IV Reunião Equatorial de Antropologia e XIII Reunião de Antropólogos do Norte e Nordeste 04 a 07 de agosto de 2013 Fortaleza-CE Grupo de Trabalho: 04. Antropologia do Cinema: entre narrativas, políticas e poéticas Título do Trabalho: A cidade e o sonho no cinema de Gustavo Spolidoro: uma breve antropologia de "Ainda orangotangos" Eleandro de Carvalho Gomes Cavalcante [email protected] Instituto de Estudos Sociais e Políticos Universidade do Estado do Rio de Janeiro Como é que alguém vai aparecer com um livro ou uma pintura ou uma sinfonia ou uma escultura que possa competir com uma grande cidade? - Woody Allen, Meia-noite em Paris Nada existe de belo que não contenha em seu interior algo que mereça ser sabido. - Walter Benjamin, Alegoria e drama barroco Sem piscar por oitenta minutos. Faça as contas. Quase uma hora e meia de olhos abertos. Apenas tente: é praticamente impossível mantê-los assim durante umas poucas dezenas de segundos. Aliás, muitas crianças brincam com isso. Em estranho duelo, encaram-se paralisadas e correm uma corrida ao avesso: perde quem pisca primeiro. Aparentemente, o cineasta gaúcho Gustavo Spolidoro não gosta de perder. Ou talvez fosse mais justo dizer que ele não gosta que a brincadeira chegue ao fim. Especialmente em Ainda Orangotangos (2007), uma plano de oitenta minutos durante os quais se desenrola um complexo narrativo de aproximadamente quatorze horas. Neste, como em outros dos filmes que dirigiu, Spolidoro parece fazer uma aposta bastante diferente daquela que fazem nossas crianças hipotéticas, cada uma por si e uma contra a outra. Não é nada pessoal, mas uma elevada aposta contra um olhar ironicamente condicionado por um século de cinema. Afeito à técnica cinematográfica do plano-sequência, quando não há cortes e a câmera se move intensamente, ele parece realmente empenhado em investir contra o que há de mais consolidado em nossa sensibilidade cotidiana. Embalando as duas pontas de uma gangorra onde a fantasia e a realidade parecem uma só coisa, Spolidoro conjuga proeza a beleza para apresentar uma história do tempo presente. O que se vê em Orangotangos então é o desfile ininterrupto de quinze personagens cujas relações e cujos deslocamentos vão tecendo uma trama aos poucos. E esta trama tem um nome: Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul. *** Em Orangotangos, Spolidoro explora os limites da vida em sociedade. E esta não é a primeira vez que o diretor se embrenha na região movediça situada entre os pólos da civilização e da barbárie. Já em Velinhas (1998),1 um plano-sequencia bem mais curto, uma repentina interrupção do fornecimento de energia elétrica de Porto Alegre serve como faísca para que dois casais comecem a experimentar com suas convenções cotidianas. O breu é praticamente completo, apenas pontuado pela luz mortiça de umas poucas velas. É neste ambiente extraordinário, neste parêntese simbólico aberto na rotina de uma grande cidade, é aí que eles vão encontrar um terreno fértil para duvidar inadvertidamente de convenções que os ligam uns aos outros: hábitos de higiene já não são tão rigorosos que não possam ser negociados; rituais de intimidade, tão secretos que não possam ser experimentados de uma outra maneira; e absurdos causais, tão absurdos quanto parecem assustadores. Mas a eletricidade volta logo e com ela voltam também as antigas expectativas sobre como se age em relação aos outros e sobre como se conhece a realidade. Há aí um misto de alívio e decepção. Diferentemente do que se observa em Velinhas, contudo, quando um dos elos avançados de uma gigantesca cadeia de trabalho humano é rompido por breves instantes, o estopim dramático de Orangotangos é a ação excepcionalmente intensa e extensa de um fator meteorológico, o calor implacável do verão de Porto Alegre. O que faz com que os filmes acabem se encontrando em dois extremos da Modernidade, o da falta de energia canalizada pelo homem e o do excesso de energia disponibilizada imediatamente pela natureza. Como diria o sociólogo britânico Anthony Giddens (1991), a vida em sociedade numa cidade como Porto Alegre está alicerçada numa crença compartilhada. Crença em duas coisas. Crença de uns nos outros, de fato. Mas, mais importante, crença de todos em séries de mediações técnicas que nenhum de nós poderia recompor minuciosamente até suas origens. É o caso do abastecimento de luz. Afinal, você conhece o passo-a-passo necessário para que a energia elétrica continue alimentando seu computador enquanto você lê estas palavras? Para Giddens, então, um dia como outro qualquer em Porto Alegre dependeria muito mais dessa fé reiterada das pessoas na estabilidade de sistemas de saberes e práticas altamente especializados do que na fé apenas eventual que elas depositam umas nas outras. E o que fica sugerido em Orangotangos é que as pessoas também precisam acreditar na regularidade das ações das intempéries, sob pena de duvidar 1 O filme está disponível em: http://portacurtas.org.br/filme/?name=velinhas <Acesso em 30/01/2013>. hiperbolicamente umas das outras. É o lembrete exagerado e talvez pouco lisonjeiro de que o ideal moderno de uma convivência pacificada entre seres humanos sempre esteve atrelado a idealizações de condições específicas de temperatura e pressão. Logo no início do filme, a locução do trem adverte com incomum preocupação: "Muita atenção ao desembarcar. Mais atenção ainda com o Sol. A máxima de hoje será de 38 oC". *** Não há protagonistas em Orangotangos, mas antagonismos impessoais entre caricaturas portoalegrenses. Antagonismos de gênero e de geração, entre agremiações esportivas e entre nações. A maioria das personagens sequer tem um nome. Os créditos finais elencam, por exemplo, um Japonês, uma Debutante, uma Morena Teórica, um Velhinho etc. As exceções confirmam esta regra e reforçam a atmosfera onírica do filme. Na cena do trem, a Japonesa é interpelada pelo Japonês aos berros como "Yoko!". Ou é o que parece, já que não há legendas traduzindo um idioma que pode ser tanto o japonês quanto um arremedo linguístico qualquer, um estereótipo aural. A este propósito, recorde-se a célebre interpretação do ator e diretor inglês Charles Chaplin em O grande ditador (1940), praguejando em "alemão" para um público que talvez não entendesse nem uma palavra de alemão. Dá-se algo parecido com "Yoko", que pode significar qualquer coisa em japonês, mas também não significar absolutamente nada em língua nenhuma. As outras exceções são Seu Pedro, o porteiro do Edifício Ada, o prédio de apartamentos residenciais onde se desenrola boa parte da ação de Orangotangos; e Brasa, o homem que faz uma refeição de sushi de peixe de áquario acompanhada de alguns tragos de perfume de grife. Ambos possuem alcunhas que se encontram numa situação de liminaridade classificatória análoga à da língua falada pelo Japonês no trem. É que "Seu Pedro" e "Brasa" não são nomes próprios nem pronomes pessoais, tampouco vocativos genéricos do dialeto urbano de Porto Alegre como "guria", "ô, meu", "tio" etc. São apelidos. De todos esses tipos presentes em Orangotangos, porém, aquele que mais chama a atenção é o Garoto Colorado. É uma figura curiosa. Por um lado, encontrase às margens da vida metropolitana da Porto Alegre encenada no filme. Uma posição que provavelmente também ocuparia em boa parte das grandes capitais do planeta. Afinal, ele ostenta em seu próprio corpo dois dos maiores símbolos de opressão social construídos sob o capitalismo moderno: a sua idade e a cor de sua pele. Fortuito ou não, o jogo de palavras possibilitado pelo atributo "colorado" dá uma síntese precisa do estatuto sociológico desta personagem. Tomada como uma categoria local, a palavra é um adjetivo com o qual se identificam e são identificados os torcedores do Sport Club Internacional, um dos dois maiores times de futebol da cidade. A camisa vermelha trajada com orgulho pelo garoto é o principal uniforme de jogo do "Inter". Daí se tratar de um Garoto Colorado. Mas, tomada como uma entrada lexical,2 "colorado" é um adjetivo que indica o "que se colorou ou coloriu". Portanto, o Garoto Colorado também é um indivíduo colorido ou um indivíduo "de cor", como infelizmente se costuma dizer no Brasil em tom de eufemismo, sempre sem querer ofender, mas ofendendo sempre. Por outro lado, e precisamente por se encontrar em uma posição tão desfavorável na rede de relações sociais que se vai armando durante o filme, o Garoto Colorado flutua entre os numerosos universos apresentados. E a cada um de seus passos, a cada minúscula província de significados que adentra através das interações de que participa, ele próprio sofre uma modulação simbólica: é um exviciado declarado, é um ser humano genuinamente preocupado com o próximo, é um consumidor de quinquilharia global, é um homicida, é um ocidental preconceituoso, é um trabalhador estressado, é uma criança adorável. Seu abandono radical transforma-o no paradigma antropológico da selva de pedra de Orangotangos. Num universo distópico onde todos são meios e ninguém é um fim em si mesmo, ele é apenas o nó mais visível e também o mais frágil onde se cruzam diferentes fluxos globais de dinheiro, objetos, corpos, política, emoções etc. Quanto a isso, é difícil não lembrar da Menina de Vermelho com que o diretor norteamericano Steven Spielberg atravessa anos de guerra imperialista em A lista de Schindler (1993), um brevíssimo suspiro de ordem num mundo que cai diante de nossos olhos. *** 2 http://aulete.uol.com.br/colorado <Acesso em 31/01/2013>. Embora não haja cortes em Orangotangos, isso não significa que o filme não tenha sido cuidadosamente editado. Como Spolidoro recorda em entrevista, "eu gosto [do plano-sequencia] porque tu crias todo o filme antes, nos ensaios. Não tens muita margem pra improviso. [...] A gente ensaiou dois meses justamente pra saber onde improvisar. Tu acaba montando todo o filme antes, entendeu? O filme está pronto antes de ser filmado, teoricamente. Aí tem que torcer para que dê tudo certo, né?!".3 É assim que dois ângulos de câmera chamam a atenção, tanto pela sua recorrência quanto pelo cotraste entre eles, mas sobretudo pelos curiosos efeitos sociológicos que provocam. O primeiro ângulo acompanha furtivamente uma personagem ao longe. Podese ver a figura humana inteira, do tamanho da altura da tela ou menor do que ela. Quase sempre que isso ocorre, observa-se alguém realizando um deslocamento entre os diferentes microcosmos da cidade. É, portanto, uma perspectiva didática: evidenciam-se os poros dos enclaves simbólicos de Porto Alegre. Por exemplo, quando se registra todo o percurso de Brasa descendo pela escadaria do Edifício Ada, é possível consultar praticamente documentadas as sutis transformações pelas quais uma pessoa passa ao se movimentar entre situações tão díspares quanto o recinto doméstico onde abusou sexualmente de um incapaz há poucas horas, por um lado, e, por outro, o mundo da rua onde, com polidez e contrariedade, concede um cigarro a uma desconhecida. No dizer do sociólogo canadense Erving Goffman (1983), é como se este ângulo trouxesse os bastidores da vida cotidiana à tona, isto é, aqueles momentos reservados em que virtualmente todos preparam as impressões que querem causar em público. O outro ângulo de câmera é o close-up nos rostos das personagens. É nos momentos de maior tensão subjetiva que a câmera se põe a inspecionar minuciosamente as faces de Orangotangos, quase como se quisesse ler seus pensamentos. Chega-se mesmo a perder o foco em algumas dessas ocasiões, tamanha a proximidade das lentes; e, figurativamente, tamanha a sua curiosidade. É justamente quando o autocontrole individual está em cheque e a guarda civilizatória está baixa, é justamente aí que a câmera se sente à vontade para capturar detalhadamente algo tão fora do comum. É assim com o Professor de Canto, por exemplo, prestes a estourar na festinha de quinze anos, ou melhor, prestes a 3 http://www.clicrbs.com.br/pioneiro/rs/impressa/11,2298768,1217,11134,impressa.html <Acesso em 28/01/2013>. estourar a festinha de quinze anos. Também é assim com o Garoto Colorado, pelejando com toda a disciplina intelectual necessária para decifrar seu próprio idioma por trás dos caracteres de um cartaz comercial. Mas, principalmente, é assim com todos aqueles que, adormecidos, esgarçam a própria temporalidade do filme: a Japonesa, o Japonês, a Ruiva Pesadelo, Brasa, a Garota Tatuada etc. São tantos sonos sendo dormidos que é difícil dizer quem está sonhando. Portanto, o close-up é uma perspectiva problemática e enseja uma reflexão: qual personagem sonha a narrativa de Orangotangos? *** É possível que a pergunta esteja mal formulada. Já que não parece ser o sonho de ninguém em específico, não será Orangotangos um sonho coletivo? Assim, pode-se tentar substituir "qual" por "quais". Ora, indo tão a fundo na intimidade de todas estas personagens, Spolidoro não terá incumbido o espectador da insólita tarefa de participar de uma noite mal dormida da própria cidade de Porto Alegre? Mais precisamente, não lhe terá proposto o absurdo de assumir o papel de uma das maiores metrópoles do Brasil? Penso que não. A narrativa do filme pode até causar a impressão de uma irracionalidade desenfreada e sufocante, mas que não passará disso. Ou seja, permanecerá uma impressão, um efeito retórico. Penso que o maior mérito do diretor em Orangotangos é o de mobilizar o sonho como um modelo narrativo com o qual descreve o capitalismo do início do século XXI. Seguindo a sugestão do filósofo brasileiro Sérgio Paulo Rouanet (1989), é possível dizer que Spolidoro faz as vezes de um intéprete da sociedade que põe o sonho a serviço do despertar. Em outras palavras, que faz as vezes de alguém que consegue compreender minuciosamente o sentido do passado que acaba de acontecer, de maneira bastante parecida com que algumas pessoas conseguem reconstituir em detalhes o sonho do qual acordaram há pouco. Com isso, não tenho a intenção de argumentar que Spolidoro seja um sociólogo ou um historiador de cátedra ou, ainda, que dissimule uma ambição em sê-lo. Pelo contrário, seguindo uma outra sugestão, agora do sociólogo norte-americano Howard S. Becker (2009), quero argumentar que Orangotangos é uma análise social exemplar em si mesma. Em outras palavras, que Spolidoro possui um claro interesse documental com este filme. E que é em nome deste interesse que ele mobiliza as especificidades da linguagem cinematográfica, e do plano-sequencia em particular, para representar a rede de relações sociais que animam a Porto Alegre de meados dos anos 2000. Em primeiro lugar, recriam-se relações temporais e espaciais de maneira contra-intuitiva em Orangotangos, exagerando-se a Porto Alegre histórica, mas sem perdê-la de vista. Comprimindo-a a ponto de torná-la superficialmente irreconhecível, mas sem a reduzir demais, a ponto de tornar indecifrável a estrutura de relações que a constitui. Preservam-se os seus detalhes em pormenor, ao mesmo tempo em que se os reordena bizarramente. Assim, por exemplo, o passado, o presente e o futuro da cidade se encontram achatados num Sport Club Internacional reticulado: no uniforme em estilo vintage do Garoto Colorado, personagem caçula da trama; no algarismo 5 ali estampado, tão caro ao torcedor colorado; na exibição de uma partida da agremiação, transmitida ao vivo no aparelho de televisão do mercadinho; na mirabolante releitura futebolística da teologia cristã esmiuçada pela Morena Teórica, partindo de um mito edênico, passando por uma queda, por uma peripécia mágica e chegando até uma profecia redentora. Ainda, o distante e o próximo se tocam numa coleção etnológica de um exótico Oriente: na Japonesa, viva ou morta; no tema musical do antigo seriado Ultra-seven; no tal sushi de peixe de aquário; e no Japonês, que também é "coreano", berra sabe-se lá em que idioma, mas que regateia com desenvoltura em português. E, síntese de tudo isso: nesta Porto Alegre, o pôr-do-sol amanhece. Ora, não é precisamente o que acontece com o girar de um planeta globalizado, onde o Sol jamais se põe? É assim que tais rearranjos são esclarecedores ao mesmo tempo em que são desconcertantes. Eles explicitam as ambiguidades invisíveis de uma metrópole contemporânea através da aproximação artificial de pessoas, objetos e circunstâncias que normalmente pareceriam inconciliáveis. Além disso, se pensarmos Orangotangos como uma narrativa cujo molde é um sonho coletivo, também conseguiremos entender melhor a interação entre o próprio filme e suas condições de produção. A começar pela escolha pelo planosequência. Ora, essa técnica não é uma novidade na história do cinema. Por exemplo, Festim diabólico (1948) foi filmado em fins da década de 1940 sob a direção de Alfred Hitchcock. Trata-se de um clássico do cinema e não é apenas como marco cronológico ou institucional que se o menciona aqui. É que, diferentemente de Orangotangos, Festim diabólico possui cortes disfarçados. Aqui, como recorda o crítico brasileiro José Carlos Avellar (2008), a integridade do plano único é construída artificialmente numa época em que, tecnicamente, não era possível filmar planos de uma hora e vinte minutos sem interrupção.4 Portanto, estes cortes disfarçados são a expressão relativamente autônoma de uma condição material objetiva: havia um limite incontornável de dez minutos imposto por um suporte analógico, o rolo de película. Por sua vez, Orangotangos foi rodado num plano sem cortes, ou melhor, em seis. Spolidoro contou com equipamento digital de alta definição, o que lhe permitiu gravar um "mesmo" e longo plano por seis vezes consecutivas durante uma semana do mês de dezembro de 2006, um por dia. No final das contas, ele acabou escolhendo a segunda tomada, a do dia 8, como a tomada definitiva. Seria ingênuo argumentar que Orangotangos é um reflexo mecânico do equipamento digital. A possibilidade técnica de um plano de oitenta minutos não resulta necessariamente num plano-sequencia sem cortes, já que ainda hoje é possível disfarçá-los. Spolidoro também poderia selecionar trechos dos seis dias de gravação. Apesar disso, este caminho foi deliberadamente descartado, como ele explica em entrevista: "Se eu fosse pegar o melhor de cada dia, eu ia montar o filme. [...] ele ia perder a magia do plano-sequencia [...] que vai linkando [sic] uma coisa com a outra". 5 De modo semelhante, a impossibilidade técnica de um plano de oitenta minutos não impediu que Alfred Hitchcock criasse um plano-sequencia a partir de onze planos diferentes. Aqui e ali, a tecnologia obrigou os dois diretores a tomar diferentes decisões criativas visando ao mesmo efeito estético básico escolhido por eles de antemão: um teve que somar planos em Festim diabólico, o outro, subtraí-los em Orangotangos. Isto abre caminho para que se considerem as relações sociais por trás de Orangotangos de maneira bastante ampla. Afinal, se equipamentos podem condicionar e de fato condicionam o processo de produção e o resultado final de um filme, que dizer de todas aquelas pessoas e instituições envolvidas na execução das tarefas necessárias para a realização de Orangotangos? O mesmo Howard S. Becker (1982) afirma que os créditos finais de um filme dão uma boa mostra do caráter cooperativo da produção artística. Assim, basta uma rápida inspeção para que se chegue à conclusão de que é apenas com muita 4 http://www.escrevercinema.com/Ainda_orangotangos.htm <Acesso em 30/01/2013>. http://mais.uol.com.br/view/a56q6zv70hwb/metropolis--ainda-orangotangos04023866D4B10326?types=A& <Acesso em 31/01/2013>. 5 dificuldade que se fala de Orangotangos como um filme de Gustavo Spolidoro. Se fôssemos realmente rigorosos, colocaríamos seu nome entre aspas para designar a coletividade envolvida na gigantesca ação coordenada que produziu o filme. O crítico brasileiro Leonardo Levis (2007) resume com bastante precisão em sua crítica: Orangotangos é um filme "de galera".6 E quem faz parte dessa galera? Podese começar citando Paulo Scott, autor do livro de contos Ainda orangotangos que serviu de base para o roteiro, escrito a quatro mãos por Spolidoro e Gibran Dipp. Há que se lembrar também do fotógrafo Juliano Lopes Fortes, que dançou uma verdadeira quadrilha por seis vezes consecutivas: seu par inseparável, uma câmera de vídeo digital em alta definição; o corpo de baile, os atores, os figurantes, a equipe de produção e, principalmente, os caprichos de Porto Alegre: "seus habitantes, suas idiossincrasias, seu brilho", como se lê nos créditos. Também é importante chamar a atenção para a presença de bandas locais na trilha sonora de Orangotangos, como Arthur de Faria & Seu Conjunto e Damn Laser Vampires. A própria sonoridade de suas canções já expressa bem a verdadeira colagem portoalegrense que se vê e, é claro, se ouve no filme. Se os Damn Laser Vampires cantam em português e em inglês e se gabam de ser o "trio de punk-polka favorito de Satã",7 Arthur de Faria & Seu Conjunto querem aproximar o folclore regional do Rio da Prata de um folclore imaginário dos Bálcãs, salpicando-os com "tangos, milongas, valsas brasileiras, sambas, zambas, mas também o fox-trot, o beguine, o bolero".8 Aliás, a "presença" deste último conjunto no filme foi levada às últimas consequências: alguns de seus componentes criaram a trilha sonora em som direto. Assim, é possível vê-los tocando no trem, no Mercado Público de Porto Alegre, na festinha de quinze anos etc. Outro elemento cuja importância para a composição da paisagem de Orangotangos é aparente são os grafites de artistas que atuam na cidade há anos, como Trampo e o grupo Woshoops. Muitos elementos da cidade já serviram de suporte para as suas tintas: cabines telefônicas, vagões de trens e mesmo a fachada do Escritório Municipal de Turismo. O que também chama a atenção para como diversas instâncias do poder público condicionaram indelevelmente o resultado final de Orangotangos. Desde recursos financeiros do Governo Federal destinados a filmes de baixo orçamento, conforme o 6 http://www.contracampo.com.br/89/festaindaorangotangos.htm <Acesso em 28/01/2013>. http://www.myspace.com/damnlaservampires <Acesso em 31/01/2013>. 8 http://www.myspace.com/seuconjunto <Acesso em 31/01/2013>. 7 Edital no 2,9 de 25 de outubro de 2005, até o apoio dispensado pelo 9o Batalhão da Polícia Militar durante as gravações. Na edição de 1979 do Festival de Cinema de Cannes, o diretor norteamericano Francis Ford Coppola se explicava numa entrevista coletiva: "Meu filme não é sobre o Vietnã. Ele é o Vietnã" (meu grifo). Foi assim que ele buscou resumir o estreito vínculo que se estabeleceu entre os 238 dias de filmagem que dirigiu nas Filipinas, em 1976, por um lado; e o filme daí resultante, Apocalypse now (1979), por outro. E concluiu: "É como realmente foi. Foi uma loucura. E a maneira como o fizemos foi bem parecida com a que os americanos estiveram no Vietnã. Estávamos na selva. Havia muitos de nós. Tínhamos acesso a muito dinheiro, a muito equipamento e, pouco a pouco, ficamos loucos". Deu-se algo muito semelhante entre o processo de produção encabeçado por Gustavo Spolidoro e Orangotangos, ao mesmo tempo em que muito diferente. O ponto de chegada de um cineasta foi o ponto de partida do outro. Quer dizer, foi apenas depois de meses de gravação e não sem alguma surpresa aparentemente, foi apenas aí que Coppola e sua equipe se viram como parte da realidade que pretendiam representar. A partir daí, é interessante e também um pouco assustador imaginar como teria sido um 239o dia de filmagens nas Filipinas. Um pouco parecido talvez com o que deve ter sido o primeiro dia de gravações em Porto Alegre. É possível que se tivesse adotado então a mesma premissa criativa que parece ter servido de eixo para a produção de Orangotangos desde o início: o reconhecimento da íntima relação que existe entre biografias individuais e amplos processos sociais. No caso, entre os produtores e a metrópole. Neste filme, portanto, a produção e o produto não se confundem numa metáfora como a de Coppola, mas se iluminam justapostas numa homologia. Como argumenta Leonardo Levis em outro momento: "Ainda Orangotangos, o filme, não pode ser descolado de Ainda Orangotangos, o projeto até porque os dois vivem em perfeita comunhão dentro da tela". Orangotangos é Porto Alegre, de fato, na medida em que Spolidoro e parte significativa de seus colaboradores formam um pequeno mundo dos quais se constitui a cidade. Mas Orangotangos também é sobre Porto Alegre, já que é uma interpretação de outros tantos pequenos mundos que fazem parte daquela mesma realidade. Como Spolidoro explica em entrevista: "O cinema é narrativo. Se a nossa vida continua 9 http://www.cultura.gov.br/site/wp-content/uploads/2008/02/sav_longabo-2005-etapa2005_selecionados.pdf <Acesso em 30/01/2013>. narrativa e linear, o cinema, que reflete a nossa vida, com algumas liberdades, e a sua linguagem, continuarão assim".10 Bibliografia citada BENJAMIN, W. "Alegoria e drama barroco". In: _____. Origem do drama barroco alemão. Tradução: Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Editora Brasiliense, 1984. BECKER, H. S. Artworlds. Berkeley: University of California Press, 1982, pp. 7-14. BECKER, H. S. Falando de sociedade: ensaios sobre as diferentes maneiras de representar o social. Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009, pp. 7-11. GIDDENS, A. As conseqüências da modernidade. Tradução: Raul Fiker São Paulo: Editora UNESP, 1991, pp. 29-37. (Biblioteca básica) GOFFMAN, E. A representação do eu na vida cotidiana. Tradução: Maria Célia Santos Raposo. Petrópolis: Vozes, 1983, 29-36. (Antropologia 8) ROUANET, S. P. "As galerias do sonho". In: _____. As razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, pp. 116-23. Bibliografia consultada BENJAMIN, W. "La obra de arte en la época de su reproductibilidad técnica". In: _____. Discursos interrumpidos I: filosofia del arte y de la historia. Tradução: Jesús Aguirre. Buenos Aires: Taurus, 1989, pp. 15-57. REISZ, K.; MILLAR, G. The technique of film editing. Oxford: Focal Press, 2010, pp. 193-7. SARLO, B. "El taller de la escritura". In: _____. Siete ensayos sobre Walter Benjamin. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2000, pp. 21-31. Filmes citados ALLEN, W. Meia-noite em Paris [Midnight in Paris], 2011. 10 http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&uf=1&l ocal=1&template=3948.dwt§ion=Blogs&post=100451&blog=508&coldir=1&topo=3994.dwt <Acesso em 28/01/2013>. CHAPLIN, C. O grande ditador [The great dictator], 1940. COPPOLA, F. F. Apocalypse now, 1979. SPIELBERG, S. 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