EFEITOS DE FREQUÊNCIA NO ALÇAMENTO1 DA POSTÔNICA FINAL FREQUENCY EFFECTS ON POSTONIC VOWEL RAISING Maria José Blaskovski Vieira Universidade Federal de Pelotas – UFPel RESUMO: Este estudo tem como objetivo verificar efeitos de frequência no alçamento da postônica final sob a perspectiva da Fonologia de Uso (BYBEE, 2001) e da Teoria dos Exemplares (PIERREHUMBERT, 2001). Com base na Teoria da Variação, estudos anteriores não mostram convergência em relação aos resultados encontrados, em especial no que diz respeito à influência dos fatores linguísticos no alçamento da postônica. O ponto comum a todos esses trabalhos é a emergência da etnia como o fator social que delineia a vogal que pode se manifestar na posição postônica final. Neste estudo, foram analisados dados de 26 falantes de Santana do Livramento/RS, cidade situada na região da fronteira oeste do estado. Livramento forma com Rivera, cidade do lado uruguaio, uma cidade internacional, separadas por apenas uma rua. Foram controladas as variáveis idade e sexo. Para a coleta dos dados, foram selecionadas 60 palavras com a letra ‘e’ na posição postônica final, levando-se em conta a frequência de uso dessas palavras. A coleta de dados foi realizada com auxílio de um computador e de um gravador digital Zoom H4n. Na aplicação da testagem, foi solicitado ao participante que olhasse uma imagem e produzisse uma frase usando a palavra relacionada à imagem mostrada.O número total de dados obtidos foi 1533. Em 1213, houve alçamento da postônica (80%); em 238 houve realização de [e] na postônica (15%); e em 82, houve apagamento da vogal (5%). Os resultados mostram que, a exemplo do que ocorre em grande parte do país, o alçamento é um fenômeno bastante avançado nessa comunidade, não sendo mais possível identificar efeitos de frequência sobre esse fenômeno. Também verificamos que existem contextos nos quais o alçamento atinge índices categóricos, especialmente quando existe uma fricativa coronal no contexto precedente e/ou uma vogal alta na sílaba tônica. Resultados também indicam que o sexo não é uma variável que tenha algum papel no alçamento da postônica, assim como a idade. Não foram encontradas diferenças significativas entre homens e mulheres, assim como também que não há diferenças marcantes entre pessoas mais jovens e pessoas mais velhas. PALAVRAS-CHAVE: vogal postônica, frequência de uso, alçamento ABSTRACT: The study has as its main objective to investigate of the frequency effects on postonic vowel raising in final word position based on Usage-based Phonology (BYBEE, 2001) and the Exemplar Model (PIERREHUMBERT, 2001). Based on Variation Theory, previous studies have shown that there is no convergent results in relation of the influence of linguistic factors in postonic raising. The common thread to all these studies is the emergence of ethnicity as the social factor that outlines the raising of the vowel. In this study, we analyzed data from 26 speakers of Santana do Livramento/RS, a town in the western state border region. Livramento forms with Rivera, city on the uruguayan side, an international city, separated by just a street.Variable as age and gender were controlled. To collect the data, 60 words ending with letter e were selected, taking into account the token frequency of these words. Data collection was carried out with the aid of a 1 Neste trabalho, consideramos alçamento/elevação da vogal postônica todas as realizações diferentes de [e]. Isso inclui desde uma realização plena de [i] até uma realização reduzida da vogal. 1 laptop computer and a Zoom H4n digital recorder. A subject is required to look at a target image and to produce a sentence using the word related to the image. Total number of tokens reached 1533. 1213 tokens show postonic raising, (80%); 238 [e] realization in postonic (15%) and in 82 tokens there was vowel postonic deletion. The results show that, as it's common in most Brazilian regions, raising is a phenomenon quite advanced in this community, no longer possible to identify frequency effects. We also find that there are contexts in which the raising reaches categorical índices, especially when there is a coronal fricative consonant in the former context or/ and a high vowel in the stressed syllable. Results also indicated gender is not a significant variable for raising emergence as well as age. Non-significant differences involving female and male informants are found. We realize also that there is no marked difference between the younger and the older people in the sample. KEYWORDS: postonic vowel, token frequency, vowel raising 1 Introdução Este trabalho tem como objetivo verificar efeitos de frequência de ocorrência de itens lexicais na elevação da vogal postônica anterior. Estudos envolvendo a análise da forma de realização da postônica adotam, na sua maior parte, a perspectiva da Sociolinguística. Nesse sentido, buscam identificar fatores estruturais e não estruturais que favoreçam ou desfavoreçam a emergência de uma forma de realização da postônica ou de outra. A partir da análise desses trabalhos, como discutiremos a seguir, poucas generalizações são possíveis em relação aos contextos que favorecem ou desfavorecem a elevação da postônica anterior final. Uma delas diz respeito ao papel favorecedor de uma vogal alta na sílaba precedente à postônica; e a outra ao papel do tipo de sílaba, leve ou pesada, em que ocorre a postônica, sendo o alçamento desfavorecido em caso de sílaba fechada pelas soantes [r/l]. É possível que a falta de generalizações decorra, em primeiro lugar, de diferenças metodológicas, tanto relacionadas à escolha das variáveis, quanto à análise propriamente dita; em segundo lugar, da provável inexistência de condicionamentos fonéticos específicos que determinem o comportamento das postônicas. Neste trabalho, seguimos os pressupostos da Fonologia de Uso (BYBEE, 2001, 2006) e da Teoria dos Exemplares (PIERREHUMBERT, 2001, 2003) e, a partir da análise de dados coletados junto a falantes de Santana do Livramento/RS, mostramos que o 2 alçamento da postônica anterior é um fenômeno de aplicação bastante geral, seguindo uma tendência geral observada na maior parte do Brasil. 2 Perspectiva teórica Diferentemente dos modelos fonológicos tradicionais que consideram a representação linguística única e abstrata e a variação redundante, a Fonologia de Uso (BYBEE, 1994, 2001, 2007) e a Teoria dos Exemplares (PIERREHUMBERT, 2001, 2003) sugerem que as unidades linguísticas, com suas propriedades previsíveis e não previsíveis, são categorizadas e estocadas na memória sem que as informações consideradas redundantes sejam eliminadas. A representação cognitiva das unidades linguística forma-se a partir de todas as realizações dessas unidades a que o falante foi exposto. Isso significa que a representação de uma determinada unidade linguística vai ser constituída por um conjunto de exemplares dessa unidade experenciado pelo falante. Conforme essas visões teóricas, as unidades linguísticas estão organizadas em redes e são agrupadas de acordo com similaridades de forma, significado ou ambas. Bybee (1985, p.118) considera a possibilidade de diferentes graus de conexão entre os itens lexicais. Há conexões fracas, que se estabelecem entre itens que têm apenas similaridade fonológica; conexões médias, entre itens que têm similaridade semântica; e fortes, entre itens que têm similaridade semântica e fonológica. A frequência com que itens lexicais são usados afeta a sua representação mental e a forma fonética das palavras. Assim, quanto mais um padrão se repete, mais gerais serão seus traços e mais facilmente se estenderão a outros itens (inclusive novos), promovendo generalizações. Segundo Bybee (2001), há duas formas de se avaliar a frequência numa língua: pelo número de ocorrências de um dado item lexical, a chamada frequência de ocorrência; ou pela produtividade de um determinado padrão linguístico, a chamada frequência de tipo. A Teoria dos Exemplares lança mão dessa ideia de frequência ao sustentar que as palavras ao serem armazenadas com seu detalhe fonético podem ser categorizadas mais de uma vez e ser associadas a formas fonéticas diferentes. Sendo assim, ao ouvir uma palavra com uma forma não conhecida, a memória perceptual dessa palavra será atualizada. Se essa 3 forma passar a ser ouvida mais frequentemente, ela torna-se fortalecida com o aumento no número de exemplares. A variedade a que o falante está exposto com maior frequência organiza esquemas com um número maior de exemplares e tem uma representação mais robusta. Tendo em vista que, em geral, o falante está exposto, em graus variados, a mais de uma variedade linguística, ele possui várias representações em competição entre si. Quando uma representação supera outras nessa competição, ou seja, quando todos os itens lexicais que estão sendo afetados por um determinado fenômeno de variação passam a ser produzidos de uma única forma, uma mudança linguística se completa na língua. Isso é o que acontece em mudanças foneticamente motivadas, como é o caso do alçamento da postônica. Nesse tipo de mudança, Bybee (2006) afirma que um dos efeitos da frequência de ocorrência diz respeito à tendência de palavras ou construções mais frequentes sofrerem redução de forma mais rapidamente do que palavras ou construções menos frequentes. De acordo com Browman e Goldstein (1992) e Mowrey e Pagliuca (1995), os processos de redução podem envolver uma redução substantiva, que implica a diminuição da magnitude do gesto articulatório; ou podem envolver uma redução temporal, que representa o aumento na sobreposição de gestos articulatórios. Ambas, a redução substantiva e a temporal, podem ser vistas como automatização da produção gerada pela prática – alto nível de eficiência e de precisão temporal (BYBEE, 2006). 3 O alçamento da postônica na perspectiva variacionista O alçamento de vogais médias anteriores postônicas finais reflete um fenômeno amplamente difundido no português brasileiro, podendo ser considerado de caráter geral. De acordo com Naro (1973), esse alçamento remonta ao séc. XVI, quando passam a ser registradas variantes ligeiramente elevadas dessa vogal em posição de final de palavra. Elas, no entanto, não se igualavam à realização portuguesa [i]. No português brasileiro atual, ainda são encontrados resquícios dessa mudança que se iniciou séculos atrás e que se manifesta através da variação na forma de realização da postônica. Apesar de haver alternância entre [e] e [i] na postônica final em cidades do estado de São Paulo, em Curitiba e outras cidades do Paraná e em algumas cidades de Santa Catarina, os trabalhos sobre essa alternância concentram-se no Rio Grande do Sul, todos 4 realizados sob a perspectiva variacionista. Nesse sentido, utilizando programas estatísticos como o Varbrul, o Goldvarb e, mais recentemente, o Rbrul, esses estudos realizam a análise de uma variável dependente binária cruzada com variáveis independentes, linguísticas e sociais. Eles têm como objetivo a identificação da probabilidade de aplicação da regra de elevação da postônica final e das variáveis que influenciam essa aplicação. Um dos primeiros estudos a descrever o comportamento das vogais em posição postônica foi o de Schmitt (1987) que toma dados de descendentes de alemães, de italianos e de fronteiriços, buscando relacionar estrutura prosódica e alçamento da postônica. A análise estatística apontou a etnia, a juntura e os fatores linguísticos consoante precedente – velares e palatais -, consoante seguinte – obstruintes alveolares, velares e palatais -, e posição no sintagma, como fatores que têm algum papel no comportamento da postônica anterior. Com uma amostra semelhante à de Schmitt, Vieira (1994) analisa dados de 28 informantes da região metropolitana, região de fronteira, de colonização italiana e alemã, tentando identificar fatores que pudessem explicar a variação que ocorre na posição postônica. A autora verifica que a variável etnia é o fator que tem o maior peso no comportamento das vogais nessa posição. Fatores linguísticos como presença de vogal alta adjacente à sílaba com vogal média, segmento precedente – as obstruintes [p b t d k g f v] além de nasais - e tipo de sílaba, aberta ou fechada por fricativa ou soante, também exercem algum papel no alçamento da postônica. A partir de uma amostra coletada pela autora, Carniato (2000) analisa o comportamento da postônica na fala de indivíduos de Santa Vitória do Palmar/RS, levando em conta as seguintes variáveis linguísticas: contexto precedente, contexto seguinte, tipo de sílaba, classe gramatical e contexto vocálico na tônica. Submetidos os dados a tratamento estatístico, o programa selecionou o contexto precedente e o seguinte como fatores que exercem algum papel na forma de realização da postônica. No contexto precedente, as estridentes [s z S Z tS dZ] favorecem o alçamento; e, no contexto seguinte, os segmentos [s m n i]. Vieira (2002) descreve separadamente o comportamento das postônicas finais e não-finais a partir da análise de fala de cada uma das cidades que compõem o Banco de Dados VARSUL. De maneira geral, a variável geográfica revela-se fator importante no 5 comportamento da postônica. Em relação aos fatores estruturais, a análise estatística aponta que favorecem o alçamento da postônica a presença de vogal alta na sílaba adjacente e o tipo de sílaba - em palavras acabadas em sílaba fechada por soante tende a emergir [e], enquanto em sílabas fechadas pela fricativa [s], ocorre o alçamento. Na mesma direção dos trabalhos anteriores, Silva (2008) analisa o alçamento da postônica final e não-final em uma amostra formada por informantes de região fronteiriça com a Argentina. O estudo aponta que, entre os fatores estruturais, mostram-se favorecedores do alçamento da postônica final a presença de uma vogal alta na tônica; o contexto precedente com segmentos portadores do traço [alto]; o tipo de sílaba, aberta ou fechada por [s], em que ocorre a postônica; a localização da postônica no tema; e a classe gramatical da palavra - numerais, verbos e advérbios favorecem a elevação da postônica anterior. Por fim, Mileski (2013) analisa dados de 24 informantes, descendentes de poloneses, de Vista Alegre do Prata/RS, a fim de verificar o comportamento da postônica final. O estudo apontou índices bastante baixos de alçamento, apenas 2,5% de um total de 5980 dados. As variáveis linguísticas controladas foram semelhantes às analisadas nos trabalhos anteriores, mostrando-se favoráveis ao alçamento a classe dos numerais e dos advérbios terminados em –mente, os segmentos dorsais, nasais e [s, z] no contexto precedente, a localização da postônica no tema e a ausência de vogal alta na tônica2. O quadro a seguir apresenta um resumo dos principais resultados encontrados nos diferentes estudos envolvendo a postônica. Quadro 1 – Resumo de resultados de alçamento na postônica final Fator Resultados – contextos que favorecem alçamento Contexto Velares e palatais Somente em Schmitt (1987) precedent nasais Vieira (1994)3, Carniato (2000) e MIleski (2013) e s/z Vieira (2002), Carniato (2000)4, Silva (2009)5 e Mileski (2013) 2 Em relação à variável contexto vocálico, a autora afirma que foi necessário retirar dos dados o vocábulo “vinte”, com 97 ocorrências, todas com alçamento da postônica, tendo sobrado somente 7 vocábulos com vogal alta na tônica. 3 Além das nasais, mostraram-se favoráveis ao alçamento as oclusivas e as fricativas [f v]. 6 dorsais Mileski (2013) Contexto Obs. alveolares, velares Somente em Schmitt (1987) seguinte e palatais [s n m i] Somente em Carniato (2000) Vogais Somente em Silva (2009) Tipo de Sílaba com coda [s] Vieira (1994 e 2002), Silva (2009) sílaba Sílaba sem coda Vieira (1994 e 2002) Classe Numerais, verbos e Somente em Silva (2009) gramatical advérbios Numerais e advérbios Somente em Mileski (2013) em –mente Contexto Vogal alta na tônica Vieira (1994 e 2002), Silva (2009) vocálico Sem vogal alta na tônica Mileski (2013) Como podemos verificar, nas análises realizadas pelos diferentes trabalhos, não há convergência em relação aos resultados encontrados, em especial no que diz respeito à influência dos fatores linguísticos no alçamento da postônica. O ponto comum a todos esses trabalhos é a emergência da etnia como o fator social que delineia a vogal que pode se manifestar na posição postônica final. 4. Metodologia 4.1 Coleta de dados Este estudo, que segue os pressupostos da Fonologia de Uso e da Teoria dos Exemplares, tem como objetivo apresentar resultados referentes ao papel da frequência na alternância e ~ i na postônica final. Para tanto foram analisados dados coletados junto a 26 falantes de Santana do Livramento/RS, cidade situada na região da fronteira oeste do estado. Livramento forma com Rivera, cidade do lado uruguaio, uma cidade internacional, separadas por apenas uma rua. 4 5 Além de [s z], mostraram-se favoráveis ao alçamento todas as outras estridentes coronais. Além de [s z], mostraram-se favoráveis ao alçamento as palatais [S Z]. 7 Trabalhos anteriores (SCHMITT, 1987; VIEIRA, 1994) que analisaram dados coletados junto a falantes de Santana do Livramento constataram índices significativos de realização de [e] na postônica final. As autoras atribuíram tais índices à influência do espanhol sobre o português falado na cidade. Para realização deste trabalho, na formação da amostra, foram utilizados como parâmetros o sexo e a idade, tendo sido selecionados dois homens e duas mulheres das seguintes faixas etárias: 126-15, 18-21, 24-27, 35-38, 50-53, 56-59 e 62-ou mais. Nas faixas etárias 35-38 e 56-59, foram coletados dados de somente um homem. Todos os informantes deveriam ter cursado no mínimo a 5ª série do Ensino Fundamental. Para a coleta dos dados, foram selecionadas 72 palavras com a letra ‘e’ na posição postônica final, levando-se em conta a frequência de uso dessas palavras. Na seleção das palavras, que deveriam ser substantivos, foram controlados todos os possíveis contextos precedentes à postônica, sem levar em conta, no entanto, a distinção de sonoridade em contextos obstruintes. Além disso, controlou-se a existência ou não de coda na sílaba postônica. Para cada um dos contextos, foram selecionadas quatro palavras, duas de alta frequência e duas de baixa frequência. Houve contextos, no entanto, para os quais não foi encontrado o número de palavras necessário, caso de [¯], com uma única palavra 6 Dois meninos e uma menina tinham à época da coleta dos dados 11 anos e 7 meses. 8 correspondente a um objeto concreto - champanhe e de [¥], também com uma única – molhes. O instrumento utilizado na coleta dos dados foi formado por 72 imagens correspondentes às palavras selecionadas. O participante da pesquisa deveria produzir uma frase usando a palavra referente à imagem exposta. Para garantir que fosse produzida exatamente a palavra desejada, todas as imagens eram acompanhadas de uma legenda. Isso permitiu que mesmo em casos em que o participante não conhecesse o objeto, ele poderia dizer a palavra em uma frase do tipo: “Não sei o que é X”. Foi dito aos informantes que, por meio da pesquisa, buscava-se medir o tempo dispendido pelo falante para transformar em palavras uma ideia que vinha à mente a partir da exposição a uma determinada imagem. A aplicação da testagem foi precedida de uma pequena entrevista que teve como intenção deixar os entrevistados mais à vontade com a situação. Apesar de terem sido gravadas essas entrevistas, os dados não foram aproveitados neste estudo em função de sua disparidade. Os dados foram gravados, usando-se o gravador profissional H4n Handy Recorder. Após a coleta, foram identificadas, por meio de análise auditiva, as vogais que se manifestavam na posição postônica. Nas vogais de difícil, a identificação foi feita também por meio da análise acústica. 4.2 Seleção das palavras e efeitos de frequência A seleção das palavras que formaram o instrumento de coleta dos dados deu-se em duas etapas. Na primeira, usando o corpus do projeto ASPA, foi possível acessar listas de palavras que continham os diferentes contextos precedentes à postônica aceitos na língua. Foram selecionados diversos substantivos para cada um dos contextos e, na segunda etapa, a partir do corpus Brasileiro7, disponibilizado por Berber Sardinha, foi possível escolher as palavras que comporiam o instrumento, levando-se em conta a frequência de uso de cada uma delas. Consideramos frequentes8 as palavras que têm acima de 1,0 de ocorrência por milhão e, de baixa frequência, as palavras com menos de 1,0 de ocorrência. A partir dessa 7 O corpus Brasileiro representa o maior acervo da variedade brasileira de língua portuguesa, com mais de um bilhão de ocorrências. Disponível em www.sketchengine.co.uk. 8 Bybee (2006) afirma que ainda não existem critérios definidos para determinar se a frequência de um item é baixa, média ou alta. 9 decisão, o instrumento foi composto por 33 palavras de baixa frequência e 39 de alta frequência. 5. Resultados Dos dados apresentados e discutidos neste trabalho foram excluídos aqueles cuja sílaba final era fechada por soante. 60 palavras foram submetidas à testagem, tendo sido obtidos 15339 dados. A tabela abaixo mostra a distribuição dos dados. Tabela 1 – Distribuição geral dos dados Alçamento [e] cancelamento10 TOTAL Nº de dados 1213 238 82 1533 % 80 15 5 Conforme podemos ver na Tabela 1, dos 1533 dados coletados, 1213 apresentaram alçamento, o que representa 80% do total; 238 tiveram realização [e] na postônica final (15%); e em 82 dados (5%) houve cancelamento da postônica. A seguir apresentamos os resultados relativos ao alçamento e realização de [e], levando em conta a frequência de ocorrência dos itens nos quais esses fenômenos se manifestaram. Tabela 2 – Frequência de ocorrência e alçamento da postônica Frequência Alçamento [e] Total % Alta frequência 576 103 679 85 Baixa frequência 640 132 772 83 TOTAL 1213 238 1451 De acordo com a perspectiva teórica que estamos adotando neste trabalho, mudanças linguísticas foneticamente condicionadas espraiam-se pelo léxico gradualmente a partir de palavras de frequência mais alta para as palavras de frequência mais baixa. Como 9 O número total de dados deveria ser 1560, no entanto, houve 27 palavras que não foram produzidas da maneira esperada ou que sequer foram produzidas. 10 A análise de contextos que propiciaram o cancelamento da postônica e a frequência de ocorrência das palavras em que o cancelamento ocorreu não será feita neste trabalho. 10 podemos verificar na tabela acima, em 679 itens considerados de alta frequência, houve alçamento da postônica em 576, o que corresponde a 85% dos dados. Já em 772 itens considerados de baixa frequência, o alçamento atingiu 640, 83% dos dados. Portanto, a diferença de apenas 2% nos índices de alçamento entre palavras de alta e de baixa frequência revela que esse fenômeno está de tal maneira avançado no português que a frequência de ocorrência de um determinado item lexical já não pode ser vista como fator que impulsiona a sua implementação. É possível, inclusive, que o alçamento tenha se espraiado por relações analógicas. Apesar do alto índice de alçamento da postônica, do ponto de vista da Teoria dos Exemplares (PIERREHUMBERT, 2000), há na comunidade estudada formas em competição: as que são produzidas com a postônica alçada e as que são produzidas com [e]. No estágio atual, o conjunto de palavras com alçamento é mais robusto, já que possui um número maior de exemplares. Tendo em vista que palavras mais frequentes apresentam altos índices de alçamento, os falantes dessa comunidade estarão mais expostos a exemplares com alçamento do que sem alçamento. Como resultado desse processo de exposição, o alçamento da postônica tende a se generalizar e atingir todas as palavras da língua nessa comunidade. Nesse momento, a mudança terá se completado. Uma questão importante a ser considerada na compreensão do alçamento da postônica são os chamados contextos uniformes e contextos alternativos (BYBEE, 2002). Consideram-se contextos uniformes aqueles que estão sempre presentes em cada palavra, ou seja, aqueles que se encontram no seu interior. Assim, morfemas que possuem o contexto uniforme para a variação e são muito frequentes podem sofrer um maior número de ocorrência do fenômeno variável ao qual o morfema está sujeito. Um exemplo de contexto uniforme seria o caso de alçamento da pretônica que tende a ocorrer em todos os itens lexicais de um mesmo paradigma (como em c[u]nhecer, c[u]nhecido, c[u]nhecimento). Já os contextos alternativos são aqueles que podem estar presentes ou não na palavra, fazer parte dela ou não. No caso da postônica, podem ser considerados contextos alternativos tanto o contexto precedente quanto o seguinte. Conforme os estudos sobre o alçamento da postônica apresentados na seção 3, apesar de não haver convergência total nesse resultado, a presença de uma fricativa [s z S Z] como segmento precedente favorece o alçamento da postônica. Se levarmos em conta a 11 frequência de ocorrência de cada um dos dados que contêm uma fricativa coronal, podemos observar índices de alçamento muito próximos. A tabela a seguir mostra a relação entre frequência e alçamento nos dados com fricativa no segmento precedente. Tabela 3 – Frequência de ocorrência e alçamento em palavras com [s z S Z] Itens com alta frequência11 Itens com baixa frequência12 Item – frequência* alça/total Item – frequência alça/total Classes (66,3) 26/26 Lordose (0,3) 19/23 Peixe (30,2) 18/19 Mousse (0,1) 22/22 Onze (12,9) 23/26 Brioches (0,1) 19/20 Sanduíche (1,5) 23/24 Faringe (1,2) 23/25 Hélice (1,0) 25/26 TOTAL 138/146 – 95% 60/65 – 92% * Número de ocorrência por milhão Os resultados apresentados acima mostram que as fricativas coronais podem ser consideradas contextos favoráveis à implementação do alçamento. Ou seja, como um fenômeno condicionado foneticamente, o alçamento tende a ocorrer quando segmentos fricativos [s z S Z] forem contextos precedentes à postônica. Se levarmos em conta os índices de alçamento quando fricativas coronais estiverem antes da postônica, verificamos que as palavras mais frequentes alçam em 95% dos dados; enquanto, entre as de frequência mais baixa, o alçamento atinge 92% dos dados. Tais resultados estão acima do índice geral que foi de 80% dos dados, indicando o papel das fricativas coronais no fenômeno em estudo. Ao considerarmos as fricativas contextos favoráveis ao alçamento estamos afastando a possibilidade de considerá-las um princípio fundamental que motiva esse fenômeno a exemplo do que acontece nos estudos sociolinguísticos. De acordo com 11 Houve cancelamento da postônica em sete ocorrências da palavra peixe, em duas da palavra sanduíche, em duas da palavra hélice e em uma da palavra faringe. 12 Houve cancelamento da postônica em cinco ocorrências da palavra brioches, em três da palavra mousse e em uma da palavra lordose. 12 Barbosa (2013), o princípio fundamental que propicia o alçamento da postônica é de natureza fonética e, na sua implementação, ele será favorecido pela presença de uma fricativa coronal. Tanto os índices maiores de alçamento quanto o número considerável de cancelamento da postônica em ambientes com fricativas coronais poderiam ser vistos como subprodutos de mudanças sutis na magnitude e no timing do gesto articulatório. Em função de características articulatórias da fricativa e em função de a postônica ser uma posição prosodicamente fraca, é possível a ocorrência de sobreposição de gestos da fricativa sobre a vogal, sobreposição essa que pode variar desde o desvozeamento da vogal até seu cancelamento. Também pode ser considerado um contexto favorecedor para o alçamento da postônica a presença de uma vogal alta na posição tônica. Na tabela a seguir, podemos verificar que tanto palavras de alta frequência de uso quanto palavras de baixa frequência tendem a sofrer alçamento na postônica quando houver uma vogal alta na tônica. Tabela 4 – Frequência e alçamento em palavras com vogal alta na tônica Itens com alta frequência13 Itens com baixa frequência14 Item – frequência* alça/total Item – frequência alça/total Time (159,0) 25/26 Cardume (0,5) 26/26 Desfile (14,5) 26/26 Vagalume (0,3) 24/26 Perfume (4,0) 24/25 Quibe (0,3) 21/25 Vitrine (2,7) 25/25 Abutres (0,2) 19/25 Sanduíche (1,5) 23/24 Aborígine (0,2) 15/23 Faringe (1,2) 22/25 Mousse (0,1) 22/22 Xerife (1,0) 24/26 Brioches (0,1) 23/25 Hélice (1,0) 23/24 Pedicure (0,1) 25/26 TOTAL 192/201 - 95% 175/198 – 88% * Número de ocorrência por milhão 13 Em perfume e faringe, houve um caso de cancelamento, enquanto que em hélice e sanduíche, houve dois casos. 14 Em quibe e abutres, houve um caso de cancelamento; em mousse, houve três; e em brioches houve cinco casos. 13 Os resultados da tabela acima mostram que os índices de alçamento em ambos os grupos são bastante elevados, sendo praticamente categórico no grupo das palavras mais frequentes (95%). No grupo das palavras de frequência mais baixa, o índice de alçamento chega a 88%. Ambos os índices estão acima do índice geral de alçamento. Analisando-se as palavras dessa tabela, percebemos que várias possuem também uma fricativa no contexto precedente à postônica. Uma palavra como mousse, por exemplo, possui dois contextos favoráveis ao alçamento, a fricativa coronal e a vogal alta na posição tônica. Nesse sentido, levando em conta a presença de fricativas coronais como segmento precedente e a presença de uma vogal alta na posição tônica, não se pode falar em efeitos da frequência sobre o alçamento, uma vez que ele está amplamente difundido nesses contextos. Se tomarmos palavras derivadas ou compostas que fazem parte do instrumento de coleta utilizado neste trabalho, todas consideradas de baixa frequência, tais como ultraleve (frequência: 0,3 por milhão), guacamole (frequência: 0,1 por milhão) e astronave (frequência: 0,0 por milhão) e analisarmos a forma de realização dessas palavras, constatamos que os índices de alçamento foram altos. Ultraleve apresentou 21 casos de alçamento em 26 produzidos; guacamole, 23 casos de alçamento em 23 produzidos; e astronave 22 casos em 26. Para compreendermos os altos índices de alçamento de palavras complexas de baixa frequência de ocorrência, devemos considerar a forma como itens lexicais estão armazenados em nosso léxico mental. De acordo com Bybee (2007, p. 207), o léxico é formado por palavras simples e por palavras morfologicamente complexas. A teoria considera que o léxico é organizado em uma espécie de rede na qual as palavras são relacionadas entre si por similaridades fonéticas, morfológicas, semânticas. Sendo assim, fariam parte da rede à qual pertence a palavra ultraleve as palavras leve, releve, eleve, superleve, que estão relacionadas entre si por diferentes tipos de vínculo. Da mesma forma, a rede de guacamole, conteria também mole, demole; e a de astronave, nave, espaçonave, aeronave. É provável que quando o vínculo entre as palavras for de natureza fonológica e semântica, um vínculo forte, portanto, haveria entre as palavras uma relação de dominância, determinada pela frequência de ocorrência. Assim, por exemplo, no grupo da palavra ultraleve, leve, item de alta frequência, seria definido como o exemplar dominante (no caso em estudo, com a postônica 14 alçada) reproduzido nas outras formas. O mesmo aconteceria com guacamole e astronave, com mole e nave, respectivamente sendo o centro da rede. Analisando-se o alçamento da postônica do ponto de vista dos indivíduos pesquisados, verificamos que em relação ao sexo, os dados não mostram diferença significativa entre homens e mulheres no que diz respeito ao alçamento. Também em relação à idade, não há diferença marcante entre os indivíduos mais jovens da amostra e os mais velhos. O gráfico15 abaixo, no qual foram agrupados os entrevistados em três grandes faixas etárias, de 12 a 21 anos, de 24 a 38 anos e de 53 anos ou mais, podemos visualizar os resultados gerais. Gráfico 1 – Relação entre alçamento da postônica e idade 120 100 80 mais de 53 60 jovens 40 adolesc. 20 0 Conforme apontam os resultados apresentados no gráfico acima, de forma geral, os indivíduos agrupados sob o rótulo jovens tendem a alçar mais a postônica do que os outros dois grupos. Há entre os integrantes desse grupo certa homogeneidade, uma vez que exceto um indivíduo, todos os outros apresentam índices de alçamento próximos a 90%. Entre os adolescentes também há um único indivíduo que destoa do restante com um índice de alçamento de 68%, enquanto os outros alçam por volta de 80%. Já entre os indivíduos com mais de 53 anos, percebemos uma maior heterogeneidade de comportamento: tanto há um indivíduo cujo índice de alçamento foi de 59% quanto outro com índice de 98%. Esses resultados indicam que o alçamento da postônica é um processo que atinge todas as faixas etárias. Em função disso, podemos dizer que a comunidade em estudo caminha, nesse 15 Cada nó do gráfico indica os resultados de um falante. 15 aspecto, para um alinhamento com o que já acontece em outras regiões do país em relação à postônica. Considerações finais Neste trabalho, buscamos verificar efeitos de frequência de ocorrência de itens lexicais acabados em e na representação escrita sobre o alçamento da postônica, a partir da análise de dados de fala de indivíduos de Santana do Livramento/RS. Os resultados encontrados mostram que, a exemplo do que ocorre em grande parte do país, o alçamento é um fenômeno bastante avançado nessa comunidade, não sendo mais possível identificar efeitos de frequência sobre esse fenômeno. Verificamos também que há contextos nos quais o alçamento atinge índices categóricos: presença de fricativa coronal no contexto precedente à postônica e de vogal alta na sílaba tônica. Referências BARBOSA, L. O alçamento da vogal média anterior no português brasileiro: uma abordagem no modelo de redes. Tese de doutorado, UFMG, Belo Horizonte (2013) BROWMAN, C. & GOLDSTEIN , L. Articulatory Phonology: an overview. Haskins Laboratories Status Report on Speech Research. SR-111/112, 23-42, (1992). BYBEE , J. Morphology: a Study of the Relation between Meaning and Form . Amsterdam: John Benjamins (1985) __________. Phonology and Language Use. Cambridge:Cambridge University Press. (2001). Bybee, J. From Usage to Grammar: the Mind’s Response to Repetition. 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