PROCESSAMENTO PROCESSAMENTO DE INGREDIENTES FUNCIONAIS FUNCIONAIS & NUTRACÊUTICOS Introdução 54 Alimento funcional é um alimento ou bebida com alegação de algum benefício à saúde, baseado em evidências científicas e aprovadas por autoridade competente. As principais áreas na produção de alimentos funcionais podem ser: desenvolvimento de novos materiais funcionais; processamento em micro e nano escala; desenvolvimento de produtos; métodos e desenho de instrumentação para melhora da segurança e biossegurança de alimentos. A produção industrial de alimentos freqüentemente necessita da adição de ingredientes funcionais. Estes são usados para controlar aroma, cor, textura ou conservação, mas são incluídos cada vez mais ingredientes com potencial para melhora da saúde. A adição de ingredientes bioativos a alimentos funcionais apresenta muitas alterações, particularmente com respeito à estabilidade dos componentes bioativos durante o processamento e armazenamento, sendo necessário prevenir interações indesejáveis com a matriz carreadora do alimento. A obtenção de benefícios para a saúde também requer ações para garantir a estabilidade dos compo- nentes no sistema gastrintestinal e para facilitar a liberação controlada num alvo apropriado. A adição de ingredientes bioativos não deve afetar as propriedades sensoriais, cor ou sabor dos alimentos. O tamanho de partículas afeta a textura, sendo que a adição de partículas grandes é indesejável em muitos casos. A microencapsulação pode ser útil para esse propósito. Para o processo de microencapsulação ou encapsulação pode ser usado um processamento por spray dryer ou por liofilização. Uma emulsão é criada a partir de um produto líquido a ser tratado e uma substância carreadora, tal como maltodextrina, ou uma substância formadora de filme, tal como goma arábica e água. Esta solução é atomizada (spray dryer) em pequenas partículas. O solvente evapora formando uma matriz sólida ao redor da segunda fase dispersa. O resultado é que pequenas partículas de um produto são armazenadas numa substância carreadora e envolvidas numa substância formadora de filme. O processo de encapsulação é análogo ao processo de microencapsulação, porém um material sólido é usado ao invés de um líquido. Uma solução ou dispersão é criada a partir de um produto a ser tratado, uma matriz e água eventualmente, com adição de uma substância formadora de filme. Esta solução é atomizada (spray dryer) em pequenas partículas. A matriz e/ou substância formadora de filme conduzem a uma aglomeração ou cobertura das partículas suspensas. A encapsulação permite a estabilização dos compostos ativos (cor, aromas, acidulantes, enzimas) durante o armazenamento e transfere no estado sólido, enquanto permite liberação quando necessária (na produção ou consumo). Temos que entender o processo, pois, por exemplo, durante a rápida formação da superfície (película) durante o spray drying a barreira pode ser quebrada se a temperatura externa for muito alta. A composição química da camada de encapsulação determina a eficiência do procedimento e também a dissolução e a taxa de liberação durante a re-hidratação. O comportamento de fase dos solutos misturados pode mostrar o problema para o controle do processo ou ser uma oportunidade para a liberação desejada, se a microestrutura das camadas da superfície é propriamente entendida. A liberação não deverá ser somente na boca, mas durante a ingestão. PROCESSAMENTO Propriedades funcionais de particulados A indústria utiliza muitos compostos secos de tamanho acima de milímetros. Sua funcionalidade depende da aparência visual, textura e aroma. É extremamente dependente do processo de secagem e sua estrutura determina a habilidade do material em re-hidratar e voltar à forma original. O ar de secagem normalmente colapsa irreversivelmente os particulados, resultando em propriedades pobres. A liofilização é preferida, resultando em produtos secos com o volume original e a estrutura porosa, e permitindo rápida e completa re-hidratação. Há várias formas de melhorar as propriedades de particulados secos. A estabilidade microbiana desejada pode ser obtida combinando-se o processo de secagem com alguma outra forma de reduzir a atividade de água, tal como infiltração com algum soluto. casos, é vantajosa a liberação de lipídios bioativos em meio aquoso devido ao aumento da palatabilidade, saciedade e bioatividade. Existem desafios tecnológicos para que os lipídios bioativos sejam incorporados em sistemas de liberação aquosos. Lipídios bioativos diferem bastante em suas propriedades moleculares (peso molecular, estrutura, grupos funcionais, polaridade e carga), levando a diferenças em suas propriedades fisiológicas e físico-químicas (solubilidade, estado físico, reologia, propriedades óticas, estabilidade química, atividade de superfície e bioatividade). Os sistemas de liberação freqüentemente são desenvolvidos direcionando-se para peso molecular, propriedades físico-químicas e fisiológicas específicas, referentes a cada lipídio bioativo. Existe uma variedade de sistemas de liberação desenvolvidos para encapsular agentes funcionais lipofílicos: soluções simples, associação de colóides, emulsões, matrizes biopoliméricas, pós. Cada sistema de controlar a liberação do agente funcional a certas taxas, num sítio particular e/ou em resposta a um estímulo ambiente específico (pH, força iônica ou temperatura); deve ser preparado com ingrediente de grau alimentício utilizando operações de processamento simples e de baixo custo. Emulsões Existem diferentes tipos de sistemas de liberação que podem ser criados baseados em tecnologia de emulsões. As propriedades coloidais da emulsão (tamanho da partícula, concentração, carga, interações e estado físico) determinam suas propriedades físico-químicas (óticas, reológicas, partição molecular e estabilidade), que sugerem os atributos de qualidade dos produtos alimentícios (aparência, textura, palatabilidade, aroma e vida de prateleira). Uma emulsão baseada num sistema de liberação tem que garantir os atributos de qualidade do alimento que vai utilizá-la. Alimento funcional é um alimento ou bebida com alegação de algum benefício à saúde, baseado em evidências científicas e aprovadas por autoridade competente. Bactérias probióticas são utilizadas principalmente em produtos lácteos. Apresentam alguns problemas quando se considera microencapsulação: tamanho (exclui nanotecnologia) e devem ser mantidas vivas. Métodos de microencapsulação são aplicados a probióticos, dando-se atenção ao spray chilling. Liberação de componentes funcionais lipofílicos Podem ser: lipídeos bioativos, aromas, antimicrobianos, antioxidantes. Exemplos: ácidos graxos ω-3, carotenóides e fitoesteróis. Em muitos tem suas vantagens e desvantagens para encapsulação, proteção e liberação do agente funcional: custo, status regulatório, facilidade de uso, biodegradabilidade, biocompatibilidade. Um sistema de liberação de lipídios bioativos deve atender a algumas regras: pode ser encapsulado em diferentes formas físicas, para ser incorporado convenientemente a alimentos; o sistema de liberação deve ser compatível com os alimentos e bebidas nos quais serão incorporados, não afetando a aparência, aroma, textura ou vida de prateleira dos produtos; o lipídio bioativo deve ser protegido de degradação química durante o preparo, armazenamento, transporte e utilização, permanecendo em seu estado ativo; deve ser capaz Nanotecnologia O uso da nanotecnologia em alimentos está aumentando sua aplicação para ingredientes funcionais, como aromas e antioxidantes, cujo objetivo é melhorar sua funcionalidade em sistemas alimentares, podendo minimizar a concentração necessária. A nanotecnologia enfoca a caracterização, fabricação e manipulação de estruturas biológicas e não biológicas menores que 100nm. A biodisponibilidade e a habilidade de dispersar os componentes são maiores que os processos tradicionais. Vantagens na indústria de alimentos: aumento da segurança da manufatura, processamento e barateamento dos produtos alimentícios, através de FUNCIONAIS & NUTRACÊUTICOS Produtos microbianos 55 PROCESSAMENTO sensores de detecção para patógenos e contaminantes; desafios para manter a memória do desenvolvimento histórico; sistemas que promovem integração e que podem aumentar a eficiência e segurança do processamento e transporte de alimentos; encapsulação e sistemas de liberação que carregam, protegem e liberam ingredientes alimentícios funcionais para seu sítio específico de ação. Associação coloidal Um ingrediente funcional não polar pode ser solubilizado no centro hidrofóbico de uma micela surfactante ou como parte de uma estrutura da membrana micelar, podendo ser liberado numa solução aquosa dependendo das necessidades de uma aplicação específica. Associação coloidal é um sistema termodinamicamente favorável, cuja formação é normalmente dirigida culas da emulsão torna o processo de degradação mais vagaroso. Nanopartículas biopoliméricas Partículas nanométricas podem ser produzidas utilizando-se biopolímeros de grau alimentício, como proteínas ou polissacarídeos. Ingredientes funcionais podem ser encapsulados em nanopartículas formadas e a liberação se dar em função do meio pela alteração das condições da solução, induzindo a completa dissolução das partículas ou mudanças na porosidade das partículas. Nanolaminados Consiste de duas ou mais camadas de materiais com dimensões nanométricas que são física ou quimicamente ligadas umas às outras. Podem ser utilizadas como coberturas e zação; comportamento de secagem; baixo custo de produção; estabilidade do produto; excelente performance na aplicação; segurança durante produção e aplicação. Alimentos preparados com ingredientes em pó são usualmente considerados de menor qualidade que os ingredientes ou produtos frescos ou congelados. Há uma grande dificuldade em adicionar custo aos pós que têm grande problema de inovação e na solução de problemas na sua produção. Muitos dos processos utilizados hoje foram desenhados para processos de mais de 20 anos. Há necessidade de identificar novas rotas para adicionar mais valor aos pós. Os consumidores podem ser induzidos a pagar mais pelos pós se perceberem alta funcionalidade e qualidade desses produtos. As empresas de ingredientes alimentícios podem fabricar ingredientes tailor made com uma grande variação de FUNCIONAIS & NUTRACÊUTICOS Alimentos preparados com ingredientes em pó são usualmente considerados de menor qualidade que os ingredientes ou produtos frescos ou congelados. 56 pelo efeito hidrofóbico (redução da área de contato entre os grupos não polares do surfactante que compreende a associação de colóides e a água). Vantagens: formam-se espontaneamente; são termodinamicamente favoráveis; são soluções tipicamente transparentes. Desvantagem: grande quantidade de surfactante é necessária para formá-la, podendo levar a problemas de aroma e sabor, custo e legislação. Nanoemulsões Produzidas a alta pressão, com partículas menores que 100 a 500nm. Componentes funcionais podem ser incorporados nas partículas, na região interfacial ou na fase contínua. A encapsulação de componentes funcionais pelas partí- filmes comestíveis em frutas, vegetais, carnes, chocolates, balas, produtos panificados, batatas fritas. Servem como barreira à umidade, gordura e gases; melhorador de textura; carreador de agentes funcionais, como corantes, aromatizantes, antioxidantes, nutrientes e antimicrobianos. Os materiais que formam os filmes primários são polissacarídeos, proteínas e lipídeos. Podem ser incorporados aos filmes agentes funcionais ativos, como antimicrobianos, antioxidantes, enzimas, aromas e corantes, podendo aumentar a vida de prateleira e a qualidade do alimento coberto. Produtos em pó Alguns parâmetros importantes para produtos em pó são: propriedades de fluxo; caking; instantanei- funcionalidade, porém esses ingredientes devem ser usados exatamente para o processo ao qual foram desenhados, sendo que muitas aplicações são desenvolvidas empiricamente. Isto também pode limitar a pesquisa e desenvolvimento devido, muitas vezes, ao custo dos ingredientes e à relutância de empresas em alterar os processos já estabelecidos. Alimentos em pó contendo ingredientes funcionais são altamente comercializados. Suzana Caetano da Silva Lannes é PhD, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Membro do Conselho Científico da SBAF – Sociedade Brasileira de Alimentos Funcionais. FUNCIONAIS & NUTRACÊUTICOS PROCESSAMENTO 57