XV ENCONTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DO NORTE E NORDESTE E
PRÉ- ALAS BRASIL
04 A 07 DE SETEMBRO DE 2012 – UFPI – TERESINA-PI
GT09 – SOCIEDADE, MERCADO E SUSTENTABILIDADE.
Ciência, Tecnologia e Mercado:
Uma reflexão sobre as pesquisas em Nanotecnologia
Tânia Elias Magno da Silva
Universidade Federal de Sergipe
[email protected]
Diego Rodrigues Souto Calazans
Universidade Federal de Sergipe
[email protected]
1
Ciência, Tecnologia e Mercado: Uma reflexão sobre as pesquisas em
Nanotecnologia1
Tânia Elias Magno da Silva2
Diego Rodrigues Souto Calazans3
Resumo
A presente comunicação discute a estreita relação entre a produção de
conhecimento na área tecnológica, no caso a nanotecnologia, os interesses de
mercado e os impactos sociais decorrentes desses avanços, assim como os
desafios que estão colocados para o campo de análise das ciências sociais. As
discussões apresentadas são fruto da pesquisa “Nanotecnologias aplicadas
aos alimentos e aos biocombustíveis: reconhecendo os elementos essenciais
para o desenvolvimento de indicadores de risco e de marcos regulatórios que
resguardem a saúde e o ambiente” (898/2009), financiada pela Capes. A
nanotecnologia é uma tecnologia de ponta que poderá ter e já tem inúmeras
aplicações, portanto é do ponto de vista do mercado um investimento seguro e
do futuro. Neste sentido é preciso discutir as questões éticas e legais que
devem regular o uso das nanotecnologias. Neste trabalho o foco de discussão
é a nanobiotecnologia, particularmente a produção de alimentos e remédios.
Palavras-Chave: imaginário, nanotecnologia, impactos social, interações
sociotécnicas
A Nanotecnologia e as Ciências Sociais
Arthur C. Clarke, escritor de ficção científica, afirmou certa vez que
qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia
(TOMA, 2004). Em certa medida, parece ser este o caso da nanotecnologia,
apontada como uma nova revolução científica capaz de resolver inúmeros
problemas das sociedades modernas, como os relativos ao meio ambiente, à
saúde, à alimentação, à genética, à modernização dos artefatos de guerra,
entre outros. No imaginário social, é como se, graças ao uso da
1
Artigo apresentado no XV Encontro de Ciências Sociais do Norte e Nordeste e Pré-Alas Brasil, no GT
09, “Sociedade, Mercado e Sustentabilidade”, de 04 a 07 de setembro de 2012, UFPI, Teresina/PI.
2
Professora colaboradora do NPPCS/UFS, coordenadora do Grupo 05 da Pesquisa Nanotecnologias
aplicadas aos alimentos e aos biocombustíveis: reconhecendo os elementos essenciais para o
desenvolvimento de indicadores de risco e de marcos regulatórios que resguardem a saúde e o ambiente”
(Edital 04/CII – 2008 – Nanobiotecnologia – da CAPES)
3
Pesquisador e bolsista do projeto Nanotecnologias aplicadas aos alimentos e aos biocombustíveis:
reconhecendo os elementos essenciais para o desenvolvimento de indicadores de risco e de marcos
regulatórios que resguardem a saúde e o ambiente. Doutorando em Sociologia - UFS”
2
nanotecnologia, todos os problemas acima listados pudessem ser resolvidos
como em um passe de mágica.
Em seu estudo sobre as implicações sociais da nanotecnologia, Foladori
e Invernizzi (2006) alertam para o cuidado que devemos ter em relação às
promessas que a colocam como capaz de, por si só, solucionar a maioria dos
problemas do mundo, em especial os relacionados com a alimentação,
energia, água potável, lixo e saúde.
Como resultado de recentes promessas não cumpridas, como
as associadas ao suposto benefício da energia nuclear ou aos
organismos geneticamente modificados, a nanotecnologia tem
despertado grandes controvérsias. Existem críticas sobre os
possíveis efeitos das nanopartículas sobre a saúde e sobre o
meio ambiente. (Op. Cit., p. 115).
Ainda de acordo com os dois estudiosos, outra preocupação que deve
fazer parte dos estudos sobre os impactos dessa nova tecnologia diz respeito
aos possíveis efeitos que ela teria nos países pobres e na distribuição da
riqueza. A ciência e a tecnologia não são neutras e, portanto, nunca estarão a
serviço de todos indistintamente e sem custos. É preciso reconhecer que há
uma interdependência entre tecnologia e sociedade, bem como uma estreita
relação entre a produção de conhecimento, as novas tecnologias e o mercado
(cf. SAREWITZ e WOODHOUSE, 2006). Como esclarecem Foladori e
Invernizzi, “a imagem de que a tecnologia é algo neutro e resulta de inventores
bem intencionados não se sustenta” (Op. Cit. 2006, p. 117).
A verdade é que os avanços das pesquisas em nanotecnologia parecem
prometer um novo tipo de revolução científica e industrial (GALLO, 2007); para
algumas áreas do conhecimento como a química, a física e a biologia, o
avanço neste campo representa um poderoso incremento e revitalização de
suas ciências. As pesquisas em nanotecnologia têm exigido cada vez mais
estudos interdisciplinares, abarcando campos do conhecimento como a
medicina, diferentes áreas da engenharia, economia e direito, bem como as
ciências sociais, porque as possibilidades neste campo parecem aos olhos
leigos infinitas, e incitam o imaginário coletivo.
Para o público em geral, a nanotecnologia tem o potencial de
centrar a imaginação coletiva nas possibilidades de um mundo
onde a escassez de recursos naturais, poluição ambiental e
3
problemas de saúde supostamente sem tratamento sejam
coisas do passado. A nanotecnologia promete diminuir a
importância da matéria organizada e promover o
desenvolvimento de tecnologias que são mais limpas e mais
eficientes. É claro que muito se espera da nanotecnologia.
(METHA, 2006, 107)
A possibilidade de um mundo novo surge na promessa dos que
investem nesta área do conhecimento, contudo cabe levantar algumas
questões:
Será a nanotecnologia capaz de resolver todas as demandas
apresentadas? A que custos? Quais os possíveis impactos negativos e
positivos que poderão advir decorrentes desta nova tecnologia?
Estamos
preparados para enfrentá-los? Como estabelecer medidas de precaução?
Como estabelecer políticas de controle por parte do estado visando à proteção
humana e ambiental? Qual a responsabilidade dos cientistas e tecnólogos com
os possíveis impactos decorrentes do emprego da nanotecnologia? Os
trabalhadores diretamente envolvidos na produção de produtos que contenham
nanotecnologia estão cientes dos cuidados que devem ter para operar essa
nova tecnologia? A sociedade civil está sendo corretamente informada a
respeito dos alcances, limites e precauções?
Inúmeras outras questões podem ser levantadas, mas poucas poderão
poderão ser respondidas de imediato, contudo os produtos e o emprego da
nanotecnologia já estão no mercado, sem que a sociedade civil tenha plena
consciência do que é esta nova tecnologia e de seus possíveis impactos na
vida social, bem como ainda carecemos de marcos regulatórios que possam
dar segurança aos consumidores e trabalhadores quanto o uso dessa nova
tecnologia.
A nanotecnologia não é, em essência, uma tecnociência própria, mas a
possibilidade de manipular tecnicamente os elementos constituintes da matéria
em escala nanocóspica, isto é, elementos com nanômetros de diâmetro. Um
nanômetro equivale a um bilionésimo de metro (1nm = 10-9m). Nessa dimensão
é possível construir artefatos molécula a molécula, obtendo-se com isso
resultados até então imaginados apenas pelos autores de ficção científica. A
nanotecnologia é formada por diversos subcampos, isto é, por áreas de
aplicação da manipulação nanométrica.
4
A manipulação de elementos em escala nanoscópica já garante a
mescla entre compostos orgânicos e inorgânicos, favorecendo a inter-relação
entre as tecnologias baseadas em organismos e as tecnologias baseadas em
máquinas. Essa possibilidade promete gerar uma simbiose entre máquinas e
organismos, particularmente entre neurônios e redes informacionais. Também
há o aprimoramento de cada dimensão separadamente, com organismos cada
vez mais otimizados e máquinas com inteligência semelhante à dos humanos.
Alguns pensadores, especulando sobre os usos de tal possibilidade
tecnocientífica, desenvolveram modelos de futuro, considerados altamente
prováveis e desejáveis, em que as pessoas poderiam valer-se dos avanços –
ainda potenciais – da nanotecnologia para superar problemas essenciais da
humanidade, como o sofrimento, a velhice e mesmo a morte (KURZWEIL &
GROSSMAN, 2006).
Em “La Revolución Silenciosa - Biotecnología y Vida Cotidiana”, Alberto
Díaz, professor adjunto da Universidade de Quilmes em Buenos Aires e diretor
do Centro de Biotecnología Industrial do Instituto Nacional de Tecnologia
Industrial da Argentina faz um alerta acerca das “ondas” tecnológicas:
Ante cada oleada tecnológica los problemas son parecidos:
siguem planteando benefícios y riesgos que permitem hacer
llegar la biotecnologia a un gran número de personas a través
de nuevas industrias y empresas, generadoras y usuarias de
los conocimientos (Díaz, 2010: 15).
Outro ponto levantado por Díaz em seu livro diz respeito à relação
entre os avanços científicos e tecnológicos, políticas governamentais e
interesses de mercado. O autor cita como exemplo os debates que ocorreram
no início de 2006, em Buenos Aires, no Fórum Internacional sobre a relação
entre Políticas e Ciências Sociais, promovido pela UNESCO. O debate centrouse na transferência de tecnologia ou conhecimento, que tanto preocupa os
cientistas naturais. Contudo, como afirma Díaz (2010), muito mais complicado
é o objetivo dos cientistas sociais: integrar seus conhecimentos e descobertas
com as organizações políticas e de governo.
Ao
final,
mais
de
mil
universitários
presentes
no
Fórum
e
representantes de mais de 85 países concluíram haver a necessidade de uma
articulação entre políticas públicas e o conhecimento gerado pelas disciplinas
5
na área das ciências sociais, para atuar com mais eficiência frente aos
complexos problemas que afetam a comunidade internacional. Ou seja, a
conclusão foi: Estes novos conhecimentos são produzidos por quem? Para que
finalidade? Para atender que populações? Quais os riscos e benefícios? Quem
fica o com o bônus e com quem fica o ônus?
Às ciências sociais cabe exatamente o papel de investigar estas
questões; e ainda desmistificar falsas promessas, propor políticas públicas que
realmente atendam o interesse da maioria da população, em especial os mais
pobres, bem como cobrar ações governamentais no âmbito da criação de
marcos regulatórios baseados no princípio de precaução4. Prevenir é sempre
melhor que remediar. Alertam MATTEDI, MARTINS & PREMEBIDA (2011):
Se a adoção de uma nova tecnologia impacta a malha social e
as interações entre seus membros, o desenvolvimento da
nanotecnologia constitui uma questão política e, portanto, deve
estar aberta ao exame das ciências sociais. (op. cit., p.136).
Nanotecnologia: uma nova tecnociência5?
A nanotecnologia nada mais é do que uma ferramenta, ainda que uma
ferramenta de extrema utilidade, para o aprimoramento de tecnociências já
existentes, como a engenharia genética e a robótica. Uma das oportunidades e
dos desafios da nanotecnologia é lidar com as alterações que certas
substâncias apresentam em suas propriedades quando manipuladas nessa
escala. Um metal inofensivo em escala padrão pode tornar-se altamente tóxico
quando manipulado em escala nanométrica. Em alguns casos, por outro lado,
há um aumento significativo na eficácia de certos produtos, como remédios e
alimentos desenhados para agir como remédios.
Nessa dimensão, o medicamento pode ser transportado pelo corpo e
ativado apenas quando em contato com microorganismos nocivos ou células
defeituosas, garantindo redução sensível de efeitos colaterais e maior eficácia
do tratamento. Produtos em tal escala também são mais difíceis de controlar,
em particular quando se trata de sua toxicidade. O corpo não consegue impedir
a entrada de substâncias que sejam menores do que seus filtros podem
4
Vide a esse respeito entre outros, Engelmann et al. (2010).
Uma discussão sobre o conceito de “tecnociência” e seus usos pode ser encontrada em Latour (2001).
5
6
interceptar. É quase certo que um produto que se valha de nanomateriais,
ainda que construído para agir somente na pele, chegará à corrente
sanguínea, o que pode gerar consequências imprevistas. Apesar dos riscos já
conhecidos, há disponíveis no mercado inúmeros cosméticos contendo
nanomateriais.
Dá-se
o nome
de
nanopartículas
aos
elementos
em escala
nanoscópica. Quanto à sua origem, existem três tipos de nanopartículas: as de
origem natural, as de origem humana não intencional e as intencionalmente
projetadas. Sobre os dois primeiros tipos, pouco se pode fazer e não nos
parece oferecer grandes ameaças, uma vez que convivemos com eles desde,
pelo menos, o início do uso do fogo pela humanidade (cf., p.ex., SCHULZ,
2009). É sobre as nanopartículas intencionalmente geradas que repousa
grande parte das considerações éticas.
A nanotecnologia funciona como um catalisador do avanço de diversas
tecnociências. Graças a ela, é possível manipular os genes de embriões para
selecionar as características genéticas a serem preservadas ou descartadas.
Ela também torna possível à robótica a construção de próteses mecatrônicas
diretamente conectadas ao sistema nervoso do usuário, garantindo assim o
controle cerebral do membro metálico. Para a tecnologia da informação
também
a
nanotecnologia
surge
como
condição
indispensável
do
desenvolvimento de chips com memória e velocidade em crescimento
exponencial.
Graças à microtecnologia a robótica saltou das fábricas automotivas
para os lares ao longo das últimas décadas do século XX, há quem aponte que
será graças à nanotecnologia que a mesma robótica, não apenas deixará de
produzir robôs limitados a atos repetitivos previstos na programação original
para desenvolver andróides capazes de processar as informações do ambiente
de modo a adaptarem seu comportamento, indo além de sua programação
básica, como também vem fazendo esses mesmos robôs com autonomia
aumentada saltarem das casas das pessoas para dentro de seus corpos.
A manipulação genética é, dentre as tecnociências turbinadas pelas
nanotecnologias, a que mais tem despertado interesse e exaltações dos
grupos de pressão, uma vez que ela apresenta a possibilidade de gerar
organismos artificiais com características sob demanda, inclusive seres
7
humanos. Também traz a possibilidade de manipular a estrutura genética de
organismos complexos plenamente formados através de terapia genética.
Tanto a manipulação embrionária quanto a pós-uterina já são praticadas
regularmente em centros de pesquisa, empresas e hospitais, gerando pressões
contrárias para o estabelecimento de leis que possam regular o setor. O debate
crescente tem se dado em torno de questões éticas, particularmente quanto às
atuais e potenciais aplicações desse novo conhecimento. É possível impor
limites? Quem decidirá quais são esses limites?
Nanotecnologia, Mercado e Governos
A nanotecnologia movimenta um montante considerável de capital e
desperta interesses conflitante por todo o mundo. As perspectivas são de que,
ainda nessa década, a nanotecnologia movimente recursos na casa dos
trilhões de dólares anuais, mesmo no cenário mais pessimista. Apesar da
importância estratégica do setor, e em grande parte por conta dos custos e das
demandas em termos de infraestrutura e formação acadêmica, só uns poucos
países têm investido significativamente na pesquisa e desenvolvimento em
nanotecnologia.
Os principais investidores de recursos públicos no setor são os Estados
Unidos, o Japão e a Europa. O mercado consumidor de produtos que contêm
nanomateriais também está concentrado nessas três áreas: Europa, Estados
Unidos e parte da Ásia (mais precisamente o Extremo Oriente). Dessa forma,
os maiores produtores são eles também os maiores compradores. Canadá,
México e Brasil, os países que mais investem em nanotecnologia, depois dos
Estados Unidos, não têm uma posição relevante dentro do cenário mundial do
setor. Nos últimos anos, o Brasil tem assumido uma posição de potência
emergente e despertado a atenção de empresários e especuladores de
diversos setores da economia, mas ainda não está entre os maiores mercados
consumidores – ao menos se compararmos à China, Estados Unidos e Europa.
As empresas de nanobiotecnologia têm presença significativa e são
mais comuns nos Estados Unidos e no Reino Unido do que no Japão e na
Alemanha, levando-se em conta apenas os quatros países que mais possuem
empresas do setor. A nanobiotecnologia é o setor que mais cresce. Os
8
interesses econômicos e consequentes demandas políticas em torno da
nanobiotecnologia são proporcionais ao montante de recursos gerados e as
perspectivas de crescimento do setor. Por ser uma área de interesse
estratégico para corporações e países, o cuidado na apresentação dos dados
sobre os potenciais do setor e a busca por mais espaço de manobra em nome
da competitividade tem gerado uma disputa com os grupos de pressão que
demandam maior controle sobre a nanobiotecnologia, o que poderia ser menos
lucrativo para as empresas do setor porque limitariam a velocidade de
inovação e levariam à proibição de produtos.
Esta disputa entre os grupos de pressão, os interesses de mercado por
lucro e dos países para deterem um maior domínio no campo nanotecnológico
aponta para uma batalha entre visões de mundo inconciliáveis pelo apoio da
opinião pública, de modo a legitimar a formulação de novas leis restringindo ou
ampliando o controle do Estado e da sociedade civil sobre as aplicações atuais
e possíveis da manipulação nanoscópica de elementos biológicos.
A disputa ocorre principalmente por meio dos meios de comunicação
de massa, tanto os mainstream quanto os alternativos, como espaços de
manipulação de dados por parte de universidades, empresas, governos, ONGs
etc., em busca de simpatia e apoio, valendo-se para tanto do reforço ou da
negação de concepções pré-estabelecidas.
Os produtos relacionados à Saúde & Boa-Forma – que podem ser
entendidos como produtos relacionados ao Bem-Estar, uma vez que grande
parte é voltada para pessoas saudáveis – correspondem a muito mais da
metade dos disponibilizados. Alimentos & Bebidas aparecem em terceiro lugar.
A indústria dos nutracêuticos, isto é, alimentos modificados para agir como
fármacos, e dos aprimoradores de desempenho é voltada principalmente para
o melhoramento da performance do corpo saudável, com o objetivo declarado
de torná-lo melhor do que a média, ou seja, em vez de se limitar a normalizá-lo,
o que se pretende é torná-lo superior ao normal – o que, por si só, faz de quem
tem um corpo normal alguém em situação de inferioridade diante de quem tem
um corpo aprimorado, assim como quem tem um corpo abaixo do normal pode
ser tratado por muitos como inferior a quem tem um corpo dentro da média.
Lucra-se vendendo a ideia de que nunca se está bem o bastante, de
que sempre é possível ficar mais “saudável”, isto é, de que sempre é possível
9
melhorar o desempenho do corpo, como se melhora o desempenho de uma
máquina. O grosso da produção farmacêutica, contudo, ainda corresponde a
produtos para pessoas doentes, para que seus corpos superem o que os deixa
abaixo da média.
Como exemplos de aplicações nas áreas de interesse do presente
artigo, temos embalagens bactericidas para estocar comida, garrafas de
plástico que não deixam o gás dos refrigerantes escapar, suplementos
polivitamínicos voltados em geral para pessoas saudáveis que desejam
aprimorar o desempenho de seus corpos, “regeneradores” de óleo de cozinha,
cremes faciais, pastas de dente “remineralizadoras”, brinquedos bactericidas
para bebês, entre outros.
Entretanto a toxidade, ou melhor a nanotoxidade não é suficientemente
levantada nos relatórios do setor que são publicizados pela imprensa leiga e
muitas vezes até pelas publicações científicas. As informações existentes dão
conta de problemas que parecem dar razão aos que demandam considerações
políticas urgentes sobre a questão. Durante o ciclo de vida potencial das
nanopartículas no corpo humano, as substâncias podem chegar ao mesmo
órgão por diversas vias de exposição. O risco da exposição à nanomateriais se
faz presente durante todas as etapas de sua produção. Os danos atuais e
potenciais estão presentes já no momento da extração da matéria-prima e
seguem ameaçando tanto os trabalhadores do setor quanto os consumidores,
acabando por se voltar para o próprio ambiente.
Tentativas de regulação de nanomateriais precisam levar em conta não
apenas a particularidade de cada produto a ser controlado, mas também todo
seu ciclo de vida, adequando-se sempre que possível aos riscos inerentes a
cada estágio, sob pena de ineficácia. Ainda não há leis para regulamentar e
controlar o setor dado a pouco tempo que de existência do emprego da
nanotecnologia em relação a testes que precisam ser feitos para mensurar de
fato os riscos potenciais, e como o avanço das pesquisas é extremamente
dinâmico aliado aos interesses de mercado, tanto da iniciativa privada como de
países, que envolvem bilhões de dólares, nenhum país tem um código
específico. Em geral, tenta-se adaptar a legislação existente.
Enquanto não há consenso, as empresas seguem com invejável
liberdade para produzir, distribuir e descartar nanomateriais segundo princípios
1
válidos para os produtos comuns. Há uma batalha entre grupos de pressão
para que se aumente ou se diminua as restrições. Para melhor entendermos o
que está em jogo, no próximo item vamos dar alguns exemplos das promessas
e dos avanços concretos da nanotecnologia, particularmente na saúde e nos
alimentos (nesse último caso, a ênfase é nos transgênicos).
Promessas, Avanços e Questões da Nanotecnologia em Saúde e
Alimentos
Saúde
Tem havido muitos avanços em áreas associadas à engenharia
genética. Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia publicaram, em março
de 2012, os resultados de um estudo inovador através do qual um grupo de
pacientes com cegueira hereditária conseguiu enxergar – ainda que não
perfeitamente – por meio de terapia genética (Zero Hora, 2012).
A terapia genética é uma das maiores promessas da medicina desde o
final do século XX – e tem sido tratada com suspeita por muitos. Ela consiste,
grosso modo, no “conserto” de mutações problemáticas no DNA de um
indivíduo através da substituição dos genes tidos como defeituosos por genes
tidos como saudáveis, transportados para o interior das células por vírus
devidamente programados. O organismo das cobaias humanas não rejeitou os
novos genes, para surpresa dos próprios pesquisadores. Os cientistas
obtiveram um sucesso tão grande que decidiram refazer o procedimento em
vez de divulgar os resultados. Isso explica porque foram precisos três anos
para que viessem a público.
Se já é possível modificar o DNA de um organismo hiper-complexo
plenamente formado, como um ser humano adulto, mais fácil é montar
organismos simples gene a gene. A Biologia Sintética tem apresentado
descobertas interessantes nos últimos anos. A construção de novas formas de
vida sempre desperta considerações relevantes. Em 2011, foi anunciado que
uma equipe multidisciplinar composta por cientistas de seis países havia
recebido 1,6 milhão de dólares de uma agência britânica de fomento à
pesquisa, para desenvolver um projeto de pesquisa cujo objetivo seria o de
desenvolver células reprogramáveis, isto é, formas de vida construídas para
1
obedecerem uma programação prévia, como minúsculos computadores
orgânicos (Thorne, 2011).
Os defensores do projeto ressaltam que o polêmico campo da Biologia
Sintética é responsável por novas descobertas médicas relevantes, como
drogas desenvolvidas “sob medida” para as necessidades de cada paciente e
mesmo o crescimento de órgãos para transplantes. Os detratores do projeto,
por sua vez, argumentam que ele tem por objetivo tão somente dar aos
cientistas o poder de criar sistemas biológicos novos – e que isso traz não
apenas riscos a serem levados em consideração, mas questões ético-morais
que não deveriam ser ignoradas. A princípio essa tecnologia poderia ser usada
para modificar o comportamento de organismos vivos.
Frente a possibilidade de manipular microrganismos para que se
tornem fármacos, é preciso ter em mente que fármacos podem ser remédios
ou venenos, a depender de como são usados, e que o mesmo método que
permite manipular organismos simples, a princípio, permitiria fazer o mesmo
com os complexos; plantas e animais – incluindo os humanos.
Saindo do âmbito da engenharia genética, mas mantendo-se na
engenharia e no transporte de medicamentos pelo interior do corpo, a Ficção
Científica apresentou há décadas a imagem de microfoguetes capazes de
navegar pelo interior do corpo humano, ou para destruir in loco as células
cancerígenas, ou para circunscrever a área de ação de medicamentos
arriscados ou para realizar cirurgias com precisão inimitável. Os livros e filmes
da série Viagem Fantástica, e suas cópias, são os principais difusores dessa
ideia. Essa proeza deixou de ser mera especulação e entrou para o campo dos
avanços iminentes quando foi anunciado que o primeiro protótipo fora
desenvolvido (Inovação e Tecnologia, 2012).
Idealizado por Samuel Sanchez e seus colegas do Instituto Leibniz, na
Alemanha, e testado pela equipe de Joseph Wang, da Universidade da
Califórnia, o primeiro modelo criado, contudo, não era funcional, uma vez que
precisava levar consigo seu próprio combustível, o que fazia com que não
fosse possível usá-lo adequadamente no interior de um ser vivo. Em fevereiro
de 2012, porém, a mesma equipe que desenvolveu o protótipo anunciou que
aprimorou seu microfoguete, garantindo que agora ele pode se movimentar até
1
mesmo no ácido estomacal, sem fonte externa de combustível, e numa
velocidade
considerável.
O
objetivo
é
não
apenas
destruir
células
problemáticas, mas também transportar drogas pelo interior do hospedeiro,
limitando sua ação a um local específico, aumentando assim sua eficiência e
reduzindo os efeitos colaterais. Os cientistas responsáveis pelo protótipo
informam tê-lo testado em diversos meios similares aos fluidos orgânicos pelos
quais deve se deslocar no interior do organismo, mas o microfoguete ainda não
foi inserido em um ser vivo.
Reduzindo-se ainda mais a dimensão dos robôs, temos os nanorrobôs.
Se os microrrobôs dependem da nanotecnologia para serem viáveis, os
nanorrobôs são em si construtos de dimensão nanoscópica.
Quase na mesma época em que os pesquisadores da Universidade da
Califórnia afirmaram haver consertado os defeitos de seu microrrobô, uma
equipe de cientistas da Universidade de Harvard anunciou a construção de um
nanorrobô a partir da modelagem de um DNA, numa técnica análoga ao
tradicional origami6 (Hamzelou, 2012). O objetivo central é o mesmo do
microrrobô: destruir células cancerígenas sem danificar células saudáveis. A
equipe construiu um robô dobrando uma molécula de DNA num formato que
lhe permitisse carregar a droga desejada e desenvolvendo duas “trancas”
genéticas – no caso em questão, segmentos de DNA capazes de reconhecer
uma molécula específica. Quando a célula desejada é atingida, o construto de
DNA se desdobra, liberando a substância. A equipe fez o teste construindo um
robô que identifica as moléculas características da superfície de células com
leucemia. Foram introduzidas células doentes em um cultivo de células
normais, fora de qualquer organismo, e nelas inseridos milhões de nanorrobôs.
Em três dias, metade das células cancerígenas havia sido destruída sem que
nenhuma saudável fosse atacada.
Em novembro de 2010, durante o Seminário Internacional de
Nanotecnologia, Sociedade e Meio-Ambiente, realizado no Rio de Janeiro,
Mihail C. Roco, presidente do subcomitê do Conselho Nacional de Ciência e
Tecnologia dos Estados Unidos responsável pelos estudos em Ciência,
Engenharia
e
Tecnologia
em
Nanoescala,
Consultor
Sênior
para
6
Origami é uma técnica milenar japonesa que consiste na produção de objetos artesanais geométricos
mediante dobramento de papel, sem que o papel seja colado ou cortado de nenhuma forma.
1
Nanotecnologia da Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos e editorchefe do Journal of Nanoparticle Research, um cientista diretamente envolvido
com os investimentos da Casa Branca em nanotecnologia, respondeu ao
questionamento de um dos autores do presente artigo, afirmando que tais
robôs diminutos, capazes de viajar pela corrente sanguínea, não passavam de
fantasias. Isso mostra como é problemática, mesmo para os especialistas, a
percepção do que é especulação irrealista e do que é avanço iminente no
campo da nanotecnologia.
Alimentos
Em 2010, o biólogo russo Alexey Surov publicou os resultados de um
estudo segundo o qual a soja geneticamente modificada causaria esterilidade e
mortalidade infantil em hamsters (Voice of Russia, 2010). Surov alimentou
hamsters por dois anos, através de três gerações, com uma dieta à base de
soja geneticamente modificada, do mesmo tipo que a Monsanto cultiva em
vários países do mundo, inclusive o Brasil. Na terceira geração, mais de 50%
dos hamsters que receberam essa alimentação tornaram-se estéreis. Houve
também um retardo no crescimento e um aumento da taxa de mortalidade
infantil. Para completar, alguns hamsters da terceira geração tiveram pelos
crescendo dentro de suas bocas – um fenômeno raramente visto em hamsters
normais, mas aparentemente comum entre os hamsters alimentados com soja
geneticamente modificada.
Diversos estudos chegaram à conclusão de que animais que se
alimentam de vegetais geneticamente modificados podem passar adiante na
cadeia alimentar os efeitos da transgenia original (Bio-Safety, 2009). Mas o uso
de engenharia genética na produção de alimentos não tem ficado restrito aos
vegetais. Em 2011, pesquisadores chineses anunciaram que conseguiram
modificar geneticamente centenas de vacas para que elas passassem a
produzir leite “mais parecido com o humano” (Jornal do Brasil, 2011). Para ser
mais exato, os cientistas desenvolveram embriões bovinos com os genes
responsáveis pela produção de lisozima, uma proteína de forte caráter
bactericida, muito comum no leite humano, mas rara no da vaca. Afora o
1
aumento considerável da lisozima presente no leite dessas vacas, nada mais o
assemelha ao leite humano.
A questão dos transgênicos está envolta em um mar de polêmicas, com
agressões contínuas entre os grupos de interesse e celebradas vitórias
políticas de um ou de outro lado. Em 2009, foi aprovada por unanimidade uma
lei que proíbe a entrada de quaisquer formas de organismos geneticamente
modificados no Peru num prazo de 10 anos (Andina, 2009). O objetivo
declarado era o de proteger os produtos nativos. Em outros países da região,
discussões semelhantes estão em curso. A preocupação com os transgênicos,
porém, não é algo restrito aos mercados latino-americanos, como alguns
defensores da transgenia querem fazer acreditar.
A Autoridade Européia em Segurança Alimentar (AESA, no original)
publicou uma orientação básica dando informações mais específicas quanto
aos estudos a serem realizados sobre riscos decorrentes do uso de
nanotecnologia em alimentos (Montague-Jones, 2011), o que por certo inclui a
transgenia. No documento recém-publicado, a AESA defende o uso de práticas
de avaliação de risco clássicas nesta área emergente da ciência dos alimentos.
Isto significa a identificação e caracterização do perigo seguido de avaliação da
exposição e caracterização do risco.
Nem todos, contudo, estão de acordo quanto à necessidade de
aumentar o controle público sobre a produção de alimentos geneticamente
modificados. Uma cientista que já foi Conselheira de Ciência e Tecnologia do
Departamento de Estado dos EUA, Nina Fedoroff, escreveu um longo artigo no
The New York Times criticando o que ela considera ser um excesso de
legislação por parte do governo dos Estados Unidos sobre as técnicas mais
avançadas de engenharia alimentar (Fedoroff, 2011). Segundo Fedoroff, essas
técnicas possibilitarão um aumento considerável da produção de alimentos
com uma redução drástica do custo, tornando possível a eliminação da fome
no mundo.
Diversos pesquisadores rebateram os argumentos de Fedoroff. Dentre
seus críticos, destacamos Márcia Ishii-Eiteman, que aponta a hipocrisia do
discurso da ex-conselheira (cf. Ishii-Eiteman, 2011). A crítica aponta as
ligações da autora do texto anterior com interesses corporativos das grandes
indústrias alimentícias e diz que ela deliberadamente ignora a abundância de
1
relatórios de agências da ONU e estudos científicos independentes que
mostram que os alimentos geneticamente modificados não têm nenhum
impacto positivo no tocante ao combate à fome, mas que, pelo contrário, geram
consequências danosas para a segurança alimentar e ambientar de vastas
populações.
A rejeição aos transgênicos tem sido tão grande em vários países que
algumas empresas já anunciaram que não mais trabalharão com essa
tecnologia, ao menos nos territórios em que o mercado é desfavorável. A
empresa alemã Basf anunciou, em janeiro de 2012, que, frente a desconfiança
persistente na Europa quanto aos alimentos transgênicos, pretende abandonar
o desenvolvimento de novos produtos destinados ao mercado europeu,
centrando suas atividades em mercados mais “permissivos” como Estados
Unidos e Brasil (G1, 2012).
O Brasil é comumente apontado como um dos mercados mais
promissores para os alimentos transgênicos, particularmente como produtor (o
"celeiro do mundo"). Segundo estimativa oficial, a área cultivada com sementes
geneticamente modificadas em nosso país deve chegar a 31,8 milhões de
hectares na safra 2011/12, que começou a ser colhida em janeiro (Valor, 2011).
Trata-se de um aumento de 20,9% em relação à safra anterior. O Brasil é o
segundo maior produtor mundial de transgênicos, atrás apenas dos Estados
Unidos.
No dia 15 de setembro de 2011, a CTNBio (Comissão Técnica Nacional
de Biossegurança) aprovou, a partir de um relatório elaborado por
pesquisadores da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), e
sob protestos de ambientalistas e pesquisadores anti-transgênicos, a liberação
do cultivo de feijão modificado geneticamente para resistir ao vírus causador do
mosaico dourado (Guimarães, 2011). Com isso, a produção se tornaria
supostamente menos nociva à saúde e também mais barata. A CTNBio
aproveitou o ensejo para modificar seu regulamento de modo a agilizar a
aprovação de novos cultivos transgênicos.
Para o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), a aprovação
do cultivo do feijão transgênico foi precipitada e estaria em desacordo com os
testes necessários para demonstrar a segurança dos alimentos modificados
geneticamente na alimentação do consumidor brasileiro (Kozan, 2011). O
1
Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional) posicionouse contrário à liberação do feijão geneticamente modificado por entender que,
além de os estudos de análise de risco apresentados serem insuficientes, não
haveria necessidade de investir na pesquisa e na liberação deste produto, que
demandará uso de agrotóxicos, uma vez que a própria Embrapa já realizou
experimentos bem sucedidos com o cultivo orgânico de feijão sem a infestação
das doenças causadoras do vírus do mosaico dourado e sem comprometer a
produtividade.
Conclusão
A nanotecnologia é o catalisador de algumas revoluções científicas que
apontam maravilhas para esse início de século, mas podem gerar problemas
para os quais não estamos nos preparando adequadamente. Os valores em
jogo ultrapassam a casa dos bilhões de dólares, assim como as possibilidades
de gerar novos produtos e gerar novas áreas de aplicação da naotecnologia
aumenta as espectativas de lucro dos mercados.
Este é um campo de conhecimento que está apenas no início, há muito
ainda para se descobrir . O uso de nanomateriais deve abrir novas frentes de
pesquisa e de aplicação dos nanomateriais em novos produtos. Os exemplos
citados neste artigo reforçam a questão levantada por Díaz (2010) quanto a
relação entre os avanços científicos e tecnológicos, políticas governamentais e
interesses de mercado, assim como os desafios que estão colocados para os
cientistas socais neste campo de conhecimento e um deles é trabalhar com o
princípio de precaução, bem como no campo da divulgação científica buscando
conscientizar e mobilizar a sociedade civil em torno do tema.
Não se trata de ser contra ou a favor a nanotecnologia, mas sim de
buscar estabelecer normas e agências reguladoras que possam realmente
acompanhar o que está sendo colocado no mercado, e determinar os limites
éticos das experiencias neste campo.
Há questões de varias ordens que circulam o tema, questões éticas,
morais, sociais, economicas, políticas, culturais que precisam ser analisadas. O
tema é complexo, envolve várias áreas do conhecimento e interesses diversos.
Os cientistas que produzem o conhecimento e os tecnólogos que transforma
1
esse conhecimento em produtos não podem se eximir de responsabilidade
conforme os impactos que essa nova tecnologia possa causar, assim como
devem a sociedade, que de certa forma os paga, explicações sobre o que vem
produzindo, porque e para quem.
Afinal, os interesses econômicos não devem estar acima dos interesses
sociais.
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Nanotechnology: Sociotechnical interactions and social impacts