DEPARTAMENTO DE ESTUDOS SÓCIO-ECONÔMICOS – DESER SECRETARIA DE AGRICULTURA FAMILIAR/ MDA (Convênio MDA 112/2006) A CADEIA PRODUTIVA DA SOJA ORGÂNICA Curitiba, Novembro de 2008 1 DEPARTAMENTO DE ESTUDOS SÓCIO-ECONÔMICOS RURAIS Monitoramento da Conjuntura de Mercado das Principais Cadeias Produtivas Brasileiras. (CONVÊNIO MDA Nº. 112/2006) DIRETORIA EQUIPE INTERNA Presidente: Luis Pirin – STR – Francisco Beltrão - PR Alvori Cristo dos Santos Área: Produção Familiar e Mercado, Redes e Sistemas Amadeu Antonio Bonato Área: Políticas Públicas, Redes e Sistemas, Desenvolvimento Institucional. Denilson Pasin Área: Desenvolvimento Institucional. Ézio Gomes Área: Produção Familiar e Mercado. Gerson Ferreira Lima Área: Desenvolvimento Institucional. Ivone Pereira Ataíde Área: Desenvolvimento Institucional. João Carlos Sampaio Torrens Área: Políticas Públicas, Redes e Sistemas. Marcos Antonio de Oliveira Área: Produção Familiar e Mercado. Moema Hofstaetter Área: Desenvolvimento Institucional. Thiago de Angelis Área: Produção Familiar e Mercado. . Vice-Presidente: Cláudio Risson – Cresol Central/SC e RS 1º Secretária: Sandra Nespolo Bergamin – Fetraf - Sul/CUT 2º Secretário: Marcio Luiz Cassel – STR de Sarandi/RS 1ºTesoureiro: Genês da Fonseca Rosa - Cresol Chapecó/SC 2ºTesoureiro: Ademir Luiz Dallazen - UNICAFES/PR Membros Efetivos: Avelino Callegari - ASSESOAR/PR Valdir Zembruski - STR de Xanxerê e Região/SC Gervásio Plucinski - COORLAC/RS Augusto V. Pinto - STR de Mallet/PR Bernardo Vergapolem - Ecoaraucária/PR Severine Carmem Macedo - Fetraf Brasil/CUT Membros Suplentes: Rinaldo Segalin - Ascooper/SC Denise Knereck - SINTRAF de Laranjeiras do Sul/PR Adir Fiorese - Cresol-Baser/PR Conselho Fiscal Efetivo: Celso Prando - STR Sananduva/RS Manoel Cardozo - Sintraf Itaperuçu/PR Vera Lucia Cecchin Dapont - STR Marmeleiro/PR EQUIPE TÉCNICA: Thiago de Angelis, Marcos A. Oliveira DESER – Departamento de Estudos Sócio-econômicos Rurais Endereço: Rua Ubaldino do Amaral, 374 - Alto da Glória 80060-90 - Curitiba - PR Tel: (41) 3262-1842 - Fax: (41) 3362-3679 http://www.deser.org.br 2 A CADEIA PRODUTIVA DA SOJA ORGÂNICA 3 SUMÁRIO 1. Introdução ....................................................................................................................... 5 2. A Produção e o Mercado da Soja Convencional.......................................................... 6 2.1 - Produção mundial .......................................................................................................... 6 2.2 - Produção Brasileira........................................................................................................ 7 3. Características dos sistemas de produção de soja........................................................ 8 4. A importância da agricultura familiar para a produção de soja ............................... 9 5. Agricultura Orgânica ................................................................................................... 10 5.1 - Conjuntura Mundial ..................................................................................................... 12 5.2 - Conjuntura Nacional .................................................................................................... 12 5.3 - Produção Orgânica no Paraná...................................................................................... 14 6. A Soja Orgânica ............................................................................................................ 14 6.1 - A produção de Soja Orgânica no Paraná ..................................................................... 15 6.2 - Produtores italianos têm interesse em comprar soja orgânica do Paraná .................... 19 6.3 - O volume de área cultivada com soja orgânica no Rio Grande do Sul será ampliado 19 6.4 - Certificação .................................................................................................................. 20 7. O Setor Industrial e sua Concentração....................................................................... 22 8. Contatos ......................................................................................................................... 27 9. Referências Bibliográficas............................................................................................ 32 4 1. Introdução A soja pertence a família das leguminosas, originária da China, é atualmente cultivada em numerosos países do mundo, servindo de alimento para milhões de pessoas, sobretudo na Ásia oriental e, além disso, constituem matéria prima para um grande número de indústrias. Cultivada principalmente nas regiões de clima temperado, a soja possui grãos de coloração variável, que vai desde o branco amarelado até o roxo-escuro. De algumas variedades extraem-se óleos comestíveis de sabor agradável e boas qualidades dietéticas(baixa proporção de colesterol). Entre outros produtos alimentícios dela derivados destacam-se a margarina e a farinha, de elevado teor protéico. Contudo, a soja entra também na fabricação de sabão, velas, inceticidas, desinfetantes, adubo e ração para animais. O Brasil ocupa a segunda colocação entre os produtores mundiais de soja, vindo após os Estados Unidos. As mais importantes áreas de cultivo localizam-se nos Estados do Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Paraná. Cultivada livre de produtos químicos como herbicidas, fungicidas e inseticidas, a soja orgânica é um bom investimento tanto para grandes produtores, como para pequenos: a soja orgânica é comercializada, em média, a U$250 a tonelada, enquanto a soja convencional fica em torno de U$175 a tonelada. O cultivo de soja para consumo humano é uma alternativa para pequenos agricultores. O sistema orgânico proporciona ainda inúmeros benefícios para o meio ambiente. A soja é um vegetal rico em proteínas, podendo substituir a carne na alimentação, e ao mesmo tempo assegurar uma dieta livre de colesterol e gordura saturada. Isso, associado à prática de exercícios físicos regulares, ajuda a controlar a obesidade e reduz o risco de muitas doenças, como complicações cardiovasculares, cânceres, osteoporose e diabetes. A soja orgânica, além de reter todas as propriedades da soja comum, acumula ainda o benefício claro dos alimentos orgânicos. É mais sadia, é livre de agrotóxicos, não contamina o meio ambiente e estimula a inclusão social, incentivando a produção familiar e viabilizando uma receita mais justa ao pequeno produtor. 5 2. A Produção e o Mercado da Soja Convencional 2.1 - Produção mundial A produção mundial de soja atingiu na safra 2006/07 236,045 milhões de toneladas. Os principais países produtores são os Estados Unidos com 86,77 milhões, o Brasil com 59,0 milhões e a Argentina com mais 47,2 milhões de toneladas, como demonstra a tabela 1 abaixo. Tabela 1 - Produção Mundial de Soja Convencional, (Em 1.000 toneladas) País 2002/2003 2003/2004 2004/2005 2005/2006 2006/2007 Part. (%) Argentina 35.500 33.000 39.000 40.500 47,200 20,00 Brasil 52.000 51.000 53.000 57.000 59.000 25,00 EUA 75.010 66.778 85.013 83.368 86.770 36,76 196.774 186.512 215.742 219.933 233.495 100,00 Mundo Fonte: USDA. Elaboração: Deser. Ainda segundo a tabela 1, o levantamento do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) é de que a participação da produção de soja norte-americana na produção mundial seja de 36,76%, seguida pela brasileira com participação de 25,00%, além da Argentina, com 20,00%. Ou seja, esses três produtores (EUA, Brasil e Argentina) juntos detêm cerca de 82% da produção mundial de soja. É importante analisar, ainda segundo os dados do USDA, a estimativa de produção de soja nos Estados Unidos para a safra 2007/2008, que demonstram uma queda de cerca de 18 % na produção da oleaginosa, ou seja, uma produção de 86,77 milhões de toneladas na safra que acabou de terminar (2006/2007), para cerca de 71,27 milhões de toneladas na próxima safra (2007/2008). Isso se deve ao fato do aumento da área e da produção de milho nos Estados Unidos, devido as políticas do governo norte-americano de estimulo ao aumento da quantidade de álcool misturado a gasolina. Outro elemento importante para entender as tendências na produção de soja no mundo é o comportamento da área plantada nesses países. De acordo com o Usda, a área plantada nos Estados Unidos atingiu nessa safra 30,19 milhões de hectares, apenas 3% superior à área colhida na safra 2000/2001. No Brasil a área aumentou 48,5% no mesmo período, atingindo 20,7 milhões de hectares na atual safra e, na Argentina, o aumento foi de 52,8%, com uma área de 15,9 milhões de hectares. 6 Tabela 2 – Área Colhida de Soja Convencional no Mundo, (Em 1.000 hectares) País 2002/2003 2003/2004 2004/2005 2005/2006 2006/2007 Argentina 12.600 14.000 14.400 15.200 15.900 Brasil 18.448 21.520 22.800 22.229 20.700 EUA 29.339 29.330 29.930 28.834 30.190 Mundo 82.309 88.219 93.059 92.541 93.925 Fonte: USDA. Elaboração: Deser. Como veremos adiante, esse é um elemento importante para entender os ajustamentos e os movimentos que atualmente estão se colocando para o mercado internacional de soja. 2.2 - Produção Brasileira Em 2006, segundo o IBGE, a produção de soja no Brasil chegou a 52,4 milhões de toneladas, uma variação positiva de cerca de 60% em relação ao ano de 2000. O Centro-Oeste é a principal região produtora, com quase 50% de participação no total produzido no país, seguida pela região Sul com 33,7% de participação. As demais regiões não passam de 17% de participação na produção Nacional. Tabela 3 - Produção de Soja no Brasil, (Em toneladas) Localidade 2000 2003 Part. (%) 2005 2006 Var. (%) 06/00 Centro-Oeste 15.446.445 23.495.779 28.652.564 25.911.228 49,39 67,75 Sul 12.496.969 21.301.418 12.544.106 17.721.001 33,78 41,80 Sudeste 2.628.939 4.044.384 4.640.903 4.102.075 7,82 56,04 Nordeste 2.063.859 2.525.363 3.959.940 3.467.918 6,61 68,03 Norte 184.614 552.496 1.384.561 1.262.418 2,41 583,81 Brasil 32.820.826 51.919.440 51.182.074 52.464.640 100,00 59,85 Fonte: IBGE/PAM. Elaboração: Deser. É importante analisar a região Norte que, mesmo com uma participação na produção nacional pequena, cerca de 2,4%, teve um aumento de 583,8% em sua produção, de 2000 para 2006. Obtendo na última safra uma produção de 1,2 milhões de toneladas, contra 184 mil toneladas produzidas em 2000. A região sul participa com 33,7% da produção nacional, atingindo em 2006, segundo a tabela 3, uma produção de mais de 17 milhões de toneladas. Se analisarmos o período histórico, vemos que entre 2000 e 2006 a região sul teve um aumento de mais de 41% em sua produção, nesse período. 7 O Sudeste, que teve uma participação de 7,8% na produção de soja em 2006, obteve no período entre 2000 a 2006 uma variação positiva na produção de pouco mais de 56%, tendo como seu maior produtor o estado de Minas Gerais. O Nordeste participa com 6,61% na produção total de soja no Brasil, conseguindo um aumento significante na produção no período entre 2000 e 2006, cerca de 68%. Tabela 4 - Produção de Soja nos principais Estados brasileiros, (Em toneladas) Ano Estado 2000 2003 2005 2006 Mato Grosso 8.774.470 12.965.983 17.761.444 15.594.221 Paraná 7.188.386 11.009.946 9.492.153 9.362.901 Rio Grande do Sul 4.783.895 9.579.297 2.444.540 7.559.291 Goiás 4.092.934 6.319.213 6.983.860 6.017.719 Mato Grosso do Sul 2.486.120 4.090.892 3.718.514 4.153.542 Minas Gerais 1.438.829 2.335.446 2.937.243 2.453.975 Bahia 1.508.115 1.555.500 2.401.872 1.991.400 São Paulo 1.190.110 1.708.938 1.703.660 1.648.100 Maranhão 454.781 660.078 996.909 931.142 Fonte: IBGE/PAM. Elaboração: Deser. O Mato Grosso é o estado brasileiro onde se obteve a maior produção de soja em 2006, cerca 15,5 milhões de toneladas. Em seguida vem o estado do Paraná, com uma produção de 9,3 milhões de toneladas, seguido pelo Rio Grande do Sul com 7,5 milhões de toneladas. É importante destacar que apenas o Rio Grande do Sul e o Mato Grosso do Sul não registraram queda na produção entre 2005 e 2006. Os outros importantes estados produtores de soja no Brasil registraram quedas abruptas em suas produções. Isso se deveu ao fato de os preços da soja estarem em queda nesse período, o que fez com que os produtores migrassem para outras culturas, ou mesmo deixassem de plantar soja. 3. Características dos sistemas de produção de soja Os sistemas de produção de soja predominantes no Brasil e no Paraná são os tradicionais do ponto de vista da utilização de insumos da revolução verde, desde sementes, adubos, herbicidas e praguicidas, quanto da utilização de uma quantidade relativamente grande de máquinas e implementos agrícolas, tanto no que diz respeitos ao plantio, trados culturais e colheita. 8 Mesmo possuindo dois sistemas típicos, o plantio convencional e o plantio direto, onde a semeadura é feita sob a palhada da cultura de inverno (trigo, azevém ou aveia), os custo de produção, de acordo com a Seab/Deral, espelham a realidade da dependência do agricultor à aquisição de insumos. De acordo com este órgão, os custos fixos de produção estão ao redor dos 35% do custo total, com os 65% restante sendo preenchidos pelos custos variáveis. Do custo total, 30% vem só da utilização de insumos (sementes, adubos, herbicidas e praguicidas) e 14% vem apenas dos gastos com combustíveis, perfazendo um total de praticamente 45% do custo total apenas nesses itens. Se somarmos a este os custos fixos com depreciação das máquinas e equipamentos, que chegam a 14% do custo total, tem-se um percentual de aproximadamente 60% dos custos totais da produção oriundos ou dos insumos ou da utilização e manutenção de equipamentos. Por outro lado, o fato dessa cultura exigir um alto investimento em equipamentos e mesmo em insumos que tradicionalmente não são encontrados dentro da propriedade, que necessitam de recursos monetários para serem adquiridos, faz com que os agricultores sejam levados à buscar esses recursos, via crédito, nas agências oficias bancárias. Além disso, estes sistemas utilizam muitos agroquímicos da matriz da segunda revolução industrial (o petróleo), que são elementos poluentes do meio-ambiente. Neste sentido, podem solapar de forma considerável o ambiente, comprometendo tanto sua produção, quanto a qualidade do ar, da água e do solo. 4. A importância da agricultura familiar para a produção de soja Embora a produção da oleaginosa exija todos esses investimentos e apresente essas características, na Região Sul do país existem 241,9 mil propriedades que produzem soja, das quais 213 mil, ou 88%, são familiares. Do valor bruto da produção, pouco mais de 31% são oriundos de propriedades familiares. No Paraná, de acordo com o Censo Agropecuário 1995/96, existem 69,5 mil propriedades que cultivavam soja, das quais 59 mil, ou 86%, são familiares. Em relação à produção, há uma melhor distribuição, com este tipo de agricultor sendo responsável por quase metade da produção estadual da oleaginosa (48% da produção total) contra 51% das propriedades patronais. 9 Verifica-se, assim, a relativa importância que tem esta cultura para o agricultor familiar do Sul e do Estado do Paraná. Na realidade, este tipo de agricultor trabalha com a combinação de uma diversidade de cultivos maior que o das propriedades tradicionais. 5. Agricultura Orgânica Atualmente verificamos um aumento significativo no consumo brasileiro e mundial de produtos orgânicos. Existem vários motivos que levam a isso. O fato de as pessoas estarem se preocupando mais com a saúde, mudando radicalmente seus hábitos alimentares; além do fato de uma mudança de consciência de consumo, ou seja, as pessoas estão preferindo consumir produtos de empresas que respeitam o meio ambiente e que prezem o desenvolvimento sustentável. Atualmente, no mundo todo ocorre um debate amplo sobre as causas e conseqüências do aquecimento global e outros atributos da Agroecologia estão sem valorizados, como, por exemplo, o menor impacto ao meio ambiente e também o seu lado social, devido à geração de empregos, uma vez que esse sistema é menos mecanizado. A Agricultura Orgânica no Brasil tem apresentado uma taxa de crescimento médio anual na casa dos 25%. São vários os fatores que tem contribuído para esse crescimento, como por exemplo, o fortalecimento da consciência do consumidor; o interesse da imprensa (claro que à partir da importância que o consumidor começa a dar para esse produtos); o aumento da industrialização dos produtos orgânicos; a oferta de produtos orgânicos nas grandes redes de supermercados (devido ao interesse do consumidor em cobrar desses mercados que tais produtos tenham oferta);. São três os pilares que sustentam a Agricultura Orgânica: econômico, ambiental e social. O objetivo é desenvolver uma atividade economicamente viável, ambientalmente correta e socialmente justa. O aspecto econômico é importante para garantir renda ao homem do campo e pode ser promovido por meio da diversificação e da agregação de valor. O segundo fator é o da inclusão social, pois é um sistema pouco mecanizado e, por isso, demandador demão de obra. O terceiro aspecto é o ambiental, tão em voga por causa da problemática causada pelo aquecimento global, no entanto, muitas vezes é ignorado, em favor do aspecto econômico. Na Agroecologia, o meio ambiente é respeitado, pois se tem cuidados especiais com a manutenção da biodiversidade e também no uso do solo e da água. Modernamente, alguns 10 estudiosos consideram ainda o aspecto Cultural, que é percebido por meio do saber acumulado por gerações na prática da Agricultura. Enfim, é necessário que haja um equilíbrio entre todos esses aspectos, visando garantir a sustentabilidade da Agricultura. Além disso, é necessária uma política que de apoio a esse setor, pois não adianta apenas boa vontade dos consumidores e produtores, pois as grandes empresas transnacionais dominam o mercado agrícola brasileiro, e conseguem ofertar o produto tradicional a um preço muito baixo do que os produtos orgânicos. No ano de 2008, as atividades de fomento à agricultura orgânica beneficiaram diretamente mais de 13 mil produtores, com ações voltadas ao uso de insumos e processos apropriados para produção dos orgânicos. O projeto Bancos Comunitários de Sementes de Adubos Verdes foi o carro-chefe do setor. Criado em 2007, já rendeu 16 toneladas de sementes, distribuídas a mais de mil agricultores do Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e Pará. De agosto de 2006 a setembro de 2008, o Brasil exportou um total de 37 mil toneladas em produtos orgânicos, que equivale a uma receita de US$ 26,7 milhões. Desse montante, destacam-se produtos como a soja orgânica, com mais de 8 mil toneladas em vendas externas, o açúcar, com quatro mil toneladas, e o café, com 209 toneladas. Juntos, registraram US$ 9,5 milhões em exportação. Os principais países de destino dos produtos foram Holanda, Suécia, Estados Unidos, Inglaterra e França. Pró-Orgânico O programa de incentivo à produção orgânica, do Ministério da Agricultura, está fundamentado em princípios agroecológicos que têm a preservação da vida como elemento básico para os sistemas produtivos. Ele é reconhecido pelas vantagens ambientais e benefícios para a saúde humana. O grande avanço do programa ocorreu com a publicação do Decreto 6.323/2007, que regulamenta os alimentos orgânicos e vai permitir a certificação dos produtos. O Pró-Orgânico envolve ações ligadas à educação, fomento ao uso de produtos e processos apropriados, promoção do consumo responsável e organização da rede produtiva. Nove estados da federação e o Distrito Federal já estão incorporados: Pará, Acre, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. 11 5.1 - Conjuntura Mundial No âmbito mundial, o mercado de orgânicos movimenta cerca de US$ 40 bilhões de dólares. Estima-se que a área sob manejo orgânico no mundo é de 26,5 milhões de hectares. Alguns países destacam-se na produção e comercialização de produtos orgânicos, são eles: os Estados Unidos, a Alemanha, o Japão e o Reino Unido. Aparentemente a Oceania se destaca no cenário mundial, no entanto a sua importância é relativa. Ocorre que, aquele continente possui extensas áreas de pastagens sob manejo orgânico, especialmente na Austrália. É o caso também da Argentina e mais recentemente do Brasil que passou a considerar como orgânicas algumas áreas de pastagens da região centrooeste e de extrativismo da região norte do País. 5.2 - Conjuntura Nacional O setor de produtos orgânicos no Brasil tem crescido a uma taxa de 25% ao ano. Em 2006, segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA -, o Brasil registrava em torno de 20.000 produtores orgânicos e cerca de 6,5 milhões de hectares de área cultivada. Desta área, 5,7 milhões de hectares são ocupados com explorações extrativistas. O Brasil ocupa a quinta posição (em 2004) entre os países produtores e exporta cerca de 70% do que produz. No entanto, a participação de produtos orgânicos na pauta do agronegócio e da balança comercial brasileira ainda é pouco significativa. 12 A região centro-oeste destaca-se por possuir áreas de pastagens sob manejo orgânico. Em termos de produção, o principal Estado produtor é São Paulo, que produz frutas e hortaliças, mas também cana-de-açúcar, que é transformada em açúcar mascavo e destinado ao mercado externo. O nordeste brasileiro se destaca na produção de frutas tropicais irrigadas, pequenos animais e mel. Na região norte predominam os sistemas agro-florestais e o extrativismo de palmito e castanha. Quando o critério analisado é o número de produtores por região, destaca-se o Sul do país, onde o cultivo orgânico é realizado em pequenas propriedades, de caráter familiar e que produzem uma grande diversidade de produtos, especialmente frutas e hortaliças. Nesta região foi criado um sistema de certificação participativa chamado de REDE ECOVIDA, de baixo custo e que em nível de região e aceito e dispõe de credibilidade. 13 5.3 - Produção Orgânica no Paraná No Paraná, a Agricultura Orgânica é desenvolvida predominantemente em pequenas propriedades, de caráter familiar. No âmbito nacional, o Paraná se destaca em número de produtores. São cerca de 4.800 agricultores orgânicos. Esta característica é em razão do grande número de assentamentos rurais, reservas indígenas e comunidades de quilombolas, que buscam aplicar os preceitos da Agroecologia. Fonte: SEAB. Outra característica dessa atividade no Paraná é o nível de organização, pois existem inúmeras ONGs que atuam nesta reunidas em um Fórum Estadual. Além disso, recentemente foi instituída a Câmara Setorial de Agricultura Orgânica do Paraná que, de forma paritária, congrega entidades governamentais e da sociedade civil organizada, com o objetivo comum de discutir e propor soluções aos gargalos que dificultam o desenvolvimento da Agricultura Orgânica no Estado. 6. A Soja Orgânica Apesar do maior custo de produção se comparada à soja convencional, a produção de soja orgânica vem crescendo a cada ano. Praticamente, toda a produção brasileira é exportada para a Europa, devido ao maior poder aquisitivo da sua população e a falta da cultura nacional em consumir produtos orgânicos. A soja orgânica ainda não é uma commodity, pois não segue as normas de comercialização da Bolsa de Chicago. Por se tratar de um produto com valor agregado e possuir uma boa demanda, seu preço tem se mantido em uma média de até 50% maior que o 14 da soja convencional, o que gera bons resultados aos produtores, apesar do custo de produção ser cerca de 10% maior quando comparado ao cultivo tradicional. A soja, tanto convencional como orgânica, é rica em proteínas, tornando-se muitas vezes uma alternativa a outros alimentos, proporcionando uma alimentação isenta de colesterol e gordura saturada. Assim, podem ser controladas: a obesidade, a incidência de acidentes cardiovasculares, câncer, osteoporose e diabetes. Além dessas características, a soja orgânica apresenta a vantagem de ser cultivada sem agrotóxicos, sendo, portanto, um produto mais saudável. Atualmente, os principais estados brasileiros produtores de soja orgânica são Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Goiás. Para ser considerado orgânico, o produto precisa do selo de garantia emitido por uma empresa certificadora. No Brasil, as principais certificadoras são o Instituto Biodinâmico, a Associação de Agricultura Orgânica e o Ecocert. A produção de soja orgânica é geralmente praticada por pequenos produtores. Contudo esse é um setor que está cada vez mais atrativo, aumentando o nível tecnológico de cultivo empregado. O produtor interessado em cultivar a soja orgânica deve antes procurar um engenheiro agrônomo, afim de que este o oriente quanto aos procedimentos a serem seguidos para o seu plantio, pois, para cultivar a soja orgânica, é preciso seguir algumas normas, ser certificada por órgãos competentes, pois do contrário, não pode ser vendida como um produto orgânico. 6.1 - A produção de Soja Orgânica no Paraná O estado do Paraná é o segundo maior produtor de soja do Brasil, com uma produção estimada, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento – Conab, de 10,6 milhões de toneladas. Contudo, a Secretaria de Agricultura do Paraná estima uma produção em torno de 9,5 milhões de toneladas de soja. Esse baixo volume é conseqüência da seca sofrida em algumas regiões produtoras de soja, regiões essas que também são importantes para a produção de soja orgânica, como é a região do Sudoeste do Paraná. Já em relação à produção de soja orgânica, o Paraná é um dos principais Estados produtores do Brasil. Segundo a Secretaria de Agricultura do Paraná - SEAB, este Estado teve na safra de 2003/04 uma produção de 9.295 toneladas de soja orgânica. Esse volume vem de uma área de 4.523 hectares, envolvendo 625 agricultores, ver Tabela 5. Segundo a Tabela 6, com todas as culturas orgânicas produzidas no Estado do Paraná, a soja ocupa a maior área de produção, com 4.523 hectares. Essa área coloca o Estado do Paraná em primeiro lugar em área dedicada a produção de soja orgânica, pois em termo de 15 Brasil estimasse que a área de soja orgânica no ano de 2004 foi 9.000 hectares. Contudo, a produção de hortaliças é a que mais ocupa mão de obra pela intensidade de sua produção. Tabela 5: Produção de soja orgânica por Núcleo Regional no PARANÁ na Safra 2003/04 Núcleo Regional Área Produção (hectares) (toneladas) Nº de Produtores Apucarana 82 209 58 Campo Mourão 73 198 5 Cascavel 277 540 13 Cornélio Procópio 273 505 15 60 150 50 1.462 2.489 326 Guarapuava 37 80 3 Irati 40 84 10 148 373 4 7 17 6 Londrina 300 720 9 Maringá - - - Paranavaí - - - Paranaguá - - - Pato Branco 710 1.490 15 Ponta Grossa 713 1.780 47 Toledo 301 583 53 35 67 2 5 10 9 4.523 9.295 625 Curitiba Francisco Beltrão Ivaiporã Jacarezinho Umuarama União da Vitória Total Fonte: SEAB/DERAL; EMATER-PR Quatro das dezesseis regiões produtoras produzem cerca de 70% da produção de soja orgânica. As regionais, envolvendo os municípios da região de Francisco Beltrão, Ponta Grossa, Pato Branco e Londrina são as que têm as maiores produções com 6.479 toneladas de soja orgânica e com 387 agricultores envolvidos. Só a regional de Francisco Beltrão envolve 326 agricultores. A produção de soja orgânica do Estado do Paraná vem em sua maioria da agricultura familiar. As duas regionais paranaenses que têm a maior produção, que são as regionais de Francisco Beltrão e Ponta Grossa com 2.489 e 1.780 toneladas de soja orgânica. Possuem 16 uma média de 4,4 e 15 hectares de soja orgânica por unidade agrícola. Já as regionais de Pato Branco e Londrina que produzem 1.490 e 720 toneladas de soja orgânica, possuem uma média de 47 e 33 hectares de soja orgânica por unidade agrícola. Isso demonstra que a produção de soja orgânica está sendo, principalmente, produzida em regiões onde a agricultura familiar tem um grande peso, que é o caso do Sudoeste paranaense. Mas, também, que no Estado do Paraná a produção de soja orgânica é em sua grande maioria produzida em pequenas e médias áreas. Na regional de Francisco Beltrão, que é maior produtora de soja orgânica do Paraná, o município que tem a maior área dedicada a essa produção é o município de Capanema. Em Capanema estavam envolvidos na produção na safra de 2003/04, segundo a SEAB/Deral, 142 agricultores em uma área de 648 hectares e uma produção de aproximadamente 1.000 toneladas. Segundo o Gráfico 1, o número de agricultores que são produtores orgânicos tem aumentado constantemente. Entre a safra de 1996/97 e 2003/04 o número de agricultores passou de 470 para 4.122. Por sua grande importância na produção de soja orgânica, em Capanema estão também situadas as quatro principais empresas (Gebana, Agrorganica, Tozan e Gama) que comercializam e exportam a soja orgânica. As certificações realizadas na região são feitas principalmente pela Ecocert e IMO. Apesar da soja orgânica ter no Estado do Paraná uma importante participação, ela corresponde hoje a somente cerca de 0,1% da área destinada à produção de soja que está em aproximadamente 4 milhões de hectares. 17 Tabela 6: - Agricultura Orgânica no Estado do Paraná na Safra 2003/04* SAFRA 2003/04 PRODUTOS ÁREA PRODUÇÃO (hectares) (toneladas) Nº DE PRODUTORES PRODUÇÃO VEGETAL 1.048 12.244 962 FRUTAS 994 7.752 582 CAFÉ 983 473 181 MANDIOCA 401 8.721 151 PLANTAS MEDICINAIS 269 419 182 ERVA MATE 248 663 51 FUMO 38 55 22 GIRASSOL 18 30 3 ALGODÃO 15 30 8 4.523 9.295 625 MILHO 812 2.848 374 ARROZ 522 3.072 34 FEIJÃO 521 674 298 TRIGO 300 494 75 11.252 66.256 3.789 1.076 2.111 137 638 53 17 5 21 5 AVES 31.147 65 38 MEL 23.115 648 136 HORTALIÇAS SOJA Sub- TOTAL PRODUÇÃO ANIMAL LEITE SUÍNOS PISCICULTURA Sub-TOTAL 333 TOTAL Fonte:SEAB/DERAL; EMATER/PR 4.122 *Não estão disponíveis os dados atualizados. 18 6.2 - Produtores italianos têm interesse em comprar soja orgânica do Paraná Segundo a Agência Estadual de Notícias do Paraná, os consórcios e cooperativas de produtores que produzem queijo e produtos orgânicos na região da Emilia Romagna, na Itália, manifestaram ao secretário da Agricultura e do Abastecimento do Estado do Paraná, Valter Bianchini, o interesse em comprar soja orgânica do Paraná. Inicialmente eles garantem a compra de toda a soja orgânica produzida no Estado, cujo volume está em torno de 10 mil toneladas anuais. Essa manifestação aconteceu em Módena, onde Bianchini participa do Congresso Mundial Sul Biológico promovido pela Federação Internacional de Movimentos de Agricultura Orgânica (Ifoam). Ele foi procurado pelos produtores locais depois de fazer uma palestra sobre a prática da Agricultura Orgânica no Paraná. Segundo Bianchini, o mercado europeu está aderindo cada vez mais à compra de soja orgânica, o que está impulsionando os preços do grão com reflexos no mercado interno. Para se ter uma idéia, de 2006 para 2007, os preços da soja orgânica, pagos ao produtor subiram em média 41%, passando de R$ 525,37 para R$ 743,14 a tonelada, informou o setor de estatística do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agriculura. Para este ano, a cotação da soja orgânica já está acima de R$ 900,00 a tonelada. Na Europa, a soja orgânica está cotada a 50% acima do valor da soja convencional. “Ela entra na ração de animais, cujo leite é industrializado pelas cooperativas e os consórcios de indústrias que produzem os famosos queijos da região do Parma”, disse Bianchini. Segundo o secretário, se os produtores paranaenses dobrarem a produção de soja orgânica, terão comercialização garantida só na Itália. Bianchini lembrou que foi firmado intercâmbio técnico para treinamento de dirigentes das cooperativas da Agricultura Familiar e de empreendedores da agroindústria familiar para capacitar os agricultores familiares paranaenses. O convênio foi feito com o apoio do SebraePR e visa a agregação de valor dos produtos agroindustriais do Paraná. 6.3 - O volume de área cultivada com soja orgânica no Rio Grande do Sul será ampliado Na safra passada eram cem hectares, devendo passar neste ano para mais de duzentos. O produto será cultivado nos Municípios de Santo Cristo, Porto Mauá, Giruá, Cândido Godói e Campina das Missões. No mercado nacional para quem produz soja orgânico sem uso de 19 agrotóxicos há um ano, a cotação do produto tem acréscimo de 13 por cento. Para exportações, após dois anos, o incremento varia entre 25 a 35 por cento. Isso significa que no caso de venda de soja para fora do País, a cotação do produto orgânico hoje poderia ficar entre 50 e 55 reais a saca de sessenta quilos. 6.4 - Certificação Para ser considerado orgânico, o alimento deve conter um selo de garantia emitido por uma empresa certificadora. Esse selo indica que o produto foi cultivado dentro dos mais rigorosos critérios de controle de qualidade. Um produto certificado permite identificar a região onde foi produzido, quais os produtores envolvidos na produção e saber se foram seguidas as diretrizes internacionais de certificação orgânica. Normalmente, o custo da certificação é pago pelo próprio produtor. Ao optar pelo sistema orgânico, o produtor deve procurar orientação junto à assistência técnica especializada ou à própria entidade certificadora. Produto certificado é garantia de qualidade para o consumidor e garantia de remuneração diferenciada para o produtor. Veja abaixo, algumas empresas que trabalham com soja orgânica: Certificadoras • Instituto Biodinâmico: é o principal certificador brasileiro e o único credenciado internacionalmente pela Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica (Internacional Federation of Organic Agriculture Movements - IFPOAM) e pelo DAP na Alemanha (entidade que credencia as entidades certificadoras que operam com o sistema ISO 65). • Associação de Agricultura Orgânica: Com sede em São Paulo, foi fundada em maio de 1989 por um grupo de engenheiros agrônomos, produtores, jornalistas e pesquisadores que já praticavam a agricultura orgânica. Organiza feira do produtor e está começando a trabalhar com certificação. Assistência técnica e comercialização: No Paraná: 20 • Agrorgânica Ltda. (certificado pelo IBD) Av. Dambros e Piva, 848 - Centro - Marmeleiro / Paraná - CEP 85615-000 • Gama Comercial e Importadora R: Rangel Pestana, 645 - Jardim Alvorada. CEP 86062-020 Londrina-PR. Fone: (43) 3315-1200 • Naturalle Agromercantil Ltda. (certificado pelo IBD) Praça Mal. Floriano Peixoto, 42 - sala 41 - Ed. Cathedral Center - Centro Ponta Grossa / Paraná - CEP 84010-680 • Tozan Alimentos Orgânicos Ltda Rod. Br 376 Km 504, Distrito Industrial Ponta Grossa - Pr Cep: 84045-980 Fone:42-3228-1446 Contato: [email protected], [email protected] • Emater -PR: Agricultores paranaenses que se interessarem pela agricultura orgânica podem obter algumas informações sobre o sistema de cultivo com seus técnicos. 21 7. O Setor Industrial e sua Concentração O processo de industrialização da soja inicia-se com o esmagamento e a extração do óleo. Após passar por processos de secagem, para retirada de umidade e limpeza, o grão é quebrado e prensado em pequenas lâminas, que, transformadas em massa, são lavadas com solvente derivado de petróleo (hexano). O produto fica impregnado com óleo e posteriormente é feita a separação, por evaporação, passando ainda por um sistema de retirada de goma (degomagem) para alcançar o estágio de óleo bruto. A massa restante, após secagem e tostagem, resulta no farelo. A goma tanto pode ser utilizada para a produção de lecitina de soja quanto ser adicionada ao farelo. Este é o método usado por praticamente todas as unidades de esmagamento em atividade atualmente no Brasil, que nos anos 70 trocou a técnica de prensagem pelo uso do solvente. Algumas fábricas utilizam um extrusor para aumentar a densidade da massa e facilitar a extração do óleo. No início do processo industrial pode ser feita a retirada da casca do grão, resultando num farelo de maior quantidade de proteína (hi-pro). O destino do óleo é o refino, e o farelo vai para a alimentação animal, diretamente ou através das misturas feitas pelas fábricas de ração. O aproveitamento médio do grão é de 79% de farelo e 19,8% de óleo bruto. A operação de esmagamento, a retirada do óleo e seu posterior refino merecem as maiores atenções quando se fala do complexo soja, seja porque a maior parte do produto é farelo ou porque a maior parte do óleo destina-se ao consumo doméstico de óleo refinado e à exportação de óleo bruto. A cadeia não pára nestes dois produtos. O óleo segue seu caminho, sendo transformado em vários produtos, dos quais a margarina se coloca em maior destaque, embora outros subprodutos de uso alimentar e químico façam parte da seqüência de aproveitamento da soja. De acordo com o BNDES, em 1997 a capacidade instalada da indústria esmagadora era da ordem de 118 mil toneladas/dia. Em tese, seria capaz de processar uma safra de 35,4 milhões de toneladas, considerando-se o funcionamento em capacidade plena durante 300 dias no ano, o que pressupõe um fornecimento de matéria-prima firme e constante durante o ano todo. Em termos de soja, a realidade não é esta. Embora o volume esmagado tenha crescido 5% ao ano, nos últimos 10 anos, este acréscimo acompanhou a produção nacional. Como 22 conseqüência, a taxa de processamento permanece, em média, em torno de 76% da safra brasileira. A posição brasileira no esmagamento mundial permaneceu nos últimos três anos acima da sua média dos últimos 10 anos (16,5%). Em termos mundiais, os Estados Unidos vêm diminuindo sua participação no esmagamento, pois detinha 37% em 1988 e caiu para 33,7% em 1997, enquanto a Argentina aumentou de 6,4% para 10,2% no mesmo período. Boa parte das esmagadoras funciona com capacidade ociosa acima de 40%, iniciando em março e parando em setembro, período de escoamento da safra, quando cerca de 79% de toda a soja esmagada são processados. O restante, processado nos outros meses, pode originar-se de três situações: soja precoce no mês de fevereiro (4% a 5% do esmagamento total), drawback e estoques. O motivo básico para o superdimensionamento das plantas industriais é a concorrência pela compra da matéria-prima no início da safra e o escoamento a preço equivalente, compatível com o preço de compra, já que a tendência dos preços é declinante do início para o meio da safra. Além disso, a maioria das plantas são conversíveis para o processamento de outras oleaginosas, não demandando maiores modificações de fluxo para esmagar soja, milho ou girassol. A indústria do esmagamento da soja é bastante concentrada, tanto em termos de empresas quanto de localização. Quanto à localização, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo respondem por 66% da capacidade instalada de esmagamento de oleaginosas, sendo que o Paraná, sozinho, detém 30%. Os mesmos três estados respondem por 66% da capacidade instalada de refino e São Paulo sozinho detêm 37% do total. Em termos empresariais, houve mudanças importantes no panorama do setor nos últimos três anos. No esmagamento, aumentou o domínio do setor por parte das trading companies. Empresas de alimentos como Anderson Clayton e Sadia desfizeram-se de suas esmagadoras, transferindo-as a empresas especializadas em commodities, respectivamente Coinbra e ADM. O Grupo Hering foi outro que resolveu se concentrar no seu negócio principal, vendendo a Ceval ao Grupo Bunge y Borg, da Argentina, que disputou esta compra com a Cargill. Anteriormente, através da Santista, o Grupo Bunge y Borg incorporou a Incobrasa, maior esmagadora do Rio Grande do Sul e quarta maior do país, com 5% do mercado nacional. Após adquirir a Ceval, no início de 1998, transferiu para ela toda a área de soja da 23 Santista (aí incluída a Incobrasa), concentrando, então, 25% de toda a capacidade de esmagamento brasileira. Há três anos sua participação era de apenas 6%. Feita a reestruturação, o grupo colocou à venda todo o negócio de alimentos, no intuito de concentrar sua atuação no setor de commodities e aproveitar a escala conseguida, pois a Ceval passou a deter 15% da capacidade mundial de esmagamento de soja. De acordo com o BNDES, nos últimos anos praticamente não houve mudanças no número de empresas que atuam no processamento, mas a concentração aumentou. A participação das quatro maiores indústrias esmagadoras subiu de 31% para 43% no período 1995/97, sendo que a participação das tradings, que era de 26%, subiu para 43% da capacidade nominal. Embora a capacidade instalada de esmagamento brasileira tenha aumentado 1,3% no período, passando de 116.275 t/dia para 117.875 t/dia, o potencial das esmagadoras em funcionamento diminuiu de 106.695 t/dia para 103.235 t/dia, em função da paralisação de algumas esmagadoras no Paraná, em São Paulo, no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso do Sul, segundo informações da Abiove. Nesse contexto, a participação das quatro maiores indústrias sobe para 46,5%, sendo que, das quatro tradings (Ceval, ADM, Cargill e Coinbra), só a Ceval, a partir da transferência da área de soja da Santista, passou a ser responsável por 28,3%. As cooperativas detêm fatia importante no setor de esmagamento: cerca de 8,4% da capacidade instalada. Não se tem notícia de investimentos na área por parte de cooperativas que ainda não possuem unidade de esmagamento. A concentração do setor reflete o movimento de todo o setor de alimentos, ou seja, da especialização, com ênfase no negócio principal. Assim é que importantes empresas cujo foco não é a commodity soja, mas sim a maior agregação de valor em seus produtos, retiraram-se do esmagamento, concentrando-se nos negócios mais próximos do consumidor, como é o caso da Sadia (carne) e da Gessy Lever (margarinas). Por outro lado, o domínio das grandes tradings internacionais sobre o parque industrial da soja e, conseqüentemente, sobre o comércio exterior do complexo parece determinado pela competição internacional e pela logística da distribuição. Sendo o Brasil, a Argentina e os Estados Unidos responsáveis por 82% do comércio internacional do complexo soja e as Américas do Sul e do Norte dividindo em partes iguais este mercado, é estratégico o posicionamento destas empresas nos países do Cone Sul. 24 Além disso, a safra sul-americana é complementar à safra norte-americana, ou seja, nos Estados Unidos colhe-se a partir de setembro e o pico da comercialização vai até dezembro, enquanto no Cone Sul a colheita inicia-se em março e a comercialização vai até junho. Em termos de farelo, a comercialização da produção sul-americana vai até a entrada da produção dos Estados Unidos. Tamanha complementaridade explica por que as grandes companhias não poderiam deixar de ter forte presença em nosso mercado, o que lhes permite atender ao mercado mundial ao longo do ano todo, com grandes volumes e diluição de custos fixos. Outro fator de concentração é o tamanho das plantas. Na estratificação comumente usada pelo setor, as de menor porte (34 unidades) respondem por 10% da capacidade de esmagamento, enquanto as de maior porte respondem por 50,9% (32 plantas). Excetuando-se a ADM, que comprou suas unidades da Sadia, as três outras líderes do mercado concentram sua produção em grandes plantas. As quatro maiores operam 36 unidades, das quais 14 com capacidade acima de 1.500 t/dia, que, juntas, representam 13,7% da capacidade total instalada no país. Há nítida concentração de quantidade de plantas na região Sul (59,3%), notadamente no Paraná e no Rio Grande do Sul. As unidades na região Centro-Oeste, por serem mais novas, apresentam capacidade média maior: 1.041 t/dia, com 23 unidades, contra 992 t/dia na região Sul, com 70 unidades. A concentração na área do refino de óleos não é muito diferente do que ocorre no setor de esmagamento, embora o número de empresas que trabalham com refino seja menor: 47 refinadoras contra 67 esmagadoras. As quatro maiores refinadoras detêm 46% da capacidade instalada, parcela estável entre 1995 e 1997. As tradings concentram 34,2%, participação menor que no setor de esmagamento, e a Ceval sozinha detém 28,3%. A presença da Sadia no refino explica a redução do domínio das tradings, posto que a empresa só se desfez de suas unidades de esmagamento, permanecendo com as de refino. No refino, as cooperativas participam com 3,8% da capacidade instalada, tendo, portanto, menor peso nesta área do que na de esmagamento. Tal característica provavelmente resulta das dificuldades de acesso das cooperativas ao consumidor final. Para os agricultores, o grande problema é que enquanto esses continuarem sendo simplesmente fornecedores de matéria-prima à essas indústrias. Já detendo um enorme poder de formação dos preços pagos aos agricultores, a concentração descrita acima penas faz 25 aumentar esse poder. Dessa forma, a concentração industrial é outro motivo para que os agricultores busquem alternativa de produção à soja commodity. No caso da produção de orgânicos, não pode ser deixado de lado o fato de qualquer possibilidade de processamento da soja orgânica ser incompatível com o método químico de extração do farelo, óleo e outros subprodutos como descrito acima. Assim, haverá a necessidade, para esse processamento, da implantação de métodos de extração por prensagem. O custo desse uma planta industrial com essa características é um problema para os agricultores, pois inviabiliza a possibilidade do aluguel de alguma planta industrial já existente para o processamento. Isso pode dificultar qualquer iniciativa de processamento de soja por parte dos agricultores, mesmo sabendo que atualmente todos os produtos alimentares industrializados utilizam em sua composição a soja (geralmente para fazer a liga entre um elemento e outro, por exemplo num embutido). Há indicações de que pelo menos 80% desses produtos tenham soja na composição. Entretanto, com todos esses empecilhos, esse é um mercado ainda distante dos agricultores. 26 8. Contatos As Cooperativas e Associações da Agricultura Familiar As cooperativas e associações têm um papel fundamental na difusão e a viabilização da produção orgânica de soja na Região Sul do Brasil. Contudo, nos últimos anos a produção de soja orgânica teve uma diminuição na Região Sul do Brasil devido principalmente a expansão e a liberação do uso de sementes transgênicas e o aparecimento da ferrugem asiática nos plantios de soja. Apesar do Governo do Estado do Paraná ter tido um papel fundamental para o não avanço dos transgênicos no estado, o que não aconteceu no Rio Grande do Sul, a produção de soja orgânica tem tido uma retração na sua expansão pelo aparecimento da ferrugem asiática. As principais cooperativas e associações estão divididas entre os Estados do Rio Grande do Sul e Paraná. No Rio Grande do Sul e no Paraná estão atuando na organização da produção de soja as cooperativas, ou seja, associações de agricultores familiares: a) COTRIMAIO (Cooperativa Agropecuária Alto Uruguai Ltda.) A Cotrimaio tem em sua base agricultores familiares. Segundo informações de 2004 da própria cooperativa dos 8.811 associados, cerca de 96% são agricultores com menos de 50 hectares. Devido principalmente à expansão dos transgênicos no Rio Grande do Sul, a Cotrimaio teve uma redução do número de produtores e área que estavam envolvidos na produção de soja orgânica. Quando na safra de 2003/04 o número de produtores era entorno de 90 e havia uma previsão de área de produção entorno de 380 hectares, na safra de 2004/05 o número de produtores passou para cerca de 70 e a área foi reduzida em torno de 5%. A Cotrimaio comercializa diretamente a sua produção no mercado interno e externo. Para a exportação, a Cotrimaio dispõe de um armazém no Porto de Rio Grande, no estado do Rio Grande do Sul. Contato: Cooperativa Agropecuária Alto Uruguai Ltda. – COTRIMAIO Avenida Santa Rosa, 03 27 CEP 98.910.000 Três de Maio-RS Tel.: 0 – 55 3535 2005-05-08 Pagina web: www.cotrimaio.com.br b) COOPVIDA (Cooperativa de Produtores de Alimentos Orgânicos em Economia Solidária Ltda.) A COOPVIDA está situada na região do Alto da Serra – RS e é composta por agricultores familiares com uma produção diversificada e com programas de conservação de matas ciliares e preservação de reservas florestais. Na COOPVIDA estão cerca de 30 agricultores envolvidos na produção de soja orgânica e em uma área de aproximadamente 300 hectares. A estimativa de produção para a safra de 2004/05 era de 780 toneladas. A Comercialização da soja orgânica é praticamente direcionada para o mercado externo, sendo também uma parte comercializada nas feiras e mercados locais. No caso da soja, o escoamento é terceirizado até o porto onde ela é embarcada e exportada. Os outros produtos são escoados pelos próprios agricultores. Contato: Cooperativa de Produtores de Alimentos Orgânicos em Economia Solidária Ltda. – COOPVIDA Av. Salvano da Cunha, 117 Centro Cep: 99840-000 Sananduza – RS Tel.: 0 – 54 343 1900 E-Mail: [email protected] c) COOPAC (Cooperativa de Produção Agropecuária Constantina Ltda.) A COOPAC tem a sua matriz na região de Constantina - RS, mas também possui filiais nos municípios de São José das Missões - RS e Cachoeirinha – RS. 28 A COOPAC tem na sua base os agricultores familiares e realiza com os mesmos trabalhos ambientais em suas propriedades. Estes trabalhos que são desde reflorestamento até trabalhos de retenção de encostas e conservação das matas ciliares. Na produção de soja orgânica da COOPAC estão envolvidos aproximadamente 45 famílias de agricultores em uma área de cerca de 400 hectares. A soja orgânica da COOPAC é comercializada com empresas do Estado do Paraná. Contato: Cooperativa de Produção Agropecuária Constantina Ltda Av. Avenida Presidente Vargas 623 Cx. Postal 26 Cep: 99680-000 Constantina-RS Tel.: 0 – 54 363 1033 E-Mail: [email protected] d) COOPER FAMILIAR (Cooperativa Agropecuária dos Agricultores Familiares de Tenente Portela Cooper Familiar Ltda.) Numa produção diversificada familiar, os agricultores associados a COOPER FAMILIAR na produção de soja orgânica formam um grupo de aproximadamente 172 agricultores em uma área de produção de 10.000 hectares. A comercialização e beneficiamento é feito com uma empresa do Estado do Paraná. Contato: Cooperativa Agropecuária dos Agricultores Familiares de Tenente Portela Cooper Familiar Ltda Av. Santa Rosa, 1064 Cep: 98500-000 Tenente Portela – RS Tel.: 0 – 55 3551-1544 E-Mail: [email protected] 29 e) CRABI (Comissão Regional dos Atingidos por Barragens do Rio Iguaçu) A CRABI é uma entidade que reuni mais de 2.000 famílias de agricultores desalojadas com a construção do reservatório de Salto Caxias-PR no rio Iguaçu. A CRABI desenvolve ações de cooperação entre os seus membros nas áreas de produção e meio ambiente. 20% da área da CRABI é de reserva legal e 7% é de conservação de matas ciliares. A produção familiar é diversificada e orientada para a garantia do consumo interno. A produção de soja orgânica envolve cerca de 50 famílias em uma área de aproximadamente 480 hectares. Isso representa cerca de 10% da área dediada para a produção de soja. A comercialização e exportação é feita por empresas do Estado do Paraná. A exportação é realizada pelo Porto de Paranaguá. Contato: Comissão Regional dos Atingidos por Barragens do Rio Iguaçu – CRABI Av. Estados Unidos, 522 Jardim Nacional Cep: 85516-390 Cascavel-PR Tel.: 0 – 45 227 6788 E-Mail: [email protected] f) Grupo de Produtores Familiares Agroecológicos - Sindicato dos Trabalhadores na Agricultura Familiar de Capanema O Grupo de Produtores Familiares Agroecológicos tem atuação na região do Sudoeste do Paraná e envolvem cinco municípios (Capanema, Francisco Beltrão, Marmeleiro, Pérola do Oeste e Planalto). O Grupo de Produtores estão organizados em 150 famílias com produção de soja orgânica e em uma área de 268 hectares. A produção em condições climáticas e fitosanitarias normais pode chegar por volta de 780 toneladas. 30 A comercialização é feita por diferentes empresas que atuam na região do sudoeste do Estado do Paraná, mas que se concentram no município de Capanema. A soja exportada é escoada pelo Porto de Paranaguá. Contato: Sindicato dos Trabalhadores na Agricultura Familiar – SINTRAF Rua Pe. Cirilo, 1030 Caixa Postal 48 Cep: 85760-000 Capanema-PR Tel.: 0 – 46 552 14 82 31 9. Referências Bibliográficas 1) CONAB, Indicadores da Agropecuária, vários números, 1999 a 2008; 2) CboT (Chicago Board of Trade), cotações do complexo soja, 1976 a 2008, publicação diária no Jornal Gazeta Mercantial; 3) BNDES, O setor de processamento de soja no Brasil, disponível em www.bndes.gov.br; 4) Jornal Gazeta Mercantil, várias edições, 2000 e 2008; 5) MDA/Incra, O Brasil redescoberto: novo retrato da agricultura familiar no Brasil, Brasília, 2000; 6) FUSION, Inventário da Soja Orgânica na Holanda, Amsterdã, 2001 http://www.cisoja.com.br/index.php?p=organica 7) Agência Estadual de Noticias do Paraná 8) Secretaria de Estado e Abastecimento do Paraná – SEAB 9) Secretaria da Agricultura Familiar – SAF 9) Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA 10) www.planetaorganico.com.br 32