A ORGANIZAÇÃO ESPACIAL DA MICRORREGIÃO GEOGRÁFICA DA
CAMPANHA CENTRAL1
ALVES, Ana Luiza Pinto2; BEZZI, Meri Lourdes3; PETTINE, Lucas Jardim4
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Trabalho de pesquisa_NERA/CCNE/UFSM
Acadêmica do curso de Geografia Bacharelado/UFSM, Santa Maria, RS, Brasil
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Profª. Dra. do Departamento de Geociências/NERA/CCNE/UFSM, Santa Maria, RS, Brasil
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Acadêmico do curso de Geografia em Licenciatura Plena/UFSM, Santa Maria, RS, Brasil
Iniciação Científica/PIBIC/CNPq
Email: [email protected]; [email protected]; [email protected]
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RESUMO
O trabalho apresenta como tema central a organização espacial na Microrregião Geográfica da
Campanha Central (MRG 030). Nesta perspectiva, objetiva-se identificar como a organização
espacial deste recorte espacial está estruturada na atualidade, suas mudanças e permanências.
Metodologicamente essa investigação foi estruturada em etapas. Inicialmente, revisitaram-se as
matrizes teóricas e coletas de dados, posteriormente, foi realizado o trabalho de campo, e por fim a
análise e interpretação dos resultados. A MRG 030 tem como principais atividades econômicas a
pecuária, o arroz e a soja. Nas últimas décadas ocorreu a inserção de novas cadeias produtivas
(silvicultura e fruticultura) que reestruturaram economicamente esta Microrregião. Portanto,
constatou-se que a economia desta MRG está concentrada no setor primário, onde se faz necessário
que as políticas públicas do Estado estejam cientes das problemáticas locais, para que possam
estimular o seu desenvolvimento.
Palavras-chave: organização espacial, espaço rural, desenvolvimento regional.
1. INTRODUÇÃO
A presente pesquisa insere-se no contexto dos estudos regionais ao abordar a
organização espacial da Microrregião Geográfica da Campanha Central. A relevância da
temática em estudo deve-se a contribuição deste recorte espacial na formação e na
estruturação da cultura e do espaço produtivo gaúcho e a necessidade de compreender as
significativas transformações espaciais decorrentes da inserção de novas atividades
econômicas nas áreas tradicionais da pecuária rio-grandense.
A Microrregião Geográfica da Campanha Central está localizada na Mesorregião
Geográfica Sudoeste Rio-Grandense, sendo constituída das seguintes unidades territoriais:
Rosário do Sul, Santa Margarida do Sul, Santana do Livramento e São Gabriel. (Mapa 1).
Essa MRG alia sob a ótica da cultura, a política, com a formação de lideranças
regionais que se perpetuam no poder e na economia através da coexistência da pecuária
extensiva tradicional e a inserção de novos atores econômicos, que marcam a influência do
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capital na MRG como um agente que busca romper as barreiras impostas por tradições
seculares.
Figura 1: Mapa da Microrregião da Campanha Central MRG 030 (IBGE). Fonte: Spring 4.3.3. Org.:
ALVES, A. L. P.; RIFFEL, E. S., 2011.
Nesse sentido, pretende-se compreender os fatores responsáveis que tornaram essa
MRG uma das porções menos dinâmicas economicamente no Estado. Contudo, objetiva-se
verificar as implicações das novas cadeias produtivas (fruticultura e silvicultura) na sua
organização espacial, a qual se caracteriza pela presença da pecuária. Essa releitura do
espaço geográfico da Microrregião Geográfica da Campanha Central permitirá identificar as
potencialidades e/ou desequilíbrios socioeconômicos e culturais a serem explorados, para a
proposição de alternativas de desenvolvimento para esse recorte espacial procurando tornar
suas unidades territoriais competitivas.
2. A ORGANIZAÇÃO ESPACIAL DA MRG DA CAMPANHA CENTRAL
Para compreender a atual organização socioespacial da Microrregião (030), faz-se
necessário o resgate histórico para se ter conhecimentos de como as atividades foram
inseridas, ou seja, como se realizou as diversas atividades bem como sua influência na
MRG em estudo. Neste sentido, resgatou-se a evolução da organização socioeconômica da
Campanha Central, buscando explicações através da cultura e verificando as mudanças
e/ou permanências que ela apresentou no decorrer de sua história. Destaca-se que em
virtude das dinâmicas espaciais ocorridas, novos atores econômicos foram introduzidos
buscando viabilizar o desenvolvimento local/regional.
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2.1 O trinômio pecuária-arroz-soja: base da agropecuária regional
A pecuária caracteriza-se como a primeira cadeia produtiva da Campanha Gaúcha, a
qual tem suas origens nos aspectos históricos de ocupação e povoamento do Estado
gaúcho. A atividade pastoril via estâncias garantiram a posse da terra, através do rebanho
bovino disperso nos campos do Estado, deixados pelos padres jesuítas, os quais
desenvolviam a atividade pastoril. As potencialidades naturais deram condições para a
expansão desta atividade. Deve-se ressaltar que, esta atividade representa a maior parcela
do rebanho bovino do Estado, com grande expressividade nacional. (BRUM NETO; BEZZI,
2009).
A pecuária na Campanha Gaúcha consolidou-se via latifúndios pastoris, na sua
maior parte extensivos, os quais dinamizaram a região. Esta cadeia produtiva possuiu três
grandes ciclos: as couramas, charqueadas e os frigoríficos. Através desses ciclos, a
pecuária desenvolveu-se, e consolidou-se como a principal atividade econômica, desde o
inicio da sua ocupação até a atualidade, que originou a tradição pastoril do Rio Grande do
Sul. Atualmente, tem-se a pecuária extensiva dividindo espaço com a pecuária intensiva.
Em relação a pecuária intensiva, tem-se as cabanhas, que representa uma pecuária
desenvolvida com alta tecnologia, manejo e técnicas avançadas, a qual visa tanto o
mercado nacional como o internacional.
Ressalta-se que esta atividade econômica permanece na atualidade como a principal
atividade do setor primário, pois a criação de gado, na Campanha Gaúcha, e em específico
a Campanha Central, se constitui em um dos seus alicerces econômicos. Tal fato justifica a
relevância da pecuária, pois essa se mantém como uma importante atividade econômica em
âmbito regional, mesmo diante das crises que esse segmento produtivo tem enfrentado no
decorrer do tempo. (RODRIGUES, 2006).
Paralelamente à atividade pecuarista, a partir da década de 1920, estrutura-se,
nessa MRG uma nova configuração espacial, através da inserção da lavoura orizícola. Além
da dicotomia produtiva, tem-se uma sociedade dual, composta por pecuaristas e
agricultores. (BEZZI; et al, 2006).
A cultura do arroz teve a sua inserção, a partir do século XX, marcada pelo processo
de despecuarização espacial, ou seja, a cedência de terra por parte do latifúndio pastoril à
agricultura. Esta dinâmica só foi possível através da inserção da lavoura empresarial
altamente mecanizada e competitiva no mercado interno e externo, imprescindível para que
se viabilizasse seu desenvolvimento, uma vez que, na sua maioria as lavouras são
realizadas via arrendamento de terras da pecuária. Dessa forma, o arroz, caracteriza-se
como a primeira lavoura capitalista no Estado gaúcho, apresentando, no decorrer do tempo,
crescimento expressivo tanto em área como em produtividade (BEZZI, 2006).
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Segundo Vieira; Rangel (1993) pode-se dizer que a rizicultura se desenvolveu no
Estado em virtude da presença de mercados favoráveis e de incentivos através de políticas
governamentais. A mesma era basicamente voltada para o mercado interno, pois, ao
contrário dos demais estados brasileiros, o Rio Grande do Sul inseriu-se no cenário
econômico nacional através da produção de alimentos. Essa atividade teve impulso através
do crescimento do mercado consumidor de alimentos nos centros urbanos e, pelo
desenvolvimento de uma política tarifária sobre as implantações do arroz estrangeiro,
estabelecendo uma proteção econômica à rizicultura gaúcha.
A expansão da lavoura orizícola esteve alicerçada no crescente incentivo dado a
essa atividade por órgãos como: INCRA, EMATER, EMBRAPA e o próprio Governo do
Estado, através das Secretarias Municipais de Agricultura. Ressalta-se que a estrutura
fundiária não se alterou, pois as lavouras de arroz desenvolveram-se nas grandes e médias
propriedades, via arrendamento. Contudo, permanece o caráter concentrador da posse da
terra ligada ao pecuarista.
Assim, afirma-se que o desenvolvimento da lavoura orizícola não encontrou
resistência, por parte dos grandes proprietários, pelo contrário, o arrendamento da terra
tornava os seus campos produtivos e rentáveis, uma vez que, o lucro advinha do
arrendamento das mesmas, independentemente de fatores físico-naturais, como estiagens,
enchentes, entre outros fenômenos que podem comprometer sua renda. (BECKER;
WITTMANN, 2003).
A cadeia produtiva do arroz sofreu algumas crises, principalmente, ligadas à questão
de financiamento, as potencialidades naturais e a concorrência com importação do arroz,
principalmente da Argentina. A extensão e a dinâmica espacial da Campanha Central
demonstram uma diversidade econômica que ora originam setores econômicos, ora apenas
agregam atividades complementares e mesmo temporárias. Portanto, a busca da
compreensão da organização de seu espaço produtivo, deve-se considerar todas as
atividades que se desenvolvem sobre a sua base espacial, a fim de se obter a dimensão e a
complexidade dessa estrutura no que diz respeito aos aspectos físicos, socioeconômicos e
culturais do Estado gaúcho. (RODRIGUES, 2006).
Atrelada às transformações que marcaram o cenário nacional, a partir da década de
70/80, pode-se dizer que a presença significativa da lavoura de soja, nessa porção do
território rio-grandense, foi responsável por novos arranjos produtivos no setor primário.
Esses são decorrentes da dinâmica socioeconômica sobre o espaço e também para atender
as demandas de mercado mediante o processo de modernização da agricultura. Assim, a
inserção da cultura da soja, com características de lavoura empresarial desenvolvida
mediante políticas de financiamento reorganizaram novamente a matriz produtiva dessa
MRG. Sua expansão foi bastante significativa em área plantada. Entretanto, assiste-se a
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uma retração dessa cultura a partir da década de 90, a qual retorna a crescer na atualidade
através da soja transgênica.
As extensas áreas disponíveis, que caracterizam os latifúndios da Campanha
Central, demonstraram-se favorável à incorporação, via arrendamento, da cultura da soja.
Essa expansão ocorreu de forma mais significativa em alguns municípios, nos quais as
potencialidades naturais permitiam a introdução dessa cultura via tecnologia, inserindo-se
na tradicional matriz produtiva da pecuária e do arroz.
A viabilidade de políticas de créditos e financiamentos foi um dos fatores
predominantes da presença da agricultura empresarial, em áreas tradicionais da pecuária.
Essas foram direcionadas, ao setor primário, através de órgãos de fomento, via políticas
públicas, estabelecidas pelo governo Estadual e Federal. A lavoura de soja e a do arroz
mantém a concentração da terra na Campanha Gaúcha, pois sua inserção viabilizou-se,
através do arrendamento.
A área plantada de soja encontra-se em expansão em todas as unidades territoriais
da Campanha Central, desse modo, há uma superação espacial das lavouras de soja em
detrimento das orízicolas em alguns municípios, ocasionando transformações significativas
no seu espaço produtivo e, consequentemente, na matriz tradicional, pautada no binômio
pecuária-arroz.
Dessa forma, a soja coexiste com a matriz produtiva tradicional, constituindo-se em
uma atividade dinamizadora da economia das unidades territoriais pertencentes à
Microrregião 030. Os novos arranjos espaciais demonstram a dinâmica do espaço, via
transição geoeconômica entre as regiões produtivas do Rio Grande do Sul. Portanto, a
construção do espaço segue uma lógica que não permite cortes bruscos, demonstrando a
efetiva integração entre as partes que compõe o todo.
2.2 Novas cadeias produtivas na dinamização econômica: fruticultura e silvicultura
Na estruturação do espaço produtivo da Campanha Central, o qual está alicerçado
em cadeias produtivas tradicionais e mais recentemente, a soja, novos investimentos estão
sendo realizados visando à dinamização desse espaço produtivo. Nesse sentido, destaca-se
a fruticultura, como uma alternativa produtiva e de geração de renda, que se encontra em
expansão gradativa. Tal atividade está baseada, principalmente, na produção de cítricos,
como a laranja, a bergamota e a tangerina e em outras frutas como a uva e a melancia.
No que diz respeito à produção de uva ela se faz presente em todos os municípios
pertencentes na MRG em estudo, destacando-se Santana do Livramento, onde estão
instaladas várias vinícolas de expressão nacional, tais como: Vinícola Almadén e a Vinícola
Salton. Ressalta-se que se mantido o atual crescimento, estas unidades territoriais poderão
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se consolidar como um polo de produção voltado para a fabricação de vinhos, sucos e para
o consumo in natura.
Há que se considerar também, que a presença da vitivinicultura, em áreas de
pecuária tradicional, demonstra a inserção de um cultivo “sem a tradição colonial” como a
que ocorreu na Serra Gaúcha. Assim, são desenvolvidas novas estratégias econômicas em
busca de alternativas de desenvolvimento em uma área com desigualdades e desequilíbrios
populacionais decorrentes de potencialidades naturais restritivas.
Desta forma, esse investimento é resultante da união de forças do poder público com
a iniciativa privada com intuito de dinamizar a Metade Sul do Estado. A fruticultura foi
viabilizada, também, devido aos recursos financeiros disponibilizados através do Programa
Estadual de Fruticultura (PROFRUTA/RS), o qual visa incentivar o desenvolvimento da
fruticultura no Estado, diversificando a produção econômica. Os projetos de incentivo a
fruticultura na Metade Sul do Estado podem ser considerados como alternativas para o
desenvolvimento local/regional. Ressalta-se que a fruticultura é desenvolvida em pequenas
e médias unidades produtivas e de forma pontual, o que representa uma possibilidade e/ou
alternativa para o desenvolvimento econômico local/regional. Portanto, não concorre com as
grandes propriedades que mantém o caráter concentrador da terra, através da pecuária
extensiva e da agricultura empresarial, através do arroz e da soja. No máximo, a fruticultura
se associa a essas cadeias produtivas mais tradicionais.
Desta forma, essa atividade gera renda e estimula emprego no campo, diversificando
perspectivas para os trabalhadores rurais, na medida em que origina novas frentes de
trabalho, além daquelas já existentes com o arroz, a soja e a pecuária. Procura, também,
amenizar um dos problemas sociais expressivos dessa MRG que têm seus reflexos na
minimização da migração rural-urbana, na medida em que, oferece novas alternativas de
renda ao produtor rural.
A presença da vitivinicultura transformou também a paisagem, pois além dos campos
nativos, das lavouras de arroz e soja têm-se, na atualidade, os parreirais mostrando sua
inserção em uma paisagem secular da pecuária, ou seja, velhas formas e novas funções.
Além da fruticultura, novas atividades econômicas estão sendo, gradativamente,
inseridas na Campanha Central, transformando a paisagem produtiva e as relações de
trabalho local/regional. Nesse sentido, destaca-se o florestamento, o qual se configura como
outra atividade que visa dinamizar as atividades econômicas existentes nessa MRG, uma
vez que se constitui em uma estratégia econômica que vem se consolidando através do
plantio de pinus, eucaliptos e acácia negra. O plantio tem financiamento de grandes grupos
ligados à produção de celulose, como o Grupo Votorantin-Celulose e Papel, Aracruz e
Stora-Enso (indústria sueco-finlandesa de papel).
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Os investimentos desses grupos ocorrem a partir da aquisição de extensas áreas,
cedidas por arrendamento ou vendidas oriundas dos latifúndios. Neste sentido, a
concentração fundiária persiste nesta MRG, pois as extensas dimensões de terras estão, na
atualidade, sob domínio de grandes grupos empresariais. Nenhuma das novas estratégias
econômicas, nesse recorte espacial, ameaçou a concentração da terra, na medida em que
coexistia a pecuária extensiva realizada em grandes propriedades com o arroz e a soja, ou a
fruticultura em pequenas propriedades.
Entretanto, a iniciativa florestal tem despertado a reação da comunidade
ambientalista, que adverte para os riscos ambientais que a plantação monocultora de pinus
e eucaliptos podem trazer para a MRG. A advertência assenta-se no fato de que a plantação
de espécies exóticas e de grande porte poderá ser responsável por prejuízos ambientais às
reservas hídricas, ao solo, ao clima, a fauna e a flora. Tais advertências baseiam-se em
discussões de cunho ecológico que afirmam que o eucalipto necessita de água abundante
para o seu desenvolvimento, além de bloquear o crescimento da vegetação rasteira nativa
do Pampa. (BEZZI, 2006).
Considerando as informações referentes a esta nova cadeia produtiva, pode-se
destacar que o florestamento não pretende realizar a reconversão da Metade Sul em uma
área de florestas, mas aperfeiçoar as propriedades rurais com sistemas agrosilvopastoris.
Há que se destacar também a criação de áreas de preservação na Metade Sul. Essas áreas
consistem em espaços destinados ao plantio de espécies nativas em contrapartida às áreas
destinadas ao florestamento. Procura-se identificar os aspectos negativos e positivos em
relação aos possíveis problemas ambientais decorrentes da silvicultura. Assim, se faz
necessário um período de tempo maior para que se possam avaliar os impactos sociais,
culturais e econômicos desta cadeia produtiva na MRG em estudo.
Neste contexto, pode-se dizer que o espaço produtivo deste recorte espacial tem
passado por diversas transformações no que se refere à inserção de outras atividades,
distintas da pecuária tradicional que caracteriza, ainda, essa MRG. Tal fato demonstra que a
dinâmica do capital acarreta mudanças constantes na relação sociedade-natureza, mesmo
em porções do espaço onde essa relação organizacional apresenta importante relação com
a cultura e, consequentemente, distingue-se dos demais pela expressividade do
regionalismo rio-grandense.
3. METODOLOGIA
Metodologicamente, esta pesquisa foi estruturada em etapas. Inicialmente, realizouse a operacionalização dos conceitos, partindo de um amplo levantamento bibliográfico,
procurando, desta forma, estabelecer o marco conceitual que estruturou o referencial
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teórico-metodológico do trabalho, através de bibliografias específicas sobre a temática em
estudo, como também o levantamento de dados em fontes secundárias do Sistema IBGE de
Recuperação Automática (SIDRA), que permitiram identificar as questões relativas ao
espaço produtivo.
Sequencialmente realizou-se o trabalho de campo, com intuito de observar in loco a
problemática em questão, o qual consistiu em captura de fotografias e entrevistas nas
secretarias municipais de agricultura.
E por fim, a última etapa, aliando os conceitos aos dados coletados e com as
entrevistas realizadas pode-se interpretar e analisar a organização do espaço produtivo da
Microrregião Geográfica da Campanha Central, e, finalmente, propor alternativas para
alicerçar o desenvolvimento local/regional
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Na atualidade a Microrregião Geográfica da Campanha Central mantém sua
identidade cultural, permanecendo com atividades econômicas características do Estado
gaúcho, baseada inicialmente na pecuária, caracterizada pela presença do gaúcho típico,
ligado intimamente a atividade pecuarista. Posteriormente, a atividade agrícola é inserida
através do arroz, e principalmente da soja. O trinômio, arroz-pecuária-soja caracteriza o
setor primário desta Microrregião mantendo o caráter concentrador da terra através dos
grandes latifundiários. Destaca-se que em virtude das dinâmicas espaciais ocorridas, novos
atores econômicos foram introduzidos buscando viabilizar o desenvolvimento local/regional.
No entanto, para que estas novas cadeias produtivas se estruturem e se dinamizem
é necessário que haja melhoria na infraestrutura, pois um dos principais problemas da
Campanha Central está relacionado a deficiência na malha viária, fator essencial para o
escoamento da produção. Nesse sentido, fazem-se necessários investimentos relativos a
infraestrutura principalmente no setor de transportes, através da recuperação das estradas
que interligam os municípios produtores aos centros de comercialização.
Apesar das dificuldades, a fruticultura se constitui como uma realidade para a
Campanha Central, proporcionando novas frentes de trabalho e geração de renda para o
produtor rural, distinta daquela oriunda da sua matriz produtiva.
Destaca-se também o florestamento, o qual se configura como outra atividade que
visa dinamizar as atividades econômicas das unidades territoriais que compõem esta
Microrregião, uma vez que a silvicultura se constitui em uma estratégia econômica a qual
vem se consolidando através do plantio de pinus e eucaliptos. Os investimentos de grandes
grupos empresariais contribuirão para o rompimento das bases tradicionais de posse da
terra, assentadas no monopólio latifundiário nas mãos de grandes proprietários voltados a
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atividades pecuárias e agrícolas (arroz e soja). Assim, as extensas dimensões de terras
estarão sob domínio desses grupos.
Neste contexto, verifica-se que as condições de vida da população local resultam da
concentração de terra nas mãos de grandes latifundiários, onde a mesma não possui grande
produtividade, restando a sociedade dedicar-se ao setor terciário e, até mesmo, migrarem
para outras regiões do Rio Grande do Sul, ou para outros Estados, ou então, ofertando parte
de suas terras para a agricultura através do arrendamento ou da venda.
A Microrregião da Campanha Central enfrenta o desafio de atrair e reter
empreendimentos que se motivem mutuamente e sejam dependentes de atributos
locacionais específicos. Em razão da gravidade, diversidade e complexidade dos problemas
enfrentados é importante observar que a reversão da atual situação depende de um
conjunto de ações interdependentes. Neste sentido, aponta-se que inicialmente, é
necessária a melhoria do setor primário, o qual pode ser obtido através de incentivos
governamentais e empresariais aos produtores da Microrregião.
Como a economia dessa Microrregião está alicerçada no setor primário, é neste que
as políticas públicas deverão ser estimuladas visando sua maximização. Assim, cabe aos
governantes locais/estaduais, a função de trazer novas indústrias para instalar-se na
Microrregião, através da redução de impostos e incentivos fiscais, fornecendo a
infraestrutura necessária para o crescimento deste setor, aumentando o número de
empregos locais, minimizando as desigualdades sociais presentes na Campanha Central, e
que no decorrer do tempo estão sendo agravadas. Sugere-se também a instalação de
indústrias dos ramos frigoríficos, vinícolas e indústrias de suco e derivados, a fim de
aproveitar a matéria-prima presente e, desta forma, dinamizar a região. Pode-se assim,
fabricar produtos de diversos ramos, utilizando a mão de obra local agregando valor as
unidades produtivas.
Entende-se que todos os esforços na busca da inserção e melhoria da estrutura
produtiva visam a qualidade de vida da população, para que ela não precise buscar
melhores condições e oportunidades em outros locais. Após o término desta pesquisa,
sistematizou-se e disponibilizaram-se essas informações para os órgãos gestores com
intuito de fornecer subsídios para esse recorte regional gaúcho, juntamente com seus
administradores para que os mesmos tenham acesso ao conhecimento da realidade local
e/ou regional, ou seja, os principais entraves para o seu desenvolvimento, para que de
posse dessas informações busquem o desenvolvimento sustentável que venha minimizar os
desequilíbrios e as desigualdades econômicas e sociais na Microrregião Geográfica da
Campanha Central.
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5. CONCLUSÃO
Neste contexto, pode-se dizer que o espaço produtivo deste recorte espacial tem
passado por diversas transformações no que se refere à inserção de outras atividades,
distintas da pecuária tradicional que caracteriza, ainda, essa Microrregião. Tal fato
demonstra que a dinâmica do capital acarreta mudanças constantes na relação sociedadenatureza, mesmo em porções do espaço onde esta relação organizacional apresenta
importante relação com a cultura e, consequentemente distingue-se dos demais pela
expressividade do regionalismo rio-grandense.
Mediante a realização da pesquisa, verificou-se que a Campanha Central estruturase economicamente através da agropecuária, demonstrando a manutenção desta atividade
a qual é considerada gênese da sua cultura. Desse modo, este recorte espacial apresenta
uma realidade local alicerçada no setor primário, o qual carece de maiores incentivos, a fim
de dinamizar a economia local/regional.
REFERÊNCIAS
BECKER, D. F.; WITTMANN, M. L. Desenvolvimento Regional: abordagens interdisciplinares. Santa
Cruz do Sul: EDUNISC, 2003.
BEZZI, M. L.; et al. RS: uma proposta de regionalização considerando os aspectos geoeconômicos.
Relatório Técnico. (PROADE 2/FAPERGS). Universidade Federal de Santa Maria, 2006. (Inédito).
BRUM NETO, H.; BEZZI, M. L. Região, identidade cultural e regionalismo: a Campanha Gaúcha
frente às novas dinâmicas espaciais e seus reflexos na relação campo-cidade. Temas & Matizes,
Cascavel, n. 16, p. 65-96, 2009.
RODRIGUES, A. O latifúndio no Rio Grande do Sul: velhas formas na funcionalidade de novos
atores econômicos na Microrregião Geográfica da Campanha Central. 2006. 167 f. Dissertação
(Mestrado em Geografia) – Universidade Federal de Santa Maria, 2006.
SISTEMA
IBGE
DE
RECUPERAÇÃO
AUTOMÁTICA.
Procurar
tabela.
Disponível
em:
http://www.sidra.ibge.gov.br/bda/procurar/default.asp?z=t&o=1&i=P. Acesso em: 14 maio 2012.
VIEIRA, E. F.; RANGEL, S. S. Geografia Econômica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Sagra,
1993.
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A ORGANIZAÇÃO ESPACIAL DA MICRORREGIÃO