INTRODUÇÃO
Objetivando fundamentar a possibilidade de territorialização da agricultura
orgânica no Sudoeste do Paraná nesta dissertação denominada Agricultura Familiar1
com base tecnológica orgânica: potencial de expansão no Território Sudoeste do Paraná,
apresentamos a experiência local da APOP – Associação de Produtores Orgânicos de
Pérola do Oeste/PR. Tal associação forneceu-nos informações quanto à história da
colonização, resultados econômicos do cultivo da soja orgânica, questões ambientais,
sistemas
agrícolas,
tecnologias
agrícolas
do
modelo
orgânico,
certificação,
comercialização, produtividade do trabalho, dificuldades que consideram enquanto
entraves para a expansão de sua experiência local, entre outras. Os relatos dos
associados da APOP demonstraram-se indispensáveis para avaliarmos o potencial de
expansão do modelo orgânico. Eles fundamentaram as questões que debatemos com as
organizações da agricultura familiar, iniciativa privada e o governo. A APOP está
associada à APROSUDOESTE2 – Central de Associações de Produtores Orgânicos do
Sudoeste do Paraná. Esta Central é formada pelas associações: APROSANTO, do
município de Santo Antonio do Sudoeste/PR; ECOFLOR, do município de Flor da Serra
do Sul/PR; APROVIDA, do município de Pato Branco/PR; APROPAL, do município de
Palmas/PR e APROC, do município de Clevelândia/PR. O associativismo propicia aos
associados da APOP praticarem sua territorialidade nas dinâmicas territoriais relativas à
agricultura orgânica e familiar, abrangendo principalmente as microrregiões de Palmas,
Francisco Beltrão, Capanema e Pato Branco, todas do estado do Paraná.
Optamos pela abordagem territorial principalmente porque contempla as
relações de poder, a territorialidade, a territorialização e o associativismo da agricultura
1 O conceito de agricultura familiar está apresentado no sub-capítulo 2.6 A AGRICULTURA FAMILIAR,
todavia para superar as diversas opiniões e conceitos distintos, defendemos que agricultura familiar
corresponde a aquelas características por nós constatadas no estudo de caso da APOP e que é apresentado
no sub-capítulo 1.2 A APOP DE PÉROLA DO OESTE/PR.
2 Conforme descrito em Estatuto Artigo 1º, a Central de Associações de Produtores Orgânicos do
Sudoeste do Paraná – APROSUDOESTE é entidade civil dotada de personalidade jurídica de
direito privado, sem fins lucrativos, com independência financeira e administrativa, sede e foro, na
Rua Dona Mariquinha s/n°, Centro, município de Santo Antônio do Sudoeste/PR, fundada em 14 de
agosto de 2.006, com prazo de duração indeterminado.
orgânica atuando em rede. Como método para visualizar os recursos territoriais
demonstrou-se eficaz e nos permitiu identificar recursos naturais – basalto, água – e
propor o seu uso racional na agricultura orgânica, tornando possível idealizar um
território auto-sustentável3. Os atores/agricultores orgânicos, e suas representações
exercem seu poder na tentativa de expandir o modelo agrícola orgânico. A participação
dos associados da APOP, influenciando na tomada de decisões de projetos
governamentais e não-governamentais, promovem a territorialização e fortalecem a
territorialidade da agricultura orgânica no Sudoeste do Paraná.
Segundo Raffestin (1993, p. 51), na obra Por Uma Geografia do Poder, a
ambiguidade do termo poder está expressa como um Poder do Estado que: “[...]
marcado por uma maiúscula, resume a história de nossa equiparação a um conjunto de
instituições e de aparelhos que garantem a sujeição dos cidadãos a um Estado
determinado [...]”, e o poder, com minúscula, nasceu com a história e está presente em
cada relação e não é algo adquirido, mas que pode ser exercido a partir de inumeráveis
pontos. A questão é: os agricultores orgânicos estão exercendo o seu poder (com
minúscula) por meio do associativismo e influenciando no Poder do Estado?
Consideramos o poder exercido pelos agricultores familiares orgânicos como uma
proposta emergente, proveniente das regiões agrícolas, buscando soluções para
problemas econômicos, sociais e ambientais das propriedades agrícolas familiares.
Segundo Santos (1996, p. 68), nas regiões agrícolas é o campo que, sobretudo, “[...]
comanda a vida econômica e social do sistema urbano (sobretudo nos níveis inferiores
da escala), enquanto nas regiões urbanas são as atividades secundárias e terciárias que
têm esse papel”.
Para a realidade do desenvolvimento territorial italiano, a denominada
agricultura biológica, similar à agricultura orgânica praticada no Sudoeste do Paraná, é
considerada experiência significativa em nível local, por serem estratégicas para
questões ambientais e territoriais, uma vez que podem ser referência para políticas
públicas. As palavras de Dansero (1996) valorizam as experiências locais como
fundamentadoras de políticas públicas:
3 Auto-sustentável: ser sustentável a partir da gestão dos recursos naturais contidos no Território. O
conceito utilizado para desenvolvimento sustentável é o que foi apresentado pelo relatório Brundtland e
que faz parte da Agenda 21: “é o desenvolvimento que satisfaz as necessidades da geração presente sem
comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem suas próprias necessidades”
(BRUNDTLAND, 1991 apud LEAL, 2004).
Ao mesmo tempo, o estímulo para elaborações de políticas globais
derivam frequentemente de experiências significativas de nível local
(como exemplo, a coleta e reciclagem de refugo, a agricultura
biológica e outras mais complexas estratégias de reconversão
ambiental e territorial. (DANSERO, 1996, p. 13, tradução e grifo
nosso4).
Assim como os autores acima, aceitamos como principal recurso territorial a
sabedoria – recurso territorial imaterial – dos agricultores orgânicos que gradativamente
reconhecerão os recursos territoriais materiais – água, ar, solo, rochas basálticas ricas
em nutrientes, espécies vegetais nativas e fixadoras de nitrogênio atmosférico, plantas
medicinais, entre outros – e os utilizarão como insumos produtivos. A valorização e
consequente utilização racional dos recursos territoriais vêm ao encontro da idéia de
território autosutentável, porque poderá reduzir a necessidade de insumos externos ao
Território. Segundo Corrado (2005, p. 17, tradução nossa5) “o atual quadro
interpretativo coloca em evidencia a importância de tornar claro o conceito de recursos
territoriais seja em termos teóricos quanto operativos”. A abordagem de recursos
territoriais como o “saber fazer”, segundo Corrado (2005, p. 16-17, tradução nossa),
vem aplicado a uma multiplicidade de fatos territoriais e ainda muito diferentes entre
eles, que respeitam o passado no qual o conceito de recursos era utilizado para indicar
elementos exclusivamente naturais pertencentes a terra, e hoje o conceito considera
uma variedade de coisas, sejam materiais, acordadas como uma ópera combinadas
homem-natureza, ou sejam imateriais, ou referentes à esfera do social e cultural, tanto
quanto a beleza de uma paisagem, os talentos humanos e o saber fazer.
Reafirmando a importância de que os estudos propostos para esta dissertação
não podem ser direcionados a partir de uma abordagem que limite o território apenas a
uma idéia de espaço, mas que contemple a sabedoria dos atores/agricultores orgânicos,
sua capacidade de organizarem-se e planejarem a territorialização de sua proposta,
4 Tradução de parte da obra: Allo stesso tempo, gli stimoli all’elaborazione di politiche globali derivano
spesso da esperienze significative a livello locale (come ad esempio,la raccolta ed il riciclaggio dei
rifiuti, l’agricoltura biologica e altre piú complesse strategie di riconversione ambientale e territoriale.
(DANSERO, 1996, p. 13).
5 Tradução de parte da obra: “L’attuale quadro interpretativo mette in evidenza límportanza di fare
chiarezza sul concetto di risorsa terrritoriale sia in termini teorici che operativi” (CORRADO, 2005, p.
17).
enfatizamos Raffestin (1993), que elucida quanto ao fato de espaço e território não
serem termos equivalentes. O espaço é anterior, o território é o resultado de um ator que
realiza um programa, e ao se apropriar desse espaço concretamente ou abstratamente o
territorializa. A proposta de avaliarmos o potencial de expansão de uma nova base
tecnológica – e um novo pensamento –
implica aceitarmos a existência
do ator denominado agricultor familiar orgânico, o qual está territorializando-se no
Sudoeste do Paraná. Apresentaremos a territorialização no terceiro capítulo.
A literatura italiana, com autores como Giuseppe Dematteis, em sinergismo
com autores brasileiros, por exemplo, Marcos Aurélio Saquet, reforça o conceito de
território como espaço onde atores sociais exercem seu poder. Nas palavras de
Dematteis (2007), apresentando a obra de M. A. Saquet (2007) temos:
O território, do qual trata este livro, não é aquele “sem atores” de
quem o reduz a um conjunto de ecossistemas regidos por leis naturais,
nem aquele das ciências sociais e políticas mais abstratas, que
compreendem o território como um simples espaço de interação entre
atores, privado de relações com a materialidade do ambiente natural e
construído. (DEMATTEIS, 2007, p. 7).
O poder do ator emergente, agricultor orgânico, torna-se visível nas dinâmicas
do associativismo. O ator/agricultor orgânico associado fortalece-se interagindo com
agricultores orgânicos individuais, empresas que integram ou fazem parceria,
organizações
não-governamentais,
governo,
consumidores,
entre
outras.
O
fortalecimento do ator propicia contrapor-se à aquilo que é antagônico à sua proposta.
No caso dos transgênicos, é explícito o conflito entre as empresas multinacionais e o
ator/agricultor orgânico. A partir de associações municipais constituiu-se o
associativismo regional, do qual é exemplo a APROSUDOESTE. Outra organização
associativa de abrangência territorial é a Rede Ecovida, promotora da agroecologia.
Apresentamos as organizações associativas bem como as empresas que integram
agricultores orgânicos como mecanismos de territorialização da agricultura orgânica.
Acreditamos que a idéia de poder – internalizada nos agricultores familiares orgânicos –
permitirá a expansão da agricultura orgânica no Território Sudoeste do Paraná.
A pesquisa de campo foi realizada no município de Pérola do Oeste/PR, Linha
Vitória – onde estão localizadas 12 propriedades dos associados da APOP – e no
Distrito de Conciolândia – onde está localizada a propriedade de 1 associado.
Entrevistamos as famílias a partir de um roteiro com 93 perguntas, que nos
possibilitaram resgatar – história de vida – desde a década de 1950 quando as famílias
chegaram ao município de Pérola do Oeste/PR e montaram seus sistemas agrícolas.
Após gravarmos6 os depoimentos, os transcrevemos parcialmente e os citamos de modo
direto e parafraseado. Mantivemos os sobrenomes dos entrevistados, e abreviamos nas
paráfrases e citações diretas somente os nomes, que podem ser conhecidos nos
agradecimentos. Na maioria das entrevistas, ocorreu participação familiar, porém com
predominância de opiniões patriarcais. A pesquisa de campo assemelhou-se ao tipo
“estudo de caso” e teve por objetivo aprofundar “[...] a descrição de determinada
realidade” (TRIVINÕS, 1987, p. 111).
Na apuração de resultados financeiros, priorizamos a atividade econômica soja
orgânica, certificada e comercializada7. Neste caso distribuímos planilhas aos
agricultores que as preencheram a partir de suas anotações8 – dias trabalhados da
família, mão-de-obra contratada – e de notas fiscais – insumos comprados, soja
comercializada.
Utilizamos GPS9 para determinação das áreas totais das propriedades, das
atividades agrícolas, das reservas legais e preservações permanente; e para localizarmos
as habitações humanas e as instalações dos animais. A partir das coordenadas, foram
capturadas imagens de satélite do Google Hearth, nos permitindo visualização
complementar dos sistemas agrícolas estudados. A expressão sistema agrícola busca a
concordância com a proposição holística dos modelos agrícolas que aceitam “[...] que o
todo é mais do que a simples soma ou justaposição das partes” (KHATOUNIAN, 2001,
p.61).
As propriedades agrícolas dos associados da APOP, por nós apresentadas como
sistema agrícola, interagem com a abordagem Territorial, porque a propriedade – espaço
geográfico concedido por lei a determinado indivíduo – dá o poder ao proprietário de
6 Gravador Panasonic RR-US450
7 Não significa que outras atividades/por exemplo, o leite orgânico não tenham importância crucial; no
entanto, o leite não é comercializado como orgânico. Existe apenas uma exceção, a venda de leite do
sistema agrícola de Cláudio Leonhardt na feira.
8 Anotações relativas a aplicações de insumos, manejos de solo, entre outros procedimentos relativos a
produção fazem parte do sistema de certificação por auditoria.
9 Etrex VISTA HCx GARMIN.
exercer sua territorialidade. Assim, o sistema agrícola está organizado a partir da
proposta do proprietário, agricultor familiar. Embora não seja objetivo aprofundar,
vários sistemas agrícolas formam um sistema maior que poderia ser denominado
Sistema Território, que interage como rede, trocando informações e materiais.
O resgate documental também contribuiu para a visualização dos sistemas
agrícolas. O documento principal foi o Livro de Controle Interno do Projeto de
Certificação da APROSUDOESTE com a Certificadora Ecocert. Para Trivinõs (1987, p.
111), a análise documental “[...] é outro tipo de estudo descritivo que fornece ao
investigador a possibilidade de reunir uma grande quantidade de informação [...]”.
Para dialogar sobre as questões ambientais realizamos reunião de planejamento
estratégico participativo a partir do método F.O.D.A. Segundo Cordioli (2001), o
método ordena quatro focos de análise, considerando Fortalezas (objetivos alcançados,
aspectos fortes, benefícios, satisfação); Debilidades (dificuldades, fracassos, aspectos
fracos, descontentamento); Oportunidades (capacidades sem explorar, idéias de
melhoramento) e Ameaças (contexto adverso, oposição, resistência à mudança). Após
estudarmos a legislação ambiental em reunião com os associados da APOP, visitamos
cada uma das propriedades e juntamente com o proprietário e/ou membros das famílias
identificamos as irregularidades (Debilidades). O método de Cordioli (2001)
demonstrou-se eficaz para organizar os acontecimentos. A chegada dos transgênicos
facilmente foi classificada como Ameaça, por ser fator externo e de difícil controle. A
falta de vegetação no entorno de algumas nascentes foi apontada como uma Debilidade
por ser um fator interno, modificável pelo proprietário. Para entendimento da dinâmica
territorial que tratou do tema legislação ambiental, participamos de duas audiências
públicas e do Seminário Regional de Agroecologia e Preservação da Mata Atlântica,
coordenado pela APROSUDOESTE e realizado, no dia 05 de outubro de 2009, na Linha
Vitória, Pérola do Oeste/PR.
Determinamos os fatores que influenciam na expansão da agricultura orgânica
através de opiniões dos agricultores orgânicos associados à APOP e revisão
bibliográfica de quatro autores que, ao longo dos anos participaram de dinâmicas
relativas à agricultura orgânica no Território Sudoeste do Paraná. São eles: Khatounian
(2001) que atuou na formação de profissionais, principalmente apresentando a teoria de
sistemas agrícolas e metodologia de processo de conversão da base tecnológica
convencional para a orgânica; A. A. Saquet (2008), que durante o evento denominado II
SEET – Desenvolvimento Territorial e Agroecologia da UNIOESTE, Francisco
Beltrão/PR, apresentou: Reflexões sobre a Agroecologia no Brasil; Darolt (2002), com
experiência de organização de consumidores e conhecimento nas questões ambientais.
Seu doutorado é em Meio Ambiente e Desenvolvimento, pela Universidade Federal do
Paraná; e Arl (2008), que participou no Território Sudoeste do Paraná como Membro da
Rede de Consultores Colaboradores do MDA/SDT.
Apuramos os projetos – executados e/ou em execução – das organizações da
agricultura familiar e outros por meio de material secundário do GGTESPA – Grupo
Gestor do Território Sudoeste do Paraná, Picinatto (2005), Picinatto A. G. (2010) e
entrevistas. Determinamos o número de estabelecimentos agropecuários que fazem uso
da agricultura orgânica com dados do IBGE (2006).
Após entrevistarmos os associados da APOP, revisar a bibliografia, apurar os
fatores que influenciam no potencial de expansão e levantar os principais projetos que
ocorreram/ocorrem ou que estão encaminhados, iniciamos entrevistas com organizações
da agricultura familiar, empresas que atuam no ramo da agricultura orgânica e
instituição que representa o governo – Emater. Entrevistamos e gravamos as opiniões
de representantes das organizações da agricultura familiar, como Presidente do Sistema
Cresol, Vanderlei Ziger;
Presidente e assessores da ASSESSOAR, Ari Silvestro,
Valdir Duarte e Fabia Tonini10; Presidente do Sistema COOPAFI, Carlos Farias;
Presidente do SISCLAF, Jair Francisco Sbicigo; e Presidente e o Diretor da
COOPERIGUAÇU, Lindomar Schimitz e Cristophe de Lannoy. Das empresas,
entrevistamos o sócio-gerente da Gebana, Aldenir César Colussi; e o Diretor da Gralha
Azul Avícola Ltda, Alexandre Pecóits. Do governo entrevistamos o Diretor Regional da
Emater Francisco Beltrão/PR – Nilton Fritz; e o Coordenador da Câmara Temática de
Agroecologia do Território Sudoeste do Paraná, vinculado à Emater de São Jorge do
Oeste/PR, Jair Klein. Elaboramos as perguntas especificamente para cada instituição e
alguns temas como potencial de expansão e existência de estratégia territorial para
agricultura orgânica/agroecologica foram respondidos por todos. Transcrevemos as
opiniões gravadas parcialmente e as citamos nos capítulos. As organizações da
agricultura familiar priorizadas são as que, historicamente, representam os agricultores
familiares e atualmente compõem o GGTESPA – Grupo Gestor do Território Sudoeste
do Paraná. Sua característica comum é que interagem e fomentaram/fomentam os
10 Fabia Tonini é designada pela ASSESOAR para coordenar as atividades da Rede Ecovida de
Agroecologia. Assim sendo consideramos que o pensamento da Rede Ecovida de Agroecologia está
representado na entrevista.
modelos da agricultura orgânica, principalmente nas denominações alternativa e
agroecológica. Outro fator determinante na priorização é que os associados da APOP
atuam/atuaram como associados e dirigentes das organizações da agricultura familiar
entrevistadas.
Segundo Ferraz (2008, p. 9), “uma característica que reforça o processo
organizativo na região é que do total de associados às COOPAFI’s, em torno de 95%
das famílias são também associadas ao Sistema Cresol e 85% as CLAF’s [...]”.
Aceitamos tais organizações da agricultura familiar como vitais para promover a
territorialização da agricultura orgânica. Destacamos a ASSESOAR como gestora da
dinâmica territorial, que provoca o surgimento das demais organizações afins porque
trata do tema tecnologias alternativas, desde o ano de 1967, com capacitação técnica.
No ano de 1976, realizou experimentação agrícola e, no ano de 1977, formação de
monitores agrícolas e monitoras domésticas. O banco de sementes nativas, estratégia
fundamental para a autonomia dos agricultores familiares, teve início em 1984. A partir
do diálogo com os associados, no ano de 1987, a ASSESOAR criou o Programa de
Agricultura Alternativa que propunha abranger 13 municípios e beneficiar 450 famílias
organizadas em 22 grupos de base. Foram realizadas experiências concretas de
produção de sementes, conservação de solos, fabricação de ração e sal mineral caseiro,
plantio direto, adubação verde de verão e inverno e adaptação de implementos agrícolas.
Outros temas de interesse geral também foram contemplados, como política agrícola,
reforma agrária, sindicalismo, cooperativismo e associativismo. Os bons resultados do
Programa de Agricultura Alternativa propiciaram, no ano de 1989, a existência de 55
grupos de agricultores que se tornaram as associações participantes do Projeto Fundo de
Crédito Rotativo iniciadoras do Sistema Cresol. Este “é formado por cooperativas de
crédito que se organizam em rede, combinando os princípios da verticalidade e da
horizontalidade nas relações estabelecidas entre os nós dessa rede, os parceiros e outros
agentes externos” (SCHRÖDER, 2005, p.122). O atendimento é exclusivo para
agricultores que desenvolvem atividades conforme o conceito de agricultura familiar
descrito na legislação brasileira. Segundo dados do Sistema Cresol, mais de 80% dos
associados têm menos de 20 hectares de terra. A sua abrangência no Território Sudoeste
do Paraná é de 40 municípios, tendo 9 cooperativas singulares na Base Fronteira e 18
cooperativas singulares na Base Sudoeste. Apenas não abrange Barracão/PR e
Palmas/PR. Consideramos o Sistema Cresol, devido à sua origem em grupos de
agricultores que questionavam a Revolução Verde, como agente financeiro que aceita a
denominada agricultura orgânica e a proposta da agroecologia. Segundo Schröder
(2005, p. 122) “os financiamentos são concedidos às atividades produtivas consolidadas
na região, mas também a novas atividades, com ênfase na adoção de tecnologias
alternativas de produção agrícola, como a agricultura ecológica”. Segundo sua
constatação os dirigentes do Cresol buscam ampliar a atuação do sistema, extrapolar a
oferta de crédito, incentivar a organização da produção e da comercialização, e a
mudança da base tecnológica dos sistemas produtivos. As cooperativas Cresol –
singulares instaladas em 40 municípios – apóiam a conversão para sistemas orgânicos.
A postura favorável de alguns dirigentes pode ser explicada em parte:
[...] porque parcela dos dirigentes se origina de outros espaços de
atuação, como o movimento sindical, onde há, naturalmente, uma
preocupação abrangente quanto à formulação e execução de um
projeto de permanência dos agricultores familiares. Mas,
especialmente, porque há um entendimento entre os dirigentes que o
crédito, de forma isolada, não amplia a renda do agricultor e pode,
mais que isso, tornar sua permanência e a da cooperativa
insustentável. (SCHRÖDER, 2005, p.171).
As primeiras cooperativas do leite da agricultura familiar, as CLAFs, foram
criadas, no ano de 1998, nos municípios de Renascença, Marmeleiro, Dois Vizinhos e
Nova Prata do Iguaçu. Segundo Rückert (2007), no ano de 2003, as CLAFs criaram o
SISCLAF utilizando o modelo organizativo do Sistema Cresol. Tal organização
fortalece a agricultura familiar a partir da cadeia/leite atuando na organização dos
agricultores, e na produção, comercialização e transformação do leite. “O SISCLAF é
composto por vinte e três cooperativas singulares. Abrange vinte e três municípios do
Sudoeste do Paraná. É formado por mais de 3.750 famílias, produzindo cerca de quatro
milhões de litros de leite ao mês” (RÜCKERT, 2007, p. 8).
Segundo Ferraz (2008), a COOPAFI – Cooperativa de Comercialização da
Agricultura Familiar Integrada era constituída por 15 cooperativas que contavam com
aproximadamente 150 agricultores associados para cada cooperativa; sua abrangência
alcança 25 municípios do Sudoeste do Paraná. Conforme entrevista11 do Presidente do
Sistema COOPAFI, Carlos Farias, “[…] é um sistema de pequenas cooperativas da
agricultura familiar no Sudoeste. Hoje são 17 cooperativas [...] já temos 3 filiais [...]
estamos discutindo conforme a atividade [...]” (FARIAS, 2010). Segundo o depoimento
11 Entrevista no dia 22/01/2010.
de Farias (2010) estão “[...] separando os processos, se é alimento é uma instituição,
cereais são outras, produção de alimento ainda [estão] numa fase inicial [...]”. A
COOPAFI possui estrutura física para comercialização nos municípios de Capanema,
Planalto, Santo Antônio do Sudoeste, Marmeleiro, Dois Vizinhos, Coronel Vivida,
Realeza, Chopinzinho, Nova Prata do Iguaçu e Curitiba12. A atuação da COOPAFI,
através da venda direta ao consumidor e processos de comercialização com o governo
federal13, propicia a comercialização dos produtos da agricultura familiar. Segundo
Ferraz (2008, p. 2), “Todo o processo de formação e atuação das cooperativas é pautado
pelos princípios da democracia, cooperação e participação dos agricultores em todo o
processo decisório, além de incentivar a adoção do enfoque agroecológico”.
A valorização dos produtos agroecológicos, a partir de um processo
participativo e organizado, com apoio da Assesoar e das outras entidades, contribuiu
sobremaneira para a construção da Rede Ecovida de Certificação Solidária, a partir de
1999, que mudou completamente a relação de certificação no Brasil (FERRAZ, 2008, p.
4).
Esta dissertação está organizada em quatro capítulos. O primeiro apresenta a
APOP – Associação de Produtores Orgânicos de Pérola do Oeste/PR e o Território
Sudoeste do Paraná. As informações ilustram as atividades agrícolas orgânicas
praticadas pelos associados da APOP e estimulam o leitor a pensar se é possível
expandi-las no Território.
O segundo capítulo resgata a história dos associados e familiares da APOP que
vivenciaram e praticaram diversos modelos agrícolas, desde a chegada ao município de
Pérola do Oeste/PR. A experiência local de agricultores orgânicos é fundamentada em
modelos agrícolas de oposição ao modelo tecnológico convencional. Apresentamos as
várias propostas de modelos tecnológicos importados e que constituem a experiência
local e ainda neste capítulo, problematizamos: As experiências locais resultaram em
uma estratégia agroecológica territorial? Ou são experiências locais desarticulados, que
não caracterizam estratégia?
12 Em Curitiba/PR, a COOPAFI mantém funcionário em loja exclusiva de alimentos orgânicos, junto ao
Mercado Municipal.
13 Governo Federal: destacamos os projetos via Conab em que associações de agricultores orgânicos
fornecem alimentos às escolas municipais. A quantidade de alimentos a serem fornecidos e os valores são
predeterminados na legislação do Programa e em projeto. As Secretarias de Agricultura dos municípios
coordenam estes projetos.
No terceiro capítulo utilizamos dados de Picinatto (2003, 2005) do IBGE
(2006) e da IFOAM – International Federation of Organic Agriculture Movements
(Federação Internacional de Movimentos da Agricultura Orgânica), período de 199714 a
2009, e ilustramos a territorialização da agricultura orgânica em várias escalas.
O quarto capítulo denominado Agricultura Familiar com Base Tecnológica
Orgânica: potencial de expansão no Território Sudoeste do Paraná, engloba a maior
parte dos resultados da pesquisa com a iniciativa privada, organizações da agricultura
familiar e governo. Nele estão explicitadas as dificuldades dos associados da APOP e
que, possivelmente, influenciam de modo negativo ou impedem a expansão da
agricultura orgânica. A expressão potencial, essência de toda a pesquisa e titulo
principal do quarto capítulo, é considerada como possibilidade de realização, de
intensificação da dinâmica territorial, culminando com muitas famílias de agricultores
adotando o modelo tecnológico orgânico.
A expressão agricultura orgânica, conforme a legislação brasileira contempla
os modelos ecológico, biológico, biodinâmico, agroecológico, natural, sustentável15,
regenerativo e permacultura, como tecnologias de produção. As propriedades agrícolas
investigadas são o resultado de tecnologias de vários modelos agrícolas, não
correspondendo a um único modelo tecnológico proposto. Nos vários capítulos,
utilizaremos a expressão agricultura orgânica abrangendo todos os modelos, porém,
admitimos a existência de distintas propostas. Em alguns casos explicitaremos a
proposta agroecologica com suas particularidades. Aceitamos a expressão agroecologia
como uma estratégia de desenvolvimento em construção e não apenas como métodos e
técnicas de produção.
A expressão Agricultura Orgânica é utilizada no Território Sudoeste do Paraná,
com vários sentidos, em alguns casos puramente como a produção da soja orgânica para
exportação, o que entendemos ser equivocado; em outros casos tratando-se de
tecnologia de produção generalizando e abrangendo as demais correntes, o que
aceitamos como mais próximo da realidade observada nos sistemas agrícolas. Para esta
14 1997 é o ano que a IFOAM coletou os dados publicados no ano de 2000.
15 Para Leff (2002), os desafios do desenvolvimento sustentável “implicam a necessidade de formar
capacidades para orientar um desenvolvimento fundado em bases ecológicas, de equidade social,
diversidade cultural e democracia participativa” (LEFF, 2003, p. 246).
dissertação quando utilizarmos as expressões base tecnológica orgânica, agricultura
orgânica, ou modelo orgânico, nos referimos ao conjunto de tecnologias apresentadas no
sub-capítulo 2.8 MODELOS AGRÍCOLAS DE OPOSIÇÃO AO MODELO
CONVENCIONAL. Quando se tratar de propostas faremos à distinção entre proposta
agroecológica e a das empresas exportadoras. As associações com denominação
orgânico(s) não necessariamente estão vinculadas a empresas exportadoras; várias
associações com a denominação orgânico(s) comercializam localmente. Distinguir
propostas e resultados, atribuindo mérito às diversas associações de agricultores e suas
organizações de representação, à iniciativa privada e ao governo é o grande desafio. O
estudo de caso da APOP leva a crer que, em uma associação denominada orgânica as
diferentes propostas, agroecológica e orgânica; e as distintas tecnologias convivem,
resultando em benefícios ao ambiental, ao econômico e ao social.
Aceitamos a relação homem-natureza, praticada pelos associados da APOP,
como tentativa de convívio harmonioso com a natureza ao invés da tentativa de dominála; contrapõe-se ao pensamento daqueles que argumentam: “[...] todavia, a realidade da
dominação social sobre a natureza é incontestável [...]” (SMITH, 1988, p. 27). A
proposta de desenvolvimento econômico a partir da agricultura orgânica é geradora de
uma dinâmica territorial. Os diversos atores sociais, gradativamente, estão
intensificando a articulação territorial por meio do associativismo e cooperativismo,
iniciativa empresarial e governo, o que contribui para a expansão da agricultura
orgânica. A questão principal que nos orientou nas investigações e será discutida nas
conclusões parciais e final é: Qual o potencial de expansão da agricultura orgânica
no Território Sudoeste do Paraná?
CAPÍTULO 1 – ASSOCIAÇÃO DE PRODUTORES ORGÂNICOS DE PÉROLA
DO OESTE/PR – APOP – E O TERRITÓRIO SUDOESTE DO PARANÁ
1. CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS
Neste capítulo apresentamos as características dos sistemas agrícolas dos
associados da APOP e do Território Sudoeste do Paraná. Priorizamos as características
importantes para avaliarmos uma possível territorialização da agricultura orgânica a
partir da experiência local. Apresentando a APOP como experiência local, descrevemos
seu surgimento, a localização das propriedades, a agricultura do município de Pérola do
Oeste/PR, a origem dos associados, a participação na Revolta dos Colonos, os sistemas
agrícolas e as tecnologias. Problematizamos a dependência em insumos externos ao
sistema agrícola e ao Território, e as questões ambientais levantadas nas propriedades
dos associados. Detalhamos as tecnologias de produção orgânica de alguns sistemas
agrícolas e demonstramos o uso da terra com as principais atividades agrícolas
orgânicas; apresentamos o tempo de trabalho necessário para o cultivo da soja orgânica
e os resultados financeiros dessa atividade devido ao grande destaque que os associados
deram aos temas durante as entrevistas. Da instância Território Sudoeste do Paraná –
MDA/SDT – apresentamos o histórico da constituição, entidades que participam,
localização
e
quantidade
de
estabelecimentos
agropecuários
familiares
por
microrregião. As características físicas também foram priorizadas, porque consideramos
que as condições físicas são favoráveis a proposta agroecológica de distribuição de
alimentos no Território. Apresentamos o Território, como dinâmica praticada pelos
atores/agricultores familiares orgânicos e citamos as instituições governamentais e nãogovernamentais que fazem parte do GGTESPA – Grupo Gestor do Território Sudoeste
do Paraná. As opiniões dos atores que poderão influenciar na territorialização da
agricultura orgânica serão apresentadas nos capítulos seguintes.
2. A APOP DE PÉROLA DO OESTE/PR
O principal fato motivador para os agricultores orgânicos fundarem a APOP foi
o curso de agricultura orgânica, elaborado e executado pelo Instituto Maytenus no ano
de 2002. Era uma das ações do Programa de Agricultura Orgânica do Sebrae de Pato
Branco/PR. O curso foi executado em 12 módulos quinzenais e como parte de
metodologia16, que previu: curso, visitas de orientação técnica, intercâmbios, palestras e
assessorias relativas à certificação, entre outras ações. Encontros sistemáticos geraram a
associação no ano de 2003. Alguns associados já eram produtores de soja orgânica
desde 1991 e outros converteram-se para o modelo orgânico, como resultado das ações
do programa. Embora a soja orgânica seja importante para as famílias devido a sua
comercialização como produto orgânico de exportação, constatamos que outras
atividades agrícolas, gradativamente foram incorporando princípios e tecnologias de
vários modelos: agroecológico, natural, biodinâmico, ecológico, orgânico, homeopático,
permacultura, sistema voisin, entre outros. A utilização da homeopatia, piqueteamento
Voisin (1978) para controle de ecto e endoparasitas e irrigação noturna dos piquetes,
horticultura orgânica, produção de uva e vinho biodinâmico são destaques que nos
revelaram sinergia com a questão ambiental. Observamos que ocorre recuperação de
nascentes e sangas, implantação de agroflorestas, biodigestores e aquecedores solares. A
participação
da
APOP
no
associativismo
territorial
ocorre
por
meio
da
APROSUDOESTE – Central de Associações de Produtores Orgânicos do Sudoeste do
Paraná. Destacamos também a participação de associados em organizações – Assesoar,
Sistema Cresol, Sisclaf, Coopafi – de abrangência Territorial, tornando a APOP
ambiente propício para entendermos as dinâmicas que ocorrem em torno da agricultura
16 O método Mandala está descrito em PICINATTO, A. C.; CAVALET, L. E. Avaliação de metodologia
para a conversão de sistemas agrícolas convencionais para orgânicos. Scientia Agrária Paranaensis, v. 4,
p. 05-20, 2006. O método Mandala também está apresentado em OLIVEIRA, L. C.; PICINATTO, A. C.
Avaliação de metodologia para a conversão de sistemas agrícolas convencionais para orgânicos. In: II
Jornada Científica do Centro-Oeste de Economia e Administração, 2002, Campo Grande – MS, p. 70.
orgânica. O quadro 1 mostra o tamanho da área das propriedades e a produção de soja
orgânica na safra de 2001/2002 de doze associados que comercializaram em conjunto.
Tal levantamento teve a função de apresentar estimativa de produção para compradores
presentes na feira BioFach em 2004, no Brasil. Os associados objetivaram avaliar a
possibilidade da venda direta para a indústria, reduzindo as intermediações.
Os sistemas agrícolas das propriedades sofrem modificações constantes – uso
do solo e modelos tecnológicos – para superar dificuldades impostas. A descrição dos
sistemas agrícolas, por nós conceituado, como território administrado pelos agricultores
familiares, dará o panorama das atividades agrícolas na data citada na fonte. A seguir o
quadro demonstrativo de área total, principais produtos e estimativa da soja orgânica na
safra 2004.
QUADRO 1 – APOP, ÁREA DAS PROPRIEDADES E ESTIMATIVA PARA SOJA
ORGÂNICA, SAFRA 2004.
NOME
ÁREA
PRINCIPAIS PRODUTOS
TOTAL
SOJA**
SOJA**
C2***
ORG
ha
Alfredo Mombach
Jair Mombach
Milton Patzlaff
16,3
10,2
21,0
Soja, milho, leite, aveia, carne suína*
Soja, milho, leite, aveia, sorgo
Soja, milho, leite, aveia, sorgo, carne
400
280
395
Lúcia A. Patzlaff
18,2
suína*
Soja, milho, leite, aveia, sorgo, carne
500
Sergio Campra
Teófilo Domanski
Mario Domanski
Eduardo Domanski
Claudio Leonhardt
Waldomiro Gerhardt
Romeu Helfer
Jorge Patzlaff
TOTAIS EM SACAS
TOTAIS EM KG
13,5
18,2
26,3
25,2
8,4
10,2
5,2
11,7
suína*
Soja, milho, leite, aveia
Soja, milho, leite, aveia
Soja, milho, leite, aveia
Soja, milho, leite, aveia
Soja, hortaliças, milho, leite, aveia
Soja, milho, leite, aveia
Soja, milho, leite, aveia
Soja, milho, leite, aveia, carne suína*
180
186
425
545
150
300
80
250
190
520
31.200
230
3.591
215.460
FONTE: PICINATTO A. C., 2003.
NOTA: *Atividade não orgânica, conforme tecnologia da empresa Sadia, com o diferencial de que os
animais são parcialmente tratados com milho orgânico da propriedade.
NOTA: **O detalhamento para o produto soja é por ser o principal produto de exportação da APOP.
NOTA: *** C2 é a atividade em processo de conversão que ainda não alcançou o padrão para exportação.
1.2.1 Localização dos associados à APOP e características de Pérola do Oeste/PR
Os associados da APOP têm suas propriedades agrícolas localizadas no
município de Pérola do Oeste/PR, sendo 12 na Linha Vitória e uma no Distrito de
Conciolândia. Todas as famílias residem nas propriedades. A Linha Vitória localiza-se
entre a cidade de Pérola do Oeste/PR e Planalto/PR e tem como acesso principal a PRT
163. O Distrito de Conciolândia localiza-se entre a cidade de Pérola do Oeste/PR e
Pranchita/PR e também com acesso principal pela PRT 163. As famílias localizadas na
Linha Vitória estão próximas, são 6 famílias vizinhas – Cláudio Leonhardt, Mario José
Domanski, Eduardo Domanski, Lúcia Alaídes Patzlaff, Romeu Ermindo Helfer e Jair
Mombach – formando uma pequena “ilha orgânica”. A figura 1 localiza o município de
Pérola do Oeste/PR e os demais 42 municípios que compõem o Território Sudoeste do
Paraná.
O município de Pérola do Oeste/PR, segundo o Censo Agropecuário, IBGE
(2006) conta com 1.472 estabelecimentos agropecuários. As lavouras temporárias estão
presentes em 1.169 estabelecimentos, ocupam uma área agrícola de 8.422 ha e
destacam-se pelo cultivo do milho, constatado em 827 estabelecimentos. A produção
comercializada de grãos de milho foi de 26.178 toneladas; a soja em grãos totalizou
18.026 toneladas e foi cultivada em 716 estabelecimentos; a mandioca foi identificada
em 460 estabelecimentos, sendo comercializadas 6.176 toneladas; a produção de trigo
também é atividade do município e o IBGE (2006) registrou o cultivo em 134
estabelecimentos e a comercialização de 3.240 toneladas de trigo em grão; o feijão de
cor, cultivado em 42 estabelecimentos, totalizou 287 toneladas comercializadas; a canade-açúcar também aparece no censo agropecuário de IBGE (2006) em 69
estabelecimentos que produziram 479 toneladas. Em lavouras temporárias, cabe ainda
ressaltar a existência da produção do fumo.
Os agricultores associados à APOP foram convidados – novembro de 2009 –
para reuniões em que a empresa Souza Cruz fomentou o cultivo de fumo com base
tecnológica orgânica. O sistema de preparo do solo no município de Pérola do Oeste/PR
é, na grande maioria, plantio direto na palha com uso de herbicidas e estava presente em
797 estabelecimentos. O denominado cultivo convencional, com revolvimento do solo
por meio de aração e gradagem, foi constatado – em 2006 – em 413 estabelecimentos e
o cultivo mínimo, com somente uma gradagem, em 55 estabelecimentos. A produção de
leite conta com 15.724 cabeças de bovinos em 1.034 estabelecimentos. Outros animais
também são criados; destacam-se os suínos, visto que, em 832 estabelecimentos, foram
apurados 16.751 cabeças. A criação de suínos, em geral, é com integração à empresa
Sadia. A atividade com aves contava – em 2006 – com 147.782 cabeças principalmente
de frangos em 1.007 estabelecimentos. Outros animais são criados em pequena
quantidade: caprinos em 22 estabelecimentos com 98 cabeças; e ovinos em 25
estabelecimentos com 254 cabeças. O IBGE (2006) também identificou a produção de
ovos de galinha em 642 estabelecimentos e produção de 74 mil dúzias/ano.
Outras atividades agrícolas como lavouras permanentes foram apuradas em
129 estabelecimentos agropecuários e contam com 136 ha; o cultivo de banana ocorria
em 4 estabelecimentos com produção de 3 toneladas. Atividades agroflorestais –
cultivada com espécies florestais e também utilizada para lavouras e pastejo de animais
– foram
identificadas em 37 estabelecimentos e ocupavam 111 ha. As atividades
relativas à horticultura comercial são raras, constituindo um exemplo a horticultura
orgânica da propriedade de Cláudio Leonhardt, associado à APOP. O Censo
Agropecuário IBGE (2006) constatou, em Pérola do Oeste/PR, 36 estabelecimentos
agropecuários que fazem uso da agricultura orgânica; 19 certificados por entidade
credenciada e 17 que fazem uso, contudo não são certificados. O controle biológico,
também pesquisado pelo IBGE (2006) apresentou 12 estabelecimentos agropecuários
que fazem uso para controle de pragas e/ou doenças e 45 estabelecimentos que fazem
uso de alternativas como iscas, caldas e repelentes. A contagem da população, do
município de Pérola do Oeste/PR, segundo o IBGE (2007), diagnosticou 7.046
habitantes. O pessoal ocupado em estabelecimentos agropecuários é de 2.070 homens e
1.450 mulheres.
1.2.2 Origens dos associados da APOP e da população do Sudoeste do Paraná
A partir de dados do período de 1900 a 1975, Wachowicz (1987) constatou que
a população do Sudoeste do Paraná, é oriunda dos estados do Paraná, Santa Catarina e
Rio Grande do Sul e a presença de indivíduos de outros estados é pequena. Do início do
século até os primeiros anos da década de 1950, a população predominante era formada
por caboclos de origem paranaense, com pequena participação de riograndenses.
Ocorreram dois fluxos migratórios de riograndenses na fase em que predominava a
população cabocla: o primeiro em 1914-1915 e o segundo em 1940-1941. Um segundo
período da colonização caracterizou-se por um grande afluxo de migrantes procedentes
dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, a partir de 1954-1955; eram
descendentes principalmente de imigrantes de países europeus. Conforme entrevistas, os
agricultores associados à APOP chegaram ao município de Pérola do Oeste/PR, a partir
de 1954, e são oriundos principalmente do Rio Grande do Sul – 12 famílias – e de Santa
Catarina – 1 família. Anteriormente desenvolviam atividades agrícolas em municípios
do Rio Grande do Sul: Alecrim, Três Passos, Guarani das Missões, Tenente Portela e
Santa Rosa. São famílias descendentes de imigrantes europeus provenientes
principalmente da Polônia, Domanski17; da Alemanha, Gerhard, Patzlaff, Mombach,
Helfer, Erhart, Dietrich, Bohn, Graauw; e Itália, Casagrande, Campra. O motivo que
17 Existe a possibilidade da família com o sobrenome Domanski ser originária da Ucrânia, todavia não
aprofundamos pesquisa para este caso.
impulsionou a migração para Pérola do Oeste/PR foi a busca por terras férteis, o que foi
explicitado por M. J. Domanski (2009) respondendo-nos às perguntas: Quando
chegaram a Pérola do Oeste/PR, em 1954, já tinham objetivo de produzir para vender?
“A intenção era, porque o pai veio de lá de Guarani, [que] era campo, não produzia
nada, era só formiga!” O teu pai lidava com gado?
O pai [lidava] era [na] agricultura; não lidava com gado, mas tinha
gado, mas não era pra comércio, era só pro gasto, era agricultura
mesmo! Ele veio pra cá porque era [só] roçar e não precisava de
adubação, não tinha a formiga como tinha lá, que cortava a planta e
tudo! E a terra lá não produzia, aqui diz que derrubava o mato,
queimava e plantava. Porque lá a terra não produzia sem nada, não
tinha o que fazer. Aqui a terra era diferente. Lá era campo, hoje é
granja, planta melhor do que aqui, recuperaram porque veio o adubo,
daí começou a produzir lá também. (M. J. DOMANSKI, 2009).
Os novos habitantes da população sudoestina eram conhecidos pelos caboclos
como “gringos” e as relações sociais foram tanto conflituosas quanto sinérgicas. A
relação conflituosa estabelecia-se principalmente porque os colonos descendentes de
europeus vieram com a intenção de se tornarem proprietários da terra. Os caboclos
praticavam a criação de porcos soltos e colhiam a erva-mate nativa. Em busca de
entendimento sobre as relações sociais das famílias dos associados da APOP – nos
primeiros anos após sua chegada – com os caboclos sudoestinos, perguntamos: A
família teve conflito com os caboclos da região? As respostas daqueles cuja família
chegou na década de 1950 são ilustrativas quanto ao domínio da terra, por meio da
posse:
Eu acho que não, eu acho que os caboclo ficaram mais preocupado
com medo que iam perde tudo, só que também esses que entraram por
aí do Rio Grande do Sul, não pagaram quase nada pros caboclo. Isso
aí vendia por um preço de banana, só uma cachaça e uma vaca. (R. E.
HELFER, 2009).
Quanto à contribuição do caboclo na implantação da criação de porcos,
diagnosticamos que, em alguns casos, produziam milho, o que garantia parte da
alimentação dos porcos dos “gringos”:
Ah, tinha! O pai não tinha problema, nóis não tinha problema com
eles, mas tinha gente que tinha. Eram grileiros da terra. Cada um tinha
sua área e ficavam revendendo, e plantavam roça de milho. O pai
comprava deles roça de milho, comprava roça de milho verde quando
tava, tipo, perto de embonecá. Embonecando, já tavam vendendo. O
pai ia lá e comprava; tinha bastante porco, nóis não vencia planta tudo
o miio pra tratá os porco. O pai não comprou, mas tinha outros que
comprava até roça de feijão verde. (M. J. DOMANSKI, 2009).
As famílias que chegaram na década de 1970 já encontraram instalada a
agricultura, os solos desgastados e o início da Revolução Verde: “Quando chegaram era
tudo colonizado, pois chegaram na década de 70” (M. F. PATZLAFF, 2009).
A presença do indígena, no passado do Sudoeste do Paraná, pode ser
confirmada pelo nome de alguns municípios como Verê e Vitorino, oriundos dos nomes
de líderes indígenas como Vitório Condá e Viri. Parte da sua cultura persiste nas
reservas indígenas. A população indígena – Caingangues, Guaranis e Xetás – do
Sudoeste do Paraná está nas reservas de Mangueirinha/PR, com uma área de 16.376
hectares e em outra reserva, em Palmas/PR, com área de 2.944 hectares (FERREIRA,
1999). As famílias associadas à APOP nos relataram não ter contato com os indígenas, o
que lhes teria possibilita a adoção de variedades de milho, mandioca e outras espécies
vegetais de cultivo agrícola, o que caracterizaria resgate de variedades da cultura
agrícola indígena. Segundo Andrade (1995), no Sul do Brasil, o povoamento litorâneo
foi inexpressivo, ao passo que, no interior, na porção ocidental, desenvolveu-se um
Estado Teocrático indígena e organizado pelos jesuítas. As denominadas Missões foram
destruídas pelas Coroas Portuguesa e Espanhola bem como pela cobiça dos
bandeirantes. Possivelmente, os caboclos que habitavam a região de Pérola do Oeste/PR
tinham um passado relacionado com a cultura jesuíta. Se havia conhecimento indígena
e/ou caboclo e materiais genéticos – sementes de variedades resistentes a doenças –
importantes para apoiar a agricultura orgânica18, não evidenciamos nas entrevistas a
transferência desses conhecimentos e/ou sementes para os familiares dos associados a
APOP, o que reforça a agricultura orgânica enquanto modelo importado e não
desenvolvido localmente, e que busca se sobrepor aos demais modelos.
Wachowicz (1987) apresenta fatos históricos importantes sobre a formação do
Sudoeste do Paraná. O município de Palmas/PR era região de criatórios principalmente
18 Neste caso, consideramos agricultura orgânica a proposta agroecológica, que enfatiza o resgate da
cultura agrícola tradicional, as variedades de plantas e espécies animais que, supostamente, poderiam
fazer parte de uma nova base tecnológica.
de bovinos. A população não proprietária vivia nas fazendas com função de domador,
peão, agregado, boiadeiro, entre outras atividades necessárias às fazendas de criação
extensiva de gado bovino. Nessas regiões de criatórios, denominado Campos Gerais,
desenvolveu-se, desde o início do século XVIII, o preconceito contra a agricultura, pois
era mais fácil e de maior estatus social trabalhar nas fazendas tocando tropas de bovinos
ou muares do que trabalhar na agricultura capinando e lavrando a terra. Tal preconceito
restringiu severamente o desenvolvimento de municípios como Palmas/PR e
Clevelândia/PR, pois os alimentos e demais matérias primas eram escassos e a
população dependia de outras regiões. Os migrantes que colonizaram os municípios do
Sudoeste do Paraná, desde a fronteira com a Argentina até aproximadamente o
município de Pato Branco/PR e Coronel Vivida/PR, culturalmente estavam habituados
ao cultivo do solo. O seu hábito principal era a formação de propriedades agrícolas e o
cultivo da terra com trabalho familiar. Segundo os relatos dos associados da APOP, as
primeiras atividades agrícolas dos familiares que chegaram à Linha Vitória, município
de Pérola do Oeste/PR, foram: “Ah! isso era miio, feijão, arroz. Isso era pro gasto” (R.
E. HELFER, 2009). A família Helfer chegou em 1957 e começou a criação de porcos
aproximadamente 15 anos depois. A família Domanski priorizou a criação de porcos:
“Naquele tempo, criava porco, porco preto, no chiqueiro; tinha solto, mas não era
muito. Tratava a milho, urtigão, mandioca, abóbora, fumero-brabo novo, trazia de
carroçada, fazia lavage. Até que tinha uns 20 anos, colhia pasto para os porcos na roça
nova” (M. J. DOMANSKI, 2009). Na propriedade dos Patzlaff, que chegaram na
década de 70, era produzido: “Aquela época, nóis era suíno, milho e daí o soja plantado
no meio do milho, era colhido manual” (M. F. PATZLAFF, 2009).
No início do século XX, o Sudoeste do Paraná desde o município de
Mariópolis/PR até a fronteira com a Argentina, era um imenso vazio demográfico, com
uma população de 3.000 habitantes. Os fazendeiros de Palmas/PR não se interessavam
em investir na colonização de terras que não fossem campos criatórios. A população do
Território Sudoeste do Paraná, conforme IBGE (2007), é de 557.732 habitantes. Para os
migrantes descendentes de europeus, provenientes dos Estados do Rio Grande do Sul e
Santa Catarina, o solo demonstrou-se ideal, garantindo a produção sem adubos de
nenhuma espécie durante mais de uma década.
1.2.3 Familiares dos associados da APOP em momentos históricos relevantes
As principais turbulências que afligiram a população do Sudoeste do Paraná
foram as disputas territoriais entre Argentina e Brasil, Estado do Paraná e Estado de
Santa Catarina, Estado do Paraná e Cia de Estradas de Ferro São Paulo-Rio Grande do
Sul, governo do Estado do Paraná e Governo Federal e CITLA – Clevelândia Industrial
Territorial Ltda com o Governo Federal.
Segundo Wachowicz (1987), o Sudoeste do Paraná estava em litígio
fronteiriço, em terras reclamadas pela Argentina. O presidente dos Estados Unidos da
América, Grover Cleveland, foi escolhido para arbitrar. “Para decidir a referida disputa,
os dois países escolheram, em 1889, o Presidente dos E.E.U.U. para, como árbitro,
decidir o problema” (ZANELLA, LENOCH, 1997, p. 19).
A decisão a favor do Brasil, fundamentada na Uti Possidetis ocorreu em 6 de
fevereiro de 1895. O Censo de 1890 mostrou que, no território contestado, a maioria dos
habitantes eram brasileiros. Dos 5.793 habitantes, 5.763 eram brasileiros e 30
estrangeiros; não havia nenhum cidadão registrado como argentino. A presença desses
brasileiros resultava da expansão da frente pastoril iniciada pelos pioneiros dos campos
de Palmas/PR a partir de 1839. Segundo Battisti (2006, p. 66):
A história do Sudoeste do Paraná está intimamente vinculada à luta
pela terra, concebida pela elite como fonte de poder
(político/econômico) e pelos camponeses como espaço de trabalho e
de relações, orientado para a produção e reprodução da vida biológica
e social.
Houve uma fase em que o Sudoeste do Paraná foi disputado pelos Estados do
Paraná e Santa Catarina, influenciados pela criação da Província do Paraná. Após a
Guerra do Contestado, a maior parte da área contestada ficou para o Estado de Santa
Catarina, acordo que aconteceu no ano de 1916.
A disputa entre o Estado do Paraná e a Companhia de Estradas de Ferro São
Paulo-Rio Grande do Sul aconteceu após a Revolução de 1930, quando o General Mário
Tourinho revogou algumas concessões feitas em 1920, por ocasião do contrato de
construção de estradas de ferro. As concessões a esta companhia eram relativas aos
títulos das Glebas Chopim e Missões.
A disputa entre o governo do Estado do Paraná e o Governo Federal iniciou
quando o Presidente Getúlio Vargas incorporou à União os bens da empresa Brasil
Railway Company, proprietária da Companhia de Estradas de Ferro São Paulo-Rio
Grande do Sul, incluindo as Glebas Missões e Chopim.
A criação da CANGO – Colônia Agrícola Nacional General Osório aconteceu a
partir da iniciativa de reservistas do Exército Nacional que, apoiados pelo Decreto-Lei
número 1968, de 17 de janeiro de 1940, solicitaram doação de lotes de terra na faixa de
fronteira. Esta solicitação leva a Divisão de Terras e Colonização a propor a criação de
um Núcleo Colonial no Sudoeste do Paraná. Em 12 de maio de 1943, o Presidente
Getúlio Vargas baixou o Decreto 12.417 que criava a Colônia Agrícola Nacional
General Osório, considerando a faixa de 60 quilômetros da fronteira na região Barracão
a Santo Antonio do Sudoeste em terras a serem demarcadas pela Divisão de Terras e
Colonização do Departamento Nacional de Produção Vegetal do Ministério da
Agricultura. Com a criação da CANGO, muitos colonos vieram colonizar o Sudoeste do
Paraná e receberam dela somente um protocolo, sendo considerados posseiros. Havia
também outros posseiros que vieram à região sem serem protocolados pela CANGO.
Segundo LAZIER (1986), a CITLA – Clevelândia Industrial Territorial Ltda foi
uma das empresas que mais tumultuou o desenvolvimento do Sudoeste do Paraná. A
partir de 1950, a CITLA manifestou-se como proprietária das Glebas Missões e Chopim
e passou a vender a referida área em lotes aos posseiros. Várias famílias que, hoje,
constituem a APOP participaram da Revolta dos Colonos. “O pai participou. Levava
bóia de carroça para eles. Tinha um acampamento aqui na Pérola” (M. J. DOMANSKI,
2009). A maioria das propriedades orgânicas dos associados da APOP resulta dos títulos
de terra que familiares receberam do GETSOP – Grupo Executivo para as Terras do
Sudoeste do Paraná, devido a vitória dos colonos. “Os tios da Eva19 e o pai vieram no
tempo da revolta, chegaram em 1954, participaram da revolta e conquistaram título de
terra” (M. F. PATZLAFF, 2009).
Os abusos cometidos pela CITLA, com violência e desrespeito aos colonos que
habitavam o Sudoeste do Paraná, provocaram a Revolta dos Colonos. Nos dias 10 e 11
de outubro de 1957, centenas de colonos armados se reuniram em Francisco Beltrão/PR,
local dos escritórios centrais das empresas CITLA e Comercial, expulsando os jagunços
contratados para atemorizar os colonos. A revolta começou em setembro de 1957, no
19 Eva Cardoso é esposa do Milton F. Patzlaff.
município de Capanema/PR, e em 09 de outubro, no município de Pato Branco/PR,
resultando no fechamento dos escritórios das empresas.
Para solucionar o problema das terras e dos posseiros, enquanto o poder
judiciário não dava o seu veredicto definitivo, o Governo Federal desapropriou e
declarou de utilidade pública a Gleba Missões e parte da Gleba Chopim.
Em 19 de março de 1962, o Decreto número 51.431, assinado pelo Presidente
João Goulart, criou o GETSOP – Grupo Executivo para as Terras do Sudoeste do Paraná
com a finalidade de programar e executar os trabalhos necessários à efetivação da
desapropriação. Com isso, mais de 40 mil títulos de terras foram fornecidos e os
posseiros tornaram-se proprietários das terras do Sudoeste do Paraná, porém:
[...] resolvidas as questões da posse da terra através de conflito aberto,
inclusive armado, entre agricultores e empresas colonizadoras,
iniciou-se o processo de modernização da agricultura que se
constituiu, basicamente, na mudança da base tecnológica orientada
pelo capital industrial. (BATTISTI, 2006, p. 66).
Para Ianni (2004), o capital industrial absorve e recria o campo com outros
significados, transformando “a produção agrícola em um setor da produção industrial
subordinada aos seus imperativos e submetida as suas exigências” (IANNI, 2004, p. 48
apud BATTISTI, 2006, p. 66).
Para os associados da APOP e demais agricultores familiares orgânicos que
buscam continuamente uma base tecnológica adequada para permanecerem como
agricultores, a conquista da terra é apenas uma etapa vencida, porém, insuficiente para a
satisfação plena. Ainda lhes falta, serem reconhecidos e respeitados socialmente como
agricultores orgânicos, com ideais ecológicos, que cuidam da qualidade da água, que
não contaminam o ar com agrotóxicos, que não prejudicam seus vizinhos com derivas20
de agrotóxicos e que, produzem alimentos com qualidade superior aos do modelo
convencional contaminados21 por agrotóxicos. A participação dos associados da APOP,
20 A deriva de agrotóxicos é causada pelo vento que trás de lavouras vizinhas vários agrotóxicos, que
causam desconforto pelo cheiro, matam plantas frutíferas, contaminam o ar, a água, o solo, os animais e o
seres humanos.
21 A ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, concluiu no relatório de atividades do
Programa de Análise de Resíduos em Alimentos de 2009 que de um total de 3.130 amostras de 20
culturas coletadas em 26 estados, 907 amostras estavam insatisfatórias porque apresentaram agrotóxicos
em níveis acima do limite máximo de resíduos e também porque utilizaram agrotóxicos não autorizados
para a cultura (ANVISA, 2010).
em dinâmicas territoriais da agricultura orgânica, busca suprir anseios e objetiva uma
vitória tão importante quanto à de 1957.
1.2.4 Os sistemas agrícolas e tecnologias nas propriedades dos associados à APOP
Descrevemos a seguir, quatro sistemas agrícolas e tecnologias, os insumos
utilizados, manejo do solo, sistemas de plantio etc. A expressão sistema agrícola
significa conjunto de atividades agrícolas que se complementam. A expressão
propriedade agrícola significa que a família residente conquistou a terra e está
documentada conforme a legislação brasileira. A abordagem territorial considera esta
família como a gestora das atividades do sistema agrícola e com poder de tomar as
decisões quanto à permanência ou alteração do sistema agrícola. O poder de decisão
quanto a utilizar ou não o modelo tecnológico orgânico é atribuído à família
proprietária, pois é o seu território. A seguir descrevemos os sistemas agrícolas das
famílias de Jair Mombach, Cláudio Leonhardt, Waldomiro Gerhard e Lúcia Alaídes
Patzlaff.
A – Sistema Agrícola Jair Mombach: A família constituída pelo Jair, Inês e a
pequena Bruna, além de garantir a produção para exportação, produz a maior
parte dos alimentos para o seu consumo. A atividade de destaque é a soja orgânica
para exportação; o sorgo, milho e arroz são cultivados em rotação de cultura nos
vários talhões delimitados por curvas de nível. Está incluso no sistema uma
agrofloresta com aproximadamente 5 anos. Uma pequena área, ocupada pelo
projeto22 da Assesoar, está piqueteada e cultivada com capins e objetiva a produção
de galos da raça Rhode. A tendência desse sistema agrícola é evoluir para a
atividade/leite, com ampliação da área de pastagem e sistema de piqueteamento
irrigado. O uso do solo é apresentado no quadro seguinte:
22 Melhoramento genético de galinhas caipiras a partir de raças puras. O programa contrapõe-se ao
modelo da monocultura, fortalecendo a autonomia alimentar das populações do campo, oferecendo
alimentos de melhor qualidade aos consumidores urbanos e melhorando a biodiversidade animal na
agricultura familiar. O programa iniciou com a distribuição de ovos, pintos e aves adultas de 6 raças
puras, trazidas de fora da região, através da compra e intercâmbio com parceiros como a UNIOESTE –
Campus de Marechal Cândido Rondon e o Centro de Apoio aos Pequenos Agricultores – CAPA Rondon.
QUADRO 2 – USO DO SOLO NO SISTEMA AGRÍCOLA DE JAIR MOMBACH,
2009
USO DO SOLO
ÁREA (ha)
OBSERVAÇÕES
ORGÂNICA
Culturas anuais
5,9820
Agrofloresta/capoeira
0,8600
Piquetes
0,9449
Reserva Legal – RL
0,8364
Área de Pres. Perm. Preservada –
APPP
0,3184
Outros
0,3583
ÁREA TOTAL
9,3000
Predomina soja orgânica
A lavoura ocupa parte da
APP
FONTE: PICINATTO (2009).
Na maior parte da área de lavoura, nos últimos 3 anos, foi implantado o sistema
de plantio direto, com excelente resultado no controle de erosão do solo. O cultivo
consiste em manter o solo coberto com aveia e azevém no período de inverno, evitando
o pastejo do gado. O objetivo é acumular o máximo possível de palhada para que sirva
de cobertura, protegendo o solo das chuvas, do sol e do vento. Outro objetivo de
acumular as palhadas – cobertura morta – é reduzir o desenvolvimento de plantas
espontâneas que, regra geral, provocam muito trabalho. No sistema de plantio direto, as
plantas indesejáveis são manualmente arrancadas e capinadas. No ano de 2004, Jair
Mombach iniciou a agrofloresta a partir de um projeto da ASSESOAR. O solo estava
iniciando pousío, por estar desgastado pelos cultivos anuais sucessivos. O relevo é
favorável à erosão que se intensifica com revolvimento do solo. O sistema agrícola é
cortado por canal de água que, possivelmente, muito antes de Jair ter adquirido a
propriedade era um pequeno córrego que desaguava na Sanga Barro Preto. Na parte
central da propriedade há uma nascente parcialmente protegida, o que dificulta a
legalização da propriedade. Somente na nascente, ao repor a vegetação nativa, no raio
de 50 m, perder-se-á 0,8 ha de área. Se considerar o canal de água um córrego a ser
recuperado perder-se-á aproximadamente, mais 1 ha.
Além das atividades relativas ao sistema agrícola, Jair Mombach exerce
atividades organizativas. Foi presidente da APOP – Associação de Produtores Orgânicos
de Pérola do Oeste/PR, e dirigente da APROSUDOESTE – Central de Associações de
Agricultores Orgânicos do Sudoeste do Paraná. Em 2009, era dirigente da Assesoar com
cargo de suplente. Também desempenha funções relativas à colheita de lavouras, como
sócio de uma colheitadeira.
FOTOGRAFIA 1 – VISÃO GERAL DO SISTEMA AGRÍCOLA DE JAIR
MOMBACH, PÉROLA DO OESTE/PR.
FONTE: PICINATTO A. C 23-05-2008
NOTA: Da maior altitude para a menor, temos reserva legal, agrofloresta e pousío arbustivo, lavoura,
preservação permanente (nascente e canal de água) e lavoura.
No mês de novembro de 2009, esta família foi novamente visitada e explicou
que possivelmente não se manterá no modelo orgânico devido ao excesso de trabalho.
Também foi fator desanimador a não aceitação por parte de compradores europeus da
utilização de secantes supostamente de origem orgânica. Este secante, até então, – jan.
2010 – não era certificado como insumo orgânico e não era registrado pelo Ministério
da Agricultura.
B – Sistema Agrícola Cláudio Leonhardt: A família é constituída por três casais: os
pais e dois filhos casados, duas crianças e uma adolescente. O sistema agrícola está
fundamentado principalmente na horta orgânica, que ocupa a maior parte da
mão-de-obra da família. A área de produção de cereais estava cedida em
arrendamento para cultivo de soja orgânica – até 2008 – devido à falta de mão-de-
obra para manter a atividade. A venda das hortaliças acontece principalmente na
feira de Pérola do Oeste/PR. O sistema é 100% orgânico e seu histórico revela
certificação pelo IBD - Instituto Biodinâmico e Rede Ecovida. Atualmente – abril
de 2010 –, está certificado pela Ecocert. O quadro a seguir demonstra o uso do
solo:
QUADRO 3 – USO
DO SOLO NO SISTEMA AGRÍCOLA DE CLÁUDIO
LEONHARDT,
2009.
USO DO SOLO
Culturas anuais
ÁREA (ha)
ORGÂNICA
4,7105
OBSERVAÇÕES
Cedida em arrendamento até
2008
(soja orgânica). Mandioca e
milho no final de 2009
Piquetes
0,5000
Arborizado
Reserva Legal – RL
1,6800
Averbada na matricula
Área de Pres. Permanente –
APP
0,9200
APP a restaurar = 0,26 ha
Horta orgânica
0,1780
Horta é a atividade de destaque
Outros
0,4176
Sede, frutas, reflorestamento
ÁREA TOTAL
8,4061
FONTE: PICINATTO (2009).
A área onde é cultivada a soja orgânica geralmente passa o inverno com aveia.
Em alguns anos, a aveia é cortada para alimentação animal. No mês de outubro, até
metade de novembro acontece o plantio da soja; a aveia geralmente é gradeada,
seguindo-se o plantio da soja com adubação orgânica da empresa Ecossuper, adquirida
via APOP. A adubação também é complementada com biofertilizantes, supermagro23 e
farinha de rocha MB-424. O controle de lagartas somente foi necessário uma vez em dez
anos, quando foi utilizado Dipel (Bacillus thurigiensis) e baculovirus. Para o controle
de percevejos são feitas armadilhas com garrafas plásticas e urina de bovinos, recolhida
das vacas durante a ordenha. Possíveis doenças fúngicas são controladas com calda
sulfocálcica25; a ferrugem asiática está presente na região e afetou, nos últimos 3 anos,
as lavouras orgânicas; o controle proposto a base de calda sulfocálcica, óleo de Nin
(Azadiracta indica)26, entre outros, não se demonstrou eficaz.
Os métodos utilizados no cultivo de hortaliças são exemplares, culminando
com plantas saudáveis nas diversas fases de desenvolvimento. Em análise de solo
realizada em 2008, os valores de potássio estavam elevados, logo reduziram os
materiais ricos em potássio.
FOTOGRAFIA 2 – PRODUÇÃO DE MUDAS, CLAUDIO LEONHARDT, PÉROLA
DO OESTE/PR
23 O supermagro é um biofertilizante elaborado a partir de micronutrientes que, após fermentados com
esterco de gado bovino, açúcar e soro de leite, tornam-se adubo foliar. O nome é uma homenagem ao
Delvino Magro.
24 A farinha de rocha MB-4 é rica em micronutrientes. É um produto que não sofre processos químicos e
é extraído de minas e passa por moagem. Pode ser aplicado diretamente no solo na forma de pó, e sobre
as folhas na forma de biofertilizantes. Seu uso objetiva nutrir as plantas e alimentar a vida biológica do
solo.
25 A calda sulfocálcica é a mistura de enxofre com cal não hidratado. Após o cozimento a mistura tornase uma calda para controle de doenças e ataque de insetos em plantas.
26 A Azadiracta indica, cujo principio ativo é a azadiractina, é uma espécie arbórea de origem indiana.
Na agricultura orgânica, o seu óleo essencial é utilizado para o controle de insetos e doenças nas plantas.
Também é utilizado nos animais para controle de ectoparasitas.
FONTE: PICINATTO A. C. 07-11-2007.
NOTA: O substrato é húmus de minhoca misturado com terra.
As técnicas utilizadas na horta são: compostagem, húmus de minhoca e
palhadas sobre o solo; adubações verdes, mucuna, feijão-de-porco etc; adubação foliar
com biofertilizantes ricos em micronutrientes utilizando farinha de rocha MB-4;
adubação potássica com cinzas, sulfato de potássio e carvão; adubação com fosfato
natural destacando-se o Gafsa, o Iorin, e o Arad; calcário corretivo, dolomítico, calcítico
e de conchas. O substrato é esterilizado com biofumigador modelo Embrapa.
As áreas de pastagem garantem conforto aos animais, sombreamento,
temperatura ideal e espaço suficiente para praticarem suas necessidades etológicas27. O
sistema agrícola ainda pode ser melhorado com a introdução de espécies vegetais
fixadoras de nitrogênio –como trevos – consorciadas com as gramíneas, priorizando
aquelas ricas em proteínas, por exemplo, o capim-pioneiro.
27 Etológicas: as praticas que são do comportamento natural dos animais. Nos sistemas confinados
devido à falta de espaço, o comportamento animal natural é dificultado ou impedido.
A alimentação animal, predominantemente do sistema agrícola, propicia uma
nutrição em conformidade com os princípios do modelo orgânico, com diversidade de
espécies vegetais. A suplementação é feita adicionando-se pequenas quantidades da
farinha de rocha MB-4 sobre o alimento do cocho na hora das ordenhas.
Os aspectos ambientais, considerando a legislação vigente, estão supridos no
que se refere à reserva legal de 20% da área total. A matrícula da propriedade demonstra
averbação de 1,68 ha de mata correspondente à exigência legal; já a área de preservação
permanente está incompleta, sendo necessário restaurar parte da mata-ciliar da Sanga
Barro Preto; a realocação de um galpão que se encontra na faixa dos 30,0 m destinada à
mata-ciliar é o principal dificultador da adequação do sistema agrícola à legislação
ambiental.
A atividade horta é a prioridade do sistema e a família demonstra domínio
sobre a atividade. Investimentos em estufas28 poderão fortalecer o sistema, pois
incrementaria o cultivo de espécies como tomate e morango que, geralmente, são
escassas no município. No ano de 2009, o filho Edson e sua família vieram morar na
propriedade e ampliaram a horta, instalando irrigação, cercas e construção por meio de
crédito rural29. Para o ano de 2010, planejam investir em uma agroindústria artesanal
financiada pelo Pronaf Mulher; o objetivo é processar frutas transformando-as em doces
e fazer conservas de pepino, cenoura, beterraba, entre outras; planejam construir uma
casa para a família do filho Edson, na mesma propriedade.
FOTOGRAFIA 3 – CULTIVO
DE
ALFACE ORGÂNICA,
CLAUDIO
LEONHARDT, PÉROLA DO OESTE/PR
28 Estufas: cultivam principalmente folhosas com destaque para alface (Lucy Brown). O clima permite
produção durante todo o ano sem necessidade de estufas.
29 PRONAF: investimento por meio do Sistema Cresol.
FONTE: PICINATTO, A. C. 10-02-2008
A área, antes cedida em arrendamento para cultivo da soja orgânica foi
resgatada, em 2009, e está sendo utilizada para o cultivo de pastagem para gado de leite.
Tais modificações são consideradas como fortalecimento das propriedades que têm
como principal atividade a horticultura orgânica.
C – Sistema agrícola Waldomiro Gerhard: Tem como atividades principais a
produção de soja, milho e leite orgânico. Ali residem quatro adultos e duas
crianças. O quadro seguinte demonstra o uso do solo:
QUADRO 4 – USO DO SOLO NO SISTEMA AGRÍCOLA DE WALDOMIRO
GERHARD,
2009
USO DO SOLO
ÁREA (ha)
OBSERVAÇÕES
ORGÂNICA
Culturas anuais
8,5
Piquetes
0,76
Reserva Legal – RL
0,75
Área de Pres. Perm –
APP
1,0
Sede/Instalações
0,20
ÁREA TOTAL
10,21
A recuperar, pois tem nascente e
sanga.
FONTE: PICINATTO (2009).
No período de inverno, a área de lavoura é cultivada com aveia e milho; entre
os meses de outubro e novembro, o solo é gradeado e, em seguida, planta-se a soja
orgânica. Aos 40 dias, aproximadamente, passa-se carpideira a tração animal e a enxada
manual para retirar plantas indesejáveis. Nos últimos 4 anos, a adubação ocorre com
adubo orgânico da empresa Ecossuper30. O controle do percevejo, em havendo
necessidade, ocorre com armadilhas à base de urina bovina; em caso do ataque de
lagartas, com baculovirus e dipel (Bacilus thurigiensis31); para possíveis doenças
fúngicas é utilizada a calda sulfocálcica; na adubação foliar, utilizam-se os
biofertilizantes supermagro e o outro com farinha de rocha MB-4.
Outra parcela da lavoura é cultivada com milho crioulo32; o solo, geralmente, é
preparado com tração animal – junta de bovinos. Os biofertilizantes também são
30 Conforme notas fiscais da APOP, os adubos são comprados por meio da associação.
31 A transgenia no milho Bt é a transferência de partes de Bacilus thurigiensis para o milho.
32 Em algumas safras plantou a variedade Sol da Manhã (Embrapa).
utilizados no milho, que quase sempre, é consorciado com a mucuna-anã33. No caso da
lagarta do cartucho-do-milho, a urina de vaca tem sido o insumo mais utilizado para o
seu controle. A área de pastagem, do gado bovino, é dividida em piquetes, e o controle
de plantas indesejáveis34 é realizado com capina.
D – Sistema agrícola Lúcia Alaídes Patzlaff: Está organizado com duas atividades
econômicas: produção de cereais, principalmente milho e soja orgânica, e a
produção de leite; a pastagem é piqueteada com sistema rotativo e irrigação
noturna. O sistema modificou-se – 2007/2008 – com desativação da produção de
suínos em integração com a Sadia e intensificou-se na atividade/leite. A família é
constituída de 4 pessoas adultas, mãe, dois filhos e uma filha.
FOTOGRAFIA 4 – PIQUETEAMENTO DE PASTAGEM E MATA-CILIAR DA
SANGA BARRO PRETO, LÚCIA A. PATZLAFF, PÉROLA DO OESTE/PR
33 Planta da família das leguminosas. É utilizada em consórcio com o milho devido a sua capacidade de
fixação biológica de nitrogênio. Esta técnica de cultivo foi difundida pelo IAPAR – Instituto Agronômico
do Paraná.
34 São plantas geralmente de folhas largas que não servem para alimentação dos bovinos e prejudicam o
desenvolvimento das plantas forrageiras. Na bovinocultura de leite convencional são dessecadas com
agrotóxicos.
FONTE: PICINATTO A. C. 11-10-2009
NOTA: Leite orgânico em pastagem piqueteada e com irrigação noturna.
O uso do solo pode ser observado no quadro seguinte:
QUADRO 5 – USO
DO
SOLO
NO
SISTEMA AGRÍCOLA
DE LÚCIA
ALAÍDES
PATZLAFF, 2009
USO DO SOLO
ÁREA (ha)
OBSERVAÇÕES
ORGÂNICA
Culturas anuais
13,50
Piquetes
0,75
Reserva Legal – RL e Pres. Perm – APP
3,00
Sede/Instalações
0,95
Cereais orgânicos (soja,
milho, trigo/aveia)
A horta está inclusa
Área total
18,20
FONTE: PICINATTO (2005).
O solo da lavoura, ocasionalmente, é subsolado com pé-de-pato e, geralmente,
gradeado. Nos últimos 4 anos de plantio de soja, ocorreu adubação orgânica da empresa
Ecossuper, adquirida via APOP. Trinta dias após o plantio, geralmente o solo é
envergado para limpar na entrelinha. Aos 20 dias após plantio, aplicam o biofertilizante
supermagro ou outro de farinha de rocha MB-4. O ataque do percevejo, quando ocorre,
é controlado com armadilhas à base de urina, e se houver lagartas, com baculovirus e
Dipel35. Possíveis doenças fúngicas são controladas com calda sulfocálcica.
FOTOGRAFIA 5 – CULTIVO DE SOJA ORGÂNICA, LÚCIA A. PATZLAFF,
PÉROLA
DO OESTE/PR
35 O Dipel é o nome comercial do produto que contém os esporos do Bacilus thurigiensis. É uma técnica
de controle biológico e atua atacando as lagartas.
FONTE: PICINATTO 15-01-2007
NOTA: Foto tirada durante a inspeção da certificadora Ecocert. Da direita para esquerda, Jair Mombach,
Presidente da APOP em 2007; André Patzlaff, Mauro V. Patzlaff, proprietários; e o inspetor da Ecocert,
Arlei Mates.
A principal debilidade do manejo do solo de lavoura é o seu revolvimento, pois
operações de aração e gradagem, repetidas a cada safra, combinadas com fortes chuvas,
incidência do sol e vento, causam erosão do solo. A quantidade36 de fósforo (P2O5)
existente no solo é suficiente para garantir apenas uma safra, devendo-se aplicar ao solo
adubos fosfatados.
36 A quantidade de nutrientes das áreas agrícolas de todos os associados da APOP foi determinada no
laboratório de solos da UTFPR de Pato Branco/PR.
1.2.5 A dependência em insumos externos à propriedade e ao Território
A dependência de insumos é questionada pela dinâmica territorial, pois, regra
geral, os agricultores necessitam adquirí-los de empresas multinacionais, para
garantirem a produtividade dos solos desgastados pelo uso ao longo dos anos. Segundo
o DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral, “em 2007, o Brasil importou
nada menos que 75% do nitrogênio, 51% dos fosfatos e 91% do potássio de que
precisou [...]” (DNPM, apud CREA/PR, 2008, p. 32).
A agricultura orgânica é independente da indústria de insumos? O estudo de caso
das atividades agrícolas, principalmente das lavouras de soja orgânica dos associados à
APOP, responde essa questão. No decorrer de sete anos de acompanhamento técnico
realizado pelo Instituto Maytenus para o Desenvolvimento Sustentável, como
instituição proponente de projetos com o MDA – Ministério do Desenvolvimento
Agrário, MMA – Ministério do Meio Ambiente, e Sebrae de Pato Branco/PR,
observamos que, nas atividades agrícolas orgânicas, ocorre o consumo de inúmeros
insumos. Para melhor ilustrar, exemplificaremos com o cultivo da soja orgânica. No
quadro 6, podemos constatar os insumos costumeiramente utilizados e sua origem. Há
uma grande dependência em insumos externos ao sistema agrícola e ao Território
Sudoeste do Paraná, mesmo para a produção com base tecnológica orgânica.
QUADRO 6 – INSUMOS UTILIZADOS PELA APOP PARA A PRODUÇÃO DE
SOJA
ORGÂNICA
INSUMOS
ORIGEM
Sementes de soja
Campos de produção de sementes geralmente
de empresas multinacionais.
Biofertilizante supermagro
Provenientes principalmente do Estado de São
Paulo, em porções separadas de minerais
Farinha de rocha MB-4
Proveniente do Estado da Bahia
Inoculante (Rhizobiun sp)
Produzido em laboratórios brasileiros
Fosfato de rocha (Gafsa, Arad)
Importado da Tunísia e de Israel
Sulfato de potássio
Importado do Canadá
Óleo de Nin (Azadiracta indica)
Importado da Índia
Fertilizante para a soja (mistura de esterco de galinhas poedeiras, fosfato de rocha e sulfato de
potássio)
Ecossuper37 de Pranchita/PR. O esterco é de galinhas poedeiras da empresa Carminati e os
minerais são importados
Calcário
Proveniente de Rio Branco do Sul/PR
37 O adubo Ecossuper é certificado como orgânico. Nos últimos 10 anos, os agricultores, associados à
APOP, também adquiriram adubo da Fertiplan, Planalto/PR, e da Indústria Pegoraro de Boa Vista da
Aparecida.
Ecossuper de Pranchita/PR. O esterco é de galinhas poedeiras da empresa Carminati e os
minerais são importados
FONTE: PICINATTO A. C., 2009.
NOTA: Este quadro acima não contempla todos os insumos.
É necessário comprá-los de empresas que representam indústrias com base
nacional em países desenvolvidos e que, historicamente, não estão comprometidas com
os países em desenvolvimento.
Os associados da APOP são explícitos quanto à
dificuldade de adquirir sementes não-transgênicas no comércio local. Para a
certificação, é obrigatório um laudo técnico que atesta a não transgenia das sementes, o
que é difícil conseguir no comércio local. Os fosfatos de rocha são extraídos de minas
localizadas em Israel (Fosfato Natural de Arad) e da Tunísia 38 (Hiperfosfato Natural de
Gafsa); o sulfato de potássio é extraído de minas no Canadá. Da mesma forma, outras
atividades agrícolas com base tecnológica orgânica dependem de insumos externos ao
sistema agrícola e ao Território Sudoeste do Paraná. No caso da produção do leite,
existe a dependência da compra de homeopatia, farinha de rocha MB - 4, sal mineral,
vacinas, etc. A atividade horta depende principalmente de sementes39.
Segundo Gliessman (2000, p. 528), “essa entrada de energia poderia ser
sensivelmente reduzida com o uso de estercos, fixação biológica de nitrogênio e
reciclagem”. Até mesmo o esterco é matéria-prima administrada por empresas40 que
adquirem o esterco de galinhas poedeiras e da produção de frangos de corte e, após
processos de compostagem e calibração de nutrientes, certificam o processo e
comercializam para a produção orgânica. Para os sistemas agrícolas dos associados à
APOP com criação de porcos, embora haja fartura de adubo na forma de esterco líquido
– chorume – entendemos que é resultante da alimentação dos animais nos
confinamentos e que vem de fora do sistema agrícola, na forma de ração. Assim, o que
38 O Hiperfosfato Natural de Gafsa, é proveniente da Tunísia, país situado no norte da África.
Disponível em:
< www.fertipar.com.br >. Acesso em 12 de jul. 2010.
39 Regra geral, a horticultura orgânica do Território Sudoeste do Paraná utiliza sementes convencionais.
40 A função das empresas é calibrar o esterco em nutrientes para a cultura agrícola e, adequá-lo às
máquinas de plantio. Geralmente, tornam o esterco peletizado e calibrado com fosfatos de rocha e sulfato
de potássio. O adubo utilizado pelos associados da APOP é certificado pela IMO.
mantém a produção da soja orgânica é um sub-produto – o chorume – da criação
convencional de porcos.
A partir de tais constatações, defendemos a criação de uma indústria nacional,
preferencialmente no território, responsável pela produção de insumos orgânicos,
protegida pelo Estado, objetivando reduzir a dependência da agricultura orgânica da
indústria de insumos, cujo domínio, é externo ao Brasil.
1.2.6 Soja orgânica: dias trabalhados e resultado financeiro
Para quantificação do trabalho familiar e contratado bem como para
determinação dos resultados financeiros da atividade soja orgânica, realizou-se estudo
de caso que resgatou as safras 2007/2008 e 2008/2009, em três sistemas agrícolas. As
propriedades agrícolas estudadas são dos associados da APOP, e certificadas pelo IBD –
Instituto Biodinâmico. Produziram e comercializaram a soja orgânica para a Empresa
Agrorgânica que, por sua vez, exportou para a Holanda e Alemanha. Para a safra
2007/2008, na propriedade de Jair Mombach, para uma área de 4,2 ha, cultivada com
tecnologia de plantio direto, foram necessários 30 dias de trabalho familiar (capina com
enxada manual e arranquío manual de plantas indesejáveis) e mais 10 dias de trabalho
contratado. O custo de produção (dos 4,2 ha) sem considerar a certificação, foi de R$
5.165,40. A colheita alcançou 190,90 sacas de grãos bons, comercializados a R$ 66,00 a
saca, e 33,63 sacas de grãos ruins, vendidos a R$ 48,88 a saca. A planilha preenchida
pela família de Jair Mombach demonstra que sobraram R$ 8.749,54. Na safra de
2008/2009, a mesma área agrícola – atingida por estiagem – necessitou de 32 dias de
trabalho familiar para carpir com enxada manual e mais 2 dias de trabalho contratado
para arrancar inços e colher soja. O resultado da colheita foi de 115,3 sacas de grãos
bons, comercializados a R$ 62,00, e 50 sacas de grãos ruins, comercializadas a R$
50,00 a saca. O custo de produção, sem considerar a certificação, alcançou R$ 6.727,00
permitindo uma sobra de apenas R$ 1.801,31.
Na propriedade agrícola de Mario J. Domanski para uma área de 13,5 ha,
cultivada com tecnologia de plantio direto na safra 2007/2008, foram necessários 128
dias de trabalho familiar, capinando com enxada manual e arrancando inços
manualmente e, mais 143 dias de trabalho contratado para arrancar inços. O custo de
produção foi de R$ 14.690,00. A colheita teve grãos avariados, totalizando 110,99 sacas
comercializadas por apenas R$ 48,88, e 594,56 sacas, com grãos bons, comercializados
por R$ 66,00 a saca. A safra de 2007/2008 da lavoura temporária de Mario J. Domanski
permitiu uma sobra de R$ 29.850,00. Na safra plantada em 2008 e colhida em 2009, na
mesma área de 13,5 ha – atingida por estiagem – os resultados foram insatisfatórios. O
trabalho para arranquío de plantas indesejáveis – catação manual e capina com enxada
manual – foi de 147 dias contratados. O custo de produção alcançou a cifra de R$
13.081. A colheita de 100,05 sacas de soja orgânica com grãos avariados, foram
comercializadas por R$ 50,00 e 326,38 sacas, com grãos bons, comercializadas a R$
62,00 a saca, permitindo uma sobra de apenas R$ 11.576,00.
A lavoura de soja orgânica de Lúcia A. Patzlaff tem um diferencial das demais
estudadas, por ser cultivada com revolvimento de solo e não utilizar a tecnologia de
plantio direto sobre a palha. Na safra de 2007/2008, para os 12 ha cultivados com soja
orgânica, foram necessários 12 dias de trabalho familiar – para arranquío manual e 5
horas para capina tratorizada – não sendo necessário contratação de mão-de-obra. A
colheita resultou em apenas 10 sacas de grãos ruins, comercializados a R$ 45,00, e 680
sacas de grãos bons, comercializadas a R$ 65,00. O custo de produção, sem considerar a
certificação, alcançou R$ 9.245,00, sobrando R$ 35.405,00. A mesma lavoura, na safra
2008/2009 – atingida por estiagem – necessitou de 8 dias de trabalho familiar e mais 19
dias de trabalho contratado, para capina manual e arranquío manual de plantas
indesejáveis. O custo alcançou a cifra de R$ 11.056,00; foram colhidas apenas 210
sacas; 200 sacas de grãos bons, comercializadas por R$ 66,00, e 5 sacas de grãos ruins,
comercializadas a R$ 45,00 a saca. A safra de 2008/2009 resultou na sobra de apenas R$
2.368,75.
1.2.7 Questões ambientais nas propriedades agrícolas dos associados à APOP
A implantação das primeiras atividades agrícolas dos colonos descendentes de
europeus provocou fortes modificações na paisagem natural: derrubada de floresta e
desmatamentos à beira de nascentes e da mata-ciliar dos rios. A afirmação de A.
Mombach (2009) ilustra as primeiras atividades agrícolas e suas consequências.
Comenta sobre acontecimentos que causaram danos ambientais e, atualmente (2010),
dificultam a legalização das propriedades.
Na década de 1950, em Pérola do Oeste/PR, para fazerem as primeiras
lavouras, quando “[...] chegaram ali, foi feito roçado, derrubado mato para fazer
lavoura, fazia dessa maneira, aumentando as lavouras, eles derrubavam a par de sanga,
você sabe disso? Procuravam perto das nascente!” (A. MOMBACH, 2009). A criação
de porcos teve e tem efeitos negativos na natureza. Na fase inicial de colonização, as
instalações – chiqueiros – de porcos eram alocadas próximas às nascentes e córregos. É
importante ressaltar que a legislação ambiental41 (BRASIL, 1965) estabelece que, no
raio de 50 metros em torno das nascentes e 30 metros em cada margem de sangas com
até 10 metros de largura, é obrigatório manter vegetação nativa e não realizar nenhuma
atividade, por que é área de preservação permanente. No momento da alocação da infraestrutura – chiqueiro, estrebaria, casa, paiol – das propriedades rurais das famílias que
chegaram na década de 1950, não existia o Código Florestal – Lei nº 4.771/65; não
existiam tecnologias que permitissem distintos modelos de sistemas; não era possível
construir o chiqueiro no alto do morro, pois a quantidade maior de água – obrigatória
para a atividade – estava nas partes baixas do relevo. Dificilmente os estercos poderiam
ser levados para o alto dos morros, pois não existia a coleta de esterco e urina – em
esterqueiras – nas instalações dos animais. Constatamos por entrevistas que o
distribuidor de esterco somente chegou à comunidade décadas após o início da criação
de porcos. Não era uma prioridade reciclar os dejetos animais, porque geraria muito
trabalho – transportando morro acima – e os solos tinham fertilidade natural, não sendo
recomendado, aplicar adubos, mesmo que orgânicos. Nas palavras de A. Mombach
(2009), a alocação do chiqueiro próximo a nascente e riacho objetivava “[...] facilita a
água, não tinha bomba-de-água, essa mordomia de hoje, hoje você pode construir no
morro e levar água no morro, mas naqueles tempos não era assim, daí criavam suíno,
[próximo ao rio]”.
A legislação ambiental imposta42, sem considerar que as modificações –
severas – devem ser resultantes de processos de formação, tendo aporte financeiro do
Estado, demonstrou-nos que além de ineficaz, é um verdadeiro problema para
agricultores familiares que querem legalizar suas propriedades. Perguntamos para as
41 Código Florestal – Lei número 4.771, de 15/09/1965.
42 O Decreto nº 3.320, de 12 de julho de 2004, aprova os critérios, normas, procedimentos e conceitos
aplicáveis ao SISLEG – Sistema de Manutenção, Recuperação e Proteção da Reserva Legal e Áreas de
Preservação Permanente.
treze (13) famílias da APOP se sería possível conciliar a produção orgânica com a
legislação ambiental43 sem ter prejuízos econômicos, a resposta foi: “Tem que abrir mão
de certas coisas e levar prejuízo. É o custo de mudar o chiqueiro, a casa, deixar essa área
que tá o gado em cima, fazer outra área” (M. J. DOMANSKI, 2009).
Evidenciamos a recuperação gradativa de nascentes e mata-ciliar na maioria
das propriedades dos associados da APOP. De algumas delas há fotos44 aéreas que
permitem visualizar a reconstituição de mata-ciliar; e, na opinião dos agricultores,
ocorre realmente recuperação ambiental nas propriedades dos associados. Segundo M.
J. Domanski (2009), referindo-se ao plantio de ipês com objetivo comercial e plantio de
nativas em área de preservação permanente – nascente45 – explica que “No nosso caso
aumentou! Agora vai aumentar, estamos plantando! [...]”. Os resultados que obtivemos
através da metodologia prevista para diagnosticar questões ambientais estão descritos
nos itens A, B, C, D a seguir:
A – Fortalezas: A instalação de agroflorestas, com diversidade de espécies nativas,
é uma fortaleza admirável da APOP. Na propriedade do Jair Mombach foi iniciada
há 5 anos. A agrofloresta – como atividade econômica – está sendo cogitada pelos
agricultores familiares da APOP como proposta adequada para as pequenas
propriedades recuperarem áreas de preservação permanente. A proposta é
recuperar as nascentes e mata-ciliar implementando atividades economicamente
viáveis e ecologicamente corretas. Um exemplo seria cultivar jabuticaba, colher os
frutos e industrializá-los.
FOTOGRAFIA 6 – AGROFLORESTA, JAIR MOMBACH, PÉROLA DO OESTE/PR
43 A APOP participa do projeto do Ministério do Meio Ambiente: Adequação a Legislação Ambiental de
Propriedades Orgânicas do Sudoeste do Paraná: conciliando produção com preservação – PDA 268 MA.
Tem por objetivo promover a adequação à legislação ambiental de 70 propriedades orgânicas da região
Sudoeste do Paraná. A participação no projeto a partir de 2008 tornou os agricultores conhecedores da
legislação ambiental.
44 Fotos aéreas tiradas por empresas particulares para venderem aos agricultores. Embora não sirvam
para estabelecimento de tamanho de áreas, permitem a visualização da vegetação, construções etc.
45 A nascente da Sanga Barro Preto situa-se na propriedade de Mario José Domanski e percorre várias
propriedades orgânicas dos associados da APOP. Por terem recuperado a mata-ciliar, são verdadeiros
exemplos de agricultores orgânicos que concebem o ambiental. Não são apenas produtores de soja
orgânica, mas, ecologistas exemplares.
FONTE: PICINATTO, A.C. 05-11-2007
Na propriedade de Lúcia A. Patzlaff, também a agrofloresta em continuidade à
mata-ciliar foi iniciada em 2002, tendo espécies nativas como louro-branco, louro-preto
e exóticas, como o cinamomo e a uva-japão.
FOTOGRAFIA 7 – AGROFLORESTA E MATA-CILIAR DA SANGA BARRO
PRETO,
LÚCIA A. PATZLAFF, PÉROLA DO OESTE/PR
FONTE: PICINATTO, A.C. 05-11-2007
NOTA: André e Mauro Vicente Patzlaff.
A proteção de nascentes foi iniciada com instalação de cerca. Na foto 8, está
visível a proteção com cercas à nascente que dá origem a Sanga Barro Preto, de
importância relevante, uma vez que, percorre várias propriedades orgânicas dos
associados da APOP. A proteção da nascente protege o recurso natural, água, mantendoa sem agrotóxicos – ou com menos agrotóxicos – que é o ideal para a produção agrícola
orgânica.
FOTOGRAFIA 8 – NASCENTE
DA SANGA
BARRO
PRETO
CERCADA,
MARIO J.
DOMANSKI, PÉROLA DO OESTE/PR
FONTE: PICINATTO, A.C., 07-11-2007
O plantio direto com base tecnológica orgânica visa preservar o recurso
natural, solo. A erosão é o grande destruidor de solos e implica diretamente a perda de
fertilidade e consequente aumento nos custos de produção. A lavoura de Mario J.
Domanski está há aproximadamente 5 anos, evoluindo no processo de conversão e
adoção do sistema de plantio direto. O azevém tem a capacidade de cobrir o solo,
evitando a erosão e reduzindo o trabalho de limpeza dos inços46 – plantas indesejáveis –
da soja, cuja lavoura orgânica, na foto 9, foi plantada no mês de outubro de 2007.
46 Por serem sufocados pela palhada não se desenvolvem.
FOTOGRAFIA 9 – PLANTIO
DIRETO
DE
SOJA
ORGÂNICA
COM
AZEVÉM,
MARIO J. DOMANSKI, PÉROLA DO OESTE/PR
FONTE: PICINATTO, A.C. 07-11-2007
Na propriedade de Romeu E. Helfer, o plantio direto de soja orgânica sobre a
aveia preserva o solo da erosão, e é um grande destaque. Ao fundo da foto 10, pode-se
observar a mata-ciliar reconstituída. A sanga é a mesma que nasce na propriedade de
Mario J. Domanski e, logo em seguida, passa pelas propriedades de Cláudio Leonhardt,
Lúcia A. Patzlaff e Romeu E. Helfer que utilizam a lógica de garantir a mata-ciliar para
abrigar “amigos naturais”, ou seja, insetos que contribuem no controle biológico.
FOTOGRAFIA 10 – SOJA ORGÂNICA, PLANTIO DIRETO COM AVEIA, ROMEU
E.
HELFER, PÉROLA DO OESTE/PR
FONTE: PICINATTO, A. C., 05-11-2007
Obviamente, nas propriedades dos associados da APOP, não ocorre a
contaminação da água por resíduos de agrotóxicos ou estercos, o que já consideramos
um grande benefício ao ambiente. Para o controle de percevejos que atacam a soja
utilizam armadilhas. A fotografia 11 ilustra o modelo de armadilha feito com garrafa de
refrigerante e estaca-de-ferro. O atrativo para o inseto é a urina de gado bovino colocada
dentro da garrafa.
FOTOGRAFIA 11 – ARMADILHA PARA CAPTURA DE PERCEVEJOS,
PROPRIEDADE DE LÚCIA A. PATZLAFF, PÉROLA DO
OESTE/PR
FONTE: PICINATTO, A. C., 13/02/2009.
O Código Florestal (BRASIL, 1965) considera que um dos objetivos da mataciliar é evitar o transporte de defensivos agrícolas – ou agrotóxicos? – para os cursos de
água. Tal questão é relevante, pois não havendo erosão do solo ou contaminação por
agrotóxicos, poderíamos adequar a legislação para valorizar as propriedades orgânicas,
uma vez que não utilizam agrotóxicos. A proposta47 mais debatida de mudança do
Código Florestal é quanto à redução das áreas de mata-ciliar e nascentes exclusivamente
nas propriedades orgânicas.
B – Oportunidades: Alfredo Mombach, integrado ao programa de sequestro de
carbono da Sadia, instalou biodigestor, o que servirá de exemplo aos demais. É
uma oportunidade de conhecer e avaliar a funcionalidade, custos de implantação e
vantagens. A instalação de biodigestores poderá ser planejada para outros animais,
por exemplo, bovinos de leite. O importante é seguir o exemplo da utilização do
biodigestor para gerar energia, sequestrar o carbono e preparar o esterco para
fertilizante das lavouras orgânicas.
C – Debilidades: As barreiras com guandu – fotografia
12 –
que deveriam
proteger da deriva de agrotóxicos e pólen de plantas transgênicas – milho e soja –
revelaram-nos fragilidade, e proteção parcial. A questão ambiental poderia ser
fortalecida se as barreiras fossem de árvores nativas o que contribuiria com o
aumento da flora e fauna nativa; nesta, haveria ainda, aumento de amigos
naturais48.
FOTOGRAFIA 12 – BARREIRA DE PROTEÇÃO COM GUANDU, MARIO
JOSÉ
DOMANSKI, PÉROLA DO OESTE/PR
47A proposta foi elaborada juntamente com a APROSUDOESTE e constitui o documento encaminhado
para audiência pública por meio dos Deputados Federais Assis Miguel do Couto e Anselmo de Jesus.
48 Os amigos naturais são todos os animais – insetos, aracnídeos etc. que, de alguma forma, controlam as
populações de insetos causadoras de danos aos cultivos ou aos animais domésticos. Para o cultivo da soja
orgânica, o percevejo que suga os grãos na fase leitosa é considerado um inseto praga que causa severos
danos. No caso do gado bovino, os carrapatos e bernes causam danos e poderiam ser controlados por aves
que deles se alimentam.
FONTE: PICINATTO A. C. 06-11-2007
As propriedades são pequenas e a redução da área agrícola, com atividades que
agregam pouco valor, coloca em risco a viabilidade econômica. Quase todas as
propriedades da APOP têm nascentes e sangas, e em alguns casos, atravessam a
propriedade. Regra geral, a recuperação das APP – Área de Preservação Permanente
reduz a área agrícola. Ao longo dos anos, a APP foi incorporada como área de atividade
agrícola, com lavouras temporárias ou pastagem, entretanto para legalizar as
propriedades, é obrigatório recuperar a flora nativa. Além disso, não há recursos
financeiros das famílias, previstos para realocação de instalações, de animais e casas,
que de acordo com a legislação, estão irregulares, devido à proximidade com nascentes
e riachos.
Para nascentes, a legislação estabelece um raio de 50 metros e para riachos,
com até 10 metros de largura, as construções devem estar além de 30 metros. A erosão
dos solos é também um grande problema – Debilidade por se tratar de fator interno ao
sistema e que pode ser modificado pelo proprietário – que está sendo superado com o
plantio direto. Na safra 2007/2008 os resultados começaram a aparecer. A fotografia 13
ilustra a erosão do solo, ocorrendo, mesmo em plantio direto.
FOTOGRAFIA 13 – EROSÃO DO SOLO
EM SOJA ORGÂNICA, SAFRA
2006/2007.
JAIR MOMBACH, PÉROLA DO OESTE/PR
FONTE: PICINATTO A. C. 05-11-2006
A debilidade, erosão do solo, é muito grave tanto para o aspecto ambiental 49
quanto econômico da atividade agrícola; é uma preocupação que preconizou a utilização
e avaliação de várias tecnologias, objetivando o não-revolvimento do solo. O rolo-faca,
plantio direto sobre a aveia em pé, ou sobre o azevém, são exemplos. A partir da safra
2007/2008, iniciaram a utilização de um secante, supostamente extraído de plantas, e
cuja utilização amenizou os efeitos da erosão, embora aceito com restrições pelas
certificadoras de orgânicos. No plantio realizado no mês de outubro de 2007,
49 Importante ressaltar que, ocorrendo erosão dos solos, os adubos orgânicos são levados para a água
juntamente com o solo, causando problemas de contaminação da água e açoreamento. Na região Oeste
do Paraná, a ITAIPU BINACIONAL tem problemas na usina hidrelétrica, pois as turbinas entopem com o
mexilhão dourado que prolifera a partir de algas alimentadas pela matéria orgânica proveniente também
de propriedades agrícolas.
observamos – ver fotografia 14 – que não existiam focos de erosão, embora as chuvas
tenham sido intensas. Este é um problema grave que ainda não está totalmente
superado. Com a adoção da tecnologia do secante orgânico, constatamos o problema da
elevação dos custos de produção, todavia se ele for de fato um extrato de plantas
fermentado, os agricultores poderão fazê-lo nas suas propriedades.
FOTOGRAFIA 14 – PLANTIO
DIRETO
DA
SOJA
ORGÂNICA
COM
SECANTE
SUPOSTAMENTE ORGÂNICO. JAIR MOMBACH, PÉROLA
DO
OESTE/ PR
FONTE: PICINATTO A. C. 05-11-2007.
No cultivo de hortaliças, a erosão do solo está sendo controlada com cobertura
morta de capins secos sobre os canteiros.
FOTOGRAFIA 15 – COBERTURA MORTA50, CLAUDIO LEONHARDT, PÉROLA
DO
OESTE/PR
FONTE: PICINATTO, A. C. 07-11-2007
As debilidades identificadas fazem parte do cotidiano dos associados da APOP
que discutem as possibilidades de superação. À medida que a consciência ambiental
aumenta, as orientações de como resolver as debilidades são melhor aceitas.
D – Ameaças: As sementes de soja transgênica estão disseminadas na comunidade;
os relatos dos associados da APOP afirmam que, tirando os orgânicos, para cada
10 lavouras de soja convencional, oito (8) são transgênicas. No caso do milho
transgênico a previsão é que aumente intensamente a partir da safra de 2010. Este
é um problema geral para todas as lavouras orgânicas dos associados da APOP,
50 O mulching ou cobertura morta resulta em economia de água, regulação da temperatura do solo,
economia de adubação, conforto térmico para as plantas, evita a erosão, protege microorganismos
benéficos, entre outras vantagens.
porque o pólen transgênico, oriundo de outras propriedades poderá contaminá-las.
Os agrotóxicos51 trazidos pelo vento e água da chuva também ameaçam as
lavouras orgânicas, o que consideramos como um fator externo ao sistema agrícola e de
difícil solução. Os associados da APOP, não conseguem influenciar, o suficiente, para
evitar tal problema.
A imposição da lei – especialmente do SISLEG52 – não considera a gradativa
recuperação da flora, que já está acontecendo nas propriedades orgânicas, é uma
ameaça. Não existe um reconhecimento oficial que motive e valorize os agricultores que
eliminaram o uso de agrotóxicos, adotaram o plantio direto em sistema orgânico para
evitar erosão do solo, implantaram agroflorestas, estão recuperando nascentes e mataciliar, entre outros procedimentos fundamentais para questões ambientais. A visão
externa dos órgãos ambientalistas e de fiscalização53 do governo é considerada
ameaçadora pelos agricultores familiares, que estão mobilizados numa dinâmica
territorial que propõe alterações na legislação ambiental. A audiência pública, que
debateu proposta de alterações no Código Florestal (1965), realizada no dia 30 de abril
de 2009, no anfiteatro da Unioeste – Francisco Beltrão/PR, mobilizou inúmeras
organizações. Esta audiência foi coordenada pelo GGTESPA – Grupo Gestor do
Território Sudoeste do Paraná e após o debate, a proposta foi apresentada ao público e
aprovada. A mobilização do Território Sudoeste do Paraná e demais regiões do Brasil
parece ter poder de modificações na legislação ambiental. No dia 05 de dezembro de
2009, aconteceu novamente audiência pública, na qual foram apresentadas propostas
construídas pelo associativismo regional da APROSUDOESTE e, que contemplaram as
demandas dos associados da APOP no que se refere ao aspecto ambiental de
propriedades orgânicas.
51 Agrotóxicos são: a uréia, adubos nitrogenados sintéticos, herbicidas, fungicidas, inseticidas, entre
outros insumos da produção convencional. Até mesmo as sementes da produção convencional trazem em
si tratamentos com fungicidas altamente tóxicos.
52 SISLEG – Sistema de Manutenção, Recuperação e Preservação da Reserva Legal. Decreto Estadual
387/99.
53 A partir de 10 de dezembro de 2009, esta conjuntura modificou-se porque o governo federal lançou
novo Decreto postergando e parando as autuações para as propriedades agrícolas que ainda não
averbaram a reserva legal.
1.3 O TERRITÓRIO SUDOESTE DO PARANÁ
O Sudoeste do Paraná está localizado à margem esquerda do Rio Iguaçu; é
banhado pelos rios: Chopim, Jaracatiá, Cotegipe, Capanema e Santo Antonio – divisa
com a Argentina. Segundo Lazier (1986) o referido território pertencia ao município de
Clevelândia, que, em 16 de outubro de 1884, pela Lei Provincial número 789, foi
elevado à categoria de freguesia, com a denominação de Bela Vista de Palmas; com a
Lei número 28, de 28 de junho de 1891, foi elevado a município. “Trocou de nome de
Bela Vista de Palmas para Clevelândia, em 29 de março de 1909, pela Lei número 862”
(LAZIER, 1986, p. 29). No início do século, havia poucos povoados. O denominado
Canela teve início em 1919, foi evado à categoria de Distrito Judiciário, em 1927, com a
denominação de Bom Retiro e hoje é a sede do município de Pato Branco/PR.
“Existiam, desde, 1903 os povoados de Barracão e Santo Antonio na fronteira da
Argentina” (LAZIER, 1986, p. 29). Segundo o IBGE, o Sudoeste do Paraná é uma
mesorregião composta pelas microrregiões de Capanema, Francisco Beltrão e Pato
Branco. As dinâmicas em que a APOP está inserida, por meio do associativismo na
agricultura orgânica, estendem-se à microrregião de Palmas/PR que, segundo o IBGE,
faz parte da Mesorregião Centro-Sul Paranaense. A AMSOP – Associação dos
Municípios do Sudoeste do Paraná e as Organizações da Agricultura Familiar, também
estendem suas dinâmicas até a microrregião de Palmas/PR. Atualmente – janeiro de
2010 – o MDA – Ministério do Desenvolvimento Agrário, por meio da SDT –
Secretaria de Desenvolvimento Territorial considera que o Território Sudoeste do Paraná
é a Mesorregião Sudoeste do Paraná (microrregiões de Capanema, Francisco Beltrão e
Pato Branco) mais a Microrregião de Palmas/PR. No total, são 42 municípios, os
mesmos que a AMSOP abrange. A área ocupada pelo Território Sudoeste do Paraná é
de 17.057,75 Km2; a microrregião de Palmas, com 5.405,917 Km2, ocupa a maior área,
seguida pela microrregião de Francisco Beltrão com 5.451,417 Km2; depois, a
microrregião de Pato Branco, com 3.883,059 Km2 e microrregião de Capanema com
2.317,357 Km2. Para o IBGE (2006), a microrregião de Francisco Beltrão possui 22.200
estabelecimentos agropecuários, a microrregião de Capanema, 12.185; a microrregião
de Pato Branco, 10.094; e a microrregião de Palmas 5.455, totalizando no Território
Sudoeste do Paraná 49.934 estabelecimentos agropecuários.
A figura seguinte localiza o Território Sudoeste do Paraná, no Estado e no
Brasil.
FIGURA 2 – LOCALIZAÇÃO DO TERRITÓRIO SUDOESTE DO PARANÁ
FONTE: MDA – MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO. Disponível em: <
www.mda.gov.br >. Acesso em 10 out. 2009.
Segundo o IPARDES (2009) – a partir de dados do Censo Agropecuário IBGE
(2006) – a Mesorregião Sudoeste tem um total de 44.479 estabelecimentos
agropecuários, sendo 39.532 classificados como agricultura familiar – corresponde a
88,9% – e apenas
4.947 estabelecimentos agropecuários classificados como não-
familiar . Outro dado fundamental para avaliar o potencial de expansão da agricultura
54
orgânica é o tamanho dos estabelecimentos agropecuários. Segundo o IPARDES (2009),
o Censo agropecuário IBGE (2006) apresenta a Mesorregião Sudoeste com 20.099
estabelecimentos agropecuários com menos que 10 ha e 22.113 com mais que 10 ha e
menos que 100 ha. Os estabelecimentos agropecuários do grupo cuja área é menos que
10 ha ocupam 51.915 pessoas e o grupo cuja área é de 10 ha e menos de 100 ha ocupam
65.089 pessoas. O levantamento dos estabelecimentos agropecuários que fazem uso da
agricultura orgânica, no Território Sudoeste do Paraná totalizou 1.111, dos quais 273 são
certificados por entidade credenciada (IBGE, 2006).
Segundo o GGTESPA55 (2009), o ano de 1998 é o ponto de partida da
organização territorial, quando aconteceu o debate do Pacto Nova Itália e a formação do
Fórum Inter-Institucional e da Sociedade Civil, que elaborou uma proposta de
desenvolvimento regional. No ano de 2001, os municípios da fronteira constituíram o
Consórcio da Fronteira, cuja intenção era gerir de forma intermunicipal os recursos
oriundos do MDA. “A iniciativa já se situava no âmbito da crítica aos limites
apresentados pelo Pronaf-infraestrutura, que propunha o debate do desenvolvimento
local centrado no município” (GGTESPA, 2009, p.02). No ano de 2003, o MDA –
Ministério do Desenvolvimento Agrário, por meio da SDT – Secretaria de
Desenvolvimento Territorial, criou o Território Sudoeste do Paraná com intenção de
superar os limites da abordagem municipal do Pronaf-infraestrutura. No período de
2003 a 2004, o Território Sudoeste do Paraná era formado por 17 municípios; no
período de 2004 a 2005, ocorreu a ampliação para 27 municípios e, no período de 2005
a 2006, ampliou para os atuais 42 municípios.
54 Embora com pouca freqüência, existem investimentos da agricultura não-familiar orgânica no
Território Sudoeste do Paraná. Picinatto (2005) cita a produção de erva mate orgânica, certificada em
Chopinzinho, e a agropecuária Shimozaka, em Palmas, entre outras.
55 GGTESPA – Grupo Gestor do Território Sudoeste do Paraná.
A interpretação da Assesoar56 sobre desenvolvimento territorial, ainda uma
intenção, apresentada durante o II SEET – Seminário Estadual de Estudos Territoriais
evidencia que, se trata de uma política de governo. A problemática é que:
Apesar dos esforços e da dedicação de vários atores, pelas condições
criadas até o momento, o que tem acontecido é que a grande maioria
das entidades dedica alguma presença no âmbito do Território para
apresentar e aprovar ‘seu’ projeto, sem dados mais sistemáticos de
pesquisas, sem realização das oficinas e debates das propostas porque
a burocracia impediu que os recursos pudessem ser usados em tempo
hábil, etc. (DUARTE, 2005, p. 289).
A crítica de Duarte (2005) não é uma desvalorização da proposta de Território,
pois suas argumentações enfatizam a constituição de uma dinâmica social fundamental
para o desenvolvimento:
Sem dúvida o ideário do desenvolvimento territorial, em que pese à
transformação das entidades e organizações em “capital social”,
poderá constituir-se em diretrizes de uma dinâmica social vigorosa,
onde os embates e as diferentes concepções de desenvolvimento
possam ganhar visibilidade pública e sistemática. (DUARTE, 2005, p.
289).
O grupo gestor – GGTESPA – é o responsável pela gestão das atividades do
Território Sudoeste do Paraná e está composto por 24 entidades, 12 governamentais e 12
não-governamentais citadas no quadro seguinte.
QUADRO 7 – ENTIDADES QUE COMPÕEM O GGTESPA, 2009
GOVERNAMENTAIS
NÃO - GOVERNAMENTAIS
ACAMSOP
AMSOP
ASSEC
ASSEMA
EMATER
ESCOLAS AGROTÉCNICAS
IAP
IAPAR
ACESI/FETRAF
AFASP
ARCAFAR
ASSESOAR
CAPA
COOPERIGUAÇU
CRESOL/BASER
INFOCOS
56 Assesoar: Associação de Estudos Orientação e Assistência Rural. Tem sua sede em Francisco
Beltrão/PR.
INCRA
SEAB
UNIOESTE
UTFPR
MAB
MST
SISCLAF
COOPAFI
FONTE: GGTESPA (2009).
NOTA: As denominações estão na lista de siglas.
Segundo o Diretor Regional da Emater, Nilton Fritz (2010), pela instância
Território discute-se para onde se vai e quem pode entrar; é necessário incluir as
instituições de educação e saúde para ampliar a participação da sociedade. A discussão
do Território continuará, para Fritz (2010) “[...] não é só por uma questão de um
governo [...] a idéia não é ficar dependendo apenas do recurso do MDA [...]”. Sua
proposta é, “[...] ao invés de discutir recursos, discutir projetos e desenvolvimento da
região e aí buscar recursos para que não fique engessada na questão do Ministério”. O
Território – SDT – está contribuindo para que a universidade tenha ensino baseado na
discussão regional, com cursos e disciplinas que sejam adequadas à região. Fritz (2010)
cita a especialização na linha de controle biológico, na UTFPR de Dois Vizinhos/PR,
como resultado da articulação territorial.
Para a expansão da agricultura orgânica, por meio da proposta agroecologica, a
instância Território Sudoeste do Paraná parece ter o poder de criar uma dinâmica social
vigorosa, em que as entidades se encontram para dialogar e propor projetos sobre o
tema. A importância do Território – MDA/SDT – será questionada por varias
organizações ao longo da dissertação.
1.3.1 Aspectos físicos influenciando no potencial de expansão da agricultura orgânica
O IAPAR (2001) descreve a região Sudoeste do Paraná com grande diversidade
de ambientes. Tal diversidade ocorre devido a sua localização e à interações entre clima
e relevo. O clima é temperado – Cfb – nos locais de maior altitude, incluindo
Palmas/PR, sua microrregião e os municípios de fronteira com o Estado de Santa
Catarina – Flor da Serra do Sul, uma estreita faixa de Barracão e uma pequena parte de
Francisco Beltrão/PR. O clima é subtropical – Cfa – na porção mais Oeste –
microrregião de Capanema – e grande parte da microrregião de Francisco Beltrão e
parte da microrregião de Pato Branco. Segundo o IAPAR (2001), além dos dois tipos
climáticos estabelecidos por Köepen, existem mais dezoito microclimas, conforme os
gradientes de altitude e a posição geográfica dos municípios. A diversidade climática
pode ser uma vantagem para a proposta agroecológica, permitindo a produção de grande
diversidade de alimentos, suficiente para suprir nutricionalmente a população do
Sudoeste do Paraná – e gerar dinâmica comercial
–
porém, se não tivermos as
variedades adaptadas e disponibilidade de sementes e mudas, o efeito é inverso. A
produção convencional implementada pela Revolução Verde já iniciou as diversas
atividades agrícolas e têm sua tecnologia convencional estabelecida para as atividades
agropecuárias praticadas nos estabelecimentos rurais – desde maçã cultivada em áreas
restritas até soja, aves, bovinos para leite e carne, fumo, entre outras de abrangência
geral no Território. O fato é que a produção convencional já está territorializada e com
tecnologia disponível. A produção orgânica não está territorializada em todas as
atividades
agrícolas,
requer
desenvolvimento
da
tecnologia
para
conseguir
territorializar-se. Constatamos em dialogo com os associados da APROSUDOESTE
que, as variedades de soja e milho transgênicos estão sendo adaptadas e disseminadas
muito mais rapidamente que as sementes orgânicas. O Eduardo Domanski (2009) a
partir das perguntas sobre sementes transgênicas – e os consequentes problemas para a
associação de orgânicos, discorre sobre a falta de variedades adaptadas à agricultura
orgânica.
Pra nós é a contaminação! A contaminação das máquinas hoje não é
tanto problema, porque já têm57 pra colher o orgânico. Se não tivesse,
seria um grande problema na contaminação da colheita. E a compra de
sementes também. A maioria tá plantando transgênico e não se tem
semente convencional, e as empresas estão começando exigir que as
sementes sejam orgânicas. Não tem quem produz a semente orgânica.
As variedades são poucas para o orgânico, principalmente para
consumo humano. Pra ração pode ser qualquer semente, menos a
transgênica; é mais fácil, tem mais escolha de variedades. No meu
caso, aqui na propriedade, as variedades que são pra consumo
humano, elas não se adaptam muito bem, daí eu vou partir pra plantar
o orgânico pra ração, que as variedades são melhores. Uma melhoria
seria variedades que se adaptem pra região aqui. Aqui não tem
pesquisa pra variedades orgânicas. A cooperativa58 não quer nem que
57 Refere-se à colheitadeira que receberam do Projeto Ecosocial da Comunidade Européia por meio da
Empresa Agrorgânica.
fale em orgânico. São três variedades pra consumo humano, V MAX,
CD 216 [COODETEC 216] e o EMBRAPA 258 [Cultivar BRS 258]. O
258 é ciclo muito longo; o COODETEC 216 é precoce, ciclo curto, mas
a produção [é] muito baixa na nossa região, tem região que dá muito
bem; e o V MAX pelo que vi, se é um ano que chove normal, cresce
muito e acama, e se acamar a produção é menor que uma seca que nem
deu esse ano. (E. DOMANSKI, 2009).
Eduardo comenta que o COODETEC 215 adapta-se bem para ração e que,
embora o preço pago pelas empresas que compram a soja orgânica seja menor, compensa
pela produção e pelo ciclo que é curto, não tem ataque de doenças e é resistente. Outra
questão relativa ao fator climático e de grande importância é quanto às variedades de
plantas cultivadas no início da colonização. Algumas variedades poderiam ser resgatadas
e multiplicadas para gerar auto-suficiência em sementes, porém entendemos a
necessidade de adaptá-las à nova realidade – dos sistemas agrícolas e clima – é evidente.
Perguntamos: a família perdeu variedades de sementes que seriam úteis hoje – 2009? A
resposta nos esclarece que o resgate de variedades de sementes, sua proliferação e
dispersão seriam o trabalho mais fácil a ser feito, e que, regra geral, não dá bons
resultados. O trabalho mais difícil é adaptar – pesquisa e melhoramento – a planta para
que seja uma peça dimensionada aos atuais sistemas agrícolas e climas específicos. A
opinião do E. Domanski (2009) é: “Acho que se fosse plantar hoje, aquelas variedades,
elas nem produziam, talvez pela época que se planta hoje, e pelo clima”. Referindo-se ao
cultivo da soja, explica que:
[…] se fosse plantar que nem nos anos 60, quando os outros
estivessem colhendo, recém teria plantado. Não era tão adaptado
para plantar tão cedo que nem hoje. Seriam úteis se fossem
adaptadas para a realidade de hoje. Porque me lembro bem
quando tava em casa, nos 75, nóis tava colhendo soja, tava
geando. Começavam a colher de 15 de abril59 pra frente! (E.
DOMANSKI, 2009).
58 Refere-se à Coagro – Cooperativa Agropecuária Capanema.
59 Hoje – 2010 – começam a colher soja no final de fevereiro. Os plantios iniciam em outubro e o
recomendado é plantar até 15 de novembro.
A realidade ilustrada a partir do cultivo da soja serve para a maioria das espécies
vegetais. É necessário adaptar plantas estratégicas para a agricultura familiar, por
exemplo, o milho60.
Os tipos de solo e o relevo também influenciam na possibilidade de expansão da
agricultura orgânica. No Sudoeste do Paraná, a litologia é representada por basalto e
diques de diabásio; a paisagem típica são as mesetas estruturais, dando origem a uma
topografia com aspecto de tabuleiro (IAPAR, 2001); o basalto é conhecido como
fertilizante há muito tempo, todavia não está reconhecido, no Sudoeste do Paraná,
enquanto recurso territorial – recurso material. Defendemos que o basalto como
fertilizante contribuirá para a mudança de base tecnológica. Estudiosos, referindo-se ao
processo de conversão da produção convencional para a biodinâmica, relatam que:
As condições minerais e de calcário do solo devem estar em bom
estado, ao iniciar-se uma mudança de método. Para os anos iniciais será
útil, em muitos casos, uma aplicação de calcário baseada não só nas
análises do solo, como também no seu exato conhecimento. Outros
minerais, como por exemplo, pó de basalto ou fosfato, este
particularmente importante para o cultivo de solos argilosos ou barroargilosos, não devem ser aplicados imediatamente, nem de uma só vez.
Planejem-se para uma série de anos, adições para os adubos de
fazendas, por exemplo, 2% de pó de basalto no inicio da
decomposição. Desejando-se aplicar mais, isto deverá ser feito por
ocasião da distribuição do adubo. Solos mais leves poderão ser bastante
melhorados desta maneira. (KOEPF, H.H.; PETTERSSON, B.D.;
SCHAUMANN, 1987, p. 147, grifo nosso).
A EMBRAPA (apud IAPAR, 2001) classifica os solos em uma topossequência
da maior altitude para a menor como: LV – Latossolo Vermelho em altitudes inferiores a
800 metros e Latossolo Bruno em altitudes superiores a 800 metros; NX – Nitossólo
Háplico; Cp – Cambissolo Háplico; NF – Neossolo flúvico, próximos de rios, são solos
turfosos; RL – Neossolo Litólico, afloramento de rochas. Para a produção agrícola
orgânica, as características do solo, podem dificultar o trabalho. Eduardo Domanski relata
que:
60 O milho variedade foi superado pelos híbridos, principalmente porque eram extremamente suscetíveis
ao acamamento. Distribuir sementes de milho que tenham tal problema não é motivador para que os
agricultores perpetuem as sementes.
Na minha opinião, um grande problema da agricultura no [cultivo da]
soja, é a posição do terreno, posição geográfica. [Na] minha
propriedade, o problema é que a estrutura do solo não ajuda, é muito
pedregulho, e se torna muito difícil de trabalhar. Se fosse uma terra
vermelha [seria] bem diferente! Com uma enxada, [iniciando] de manhã
você pode trabalhar até de noite. Eu to usando ultimamente duas enxada
[s], tem que subir com as duas, o pedregulho você bate com uma,
quando vai pra terra vermelha [capina] com a outra. No pedregulho
você vai envergar um soja de aradinho, não entra! (E. DOMANSKI,
2009).
Nesse caso, o tipo de solo inviabiliza o uso de equipamento que reduziria o
trabalho de remover as plantas indesejáveis da lavoura. Respondendo à pergunta: O
envelhecimento provoca a desistência dos agricultores orgânicos? Eduardo Domanski
argumenta:
Eu, pra mim, a idade eu não acho problema; como falei, o maior
problema é a situação da terra; até a geografia não implica tanto assim
por ser um morro, [não é difícil] subir pra trabalhar, o problema é [se]
onde a gente trabalha tem pedregulho [e] umas partes com laje, você vai
entrar com equipamento, não dá arrebenta; é prejuízo, tu planta ali, tu
gasta, põe adubo, põe serviço, vem o sol [e] mata! (E. DOMANSKI,
2009).
A vegetação do Território, antes de sofrer alterações antrópicas, era constituída
por Campos de Altitude (Estepe Gramíneo-lenhosa) e pela Floresta com Araucária
(Floresta Ombrófila-mista) onde o clima é Cfb – temperado na classificação de Köepen –
são as altitudes maiores; nas áreas de menor altitude, temos a Floresta Pluvial (Floresta
Estacional Semidecidual). Entre outras importâncias para a agricultura orgânica,
reconhecemos que a vegetação nativa pode lhe oferecer espécies com capacidade de
fixação biológica de nitrogênio61 e efeitos inseticidas62. A vegetação nativa tem
61 As árvores da família das leguminosas podem ser introduzidas nas pastagens com a finalidade de
fixação biológica do nitrogênio, sombreamento e alimentação do gado. O Angico Vermelho
(Anadenanthera macrocarpa) e a Bracatinga (Mimosa scabrella) são exemplos.
62 O extrato de Timbó (Lanchocarpus sp e Derris sp) é utilizado como inseticida. Os indígenas já o
utilizavam para matar peixes. Vários associados da APROSANTO, de Santo Antonio do Sudoeste, o
utilizam artesanalmente.
fundamental importância para a formação das agroflorestas em áreas de preservação
permanente. Na agrofloresta do sistema agrícola de Jair Mombach identificamos as
seguintes espécies nativas: Loro-branco (Bastardiopsis densiflora), cedro (Cedrela
fissilis),
guatambu
ou
pau-marfim
(Balfourodrendon
riedelianun),
angico
(Anadenanthera colubrine), canafístula (Peltophorum dubium), ipê (Tabebuia sp),
jabuticaba (Myrciaria jaboticaba), pitanga (Eugenia uniflora), erva-mate (Ilex
paraguariensis),
areticum (Annona sp), araçá (Psidium cattleianum), pinheiro-
brasileiro (Araucária angustifólia), entre outras.
A diversidade de microclimas propicia diversidade de espécies vegetais de uso
agrícola tanto para temperaturas altas quanto para temperaturas baixas. Enquanto no
município de Palmas/PR temos o cultivo de maçã, que exige horas de frio, no outro
extremo do Território em Capanema/PR temos cultivo de abacaxi, que exige calor.
Segundo Fritz (2010), em alguns períodos, precisamos importar alimentos
hortícolas, devido a condições climáticas, porém concorda que: “[...] temos desde um
clima frio até o mais quente próximo do Rio Iguaçu que propicia culturas tropicais como
o abacaxi de Capanema [...]”. Sua opinião é que os microclimas podem ajudar na
estratégia agroecológica,
todavia,
precisam ser
mapeados,
para não
frustrar
investimentos. O mapeamento deve ser feito por propriedade, identificando os locais
propícios para cada cultura, o que concordamos, e exemplifica: “A 30 km de Beltrão
viabilizou cultivo de banana; conseguiu qualidade superior sem tratamento pós-colheita,
[e] sabor melhor por amadurecimento natural” (FRITZ, 2010). Argumenta ainda:
“Existem produtos na região que muitas vezes nem os técnicos notam que é de qualidade
superior, inclusive mamão [e] abacaxi com pouca acidez, [e] sabor muito agradável;
[temos] frutas de clima temperado e tropical” (FRITZ, 2010).
1.4 CONCLUSÕES PARCIAIS
A quantidade de trabalho necessário que apuramos no cultivo da soja orgânica, e
os preços insatisfatórios pagos pelas atuais empresas compradoras tornam extremamente
difícil uma territorialização generalizada da experiência de cultivo da soja orgânica no
Território Sudoeste do Paraná. Para o cultivo da soja orgânica, no sistema de plantio
direto consideramos ineficaz a tecnologia, no que se refere ao manejo das plantas
indesejáveis, que obrigatoriamente devem ser retiradas manualmente ou por enxada. No
sistema de cultivo orgânico, com o revolvimento do solo, evidenciamos a redução da
quantidade de dias trabalhados, porém os processos erosivos do solo são condenáveis, o
que motiva os agricultores do Território Sudoeste do Paraná a adotarem o sistema de
plantio direto com uso de herbicidas. Todavia, existe uma porcentagem de agricultores
que cultivam a soja convencional com revolvimento do solo. Para tais casos poderia
haver uma aceitação da tecnologia de produção da soja orgânica com o uso de
equipamento da limpa das entrelinhas, como no caso do cultivo da soja orgânica
apresentado no sistema agrícola de Lúcia Alaídes Patzlaff (1.2.4). No município de
Pérola do Oeste, o Censo agropecuário de 2006 detectou que, em 413 estabelecimentos,
acontece o cultivo com aração e gradagem do solo e o cultivo mínimo com somente uma
gradagem em 55 estabelecimentos. Sugerimos um estudo para avaliar se estas famílias
seguiriam o sistema de cultivo orgânico com revolvimento do solo ou se optariam pela
tecnologia do transgênico.
A APOP, como experiência local, não supre todas as atividades agrícolas
orgânicas do Território Sudoeste do Paraná. Por exemplo, o cultivo de maçã orgânica não
acontece nos sistemas agrícolas dos associados. Averiguações de Picinatto (2005) não
identificaram experiências significativas no cultivo de maçã orgânica no Território
Sudoeste do Paraná. Nos registros do Controle interno da APROSUDOESTE – Central
de Associações de Produtores Orgânicos do Sudoeste do Paraná, na qual a APOP está
inserida, não consta certificação para maçã orgânica. Na APROPAL, que congrega os
associados do município de Palmas, que é local com clima mais adequado para o cultivo
de macieiras, não identificamos experiência local suficiente para orientar a
territorialização da produção de maçã orgânica. Entre os associados da APROPAL,
reconhecemos apenas um associado – Dimorvan Antonio Santos63 – que produz em fase
63 Dimorvan Antonio Santos é graduado como Tecnólogo em Administração Rural e especializado em
Agricultura Biodinâmica pelo Instituto Elo de Economia Associativa. Atua pelo Instituto Maytenus em
diversos projetos. Como produtor associado à APROPAL é preconizador e pioneiro do cultivo de morango
orgânico no Sudoeste do Paraná.
experimental inicial, maçãs com tecnologia de base orgânica. O cultivo da maçã é citado
apenas como ilustrativo, pois outras espécies vegetais e animais não são contempladas
como experiências locais. Nesse caso, devido à diversidade de microclimas, defendemos
pesquisas específicas para um grande número de espécies vegetais e animais. Se tais
pesquisas não ocorrerem o potencial de expansão continuará restrito.
O exemplo de recuperação da nascente e da mata-ciliar da Sanga Barro Preto, ao
longo de cinco propriedades orgânicas dos associados da APOP, o consequente aumento
do nível da água – relatado pelos agricultores – e o seu uso para irrigação de pastagem
orgânica, podem mudar o pensamento, de que recuperar áreas de preservação permanente
levará as pequenas propriedades familiares à falência. Tal pensamento, por nós é
considerado equivocado, uma vez que, constatamos que a recuperação da flora nativa
culminou com o fortalecimento da atividade produção de leite orgânico.
Os recursos naturais que poderiam ser úteis para a territorialização da agricultura
orgânica são pouco reconhecidos pelos agricultores familiares; no caso do pó de basalto,
não constatamos indústrias no território que processem este material; outros adubos de
uso na agricultura orgânica como os fosfatos de rocha e sulfato de potássio são
importados. As plantas identificadas como de utilidade inseticida e apresentadas, durante
orientação técnica, aos agricultores orgânicos ainda são utilizadas apenas por iniciativa
dos agricultores, não havendo empresas, no Território, que produzam o insumo a partir
dos seus princípios ativos. Por exemplo, a árvore de Timbó, que tem efeitos inseticidas, é
utilizada apenas de modo artesanal, no entanto, ocorre a compra do óleo de Nin,
importado da Índia, com efeitos similares. As espécies nativas de frutas ainda não foram
melhoradas pela pesquisa para serem introduzidas nos sistemas agrícolas como atividade
agrícola econômica. Assim, é mais fácil vermos um jabuticabal ser derrubado para
implantar lavoura de soja transgênica do que uma lavoura na beirada de uma nascente ser
desativada para implantar um jabuticabal.
As atividades leite e horta no modelo orgânico foram apresentadas pelos
associados da APOP como de maior facilidade para execução e com maior potencial de
expansão no Território Sudoeste do Paraná, o que concordamos, porque o sistema
agrícola da família de Claudio Leonhardt apresentou-se sem dificuldades, principalmente
por vender diretamente ao consumidor, os seus produtos hortícolas, não dependendo de
intermediários. A satisfação da família também ocorre devido à aceitação da população
local, porque cumprem a função de produzir alimentos de qualidade. Também nos
apresentaram maior segurança quanto ao acerto e continuidade nos investimentos da
atividade horticultura orgânica.
Os demais sistemas agrícolas dos associados da APOP, para se manterem na
atividade produção de soja orgânica, dependem da intermediação para exportação, o que
lhes causa insegurança para investimentos na atividade.
A quantidade de estabelecimentos agropecuários a serem convertidos para
termos um Território Sudoeste do Paraná 100% orgânico é de 49.934 menos os 1.111 que
já são apresentados como orgânicos64 pelo IBGE (2006). Para planejarmos ações relativas
à mudança de modelo tecnológico, nos sistemas agrícolas da agricultura familiar na
Mesorregião Sudoeste do Paraná, consideraremos que existem aproximadamente, 39.532
estabelecimentos agropecuários, e destes 20.099 com menos de 10 ha. Propomos que, os
estabelecimentos agropecuários com menos de 10 ha, recebam orientação técnica que
possibilite a conversão para atividades agrícolas – horticultura, fruticultura, agrofloresta e
gado de leite piqueteado – em modelo orgânico semelhante ao sistema agrícola da família
de Claudio Leonhardt priorizando a alimentação da população do Território Sudoeste do
Paraná.
64 Porém os que são orgânicos também exigem assessoria técnica.
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INTRODUÇÃO Objetivando fundamentar a possibilidade