Fala de Cada um - Investigação Psicanalítica no Contexto Clínico Resumo Cláudia Cristina Antonelli, Antonios Terzis Este trabalho visou a um breve levantamento teórico acerca do lugar que a fala do paciente ocupa no contexto clínico de hoje. A teoria de referência utilizada foi, fundamentalmente, a psicanalítica a partir de Freud, e de outros autores contemporâneos, também norteados pela mesma teoria. A partir da compreensão teórica de que a fala estruturada do paciente seria também, em parte, produto de seu inconsciente – não somente a do ato falho e a do chiste - este trabalho buscou mostrar o lugar relevante que a característica que cada fala – ou seja, a de cada paciente - tem no contexto clínico psicanalítico. Foram utilizadas vinhetas clínicas para ilustrar esta compreensão. Concluímos que o tema é bastante vasto e requer muitas pesquisas complementares, mas que se trata de um assunto riquíssimo enquanto fonte de compreensão para o inconsciente. Autores Cláudia Cristina Antonelli Psicóloga com especialização em Saúde Mental e Mestranda em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Diplomada pela Organização das Nações Unidas (ONU-Genebra, Suíça), em Francês, Inglês e Espanhol. e-mail: [email protected] Palavras-chave Psicanálise, Linguagem, Inconsciente, Fala, Comunicação na Clínica Antonios Terzis Possui graduação em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Centro de Estudos e Pesquisa de Atenas (1975), mestrado em Psicologia Clínica Ciências Humanas e Clínicas Universite de Paris VII - Universite Denis Diderot (1977) e doutorado em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (1983). Atualmente é professor titular da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, professor titular da Sociedade de Psicoterapia Analítica de Grupo, presidente da FEDERAÇÃO LATINA DE ASSOCIAÇÕES DE PSICANÁLISE GRUPAL, membro da Associação Helenica Paideia, membro da Associação Brasileira de Psicoterapia Analítica de Grupo e presidente do Centro de Formação e Assistência à Saúde. e-mail: [email protected] Recebido em 13/dezembro/2010 Aprovado em 22/junho/2011 14 Pensamento Plural: Revista Científica do , São João da Boa Vista, v.5, n.1, 2011 Fala de Cada um - Investigação Psicanalítica no Contexto Clínico Introdução Este trabalho teve por objetivo propor uma reflexão acerca das vicissitudes que a fala ocupa, na clínica psicanalítica. Para tanto, fizemos uma breve recapitulação do método psicanalítico a partir de seu fundador, Freud; expusemos questões que nos pareceram pertinentes à fala a partir de outros autores – sempre em diálogo com o método psicanalítico; ilustramos algumas situações clínicas das quais retiramos conteúdos para, então, fazermos nossas considerações finais. Partimos do pressuposto de que, assim como todas outras nossas criações idiossincráticas – ou seja, o que produzimos a partir de nossa subjetividade, a saber, nosso desejo, nossos sonhos, e nossas escolhas – a fala também transportaria conteúdos produtos de nosso inconsciente, tal qual postulado por Freud. Assim, o que dizemos e como o dizemos – e que se torna passível de investigação uma vez inserido no contexto da clínica psicanalítica – portaria uma mensagem própria, muito além do significado consensual das palavras, definido em dicionários do idioma pelo qual a fala se dá. Porém, para além do sentido oculto das palavras (como dos atos falhos), conforme nos revelou a Psicanálise, nossa fala traria consigo - como dizem os americanos- sua própria agenda: sua verdadeira intenção (inconsciente), função, descarga (libidinal), e sentido próprio. Como nos diz Zimerman (2004, p.155), [...] na Psicanálise, ninguém contesta a afirmativa de que aquilo que o ser humano tem de mais primitivo e imperioso é sua necessidade de comunicação, de modo que, na situação analítica, a comunicação ‘vai além das palavras’, pois há um campo do processo analítico no qual as palavras não dão conta do que está acontecendo. Ainda segundo o autor (ZIMERMAN, 2004), “As coisas que não entendemos têm um significado. Da mesma forma como é um idioma falado por um estrangeiro [...]”. É o que procuraremos investigar. O Método Psicanalítico de Freud - Uma Breve Recapitulação Publicando “A Interpretação dos Sonhos” em 1987, Freud divide com o mundo a célebre noção de que “o homem não é o senhor em sua própria casa” (encontraremos a frase ipsis litteris “o ego não é senhor em sua própria casa” (FREUD, 1987, p.178) em “Uma dificuldade no caminho da Psicanálise”, o que lhe rendeu – ao homem – a não menos célebre terceira e grande ferida narcísica (1). De fato, com a revelação do Inconsciente – a partir do conceito de recalque - Freud entende e explica a existência de um determinismo psíquico. Ou seja, o que nos rege não seria nossa razão como se acreditava, mas escolhas guiadas por um poço de pulsões organizado em nossa primeira infância, fruto de nossas primeiras relações objetais. Estas, calcadas nos dois princípios do funcionamento mental - que Freud denominou de Princípio do Prazer-desprazer (FREUD, 1987, p.278) e, posteriormente, pulsão de vida e pulsão de morte, com os quais nossa atividade psíquica se afastaria de todo evento que pudesse despertar desprazer, buscando satisfazer-se. O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica; em sua natureza mais íntima, ele nos é tão desconhecido quanto a realidade do mundo externo, e é tão incompletamente apresentado Pensamento Plural: Revista Científica do pelos dados da consciência [grifo nosso] quanto o é o mundo externo pelas comunicações de nossos órgãos sensoriais. (FREUD, 1987, p. 554) Assim, os processos mentais, diz-nos Freud, seriam inconscientes em sua origem, somente alcançando o Ego e submetendo-se a seu controle, “por meio de percepções incompletas e de pouca confiança” (FREUD, 1987, p. 178). Um pouco à moda dos sonhos. Os sonhos, conforme nos conta Freud em 1987, seriam produtos do Inconsciente, após um laborioso processo de censura; uma vez que o que é lembrado (e verbalizado), denomina-se de conteúdo manifesto, ou seja, o que o Ego pôde suportar, em termos psíquicos. Enquanto sua fonte, denominada de conteúdo latente, se encontraria no inconsciente, ou pré-consciente, desvelado através da investigação psicanalítica. Em seu texto “A Interpretação Psicanalítica do Mito e do Sonho”, Terzis (2005) confirma que “cada sonho é constituído, quando o analisamos, por dois níveis: o manifesto, e o oculto”. O manifesto, segundo o autor, que se baseia em Freud, para tais afirmações é “aquele que lembramos”, uma breve história que pode ser lógica ou absurda. O oculto é o conjunto das ideias que se associam entre si e se metamorfoseiam no conteúdo aparente. Ainda segundo o autor, Freud denomina o processo de metamorfose do conteúdo oculto no conteúdo aparente de elaboração do sonho (dreamwork) que é, de certo modo, uma tradução de uma língua para outra e ocorre no momento em que as ideias passam do território do inconsciente para o da parte consciente da mente, atravessando igualmente por um estágio pré-consciente. Na duração desta passagem, as ideias são submetidas a modificações indispensáveis. (TERZIS, 2005, p. 32). Referindo-se a seus pacientes, Freud nos diz ainda: [...] entre outras coisas, narravam-me seus sonhos e, assim, me ensinaram que o sonho pode ser inserido na cadeia psíquica a ser retrospectivamente rastreada na memória a partir de uma ideia patológica. Faltava então apenas um pequeno passo para se tratar o próprio sonho como um sintoma e aplicar aos sonhos o método de interpretação que fora elaborado para os sintomas. (FREUD, 1987, p. 123). Ao longo da construção de sua teoria, Freud desenvolveu as chamadas Duas tópicas. A primeira, que diria respeito à existência de instâncias psíquicas de diferentes aspectos, coabitando o homem: o Consciente, o Inconsciente, e o Pré-consciente (modelo tópico). Já em sua Segunda tópica, Freud nos fala de um Ego, de um Superego, e de um Id (ou “Isto”, em outras traduções), o qual se comporia também de funções do Ego e do Superego (modelo estrutural). Neste mesmo texto, Freud nos elucida que o sonho representou “um estado de coisas específico”, tal como o eu (o sonhador) desejaria que fosse. “Assim, seu conteúdo foi a realização de um desejo, e seu motivo foi um desejo (2). (FREUD, 1987, p. 138). Segundo nos diz Terzis (2005), “de modo semelhante aos sonhos, o funcionamento básico dos mitos reside na representação consciente dos medos e desejos inconscientes, isto é, reprimidos”. De fato, diz o autor, “podem cons- , São João da Boa Vista, v.5, n.1, 2011 15 ANTONELLI, C. C. TERZIS, A. tituir um campo apropriado à identificação de situações e personagens que refletem nossos desejos mais recônditos, os quais se realizam em nossos sonhos e fantasias, mas não na nossa vida cotidiana. Ainda segundo o autor, [...] a referência ao inconsciente como local de armazenamento dos desejos reprimidos, [...] sob determinadas condições, reaparecem na produção dos sonhos [...] conhecidos por todos, e seu apelo já não exige nem mesmo uma relação bibliográfica: tornou-se uma aquisição comum a todos. (TERZIS, 2005). Conclui o autor que a luta da mente humana com os desejos socialmente condenáveis é, igualmente, “algo que todos nós já constamos em nosso interior. As emoções perigosas são reprimidas, mas continuam a viver somente para encontrar os modos de satisfação que a vida real lhes negou” (TERZIS, 2005, p. 38). Assim, o sonho foi para Freud o caminho por excelência da descoberta do inconsciente. Seus mecanismos evidenciados (deslocamento, condensação, simbolismo, entre outros), constitutivos do processo primário, responsável pela formação do sonho, são também encontrados em outras formações do inconsciente - atos falhos, chistes, lapsos- equivalentes aos sintomas pela sua estrutura de compromisso e pela sua função de realização de desejo. Freud se refere aos conteúdos manifestos dos sonhos. Nós consideraremos o mesmo, para conteúdos ou para a função psíquica - utilizando-nos do termo empregado por Castanho (2005) - da fala manifesta de nossos pacientes. A forma com que falamos, as palavras que utilizamos, seriam muito mais produtos deste determinismo, deste poço inconsciente, do que suporíamos. Uma vez que, produtos deste mesmo psiquismo produtor de sonhos descrito anteriormente, o qual, entre outras funções, pode realizar nossos desejos reprimidos, certos conteúdos da fala passariam por “uma tradução de uma língua para outra”, conforme nos diz Terzis (2005). Os conteúdos que, justamente, escapam à razão e à censura do sujeito – como dito anteriormente, o ato falho, o lapso, a troca ou esquecimento de palavras, entre outros. Movimentos estes que carregariam também uma função psíquica, citada acima: função esta da fala do sujeito da psicanálise, objeto de nossa investigação e reflexão. A Expressão da Fala para a Psicanálise Conforme Castanho (2005), para Saussure, a língua (langue) teria o caráter de sistema simbólico social, coletivamente partilhado, opondo-se à fala (parole), caracterizada como sua atualização particular e idiossincrática. O conceito de língua em Saussure, ainda segundo o autor, “dá conta de uma estrutura ou realidade homogênea na sociedade”; já o conceito de fala, da realização idiossincrática que cada indivíduo faz da mesma. (CASTANHO, 2005). Ou seja, sustentamos a noção de que a língua é uma, em determinada cultura e região político-geográfica e possui caráter uniforme e consensual – com a qual se torna possível o partilhar de códigos sociais, em amplo espectro – ou seja, a vida em sociedade; mas que a fala, esta, é fruto de uma subjetividade única - ainda que inserida num mesmo contexto sócio, econômico, histórico, político e cultural da língua do grupo social. Em seu artigo “O Inconsciente” (FREUD, 1987), Freud nos diz: Do ponto de vista da psicologia, a unidade da função da fala é a “palavra”, uma apresenta16 ção complexa [...] Na fase do desenvolvimento da fala – a da primeira infância – usamos uma linguagem que nós mesmos construímos. (FREUD, 1987) Esta construção única e pessoal, nossa fala, seria, portanto, em parte, produto de nosso inconsciente, de nossa primeira infância – “peneirada” e reorganizada pela instância egóica - consciente - antes de fazer-se manifesta. Nesta primeira infância, é no contato com a mãe, ou com aquela(e) que exerce a função materna, que o bebê se inscreveria no mundo das palavras. Segundo Kacelnik (2008), Laplanche nos ensina que “é a mãe que libidiniza, que erotiza seu bebê e o convida para a vida. A “sedução originária” do bebê pela mãe se dá por intermédio das palavras, daí a grande importância da língua que vem da mãe, ou seja, a criança é falada pelo adulto sendo por ele significada”. Ou seja, a inserção do sujeito no mundo das palavras, neste código compartilhado que torna possível a vida em sociedade, seria um processo carregado de afetos, um processo único e subjetivo para cada indivíduo (produto de suas relações objetais primitivas), e ainda, psicodinâmico (sujeito aos movimentos psíquicos do próprio sujeito). Analogamente, ainda, de acordo com Kacelnik, “o analista também convida o paciente – que na situação analítica se encontra mais regredido – para a vida, ao colocar em palavras seus sentimentos, suas angústias, ao atribuir-lhes significados”. (KACELNIK, 2008). Como introdução ao seu capítulo intitulado “A palavra, metáfora do corpo”, Didier Anzieu nos oferta uma bela passagem, que aqui reproduzimos, em parte: Quando o filhote do homem desperta no próprio corpo o grito que o faz existir, [...] não tem consciência do próprio grito. [...] a voz do recém-nascido é o sinal decisivo de seu aparecimento na vida fora do corpo materno [...]. Sua voz é o resultado audível de um movimento geral que se manifesta pela boca. (ANZIEU, 1997) Ainda segundo o autor, a criança, aos três anos de idade – ao longo de um desenvolvimento físico e mental satisfatórios - anda, controla os esfíncteres, e fala. Consciente de suas possibilidades, de seus desejos, utiliza sua linguagem para fins muito diversos. Faz-se importante, neste momento, lembrar-se da diferenciação necessária aos termos língua, fala, e linguagem, baseando-se nas definições expostas por Castanho (2005), mencionadas anteriormente, a partir do que foi postulado pelo já citado conhecido linguista francês, Saussure. Língua opõe-se à fala, caracterizada como a atualização particular e idiossincrática da primeira [...]. Mas o que é a língua? A língua é, para nós, a linguagem menos a fala [...]. A fala, um ato individual de vontade e de inteligência. (CASTANHO, 2005). O espectro desta importante distinção é, no entanto, bastante amplo e, tendo em mente o intuito deste trabalho que pretende se debruçar sobre a fala do sujeito da psicanálise, não nos deteremos mais longamente sobre o mesmo, mas sobre o que é expresso, verbalmente, no contexto clínico, pelo paciente. De acordo com Gibello (ANZIEU et. al., 1997), desde a época de Freud até nossos dias, “o material com base no qual se faz o trabalho da cura psicanalítica é um material verbal”. Através da livre associação do paciente, e da escuta Pensamento Plural: Revista Científica do , São João da Boa Vista, v.5, n.1, 2011 Fala de Cada um - Investigação Psicanalítica no Contexto Clínico flutuante do analista (de acordo com o método psicanalítico), o analista permite-se em condição de captar o sentido oculto do discurso do sujeito. Para o autor, haveria uma multiplicidade de funções simbólicas traduzidas pela pluralidade dos sentidos que a linguagem confere, presente em cada um de nós, quando sonhamos, quando falamos, quando pensamos. Diz, ainda, o referido autor que cada uma de nossas palavras enuncia pelo menos três discursos diferentes: 1) o da realidade da palavra (o gato é um gato); 2) o vestígio dos sons das palavras da mãe, ouvidas e não compreendidas em nossa tenra infância a qual se atualiza e, de nossa boca ao nosso ouvido, nos satisfaz e tranquiliza (como uma autossatisfação); e, 3) aquele que fala – mesmo que diga e aja como se o ignorasse, ou seja, não tendo consciência disto – não ignora que seu desejo de satisfação mágica imediata é ao mesmo tempo impossível e ilícito. Assim sendo, a linguagem falada, segundo o autor, seria uma elaboração posterior do grito infantil, do qual conservaria ainda uma parte dessa eficácia mágica e, em alguns casos, a fala seria o meio privilegiado de satisfação quase alucinatória do desejo (GIBELLO apud ANZIEU et al., 1997). A Linguagem e o Esquizofrênico O inconsciente, já dizia Lacan, está estruturado conforme a linguagem. Para tocarmos no assunto da linguagem e o esquizofrênico, vasto assunto que demanda aprofundamento, nos serviremos de um pequeno capítulo – porém muito esclarecedor - escrito por Bion (1970), no qual o autor fala das dificuldades de comunicação entre o esquizóide, e o analista. Nele, anuncia Bion: “os distúrbios do pensamento verbal são um aspecto importante da psicose e, especialmente, da esquizofrenia” (BION, 1970). O pensamento verbal no esquizofrênico, afirma o autor, é a característica essencial das cinco funções do ego (3) e os ataques destruidores contra ele – o pensamento verbal ou seus rudimentos – inevitavelmente, atingem a todas as outras funções. Segundo o autor, para a maior parte de uma sessão de análise, “os únicos indícios nos quais se baseiam suas interpretações devem ser encontrados na contratransferência” (BION, 1970). Como se o analista tivesse que verbalizar, transformar em pensamento verbal, utilizando-se do termo proposto por Bion: aquilo que o paciente não consegue fazer. E isto, através da contratransferência, conceito técnico da psicanálise. Por outro lado, uma característica da linguagem do esquizofrênico, é que, ao utilizar a linguagem, utiliza-a, também, como modo de ação e de pensamento – além de comunicação. “Preferirá a ação nos casos em que outros pacientes” (neuróticos) perceberiam que a resposta adequada é o pensamento” (BION, 1970). Em outros casos, ainda segundo o autor, a palavra do paciente esquizofrênico traria consigo a função de clivagem do próprio analista. Num dos exemplos, o autor ilustra uma situação, a partir da fala do paciente que o levava a dar duas interpretações contrárias ao mesmo tempo (clivagem do analista). Após ilustrar alguns casos clínicos, o autor postula que os sofrimentos da realidade psíquica do paciente esquizofrênico são exacerbados, e o paciente que regride à posição paranóide-esquizóide (4) (conf. Melanie-Klein), destruirá ao mesmo tempo sua capacidade embrionária de pensamento verbal como um dos elementos que o levaram Pensamento Plural: Revista Científica do ao sofrimento. Como se pode ver, trata-se de uma situação clínica à parte – a clínica do paciente psicótico – em toda sua extensão, inclusive em termos da linguagem, requerendo assim, conhecimento técnico específico. A Fala na Clínica A fala e a linguagem [...] são extremamente significativas, pois fazem parte da análise do começo ao fim. [...] A ideia de que uma análise esteja se processando num só código não deixa de ser ilusória, uma vez que, uma dupla linguagem é necessária ao trabalho do analista: a sua própria e a do analisando, a transferência e a contratransferência. (KACELNIK, 2008). Se compreendermos, então, que cada sujeito que compartilha de uma mesma língua, é também o portador de uma linguagem própria, poderemos voltar nosso olhar – ou nossa escuta – para esta fala, de maneira atenta e particular, uma vez que nossos pacientes nos falam a partir dessa criação exclusiva: com o perdão da redundância, sua própria fala. Ou ainda, seu próprio idioma. Atualmente, muito é estudado a respeito da fala na clínica. Em realidade, a investigação expande-se para além da fala, buscando compreensões vis-à-vis a linguagem como um todo – os modos de comunicação do paciente, sejam eles verbais, ou não. Diz-nos Zimerman: [...] na atualidade, cabe ao analista não só a compreensão e a interpretação daquilo que está explicitamente significado e representado no discurso verbal do paciente, mas também lhe cabe a decodificação das mensagens implícitas do que está subjacente ao verbo, ou oculta pelo mesmo, bem como, também, na ausência do verbo, como algum gesto, somatização, atuação, etc. (ZIMERMAN, 2004, p. 155). Como nos diz ainda o autor, cada vez mais se valoriza, não tanto a comunicação só do paciente, ou a do analista, mas sim, a que se estabelece entre eles. Vemos então surgir inúmeros caminhos diante de nós, pelos quais poderíamos percorrer, para a compreensão do que é comunicado pelo paciente, seja isto de forma explícita ou não (muitas vezes não), uma vez que o objeto principal de investigação do método psicanalítico, por excelência, é o inconsciente. Comunicação esta, que passa também pelo não verbal, pelos gestos, pelas manifestações não verbais do paciente (actings-out), pela relação com o setting e com o próprio analista, mais uma vez, de forma manifesta ou não, como na contratransferência do analista: A expressão alude às mensagens que estão ao lado (para) do verbo, sendo que o emprego da voz, tanto pelo paciente, mas, também, é claro, por parte do psicanalista, constitui-se em um poderoso indicador de algo que está sendo transmitido e que vai muito aquém e muito além das palavras que estão sendo proferidas. (ZIMERMAN, 2004, p. 160) Contudo, para este trabalho, como já dissemos antes, iremos nos ater à fala manifesta do paciente. Zimerman nos fala de “estilos comunicativos do paciente”, citando Liberman (1971), para enumerar os cinco estilos predominantes: reflexivo, lírico, ético, narrativo e dramático. , São João da Boa Vista, v.5, n.1, 2011 17 ANTONELLI, C. C. TERZIS, A. Não nos aprofundaremos neste conceito de Liberman, mas aqui o trazemos para convidar o leitor a se aproximar da noção de particularidade da fala de cada um. E com o fator complicador de que, “é importante frisar que nem sempre as palavras têm um sentido simbólico e, tampouco, nem sempre o discurso tem a função de comunicar algo”. (ZIMERMAN, 2004, p. 159). O que o autor quer nos dizer? Que as palavras, conhecidas como símbolos, nem sempre simbolizam algo; e a fala, sempre nos comunica algo, de fato. Estamos falando de situações mais difíceis clinicamente, de estruturas psíquicas, às vezes (mas nem sempre) comprometidas – como nos quadros psicóticosem que o sentido necessário para a compreensão do paciente, muitas vezes, não se desvenda facilmente a partir de suas palavras. Até mesmo em pacientes de estrutura neurótica a fala pode estar descompromissada com o sentido. Zimerman (2004) esclarece: “Em pacientes não clinicamente psicóticos, podem aparecer formas mais sutis e não claramente percebidas desses distúrbios de pensamento e, por conseguinte, de linguagem e comunicação”. Porém, compreender este paciente apesar do que é dito ou não, em sua fala manifesta, é tarefa do analista. Kaselnik (2008), citando Green em “Narcisismo de vida, narcisismo de morte”, nos diz que “a palavra permanece sendo relação e mediação; interpsíquica e intrapsíquica [...] ela remete à ausência e não compreendê-la implicaria uma dupla ausência.” A não-compreensão da fala do paciente, segundo a autora, qualquer que ela seja, implicaria um não acolhimento do mundo subjetivo do mesmo, de seus afetos, de seus medos, fantasias e desejos. Algumas Formas de Compreensão da Fala do Paciente (a partir do método psicanalítico) A possibilidade de compreender a fala do paciente se dá, necessariamente, de diferentes formas – e em diferentes fôrmas (aludindo à continência do analista como uma fôrma – segundo o conceito de baquet de Laplanche (1998). Faremos aqui menção bastante concisa a essas diferentes maneiras que fazem parte do corpo técnico da psicanálise contemporânea. Assim, uma das formas de compreensão da fala em si, seria uma busca de sentido – juntamente com seu paciente - a partir da atenção flutuante (5) do analista, do que seu paciente lhe diz, num todo: seus sonhos relatados, seus atos falhos, seus esquecimentos, suas livres associações. Outra forma se daria através da compreensão da função da fala do paciente, em determinados momentos: entender a função psíquica que sua fala efetua na relação transferencial com seu analista. Outra maneira ainda, fazendo parte da técnica psicanalítica, se dá através do que é captado pelo analista, enquanto material contratransferencial (6). Isto se daria pela impossibilidade (psíquica) do paciente dizer certos conteúdos afetivos. Vale ressaltar que o analista pode lançar mão de todas essas e outras técnicas de compreensão da fala clínica, em diferentes momentos de seu trabalho, de acordo com a necessidade clínica. Trata-se de aspectos da técnica psicanalítica postulada por Freud, expandidos e aprofundados por outros psicanalistas após ele. Nos exemplos clínicos a seguir, veremos algumas destas formas de escutar os pacientes, em sua dinâmica técnica. Escolhemos somente duas, dentre inúmeras possi- 18 bilidades. O objetivo será o de ilustrar conteúdos inconscientes, transportados pela fala do paciente. Vinhetas Clínicas Os nomes citados serão todos fictícios, para a preservação da identidade do(a) paciente. 1) A primeira à qual nos referiremos, será a busca de atribuição de sentido específico, subjetivo e idiossincrático das palavras, a partir da realidade psíquica da paciente (tendo em mente a atenção flutuante do analista e a relação transferencial e contratransferencial, segundo a técnica psicanalítica, que se estabelece entre paciente e analista). Lara (24 anos). Neste trecho de sessão, a paciente relata um conflito com uma colega de trabalho, após o qual teria se dirigido a seu chefe para pedir o desmembramento do núcleo onde ambas trabalhavam. Acrescente-se que se tratava de uma sessão na qual a analista, se sentia contratransferencialmente bastante incomodada. Ficou nítido, ao longo desta sessão, que a paciente não falava de sua própria ansiedade e, talvez, incomodava-se diante da análise, naquele momento do percurso. Diz a paciente: “A funcionária reclamou de mim e do chefe em voz alta [...] tive que sair por uma hora da sala, para me acalmar. Depois, conversando com outras colegas, me aconselharam a falar com o chefe... Fui até lá, e pedi para ele ‘desmembrar o núcleo’, porque eu não conseguiria mais trabalhar com ela, ‘por nem mais um minuto’.” “Desmembrar o núcleo?”, a analista repetiu suas palavras, que chamaram a atenção. “É”, ela disse. O termo soou agressivo, com o intuito de se separar da colega, de forma permanente e drástica. Chamou, também, a atenção a forma sem afeto com que Lara falava disso. Ou seja, o afeto – a raiva que sentia pela colega – não aparecia, em sua fala. Provavelmente, haveria sim, um real conflito em suas relações de trabalho, ou seja, uma realidade por trás desses fatos. Porém, inserindo o conteúdo manifesto da paciente para o contexto de sua análise, ficou claro nesta sessão, a partir da interpretação que se deu na transferência entre paciente e analista, que Lara falava do desejo de desmembrar “nosso núcleo”, “nosso ambiente de trabalho” – o trabalho analítico, que lhe trazia muita ansiedade e desconforto. De não trabalhar com ela, por nem mais um minuto. Neste caso, as palavras encontraram um sentido único contextualizado no campo entre a analista e a paciente. Desmembrar o núcleo, ali, tinha um sentido próprio, para além do sentido ao qual se referia a paciente. Trata-se de um exemplo simples, de um conteúdo inconsciente (latente) expresso pela fala (manifesto). 2) Nesta segunda situação clínica, descreve-se a fala da paciente, com uma função psíquica: de uma tentativa de união permanente com a analista. Clarice (48 anos). Tanto no primeiro atendimento, quanto nas sessões seguintes, Clarice tinha a fala difícil de ser acompanhada. Falava rápido, pulava de tema em tema, fazendo conexões que pareciam sem nexo para quem as escutava; além de não permitir nenhuma ‘brecha’ de tempo para que algo fosse dito pela analista. Possivelmente, na tentativa de ‘colar-se’ à analista com sua fala – assim como o bebê que se sente protegido, tanto física quanto psiquicamente, quando do contato com a pele da mãe (7). Neste primeiro ano, a analista compreendeu que precisava escutá-la (e ela a si mesma) - era esta sua tarefa, ao invés de privilegiar ‘o quê’ ela dizia. Num segundo mo- Pensamento Plural: Revista Científica do , São João da Boa Vista, v.5, n.1, 2011 Fala de Cada um - Investigação Psicanalítica no Contexto Clínico mento, aos poucos, a analista pôde ajudá-la a aparar as frestas desta fala, para que esta pudesse se tornar um diálogo. Para que pudéssemos entrar nele – e fazer parte ativa dele –; para que pudéssemos ‘trocar palavras’. Não num processo de ‘fora para dentro’ (a analista cortando sua fala, como muitas vezes acontece no ‘mundo lá fora’ quando pessoas querem ser escutadas) mas, ao contrário, de dentro para fora – ou seja, o que a analista fazia, estando presente, com ela, tinha um efeito em seu mundo interno, intrapsíquico – o qual se refletia, necessariamente, em sua fala. Na medida em que seu pensamento foi – ao longo do tempo analítico e das sessões – se organizando, sua fala também foi, aos poucos, se configurando como um diálogo com a terapeuta. Em última instância, com ela mesma. Neste exemplo, a fala incessante da paciente, do início, tinha uma função psíquica (como citado acima). Considerações Finais Notas A primeira conclusão acerca deste trabalho à qual nos remetemos, é sobre o fato de termos nos deparado com uma imensa gama de possibilidades de pesquisa, estudo e articulação a respeito do assunto Linguagem e Fala, no contexto clínico. Existe, de fato, um oceano a este respeito. Quantas não são as vertentes, as ramificações, os caminhos para se tratar deste tema tão vasto e, ao mesmo tempo, específico – o idioma (inconsciente) de cada um. É importante lembrar que, para toda e qualquer pesquisa sobre este assunto, para que a especificidade possa ser mantida, uma primeira e muito necessária diferenciação se faz imprescindível: entre linguagem, língua e língua. O que pretendemos ter feito aqui, foi somente tocar no assunto da fala no contexto clínico, e levantar algumas reflexões pautadas neste assunto. Cada um dos temas muito brevemente abordados – tangendo à fala como portadora de conteúdos inconscientes – podem e devem ser estudados e aprofundados por outros pesquisadores desejosos de uma maior e melhor compreensão da prática clínica. Vale também lembrar, apesar de nos parecer evidente, que uma infinidade de assuntos pertinentes e relativos a este assunto não foram incluídos aqui, por razões óbvias de tempo, espaço e realidade. Para citar somente alguns, teríamos: a fala dos que não falam; as vicissitudes das falas características das estruturas psíquicas; a fala do corpo (conforme a Psicossomática, entre outras abordagens); a fala do grupo; a fala do analista (tema muito fértil); o silêncio como comunicação; a comunicação do paciente grave por viés de outras formas (do corpo, entre outras); a comunicação inconsciente entre o paciente e o analista (como por viés dos sonhos); a fala em língua estrangeira (por paciente ou analista); e ainda, entre outros não citados, tema bastante recente: a comunicação do paciente por viés de ‘ideogramas’ que surgem na mente do analista. Certamente, muito campo fértil à nossa frente! Para concluir, citaremos uma frase do dramaturgo americano Tennessee Williams, retirada de uma de suas peças teatrais homônima: “Fale-me como a chuva. E deixe-me escutar”. Talvez seja este em parte, o desejo do analista. 1 Trata-se de uma reflexão proferida por Freud, segundo a qual a primeira grande ferida narcísica do homem teria provindo da revolução científica de Nicolau Copérnico, que se opôs à concepção geocêntrica de Ptolomeu e da Bíblia, dogmatizada por mais de mil anos. Em 1500, relativamente recente em anos históricos, tal concepção era inadmissível e uma ofensa aos ditames da igreja e ao pensamento do homem comum. Depois de Copérnico, a Terra deixou de ser o centro do universo para tornar-se meramente um dos muitos planetas que circundavam um astro secundário nas fronteiras da galáxia; e ao homem foi tirada sua orgulhosa posição de figura central da criação de Deus. Copérnico estava plenamente cônscio de que sua teoria ofenderia profundamente a consciência religiosa de seu tempo; ele retardou sua publicação até 1543, ano de sua morte, e, mesmo assim, apresentou a concepção heliocêntrica como mera hipótese. Kepler e Galileu levaram adiante tal afirmação, um golpe na auto-estima humana. A segunda ferida narcísica no homem teria advindo com o naturalista Darwin e a teoria do Evolucionismo. “O homem não tem ascendência divina – mas dos macacos”. O naturalista lançou a idéia de que as populações se diferenciavam aos poucos, de geração em geração, sofrendo alterações genéticas: animais e plantas mais adaptados ao ambiente sobreviveriam e se reproduziriam, passando seus genes a seus descendentes. Por volta de 1838, sua teoria golpeou mais uma vez o narcisismo do homem e as concepções religiosas da época. O homem não seria descendente de algo divino e nem criado pronto, pelas mãos de Deus – tal qual pregavam as religiões cristãs. A terceira grande ferida, seria então legado da ‘descoberta’ do inconsciente, por Freud: “O homem não é o senhor de sua própria casa”. Desta forma, o homem deixa de ser o ‘árbitro’ e mestre de seus atos e desejos. 2 Vale acrescentar que já hoje Zimerman (2004), nos diz que “o sonho deixou de ser unicamente uma realização de algum desejo e ganhou a relevância de também ser considerado como uma forma de comunicação, às vezes de sentimentos muito primitivos [...]. O que importa destacar é que, na psicanálise contemporânea, se considera que muitas vezes – mas não sempre – os sonhos podem significar uma realização de desejo; no entanto, isto não é o principal, pois está ficando consensual entre os analistas o fato de que o surgimento de sonhos no paciente durante certos períodos [...], denota que a ‘mente do paciente está, silenciosamente, trabalhando”. (ZIMERMAN, p. 423) 3 1) a consciência ligada aos órgãos sensoriais; 2) a atenção, função instituída, segundo Freud, para explorar o mundo exterior; 3) o sistema de registro que descreve como pertencente à memória; 4) a função de julgamento que foi desenvolvida para substituir o recalque; e, 5) o pensamento como meio de suportar o aumento de tensão provocado pela interrupção da descarga motora. (BION, 1970). 4 Trata-se do estágio que assinala o início da vida mental da criança imediatamente após o nascimento. De acordo com a teoria de Melanie-Klein, a criança é dominada, nos primeiros quatro meses de vida, por emoções e métodos de defesa característicos deste estado, de conflito entre os instintos de vida e de morte. (CABRAL, A e NICK E, Dicionário Técnico de Psicologia, 11ª. Edição). 5 Atenção flutuante – conceito fazendo parte da técnica da investigação psicanalítica, segundo a qual o analista escuta seu paciente de maneira não ‘sistemática’, tal qual se dá uma comunicação lógico-racional do quoti- Pensamento Plural: Revista Científica do , São João da Boa Vista, v.5, n.1, 2011 19 ANTONELLI, C. C. TERZIS, A. Referências diano: fato por fato. Ao contrário, seria um estado – também chamado de ‘rêverie’ a partir de Bion – no qual o analista ‘desprende’ parcialmente sua atenção da fala manifesta do paciente, possibilitando assim o fluir de idéias, imagens e associações em sua mente – seria a contrapartida da ‘livre associação’ por parte do paciente. 6 Diz-respeito às atitudes, pensamentos, sensações, sentimentos e fantasias que o analista experimenta na relação com seu paciente, por ele – paciente – despertados no analista. 7 De forma análoga e bastante interessante, Bion dirá “a pele mental”, referindo-se ao Ego do paciente psicótico. Neste caso, não se tratava de uma paciente eminentemente psicótica, mas com fortes aspectos desta estrutura. ANZIEU, D et al. Psicanálise e Linguagem – do corpo à fala. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997. ARRIVÉ, M. Linguagem e Psicanálise – Linguística e Inconsciente – Freud, Saussure, Pichon, Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. BION, W R. Théorie de la Pensée. Revue Française de Psychanalyse. 28 n. 1, 75-84, 1964; L’attention et l’interprétation, Paris, Payot (1974), 1970. CASTANHO, P de C G. Entre Línguas e Afetos: uma investigação psicanalítica da língua em grupos multilíngues (vols. I e II). Dissertação de Mestrado, USP, 2005. FREUD, S. A Interpretação dos Sonhos (partes I e II: vols. IV e V). Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, 1987. (Trabalho original publicado em 1987). _________. Formulações sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental. (vol. 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Disponível em: http://www. orbum.org/2009/04/a-quarta-ferida-narcisica-do-homem/ acesso em 17 de out. 2010. Our work intended to present a concise summary of the theoretical aspects concerning the place the patient’s speech takes in today’s clinical context. The theory used for that was fundamentally the Psychoanalysis starting with Freud, moving on to other contemporary authors also guided by the same theory. From the understanding that the structured speech of the patient would also be partly a product of their unconscious – not only that of the Freudian slip or of the wit – this work attempted to show the relevant place that the characteristics of each speech – that is to say, of each patient – has in the psychoanalytical clinical context. Clinical excerpts were used to illustrate this comprehension. We concluded that the theme is largely vast and demands complementary researches, while also being a very rich subject as source of comprehension to the unconscious. Key words Psychoanalysis, Language, Unconscious, Speech, Clinical Communication 20 Pensamento Plural: Revista Científica do , São João da Boa Vista, v.5, n.1, 2011