INSTITUTO DE FÍSICA – DEPTO DE FÍSICA DO ESTADO SÓLIDO FÍSICA GERAL E EXPERIMENTAL IV-E. PROVA 1 – 2006.1 – 03/05/2006 PROF.: RICARDO MIRANDA ALUNO(A):________________________________________________ OBS: cada item vale 1 ponto. QUESTÃO 1. No circuito LRC oscilante representado na figura a seguir, o capacitor possui placas paralelas circulares de raio R e encontra-se com carga máxima, Q0, no instante t = 0. a) Escreva as expressões que fornecem a carga e a corrente em função do tempo. b) Calcule a corrente de deslocamento através de um círculo de raio r (r < R), centrado no eixo do cilindro e paralelo a suas placas. c) Suponha que não haja resistor no circuito. Calcule o vetor de Poynting na superfície lateral do cilindro que delimita o capacitor e determine os instantes de tempo em que o fluxo energético através dessa superfície é máximo. QUESTÃO 2. Responda as questões a seguir, justificando suas respostas. a) Uma partícula de massa m carregada com carga elétrica q é submetida a um campo elétrico externo de intensidade E, passando a irradiar uma onda eletromagnética ao ser acelerada. É correto afirmarmos que sua aceleração possui intensidade igual a qE / m? b) O vetor de onda de uma onda eletromagnética, num sistema de coordenadas esféricas, é G dado por k = kr̂ , onde k é uma constante positiva. Desenhe uma frente de onda, escolha G G G G um ponto sobre ela e represente graficamente os vetores k, E, B e S no ponto escolhido. c) Considere um campo elétrico produzido por um campo magnético variável no tempo. É possível que as linhas de campo do campo elétrico sejam retas paralelas entre si? d) Qual a impedância de uma associação em paralelo de um capacitor de capacitância C e um indutor de indutância L alimentada por uma f.e.m. senoidal de freqüência angular ω? Substituindo-se o capacitor por um resistor de resistência R, qual será a nova impedância? e) O campo elétrico de uma onda eletromagnética propagando-se no vácuo é dado por G E = E 0 sin(− ax + az − ωt ) yˆ , onde E0, a e ω são constantes positivas. Determine o comprimento de onda, o vetor de onda e a função de onda para o campo magnético. G G f) Na figura ao lado, E 0 e E representam o campo elétrico no ponto P, nos instantes t0 e t, respectivamente. Considerando-se t0 e t muito próximos (t > t0), represente graficamente o campo magnético gerado pela variação do campo elétrico, no referido ponto. G g) Considere um campo vetorial, V , um ponto P do espaço e uma superfície fechada A, G englobando P. É correto afirmarmos que o divergente de V em P é dado pelo limite do G fluxo de V , através de A, por unidade de área quando A tende a P? FÍSICA IV - PROVA 1 - 2006.1 - 03/05/2006 RESOLUÇÃO QUESTÃO 1. (a) A carga elétrica no capacitor, q, de um circuito LRC oscilante em que os três elementos estão em série é dada, em função do tempo, t, por: q = Qe−γt cos (ωt + δ) , (1) q p 1 R onde ω = ω 20 − γ 2 , ω 0 =def LC , γ =def 2L , Q é uma constante real positiva, δ é uma constante real e L e C são, respectivamente, a indutância do indutor e a capacitância do capacitor presentes no circuito. É dado que, em t = 0, q = Q0 . Logo, de 1, obtemos que Q0 = Q cos δ. Por outro lado, Q0 é a carga máxima, isto é, Q0 é o valor de máximo de Q. Assim, cos δ = 1 e, em consequüência, δ = 0. Substituindo-se estes resultados em1, vem: q = Q0 e−γt cos ωt. (2) Para obtermos a corrente, i, basta derivarmos 2 em relação a t: dq (3) = −Q0 e−γt (γ cos ωt + ω sin ωt) . dt ¢ ¡ Lembrando-se que cos α = sin α + π2 , a soma das senóides entre parêntesis na eq. 3 pode ser obtida pela regra dos fasores, conforme está indicado na figura abaixo: i= A amplitude, A, e a constante de fase, β, do fasor resultante são dadas por: q p ω 2 + γ 2 = ω 20 − γ 2 + γ 2 = ω 0 γ = arctan . ω A = β Substituindo-se estes valores em 3, obtemos: i = −ω 0 Q0 e−γt sin (ωt + β) . 1 (4) (b) A figura abaixo ilustra o círculo de raio r, através do qual deseja-se calcular a corrente de deslocamento, id . Seja q a carga na placa inferior. O campo elétrico no interior do capacitor será − → E = q zb, ε0 πR2 (5) onde zb é o versor correspondente ao eixo dos zz indicado na figura. Note que − → E terá o mesmo sentido ou sentido oposto ao de zb, conforme a carga q seja →, positiva ou negativa, respectivamente. Assim, o fluxo do campo elétrico, Φ− E através do círculo de raio r, valerá: → = Φ− E Z − → − → E ·dS = Z qr2 q q πr2 = zb · dSb z= 2 2 ε0 πR ε0 πR ε0 R2 (6) onde a integral foi tomada sobre a região circular de raio r. Como a corrente → ∂Φ− de deslocamento é definida como sendo id = ε0 ∂tE , da eq. 6 segue que id = ε0 ∂ ∂t µ qr2 ε0 R 2 ¶ = r2 ∂q r2 dq r2 = 2 = i 2, 2 R ∂t R dt R (7) dq onde i é dada pela eq.4. Observe-se que, na eq. 7, identificamos ∂q ∂t com dt . Fizemos isto porque a carga é função exclusiva do tempo, ou seja, não depende da curva no interior da qual calculou-se o fluxo do campo elétrico. − → (c) O vetor de Poynting, S , é definido como sendo → − → − E ×B − → S = . µ0 Na superfície do cilindro em questão, r = R. Logo, usando-se a eq. 7, 2 (8) µ i − → µ0 id B = ϕ b= 0 ϕ b. 2πR 2πR (9) Não havendo resistor no circuito, então γ = 0 e ω = ω 0 . Então 2 e 4 ficam: q = Q0 cos ω 0 t i = −ω 0 Q0 sin ω 0 t. (10) De 8, 5, 9 e 10 segue: − → S = 1 qi µ0 i ω 0 Q20 q (cos ω 0 t sin ω 0 t) rb = ϕ b = − z b × r b = µ0 ε0 πR2 2πR 2ε0 π 2 R3 2ε0 π2 R3 ω 0 Q20 (sin 2ω 0 t) rb. 4ε0 π 2 R3 − → Desta última expressão, decorre que o múdulo de S é máximo para os instantes de tempo que satisfizerem a condição 2ω 0 t = (2m + 1) π2 , onde m é qualquer número inteiro. Assim, os instantes procurados, tm , são dados por: tm = (2m + 1) π (2m + 1) π T0 = = (2m + 1) , 8π 4ω 0 8 T0 onde T0 = ω2π0 é o período de oscilação do circuito LC. QUESTÃO 2. (a) A aceleração adquirida pela partícula deve ser INFERIOR a qE m , pois, caso contrário, o princípio da conservação da energia seria violado. Para simplificarmos o raciocínio, suponhamos que o movimento da partícula seja retilíneo acelerado e consideremos que, durante o intervalo de tempo infinitesimal dt, ela desloque-se de ds, passando da velocidade v para v +dv. Assim, o trabalho, dW , realizado pelo campo sobre a partícula será dW =³ qEds. Por outro ´ lado, a vari2 m 2 ação de sua energia cinética, dK, vale dK = 2 (v + dv) − v = mvdv, em 2 que o termo (dv) foi desprezado. Como a partícula irradia uma onda eletromagnética, o trabalho realizado pelo campo externo deve igualar-se à variação da energia cinética somada à energia irradiada, digamos, dU . Logo, dW = dK+dU . Portanto, qEds = mvdv + dU . Dividindo-se esta última equação por dt , vem: dv dU ds dv qE ds dt = mv dt + dt . Considerando-se que v = dt e a = dt , obtemos: a= P ot qE − , m mv 3 onde P ot =def dU dt . Resumindo, parte da energia fornecida pelo campo externo é utilizada para acelerar a partícula e parte é utilizada para gerar a onda eletromagnética irradiada por esta mesma partícula. Se quizermos conservar a validade da segunda lei de Newton, somos forçados a admitir que além da força exercida pelo campo externo, a partícula sofre outra força (do campo por ela irradiado) de tal sorte que a força resultante sobre ela vale: Fres = ma = qE − Pvot . (b) Consideremos um certo instante de tempo. Em cada ponto do espaço, a − → frente de onda deve ser perpendicular ao vetor k . Isto só ocorrerá se a frente de unda for uma casca esférica centrada na origem do sistema de coordenadas, conforme ilustra a figura abaixo. O campo elétrico e o campo magnético são − → tangentes à casca em cada ponto e o vetor de Poynting, S , possui direção radial − → − → − → − → apontando no sentido de E × B . O vetor k possui o mesmo sentido de S . Ele foi representado em outro ponto para evitar que a figura ficasse confusa. (c) De acordo com as equações de Maxwell, o rotacional do campo elétrico é igual à derivada parcial do campo magnético em relação ao tempo, com o − → sinal trocado. Logo, no caso em questão, rot E não pode anular-se (posto que − → ∂B ∂t é não nula). Se as linha de campo elétrico forem paralelas e igualmente − → − → espaçadas, então E será uniforme em todo o espaço e rot E = 0. No entanto, − → se estas linhas não forem igualmente espaçadas, as derivadas espaciais de E − → não serão todas nulas e, conseqüentemente, rot E 6= 0, tornando a situação compatível com as equações de Maxwell. Resumindo, o campo elétrico em foco pode ter suas linhas de campo paralelas entre si desde que as mesmas não sejam igualmente espaçadas. (d) As reatâncias capacitiva e indutiva complexas são dadas, respectiva√ j mente, por XC = − Cω e XL = Lωj, onde j =def −1. Como estes elementos estão em paralelo, a impedância complexa será Z = XL XC XL +XC L C = − L C 1 (Lω− Cω ) j. Lω = LCω 2 −1 . 1 (Lω− Cω ) Substituindo-se o capacitor pelo resistor, a nova impedância complexa ficará Logo, a impedância do circuito, Z, valerá Z = |Z| = 4 2 2 jRLω R R Lω Z = XXLL+R = jLω+R = jRLω(−jLω+R) = RR(Lω) Assim, a 2 +(Lω)2 + R2 +(Lω)2 j. R2 +(Lω)2 impedância será:r √ ³ ´2 ³ ´2 RLω R2 +(Lω)2 R(Lω)2 R2 Lω + = . Z == |Z| = 2 2 2 2 R +(Lω) R +(Lω) R2 +(Lω)2 ³ ´ − → − − → − → (e) A função fornecida para E tem a forma E = E0 sin k · → r − ωt yb. Logo, kx x + ky y + kz z = −ax + az. Portanto, kx = −a, ky = 0 e kz = a. Ou √ − → seja, o vetor de onda é dado por √k = a (−1, 0, 1) e k = a 2. O comprimento − → − → 2π π √ de onda vale λ = 2π k = a 2 = a 2. O campo B possui a mesma fase de E , sua amplitude vale E0 c e sua direção e seu sentido em cada ponto e em cada − →d− → − → − → instante devem ser tais que E × B = b k. Como E e B são perpendiculares − →d− → b = √1 (−1, 0, −1). b Assim, B b = b b × B. k×E entre si, temos que E × B = E 2 ¡ ¢ − → c − zb . Conseqüentemente, B = cE√02 sin (−ax + az − ωt) −x − → (f) O campo magnético gerado por um campo elétrico, E , variável no tempo − → é, em cada instante e em cada ponto do espaço, perpendicular a ∂∂tE , posto − → − → − → que rot B = µ0 ε0 ∂∂tE . Portanto, o vetor B está no plano perpendicular ao − → − → − → − → vetor ∆ E = E − E 0 . No entanto, o conhecimento de rot B num ponto − → não determina a direção precisa de B ; esta dependerá do comportamento de − → ∂E ∂t nas vizinhanças do ponto considerado. A situação é ilustrada na figura abaixo. Ao lado esquerdo, representa-se o ponto P e os vetores campo elétrico − → nos instantes t0 e t, além da variação do campo, ∆ E . O plano esboçado é − → aquele perpendicular a ∆ E . Ao lado direito, vemos o plano mencionado, o − → ponto P, o vetor ∆ E e dois vetores contidos no plano em foco, os quais podem − → representar possíveis direções de B . (g) A afirmação é incorreta pois o divergente de um campo vetorial é dado pela razão entre o fluxo e o volume do sólido limitado pela superfície em que 5 se calcula o referido fluxo, ³ e não ´ entre o fluxo e a área dessa superfície. Em → − → − → Φ− vA → símbolos, div V = lim V ol(A) , em que Φ− v A é o fluxo de V através de A e A→P V ol (A) é o volume do sólido limitado por A. 6