UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ CENTRO DE TECNOLOGIA DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA ESTRUTURAL E CONSTRUÇÃO CIVIL CURSO DE ENGENHARIA CIVIL MARCELO DIEGO DE ALMEIDA BARBOSA ANÁLISE DE FLECHAS EM VIGAS DE CONCRETO ARMADO FORTALEZA 2010 ii MARCELO DIEGO DE ALMEIDA BARBOSA ANÁLISE DE FLECHAS EM VIGAS DE CONCRETO ARMADO Monografia submetida à Coordenação do Curso de Engenharia Civil da Universidade Federal do Ceará, como requisito para obtenção do grau de Engenheiro Civil. Orientador: Prof. Dr. Joaquim Eduardo Mota B199a Barbosa, Marcelo Diego de Almeida Análise de flechas em vigas de concreto armado / Marcelo Diego de Almeida Barbosa. 85f: il. color. enc. Orientador: Prof. Dr. Joaquim Eduardo Mota Área de concentração: Análise de Estruturas Monografia (graduação) - Universidade Federal do Ceará, Centro de Tecnologia. Depto. de Engenharia Estrutural e Construção Civil , Fortaleza, 2010. 1. Concreto armado 2. Estruturas de concreto I. Mota, Joaquim Eduardo (orient.) II. Universidade Federal do Ceará – Curso de Engenharia Civil III.Título CDD 620 FORTALEZA 2010 iii iv Aos meus pais, Telmo Barbosa e Maria das Graças de Almeida Barbosa Por todo incentivo e amor. v AGRADECIMENTOS A DEUS, que me deu vida e inteligência, e que me dá força para continuar a caminhada em busca dos meus objetivos. Aos meus pais Telmo Barbosa e Maria das Graças de Almeida Barbosa, pelo amor que me dedicaram e em especial a minha mãe, por ser um exemplo para mim e nunca medir esforços em superar os obstáculos enfrentados. Aos meus irmãos Márcio Talvany de Almeida Barbosa e a Telma Patricia de Almeida Barbosa, por sempre serem meu apoio nos momentos difíceis e por me ensinarem os reais valores da vida. À minha namorada, Sâmara Ribeiro e Silva pela paciência, incentivo e pelo apoio incondicional ao longo da graduação. Ao professor Dr. Joaquim Eduardo Mota, pela orientação, pelos conhecimentos transmitidos e sem sua importante ajuda esse trabalho não teria sido concretizado. Ao engenheiro Dácio Carvalho, por ter aberto as portas de sua empresa, por ter transmitido o seu enorme conhecimento e por ter colaborado na concretização desse sonho. Ao amigo e colega de trabalho, Thiago Bruno Reis de Azevedo pela sua enorme paciência, boa vontade em transmitir seu conhecimento e pela amizade adquirida ao longo dos anos. Aos amigos Vitor Rocha Holanda, Justino Café Leitão, Pedro Campelo Nogueira, Marconi Nunes Santana, Joaquim Umbelino Neto pelo apoio nessa caminhada e em especial ao grande amigo Régis Bezerra de Oliveira pela amizade, incentivo e companheirismo ao longo da graduação. Aos Senhores, Rômulo César Estevam Angelim e José Heli Leite Santiago por terem sido os responsáveis em despertar meu interesse em fazer o curso de Engenharia Civil. vi RESUMO Nos dias de hoje pode-se atingir um alto nível de refinamento na análise estrutural, sendo cada vez mais comum a utilização de modelos numéricos que consideram a não- linearidade física dos materiais, a fissuração, a fluência, a retração do concreto, o comportamento elasto-plástico da armadura, além da influência do processo construtivo no comportamento da estrutura. Neste trabalho será apresenta-se a formulação simplificada da NBR 6118:2003 item 17.3.2.1: “Avaliação aproximada de flechas em vigas” e avalia-se sua eficiência no cálculo de flechas pela comparação com resultados obtidos por métodos numéricos mais refinados e comparados ao modelo simplificado da NBR 6118:2003. Elaborou-se uma planilha em Excel que serviu de base para a obtenção desses dados. O modelo não linear mais refinado utilizado é o programa CONSNOU. Para uma avaliação mais refinada das flechas em vigas de concreto armado utilizou-se o programa computacional denominado CONSNOU desenvolvido pelo Professor Antonio R. Marí do Departamento de Engenharia da Universidade Politécnica da Catalunha Barcelona/Espanha. Este programa permite considerar os efeitos da fluência, fissuração, retração e da colaboração do concreto tracionado entre as fissuras para a rigidez à flexão dos elementos. Esse programa serviu de base para a comparação dos resultados obtidos pela formulação da NBR6118:2003. Palavras-chave: flechas em vigas; concreto armado; análise-estrutural; NBR 6118:2003. vii LISTA DE FIGURAS Figura 2.1 - Deslocamentos de vigas sobre carregamento distribuído.................... 5 Figura 2.2 - Diagrama tensão – deformação do concreto...................................... 7 Figura 2.3 - Ensaio de tração direta....................................................................... 9 Figura 2.4 - Ensaio de tração por compressão diametral....................................... 10 Figura 2.5 - Ensaio de tração na flexão.................................................................. 10 Figura 2.6 - Comportamento do concreto na flexão pura (Estádio I).................... 12 Figura 2.7 - Comportamento do concreto na flexão pura (Estádio II)................... 12 Figura 2.8 - Comportamento do concreto na flexão pura (Estádio III).................. 13 Figura 2.9 - Diagrama Retangular.......................................................................... 14 Figura 2.10 - Exemplo de distribuição das fissuras de uma viga........................... 14 Figura 2.11 - Retração do concreto........................................................................ 15 Figura 2.12 - Reversibilidade da retração.............................................................. 17 Figura 2.13 - Fluência do concreto........................................................................ 17 Figura 2.14 - Reversibilidade da fluência.............................................................. 18 Figura 2.15 - Acréscimo de deformação devido à fluência................................... 19 Figura 2.16 - Seção Retangular no Estádio I......................................................... 21 Figura 2.17 - Seção Retangular no Estádio II........................................................ 22 Figura 2.18 - Limite do momento de fissuração.................................................... 23 Figura 2.19 - Valores do coeficiente α................................................................... 27 Figura 2.20 - Flecha imediata para as cargas quase permanentes pelos diferentes métodos.................................................................................................................. 27 Figura 2.21 - Flecha total pelos diferentes métodos.............................................. 29 Figura 2.22 - Dano em elementos não estruturais................................................... 31 Figura 3.1 - Gráfico do deslocamento x limite..................................................... 57 Figura 3.2 - Gráfico do deslocamento x parcela de carga acidental e permanente 58 Figura 3.3 - Gráfico do deslocamento x tempo de aplicação das cargas............... 59 Figura 3.4 - Gráfico do deslocamento x base da viga........................................... 61 Figura 3.5 - Gráfico do deslocamento x altura da viga......................................... 62 Figura 3.6 - Gráfico do deslocamento x armadura de compressão........................ 63 viii Figura 3.7 - Gráfico do deslocamento x vão da viga............................................. 64 Figura 3.8 - Gráfico do deslocamento x Fck.......................................................... 65 Figura 4.1 - Deslocamento linear x não linear....................................................... 68 Figura 4.2 – Fluxograma simplificado do programa CONSNOU........................ 71 Figura 4.3 – Gráfico de deslocamento NBR 6118:2003 x CONSNOU............... 71 ix LISTA DE TABELAS Tabela 2.1 – Valores do coeficiente ξ em função do tempo ................................. 28 Tabela 2.2 – Limites para deslocamentos ............................................................. 32 Tabela 2.3 - Valores de ψ1 e ψ2.............................................................................. 37 Tabela 3.1 - Exemplo da guia de cálculo da planilha em Excel............................. 49 Tabela 3.2 – Exemplo da guia dados e resultados em Excel................................. 50 x SUMÁRIO 1. 2. INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 1 1.1. Aspectos gerais ........................................................................................................... 1 1.2. Justificativa................................................................................................................. 2 1.3. Objetivos ..................................................................................................................... 3 1.4. Organização do trabalho ........................................................................................... 4 CÁLCULO DE DESLOCAMENTOS EM VIGAS DE CONCRETO ARMADO ..... 5 2.1 Introdução .................................................................................................................. 5 2.2 Variáveis que influem nos deslocamentos ............................................................... 6 2.2.1 Propriedades do concreto.................................................................................... 6 2.2.2 Fissuração ......................................................................................................... 11 2.2.3 Retração ............................................................................................................ 15 2.2.4 Fluência ............................................................................................................ 17 2.3 2.3.1 Considerações iniciais ...................................................................................... 20 2.3.2 Cálculo dos deslocamentos imediatos .............................................................. 26 2.3.3 Cálculo dos deslocamentos diferidos ............................................................... 28 2.4 Controle dos deslocamentos .................................................................................... 30 2.4.1. Metodologia do controle de deslocamentos ..................................................... 31 2.4.2. Adoção de medidas para o controle de deslocamentos excessivos .................. 35 2.5 Considerações de ações ............................................................................................ 36 2.5.1 Classificações das ações ................................................................................... 36 2.5.2 Combinações de ações ...................................................................................... 37 2.6 3. Cálculo dos deslocamentos ...................................................................................... 20 Considerações finais ................................................................................................ 38 ANÁLISE DE FLECHAS EM VIGAS DE CONCRETO ARMADO ....................... 40 3.1 Introdução ..................................................................................................................... 40 3.2 Cálculo de flechas em vigas de concreto armado....................................................... 40 3.2.1 Exemplo 1 ................................................................................................................ 40 3.2.2 Exemplo 2 ................................................................................................................ 45 3.3 Cálculo de flechas em vigas de concreto armado utilizando o Excel .................. 49 3.3.1 Introdução ................................................................................................................ 49 3.3.2 Cálculo de flechas em vigas de concreto armado utilizando o Excel...................... 49 xi 3.3.3 Análise de variáveis que influem nos deslocamentos de vigas de concreto armado...............................................................................................................................57 3.4 Considerações finais ..................................................................................................... 66 4. ANÁLISE NUMÉRICA DO PROGRAMA CONSNOU ............................................ 67 4.1 Aspectos gerais .............................................................................................................. 67 4.2 Análise não linear ......................................................................................................... 68 4.2.1 Não linearidade física .............................................................................................. 69 4.2.2 Não linearidade geométrica ..................................................................................... 70 4.2 Programa CONSNOU .................................................................................................. 70 4.3 Análise numérica .......................................................................................................... 72 4.4 Considerações finais ..................................................................................................... 74 5. CONCLUSÕES............................................................................................................... 75 1 1. INTRODUÇÃO 1.1. Aspectos gerais Com o progresso das construções, tanto na agilidade dos processos construtivos quanto na evolução dos projetos estruturais, as edificações deixaram de ser robustas e passaram a ser mais esbeltas. A altura desses empreendimentos também acompanhou essas modificações, onde temos estruturas bem mais verticalizadas. Esses fatores, anteriormente citados, podem ser atribuídos ao aprimoramento das técnicas de análise estrutural e desenvolvimento das tecnologias dos materiais utilizados na construção civil. Entretanto, surgiram novos problemas nas construções. Pois, como essas estruturas antigamente eram robustas, as vigas não apresentavam problemas de deslocamentos excessivos devido a essa elevada rigidez. A consequência foi um maior nível de fissuração das peças, diminuindo sua rigidez e conseqüentemente aumentando os deslocamentos. Por isso, a questão do controle de fissuração e o controle de deslocamentos vêm sendo cada vez mais importante no desenvolvimento de projetos nos dias de hoje. Foi introduzido um maior cuidado na construção civil chamado de durabilidade. De acordo com o item 6.1 da NBR 6118:2003: “As estruturas de concreto devem ser projetadas e construídas de modo que sob as condições ambientais previstas na época do projeto e quando utilizadas conforme preconizados em projeto conservem sua segurança, estabilidade e aptidão em serviço durante o período correspondente a sua vida útil”. Onde entendemos que vida útil é o período que a estrutura mantém as mesmas características iniciais definidas em projeto. Os deslocamentos excessivos são um exemplo de prejuízo às estruturas em serviço, em que os danos vão além de efeitos na sua própria funcionalidade e estética, como a de outros elementos, estruturais ou não que a eles estejam ligados. Podemos citar como exemplos desses tipos de danos o mau funcionamento de portas e janelas, o acúmulo de água em lajes de cobertura e marquises e a vibração excessiva em lajes de piso. Esses danos anteriormente citados não têm relação com a segurança, porém os efeitos que eles podem causar são de desconforto e desconfiança aos usuários. Sendo assim, todo engenheiro deverá preocupar-se tanto em garantir a segurança da estrutura à ruína quanto ao comportamento da estrutura em serviço, pois estes estão 2 intimamente ligados ao bom funcionamento e desempenho da edificação. Kimura (2009) alerta que quando um estado limite de serviço (ELS) é alcançado, o uso da edificação é inviabilizado, da mesma forma quando um estado limite último (ELU) é atingido. 1.2. Justificativa A evolução das estruturas de concreto armado possibilitou a diminuição das seções transversais das vigas, das espessuras das lajes. Com isso, mesmo tendo uma maior eficiência as estruturas tornam-se mais flexíveis e tornam o problema dos deslocamentos excessivos mais comuns. Portanto, a avaliação das estruturas em serviço torna-se imprescindível para o bom funcionamento da edificação. Nesse contexto, as normas vêm cada vez mais exigindo o atendimento às verificações das peças em serviço: na fissuração, nas deformações excessivas e vibrações. Para isso, essas normas especificam faixas de valores limites nos quais as peças deverão atender. Para os deslocamentos de peças fletidas dois critérios poderão ser atendidos: ou a adoção de altura mínima, ou a verificação dos deslocamentos comparados aos seus valores limites. Segundo Guarda (2005), no primeiro critério, se a altura de um elemento for superior a um determinado limite, que deve ser respeitado independentemente da altura requerida pelo dimensionamento à flexão, pode-se admitir que seus deslocamentos não causarão danos à edificação. Alguns desses critérios de altura mínima são bastante simples, essencialmente empíricos e baseados na experiência adquirida ao longo do tempo, para cada tipo de elemento estrutural. Outros, propostos por estudos mais recentes, já tem abordagens mais racionais, mas mesmo assim fornecem expressões muito complexas. Diante disso, percebe-se a conveniência de se desenvolverem novos critérios de altura mínima, de aplicação prática, que consigam dosar as simplificações e a necessidade de se considerarem diversos fatores importantes para o estudo dos deslocamentos. Já na verificação de deslocamentos comparados aos seus valores limites, pode ser feito de diversas maneiras. Alguns métodos possuem resultados mais aproximados, pois não levam em consideração alguns fatores que influem diretamente nos resultados finais desses deslocamentos, já outros modelos mais refinados consideram alguns efeitos não contemplados pelos métodos simplificados. O processo de cálculo de flechas da norma NBR 6118: 2003 3 leva em consideração apenas alguns desses fatores e com uma abordagem simplificada, variáveis essas que serão melhores discutidas posteriormente. Dentro dessa ótica, é necessário avaliar os métodos para obtenção de flechas atualmente utilizados, compará-los a modelos teóricos mais realistas e a modelos experimentais. Em seguida, devem-se ajustar os modelos simplificados e calibrá-los a modelos mais realistas para obtenção de resultados mais satisfatórios. 1.3. Objetivos O objetivo geral deste trabalho é apresentar a formulação da NBR 6118:2003, no item 17.3.2.1, avaliação aproximada de flechas em vigas. Utilizando-se de uma planilha que automatize esse processo na obtenção das flechas. Os objetivos específicos são: Elaborar uma planilha no Excel para que se obtenham as flechas em vigas de forma mais rápida; Apresentar alguns exemplos de cálculo de flechas em vigas utilizando o modelo proposto pela NBR 6118:2003; Utilizar o programa CONSNOU de análise não-linear para obter as flechas pelo modelo não-linear mais refinado; Comparar os resultados obtidos pelo método da NBR 6118:2003 e pelo programa CONSNOU; Analisar as possíveis causas das divergências nos resultados entre esses dois modelos e sugerir qual medida corretiva deverá ser tomada no sentido de adotar um resultado mais próximo do real; Analisar as vantagens e desvantagens do modelo adotado pela NBR 6118:2003. 4 1.4. Organização do trabalho O primeiro capítulo trata da contextualização do problema, justificativa e objetivos. O segundo capítulo apresenta um resumo detalhado de como obter as flechas imediatas e diferidas no tempo em vigas de concreto armado, utilizando o método de avaliação aproximada da NBR 6118:2003, bem como os conceitos dos efeitos que afetam os deslocamentos como: fluência, retração, fissuração. No terceiro capítulo, apresentaremos de forma sucinta a forma como foi elaborada a planilha em Excel que será utilizada para obtenção de flechas em vigas de concreto armado e também alguns exemplos de cálculo de flechas em vigas de concreto armado. Em seguida analisaremos os deslocamentos avaliando as variáveis que os influem. No quarto capítulo serão apresentadas as bases do programa computacional CONSNOU, fundamentado no método dos elementos finitos, que foi empregado na análise numérica. Ainda neste capítulo, será apresentada uma avaliação do programa computacional através da simulação de modelos reais utilizados para validarem a precisão desse programa. Por fim, no quinto capítulo, serão apresentadas as conclusões, algumas considerações finais sobre as análises realizadas e sugestões para nova pesquisa. 5 2. 2.1 CÁLCULO DE DESLOCAMENTOS EM VIGAS DE CONCRETO ARMADO Introdução Este capítulo aborda alguns conceitos básicos relevantes como a definição de viga, os tipos de deslocamentos, as combinações de carregamento, apresenta também o estado limite de serviço (ELS-DEF), os conceitos de fluência, retração, fissuração, suas influências nos deslocamentos e os métodos simplificados para avaliação de flechas em vigas de concreto armado. Um conceito que devemos ter bem definido é a definição de viga. De acordo com o item 14.4.1.1 da NBR 6118:2003, vigas são elementos lineares em que a flexão é preponderante. Elementos lineares são aqueles em que o comprimento longitudinal supera em pelo menos três vezes a maior dimensão da seção transversal, sendo também denominada de barras. Em uma estrutura que está solicitada por forças, os seus membros sofrem deformações e deslocamentos, isto é, os pontos dentro da estrutura deslocam-se para novas posições, com exceção dos pontos de apoios não deslocáveis. Esses deslocamentos podem ser de translação, de rotação, ou uma combinação de ambos (GERE; WEAVER, 1987). Em nosso estudo iremos avaliar os deslocamentos de translação. Onde, esse deslocamento pode ser divido em deformação imediata e deformação diferida. Os deslocamentos imediatos podem ser denominados também de iniciais e surgem logo após a aplicação dos carregamentos. Já a deformação diferida ou deformação lenta ocorrem ao passar do tempo, conforme ilustrado na Figura 2.1. A soma dessas duas parcelas de deslocamentos conduz a flecha final. Figura 2.1 - Deslocamentos de vigas sobre carregamento distribuído – Fonte: ALVA (2010). 6 2.2 Variáveis que influem nos deslocamentos Vários são os fatores que exercem influência, em maior ou menor escala, sobre a ordem de grandeza dos deslocamentos. Como menciona o ACI 435.2R (1966), podem ser citados, dentre outros: o tipo, a grandeza e o histórico do carregamento; o vão e as condições de apoio do elemento estrutural; as propriedades geométricas de sua seção transversal; as propriedades dos materiais utilizados; a fissuração, a retração e a fluência do concreto; as taxas de armadura de tração e de compressão e o processo de execução da estrutura. Algumas dessas variáveis têm uma influência maior e outras uma preponderância menor. Podemos citar fatores que afetam de maneira diretamente proporcional os deslocamentos como o vão da viga e o carregamento. Já os que implicam em alterações de menor magnitute são a taxa de armadura de compressão, que, na realidade interfere na retração, a alteração da largura da viga. Algumas dessas variáveis serão abordadas a seguir. 2.2.1 Propriedades do concreto Algumas propriedades do concreto apresentam interferência direta no cálculo de deslocamentos de vigas em concreto armado. De acordo com a NBR 6118:2003, o módulo de elasticidade e a taxa de armadura à tração são alguns exemplos de fatores que colaboram diretamente para a variação nos deslocamentos. Outros fatores que podem ser citados, porém de uma forma indireta são a resistência à compressão, a armadura de flexão, a fissuração, a retração e a fluência. A seguir, algumas dessas variáveis serão descritas. A. Resistência à compressão Denominada de Fc. É a principal característica do concreto, a qual é determinada pelo ensaio de corpos de prova submetidos à compressão centrada. Esse ensaio é regulamentado pela NBR 12654:1992 – Controle tecnológico de materiais componentes de 7 concreto. No Brasil, utilizam-se corpos de prova (CP’s) cilíndricos, com diâmetro da base de 15 cm e altura de 30 cm e também corpos de prova com base de 10 cm e altura de 20 cm. A resistência à compressão do concreto deve ser relacionada à idade de 28 dias (NBR 6118:2003, item 8.2.4) e será estimada a partir do ensaio de determinada quantidade de corpos de prova. Diversos fatores que afetam os deslocamentos nas peças de concreto armado estão ligados ao Fck. Podemos citar o módulo de elasticidade, consequentemente a rigidez da estrutura e a rigidez à tração, pois ao aumentar o Fck implicará em um valor mais elevado de resistência à tração e, por conseguinte num aumento do momento de fissuração, elevando esse fator para um valor superior. Entretanto, Guarda (2005) alerta que a diminuição dos deslocamentos não tem a mesma proporção do aumento da resistência do concreto à compressão, e também que, se esse aumento for obtido a partir de um consumo muito elevado de cimento, os benefícios decorrentes da resistência mais alta podem até ser anulados pelo crescimento da retração química. B. Módulo de elasticidade É uma constante da relação tensão-deformação do concreto quando esta mantiverse comportando-se de maneira elástico-linear. Porém o concreto comporta-se de maneira não linear quando submetido a esforços de certa magnitude. Esse comportamento é consequência da microfissuração progressiva que ocorre na interface entre o agregado graúdo e a pasta de cimento. O diagrama da Figura 2.2 representa o comportamento dessa relação tensão x deformação. Figura 2.2 – Diagrama tensão – deformação do concreto – Fonte: NBR 6118 (2003) 8 Onde o módulo tangente Eci representa a inclinação da reta que passa pela origem e a corta no diagrama no ponto correspondente a uma tensão da ordem de 0,5 fc, sendo fc a resistência à compressão simples. Superando o valor de 0,5 fc passará a ser utilizado o módulo de elasticidade secante Eci. A determinação experimental do módulo de deformação do concreto é prevista em norma específica, a NBR 8522: 1994: Concreto – Determinação do módulo de deformação estática e diagrama tensão-deformação – Método de ensaio. Na falta de determinação experimental e não existindo dados precisos sobre a resistência recomenda-se adotar a idade do concreto a 28 dias. Pela NBR 6118:2003, item 8.2.8, o módulo de elasticidade tangente inicial do concreto é estimado pela expressão seguinte, com fc e Eci na unidade MPa. (2.1) Para verificações de peças em serviço, pode ser adotado o chamado módulo de elasticidade secante, à compressão e à tração, multiplicando por 0,85 o módulo tangente da equação 2.1. Esse módulo secante é adotado na maioria das estruturas como um valor representativo para as tensões atuantes. (2.2) Portanto, essa variável atua de maneira diretamente proporcional nas flechas em vigas de concreto armado. Pois, a rigidez de uma estrutura é definida pelo produto da inércia com o módulo de elasticidade e quanto maior for esse produto, mais rígida ficará a peça e o resultado das flechas será inversamente proporcional a esse produto. C. Resistência à tração (fct) É importante no estudo de deslocamentos em peças de concreto armado, onde indica o início da fissuração. Com o aparecimento dessas fissuras há uma diminuição do valor da rigidez e o aumento dos deslocamentos. O concreto possui resistência preponderante à compressão, já a resistência à tração para concretos convencionais é da ordem de grandeza de 1/10 de sua capacidade a compressão. Alguns estudos apontam a importância de considerar a resistência à tração. Stramandinoli (2010) indica que mesmo após o início da fissuração, o concreto tracionado 9 entre fissuras tem papel importante na resistência do elemento, devido à transferência de tensões causadas pela aderência entre aço e concreto. Este efeito é conhecido como “tensionstiffening” ou enrijecimento à tração. Onde a formulação de Branson que será descrita posteriormente leva de forma simplificada a consideração desse efeito. Para a determinação dessa resistência existem três tipos de ensaios normatizados: tração direta, compressão diametral e tração na flexão. Esses três tipos de ensaios serão descritos logo abaixo. I – Tração direta Neste ensaio, considerado de referência, a resistência à tração, fct, é determinada aplicando-se tração axial, até a ruptura, em corpos de prova de concreto simples conforme apresentado na Figura 2.3. A seção central é retangular, medindo 9 cm por 15 cm e as extremidades são quadradas, com 15 cm de lado. Figura 2.3 - Ensaio de tração direta – Fonte: PINHEIRO (2007) II – Ensaio de tração na compressão diametral É o ensaio mais utilizado. Também é conhecido internacionalmente como ensaio brasileiro, em virtude de ter sido desenvolvido pelo brasileiro Lobo Carneiro, em 1943. Esse ensaio consiste na utilização de um corpo de prova com dimensões de 15 cm por 30 cm, colocado com o eixo horizontal entre os pratos da prensa, conforme ilustrado na Figura 2.4, sendo aplicada uma força até a sua ruptura por tração indireta, também conhecida por fendilhamento. 10 Figura 2.4 – Ensaio de tração por compressão diametral – Fonte: PINHEIRO (2007) O valor da resistência à tração por compressão diametral, fct,SP, encontrado neste ensaio, é um pouco maior que o obtido no ensaio de tração direta. Este ensaio é simples de ser executado e fornece resultados mais uniformes do que o da tração direta. Esse ensaio está descrito na NBR 7222:1994. III – Ensaio de tração na flexão Para a realização desse ensaio, utiliza-se um corpo de prova de seção prismática e o submete à flexão com carregamentos em duas seções simétricas até a ruptura, ver Figura 2.5. Esse ensaio também é conhecido por “carregamentos nos terços”, pelo fato das seções carregadas se encontrarem nos terços dos vãos. Os valores encontrados para a resistência à tração na flexão, fct, f, são maiores que os encontrados nos ensaios descritos anteriormente. Esse ensaio é descrito na NBR 12142:1991. Figura 2.5 - Ensaio de tração na flexão – Fonte: PINHEIRO (2007) 11 A NBR 6118:2003 recomenda que para a obtenção da resistência à tração direta fct, pode ser considerada igual a 0,9 fct, SP ou 0,7 fct, f, ou na falta de ensaios para a obtenção de fct,SP e fct,f, pode ser avaliado o seu valor médio ou característico por meio das equações seguintes: (2.3) (2.4) (2.5) Onde: fct,m e fck são expressos em megapascal. Sendo 7 MPa, estas expressões podem também ser usadas para idades diferentes de 28 dias. 2.2.2 Fissuração É uma característica do concreto, ou seja, durante a vida útil de uma estrutura e mesmo durante sua construção, se atuar um carregamento que provoque um estágio de fissuração a rigidez correspondente a esse estágio ocorrerá para sempre. Com a diminuição da intensidade do carregamento, as fissuras podem até fechar, porém jamais deixarão de existir. O grau de fissuração de uma estrutura de concreto armado dependerá do nível de carregamento que estiver atuando na própria peça, da qualidade do concreto, da quantidade de armadura na peça, das condições de cura, da desforma e reescoramento. As diversas fases pelas quais passa a seção de concreto, ao longo desse carregamento, dá-se o nome de estádios. Essas fases são divididas em três etapas: Estádio I, Estádio II e Estádio III. (PINHEIRO , 2007) apresenta essas três fases da seguinte forma: 1) Estádio I: 12 Esta fase corresponde ao início do carregamento. As tensões normais que surgem são de baixa magnitude e dessa forma o concreto consegue resistir às tensões de tração. Temse um diagrama linear de tensões, ao longo da seção transversal da peça (Figura 2.6). Figura 2.6 – Comportamento do concreto na flexão pura (Estádio I) – Fonte: PINHEIRO (2007) Levando-se em consideração a baixa resistência do concreto à tração, se comparada com a resistência à compressão, percebe-se a inviabilidade de um possível dimensionamento neste estádio. O limite entre o estádio I e II é feito pelo cálculo do momento de fissuração, onde esse cálculo será apresentado posteriormente. A partir do conhecimento do momento de fissuração, é possível calcular a armadura mínima, de modo que esta seja capaz de absorver, com adequada segurança, as tensões causadas por um momento fletor de certa magnitude. Portanto, o estádio I termina quando a seção fissura. 2) Estádio II: Neste nível de carregamento, o concreto não mais resistente à tração e a seção se encontra fissurada na região de tração. A contribuição do concreto tracionado deve ser desprezada, apesar de existir certa resistência. No entanto, a parte comprimida ainda mantém um diagrama linear de tensões (Figura 2.7). 13 Figura 2.7 – Comportamento do concreto na flexão pura (Estádio II) - Fonte: PINHEIRO (2007) Basicamente, o estádio II serve para a verificação da peça em serviço. Como exemplos, citam-se o estado limite de abertura de fissuras e o estado limite de deformações excessivas, que será objeto de estudo. Com a evolução do carregamento, as fissuras caminham no sentido da borda comprimida, a linha neutra também e a tensão na armadura cresce, podendo atingir o escoamento ou não. O estádio II termina com o início da plastificação do concreto comprimido. 3) Estádio III: No estádio III, a zona comprimida encontra-se plastificada e o concreto dessa região está na iminência da ruptura (Figura 2.8). Admite-se que o diagrama de tensões seja da forma parabólico-retangular, também conhecido como diagrama parábola-retângulo. A NBR 6118:2003 permite, para efeito de cálculo, que se trabalhe com um diagrama retangular equivalente (Figura 2.9). A resultante de compressão e o braço em relação à linha neutra devem ser aproximadamente os mesmos para os dois diagramas. 14 Figura 2.8 – Comportamento do concreto na flexão pura (Estádio III) – Fonte: PINHEIRO (2007) Figura 2.9 – Diagrama Retangular – Fonte: PINHEIRO (2007) Deve-se ressaltar que os deslocamentos em peças de concreto armado são inversamente proporcionais aos valores da rigidez, onde a mesma varia de acordo com o grau de fissuração da estrutura. Guarda (2005) alerta que ao longo de uma viga com carregamento uniformemente distribuído, as vigas de concreto armado apresentam regiões mais fissuradas e outras praticamente sem fissuras, onde esse agravamento se evidencia em regiões onde haja maiores momentos fletores (Figura 2.10) que é o caso no meio de uma viga. Este comportamento pode ser observado nas seções próximas aos apoios, onde os momentos fletores tendem a zero, não apresentam fissuras, já na região do meio do vão, onde os valores dos momentos são mais altos, as seções estão bastante fissuradas. Figura 2.10 – Exemplo de distribuição das fissuras de uma viga – Fonte: GUARDA (2005) 15 Portanto, a seção onde apresenta menor rigidez é aquela localizada na posição de uma fissura e analogamente ocorrerá um valor de rigidez maior no local onde a peça estiver sem fissura. Diante disso, percebemos que o módulo de elasticidade varia de acordo com o grau de fissuração da peça e torna-se necessário a avaliação cuidadosa das fissuras para se obter de forma mais aproximada a rigidez a flexão e avaliar a magnitude de deslocamentos nas vigas de concreto armado. 2.2.3 Retração A retração do concreto é um fenômeno bastante comentado, mas pouco compreendido. Diversos autores definem retração da mesma forma, como sendo uma diminuição do volume de um elemento, provocando o surgimento de deformações e esforços adicionais na estrutura. Sendo mais significativa em peças com grandes volumes (Figura 2.11). Essa deformação atinge 80% do seu valor logo no primeiro ano do início desse processo. Figura 2.11 - Retração do concreto – Fonte: KIMURA (2007) Sua magnitude é afetada por diversos fatores, podendo-se citar os materiais constituintes e a dosagem do concreto, o tempo, as condições ambientais de umidade e temperatura, a geometria do elemento estrutural, a idade do concreto quando começa o processo de secagem e a quantidade de armadura de compressão e tração. Dos fatores anteriormente citados, três dessas variáveis combinadas levam o concreto a retrair, podemos citar cada um deles em específico. 16 A geometria do elemento estrutural nas peças com elevada relação entre a superfície exposta e o volume total da peça, tais como pisos, pavimentos e lajes de concreto, a perda de água para o ambiente se dá de maneira muito rápida. Ora, se a retração do concreto está relacionada à perda de água e se este tipo de estrutura está mais vulnerável a esta perda é intuitivo pensar que lajes, pisos e pavimentos de concreto naturalmente sofrem mais com a retração do concreto. As dimensões das placas de concreto cada dia maiores e a execução cada vez mais esbeltas tornam os pisos e pavimentos extremamente suscetíveis aos efeitos da retração do concreto. Outro fator é o traço do concreto, uma vez que diversos fatores relacionados aos materiais que compõem o concreto e suas combinações podem influenciar a retração do concreto, principalmente a retração por secagem. O tipo, a granulometria e a dimensão máxima do agregado, a relação água-cimento, a quantidade de água de amassamento e o emprego de adições minerais e aditivos químicos são variáveis importantes que afetam fortemente a retração do concreto. A literatura aponta que agregados com maior módulo de deformação conduzem a um menor grau de retração. Deve-se empregar a menor quantidade de água de amassamento possível, assim como se devem evitar agregados com excesso de material pulverulento e argila. A distribuição granulométrica contínua reduz a retração do concreto quando comparada com uma combinação de agregados miúdos e graúdos inadequada. E, por fim o terceiro fator que influi na magnitude da retração são as condições ambientais, pois a retração do concreto está intimamente relacionada à perda de água para o ambiente. Os principais fatores climáticos que influenciam na saída de água do concreto são a alta temperatura, a baixa umidade do ar e a velocidade do vento que incide sobre a peça recém concretada. Esses fatores afetam diretamente no valor da retração. Porém, a depender de sua causa, podem ser definidos alguns tipos de retração. São eles: a retração plástica, a retração por carbonatação, a retração química (ou endógena) e a retração por secagem. Depois que o concreto é lançado nas formas, a sua superfície fica sujeita à evaporação natural da água, tanto maior quanto for a velocidade dos ventos, maior a temperatura e menor a umidade do ambiente, como foi anteriormente citado. A consequente perda de volume é chamada de retração plástica, por acontecer enquanto o concreto está no estado plástico, daí o nome de retração plástica. Outra denominação é a retração química. Ela acontece em todos os concretos porque os produtos de hidratação do cimento têm menor volume que a soma dos volumes de 17 água e do cimento que os formam. Esse tipo de retração ocorre desde os instantes da pega e se prolonga durante toda a hidratação, sendo mais bem intensa nos primeiros dias. Já a retração por carbonatação é causada pela reação da pasta de cimento hidratada com o dióxido de carbono do ar, na presença de umidade. E por último a retração por secagem pode ser definida com o a evaporação da água não fixada quimicamente no concreto, quando este é exposto a um ambiente com umidade relativa menor que 100%. Guarda (2005) alerta que quando um elemento de concreto for submetido a um processo de molhagem, a retração apresentará um certo grau de reversibilidade, como indicado na Figura 2.12. Figura 2.12 – Reversibilidade da retração – Fonte: MEHTA & MONTEIRO (1994) A influência da retração nos deslocamentos se deve tanto devido ao aumento das fissuras como também porque geralmente a armadura de tração é maior que armadura de compressão, implica em um encurtamento devido à retração na região tracionada menor que na região comprimida, fazendo com que surja uma curvatura adicional na mesma direção da curvatura devida à flexão. Provocando o aumento nos deslocamentos na peça de concreto armado. 2.2.4 Fluência 18 Para Kimura (2007), a fluência consiste no aumento das deformações no concreto, que ocorrem ao longo do tempo de vida da estrutura, em virtude da aplicação de ações permanentes (Figura 2.13). Figura 2.13 - Fluência do concreto – Fonte: KIMURA (2007) Segundo Carvalho & Filho (2007), fluência é o fenômeno em que surgem deformações ao longo do tempo em um corpo solicitado por tensão constante. De acordo com Pinheiro (2007), esse fenômeno pode ser definido como uma deformação diferida, causada por uma força aplicada. Corresponde a um acréscimo de deformação com o tempo, se a carga permanecer. Em linhas gerais, podemos definir fluência como um aumento gradual da deformação quando submetido a uma tensão constante ao longo do tempo. As parcelas das deformações ocorridas por causa da fluência podem ser caracterizadas por: deformação rápida¸ que ocorre nas primeiras 24 horas após a aplicação do carregamento e é irreversível. A fluência é composta por uma parte reversível e outra irreversível. Já essa parte parcialmente reversível, que se inicia ao retirar o carregamento que originou a deformação, uma parcela dessa deformação total é restituída imediatamente, outra parte é restituída com o tempo e o restante torna-se permanente, como pode ser visto na Figura 2.14. 19 Figura 2.14 – Reversibilidade da fluência – Fonte: MEHTA & MONTEIRO (1994) Essa variável tem sua magnitude ligada a diversos fatores, como podemos citar, por exemplo: Tipo de cimento (endurecimento lento, normal ou rápido), tempo de manutenção da carga, nível de fissuração da peça, temperatura ambiente, umidade do ar que envolve a peça, espessura da peça e o amadurecimento do concreto na data de carregamento. Portanto, o deslocamento provocado por esse fenômeno varia de maneira inversamente proporcional ao fator água cimento e ao valor do módulo de elasticidade de resistência à compressão. Com boa parte dos fatores sendo iguais na influência das respectivas magnitudes, retração e fluência são tratadas simultaneamente na análise das deformações, uma vez que em estruturas reais esses dois tipos de deformações ocorrem simultaneamente é conveniente e prático tratá-las em conjunto. Porém, apesar de poder serem tratadas de maneira simultânea, fluência e retração são fenômenos com bases conceituais distintas. Enquanto na retração por secagem a origem da perda de água é a diferença de umidade entre o elemento de concreto e o meio ambiente, na fluência, essa perda de água está associada à aplicação continuada de uma ação. Além disso, a duração e a intensidade das ações, bem como a idade do concreto ao primeiro carregamento, são aspectos relevantes ao estudo da fluência, mas que não influem na retração. Em suma, a fluência propicia um acréscimo significativo das deformações do concreto, conforme representado na Figura 2.15. A consideração desse efeito é obrigatória e está especificado na NBR 6118:2003, onde a norma indica o processo para a obtenção e a forma de considerar esse efeito. 20 Figura 2.15 – Acréscimo de deformação devido à fluência – Fonte: KIMURA (2007) Já a consideração desse efeito para os deslocamentos é utilizado partindo-se de uma combinação de carregamento quase-permanente, visto que parte da carga acidental atua ao longo da vida útil da edificação. Em seguida, na obtenção da deformação lenta ou diferida a NBR 6118:2003 sugere uma série de valores que variam com o tempo para em seguida multiplicar por um parâmetro αf(que varia com m tempo de aplicação das cargas) pela flecha imediata. A maneira de obtenção de flechas imediatas e diferidas será abordada de forma mais detalhada adiante. 2.3 Cálculo dos deslocamentos De acordo com as variáveis anteriormente citadas, já temos idéia dos fatores que influem no resultado obtido para esses deslocamentos. Agora, partiremos para os métodos recomendados para obter os deslocamentos imediatos e diferido em vigas de concreto armado. 2.3.1 Considerações iniciais Nesta seção serão apresentadas algumas consideração para obtenção da magnitude dos deslocamentos em vigas de concreto armado e em seguida a formulação simplificada da NBR 6118:2003. 21 A) Seção transversal homogeneizada A viga de concreto armado, assim como as outras estruturas de concreto armado, comporta-se da mesma forma, com o aço e concreto trabalhando solidariamente, ou seja, para garantir a segurança dessa peça é necessário que esses dois materiais estejam aderidos. Assim, o centro de rotação da seção e sua rigidez são afetados pelo posicionamento da armadura, e neste caso, deve ser feita a homogeneização da seção, que consiste em substituir a área de aço existente na seção por uma área de concreto equivalente, onde essa relação é satisfeita fazendo o produto da área de aço presente na viga de concreto armado (As) pelo fator αe (Relação do módulo de elasticidade do aço pelo módulo de elasticidade do concreto). Conforme foi comentado anteriormente, para avaliação dos deslocamentos em vigas de concreto armado as estruturas em serviço devem se comportar nos estádios I e II. Logo, a homogeneização da seção deverá ser avaliada nessas duas condições, uma vez que obtemos resultados diferentes já que no estádio I não ocorre fissuração e no estádio II há fissuras. i) Estádio I: Como já havíamos mencionado no estádio I o concreto resiste às tensões de tração, uma vez que as tensões atuantes são inferiores a capacidade resistente do concreto. Então para uma seção retangular, a posição da linha neutra e o momento de inércia são calculados com base na Figura 2.16. Figura 2.16 – Seção Retangular no Estádio I – Fonte: PINHEIRO (2007) 22 Como vemos na Figura 2.16 uma seção transversal retangular de concreto armado, é composta por uma área de concreto b · h, e uma seção de concreto equivalente a do aço é igual a As · (αe – 1). Diminui-se de -1 de αe para considerar que na posição da armadura a área de concreto já foi computada uma vez no produto b · h. Portanto, para calcular a posição da linha neutra x1, basta fazer MLN=0, sendo Mln o momento estático da seção em relação à linha neutra. Para a seção retangular da Figura 2.16 tem-se: Es = 210 GPa = 210 000 MPa ( item 8.3.5 da NBR 6118:2003) Ec = 0,85Eci = = 4760· (Em MPa), conforme comentado na seção do módulo de elasticidade do concreto. Então, para cálculo da posição x1 da linha neutra resulta: Já para a mesma seção retangular da Figura 2.16, o momento de inércia resulta: ii) Estádio II: Já no estádio II o concreto tracionado é desprezado, pois ele está fissurado (Figura 2.17). Figura 2.17 – Seção Retangular no Estádio II – Fonte: PINHEIRO (2007) 23 Adotando a metodologia análoga ao do Estádio I, desprezando-se a resistência do concreto à tração, tem-se para a seção retangular no Estádio II (Figura 2.17). Portanto, a posição da linha neutra x2 é obtida por meio da equação: Já para o momento de Inércia I2, temos: B) Momento de fissuração “Nos estados limites de serviço as estruturas trabalham parcialmente no Estádio I e parcialmente no Estádio II. A separação entre essas duas partes é definida pelo momento de fissuração” (Figura 2.18). Definição da NBR 6118:2003, item 17.3. Já Vasconcelos (2005), define momento de fissuração como o momento fletor que a seção transversal é capaz de resistir sem a colaboração das barras das armaduras, sendo determinado pela equação (2.12), considerando as hipóteses das seções homogêneas da Resistência dos Materiais e utilizando o método de homogeneização apresentado anteriormente. Figura 2.18 - Limite do momento de fissuração – Fonte: PINHEIRO (2007) A NBR 6118:2003, item 17.3 aponta que esse momento pode ser calculado pela seguinte expressão aproximada: 24 Onde: α é o fator que correlaciona aproximadamente a resistência à tração na flexão com a resistência à tração direta: A resistência do concreto à tração direta, fct, é obtida conforme o item 8.2.5 da NBR 6118:2003. Para determinação de Mr, no estado limite de formação de fissura, deve ser usado o fctk,inf e no estado limite de deformação excessiva, o fctm. fct = Onde: Ic é o momento de inércia da seção bruta de concreto; yt é a distância do centro de gravidade da seção à fibra mais tracionada. Para seção retangular, resulta: yt = h-x = x (2.14) C) Momento de inércia efetivo Na avaliação de flechas em vigas de concreto armado, podem ocorrer duas situações. Na primeira temos Ma<Mr, ou seja, temos o momento fletor na seção crítica com um valor inferior ao momento de fissuração. Nesse caso, a viga não haverá fissurado (Estádio I) e a inércia na seção será a própria inércia da seção bruta ou a inércia no Estádio I (equação 2.8), desde que a viga esteja densamente armada. Na segunda situação, podemos ter Ma>Mr, já nesse caso a peça de concreto armado se encontrará no Estádio II. Nessa situação, ao longo da seção da viga essa peça trabalhará nesses dois estádios e com isso a viga estará fissurada. Essa fissuração afetará diretamente a inércia da viga. Desse modo, para não introduzir a variação de inércia na peça 25 de concreto armado, é necessário utilizar uma inércia equivalente que contemple tal situação de maneira aproximada. Branson (1968) realizou um estudo experimental em vigas retangulares e T, submetendo-as a carregamentos uniformemente distribuídos e de curta duração. A partir desse ensaio, o autor propôs um modelo no qual admite uma única inércia para todo elemento de concreto, representando os trechos fissurados e não-fissurados. Esse modelo baseia-se em um método semiprobabilístico, no qual toma a variação de tensão ao longo da seção transversal e ao longo do comprimento de maneira simplificada, utilizando expressões empíricas que fornecem valores médios de inércia. Dessa forma, Branson procura simular aproximadamente o efeito da fissuração do concreto, quando submetido à flexão, no cálculo das deformações imediatas. Baseado nos resultados de seus ensaios e nos de outros pesquisadores, ele sugeriu a utilização de um valor médio de momento de inércia, compreendido entre o momento de inércia da seção não fissurada (Estádio I), e o da seção fissurada (Estádio II), chamado de momento de inércia efetivo, dado por: Onde: Im: Momento de inércia efetivo para uma seção ou para toda a peça, no caso de vigas simplesmente apoiadas; momento de inércia médio entre a seção do apoio e a seção do meio do vão para o caso de vigas contínuas; II : Momento de inércia da peça no estádio I ( da seção bruta ou homogeneizada); III : Momento de inércia da peça no estádio II puro; Mr: Momento de fissuração do concreto; Ma: Momento atuante de serviço mais solicitada; e m: índice de valor igual a 4, para situações em que a análise é feita em apenas uma seção da peça, ou igual a 3, quando se faz a análise da peça ao longo de todo seu comprimento, que é a forma recomendada pela NBR 6118:2003. Como havíamos mencionado anteriormente, a NBR 6118:2003, item 17.3.2.1, na avaliação aproximada da flecha imediata em vigas, foi feita uma adaptação da equação 2.15 para o cálculo da rigidez equivalente de uma viga de concreto, adotando o índice de valor 3. Esse cálculo de rigidez equivalente em vigas de concreto armado é expresso por: 26 Onde: Ic : Momento de inércia da seção bruta de concreto; III : Momento de inércia da peça no estádio II puro; Mr: Momento de fissuração do concreto, expresso pela equação 2.12, que deve ser reduzido à metade para barras lisas; Ma: Momento atuante de serviço mais solicitada, momento máximo no meio do vão para vigas biapoiadas e momento no apoio para balanços; e Ecs: Módulo de elasticidade secante de concreto, expresso pela equação 2.2. 2.3.2 Cálculo dos deslocamentos imediatos Partindo do conceito de flecha mencionado na seção 2.1. Discutiremos com mais detalhes os tipos de flechas que ocorrem em vigas de concreto armado. Primeiramente discutiremos o conceito de flecha imediata. Nesse trabalho a definição de flecha imediata ou instantânea será o máximo deslocamento que um ponto da peça sofre quando os escoramentos são retirados ou logo após a introdução de um carregamento permanente. Esse deslocamento imediato é função, principalmente, do tipo e da grandeza do carregamento aplicado, do nível de fissuração, do comprimento do vão, das condições de apoio, das propriedades geométricas da seção transversal e das propriedades dos materiais, aço e concreto. Já Baroni (2003) define flecha imediata como o deslocamento transversal ao longo do processo de aplicação do carregamento e depende das características físicogeométricas da peça, inclusive tipo de carregamento. O cálculo da flecha imediata ou instantânea para vigas de concreto armado pode ser efetuado através da expressão padrão de elementos fletidos não fissurados, assumindo o concreto armado como um material de comportamento elástico e linear, dada por: 27 Onde: fi = Flecha imediata; Ma = Momento máximo fletor no vão l; l = Comprimento do vão (EI)eq = Rigidez equivalente, obtida a partir da equação 2.16 α = Coeficiente que depende das condições de apoio e carregamento conforme Figura 2.19. Figura 2.19 – Valores do coeficiente α – Fonte: MERLIN (2006) Onde o momento máximo da seção pode ser obtido por diversos métodos de análise estrutural. O deslocamento máximo varia sua posição de acordo com as condições de apoio, bem como o tipo de carregamento atuante. Nesse estudo não aprofundaremos esse assunto, uma vez que o objetivo do estudo é a análise dos deslocamentos. A determinação do momento máximo é um valor que deverá ser conhecido. Araújo (2004) avaliou a precisão e a validade dos métodos simplificados para cálculo de flechas em vigas de concreto armado, comparando ao modelo não linear mais refinado. Para tal análise, o mesmo utilizou o método bilinear do CEB, uma fórmula prática apresentada no código modelo CEB-FIP/90 e o método da ACI adotado na NBR 6118:2003. Durante sua análise o autor observou que para flechas imediatas todos os modelos anteriormente citados apresentam uma boa concordância entre os resultados (Figura 2.20). 28 Figura 2.20 – Flecha imediata para as cargas quase permanentes pelos diferentes métodos – Fonte: ARAÚJO (2004) As pequenas diferenças verificadas entre os diversos métodos ocorrem devido às diferentes considerações para o momento de fissuração e para o módulo de deformação longitudinal do concreto. 2.3.3 Cálculo dos deslocamentos diferidos Após a obtenção do deslocamento imediato da viga de concreto armado, deve ser determinado o deslocamento diferido no tempo que leva em consideração os efeitos de fluência e retração. Devido à influência desses dois fatores a flecha diferida tende a ter, geralmente, valores de deslocamentos superiores aos deslocamentos instantâneos. Daí sua importância. Então, para a obtenção desses deslocamentos, a NBR 6118:2003 recomenda o cálculo da flecha adicional diferida (equação 2.19), decorrente das cargas de longa duração em função da fluência, de uma forma aproximada por meio da multiplicação da flecha imediata pelo fator αf dado pela expressão abaixo: 29 Onde: fd = flecha diferida; ξ é um coeficiente função do tempo, que pode ser obtido diretamente na tabela 2.1 ou ser calculado pelas seguintes expressões: Δξ = ξ(t) - ξ(t0) ξ(t) = 0,68(0,996t)t0,32 para t ≤ 70 meses ξ(t) = 2 para t > 70 meses Tabela 2.1 – Valores do coeficiente ξ em função do tempo Tempo (t) Meses Coeficiente ξ(t) 0 0 0,5 1 2 3 4 5 10 20 40 0,54 0,68 0,84 0,95 1,04 1,12 1,36 1,64 1,89 ≥ 70 2 Sendo: t é o tempo, em meses, quando se deseja o valor da flecha diferida; t0 é a idade, em meses, relativa à data de aplicação da carga de longa duração. No caso de parcelas da carga de longa duração serem aplicadas em idades diferentes, pode-se tomar valor para t0 o valor ponderado a seguir: (2.21) Onde: ff flecha final; Pi representa as parcelas de carga; T0i é a idade em que se aplicou cada parcela Pi, em meses. O valor da flecha total deve ser obtido multiplicando a flecha imediata por (1+αf ). 30 Em outros estudos, comparando outros modelos simplificados para cálculo de flechas em vigas de concreto armado, Araújo (2004) aproveitou os modelos utilizados para avaliar as flechas em vigas instantâneas para verificar a precisão de cada modelo para deformação lenta (Figura 2.21). Figura 2.21 – Flecha total pelos diferentes métodos – Fonte: ARAÚJO (2004) A partir da Figura 2.21, Araújo (2004) demonstra que o método da NBR 6118:2003 não reproduz satisfatoriamente os efeitos das deformações diferidas do concreto na resposta das vigas de concreto armado. Segundo o autor, esse método subestima as flechas das vigas pouco solicitadas, quando elas ainda se encontram no estádio I, ou no início do estádio II. Por outro lado, o modelo da NBR 6118:2003 superestima as flechas das vigas mais solicitadas, em um estado de fissuração mais adiantado. Logo, ele alerta para o emprego do modelo da norma brasileira para cálculo de flechas de vigas diferidas. 2.4 Controle dos deslocamentos Vigas e lajes deformam-se naturalmente sob ação do peso próprio, das demais cargas permanentes e acidentais e mesmo sob efeito da retração e da deformação lenta do concreto. Os componentes estruturais admitem flechas que podem não comprometer em nada sua própria estética, a estabilidade e a resistência da construção. Tais flechas, entretanto, podem ser incompatíveis com a capacidade de deformação das paredes e outros itens que compõem os edifícios de concreto armado. 31 Como havíamos mencionado, com a evolução das construções começaram a surgir diversas manifestações patológicas nas peças de concreto armado. A partir de então, torna-se necessário o controle dos deslocamentos nessas estruturas. Medeiros (2005) aponta que durante essa evolução houve um surgimento de fenômenos comuns como paredes de vedação rompendo, trincas em alvenarias, entre outras. Portanto, para evitar esse tipo de problema é necessário controlar esses deslocamentos dentro de limites aceitáveis. De acordo com Guarda (2005), o objetivo do controle dos deslocamentos é se garantir que uma estrutura ou um elemento estrutural, apesar de apresentar deslocamentos em relação a sua posição inicial, possa atender a critérios mínimos de aceitação, tanto do ponto de vista estrutural quanto estético. A forma que iremos utilizar no presente trabalho é a de calcular esses deslocamentos, conforme foi apresentado anteriormente, e verificar os valores limites para os deslocamentos. Kimura (2009) escreve em seu artigo citando uma frase do Eng. Zamarion Diniz: “As flechas não são calculadas e sim estimadas! Analisar uma estrutura em serviço não é uma tarefa fácil! Nenhuma exatidão pode ser cobrada das formulações atuais, por mais refinadas que sejam”. Entretanto, o autor alerta que essa premissa é equivocada e busca incentivar aos projetistas estruturais que busquem uma análise mais refinada, pois muitas patologias surgem em estruturas de concreto armado devido a aproximações grosseiras. Com as manifestações patológicas tornando-se cada vez mais comuns em peças de concreto armado e mesmo alguns autores advertindo que é impossível obter o valor preciso desses deslocamentos, ressaltamos que quão mais aproximado obtivermos esses valores e tivermos os cuidados para que esses deslocamentos estejam dentro desses limites aceitáveis, mais rápido propiciaremos a atenuação dessas patologias. Portanto, será utilizado nesse trabalho o critério de aceitação dos deslocamentos propostos pela NBR 6118:2003, item 13.3. 2.4.1. Metodologia do controle de deslocamentos Em função dos efeitos que esses deslocamentos podem causar nas edificações, a NBR 6118:2003 dividiu a avaliação dos deslocamentos em quatro grupos: aceitabilidade sensorial, efeitos específicos, efeitos em elementos não estruturais e efeitos em elementos estruturais. Esses valores limites, que serão em seguida descritos (tabela 2.1), são valores 32 práticos utilizados para a verificação de serviço do estado limite de deformações e tem conduzido a resultados satisfatórios. A) Aceitabilidade sensorial: Estão relacionados ao conforto dos usuários, onde nesse grupo os limites são baseados nos efeitos visuais desconfortáveis aos usuários e a vibrações excessivas. Pois, esse desconforto sentido pelos usuários gera desconfiança dos mesmos para com a segurança da estrutura, mesmo quando não existe esse tipo de risco. B) Efeitos específicos: São efeitos que possam impedir a utilização adequada da construção. Podemos citar alguns exemplos como: drenagem de superfícies que deveriam permanecer horizontais (inversão da inclinação da drenagem prevista de coberturas e varandas), superfícies que devem permanecer horizontais (ginásios, pistas de boliche). C) Efeitos em elementos não estruturais: São deslocamentos estruturais que podem ocasionar o mau funcionamento de elementos que, apesar de não fazerem parte da estrutura, estão a ela ligados. Exemplo disso é o deslocamento excessivo de uma viga, prejudicando o funcionamento de janelas (Figura 2.22). Figura 2.22 – Dano em elementos não estruturais – Fonte: KIMURA (2007) D) Efeitos em elementos estruturais: Os efeitos em elementos estruturais, causados por deslocamentos excessivos, podem ser bastante significativos, principalmente quando as hipóteses de cálculo adotadas e o comportamento previsto podem ser modificados. Nesses casos, é necessário se incorporar os deslocamentos ao modelo utilizado para a determinação dos esforços na estrutura. Após a apresentação das 4 classes, segue a tabela 2.2 da NBR 6118:2003 que sugere os valores limites de deslocamentos em função do tipo de efeito que deseja ser avaliado. 33 Tipo de Efeito Aceitabilidade sensorial Efeitos estruturais em serviço Tabela 2.2 – Limites para deslocamento – Fonte NBR 6118:2003 Razão da Exemplo Deslocamento a limitação Considerar Visual Deslocamentos visíveis Total em elementos estruturais Outro Vibrações sentidas no Devido a cargas piso acidentais Superfícies que Coberturas e varandas Total devem drenar água Pavimentos que Ginásios e pistas de Total devem boliche permanecer Ocorrido após a planos construção l/350 l/2501) l/350+ Contraflecha2) l/600 Laboratórios Ocorrido após nivelamento do equipamento Alvenaria, caixilhos e Após a construção De acordo com recomendação do fabricante do equipamento l/500 3) ou 10mm elementos não revestimentos da parede ou θ=0,0017 rad4) estruturais Divisórias leves e Ocorrido após a l/250 3) ou 25mm caixilhos de telescópios instalação da Efeitos em Elementos que suportam equipamentos sensíveis Paredes Deslocamento Limite l/250 divisória Movimento lateral de Provocado pela H1700 ou Hi/8505) edifícios ação do vento para entre pavimentos6) combinação freqüente (ψ1=0,30) Movimentos térmicos Provocado por verticais diferença de l/4007) ou 15mm temperatura Forros Movimentos térmicos Provocado por horizontais diferença de Hi/500 temperatura Revestimentos colados Ocorrido após a l/350 construção do forro Revestimentos Deslocamento pendurados ou com juntas ocorrido após a l/175 construção do forro Pontes rolantes Desalinhamento de trilhos Deslocamento H/400 provocado pelas ações decorrentes de frenação Efeitos em elementos estruturais Afastamento em relação às hipóteses de cálculo adotadas Se os deslocamentos forem relevantes para o elemento considerado, seus efeitos sobre as tensões ou sobre a estabilidade da estrutura devem ser considerados, incorporando-as ao modelo estrutural adotado. 34 Tabela 2.2 – Limites para deslocamento – Fonte NBR 6118:2003 - Continuação 1) As superfícies devem ser suficientemente inclinadas ou o deslocamento previsto compensado por contraflechas, de modo a não se ter acúmulo de água. 2) Os deslocamentos podem ser parcialmente compensados pela especificação de contraflechas. Entretanto, a atuação isolada da contraflecha não pode ocasionar um desvio do plano maior que l/350. 3) O vão l deve ser tomado na direção na qual a parede ou a divisória se desenvolve. 4) Rotação nos elementos que suportam paredes. 5) H é a altura total do edifício e Hi o desnível entre dois pavimentos vizinhos. 6) Esse limite aplica-se ao deslocamento lateral entre dois pavimentos consecutivos devido à atuação de ações horizontais. Não devem ser incluídos os deslocamentos devido às deformações axiais nos pilares. O limite também se aplica para o deslocamento vertical das extremidades de lintéis conectados a duas paredes de contraventamento, quando Hi representa o comprimento do lintel. 7) O valor l refere-se à distância entre o pilar externo e o primeiro pilar interno. NOTAS: 1 Todos os valores limites de deslocamentos supõem elementos de vão l suportados em ambas as extremidades por apoios que não se movem. Quando se tratar de balanços, o vão equivalente a ser considerado deve ser o dobro do comprimento do balanço. 2 Para o caso de elementos de superfície, os limites prescritos consideram que o valor l é o menor vão, exceto em casos de verificação de paredes e divisórias, onde interessa a direção na qual a parede ou divisória se desenvolve, limitando-se esse valor a duas vezes o vão menor. 3 O deslocamento total deve ser obtido a partir da combinação das ações características ponderadas pelos coeficientes definidos na seção 2.5.1. 4 Deslocamentos excessivos podem ser parcialmente compensados por contraflechas 35 2.4.2. Adoção de medidas para o controle de deslocamentos excessivos Para não ter uma estrutura que não atenda as condições em serviço. As flechas em vigas de concreto armado devem atender os limites fornecidos na tabela 2.2. No caso desses valores superarem os limites aceitáveis recomenda-se a adoção de contraflechas. Nessa seção apontaremos os principais problemas ocasionados por deformações excessivas e as medidas a serem adotadas para minimizar esses deslocamentos. Onde contraflecha é o deslocamento vertical intencional aplicado durante a montagem das escoras, ou seja, no sentido contrário ao da flecha. Medeiros (2005) aponta que as patologias provenientes de deformações excessivas, são ocasionadas tanto por deformações lentas quanto as deformações imediatas. Esses efeitos são uma preocupação de todas construtoras hoje. Em seu texto a autora adverte que os edifícios de hoje são mais altos e esbeltos, a concepção privilegia grandes vãos, onde para atender essas necessidades do mercado as estruturas tornaram-se mais vulneráveis as deformções. Nesse texto são mostradas também algumas medidas nas quais as construtoras tentam minimizar esse tipo de problema, adotando como solução o aumento no tempo de escoramento e a utilização do transporte manual do concreto, porém a autora alerta que de nada servirá esses cuidados na obra se uma análise apurada e detalhada durante o projeto estrutural não for analisada cuidadosamente. A primeira medida adotada para atenuar os deslocamentos excessivos é de adotar uma contraflecha que pode ser estimada pela expressão proposta por Pinheiro (2007), lembrando que o valor da contra flecha não poderá ser superior a relação l/350 (Tabela 2.2): Onde: ac = contraflecha; ai = flecha imediata obtida na equação 2.17; af = flecha diferida obtida na equação 2.19. Outras medidas a serem adotadas são: o aumento da altura e largura das vigas, desde que a arquitetura permita essa alteração; aumento da armadura de tração dimensionada no ELU; utilização de armadura de compressão, utilizar concretos com resistências maiores e aumentar o tempo de escoramento dessas estruturas, aumentando assim o tempo de aplicação 36 inicial das cargas. Ressaltamos também a importância da realização de uma cura adequada para minimizar os efeitos de fluência e retração. 2.5 Considerações de ações Apresentamos as formulações simplificadas para avaliação de flechas em vigas, os fatores que afetam os deslocamentos e as medidas tomadas para atenuar esses efeitos. Na presente seção, será demonstrada a combinação das ações em serviço para que as peças de concreto armado sejam avaliados. 2.5.1 Classificações das ações As ações atuantes na construção são classificadas, segundo a NBR 8681:2003, em: permanentes(g), variáveis(q) e excepcionais. As ações permanentes são aquelas que ocorrem com valores praticamente constantes durante toda a vida da construção. Segundo Kimura (2007), ações permanentes são aquelas que acompanham a utilização do edifício desde o início ao fim, ou seja, são aquelas ações que “entram e ficam para sempre”. Os exemplos desse tipo de ação é o peso próprio da estrutura, peso de elementos construtivos (alvenarias, revestimentos, etc.) e os empuxos permanentes. Já as ações excepcionais, são as que têm duração extremamente curta e muito baixa probabilidade de ocorrência durante a vida da construção, tais como, ações decorrentes de explosões e abalos sísmicos . E por fim, as ações variáveis são as que apresentam variações significativas durante a vida de construção. Definidas também por Kimura (2007), as ações variáveis atuam somente durante um período de vida do edifício, ou seja, elas entram e depois saem. Os exemplos que podemos citar são: cargas acidentais de uso, vento, ações dinâmicas, água e variações de temperatura. Guarda (2005) alerta que, em alguns casos, as ações variáveis de construção exercem influência significativa para os deslocamentos finais, devendo ser consideradas. Isso 37 se deve a dois fatores principais. O primeiro é a própria ordem de grandeza dessas ações, que podem atingir valores de até o dobro das ações permanentes. O segundo ponto é da ocorrência da fissuração prematura, proveniente de ações provocadas a pequenas idades, quando os valores do módulo de elasticidade e da resistência à tração ainda estão baixos. Além do aumento dos deslocamentos iniciais, as ações de construção podem influir nos deslocamentos ao longo do tempo, provocados pela fluência, que depende da idade do concreto quando do primeiro carregamento. 2.5.2 Combinações de ações A NBR 6118:2003, item 11.8.3.1 “Classificação”, as combinações de serviço em três tipos: quase permanentes, frequentes e raras. Em estruturas de concreto armado, as combinações de serviço mais utilizadas são a “quase permanente” e a “frequente”. A primeira é empregada para avaliar o estado limite de deformações excessivas (ELS-DEF). Já a segunda utiliza-se para averiguar os estados limites de formação de fissuras (ELS-F), abertura de fissuras (ELS-W) e vibrações excessivas. Como o objeto de estudo nesse trabalho é de analisar as flechas em vigas de concreto armado, apresentaremos a combinação de carregamento utilizada para esse fim, que conforme foi citado anteriormente é a combinação quase permanente. A formulação dessa combinação é determinada pelo somatório das cargas permanentes e o somatório das cargas acidentais pelo produto com o fator redutor. Essa formulação segue apresentada abaixo: Onde: Fd,ser é o valor de cálculo das ações para combinações de serviço; Ψ2 é o fator de redução de combinação quase permanente para ELS. Os valores dos coeficientes redutores das ações variáveis são fornecidos na tabela 2.3. 38 Tabela 2.3 – Valores de ψ1 e ψ2 – Fonte:NBR 6118:2003. Ações Cargas acidentais de edifícios Vento Temperatura 2.6 Locais em que não há predominância de pesos de equipamentos que permanecem fixos por longos períodos de tempo, nem de elevadas concentrações de pessoas. Locais em que há predominância de pesos de equipamentos que permanecem fixos por longos períodos de tempo, nem de elevadas concentrações de pessoas. Biblioteca, arquivos, oficinas e garagens. Pressão dinâmica do vento nas estruturas em geral. Variações uniformes de temperatura em relação à média anual local. ψ1 ψ2 0,4 0,3 0,6 0,4 0,7 0,3 0,5 0,6 0 0,3 Considerações finais Conforme foi apresentado neste capítulo, diversas variáveis influem no resultado das flechas em vigas de concreto armado. O que conduz esses cálculos a valores aproximados daqueles que de fato ocorrem. Alguns desses fatores, por serem determinados no cálculo de forma aproximada implicam em resultados finais aproximados. As considerações de fluência, retração, nível de fissuração, são exemplos dessas estimativas. Podemos citar também, as interferências devido ao processo construtivo, como retirada de escoramento de forma prematura, submetendo a viga ao carregamento antes do previsto, onde a mesma não atingiu o módulo de elasticidade definido em cálculo e consequentemente afetando o grau de fissuração da peça. Outro fator que afeta diretamente o resultado final é o processo de cura dessa peça, pois não realizando esse processo de modo adequado, influirá na retração. A análise de flechas em vigas de concreto armado por meio de processos simplificados é um fator anterior ao processo construtivo e quão distante esse valor estiver do real contribuirá para comportamentos diferentes do esperado. Alguns exemplos dessas aproximações é a obtenção do momento de inércia efetivo para simular a fissuração e obtenção dos resultados de deformação lenta a partir da multiplicação de um coeficiente variável com o tempo que visa simular os efeitos da retração e fluência. 39 Com todos esses aspectos, torna-se imprescindível o papel do projetista de ter os cuidados necessários a obediências dos critérios pré-estabelecidos, que apesar de conduzirem a estimativas aproximadas propicia o atendimento às peças de concreto armado em serviço. 40 3. ANÁLISE DE FLECHAS EM VIGAS DE CONCRETO ARMADO 3.1 Introdução Neste capítulo serão apresentado alguns exemplos de cálculo de flechas em vigas de concreto armado, bem como uma planilha em Excel que serviu de base para a obtenção desse cálculo de forma rápida. Essa planilha além de auxiliar no cálculo serviu para avaliar algumas variáveis que influem nos deslocamentos em vigas de concreto armado. Como podemos citar a influência do carregamento, da parcela de carga permanente e acidental na viga, do tempo de aplicação do carregamento, das propriedades geométricas, armadura de compressão, vão, fck e das condições de apoio da viga. Essas comparações serão apresentadas posteriormente por meio de gráficos, onde em cada uma dessas análises serão discutidas com detalhes a relevância e influência de maneira direta ou inversamente proporcional que esses fatores possam propiciar aos deslocamentos. Por tanto, é um estudo de grande significado pois servirá como alternativa para o controle dos deslocamentos, uma vez que o projetista ao verificar o deslocamento da viga de concreto armado saberá qual alternativa mais conveniente deverá tomar. 3.2 Cálculo de flechas em vigas de concreto armado Na presente seção serão apresentados dois exemplos de cálculo de flechas em vigas de concreto armado, onde a mesma será obtida seguindo as recomendações da NBR 6118: 2003 item 17.3.2.1 “Avaliação aproximada de flechas em vigas de concreto armado”. Onde utilizaremos as equações apresentadas do capítulo 2. 3.2.1 Exemplo 1 41 Avaliar a deformação em uma viga bi-apoiada de um edifício comercial, com um vão de cálculo de 5 metros e submetida à cargas permanentes uniformemente distribuídas de 16,25 kN/m e de acidentais de 4,0 kN/m. Sendo o uso em edifícios de escritórios. A classe de agressividade ambiental adotada é: CAA I. * Dados do problema: Classe do concreto: C-20 Categoria do aço CA-50 bw = 17 cm h = 45 cm Cobrimento adotado: 25 mm Diâmetro do estribo (ϕt): 5 mm Agregado graúdo : brita 1 → dmáx = 19mm. * 1o passo: Calcular o momento para o ELU Md = Mk · γf = (Mgk + Mqk) γf Md = 63,28 · 1,4 = 88,6 kNm = 8860 kNcm * 2o passo: Dimensionamento no ELU Resistência de cálculo do aço fyd = fyk / 1,15 Resistência de cálculo do concreto fcd = fck / 1,4 Estimando d2 = d” = 5 cm d = h – d2 = 45 – 5 = 40 cm A expressão que fornece a altura da linha neutra é: 42 Linha neutra: x = 15,96 cm → A deformação está no domínio 3 Pois 0,259d = 10,36 cm e 0,628d = 25,12 cm são os limites dos domínios 2 e 3. → Adotando – se 5 ϕ 12,5 (As = 6,25 cm2). As suplementar = 6,25 – 6,06 = 0,19 cm2 * 3o passo: Disposição das barras : 3 barras na 1a camada + 2 barras na 2a camada. Sendo: eh = 1,2 dmáx = 1,2 · 1,9 = 2,28 cm ev = 2cm ϕt = 0,5 cm ϕL = 1,25 cm, tem-se: y1 = c + ϕt + = 2,5 + 0,5 + (1,25/2) = 3,625 cm e y2 = y1 + ev + ϕL = 3,625 + 2 + 1,25 = 6,875 cm e d = h – d2 = 45 – 4,925 = 40,075 cm * 4º: Cálculo do momento de serviço O momento em serviço é então, conforme a tabela 2.2 para uso de edifícios como escritórios, com fator ψ2 = 0,4 ( Quase-permanente): Mk,ser = Mgk + ψ2Mqk → 43 * 5º passo: Taxa de armadura * 6º passo: Relação dos módulos do aço e do concreto: * 7º passo: Linha neutra em serviço ( Estádio II) * 8º passo: Cálculo da Inércia no Estádio II * 9º passo: Resistência à tração do concreto * 10º passo:Inércia da seção bruta * 11º passo: Momento de fissuração 44 Com α = 1,5 para a seção retangular * 12º passo: Inércia equivalente * 13º passo: Flecha imediata Como Mr < Mk,ser a flecha no Estádio II puro pode ser obtida da seguinte maneira: Carga total: p = g + ψ2*q = 16,25 + 0,4 · 4 = 0,1785 kN/cm * 14º passo: Flecha Diferida fd = fi · = 1,653 cm * 15º passo: Flecha total * 16º passo: Aceitabilidade dos deslocamentos 45 Conforme apresentado na tabela 2.1, recomenda-se verificar a flecha da viga de concreto armado para seu deslocamento admissível. Nesse exemplo avalia-se a aceitabilidade sensorial total. Onde para obter o deslocamento limite deve-se fazer a razão do vão por 250. Portanto o deslocamento limite é l/250 = 500/250 = 2cm. Como a viga de concreto armado obteve uma flecha total de magnitude 2,785 cm implica dizer que a peça não atende ao limite sensorial. A solução necessária será a de alterar alguma das características da peça como vão, tempo de aplicação de cargas, por exemplo, ou de adotar uma contraflecha. Nesse exemplo utilizaremos a contraflecha para compensar esses deslocamentos acima dos limites aceitáveis. A partir da equação 2.22, temos: Porém, como já havíamos apresentado anteriormente a contraflecha não poderá superar a relação de l/350. Isso denota que a contraflecha máxima a ser adotada é de: 500/350 = 1,429 cm. Logo aplicaremos uma contraflecha de 1cm ( Inteiro inferior mais próximo a contraflecha máxima determinada). 3.2.2 Exemplo 2 Dando continuidade a exemplicação do cálculo de flechas em vigas de concreto armado, nesse exemplo iremos verificar os deslocamentos em uma viga pertencente a um edifício comercial com seções de 15 x 40cm, biapoiada submetida a um carregamento uniformemente distribuído. * Dados do problema: Classe de agressividade ambiental: I (ambiente interno seco) Concreto: Classe C20 Aço para armaduras longitudinais: CA-50 46 Armadura Longitudinal: 3 ϕ 16 Cobrimento: 2,0 cm Altura útil: d=36,7 cm Ações atuantes na viga: Permanentes : gk = 14 kN/m Acidentais : qk = 5 kN/m Coeficiente de ponderação das ações (ELS) Fator de redução de combinação quase – permanente (ψ2): 0,4 Idade do concreto no início da aplicação das ações: Ações permanentes: t0 = 28 dias Ações variáveis: t0 = 28 dias Idade do concreto para a verificação dos deslocamentos t ≥ 70 meses Nesse exemplo já estimamos a armadura, bem como sua altura útil, então em relação ao exemplo anterior, iniciaremos nosso cálculo a partir da combinação de peça em serviço. 1º passo: Cálculo do momento em serviço P = gk + ψ2q = 14 + 0,4 · 5 = 16 kN/m Ma = (P · Lviga2)/8 = (16 · 4,82) / 8 = 46,08 kNm = 4608 kNcm 2º passo: Cálculo da taxa de armadura * 3º passo: Relação dos módulos do aço e do concreto: * 4º passo: Cálculo da linha neutra em serviço (Estádio II): 47 * 5º passo: Cálculo da inércia no Estádio II: * 6º passo: Resistência à tração do concreto * 7º passo: Inércia da seção bruta * 8º passo: Momento de fissuração * 9º passo: Inércia equivalente * 10º passo: Cálculo da flecha imediata * 11º passo: Flecha Diferida 48 t0 = 28 dias = 28/30 = 0,933 meses t ≥ 70 meses fd = 1,15 · 1,337 = 1,538 cm * 12º passo: Flecha Final * 13º passo: Aceitabilidade dos deslocamentos Na viga analisada, iremos verificar o limite para danos em elementos não estruturais, onde avaliaremos o deslocamento admissível sobre alvenarias. Para isso, o deslocamento vertical ocorrido após a construção da parede é limitado a l/500. Então o deslocamento limite para essa análise é de 480/500 = 0,96 cm. Então a viga não será aceita, uma vez que o deslocamento final da peça é de 2,688 e está acima do limite avaliado o que poderá provocar danos nesse elemento não estrutural. Como medida de solução, sugere-se aumentar a altura da viga, especificar um fck maior para o concreto, adotar uma armadura de compressão que colabore para a diminuição desse deslocamento ou adotar contraflecha. Para adoção de contraflecha utilizaremos novamente a equação 2.22 e verificaremos o valor da contraflecha máxima determinada pela NBR 6118:2003, onde alertamos que prevalece o limite da contraflecha recomendado pela norma. Pela equação 2.22, temos: cf = fi + fd/2 = 1,15 + 1,1538/2 = 1,919. Limite máximo para adoção de contraflecha = l/350 = 1,371 cm. Por tanto a contraflecha adotada será de 1 cm. 49 3.3 Cálculo de flechas em vigas de concreto armado utilizando o Excel 3.3.1 Introdução Vimos que os cálculos de flechas em vigas apesar de ser um método simplificado é um processo complicado por reunir diversas variáveis que influem nesses resultados. Para auxiliar o cálculo das flechas em vigas, elaborou-se uma planilha em Excel que automatizou esse processo. Esse programa é uma excelente ferramenta, por abranger diversas necessidades como operações financeiras, trigonométricas, elaboração de gráficos, etc. Dentro desse programa pode ser elaborado programas de cálculo para diversas finalidades e ainda tem a vantagem de ser mais simples se comparado a outros programas de desenvolvimento de cálculos em linguagens Java, Delphi e c++ por exemplo. 3.3.2 Cálculo de flechas em vigas de concreto armado utilizando o Excel Apresentaremos nessa seção as bases da elaboração do programa de cálculo de flechas em vigas de concreto armado em Excel e o cálculo de flechas em vigas de concreto armado utilizando o Excel. Para que possamos validar nossa planilha, para isso utilizaremos como exemplos o cálculo das vigas apresentadas nos exemplos 1 e 2. Não será informada cada equação inserida nas células, uma vez que essas equações foram apresentadas ao longo do presente trabalho. A idéia inicial surgiu para se obter a rigidez equivalente de Branson e em seguida obter os deslocamentos nas vigas. Essa planilha foi dividida em duas guias, uma que denominamos de dados e resultados e a outra de cálculo. Essa divisão foi necessária para agrupar em uma guia a entrada de dados e os resultados obtidos e a outra para reunir os cálculos necessários para a obtenção de flecha, onde o objetivo dessa divisão foi facilitar a visualização desses resultados e concentrar na mesma planilha os resultados e na outra guia os cálculos realizados. Ressaltamos que a planilha contempla o cálculo de deslocamentos em viga para qualquer tipo de carregamento, bem como o tipo de apoio (Figura 2.19). 50 Tabela 3.1 – Exemplo da guia de cálculo da planilha em Excel. valores limites x / d limite – kx linha neutra limite - x (m) 0,075 0,03 momento limite - ML (MNm) 0,0138 2 armadura limite - AL (m ) taxa limite de armadura - (%) 0,0001 0,15% características da seção armadura a flexão base - bw (m) 0,17 altura - h (m) 0,45 centro arm. inf - a (m) 0,04925 centro arm. sup - a' (m) 0,00 braço - d (m) 0,40 4 inercia - Ic (m ) 0,00129094 vão (m) 3,00 características dos materiais par A par B par C linha neutra - x (m) braço - z (m) 0,6606 -0,6618 0,0991 0,1832 0,3275 2 armadura - As (cm ) momento arm. dupla (KNm) 6,96 13,7820 armadura mínima concreto - fck (MPa) concreto - fcd (MPa) concreto - fct,m (MPa) concreto - fctk,sup (MPa) concreto - Eci (MPa) concreto - Ecs (MPa) aço - Es (MPa) 20,00 14,29 2,21 2,87 25.043,96 21.287,37 210.000,00 2 momentos momento em serviço (MNm) fletor seção - Ma (MNm) mom. de fiss. - Mr (MNm) 3 modulo resistente - Wo (m ) m p/ arm. mín. - Md,mín (MNm) par A par B par C linha neutra - x (m) braço - z (m) arm. mín. p/ Md,mín - (cm ) taxa de arm. mín da norma - 0,05878 0,07078 0,019023 2 arm. mín. da norma - (cm ) 2 arm. mín. adotada - (cm ) taxa de arm. mín - (%) 0,0057 0,0132 0,6606 -0,6618 0,0132 0,0203 0,3926 0,7727 0,0015 1,1475 1,1475 0,150% inércia domínio II aço tração - As (m²) 0,000717 aço compressão - A's (m²) taxa de armadura - r (%) linha neutra - x (m) 0 1,05 0,1456 4 armadura dupla - III (m ) 0,00063507 fator de flecha diferida no tempo taxa de arm. compressão - r' (%) 0,0000 tempo aplicação - t0 (meses) tempo de cálculo - t (meses) 0,5 70 coeficiente t0 - x(t0) 0,5436 coeficiente t - x(t) coeficiente de flecha - af 2,0000 1,4564 rigidez equivalente controle dos deslocamentos 2 rigidez eq - (EI)eq (MNm ) 2 rigidez bruta - (EI) (MNm ) 13,99 27,48 aceitabilidade sensorial total 250 aceitabilidade sensorial acidental efeito estrutural total efeito estrutural após a construçao elemento não estrutural parede elemento não estrutural forro balanço 350 250 600 500 500 125 51 Na guia cálculo subdividimos os cálculos em seções (Figura 3.1): valores limites, características da seção, características dos materiais, momentos, inércia domínio II, rigidez equivalente, armadura a flexão, armadura mínima, fator de flecha diferida no tempo e controle dos deslocamentos. Reunimos a partir das equações apresentadas ao longo desse trabalho numa única planilha e com isso aceleramos o processo de obtenção das flechas. Os resultados obtidos são apresentados na guia dados e resultados, que será apresentada posteriormente, bem como será explicado como é dado sua entrada de dados. Na guia dados e resultados, formatamos de modo a permitir que as únicas células que podem ser modificadas são as de entrada de dados. Em seguida serão apresentados dois exemplos para validar e exemplificar o processo de entrada de dados na planinha. Para validarmos essa planilha, devemos comparar ao método apresentado no exemplo 1 da seção 3.2.1. Primeiramente devemos definir as propriedades geométricas da viga, onde intitulamos de características da viga. Em cada entrada de dados foi implementado comentários (tabela 3.2) para facilitar a utilização do usuário, bem como minimizar erros por entrada de dados. Retomando o exemplo 1, apresentaremos um processo passo a passo de entrada de dados e obtenção de dados para a verificação da viga em serviço utilizando a ferramenta Excel, onde abaixo de cada entrada de dados apresentaremos os comentários inseridos na planilha. Tabela 3.2 – Exemplo da guia dados e resultados em excel CÁLCULO DE FLECHAS EM VIGAS DE CONCRETO ARMADO- NB6118-2003 DADOS DE ENTRADA CARACTERÍSTICAS DA VIGA BASE - bw (cm) 17 ALTURA - h (cm) 45 CG ARM. INFERIOR - a (cm) 4,925 CG ARM. SUPERIOR - a' (cm) 0 x / d LIMITE - kx 0,075 VÃO DA VIGA (m) 5,00 CARACTERÍSTICAS DO CONCRETO fck (MPa) Ecs (MPa) 20 21.287,37 52 αe 9,87 ESFORÇOS SOLICITANTES Mk (ELU) (KNm) 63,28 Mk (ELS) (KNm) 55,78 Mkg (KNm) 50,78 Mkq (KNm) 12,50 ψ2 0,40 RESULTADOS OBTIDOS ARMADURAS 0,397 x/d DOMÍNIO 3 DOMÍNIO ELU 2 As (cm ) 6,045 As SUPLEMENTAR - (cm2) 0,205 2 As' (cm ) 0,000 TAXA DE ARMADURA - r (%) 0,917 MOMENTOS Mmáx FISSURAÇÃO (KNm) 19,02 Mmáx ARM. DUPLA (KNm) 13,782 RIGIDEZ 2 12,84 RIGIDEZ EQ (EI)eq (MNm ) 2 27,48 RIGIDEZ BRUTA (EI) (MNm ) 0,4671 RAZÃO (EI)eq / (EI) FATOR PARA FLECHA DIFERIDA NO TEMPO CARGA - t0 (meses) 0,5 TEMPO DE CÁLCULO - t (meses) α ( COEF. DAS COND DE CARREGAMENTO) 70 5/48 FATOR - αf 1,46 CÁLCULO DE FLECHAS EM VIGAS FLECHA IMEDIATA ACIDENTAL (cm) 0,101 FLECHA IMEDIATA PERMANENTE (cm) 1,030 FLECHA IMEDIATA TOTAL (cm) 1,132 FLECHA DIFERIDA (cm) 1,648 FLECHA FINAL (cm) 2,780 VALOR DA LIMITAÇÃO FLECHA ADMISSÍVEL (cm) ACEITABILIDADE DO DESLOCAMENTO 250 2,00 NÃO ACEITO 53 1º passo: Definir a base da viga. BASE - bw (cm) 17 Comentário: Entrar com o valor da base da viga em cm. 2º passo: Definir a altura da viga. ALTURA - h (cm) 45 Comentário: Entrar com o valor da altura da viga em cm. 3º passo: Definir o CG da armadura inferior. CG ARM. INFERIOR - a (cm) 4,925 Comentário: Obtém esse valor somando o cobrimento+bitola do estribo+CG da armadura. 4º passo: Definir o CG da armadura superior. CG ARM. SUPERIOR - a' (cm) 0 Comentário: Obtém esse valor de maneira análoga da armadura inferior. 5º passo: Definir o limite da profundidade da linha neutra. x / d LIMITE – kx 0,075 6º passo: Definir o vão teórico da viga. VÃO DA VIGA (m) 5,00 Comentário: Vão teórico da viga em m. Até o 6º passo é onde está a seção de características da viga, onde essa etapa é de enorme importância, pois definirá com qual geometria e para que vão será analisado a peça de concreto armado. Na próxima seção serão apresentados as características do concreto. 7º passo: Definir a resistência característica do concreto. fck (MPa) 20 Comentário: Entrar com a resistência característica do concreto em Mpa. Dados obtidos nessa seção: Ecs (MPa) αe 21.287,37 9,87 54 Nessa seção obtemos o módulo de elasticidade secante do concreto (equação 2.2) e o fator de homogeneização da seção transversal. O próximo grupo será o dos esforços solicitantes da viga de concreto armado. Ressaltamos que os esforços solicitantes foram definidos como entrada de dados, haja vista que o objeto de estudo do presente trabalho é avaliar os deslocamentos em vigas de concreto armado, portanto, para a obtenção de momentos fletores máximos ao longo do trecho de uma viga, recomenda-se utilizar modelos adequados de análise estrutural ou de programas que auxiliem na obtenção desses resultados. 8º passo: Definir o momento característico permanente. 50,78 Mkg (KNm) Comentário: Entrar com o momento característico permanente (KNm). 9º passo: Definir o momento característico acidental. 12,50 Mkq (KNm) Comentário: Entrar com o momento característico acidental (KNm). 10º passo: Definir o fator de redução de combinação quase permanente ELS (ψ2). ψ2 0,40 Comentário: Obtido da tabela 11.2 da NBR 6118:2003. Dados obtidos nessa seção: Mk (ELU) (KNm) Mk (ELS) (KNm) 63,28 55,78 Nesta seção traremos o dimensionamento aproximado para a seção. A planilha combina o momento característico no ELU com as propriedades geométricas definidas e sugere uma armadura para a viga analisada. Porém cabe ao usuário aceitar ou modificar essa armadura, para isso elaboramos uma célula para introduzir o As suplementar ao dimensionado. Dados obtidos nessa seção: x/d DOMÍNIO ELU 2 As (cm ) 0,397 DOMÍNIO 3 6,045 55 Conforme ilustrado, a planilha dimensiona a viga, definindo em qual domínio de dimensionamento a viga se encontra para em seguida definir qual As necessário para a peça. 11º passo: Definir o As suplementar ao proposto pela planilha. As SUPLEMENTAR - (cm2) 0,205 Comentário: Obtém esse resultado subtraindo o As adotado - As sugerido. No exemplo 1, adotamos uma configuração de armadura de 6 ϕ 12,5 que leva a um As de 6,25 cm2. Como a planilha dimensionou a viga com um As de 6,045 cm2, torna-se necessário complementar o As na célula de As suplementar. No exemplo em questão o valor suplementar é de 0,205 cm2. 12º passo: Definir o As da armadura de compressão. 2 0,000 As' (cm ) Comentário: As de armadura de compressão. Dados obtidos nessa seção: TAXA DE ARMADURA - ρ (%) 0,917 Taxa de armadura. Na próxima seção, trará os momentos máximos de fissuração de armadura dupla na seção analisada. Dados obtidos nessa seção: Mmáx FISSURAÇÃO (KNm) Mmáx ARM. DUPLA (KNm) 19,02 13,782 Nesta seção é demonstrado os resultados da rigidez equivalente, bruta e a relação entre esses dois fatores. 2 RIGIDEZ EQ (EI)eq (MNm ) 2 RIGIDEZ BRUTA (EI) (MNm ) RAZÃO (EI)eq / (EI) 12,84 27,48 0,4671 56 A partir dessa seção é iniciado o processo para o cálculo de flechas imediatas e diferidas. Será iniciado esse cálculo com o valor do fator para flecha diferida no tempo. 13º passo: Inserir o tempo em meses, relativo a data de aplicação da carga de longa duração. CARGA - t0 (meses) 0,5 14º passo: Inserir o tempo em meses, quando se deseja obter o valor da flecha diferida. TEMPO DE CÁLCULO - t (meses) 70 15º passo: Inserir o parâmetro α que depende das condições de carregamento e apoio da seção de viga analisada (Figura 2.19). Essa figura foi introduzida na planilha. α ( COEF. DAS COND DE CARREGAMENTO) 5/48 Dados obtidos nessa seção: FATOR – αf 1,46 Obtenção do parâmetro que servirá para obter a magnitude das flechas diferidas e finais da viga analisada. Na seção seguinte, traremos os resultados finais para nossa análise. Para efeitos de análises e para checarmos a parcela de deslocamentos referentes ao carregamento proveniente de cargas permanentes e acidentais, dividimos os deslocamentos imediatos em deslocamentos imeditatos permanentes e deslocamentos imediatos acidentais e por fim o deslocamento imediato total, resultando da soma do deslocamento dessas duas parcelas. Dados obtidos nessa seção: FLECHA IMEDIATA ACIDENTAL (cm) FLECHA IMEDIATA PERMANENTE (cm) FLECHA IMEDIATA TOTAL (cm) FLECHA DIFERIDA (cm) FLECHA FINAL (cm) 0,101 1,030 1,132 1,648 2,780 De acordo com os dados apresentados, verificamos a validade de nossa planilha, já que obtivemos resultados equivalentes aos apresentados de forma manual, então ressaltamos a importância dessa planilha, haja vista da importância dessa análise bem como a obtenção desses resultados de forma rápida. Para finalizar a apresentação do esquema de entrada de dados, implementamos uma verificação dos deslocamentos referentes aos padrões de aceitabilidade desses deslocamentos. 57 16º passo: Inserir o valor da razão que deve ser avaliado o limite desse deslocamento. Onde a tabela 2.3 extraída da NBR 6118:2003, apresenta para qual padrão a viga deverá atender. VALOR DA LIMITAÇÃO 250 Dados obtidos nessa seção: FLECHA ADMISSÍVEL (cm) ACEITABILIDADE DO DESLOCAMENTO 2,00 NÃO ACEITO No exemplo 1 a viga foi avaliada pelo padrão de aceitabilidade sensorial e nesse exemplo para a planilha adotamos o mesmo critério. Confirmamos a não aceitabilidade sensorial da viga de concreto armado. Portanto, ressaltamos a importância do uso de ferramentas computacionais para auxiliar estudantes e engenheiros em diversas análises estruturais. Essa planilha apresenta um interface simples e bem explicativa o que facilita a entrada de dados, bem como a obtenção de resultados satisfatórios e confiáveis. 3.3.3 Análise de variáveis que influem nos deslocamentos de vigas de concreto armado Nessa seção serão avaliados diversas variáveis que influem nos deslocamentos de vigas de concreto armado. Serão relacionadas algumas variáveis e comparadas seus efeitos nos deslocamentos. Foram elaborados diversos gráficos para facilitar a visualização, bem como o entendimento da influência dessas variáveis. Ressaltamos que alguns fatores são difíceis de analisar, já que apresentam alguns parâmetros que o tornam complicado de implementar nessas análises. Um exemplo disso é a avaliar os efeitos da fluência de forma precisa, pois ela depende da umidade, da temperatura, nível de fissuração da peça, amadurecimento do concreto na data do carregamento, dentre outros. O que ocorre é que variáveis como temperatura e umidade podem variar ao longo do mesmo dia em uma obra, além disso esses parâmetros variam de uma obra para outra o que torna complicado uma avaliação precisa desses efeitos. Portanto, iremos buscar averiguar qual a relação de algumas variáveis com os deslocamentos. Comparamos os efeitos da variação do carregamento, da parcela de carga permanente e acidental, do tempo de aplicação do carregamento, das propriedades 58 geométricas, da influência da consideração da armadura de compressão, da variação do vão, do fck, das condições de apoio e variação do tipo de carregamento. Utilizamos a viga do exemplo 1 para analisar essas variáveis. a) Deslocamento x carregamento Essa comparação busca verificar com que proporção os deslocamentos aumentam se comparados a elevação dos carregamentos.Conforme apresentado na Figura 3.1. Deslocamento (cm) Deslocamento X Momento 3 2,5 2 1,5 1 0,5 0 Flecha Imediata (cm) 14 19,2 24,8 30,4 36 41,6 Flecha Imediata (cm) 0,24 0,59 0,88 1,03 1,10 1,13 Flecha Diferida (cm) 0,36 0,86 1,28 1,50 1,60 1,64 Flecha Final (cm) 0,6 Flecha Diferida (cm) Flecha Final (cm) 1,44 2,16 2,53 2,70 2,77 Momento (KNm) Figura 3.1 – Gráfico do deslocamento x limite. Intuitivamente podíamos afirmar que à medida que os esforços aumentam os deslocamentos também se elevam. Esse gráfico (Figura 3.1) vem a comprovar essa premissa. Para a elaboração dessa relação foram mantidas as propriedades geométricas bem como as outras variáveis que podiam influir nos resultados. Nessa análise variamos apenas os esforços solicitantes com a mesma proporção com o objetivo de averiguar a relação linear dos deslocamentos com esses esforços. Com essa comparação verificamos que os deslocamentos não variam de maneira proporcional com o aumento dos deslocamentos o que denota o comportamento não linear das vigas de concreto armado. 59 b) Deslocamento x parcela de carga permanente e acidental Deslocamento (cm) Deslocamento x % de Carga permanente e % de Carga Acidental 3,50 3,00 2,50 2,00 1,50 1,00 0,50 0,00 0 10 20 30 40 50 60 60 50 40 30 20 10 0 Flecha Imediata (cm) 1,27 1,14 1,01 0,88 0,75 0,62 0,48 Flecha Diferida(cm) 1,84 1,66 1,47 1,28 1,09 0,90 0,70 Flecha Final (cm) 3,11 2,79 2,48 2,16 1,84 1,51 1,17 Momento: Acidental/ Permanente - KNm Figura 3.2 – Gráfico do deslocamento x parcela de carga acidental e permanente Nessa análise buscamos avaliar a influência do carregamento permanente e acidental nos deslocamentos imediatos, diferidos e acidentais em vigas de concreto armado. Para esse estudo adotamos a metodologia de combinar um carregamento que inicialmente gerasse um momento de 60 KNm permanente e 0 KNm acidental e em seguida 50 KNm permanente e 10 KNm de acidental, prosseguindo assim até obter um carregamento de 0 KNm de permanente e 60 KNm de acidental. Alertamos que essa última combinação é impossível de ocorrer, pois qualquer estrutura haverá pelo menos seu carregamento do seu peso próprio, entretanto implementamos essa combinação pelo fato de avaliar a influência nos deslocamentos diferidos e finais da viga de concreto armado. Conforme apresentado na seção 2.2.4 a fluência consiste no aumento das deformações no concreto, que ocorrem ao longo do tempo de vida da estrutura, em virtude da aplicação de ações permanentes. Podemos observar na Figura 3.2 que com a diminuição do carregamento permanente os deslocamentos diferidos assumem valores bem menores o que comprova a relação do carregamento permanente com a fluência e por conseqüência com os deslocamentos diferidos. Outro aspecto que podemos ressaltar é que apesar do somatório dos carregamentos permanentes e acidentais permanecem constantes, a combinação para análise 60 dos estados limites de serviço em deformações excessivas (equação 2.23) limita os deslocamentos acidentais em apenas 40 %. Ou seja, dependendo da magnitude do carregamento permanente tem um fator preponderante nos resultados dos deslocamentos, uma vez que a combinação de carregamento adotada não minora seus efeitos e devido a sua influência nos deslocamentos diferidos. c) Deslocamento x tempo de aplicação das cargas Deslocamentos (cm) Deslocamento x tempo de aplicação das cargas 3,50 3,00 2,50 2,00 1,50 1,00 0,50 0,00 Flecha Imediata (cm) Flecha Diferida (cm) 7 15 30 45 60 Flecha Imediata (cm) 1,23 1,23 1,23 1,23 1,23 Flecha Diferida (cm) 1,94 1,79 1,63 1,51 1,42 Flecha Final (cm) 3,17 3,02 2,86 2,74 2,65 Flecha Final (cm) Tempo de aplicação das cargas (dias) Figura 3.3 – Gráfico do deslocamento x tempo de aplicação das cargas Nessa análise mantivemos o mesmo critério das análises anteriores, onde fixamos as demais propriedades da viga, variando apenas a idade em meses, relativa à data de aplicação da carga de longa duração. Nesse exemplo buscamos avaliar as vantagens de retardar o processo de retirada dos escoramentos nas vigas e avaliar sua influência nos deslocamentos diferidos e finais, já que os deslocamentos imediatos não mudam com a variação desse valor. A NBR 14931:2004 recomenda sobre a retirada dos escoramentos no item 10.2, onde essa retirada é liberada a partir do atendimento de alguns requisitos como podemos citar: resistência do concreto atingir a valores que resistam as tensões nele aplicadas e que não levem a deslocamentos inaceitáveis, tendo em vista o baixo valor do módulo de elasticidade 61 do concreto ( equação 2.2) e a grande probabilidade de deformação diferida no tempo quando o concreto é solicitado a pouca idade. Na Figura 3.3, observamos a diminuição dos deslocamentos com o aumento do tempo de escoramento, que indica uma ótima opção ao projetista quando o mesmo estiver limitado em variar outras propriedades da viga. Essa diminuição deve-se a relação diretamente proporcional do coeficiente Δξ pelo parâmetro αf e conseqüentemente na obtenção dos deslocamentos diferidos e finais (equação 2.18, 2.19 e 2.21). Então, com o aumento do tempo de escoramento, implicará numa redução dos deslocamentos diferidos e finais em torno de 20%, apesar dessa manutenção de tempo de escoramento acima do comumente utilizado em obras o aumento no custo desse método poderá conduzir a resultados satisfatórios dependendo dos fatores limitantes na própria viga. Com essa solução os deslocamentos diferidos conduzem a valores próximos dos deslocamentos imediatos devido a atenuação do efeito da deformação lenta nas vigas de concreto armado. d) Deslocamento x largura da viga Deslocamento x largura da viga Deslocacamento (cm) 3,50 3,00 2,50 2,00 1,50 1,00 Flecha Imediata (cm) 0,50 Flecha Diferida (cm) 0,00 14 15 16 17 18 19 20 25 30 40 Flecha Imediata (cm) 1,23 1,23 1,22 1,21 1,20 1,18 1,16 1,03 0,86 0,51 Flecha Diferida (cm) 1,80 1,79 1,78 1,76 1,74 1,71 1,69 1,50 1,25 0,74 Flecha Final (cm) 3,03 3,02 3,00 2,97 2,94 2,89 2,85 2,53 2,11 1,24 largura da Viga (cm) Figura 3.4 – Gráfico do deslocamento x base da viga Flecha Final (cm) 62 O aumento da largura da viga conduz a uma diminuição dos deslocamentos como podemos comprovar na Figura 3.4. Essa avaliação manteve as demais propriedades da viga, bem como os mesmos esforços solicitantes variando-se apenas a largura da viga. No cálculo do momento de fissuração (equação 2.12) o aumento da largura conduz a elevação do momento de fissuração. Já no cálculo da rigidez equivalente (equação 2.16) com o aumento do momento de fissuração implicará em um aumento da rigidez equivalente. Como o cálculo da flecha imediata é inversamente proporcional a rigidez equivalente comprova as razões da diminuição dos deslocamentos. O aumento da largura da viga auxilia no sentido da diminuição da viga, porém numa proporção menor se comparada ao aumento da altura da viga, como veremos posteriormente. Essa proporção menor deve-se ao fato da modificação na altura variar ao cubo enquanto na base da viga não ocorrer o mesmo. e) Deslocamento x altura da viga Deslocamento x Altura da viga 3,50 Deslocamentos (cm) 3,00 2,50 2,00 1,50 Flecha Imediata (cm) 1,00 Flecha Diferida (cm) 0,50 0,00 Flecha Final (cm) 35 40 45 50 55 60 65 70 Flecha Imediata (cm) 1,31 1,13 0,92 0,72 0,52 0,35 0,21 0,13 Flecha Diferida (cm) 1,90 1,64 1,35 1,05 0,76 0,51 0,31 0,18 Flecha Final (cm) 3,21 2,77 2,27 1,77 1,29 0,85 0,53 0,31 Altura da viga (cm) Figura 3.5 - Deslocamento x altura da viga Os métodos de comparação utilizados nessa avaliação da relação dos deslocamentos com a variação da altura de vigas foi o mesmo utilizado ao estudo da variação 63 da largura das vigas. Comprovamos na Figura 3.5 que com o aumento da altura da viga, implicará numa diminuição dos deslocamentos. Conforme apresentado os motivos pelos quais os deslocamentos diminuem com o aumento da largura da viga, ocorre de maneira análoga a variação da altura das vigas de concreto armado. Porém, com uma magnitude maior já que a variação da altura dessa peça implica numa variação ao cubo em sua inércia o que conduz a reduções significativas dos deslocamentos. Como já apresentamos no início deste capítulo a viga analisada possui um vão teórico de 5 m. Alguns livros recomendam que para vigas de concreto armado um prédimensionamento de vigas pode ser determinado sua altura relacionando o vão por 10. Ou seja para nossa viga estudada um dimensão prática para esse vão seria de 50 cm. Onde na tabela 2.1 para aceitabilidade sensorial total, o limite para nossa viga será um deslocamento de 2 cm. O que no gráfico da Figura 3.5 apresenta um deslocamento atendendo ao limite analisado o que sugere aceitar esse pré-dimensionamento recomendado. Portanto, para limitação dos deslocamentos a modificação na altura das vigas apresenta-se como uma excelente opção devido a proporção com que os deslocamentos diminuem com o aumentos da altura das vigas. f) Deslocamento x armadura de compressão Deslocamento x armadura de compressão Deslocamentos (cm) 3,00 2,50 2,00 1,50 1,00 Flecha Imediata (cm) 0,50 0,00 Flecha Diferida (cm) 0 0,4 0,57 0,63 1 1,6 2,5 4 6,3 9,82 Flecha Imediata (cm) 1,13 1,12 1,11 1,11 1,10 1,09 1,07 1,04 1,01 0,96 Flecha Diferida (cm) 1,64 1,57 1,54 1,53 1,47 1,38 1,26 1,11 0,92 0,74 Flecha Final (cm) 2,77 2,69 2,65 2,64 2,57 2,47 2,33 2,15 1,93 1,70 As de armadura de compressão (cm2) Figura 3.6 – Gráfico do deslocamento x armadura de compressão Flecha Final (cm) 64 Essa análise visa avaliar a relação dos deslocamentos com a adoção de armadura de compressão (Figura 3.6). A metodologia utilizada foi iniciar a comparação com a utilização da mesma viga apresentada no exemplo 1. Variamos nesse estudo apenas a armadura adotada na fibra comprimida na viga, ou seja, iniciamos o estudo assumindo uma viga sem nenhum tipo de colaboração da armadura de compressão em seguida implementamos uma viga com As de armadura de As 0,4 cm2 (equivalente a 2 ϕ 5) e procedemos da mesma forma até chegarmos a uma armadura de As 9,82 cm2. Observamos que com o acréscimo de uma armadura de compressão, os deslocamentos diminuem, porém em pequena quantidade. Os deslocamentos imediatos se alteram em pequena escala, já flecha diferida e conseqüentemente a flecha final diminuem com o aumento do As em razão do aumento do parâmetro ρ’ que é inversamente proporcional ao fator αf (equação 2.18) e afeta diretamente os deslocamentos diferidos e finais da viga de concreto armado. Então, apesar da introdução de uma armadura de compressão auxiliar a viga de concreto armado o custo com uma armadura adicional não compensa tendo em face a pequena magnitude que essa alteração representa aos deslocamentos. g) Deslocamento x vão da viga Deslocamento x Vão da Viga 12,00 Deslocamento (cm) 10,00 8,00 6,00 4,00 Flecha Imediata (cm) 2,00 Flecha Diferida (cm) 0,00 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Flecha Imediata (cm) 0,05 0,18 0,41 0,72 1,13 1,62 2,21 2,89 3,65 4,51 Flecha Diferida (cm) 0,07 0,26 0,59 1,05 1,64 2,36 3,22 4,20 5,32 6,57 Flecha Final (cm) 0,11 0,44 1,00 1,77 2,77 3,99 5,43 7,09 8,97 11,1 Vao da viga (m) Figura 3.7 – Gráfico do deslocamento x vão da viga Flecha Final (cm) 65 Essa análise tem o objetivo de verificar, bem como apresentar a existência da não linearidade em estruturas de concreto armado. Como método de análise utilizamos a mesma viga dos exemplos anteriores e fixamos todas as propriedades, inclusive os esforços, e variamos o vão teórico dessa peça de concreto armado. Observamos no gráfico da Figura 3.7 que os deslocamentos das vigas de concreto armado não apresentam um comportamento linear. Para afirmarmos isso, primeiro devemos observar a seguinte relação se aplicarmos uma carga P e provamos um deslocamento d em uma viga de concreto armado, espera-se que para uma estrutura que se comporte de maneira linear apresente um deslocamento 2 d para uma aplicação de uma carga 2 P. A relação do vão com os deslocamentos varia de forma diretamente proporcional e ao quadrado (equação 2.17). Ou seja como exemplo dessa não linearidade que apresentamos anteriormente, observaremos o deslocamento no vão de 4m. O deslocamento apresentado nesse vão é de 1,77 cm. Se dobrarmos o vão dessa peça, o resultado linear que devemos esperar é de aproximadamente 6,27 cm. Porém o deslocamento obtido para esse vão é de 7,09 cm o que valida nossa hipótese de não linearidade dos deslocamentos. Por tanto, aprofundaremos no capítulo 4 as hipóteses básicas da não linearidade a avaliaremos as considerações da NBR 6118:2003 para a avaliação de flechas em vigas de concreto armado para esse tipo de fenômeno. h) Deslocamento x Fck Deslocamentos (cm) Deslocamento x Fck 3,00 2,50 2,00 1,50 1,00 0,50 0,00 Flecha Imediata (cm) 20 25 30 35 40 45 50 Flecha Imediata (cm) 1,13 1,12 1,08 1,03 0,97 0,91 0,84 Flecha Diferida (cm) 1,64 1,62 1,57 1,50 1,41 1,32 1,22 Flecha Final (cm) 2,77 2,74 2,65 2,53 2,39 2,23 2,07 Fck (Mpa) Figura 3.8 – Gráfico do deslocamento x fck Flecha Diferida (cm) Flecha Final (cm) 66 E por fim analisamos a relação do Fck com as flechas. O aumento da resistência característica diminui os deslocamentos (Figura 3.8). Isso ocorre devido a modificação da rigidez equivalente, propiciado pela alteração do módulo de elasticidade secante (equação 2.2). Essa alternativa apesar de diminuir os deslocamentos não se apresenta como uma boa opção devido à pequena diminuição dos deslocamentos em face ao impacto nos custos que uma modificação no Fck traria para a estrutura. 3.4 Considerações finais Nesse capítulo apresentamos a metodologia utilizada para calcular flechas em vigas de concreto armado, por meio de exemplos apresentados detalhadamente. Para facilitar o cálculo das flechas foi elaborado uma planilha em Excel que auxiliou na obtenção desses deslocamentos de forma rápida e confiável, já que a partir do exemplo apresentado foi possível validar essa planilha. Diversos fatores influem no cálculo dos deslocamentos, alguns podem ser mensurados outros não. Temperatura e umidade são exemplos de fatores que podem modificar as flechas, porém no processo de obtenção desses deslocamentos da NBR 6118:2003 não há como considerar essas variações. Nos aspectos construtivos também existem variáveis que podem modificar os resultados das flechas como processos de cura, ações de construção, tempo de desforma e aplicação dos primeiros carregamentos. Com isso obtemos resultados aproximados devido ao grande número de fatores que alteram os resultados na prática. Entretanto buscou-se avaliar alguns parâmetros que possam afetar os deslocamentos. Por meio da inserção de gráficos foi possível avaliar e averiguar os impactos desses fatores nos deslocamento, onde a partir dessas análises objetivou-se entender os motivos que alteravam esses valores e as vantagens e desvantagens de cada modificação. Por fim, ressalta-se a importância de uma análise criteriosa dos deslocamentos, buscando entender e avaliar o máximo de parâmetros envolvidos mesmo sabendo que o modelo simplificado da NBR 6118:2003 não contempla alguns desses fatores. Logo sugere-se avaliar alguns modelos que considerem alguns desses fatores não contemplados pela norma dentre eles um maior refinamento para se avaliar os efeitos das não linearidades. 67 4. ANÁLISE NUMÉRICA DO PROGRAMA CONSNOU 4.1 Aspectos gerais O deslocamento de flechas em vigas de concreto armado envolve diversas variáveis. Podemos citar as não linearidades provenientes da fissuração, efeitos diferidos que ocorrem devido à fluência e retração, colaboração do concreto entre fissuras, influência dos processos construtivos, condições ambientais. O método recomendado pela NBR 6118:2003 é um modelo não linear, porém de uma forma simplificada, pois consideram apenas alguns desses fatores e de forma aproximada. No cálculo do momento de fissuração ele leva em conta a fissuração de uma maneira simplificada e despreza outros fatores relevantes na obtenção desses resultados. Daí considerarmos esse modelo simplificado. O cálculo das deflexões em vigas de concreto armado é realizado utilizando as hipóteses das resistências dos materiais, as quais são aplicadas para materiais homogêneos e isotrópicos. Os elementos de concreto armado, no entanto apresentam várias características próprias que invalidam essas hipóteses como o fenômeno da fluência, retração e fissuração. Daí reforça a hipótese de que as prescrições da NBR 6118:2003 são simplificadas A consideração dos diversos fatores que incidem nos resultados dos deslocamentos em vigas de concreto armado torna o processo complexo e rigoroso já que é difícil parametrizar algumas dessas variáveis. As condições ambientais e o processo construtivo são exemplos dessas complexidades. Porém, com a evolução dos modelos de análise estrutural essas avaliações tornaram-se mais refinadas e criteriosas buscando simular a realidade de forma bem mais realista. Na análise de flechas em vigas de concreto armado existem alguns estudos no sentido de conduzir os resultados teóricos a valores próximos ao experimental. No presente trabalho avalia-se a utilização do programa computacional CONSNOU. Esse programa foi desenvolvido em linguagem FORTRAN pelo professor Antonio R. Marí do Departamento de Engenharia de Universidade Politécnica da Catalunha – Espanha. Este programa computacional, baseado no método dos elementos finitos, divide a seção transversal dos elementos em um número discreto de filamentos de concreto e aço e a integração das áreas dos elementos é feita considerando o comportamento não linear e depende do tempo dos materiais, assim como o processo evolutivo das construções. 68 A seguir são apresentas alguns conceitos que conduzem a um processo de análise mais refinada, onde serão apresentadas as bases computacionais do programa CONSNOU e um exemplo comparativo desse modelo com o da NBR 6118:2003. 4.2 Análise não linear De forma simplificada, podemos definir não linearidade como um cálculo no qual a resposta da estrutura apresenta-se de maneira desproporcional. As diferenças entre uma análise linear e não linear podem ser melhor compreendidas a partir do seguinte exemplo. Se submetermos uma viga a um carregamento de magnitude p que provoque um deslocamento d e em seguida duplicarmos esse esforço, espera-se que para um comportamento linear essa estrutura apresente um deslocamento 2 d. Porém na análise não linear isso não ocorre (Figura 4.1). Figura 4.1 – deslocamento linear x não linear Esse tipo de fenômeno acontece em decorrência a dois fatores que são a não linearidade física e não linearidade geométrica. Esses conceitos serão definidos em breve. Qualquer análise estrutural leva em consideração essa não linearidade, algumas delas de forma simplificada e outra de maneira mais refinada. Por isso, objetivamos comparar o modelo da NBR 6118:2003, onde podemos afirmar que trata de um modelo não linear simplificada e avaliar o modelo proposto pelo Professor Marí onde apresenta um modelo de 69 análise não linear mais refinado e checar com que nível de aproximação está o método da norma brasileira. Portanto, a consideração das não linearidades tem se tornado muito importantes haja vista que o concreto é um material que possui comportamento essencialmente não linear (Figura 2.2). Com esse tipo de consideração é possível avaliar o comportamento de qualquer peça de concreto armado de forma mais realista, pois essas não linearidades exercem significava influência na averiguação das flechas devido ao grau de esbeltez que as estruturas assumiram atualmente O item 15.3 da NBR6118:2003 “Princípios básicos de cálculo”, prescreve de forma bastante clara: “A não linearidade física, presente nas estruturas de concreto armado deve ser obrigatoriamente considerada”, porém a norma não afirma com que grau de refinamento deve-se ser feita essa avaliação. Portanto, em projetos de estrutura é impossível realizar manualmente as contas envolvidas numa análise não linear refinada. Devendo o projetista utilizar de um software para auxiliar nesses cálculos, daí a idéia de se adotar o programa CONSNOU. 4.2.1 Não linearidade física A não linearidade física está relacionada ao comportamento do material empregado na estrutura. No caso de edifícios de concreto armado, as propriedades dos materiais empregados (concreto e aço) se alteram a medida que o carregamento é aplicado à estrutura, gerando uma resposta não linear da mesma. Como no caso de edifícios os pavimentos são construídos em seqüência essa evolução construtiva também afeta os resultados finais. O exemplo disso é a modificação da rigidez da estrutura que se altera à medida que os carregamentos são introduzidos, por isso recomenda-se alterar o valor dessa rigidez. A NBR 6118:2003 considera esse efeito. 70 4.2.2 Não linearidade geométrica É semelhante a não linearidade física por também gerar uma resposta não linear a peça de concreto armado, porém as bases conceituais são diferentes. Essa não linearidade ocorre devido à modificação na geometria dos elementos à medida que um carregamento é aplicado a um edifício. Como essa avaliação está intimamente ligada na avaliação da estabilidade global de um edifício, bem como na análise local de pilares, não será aprofundado esse assunto, já que não trata dos objetivos desse estudo. 4.2 Programa CONSNOU Nos dias de hoje pode-se observar um alto nível de refinamento empregado na análise estrutural, sendo cada vez mais comum a utilização de modelos que consideram a não linearidade física dos materiais, fissuração, fluência e retração do concreto, comportamento elasto-plástico da armadura, relaxação da armadura de protensão, além da influência do processo construtivo no comportamento da estrutura. Esta evolução nos processos de análise se deve ao grande desenvolvimento computacional ocorrido nas últimas décadas, principalmente o aumento de capacidade de processamento dos microcomputadores de uso pessoal (PC). Este fato permitiu realizar, de forma eficiente, a análise dos mais complexos problemas de engenharia. Merlin (2006), em seu estudo utilizou o programa CONSNOU, onde o mesmo apresenta as bases conceituais do programa. Destacamos que o programa leva em consideração as deformações devido à fluência, retração e variação térmica dividindo o elemento analisado em um número discreto de filamentos de concreto e aço, assumindo que cada um dos filamentos apresenta um estado uniaxial de tensão. Já havíamos mencionado a importância de se considerar a contribuição do concreto tracionado entre fissuras (tension stiffening). No programa essa contribuição é introduzida através da equação constitutiva do concreto na tração. Nesse estudo de Merlin (2006) é apresentada de forma detalhada como foi avaliado a deformação por fluência do concreto, da retração e da variação térmica. Essas considerações propiciam ao programa um melhor nível de refinamento devido a essas 71 implementações. Onde destacamos também a análise pelo programa do carregamento em estágios, ou seja, a fim de considerar os efeitos dos processos construtivos foi implementado no programa esse efeito para poder considerar as modificações ocorridas devido a não linearidade física. O esquema geral do programa computacional é apresentado esquematicamente na Figura 4.2, em que os dados de entrada gerais (1) incluem geometria da estrutura, discretização, condições de contorno, propriedades dos materiais, armadura passiva, perfil da armadura de protensão, fases construtivas, condições ambientais, critério de convergência e informações de controle dos dados de saída. Os dados de entrada de cada fase construtiva (2) incluem variações da geometria, condições de contorno, carregamento, protensão, além dos intervalos de tempo entre as fases construtivas e os passos de carga. Conforme, para se ter uma análise não linear mais refinada é necessário levar em consideração diversos fatores. Com isso o processo torna-se mais sofisticado, pois considera várias variáveis e a consideração desses fatores torna a análise complicada. Portanto, para esse tipo de avaliação é preciso um software que auxilie na obtenção desses resultados. No mesmo estudo o autor apresenta também os fundamentos do programa para solucionar esse algoritmo, onde o processo requer estudo por parte do engenheiro já que o processo de entrada de dados é complexo e exige atenção uma vez que o programa retorna a dados já inseridos devido às verificações processadas durante as entrada de dados. Para se avaliar o modelo do programa CONSNOU, alguns ensaios foram realizados em laboratórios e confrontados com os resultados teóricos obtidos pelo programa. Magalhães (2001) do laboratório de estruturas de EESC-USP realizou ensaios de curta duração de lajes contínuas formadas por vigotas pré-moldadas com armação treliçada, REIS (2003) do mesmo laboratório realizou ensaios de longa duração de vigas reforçadas à flexão no bordo comprimido. Após esses ensaios comprovou-se boa concordância dos resultados experimentais se comparados ao modelo teórico o que ressalta a importância e valida a utilização do programa. A seguir será apresentada um exemplo de viga analisada no capítulo anterior e analisada no programa CONSNOU. 72 Figura 4.2 – Fluxograma simplificado do programa CONSNOU – Merlin (2006). 4.3 Análise numérica Nessa seção buscamos avaliar a relação do modelo recomendado pela NBR 6118:2003 e a utilização de um programa de análise não linear mais refinado. Para isso 73 utilizamos da viga apresentada no exemplo 1. Após os cálculos realizados pelo modelo recomendado pela norma brasileira, buscamos manter as mesmas propriedades consideradas para se ter uma análise bem fundamentada, porém com a consideração de diversos fatores e com uma maior grau de refinamento, os deslocamentos dessa comparação apresentaram algumas diferenças. Podemos apontar essas discrepâncias ao fato da consideração de outros efeitos não avaliados pela NBR 6118:2003 e a simplificação de algumas variáveis como a aproximação no resultado da rigidez equivalente. NBR 6118 x CONSNOU 3 Deslocamento (cm) 2,5 2 1,5 Não linear 1 NBR 6118:2003 0,5 0 Não linear 1 2 6 12 24 36 48 60 72 1,05 1,3 1,58 1,79 1,96 2,07 2,14 2,17 2,2 NBR 6118:2003 1,283 1,469 1,849 2,141 2,449 2,613 2,708 2,759 2,78 Tempo (meses) Figura 4.3 – Gráfico de deslocamento NBR 6118:2003 x CONSNOU. Para validar nossa análise, foi comparado os deslocamentos obtidos a partir das prescrições da NBR 6118: 2003 e do modelo do programa CONSNOU. Para esse estudo foi buscou-se fixar as demais propriedades da peça e durante o processo de entrada de dados no programa foi adotado os mesmos parâmetros do modelo da NBR 6118:2003. Variamos nessa comparação o tempo no qual se desejaria verificar os deslocamentos. Após a elaboração do gráfico, podemos perceber que à medida que aumentava-se o tempo que se desejaria verificar os deslocamentos os dois modelos tornavam-se mais discrepantes. Portanto para flechas imediatas os dois modelos possuem comportamentos aproximados, já para deformações ao longo do tempo essas divergências apresentam-se de maneira mais acentuada onde o modelo da NBR 6118:2003 sempre está com valores acima do modelo não linear mais refinado. Esse valor superior deve-se ao fato de considerar alguns efeitos de forma simplificada e com isso essas aproximações tendem a ser maiores para que possam estar a favor da segurança. 74 4.4 Considerações finais Com o aumento da importância da analise das estrutura de concreto armado em serviço recomenda-se adotar métodos de análise mais refinados ou então buscar ajustar os modelos simplificados e calibrá-los para que os mesmos possam conduzir a resultados satisfatórios e condizentes com o que acontecerá na peça de concreto armado na prática. Para isso é necessário que esse assunto seja mais abordado para que se busque avaliar as deflexões em vigas de um modo refinado e ao mesmo tempo esse processo tornar-se mais simples de analisar, uma vez que não é tão utilizado devido as dificuldades encontradas devido ao seu elevado nível de refinamento. 75 5. CONCLUSÕES Neste trabalho foi apresentado a formulação teórica do processo de cálculo de flechas em vigas de concreto armado, apresentando-se por meio de exemplos práticos como essas deflexões são determinadas. A partir disso foi elaborada uma planilha em Excel que auxiliou o estudo no sentido de agilizar o processo de obtenção dos deslocamentos. No capítulo 3 além de ter sido apresentado dois exemplos de cálculo de flechas em vigas de concreto armado foi demonstrado os passos de entrada de dados, bem como o modo de obtenção de resultados na planilha. A interface da planilha foi demonstrada (Tabela 3.1 e 3.2) para que durante a utilização do mesmo facilite o processo de entrada de dados e obtenção dos resultados. Sugerimos a utilização dessa planilha para engenheiros, estudantes e projetistas de um modo geral quando se desejar obter os deslocamentos em vigas de concreto armado utilizando a NBR 6118:2003. Os modelos apresentados por meio de gráficos no capítulo 3 serviram para avaliar os impactos de diferentes variáveis nos resultados dos deslocamentos. Esse estudo foi conclusivo ao demonstrar que mesmo modificando algumas propriedades e diminuindo os deslocamentos algumas dessas opções não trariam tantos ganhos ao desempenho da estrutura , já que os impactos dessas mudanças não trariam tantas reduções, que foram os casos da modificação do Fck, da largura da viga e também da consideração da armadura de compressão. Entretanto a alteração da altura da viga apresentou dentre as alternativas comparadas a mais satisfatória. Esses comparativos visaram também demonstrar o comportamento não linear das vigas de concreto armado o que estimulou a busca de métodos não lineares mais refinados para analisar essas vigas. O modelo não linear mais refinado utilizado no presente estudo foi o programa CONSNOU do professor Antonio R. Marí da Universidade Politécnica da Catalunha. Este programa é baseado no métodos dos elementos finitos, divide a seção transversal dos elementos em um número discreto de filamentos de concreto e aço, onde a integração das áreas é feita considerando o comportamento não linear e depende do tempo dos materiais. Esse programa foi avaliado a partir de resultados experimentais e comparados a resultados teóricos obtidos do programa, onde essa comparação apresentou resultados satisfatórios e por fim foi comparado um exemplo de viga onde se avaliou os deslocamentos utilizando-se o modelo da NBR 6118:2003 e comparado aos resultados do programa CONSNOU. Essa avaliação demonstrou que o modelo da norma brasileira não conduz a bons valores quando se 76 compara os deslocamentos diferidos, já para os deslocamentos imediatos os dois métodos apresentam valores aproximados. Em suma, sugere-se utilizar o modelo da norma brasileira dependendo do grau de refinamento que se deseja obter. Para análises mais refinadas a opção mais recomendada é a utilização de modelos não lineares mais refinados que levem em consideração outros fatores não contemplados pela norma brasileira. Os efeitos da fissuração é considerado pela NBR 6118:2003 no cálculo da inércia equivalente, já os efeitos da fluência e retração são simulados pelo cálculo do parâmetro αf (Equação 2.18) obtido a partir do coeficiente ξ, ou seja essas consideração são bastante simplificadas. Portanto, o programa CONSNOU pode ser uma excelente opção devido a sua concordância com resultados experimentais. Conforme apresentado neste trabalho, para análises não lineares mais refinadas é necessário utilizar métodos mais sofisticados. No presente trabalho adotamos o CONSNOU como referencial para nossas análises. Assim, sugere-se um estudo semelhante ao apresentado onde avalie as divergências entre o modelo da norma brasileira se comparado a outros modelos mais complexos, podendo também comparar os deslocamentos obtidos pelo método da NBR 6118:2003 a modelos experimentais onde a partir dessas comparações busque recomendar fatores de correção para calibrar e ajustar o modelo atualmente recomendado pela norma. 77 Referências Bibliográficas ALVA, G.M.S. Estados limites de serviço segundo a NBR 6118. Universidade Federal de Santa Maria. Departamento de Estruturas e Construção Civil. Disponível em: <http:www.ufsm.br/decc/ecc1008/downloads/els6118.pdf. Acesso em: 15 mai. 2010. AMERICAN CONCRETE INSTITUTE (1966). ACI 435.2R - Deflections of reinforced concrete flexural members (reapproved 1989). In: (1994). ACI manual of concrete practice. Detroit, ACI. part 4. ARAÚJO, J. M. Processos simplificados para cálculo de flechas de vigas de concreto armado. 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