em quadrinhos torna-se um novo texto, de natureza híbrida, que vem inserir a literatura na trama da comunicação cultural, levando em consideração o tempo-lugar das novas gerações ao dotar o texto visto como de “de outra época” de uma linguagem mais próxima dos jovens. Observando as teorizações de Walter Benjamin, os quadrinhos literários destacam-se como forma de reprodutibilidade técnica que diminuiria os sentidos auráticos da literatura clássica enquanto produto da e para uma elite e que muito serviu aos interesses de dominação cultural. Trata-se de um novo produto cultural que ganha espaço por meio de releituras e ressignificações próprias do processo de tradução intersemiótica que favorece a uma leitura crítica da história via posicionamento poético-político, conforme Plaza. Fica patente que as quadrinizações são resultado do processo de transmutação de um texto para outro (da literatura para o quadrinho), novas produções que se concretizam por ser o resultado da junção de códigos distintos (do verbal para o icônico). Trata-se de um processo de semiose, no qual o signo verbal transita para o 204 signo icônico, sem que haja perdas nas linguagens ou prejuízo para a comunicação. Tal processo é marcado pela subjetividade da leitura e é transformado pela criatividade artística do quadrinista, que transubstancia as conotações do texto literário verbal para o icônico dos quadrinhos. A tradução intersemiótica, denominação deste processo, caracteriza-se como geradora de novos produtos culturais para o mercado do entretenimento. Ela tem sua razão ontológica na concepção da História como mônada, conceito teorizado por Walter Benjamim para quem o passado é um conjunto de possibilidades que podem ser revisitadas em outro momento. Neste sentido, a literatura em quadrinho pode ser tomada como um veículo de revisitação histórica, que metaforiza o homem, as ideologias, via texto hibrido, para melhor compreensão da cultura herdada com fim na construção do homem do presente. Ler literatura numa linguagem mais próxima da comunicação contemporânea favorece a este conhecimento, e também à percepção desta sensibilidade, que extravasa a mera produção da indústria cultural alienante, como alguns proclamam. O leitor deste texto não é um mero consumidor, mas o sujeito ativo de uma recepção veiculadora de sensibilidades próprias e que por meio da empatia entabula diálogos que conduzem à alteridade. Os elementos diferenciadores destas produções podem ser resumidos no tratamento dado ao texto-base (literatura), ora conservado, ora enxugado nas ações centrais, ora atualizados nos argumentos. Neste sentido, a fidelidade, considerada problema nas quadrinizações pelo fato destas serem relacionadas à cópia-preservação do texto traduzido pelos leitores mais conservadores, tem status de invenção, de transcodificação criativa, conforme Plaza (2008). Tal teórico afirma que o texto adaptado “não pode ser fiel ou infiel ao objeto, pois como substituto só pode apontar para ele” (p.32), uma vez que não oculta o texto-base e “se manifesta em termos de complementação com ele, alargando seus sentidos e/ou tocando o original num ponto tangencial de seu sentido [...]” . (p.30) Ocorre, então, via tradução intersemiótica, a materialização das metáforas verbais do literário que é tratado também esteticamente no signo icônico. Assim, os elementos da linguagem icônica quadrinística como timmming, perspectiva, planos de cena, postura corporal, expressões faciais, símbolos cinéticos, metáforas visuais, cores, 205 balões, montagem de requadros, vinhetas, entre outros, são utilizados no sentido de potencializar o conteúdo do texto literário, que pode ser colocado ou não com cortes, nas legendas e diálogos, ao tempo em que aponta para novas nuanças do conteúdo. A literatura machadiana, por este caminho, ganha novos contornos que intensificam a potencialidade do texto verbal. Reconhecido pela ironia e relativização de valores, pelas metáforas genuínas, pela análise ácida da alma humana, o texto de Machado de Assis, aclamado no cânone literário, porém marcado por indeterminações que desconsertam a leitura comumente tomada como um ato de única mensagem e torna-se distante para o leitor contemporâneo, seja por suas estratégias narrativas complexas, seja pela linguagem dotada de elaborações para o leitor não iniciado. Muitas são as tentativas de tornar este texto mais próximo, mais acessível: na televisão com novelas e minisséries, no cinema com adaptações de filmes e nos quadrinhos com a literatura quadrinizada. São as propostas de revisitação ora louvadas pelos leitores abertos aos diálogos textuais, pelo potencial criativo-artístico destas reconstruções, ora rechaçadas por leitores conservadores pela suposta alienação e massificação que são atribuídas a estes textos. A literatura em quadrinho, ou quadrinização literária, é um dos espaços de revisitação do texto machadiano que vem ganhando espaço de destaque, havendo títulos que passam por várias traduções, como também ocorreu no cinema. Atualmente, O alienista ganhou quatro versões quadrinizadas. Memórias Póstumas de Brás Cubas é encontrada em três e Dom Casmurro em duas versões. Muitos contos já são disponibilizados no formato de literatura em quadrinhos e Machado de Assis é o escritor brasileiro que mais tem merecido o olhar das quadrinizações, conforme constatamos ao longo desta pesquisa. Os processos de transmutação das obras machadianas para os quadrinhos tornam-se experiências bem peculiares para os quadrinistas, artistas-autores que têm com o texto-base experiências de leituras específicas, cada um com suas percepções. O romance Memórias Póstumas de Brás Cubas tem a linguagem original mantida quase que integralmente na maioria dos trabalhos, ocorrendo diferença apenas nas sínteses-roteiros. O diferencial se faz presente a partir da constatação dos recursos utilizados criativamente por cada quadrinista. 206 Em O alienista, a singularidade de cada quadrinização se faz presente no sentido de que o leitor vive a sensação da leitura de um novo texto, ao se deparar com cada versão; seja a partir da percepção de traços mais caricaturais das personagens da Companhia da Editora Nacional, ou da criação de uma atmosfera marcada por breve tônica de terror na produção da Ática, ou pelo texto mais próximo ao texto-base em sua caracterização geográfica e histórica da Escala Educacional, ou ainda no texto que reflete a visão realista-naturalista da personagem em sua interrelação com as outras personagens e interação com o meio da Agir. Cada texto quadrinizado deste conto ganha uma tônica diferenciada de acordo com a leitura e a técnica artística do quadrinista. A quadrinização de O Conto da Escola, da Peirópolis traz como particularidade a convergência da técnica narrativa do conto e o estilo do desenho, ambos apontando para a percepção do mundo infantil, haja vista que se trata da rememoração de um episódio da infância por parte de um menino. A causa secreta, texto machadiano escolhido para ser apreciado pelo grupo de leitores voluntários na pesquisação, destaca-se por se tratar de um texto extremamente instigante e gerador de diferentes percepções de leitura. A caracterização das personagens Fortunato, Maria Luiza e Garcia, muito mais do que a assimilação dos aspectos naturalistas no concernente à análise comportamental, apresenta-se como o retrato de uma época, no concernente às posturas individuais e sociais das personagens. Mais que a causa secreta, talvez coubesse denominar a obra de as causas secretas, devido às intrincadas relações e comportamentos que movem o enredo. Na quadrinização, um texto que aparentemente não prima pelo desenho artístico, traduz de forma direta e objetiva o universo dúbil das relações sociais, amorosas, econômicas e científicas que contextualizam a sociedade brasileira da segunda metade do século XIX. Luiz Vilaçhã, quadrinista da obra, explora uma das metáforas mais discutidas na obra machadiana: o olhar. Em várias perspectivas, ângulos, expressões, os olhares das personagens são sempre carregados de certo mistério. Isto possibilita uma leitura de constantes suspeitas em relação às ações e pretensões das personagens, o que desfoca o rumo da narrativa, à princípio dirigida unicamente pela dubiedade dos comportamentos da personagem Fortunato. 207 O leitor contemporâneo, motivado pelas leituras de textos pragmáticos e midiáticos, frente ao texto machadiano tradicional sente-se desmotivado. Geralmente tomado como texto do ambiente escolar utilizado para mensurar os conhecimentos sobre a cultura da elite de uma época distante, a literatura machadiana torna-se um fetiche para uns, ou uma adaptação aos valores dominantes para outros, que ignoram a cena multiculturalista que ganha primeiro plano neste novo século. E nesta paisagem de relações marcadamente interculturais, nas quais as fronteiras sociais e culturais tornamse fluídas pela circulação de objetos híbridos que promovem a necessidade de ressignificações das variadas manifestações culturais, o leitor encontra, nas quadrinizações literárias machadianas, um espaço de diálogo mais próximo e mais fecundo. Frente ao texto quadrinizado A causa secreta, de Machado de Assis, um grupo de estudantes do Colégio Polivalente Edivaldo Boaventura demonstrou como a leitura de textos híbridos, em diálogo com o texto-base, pode tornar-se um encontro produtivo. Apesar de demonstrarem que, para a maioria, a leitura literária não fazia parte das atividades que realizam com prazer e constância, este leitor aceita desafios conforme a proposta realizada. No primeiro momento, diante do texto-base, o conto A causa secreta, os leitores reagiram com certa relutância devido às indeterminações da narrativa, as quais foram tomadas como dificuldades. No decorrer das discussões, mediante as relativizações dos valores, aspectos possibilitados pelo texto machadiano, e os processos de desestabilização a que foram remetidos, tais leitores foram instigados a se distanciar de uma única interpretação. Neste sentido, os jovens passaram a vivenciar o processo recepcional como uma reconstrução da história, a partir dos elementos oferecidos pelo autor. Passaram a perceber que o texto machadiano solicita de cada leitor uma leitura arguta que pode levar a vários caminhos no processo de construção de sentidos. No segundo momento, em contato com a quadrinização A causa secreta, de Francisco Vilachã e Fernando Rodrigues, os leitores mostraram-se mais afeitos à leitura por acreditarem que o entendimento do texto se efetivaria com facilidade devido ao elemento icônico, o qual viabilizaria o prazer estético, sem exaustão, num trabalho interpretativo caracterizado mais por incógnitas do que por encontros. Defenderam que 208 ocorre o processo imaginativo frente ao texto imagético, de forma diferenciada, devido às especificidades da linguagem quadrinística. As indeterminações do texto-base no que diz respeito à percepção do flashback e do estabelecimento das falas nos diálogos foram preenchidas com mais efetividade pelos leitores na quadrinização por oferecer condições mais objetivas de percepção graças às imagens. Os leitores foram unânimes na avaliação de que a quadrinização reverbera o texto-base, ampliando o potencial do signo estético por meio de elementos outros da linguagem. Detalhes das ações das personagens são explorados pela apresentação e recriação de outros detalhes que vão além da descrição oferecida pelo verbal, graças aos processos de timming, focalização e perspectiva. Intensificam-se os sentimentos e reações das personagens por meio do close-up em partes específicas do corpo (rosto, olhar, mãos...), das expressões faciais, dos gestos e das posturas nem sempre oferecidas no texto-base. No terceiro momento, destinado ao confronto dos textos, houve consenso no que tange à crença de que a quadrinização não substitui o texto-base, o qual é considerado necessário para uma leitura mais eficiente da ressignificação. Mesmo que a criação do texto quadrinizado esteja vinculada ao texto-base, cada leitor demonstrou percepções muito próprias e específicas. Alguns leitores sentiram-se como observadores que assistem às cenas, capazes de avaliar fatos e situações de modo mais objetivo, efeito provocado pela imagem já elaborada, o que comprova a afirmação de certa facilidade de compreensão. Frente ao texto-base, eles se perceberam como uma personagem da história, envolvidos subjetivamente nas situações engendradas na história, o que em muito pode tornar a construção de sentido um processo mais complicado. Apesar de o texto quadrinístico ostentar condição de texto apreendido sem demandas de suposta complicação, o prazer estético não se torna menor, posto que demanda certas habilidades de percepção e capacidade cognitiva para compreensão das informações provenientes do signo icônico. Muitas vezes a quadrinização amplia o conteúdo informacional em relação ao texto-base. 209 Pelo menos duas possibilidades de leitores foram estabelecidas frente à leitura quadrinística: o leitor acomodado, que acredita nas quadrinizações como textos fáceis por não exigirem esforço mental, e o leitor crítico que vê a literatura em quadrinhos como um texto repleto de estratagemas para os quais a atenção deve ser redobrada. Um aspecto que despontou de forma a provocar outras discussões é como se dá a prática de diálogos que os textos instaurariam. Literatura, filme, novela, música, quadrinhos com suas linguagens específicas para atender a grupos específicos, segregados ou não, ou textos híbridos que articulam, problematizam, confrontam culturas de forma crítica no sentido de favorecer e acessibilizar o conhecimento e a sensibilidade, nada repercutirá no leitor se este encontro não for permeado pela socialização. Enfim, a literatura em quadrinhos desponta como um objeto cultural híbrido que apresenta condição de interculturalidade, pela necessidade de socializar as diferentes experiências de vida por meio de linguagens que propiciam uma maior circulação de conhecimento, de saberes e de sensibilidades. Tal produto cultural é mais uma das opções de trânsito destes saberes tão em voga na teia da comunicação global. Mas vale salientar que é na alteridade que o encontro gera significação e se viabiliza. Muito mais que o formato do texto, é a forma como dispomos ou intencionamos a prática de leitura que tornará fecundas estas vivências. 210 REFERÊNCIAS ASSIS, Machado de. Crítica & variedades. In: ______. Obras completas de Machado de Assis.São Paulo: Globo, 1997. ASSIS, Machado de. Obra completa. São Paulo: Companhia Brasileira de Impressão, 1964. BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre a literatura e história da cultura. 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