LEANDRO ALVES SILVA Padrões de Interação entre Ciência e Tecnologia: uma investigação a partir de estatísticas de artigos e patentes Belo Horizonte, MG CEDEPLAR/FACE/UFMG Maio de 2003 LEANDRO ALVES SILVA Padrões de Interação entre Ciência e Tecnologia: uma investigação a partir de estatísticas de artigos e patentes Dissertação apresentada ao curso de mestrado do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do Título de Mestre em Economia. Orientadores: Eduardo da Motta e Albuquerque e Américo Tristão Bernardes Belo Horizonte, MG CEDEPLAR/FACE/UFMG Maio de 2003 À Deus, sem o qual nada é possível. Aos meus pais. Aos meus orientadores, Eduardo Albuquerque e Américo Bernardes, pela paciência, dedicação, confiança e incentivo nos momentos mais críticos. Aos meus professores, Viviane Luporini, Mônica Viegas, Paulo Brígido, Elenice Biazi, Luiz Antônio, João Antônio, Rodrigo Simões, Clélio Campolina. Ao professo Mauro Borges, pela confiança. À Professora Sueli Moro que gentilmente apresentou contribuições importantes para a conclusão deste trabalho e ao Professor José Eduardo Cassiolato, cujas observações foram de grande importância, também, para minha formação. À valorosa equipe de pesquisa em economia da tecnologia, meus amigos, Túlio Cravo, Fabio Salazar, Camila Lins, Ana Luiza, Regina Fernandes, Adriano Baessa, Márcia Rapini, cuja ajuda e o apoio foram fundamentais. Aos meus amigos e colegas de classe, Nildred Martins, Fernando Batista, Regina de Sousa, Maurício Machado, Andresa, Hailton e Betânia, pelo apoio constante. Ao meu amigo Euler Mello pela indispensável ajuda na finalização deste trabalho. À minha Amiga Catari Chaves, sua ajuda foi especial. Aos meus amigos do Cedeplar. A todos que direta ou indiretamente contribuíram para a realização desse trabalho e para a minha formação e que por um capricho da memória não foram citados. Meu sincero muito obrigado. Para meus avós Sumário Lista de Tabelas, Quadros, e Figuras..................................................................................... ii Resumo .................................................................................................................................iii Introdução.............................................................................................................................. 4 Capítulo 1 – Sistemas de Inovação e interação entre ciência e tecnologia............................ 8 1.1 – Evidências da crescente importância da tecnologia para a economia .......................... 8 1.2 – Sistema de Inovação e Capacitação Social como conceitos chave .............................. 9 1.2.1 – Firmas e Sistema de Inovação ................................................................................. 11 1.2.2 – Incerteza e “Destruição Criadora”........................................................................... 14 1.2.3 – Instituições............................................................................................................... 15 1.2.4 – Tamanho e interações dos elementos ...................................................................... 19 1.3 – Interação entre ciência e tecnologia............................................................................ 19 1.3.1 – Interação e causalidade............................................................................................ 19 1.3.2 – Focalizando a ciência .............................................................................................. 23 1.4 – Evidências estatísticas sobre limiares de produção científica .................................... 27 1.5 – Proposta para investigação ......................................................................................... 34 Capitulo 2 – Análise de cluster: classificando países em Regimes de interação ................ 38 2.1 – Das Hipóteses ............................................................................................................. 38 2.2 – Dos Indicadores .......................................................................................................... 41 2.3 – Da base de dados ........................................................................................................ 46 2.4 – Do método de análise ................................................................................................. 48 2.5 – Dos resultados ............................................................................................................ 52 2.5.1 – Descrição dos resultados da análise de cluster........................................................ 58 2.5.2 – Transição entre clusters (Regimes) ......................................................................... 59 2.5.2.1 – Transição entre Regime I (fora da análise de cluster) e Regime II (Cluster 1).... 59 2.5.2.2 – Dos países que superaram a fronteira do Cluster 1 .............................................. 61 2.5.2.3 – Caso particular: Islândia ....................................................................................... 62 2.5.2.4 – Sustentabilidade acima da fronteira...................................................................... 63 2.5.3 – As mudanças geográficas após a queda do Muro de Berlim................................... 64 2.5.4 – A movimentação acima da fronteira do Cluster 1................................................... 67 2.5.5 – Países que permaneceram no Regime II (Cluster 1) ............................................... 68 2.5.6 – Conclusões sobre a análise de cluster...................................................................... 69 Capitulo 3 – Análise intertemporal: identificando um padrão polinomial de interação...... 71 3.1 – Dos países que fizeram a transição............................................................................. 71 3.2 – Dos países do Regime III ........................................................................................... 77 3.3 – Dos países que permaneceram no Cluster 1............................................................... 82 3.4 – Tratamento analítico do padrão de interação.............................................................. 84 3.5 – Do tratamento econométrico ...................................................................................... 88 3.6 – Distribuição espacial das atividades científicas e tecnológicas: o caso brasileiro ..... 94 3.7 – Conclusões.................................................................................................................. 99 Conclusão .......................................................................................................................... 103 Referências bibliográficas ................................................................................................. 106 APÊNDICE 1 – Dados utilizados para analise de cluster do Capítulo 2 .......................... 109 i Lista de Tabelas, Quadros, e Figuras FIGURA 1.1 A* x P* ................................................................................................................ 25 FIGURA 1.2 Esquema de Regimes de Interação ............................................................................. 26 FIGURA 1.3 Dendograma para 1998, usando Artigos por milhão de habitantes, patentes por milhão de habitantes e renda per capita. .............................................................................................. 29 FIGURA 1.4 ln(P*) x ln(A*) para 1998 ........................................................................................ 32 QUADRO 1.1 Resultados da estimação do modelo 2 ....................................................................... 32 QUADRO 1.2 p-valor para o teste J ............................................................................................. 34 FIGURA 1.5 Esquema para construção de capacidades humanas ....................................................... 35 FIGURA 2.1 Exemplo de dendograma.......................................................................................... 50 FIGURA 2.2 Resultado da análise de cluster para 1980 usando Artigos (pmh) e Patentes (pmh)............... 55 FIGURA 2.3 Resultado da análise de cluster para 2000 Artigos (pmh) e Patentes (pmh). ........................ 56 TABELA 2.1 Média dos clusters em 1980 e 2000, para artigos e patentes por milhão de habitantes .......... 57 FIGURA 2.4 Limites do Cluster 1 em 1980 ................................................................................... 58 FIGURA 2.5 Limites do Cluster 1 em 2000 ................................................................................... 59 QUADRO 2.1 Transição entre clusters entre 1980 e 2000................................................................. 60 FIGURA 2.6 Efeitos Fragmentação e Reunificação ......................................................................... 65 FIGURA 3.1 P* x A* para paiíses que fizeram a transição entre o Regime II e Regime III: 1980 – 2000 .. 75 FIGURA 3.2 Variação anual da produção científica: 1980-2000 ........................................................ 76 FIGURA 3.3 P* x A* para países líderes: 1980 – 2000 ................................................................... 78 FIGURA 3.4 Variação anual da produção científica: 1980-2000 ........................................................ 81 FIGURA 3.5 P* x A* para países de Sistema de Inovação imaturo: 1980 – 2000.................................. 83 FIGURA 3.6 Variação anual da produção científica: 1980-2000 ........................................................ 84 FIGURA 3.7 Representação da função de 3º grau ........................................................................... 85 FIGURA 3.8 Representação da primeira derivada da função de 3º grau ............................................... 86 FIGURA 3.9 Sucessão dos intervalos de maior e menor sensibilidade ................................................. 87 TABELA 3.1 Resultados econométricos 1 da estimação por MQO do modelo 3.4 para países selecionados (1980-2000) .................................................................................................................... 89 TABELA 3.4 Artigos no por estado ISI - Brasil .............................................................................. 95 TABELA 3.5 Artigos no por estado ISI - México............................................................................ 95 TABELA 3.6 Artigos no por estado ISI - Índia ............................................................................... 96 TABELA 3.7 Artigos no por estado ISI - África do Sul .................................................................... 96 TABELA 3.8 Distribuição estadual de patentes – Brasil (1981-2001) ................................................. 97 TABELA 3.9 Distribuição estadual de patentes – México (1981-2001) ............................................... 97 TABELA 3.10 Distribuição estadual de patentes – Índia (1981-2001) ................................................. 97 TABELA 3.11 Distribuição estadual de patentes – África do Sul (1981-2001) ...................................... 97 FIGURA 3.10 Limiar de produção científica considerando São Paulo ................................................. 98 TABELA A1 GDP per capita em US$ de 1995, Artigos por milhão de habitante e Patentes por milhão de habitantes para 1980 e 2000 .............................................................................................. 109 ii Resumo Este trabalho utiliza estatísticas de artigos científicos, indexados pelo Institute for Scientific Information (ISI), e patentes concedidas pelo United State Patent and Trademark Office (USPTO), para investigar as relações entre ciência e tecnológica em 103 países ao longo de 21 anos, entre 1980 e 2000. A observação das estatísticas nos anos de 1980 e 2000 possibilita proposição de uma tipologia dos países segundo Regimes de interação entre a base científica e a infra-estrutura tecnológica, por meio de uma análise de cluster para estes dois anos. Por outro ponto de vista, a análise ao longo do tempo revela um padrão de comportamento dos indicadores de ciência e tecnológica que segue um polinômio de terceiro grau, caracterizando uma correlação positiva entre eles, bem como períodos de maior e menor sensibilidade da produção tecnológica às variações na produção cientfica, para um conjunto significativo de países, dada suas classificações dentro dos Regimes de interação. Este padrão leva a considerar os feedbacks existentes entre as dimensões científica e tecnológica e seu comportamento no tempo. Abstract This work uses statistics from scientific papers, indexed by the Institute for Scientific Information (ISI), and patents granted by the United States Patent and Trademark Office (USPTO), in order to investigate the relationships between science and technology in 103 countries over 21 years (1980-2000). The comparison between the statistics of the years 1980 and 2000 enables the proposition of a typology of the countries following interaction ‘regimes’ between the scientific basis and technological structure, through a cluster analysis in each of those years. Following another point of view, the analysis over the period 1980-2000 reveals a behavioral pattern for the science and technology indicators that follows a third order polynomial function, characterizing a positive correlation between them, as well as periods of higher or lower technological production’s reaction to scientific production for a significant set of countries, given their interactive ‘regime’ classification. This pattern leads to considering the feedbacks between the technological and scientific dimensions and their behavior over time. iii Introdução Este trabalho investiga as relações entre ciência e tecnologia partindo do pressuposto de que estas contribuem de forma decisiva para o desenvolvimento econômico. Neste sentido, as relações entre ciência, tecnologia e economia podem ser apreendidas a partir da visão de SCHUMPETER (1988), na qual as inovações tecnológicas assumem o centro da dinâmica capitalista e o desenvolvimento econômico surge da introdução destas inovações. O desenvolvimento deve, então, ser visto como um processo de evolução, em conformidade com o conceito de “destruição criadora” introduzido por SCHUMPETER (1961). Não obstante o papel transformador atribuído à tecnologia na obra de Schumpeter, muitos economistas, em especial os neo-schumpeterianos, vêm apresentando argumentos e fatos em defesa também do progresso científico na esfera econômica e dentro do processo de desenvolvimento. Assim, não só a ciência, que gera o conhecimento, é vista como fundamental para o progresso tecnológico, como recebe contribuições deste (ROSENBERG, 1990), devendo ser considerada ao mesmo tempo líder e seguidora (NELSON e ROSENBERG, 1993) no processo de desenvolvimento. Por outro lado, as contribuições da ciência para a economia, em geral, vão além de seus impactos sobre a tecnologia, como pode ser percebido em PAVITT (1994), resultando mesmo em maiores níveis de produtividade pela ampliação do conhecimento. Desta forma, ciência e tecnologia tornam-se cruciais para a implementação e avaliação do desenvolvimento das nações. Do ponto de vista dos resultados econômicos, são muitos os exemplos em que medidas para fomentar o progresso científico e tecnológico, dentro do conceito de sistema de inovação, constituíram a base de processos 4 de catcing up e forging ahead, sendo que Coréia do Sul e Taiwan, Alemanha e Japão, são exemplos destes processos, respectivamente. Do ponto vista do desenvolvimento humano, ciência e tecnológica são poderosos meios para que os indivíduos possam levar uma vida longa, saudável e participativa. (UNDP, 2001) Nesta perspectiva, a própria capacidade que os indivíduos alcançam de acessar e utilizar as novas tecnologias pode ser tomada como medida do desenvolvimento humano, enquanto os países podem ser avaliados pelas condições que possuem de criar e difundir novas tecnologias e de construir capacitações humanas. É sob este ponto de vista, de que ciência e tecnologia são elementos cruciais para o desenvolvimento econômico, que este trabalho discute as relações entre as dimensões científica e tecnológica buscando identificar aspectos comuns e padrões de comportamento através da utilização de estatísticas de artigos científicos e patentes para um conjunto de 103 países entre 1980 e 2000. Outro aspecto a ser destacado no presente trabalho é a possibilidade da sistematização de dados em ciência e tecnologia. Esforços têm sido feitos neste sentido. Em relatório de 2001, o United Nations Development Program utiliza indicadores de criação de tecnologia (patentes per capita, receita de royalties e de licenciamento), difusão de inovações recentes (servidores de Internet per capita e participação de produtos de alta e média tecnologia nas exportações), difusão de inovações “antigas” (log do número de linhas telefônicas per capita, log do consumo per capita de eletricidade) e “habilidades humanas” (média de anos de educação, taxa de matrícula em nível superior em ciências matemáticas e engenharias), para construir um índice de realização tecnológica (Tecnology Achievement Index: TAI) e classificar os países segundo este indicador. Desta forma, 72 países são distribuídos entre as classes de “líderes” (18 países: Finlândia, Estados Unidos, Japão, Coréia do sul, entre outros com TAI > 0,5), de “líderes 5 potenciais” (19 países: Espanha, Itália, Hong Kong, México, Argentina, Costa Rica, Chile, e outros com TAI > 0,35), de “seguidores dinâmicos” (26 países: Uruguai, África do Sul, Brasil, China, Colômbia, Índia, e outros com TAI > 0,2) e de “marginalizados” (9 países: Senegal, Gana, e outros com TAI < 0,2). Esta classificação, embora bastante coerente em relação aos países líderes, e mesmo não pretendendo estabelecer uma liderança científica ou tecnológica, sugere algum cuidado, dado que coloca na mesma classe países com Itália e Costa Rica, Brasil e Zimbábue. Dentro de uma perspectiva evolucionista, as estatísticas de artigos científicos e patentes são utilizadas para classificar os 103 países dentro de Regimes de interação entre as infra-estruturas científica e tecnológica, denotando a existência de feedbacks entre elas. Mais que isso, esta classificação é feita para dois anos, 1980 e 2000, permitindo capturar a transição dos países dentro dos Regimes de interação. Em outra direção, tomando a ciência como variável chave, como precondição para o desenvolvimento e processos de catching up, a análise da relação entre ciência e tecnologia ao longo do tempo revela padrões de interação entre estas dimensões, demonstrando a importância de uma abordagem dinâmica e ajudando na compreensão do significado dos feedbacks positivos entre as bases científica e tecnológica, constituindo também uma possível fonte de informações para a orientação de políticas públicas. Este trabalho possui três capítulos. No primeiro, com base na literatura neoschumpeteriana, é discutida a importância da ciência e tecnológica, bem como o papel das instituições, dentro do desenvolvimento dos países, buscando elementos teóricos que orientem e apóiem a análise dos capítulos seguintes. O segundo capítulo realiza uma classificação dos países dentro de Regimes de interação, por meio de uma análise de cluster em dois pontos no tempo (1980 e 2000), 6 utilizando dados de artigos científicos informados pelo Institute for Scientific Information e patentes garantidas no United State Patent and Trademark Office. No terceiro capítulo, os resultados anteriores são utilizados para orientar a focalização dos países ao longo dos 21 anos entre 1980 e 2000. Desta forma, a ciência é tomada como variável chave, permitindo observar suas contribuições para o progresso tecnológico. A partir daí, são identificados padrões de comportamento para a relação entre ciência e tecnologia no tempo, com ganhos no entendimento das interações destas dimensões e da validade da classificação proposta no capítulo 2. O último capítulo conclui o trabalho. 7 Capítulo 1 – Sistemas de Inovação e interação entre ciência e tecnologia Este trabalho é conduzido sob a premissa de que a economia moderna é, cada vez mais, influenciada pelos avanços no conhecimento e nas tecnologias. Reserva-se neste capítulo a tarefa de lançar os alicerces onde os argumentos subseqüentes são construídos. 1.1 – Evidências da crescente importância da tecnologia para a economia Algumas simples observações devem ser capazes de mostrar a importância que pontos como a tecnologia e o conhecimento vêm assumindo na explicação dos fenômenos econômicos, sobretudo do crescimento, após a Segunda Guerra Mundial. Inicialmente, deve-se considerar os resultados do modelo de crescimento apresentado por SOLOW (1956-57), que atribui 82,5% do crescimento do produto per capita ao “progresso tecnológico” e apenas 12,5% ao aumento no uso do capital. Trata-se, neste caso, de reconhecer o avanço na tecnologia como uma das fontes do crescimento dentro do arcabouço neoclássico, marcado pelo paradigma do equilíbrio. Bem antes de Solow, contudo, SCHUMPETER (1988)1 já identificava o surgimento de novas combinações, num sentido mais abrangente que apenas o progresso tecnológico, como a principal fonte, não só do crescimento, mas do desenvolvimento econômico, marcado pelo desequilíbrio. Em anos mais recentes, NELSON (1998) faz referência a um certo boom nos modelos assim chamados de crescimento endógeno (AGIHON & HOWITT, 1998 abordam estas “novas teorias do crescimento”), os quais tratam não apenas o progresso tecnológico 1 A primeira edição da Teoria do Desenvolvimento Econômico de Schumpeter na língua inglesa data de 1934. A primeira edição em alemão data de 1911. 8 como uma variável endógena, mas também elementos como o capital humano, o qual relaciona-se mais fortemente com os avanços no conhecimento. Seguindo a tradição schumpeteriana, os modelos evolucionistas tratam do crescimento fora do paradigma do equilíbrio geral tomando novamente o progresso científico e tecnológico como seus motores. Desta forma, temas relevantes como crescimento e desenvolvimento vêm recebendo contribuições tanto da teoria apreciativa quanto da formalizada (NELSON, 1998), as quais apontam para o peso do progresso técnico e cientifico para estes fenômenos, em especial quando se tenta explicar casos como o rápido crescimento da economia japonesa após a segunda guerra mundial ou da Coréia do Sul e Taiwan, nas três últimas décadas. 1.2 – Sistema de Inovação e Capacitação Social como conceitos chave Para investigar as interações entre ciência e tecnologia, este trabalho faz uso de um conceito abrangente, de certo mais relacionado a evidências empíricas e às teorias apreciativas, qual seja o de Sistema de Inovação. (FREEMAN, 1988; NELSON, 1993) Este conceito deve ser compreendido como um conjunto de fatores articulados, capazes de promover o desenvolvimento, em um sentido schumpeteriano, pela criação, ampliação e sustentação de um ambiente inovativo, de onde as novas combinações emergem das condições preexistentes, resultando na transformação do próprio sistema. Isto denota um processo histórico, não reproduzível, seja no tempo ou no espaço, e de resultados, em geral, imprevisíveis, onde instituições, mercados, consumidores, firmas, governo etc. são os atores e as interações entre eles definem a dinâmica do sistema. 9 De forma semelhante, ABRAMOVITZ (1989) utiliza o termo “capacitação social” para designar os elementos sociais que qualificam, ampliam e limitam o potencial dos países mais atrasados de alcançar os níveis de produtividade verificados nos países líderes. Assim, o conteúdo educacional, as características industriais, comerciais e a organização financeira, bem como a capacidade de adaptação deste arranjo institucional, são alguns dos principais elementos determinantes da capacitação social dos países. Em particular, esta última noção de adaptabilidade aponta para uma interação entre a capacitação social e a existência de oportunidades tecnológicas, o que poderá determinar o potencial do país tecnologicamente atrasado em alcançar os líderes. Mais ainda, se esta capacitação social é considerada endógena, então um país “seguidor” pode tanto ultrapassar o líder, com menor potencial de adaptação, quanto falhar em seu processo de catching up, pelas mesmas razões. Um dos pontos fundamentais da abordagem de Abramovitz é que nela, o potencial de rápido crescimento dos países atrasados esta condicionado à suas capacitações sociais. Desta forma, deve-se considerar que tal potencial de crescimento é alto quando o país é tecnologicamente atrasado, porém, será maior ainda quando, além de tecnologicamente atrasado, o país for socialmente avançado. É preciso, por fim, ter em conta que tal combinação de atraso tecnológico e capacitação social que define o potencial de avanço da produtividade é, principalmente, algo a ser alcançado no longo prazo. Uma rápida comparação entre estes dois conceitos, Sistema de Inovação e Capacitação Social, demonstra que o primeiro está mais conectado a um ambiente inovativo, sustentando a idéia de que as inovações são a chave do desenvolvimento tecnológico, enquanto o segundo evidência mais os condicionantes sociais para a realização do catching up. Contudo, em uma perspectiva evolucionista, deve-se considerar a complexidade que envolve tais conceitos, tanto em relação à imprevisibilidade dos 10 caminhos que o sistema pode seguir e os resultados alcançados, quanto às possibilidades de uma síntese de seu comportamento e dos muitos elementos envolvidos. 1.2.1 – Firmas e Sistema de Inovação Constituindo o elemento central de um Sistema de Inovação, as firmas, tipicamente capitalistas, reagem a incentivos econômicos, ou seja, são giadas pelas possibilidades de lucro ao buscarem e introduzirem inovações. Os incentivos não são os mesmos para todas as firmas. Se ao introduzir uma inovação, seja em produto ou em processo, a firma espera auferir ganhos superiores aos concorrentes, pela redução dos custos e/ou expansão da demanda, as possibilidades da firma se apropriar destes ganhos e a magnitude dos mesmos diferem entre os setores de atividade, quanto ao tamanho das firmas e ao longo do tempo. ROSENBERG (1990) destaca a importância da firma ser capaz de capturar, ao menos em parte, os benefícios gerados no processo de inovação para incorrer em investimentos de longo prazo em pesquisa e desenvolvimento. KLEVORICK et al (1995) argumentam que as condições de apropriação dos benefícios da inovação que a firma enfrenta, e, portanto, a propensão desta a investir em P&D, varia entre as indústrias. Isso traz à tona dois novos pontos. O primeiro é que as novas combinações não surgem espontaneamente. Ou seja, as firmas buscam novas combinações, em grande medida através das atividades de pesquisa e desenvolvimento, a fim de aumentar sua produtividade e seus ganhos. É também verdade que muitas vezes os maiores ganhos, ou as inovações mais importantes, surgem de forma não planejada, não intencional, dentro das atividades da firma, e isso é um dos principais motivos pelos quais as firmas realizam, inclusive, pesquisas básicas (ROSENBERG, 1990). De qualquer forma, a não 11 espontaneidade continua valendo, na medida em que, planejado ou não, o resultado é fruto da ação efetiva da firma e não ocorreria caso esta, capitalista e guiada por lucros, não incorresse nos custos de tais atividades. Segundo Rosenberg, dada a natureza da firma, a condição para haver investimento em P&D é que a parte dos benefícios apropriada pela firma supere os custos da pesquisa. As novas combinações, e portanto o progresso tecnológico, devem ser tomadas como endógenas, uma vez que resultam de ações econômicas. O segundo ponto, é que, dada essa necessidade de apropriação, pelo menos em parte, dos benefícios das pesquisas realizadas e da constatação de diferenças inter-setorias na capacidade de apropriação das firmas (KLEVORICK et al,1995) , cabe investigar quais os elementos determinam essas condições de apropriação e qual o destino dos benefícios gerados e não apropriados pelas firmas. Este trabalho busca entender tal ponto, não obstante a ação do mercado, principalmente através de elementos não inteiramente econômicos como a presença de instituições e da ciência, que serão observados mais de perto nas seções 1.2.3 e 1.3, respectivamente. Existem outros dois aspectos da atuação das firmas que dizem respeito diretamente aos países tecnologicamente atrasados. Em primeiro lugar, as firmas são um forte canal de transferência de tecnologia. Empresas multinacionais, em geral grandes corporações, originárias de países desenvolvidos ao instalarem subsidiárias em países atrasados transmitem, de forma completa ou não, o conhecimento e a técnica necessários para suas atividades via mão de obra, bens de capital, instalação de laboratórios etc2. O fato é que, durante o processo de catching up, os países posicionados mais longe da fronteira tecnológica podem se beneficiar da presença de firmas estrangeiras em seus territórios, 2 SILVA (1999) apresenta um resumo das possibilidades da transferência de tecnologia por este tipo de investimento. 12 bem como da interação destas e das firmas nacionais, para avançar no desenvolvimento tecnológico. Em segundo lugar, como pode ser derivado de ABRAMOVITZ (1989, p.235), estas mesmas firmas multinacionais, que, em um primeiro momento, são fontes de investimento direto além de meios de transferência de tecnologia, ao longo do tempo, podem originar uma reversão do fluxo de investimento como resultado do amadurecimento do investimento passado. Deve-se considerar, portanto, que, no longo prazo, as vantagens da presença de empresas estrangeiras em território nacional são reduzidas, dificultando também a acumulação interna e, desta forma, o processo de catching up, sugerindo que ao longo do tempo, as firmas nacionais devem desenvolver-se, ganhar maturidade tecnológica e eficiência, a fim de fazer frente à competição das grandes empresas multinacionais. Para isso, é preciso considerar mecanismos e ações planejadas de valorização da indústria nacional, construção de um núcleo dinâmico de grandes firmas nacionais, como fonte de crescimento e desenvolvimento interno. Por fim, a firma deve ser vista não apenas como introdutora de novas combinações, mas também como usuária das inovações introduzidas por outras firmas e setores, atuando duplamente no processo inovativo. Do ponto de vista dos indivíduos, é desnecessário dizer que estes é que carregam, de fato, o conhecimento da firma, na medida em que são eles os pesquisadores, engenheiros, trabalhadores, administradores etc. Em última análise, são os indivíduos que idealizam, realizam e aperfeiçoam as novas combinações, dentro ou fora das empresas, bem como organizam e administram estas últimas. (CHANDLER, 1992) Desta forma, apenas parte da capacitação da firma está dada por seus laboratórios, volume de recursos, unidades produtoras, fatia de mercado, ativos tecnológicos (como direito de propriedade de inovações anteriores) e financeiros. A outra parte é devida à capacitação dos indivíduos, a 13 qual CHANDLER (1992) considera essencial para a exploração do potencial do progresso tecnológico da firma. Além do mais, a capacidade da firma de adaptar-se a novas situações e conjunturas para aproveitar as oportunidades tecnológicas que se apresentem é uma função direta da adaptabilidade dos indivíduos na sua composição. Um exemplo da capacidade da adaptação pode ser dado pelo nível de educação que estes indivíduos possuem (ABRAMOVITZ, 1989) 1.2.2 – Incerteza e “Destruição Criadora” Ao longo do processo inovativo, as firmas enfrentam dois momentos distintos em relação à incerteza. O primeiro momento é quando da condução das atividades de pesquisa, cujos resultados futuros são altamente incertos. Neste sentido, não é possível prever mesmo se haverá algum resultado em termos de produto ou de processo. No segundo momento, caso um novo produto, serviço ou processo esteja definido, pronto para ir ao mercado, não há garantias prévias de que este o “aprovará”, nem a curto nem a longo prazo, podendo resultar em perdas para a firma, em função do investimento realizado (ver ROSENBERG, 1990) Ao tratar do processo inovativo, é necessário que se faça uma importante observação quanto ao tipo de incerteza a qual a firma está exposta. Uma inovação é, por definição, um evento novo, para o qual não existe precedente. Neste caso, torna-se altamente complexo, ou mesmo impossível, o cálculo probabilístico, tanto no que se refere à inserção no mercado e, principalmente, quanto aos resultados das pesquisas, ao menos em tempo hábil para evitar prejuízos. A segunda consideração é de que a capacidade para enfrentar as situações adversas da incerteza, seja quanto ao “fôlego” para sustentar longas pesquisas ou a capacidade de 14 resistir às perdas causadas por pesquisas mal sucedidas, seja quanto ao potencial para tornar uma inovação bem sucedida no mercado, não é a mesma para todas as firmas. Neste sentido, o setor de atividade, a experiência acumulada, bem como o tamanho, o padrão de concorrência e o poder de mercado são variáveis importantes. O resultado disso é que o mercado não deve ser visto como um “espaço” regido por forças equivalentes, mas sim, como lugar de assimetrias, onde cada vantagem que a empresa possa apresentar sobre suas concorrentes torna-se decisiva. As duas primeiras considerações levam à terceira. Onde há incerteza, como a que envolve as firmas inovadoras, e assimetrias não se pode esperar que as forças de mercado determinem um equilíbrio, e mais, qualquer tratamento“estático” parece ser inadequado para abordar a economia na presença de agentes inovadores. Desta forma, o conceito de “destruição criadora” , como uma interpretação do papel do mercado, introduzido por SCHUMPETER (1961), e que NELSON (1996) destaca como sendo, virtualmente, a idéia básica das teorias evolucionistas em economia até os dias de hoje, pode dar conta de ilustrar bem o que os agentes enfrentam ao interagirem no mercado e a dinâmica a que estão expostos. Portanto, ao falar de capitalismo, deve-se ter em mente que se trata de um processo evolutivo, cujo elemento fundamental, que dispara e mantêm a dinâmica capitalista, é o surgimento de novos bens de consumo, novos mercados, novas formas de organização e meios de produção que o próprio sistema, incessantemente, cria e destrói. 1.2.3 – Instituições As instituições constituem elemento fundamental dos Sistemas de Inovação. Não é possível compreender corretamente o desenvolvimento moderno fora do alcance da 15 formação e transformação institucional enfrentada pelos países. Essa importância, porém, exige alguns cuidados ao tratar do assunto. Neste sentido, NELSON e SAMPAT (2001) chamam a atenção para o fato de que o termo instituição vem sendo utilizado para designar coisas diferentes, dentro e fora dos estudos econômicos, de acordo com a investigação realizada e propõem uma definição de instituições que seria útil no tratamento de questões econômicas, qual seja, a de “tecnologias sociais”. 3 O conceito de “tecnologias sociais” para definir instituições seria, portanto, análogo ao de tecnologias físicas (definição convencional), com a diferença fundamental de que as primeiras estão associadas a padrões de interação humana, enquanto as últimas associam-se mais fortemente à “engenharia física”. Nelson e Sampat cuidam também de alertar que, segundo sua definição, nem todas as tecnologias sociais podem ser vistas como instituições, mas, apenas aquelas que se tornam uma referência para ações e expectativas, dados seus objetivos e o ambiente em que estão inseridas. E mais, usando termos da abordagem dos custos de transação, as tecnologias sociais institucionalizadas definem custos mais baixos para ações que envolvem interação humana. Por fim, consideram que, por um lado, mudanças institucionais são induzidas em grande parte pela forma como as atividades econômicas são realizadas, mas por outro lado, as tecnologias sociais influenciam fortemente o modo como as tecnologias físicas desenvolvem-se. Assim, propõem uma abordagem de co-evolução para tecnologias físicas e sociais. (NELSON e SAMPAT, 2001) Esta forma geral de tratar as instituições de Nelson e Sampat parece bem próxima à definição de capacitação social utilizada por Abramovitz. Sobretudo, quando este último considera a capacitação social endógena ao processo de desenvolvimento, enquanto os 3 O termo “tecnologia física”, bem como “engenharia física” (mais adiante), empregados neste texto referemse aos conceitos usuais (tradicionais) de tecnologia e engenharia, respectivamente, sem qualquer referência à dimensão social. 16 primeiros defendem a co-evolução de tecnologias sociais institucionalizadas e tecnologias físicas. O tratamento das instituições neste trabalho não exige um nível tão alto de generalidade. Aqui a atenção é concentrada tão somente nas universidades. As universidades, enquanto instituições, desempenham um papel crucial. NELSON (1996) destaca a importância destas como motor do capitalismo moderno, enquanto repositório do conhecimento científico e tecnológico público. Isto traz à tona um ponto que, segundo o próprio Nelson, nem o modelo schumpeteriano, nem trabalhos mais recentes no mesmo nível de abstração, foram capazes de compreender em sua complexidade, qual seja, as inter-relações entre a tecnologia e a ciência4. O argumento de Nelson é de que os departamentos de ciência na academia são importantes para o progresso tecnológico na medida em que treinam cientistas e engenheiros, os quais serão aproveitados na indústria, e pelas pesquisas que realizam, ou seja, pelo conhecimento que geram. (NELSON, 1996) Isto permite, por um lado, reconhecer o papel, quase que exclusivo, das universidades na formação e treinamento de 4 Na verdade, podem ser considerados muitos outros tipos de instituições e seus respectivos papéis dento do Sistema de Inovação, como instituições de crédito e sistema legal, por exemplo. A questão do crédito, ou do sistema financeiro, é importante na medida em que, dados os riscos e o volume de recursos demandados pelas atividades inovativas de pesquisa e desenvolvimento, torna-se necessária uma fonte de financiamento externa à firma, habituada ao risco, para alavancar a condução de tais atividades. Esta necessidade é ainda maior para firmas pequenas, com poucos recursos, ou atuando em setores tecnológicos de fronteira, onde a incerteza é mais acentuada. Mesmo para países seguidores, que enfrentam uma trajetória tecnológica (DOSI, 1984) já definida a questão do crédito é importante, na medida em que a acumulação de capital das firmas é relativamente menor e as condições macroeconômicas menos estáveis. Desta forma, as condições de crédito são relevantes tanto no caso de países em catching up (ver GERSCHENKRO, 1962 e ZYSMAN, 1983), quanto dentro dos países líderes. O sistema de leis em um país, bem como sua conformação ao Direito Internacional, são pontos igualmente importantes. Do ponto de vista dos incentivos a inovar, a perspectiva do monopólio da inovação introduzida é que dá à firma a motivação necessária, em termos de ganhos econômicos, para incorrer nos custos de tal inovação. A existência de um aparato legal, que garanta os direitos de propriedade da inovação, bem como a sua adequação a acordos firmados internacionalmente é, portanto, fundamental. Um outro aspecto essencial do sistema legal é que este não deve, contudo, garantir indefinidamente o monopólio sobre qualquer inovação, sob pena de bloquear o processo de difusão e, como isso, amortecer, ou mesmo deter, o desenvolvimento. Os limites dessa garantia devem atentar para a necessidade de conjugar os incentivos a inovar e o processo de difusão, que em si também é um incentivo, a fim de obter os melhores resultados possíveis em termos de crescimento e desenvolvimento. Além disso, é bom lembrar que, tanto a inovação quanto a difusão são indispensáveis ao processo de catching up, exigindo, dessa forma, que a combinação entre a legislação interna e os acordos comerciais, financeiros e tecnológicos internacionais obedeçam a uma estratégia de desenvolvimento de logo prazo, dos países atrasados. 17 mão-de-obra altamente qualificada. Por outro lado, porém, permite reconhecer a produção do conhecimento, o avanço cientifico, como peça chave para o progresso técnico e, é claro, a posição privilegiada das universidades neste sentido, embora não exclusiva. Contudo, é importante deixar claro que a relação entre universidades e o Sistema de Inovação envolve mais que as funções de treinamento e produção de conhecimento, embora estas sejam de suma importância. Na abordagem das capacitações sociais, as universidades são elemento fundamental na determinação da adaptabilidade e do aproveitamento das oportunidades tecnológicas nas sociedades, em virtude, inclusive, dos impactos culturais que possam gerar. Neste caso, todo o sistema tende a ser afetado. Além do mais, o sistema educacional como um todo tende a ser refletido nas universidades. Isto significa que uma sociedade mais educada, logo melhor preparada, representa maior demanda para as universidades, ao mesmo tempo em que exige delas melhorias qualitativas nos serviços oferecidos. O resultado desta combinação é um sistema educacional permanentemente ampliado e em evolução, cujos efeitos transbordam para toda sociedade. Deve-se dizer também, que outras instituições e centros de pesquisa, mesmo laboratórios de empresas, exercem em alguma medida as funções de treinamento e produção do conhecimento tal como as universidades, podendo muitas vezes serem tratados de forma equivalente, pelo menos no que diz respeito a estes dois pontos. Finalmente, cabe lembrar sobre as instituições, que os processo de catching up, sobretudo os bem sucedidos, exigiram, e exigem, uma efetiva capacidade de transformação e modernização das instituições em geral, nos países atrasados. Assim, a mudança institucional recebe igual destaque no processo de desenvolvimento. 18 1.2.4 – Tamanho e interações dos elementos É esperado que qualquer país apresente os elementos constitutivos dos Sistemas de Inovação, ou pelo menos alguns fragmentos deles. Contudo, faz-se necessário observar que isto apenas por si não basta. Estudos de caso de países que realizaram com sucesso o processo de catching up pós Segunda Guerra, como Alemanha (KECK, 1993; FREEMAN e SOETE, 1997) e Japão (ODAGIRI e GOTO, 1993), ou mais recentemente, Coréia do Sul (KIM, 1993) e Taiwan (HOU e GEE 1993) apresentam evidências de que tais elementos constitutivos foram ampliados, quando existiam de forma precária, ou criados e ampliados, quando não existiam. E mais, a articulação e interação entre eles foi fator decisivo. Portanto, é possível pensar que o desenvolvimento de um Sistema de Inovação requer não apenas que seus elementos alcancem um certo nível, que será peculiar a cada país, mas também que estes interajam a fim de promover o crescimento e desenvolvimento da economia como um todo. 1.3 – Interação entre ciência e tecnologia Até agora a ciência vem sendo abordada de forma indireta, via outros aspectos do processo de desenvolvimento. Esta seção é dedicada a tratar diretamente a ciência em dois pontos específicos: o sentido da causalidade em relação à tecnologia e às possibilidades da sua utilização como variável de escolha para impulsionar o processo de catching up. 1.3.1 – Interação e causalidade Enquanto as novas combinações, corporificadas nas novas tecnologias, contribuem direta e indiretamente para o crescimento, não menos importante é a contribuição do conhecimento para as novas tecnologias. A esse respeito, uma distinção deve ser feita. O 19 estoque de conhecimento disponível, em qualquer momento, a ser usado em novas combinações, provém de duas fontes principais. A primeira delas consiste na própria realização destas combinações. Tendo sido criadas, as novas tecnologias, mesmo que não encontrem aplicação direta e imediata na obtenção de ganhos econômicos, passam a fazer parte do estoque existente do “como fazer” e podem, em qualquer momento, dar origem a inovações que poderão ser imediatamente utilizadas como fontes de crescimento. Em segundo lugar, os avanços no conhecimento científico também apresentam grandes contribuições na ampliação do estoque de conhecimento. Todas as pesquisas realizadas, orientadas pela busca do conhecimento, mesmo que não visem atender a interesses econômicos, pelo simples fato de disponibilizar e agregar novos conhecimentos, podem servir, em algum momento, de insumo para a realização de novas combinações, encontrando um fim econômico. Desta forma, as causas do progresso tecnológico podem ser resumidas em dois pontos principais. De um lado, as próprias inovações acabam gerando outras inovações. Por outro, o desenvolvimento da ciência também contribui para o surgimento de novas tecnologias. Se o interesse está em determinar numa relação causal para o progresso tecnológico, qual destas duas fontes deve ser considerada como tendo maior importância no processo? A resposta é controversa. Seguindo a argumentação de ROSENBERG (1982), pode-se demonstrar que o avanço científico é precedido, muitas vezes, pelo progresso tecnológico. Por meio de uma série de exemplos históricos, Rosenberg demonstra como desde a revolução industrial, as novas tecnologias vêm contribuindo no sentido de estimular o avanço na ciência. Rosenberg enfatiza como o progresso tecnológico, ao acontecer, impulsiona as pesquisas científicas, seja propondo novas questões a serem explicadas e novos conhecimentos a serem sistematizados, seja pela introdução de novos materiais e instrumentos através dos 20 quais, novas e mais complexas linhas de pesquisas podem ser iniciadas, bem como o avanço em pesquisas antigas. Por isso, Rosenberg afirma que a ciência é, até certo ponto, endógena. Complementarmente, investigando o sentido de causalidade oposto, KLEVORICK et al. (1995) argumentam em favor das contribuições da ciência para o progresso tecnológico. O argumento passa pela consideração das oportunidades tecnológicas criadas pela pesquisa científica, e que devem ser aproveitadas pelos setores industriais para criação e utilização de novas tecnologias. As indústrias estariam, portanto, atentas aos avanços alcançados nas diversas áreas do conhecimento científico, a fim de aproveitar estas oportunidades. De fato, o aumento no entendimento científico é apenas umas das três fontes de oportunidades tecnológicas abordadas por Klevorick e seus colegas. As outras duas são as inovações introduzidas em outras indústrias e os feedbacks da própria tecnologia. Estas últimas fontes de oportunidade estão mais relacionadas aos argumentos apresentados por Rosenberg. Contudo, o trabalho de Klevorick e colaboradores permite, por um lado, reafirmar a interação existente entre ciência e tecnologia, principalmente da primeira em gerar oportunidades para alcançar a segunda, e por outro, fazer uma observação de que são os setores industriais mais dinâmicos que acompanham de forma mais intensa as atividades científicas. Investigando também a ciência como fonte de progresso tecnológico, NARIN, HAMILTON e OLIVASTRO (1997) destacam o importante papel desempenhado pelas universidades e instituições de pesquisa, financiadas com recursos públicos, para o desenvolvimento da tecnologia industrial. Um exemplo que resume bem o argumento é quando estes autores mostram a relevância da ciência, sobretudo da ciência pública, para as atividades tecnológicas da IBM. A Empresa, além de ter um grande número de publicações 21 científicas, resultado de uma intensa atividade de pesquisa e desenvolvimento, cita em suas patentes publicações originadas em universidades Americanas e estrangeiras, além das suas próprias. Isto pode ser considerado também como evidência do crescimento do conteúdo cientifico presente nas novas tecnologias. De forma mais direta, é possível dizer que a produção do conhecimento científico gera também um aumento na produtividade do trabalho, colaborando assim, para melhorar o desempenho econômico, em especial dos setores industriais. De fato, o treinamento cientifico, seja em universidades, como foi mencionado anteriormente, seja em centros de pesquisa ou laboratórios industriais, é capaz de gerar trabalhadores mais habilidosos na execução de tarefas mais complexas, preparar mão de obra para laboratórios de P&D industrial, bem como a capacidade de adaptação em novas funções e a absorção de novos conhecimentos para a realização de funções antes não existentes. Neste sentido, PAVITT (1991) destaca a importância da pesquisa acadêmica no treinamento profissional a ser utilizado em atividades de pesquisa mais aplicada na indústria, constituindo, portanto, um dos motivos pelos quais a pesquisa básica, e com ela a ciência, é economicamente útil. Essa utilidade econômica da ciência também é abordada por ROSENBERG (1990) quando este investiga os motivos que levam a firma, tipicamente capitalista, a utilizar recursos próprios na condução de pesquisa básica. Um dos principais motivos são os retornos inesperados das pesquisas em termos de inovações rentáveis. Além disso, para Rosenberg, a pesquisa deve ser vista como um investimento, fundamentalmente, de longo prazo. Obviamente, à medida em que este tipo de investimento vai se realizando, a firma acumula recursos com os quais poderá iniciar e/ou continuar suas pesquisas. Mas qual afinal é o sentido da causalidade? Este trabalho assume que o relevante é a forma pela qual estes dois elementos interagem e os resultados que esta interação pode gerar em termos de crescimento econômico. ROSENBERG (1982) conclui seu trabalho 22 sugerindo que a relação entre ciência e tecnologia é interativa e dialética. Em reforço a este argumento, RAPINI (2000) demonstra, por testes estatístico-econométricos que existe uma relação de causalidade, no sentido proposto por Granger, mútua entre ciência e tecnologia, pelo menos para países que realizaram o processo de catching up (Coréia do Sul e Taiwan). Neste caso, mútua determinação seria a resposta. 1.3.2 – Focalizando a ciência Se interação e mútua determinação, por um lado, definem de forma satisfatória a relação entre ciência e tecnologia, por outro lado, apresentam uma nova questão a ser respondida. Assim, uma vez que valem as interações, as dimensões científica e tecnológica devem ser trabalhadas de forma articulada. O que dá início a tais interações, sobretudo nos países tecnologicamente atrasados? Esta dissertação focaliza a ciência como objeto, analisando o sentido de causalidade desta última para a tecnologia, enquanto esta seção apresenta alguns argumentos para tal escolha. Em primeiro lugar, usando as colocações de PAVITT (1991) quanto à utilidade econômica da ciência, deve-se destacar que os benefícios gerados pelas atividades científicas são distribuídos por toda esfera econômica e, por que não dizer, social. Logo, não é apenas o setor tecnológico que é favorecido pelos avanços no conhecimento. Do ponto de vista econômico, além dos efeitos de treinamento, as atividades científicas resultam em uma força de trabalho, de forma geral, mais habilidosa e produtiva, capaz de utilizar melhor tanto tecnologias mais antigas quanto as mais modernas e com uma maior capacidade de adaptação. Socialmente, contribui para a formação da capacitação social do país, com ganhos, desde melhoramentos nas condições de vida até temas culturais, o que poderá resultar em retornos para a própria tecnologia. 23 Em segundo lugar, e em decorrência do primeiro argumento, deve ser considerada a questão do financiamento da atividade científica. Sobre isso, ROSENBERG (1990) destaca o fato de que nem todos o benefícios gerados pela pesquisa básica podem ser apropriados pela firma, mas apenas uma parte deles. Somado a temas como incerteza e disponibilidade de recursos próprios, esta característica da atividade científica levaria, em caso da ação exclusiva da firma, a um investimento subótimo nesta atividade, reclamando assim, que a maior parte deste financiamento seja provido pelo setor publico, sobretudo dentro das universidades. (ARROW, 1962) Isto é importante uma vez que dá amplas possibilidades de planejamento econômico às autoridades governamentais, transformando, por vezes, os investimentos em ciência em política industrial. Ou seja, o investimento em ciência pode ser usado pelo poder público para favorecer um setor ou região, na medida em que privilegia uma ou mais disciplinas relevantes para atividades industriais estratégicas. Em terceiro lugar, a ciência desempenha um papel fundamental nos países tecnologicamente atrasados. A prática científica atua como elemento de capitação dos avanços científicos e tecnológicos realizados nos países líderes. Na verdade, a própria importação de tecnologia demanda habilidade para seu entendimento e uso. Indo mais além, os processos de catching up citados na seção 1.2.4 são recheados de exemplos de engenharia reversa realizada sobre máquinas, produtos e processo provenientes de países da fronteira tecnológica. A formação e capacitação de profissionais capazes de realizar tal tarefa são, portanto, cruciais. Mais que isso, esta formação deve ser feita de acordo com o nível da tecnologia transferida, necessitando, desta forma, que o desenvolvimento científico interno esteja minimamente conectado ao que é feito na fronteira do conhecimento. Em quarto lugar, já utilizando a base científica com variável de foco, BERNARDES e ALBUQUERQUE (2003) estimam um modelo econométrico, utilizando 24 duas equações lineares para ajustar os logaritmos de artigos por milhão de habitantes e patentes por milhão de habitantes5. Neste modelo, os países tecnologicamente menos avançados apresentaram uma menor eficiência na transformação de ciência (medida pelo logaritmo de artigos por milhão de habitantes), em tecnologia (medida pelo logaritmo de patentes por milhão de habitantes), que os países ditos de fronteira tecnológica. Tal modelo é usado para defender a existência de um “limiar” de produção científica que determina a passagem de uma categoria para outra, como pode ser visto na FIGURA 1.1. O “limiar” é definido, portanto, na interseção das duas retas que ajustam o log de artigos e patentes para os dois grupos de países. FIGURA 1.1 A* x P* * Artigos por milhão de habitantes (A ) x patentes por milhão de habitantes (P*) em 1998. Dois subconjuntos são representados por diferentes símbolos e duas funções potência ajustam os subconjuntos. (em escala logarítmica) Fonte: BERNARDES e ALBUQUERQUE (2003) Esta distinção entre países tecnologicamente menos avançados e de países na fronteira tecnológica pode ser tomada como uma referência ao esquema de estágio das interações entre ciência, tecnologia e crescimento econômico, proposto pelos autores, de 5 Na verdade, o modelo estimado por BERNARDES e ALBUQUERQUE não é linear, dado fato de utilizar o logaritmo das variáveis – trata-se de um modelo log-log – o que por sua vez estabelece uma função potência para a relação entre ciência e tecnologia. 25 acordo com a Figura 1.2. O “Regime I”, onde os países apresentam valores nulos em patentes e/ou artigos, é característico de um estágio de interações inferior, onde o crescimento econômico depende, sobremaneira, de outros fatores, que não basicamente ciência e tecnologia. Neste caso, apenas a ciência apresentaria alguma contribuição direta para o crescimento. FIGURA 1.2 Esquema de Regimes de Interação REGIME I Outros Produção Científica Produção Tecnológica CRESCIMENTO REGIME II Outros Produção Científica Produção Tecnológica CRESCIMENTO REGIME III Outros Produção Científica Produção Tecnológica CRESCIMENTO Elaboração dos autores Fonte: BERNARDES, A. T.; ALBUQUERQUE, E. (2003) O “Regime II”, onde artigos e patentes são positivos, porém estão abaixo do limiar, representa Sistemas de Inovação imaturos, onde já é possível identificar as contribuições da ciência para a tecnologia e crescimento, e da tecnologia para o crescimento, porém, não 26 existem ainda feedbacks atuando no sentido de ampliar as contribuições dos elementos, uns para com os outros. Os demais componentes do sistema, embora tenham diminuído sua contribuição direta, permanecem com grande peso no crescimento. O caso dos sistemas de inovação mais desenvolvidos (sistemas maduros) é caracterizado pelo “Regime III”. Assim, outros fatores que não ciência e tecnologia tem a menor importância relativa em comparação com os dois regimes anteriores. As interações e feedbacks estão atuando em todas a direções, conferindo ao sistema maior sustentabilidade no processo de crescimento. 1.4 – Evidências estatísticas sobre limiares de produção científica O objetivo desta seção é tão somente apresentar alguma evidência da validade da hipótese de “limiares” de produção científica. Neste sentido, são utilizadas aqui técnicas estatísticas (analise de cluster) que só serão apresentadas com maior detalhe no Capítulo 2. Desta forma, o leitor é solicitado a considerar aqui apenas os resultados obtidos deixando a técnica para as paginas seguintes. Outra observação é quanto à base de dados utilizada nesta seção. Embora sejam originadas das mesmas fontes que as empregadas no Capítulo 2, os dados desta seção e do próximo capítulo não são os mesmos. Aqui procurou-se fazer uso de dados tão próximos quanto possível dos utilizados por BERNARDES e ALBUQUERQUE. Assim, dada a hipótese de diferentes estágios de desenvolvimento entre os países de acordo com suas infra-estruturas científica, tecnológica e o seu nível de renda, cabe mostrar, de uma forma mais direta, a validade de tal suposto. Neste sentido, utiliza-se nesta seção de três bases de dados principais. Para mensurar a infra-estrutura científica, é utilizado o número de artigos nas disciplinas exatas e naturais publicados pelos países e 27 constantes no Science Citation Index do Institute for Scientific Information (SCI-ISI), como proxy da produção científica. A infra-estrutura tecnológica é abordada através do número de patentes registradas no United States Patent and Trademark Office (USPTO), como proxy da produção tecnológica. As informações sobre renda per capita (a dólares de 1995) são fornecidos pelo Banco Mundial. Desta forma, conta-se com dados para 135 países em 1998, os quais apresentaram pelo menos um artigo e/ou uma patente, além de dados disponíveis sobre renda e população, nas referidas bases de dados. Eis aqui uma outra diferença quanto a análise implementada no próximo capítulo, qual seja, a utilização de informações sobre renda per capita. Dado que nesta seção trabalha-se com apenas um ponto no tempo, foi possível considerar a utilização da renda dentro da análise. Este não é o caso no Capítulo 2, onde a consideração de mais de um ano não permitiu a obtenção de informações consistentes para todos os países em estudo. Os países que apresentaram zero artigos ou zero patentes foram classificados dentro do estágio de desenvolvimento I, como esquematizado na Figura 1.2. De fato, a ausência de artigos ou patentes revela a precariedade das infra-estruturas científica e/ou tecnológica, privando o sistema das interações entre estas duas dimensões, tão importantes para o crescimento e desenvolvimento da economia moderna. A fase seguinte da análise consiste em, usando renda per capita, artigos e patetes, por milhão de habitantes, agrupar os 86 países remanescentes em 1998 em clusters hierárquicos. A Figura 1.3 mostra o dendograma resultante. 28 FIGURA 1.3 Dendograma para 1998, usando Artigos por milhão de habitantes, patentes por milhão de habitantes e renda per capita. Fonte: ISI (2000); USPTO (2000); Banco Mundial (2000) – elaboração própria. 29 A partir deste ponto, os resultados desta análise são usados para classificar os países dentro do esquema apresentado por BERNARDES e ALBUQUERQUE (2003). Os países que apresentaram zero artigos ou zero patentes são tomados como característicos do Regime I, tal como é feito no trabalho original. A proposta agora é classificar os demais países segundo aquele esquema. Tendo verificado a existência de grandes clusters de indicadores com níveis mais baixos, e considerando a distância entre as médias destes grandes grupos e dos clusters mais próximos, os elementos dos maiores conjuntos são tomados como pertencentes ao Regime II, onde já existem interações entre as dimensões científica e tecnológica. Os demais países, fora do primeiro grande cluster, são atribuídos ao Regime III, de interações mais fortes e em todos os sentidos. Para investigar e testar as relações entre a infra-estrutura científica e tecnológica, BERNARDES e ALBUQUERQUE estimam um modelo econométrico simplificado como o apresentado na equação 1.1. A proposta é ressaltar a não linearidade dessas relações e permitir alguma comparação entre países pertencentes ao Regime II e Regime III, utilizando a forma logarítmica da equação 1.1 como apresentado em 1.2: β1 (1.1) Onde P é o número de patentes por milhão de habitantes, A é o total de artigos por * P * = β 0 A* e u * milhão de habitantes e u é o termo de erro estocástico. Em sua forma logarítmica, o modelo fica como segue: Sendo ~ ~ P = ln( P * ) , A = ln( A * ) ~ ~ P = γ 0 + β1 A + v (1.2) e v o erro estocástico. Neste ponto, há uma consideração a ser feita sobre o trabalho de BERNARDES e ALBUQUERQUE (2003). Embora apresentem um procedimento mais sistemático para classificar os países que compõem o Regime I, definindo seus elementos como aqueles com valores nulos para patentes, a subdivisão entre os Regimes II e III requer maior 30 clareza, a fim de orientar mais seguramente, e em qualquer período, a classificação dos países entre os Regimes. Faz-se aqui uma tentativa de contribuir neste sentido, sugerindo como procedimento para a estimação do modelo 1.2 a utilização dos resultados herdados da analise de cluster, como meio de classificar os países. Desta forma, ao mesmo tempo em que a análise precedente fornece um método sistemático e mais seguro de agrupar os países dentro dos Regimes de desenvolvimento, permite que a estimação capture também a dimensão da renda, uma vez que esta compõe o conjunto de variáveis utilizadas na determinação daqueles clusters.6 Sugere-se também, em substituição do modelo 1.2, a estimação do modelo 1.3, com variáveis dummies. Assim, é possível, em um único passo, estimar as elasticidades para os dois grupos de países, além de obter um valor estimado para o “limiar’ como resultados do próprio modelo. Nestes termos, o modelo 1.3 é definido como: ~ ~ ~ P = α 0 + α 1 A + α 2 D + α 3 DA + w (1.3) Onde D representa uma variável dummy que assume valor 0 para países pertencentes ao Regime II e valor 1 para países pertencentes ao Regime III. O “limiar” pode então ser calculado como a interseção entre as retas ajustadas para o Regime II e III. Assim, o sistema S1, derivado do modelo 1.3, apresenta tais equações, enquanto a sua solução permite conhecer o valor estimado para o “limiar”. ~ ~ P II = α 0 + α 1 AII ~ ~ PIII = (α 0 + α 2 ) + (α 1 + α 3 ) AIII (S1) A Figura 1.4 apresenta os pontos ln(P*) x ln(A*) para 1998, enquanto o Quadro 1.1 mostra os resultados da estimação do modelo 1.3. 6 Aqui a renda per capita dos países entram na análise devido ao fato desta ter sido realizada apenas para o ano de 1998, possibilitado assim o uso da mesma fonte de dados para todos os países, o que não foi possível para a análise feita no Capítulo 2. 31 FIGURA 1.4 ln(P*) x ln(A*) para 1998 Fonte: ISI (2000); USPTO (2000); Banco Mundial (2000) – elaboração própria. QUADRO 1.1 Resultados da estimação do modelo 2 Modelo A2 2 1 R ajustado Observações α0 2 α1 α2 α3 0,8519 86 (163,92) -3,5592 (-9,29) 0,7486 (6,93) -6,4878 (-2,48) 1,3784 (3,40) Fonte: ISI (2000); USPTO (2000); Banco Mundial (2000) – elaboração própria. Notas: 1) Estatística F entre parênteses. 2) Estatística t entre parênteses. Pode-se observar a significância estatística, em nível de 5%, para todos os coeficientes estimados, além do alto valor para o R2 ajustado. Desta forma, em comparação com o trabalho de BERNARDES e ALBUQUERQUE (2003), os resultados são bastante satisfatórios. No citado artigo, os Autores encontraram uma elasticidade de 0,76 para o Regime II, enquanto aqui ela é de 0,74, e de 2,39 para o Regime III, enquanto aqui ela é de 32 2,127. Isto, antes de tudo, reafirma a validade das propostas desses Autores, tendo em vista a significância dos parâmetros estimados segundo modelo 1.3. Por outro lado, corrobora o método de classificação dos países sugerida, uma vez que esta levou a resultados muito próximos aos encontrados por BERNARDES e ALBUQUERQUE. A maior divergência entre estes resultados e os obtidos por estes autores é quanto ao valor do limiar de produção científica. Resolvendo o sistema S1, ou seja, separando as α2 , α3 equações para os dois grupos de países, II e III, através da expressão AL* = exp − chega-se a um valor de 110,69 artigos por milhão de habitantes para o “limiar”, enquanto BERNARDES e ALBUQUERQUE (2003) apresentam o valor de 150 artigos (pmh), para 1998. Isto, de fato, decorre da diferença entre as elasticidades estimadas. Tem sido considerado até aqui que o modelo 1.3, com países separados por dummies em dois grupos, é a melhor representação que se pode fazer das relações entre os logs de artigos e logs de patentes. No entanto, é necessário considerar a possibilidade de que tal hipótese não se sustente. Para avaliar esta possibilidade, é realizado um teste J de Davidson-MacKinnon (GREENE, 2000) para o modelo 1.3 e duas outras formas funcionais alternativas, quais sejam, o modelo 1.2 para o total das observações em 1998 e o modelo 1.4, como segue8: ~ ~ P = δ 0 + δ1 A 2 + ε (1.4) O Quadro 1.2 resume os resultados para o teste. Nas linhas estão os modelos sob a hipótese nula de que são, de fato, melhores que os modelos nas colunas sob a hipótese alternativa. Os p-valores da estatística J são dados no conteúdo do quadro. Desta forma, rejeita-se a hipótese de que o modelo 1.2 seja mais adequado que o modelo 1.4, mas não é rejeitada a de que o modelo 1.4 seja mais adequado que o modelo 1.2. Por sua vez, a 7 Este valor representa a soma dos coeficientes α1 e α3 estimados. Na verdade, o teste J é um teste assintótico, ou seja, é válido para grandes amostras. No entanto, se não se conta com um número grande de observações, também não se deve considerá-lo desprezível. 8 33 hipótese favorável ao modelo 1.3 não é rejeitada, enquanto rejeita-se o modelo 1.4 como contendo os verdadeiros regressores para P*. QUADRO 1.2 p-valor para o teste J com a hipótese de melhor modelo sob H0 Sob H0 Modelo 1.2 Modelo 1.3 Modelo 1.4 Modelo 1.2 0,3106 Sob H1 Modelo 1.3 0,00 Modelo 1.4 0,00 0,8645 - Fonte: Elaboração própria. Não obstante as vantagens do modelo 1.3, que prevê a existência de um limiar, reveladas pelo teste J, realiza-se também o teste de Jarque-Bera sob a hipótese nula de normalidade dos resíduos deste modelo, e como esta não foi negada, dado p-valor de 0,691, testa-se a existência de heterocedasticidade, através do teste de Breusch-Pagan que retornou um p-valor de 0,4231, apontando para a não rejeição da hipótese de homocedasticidade, levando a reconhecer a adequação do modelo 1.3 aos dados amostrais. Estes resultados levam a defender com maior segurança a hipótese de um limiar de produção científica decorrente da estimação do modelo 1.3, em conformidade com os argumentos teóricos presentes em BERNARDES e ALBUQUERQUE (2003). 1.5 – Proposta para investigação É preciso, antes de qualquer coisa, deixar claro que outros elementos relacionados ao desenvolvimento das sociedades, como diversos aspectos das atividades econômicas, do bem estar e a ampliação das liberdades (SEN, 2000), para os quais as dimensões científica 34 e tecnológica contribuem e dos quais recebem contribuição, não são ignorados. Considerando o desenvolvimento pela ótica das capacidades humanas, por exemplo, como é feito no Human Development Report (UNDP, 2001), o progresso tecnológico, bem como o crescimento econômico, constituem um meio para alcançar boa qualidade de vida, saúde, vida criativa e participativa, tal como esquematizado na Figura 1.3, onde mesmo ai, valem interações e feedbacks entre as dimensões envolvidas. Este trabalho, porém, tem um caráter mais modesto e deve concentrar-se em pontos mais específicos. FIGURA 1.5 Esquema para construção de capacidades humanas Fonte: UNDP (2001) O modelo proposto por BERNARDES e ALBUQUERQUE (2003) sugere considerações quanto à adoção de duas equações lineares (em relação ao logaritmo das variáveis) distintas para cada grupo de países. Ou seja, por que não utilizar uma única curva linear, ou mesmo uma curva não linear, para ajustar os dados? Qual o grau de confiança que se pode ter na melhor adequação do modelo proposto vis a vis outras formas funcionais? Escolher uma outra forma funcional para ajustar os dados acarreta sérias diferenças, inclusive teóricas, no modelo proposto. 35 O ajuste de uma única curva linear ou de uma curva quadrática, por exemplo, estaria sugerindo que todos os países estão inseridos em um mesmo processo de desenvolvimento, e que na medida em que é acumulada a produção científica, os países mais atrasados se aproximariam dos mais adiantados. No caso de uma curva linear ser ajustada, não haveria maiores desdobramentos que este. Contudo, uma curva quadrática, e de inclinação positiva, apontaria para o fato de que os retornos em termos de tecnologia do aumento na produção científica são crescentes ao longo do processo. Neste caso, os países menos adiantados aproximar-se-iam mais rapidamente dos países “líderes” a cada aumento da produção científica (ponderada pela população). Adotar porém, curvas diferentes, com inclinações diferentes, sugere a existência de uma quebra estrutural, uma mudança qualitativa no processo de desenvolvimento tecnológico gerada pela ampliação da base científica. Neste sentido, a seção precedente demonstrou a existência de vantagens na adoção de duas curvas com diferentes inclinações para modelar a relação entre ciência e tecnologia. De fato, os testes demonstraram que uma curva quadrática produz um melhor ajuste dos dados em comparação com uma única curva linear. Por sua vez, a adoção de duas curvas lineares, dois ajustes, mostrou-se mais adequado que a utilização de uma única função quadrática. Os resultados econométricos apresentados na seção 1.4 retornam um limiar de 110,69 artigos por milhão de habitantes para 1998, enquanto a estimação feita por BERNARDES e ALBUQUERQUE chegou a um limiar de 150 artigos por milhão de habitantes. Contudo, as divergências de valores são menos importantes. Neste ponto do trabalho, é a não rejeição da hipótese de um limiar de produção científica que merece destaque. No mais, faz-se necessário notar que, enquanto países como Coréia do Sul e fazem parte do grupo de países pertencentes ao Regime de interações III em 1998, ou seja, estão 36 acima do limiar, como a Figura 1.3 demonstra, países como o Brasil, que nas décadas de 1960 e 1970 era considerado mais desenvolvido que o primeiro (DOSI, FREEMAN e FABIANI, 1994), permanecem no grupo de interações mais fracas correspondentes ao Regime II, no ano de análise. Assim, são as relações entre ciência e tecnologia, considerando fatos como os descritos acima, que constituem os foco da investigação deste trabalho. 37 Capitulo 2 – Análise de cluster: classificando países em Regimes de interação Neste capítulo propõe-se um conjunto de procedimentos que permitam uma análise objetiva das interações entre ciência e tecnologia, em especial no que diz respeito às diferenças entre os países que compõem a base de dados em análise, a partir de estatísticas de artigos e patentes. É inevitável, portanto, incorrer em algum tipo de simplificação na busca de uma forma, tão simples quanto possível, de sumarizar os sistemas de inovação em seus aspectos relevantes, com vistas a contribuir para o entendimento sistemático de seu funcionamento. Neste sentido, as hipóteses lançadas aqui, se aceitas, permitirão, adiante, a classificação dos sistemas de inovação segundo o estágio de desenvolvimento alcançado pelas interações entre ciência e tecnologia. 2.1 – Das Hipóteses Afirmar a necessidade de trabalhar com aspectos importantes dos sistemas de inovação é, por si, uma simplificação que sugere cuidado. Em primeiro lugar, por se tratar de um sistema, onde as relações apresentam feedbacks mútuos, as interações assumem, tanto quanto os elementos, papel fundamental no processo de crescimento e desenvolvimento, dificultando a escolha dos pontos considerados como mais importantes. Segundo, uma vez que se apresenta inevitável tal escolha, – dado o objetivo geral deste trabalho – esta deve privilegiar os aspectos que atendam a critérios de ordem teórica, no sentido de reduzir ao máximo a perda de informação e representar minimamente os elementos dos sistemas, e de ordem prática, viabilizando a mensuração em torno destes elementos. 38 A dimensão científica manifesta não apenas os avanços realizados no âmbito do conhecimento sistematizado, produzido em centros de pesquisas e universidades. Ao desenvolvimento da base científica, devem-se associar todos os fatores que o impulsionam e os que dele resultam (muitos dos quais podem ser tanto uma coisa quanto outra). Desta forma, a presença de um sistema educacional abrangente, – retratando em alguma medida pontos como igualdade de condições (renda e riqueza), democracia etc. – existência de universidades, centros de pesquisa, laboratórios de empresas, bem como a colaboração e interação entre eles, constituem alguns dos fatores que se podem encontrar na base da infra-estrutura científica. Por outro ângulo, uma força de trabalho mais habilidosa e de maior produtividade, como demonstra PAVITT (1991), pode ser apontada como resultado do tamanho e do desenvolvimento da base científica, compondo um dos fatores que tornam a pesquisa básica economicamente útil. Mais além, aspectos como a capacidade de absorção de conhecimento produzido fora das fronteiras nacionais dependem diretamente da capacitação científica no quadro interno. Tal capacitação científica (especialmente em ciência básica), como propõem DOSI, FREEMAN e FABIANI (1994), tendem a estar associadas a processos de forging ahead e com liderança em novas tecnologias. Outros elementos importantes, como a especialização científica, a divisão do trabalho científico e a distribuição setorial das atividades científicas, inicialmente não perceptíveis quando da utilização de um conceito tão geral, podem ser considerados presentes se for aceito que o resultado destes pode ser expresso por uma dimensão científica mais desenvolvida. A dimensão tecnológica deve ser entendida a partir do campo dos fatores relacionados com o conhecimento prático, sistematizado ou não, manifesto em objetos e processos, muitas vezes combinados entre si, e aplicáveis a qualquer momento, ao 39 cotidiano de indivíduos, empresas e instituições. A forma de organização destes fatores dentro de um ambiente propício a criação e utilização de novas combinações, ou inovações, é que constitui a dimensão tecnológica de um sistema. Referir-se a esta dimensão, portanto, significa considerar desde a condução de pesquisas aplicadas à disponibilidade de recursos financeiros que viabilizem a busca e a incorporação de inovações sob condições de incerteza. Neste ponto, cabe reconhecer a interdependência entre as dimensões tecnológica e científica, no sentido de que, muitas vezes, as novas combinações surgem como um resultado inesperado da condução de pesquisas básicas desenvolvidas tanto em laboratórios de empresas quanto em espaços tipicamente de produção de conhecimento puro. Na outra mão, os campos do conhecimento têm se beneficiado ao longo do tempo dos melhoramentos e inovações em termos de instrumentos e processos, bem como novas disciplinas têm surgido a partir de pesquisas básicas, como argumenta ROSENBERG (1982). É preciso considerar que a interdependência destas duas dimensões (científica e tecnológica) é evidente e constitui um terceiro elemento de análise. As interações entre os diversos elementos constitutivos dos sistemas de inovação são, como dito anteriormente, a fonte de sua evolução e não são anuladas pelas simplificações propostas. Ao contrário, as dimensões destacadas não podem ser entendidas plenamente fora de um contexto de coevolução. Mesmo quando essas interações estiverem fracas, ou inexistirem, isto estará refletido no estágio de desenvolvimento de cada uma destas dimensões, se não em termos absolutos, pelo menos no potencial de desenvolvimento não explorado. Por fim, se estas simplificações puderem ser aceitas como um recurso de análise, sem grande perda de generalidade, dada a forma como foram definidas, então o próximo passo consiste em encontrar os recursos que permitam mensurar, de forma coerente, estes elementos. Ou seja, faz-se necessário utilizar indicadores capazes de preservar 40 minimamente as características de cada dimensão, compondo o instrumento através do qual estas serão observadas. 2.2 – Dos Indicadores Vários indicadores têm sido empregados na mensuração das atividades inovativas em ciência e tecnologia. Dentre os mais utilizados, citam-se desde as despesas com P&D, patentes e artigos científicos até balanços de pagamento tecnológico e pareceres de técnicos especializados. PATEL & PAVITT (1995), observam que, dadas as limitações destes indicadores, eles poderão apresentar maior qualidade de aferição quando combinados entre si. Em vista da necessidade de mensurar as dimensões científica e tecnológica dos Sistemas Nacionais de Inovação, tomam-se artigos científicos e patentes como indicadores de cada dimensão, respectivamente. Existem vantagens e desvantagens no uso destes indicadores. Artigos científicos constituem uma rica fonte de informações sobre atividades científicas (PATEL & PAVITT, 1995). A publicação de um artigo em um periódico especializado representa a aprovação da comunidade científica quanto a contribuição deste trabalho para a disciplina em questão. De outra forma, espera-se que um artigo quando publicado carregue o julgamento de seus pares quanto a sua relevância e, portanto, possa representar algum avanço no conhecimento do seu objeto. Desta forma, pode-se considerar que o entendimento científico é, por um lado, ampliado em seu escopo na medida em que os artigos se apresentam como resultados das pesquisas realizadas em novas áreas e pelos desdobramentos, muitas vezes inesperados, de pesquisas mais antigas e, por outro lado, aprofundado no conhecimento cada vez maior de um campo específico. 41 Ao tomar artigos científicos como produto das pesquisas realizadas durante algum período, e aceitando que estes representam algum avanço em termos de conhecimento, deve-se considerar os fatores que viabilizam e sustentam a condução de tais pesquisas. Neste sentido, a disponibilidade e aplicação de recursos financeiros em atividades científicas, a existência de profissionais preparados ocupados nas atividades de pesquisa, bem como um ambiente econômico social capaz de apreender e utilizar seus resultados, constituem elementos chave no processo de produção do conhecimento refletida nos artigos científicos. Não apenas isso, a idéia de um ambiente articulado à produção científica denota a existência de um sistema educacional minimamente desenvolvido, capaz de alimentar o meio cientifico com novos profissionais, ao mesmo tempo em que demanda dele soluções e respostas para questões não apenas de caráter abstrato, mas também de ordem prática. O interesse econômico também pode ser captado por meio da publicação de artigos contendo resultados de pesquisas. A esse respeito, toma-se a constatação de HICKS (1995) quanto à publicação de artigos por firmas que realizam pesquisa e desenvolvimento. Tal fato demonstra não apenas o interesse de empresas na condução de pesquisas mais aplicadas buscando o desenvolvimento de novos processos e/ou produtos, mas também a realização de pesquisas de caráter mais básico, mais intimamente relacionado à geração de conhecimento. De fato, a condução de pesquisa básica ou aplicada, com toda a controvérsia que tal distinção possa gerar (ver ROSENBERG, 1990), é sensível tanto ao setor de atividade da firma, quanto a sua estratégia de atuação. Contudo, dados os incentivos não plenamente econômicos a que respondem os cientistas e pesquisadores, como é construído o argumento de HICKS (1995), a divulgação de resultados na forma de artigos é uma prática presente também no meio empresarial onde os agentes são movidos por ganhos econômicos. 42 Outro ponto a ser considerado é a interação entre firmas e universidades. Sobre isso os trabalhos de HICKS (1995) e ROSENBERG (1990) demonstram a existência de cooperação entre estes dois elementos dos Sistemas de Inovação expressa na co-autoria em artigos científicos publicados, enquanto NARIN, HAMILTON e OLIVASTRO (1997) mostram a interação entre o setor científico e o tecnológico através da citação de artigos em patentes. Neste último caso, pode-se considerar também como evidência de um aumento no conteúdo científico presente nas novas tecnologias. Assim, os pontos levantados até aqui apóiam o argumento de que a infra-estrutura científica que compõe um Sistema de Inovação específico pode ser minimamente representada pelo volume da sua produção em termos de publicações. Contudo, algumas limitações da utilização de artigos como indicador da infraestrutura científica devem ser consideradas. Inicialmente, as diferenças de idiomas podem dificultar a publicação de trabalhos em periódicos internacionalmente indexados, o que constitui uma certa vantagem para países, em geral de língua inglesa, vis-à-vis os demais países. Em relação às áreas do conhecimento, é preciso ter em conta que diferentes disciplinas científicas, por um lado, apresentam diferentes “propensões” a publicar artigos, e por outro lado, diferem também no grau de internacionalização da produção científica. Além disso, é importante considerar o viés causado pela composição do conjunto de periódicos indexados. Neste sentido, deve-se observar aspectos como a especialização científica de cada país em algumas disciplinas e o peso desta última na composição da base via espacialização dos periódicos. Isto tende registrar uma produção científica maior para países especializados nas áreas melhor representadas em temos de periódicos. O mesmo raciocínio pode ser feito com relação à origem das publicações. Neste caso, países com maior representação em termos de periódicos indexados tendem a ser beneficiados. 43 Uma outra limitação da base de artigos utilizada está mais fortemente associada aos países fora da fronteira científica e que tentam o catching up. Avanços menores nas áreas do conhecimento têm menor probabilidade de ganhar destaque no meio científico. Desta forma, para países atrasados onde parte considerável, se não a maior parte, dos esforços são para entender e alcançar os países da fronteira, ao menos em fases iniciais do catching up, a produção registrada em periódicos de maior notoriedade será menos expressiva, o que não significa a inexistência de atividade científica relevante para o processo de desenvolvimento. Patentes representam a possibilidade de ganhos econômicos pelo monopólio temporário de algum novo produto ou processo. Deste ponto de vista, o empresário e a firma schumpeterianos buscam constantemente obter novas combinações que permitam usufruir deste monopólio. As patentes, portanto, podem ser consideradas como a realização de novas combinações dentro de um ambiente inovativo, que permitirão em algum momento seu emprego na esfera econômica. Esta possibilidade de utilização direta é que confere às patentes uma conotação de tecnologia, na medida em que, também representando algum tipo de inovação, os artigos científicos não resultam, freqüentemente, em alguma aplicação direta. Considerando que patentes são registradas por indivíduos, firmas e instituições (universidades, por exemplo), um ambiente inovativo deve ser composto, entre outros, por estes três elementos cujas ações, na medida em que buscam vantagens econômicas, tendem a contribuir para o aumento das estatísticas de patentes dos sistemas em que estão inseridos. Em outras palavras, a presença de firmas e indivíduos inovadores, que fazem uso de recursos próprios ou de terceiros (como laboratórios) para alcançar novas combinações é indicador de que o sistema é capaz de fornecer estes recursos e alimentar tais ações. 44 A relação que se deseja extrair, portanto, é a de que quanto mais desenvolvida for a infra-estrutura tecnológica maior é a propensão ao registro de patentes. De fato, isto leva a considerar algumas questões problemáticas no uso de patentes como indicador de atividades inovativas. Neste sentido, PATEL e PAVITT (1995) alertam para (1) as diferenças intersetoriais na propensão a patentear os resultados das atividades de pesquisa e desenvolvimento realizadas pelas firmas e (2) para a mensuração insatisfatória, em termos de patentes, dos avanços feitos na área de softwares. Contudo, faz-se necessário destacar as vantagens das patentes em superar as imperfeições na mensuração das atividades inovativas através dos gastos com P&D e a forte correlação entre os níveis e tendências nas atividades tecnológicas nacionais quando medidas pelas despesas per capita com pesquisa e desenvolvimento e o total de patentes registradas no USPTO. O uso de patentes, em especial as depositadas no USPTO, para a comparação de atividades tecnológicas entre países apresenta algumas outras limitações. A primeira a ser apontada é quanto à posição dos Estados Unidos nas estatísticas de patentes, tendo em vista que para estes países elas representam os registros de um escritório doméstico de marcas e patentes, o que leva a uma certa superestimação da sua produção tecnológica. Nesta mesma linha, pode-se dizer que os demais países estarão tanto mais presentes nas estatísticas produzidas por este Órgão quanto mais empresas e indivíduos estes tenham como residentes no território americano. Tal como acontece com os artigos internacionalmente indexados, as patentes no USPTO também falham ao captar avanços tecnológicos de caráter mais incremental, de importância local. Isto significa que inovações mais modestas tendem a não ser submetidas aos critérios do USPTO sem, contudo, deixar de representar um avanço. Do ponto de vista dos países mais atrasados a subestimação das atividades tecnológicas realizadas 45 internamente será, portanto, dupla. Primeiro, porque estes países tendem a introduzir inovações mais incrementais e, segundo, as chances são reduzidas pela falta de empresas nacionais estabelecidas no território dos Estados Unidos. 2.3 – Da base de dados As seções seguintes repousam na análise de uma base de dados composta por artigos e patentes para um conjunto de 103 países, anualmente entre 1980 e 2000, sendo que para o ultimo ano este número é de 120 países, dadas as transformações geopolíticas ocorridas no período, de forma que se torna necessária a sua descrição prévia. As informações sobre artigos científicos foram extraídas do Science Citation Index (SCI) do Institute for Scientific Information (ISI) disponibilizadas pela Web of Science e coletadas entre os dias 20/11/2002 e 19/12/2002. As patentes, por sua vez, constam de documento disponibilizado pelo United State Patent and Trademark Office com informações sobre patentes por invenção (utility patents) concedidas entre 1973 e 1979 e anualmente de 1980 a 2000. (USPTO, 2001) É preciso, contudo, não perder de vista as limitações das bases de dados de artigos e patentes para mensurar as atividades científicas e tecnológicas, respectivamente. Tanto as informações fornecidas pelo ISI, quanto as provenientes do USPTO devem ser consideradas como apenas uma parte da produção científica e tecnológica, respectivamente9. Isto significa que, de certa forma, estas bases tendem a subestimar, as atividades científicas e tecnológicas dos países. Finalmente, além dos dados sobre artigos e patentes, este trabalho conta com informações sobre a população a cada ano, disponibilizadas on-line pelo Banco Mundial 9 Com freqüência, tem-se usado a expressão “ponta do iceberg” para representar a produção científica e tecnológica dos países medidas por artigos no ISI e patentes no USPTO, respectivamente. 46 dentro do World Development Indicators (2002). Estes dados são importantes na medida em que permitem normalizar os indicadores principais. A Tabela A1, apresentada no APÊNDICE 1, mostra o conjunto de dados utilizados neste capítulo. Constam informações de artigos e patentes por milhão de habitantes para os anos de 1980 e 2000, sendo que para o primeiro ano são utilizados 103 países enquanto no último o total de países é de 120, dadas as transformações geopolíticas ocorridas após a queda do Muro de Berlim. Fazem parte também das informações apresentadas, dados sobre a renda per capita nos países para os dois anos, embora estas não entrem diretamente na análise. Uma observação final é quanto a utilização de dados normalizados pela população (milhão de habitantes). Tal como os países são usualmente comparados por sua renda per capita e não pelo produto agregado, para medir o nível de riqueza, procura-se evitar comparações errôneas normalizando-se os dados de artigos e patentes pela população dos países. Como exemplo para as possíveis distorções nas comparações considere os casos de Suíça e Índia no ano 2000. O total de artigos para a Suíça foi de 13.140, enquanto para a Índia esse valor foi de 15.982, o que poderia levar a pensar que o primeiro país é cientificamente menos avançado que o segundo. No entanto, quando os dados são normalizados pelas respectivas populações as posições se invertem, uma vez que a Suíça passa a ter cerca de 1.830 artigos por milhão de habitantes enquanto para a Índia esse valor fica em torno de 15. De certo, a consideração dos dados normalizados ajusta-se melhor ao que é conhecido quanto ao grau de desenvolvimento científico e tecnológico dos países, como no exemplo acima. 47 2.4 – Do método de análise A partir das informações sobre artigos, patentes e população dos países, nos 21 anos em questão, este estudo recorre a técnicas de análise multivariada, em particular a análise de cluster, no sentido de descrever e dar o tratamento inicial a tais informações. Em geral, a análise de cluster pode ser considerada como um termo genérico para um conjunto de técnicas usadas para classificar dados que são inicialmente não classificados. (EVERITT, 1986) As razões para proceder a uma classificação variam com os propósitos do pesquisador – e Everitt apresenta sete. Aqui, porém, os objetivos são tão somente a exploração da base de dados e uma tentativa de encontrar uma tipologia para os elementos (países) da análise. O principio da análise de cluster consiste na mensuração da distância ou similaridade entre os N indivíduos em termos das p variáveis utilizadas. Sendo assim, duas questões iniciais devem ser abordadas, quais sejam, a escolha das variáveis e a definição das similaridades ou da mensuração das distâncias. Em relação às variáveis tomadas para análise, EVERITT (1986) enfatiza que a escolha reflete o julgamento do pesquisador quanto a relevância destas para seus propósitos de classificação. E mais, é necessário ter em mente que a escolha das variáveis é, por si, uma categorização de dados os quais, a princípio, não apresentam direcionamento (guidelines) matemático ou estatístico. Antes, porém, de passar adiante, é necessário dar esclarecimentos quanto a definição do termo “cluster” dentro do presente contexto. EVERITT (1986) alerta para a inexistência de consenso sobre este assunto. Assim, alguns autores têm definido um cluster como um grupo de elementos contíguos de uma população estatística, ou como um conjunto de indivíduos “parecidos”, sendo que, um dado conjunto “difere” dos outros conjuntos. Outros autores têm tomado o termo como definindo um agregado de pontos no espaço de teste, tal que a distância entre quaisquer dois pontos dentro de um cluster é 48 menor que a distância entre qualquer ponto do cluster e outro ponto fora dele. Para EVERITT (1986), a característica comum à maioria das definições de cluster está em sua natureza vaga e circular, na medida em que termos como semelhança, similaridade e distância são eles mesmos indefinidos. De fato, é certamente verdade que, dentro de toda essa controvérsia, uma única definição não seja suficiente e que o critério último para conceituar o termo é o julgamento do pesquisador quanto a sua capacidade de responder satisfatoriamente às questões propostas. Este trabalho considera, portanto, a definição de um cluster como sendo uma região continua, em um espaço de p dimensões, contendo uma densidade de pontos relativamente alta separada de outras regiões por intervalos com uma densidade de pontos relativamente baixa. Tal definição, encontrada em EVERITT (1986), tem a vantagem de não restringir o formato do cluster tão rigidamente como é comum a outras definições. Além disso, considera-se, para os propósitos deste trabalho que um elemento assemelha-se, em termos das p dimensões (ou variáveis) utilizadas, mais aos demais membros do mesmo cluster que de qualquer outro elemento pertencente a outro cluster. Superado o problema da definição, surge a questão de qual algoritmo implementar na construção dos clusters. Neste sentido, apesar dos inúmeros algoritmos que podem ser encontrados na literatura10, vale dizer que a escolha de um método particular depende tanto do tipo de dados disponíveis quanto dos propósitos da análise, como lembram KAUFMAN & ROUSSEEUW (1990). Neste sentido, os resultados apresentados na próxima seção, foram obtidos a partir de um algoritmo de clusters hierárquicos com a mensuração da distância entre grupos. A utilização do método hierárquico apresenta a vantagem de não determinar a priori o número final de clusters (KAUFMAN & ROUSSEEUW, 1990), em comparação aos 10 Para uma revisão dos algoritmos mais utilizados ver os trabalhos de EVERITT (1986), KAUFMAN & ROUSSEEUW (1990) e MANLY (1986). 49 métodos de partição. Desta forma, para métodos hierárquicos aglomerativos, os N indivíduos começam cada um em um cluster, dado que cada individuo é o mais próximo de si mesmo, até o momento em que todos são reunidos em um único agrupamento. Métodos hierárquicos divisivos, partem de um número k = 1 de clusters terminando em k = N, ou seja, segue em sentido contrário ao método aglomerativo. Por fim, os clusters hierárquicos são particularmente úteis para os objetivos deste trabalho pela possibilidade de seus resultados serem organizados em dendogramas, como da Figura 2.1, o que facilita a análise e permite maior flexibilidade na busca de uma tipologia dos indivíduos e na determinação do número de clusters. FIGURA 2.1 Exemplo de dendograma 0 1 2 3 4 | | | | | Aglomerativo a a, b a, b, c, d, e b c c, d, e d d, e e | | | | | 4 3 2 1 0 Divisivo FONTE: KUAUFMAN & ROUSSEEUW (1990: 45) O primeiro passo, portanto, para a análise consiste na normalização das variáveis por sua média e desvio padrão, tal que z ik = X ik − x k (2.1) σk Onde x k é a média e σ k o desvio padrão da variável k. Desta forma, as variáveis têm igual importância na análise (MANLY, 1986:106) e a ordenação das distâncias é preservada 50 (EVERITT, 1986). Everitt alerta também para o problema de que a normalização constitui um tratamento matemático preliminar. Em seguida, procede-se à construção de uma matriz de distâncias D, cujas entradas são obtidas, após a normalização, de acordo com a medida de Minkowski11 dada pela expressão 2.1. 1 r r p (2.2) d ij = ∑ X ik − X jk k =1 Note que esta expressão inclui os casos especiais da distância Euclidiana, quando r = 2, e do “city block model”, quando r = 1 (EVERITT, 1986: 19). Para os fins deste trabalho r assume valor 1. Para mensurar a similaridade (distância) entre os grupos, a partir da expressão 2.2, são tomadas as médias dos grupos em termos de cada variável p, de forma a construir a expressão 2.3: 1 r r d XY = ∑ xi − y i k =1 Onde x é a média do cluster X e y é a média do cluster Y. p (2.3) Os indivíduos sofrem, então, sucessivas interações das distâncias até que sejam organizados em clusters onde, como foi definido anteriormente, a distâncias entre quaisquer dois elementos em seu interior seja menor que a distância entre qualquer elemento pertencente ao cluster e um no interior de outro cluster. O resultado final é um gráfico como o da Figura 2.1 onde no nível mais alto de proximidade, ou seja, os critérios de semelhança são mais rígidos, existem tantos clusters quanto indivíduos, enquanto que para o menor nível de proximidade todos os elementos constituem um único cluster. 11 Matemático alemão que desenvolveu a teoria geométrica dos números e fez inúmeras contribuições para a teoria numérica, física matemática e teoria da relatividade. (ENCICLOPÉDIA, Britânica. On line <http://search.britannica.com/>, 04/03/2003; 00:30 hs) 51 2.5 – Dos resultados Partindo de um conjunto de 103 países para 1980 e 120 países para o ano 2000, o primeiro passo consiste em separá-los em dois grupos para cada ano. O primeiro grupo corresponde àqueles cujos artigos ou as patentes apresentaram valor zero. Este grupo é classificado como característico do Regime I, segundo a classificação de BERNARDES e ALBUQUERQUE (2003), dado que a ausência de indicadores para alguma das dimensões, científica ou tecnológica, denota a ausência de uma precondição elementar para o estabelecimento de interações entre elas. O Regime I conta, então com um total de 39 países em 1980 e 41 em 2000. O segundo conjunto é referente aos 64 países em 1980, e 79 em 2000, que apresentaram valores positivos para os indicadores, são submetidos à análise de cluster para os anos de 1980 e 2000. Assim, a Figura 2.2 apresenta o resultado do agrupamento dos 64 países (103 originais, retirados os pertencentes ao Regime I) para 1980. São considerados os sete clusters formados a partir do grau mais alto de similaridade. Ou seja, a distância entre os países, em termos dos indicadores, é pequena o suficiente para dar origem a um primeiro cluster e a distância entre este cluster e o elemento mais próximo a ele é maior que a distância entre este último elemento e um outro pertencente ao mesmo cluster. Desta forma, o primeiro cluster da Figura 2.2 é formado pelo conjunto de 47 países que estão entre China e a Irlanda, dentre os quais encontram-se Brasil, México, Espanha, Coréia do Sul, União Soviética, Itália, Taiwan, entre outros. O segundo cluster e formado por França, Holanda, Áustria, Bélgica, Austrália, Nova Zelândia, Noruega, Finlândia, Canadá, Reno Unido e Dinamarca. O terceiro é formado pela Alemanha Ocidental e Japão, enquanto Israel, Suécia, Suíça e Estados Unidos formam, cada um, um cluster individualmente. Da mesma forma, a análise para o ano 2000, com um total de 79 países (120 originais, retirados os pertencentes ao Regime I, onde a produção científica e/ou 52 tecnológica foi nula) é mostrado na Figura 2.3. O primeiro cluster, desta vez, é formado pelos países que se encontram entre Paquistão e Bahamas como, os que também compunham o Cluster 1 em 1980, Brasil, México, África do Sul, Índia, Argentina, e novos países incluídos na análise como Malásia e Uruguai. O segundo cluster e composto pela Holanda, Reino Unido, Austrália, Irlanda, Nova Zelândia, Áustria, França, Singapura, Islândia, Noruega e Bélgica. O terceiro é formado por Canadá e Alemanha, enquanto Finlândia, Israel, e Dinamarca formam o quarto cluster. O quinto cluster é composto por Hong Kong, Eslovênia, Itália e Espanha, todos pertencentes ao Cluster 1 em 1980. No cluster seis estão Japão e Taiwan, este último saído do Cluster 1 em 1980, tal como Coréia do Sul e Luxemburgo, que pertencem ao sétimo cluster em 2000. Suécia e Suíça formam o oitavo cluster, enquanto Estados Unidos está isolado no cluster 9. A Tabela 2.1 apresenta as médias de artigos (pmh) e patentes (pmh) para os clusters em 1980 e 2000, bem como os países limites de cada cluster, seguindo a ordem apresentada nas figuras 2.2 e 2.3. Observe que a média do Cluster 1, países entre China e Irlanda (FIG. 2.2), em 1980 em artigos (pmh) é de 55,40, enquanto em patentes (pmh) a média e de 3,23, para um total de 47 países pertencentes a este cluster. Os clusters cujas médias mais se aproximam das observadas para o Cluster 1 são o Cluster 3 (Alemanha Ocidental e Japão) em artigos (pmh), com média 294,63, e o Cluster 4 (Israel) em patentes (pmh), com média 29,14. Esta grande distância entre as médias, denota uma diferença significativa no estado das interações entre as infra-estruturas científica e tecnológica dos países pertencentes ao Cluster 1 e os países pertencentes aos demais clusters. O mesmo é verificado para o ano 2000. O Cluster 1 (países entre Paquistão e Bahamas de acordo com a FIG. 2.3), neste ano, possui uma média de 91,90 em artigos (pmh) e 1,85 em patentes (pmh), para um total de 52 países. Desta vez, os clusters mais próximos são o Cluster 7 (Coréia do Sul e Luxemburgo) com média 258,13 em artigos 53 (pmh) e o Cluster 5 (Hong Kong, Eslovênia, Itália e Espanha) com média 17,73 em patentes (pmh). Da mesma forma que em 1980, há uma grande distância entre o Cluster 1 e os demais clusters em 2000, sobretudo, no que se refere à dimensão científica. Uma observação interessante, ainda sobre as informações da TAB 2.1, é quanto a dispersão dos países dentro dos clusters. Tanto em 1980 quanto em 2000, observa-se que o Cluster 1 é o único a apresentar desvios-padrão maiores que a média em artigos e patentes. Assim, em 1980 enquanto a média do Cluster 1 em artigos (pmh) é de 55,40 e em patentes (pmh) é de 3,23, os desvios são respectivamente, 79,94 e 7,27. O mesmo é verificado para 2000, onde as médias em artigos (pmh) e patentes (pmh) são, nesta ordem, 91,90 e 1,85, enquanto os desvios para estas variáveis são, respectivamente, 117,59 e 6,15. Embora os países que compõem os clusters, bem como o número de clusters, sejam diferentes nos dois anos em análise, é possível estabelecer uma comparação entre os Clusters 1 em 1980 e 2000. O coeficiente de variação (desvio-padrão/média) em artigos (pmh) foi de 1,44 em 1980 e 1,27 em 2000. Isto revela que em termos da produção científica, os países da Cluster 1 estavam relativamente mais dispersos no primeiro ano. Quanto à produção tecnológica, o coeficiente de variação para o Cluster 1 é 2,25 em 1980 e 3,32 em 2000, mostrando uma tendência ao afastamento dos países em termos do nível das atividades tecnológicas. Por fim, cabe uma observação geral de que os países tendem a estar relativamente mais dispersos em termos da produção tecnológica que da produção científica nos dois anos. 54 FIGURA 2.2 Resultado da análise de cluster para 1980 usando Artigos (pmh) e Patentes (pmh). Fonte: ISI (2002); USPTO (2002); Banco Mundial (2002) – Saída do pacote SPSS 11.0. 55 FIGURA 2.3 Resultado da análise de cluster para 2000 Artigos (pmh) e Patentes (pmh). Fonte: ISI (2002); USPTO (2002); Banco Mundial (2002) – Saída do pacote SPSS 11.0. 56 TABELA 2.1 Média dos clusters em 1980 e 2000, para artigos e patentes por milhão de habitantes Ano Cluster Países limites dos clusters (segundo FIG. 2.2 e 2.3) 1 China - Irlanda 2 França - Dinamarca 3 Alemanha Ocidental - Japão 1980 Desvio padrão artigos (pmh) Media patentes (pmh) Desvio padrão patentes (pmh) 55,40 79,94 3,23 7,27 481,60 97,10 31,04 10,98 12,84 294,63 147,75 70,08 4 Israel 1034,30 - 29,14 - 5 Suécia 687,49 - 98,92 - 6 Suíça 885,27 - 200,35 - 7 Estados Unidos 555,55 - 164,39 - 1 Paquistão – Bahamas 2 Holanda – Bélgica 3 Canadá – Alemanha 91,90 117,59 1,85 6,15 945,23 107,21 54,65 15,76 858,85 142,68 117,88 9,46 1448,32 110,13 108,90 23,75 5 Hong-kong – Espanha 636,99 136,16 17,73 11,97 6 Japão – Taiwan 485,55 91,06 228,49 25,71 4 Finlândia – Dinamarca 2000 Média artigos (pmh) 7 Coréia do Sul – Luxemburgo 258,13 29,55 80,67 14,94 8 Suécia – Suíça 1698,33 186,32 180,97 4,46 9 Estados Unidos 763,10 - 302,16 - Fonte: ISI (2002); USPTO (2002); Banco Mundial (2002) – Elaboração própria A comparação das médias de artigos (pmh) e patentes (pmh) entre os clusters dão uma idéia da distância entre eles, permitindo também uma constatação importante para a proposição de uma tipologia para os países em análise. Desta forma, como pode ser percebido, existe uma grande diferença entre as médias dos clusters 1 e as médias dos clusters que mais se aproximam deste, tanto em 1980 quanto no ano 2000. Em termos da tipologia dos países, e para os fins deste trabalho, dado o nível mais baixo dos indicadores, consideram-se os países pertencentes ao Cluster 1 em cada ano como característicos do Regime II (Fig. 1.2), enquanto aqueles países que estavam fora do Cluster 1 foram classificados como pertencentes ao Regime de interações III, por apresentarem maior produção científica e tecnologia, de onde se pode supor que os feedbacks positivos entre ciência e tecnologia estão atuando em todas as direções. 57 2.5.1 – Descrição dos resultados da análise de cluster Tendo por base a tipologia dos países segundo o regime de interações a que pertencem, é possível avançar na avaliação dos resultados da analise de cluster. Cita-se mais uma vez a formação de um grande cluster cujos componentes apresentam indicadores mais baixos em alguma das dimensões, científica ou tecnológica, e por vezes em ambas. Desta forma, em 1980, o primeiro grande cluster, composto pelos países entre China e Irlanda (FIG. 2.2), tem como limite superior, um total de 379,30 artigos por milhão de habitantes referente a este último país, ao passo que Luxemburgo representa o limite superior em patentes com um total de 35,63 no Cluster 1, enquanto Itália e Hungria encontram-se em pontos intermediários. Quando representados em um gráfico de dispersão de patentes (pmh) versus artigos (pmh), os limites deste primeiro grande grupo permitem a definição de uma região, como mostrado na Figura 2.4. FIGURA 2.4 Limites do Cluster 1 em 1980 Fonte: ISI (2002); USPTO (2002); Banco Mundial (2002) – Elaboração própria. 58 A região encontrada para o ano 2000 é mostrada na Figura 2.5. Os limites desta vez são dados por Bahamas na vertical (42,9 Patentes pmh) e pela Grécia na horizontal (420,93 Artigos pmh), enquanto os casos intermediários correspondem à Hungria e Estônia. FIGURA 2.5 Limites do Cluster 1 em 2000 Fonte: ISI (2002); USPTO (2002); Banco Mundial (2002) – Elaboração própria. 2.5.2 – Transição entre clusters (Regimes) O Quadro 2.1 apresenta um resumo de como se deu o movimento dos países entre os clusters entre 1980 e 2000. Daí, pode-se perceber quatro tipos de movimentação. 2.5.2.1 – Transição entre Regime I (fora da análise de cluster) e Regime II (Cluster 1) Em primeiro lugar, o Quadro 2.1 mostra países Malásia e Peru, que não chegaram a fazer parte da análise de cluster para 1980 por apresentar valor zero para patentes ou 59 artigos, mas que passaram a figurar entre o grupo de indicadores mais baixos do Cluster 1 em 2000. Da mesma forma, há o caso daqueles que realizaram o movimento oposto, embora constituíssem o Cluster 1 em 1980, apresentaram valores nulos para algum dos indicadores, em geral patentes, no ano 2000 , sendo portanto, retirados da análise de cluster. Como exemplo citam-se Haiti, Irã e Equador. QUADRO 2.1 Transição entre clusters entre 1980 e 2000 Pais Cluster Em 1980 Cluster Em 2000 Pais Albania -1 - New Caledonia Algeria - Papua New Guinea Antigua & Barbu - Tunisia Barbados - Zimbabwe Cameroon - Argentina Chad - Bahamas El Salvador - Bolivia French Polynesia - Brazil Ghana - Bulgaria Guyana - Chile Jordan - China(Peoples R China) Madagascar - Colombia Malawi - Costa Rica Mali - Cyprus Mauritania - Egypt, Arab Rep. Mauritius - Greece Paraguay - Hungary Senegal - India St. Kitts and Nevis - Indonesia St. Vincent and the Grenadines - Jamaica Sudan - Kenya Suriname - Mexico not nm Swaziland - Nigeria Trinidad and Tobago - Panama Vanuatu - Philippines Zambia - Portugal Dominica 1 Romania Dominican Republic 1 Saudi Arabia Guatemala 1 South Africa Honduras 1 Thailand Malaysia 1 Turkey Malta 1 Venezuela, RB Morocco 1 Ireland Pakistan 1 Singapore Peru 1 Hong Kong, China Sri Lanka 1 Italy Syrian 1 Spain Uruguay 1 Taiwan Iceland 2 Korea, Rep. Ecuador 1 - Luxembourg Haiti 1 - Czechoslovakia Iran 1 - Ger Dem Rep Nota 1: Símbolo “-“ representa que o país ficou fora da análise de custer para aquele ano. Fonte: ISI (2002); USPTO (2001); Word Bank (2002) – Elaboração própria Cluster Em 1980 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 Cluster Em 2000 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 2 2 5 5 5 6 7 7 Extinto Extinto Pais USSR Yugoslavia Australia Austria Belgium France Netherlands New Zealand Norway United Kingdom Canada Denmark Finland Japan Fed Rep Ger Israel Sweden Switzerland USA Armenia Bosnia & Herceg Georgia Lithuania Macedonia Moldova Tajikstan Turkmenistan Azerbaijan Byelarus Croatia Czech Republic Estonia Kazakhstan Kyrgyzstan Latvia Russian Federation Slovakia Ukraine Uzbekistan Germany Slovenia - Cluster Em 1980 Cluster Em 2000 1 1 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 3 3 4 5 6 7 Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo Novo - Extinto Extinto 2 2 2 2 2 2 2 2 3 4 4 6 Extinto 4 8 8 9 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 3 5 - 60 2.5.2.2 – Dos países que superaram a fronteira do Cluster 1 Em segundo lugar, um dos aspectos mais importantes da análise, está o fato de alguns países que constituíam o Cluster 1 em 1980 terem ultrapassado a fronteira da região definida por este. Oito, dos 47 países que compunham o Cluster 1 em 1980, ultrapassaram os limites do Cluster 1 em 2000, quais sejam, Irlanda, Singapura, Hong Kong, Itália, Espanha, Taiwan, Coréia do Sul e Luxemburgo. (ver QUADRO 2.1) Tais países, que apresentavam no ano inicial algum desenvolvimento de suas infra-estruturas científica e tecnológica, dado o nível, embora baixo, de seus indicadores, foram capazes de fazer a transição de um estágio rudimentar de desenvolvimento de suas infra-estruturas científica e tecnológica para uma nova situação de destaque, tendo em vista o distanciamento alcançado em relação à fronteira, uma vez que esta também se movimentou. Este conjunto de países que fizeram a transição do Regime II (Cluster 1) para o Regime III (demais clusters) pode ser subdividido em três grupos. O primeiro grupo é dos países do Leste Asiático, Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura. Em especial, Coréia e Taiwan foram bem sucedidos nos seu processo de catching up em relação às economias mais avançadas, e quando comparados por suas bases científica e tecnológica demonstram ter, de fato, realizado um movimento de aproximação em direção às nações desenvolvidas e de distanciamento do bloco em desenvolvimento. Por fim, o caso de Taiwan surpreende pelo fato deste, juntamente com Japão, ser o país mais próximo dos Estados Unidos em 2000, como foi mostrado no dendograma da Figura 2.3. O segundo grupo é formado por países da Europa, Itália, Espanha e Irlanda. A Itália, com 146,93 artigos (pmh) e 14,28 patentes (pmh) – posição bastante superior à média do seu cluster em 1980 que é de 55,40 artigos (pmh) e 3,23 patentes (pmh) – 61 caracteriza-se por estar exatamente na fronteira do Cluster 1 em 1980 (FIG. 2.4), denotando um certo grau de desenvolvimento das infra-estruturas científica e tecnológica que permitiria sua entrada no Regime de interação III, como de fato é verificado em 2000. Por outro lado, a Espanha, com 82,67 artigos (pmh) e 1,73 patentes (pmh), encontrava-se muito mais próxima à média do Cluster 1 em 1980, evidenciando uma condição menos desenvolvida das bases científica e tecnológica em comparação com a Itália. Desta forma, é licito pensar que, para o caso da Itália, a superação da fronteira do Cluster 1 foi em decorrência de um processo de desenvolvimento que já se verificava em 1980, dado que este país encontrava-se na fronteira. Para o caso da Espanha, assim como para o caso da Irlanda, deve-se considerar os possíveis impactos do processo de unificação da Europa, e com isso os esforços e investimentos realizados ao longo das duas últimas décadas no sentido desta unificação, para o desenvolvimento da ciência e tecnologia deste país, culminando na sua passagem para o Regime de interações III. No terceiro grupo está Luxemburgo. Apesar de estar no mesmo cluster que a Coréia do Sul em 2000, este país deve sua posição basicamente à sua pequena população, já que em termos absolutos é superado pela Coréia em mais de 80 vezes em patentes e 126 vezes em artigos. 2.5.2.3 – Caso particular: Islândia Ainda em relação à movimentação dos países menos desenvolvidos entre os grupos, a Islândia constitui caso especial. De forma diferente dos demais, este país saiu do conjunto com indicadores nulos, neste caso patentes, em 1980 para o mesmo grupo de Noruega, Holanda e França em 2000, países que já se encontravam acima da fronteira no ano inicial. Na verdade, o país apresenta valor zero em patentes para o período 1980-1982 62 e em 1991 tendo registrado níveis positivos para os demais anos até 2000. Isto mostra que ter ficado de fora da análise em 1980 deve-se, em parte, ao ano especifico para qual esta foi realizada. Tivesse sido escolhido outro ponto mais à frente no tempo, o ano de 1983 por exemplo, quando o país registrou 65 artigos e duas patentes, em termos absolutos, sua posição teria sido alterada. Contudo, os resultados para o final do período não teriam sido modificados, dado que o país foi capaz de construir neste intervalo de tempo uma infraestrutura tecnológica que permitiu observar uma tendência crescente no número absoluto de patentes. Se tomar apenas dois pontos no tempo possa, à primeira vista, levar a casos como da Islândia, espera-se justamente que os demais países que permaneceram ou ingressaram em melhores posições tenham experimentado a melhoria de suas bases científica e tecnológica, enquanto aqueles que transitaram entre os grupos mais baixos, chegando a ser deixados de fora da análise para 2000, correspondam apenas a infra-estruturas rudimentares incapazes de sustentar o desenvolvimento técnico-científico. Por outro lado, a presença de alguns países na análise de 2000 ausentes no ano de 1980, não garante que estes permaneçam ou melhorem suas posições caso o estudo seja replicado para anos posteriores. 2.5.2.4 – Sustentabilidade acima da fronteira Finalmente, cabe destacar que nenhum dos países acima da fronteira em 1980 retrocedeu para dentro da região de interações fracas ou para fora da análise em 2000. Pode-se argumentar, a partir daí, que as posições referentes a indicadores mais altos apresentam-se mais estáveis que aquelas onde o nível dos indicadores é menor. Em outras palavras, parece ser mais fácil entrar e sair do Cluster 1, em termos gráficos, pela esquerda 63 que pela direita. A hipótese que se levanta é, portanto, a de que os países fora dos limites do cluster mais baixo em 1980 apresentavam desde já uma infra-estrutura científica e tecnológica e uma relação entre elas tal, que sustentou seu desenvolvimento ao longo dos anos. E mais, os países que conseguiram ultrapassar aqueles limites construíram e melhoraram suas infra-estruturas, o que lhes permitiu não só superar a região de baixos indicadores, como se manter fora dela. 2.5.3 – As mudanças geográficas após a queda do Muro de Berlim As mudanças geográficas, com o surgimento e desaparecimento de países entre 1980 e 2000, são importantes na medida em que alteram a base de dados e limitam a comparação intertemporal dos países. Neste sentido, devem ser considerados dois movimentos distintos. Em primeiro lugar o fim a União Soviética e a divisão da Tchecoslováquia e da Iugoslávia exerceram um efeito fragmentação e dispersão na produção científica e tecnológica entre velhos e novos países, enquanto a reunificação da Alemanha Ocidental e Oriental atuou em sentido contrário. A FIGRUA 2.6, mostra os efeitos graficamente. A União Soviética em 1980 integrava o Cluster 1, no interior abaixo da fronteira, com 74,03 artigos (pmh) e 1,73 patentes (pmh). Sem dúvida, tratava-se de uma estrutura científica notável (19.674 artigos em termos absolutos), entre França e Canadá, diluída por uma enorme população e uma estrutura tecnológica de menor vulto (460 patentes em nível), entre Taiwan e Holanda. Em 2000, das quinze Repúblicas resultantes do desmembramento da União Soviética na década de 1990, seis ficaram de fora da análise por apresentarem zero patentes, enquanto as demais permaneceram no Cluster 1. Mesmo a maior destas 64 Repúblicas, a Rússia, não foi capaz de manter ou ampliar o indicador de infra-estrutura tecnológica permanecendo no grupo mais baixo, embora apresentasse uma base científica mais desenvolvida. Por fim, a fragmentação da estrutura científica entre as Repúblicas novas parece ter sido o principal fato, para os fins deste trabalho, a ser destacado, sendo que nenhum dos novos Estados conseguiu maior destaque individualmente. FIGURA 2.6 Efeitos Fragmentação e Reunificação (em escala logarítmica na base 10) Fonte: ISI (2002); USPTO (2001); Word Bank (2002) – Elaboração própria A Tchecoslováquia também pertencente ao Cluster 1 em 1980, com 239,15 artigos (pmh) e 3,61 patentes (pmh), deu origem à República Tcheca e à Eslováquia que mantiveram a mesma posição no Cluster 1de 2000. Os resultados aqui são semelhantes aos observados para a URSS. 65 A Iugoslávia originou o único caso de “sucesso”, do ponto de vista das infraestruturas científica e tecnológica, nos processo de separação em questão. Este país era mais um integrante do grupo 1 em 1980. Dentro da região de menores indicadores, apresentava 115,44 artigos (pmh) e 1,53 patentes (pmh) no primeiro ano. Na segunda análise, os países resultantes da sua fragmentação exibiam o maior desvio em termos dos indicadores de ciência e de tecnologia, em relação ao demais casos de separação. Neste sentido, a Eslovênia corresponde ao caso bem sucedido, uma vez que em 2000 já se encontrava fora do cluster de indicadores mais baixos (acima da fronteira) com 784,70 artigos (pmh) e 8,05 patentes (pmh). Enquanto isso, os demais países de mesma origem encontravam-se imersos no Cluster 1. Tanto para a União Soviética quanto para Iugoslávia a comparação entre os anos de 1980 e 2000 torna-se mais difícil, dado não apenas ao efeito da fragmentação, mas também em conseqüência da crise que afetou tais países na transição de uma economia de comando para uma economia de mercado, com repercussões na capacitação em ciência e tecnologia. Independente do que possa ter representado para a Alemanha Ocidental, a unificação parece ter sido, ao menos no que se refere a este trabalho, um bom acontecimento para a Alemanha Oriental. Isto porque na análise para 1980 a primeira figurava entre os menos desenvolvidos do Cluster 1 com uma base científica considerável (com 266,78 artigos (pmh) quando a média era 55,40 e o limite superior 379,30) mas com uma base tecnológica de menor peso (com 1,79 patentes (pmh) quando a média era 3,23 e o limite superior 35,63), ao passo que a Alemanha Ocidental ocupava o mesmo cluster que o Japão. Em 2000, já unificada há alguns anos, a Alemanha manteve-se entre os países de melhores indicadores, porém, aproximou-se do Canadá com maior número de artigos (pmh) e perdeu contato com o Japão com maior número de patentes (pmh). O balanço 66 geral parece ser de que a unificação representou ganhos maiores em termos da infraestrutura científica que da infra-estrutura tecnológica para o país . 2.5.4 – A movimentação acima da fronteira do Cluster 1 Um conjunto de países destaca-se por sua movimentação, não com referências a entradas ou saídas das regiões abaixo da fronteira entre 1980 e 2000, mas principalmente, nas regiões acima delas. São dezessete países que nos dois períodos em análise estiveram em clusters de indicadores mais altos, dos quais, dez correspondem ao grupo de onze países que, segundo PATEL e PAVITT (1995), concentram 95% das atividades tecnológicas realizadas no mundo, quando mensuradas em termos de patentes ou de gastos com P&D. A exceção é feita à Itália, que como mostrado anteriormente, fazia parte do Cluster 1 em 1980. A comparação das posições destes países no dois períodos é bastante sugestiva. Em 1980, a configuração dos clusters era tal que o país mais próximo aos Estados Unidos era a Suíça como foi mostrado na Figura 2.2. Israel e Suécia eram mais próximos entre si enquanto o Japão constituía um cluster com a Alemanha Ocidental, restando um último agrupamento dos países entre Dinamarca e França. Em 2000, observam-se movimentos tanto no sentido de dispersão quanto de aproximação dos países. Em parte isto pode ser explicado pelo descolamento de países pertencentes ao Cluster 1 em 1980, o que força, por um lado, o surgimento de dois novos grupos formados apenas por países que transpuseram a fronteira, com Coréia e Luxemburgo e Hong Kong, Eslovênia, Itália e Espanha, e por outro lado, a reorganização dos demais elementos dentro dos grupos, dada a aproximação entre Taiwan e Japão, e destes últimos com os Estados Unidos (Ver Fig. 2.3). 67 Deve-se considerar também a aproximação entre Finlândia, Israel e Dinamarca, bem como o agrupamento de Alemanha (unificada) e Canadá e de Suíça e Suécia como uma evidência de uma dinâmica para países já fora do Cluster 1. Por fim, a esse respeito, o ramo formado por Estados Unidos, Japão e Taiwan, pode estar indicado a formação de uma bloco de países com características distintas dos demais, porém próximas entre si, como por exemplo uma maior eficiência na geração de ciência e tecnologia, constituindo uma nova referência para qual outros países tende a se deslocar. 2.5.5 – Países que permaneceram no Regime II (Cluster 1) A permanência de um conjunto de países no Cluster 1 em 1980 e 2000 aponta para uma nova questão. Diferente dos países que permaneceram fora da análise nos dois anos por apresentarem valores nulos para alguma das dimensões, denotando a inexistência ou precariedade das interações entre a infra-estrutura científica e a tecnológica, os membros dos clusters de indicadores mais baixos demonstram possuir estas interações em alguma medida. A questão que se coloca é a de que mesmo apresentando alguma evidência da existência de interações, estas não se mostraram fortes suficiente para projetar aqueles países para fora dos limites do Cluster 1. Países como Brasil, México, Índia, África do Sul e China, cujos sistemas de inovação podem ser classificados como imaturos (ALBUQUERQUE, 2003), embora apresentem algum destaque em termos do tamanho de suas economias, não se mostraram capazes de transformar suas bases de ciência e tecnologia a ponto de seguir uma trajetória semelhante à Coréia e Taiwan. O caso do Brasil é ainda mais ilustrativo. Com 12,54 artigos (pmh) e 0,19 patentes (pmh) em 1980 contra 58,73 artigos (pmh) e 0,57 patentes (pmh) em 2000, não apenas o 68 país se manteve preso no Cluster 1, como se viu ultrapassado, nas últimas décadas, por países que já estiveram na sua retaguarda, como por exemplo Coréia do Sul na década de 1960, e notadamente transpuseram a fronteira do Cluster 1. Houve, contudo, um avanço na sua posição relativa. Em 1980 as médias para artigos (pmh) e patentes (pmh) para os países que estavam dentro da região pertencente ao Regime II eram de 55,40 e 3,23, respectivamente, enquanto para 2000 estes valores eram de 91,90 e 1,85. No primeiro ano o Brasil apresentava 22,64% da média em artigos (pmh) e 6,10% em patentes (pmh), passando para 63,91% em artigos (pmh) e 31,11% em patentes (pmh), em 2000. Isto demonstra alguma evolução, principalmente em termos da produção científica, dado que a média de patentes (pmh) para os países do cluster em 2000 é quase a metade da observada em 1980. O que se destaca, entretanto, é a permanência de valores abaixo das médias do cluster em um período de 21 anos. 2.5.6 – Conclusões sobre a análise de cluster A partir da descrição dos dados e dos resultados da análise de cluster realizada, bem como as considerações apresentadas, três pontos devem ser observados. Em primeiro lugar, as seções precedentes, ao tratar da dinâmica de agrupamento dos países nos anos de 1980 e 2000, tornam possível o enquadramento daqueles elementos em um esquema de Regimes de interação entre a dimensão científica e a tecnológica. Desta forma, quando os países apresentam valor zero para o indicador de alguma das dimensões em questão, este estaria caracterizado como pertencente ao Regime I, onde as interações são praticamente inexistentes e o Sistema de Inovação pode ser classificado como rudimentar. Ao Regime II correspondem aqueles países pertencentes ao Cluster 1. Estes apresentariam um Sistema de Inovação imaturo, onde as interações são ainda fracas e não 69 são capazes de gerar uma dinâmica de feedbacks positivos. Por fim, ao Regime III atribuem-se os países acima da fronteira do Cluster 1, onde se verifica maior dinamismo, feedbacks positivos atuando em todas as direções, e o Sistema é dito maduro. Em segundo lugar, dada a movimentação de alguns países em direção a Regimes de interação mais avançados, em especial do Regime II para o Regime III, é licito pensar em um limite que estes tiveram que romper, em algum momento, para se integrarem ao grupo dos mais desenvolvidos tecnologicamente. Este capítulo sugere que esta fronteira seja dada tal como é mostrado nas Figuras 2.4 e 2.5, segundo os limites do Cluster 1 em cada ano. Finalmente, em terceiro lugar, uma vez que estejam definidos os Regimes de interação, e que tenha sido constatada a transição de alguns países para níveis superiores, cabe indagar por qual processo aqueles países puderam romper os limites da própria condição aproximando-se dos mais desenvolvidos. Da mesma forma, pode-se perguntar qual o mecanismo de sustentação dos países que permaneceram no Regime III. E, em complemento, qual o fator responsável pela estagnação de alguns países em Regimes de interação mais baixa? Como uma contribuição na busca dessas respostas, no próximo Capítulo as estatísticas de ciência e tecnologia serão avaliadas de outro ponto de vista. A investigação passa da abordagem cross-country para a intertemporal. 70 Capitulo 3 – Análise intertemporal: identificando um padrão polinomial de interação As questões levantadas ao final do capítulo anterior quanto à mudança dos países entre os clusters serão tratadas neste capítulo. O objetivo é focalizar individualmente, e ao longo do tempo, aqueles países que avançaram nos Regimes de interação, bem como alguns representantes do conjunto dos países que permaneceram no Regime II e também dos que já integravam o Regime III em 1980. 3.1 – Dos países que fizeram a transição A classificação dos países dentro dos Regimes de interação, feita no segundo capítulo, gerou três tipos de situações que merecem atenção. A primeira delas refere-se ao grupo de países que se encontrava dentro dos limites do Cluster 1 no ano inicial e que ultrapassaram sua fronteira em 2000 (Fig. 2.4 e 2.5). Os países desse grupo têm sido tratados como dinâmicos, dado o movimento que realizaram em direção aos países mais desenvolvidos em termos das infra-estruturas científica e tecnológica. A investigação da evolução dos indicadores de ciência e tecnologia para aqueles países dinâmicos começa pela observação do comportamento das patentes (pmh) e artigos (pmh) para cada país no período de 1980 a 2000. Nesse ponto, torna-se necessária a introdução de uma nova hipótese a respeito das infra-estruturas científica e tecnológica. Assim, não obstante o fato de existirem feedbacks mútuos entre estas duas dimensões, é útil considerar alguns pontos sobre o sentido de determinação das dimensões científica e tecnológica. Em primeiro lugar, considerando os argumentos apresentados no capítulo 1, na medida em que a pesquisa básica, intimamente relacionada à produção científica, norteia a 71 condução de pesquisas mais aplicadas e capacita as firmas a absorver e utilizar o conhecimento gerado externamente, enquanto participantes de uma rede de informações (ROSENBERG, 1990), o desenvolvimento cientifico deve ser visto como elemento chave no processo inovativo. Mais que isto, se as novas combinações ou inovações surgem a partir das condições preexistentes é razoável pensar que as chances do surgimento de novas combinações serão tanto maiores, quanto melhores forem estas condições. De outra forma, considerando os custos envolvidos no processo de inovação, e sendo a aquisição e produção do conhecimento responsável por parte destes custos, deve-se ter em conta que o custo de ampliação do conhecimento será tanto menor quanto maior for o conhecimento acumulado, disponibilizado publicamente (PEREZ e SOETE, 1988) e, potanto, quanto maior for a capacitação cientifica (DOSI, FREEMAN e FABIANI, 1994). Em segundo lugar, existem questões objetivas a serem investigadas. Nesse sentido, retomar o debate sobre a direção de causalidade entre ciência e tecnologia pode levar a uma armadilha sem solução, enquanto a investigação da simultaneidade, ou mútua determinação, entre estas duas dimensões apresenta-se inviável, dada a ausência de informações disponíveis, em particular ao longo do tempo, e a natureza própria do presente trabalho. Assim, assumindo a dinâmica interativa, fortemente enfatizada na literatura neoschumpeteriana, conforme o Capítulo 1, pode-se destacar o papel da infra-estrutura científica, indicando que esta deve alcançar um certo tamanho (massa crítica) antes de se credenciar para participar das interações com a tecnologia. Ou seja, não está sendo sugerida uma relação unidirecional, seguindo da ciência para a tecnologia, mas sim discutido um pressuposto, qual seja, o de que a infra-estrutura precisa atingir um determinado tamanho para interagir, ou para desempenhar seu papel nas interações discutidas. 72 Assim, esse capítulo toma a dimensão científica como variável de escolha, ou seja, sugere-se ser necessária a ação dos países para passar ao grupo de maior desenvolvimento das interações, o que no contexto atual envolve o melhoramento de sua base científica em todos os seus aspectos. Em decorrência disso, a dimensão tecnológica é tomada como “resultante”, em parte, pois depende das transformações experimentadas na infra-estrutura científica dos países ao longo do tempo. Essa discussão é simplificada e objetivamente resumida na expressão 3.1, onde a dimensão tecnológica, medida em patentes por milhão de habitantes (P*), é dada como uma função da dimensão científica, medida em artigos por milhão de habitantes (A*). P * = f ( A* ) (3.1) O corte representado pela expressão acima permite a construção dos gráficos de P* versus A*, como apresentado na Figura 3.1. Essa figura envolve os países que transpuseram a fronteira do Cluster 1, conforme discutido na seção 2.5.2. A observação destes gráficos leva, inicialmente, ao reconhecimento de quatro pontos. O primeiro é de que todos os países, apresentam correlação positiva, na relação entre patentes e artigos, à exceção de Luxemburgo. O segundo ponto refere-se aos diferentes níveis dos indicadores apresentados pelos países. Alguns, como a Coréia, começam o período com valores bastante próximos de zero em ambos indicadores, enquanto outros como a Itália partem de um ponto mais alto. Isto sugere que a relação entre ciência e tecnologia, ao menos para estes países, independe, à primeira vista, do nível de seus indicadores. Em terceiro, como a Figura 3.2 ajuda a perceber, os países apresentaram variações positivas na produção científica ao longo do período. Em outras palavras, à exceção de Luxemburgo, cujo comportamento dos indicadores parece não seguir padrão algum (Fig. 3.1 e 3.2), pode-se dizer que houve crescimento sistemático da produção científica dos 73 países, mesmo que em alguns anos alguns países tenham apresentado uma variação negativa, como a Irlanda por exemplo,. Isto é importante na medida em que a correlação positiva, visualmente verificada, pode ser tomada como uma tendência no tempo e as relações entre artigos científicos e patentes passam a ter uma dimensão temporal. Em quarto, a relação entre patentes e artigos para a maioria dos países apresenta trechos em que a produção tecnológica parece responder mais lentamente, e por vezes até negativamente, às variações sucessivas da produção científica, para em seguida iniciar um novo período de variações mais que proporcionais. Além disso, dada a constatação anterior de que esse é um processo ao longo do tempo, o caso da Coréia do Sul (FIG. 3.1), em especial, sugere que os intervalos de maior e menor sensibilidade das patentes ao aumento nos artigos se alternam ao longo do caminho. Este padrão de comportamento é, certamente, o ponto mais rico em termos das possibilidades de análise da dinâmica científica e tecnológica dos países. Os casos de Taiwan e Singapura, antes de fugirem ao padrão identificado, apontam para duas considerações adicionais a respeito de tal padrão. Primeiro, abstraindo-se os pontos referentes a 1999 e 2000, que parecem ser anomalias dentro da trajetória de Taiwan, dado que o número de patentes está muito abaixo do observado para 1998 enquanto a variação dos artigos nesses anos foi positiva, seu comportamento leva a considerar que, pelas características próprias do sistema, este transitou de forma mais suave entre os trechos de maior e menor sensibilidade. A comparação com outros países, Irlanda, por exemplo, cujo processo foi mais acentuado, demonstra também que a transição pode ser mais ou menos lenta, ou seja, o intervalo de baixa produtividade da produção científica pode ser maior ou menor de acordo com o país em questão. 74 Patentes por milhão de habitantes FIGURA 3.1 P* x A* para paiíses que fizeram a transição entre o Regime II e Regime III: 1980 – 2000 Artigos por milhão de habitantes Fonte: ISI (2002); USPTO (2002); Banco Mundial (2002) – Elaboração propria Em segundo lugar, uma vez que Singapura não sugere qualquer intervalo de transição visualmente evidente, resta considerar a possibilidade de que o horizonte de tempo em que a análise é realizada, 21 anos entre 1980 e 2000, não seja suficiente para captar as oscilações no processo de desenvolvimento da base tecnológica, dado o desenvolvimento da base científica. Esta questão torna-se tanto mais importante quando é observado o caso da Coréia do Sul, onde é possível perceber a existência de mais de um intervalo de transição. 75 Variação em artigos por milhão de habitantes FIGURA 3.2 Variação anual da produção científica: 1980-2000 Ano Fonte: ISI (2002); USPTO (2002); Banco Mundial (2002) – Elaboração propria O caso de Luxemburgo, leva a considerar de outra forma a relação entre a dimensão temporal e a existência do padrão de comportamento entre ciência e tecnologia verificado para os outros países. Mais uma vez, enquanto os outros países demonstram um crescimento sistemático na produção científica e ao mesmo tempo uma correlação positiva entre os indicadores, seguindo um padrão sinuoso, Luxemburgo apresentou grandes variações negativas na produção científica intercalando as variações positivas, sobretudo a partir do final da década de 1980, e ao mesmo tempo não exibiu nenhuma correlação ou padrão de comportamento entre a produção científica e tecnológica. Isto sugere que não apenas a correlação, ou tendência, positiva entre artigos e patentes está fortemente relacionada com a evolução da base científica no tempo, como também o padrão de 76 comportamento, existindo períodos em que a produção tecnológica responde mais lentamente à científica, também depende do comportamento da produção científica ao longo do tempo. 3.2 – Dos países do Regime III Para vários países que estiveram acima da fronteira do Cluster 1, tanto em 1980 quanto em 2000, pode ser verificado o mesmo padrão de comportamento daqueles que romperam os limites do Cluster 1, com algumas exceções. A Figura 3.3 apresenta os gráficos para tais países12. As considerações feitas na seção anterior também são válidas aqui. Desta forma, pelo menos Austrália, Dinamarca, França, Finlândia, Israel, e Japão sugerem, visualmente, o mesmo padrão de comportamento. A relação entre as dimensões em análise surge como fator importante não apenas no processo de transição de um Regime de interações para outro, como também para a sustentação do desenvolvimento alcançado. Além disso, torna-se cada vez mais aceitável que o quadro apresentado para os 21 anos em estudo corresponde apenas a parte de um processo mais amplo e de origem mais remota e que, possivelmente se estende tanto para períodos anteriores, quanto para períodos seguintes. 12 O gráfico para a Alemanha é apresentado a titulo de informação, dado que o processo de unificação que o país enfrentou acaba por gerar uma descontinuidade nos indicadores ao longo do tempo, impossibilitando uma análise nos moldes deste trabalho. Na Figura 3.3 as patentes são como fornecidas pelo USPTO, onde é reportado apenas Alemanha sem referências ao processo de unificação, enquanto os artigos são referentes à soma do total da Alemanha Oriental e Ocidental, conforme informado pelo ISI. 77 Patentes por milhão de habitantes FIGURA 3.3 P* x A* para países líderes: 1980 – 2000 Artigos por milhão de habitantes Fonte: ISI (2002); USPTO (2002); Banco Mundial (2002) – Elaboração propria 78 Os países que não se encaixam, à primeira vista, ao padrão identificado sugerem maiores considerações, em especial, os Estados Unidos, cuja posição hegemônica o diferencia dos demais. Assim, dado o tamanho e o dinamismo atribuído ao Sistema de Inovação desse país, é razoável pensar que o intervalo de tempo analisado não seja suficiente para captar um comportamento tal como verificado para outros países. Uma possível explicação é a diversidade de disciplinas científicas e setores industriais nos quais o país apresenta vantagens comparativas. Isto estaria, de certa forma, atuando em um sentido contrário ao da especialização. Além do mais, é reconhecida a capacidade do país em absorver conhecimento e interagir com outros países, seja através da imigração, seja através de suas grandes corporações multinacionais, o que, de fato, tende a tornar mais difícil capturar as complexas relações existentes entre os elementos de seu Sistema de Inovação. Quanto aos demais países, o grau de amadurecimento de seus Sistemas de Inovação sugere questões semelhantes às levantadas para os Estados Unidos. Porém, é possível que, neste caso, a ausência do padrão referido anteriormente esteja relacionado a uma aguda especialização, pelo menos para uma parte do conjunto. Em adição, deve-se considerar que alguns países apresentam o referido comportamento em um dado intervalo amostral, como parece ser os casos da Suécia e Canadá. Tanto quanto para o conjunto de países abordados na seção anterior, é necessário aqui fazer referência à dimensão tempo. A Figura 3.4 mostra as variações anuais na produção científica dos países em questão ao longo do tempo. Mais uma vez, é possível notar para um número deles, variações positivas em artigos para a maioria dos anos em análise, representando um crescimento sistemático da produção científica e sugestivo desenvolvimento da infra-estrutura da ciência. Notadamente, os mesmos países (Austrália, Dinamarca, França, Finlândia, Israel e Japão) para os quais se observa visualmente o 79 padrão encontrado na seção precedente, mostram variações positivas, sobretudo durante a década de 1990. De fato, é preciso reconhecer que outros países, dos quais não se apreende um padrão evidente, também aumentaram sistematicamente a sua produção científica. Contudo, antes de negar a validade do que foi discutido até aqui, isto leva a uma outra observação. Na verdade, o desenvolvimento da infra-estrutura científica, capturada pelo crescente volume da produção de artigos por milhão de habitantes, apresenta indícios de ser um elemento necessário, mas não suficiente, à existência de um padrão de comportamento para a produção tecnológica, em especial um padrão como o sugerido nesse trabalho. Um último comentário é para o caso do Japão, que representa o processo de chatching up mais bem sucedido, dado que este é o país com características mais próximas do líder Estados Unidos, como mostrado na FIG. 2.3. O fato de o Japão ter apresentado o mesmo padrão identificado para os países que transpuseram a fronteira do Cluster 1, e dada sua proximidade com os Estados Unidos, reforça o papel das relações entre a infraestrutura científica e a tecnológica, também na sustentação do desenvolvimento alcançado. 80 Variação em artigos por milhão de habitantes FIGURA 3.4 Variação anual da produção científica: 1980-2000 Ano Fonte: ISI (2002); USPTO (2002); Banco Mundial (2002) – Elaboração propria 81 3.3 – Dos países que permaneceram no Cluster 1 A tentativa de identificar padrões de comportamento no conjunto dos países que permaneceram no Regime II levou a algumas considerações importantes. Inicialmente, em geral, os países pertencentes ao Regime II em 2000 não apresentaram qualquer relação mais evidente entre os indicadores de ciência e tecnológica, com a clara exceção de Brasil e China, cujos gráficos são apresentados na Figura 3.5, juntamente com os outros países com Sistemas de Inovação “Imaturos” (ALBUQUERQUE, 2003) México, Índia e África do Sul, que inspiraram maior atenção, dado que apresentam simultaneamente características de desenvolvimento e subdesenvolvimento. Isto sugere que a precariedade de uma, ou de ambas, as dimensões consideradas, uma vez que se reflete no nível dos indicadores, dificulta a construção de uma relação visualmente mais clara e persistente entre tais dimensões. Um argumento possível para explicar fatos como esse, consiste em considerar o surgimento de uma produção científica e tecnológica que se mantenha, mesmo que precariamente, ao longo do tempo, o que parece ser suficiente para levar um país inicialmente do Regime I (fora da análise de cluster) para o Regime II (Cluster 1), porém, não é o bastante para impulsioná-lo para além da fronteira. Desta forma, pode-se tomar a construção ou consolidação de relações mais estáveis entre a base científica e a tecnológica como fator necessário à transposição dos limites superiores da região delimitada pelo Cluster 1. Contudo, uma questão permanece. Tendo Brasil e China apresentado uma relação que segue o mesmo padrão de países que avançaram entre os Regimes, e de países já pertencentes ao Regime III em 1980, o que faz com que estes ainda se encontrem abaixo da fronteira? Isto leva a considerar que, embora esta relação constitua fator necessário não 82 é, por si só, suficiente para a transição entre grupos. Uma possível explicação para tal insuficiência será apresentada nas seções seguintes. Patentes por milhão de habitantes FIGURA 3.5 P* x A* para países de Sistema de Inovação imaturo: 1980 – 2000 Artigos por milhão de habitantes Fonte: ISI (2002); USPTO (2002); Banco Mundial (2002) – Elaboração própria Quanto à questão do desenvolvimento científico no tempo, este surge aqui com maior força. Observando a Figura 3.6 percebe-se que tanto Brasil quanto China experimentaram um crescimento sistemático na produção científica. Embora o Brasil tenha apresentado variações negativas, principalmente no começo do período, tais variações não 83 comprometem a hipótese de crescimento sistemático, dado o nível destas variações e a freqüência com que ocorreram. Já o caso da China não deixa dúvidas de que a produção científica cresceu continuamente nestes 21 anos. Entre os demais países, Índia e África do Sul mostram um comportamento bastante irregular da produção científica no tempo, com muitos períodos de crescimento negativo sem qualquer seqüência de crescimento. Para o México, porém, a idéia de aumento sistemático da produção científica é aceitável (na verdade é bastante similar ao Brasil), em particular para a década de 1990. Contudo, este crescimento na base científica não levou o país a apresentar uma relação mais definida entre ciência e tecnologia no período em análise. Variação em artigos por milhão de habitantes FIGURA 3.6 Variação anual da produção científica: 1980-2000 Ano Fonte: ISI (2002); USPTO (2002); Banco Mundial (2002) – Elaboração propria 3.4 – Tratamento analítico do padrão de interação Dado o padrão identificado na relação entre artigos e patentes para países líderes, países que permaneceram no Cluster 1 e países que fizeram a transição entre os Regimes II 84 e III, torna-se possível estabelecer uma forma explicita para a expressão 3.1, com vistas a tratar de maneira mais rigorosa a dinâmica dos países em termos das dimensões científica e tecnológica. Assim, admitindo que a Figura 3.7 representa graficamente o padrão encontrado, a expressão 3.1 pode ser explicitada na forma da equação 3.2. ( ) P * = f A* = aA* + bA*2 + cA*3 + D (3.2) onde c > 0. O polinômio de terceiro grau dado na expressão acima será a representação algébrica do padrão exibido pelos países desde que o coeficiente do termo cúbico seja positivo. Assim, estarão representadas tanto a correlação positiva, já esperada, entre as duas dimensões como também a sinuosidade observada. FIGURA 3.7 Representação da função de 3º grau f ( A* ) A* Para melhor compreender as implicações de uma relação como a da equação 3.2 torna-se mais apropriado o uso da derivada de primeira ordem desta função, dada pela expressão 3.3 e representada na Figura 3.8. f ¢( A* ) = a + 2bA* + 3cA*2 (3.3) 85 Como c é positivo, d 3 f ( A* ) dA*3 * = 6c é positiva e logo, f ′( A ) é uma parábola de concavidade voltada para cima com um ponto mínimo em A* = − b . Dada a impossibilidade de uma 3c medida negativa para a produção de artigos, uma outra condição para que este esquema represente a relação entre ciência e tecnologia é que b assuma apenas valores negativos. De fato, a descoberta do ponto L na Figura 3.9 é a principal contribuição desta seção, e deve ser mais bem explorada. Considerando que f ′( A* ) dá a variação experimentada em P* à medida que A* aumenta sucessivamente, aos pontos à esquerda de L correspondem variações cada vez menores em patentes até que o ponto mínimo seja alcançado. Uma vez que o total de artigos tenha superado o mínimo L, o sistema entra em um intervalo onde às alterações em artigos correspondem variações cada vez maiores em patentes. FIGURA 3.8 Representação da primeira derivada da função de 3º grau f ′( A * ) L A* Desta forma, por um lado, o sistema tenderia a não se aproximar, ou a aproximar-se lentamente, do ponto L onde o ganho adicional em aumentar a produção científica é mínimo. Por outro lado, ao ultrapassar L o sistema ganharia maiores condições de manter o crescimento tanto da infra-estrutura científica quanto tecnológica e esforços adicionais para sustentar e elevar a produção científica não seriam tão intensamente requeridos. Fala-se 86 aqui de esforços adicionais, supra-esforços, que devem compensar a perda de incentivos experimentada em pontos mais baixos, devendo ser evitadas quaisquer conclusões em direção a uma auto-suficiência do sistema. Por fim, o caso da Coréia do Sul, apresentado na Figura 3.1, sugere que os países passam por sucessivos pontos críticos, como o ponto L ao longo do processo de desenvolvimento tecnológico. Mais ainda, tais pontos correspondem a níveis de indicadores cada vez mais altos para as duas dimensões. Desta forma, é possível esquematizar o processo de desenvolvimento de cada país como mostra a Figura 3.9, onde o seguimento em negrito corresponde à curva da Figura 3.8. e A*0 e A*1 são pontos de inflexão demonstrando que para A0* < A* < L o sistema enfrenta variações decrescentes na produção tecnológica dados os aumentos na produção científica, enquanto L < A* < A1* corresponde a um intervalo de variações crescentes. Admitindo a sucessão entre estes intervalos, ao ultrapassar o ponto A*1 o sistema voltaria a demandar esforços adicionais a fim de sustentar o desenvolvimento tecnológico e científico. FIGURA 3.9 Sucessão dos intervalos de maior e menor sensibilidade g ( A* ) A*0 L A*1 A* 87 3.5 – Do tratamento econométrico Esta seção tem um objetivo simples e direto que é apresentar alguns indícios, não provas, estatístico-econométricos da validade do padrão polinomial discutido nas seções anteriores e resumido na expressão 3.2. Desta forma, para os países focalizados nas seções 3.1 a 3.3, seguiu-se o modelo apresentado na expressão 3.4, com vistas a estimar a equação 3.2. P * = β 0 + β 1 A* + β 2 A*2 + β 3 A*3 + ε (3.4) É preciso lembrar que se conta apenas com 21 observações para cada países, o que sugere maior cuidado ao avaliar os resultados dos testes realizados. Contudo, se o número de observações, por um lado, é inferior ao desejado, por outro, corresponde ao conjunto de informações disponíveis e razoavelmente consistentes para tal tipo de análise. A Tabela 3.1 apresenta os resultados da estimação do modelo 3.4 por mínimos quadrados ordinários (MQO). São apresentados os níveis de significância dos parâmetros estimados, bem como os testes para a verificação da validade destes parâmetros dentro do modelo proposto. Assim, em um nível de significância de 5%13, o teste de Breush-Pagan (GREENE, 2000) sugere a não rejeição da hipótese de variância constante, permitindo considerar válidos os desvios-padrão dos coeficientes e os testes de significância a partir da estimação por MQO para o conjunto de países que fizeram a transição do Regime II para o Regime III (Espanha, Hong Kong, Irlanda14 e Itália), para os que se encontravam no Regime III em 1980 e 2000 (Austrália, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, França, Holanda, Israel, 13 Este o valor usual para níveis de significância, mas, como a própria Tabela 3.1 mostra, alguns valores apresentam significância mesmo à 1%, enquanto que, com alguma restrição ainda pode-se aceitar níveis de 10%. 14 De fato, o p-valor de 0,0516 não sugere a rejeição da hipótese de homocedasticidade em nível de 5%, porém, dada a proximidade com o valor limite deve-se ter maior cuidado ao avaliar este resultado, em relação aos demais países do grupo. 88 Japão, Noruega, Nova Zelândia, Reino Unido, Suécia e Suíça) e, finalmente, para os países que permaneceram no Regime II (África do Sul, Brasil, China, Índia e México). TABELA 3.1 Resultados econométricos 1 da estimação por MQO do modelo 3.4 para países selecionados (1980-2000) 0,1114 0,1467 0,3010 1,8086 + 0,7909 * 0,8893 0,7432 1,4103 + 0,6514 * 0,4255 0,8842 1,0755 3,1400E-07 0,9449 * 0,7265 0,3157 1,8122 + ** 0,8704 * 0,7307 0,3892 2,4004 + 0,7550 * 0,3009 0,0010 0,8061 ? 0,8819 * 0,4635 0,2182 0,99311 # -9,2100E-07 0,9713 * 0,5949 0,0000 1,5803 *** 0,8999 * 0,1068 0,3390 2,5962 * 0,9317 * 0,8746 0,1009 2,3588 0,7539 * 0,3948 0,0015 1,0690 ? 0,2765 0,8513 1,3116 ? β0 África do Sul 21 41,1114 -1,4208 0,0173 -6,8400E-05 21 -459,8154 * 1,9757 * -0,0027 * 1,1900E-06 * -233,2329 * 1,5596 * -0,0028 * 1,6800E-06 * Áustria 21 β2 Breusch-Pagan Teste para Heterocedasticidade p-valor N Austrália β1 Teste de normalidade dos resíduos p-valor País 2 21 -35,8101 Brasil 21 -0,3791 Canadá 21 772,8434 -2,7690 0,0033 -1,2500E-06 21 * * * * China -0,2079 0,0579 0,0147 -0,0015 ** -0,0010 ** 0,0005 1,3700E-05 0,0000277 Coréia do Sul 21 -0,9808 Dinamarca 21 -124,0952 0,5103 -0,0006 Espanha 21 -2,2357 ** * * Estados Unidos 21 5923,1320 -24,7735 0,0346 -1,5600E-05 21 *** ** *** *** Finlândia -173,8375 * França 21 -615,1697 Holanda 21 -171,6307 0,2110 * -0,0005 R 2 Adj Bélgica ** 0,2974 β3 0,0545 0,6716 3,4246 0,9310 * ** * -0,0002 -0,0007 -0,0058 -0,0012 * *** 1,8900E-07 2,6200E-07 + 0,9273 * 0,8512 * 0,7691 0,5688 1,8532 *** 0,4286 * 0,5896 0,3070 1,1125 ** 0,9228 * 0,2149 0,1198 2,3630 0,4918 * 0,0004 0,0785 1,2354 + ? + 21 0,1839 0,0739 Índia 21 6,9303 -1,2738 0,0762 -1,4610E-03 Irlanda 21 -107,1258 * * * * 0,8517 * 0,6002 0,0516 1,8754 Israel 21 -1504,1590 3,5994 -0,0029 7,8000E-07 0,8367 * 0,3901 0,3924 0,7963 # Islândia 21 0,9230 0,0264 -1,3E-05 1,94E-08 0,3667 0,0334 0,0013 0,9126 # Itália 21 -35,4741 ** 0,5020 * -0,0015 * 1,4300E-06 * 0,7582 * 0,6825 0,1242 1,1296 ? Japão 21 -581,9029 * 5,3346 * -0,0130 * 1,0900E-05 * 0,9524 * 0,4505 0,4048 1,7583 + México 21 0,7616 * -0,0231 0,0002 6,1000E-06 0,6343 * 0,8699 0,3282 1,5366 + -256,7608 *** ** ** 0,7738 * 0,6255 0,4639 1,2730 6,7900E-08 0,8038 * 0,6763 0,7149 1,7099 * 0,6045 * 0,7214 0,3577 1,2629 ? 1,7400E-08 0,9701 * 0,1074 0,0001 2,7140 ? 5,5200E-07 ** 0,6928 * 0,1331 0,0650 1,0503 ? Suíça 21 3,6000E-07 ** 0,4717 * 0,0462 0,0762 1,5453 + Taiwan 21 21,2475 0,2424 0,0032 -6,2500E-06 1) Resultados obtidos a partir do pacote Stata 7.0 2) Países selecionados em ordem alfabética 3) H0: Ausência de correlação serial *) Significativo a 1% **) Significativo a 5% ***) Significativo a 10% +) Não rejeição de H0 a 1% ?) Dentro da região de indeterminação #) Dentro da região de rejeição de H0. 0,8762 * 0,0002 0,0000 2,3136 + Noruega 21 Nova Zelândia 21 Reino Unido 21 82,2967 -466,9896 ** Singapura 21 -0,7889 Suécia 21 -455,5206 Notas: Fonte: -458,8847 1,2005 -0,1609 1,9346 * 0,0216 1,7029 1,6723 ** *** -0,0008 -0,0017 4,10E-06 -0,0024 * 3,15E-06 -0,0017 ** -0,0014 ** 1,4900E-07 ? + * 3,2400E-06 5,4700E-07 ? Hong Kong 0,5438 -0,0002 ** 2,2000E-07 Estatística d De Durbin-Watson 3 3,9800E-07 8,1100E-07 9,7700E-07 ? + ? + ISI (2002); USPTO (2002); Banco Mundial (2002) – Elaboração própria 89 Além disso, o teste para autocorrelação de Durbin-Watson15 (GREENE, 2000) também aponta para a validade dos resultados para um número considerável de países. Assim, países que passaram do Regime II para o Regime III (Coréia do Sul, Espanha, Hong Kong, Irlanda e Taiwan), países que pertencem ao Regime III (Austrália, Bélgica, França, Japão, Nova Zelândia e Suíça) e os que permaneceram no Regime II (África do Sul, Brasil e México) não tiveram a hipótese de ausência de autocorrelação rejeitada pelo teste de Durbin-Watson. Ao comparar os resultados dos testes de heterocedasticidade e autocorrelação com os testes tradicionais de significância dos parâmetros, chega-se a um conjunto de países os quais podem ser considerados como apresentando bons resultados econométricos. Estes países são: França, Austrália e Japão (no Regime III), Espanha, Hong Kong e Irlanda (que passaram do Regime II para o Regime III) e Brasil (pertencente ao Regime II). Como a estimação por MQO na presença autocorrelação gera estimadores consistentes e não viesados, porém, não eficientes, soma-se ao grupo acima a Itália, país importante dentro da análise por ter feito a transição do Regime II para o Regime III, e a Finlândia, que apresentou visualmente o padrão, cujas estatísticas d de Durbin-Watson reportaram, em ambos os casos, um resultado indeterminado. Isto deve-se ao fato de que os testes de significância dos parâmetros apontaram para a validade destes últimos, mesmo com intervalos de confiança mais amplos, enquanto o teste de Breush-Pagan não rejeitou a hipótese de homocedasticidade. Por fim, os resultados comprovam o que já era esperado em termos dos sinais dos coeficientes dos termos quadrático e cúbico, onde estes deveriam ser necessariamente menor e maior que zero, respectivamente. 15 Estritamente, ao utilizar a estatística d de Durbin-Watson considera-se apenas a possibilidade de autocorrelação de primeira ordem. 90 Este exercício de econometria, embora simples e com os devidos cuidados quanto ao número de observações, permite algumas inferências bastante úteis. Primeiramente, cumpre seu objetivo de fornecer argumento estatístico em favor da forma funcional 3.2 para descrever o comportamento das infra-estruturas científica e tecnológica para, ao menos, parte dos países em análise neste capítulo no período de 1980 a 2000, sobre tudo para Brasil, Espanha, Finlândia, França, Hong Kong, Austrália, Irlanda, Itália e Japão, que já apresentavam visualmente o padrão polinomial. Em segundo lugar, de posse dos coeficientes estimados para os termos da expressão 3.2, pode-se chegar ao valor mínimo da função 3.3. Desta forma, a Tabela 3.2 apresenta os valores de A* correspondentes ao ponto L da Figura 3.8 para os países com melhores resultados na estimação (grupo acima), o que permite fazer algumas considerações sobre a dinâmica do desenvolvimento das interações. Dos países apresentados na Tabela 3.2, apenas o Brasil encontra-se dentro do Cluster 1, como mostrado no capítulo 2. Não apenas isto, o país também apresenta o menor valor para o ponto L, mostrando que sua curva encontra-se à esquerda das demais, o que caracteriza sua condição enquanto pertencente ao Regime II, onde as interações entre ciência e tecnologia não estão plenamente desenvolvidas. Aceitando a hipótese de existência de sucessivos pontos como L, o caso do Brasil aponta para uma importante conclusão deste capitulo, qual seja, a de que uma das possíveis causas do lento desenvolvimento em ciência e tecnologia decorre da timidez com que os países avançam na produção científica e dos baixos esforços feitos para superar os períodos de baixa produtividade da ciência em termos da produção tecnológica. 91 TABELA 3.2 Valores de L e variações anuais médias da produção científica para os países que apresentaram bons resultados econométricos. Média da variação Média da variação País L Ano até o mínimo acima do mínimo Brasil 36,84 1996 1,55 5,34 Espanha 304,23 1994 16,06 33,90 França 597,44 1994 13,80 28,18 Hong Kong 353,46 1995 12,17 82,40 Austrália 564,66 1994 14,38 38,93 Irlanda 673,53 1995 17,60 58,75 Finlândia 872,77 1993 31,10 64,18 Itália 343,61 1993 15,38 22,81 Japão 396,79 1994 14,14 25,13 Fonte: ISI (2002); USPTO (2002); Banco Mundial (2002) – Elaboração própria A Tabela 3.2 ajuda também a avaliar a suposição de que existem, de fato, intervalos onde os incentivos a aumentar a produção científica, dados pelos retornos em termos de tecnologia, são decrescentes. Observando os valores para o ponto mínimo L, pode-se calcular o ano em que o número de artigos por milhão de habitantes de cada país mais se aproxima deste valor. Assim, demonstra-se que os países alcançaram seu ponto de mínimo em anos diferentes e que, invariavelmente, eles têm permanecido mais tempo à esquerda de L que à sua direita, dado o período de análise. Some-se a estas evidências o fato de que a média das variações em A* no período anterior ao ponto mínimo é menor que no período seguinte, fortalecendo a idéia de que os países enfrentam situações como a representada na Figura 3.8. Finalmente, cabe investigar as hipóteses de que os intervalos de maior e menor produtividade da base científica, em termos da produção tecnológica, se alternam sucessivamente ao longo do tempo e de que em algum momento estes países enfrentam tal situação. Para avançar neste sentido, são tomados dois casos importantes, Coréia do Sul e Taiwan, na medida em que constituem processos reconhecidamente bem sucedidos de catching up e, como mostrado na seção 2.5.2, passaram de um Regime de interações menos desenvolvidas para um mais desenvolvido. Desta forma, limitando o estudo da Coréia do Sul ao período de 1988 a 1998 e de Taiwan ao período de 1980 a 1995, as 92 informações apresentadas na Tabela 3.3 mostram que é possível obter resultados econométricos tão bons (significância dos parâmetros, alto R2 e bom desempenho nos testes) quanto os obtidos para países bem colocados na Tabela 3.2 (Brasil, Espanha, Finlândia, França, Hong Kong, Austrália, Irlanda, Itália e Japão), embora para o caso presente deva-se ter maior cuidado sobre estes resultados, dado o número de observações ainda mais reduzido. TABELA 3.3 Resultados econométricos 1 País 2 N Coréia do Sul 4 11 Taiwan 5 16 β0 β1 β2 β3 R 2 Adj Teste de normalidade dos resíduos p-valor Breusch-Pagan Teste para Heterocedasticidade p-valor Estatística d De Durbin-Watson 3 -14,7176* 0,8498* -0,0065* 1,97E-05* 0,9972* 0,5420 0,1006 1,6564+ -0,352557 * ** ** * 0,2243 0,6073 1,8523+ 1,0348 -0,0028 5,71E-06 0,9953 Notas: 1) Resultados obtidos a partir do pacote Stata 7.0 2) Países em ordem alfabética 3) H0: Ausência de correlação serial 4) Período 1988 a 1998 5) Período 1980 a 1995 *) Significativo a 1% **) Significativo a 5% ***) Significativo a 10% +) Não rejeição de H0 a 1% ?) Dentro da região de indeterminação #) Dentro da região de rejeição de H0. Fonte: ISI (2002); USPTO (2002); Banco Mundial (2002) – Elaboração própria Este bom desempenho de Coréia do Sul e Taiwan em relação aos testes de autocorrelação, heterocedasticidade e significância dos parâmetros estimados tem uma outra implicação em termos da tipologia dos Sistemas de Inovação. Isto é, dos oito países que fizeram a transição do Regime II para o Regime III (FIG. 3.1), seis (Coréia do Sul, Espanha, Hong Kong, Irlanda, Itália e Taiwan) podem ser considerados como apresentando o padrão polinomial de terceiro grau, com as implicações mostradas na seção 3.4, porém, agora com alguma evidência estatística. Fora deste grupo restam apenas Singapura e Luxemburgo, o primeiro provavelmente devido ao período em análise, 1980-2000, não ser suficiente para a identificação de algum padrão semelhante aos demais, enquanto o segundo, de fato, não mostra nenhum indício de relação mais consistente entre a base científica e tecnológica. 93 3.6 – Distribuição espacial das atividades científicas e tecnológicas: o caso brasileiro É necessário entender o caso brasileiro como exceção dentro do Regime II. Para tanto, as tabelas 3.4 a 3.7 apresentam em maior detalhe informações sobre a produção científica de Brasil, México, Índia e África do Sul, respectivamente. Da mesma forma, as tabelas 3.8 a 3.11 mostram a produção tecnológica desses países, na mesma ordem. A comparação das distribuições espaciais de artigos e patentes para estes quatro países fornece uma informação importante. Apenas no caso do Brasil, o estado que concentra a produção científica é o mesmo que concentra a produção tecnológica. Observa-se que, embora tenha diminuído o percentual entre 1973 e 2000, São Paulo concentra 41,85% da produção científica para o Brasil neste último ano. O mesmo estado também concentra a produção tecnológica do país, em nível próximo ao da concentração científica, com 40,38% do total de patentes entre 1981 e 2001. Este padrão de concentração não é verificado nos outros três países. A produção científica do México é concentrada no Distrito Federal, com 51,05%, enquanto a produção tecnológica é concentrada em Nuevo Leon, com 48,44% das patentes entre 1981 e 2001, ficando o Distrito Federal em segundo, com 23,26%. Para a Índia, que tem uma distribuição mais uniforme, a produção científica é concentrada em Uttar Pradesh, com 14,84%, seguido de Maharashtra, com 13,51%. Já a produção tecnológica da Índia é muito mais concentrada, possuindo Delhi 64,96% das patentes, seguida novamente por Maharashtra, com 11,97%. Finalmente, na África do Sul, 44,17% dos artigos em 2001 (este percentual era de 32,31 em 1973) estão em Western Cape e outros 31,41% estão em Gauteng (este percentual era de 48,38% em 1973). Esta posição é invertida para a produção tecnológica. Gauteng possui 66,35% das patentes entre 1981 e 2001, enquanto Western Cape tem apenas 7,33%, no mesmo período. 94 TABELA 3.4 Artigos no por estado ISI - Brasil Estado 1973 Artigos São Paulo Rio de Janeiro Minas Gerais Rio Grande do Sul Paraná DF Santa Catarina Pernambuco Ceará Bahia Pará Paraíba Rio Grande do N Amazonas 247 104 14 24 3 0 5 13 2 9 7 4 0 1 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 434 Goiás Espírito Santo Mato Grosso do S l Alagoas Mato Grosso Maranhão Piauí Sergipe Roraima Acre Rondônia Tocantins Amapá Total Total Brasil no ISI Mundo 526 410609 1975 % Artigos 1980 % Artigos 1990 % Artigos 1999 % Artigos % 56,91 322 53,05 763 48,02 1489 46,53 4703 41,85 23,96 141 23,23 362 22,78 667 20,84 1936 17,23 3,23 34 5,60 117 7,36 173 5,41 1113 9,90 5,53 33 5,44 82 5,16 181 5,66 746 6,64 0,69 15 2,47 20 1,26 91 2,84 541 4,81 0,00 2 0,33 51 3,21 93 2,91 329 2,93 1,15 1 0,16 11 0,69 75 2,34 320 2,85 3,00 25 4,12 65 4,09 89 2,78 277 2,47 0,46 6 0,99 21 1,32 37 1,16 193 1,72 2,07 18 2,97 40 2,52 67 2,09 177 1,58 1,61 4 0,66 18 1,13 41 1,28 131 1,17 0,92 3 0,49 12 0,76 35 1,09 122 1,09 0,00 0 0,00 6 0,38 19 0,59 123 1,09 0,23 0 0,00 5 0,31 33 1,03 113 1,01 0,00 1 0,16 4 0,25 35 1,09 103 0,92 0,23 1 0,16 4 0,25 14 0,44 88 0,78 0,00 0 0,00 0 0,00 21 0,66 74 0,66 0,00 1 0,16 3 0,19 6 0,19 39 0,35 0,00 0 0,00 1 0,06 24 0,75 25 0,22 0,00 0 0,00 0 0,00 2 0,06 23 0,20 0,00 0 0,00 0 0,00 0 0,00 20 0,18 0,00 0 0,00 4 0,25 3 0,09 15 0,13 0,00 0 0,00 0 0,00 0 0,00 14 0,12 0,00 0 0,00 0 0,00 4 0,13 4 0,04 0,00 0 0,00 0 0,00 1 0,03 4 0,04 0,00 0 0,00 0 0,00 0 0,00 4 0,04 0,00 0 0,00 0 0,00 0 0,00 0 0,00 100,00 607 100,00 1589 100,00 3200 100,00 11237 100,00 121,20 735 121,09 1526 96,04 3054 95,44 9668 86,04 94610,37 423258 69729,49 554597 34902,27 689625 21550,78 973286 8661,44 Fonte: ISI, 2000 – elaboração própria TABELA 3.5 Artigos no por estado ISI - México Estado Distrito Federal Morelos Puebla Baja California Jalisco Michoacan De Ocampo Guanajuato Queretaro De Arteaga Sonora Yucatan Veracruz-Llave Nuevo Leon San Luis Potosi Coahuila De Zaragoza Hidalgo Chihuahua Sinaloa Chiapas Zacatecas Quintana Roo Tamaulipas Colima Aguascalientes Durango Oaxaca Campeche Mexico Tabasco Tlaxcala Guerrero Nayarit Baja California Sur Total 1980 Artigos % 563 0 15 6 23 2 2 0 5 1 3 7 5 3 0 0 0 0 0 0 2 1 0 0 2 0 0 0 0 3 0 0 643 1990 Artigos % 2001 Artigos % 87,56 954 72,71 2740 51,05 0,00 40 3,05 440 8,20 2,33 46 3,51 315 5,87 0,93 44 3,35 236 4,40 3,58 30 2,29 169 3,15 0,31 8 0,61 167 3,11 0,31 20 1,52 166 3,09 0,00 1 0,08 144 2,68 0,78 20 1,52 121 2,25 0,16 14 1,07 112 2,09 0,47 20 1,52 102 1,90 1,09 37 2,82 89 1,66 0,78 15 1,14 73 1,36 0,47 9 0,69 67 1,25 0,00 8 0,61 61 1,14 0,00 1 0,08 60 1,12 0,00 6 0,46 48 0,89 0,00 14 1,07 45 0,84 0,00 3 0,23 30 0,56 0,00 5 0,38 28 0,52 0,31 3 0,23 24 0,45 0,16 0 0,00 21 0,39 0,00 1 0,08 18 0,34 0,00 2 0,15 17 0,32 0,31 2 0,15 14 0,26 0,00 1 0,08 13 0,24 0,00 0 0,00 10 0,19 0,00 1 0,08 10 0,19 0,00 4 0,30 9 0,17 0,47 1 0,08 7 0,13 0,00 0 0,00 7 0,13 0,00 2 0,15 4 0,07 100,00 1312 100,00 5367 100,00 95 Total México no ISI 671 104,35 1313 100,08 4801 89,45 Fonte: ISI, 2000 – elaboração própria TABELA 3.6 Artigos no por estado ISI - Índia 1975 Artigos % Estados Uttar Pradesh Maharashtra Delhi Karnataka Andhra Pradesh Tamil Nadu Kerala Gujarat Chandigarh Punjab Rajasthan Orissa Haryana Madhya Pradesh Bihar Assam Himachal Pradesh Pondicherry Goa Meghalaya Jammu and Kashmir Manipur West Bengal Sikkim Tripura Andaman and Nicobar Islands Arunachal Pradesh Mizoram Nagaland Subtotal Union Territories Dadra and Nagar Haveli Daman and Diu Lakshadweep Subtotal Total Total Índia no ISI 240 34 735 14 63 43 53 40 199 122 164 43 39 53 18 7 36 29 16 1 3 1 6 0 1 0 0 0 1 1733 0 0 0 228 1961 5991 12,24 1,73 37,48 0,71 3,21 2,19 2,70 2,04 10,15 6,22 8,36 2,19 1,99 2,70 0,92 0,36 1,84 1,48 0,82 0,05 0,15 0,05 0,31 0,00 0,05 0,00 0,00 0,00 0,05 88,37 0,00 0,00 0,00 0,00 11,63 100,00 305,51 1980 Artigos % 1828 265 1105 113 523 375 89 171 297 264 337 185 272 155 120 40 59 41 39 1 23 2 0 0 3 0 0 0 0 5969 0 35 0 373 6342 10326 28,82 4,18 17,42 1,78 8,25 5,91 1,40 2,70 4,68 4,16 5,31 2,92 4,29 2,44 1,89 0,63 0,93 0,65 0,61 0,02 0,36 0,03 0,00 0,00 0,05 0,00 0,00 0,00 0,00 94,12 0,00 0,00 0,55 0,00 5,88 100,00 162,82 1990 Artigos % 1313 371 1104 731 622 611 172 259 291 365 236 139 266 113 75 38 49 55 75 48 29 30 0 4 7 0 0 1 0 6658 0 0 0 346 7004 11234 18,75 5,30 15,76 10,44 8,88 8,72 2,46 3,70 4,15 5,21 3,37 1,98 3,80 1,61 1,07 0,54 0,70 0,79 1,07 0,69 0,41 0,43 0,00 0,06 0,10 0,00 0,00 0,01 0,00 95,06 0,00 0,00 0,00 0,00 4,94 100,00 160,39 2000 Artigos % 2009 1829 1727 1727 1309 1264 505 456 347 345 328 319 307 272 203 141 111 91 90 60 42 19 12 9 8 6 1 2 2 13097 0 0 0 444 13541 15982 14,84 13,51 12,75 12,75 9,67 9,33 3,73 3,37 2,56 2,55 2,42 2,36 2,27 2,01 1,50 1,04 0,82 0,67 0,66 0,44 0,31 0,14 0,09 0,07 0,06 0,04 0,01 0,01 0,01 96,72 0,00 0,00 0,00 0,00 3,28 100,00 118,03 Fonte: ISI, 2000 – elaboração própria TABELA 3.7 Artigos no por estado ISI - África do Sul Estados Western Cape Gauteng Kwazulu Natal Eastern Cape Free State North West Mpumalanga (Eastern Transvaal) Northern province Northern Cape Total Total "South Africa” no ISI 1973 Artigos 1980 % Artigos 1990 % Artigos 2001 % Artigos % 378 566 135 50 24 11 1 3 2 32,31 665 34,44 1115 38,29 1543 44,17 48,38 874 45,26 1121 38,50 1097 31,41 11,54 184 9,53 271 9,31 397 11,37 4,27 98 5,08 142 4,88 201 5,75 2,05 77 3,99 168 5,77 150 4,29 0,94 20 1,04 76 2,61 74 2,12 0,09 6 0,31 15 0,52 17 0,49 0,26 6 0,31 1 0,03 10 0,29 0,17 1 0,05 3 0,10 4 0,11 1170 100,00 1931 100,00 2912 100,00 3493 100,00 1172 100,17 1846 95,60 2776 95,33 3356 96,08 Fonte: ISI, 2000 – elaboração própria 96 TABELA 3.8 Distribuição estadual de patentes – Brasil (1981-2001) Estado Patentes São Paulo Río de Janeiro Santa Catarina NI Rio Grande do Sul Minas Gerais Paraná Pernambuco Distrito Federal Pará Bahia Total % 254 190 63 46 35 26 8 3 2 1 1 629 40,38 30,21 10,02 5,56 4,13 1,27 0,48 0,32 0,16 0,16 7,31 100,00 Fonte: USPTO (2002) TABELA 3.9 Distribuição estadual de patentes – México (1981-2001) Estado Nuevo León DF Estado de Mexico Queretaro Coahuila Jalisco Guanajuato Baja California San Luis Potosi Sinaloa Baja California Sur Tamaulipas Morelos Durango Colima Chihuahua Hidalgo NI Total Patentes % 202 97 35 30 14 12 10 4 3 2 2 1 1 1 1 1 1 33 450 48,44 23,26 8,39 7,19 3,36 2,88 2,40 0,96 0,72 0,48 0,48 0,24 0,24 0,24 0,24 0,24 0,24 7,91 100,00 Fonte: USPTO (2002) TABELA 3.10 Distribuição estadual de patentes – Índia (1981-2001) Estado Delhi Maharashtra Andhra Pradesh Gujarat Tamil Nadu Karnataka Uttar Pradesh West Bengal Uttaranchal Kerala Pune Orissa Barbados NI Total Fonte: USPTO (2002) Patentes % 304 56 27 18 17 15 10 8 2 2 1 1 1 6 468 64,96 11,97 5,77 3,85 3,63 3,21 2,14 1,71 0,43 0,43 0,21 0,21 0,21 1,28 100,00 TABELA 3.11 Distribuição estadual de patentes – África do Sul (1981-2001) Estado Gauteng Western Cape Kwa Zulu Natal Free State North West Mpumalanga Eastern Cape Northern Province Northern Cape Cape Province NI Total Fonte: USPTO (2002) Patentes % 688 76 40 21 11 8 3 1 1 1 187 1037 66,35 7,33 3,86 2,03 1,06 0,77 0,29 0,10 0,10 0,10 18,03 100,00 A consideração da distribuição espacial na produção científica e tecnológica dos países de Sistemas de Inovação “imaturos” torna o caso do Brasil especial por dois motivos. Primeiro, por não apresentar a mesma desconexão espacial entre as atividades 97 científicas e tecnológicas que México, Índia e África do Sul, dado seu padrão de concentração destas atividades (ver ALBUQUERQUE et al, 2001). Em segundo, devido ao fato do estado onde tais atividades estão concentradas ter ultrapassado o limiar de produção científica que define a transição do Regime II para o Regime III como proposto por BERNARDES e ALBUQUERQUE (2003). Na verdade, São Paulo rompeu o limiar de produção científica de 110,69 artigos (pmh), para o ano de 1998, segundo a análise apresentada na seção 1.5, como mostra a Figura 3.10, uma vez que apresentou uma produção científica de 129,38 artigos (pmh) (BDMG, 2002). Isto por um lado ajuda a compreender o padrão encontrado para o país e, por outro lado, demonstra que ao tomar as produções em ciência e tecnologia com base na população total, estas são “diluídas” entre todas a regiões do país conferindo a este último características de um Sistema de Inovação imaturo, embora isto possa não se verificar para alguma região internamente. FIGURA 3.10 Limiar de produção científica considerando São Paulo Fonte: ISI (2000); USPTO (2000); Banco Mundial (2000), BDMG (2002) – elaboração própria. 98 3.7 – Conclusões A principal contribuição deste capítulo é, sem dúvida, a identificação de um padrão de comportamento das infra-estruturas científica e tecnológica a partir da observação dos 103 países que compõem a base de dados em análise no período de 1980 a 2000. Mais ainda, as seções anteriores propõem que tal padrão pode ser descrito por um polinômio de terceiro grau e, neste sentido, apresenta algumas evidências estatísticas. Contudo, faz-se necessário sumarizar e discutir os principais pontos deste capítulo. Primeiramente, dentre os oito países que fizeram a transição do Regime II para o Regime III (ver Quadro 2.1), seis apresentaram o padrão polinomial, quais sejam, Itália, Espanha, Irlanda, Hong Kong, Coréia do Sul e Taiwan. Além disso, ao menos quatro dos 17 países característicos do Regime de interação III, já em 1980, também apresentaram o mesmo padrão, sendo eles Austrália, Finlândia, França e Japão. O caso japonês pode ser visto como exemplo de que o comportamento polinomial (de terceiro grau) pode estar presente também em processos de forging ahead. Por fim, o padrão pôde ser identificado também em um único país pertencentes ao Regime II, como demonstrado pelo caso do Brasil, na medida em a China, que apresentou visualmente o padrão, mostrou indícios de autocorrelação na estimação do modelo 3.4. Evidentemente, esta situação pode ser modificada caso a base de dados seja estendida para um período maior. A ausência de um padrão de comportamento no tempo para a relação entre ciência e tecnologia é igualmente relevante. O fato de que apenas o Brasil demonstrou ter o padrão polinomial, dentre os países pertencentes ao Regime II, contribui para uma avaliação positiva da tipologia de Regimes de interação e da metodologia para esta classificação, apresentada no Capítulo 2. Dado que o Regime II é caracterizado por interações mais fracas entre a infra-estrutura científica e a tecnológica, é esperado que os países que o compõem não apresentem qualquer padrão para a relação entre ciência e tecnologia. 99 No que se refere aos países que fizeram a transição, cabe lembrar que estes passam a fazer parte do Regime III em 2000, aumentando, assim, o número de países que possui o padrão polinomial neste Regime. Desta forma, a classificação dos países dentro dos Regimes de interação pode ser considerada válida, mesmo que nem todos os componentes do Regime III tenham apresentado o padrão. Além do mais, é possível que a ausência da relação polinomial em países do Regime III esteja associada a fatores como o período de análise e o grau de agregação dos dados, incapazes de captar especializações científicas ou tecnológicas, mais do que com a ausência de interações. Em segundo lugar, é importante ressaltar a correlação positiva encontrada para relação entre ciência e tecnologia. Isto é verificado no fato de que os resultados econométricos apresentados na Tabela 3.1 apresentaram valor positivo para termo cúbico da expressão 3.2, que define o polinômio de terceiro grau. Em conformidade com o que foi discutido no Capítulo 1, isto denota uma evolução conjunta, na mesma direção, das infraestruturas científica e tecnológica. Em adição, o simples fato de o padrão encontrado envolver uma expressão não linear, reafirma a também não linearidade e a complexidade das interações entre as dimensões científica e tecnológica. Em terceiro, o padrão polinomial é característico de países que aumentaram sistematicamente seus indicadores em ciência e tecnologia ao longo do período. Tal padrão, portanto, descreve a evolução das bases científica e tecnológica no tempo. Neste sentido, a sinuosidade percebida no padrão polinomial pode estar refletindo um desajuste temporal entre os intensos esforços realizados para desenvolver a base científica e o inicio dos efeitos destes esforços sobre a dimensão tecnológica. Esta possível defasagem leva a considerar o fato de que os feedbacks positivos são distribuídos no tempo. Ou seja, por mais intensa que seja a relação entre ciência e tecnologia dentro do país, os efeitos dos avanços científicos sobre as atividades 100 tecnológicas não são imediatos e nem se esgotam em um único momento. Ao contrário, estes efeitos demandam algum tempo até que possam ser percebidos, e prolongam-se por vários períodos à frente. Da mesma fora, uma vez que o desenvolvimento da ciência passa a impactar efetivamente e positivamente sobre a base tecnológica, ainda existe uma defasagem até que a base científica possa se beneficiar dos avanços tecnológicos ocorridos, para em seguida apresentar novas contribuições para este último, e assim por diante. Este encadeamento, definindo os feedbacks positivos, contribui não apenas para o entendimento do significado do padrão polinomial de terceiro grau, como também fornece um argumento plausível para a hipótese de sucessivos pontos de inflexão na trajetória das relações entre ciência e tecnologia dos países. Em quarto lugar, a questão da distribuição espacial das atividades em ciência e tecnologia, abordada na seção anterior, contribui, por um lado, para o entendimento da identificação do padrão polinomial para o Brasil, diferentemente de outros países com Sistema de Inovação “imaturo”. Por outro lado, alerta para a possibilidade de que algumas regiões dentro dos países que não apresentaram o padrão polinomial possam ser caracterizadas como pertencentes ao Regime III, ao mesmo tempo em que outras regiões apresentam características de regimes de interações menos desenvolvidas. Dois últimos pontos ainda devem ser levantados quanto aos resultados do presente capítulo. O primeiro é quanto à necessidade de investigações mais detalhadas das relações entre ciência e tecnologia. Sugere-se, portanto, uma desagregação das dimensões científica e tecnológica dentro das áreas do conhecimento e dos setores tecnológicos, respectivamente, dado que estes podem ser mais ou menos conectados dentro dos países. Desta forma, podem existir padrões de comportamento bem definidos entre algumas disciplinas e alguns setores em particular, que não puderam ser percebidos dado o grau de agregação desse trabalho. Além disso, é possível que a especialização de alguns países em 101 disciplinas e setores fortemente conectados possam estar definindo o padrão encontrado aqui. Uma abordagem, analisando estatísticas de artigos e patentes, a partir de disciplinas científicas e setores tecnológicos ganha maior importância quando é considerado o papel da ciência em, por um lado, orientar o desenvolvimento tecnológico, conectando o país às tendências científicas e tecnológicas internacionais e às principais fontes de conhecimento e, por outro lado, em dar suporte ao desenvolvimento industrial, provendo o conhecimento necessário para que o país possa entrar em indústrias chave. Assim, para cumprir o primeiro objetivo, as atividades científicas do país devem estar, de alguma forma, dispersas entre todas as disciplinas, enquanto o segundo objetivo exige que os recursos científicos sejam concentrados em disciplinas com maior impacto nos setores industriais. (ALBUQUERQUE, 2001) Finalmente, é preciso ter bastante cautela quanto aos resultados apresentados. Uma vez que se trabalha com conceitos amplos, de infra-estrutura científica e tecnológica, e considera-se o tempo como elemento chave, outros fatores que não puramente ciência e tecnologia podem estar atuando no comportamento tanto das dimensões consideradas, quanto dos indicadores utilizados para mensurá-las. 102 Conclusão Este trabalho concentrou seus esforços no tratamento de um elemento bastante especifico dos Sistemas de Inovação, qual seja, a relação entre a ciência e a tecnologia. Mais que isso, embora reconhecendo a existência de mútua determinação entre as dimensões científica e tecnológica, focalizou sua análise fundamentalmente nas contribuições da primeira para a segunda, ou seja, adotou o sentido ciência-tecnologia como recurso analítico, para levar a cabo a investigação. Os elementos teóricos apresentados, principalmente no Capítulo 1, bem como no decorrer de todo o trabalho, forneceram os argumentos necessários para a adoção da infraestrutura científica como variável chave no processo de desenvolvimento das interações desta com a infra-estrutura tecnológica, possibilitando aos países avançar em direção a Regimes de interações mais completas. A análise de cluster implementada no Capítulo 2 apresentou três pontos principais. Primeiramente, demonstrou a possibilidade da utilização desta metodologia para investigar características dos Sistemas de Inovação, bem como a proposição de tipologias para tais Sistemas. Desta forma, o uso de estatísticas de artigos e patentes permitiu classificar, via análise de cluster, os 103 países analisados dentro dos Regimes de interação, segundo o nível dos indicadores. Esta classificação em Regimes de interação, embora tenha objetivos diferentes da sugerida no Human Development Report (UNDP, 2001), apresenta a vantagem de, talvez pela metodologia empregada, por um lado, corroborar a classificação em termos dos países “lideres” e, por outro lado, evitar o posicionamento de países como Chile e Costa Rica no mesmo grupo que Itália, Espanha e Hong Kong. Em segundo lugar, foi possível identificar aspectos dinâmicos dos sistemas em questão. Os movimentos de entrada e saída da região definida pelo Cluster 1 (característica 103 do Regime II), tanto no que se refere à ascensão de países vindos do Regime I, quanto da transposição de sua fronteira em direção aos países mais desenvolvidos, constituem fator importante para a avaliação do dinamismo de alguns países em ampliar suas bases científica e tecnológica, vis a vis a pouca eficiência que outros têm apresentado neste sentido. Em terceiro lugar, os resultados encontrados no Capítulo 2 não só instigaram, como orientaram a investigação realizada no Capítulo 3. Em relação ao terceiro capítulo, identificou-se um padrão polinomial de terceiro grau para a relação entre as infra-estruturas científica e tecnológica, tanto para países considerados de Sistema de Inovação imaturo, caso específico do Brasil, como para países que passaram do Regime II para o Regime III e para vários daqueles que já se encontravam no grupo dos mais avançados. Além disso, os testes econométricos apontaram para, ao menos, a não rejeição da hipótese da forma cúbica de tal padrão. Para os países característicos do Regime II, o Brasil constitui grande exceção ao apresentar o mesmo padrão polinomial que países mais avançados. Tanto mais, quando constatado que nenhum outro país, pertencente ao mesmo Regime demonstrou tal característica. Vale lembrar que a China também apresentou visualmente o padrão polinomial, contudo, o fato desse país não ter obtido resultados mais confiáveis nos testes econométricos levou a consideração do Brasil como único país a apresentar o padrão dentro do Regime II. Quando considerada, a dimensão temporal mostrou-se crucial ao fornecer elementos para avaliar o significado do padrão polinomial encontrado, indicando a possível existência de uma defasagem dos impactos do desenvolvimento científico sobre o tecnológico e em seguida do avanço tecnológico para o científico, e assim sucessivamente. Dessa maneira, a hipótese de que os países enfrentam sucessivos pontos de inflexão nas 104 interações ao longo das trajetórias de desenvolvimento cientifico e tecnológico recebe novos argumentos. A observação do caso brasileiro apontou para a nova questão da conexão/desconexão espacial entre as atividades científicas e tecnológicas como possível explicação, por um lado, para o padrão ter sido encontrado apenas neste país, dentre os demais do mesmo grupo, e por outro lado, como razão do Brasil permanecer no Regime II, enquanto São Paulo teria ultrapassado, segundo a análise da seção 1.5, o limiar que divisa os Regimes II e III. Por fim, sugere-se que uma agenda de pesquisa futura sobre os temas aqui tratados busque alcançar dois pontos principais, no sentido de avançar nesta investigação. O primeiro ponto, refere-se à incorporação de outros indicadores econômicos e sociais dentro da análise de cluster, tal como apresentado no Capítulo 2. Em complemento, novas pesquisas devem considerar também a necessidade de investigar as interações entre ciência e tecnológica a partir de uma base de informações mais desagregadas, sobretudo no que diz respeito às disciplinas científicas e aos setores tecnológicos. Isto contribuiria para investigação de padrões de interação em países que na presente análise não apresentaram tal característica, bem como para um melhor entendimento dos resultados encontrados aqui. 105 Referências bibliográficas ABRAMOVITZ, M. Thinking about growth: and other essays on economic growth and welfare. Cambridge: Cambridge University, 1989. 377p. ALBUQUERQUE E., SIMÕES, R., BAESSA, A., CAMPOLINA, B., SILVA, L. A Distribuição espacial da produção científica e tecnológica brasileira: uma descrição de estatísticas de produção local de patentes e artigos científicos. Revista Brasileira de Inovação, Rio de Janeiro, v.1, n.2, p.225-251, 2002. ALBUQUERQUE, E. Scientific infrastructure and catching up process. 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Ithaca, N.Y: Cornell University, 1983. 358p. 108 APÊNDICE 1 – Dados utilizados para analise de cluster do Capítulo 2 TABELA A1 GDP per capita em US$ de 1995, Artigos por milhão de habitante e Patentes por milhão de habitantes para 1980 e 2000 PAIS 1980 GDP per capita Artigos pmh Albania 909,967 Algeria 1681,039 Antigua & Barbu 4057,357 Argentina 7787,125 Armenia Australia 15972,480 Austria 22356,340 Azerbaijan Bahamas 12650,620 Barbados 6754,906 Belgium 21270,560 Bolívia 1016,135 Bosnia & Herceg Brazil 4255,738 Bulgaria 1328,935 Byelarus Cameroon 724,328 Canada 16397,300 Chad 176,111 Chile 2665,013 China(Peoples R China) 167,628 Colombia 1867,647 Costa Rica 3097,329 Croatia Cyprus 6360,556 Czech Republic Czechoslovakia Denmark 27308,280 Dominica 1684,148 Dominican Republic 1327,221 Ecuador 1546,689 Egypt, Arab Rep. 731,401 El Salvador 1595,017 Estonia 4022,023 Fed Rep Ger Finland 20604,120 France 21418,200 French Polynesia 14051,520 Georgia 1378,117 Ger Dem Rep Germany 23354,400 Ghana 393,958 Greece 10701,640 Guatemala 1597,584 Guyana 817,893 Haiti 581,862 Honduras 733,895 Hong Kong, China 11289,550 Hungary 4198,959 Iceland 22785,740 India 226,018 Indonesia 503,012 Iran 1379,837 Ireland 10894,460 Israel 11592,130 Italy 14591,920 Jamaica 1813,080 Japan 28295,860 Jordan 1814,614 Kazakhstan Kenya 337,429 Korea, Rep. 3910,288 Kyrgyzstan FONTE: Banco Mundial (2002), USPTO (2001) & ISI(2002) 0,749 3,964 0,000 35,132 525,796 331,524 9,524 36,130 350,157 3,175 12,548 110,246 3,668 607,571 1,117 40,998 0,690 3,234 37,653 26,187 239,151 593,988 0,000 1,054 1,256 25,443 2,399 0,000 399,105 480,335 405,438 125,828 0,000 266,475 314,266 6,052 74,043 5,572 6,570 0,374 2,803 55,765 239,750 223,684 15,023 0,459 6,799 379,300 1034,296 146,933 81,575 190,149 19,257 14,310 2,964 - 2000 Patentes pmh 0,000 0,000 0,000 0,641 18,037 35,350 28,571 0,000 24,779 0,187 0,197 2,595 0,000 43,956 0,000 0,449 0,001 0,035 0,876 1,637 3,615 30,646 0,000 0,000 0,126 0,049 0,000 0,000 79,163 25,314 38,734 0,000 0,000 1,792 73,841 0,000 0,311 0,000 0,000 0,374 0,000 5,358 8,126 0,000 0,006 0,007 0,051 4,999 29,139 14,282 0,938 61,003 0,000 0,060 0,210 - GDP per capita 899,426 1605,920 8876,370 7934,839 23837,710 32762,960 13927,800 8281,996 30830,090 955,510 4624,396 1503,222 675,152 22541,430 217,839 5354,218 824,035 2284,819 3927,047 14063,080 38521,480 3360,520 2055,925 1425,059 1225,796 1751,038 4431,333 32023,730 29810,730 19895,750 502,364 32623,280 413,254 13104,770 1562,226 934,486 352,239 710,999 24218,040 5325,855 31304,170 459,367 994,384 1657,753 27740,630 17067,180 20885,210 2115,436 44830,420 1619,147 328,197 13124,230 - Artigos pmh ( i ) Patentes pmh 7,036 13,323 0,000 114,523 81,515 963,716 815,512 22,363 19,802 134,832 894,655 8,044 5,532 58,736 185,871 117,341 12,302 959,740 0,780 118,070 22,784 14,516 55,366 251,826 216,645 388,483 1417,916 13,699 4,180 9,489 34,982 1,115 398,831 1356,577 770,054 178,723 49,761 757,955 8,806 420,928 2,898 11,827 1,131 3,273 720,465 386,131 950,178 15,732 2,006 19,901 978,123 1570,459 514,006 74,440 549,941 110,502 12,577 16,117 279,027 9,156 0,000 0,000 0,000 1,458 0,000 36,701 62,267 0,124 42,904 0,000 67,694 0,240 0,000 0,575 0,122 0,300 0,000 111,187 0,000 0,986 0,094 0,189 1,837 1,370 1,321 2,239 81,709 13,699 0,358 0,000 0,125 0,000 2,922 119,374 64,848 0,000 0,000 124,577 0,000 1,705 0,176 0,000 0,000 0,156 26,335 3,526 60,498 0,129 0,029 0,000 32,420 125,618 29,711 0,760 246,678 0,000 0,269 0,033 70,100 0,203 109 TABELA A1 GDP per capita em US$ de 1995, Artigos por milhão de habitante e Patentes por milhão de habitantes para 1980 e 2000 PAIS Latvia Lithuania Luxembourg Macedonia Madagascar Malawi Malaysia Mali Malta Mauritania Mauritius Mexico not nm Moldova Morocco Netherlands New Caledonia New Zealand Nigeria Norway Pakistan Panama Papua New Guinea Paraguay Peru Philippines Portugal Romania Russian Federation Saudi Arabia Senegal Singapore Slovakia Slovenia South Africa Spain Sri Lanka St. Kitts and Nevis St. Vincent and the Sudan Suriname Swaziland Sweden Switzerland Syrian Taiwan Tajikstan Thailand Trinidad and Tobago Tunisia Turkey Turkmenistan Ukraine United Kingdom Uruguay USA USSR Uzbekistan Vanuatu Venezuela, RB Yugoslavia Zambia Zimbabwe GDP per capita 1980 Artigos pmh 2796,384 24832,130 343,510 160,483 2297,115 305,395 4659,152 485,338 1745,665 3282,083 1113,926 21285,370 13696,320 13852,400 314,237 23594,510 317,773 2709,155 873,563 1878,320 2568,582 1172,856 7373,534 1774,558 3161,542 11557,390 551,937 11048,180 4620,329 10972,730 450,906 2555,075 1321,797 221,100 984,561 1075,969 22634,690 39841,750 719,397 1117,115 4613,518 1640,850 1955,734 14167,170 5473,897 21000,770 1169,144 3991,198 583,920 610,383 0,000 38,367 0,451 2,264 16,058 1,669 30,220 1,289 9,317 9,930 5,159 400,848 97,902 526,823 11,202 496,211 2,115 25,641 12,638 4,175 3,463 2,998 18,841 34,368 0,000 18,459 10,654 50,124 98,274 82,678 5,089 0,000 0,000 4,608 0,000 15,929 687,485 885,267 0,000 21,907 5,822 28,651 14,724 6,182 578,875 9,952 555,546 74,031 0,000 23,723 115,440 6,971 11,496 Patentes pmh 0,000 35,626 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,607 0,000 46,290 6,993 16,383 0,028 19,311 0,000 1,026 0,324 0,000 0,000 0,042 0,102 0,631 0,000 0,213 0,000 1,243 2,683 1,739 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 98,917 200,348 0,000 20,562 0,043 0,000 0,313 0,022 42,695 0,000 164,388 1,731 0,000 0,729 1,534 0,000 0,280 GDP per capita 2603,324 56372,000 245,796 168,825 4796,602 294,203 10223,030 494,768 4106,698 3806,289 1369,918 30966,500 17431,900 17547,780 253,600 37954,090 516,205 3280,845 951,519 1700,225 2367,998 1167,393 12793,700 1488,608 2470,762 6728,602 609,239 28229,570 4020,334 17797,910 860,462 7057,461 2774,046 319,082 916,995 1483,453 31206,270 46736,720 838,745 2826,300 5323,913 2470,080 3146,936 21666,930 6431,079 31996,120 1248,351 3301,139 393,562 620,172 2000 Artigos pmh Patentes pmh 146,290 128,344 237,226 73,363 1,224 9,795 34,981 3,137 79,487 5,629 31,194 45,638 42,270 36,509 1071,110 338,505 1004,229 6,469 980,183 4,316 47,269 5,848 14,192 7,365 4,644 301,259 85,893 189,111 62,780 19,098 843,952 322,301 784,708 75,629 528,798 8,626 0,000 0,000 2,444 4,796 16,268 1566,580 1830,084 0,309 421,160 6,321 19,513 78,401 57,824 78,232 2,885 84,907 1125,866 94,097 763,101 15,312 35,533 38,519 5,848 18,690 0,422 0,000 91,241 0,000 0,000 0,000 1,805 0,000 5,128 0,000 0,000 0,776 0,000 0,035 77,957 0,000 27,932 0,016 55,222 0,036 0,700 0,000 0,000 0,078 0,026 1,099 0,178 1,257 0,917 0,000 54,256 0,740 8,048 2,593 6,842 0,052 24,390 0,000 0,000 0,000 0,000 177,810 184,123 0,247 210,310 0,000 0,247 0,000 0,000 0,061 0,000 0,343 61,384 0,300 302,156 0,081 0,000 1,117 0,000 0,000 FONTE: Banco Mundial (2002), USPTO (2001) & ISI(2002) 110