1 GILLES DELEUZE, MICHEL FOUCAULT E O CINEMA: PERCEÇÕES E ANÁLISE DA IMAGEM COMO DISCURSO A PARTIR DO FILME CRIA CUERVOS (1975) O cinema não é língua, universal ou primitiva, nem mesmo linguagem. Ele traz á luz uma matéria inteligível, que é como que um pressuposto, uma condição, um correlato necessário através do qual a linguagem constrói seus próprios “objetos”. Gilles Deleuze Nilton Pereira da Fé1 [email protected] Este é o primeiro artigo que escrevemos sobre os pensadores Gilles Deleuze (1925-1995) e Michel Foucault (1926-1984). Essa informação não é gratuita na medida em que considera o pouco tempo de leitura que temos das obras de Foucault e Deleuze e a limitação conceitual para lidar com dois dos mais importantes intelectuais franceses do século XX, responsáveis por uma transformação irreversível nos modos de concepção do pensamento contemporâneo. Essa pesquisa partiu de uma proposta ousada de um dos professores que ministrou uma disciplina2, no curso de mestrado, onde tivemos os primeiros contatos com as formas deleuzianas e foucaltianas de pensar a formação do conhecimento por meio do que seria uma “nova língua” ou mesmo um estilo particular de perceber o mundo próprio de Deleuze e Foucault. A ação de pensar Foucault e Deleuze juntos nos assustou, surpreendeu e encantou, ao longo das aulas e criou em nós o desejo de nos abrir ao conhecimento, de dar vida e potência ao que somos capazes de fazer, ao sermos tomados por tamanha beleza criadora e poder ecoar ao longo do tempo, em que estamos inseridos, as percepções desse rico encontro com Deleuze e Foucault. Dessa maneira, meio que “entorpecidos”, 1 Nilton Pereira da Fé, graduado em História (UFG, 2006); especialista em História Cultural: Imaginários, Identidades e Narrativas (UFG, 2012); mestrando em História (UFG, 2014). 2 Disciplina ministrada pelo Professor Dr. Thiago Fernandes Sant’ Anna e Silva intitulada: “Tópicos especiais: Michel Foucalt, Gilles Deleuze e Imagem”, no primeiro semestre de 2014, na Faculdade de Artes Visuais, Universidade Federal de Goiás. 2 iniciaremos a abordagem desse trabalho com o eterno sentimento de incompletude e, por vezes, com mais proposições de dúvidas do quê de respostas. Pois bem, seguindo o desafio, a estrutura do texto será formada por três momentos. O primeiro tratará de apresentar, grosso modo, as ideias e os conceitos formulados pelos pensadores que em alguma medida relacionar-se-ão à nossa fonte de pesquisa3. O segundo constituir-se-á pela descrição direta da fonte/imagem de pesquisa. O terceiro dir-se-á da tentativa de unir a teoria à prática (conceitos/fonte) em que o objetivo será a produção de sentido para a vida prática por meio da relação imagem/contexto social tratada pela teoria e pela fonte. A decisão de aceitar o difícil desafio dessa escrita nos trouxe à memória, por meio de um texto complementar4, a frase do filósofo Walter Omar Kohan5, “pensar é mexer num dicionário, dar potência a algumas palavras; calar outras, travar, afinal, uma luta de sentidos e significados”. A partir daí, e considerando as leituras de Deleuze e Foucault, entendemos que a escolha das palavras e dos objetos de estudo forma o estilo do pensamento de quem os agenciam e se propõe a operá-los ou mesmo rachá-los na intenção de encontrar o novo, o emergente ou o que Foucault chamou de “a atualidade”, segundo Deleuze6. A ideia de rachar as palavras ou as coisas não está colocada aqui, como nos mostrou Deleuze, como a intenção de encontrar o sentido delas nas profundezas ou dentro, mas sim, a ideia de que o sentido, por vezes, está mesmo é na superfície das coisas ou das palavras. Com o propósito de mexer nesse “dicionário”, sugerido por Kohan, ao considerarmos as palavras: “saber”, “visível”, “enunciável”, “discurso”, “sujeito”, “dispositivo”, “panóptismo”, dentre outras, somos remetidos, em parte, aos pensamentos de Michel Foucault. Assim como, quando pensamos nas palavras: “imagem-movimento”, “imagem-tempo”, “afectos”, “perceptos”, “potência”, “devir”, somos encaminhados (ao que poderia ser chamada, se é que existe), a uma estética deleuziana do pensamento. Isso, desconsiderando qualquer enquadramento do 3 SAURA, Carlos. Cria Cuervos. 1976. Barcelona: The Criterion Collection. 2007. DVD. Filme de 1975 que trata do contexto da sociedade espanhola sob a ditadura militar franquista. 4 Cf. Revista e eduação. Deleuze pensa a educação. Editora Segmento. São Paulo. Pós-doutor pela Universidade de Paris e professor titular de Filosofia da Educação da Uerj. 6 DELEUZE, G. Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34. 2000. 5 3 pensamento do autor, logicamente, uma vez que Deleuze nos proporciona inúmeras dobras7, ou seja, ele concebe o pensamento como desdobramentos por meio do que ele nomeou de “potência da criação” sugerindo assim, a criação de novos modos de vida não submissos a modelos pré-determinados. Ao estudar o pensamento de Foucault, Deleuze atesta que o saber, como processo de produção de sentido, assim como o discurso, não é somente o texto, mas é, sobretudo, constituído por uma combinação do “ver” e do “falar”, ou seja, daquilo que é visível e enunciável.8 Essas duas formas, dentro do processo de constituição do saber, nas formações históricas, segundo Deleuze, nunca se confundem, ou seja, nada é diretamente visível ou enunciável, necessitando, portanto, de uma combinação entre os termos para que o saber se torne possível, por meio, do que Deleuze chama, de campo de visibilidade ou dizibilidade e o que Foucault chamará de “entre lugar” ou “não lugar”. Segundo Deleuze, “em Foucault os locais de visibilidade não terão jamais o mesmo ritmo, a mesma forma que os campos de enunciados” (DELEUZE, 2006, p. 60). Nesse sentido, o que define Foucault para Deleuze é a fascinação “tanto pelo que via, como pelo que ouvia e lia”. Assim, Deleuze observa que a arqueologia9 concebida por Foucault constitui um arquivo audiovisual, definidos pela “voz” e pelos “olhos”. Partindo para as questões ligadas à constituição do sujeito em Foucault, que utilizaremos mais adiante, Deleuze escreve que “Foucault não faz uma história dos sujeitos” (DELEUZE, 1992. P. 119). Para Deleuze, Foucault irá dizer das condições (sócio-culturais) sob as quais se dão os processos de constituição desse sujeito que seria assim como o produto no processo final de subjetivação. Segundo Deleuze, a história para Foucault “não diz o que somos, mas aquilo de que estamos em vias de diferir, não estabelece nossa identidade, mas a dissipa em proveito do outro que somos”, (DELEUZE, 1992, p.119). Nesse sentido, Foucault escreve que “o sujeito é dividido no seu interior e em relação aos outros” e que “esse processo o objetiva” (FOUCAULT, 2010, p.273). Dito isto, percebe-se que o termo “sujeito”, para Foucault, não é associado à noção de identidade ou individualidade, ele se reconhece como sujeito mediante as relações de poder que se colocam para objetivá-lo, o que Foucault irá chamar de “categorias do poder disciplinar” ou “dispositivo disciplinar”. Contudo, faz-se 7 Deleuze, G. A Dobra, Leibniz e o Barroco. Trad. Luiz Orland. Campinas:Papirus, 1991. Cf. O Visível e o enunciável: Foucault por Deleuze. Deleuze, G. São Paulo: Brasilense, 2006. 9 Foucault, Michel. A Arqueologia do saber, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000. Nessa obra Foucault trabalha a arqueologia da imagem entre o discurso, o arquivo e o saber. 8 4 necessário lembrar que Foucault nunca dedicou uma obra, específica, ao tema do poder, mas sabemos que esse assunto está presente ao longo de toda a sua escrita. Assim, como afirma Foucault, “não é o poder, mas o sujeito, que constitui o tema central de minha pesquisa” (FOUCAULT, 2010, p.274). Em “O Sujeito e o Poder”,10 um dos modos em que Foucault pensa o poder é no modelo institucional e apresenta como exemplo o Estado. Nesse caso em específico, para Foucault, temos que conhecer além do objeto, as condições históricas que motivam a conceituação, ou seja, necessitamos de uma consciência histórica da situação presente. Nessa direção, Foucault vai citar como exemplo, de nossa experiência presente, no século XX, duas formas que ele chama de “doenças do poder”, a saber, o fascismo e o stalinismo. Na prática, dentro desses dois tipos de poderes, que Foucault apresenta, voltaremos ao fascismo, no terceiro momento desse trabalho, que, aliado ao conceito de dispositivo,11 auxiliar-nos-ão no desfecho de nossa análise. Em conjunto com a forma de “ver” e de “falar” na qual Foucault propõe a constituição do saber ligada ao poder e suas relações com a constituição do sujeito, mediante o seu processo de objetivação, pensaremos a partir daqui, tendo como horizonte a fonte da pesquisa e a intenção de não cometer nenhuma interpretação equivocada, uma correlação entre os conceitos elencados acima, com os conceitos de Imagem-movimento e Imagem-tempo12, formulados por Deleuze ao dedicar parte de sua obra aos estudos do cinema. Ao propor os conceitos de Imagem-tempo e Imagem-movimento, Deleuze cria uma conexão entre a filosofia e a arte em geral que, no caso dessa pesquisa, tomaremos como referência apenas as relações com a arte ligada à cinematografia. Já no caso dos outros tipos de arte, como a pintura, por exemplo, a pesquisa terá como referência a metodologia proposta por Foucault ao analisar as obras de Magritte, Isto não é um 10 FOUCAULT, M. O Sujeito e o Poder. 2° Ed. Rio de Janeiro. Forense Universitária, 2010. Para Foucault “dispositivo” é a rede de relações que pode ser estabelecida entre elementos heterogêneos: discursos, instituições, arquitetura, leis, morais, o dito e não dito... Castro Edgardo. Vocabulário de Foucault – Um percurso pelos seus temas, conceitos e autores. Autêntica Editora, 2009. 12 O essencial da análise de Deleuze está contido na diferença entre a imagem-movimento e a imagem tempo. Essa distinção, por sua vez, tem origem naquela que Bergson faz entre grandezas extensivas e grandezas intensivas. A imagem-movimento é característica do cinema “clássico” (o cinema produzido antes da Segunda Guerra Mundial), o tempo, grandeza intensiva, não aparece diretamente, mas apenas indiretamente, por meio do movimento. Essa percepção será trabalhada com a análise do Filme Cria Cuervos. 11 5 cachimbo,13 e Velásques , Las Meninas,14 na intenção de relacioná-la com o nosso objeto de pesquisa mais adiante, quando partiremos, assim como nos mostrou Foucault ao analisar as pinturas, de nossa fonte para propor algumas relações com o contexto sócio-cultural da época em que essa fonte foi produzida. Deleuze define a imagem-movimento como o objeto a ser visto, ou, nas palavras do autor, “a imagem-movimento é o objeto, é a própria coisa aparentemente apreendida no movimento como função contínua. A imagem-movimento é a modulação do objeto” (DELEUZE, 2006, p. 40). Dessa forma, Deleuze associa a imagem-movimento ao que os estudiosos de cinema definem como plano15. No entanto, há outras associações, para o termo, propostas pelo autor. Aqui, somente, tomamos uma delas. Contudo, não se deve confundir de maneira grosseira o conceito de imagem-movimento com o simples (movimento da imagem) produzido pela câmera ao filmar uma cena/objeto. Considerando a importância desse conceito para nossa pesquisa é preciso que ele fique bem claro. Sendo assim, conforme Deleuze: A imagem-movimento tem duas faces, uma em relação a objetos cuja posição relativa ela faz variar, a outra em relação a um todo cuja mudança absoluta ela exprime. As posições estão no espaço, mas o todo que muda está no tempo. Se assimilarmos a imagemmovimento ao plano, chamaremos de enquadramento à primeira face do plano, voltada para os objetos, e de montagem à outra face, voltada para o todo. Daí uma primeira tese: é a própria montagem que constitui o todo, e nos dá assim a imagem do tempo. Ela é, portanto, o ato principal do cinema. O tempo é necessariamente uma representação indireta, porque resulta da montagem que liga uma imagem-movimento a outra. Por isso a ligação não pode ser mera justaposição: o todo não é uma adição, tampouco o tempo uma sucessão de presentes [...] Essa posição de princípio implica que a própria imagem-movimento esteja no presente e nada mais. Que o presente seja o único tempo direto da imagem cinematográfica parece ser uma evidência. (DELEUZE, 2006, p. 48) A idéia de imagem do tempo ou imagem-tempo, em certa medida, subordinada à imagem-movimento, como mostra o trecho acima, aliada à ideia de montagem, capaz de “fazer visível” o tempo, segundo Deleuze, será fundamental para tecermos as relações 13 Escrito por Michel Foucaut em 1973. Editado pela Paz e Terra (3º edição) 2002. Célebre texto escrito por Foucault no primeiro capítulo de As Palavras e as Coisas (p. 13-22). 15 GARDIES, René. Compreender o Cinema e as Imagens. Tradução: Pedro Elói Duarte, Armand Colin, 2006; BERNADET, Jean-Claude. A luta pela linguagem. In _____. O que é cinema. São Paulo: Brasiliense, 2000; COSTA, Antônio. Do roteiro à montagem. In _____. Compreender o cinema. Rio de Janeiro: Globo, 1987. 14 6 entre presente e passado quando formos analisar nossa fonte mais a frente, por isso, devem ser retidas para uma melhor compreensão do que será proposto. Nos estudos de Foucault sobre Magritte e Velásques o autor parte diretamente da imagem para tecer, magistralmente, possíveis relações entre o quê é visível e enunciável a respeito do que se vê nas pinturas. Como se fosse uma aula ou um “filme”, Foucault apresenta, aos alunos/espectadores, uma análise criteriosa dos espaços e dos “personagens”, mostrando o que é possível “ver” e “enunciar” de uma imagem em uma determinada época e quais são as possíveis relações entre a imagem e os supostos enunciados que elas trazem. Nesse sentido, ao pensar Foucault, Deleuze afirma que, “toda formação histórica diz tudo o que pode dizer, e vê tudo o que pode ver” (DELEUZE, 2013, p. 124). Em Magritte, Foucault mostra que o enunciado nunca conterá o visível, assim como, o visível nunca conterá o enunciado. Na análise de Velásquez, o argumento estético que Foucault abrange, agiganta a pergunta que o próprio autor faz: somos vistos ou vemos? Assim, Foucault nós leva para regiões do visível, do invisível e de espaços jamais percebidos, na imagem, para nos “revelar” o próprio lugar do espectador, aparentemente simples, mas que para Foucault é o lugar onde impera o olhar refletivo que “atrai para o interior do quadro o que lhe é intimamente estranho”, a saber, aquele que olha a cena, o espectador. (FOUCAULT, 2000.p.13) Tomando como referência o argumento estético e discursivo da imagem, utilizado por Foucault em Magritte e Velásques; os conceitos formulados pelo autor para poder pensar a constituição do sujeito e a produção do saber, como discutido anteriormente, em conjunto com as primeiras percepções sobre a forma deleuziana de pensar e de sentir o cinema, nossa proposta a partir daqui é relacionar a teoria e a prática, ou seja, tentar responder à pergunta: como e de que forma as primeiras leituras sobre Foucault e Deleuze contribuem para o estudo da imagem como discurso e quais são as relações que podemos tecer entre essas leituras e a fonte de pesquisa? O objetivo é utilizar as imagens do filme para mostrar na prática como se dá a constituição do sujeito e as relações de poder proposta por Foucault, associando ao que seria visível e enunciável a partir das imagens sobre esse assunto, e mostrar a diferença entre a imagem-movimento e a imagem-tempo proposta por Deleuze que, nas nossas leituras iniciais, entendemos 7 que se resume, grosso modo, na percepção do tempo por meio do movimento das imagens, associado à montagem dos planos. Vejamos então como isso será possível. Em Madrid, no ano de 1975, o cineasta espanhol Carlos Saura16 dirigia mais uma de suas películas intitulada Cria Cuervos.17 No plano inicial, é apresentada, ao espectador, uma fotografia18. Nela, foi inserida uma legenda, escrita à mão, que enuncia: “El dia em que nasci yo, como disse la canción – febrero de 1967”. A imagem, meio desfocada, é de uma mulher sorridente, deitada sobre uma cama, coberta por um lençol de cor branca. Ao fundo, em segundo plano, há a imagem de uma criança, recém nascida, dentro de um berço. A cena trás consigo outras imagens, igualmente desfocadas, de outros objetos e móveis que preenchem os espaços da fotografia que parecem desenhar um quarto de um hospital. Com um movimento lento e delicado, para baixo, a câmera apresenta um conjunto de mais três fotografias. Na primeira, à esquerda, vemos a imagem da mesma mulher que agora segura um bebê no colo e a legenda que enuncia: “Pensai que “esa” era yo... 16 Carlos Saura Atarés nasceu em Huesca, capital provincial da Espanha, no dia 4 de janeiro de 1932. Desde sua infância esteve em contato direto com o meio artístico, pois sua mãe era pianista e seu irmão era pintor. No ano de 1937, a Espanha foi palco de uma das guerras mais sangrentas do século XX. Essa guerra, para alguns estudiosos deste assunto, desencadeou o início da Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto, a família de Saura se viu obrigada a ir para a cidade de Valência, a leste da Espanha, seguindo o governo republicano e protegendo-se da ameaça que os nacionalistas representavam para os partidos e associações de esquerda (que eram muitos). Quando adulto, Carlos Saura, tornou-se comunista e desenvolveu uma filmografia ligada às suas origens e ao momento histórico, social, político e cultural de sua época. No período repressivo da ditadura na Espanha, entre os anos de 1939 a 1975, o cineasta buscou formas diversas para produzir seus filmes sem que esses fossem barrados pela censura imposta pelo poder ditatorial do caudilho Francisco Franco. No bojo de suas obras temos uma divisão entre os filmes que tratam dos problemas políticos, sociais e outros que trabalham a arte, a dança, a música, a pintura e a literatura. O conjunto de sua obra é formado por, aproximadamente, quarenta filmes e um romance. 17 Este filme foi dirigido por Carlos Saura no ano de 1975. As Filmagens foram feitas em Madrid, capital da Espanha. Quase todas as tomadas se passam dentro de um casarão, no centro de Madrid, cuja intenção é retratar o cotidiano da personagem Ana, uma mulher de mais ou menos vinte anos de idade que vive atormentada por suas memórias de meninas. Na verdade o filme seria um flash-back, como propõe Deleuze, o associando ao que ele chama de uma imagem-lembrança que “recebe de outra parte uma marca interna do passado” (DELUEZE, 2005, p. 64). Cria Cuervos recebeu o premio de melhor filme no festival de Cannes no ano de 1976 e foi motivo de diversos noticiários no periódico espanhol El País, da época, e nas revistas que circularam por uma parte da Europa e do mundo. O filme é considerado pela crítica como a “obra máxima” de Carlos Saura, por mostrar o cotidiano sombrio da Espanha, da época, que vive reprimida por uma ditadura que durou quase 40 anos e que, em conjunto com o período da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), mataram muitos civis e militares. A Guerra Civil Espanhola é considera por alguns estudiosos como um dos eventos mais sangrentos e cruéis da História da humanidade. 18 Utilizamos aqui o conceito de fotografia proposto por Phillippe Dubois (1993) em que a fotografia é a base tecnológica, conceitual e ideológica de todas as mídias contemporâneas e, por essa razão, segundo o autor, compreendê-la, defini-la é um pouco também compreender e definir as estratégias semióticas, os modelos de construção e percepção, as estruturas de sustentação de toda a produção contemporânea de signos visuais e auditivos. 8 vaidade de vaidades...”. A luz projetada nos olhos da mulher, que segura à criança, parece invadir o presente e se comunicar com o reflexo dos olhos de quem a vê. Assim, num ato quase imperceptível, a imagem parece se projetar para o futuro dando vida ao personagem cujos olhos rogam por uma existência infinita.19 A segunda fotografia, desse quadro, mostra a imagem de uma criança com a expressão facial serena, deitada sobre um móvel que não é passível de identificação aos nossos olhos. O enunciado diz: “Ana com 1 mes”. Na terceira fotografia, contemplamos a imagem de uma mulher sentada, num suposto sofá, segurando uma mamadeira na posição em que geralmente se alimenta uma criança. Ao fundo, uma cortina branca transpassada por raios de luz que focam e clareia parte do rosto da criança que é ressaltado tanto pela luz quanto pelo “babador” branco que usa, tornando assim, escura a outra parte do rosto oposta à luz. Nessa ultima fotografia, não há enunciado. Ao passo que as fotografias vão sendo apresentadas pela câmera do diretor, quadro a quadro, ecoa aos ouvidos um som de piano20 que, segundo Deleuze, constituise num “signo sonoro”21. Nesse sentido, o som parece produzir uma “imagem melancólica” que, associada ao que Deleuze denomina de imagem-afecção22, pode ter o intuito de preparar a empatia do espectador para com o sentimento de tristeza que envolve a história da personagem protagonista do filme. Cf. Essa ideia teve inspiração nas leituras de Eugenio Pucci em “8XFotografia”: BUCCI, Eugênio. Meu pai, meus irmãos e o tempo. In: MAMMÍ, Lorenzo e SCHWARCHZ, LiliaMoritz. In. 8 X Fotografia. São Paulo: Companhia das Letras; São Paulo, 2008. 19 20 Cf. Cancion y danza, n° 5, do compositor, catalão, Federico Mompou. Cf. Deleuze em Imagem-Tempo (p. 44) observa que “se perguntarmos qual é a função do signo em relação à imagem, parece ser uma função cognitiva: não que o signo faça conhecer seu objeto; ele pressupõe, ao contrário, o conhecimento do objeto em outro signo, mas lhe acrescenta novos conhecimentos em função do interpretante. São como dois processos ao infinito. Ou, [...] dir-se-á que o signo tem por função tornar eficientes as relações: não que as relações e as leis não tenham atualidades enquanto imagens, mas não têm ainda a eficiência que as faz agir quando é preciso, e que só o conhecimento lhes dá” 22 Segundo Deleuze, existem diferentes espécies de imagens que, necessariamente, se deduzem da imagem-movomento. Deleuze apresenta três dimensões diferentes de imagem onde uma delas ocupa um “entre lugar” entre a imagem percepção e a imagem ação. “A imagem-afecção tem por signo de composição o ícone, que pode ser de qualidade ou de potência; é uma qualidade ou uma potência apenas expressas (por um rosto, portanto) sem serem atualizadas (DELEUZE, p. 46). 21 9 A partir daí, uma sucessão de imagens fotográficas, de um álbum de família, ligadas às montagens23 de imagens posteriores dão início ao enredo de Cria Cuervos. Na medida em que as imagens fotográficas vão cumprindo, narrativamente, o seu devir24, surgem duas fotografias que apresentam três personagens: uma mulher, um homem e uma menina que se agarra á mãe. Nelas, não há nenhuma legenda. Esteticamente, as vestes do homem são vestes militares. A posição (lugar) que o personagem do homem assume nas fotos é sempre afastada da criança que, por sua vez, se junta à mulher e parece resistir ao homem. A última imagem fotográfica dessa sucessão inicial de imagens estampa, em close, o rosto da personagem protagonista. Na foto, sem legenda, a menina de olhos grandes, tristonhos e belos, olha fixamente para dentro dos olhos do espectador e parece, meio que emudecida, suplicar por socorro. Desse modo, no plano seguinte, a narrativa conduz o espectador, pela noite, ao interior de um casarão mal iluminado, situado no centro da cidade de Madrid. Ao lado da protagonista assumimos como, espectador, a ação de descer uma escada e seguir rumo a um dos quartos da casa. A “intenção” é a de ver um homem morrendo, repentinamente, nos braços de uma amante, que sai em desespero pelos corredores da casa, e nos deixam ali, “surpresos”, com um corpo estendido em meio aos lençóis que a pouco cobriam carnes trêmulas numa ação de desejo e traição. A insônia é companheira da menina, assim como o espírito de sua mãe, morta. Estamos na Espanha, no ano de 1975, e fomos inseridos no triste cotidiano de uma sociedade que vive ainda sob os domínios da ditadura militar franquista25. 23 Cf. Deleuze. Gilles. A imagem Tempo; Tradução Eloisa de Araujo Ribeiro; revisão filosófica Renato Janine Ribeiro. – São Paulo: Brasilense, 2005 – (cinema2). A narração dita clássica resulta diretamente da composição orgânica das imagens-movimento (montagem), ou da especificação delas em imagenspercepção, imagens-afecção e imagens-ação (p. 39). G. Deleuze, o que é a filosofia? A idéia de “plano de imanência”. São Paulo, Editora 34, 1992, p.51. SALVADÓ, Romero Francisco J. A Guerra Civil Espanhola. RJ: Jorge Zahar. Ed. 2008. A ditadura militar na Espanha abrange o período de 1939 a 1975 e está sobre o poder dos nacionalistas tendo como representante o ditador Francisco Franco. Os anos de 1936 a 1939 compreendem o período da Guerra Civil espanhola. 24 25 10 Inicialmente, a impressão de realidade26, típica do cinema, que se desenha a partir do corte entre a exposição das fotografias e as imagens-movimento (planos-sequência) 27 , ao longo da narrativa, permite-nos perceber duas coisas importantes antes de prosseguirmos com a descrição do filme: a primeira é a distinção do tempo da fotografia como objeto, correspondendo ao passado que lhe é característico; e a segunda é a aplicabilidade do conceito de imagem-tempo, como mostrou Deleuze, relacionada à noção do tempo presente que é percebido por meio da imagem-movimento ao longo da montagem das imagens. Dessa maneira, num primeiro momento, a montagem, das imagens-movimento que compõem o filme, afastará do espectador a noção de que o tempo da narrativa é o passado uma vez que a história que o cineasta se propõe a contar trata das memórias da protagonista e não do seu tempo presente de adulta. Nesse sentido, a relação das imagens fotográficas, apresentadas no início do filme, e o enunciado de suas legendas, somadas às imagens-movimento que constroem o enredo fílmico, apenas faz parte de um conjunto de objetos que confirmam o que Foucault pensou sobre o visível e o enunciável. Ou seja, o discurso somente se constituirá como sentido quando atrelado a outros objetos/lugares/imagens que se ligam, por meio da montagem, segundo Deleuze, dando a ver o tempo passado ou presente, através do que Deleuze chamou de “imagem-lembrança”. Dessa forma, percebemos que os enunciados não são suficientes para nos fazer ver o objeto, assim como as visibilidades não tornam esse objeto legível, necessitando, contudo, da associação entre o “ver” e o “falar” de Foucault e o tempo que a imagem-movimento de Deleuze nos permite perceberem por meio da montagem das imagens. A respeito desse exemplo, pensamos em dois “clichês” que são desconstruídos ao longo dos estudos da imagem: “uma imagem vale mais do que mil palavras” e “falar não é ver”. No segundo livro, dedicado aos estudos da imagem-tempo28, Deleuze escreve que “o cinema não apresenta apenas imagens, ele as cerca com um mundo” (DELEUZE, 2005, p. 87). Em complemento, o autor continua o raciocínio falando que “a técnica cinematográfica procurou unir, cada vez mais, uma imagem atual às imagenslembrança, imagens-sonho ou imagens-mundo” (DELEUZE, 2005, p. 87). Esse cinema Cristian Metz Apud Albert Laffay: “L’ evocation du monde au cinema, in Temps moderns, 1946. COSTA, Antônio. Do roteiro à montagem. In _____. Compreender o cinema. Rio de Janeiro: Globo, 1987. 26 27 28 Deleuze, G. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990. O primeiro livro do autor sobre cinema estuda A imagem-movimento e data de 1985. 11 ao qual Deleuze faz referência, nessa obra, é o chamado cinema moderno ou o cinema que é entendido como potência do falso ou do simulacro29. Nessa direção, sem querer verticalizar nesse ponto, mas apenas para continuar com a análise do filme, Foucault vai defender que o simulacro do falso é a disjunção entre o “falar” e o “ver” e que, necessariamente, afirma a negação da semelhança entre os termos. Retomando a análise do filme e considerando essa última discussão, notamos que o diretor de Cria Cuervos, recorre ao que Deleuze nomeou acima de imagem-lembrança, imagem-sonho e imagem-mundo para construir o enredo fílmico. Em “Imagem-tempo” Deleuze, ao citar Godard30, mostra que a morte não é a extensão questionada por ele, pois os personagens de Godard, ainda não morreram, mas somente estão doentes e seguem outro rumo. Contudo, num contraponto ao Godard de Deleuze, Carlos Saura, ao construir Cria Cuervos, tece questionamentos sobre os sonhos, sobre o mundo, sobre a morte, sobre a doença e, mais especificamente, sobre a morte como potência e como discurso de poder na constituição do sujeito, que no caso do exemplo do filme, está ligada diretamente à personagem protagonista. Dessa maneira, talvez a pergunta a ser feita fosse: o que é possível enunciar a respeito da sociedade espanhola da época da ditadura militar franquista31 (1939-1975) a partir do audiovisual do filme Cria Cuervos? Propondo como exemplo as últimas tomadas do filme, em que a irmã mais velha da protagonista narra um sonho macabro que remonta aspectos da memória coletiva da Espanha e a memória individual da personagem 32, entendemos que com essa cena o diretor dá ensejo para que o espectador teça relações entre as imagens-movimento 29 DELEUZE, Gilles. Imagem-Tempo. Cinema II. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006. (p. 156-188). Cf. Deleuze ao analisar “Tempo de guerra” de Godard: Imagem-Tempo (p.87). 31 A ditadura militar na Espanha abrangeu o período que vai do ano de 1939 a 1975. O general Francisco Franco, líder do partido nacionalista, saiu vitorioso da Guerra Civil Espanhola e massacrou durante quase quarenta anos os integrantes do partido republicano e demais associações. Ao todo foram 150 mil mortos sem contar os desaparecidos durante o longo período. Ver: ROMERO SALVADÓ, Francisco J. A Guerra Civil Espanhola. RJ: Jorge Zahar Ed. 2008. 30 Cf. RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução: Alain François. –Campinas, Sp:Editora da Unicamp, 2007. 32 12 (planos), que se passam na cozinha da casa, a forma e o conteúdo do enunciado que sai da boca da personagem e as torturas físicas e psicológicas (ou até mesmo as mortes) pelas quais passavam os presos políticos, na Espanha, durante o regime ditatorial de Franco. Esteticamente, a imagem do casarão, onde a protagonista está encerrada, remetenos à imagem de uma prisão, assim como a que Foucault apresentou em “Vigiar e Punir” 33 mostrando, em mais de uma tomada ao longo do filme, seus muros altos e reforçados por todos os lados e a piscina suja e abandonada com o passar do tempo. A disciplina rígida, imposta pela tia da protagonista que assumiu o devir de cuidar da casa e das sobrinhas após a morte de seus pais, desencadeia, principalmente na personagem protagonista, reações de resistência que parecem beirar a loucura, o homicídio e o suicido ao longo da narrativa fílmica. Essa ideia da disciplina, imposta pela tia da protagonista, nos remeteu à ideia do conceito de “dispositivo disciplinar” 34 em que Foucault diz das redes de relações que podem ser estabelecidas entre elementos heterogêneos como: discursos, instituições, arquitetura, regramentos, leis, medidas administrativas, proposições filosóficas, morais, o dito pelo não dito, entre outros. A esse exemplo, Foucault vai citar o “dispositivo disciplinar” da prisão que pode justificar ou ocultar certas práticas. Ludicamente, a protagonista imagina ter o “poder” de matar as pessoas por meio de um pó que sua mãe disse ser um veneno terrível. Contudo, tratava-se apenas de um pó de bicarbonato. Uma vez que a “mentira” nunca foi desfeita pela mãe, a protagonista acredita ter o “poder de matar” as pessoas, na intenção de resolver os problemas que a dura vida lhe impôs. Esse mal entendido levou a protagonista a acreditar que foi ela a responsável pela morte de seu pai. Isso, por entender que ele era o único culpado pela morte de sua mãe uma vez que o personagem é construído como um homem muito infiel aos compromissos matrimoniais. A personagem do pai é um general, integrante das tropas do ditador, Francisco Franco, e é construída como a repressão que a protagonista procura destruir dentro de si e ao seu redor. 33 FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2002. 34 Castro, Edgardo. Vocabulário de Foucault – Um percurso pelos seus temas, conceitos e autores. Tradução Ingrid Müller Xavier; revisão técnica Alfredo Veiga Neto e Walter Omar Kohan – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009. 13 O plano anterior à descrição do sonho apresenta a protagonista numa cena de desentendimento com sua tia. Numa atitude de ataque à repressão psicológica, sofrida dentro da casa, ela decide preparar um copo com leite e envenená-la com o tal pó, mas para sua surpresa, pela manhã, a tia se apresenta para tomar o café, viva e saudável. Essa descrição do enredo fílmico se faz necessária para pensarmos duas possibilidades: a primeira diz respeito à constituição do sujeito, proposta por Foucault, tendo como exemplo o personagem da protagonista em relação às demais meninas e meninos que integravam a sociedade espanhola da época; e a segunda diz–se da relação entre as imagens da arquitetura dos prédios da cidade de Madrid da década de 70, apresentadas na última tomada do filme, com a estética dos prédios da sociedade panóptica mostrada por Foucault ao estudar as prisões em Vigiar e Punir. Assim, considerando o cenário de Cria Cuervos, Carlos Saura nos surpreende na medida em que consegue construir, por meio das montagens do filme, uma narrativa forte, ligando imagens diferentes em planos possíveis, tornando assim, os simulacros da potência do falso, característica do cinema, segundo Deleuze, em possibilidade visual, onde a associação do visível e do enunciável (visibilidades) podem dizer tudo o que pode dizer sobre aquela determinada época. Na ultima tomada do filme, o cineasta, num plano sensório-motor, acompanha a protagonista e suas irmãs que descem as escadarias do casarão onde os enormes muros dão lugar à “liberdade” e o caminhar forte e seguro das meninas, rumo ao colégio, ao som da canção (signo sonoro) que fala de saudade e abandono (lembranças), engendra o cotidiano da protagonista ao cotidiano do grupo de meninas que caminha rumo à escola, dando a ver uma geração inteira de meninas espanholas, formada por pequenas “loucas” e “esquizofrênicas”, acompanhadas por fantasmas e desejos “assassinos”, produzidos pelas práticas de uma sociedade que vivia sob os horrores de uma ditadura sangrenta que se estendeu por quase 40 anos e marcou cruelmente as gerações que nasceram nesse período na Espanha do ditador Francisco Franco. Nesse sentido, a associação das imagens-movimento, o som e os enunciados que fizeram parte da montagem do filme, aponta para o que Deleuze denomina de uma “sociedade do controle” e que para Foucault vai se chamar “sociedade panóptica”, assim como aquela descrita por ele em Vigiar e Punir; ao mesmo tempo em que Carlos Saura propõe pensar os discursos sobre a ditadura na Espanha, a morte e a constituição 14 do sujeito, a partir de uma personagem, como relações de poder, que irão desenhar, por meio da narrativa fílmica, a Espanha fantasmagórica de Cria Cuervos, tomada pelos fantasmas que foram produzidos pela Guerra Civil Espanhola e a ditadura de Francisco Franco e que, até os dias de hoje, ainda “esperam” o reconhecimento de suas mortes por parte do Estado espanhol que silenciou os gritos e estancou o sangue derramado no período repressivo da Espanha com o chamado “Pacto Del Ouvidos”, instituído após a morte do caudillo, no ano de 1975. REFERÊNCIAS BERNADET, Jean-Claude. 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