TELEJORNALISMO E IDENTIDADE CULTURAL Fábio Cadorin1 RESUMO A partir da análise de uma reportagem exibida em 2004, no Jornal Nacional, esse estudo propõe uma reflexão sobre o papel da televisão brasileira no processo de construção de uma identidade nacional. Enfatiza-se, principalmente, como o jornalismo exerce essa função. Sendo o objeto de análise uma reportagem produzida e exibida pela Rede Globo de Televisão, o discurso da emissora, como produtora de bens culturais, também é foco de análise. Palavras-Chave: Identidade Cultural, Nação, Telejornalismo. Este artigo analisa a reportagem “Identidade Cultural”, exibida em 05 de fevereiro de 2004, no Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão. O objeto deste estudo, produzido pelo jornalista Maurício Kubrusly, faz parte de uma série de seis reportagens que evidencia a cultura como instrumento de unificação nacional, como geradora de riquezas e como espelho da competência técnica e artística de quem faz a cultura no país. Por sua natureza televisiva, a reportagem em questão é constituída por elementos de áudio e vídeo. Aqui, por fatores óbvios, o conteúdo verbal poderá ser transcrito. Já as imagens precisarão ser “traduzidas” em forma de texto. O estudo começa por analisar como se constroi a identidade cultural de uma nação e as formas pelas quais essa identidade é apresentada. A seguir, aborda-se a influência da televisão no processo de formação da identidade cultural, enfatizando, principalmente, como o jornalismo exerce essa função. Na sequência, apresenta-se o conteúdo da reportagem e faz-se uma análise dos elementos que a compõe à luz das referências que integram o marco teórico. A partir deste passo, efetua-se, então, a conclusão do estudo. 1 Graduado em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, pela Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL; mestrando do Curso de Ciências da Linguagem da UNISUL. 2 Em sua obra “A identidade cultural na pós-modernidade”, Stuart Hall (2006) afirma que, embora a identidade nacional – o senso de pertencimento a uma nação – não esteja “impressa nos genes”, é comum pensar-se nela como parte da natureza essencial do ser. Entre os argumentos citados por ele está o do filósofo Roger Scruton: A condição do homem (sic) exige que o indivíduo, embora exista e aja como um ser autônomo, faça isso somente porque ele pode primeiramente identificar a si mesmo como algo mais amplo – como um membro de uma sociedade, grupo, classe, estado ou nação, de algum arranjo, ao qual ele pode até não dar um nome, mas que ele reconhece instintivamente como seu lar. (SCRUTON apud HALL, 2006, p. 48). Hall sustenta que as identidades nacionais são formadas e transformadas no interior da representação. “[...] a nação não é apenas uma entidade política, mas algo que produz sentidos – um sistema de representação cultural. As pessoas não são apenas cidadãos/ãs legais de uma nação; elas participam da ideia da nação tal como representada em sua cultura nacional” (HALL, 2006, p. 49). O autor comenta que “uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos”. (HALL, 2006, p. 50). Esse discurso é produzido por diversos meios – instituições de educação, políticas, religiosas, etc. – mas difunde-se de modo mais intenso por meio dos veículos de comunicação de massa, entre eles a televisão. Neste contexto, Bucci e Kehl (2004) lembram oportunamente dois conceitos importantes: imagem e mito: Vivemos uma era em que tudo concorre para a imagem, para a visibilidade e para a composição de sentidos no plano do olhar. (...) a comunicação e mesmo a linguagem passam a necessitar do suporte das imagens num grau que não se registrou em outro período histórico. Os mitos, hoje, são mitos olhados. (BUCCI e KEHL, 2004, p. 16). Os mesmos autores dizem que “não há sociedade que se sustente sem formular sua própria mitologia”. Justificam que o mito cria significações “indiscutíveis”, ao contrário da linguagem. “Não há um referente último que assegure, de um lugar fora da linguagem, a estabilidade das significações. A linguagem, de fato, é um lugar angustiante” (BUCCI e KEHL, 2004, p. 17). O caráter 3 de “insegurança” da linguagem abre possibilidade para o fortalecimento dos mitos e também das ideologias. Ao fixar significantes e significados, as ideologias dão ao sujeito “a sensação de que as coisas fazem sentido”. Uma e outro, ideologia e mito, escondem do sujeito essa condição inevitável, a de que tudo é transitório, e tudo o que concerne ao homem é de responsabilidade dos homens, das relações de troca e de poder entre humanos. Tudo, inclusive ele, o sujeito, que, como define Lacan, nada mais é que um significante à deriva. (BUCCI e KEHL, 2004, p. 17). Tal proposição vem ao encontro do que defende Hall em relação ao conceito de nação. O sentimento de pertencer a esse grupo maior, ao que o autor chama de “comunidade imaginada” – ideológica – confere ao sujeito uma estabilidade que, talvez, jamais alcançasse caso sentisse estar só, “à deriva”. O sentimento de integração nacional é bem notado no Brasil em sua relação com o desenvolvimento da televisão no país. Bucci (2004) diz que a trajetória desse veículo se confunde com a história política do país a partir de 1960. Tal identificação ainda se mantém. A televisão é hoje o veículo que identifica o Brasil para o Brasil (...). Tire a TV de dentro do Brasil e o Brasil desaparece, ou seja, a representação que o Brasil faz de si mesmo praticamente é desligada. A TV une e iguala, no plano do imaginário, um país cuja realidade é constituída de contrastes, conflitos e contradições violentas. A TV conseguiu produzir a unidade imaginária onde só havia disparidades materiais. Sem tal unidade, o Brasil não se reconheceria Brasil. Ou, pelo menos, não se reconheceria como o Brasil que tem sido. (BUCCI, 2004, p. 222). A televisão tem como um de seus principais elementos a imagem. Bucci (2004) chega a afirmar que a realidade passa de fato a existir quando convertida em imagem. Daí, o papel importante que assume a televisão. Como tudo precisa se traduzir em imagem para adquirir a condição de existência, ou seja, como algo só é considerado existente quando se torna algo visível e, mais que tudo, visível não em qualquer lugar, mas visível na TV, a fabricação pela TV e na TV das imagens de todas as coisas acaba se confundindo com a fabricação da própria realidade. (BUCCI, 2004, p. 208). Pereira Júnior e Correia (2008) apresentam o resultado de uma pesquisa 4 da agência de notícias Reuters, da Rede BritâniCa BBC e dos Media Centre Poll da Globescan realizada em dez países, que revelou que a principal fonte de informação para 56% dos brasileiros entrevistados é a televisão. O mesmo estudo concluiu que eles acreditam mais na mídia que no Governo. Diante desse quadro, é preciso refletir sobre outra questão importante: o fato de que o modelo de jornalismo que reproduz o “real” já é considerado inexistente pelos pesquisadores. Pereira Júnior e Correia (2008) citam Schudson para mostrar que essa crença na imparcialidade do jornalismo só sobrevive no imaginário de muitos profissionais da área. O espaço em que essa visão de reprodução [da realidade] ainda se mantém de uma maneira forte é nas redações das empresas jornalísticas em função de dois mitos da prática profissional (...): a imparcialidade e a objetividade, que permitiriam ao jornalista afirmar que o distanciamento dos fatos garantia à notícia ser o espelho da realidade. (PEREIRA JUNIOR E CORREIA (2008), p. 13). Bucci (2004) também concorda com a inexistência da imparcialidade, mas enfatiza que essa característica ainda é reconhecida não apenas por profissionais do jornalismo, mas pelo público. Por consequência, o discurso televisivo, ao menos no imaginário popular, acaba assumindo status de reprodutor fiel da realidade. O jornalismo resiste como um campo discursivo que ainda carrega a pretensão de, no interior do relato que propõe, conter, sistematizar e representar de modo inteiramente neutro a objetividade dos fatos. Como se essa objetividade fosse possível. O discurso jornalístico, agora como antes, muitas vezes se vê erguido sobre uma ilusão: descrever a realidade sem nela interferir. Foi assim que encontrou na tela da TV o novo palco para fincar sua autoridade. (BUCCI, 2004, p. 30). Hall (2006) atenta para outro fator que também tem reflexos na apresentação dos fatos pelo jornalismo: a sujeição à linguagem. Ele afirma que “é sob a forma discursiva que a circulação do produto se realiza, bem como sua distribuição para diferentes audiências” (HALL, 2006, p. 366). E acrescenta: No momento em que um evento histórico é posto sob o signo do discurso, ele é sujeito a toda a complexidade das „regras‟ formais pelas quais a linguagem significa. Por isso, paradoxalmente, o acontecimento deve se tornar uma „narrativa‟ antes que possa se tornar um evento comunicativo. (HALL, 2006, p. 366). 5 Se todo enunciado tem uma intencionalidade, o mesmo se aplica ao objeto deste estudo. Antes, porém, de efetuar uma análise mais apurada da reportagem, apresenta-se o conteúdo do que foi veiculado. Observe-se que na coluna referente ao áudio, textos em negrito representam a locução do repórter em off. Vídeo Áudio Fátima Bernardes – Apresentadora Num planeta rodeado por satélites de comunicação, rasgado por cabos de transmissão de dados, um morador de um vilarejo encravado na floresta amazônica pode ter acesso a informações de toda parte do mundo. É preciso que ele tenha um computador ligado na internet ou simplesmente uma antena parabólica ligada na TV. Willian Bonner – Apresentador Nesse planeta, a oferta de informação é infinita e com ela trafegam, nos satélites, nos cabos, produtos culturais. E como é possível um brasileiro se reconhecer nos meios de comunicação desse planeta tão grande e tão interligado? É o que mostra Maurício Kubrusly na quarta reportagem da série sobre cultura nacional. Vinheta: Identidade Brasil (trilha) Entrevistado 1 (sem crédito) “Cultura pra mim é artesanato, é a arte do povão”. Entrevistado 2 (sem crédito) “A cultura é tudo o que difunde leitura”. Giovana Antonelli – Atriz “Eu gosto de forró, adoro forró”. Rapaz com celular; moça com celular; antena de transmissão de sinais de comunicação; sala com muitos computadores e televisões; jovens batem foto com celular e mostram a foto para a câmera; menina loira assiste a TV; televisão ligada; satélite em torno da terra. A tecnologia não pára de inventar maneiras ainda mais eficientes de criar, armazenar, enviar, receber, exibir informações, ao redor de todo planeta. Um grupo de pessoas, aparentemente pobres, montam uma antena parabólica; várias crianças observam imagens em um computador. Há indícios de que se trata de uma comunidade indígena. Cada vez mais pessoas aproveitam este mundo novo, admirável. Gilson Schartz – Professor da USP “A nova economia é feita de tecnologia, de redes de informação. A internet é o grande exemplo. Uma vez que você instalou toda essa infra-estrutura, seja pública, seja 6 privada, as pessoas estão tendo acesso ao computador, a grande pergunta é: acesso a que? E aí que vem o conteúdo”. Câmera de vídeo; ninho de passarinho com filhotes; crianças jogam futebol num campo de terra, aparentemente numa comunidade bem interiorana, provavelmente indígena. Conteúdo que pode ser cultura, claro. Que você vê aqui, sem pagar nada. Jornal das Dez (GC – Globo News); Bom dia Brasil, duas cenas, com apresentador Renato Machado (GC – Bom dia Brasil); Apresentador do Jornal da Band, plano 3x4, do Jornalista Marcos Hummel, que já foi da Globo (GC – Jornal da Band); Bancada Jornal da Globo, com Lílian Vite Fibe, duas cenas (GC – Jornal da Globo); Bancada de telejornal com Boris Casoy (GC – Jornal da Record). Ou nos canais pagos, centenas. Com muito jornalismo. Um jornalismo forte, atuante, que acompanha e revela o Brasil e o mundo a partir do ponto de vista da cultura brasileira. Imagem telejornalismo Fox News; Imagens telejornalismo estrangeiro, não identificado; Imagens telejornalismo italiano. Se não fosse assim, nós receberíamos informações através de redes estrangeiras, segundo o ponto de vista deles. Jornal impresso “Folha de São Paulo”; jornal impresso “O Estado de S. Paulo”; jornal impresso “O Globo”; tela de computador com fotos; grupo de pessoas diante de um computador; CD de música rodando; locadora de vídeo, vários DVDs em prateleiras. A imprensa brasileira, mesma coisa. Qualidade, independência. E ainda existe o computador, contato com a internet. A música que está num CD. O filme, o programa que está num DVD. É assim a oferta no tal planeta globalizado. Arte: Título no alto, à direita: Cinema 2003; Abaixo, coluna com “rolos de filmes empilhados” – GC: 175 filmes; A coluna divide-se em duas, sobre a menor aparecem os caracteres “nacionais”, sobre a maior, “estrangeiros”; a coluna maior divide-se. Sobre a terceira surge os caracteres “90%”. No alto da coluna aparece a palavra “americanos”; O cinema, por exemplo. No ano passado, foram lançados aqui 175 filmes. Do total, 80%, filmes estrangeiros. Entre os importados, cerca de 90% vieram dos Estados Unidos. Cenas da filmagem de “Matrix” - GC: cenas de MATRIX – Warner; cenas de filme com GC: “Os caçadores da arca perdida” – CIC Vídeo; Mais cenas de filmagens cinematográficas. Os americanos são campeões mundiais na indústria do cinema. São craques mesmo. Um negócio que gera milhares e milhares de empregos por lá. Ficha técnica de uma superprodução; seqüência de cenas de filmes americanos. Basta prestar atenção na ficha técnica de uma única superprodução. Toda essa gente trabalhou num único filme. Mas é claro que o filme americano se apóia nas idéias, nos costumes, nos valores, enfim, na cultura americana, que é muito diferente da nossa. Boletim: Maurício Kubrusly – atrás do repórter, em Croma Key, aparece cena do filme “Indiana Jones”. Noventa por cento dos filmes estrangeiros vieram dos Estados Unidos, então, qual é a chance de um brasileiro entrar no cinema, e 7 se reconhecer, se identificar com o que está na tela? Seqüência de cenas de filmes brasileiros sem crédito de identificação. Nós montamos uma fita com trechos curtinhos de filmes brasileiros e estrangeiros. E tirou o som, claro. Boletim: Maurício Kubrusly, entre populares, aprensenta a TV onde serão exibidos os filmes para o “teste”. “Agora a gente vai fazer um teste aqui no centro de São Paulo, com toda essa turma. Chega aqui, chega aqui, senão eles já vão saber qual é o teste. A gente vai perguntar a eles se eles acham que o filme é brasileiro ou estrangeiro, assim, direto, esse filme que está passando aqui”. Entrevistada 3 Entrevistada 4 Entrevistado 5 Entrevistada 6 Entrevistado 7 Entrevistado 8 Entrevistado 9 Entrevistadas 10 e 11 Entrevistada 12 “Brasileiríssimo”. “Brasileiro... não, estrangeiro”. “É brasileiro”. “Brasileiro, né, lógico”. “Estrangeiro”. “Tá na cara que é brasileiro”. “Estrangeiro”. “É brasileiro, brasileiro”. “Ah, brasileiro, com certeza”. Cena do grupo de pessoas acompanharam as entrevistas. que Ninguém vacila, todo mundo sabe quando o filme tem a cara do Brasil. E adora! Daniel Filho – Diretor “Nós queremos que o público brasileiro venha ver o cinema brasileiro. A gente conseguiu isso com muita rapidez”. Sequência de cenas de filme francês “O fabuloso destino de Amelie Poulain” – Imagem Filmes. Filme francês. Por lá, o sucesso do cinema americano também é grande. Mas os franceses souberam resistir. Jean Paul Rebaud - Adido cultural do Consulado da França em São Paulo. “O motivo foi esse sentimento real que os filmes, minisséries e novelas, cada vez mais exibidos pelos canais de televisão na França, eram, sobretudo, de origem americana”. José Wilker – ator “Os franceses são de um rigor, de uma exigência e de um deleite, um prazer todo especial com relação àquilo que eles chamam de cultura nacional, impressionante”. Cenário do programa “Fantástico”, da Rede Globo, e cenas de novela ou minissérie. Mas na TV brasileira, a situação é muito especial. Guel Arraes – Diretor “Acho que a gente tem no Brasil uma situação privilegiada, com todo o horário nobre ocupado com produção brasileira. O povo brasileiro ama a televisão brasileira”. Cenas do filme “O auto da compadecida” – Columbia (Áudio do filme) Arlindo Machado - Professor da PUC “Essa invasão de produção norte-americana, principalmente, no cinema e uma parte 8 também na televisão sobre a forma de seriados, isso não destruiu nossa produção. A nossa televisão continua tendo uma personalidade própria”. Cenas do programa “Casseta e Planeta”, da Rede Globo. (Áudio do programa) Gilberto Gil - Ministro da Cultura “Não simplesmente cruzarmos os braços. Se cruzarmos os braços, sim, aí podemos ter nossa característica, a nossa condição, a nossa cara cultural ameaçada”. Cenas de um grupo de idosos em dança aparentemente folclórica. (Áudio ambiente) Danilo Santos Miranda – Diretor do SECS – SP Nós temos que nos defender sim. Não temos que agredir e deixar de lado apenas porque é estrangeiro. Não. Nós somos formados pelo que veio de fora. Cenas do filme “Deus é brasileiro” (Áudio do filme) Guel Arraes – Diretor “A televisão hoje em dia serve para lançar cinema, o conteúdo do filme brasileiro cresceu muito na medida em que a TV brasileira anuncia o cinema na televisão. Além do seu conteúdo próprio, ela é veículo para lançar música, lançar cinema, lançar cultura brasileira”. Grupo folclórico musical E é a cultura que faz a cara do Brasil. Antes mesmo de a matéria entrar no ar, o apresentador Willian Bonner lança um questionamento: “como é possível um brasileiro se reconhecer nos meios de comunicação nesse planeta tão grande e tão interligado?” A pergunta traz implícita uma afirmação, a de que existe uma ou mais características que definem o que é ser brasileiro. Fora a condição básica de ter nascido no país, o que têm em comum um pescador “mané da ilha” florianopolitano, um índio do interior amazonense, um alto executivo paulista e um sertanejo nordestino, só para citar uns poucos exemplos? Que identidade é essa que os caracteriza como cidadão brasileiro? De alguma forma, um se reconheceria no outro? Menos do que cada um carrega de características particulares, Hall defende que essa identificação ocorre no senso de pertencimento à já referida “comunidade imaginada”. 9 As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre „a nação‟, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades. Esses sentidos estão contidos nas estórias que são contadas sobre a nação, memórias que conectam seu presente com seu passado e imagens que dela são construídas. (HALL, 2006, p. 51). A questão é complexa e, talvez, caiba também regressar um pouco na história da televisão brasileira para abarcar esse sentido de integração nacional. À Rede Globo de Televisão, historicamente, foi imputado o “mérito” de promover a “integração nacional”. Bucci expõe o que justifica tal feito. Segundo ele, a televisão brasileira encontrou condições para se desenvolver no período da ditadura militar, por força da necessidade de se promover a “Doutrina de Segurança Nacional”. Segundo aquele ideário, o território brasileiro, para estar a salvo das influências subversivas dos inimigos externos e internos (os militantes comunistas), precisava estar inteiramente sobre o controle de um veículo de comunicação abrangente, onipresente, forte e unificador. Para tanto, o Estado teria de garantir a infraestrutrura para as telecomunicações; a iniciativa privada daria conta do resto. (...) A rede de televisão preferencial dos governantes daquele período acabou sendo a Globo. A opção se deveu a motivos políticos, sem dúvida: a adesão da nova rede aos desígnios do autoritarismo era notória. (BUCCI, 2004, p. 223). O autor não deixa de citar também o talento artístico e a competência empresarial dos profissionais da Globo. Mas, naturalmente, o que se destaca como fator que proporcionou o desenvolvimento da emissora é o vínculo com o poder político da época. O modelo de televisão imposto pela Globo, de acordo com Bucci (BUCCI, 2004, p. 223) é “aquela que informa, entretém e, acima de tudo, pacifica onde há tensões e une onde há desigualdades”. Fica evidente que a reportagem reforça ideologicamente que o perfil dominante da emissora não só é plenamente justificável, como deve assim se manter. A reportagem mostra que cada vez mais pessoas têm acesso à informação. Diante desse contexto, o professor da USP Gilson Schartz questiona, então, que conteúdo é oferecido. O repórter, como que respondendo a indagação, diz que o conteúdo pode ser cultura, que pode ser visto na televisão aberta e sem pagar nada. Entre tantas possibilidades, justamente a cultura é citada. Implicitamente, é como declarar que o conteúdo “cultural” da televisão brasileira é bom, e com a vantagem de estar à disposição gratuitamente. Cabe enfatizar que 10 também há referência aos canais pagos. Em seguida, fala-se do jornalismo brasileiro, caracterizando-o como “forte, atuante, que acompanha e revela o Brasil e o mundo a partir do ponto de vista da cultura brasileira”. Essa fala é coberta com imagens do Jornal das Dez (Globo News), Bom Dia Brasil (Globo), Jornal da Band (Rede Bandeirantes), Jornal da Globo (Globo) e Jornal da Record (Record). Observe-se que dos seis telejornais visualizados, quatro são da Globo, sendo que no Jornal da Band, mostra-se o apresentador Marcos Hummel, que durante anos atuou na Globo. Tal disposição de imagens facilmente pode levar o telespectador menos avisado a associar o bom jornalismo, principalmente, à rede Globo. Na sequência da locução, o repórter declara: “se não fosse assim, nós receberíamos informações através de redes estrangeiras, segundo o ponto de vista deles”. Nesse caso, trata-se de uma afirmação clara de que o jornalismo, de fato, não é puramente objetivo, mas produzido segundo um ponto de vista. E mais, reforça a ideia do nacionalismo. Na reportagem, o termo “imprensa” é vinculado apenas à imprensa escrita, pois o off “a imprensa brasileira, mesma coisa. Qualidade, independência” é coberto só com imagens de jornais impressos. Ainda assim, além de adjetivos que enaltecem a imprensa brasileira, mostram-se jornais pertencentes às organizações Globo. Boa parte da reportagem também é dedicada ao cinema. Produzida em 2004, ela revela um dado que no fim da década permanece atual. A maioria esmagadora dos filmes veiculados no Brasil tem origem estrangeira, sobretudo americana. Ressalta-se a qualidade do cinema americano e o potencial dessa indústria na geração de empregos. Mais uma questão é proposta pelo repórter: “se 90% dos filmes estrangeiros vieram dos Estados Unidos, então, qual é a chance de um brasileiro entrar no cinema, e se reconhecer, se identificar com o que está na tela?” Propõe-se um teste a um grupo de pessoas. Apenas olhando imagens, sem áudio, elas precisam identificar se o filme é brasileiro ou estrangeiro. O resultado é, no mínimo, paradoxal. A maioria dos entrevistados se sai bem no teste. O que chama atenção é o fato de exprimirem uma espécie de “orgulho nacionalista” ao se referirem aos filmes brasileiros, como confirma o repórter: 11 “ninguém vacila, todo mundo sabe quando o filme tem a cara do Brasil. E adora!”. Ora, se todos realmente “adoram” os filmes brasileiros, porque é que a produção estrangeira faz tanto sucesso no país? Porque a indústria de cinema brasileiro ainda não deslanchou? Essa condição, porém, contrasta com o depoimento do diretor (da rede Globo) Daniel Filho. “Nós queremos que o público brasileiro venha ver o cinema brasileiro. E conseguimos isso com muita rapidez”. No entanto, como foi citado anteriormente, não é o que apontam os dados. É trazido, ainda, o exemplo da produção cinematográfica e televisiva da França para introduzir um dos conceitos ideológicos que parece ser central na reportagem. Apesar da invasão americana, os franceses souberam “resistir”. É uma comparação com o que têm feito os brasileiros em relação à televisão. Basta verificar a sequência de falas: “os franceses são de um rigor, uma exigência e de um deleite, um prazer com a cultura nacional deles”, declara o ator (da Globo) José Wilker. E o repórter completa: “mas na TV brasileira, a situação é muito especial”. Segue o depoimento do diretor (da Globo) Guel Arraes: “temos no Brasil uma situação privilegiada, com todo o horário nobre ocupado com produções brasileiras. O povo brasileiro ama a televisão brasileira”. O professor da PUC, Arlindo Machado, di que “essa invasão de coisas americanas não destruiu nossa TV, que tem personalidade própria”. Essa tal “resistência” da televisão brasileira em relação à produção estrangeira é defendida pelo ministro da Cultura à época, Gilberto Gil: “se cruzarmos os braços, poderemos ter nossa cara cultural ameaçada”. Também pelo diretor do Sesc de São Paulo: “nós temos que nos defender sim. Não temos que agredir e deixar de lado apenas porque é estrangeiro. Não. Nós somos formados pelo que veio de fora.” Entre essa sequência de falas, há imagens, exclusivamente, de programas da Globo e de novelas e atores globais. Ao mesmo tempo em que se revela uma escolha óbvia, pois a reportagem foi veiculada na emissora, a intenção parece ser a de associar todas essas virtudes da televisão brasileira apenas à Globo. Menos evidente, porém observável, é a comparação das superproduções cinematográficas americanas com as “superproduções” novelísticas globais. Uma reportagem de televisão, com elementos verbais e visuais, oferece extenso campo de análise. O que se busca com esse trabalho é evidenciar como o 12 discurso televisivo pode não apenas servir para fortalecer a identidade cultural de uma nação, mas usar esse poder para veladamente (ou não) discursar em causa própria. No caso da rede Globo, como empresa privada, ela cria consumidores para seus produtos, ao mesmo tempo em que estabelece padrões, modela comportamentos e difunde uma ideia de unidade nacional. “A Globo é, por assim dizer, um palco do espaço público que ela mesma delimita. Ela soube forjar uma gramática universalizante através da combinação do melodrama (a novela) com o telejornal, num repertório dinâmico em que a nacionalidade se reconhece e se reelabora”. (BUCCI, 2004, p. 221). Hall (2006) também deixa claro que a TV extrai a matéria-prima de sua programação do próprio público. A audiência é, ao mesmo tempo, a “fonte” e o “receptor” da mensagem televisiva, uma vez que o processo de produção na televisão resulta de certo número de feedbacks indiretos dessa audiência. O consumo ou a recepção da mensagem da televisão é, assim, também ela mesma um „momento‟ do processo de produção no seu sentido mais amplo, embora este último seja „predominante‟ porque é „o ponto de partida para a concretização‟ da mensagem. Produção e recepção da mensagem televisiva não são, portanto, idênticas, mas estão relacionadas: são momentos diferenciados dentro da totalidade formada pelas relações sociais do processo comunicativo como um todo. (HALL, 2006, p. 368). Hall observa que antes de chegar ao público, a mensagem televisiva precisa ser transformada num discurso significativo, obedecendo às regras da linguagem. Tal discurso poderá, então, no momento seguinte, ser decodificado. “É esse conjunto de significados decodificados que „tem um efeito‟, influencia, entretém, instrui ou persuade, com consequências perceptivas, cognitivas, emocionais, ideológicas ou comportamentais muito complexas”. (HALL, 2006, p. 368). Em tempos de modernidade tardia, em tempos em que cada vez mais pessoas têm acesso a informações, de todas partes do mundo, é mesmo complicado delimitar as identidades nacionais. Que os meios de comunicação e, sobretudo, a televisão têm influência nesse processo, não resta dúvida, já mostrou a reportagem analisada. Estudos como esse, de acordo com Hall, devem ser incessantes por sua importância social. Por meio deles, é possível conhecer as instâncias do poder e por onde fluem seus discursos. 13 REFERÊNCIAS BUCCI, Eugênio; KEHL, Maria Rita. Videologias. São Paulo: Boitempo, 2004. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. ___________ . Da diáspora: identidades e mediações culturais.Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006. JORNAL NACIONAL. [http://jornalnacional.globo.com/ acesso em 21 de dezembro de 2009] PEREIRA JUNIOR, Alfredo Eurico Vizeu; CORREIA, João Carlos. A construção do real no telejornalismo: do lugar de segurança ao lugar de referência. In: VIZEU, Alfredo (Org.). A sociedade do telejornalismo. Petrópolis: Vozes, 2008. PINTO, Milton José. Comunicação e discurso: introdução à análise de discursos. 2. ed. São Paulo: Hacker Editores, 2002. SANTOS, Antonio Carlos. A imagem como matriz histórica da nação moderna. In: BRAGA, S.; MORITZ, M. E. W.; RAUEN, F. J.; REIS, M. S. (Orgs.). Ciências da Linguagem: avaliando o percurso, abrindo caminhos. Blumenau: Nova Letra, 2008, p. 185-197.