Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Faculdade de Odontologia Belo Horizonte - MG GRADUAÇÃO EM ODONTOLOGIA PROGRAMAS DE MESTRADO EM ODONTOLOGIA Nível Acadêmico Área de concentração: Clínicas Odontológicas Ênfases: Endodontia Estomatologia Periodontia Prótese Dentária Radiologia Nível Profissionalizante Áreas de concentração: Ortodontia e Odontopediatria, Implantodontia CURSOS DE ESPECIALIZAÇÃO Áreas: Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial Dentística Disfunção temporomandibular e Dor orofacial Endodontia Estomatologia Odontologia Legal Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais Odontopediatria Periodontia Prótese Dentária Radiologia e Imaginologia Odontológica Saúde Coletiva RESIDÊNCIAS EM ODONTOLOGIA INFORMAÇÕES Secretaria dos Programas de Mestrado – (0xx31) 3319-4414 / 3319-4508 – [email protected] Secretaria de Pós-Graduação Lato sensu – (0xx31)3319-4411 / 3319-4409 – especializaçã[email protected] ARQUIVO BRASILEIRO DE ODONTOLOGIA BRAZILIAN ARCHIVE OF DENTISTRY PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Reitor Prof. Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães Vice-Reitora Profa. Patrícia Bernardes FACULDADE DE ODONTOLOGIA Diretor Prof. Tarcísio Junqueira Pereira Colegiado do Curso de Graduação Profa. Franca Arenare Jeunon (Coordenadora) Profa. Ana Maria Abras da Fonseca Prof. Dr. Paulo Franco Taitson Prof. Rubens de Menezes Santos Colegiado dos Programas de mestrado Prof. Dr. Roberval de Almeida Cruz (Coordenador) Prof. Dr. Dauro Douglas Oliveira - Ortodontia Profa. Dra. Claúdia Valéria R. S. Penido - Odontopediatria Prof. Dr. Frank Ferreira Silveira - Endodontia Prof. Dr. Carlos Roberto Martins - Estomatologia Prof. Dr. Rodrigo Villamarim Soares - Periodontia Prof. Dr. Wellington Corrêa Jansen - Prótese Prof. Dr. Élton Gonçalves Zenóbio - Implantodontia Prótese Dentária Prof. Arnaldo Horácio Pereira Radiologia e Imaginologia Odontológica Profa. Luciana Cardoso Fonseca Saúde Coletiva Prof. Renato César Ferreira Residências Odontológicas Prof. Saint’Clair Batista Rabelo Neto (Coordenador) ARQUIVO BRASILEIRO DE ODONTOLOGIA Editores Científicos José Antonio Valle Fróes Paulo Franco Taitson Paulo Isaias Seraidarian Roberval de Almeida Cruz - Coordenador e o v d i u a o i q r i g r e A sil olo t a n r o B d O Coordenação dos Cursos de Especialização Profa. Dra. Alcione Maria S. Dutra de Oliveira (Coordenadora) Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial Prof. Belini Freire Maia Dentística Prof. Guilherme Senna Figueiredo Azevedo Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial Profa. Madalena Caporali Pena Rabelo Endodontia Profa. Ana Maria Abras da Fonseca Estomatologia Profa. Franca Arenare Jeunon Odontologia Legal Profa. Fernanda Capurucho Horta Bouchardet Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais Prof. Luis Cândido Pinto da Silva Odontopediatria Prof. Alexandre Costa Pereira Periodontia Prof. Peterson Antonio Dutra de Oliveira Comissão Editorial Antenor Araújo - UNESP Antônio Mourthé Filho – PUC/MG Carlos Roberto Martins – PUC/MG Estevão Tomomitsu Kimpara - UNESP Eustáquio Afonso Araújo – U St Louis Fernando Borba Araújo - UFRGS Flávio Zelante - USP Franca Arenare Jeunon – PUC/MG Francisco Todescan - USP Gerson Bonfante - USP João Humberto Antoniazzi - USP José Nelson Mucha - UFF Maria Ilma S. Gruppioni Côrtes - PUC/MG Martinho C. Rebello Horta – PUC/MG Nadir Eunice Valverde B. Prates - USP Paulo José Medeiros – UERJ Ricardo Santiago Gómez - UFMG Sigmar de Mello Rode – UNESP Volnei Garrafa – UnB Vinícius Eustáquio Jeunon – Prontocor Arquivo Brasileiro de Odontologia – Faculdade de Odontologia da PUC Minas Gerais Av. Dom José Gaspar, 500 – Prédio 46 – 30.535-901 – Belo Horizonte – MG - Brasil FICHA CATALOGRÁFICA Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais A772 Arquivo Brasileiro de Odontologia / Faculdade de Odontologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. – v.1, n.1- (2004)Belo Horizonte: FUMARC, 2004. Anual ISSN 1808-2998 1. Odontologia - Periódicos. I. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Faculdade de Odontologia CDU: 616.314(05) Índice I Editorial..........................................................................................................................................59 Prof. Paulo Franco Taitson Traumatismo nos dentes decíduos anteriores: 8 anos. ................................................................61 Anterior deciduous teeth traumatisms: Retrospective longitudinal study during eight years Diana ribeiro do espírito santo jácomo, Vivian c. quintanilha de carvalho, Vera Campos estudo longitudinal retrospectivo com duração de II Identificação humana pelo exame da arcada dentária. Relato de caso. .............................................67 Human identification by the examination of dental arch. Case report Cristiane Miranda Carvalho, Ricardo José Nazar, Adriana Maria Carneiro Moreira, Fernanda Capurucho Horta Bouchardet III A participação do dentista na equipe multidisciplinar para o tratamento do paciente alcoolista. .....70 The dentist participation on the multidisciplinary team for treatment of the alcoholic patient Adriana de Castro Amédée Péret, Karla Brandão Bonato IV Importância da amamentação no desenvolvimento da criança saudável. Conhecimento básico para o cirurgião-dentista....................................................................................76 The importance of breastfeeding in the development of a healthy child. Basic knowledge for the dentist Paulo Messias de Oliveira Filho, Paulo de Tarso Coelho Jardim, Maria da Consolação Lopes Rocha, Vera Sovieiro, Roberval de Almeida Cruz V Terceiro pré-molar inferior: relato de caso clínico.............................................................................81 Lower third premolar Case report Joana d’Arc Madeira, Mário Sérgio Fonseca, Luis Cândido Pinto da Silva VI distribuição das tensões de oclusão e desoclusão na VII interface osso/implante de uma prótese total.......................................................................................85 Distribution of the occlusion stresses and disclusion on the implant/bone interface of a complete denture Gustavo Diniz Greco, Wellington Corrêa Jansen, Janes Landre Jr, Paulo Isaías Seraidarian Relação entre periodontite e diabetes mellitus em crianças e adolescentes......................................92 The relationship between periodontitis and diabetes mellitus in children and adolescents Thaís Ribeiral Vieira, Alcione Maria Soares Dutra de Oliveira, Ângela Christina Barroso Recchioni, Elton Gonçalves Zenóbio VIII Avaliação de próteses parciais fixas em cerâmica pura: uma revisão de literatura. ..........................96 Evaluation of all ceramic in fixed partial dentures: Literature review Ígor Chaves Guimarães Peixoto, Emílio Akaki IX Protocolo de atendimento odontológico para paciente com anemia falciforme................................104 Dental treatment protocol for sickle cell anemia patient Jamile Santos Hosni, Mário Sérgio Fonseca, Luis Cândido Pinto da Silva, Roberval de Almeida Cruz X Normas Editoriais................................................................................................................................. 113 Editorial produto visível, concreto da atividade científica, é o assim chamado “trabalho científico”: o texto detalhado, descrevendo a inserção do achado ou achados no contexto dos conhecimentos sobre a área, os métodos utilizados, os resultados, sua discussão e a bibliografia correspondente. Os achados científicos que não são publicados se comportam como se não existissem: ninguém toma conhecimento deles fora do reduzido âmbito do local onde foram obtidos. Os achados que são só apresentados em congressos têm divulgação muito limitada: só ficam conhecidos por aqueles que assistiram à palestra ou viram o “painel” correspondente, mas o registro que se pode conservar disto é por demais sucinto: uma vaga lembrança auditiva ou visual, o breve resumo nos anais. O A divulgação real para o resto do mundo ocorre através da publicação formal do “trabalho correspondente”, quer numa revista especializada, quer como capítulo de um livro. O conjunto desses artigos ou capítulos de livros denomina-se “produção científica”. Aquele que publica, mas cujos trabalhos são pouco citados pode, às vezes, ser incompreendido: é bem conhecido o fato de que os autores ingleses ou norte-americanos não costumam citar cientistas de outros países, muito menos da América Latina. Mas aquele que publica e não é citado nunca ou quase nunca, geralmente é porque aquilo que produz não é muito importante e bem faria se meditasse sobre isso e descobrisse como e em que aspecto poderia melhorar. Em determinados momentos de nossa trajetória profissional nos deparamos com mudanças de conduta, novas abordagens, novos tratamentos. Quantas vezes passamos a ter nova conduta no tratamento de determinado caso, fundamentado pelo senso crítico de mudar uma abordagem tradicional? E por que você mudou? Isso diferencia! Pode ser que a “sua mudança” gere uma abordagem científica nova, uma conduta pouco realizada, um dado novo! Vamos levantar a bibliografia, vamos tabular os dados, emitir conceitos. Vamos publicar? Prof. Dr Paulo Franco Taitson Editor Científico Associado Arquivo Brasileiro de Odontologia 59 Arq bras odontol 2008;4(2):61 - 66 ISSN 1808-2998 Traumatismo nos dentes decíduos anteriores: estudo longitudinal retrospectivo com duração de 8 anos Anterior deciduous teeth traumatisms: Retrospective longitudinal study during eight years Diana Ribeiro do Espírito Santo Jácomo1, Vivian C. Quintanilha de Carvalho2, Vera Campos3 Trabalho baseado em dissertação de mestrado desenvolvida na Disciplina de Odontopediatria da Faculdade de Odontologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro Resumo - O objetivo deste estudo foi determinar a prevalência das seqüelas nos dentes permanentes anteriores após trauma nos antecessores e verificar a existência de associação entre seqüelas nos dentes permanentes e tipos de traumatismo nos seus antecessores, considerando a faixa etária na época do trauma. Foi realizado em pacientes da Clínica de Odontopediatria da UERJ, avaliando-se os dados contidos em 307 prontuários de crianças que procuraram atendimento. A amostra coletada foi de 753 dentes decíduos anteriores traumatizados de crianças de 0 a 10 anos de idade. O número de meninos e meninas com traumatismo dentário correspondeu a 55,0% e 45,0%, respectivamente. A faixa etária mais afetada foi de 1 a 4 anos (75,3%). As quedas (82,7%) foram o principal fator etiológico dos traumatismos nos dentes decíduos e os traumatismos mais comuns foram luxação intrusiva (29.3%) e avulsão (14,1%). Na dentição permanente as alterações decorrentes de traumatismos nos antecessores mais observadas foram: alteração de cor e/ou hipoplasia de esmalte (48,3%) e alteração de irrupção (17,0%). Não foi observada associação entre seqüelas nos dentes permanentes e tipos de traumatismo nos seus antecessores, nem na faixa etária de 0 a 5 anos (p=0,99), nem na de 6 a 10 anos (p=0,01). Concluiu-se que a alteração de cor e/ou hipoplasia do esmalte (48,3%) foi a seqüela pós-traumatismo nos antecessores mais prevalente na dentição permanente. Verificou-se também que não houve associação estatisticamente significativa entre ocorrência de seqüelas nos dentes permanentes e tipo de traumatismo no seu antecessor nas faixas etárias estudadas. Descritores - Trauma dentário, dentição decídua, odontogênese, seqüelas. Introdução As lesões traumáticas são muito freqüentes na infância e tem se mostrado um problema de difícil prevenção, em função da etiologia e da faixa etária em que ocorrem1-3. Saber como, onde e quando ocorreu o acidente, é de suma importância para se chegar ao diagnóstico preciso no atendimento de urgência e à adoção de uma conduta clínica adequada e eficiente1. Quando o traumatismo afeta os dentes decíduos, o principal objetivo deve ser tentar evitar maiores conseqüências para o dente envolvido e, principalmente, para o germe de seu sucessor4. As alterações de desenvolvimento dos dentes permanentes causadas por traumatismo nos antecessores têm a prevalência que varia de 12 a 74%. Um fator relevante nessa alta prevalência é a proximidade anatômica entre os ápices dos dentes decíduos e os germes dos seus sucessores. A distância entre o ápice do incisivo central superior decíduo e a face incisal da coroa do seu sucessor varia de 2,97 mm aos 3 anos de idade a 1,97 mm aos 6 anos5-8. Além disso, quanto menor for a idade do paciente na época do traumatismo, mais graves serão as alterações de desenvolvimento envolvendo a coroa do sucessor9. Nos últimos anos, a incidência dos traumatismos dentários vem aumentando e o conhecimento sobre estas lesões na dentição decídua vem despertando interesse crescente na comunidade científica mundial, principalmente em função do seu potencial para gerar alterações, de gravidade variada, nos dentes sucessores em desenvolvimento. A gravidade das seqüelas depende da idade da criança na época do trauma, do grau de reabsorção da raiz do dente decíduo traumatizado, do tipo e extensão do traumatismo e do estágio de desenvolvimento do sucessor no momento do trauma. Independentemente do estágio de desenvolvimento em que o sucessor se encontra, os tipos de traumatismo que mais o 1 Mestre em Odontopediatria pela FO-UERJ Especialista em Odontopediatria pela FO-UERJ 3 Professora da Disciplina de Odontopediatria da FO-UERJ 2 Arquivo Brasileiro de Odontologia 61 afetam são a luxação intrusiva e a avulsão do dente decíduo10,11. más-formações radiculares 4 (10%), má-formação tipo odontoma 2 (5%). As seqüelas nos dentes permanentes causadas por traumatismo nos antecessores são: alteração de cor de esmalte branca ou amarelo-amarronzada, hipoplasia de esmalte, dilaceração coronária, dilaceração radicular, má-formação semelhante ao odontoma, duplicação radicular, interrupção parcial ou completa da formação radicular, seqüestro do germe dentário permanente e alterações de erupção. A alteração de cor e a hipoplasia do esmalte são as seqüelas mais freqüentes12-15. Alexandre et al.1 analisaram 180 prontuários odontológicos, pertencentes a 104 meninos e 76 meninas que tiveram traumatismo dentário. A idade das crianças variou de 1 a 14 anos na época do trauma, sendo observado o controle da erupção de 37 dentes permanentes, sucessores dos 59 dentes decíduos intruídos. Nesta pesquisa as seqüelas mais freqüentemente encontradas nos sucessores foram: alterações de erupção 18 (49%), dilaceração coronária 7 (19%), hipoplasia de esmalte 5 (14%), alteração de cor de esmalte 3 (8,7%) e dilaceração radicular 2 (5,5%). Estudo clínico e radiográfico realizado por Andreasen e Ravn12, com 103 pacientes portadores de 213 dentes decíduos traumatizados, revelou que 88 (41%) sucessores apresentaram alguma alteração de desenvolvimento. Não houve diferença significativa entre o número de meninos e meninas e a idade das crianças na época do trauma variou de 1 a 12 anos. Foram encontradas as seguintes alterações de desenvolvimento: alteração de cor de esmalte 49 (23%), alteração de cor e hipoplasia circular de esmalte 26 (12%), dilaceração coronária 6 (3%), interrupção parcial ou completa da formação radicular 4 (2%) e dilaceração radicular 3 (1%). Foram avaliados 207 dentes permanentes de 57 meninos e 60 meninas após traumatismo em seus antecessores, com o objetivo de determinar a etiologia, a patogênese, os aspectos clínicos, radiográficos e histológicos das alterações de desenvolvimento relacionadas com esses traumatismos. A idade das crianças na época do traumatismo variou de menos de 1 a 7 anos de idade e apenas o tipo mais grave de alteração foi classificado. Dos dentes examinados, 47 (22,7%) apresentaram alteração de cor de esmalte, 24 (11,6%) hipoplasia de esmalte, 51 (24,6%) dilaceração coronária, 13 (6,3%) má-formação tipo odontoma, 37 (17,9%) dilaceração radicular, 4 (1,9%) duplicação radicular e 31 (15%) interrupção parcial ou completa da formação radicular13,16. Von Arx8 (1990) reexaminou 114 (60%) crianças das 195 que tiveram traumatismos nos dentes decíduos. A amostra final foi constituída por 255 dentes de 70 meninos e 44 meninas, com idade variando entre 1 e 7 anos na época do trauma. Foram analisados os prontuários odontológicos das 114 crianças, e foi considerado apenas o tipo mais grave de seqüela. Foram encontradas as seguintes alterações de desenvolvimento nos sucessores: alteração de cor e/ou hipoplasia de esmalte 28 (68%), dilaceração coronária 7 (17%), 62 Arquivo Brasileiro de Odontologia O objetivo deste estudo foi determinar a prevalência de seqüelas nos dentes permanentes anteriores após traumatismo em seus antecessores e verificar a existência de associação entre as seqüelas nos dentes permanentes e os tipos de traumatismo nos seus antecessores, levando-se em conta a faixa etária na época do trauma. Materiais e métodos Foram selecionados 307 prontuários odontológicos, dentre os 654 de pacientes com traumatismos dentários que procuraram atendimento no Projeto de Extensão em Traumatologia Dentária, da Disciplina de Odontopediatria da FO/UERJ, no período compreendido entre março de 1996 a dezembro de 2004. É importante ressaltar que o estudo obteve a autorização do Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Pedro Ernesto, sob o no 958, para sua realização. Avaliaram-se os dados dos prontuários de 169 meninos e 138 meninas, obtendo-se a amostra de 753 dentes decíduos traumatizados de crianças na faixa etária de 0 a 10 anos. O critério de inclusão foi a ocorrência de traumatismo nos dentes decíduos anteriores (tanto incisivos quanto caninos). Foram utilizados apenas os prontuários odontológicos corretamente preenchidos. As informações necessárias ao estudo (idade, sexo, causa e tipo de traumatismo, dentes atingidos e reincidência, quando a mesma criança teve mais de uma ocorrência de traumatismo; seqüelas e consultas de controle pós-traumatismo e condutas clínicas) foram obtidas por meio de consulta ao prontuário de traumatismo dentário do paciente, elaborado segundo a classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e modificada por Andreasen e Andreasen14. Foram considerados o tipo de traumatismo e a seqüela mais graves, sendo que a classificação da gravidade das seqüelas nos dentes permanentes foi baseada nos estudos de Andreasen e Andreasen15, segundo os quais qualquer alteração de desenvolvimento grave envolvendo a coroa ou a raiz do germe do sucessor em desenvolvimento, como as dilacerações coronária ou radicular e a duplicação da raiz, podem vir acompanhadas de alteração de cor e/ou hipoplasia de esmalte. Também foi ressaltado que a alteração de erupção é considerada secundária às demais seqüelas. Na coleta dos dados sobre a prevalência das seqüelas nos dentes permanentes, após traumatismo nos seus antecessores, a alteração de cor e a hipoplasia de esmalte foram consideradas conjuntamente. Tal fato é justificado por ambas as alterações ocorrerem durante o processo de amelogênese8. Desta forma, estabeleceuse a seguinte ordem decrescente de gravidade para as seqüelas nos dentes permanentes, decorrentes de traumatismos nos seus antecessores: seqüestro do germe, má-formação semelhante ao odontoma, interrupção parcial ou total da formação radicular, dilaceração coronária, dilaceração radicular, duplicação da raiz, alteração de cor e/ou hipoplasia de esmalte e alteração de erupção. O atendimento aos pacientes foi realizado por alunos do Programa de Pós-Graduação em Odontopediatria, após terem sido previamente treinados e supervisionados constantemente por único docente da disciplina. O controle clínico e radiográfico (técnicas intra e/ou extra-orais) dos pacientes foi feito semanalmente, quinzenalmente, mensalmente, trimestralmente, semestralmente ou anualmente, de acordo com o tipo e a gravidade do traumatismo. As informações obtidas foram armazenadas e analisadas por meio dos programas Word 2000 e SPSS 8.0 para possibilitar o tratamento estatístico dos dados brutos e a apresentação dos resultados obtidos. O principal parâmetro de comparação dos achados foi a idade dos pacientes na época de ocorrência do traumatismo dentário. Neste estudo foi aplicado o teste estatístico χ2, visando à verificação da existência de associações entre variáveis. Para facilitar esta verificação, a amostra de dentes permanentes que apresentarem seqüelas após traumatismo nos seus antecessores foi dividida em 2 grupos, levando-se em consideração a faixa etária na época do trauma (de 0 a 5 e de 6 a10 anos). Resultados Dentre os 307 prontuários odontológicos selecionados, a quantidade de meninos (55,0%) foi maior que a de meninas (45,0%); porém, esta diferença não foi estatisticamente significativa ao nível de 5%. As causas mais relatadas dos traumatismos foram as quedas (82,7%), os acidentes com bicicleta (5,2%) e os choques com outras crianças (3,6%). A maior parte dos acidentes ocorreu na própria casa da criança (68,7%), sendo também freqüentes na rua (15,3%) e na escola (8,8%). O dente mais atingido foi o elemento 51, seguido do 61, não havendo diferença estatisticamente significativa entre os lados direito e esquerdo (ao nível de significância de 5%). A média das consultas de controle dos pacientes foi de 2,43 (± 2,06). Dos 753 sucessores dos dentes decíduos traumatizados, 543 (72,1%) estão sendo rotineiramente controlados. Oitenta e nove deles (11,9%) apresentaram alguma alteração, 369 (49,0%) ainda não irromperam e 85 (11,3%) não tiveram seqüela. Não foi possível acompanhar a completa erupção de 210 (27,8%) sucessores devido ao não comparecimento das crianças às consultas de controle. As seqüelas mais freqüentemente encontradas foram: a alteração de cor e/ou hipoplasia de esmalte (48,3%), a alteração de erupção (17,0%) e a dilaceração radicular (15,7%) (Gráficos 1 e 2). Seqüelas (89 - 11,9%) Desistência (210 - 27,8%) Nenhuma seqüela (85 - 11,3%) Dente não irrompido (369 - 49,0%) n = 753 dentes sucessores Gráfico 1 - Prevalência de seqüelas nos dentes permanentes após traumatismo nos seus antecessores, entre 1996 e 2004. Alteração de cor e/ou hipoplasia de esmalte (41) Alteração de irrupção (16) Dilaceração radicular (14) Dilaceração coronária (8) Outros (5) Duplicação da raiz Seqüestro do germe (1) Má-formação semelhante ao odontoma (1) Cisto (1) (n = 89 dentes) Gráfico 2 - Distribuição da prevalência das seqüelas nos dentes permanentes após traumatismo nos seus antecessores. Arquivo Brasileiro de Odontologia 63 A luxação intrusiva nos dentes decíduos anteriores foi o tipo de traumatismo que mais causou seqüelas nos sucessores, tanto na faixa etária de 0 a 5 anos (69,1%) quanto na de 6 a 10 anos (44,4%). Na faixa etária de 0 a 5 anos a avulsão (21,1%) foi o segundo tipo de traumatismo que mais causou seqüelas, seguida da subluxação e da luxação lateral (2,8% cada). Na faixa etária de 6 a 10 anos a avulsão e a subluxação causaram o mesmo percentual de seqüelas (27,8% cada). Entretanto, não foi possível detectar associação entre essas variáveis, em nenhuma das faixas etárias estudadas, ao nível de significância de 5% (Tabelas 1 e 2). Tabela 1 – Associação entre o tipo de traumatismo no dente decíduo e a seqüela no sucessor, na faixa etária de 0 a 5 anos (Grupo 1). Tabela 2 - Associação entre o tipo de traumatismo no dente decíduo e a seqüela no sucessor, na faixa etária de 6 a 10 anos (Grupo 2). Discussão Os traumatismos nos dentes decíduos anteriores podem afetar seus sucessores em virtude da proximidade anatômica entre os ápices dos dentes decíduos e os germes dos permanentes14, sendo que a prevalência das seqüelas nos dentes permanentes varia de 12 a 74%6- 8,10. No que diz respeito à associação entre as seqüelas nos sucessores e os tipos de traumatismo nos dentes decíduos, por faixa etária, não foram encontrados resultados estatisticamente significativos ao nível de 5%. No entanto a luxação intrusiva e a avulsão nos dentes decíduos foram os tipos de traumatismo que mais causaram seqüelas nos sucessores, tanto nas crianças que tinham de 0 a 5 anos quanto naquelas que tinham de 6 a 10 anos de idade na época do traumatismo. Freqüentemente a bibliografia cita esses tipos de traumatismo como responsáveis pela maioria das lesões no germe dos sucessores em desenvolvimento1,5,8,11. Neste estudo, as alterações mais graves envolvendo a coroa dentária ocorreram apenas na faixa etária de 0 a 5 anos, corroborando a afirmação de Chaves9. As seqüelas mais encontradas nos sucessores foram a alteração de cor e/ou hipoplasia em ambas as faixas etárias (0 a 5 e de 6 a 10 anos). Na maioria dos casos, a luxação intrusiva foi o tipo de traumatismo 64 Arquivo Brasileiro de Odontologia que acometeu o dente decíduo em ambas as faixas etárias, sendo a hipoplasia frequentemente resultante deste tipo de traumatismo5,3. As alterações de cor do esmalte afetam os dentes permanentes de crianças com idade variando de 2 a 7 anos na época do traumatismo no antecessor6. A alteração de erupção é considerada seqüela secundária em relação às demais alterações de desenvolvimento16. Apesar de ter sido utilizada apenas a seqüela mais grave para classificação, tal alteração teve a prevalência elevada (18,0%). A dilaceração coronária atingiu apenas os dentes permanentes de crianças que tiveram traumatismos nos antecessores entre 0 e 5 anos de idade. Também foi possível verificar que esta seqüela só ocorreu quando houve luxação intrusiva ou avulsão. Os resultados encontrados com relação à idade da criança na época do traumatismo e ao tipo de traumatismo são corroborados por diversos estudos1,13,15; entretanto, a prevalência de 9% da dilaceração coronária foi três vezes maior que a relatada na bibliografia estudada13,15. A dilaceração radicular acometeu 14 dos 89 dentes permanentes sucessores que apresentaram seqüelas. Dos 14 dentes com dilaceração radicular, 6 tiveram como causa as luxações intrusivas em crianças na faixa etária de 0 a 5 anos. Fato este que ocorre em virtude dos traumatismos que acontecem após os 4 anos de idade possuírem uma maior probabilidade de atingirem o germe do sucessor em desenvolvimento nas fases iniciais da formação radicular, ou seja, a partir do estágio 6 de Nolla9,15. Os casos de duplicação radicular (2 – 2,8%) e má-formação semelhante ao odontoma (1 – 1,4%) tiveram como causa as luxações intrusivas em crianças que estavam incluídas na faixa etária de 0 a 5 anos na época do traumatismo. Tais alterações são raras, geralmente decorrentes de luxações intrusivas que acometem crianças de até 3 anos, ou seja, durante os estágios de 1 a 3 de Nolla9,15. A finalidade do tratamento dos traumatismos nos dentes decíduos é procurar evitar maiores conseqüências para o dente envolvido e, principalmente, para o germe do sucessor em desenvolvimento 1,4. No entanto, quando não ocorrem lesões cruentas ou deslocamentos dentários, muitas vezes os pais não percebem a ocorrência da lesão e o cirurgião-dentista só será procurado quando as seqüelas decorrentes do traumatismo começarem a aparecer. of injury. This work was done in patients of the dental clinic of the State University of Rio de Janeiro with data provided by 307 children’s dental records. The sample was collected from 753 traumatized deciduous teeth of children from 0 to 10 years. The number of boys and girls with dental trauma corresponded to 55.0% and 45.0%, respectively. The more affected age period was between 1 and 4 years (75.3%). The falls (82.7%) were the main cause of injury in deciduous teeth. Concerning to permanent dentition, the most common disturbs were color change and/or enamel displasia (48.3%) and eruption disturb (17.0%) due to the traumatism in their predecessors. It was not possible to find association between the type of injury in primary teeth and sequelae in their successors, neither in the 0-5 age group (P =0.990), nor in the 6-10 age group (P = 0.010). Color change and/or enamel displasia (48.3%) were the most prevalent sequelae on the permanent dentition and there was no significant statistical association between the occurrence of sequelae in the permanent teeth and the type of injury in their predecessors in the studied age groups. As consultas periódicas de controle permitem o diagnóstico rápido das possíveis seqüelas no dente decíduo traumatizado ou em seu sucessor. Tais consultas farão com que o tratamento necessário, por vezes multidisciplinar, possa ser realizado o mais breve possível. Esta conduta levará ao melhor prognóstico, podendo minimizar ou impedir o agravamento de algumas seqüelas2,16. Descriptors Conclusão 2. Kramer PF, Feldens CA. Traumatismos na dentição decídua: prevenção, diagnóstico e tratamento. São Paulo: Ed. Santos; 2005. Concluiu-se que a alteração de cor e/ou hipoplasia de esmalte foi a seqüela mais prevalente nos sucessores após traumatismo nos dentes decíduos anteriores. Também foi possível observar que não houve associação estatisticamente significativa entre a ocorrência de seqüelas nos dentes permanentes e o tipo de traumatismo no seu antecessor nas faixas etárias estudadas. Abstract The aim of this study was to determine the prevalence of sequelae in the permanent anterior teeth following trauma in their predecessors and to verify the existence of association between the sequelae in the permanent teeth and the type of injury in their predecessors according to the age group at the time Tooth injury, primary teeth, odontogenesis, sequelae. Referências 1. Alexandre GC, Campos V, Oliveira BH. Luxação intrusiva de dentes decíduos. Rev Assoc Paul Cir Dent. 2000; 54:215-9. 3. McDonald RE, Avery DR. Odontopediatria. Trad., 7ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2001. 4. 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Monografia (Especialização em Odontopediatria).Faculdade de Odontologia da UERJ, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 10. Ben-Bassat Y, Brin I, Zilberman Y. Effects of trauma to the primary incisors on their permanent successors: multidisciplinary treatment. J Dent Child. 1989; 56:112-6. 11. Borum MK, Aandreasen JO. Sequelae of trauma to primary maxillary incisors. I. Complications in the primary dentition. Endod Dent Traumatol. 1998; 14: 31-44. 12. Andreasen JO, Ravn JJ. The effect of traumatic injuries to primary teeth on their permanent successors II. A clinical and radiographic follow-up study of 213 teeth. Scand J Dent Res. 1971; 79:284-94. 13. Andreasen JO, Ravn JJ. Enamel changes in permanent teeth after trauma to their primary predecessors. Scand J Dent Res 1973; 81:203-9. 14. Andreasen JO, Andreasen FM. Fundamentos de traumatismo dental, 2ª ed., Porto Alegre: Artmed; 2001. 15. Andreasen JO, Aandreasen FM. 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Case report Cristiane Miranda Carvalho1, Ricardo José Nazar2, Adriana Maria Carneiro Moreira2, Fernanda Capurucho Horta Bouchardet3 Trabalho desenvolvido no Instituto Médico Legal de Minas Gerais Resumo - A identificação humana como atividade pericial pode ser realizada através de diferentes técnicas. O presente trabalho relata um caso quando foi utilizada a técnica comparativa para possibilitar a identificação positiva. Foi feita análise de radiografias, exame clínico e sobreposição de estruturas anatômica à tomada radiográfica panorâmica. Descritores - Odontologia Legal, Medicina Legal, Identificação. Introdução O perito cirurgião-dentista é um auxiliar da justiça e trata de problemas diversos de ordem judicial. Em geral de ordem penal, civil ou laboral, com maior freqüência os primeiros. Dentro deste campo do direito penal se pretende resolver dois grupos de problemas: identificação de pessoas e reconstrução dos fatos. Algumas das aplicações práticas e de maior interesse estão na identificação de pessoas. No ano de 1897, com Oscar Amoedo, a odontologia legal se implantou como ciência. Hoje ela é imprescindível para resolver grande número de casos em que a identificação da vítima por outros métodos se torna moroso¹. Em casos de identificação, a principal vantagem da evidência dentária é que, como qualquer outro tecido duro, geralmente é preservado indefinidamente após a morte. Apesar das características dos dentes de uma pessoa mudarem, por causa dos tratamentos realizados ao longo da vida, a combinação dos dentes hígidos, cariados, ausentes e restaurados é reproduzível e pode ser comparada em qualquer tempo. A presença e a posição individual dos dentes e suas respectivas características anatômicas, restaurações e componentes patológicos proporcionam dados para comparação ante mortem e post mortem². Para que um processo de identificação seja aplicável é necessário que preencha quatro requisitos técnicos elementares: • Unicidade - apenas um único indivíduo pode tê-los; • Imutabilidade - caracteres que não mudam no tempo; • Praticabilidade - qualidade que permite que sejam utilizados levando em consideração os custos, facilidade de coleta etc.; • Classificabilidade - possibilidade de classificação para facilitar sua localização em arquivos³. O presente relato de caso ilustra a identificação humana pela técnica comparativa em cadáver que entrou como desconhecido no IML-MG em Junho de 2008. Descrição do caso Em Junho de 2008 deu entrada no necrotério do Instituto Médico Legal de Belo Horizonte – MG um cadáver carbonizado registrado como desconhecido. A Seção de Odontologia Legal realizou o exame odonto-legal, fotografias e radiografias. Foi disponibilizada pelos supostos familiares do desconhecido uma radiografia panorâmica datada de 2007 e 14 (quatorze) radiografias periapicais. Comparando as descrições das radiografias panorâmica (Figura 1) e periapicais encaminhadas pelos supostos familiares com o exame clínico, radiográfico e fotografias realizadas no cadáver desconhecido (Figura 2), foram constatadas 18 elementos dentários com características compatíveis relativos a tratamentos executados. Compatibilidade das estruturas anatômicas como o trabeculado ósseo, câmara pulpar, inclinação, anatomia das raízes e coroas. Não foram constatadas discrepâncias ou discordâncias no exame feito a partir da técnica comparativa, entre as 1 Especialista em Odontologia Legal e Odontologia do Trabalho. Pós-graduada em Avaliação do Dano Corporal – Universidade de Coimbra Especialista em Odontologia Legal. Instituto Médico Legal de Minas Gerais 3 Mestre em Medicina Legal e Ciências Forenses – Univ. de Coimbra. Especialista em Odontologia Legal. Instituto Médico Legal de Minas Gerais 2 Arquivo Brasileiro de Odontologia 67 radiografias ante mortem, radiografias post mortem e o exame odonto-legal. Figura 1 – Radiografia panorâmica fornecida pela suposta família do desconhecido Após a coletada das informações odontológicas ante mortem e post mortem, é feita comparada por similaridades e discrepâncias. A identificação positiva pode ser estabelecida mesmo quando algumas discrepâncias são observadas², como substituição de restaurações, extrações dentárias realizadas posteriormente às radiografias apresentadas. Não existe um mínimo de pontos de concordância aceitos como necessários para efetuar uma identificação dentária positiva. No caso em questão, para complementar a análise comparativa foi realizada sobreposição do fragmento da mandíbula e das peças dentárias remanescentes sobre a radiografia panorâmica (Figuras 3 e 4). Essa sobreposição possibilitou confirmar a concordância do exame clínico odonto-legal com os dados ante mortem e visualizar a coincidência do trabeculado ósseo, inclinação e anatomia das raízes e coroas clínicas, restaurações e tratamentos realizados – próteses e demais tratamentos protéticos. Figura 2 – Fotografia da maxila removida e dos dentes remanescentes após carbonização Discussão A Odontologia Legal é o ramo da Medicina Legal que se interessa pelo estudo dos dentes e estruturas circundantes. Os tecidos mineralizados, e em especial os dentes, tem um papel fundamental na identificação humana, por serem estruturas de extraordinária resistência e pela variedade de características individualizantes que proporcionam as peças dentárias. Essas características correspondem a aspectos específicos que podem caracterizar o indivíduo, através do método comparativo de identificação, com base em elementos fornecidos por pessoas supostamente conhecidas da vítima (dados ante mortem) como: fotografias, ficha clínica, radiografias, dentre outros. O processo de identificação se inicia com a coleta dos dados ante mortem que se pode conseguir com o suposto cirurgião-dentista da vítima. O prontuário odontológico é peça fundamental para o trabalho de identificação. Esses dados são fontes valiosíssimas de informação, visto que apresentam dados individualizantes. A ausência desses dados ou fornecidos de forma incompleta impossibilita uma identificação morfológica positiva que é rápida e de custos baixos, dado que a identificação genética é morosa e de custos elevados4. 68 Arquivo Brasileiro de Odontologia Figura 3 – Sobreposição do fragmento da mandíbula e das peças dentárias remanescentes sobre a radiografia panorâmica. Figura 4 – Imagem da sobreposição vista no negatoscópio. Pode ser afirmado que não há duas pessoas com as mesmas características na dentição, dada a enorme variedade de características individuais proporcionadas pelas peças dentárias. Cada indivíduo tem suficientes particularidades em seus arcos dentários para poder estabelecer sua identidade com total certeza. Fundamentados nos elementos técnicos obtidos pode ser aferido que existe compatibilidade entre os achados no exame odonto-legal do desconhecido, com as informações oferecidas pelos supostos familiares. A perícia odontológica realizada auxiliou a Autoridade Policial a inferir na identificação positiva. Abstract The human identification as an expertise activity can be made though different techniques. This article relates a case report which uses the comparative technique to possibility a positive identification. Radiography’s analysis and clinical exam were made with the superimposition of anatomic structures on the panoramic radiography. Descriptors Forensic dentistry, Forensic Medicine, Identification. Referências 1.Calabuig JAG. Medicina Legal y Toxicología. 6ªed. Barcelona: Masson; 2004. p.1310-26. 2.Herschaft EE. Odontologia Legal. In: Neville et al. Patologia Oral & Maxilo facial. Trad., Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998. p.627-43. 3.Santos RB. Medicina Legal. Rio de Janeiro: PUCRJ; 2000. p.358. 4.Pérez BP, Garrido BR, Sánchez JAS. Odontología Legal y Forense. Barcelona: Masson; 1994. p.23968. Recebido em: 10/09/08 Aprovado em: 20/09/08 Correspondência: Cristiane Miranda Carvalho Rua Grão Pará, 895/1000 30.150-341 - Belo Horizonte - MG Telefone: (31) 8813-0347 E-mail: [email protected] Arquivo Brasileiro de Odontologia 69 Arq bras odontol 2008;4(2):70 - 75 ISSN 1808-2998 A participação do dentista na equipe multidisciplinar para o tratamento do paciente alcoolista The dentist participation on the multidisciplinary team for treatment of the alcoholic patient Adriana de Castro Amédée Péret1, Karla Brandão Bonato2 Trabalho desenvolvido em colaboração entre o Centro de Referência do Alcoolismo da PMMG e a Disciplina de Periodontia da Faculdade de Odontologia da PUC Minas Resumo – O exame da boca é de fundamental importância para o diagnóstico precoce do paciente alcoolista. Orientações aos pacientes e encaminhamento adequado aos demais profissionais de saúde interfeririam positivamente no aspecto evolutivo da doença. O objetivo deste trabalho é estudar a interação do consumo de bebidas alcoólicas com as doenças bucais, principalmente a doença periodontal, destacando os aspectos relacionados ao aumento do risco do desenvolvimento de alterações e efeitos adversos em sua terapia. As conclusões permitirão fundamentar e motivar a participação do cirurgião-dentista na equipe multidisciplinar que trata desses pacientes, contribuindo decisivamente para diminuir seus problemas de saúde. Descritores – Alcoolismo, Doença periodontal, Equipe multidisciplinar Introdução Entende-se por saúde o funcionamento adequado do conjunto de sistemas que se interagem na constituição do indivíduo, devendo ser observados os aspectos orgânicos, mentais, orais e outros, que participam do sistema interdependente. O alcoolismo ou Síndrome de Dependência do Álcool (SIDA) é uma doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), pois afeta, aproximadamente, 2 bilhões de pessoas. Apresenta-se em vários estágios e é caracterizada pelo uso compulsivo do álcool, em padrão de ingestão patológico, qualitativa e quantitativamente. Ao comprometer a saúde do indivíduo, a doença promove significativos problemas sociais. O I Levantamento Nacional sobre Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira1 demonstrou que 52% dos indivíduos podem ser classificados como consumidores de etílicos, sendo que a metade utiliza o álcool em padrões de alto risco para a saúde. Cada vez mais, os problemas decorrentes do uso abusivo do álcool estão presentes no dia-a-dia da Rede de Assistência à Saúde, seja ela pública ou privada. Assim, é fundamental que os profissionais envolvidos estejam aptos para lidar com esta situação, devendo estar perfeitamente habilitados para o oferecimento da necessária atenção. A capacitação dos 1 profissionais de saúde e o investimento em pesquisas são necessários para o aprimoramento dos serviços de identificação, diagnóstico, prevenção e acompanhamento da doença . Tem sido demonstrado o efeito deletério do uso indevido do álcool, tanto para a saúde sistêmica, quanto para a saúde oral.2 Neste caso, o alto consumo está relacionado ao aumento do risco para as periodontopatias, causando também efeitos adversos durante sua terapia.3-8 Entretanto, nem sempre o cirurgião-dentista faz parte das equipes multidisciplinares que atuam especificamente com o alcoolismo ou em trabalhos co-participativos nesta área. Isto pode ser devido às especificidades de suas atribuições, colocando-o à margem do problema social. Convém lembrar que, muitas vezes, o exame da boca é de fundamental importância para o diagnóstico precoce do paciente alcoolista. Orientações aos pacientes e encaminhamento adequado aos demais profissionais de saúde interfeririam positivamente no aspecto evolutivo da doença. Assim, é objetivo deste trabalho estudar a interação do consumo de bebidas alcoólicas com as doenças bucais, principalmente a doença periodontal, destacando os aspectos relacionados ao aumento do risco do desenvolvimento de alterações e efeitos adversos em sua terapia. Professora da Disciplina de Periodontia da Faculdade de Odontologia da PUC Minas Psicóloga do Centro de Referência do Alcoolismo da Polícia Militar de Minas Gerais 2 70 Arquivo Brasileiro de Odontologia O uso do álcool O álcool presente nas bebidas é o etanol. Ele é produzido pela fermentação ou destilação de vegetais, frutas ou grãos. Existe grande diversidade de bebidas com diferentes quantidades de etanol em sua composição. O que determina o uso prejudicial é a freqüência de ingestão, quantidades ingeridas e absorvidas, sua distribuição pelos tecidos de cada organismo, sensibilidade individual e velocidade de metabolização. Portanto, não se fala da padronização de consumo prejudicial ou não, podendo variar entre indivíduos, inclusive, sendo diferenciado para homens e mulheres. A oxidação do álcool é iniciada pela conversão do etanol em acetaldeído (metabólito tóxico), processo mediado pela enzima álcool-desidrogenase (ADH). Em seguida, o acetaldeído é convertido em acetato (metabólito não tóxico) pela enzima aldeído desidrogenase (ALDH). As mulheres são mais sensíveis aos efeitos do álcool, devido à menor produção de ADH pelo fígado. Como conseqüência, há menor degradação no estômago, possibilitando sua maior proporção no sangue, agravada pela baixa percentagem de água e alta porcentagem de gordura corporal.9 O nível de álcool é avaliado por meio da medida de unidade (U). Cada tipo de bebida possui diferente concentração alcoólica e o número de unidades dependerá da quantidade ingerida. A Tabela 1 apresenta a relação entre o tipo de bebida, a concentração alcoólica e a quantidade de unidades presentes.10 Tabela 1 - Relação entre o tipo de bebida, a concentração alcoólica e a quantidade de unidades presentes. Bebida Concentração Quantidade Vinho 12% 90 ml = 10g = 1U Cerveja 5% 350 ml = 17g = 1,7 U Destilado (cachaça) 40% 50 ml = 20g = 2U O uso do álcool em padrões considerados como de risco para a saúde é classificado como dependência, uso abusivo e uso pesado. Atualmente os critérios de diagnóstico da síndrome estão baseados no Diagnostic and Statistical Manual of Mental and Behavioral Disorders (DSM-IV), da Associação Americana de Psiquiatria e pela International Classification of Disease (ICD-10). A dependência é considerada como padrão de consumo de álcool onde, além do consumo excessivo, existem adaptações neurofisiológicas significativas. Apresentam várias manifestações, como sintomas de abstinência e a necessidade de beber, apesar das conseqüências graves. O uso abusivo é o padrão de consumo de álcool considerado prejudicial do ponto de vista físico ou social e que não preenche os critérios de dependência. O uso pesado é o padrão onde se consome dose elevada de álcool muito rápida, ou seja, 5 ou mais doses para homens e 4 ou mais doses para mulheres, em duas horas. Este padrão é conceituado como beber exageradamente.11 Uso indevido do álcool e aumento do risco para a doença periodontal A relação do consumo indevido do álcool tem sido estudada como indicador de risco para a doença periodontal.3-6,8 Estudo prospectivo de 4 anos, por meio de análise multivariável de regressão logística, ajustando idade, fumo e diabetes, demonstrou que homens que fazem uso de álcool apresentam 18% a 27% maior risco para o desenvolvimento de periodontite, em relação aos que não fazem.7 Outro estudo relacionou o aumento do risco para perda de inserção periodontal para diferentes doses de álcool. Foi observada razão de chances (ODDS ratio) de 1,22; 1,34; 1,54; e 1,67, quando indivíduos ingeriram 5, 10, 15 e 20 doses por semana, respectivamente. Este achado foi obtido utilizando análise de regressão logística ajustando idade, gênero, raça, educação, fumo, placa bacteriana e diabetes.6 Também foi demonstrada a relação aumentada de risco para periodontite, tendo sido encontradas as razões de chances de 1,76 e de 1,98.3,12 As possíveis explicações biológicas para o aumento do risco de desenvolvimento da doença periodontal nesses indivíduos podem estar relacionadas com seu efeito direto e indireto sobre o periodonto. Este efeito tem sido relacionado com o acúmulo de metabólito tóxico proveniente da oxidação do etanol. Apesar da maior parte do metabolismo do álcool ocorrer no fígado, foi demonstrada a ocorrência de metabolismo extra-hepático nos tecidos orais. Há menor quantidade da enzima ALDH, levando ao acúmulo do metabólito tóxico na cavidade oral. O acetaldeído apresenta ligações covalentes com proteínas citoplasmáticas endógenas e exógenas alterando a estrutura e o DNA das células, inclusive epiteliais, induzindo citotoxicidade e o dano.13,14 Além disto, foi demonstrada a relação da presença de pequenas doses de acetaldeído na interferência da adesão e viabilidade do fibroblasto, o que pode influenciar no processo cicatricial. O efeito estava relacionado com a quantidade e o tempo da presença do metabólito tóxico.15 Uma das evidências do efeito do acetaldeído na doença periodontal pode ser observado no estudo realizado em asiáticos, que apresentam polimorfismo Arquivo Brasileiro de Odontologia 71 genético para a produção das enzimas ALDH e ADH. O polimorfismo induz a inabilidade de conversão de acetaldeído em acetato, acumulando o metabólito tóxico. Os indivíduos apresentavam mais doença periodontal, devido à presença aumentada de acetaldeído na saliva.12 O aumento do risco para o desenvolvimento de alterações periodontais também tem sido relacionado com os efeitos indiretos do uso indevido do álcool, estando estes relacionados à alteração da resposta inflamatória e imunológica e na má nutrição.16-18 Além disto, os alcoolistas apresentam negligência da higiene oral, o que favorece a formação do biofilme periodontopatogênico e, conseqüentemente, o aumento da produção de lipopolissacárides.3,8,16,19 Isto exacerba a resposta inflamatória, pelo aumento da quantidade de citocinas. Então, os monócitos e macrófagos formam grandes quantidades de fator de necrose tumoral alfa (TNF-α ), citocina que se encontra relacionada com a destruição dos tecidos periodontais.20 Outra explicação biológica para o aumento do risco do efeito do álcool diz respeito à interferência na função fagocitária dos neutrófilos. Certamente a alteração contribui para o crescimento bacteriano e, consequentemente, ao desenvolvimento da doença periodontal.17,21 A má nutrição também aumenta o risco para a doença periodontal.18 O adequado suprimento nutricional é fator importante para os processos metabólicos, no que diz respeito a manutenção tecidual e a resposta inflamatória do hospedeiro.22 O etanol é uma droga com elevado valor energético (7,1 Kcal/g). Nos indivíduos com uso excessivo de álcool, esta substância representa em média 50% do total de energia diária. Como conseqüência, a condição favorece a deficiência de vários nutrientes (ácido fólico, riboflavina-vitamina B2, piridoxeno-vitamina B6, vitamina E) que deveriam ser obtidos pela dieta, levando ao surgimento da má-nutrição primária.23 Além disto, estes indivíduos apresentam má nutrição secundária, resultante da mádigestão e má-absorção decorrentes de complicações gastrointestinais associadas ao alcoolismo, levando à deficiência de mais nutrientes (folato, tiamina-vitamina-B1, vitamina D, K) e aumento da excreção de magnésio e zinco.24,25 Manifestações periodontais associadas ao uso indevido do álcool O uso indevido do álcool tem sido relacionado ao surgimento de alterações periodontais, como a gengivite úlcero-necrosante, a periodontite, a reces- 72 Arquivo Brasileiro de Odontologia são gengival 3,26,27 A presença de maior quantidade de perda óssea também foi detectada. O achado foi mais freqüente nos homens e de forma maior, quando os indivíduos tinham também o hábito do tabagismo (Figuras 1 e 2).5 Figuras 1 e 2 – Aspectos dentários de um paciente alcoolista e tabagista A presença de maior quantidade de alterações à sondagem do sulco gengival e perda de inserção, ou seja, de periodontite, foi observada mesmo quando fatores como idade e uso do tabaco foram ajustados.3-7 A ocorrência de maior quantidade de recessões gengivais foi observada em indivíduos que apresentam nível sanguíneo elevado de gama-glutamil-transpepitase (GGTP), marcador biológico de exposição ao álcool. Foi detectada maior incidência nos do que nas mulheres, mesmo quando elas apresentavam o mesmo nível de GGTP e padrões de consumo de bebida.27 Implicações do uso indevido do álcool para a terapia periodontal Além de aumentar o risco para a doença periodontal, o uso indevido do álcool pode afetar o planejamento e a execução do tratamento, pois os pacientes apresentam alterações na coagulação sanguínea, no processo cicatricial e no processo de absorção e metabolização de medicamentos. A alteração no processo de coagulação é manifestada pelo aumento do tempo de sangramento. Isto ocorre devido aos problemas relacionados à agregação plaquetária e à deficiência na absorção de vitamina K. A agregação das plaquetas é afetada, pois o álcool suprime a maturação do megacariócito, o que faz reduzir o número de plaquetas, levando à inibição liberação de tromboxane A2 e B2, o que, por sua vez, afeta a agregação plaquetária. A deficiência na absorção de vitamina K, em decorrência de problemas gastrointestinais, interfere na síntese dos fatores de coagulação. Esta coagulopatia é agravada em pacientes com avançada doença hepática, pois, em casos de cirrose, há poucos hepatócitos capazes de sintetizar fibrinogênio, protrombina e fatores de coagulação, como os fatores V, VII, IX e X. O defeito de coagulação é demonstrado pelo aumento do tempo de protrombina.28 O processo cicatricial de indivíduos usuários de álcool apresenta-se alterado, o que pode levar ao aumento do risco de desenvolvimento de osteomielites em áreas submetidas à exodontia. Isto ocorre pela redução do acúmulo de proteínas e colágeno na área cirúrgica e porque o etanol suprime a atividade fagocitária dos monócitos, macrófagos e neutrófilos, interferindo na resposta inflamatória e imune, favorecendo a instalação de processo infeccioso. 29 O uso crônico de álcool pode levar ao desenvolvimento de danos ao fígado, alterando sua capacidade de metabolizar certos medicamentos, como o acetaminofen, resultando na interferência de seu nível no sangue e afetando seu efeito. Pode também alterar a ação de alguns antibióticos, como a penicilina e a eritromicina, pois há a redução de sua absorção. O uso de aspirina ou de antiinflamatório não esteróide pode promover sangramento gástrico. Além disto, a aspirina inibe a ação da ADH, promovendo o aumento da quantidade de álcool na circulação sanguínea. O metronidazol também deve ser evitado, pois, inibe a enzima ALDH, o que pode levar ao desenvolvimento da reação de aversãodissulfiram, manifestada por rubor facial, cefaléia, náuseas e palpitações. A reação de aversão é usada como efeito de sensibilização ao álcool empregado com o uso da droga dissulfiram, indicada para o paciente parar de beber.30 Outro aspecto da interação medicamentosa refere-se à presença de álcool na composição de medicamentos. Antissépticos bucais que apresentam álcool em sua formulação podem levar ao aumento da quantidade de acetaldeído na cavidade oral. Discussão O uso indevido do álcool está diretamente relacionado com o aumento do risco para desenvolvimento de doença periodontal e de complicadores para o tratamento desta doença. Neste sentido, a prevenção da doença e a manutenção da saúde periodontal devem ser fortemente encorajadas nos usuários da bebida. Deve ser enfatizado o controle da higiene oral que, muitas vezes, é deficiente nestes indivíduos, buscando-se a redução e o controle do biofilme periodontopatogênico, incompatível com a saúde periodontal. Entretanto, cuidados devem ser tomados quando da necessidade do uso de antissépticos bucais. Devem ser indicados produtos que não apresentam álcool em sua composição, pois ele pode levar ao aumento da quantidade de acetaldeído na cavidade oral, afetando a função dos fibroblastos e aumentando o risco para a doença periodontal.16 Por outro lado, uma vez instalada a doença periodontal, cuidados devem ser observados no planejamento e execução do seu tratamento, pois estes indivíduos apresentam alteração no processo de coagulação, na resposta imune e na absorção de medicamentos. A propedêutica periodontal inclui a execução de procedimentos invasivos, como a raspagem e alisamento radicular e terapias cirúrgicas, que implicam na necessidade de controle da coagulação. Também nos casos de dentes com perda de inserção avançada, com prognóstico desfavorável, pode haver a necessidade de exodontia, o que proporciona risco aumentado para sangramento e alteração no processo cicatricial, levando à osteomielite. Durante a execução do tratamento periodontal pode ser necessário o uso de medicamentos, sendo importante o conhecimento de suas interações com o álcool. È importante estar atento às possíveis complicações do uso de certos medicamentos, quanto ao risco de aumentar os efeitos sobre o fígado, como também na interferência da ação do medicamento. O uso de antibióticos, como o metronidazol e as penicilinas, coadjuvantes no tratamento das periodontites agressivas, deve ser avaliado com cautela, devido à possibilidade de reação de aversão-dissulfiram causada pelo metronidazol e pela redução da ação das penicilinas. Assim sendo, pacientes que apresentam história de uso crônico indevido de álcool necessitam de cuidados especiais. Estes indivíduos devem passar pela avaliação médica, sendo importante avaliar a função hepática, para identificação das interferências na absorção de medicamentos e de nutrientes. Deve ser realizada a avaliação da contagem de plaquetas e do perfil de coagulação (tempo de protrombina), além da avaliação da necessidade de antibioticoterapia profilática. Arquivo Brasileiro de Odontologia 73 Sabendo-se da existência de grande quantidade de pessoas usuárias de álcool da forma indevida, torna-se importante familiarizar-se com os problemas da interação do uso do álcool no aumento do risco para o desenvolvimento da doença periodontal e de efeitos adversos na execução do tratamento desta doença. Além da importância no aspecto individual, no que tange ao planejamento e execução do tratamento periodontal destes indivíduos, torna-se também necessária a visão coletiva do problema para a saúde pública. No Brasil, embora os indivíduos das classes A e B da região Sul constituem o maior contingente de bebedores, os indivíduos da classe E das regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste são os que consomem em maior número de doses a cada vez que se bebe, ou seja, em padrões de risco para a saúde. Sabendo-se que indivíduo destas classes também tem menor acesso aos serviços odontológicos e o cuidado para controle da higiene oral encontra-se deficiente, o risco para estes indivíduos pode estar aumentado. Nesse sentido, torna-se importante o desenvolvimento de estratégias públicas, campanhas contra o álcool, voltadas também para o controle de doenças bucais, como as doenças periodontais. Devem ser implementadas políticas baseadas em evidências, conforme recomendações da Declaração de Brasília de Políticas Públicas Sobre o Álcool da I Conferência Pan-Americana de Políticas Públicas Sobre o Álcool.31 Conclusão Beber muito e frequentemente resulta em número significante de conseqüências relacionadas à exposição excessiva ao álcool, incluindo o aumento do risco para o desenvolvimento da doença periodontal e de efeitos adversos na execução do tratamento desta doença. Por isto é fundamental a participação do cirurgião-dentista na equipe multidisciplinar de saúde que trata este tipo de pacientes. Ele pode contribuir decisivamente para diminuir seus problemas de saúde. Abstract The examination of the mouth is important for the precocious diagnosis of the alcoholic patient. Orientations for the patients and adequate referring to the other health professional would intervene positively with the evolution aspect of the illness. The aim of this work is to review the interaction of the alcoholic beverage consumption with the oral illnesses, mainly the periodontal disease, detaching the aspects related to the risk increase of the development of alterations 74 Arquivo Brasileiro de Odontologia and adverse effect in its therapy. The conclusions will allow to base and to motivate the participation of the dentist in the multidisciplinary team which deals with these patients. He can decisively contribute to diminish its health problems. Descriptors Alcoholism, periodontal disease, multidisciplinary team Referências 1. Levantamento Nacional sobre Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira, Brasil, 1, 2007. 76p. 2. Rosa H, Silvério AO, Perini RF, Arruda CB. Bacterial infection in cirrhotic patients and its relationship with alcohol. Am J Gastroenterol. 2000;95:1290-3. 3. Sakki TK, Knuuttila ML, Vimpari SS, Hartikainen MS. Association of lifestyle with periodontal health. 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Conhecimento básico para o cirurgião-dentista The importance of breastfeeding in the development of a healthy child. Basic knowledge for the dentist Paulo Messias de Oliveira Filho1, Paulo de Tarso Coelho Jardim1, Maria da Consolação Lopes Rocha1, Vera Sovieiro2, Roberval de Almeida Cruz2 Trabalho desenvolvido na Faculdade Federal de Odontologia de Diamantina Resumo - A primeira infância é marcada pelas fases de crescimento e desenvolvimento da criança, sendo tão importante que, qualquer problema na alimentação, durante este período, pode repercutir em toda a vida do indivíduo. A amamentação no seio é a forma ideal de assegurar ao bebê o recebimento de todos os nutrientes essenciais, proporcionando também imunização e a adequada implantação do sistema mastigatório. Tal ato melhora a relação entre mãe e filho, consequentemente dando segurança e satisfação ao bebê. Ao tratar de pacientes, o cirurgião-dentista tem a oportunidade de esclarecer às mães e às futuras gestantes sobre a importância da amamentação no peito, enfatizando também a prevenção de desordens e doenças bucais, incluindo diversos tipos de má oclusão, cárie e a doença periodontal, causadas pelos métodos de alimentação. Unitermos - Amamentação; Crescimento; Desenvolvimento; Prevenção de doenças bucais Introdução A má nutrição caracteriza-se pelo estado de prejuízo da capacidade funcional do organismo ou de deficiência na integridade estrutural e de desenvolvimento, produzida pela discrepância entre o fornecimento de nutrientes essenciais aos tecidos e suas exigências biológicas específicas.1 O primeiro ano de vida é uma fase extremamente vulnerável, além de representar a base da vida, tendo em vista a imaturidade do organismo, em todos os aspectos, em particular dos sistemas fisiológico e imunológico, do intenso crescimento somático, do desenvolvimento do sistema nervoso central e da total dependência da criança.2 A alimentação, além de atender às exigências fisiológicas normais a qualquer indivíduo, proporciona a matéria prima para os estágios característicos da infância: o crescimento e o desenvolvimento. É preciso que se ofereça à criança a alimentação conveniente em quantidade e qualidade, para que a nutrição possa se processar normalmente. Múltiplas e variadas são as causas da desnutrição, mas a alimentar é, incomparavelmente, a mais importante de todas. Ela constitui, por si só, a maior causa de óbito nos primeiros anos de vida, nos países subdesenvolvidos.3 1 O objetivo deste trabalho é ratificar o significado do aleitamento materno para o desenvolvimento geral da criança, ressaltando a importância da participação do cirurgião-dentista como incentivador desta prática saudável, parte integrante da promoção de saúde bucal. Revisão de literatura É evidente a proteção concedida pelo aleitamento materno durante a infância. Sabe-se que os benefícios são estendidos para a fase adulta. Tem sido foi reconhecida a possibilidade dos alimentos consumidos, durante os primeiros meses de vida, terem efeitos permanentes no metabolismo geral do ser humano.4 O leite materno ajuda o desenvolvimento cognitivo, o crescimento e desenvolvimento do aparelho mastigatório e atua como agente imunoregulatório, dentro do processo de desenvolvimento do sistema imunológico da criança.5,6 Ele contém várias enzimas bioativas, hormônios, fatores de crescimento e agentes imunológicos, com diversas especificidades bioquímicas, incluindo citocinas clássicas: interleucina 1β, 6, 8 e 10, fatores estimuladores de colônias de macrófagos e granulócitos, fatores de crescimento transformante α e β2, fator de necrose tumoral α e interferon.7,8 Estes Alunos do Programa de Mestrado em Estomatologia, da Faculdade Federal de Odontologia de Diamantina. Professores Visitantes da Disciplina Odontopediatria para o Estomatologista, do Programa de Mestrado em Estomatologia, da Faculdade Federal de Odontologia de Diamantina. 2 76 Arquivo Brasileiro de Odontologia componentes são tipicamente abundantes no colostro, quando há significante imaturidade funcional dos sistemas orgânicos do recém-nascido.9 Resultados de estudos epidemiológicos demonstram que o aleitamento materno confere proteção contra doenças agudas e crônicas, até mesmo as doenças relacionadas às desordens do sistema imune e as desordens auto-imunes, como a doença de Chron.10,11 Confirmando a importância do aleitamento para as defesas do recém-nascido, foi constatada a relação entre alimentação e infecções, durante os seis primeiros meses de vida. Foi observado que as crianças cuja dieta consistia apenas de leite materno, assim como aquelas que recebiam uma complementação com alimentos sólidos, apresentaram menor prevalência de doenças respiratórias e gastrointestinais, em comparação com aquelas crianças cuja alimentação consistia de leite de vaca ou fórmulas.12 No caso das doenças respiratórias, a probabilidade de ocorrerem durante a infância é significantemente reduzida, se a criança for alimentada exclusivamente por leite materno, por 15 semanas e nenhum alimento sólido for introduzido durante este período. A alimentação no peito e a introdução posterior de alimentos sólidos tem efeito biológico positivo em sua saúde.13 Pode ser também constatada a proteção contra as infecções de ouvido.14 Há redução de 18% na porcentagem de crianças com otite média, durante o primeiro ano de vida, quando exclusivamente alimentadas no peito por, pelo menos, 4 meses e 51% de redução de otite média naquelas exclusivamente alimentadas no peito, por mais de 6 meses.15 É provável que o efeito redutor seja devido a influencia da IgA e das prostaglandinas presentes no leite humano, por afetar a capacidade dos patógenos em se infiltrar e causar uma resposta inflamatória.16 Neste trabalho, foram avaliados o crescimento, a absorção de nutrientes, a morbidade e os níveis de atividade, durante os dois primeiros anos de vida, entre crianças alimentadas por leite materno e crianças alimentadas com leite formulado. Os resultados demonstraram que a alimentação no peito, durante o primeiro ano de vida, teve ação protetora contra diarréias e otite média em populações de alto nível educacional. A prevalência de diarréia foi 50% mais baixa no grupo seio-alimentado, em comparação com o grupo alimentado por leite formulado, durante o primeiro ano de vida. A porcentagem de crianças amamentadas com um ou mais episódios de otite média, durante o primeiro ano de vida, foi 19% mais baixa e as crianças com episódios prolongados (mais de 10 dias), foi 80% mais baixa quando comparada com as do outro grupo. Até o segundo ano de vida, crianças que tinham sido alimentadas no peito foram menos susceptíveis a episódios prolongados de otite média. Além disto, foi constatado que a proporção de crianças com diarréia persistente, disenteria ou baixo peso é significantemente mais baixa entre crianças amamentadas.17 A amamentação no seio materno previne infecções gastrointestinais nas crianças, além de estar associada com a redução significativa de outros tipos de infecções, incluindo pneumonia, bacteremia e meningite, assim como as hospitalizações conseqüentes18,19 Por outro lado, foram questionadas as práticas habituais de alimentação de crianças dos 6 aos 12 meses e dos 12 aos 24 meses, tendo em vista a concentração férrica no sangue, assim como seu aproveitamento biológico, quando a criança era alimentada somente com o leite materno e quando este aleitamento estava associado com outro tipo de alimentação. Foi observado que as crianças alimentadas exclusivamente no peito materno possuíam níveis férricos melhores do que aquelas em que havia conjugação com outros alimentos, sugerindo que tais alimentos poderiam estar prejudicando a bioviabilidade do ferro. Foi ressaltada a necessidade de suplementação do ferro na infância, tendo em vista que poucas são as crianças alimentadas só no peito por mais de alguns meses de vida.20 Ao sugar o seio materno, a criança estabelece o padrão adequado de respiração nasal e postura correta da língua. Considera que durante a sucção no seio materno, os músculos envolvidos estão sendo adequadamente estimulados, aumentando o tônus e promovendo a postura correta para futuramente exercer a função de mastigação.21 Assim sendo, o desmame precoce traz conseqüências negativas no desenvolvimento motororal, na oclusão e respiração da criança.22 Foi estudada a influência do aleitamento materno em relação à má oclusão em crianças e adolescentes, comparando os grupos: amamentados por 6 meses ou mais, amamentados por menos de 6 meses e com uso exclusivo de mamadeira. Concluiu-se que o aleitamento materno oferece proteção contra a má oclusão, porém, apenas quando a duração do aleitamento é de 6 meses ou mais.23 A introdução precoce da mamadeira é um indicativo de baixo impacto na atividade muscular, o que poderia interferir no desenvolvimento normal dos sulcos alveolares e palato duro, levando ao desenvolvimento da mordida cruzada posterior.24 A instalação de mordida aberta anterior está, em certo grau, relacionada ao aleitamento artificial, sendo que o aleitamento misto ou artificial pode levar ao estabelecimento de hábitos orais deletérios.25 Em estudo retrospectivo de 1130 crianças pré-escolares (3-5 anos de idade), foram colhidas informações detalhadas sobre tipo de Arquivo Brasileiro de Odontologia 77 alimentação e atividade de sucção não nutritiva, através de questionário estruturado. Foi observado que a amamentação parece ter efeito protetor no desenvolvimento de mordida cruzada na dentição decídua.26 A despeito de todas as vantagens decorrentes da alimentação no seio materno para o desenvolvimento da criança, é necessário ter sempre em mente, que o procedimento deve ser complementado com várias medidas, principalmente após o início do processo de erupção dentária (Figuras 1 e 2). Existem inúmeros trabalhos disponíveis na literatura que abordam profundamente o papel da alimentação, principalmente durante o período noturno, como fator etiológico adjuvante no aparecimento precoce da cárie dentária no período pós-natal, associado à implantação da microbiota cariogênica e a imaturidade dos sistemas de Figura 4 – Situação dos dentes em consequência da alimentação inadequada Figura 5 – Sinais característicos de cárie avançada decorrente da associação entre alimentação inadequada e falta de higiene bucal Figura 1 – Criança que está sendo alimentada no seio materno os sinais iniciais característicos da doença, a fim de que sejam adotadas as medidas imediatas de prevenção e/ou de controle efetivo (Figura 5).31 Com certeza estas medidas incluem, o mais precoce possível, cuidados de higiene bucal e a utilização orientada de fluoretos, para permitir a manutenção da saúde bucal.32 Discussão e Conclusões Figura 2 – Situação dentária da mesma criança. defesa do hospedeiro (Figuras 3 e 4).27-30 Neste caso, os pais e todas as pessoas envolvidas com a saúde do bebê devem conhecer os fatores de risco e reconhecer Figura 3 – Criança que utiliza a mamadeira para sua alimentação 78 Arquivo Brasileiro de Odontologia A alimentação na primeira infância é fundamental para garantir o crescimento e desenvolvimento do indivíduo como um todo. Especificamente durante os seis primeiros meses de vida, as exigências nutricionais, imunológicas e até mesmo as afetivas são melhor garantidas, quando a criança é alimentada no peito. Nessa fase da vida, os maiores motivos de internações hospitalares são decorrentes de doenças gastrointestinais e respiratórias, que se tornam mais freqüentes e graves em crianças alimentadas por fórmulas ou naquelas cuja alimentação no peito foi suprimida ou substituída em idade precoce. Assim, parece sensato enfatizar que a Saúde Pública, ao investir em campanhas de aleitamento materno e conseguindo a adesão das futuras mamães, estará prevenindo uma série de problemas, assim como projetando a redução dos custos destinados ao tratamento de muitas dessas afecções, contribuindo decisivamente para a melhoria substancial da qualidade de vida. Indiscutivelmente, o leite humano é o alimento ideal para a criança, particularmente nos primeiros 6 meses de vida, devido a todo os seus benefícios, incluindo o efeito psicossocial positivo do ato da amamentação sobre o binômio mãe-filho. Apesar do conhecimento de todas as suas propriedades, muita coisa ainda não é perfeitamente conhecida e os dados disponíveis são considerados incompletos.5 A amamentação leva ao melhor desenvolvimento motor da musculatura oral da criança tendo efeito preventivo para a maloclusão21,26, sendo que os hábitos de sucção não nutritivos e alimentação artificial são apontados como relacionados ao desenvolvimento de diversos tipos de maloclusões, como mordida aberta, mordidas cruzadas e sobressaliências.23-25,31,34,35 O Cirurgião-Dentista pode desempenhar papel significante nesse processo, esclarecendo e incentivando o hábito considerado altamente salutar. Freqüentemente ele é procurado por pacientes respiradores bucais, com deglutição atípica e, ainda, alterações de oclusão, hoje amplamente reconhecidas como tendo íntima relação com uso de mamadeiras e chupetas. O aleitamento materno não só evita a desnutrição, como protege o organismo ainda imaturo, possibilitando o desenvolvimento físico do aparelho estomatognático e o desenvolvimento psicobiológico do indivíduo. Independentemente das importantes situações levantadas, não deve haver esquecimento de que o leite natural e as fórmulas contêm carboidratos fermentáveis produtores de ácidos, o que significa a possibilidade real indutora do aparecimento de “cárie de mamadeira”, que leva à rápida destruição dos tecidos dentários (Figuras 3 a 5). Este quadro é significantemente atenuado, quando são tomadas medidas objetivas de prevenção, através da adoção, o mais precoce possível, de medidas de higiene e profilaxia. Abstract The early childhood is marked by growth and development of the human being so important that any lack of nutrients during the age may lead to serious problems throughout the life. Breastfeeding is the ideal way of providing the infant with all nutrients; also giving immunity, correct development of the occlusion system, improving the relationship between mother and child, giving safety and satisfaction to the baby. When treating patients, the dentist has the opportunity of teaching mothers and future mothers about importance of breastfeeding, with emphasis on prevention of oral disorders, including various types of malocclusion, dental caries and periodontal disease, caused by feeding methods. Key words Breastfeeding; child growth, child development, oral disease prevention Agradecimentos Agradecemos à Profa. Vera Santos, da Faculdade de Odontologia da UERJ, pela cessão das ilustrações. Referências 1. Cotran RS, Kumar V, Robbins SL. Patologia Estrutural e Funcional. 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Recebido em: 10/10/08 Aceito em: 12/11/08 Correspondência: Prof. Paulo Messias de Oliveira Filho Curso de Odontologia - UFVJM Rua da Glória, 187 39.100-000 – Diamantina - MG E-mail: [email protected] Arq bras odontol 2008;4(2):81 - 84 ISSN 1808-2998 Terceiro pré-molar inferior: relato de caso clínico Lower third premolar. case report Joana D’arc Madeira1, Mário Sérgio Fonseca2, Luis Cândido Pinto da Silva2 Trabalho desenvolvido na Disciplina de Odontopediatria da FO/PUC Minas Resumo - A presença de pré-molares supranumerários, embora com baixa freqüência, exige a tomada de uma decisão apropriada entre monitorá-los ou removê-los. As características individuais de cada caso devem determinar essa decisão, com base no risco cirúrgico e no benefício da remoção. No caso de optar-se por removê-los é necessário o controle radiográfico em longo prazo, considerando que têm sido relatadas recidivas e formações em épocas diferentes em casos de incidências múltiplas. O objetivo no presente trabalho foi revisar a etiologia, incidência, classificação, diagnóstico, complicações e tratamento de pré-molares supranumerários descritos na literatura e ilustrar com caso clínico. Palavras chave - Dentes supranumerários; Pré-molares; Avaliação radiográfica. Introdução Relato de Caso Os dentes supranumerários são manifestações de uma anomalia congênita de desenvolvimento quanto ao número de dentes, também conhecidos como: extranumerários, hiperdontia ou poliodontia1. A classificação é baseada em sua localização no arco dentário ou na sua morfologia. Os dentes supranumerários na região de pré-molar estão localizados lingualmente ou verticalmente, acima dos dentes pré-molares normais2,3. Acometem tanto a mandíbula quanto à maxila, envolvendo a dentição permanente, sendo muitas vezes diagnosticado através de exame clínico e/ou radiográfico de rotina, e podendo ser únicos ou múltiplos, uni ou bilaterais, de tamanho e forma normais ou não, irrompidos ou impactados4. A presença de um supranumerário não irrompido pode gerar complicações, tais como: apinhamento dentário, impactação de dente permanente, erupção retardada, erupção ectópica, desenvolvimento de diastema mediano, rotação dentária, formação de cistos do tipo folicular inflamatório, perda de espaço na arcada, desenvolvimento anormal da raiz permanente e reabsorção radicular de dentes adjacentes5-7. Os pré-molares extras podem ser clinicamente imperceptíveis, por apresentar uma característica suplementar, isto é, a morfologia normal. Eles são quase sempre formados lingualmente com relação à série normal e podem passar despercebidos ao exame radiográfico interproximal de rotina, durante o desenvolvimento da dentição mista. Embora sua erupção espontânea seja possível, 75% dos casos permanecem não irrompidos e a maioria parece ser assintomática2,8. Paciente de 18 anos de idade, gênero masculino, leucoderma, brasileiro, solteiro, estudante, sem alterações sistêmicas, procurou a Clínica de Odontologia da PUC Minas, queixando-se de dentes com lesões cariosas, prejudicando a sua estética. Ao exame clínico intra-oral observou-se que apresentava varias lesões cariosas e uma tumefação na região de pré-molares inferiores esquerdos, face lingual. 1 2 Exame radiográfico Inicialmente foram tomadas radiografias interproximais para diagnóstico de lesões cariosas, tendo sido identificada a presença de uma área radiopaca entre o 2o pré-molar e o 1o molar permanente inferiores do lado esquerdo (Figura 1). Para a melhor visualização, foi requisitada uma radiografia panorâmica (Figura 2). Figura 1 - Radiografia interproximal inicial, mostrando a presença de uma área radiopaca entre o 2o pré-molar e o 1o molar permanente, no lado inferior esquerdo. Aluna do Curso de Graduação da Faculdade de Odontologia da PUC Minas Professores Assistentes da Disciplina de Odontopediatria da Faculdade de Odontologia da PUC Minas Arquivo Brasileiro de Odontologia 81 Figura 2 - Radiografia panorâmica, evidenciando a presença de um supranumerário unilateral na região inferior posterior. Localização Para a mais precisa localização do supranumerário identificado utilizou-se a técnica radiográfica de Clark, que é recomendada para a localização vestíbulolingual/palatina de dentes retidos. A técnica envolve a variação do ângulo horizontal em tomada periapical dupla, sendo que, se a imagem identificada estiver por vestibular, ela se deslocará em sentido contrário ao movimento do cone de raios-X. Se estiver por lingual ou palatina, deverá acompanhar o movimento do cone9. Conforme pode ser observado nas radiografias periapicais (Figura 3 a.b.c), é demonstrado o deslocamento do pré-molar supranumerário, que neste caso se encontra por lingual, pois a imagem acompanhou o deslocamento do cone de raios X. O diagnóstico foi confirmado pela tomada radiográfica oclusal (Figura 4) Figura 4 - Radiografia oclusal da arcada inferior Tendo em vista a posição favorável do supranumerário, o tratamento proposto foi a remoção cirúrgica simples, posto que o paciente se apresentava tranqüilo, cooperativo e havia ausência de contra-indicações. Desta forma, seriam evitadas maiores conseqüências negativas que a presença do dente supranumerário poderia ocasionar. Foi realizada a anestesia dos nervos alveolar inferior, lingual e mentual, sindesmotomia, luxação e remoção com o auxílio de uma alavanca reta, e sutura da ferida cirúrgica (Figuras 5 e 6) Figura 5 – Fases da remoção cirúrgica do terceiro prémolar Figura 6 – Supranumerário após sua remoção Figura 3 – a) Radiografia periapical mesioangulada; b) Cêntrica, c) Distoangulada 82 Arquivo Brasileiro de Odontologia A cirurgia transcorreu sem qualquer incidente. Foi prescrito um analgésico para o paciente, para alívio da dor pós-operatória (Paracetamol 750mg, de 6 em 6 horas). Após sete dias o paciente retornou à clínica para remoção da sutura. Discussão O desenvolvimento de pré-molares supranumerários não é muito freqüente, mas sua ocorrência não é tão rara8,10. Sua prevalência é bastante discutida, ocorrendo em torno de 8 a 10%6,11. Em relação a sua etiologia nenhum consenso foi alcançado até hoje. A hipótese mais aceita é: hiperatividade da lâmina dental2,7,10. Seu desenvolvimento é mais comum na mandíbula do que na maxila4,6,8,11,12. Em relação ao sexo, a prevalência é maior no masculino13-16. Os pré-molares supranumerários são detectados como um achado nos exames radiográficos de rotina, e a descoberta é acidental na maioria das vezes, como no caso relatado4,7,15. Os dentes supranumerários impactados ou irrompidos podem permanecer em suas posições durante anos sem manifestações patológicas7. Entretanto, existem situações em que causam sérios problemas, tais como: atraso ou impedimento da erupção dos dentes permanentes sucessores; rotação e deslocamento dos dentes permanentes; formação de cistos com destruição óssea e reabsorção da raiz do dente adjacente; formação de diastemas; dilaceração ou desenvolvimento anormal da raiz dos dentes permanentes1,3,5-7. A abordagem de cada caso vai depender de sua situação clínica, podendo variar entre a remoção ou a manutenção do supranumerário in situ, com acompanhamento clínico e radiográfico1,3,12. No caso descrito optou-se pela exodontia do pré-molar supranumerário, pois este já estava em processo de erupção, podendo acarretar problemas futuros como cárie e problemas na oclusão normal. Conclusão Como em situações similares, ficou mais uma vez demonstrada a importância do diagnóstico precoce de problemas que podem proporcionar efeitos deletérios à dentição dos pacientes. Também no caso em tela constatou-se a importância do exame radiográfico bem realizado, que pode, através de várias técnicas, contribuir decisivamente para o diagnóstico de situações não rotineiramente ocorrentes. Desta forma pode-se instituir o plano de tratamento adequado, minimizando os problemas que este pode acarretar. Necessário também que o cirurgião-dentista, ao diagnosticar um dente supranumerário, conheça todas as possibilidades de tratamento relacionados, para equacionar e dimensionar qualquer problema clínico e terapêutico. É evidente que, quando se tem a cooperação do paciente, qualquer procedimento poderá ser realizado de forma tranqüila e sem traumas. Abstract Although with low frequency, the presence of supernumerary bicuspids requires appropriate clinical decision between their extraction and preservation with monitoring. The individual characteristics that play a key role in each case are based on the surgical risk and on the benefit of tooth removal. In case of tooth removal is also required a long-term radiographic follow-up because it has been reported in the literature multiple supernumerary formations at different times of intervals and recidives. The aim of this paper is a literature review on the etiology, incidence, classification, diagnosis, complications and treatment of supernumerary premolars and to report a clinical case. Descriptors supernumerary teeth; premolars; radiographic evaluation Referências 1. Couto Filho CEG et al. Supranumerários: revisão de literatura. 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Recebido em: 10/07/08 Aceito em: 12/11/08 Correspondência: Prof. Mário Sérgio Fonseca Faculdade de Odontología da PUC Minas Av. D. José Gaspar, 500 – Prédio 46 30.535-901 – Belo Horizonte – MG E-mail: [email protected] 84 Arquivo Brasileiro de Odontologia Arq bras odontol 2008;4(2):85 - 91 ISSN 1808-2998 distribuição das tensões de oclusão e desoclusão na interface osso/implante de uma prótese total Distribution of the occlusion stresses and disclusion on the implant/bone interface of a complete denture Gustavo Diniz Greco1, Wellington Corrêa Jansen2, Janes Landre Jr3, Paulo Isaías Seraidarian2 Trabalho realizado no Programa de Mestrado em Clinicas Odontológicas da FO/PUC Minas Resumo - Este trabalho analisou, pelo método dos elementos finitos tridimensionais, as tensões geradas na interface osso/implante, por diferentes padrões de oclusão e desoclusão em uma prótese total inferior, implantossuportada. Foi desenvolvido um modelo tridimensional de uma prótese total implantossuportada, inferior, tipo protocolo de Brånemark. O pacote do programa SolidWorks® foi utilizado no pré e pós processamento dos dados. Os resultados obtidos puderam ser visualizados tridimensionalmente, por imagens, com escalas coloridas e gráficos, mostrando que o padrão de desoclusão em guia canino (GC) gera uma tensão maior na região de interface entre o primeiro implante e os tecidos de suporte e na oclusão balanceada bilateral (OBB), as tensões foram altas na região de interface osso/implante do primeiro e do último implantes. A tensão máxima encontrada na simulação da OBB foi 3.22 vezes maior que a encontrada na simulação da desoclusão em GC. As análises do padrão oclusal, mostrando que o padrão de oclusão na região da extremidade distal livre gerou uma distribuição das tensões uniforme, com os maiores níveis de tensão localizados na região do primeiro implante, em todos os casos. Porém, conforme os carregamentos foram se deslocando para distal, as tensões aumentavam consideravelmente. O padrão de desoclusão em guia canino é mais indicado para esse tipo de prótese e quanto mais extensa a extremidade distal livre, mais comprometida será a interface osso/implante e independente do comprimento do extremo livre distal, as maiores tensões sempre se localizam na interface osso/implante da região do implante mais próximo ao ponto de aplicação da carga. Descritores - Oclusão; Iimplante de prótese dentária; Biomecânica Introdução Existe grande controvérsia sobre como devem ser estabelecidos os padrões de oclusão e desoclusão, em reabilitações implantossuportadas¹-³. Desde o inicio da osseointegração, quando o protocolo Brånemark, composto pela prótese fixa com cinco ou seis implantes como pilares, na região mentual, com extremo livre distal bilateral, existe interesse não só em demonstrar e identificar os fatores oclusais mais adequados, proporcionando a desoclusão mais harmoniosa e eficaz, como também entender suas relações com o sistema estomatognático4. Durante esse período, tem sido investigada a associação desses fatores com os músculos da mastigação, eficiência mastigatória, bruxismo, articulação têmporomandibular, tecidos adjacentes, etc. No entanto, verificam-se poucas conclusões com consistência e sustentação científica. Na dentição na- tural, tem sido utilizada, com maior freqüência, a guia canina como padrão de desoclusão, nos movimentos bordejantes contactantes5. O padrão oclusal pode ser considerado fator crítico para a longevidade dos implantes osseointegrados, visto que, na dentição natural, o ligamento periodontal comporta-se de maneira muito diferente do que ocorre com os pilares de implantes osseointegráveis. Assim, as tensões transmitidas para os componentes dos implantes e para a interface osso/implante são totalmente distintas das que são verificadas na dentição natural. Deste modo, se as forças oclusais excederem a capacidade de absorção do sistema, o implante fracassará, devido às sobrecargas e à má distribuição das forças mastigatórias, dentre outros fatores²,³. A literatura pertinente a este tema ainda é pobre de avaliações qualitativas e quantitativas em relação 1 Mestre em Clínicas Odontológicas pela PUC Minas Professor Adjunto da Faculdade de Odontologia da PUC Minas 3 Professor Adjunto do Instituto Politécnico da PUC Minas 2 Arquivo Brasileiro de Odontologia 85 aos efeitos de tensões transmitidas para as estruturas ósseas que os sustentam. A modelagem dessas, por programas de computação gráfica e a análise biomecânica permitida pelo método dos elementos finitos (MEF), tridimensionais, é uma alternativa de abordagem promissora, com a vantagem adicional de não ser invasiva e contribuir para estudos sobre regiões de difícil acesso ou, até mesmo, impraticáveis, como por exemplo, medir tensões, compressões e deslocamentos nos implantes e estruturas de sustentação. Revisão de Literatura Foram analisadas as tensões de compressão e tração em implantes instalados em mandíbulas edêntulas. Num primeiro momento foram utilizados quatro implantes na região mentoniana, pré-forame, com a extremidade livre bilateral com comprimento de 8 mm. Uma carga vertical de 100 N e horizontal de 10 N foi aplicada em uma das extensões distais. De acordo com o resultado, o primeiro implante sofreu tensão de compressão, enquanto o segundo implante sofreu tensão de tração. Aumentando o comprimento da extensão distal livre para 16 mm, as tensões aumentaram consideravelmente. Próteses com extremo livre bilateral são aceitáveis, mas não podendo exceder esse comprimento em duas vezes a largura de um pré-molar. E mesmo com o uso de mais implantes, esse comprimento continua promovendo a condição desfavorável de carga6. Uma mandíbula com prótese implanto-suportada foi simulada, utilizando a análise dos elementos finitos tridimensionais. As variáveis introduzidas no módulo incluíam: densidade do osso esponjoso, comprimento de intermediários e implantes, comprimento do extremo livre, número e arranjo de implantes, grau de curvatura da mandíbula e liga metálica da infraestrutura. No modelo foi aplicada uma força de 100 N no sentido vertical. Dessa forma, foi concluído que a distribuição de estresse se mostrou melhorada no osso esponjoso, com intermediários e implantes longos e extremidade livre reduzida. Demonstrou-se ainda que o uso da liga de cobalto-cromo (CoCr) parece contribuir para a melhor distribuição das tensões7. Os efeitos das variações dos comprimentos dos extremos livres foram investigados, avaliando-se 55 casos clínicos, com distribuição de carga aplicada verticalmente aos implantes. Foram analisados: obtenção dos modelos dos casos clínicos; introdução da geometria do arco e localização dos implantes no computador; o cálculo máximo permitido para comprimento da extremidade livre. Os resultados obtidos demonstraram que, quando a carga oclusal foi aplicada na região de extremo livre, o primeiro implante (mais 86 Arquivo Brasileiro de Odontologia próximo à carga), sofreu tensão de compressão e os implantes seguintes sofreram tensão de tração. Tensões excessivas sempre ocorrem quando a carga oclusal for aplicada nas regiões distais de extremo livre. Quando é analisada a distribuição dos implantes, em visão ânteroposterior, e observa-se a distância superior a 11,1mm, é possível estabelecer a extensão distal suficiente para prover estética, fonética e função, sem maiores complicações biomecânicas. O comprimento máximo da extremidade calculado pelo modelo variou linearmente com a distância ântero-posterior dos implantes8. Tensões foram analisadas em diferentes pontos da superfície de uma coroa implantossuportada, instalada na região do segundo pré-molar inferior, utilizando o método de elementos finitos, 3D. Para tal, confeccionou-se um modelo de uma seção óssea mandibular, simulando osso tipo II, com ausência do segundo pré-molar. Incluiu-se neste modelo um implante de 4,1 x 10 mm (ITI® implant system), a coroa foi confeccionada em cromo-cobalto e porcelana. Ao primeiro modelo, aplicou-se a carga total de 300N na cúspide lingual, ao segundo, 150N na cúspide lingual e 150N na fossa distal e ao terceiro, 100N na cúspide lingual, 100N na fossa distal e 100N na fossa mesial. Os resultados demonstraram que a carga vertical em apenas um local provoca altos valores de tensão no implante e no tecido ósseo adjacente. Quando a carga foi distribuída em dois e três pontos diferentes, foi observado nível menor de tensão. Como conclusão, foi observado que a melhor distribuição das cargas verticais em dois ou três pontos diminui a tensão nos tecidos de suporte2. As forças mastigatórias agindo nos implantes dentários podem gerar tensão indesejável no osso adjacente, podendo causar defeitos ósseos e eventual falha do implante. A influencia do comprimento e do diâmetro do implante na distribuição de tensões foi avaliado, utilizando o método dos elementos finitos, 3D. Foram confeccionados modelos simulando implantes instalados nas posições verticais, na região de molares mandibulares, com variações no diâmetro e em seu comprimento. A carga mastigatória foi simulada em direção natural, oblíqua ao plano oclusal. Os valores de tensão de Von Mises foram computados na interface osso/implante. As áreas de tensões máximas foram localizadas em torno do pescoço do implante. Foi concluído que o aumento no diâmetro do implante tem resultado mais satisfatório que o aumento do seu comprimento em relação à diminuição das tensões máximas de Von Mises em torno da cabeça do implante, resultando na distribuição mais favorável das forças mastigatórias simuladas, aplicadas ao estudo9. Com o auxílio de tomografia computadorizada e um programa de computador (Cad-Cam/surgical template), foram analisados os resultados clínicos em cirurgias de carga imediata guiada, tendo quatro implantes como pilares de sustentação da prótese total. Foram analisados 23 pacientes, sendo instalados 92 implantes, com acompanhamento clínico de 6 a 21 meses. O acompanhamento clínico avaliava a inserção óssea, supuração, desconforto do paciente, infecção e mobilidade. Os resultados obtidos mostraram que o índice de sucesso foi de 92,7% na maxila e 100% na mandíbula. A média da perda óssea marginal foi de 1,9 mm no primeiro ano de acompanhamento. Foi possível concluir que este tipo de prótese tem boa previsibilidade e alta taxa de sucesso10. Material e Métodos Com a utilização do programa SolidWorks® Office Premium 2006 (SolidWorks - Massachusetts, EUA), foram desenhados modelos tridimensionais, que simularam uma prótese implantossuportada, inferior, tipo protocolo de Brånemark, com cinco implantes como pilares, localizados na região mentoniana, intraforames, e sobre os quais foi desenhada uma prótese total, com infra-estrutura metálica em níquel-cromo, composta por doze elementos dentários artificiais, ou seja, de primeiro molar inferior esquerdo a primeiro molar inferior direito e pequena faixa gengival em resina acrílica ativada termicamente, sem contato com tecido mucoso, respeitando uma área de higienização de 3mm. Os cinco implantes, em titânio, foram distribuídos na região mentoniana, pré-forame, respeitando a distância de 4 mm entre suas plataformas. Todos os implantes são cilíndricos, de 3.75 x 13 mm, com hexágono externo e plataforma de 4.1mm (Titamax II - Neodent®, Curitiba – Brasil). Os componentes protéticos simulados apresentavam 3 mm de altura e plataforma de 4.1mm. Os componentes protéticos (Mini pilar cônico - Neodent®, Curitiba – Brasil) também são fabricados em titânio (Figura 1). com uma espessura de 6 mm, altura de 4 mm e um comprimento total de 58,75 mm, o que proporciono uma extensão distal de 12 mm em cada uma das extremidades. Envolvendo esta infra-estrutura, foi desenhada a parte gengival em resina acrílica ativada termicamente (Clássico/RMV, São Paulo, Brasil) e os 12 dentes artificiais (Ivoclar Vivadent Ltda, São Paulo, Brasil). O coeficiente de Poisson (v) e o Módulo de elasticidade (E) de cada um dos distintos elementos que compõe os modelos foram determinados de acordo com a literatura pertinente, sendo osso alveolar esponjoso 1.370 MPa (E) e 0.30 (v); osso alveolar cortical 13,700 MPa (E) e 0.30 (v); liga de níquel-cromo 188.000 MPa (E) e 0.28 (v); titânio (E) e 0.35 (v) e resina acrílica 2.700 MPa e 0.35 (v). Os padrões de desoclusão foram simulados, aplicando-se a carga de 15 N com uma angulação de 45° (Figura 2) Figura 2 - Amostra da localização do carregamento aplicado nos padrões de desoclusão. Para o padrão de oclusão, foi aplicada a carga de 15 N, distribuída na superfície oclusal dos dentes primeiro pré-molar, na primeira simulação; primeiro e segundo pré-molares, na segunda simulação e primeiro e segundo pré-molares e primeiro molar, na terceira simulação, sendo que a força aplicada foi dividida entre os pontos de aplicação e, estes pontos, localizam-se exatamente após o termino da infra-estrutura metálica, ou seja, a 13 mm do primeiro implante (Figura 3). Figura 3 - Amostras das localizações dos carregamentos aplicados nas cargas oclusais, nas três simulações. Figura 1 - Modelo de Elementos finitos de uma prótese total, inferior, implantossuportada. A infra-estrutura metálica em níquel-cromo (Wironia® BEGO, Bremer/Alemanha) foi simulada Os resultados puderam ser analisados, comparando a magnitude de deslocamento em cada uma das simulações. Vale ressaltar que a magnitude do deslocamento refere-se à média vetorial dos deslocamentos nos eixos principais (x, y e z). Os valores puderam ser obtidos na forma de gráficos que permitiram sua comparação. Arquivo Brasileiro de Odontologia 87 Resultados Após a realização dos experimentos os seguintes resultados foram obtidos: 1 - Os resultados obtidos na análise da distribuição das tensões na interface osso/implante, quando utilizada a desoclusão em guia canino, estão representados nas figuras seguintes, com a mandíbula isolada das demais estruturas para a melhor visualização das representações das cores (Figura 4). Os resultados obtidos nas análises da distribuição das tensões na interface osso/implante estão demonstrados a seguir, com a interface óssea separada do restante do modelo, para uma melhor visualização: • Cargas oclusais no primeiro pré-molar (Figura 6) Figura 6 - Carga oclusal no primeiro pré-molar, vista anterior com secção no eixo X. • Cargas oclusais distribuída entre o primeiro pré-molar e o segundo pré-molar (Figura 7) Figura 4 - Desoclusão em guia canino, vista com secção no eixo X. 2 - Os resultados obtidos na análise da distribuição das tensões na interface osso/implante, quando utilizada a oclusão balanceada bilateral, estão demonstrados na Figura 5. Figura 7 - Carga oclusal no primeiro e segundo pré-molares, vista anterior com secção no eixo X • Cargas oclusais distribuída no primeiro pré-molar, segundo pré-molar e primeiro molar (Figura 8) Figura 5 - Oclusão balanceada bilateral, vista com secção no eixo X. O gráfico abaixo mostra que o valor de tensão máxima encontrado na simulação do padrão de desoclusão em guia canino é aproximadamente 3,22 vezes menor que o valor de tensão máxima encontrado na simulação da oclusão balanceada bilateral. (Gráfico 1) Gráfico 1: Valores de tensão máxima, padrão de desoclusão 88 Arquivo Brasileiro de Odontologia Figura 8 - Carga oclusal no primeiro e segundo pré-molares e primeiro molar, vista anterior com secção no eixo X. Quando foram aplicadas as tensões mais para distal, ou seja, envolvendo o primeiro e o segundo pré-molares, na segunda simulação e, posteriormente, o primeiro e o segundo pré-molares e o primeiro molar, na terceira simulação, mesmo que a somatória dos carregamentos seja equivalente em todas as simulações (15 N), a tensão sofrida pela interface osso/implante é consideravelmente maior na segunda e maior ainda na terceira simulação, como mostra o gráfico a seguir, com os valore de tensão máxima de cada uma das simulações (Gráfico 2). Gráfico 2 - Valores de tensão máxima, padrão de oclusão. Discussão Observou-se, com bastante freqüência, a preocupação dos autores em relação à oclusão, limitando-se na maioria dos casos, à análises das tensões nos extremos distais livres.11-13 Muitos destes trabalhos desprezam o material de recobrimento da infra-estrutura metálica, realizando os carregamentos diretamente sobre o extremo livre.14-16 A revisão deste trabalho em busca de conceitos e filosofias dos padrões de desoclusão, regrediu até o inicio do século passado, mais precisamente em 1905, quando Christensen14 descreveu a oclusão balanceada bilateral, iniciando uma corrente sustentada por diversos autores.15- 22 Na busca por trabalhos referentes à desoclusão em guia canino, voltou-se a 1919, quando Nagao23 definiu os conceitos da desoclusão em guia canino, iniciando uma filosofia seguida por diversos autores. 23- 28 Toda esta pesquisa à procura dos conceitos iniciais dos padrões de desoclusão tinha o propósito de deixar bem claro as definições dos padrões utilizados na prótese total mucossuportada e na prótese fixa dentossuportada. Com esta base histórica, pretendia-se buscar os conceitos na literatura dos padrões de desoclusão utilizados na prótese total implantossuportada. Porém, neste campo de pesquisa, foram encontrados alguns trabalhos relacionados à oclusão, principalmente, às cargas aplicadas na extremidade distal livre e poucas citações referentes aos padrões de desoclusão. Na verdade, a prótese total implantossuportada é a união dos conceitos da prótese total mucossuportada e da prótese fixa dentossuportada. Mas, em relação ao padrão de desoclusão, qual filosofia deve ser seguida? Pode-se optar pela desoclusão em guia canino, seguindo as orientações da prótese fixa ou mesmo dos ajustes oclusais na dentição natural, procurando concentrar as tensões em uma região que não pertença à região de extremo livre ou optar pela oclusão balanceada bilateral, seguindo algumas correntes da prótese total mucossuportada, visando a melhor distribuição das tensões e conseqüente equilíbrio da prótese. Infelizmente, o que pode ser constada clinicamente entre grande parte dos cirurgiões-dentistas, sejam eles Clínicos Gerais ou Protesistas, é que a opção mais comum de escolha é a desoclusão em guia canino, devido à simplicidade de obtenção ser maior que no caso da oclusão balanceada bilateral, sendo esta talvez, uma das únicas razões desta opção. A preocupação com a distribuição e absorção das tensões geradas pelos padrões de oclusão e desoclusão em uma prótese implantossuportada deve ser tratada com bastante cuidado e atenção. A oclusão pode ser considerada fator fundamental para o sucesso das próteses fixas implantossuportadas, não só nas próteses sobre implantes, mas em todas as áreas da odontologia. Nas próteses múltiplas com extremo livre distal, a estabilidade oclusal com contatos múltiplos bilaterais e simultâneos, com uma desoclusão rápida, de preferência pelo canino, não por ser melhor, mas por ser mais fácil de construir em uma prótese, fará com que as tensões resultantes sejam distribuídas por toda prótese e seus componentes, incluindo parafuso de ouro, componente protético e implante.29 Os resultados constatados neste trabalho contestam esses achados, pois pode ser notado que a distribuição das tensões na desoclusão em guia canino concentra-se na região do primeiro e segundo implantes e que na oclusão balanceada bilateral, as tensões resultantes apresentam-se mais distribuídas ao longo da infra-estrutura. A facilidade ou dificuldade de utilização de uma ou outra técnica é pertinente a cada profissional, porém, o padrão de desoclusão em guia canino deve ser utilizado de preferência por ser melhor, resultando e menores valores de tensões a toda a infra-estrutura. Quanto maior o comprimento da extensão distal livre, maiores tensões serão geradas nos implantes próximos a ela. A aplicação de carga, seja vertical, horizontal, látero-horizontal, sob o extremo livre, induzirá ao implante mais distal, a uma tensão de compressão, e os implantes próximos a ele a uma tensão de tração.6,8,13,14,30, 31. A avaliação criteriosa em relação ao implante adjacente à extremidade livre representa um procedimento importante, que deveria ser levado em consideração durante a determinação do comprimento da extremidade distal livre. Se o implante terminal não apresentar suporte suficiente e for de pequenas dimensões, o braço do extremo livre deveria ser drasticamente reduzido ou, até mesmo, descartado.13 A aplicação de cargas em uma infra-estrutura de prótese sobre implante, produz certa quantidade Arquivo Brasileiro de Odontologia 89 de energia de deformação no sistema, resultando em deformação e deflexão da infra-estrutura. Se grande quantidade de energia de deformação é consumida perto do ponto de aplicação da carga (o que presume alta concentração de estresse ao redor do implante mais próximo), ocorre grande redução de energia transmitida e baixa concentração de estresse nos demais implantes.31 A distribuição de estresse pode ser constatada neste trabalho, durante as simulações dos carregamentos das cargas oclusais, em todas as simulações. Portanto, os resultados obtidos foram os esperados em relação ao padrão de oclusão na região de extremo distal livre, ou seja, quanto maior o comprimento do extremo distal livre, maiores serão as tensões sofridas pela interface osso/implante e as distribuições destas tensões localizam-se nas mesmas regiões, mesmo que o valor do carregamento gere tensões bem maiores. Conclusões Em uma prótese total inferior implantossuportada, tipo protocolo de Brånemark, o padrão de desoclusão de escolha é da guia canino, sendo contra indicada a utilização da oclusão balanceada bilateral. Quanto mais extensa a extremidade distal livre, mais comprometidas serão as interfaces osso/implante. Independente do comprimento do extremo livre distal, as maiores tensões sempre se localizam na interface osso/implante na região do implante mais próximo ao ponto de aplicação da carga. Abstract This work examined, by the method of threedimensional finite element, the tensions generated on the bone/implant interface, by different standards of disclusion (Canine guide (GC) and balanced bilateral occlusion (OBB)) and occlusion (in the first simulation, the shipment was applied in the oclusal surface of the first premolar, in second, in the first and in the second premolar, and in the third, in the first and the second premolar and in the first molar) in a complete denture. It developed a three-dimensional model of the complete denture, standard protocol of Brånemark. The package of the program SolidWorks® was used in the pre and post-processing of data. The results show that the standard of disclusion in GC creates more tension in the region of the first interface between implant and tissue support and the OBB, tensions were high in the region of bone/implant interface of the first and the last implants. The maximum stress found in the simulation of OBB was 3.2 times higher than found in the GC. On the 90 Arquivo Brasileiro de Odontologia standard of occlusion in the region of cantilever presented a distribution of the tensions uniform in the three simulations, with the biggest levels of tension located in the region of the first implant, in all the cases. However, as the shipments had been dislocating for distal, the tensions increased considerably. The pattern of disclusion in GC is more suitable for this type of prosthesis Then more extensive the cantilever, more compromised will be the interface implant/bone and independent of the length of cantilever, the biggest tensions always be situated in the region of the interface implant/bone on the implant next to the application point of the load. Descriptors Occlusion, dental implantation, biomechanics. Referências 1. Guichet DL, Yoshinobu D, Caputo AA. Effect of splinting and interproximal contact tightness on load transfer by implant restoration. J Prosthet Dent. 2002;87:528-35. 2. Eskitascioglu G, Usumez A. The influence of occlusal loading location on stresses transferred to implant-supported prostheses and supporting bone: a three-dimensional finite element study. J Prosthet Dent. 2004;91:144-50. 3. Lin CL, Wang JC, Kuo YC. Numerical simulation on the biomechanical interactions of tooth/ implant-supported system under various occlusal forces with rigid/non-rigid connections. 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Fone/fax: 31-3334-3673 Celular: 8455-1945 E-mail: [email protected] Arquivo Brasileiro de Odontologia 91 Arq bras odontol 2008;4(2):92 - 95 ISSN 1808-2998 Relação entre periodontite e diabetes mellitus em crianças e adolescentes The relationship between periodontitis and diabetes mellitus in children and adolescents Thaís Ribeiral Vieira1, Alcione Maria Soares Dutra de Oliveira2, Ângela Christina Barroso Recchioni3, Elton Gonçalves Zenóbio2 Trabalho desenvolvido nas Disciplinas de Periodontia e Odontopediatria da Faculdade de Odontologia da PUC Minas Resumo - A influência do diabetes mellitus no periodonto, assim como o estudo da periodontite como possível fator associado às complicações clássicas do diabetes têm sido avaliados de forma sistemática. O objetivo do estudo é estabelecer, por meio da revisão da literatura, as relações existentes entre periodontite e diabetes mellitus em crianças e adolescentes. Descritores - Diabetes mellitus; Periodontite. Introdução Uma das principais causas da perda precoce dos dentes em grande número de indivíduos jovens, em todo o mundo, são as doenças inflamatórias infecciosas que afetam as estruturas de sustentação dos dentes, como o cemento, ligamento periodontal e osso alveolar.1 Enquanto as bactérias são essenciais para o desenvolvimento da periodontite, elas por si só são insuficientes; sendo necessário um hospedeiro susceptível2,3. Há evidências de que fatores genéticos, além de aumentarem o risco à doença, são os maiores determinantes da probabilidade do início da periodontite e de sua progressão e gravidade. Notavelmente, quase metade do risco de desenvolvimento da periodontite posteriormente na vida é geneticamente determinado e, portanto, está presente na infância4. Doenças sistêmicas debilitantes, tais como diabetes mellitus, podem alterar a habilidade do hospedeiro em lidar com infecções, exacerbando infecções existentes. Uma vez instalada a doença periodontal, os fatores denominados sistêmicos podem, eventualmente, intervir na progressão da inflamação, agravando-a. Toda e qualquer alteração metabólica que caracterize uma doença sistêmica ou modificação fisiológica transitória tem a possibilidade de interferir na progressão da doença periodontal5,6. 1 Este estudo pretende realizar uma abordagem relevante, enfatizando a ligação entre a saúde bucal e a sistêmica, além de priorizar a especial atenção com a qual deve ser tratado esse assunto, por constituir um grupo considerado de risco à continuidade do processo saúde-doença periodontal. Revisão da Literatura O diabetes mellitus tipo 1, anteriormente denominado diabetes mellitus insulino-dependente, é a forma mais comum entre crianças e adolescentes.7. No diabetes tipo 1 há diminuição relativa ou absoluta na secreção ou aproveitamento de insulina causada por defeitos nas células “beta” do pâncreas ou nos mecanismos de liberação de insulina, por meio de destruição auto-imune ou virótica dessas células pancreáticas8. Crianças com diabetes tipo 1 apresentaram alterações bucais como inflamação gengival grave e periodontite, caracterizada por perda de inserção rápida e progressiva, freqüentemente complicada por abscessos. As crianças com diabetes não-controlada podem apresentar destruição do osso alveolar, geralmente maior que as encontradas em lesões periodontais similares presentes em crianças sem diabetes9. Ao serem examinados 263 pacientes diabéticos tipo 1 e 208 controles não-diabéticos, foi observado aumento no risco de desenvolvimento de periodontite Aluna do Programa de Mestrado em Clínicas Odontológicas da Faculdade de Odontologia da PUC Minas Professor Adjunto da Disciplina de Periodontia da FO/PUC Minas 3 Professora da Disciplina de Odontopediatria da FO/PUC Minas 2 92 Arquivo Brasileiro de Odontologia com o avanço da idade; a gravidade da doença aumenta com o aumento da duração do diabetes. Os indivíduos diabéticos, submetidos a um controle metabólico ruim, perderam mais inserção e osso que os pacientes bem controlados10. Um estudo sobre a condição periodontal de pacientes diabéticos que apresentavam diferentes níveis de controle, revelou que os pacientes diabéticos bem controlados possuíam melhor saúde periodontal, havendo declínio na prevalência de perda de inserção e superfícies sangrantes11. Avaliando-se adolescentes com idade entre 12 e 18 anos, verificou-se que crianças diabéticas possuíam maior inflamação gengival, quando comparadas a crianças saudáveis, apesar de possuírem níveis de placa similares12. Jovens pacientes com diabetes tipo 1 sem correto controle metabólico foram acompanhados durante 10 anos, tendo sido observada a ocorrência de aumento significativo e progressivo na destruição do aparato periodontal com o aumento da idade13. O incidente da periodontite aumenta entre os portadores de diabetes após a puberdade e à medida que a população de pacientes envelhece. A doença periodontal pode ser mais freqüente e mais grave nos diabéticos que apresentam complicações mais avançadas. A susceptibilidade aumentada não se correlaciona com os níveis de placa e cálculo. Há relação entre a doença periodontal e o diabetes mellitus, especialmente em pacientes portadores da doença mal controlada ou apresentando hiperglicemia14. Foi observado que a maioria dos indivíduos portadores de diabetes tipo 1 manifestou doenças periodontais avançadas e elas surgiram ainda na idade jovem, comparados com os indivíduos não-diabéticos. Além disso, os indivíduos diabéticos que apresentaram periodontite avançada obtiveram prevalências mais altas de doenças renais e complicações cardiovasculares, incluindo angina, infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral, comparadas com os diabéticos com doenças periodontais menos intensas15. Crianças diabéticas do tipo 1, com baixo controle metabólico, geralmente iniciam o processo de periodontite em torno da puberdade. A falta de controle de placa bacteriana pode induzir a periodontite avançada. Além da intensa resposta inflamatória destrutiva aos agentes etiológicos microbianos da doença, as manifestações sistêmicas do diabetes, tais como microangiopatia, resposta imune alterada, metabolismo alterado do colágeno e aumento na atividade da matriz de metaloproteinase, também podem contri- buir para a patogenia do diabetes associado à doença periodontal. Além disso, as diferenças observadas na taxa de fluxo e composição da saliva em crianças portadoras de diabetes tipo 1, em relação aos controles, podem explicar em parte o porquê do maior risco para infecções periodontais. A saliva dessas crianças tem teor mais alto de peroxidase, glicose, magnésio e cálcio, enquanto o pH, a taxa de fluxo e a capacidade de tamponamento são baixas, comparadas com as dos controles saudáveis16,17. A patogenia do diabetes mellitus e da periodontite envolve tanto os fatores ambientais quanto os genéticos. O mecanismo patogênico comum em todas as formas é a falta absoluta da insulina, resultando em hiperglicemia ou na incapacidade das células de vários tecidos de utilizar insulina. Nos casos de periodontite, todas as formas de doença envolvem a destruição dos tecidos que sustentam os dentes, por meio da ativação dos mediadores da inflamação, derivados do hospedeiro por meio dos componentes tóxicos das bactérias Gramnegativas ancoradas nos biofilmes subgengivais18. Entre os fatores associados à maior gravidade das alterações periodontais observadas em diabéticos, destacam-se as modificações na composição da microbiota subgengival, alteração no metabolismo do colágeno e prejuízo funcional dos neutrófilos. Em conjunto, esses fatores indicam menor resistência à infecção, maior patogenicidade da microbiota e menor capacidade reparativa, o que justifica a maior gravidade da doença.19 As principais alterações periodontais em diabéticos descompensados foram analisadas. Alterações vasculares foram encontradas, destacando-se microangiopatia dos vasos capilares, aumento da membrana basal e êxtase na microcirculação. Foram também evidenciadas alterações do epitélio gengival, tais como menor queratinização. Alterações no tecido conjuntivo gengival e fibras do ligamento periodontal foram notadas, ressaltando a biossíntese retardada do colágeno, com desenvolvimento de infecção secundária e a velocidade retardada na maturação de fibroblastos do ligamento periodontal, dificultando a reparação pós-tratamento. Alterações do tecido ósseo foram observadas, incluindo reabsorção óssea rápida progressiva e osteoporose trabecular. Também foram encontradas alterações na saliva (xerostomia) e no fluido sulcular; aumento da glicose ou baixa de oxigênio no fluido, havendo a mudança na microbiota de placas flutuantes e aderidas na base de bolsa periodontal, resultando na seleção natural de microrganismos e conseqüente aumento da taxa Gram-negativa na microbiota bucal. Alguns sinais e sintomas clínicos periodontais relacionados à Arquivo Brasileiro de Odontologia 93 doença diabetes foram também citados, destacando-se: inflamação e hiperplasia gengival; bolsas periodontais ativas; abscessos periodontais recorrentes; candidíase oral; perda óssea rápida progressiva e cicatrização lenta do tecido periodontal20. No diabetes, o estado de hiperglicemia leva a alterações degenerativas nos pequenos e grandes vasos sangüíneos e danos ao sistema imune que resultam no aumento da susceptibilidade às infecções e a maior gravidade da doença periodontal. Esses fatores associados podem favorecer o crescimento mais rápido de determinadas espécies de microrganismos envolvidos na doença periodontal no paciente diabético. A microbiota complexa induz, de maneira ainda não esclarecida, resistência à ação da insulina em todo o organismo. A resistência à ação da insulina ocorre devido à elevação considerável dos níveis de citocinas inflamatórias, o que também aumenta o risco de desenvolvimento de complicações do diabetes7. Embora haja evidências suficientes para concluir que o diabetes é um fator de risco para a periodontite avançada, esta pode ter um papel na exacerbação do diabetes ou na indução de um controle metabólico mais difícil da doença, o que é pouco conhecido e não está bem documentado21. Um grupo de pesquisadores publicou um registro de consenso, o qual delineou e norteou a literatura de pesquisas recentes22. Os autores afirmaram que a literatura biomédica apóia a conclusão de que o diabetes está associado à redução da capacidade de lidar com as infecções e alterações da cicatrização de uma lesão. Essas alterações estão associadas tanto aos fatores genéticos quanto aos metabólicos. A disfunção dos polimorfonucleares no diabetes mellitus tipo 1 parece estar ligada à gravidade da doença periodontal. A literatura médica indica que a resolução da infecção melhora o controle do diabetes. Dados limitados mostram que a terapêutica inicial da doença periodontal pode ter pelo menos um efeito benéfico transitório no controle metabólico do diabetes. Discussão A doença periodontal é uma das mais freqüentes em humanos, atingindo todas as faixas etárias. Ela acomete, indistintamente, crianças e adolescentes, porém poucas pesquisas têm examinado a condição periodontal na dentição decídua. O ideal seria dedicar maior atenção a esse último grupo e, em especial, àqueles indivíduos sistemicamente comprometidos. A patogênese da doença periodontal em pacientes com uma resposta imunológica prejudicada é bem diferente do processo que ocorre em indivíduos normais. Na au- 94 Arquivo Brasileiro de Odontologia sência de prevenção e tratamento, a doença periodontal inicia-se precocemente na infância e progride, na adolescência, para formas mais agressivas e generalizadas de periodontite. Ocorre, nesses casos, uma exacerbação da destruição dos tecidos periodontais23. Estudos epidemiológicos das doenças periodontais na infância são limitados. Sabe-se que a gengivite é a mais comum dessas doenças. Essa prevalência tende a diminuir à medida que se chega à idade adulta, ao passo que começam a aumentar os casos de periodontite24. Dados epidemiológicos atuais sustentam claramente a noção de que crianças e adolescentes são susceptíveis às formas destrutivas da doença periodontal.21 A saúde gengival na infância é uma condição essencial para que o futuro adulto tenha saúde periodontal7. A educação em saúde bucal deve ser vista como fator prioritário em qualquer população, especialmente para as populações de risco. Conclusão Está consolidada na literatura a forte ligação existente entre a saúde bucal e a sistêmica. O diabetes mellitus é um fator de risco para a periodontite. O diabetes não-controlado ou pobremente controlado está associado ao aumento da suscetibilidade e gravidade de infecções, incluindo a periodontite. O diabetes não causa gengivite ou bolsas periodontais, mas existem indicações de que a doença reduz o mecanismo de defesa e altera a resposta dos tecidos periodontais aos irritantes locais, estimulando a perda óssea e retardando a cicatrização pós-cirúrgica dos tecidos periodontais. Por outro lado, as alterações periodontais podem dificultar o controle do diabetes e agravar a doença. A periodontite avançada está associada com piora significativa do controle glicêmico com o tempo. A periodontite também está associada às complicações clássicas do diabetes. Em pacientes diabéticos com periodontite, a terapia periodontal pode ter efeitos benéficos no controle glicêmico e no quadro geral da doença. O atual paradigma referente à doença periodontal reforça sua relação bidirecional com o diabetes. Abstract The influence of the diabetes mellitus in the periodontium, as well as the study of the periodontitis as a possible factor associated to the classic complications of the diabetes they have been, in a systematic way, appraised in the literature. The objective of the present study is to establish, by a review of the literature, the existent relation between periodontitis and diabetes mellitus in children and adolescents. Descriptors Diabetes mellitus; periodontitis. Referências 1. Costa FO, Lages EJP, Costa JE. Doença periodontal de progressão rápida em crianças e adolescentes. Rev CRO/MG. 1995;1:28-36. 2. Genco TJ, Christersson LA, Zambon JJ. Juvenile periodontitis. Int Dent J. 1986;36:168-76. 3. Page RC. The pathobiology of periodontal diseases may affect systemic diseases: inversion of a paradigm. Ann Periodontol. 1998;3:108-20. 4. Michalowicz BS. Genetic and heritable risk factors in periodontal disease. J Periodontol. 1994;65 479-88. 5. Kinane D. 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Recebido em: 08/06/08 Aceito em: 11/09/08 Correspondência: Thaís Ribeiral Vieira Rua Maranhão, 625/302 30150-330 – Belo Horizonte E-mail: [email protected] Arquivo Brasileiro de Odontologia 95 Arq bras odontol 2008;4(2):96 - 103 ISSN 1808-2998 Avaliação de próteses parciais fixas em cerâmica pura: uma revisão de literatura Evaluation of all ceramic in fixed partial dentures: Literature reviiew Ígor Chaves Guimarães Peixoto1, Emílio Akaki2 Trabalho desenvolvido na Disciplina de Prótese da Faculdade de Odontologia da PUC Minas Resumo - As cerâmicas odontológicas foram desenvolvidas para atender a demanda dos pacientes por materiais mais estéticos e resistentes (livres de metal). O objetivo desta revisão foi expor os diversos sistemas cerâmicos atuais livres de metal, principalmente aqueles baseados em óxidos de zircônia, enfatizando suas indicações, contra-indicações, vantagens e desvantagens. Constatou-se que as cerâmicas de óxidos de zircônia possuem propriedades estéticas, físicas e mecânicas interessantes e que, portanto, podem substituir as restaurações metalo-cerâmicas com alguns cuidados, respeitando as limitações do sistema. Descritores - Próteses parciais fixas, Ccerâmicas, Zircônia, Sistemas cerâmicos. Introdução Frequentemente o cirurgião-dentista depara, durante a prática clínica, com a exigência de resultados estéticos adequados cada vez mais próximos à dentição natural. Como conseqüência deste processo, a Odontologia tem procurado adequar materiais e técnicas, de modo a favorecer este fundamental aspecto do tratamento. Soluções estéticas vem se tornando cada vez mais desafiadoras, tanto pelo nível de exigência dos pacientes, quanto pelos novos materiais e técnicas que estão disponíveis e que permitem resultados altamente satisfatórios. Na tentativa de reproduzir a estética natural, pesquisadores e fabricantes de materiais dentários têm explorado o potencial de materiais totalmente cerâmicos, para obter melhor estética, sem comprometer a função. Provavelmente, as cerâmicas foram os primeiros materiais a serem fabricados artificialmente pelo homem. A porcelana odontológica convencional é uma cerâmica vítrea, que possui, como principais componentes químicos, minerais cristalinos tais como o feldspato, quartzo, alumina (óxido de alumínio) e, eventualmente, caolin e uma matriz vítrea, sendo considerada como material restaurador que possui características estéticas comparáveis as dos dentes naturais. Desta forma, procura-se o aperfeiçoamento da porcelana pura, tendo sido lançado no mercado sistemas totalmente cerâmicos para restaurações, como a nova geração de cerâmicas (p.ex., os sistemas Optec 1 Aluno do Curso de Graduação da Faculdade de Odontologia da PUC Minas Professor Adjunto da Faculdade de Odontologia da PUC Minas 2 96 Arquivo Brasileiro de Odontologia HSP®, OPC®, Finesse All-Ceramic®, IPS Empress I e II®, In-Ceram Alumina, Spinell e Zircônia®, VitaPress®, Cerec II® e Procera®). A prótese metal-free se desenvolveu com grande potencial, primariamente com a confecção de facetas e coroas unitárias isoladas. Com a grande demanda de falhas dentárias, tanto na região anterior como posterior, e com a melhora nas suas propriedades, foi incrementado no sistema metal-free a confecção de próteses parciais fixas (PPF). De acordo com este contexto e respeitando a evolução dos materiais dentários, é objetivo principal deste trabalho a avaliação das PPF em cerâmica pura. É de fundamental importância buscar a indicação correta dos materiais mediante as necessidades clínicas, sabendo dos seus limites, sendo essencial o conhecimento das vantagens e desvantagens apresentadas por cada um dos sistemas. Revisão de literatura As cerâmicas têm uma longa história na odontologia restauradora para realização de bons trabalhos estéticos. Por causa de suas qualidades ópticas superiores e de propriedades mecânicas, muitos sistemas cerâmicos têm sido desenvolvidos. No entanto, existem diferenças entre as várias classes de materiais. Como resultado dessas diferenças, vários tipos são utilizados em diversas indicações clínicas. Por um lado, cerâmicas à base de sílica, tal como as porcelanas feldspáticas, oferecem excelentes qualidades ópticas e são, por isso, aplicadas em situações que exigem mais estética. Por outro lado, por causa de sua menor resistência, elas devem ser reforçadas por uma subestrutura metálica ou por cimentação adesiva.1 Em função dos problemas estéticos causados pela dificuldade da passagem de luz das próteses metalo-cerâmicas, foram desenvolvidas novas tecnologias para produzir materiais cerâmicos com resistência suficiente para serem empregados em próteses fixas, sem a necessidade de haver o substrato metálico. Atualmente, estes problemas foram amenizados com a chegada dos novos sistemas, como as cerâmicas In-ceram Alumina®, In-Ceram Zircônia® e o Sistema Procera®, que proporcionam boa perspectiva clínica.2 O In-Ceram Alumina® possui grande conteúdo de alumina, variando sua estrutura básica entre 80% de óxido de alumínio e 20% de vidro. Este material apresenta melhora considerável nas propriedades mecânicas em relação às cerâmicas convencionais, alcançando a resistência flexural de 300 MPa a 600 MPa, que é também mais alta do que a das cerâmicas injetadas. O sistema In-Ceram Zircônia® promove a mistura de óxido de zircônia e óxido de alumina, como material para realização da infra-estrutura, possibilitando a obtenção do aumento da tenacidade e elevação da resistência flexural, que chega aproximadamente a 900 MPa, enquanto mantém os procedimentos de infiltração de vidro fundido no interior da estrutura.3 Vários trabalhos analisaram a eficiência dos sistemas de cerâmicas de zircônia e ainda comparálos com outros sistemas livres de metal disponíveis no mercado. Em um deles foi avaliado o desempenho clínico do In-Ceram Zircônia® em próteses parciais fixas no segmento posterior, após três anos de utilização. Dezoito próteses fixas foram fabricadas em laboratório credenciado e cimentadas em 16 pacientes. Foram avaliados: superfície, cor, anatomia, integridade marginal e sangramento gengival. Uma das 18 próteses foi perdida após 28 meses, devido à fratura radicular. Todas as próteses remanescentes foram consideradas excelentes ou aceitáveis após o período de observação. Sangramento gengival foi registrado mais freqüentemente nos retentores do que nos dentes naturais. Apesar dos resultados aceitáveis em curto prazo, análises clínicas de longo prazo deveriam ser realizadas, para que o sistema possa ser recomendado como alternativa às PPFs metalocerâmicas.4 Outro trabalho analisou a resistência flexural do In-Ceram Alumina® e In-Ceram Zircônia®, através de estudo comparativo. Barras uniformes do material de subestrutura, assim como do material de estrutura com lâminas de porcelana, foram submetidas ao teste de três pontos, para análise da resistência flexural. Os resultados foram analisados usando o método de Weibull. Os padrões de fratura de ambos os sistemas foram determinados usando o microscópico eletrônico de varredura. O sistema In-Ceram Zircônia® apresentou resistência significativamente maior, quando comparado com o sistema In-Ceram Alumina® (com e sem lâminas de porcelana).5 O Procera® é um sistema que utiliza o processo industrial computadorizado (CAD/CAM) para a realização de restaurações dentária. Após obtenção do troquel, é realizado o escaneamento do preparo com o Procera Scanner, cujos dados são transferidos para uma estação de produção da infra-estrutura, que é composta por óxido de alumínio com 99,5% de pureza, cuja resistência é a maior dentre todos os materiais cerâmicos usados em Odontologia. O sistema IPS Empress® é baseado na tradicional técnica da cera perdida. Basicamente, consiste em cerâmica feldspática reforçada por cristais de leucita, prevenindo a propagação de microfraturas que poderiam se expandir pela matriz vítrea e esse material é derivado do sistema químico SiO2 – AI2O3 – K2O.3 O sistema IPS Empress 2®, que é basicamente a porcelana vítrea de dissilicato de lítio, com teor cristalino superior a 60% em volume, apresenta resistência flexural de aproximadamente 350 MPa.6 Objetivando o uso do sistema de cerâmica aquecido e prensado para a confecção de próteses parciais fixas, foi desenvolvida a cerâmica vítrea de dissilicato de lítio, sendo o sistema SiO2 – Li2O a base química para o material. A resistência flexural dos sistemas IPS Empress 2® e In-Ceram Zircônia® foi avaliada através do teste de três pontos. Foram confeccionados 10 corpos de prova de cada sistema, seguindo as orientações dos fabricantes, que foram submetidos aos testes de resistência. As cerâmicas apresentaram diferentes desempenhos de resistência flexural, sendo que o sistema In-Ceram Zircônia® foi capaz de resistir à maior carga aplicada.7 Baseado em simulações executadas com parâmetros subcríticos de crescimento de trincas, foi observado que a probabilidade de fracasso em longo prazo avaliada para In-Ceram Alumina® (0.25% depois de 1 ano, 0.83% depois de 5 anos, e 100% depois de 10 anos), pode indicar capacidade de carga insuficiente, bem como material de PPF. O Empress 2® parece ser muito mais satisfatório como material de PPF, bem como material para região de molar.8 O sistema Cercon Zircônia® (Dentsply-Degussa) foi recentemente desenvolvido, contendo somente Arquivo Brasileiro de Odontologia 97 zircônia (ZrO2) em sua composição, tendo resistência à flexão de 900 MPa. Este material é fornecido em forma de blocos cerâmicos pré-sinterizados em três tamanhos.9 Determinados fatores que influenciam o desempenho clínico da PPFs cerâmicas são: tamanho, formato e a posição dos conectores, bem como distância dos pônticos.10 Na análise da distribuição de tensão carregada nas pontes cerâmicas, a área de conector entre o limite da ponte e o componente do pôntico é a parte crítica da restauração dentária, sendo que o desenho do detalhe da área do conector entre o limite da ponte e o pôntico tem grande efeito na probabilidade de fracasso da ponte cerâmica em longo prazo.8. Usualmente as fraturas das PPFs cerâmicas são localizadas na área entre os retentores e os pônticos e que o lado gengival dos conectores pode ser a área onde as altas tensões de estresse são localizadas.11 Sem dúvida, as próteses “metal-free” são uma realidade e, quando bem indicadas e confeccionadas, resultam em sucesso clínico, tanto no aspecto funcional quanto também no estético.12 A utilização de sistemas cerâmicos de elevada resistência flexural tem-se mostrado como alternativa de excelente resultado estético, para a resolução de ausência dentária na região anterior.13 Vantagens Os sistemas cerâmicos disponíveis atualmente no mercado apresentam vantagens significativas sobre as próteses metalo-cerâmicas. Próteses livres de metal não possuem zona de sombreamento na região cervical, além de não apresentarem correntes galvânicas, o que contribui para a manutenção da saúde periodontal e pulpar. As vantagens estéticas são ainda maiores, principalmente pela translucidez que podem oferecer.2 Coroas e PPF feitas exclusivamente de cerâmica têm algumas vantagens sobre sistemas cerâmicos de metal. Elas são vantajosas do ponto de vista estético, pois não requerem cobertura da infra-estrutura metálica, que pode deixar partes expostas do metal ou partes escuras nas áreas marginais. Além do mais, elas são superiores em relação à corrosão, galvanismo e biocompatibilidade.14 As restaurações em In-Ceram Alumina® e In-Ceram Zircônia® proporcionam excelente resultado estético, biocompatibilidade, alta fidelidade marginal e baixa condutibilidade térmica, bem como a resolução de problemas de resistência mecânica.2 A qualidade das margens é comparável às próteses fixas adesivas confeccionadas com estrutura metálica, apresentando ótima adaptação marginal e translucidez.15 98 Arquivo Brasileiro de Odontologia O In-Ceram Zircônia® apresenta como vantagens a excelente estética e biocompatibilidade, ausência de margem metálica, alta fidelidade marginal, elevada resistência à flexão e ruptura e baixa condutibilidade térmica. As experiências clínicas já ultrapassaram 12 anos, possibilitando muita segurança quanto à sua utilização.2 Muitos problemas inerentes às restaurações metalocerâmicas podem ser contornados com restaurações totalmente em cerâmica, incluindo outras vantagens como: otimização da estética pela transmissão de luz; menor condutibilidade térmica em relação ao metal, minimizando respostas pulpares adversas; radiopacidade permitindo melhor diagnóstico radiográfico; menor potencial de danos periodontais pela diminuição do acúmulo de placa na superfície glazeada da cerâmica, em comparação a junção metal-opaco-porcelana; melhor contorno nas margens em comparação ao sobrecontorno das coroas metalocerâmicas; menor risco ao paciente pelas suas propriedades inertes.16 Além disto, a introdução de materiais cerâmicos permitiu a confecção de restaurações com estética e características ótimas, tais como estabilidade da cor, alta resistência de uso e baixa condutibilidade térmica.11 Esses materiais podem ser usados para estruturas de próteses parciais fixas (PPFs) sob estresse mecânico mais alto. Dos materiais cerâmicos disponíveis para PPFs dentárias, a zircônia oferece as mais altas propriedades mecânicas. Ele exibe mais do que o dobro de resistência à fratura do que as outras cerâmicas.1 O melhor desempenho do In-Ceram Zircônia® é conseguido através do aumento da resistência que é obtido pela incorporação de partículas de óxido de Zircônia, que possui um dos maiores valores de tenacidade, aumentando a resistência do material à propagação de trincas.17 As estruturas de zircônia exibem estabilidade suficiente para serem usadas para as restaurações de molares e pré-molares.1 O sistema Empress 2® também é suficiente para dispensar a infra-estrutura metálica. Esta porcelana apresenta melhor translucidez, brilho e dispersão de luz, quando comparada às porcelanas feldspáticas.18 Esse sistema é biocompatível e possui radiopacidade e capacidade abrasiva compatível com as dos dentes naturais.19 Devido às propriedades mecânicas da cerâmica de zircônia, podem ser usados cimentos convencionais.20,21 Desvantagens O desenvolvimento CAD/CAM de estruturas é que sua espessura uniforme das estruturas projetadas virtualmente pode não fornecer suporte, próprio para a cerâmica de revestimento. As proporções ideais da estruturas para o suporte suficiente do material são difíceis ou mesmo impossíveis. No passado muitos sistemas all-ceramic fracassaram por causa de resistência física insuficiente. Houve crescente taxa de fraturas, especialmente em casos de cimentação convencional.1 Pequena irregularidade da área do conector levará à deformação mais rápida da PPF que o conector bem projetado. As propriedades do material, limitações anatômicas, espaço para higienização e expectativas estéticas são fatores importantes que deveriam ser considerados para o projeto da área do conector.22 As áreas de conexão das PPF são os locais mais sensíveis para qualquer tipo de falha. O maior estresse tensional dentro dos conectores de uma PPF de 3 unidades totalmente cerâmica está neste local.23 Mesmo as PPF livres de metal apresentando excelente estética e biocompatibilidade, a capacidade de suportar cargas é fortemente limitada, sendo fator crítico para pontes de ampla extensão e pontes posteriores, porque as forças de mastigação são muito mais fortes na região de molar que na região anterior.24 Tem sido revelada a presença de fendas marginais, com médias de 64 – 83 µm, nas restaurações unitárias completamente cerâmicas, geradas pelo CAD/CAM. Valores similares entre 64 – 74 µm foram relatados para núcleos PPF de zircônia produzidas pelo DCS® CAD/CAM (DCS, Allscwil, Suíça). Para o uso prático, foi ressaltada a necessidade da atenção do método CAD/CAM, pois este tem mostrado possíveis oscilações resultantes do processo de scaneamento, desenho no software, acarretando efeitos de encolhimento, levando a prótese à adaptação deficiente.25 Algumas cerâmicas de zircônio apresentam a resistência de 900 MPa, enquanto outros exibem valores de resistência de 1100 MPa. A aparente transluscência é muito importante, pois algumas zircônias exibem brilho branco, um tanto opaco, enquanto outras não.26 Indicação Em virtude das melhorias de qualidade estética que pode oferecer e da resistência mecânica alcançada pelo acréscimo de zircônia, o sistema In-Ceram® está indicado para próteses fixas, podendo fazer parte do dia-a-dia com muito mais segurança.2 Este sistema pode ser usado em coroas totalmente cerâmicas, estruturas de prótese fixa, inlays e onlays.17 Devem ser levadas em conta algumas recomendações: os dentes devem ter altura ocluso-cervical suficiente para abrigar o conector rígido, que deve ter a altura mínima de 3 mm; espaço protético: distância entre os dentes vizinhos antes do preparo deve ser de 11 mm, no máximo.12 O sistema In-Ceram Classic Alumina® está indicado para coroas nas regiões anteriores, posteriores e para prótese parcial fixa com três unidades para região anterior. O sistema In-Ceram Zircônia® está indicado para coroas anteriores como posteriores e prótese parcial fixa com três unidades para região posterior.27 A alumina infiltrada por vidro e reforçada com zircônia é recomendada para PPFs posteriores de 3 unidades de uma distância de ponte menor do que 10 mm entre os dentes preparados, se a área do conector for equivalente à 16mm2.10 O sistema Procera Zircônia® (Nobel Biocare) contém alto conteúdo de zircônia, tendo resistência à flexão de 900 MPa. É indicada para confecção de infra-estrutura para coroas anteriores e posteriores, sendo aplicada a cerâmica feldspática de cobertura com coeficiente de expansão térmica compatível. O sistema In-Ceram Zircônia® (Vita) utiliza a mistura de zircônia (20%) e alumina (67%), sendo aproximadamente 20% mais resistente que a In-Ceram Alumina®. A resistência à flexão de 750 MPa permite a confecção de coroas totais posteriores e PPFs de três elementos, incluindo áreas posteriores sobre dentes naturais ou implantes.9 O sistema Empress® é indicado para inlays, onlays, overlay, facetas e coroa unitária. Contudo o sistema Empress 2® é indicado para coroas em geral e próteses fixas de três elementos anteriores e posteriores, incluindo o primeiro molar como pôntico.28 O sistema In-Ceram Alumina® é indicado para coroas unitárias, próteses fixas de 3 elementos anterior. Já o sistema In-Ceram Zircônia® possui maior confiabilidade para confecção de coroas posteriores, próteses fixas de 3 elementos posteriores. Não obstante, o sistema Procera® fica com sua indicação limitada para coroas unitárias. Ambas necessitam de equipamento específico e, em relação à cimentação, todas podem ser realizadas, tanto com cimento convencional ou cimento resinoso.3 O sistema In-Ceram Zircônia® é indicado para PPFs de 3 a 4 unidades até a extensão de 38 mm.25 A cerâmica de Zircônia, com a força flexural mais alta de ± 600 a 800 MPa, parece ser indicada para coroas unitárias e próteses parciais fixas de 3 unidades. A zircônia também pode ser colocada em estruturas para implantes com excelente durabilidade e estética.20 O In-Ceram Zircônia® é indicado para coroas unitárias posteriores e PPFs de três elementos, Arquivo Brasileiro de Odontologia 99 incluindo áreas posteriores sobre dentes naturais ou implantes.17 Para confecção de copings para coroa total anterior e posterior e infra-estrutura de PPFs de três e quatro elementos para região anterior e posterior é indicado o sistema Cercon®.9 Contra-Indicação Pacientes com higiene oral precária, alta atividade de cárie, doença periodontal ativa ou bruxismo, e molares inclinados que não devem ser utilizados como pilares, contra-indicam a reabilitação protética.4,12 O sistema Empress 2® não é indicado para PPF posterior com extremos livres, sendo que o pôntico não deve possuir largura superior a 7-8 mm. A cimentação não apresenta nenhuma restrição, podendo assim ser realizada por cimentação convencional com cimentos de ionômero de vidro ou resinosos. Por outro lado, para o sistema Empress® é recomendado o uso de cimento resinoso.3 O sistema In-Ceram Zircônia® e o sistema Empress 2® não são recomendados para PPFs de 4 unidades na região de molar. Além disto, o desenho do conector com a área de secção cruzada de 7,3 mm2 é muito pequena para área desejada.10 As baixas propriedades mecânicas apresentadas pelo grupo IPS Empress® não são adequadas para PPFs de 3 elementos, particularmente, para área dos dentes posteriores. Entretanto, PPFs do grupo IPS Empress 2® deve ser usado apenas em região de pré-molares e não na região de molares, áreas de grande estresse.29 Os apoios móveis não devem ser considerados para próteses fixas In-Ceram de Zircônia®, já que estes concentraram tensão nas áreas do conector e causaram um fracasso prematuro.20 O paciente portador de parafunção afeta, consideravelmente, a longevidade das restaurações totalmente cerâmicas.21 Discussão As PPF completamente cerâmicas feitas de 3 ou mais unidades são relativamente novas e este setor é um mercado em constante crescimento.25 Além das vantagens estéticas, a biocompatibilidade, a estabilidade de cor, a resistência ao desgaste e a adaptação marginal satisfatória, os materiais cerâmicos apresentam algumas desvantagens, como a limitação de ordem mecânica, que dificulta seu uso em PPF. A baixa resistência à flexão faz com que os fabricantes as indiquem para a reposição de dentes anteriores e, no máximo, para 100 Arquivo Brasileiro de Odontologia reposição do primeiro pré-molar.28 Materiais cerâmicos também exibem outras propriedades desejáveis, incluindo a diminuição de acúmulo de placa, baixa condutividade térmica.29 Todavia, fragilidade e baixa resistência à tensão são pontos fracos destes materiais. Portanto o sucesso clínico de pontes fixas totalmente de cerâmica tem decepcionado, especialmente para pontes fixas posteriores quando comparadas com restaurações metalocerâmicas. As restaurações metalo-cerâmicas ainda são as opções mais amplas e bem sucedidas usadas em PPFs e dados disponíveis mostram a taxa de durabilidade de aproximadamente 95% a 98%, 90% e 85% em um tempo de aproximadamente de 5, 10 e 15 anos, respectivamente.4 Todas as PPF cerâmicas se constituem em nova opção de tratamento. Os estudos de coroas cerâmicas são muitos; mas os de realização clínica das PPF são poucos. O sucesso clínico das PPF cerâmicas tem sido questionado e apresentando alguns desapontamentos, especialmente para região posterior, quando comparadas com as restaurações metalo-cerâmicas. Um aspecto problemático é a capacidade limitada de suportar carga. Isto é crítico para PPF de ampla extensão, principalmente, no caso da ponte posterior, porque forças de mastigação são muito mais fortes na região de molar que na região anterior.8 O sistema In-Ceram® possui propriedades físicas, mecânicas e estéticas que o indicam como sistema adequado para a realização de PPF adesivas. Entretanto, mais estudos são necessários para avaliar seu comportamento clínico em longo prazo16. Neste sentido, pesquisa mostrou que PPF de 3 unidades posteriores com base de zircônia demonstraram boa performance, em termos de resistência clínica à fratura, descoloração, marginal e cáries secundárias, após serviço de curto prazo, entre 18 a 36 meses. Foi destacada a necessidade de estudo de longo prazo, para averiguação precisa das PPF totalmente cerâmicas.21 As cerâmicas de zircônia são as únicas que exibem a propriedade física chamada dureza transformacional (transformational toughening). Através do uso de aditivos, como o óxido ítrio, a zircônia pode ser feita em estrutura de cristal tetragonal, à temperatura ambiente. Quando fonte de energia externa é aplicada ao material, leva à instantânea transformação para iniciar a estrutura de cristal monoclínica. Esta forma de cristal zircônio é cerca de 4% maior em volume que a forma tetragonal. No topo microscópico da rachadura, esta expansão na transformação age como grampo no isolamento da rachadura, então resistindo à sua propagação. Este processo de resistência ativa do crescimento da rachadura é de maior importância em situações de fadiga, como aqueles causados por forças de mastigação sobre a restauração.22,26,30-33 Conseqüentemente, em contraste às pontes fixas do grupo cerâmico IE2 (sistema Empress 2®), a maior carga para falha das restaurações de zircônia reforçada pode permitir o uso clínico de pontes fixas totalmente em cerâmica também na região de molares.29 Estudo realizado em 61 pontes fixas de três elementos do IE2 demonstrou que não houve falha em restaurações anteriores, mas a taxa de 35% de falha de pontes fixas posteriores foi documentada para o retorno em três anos. Revisando as sete pontes fixas que falharam, a propagação da fratura sempre foi observada através do conector. A maioria das falhas ocorreu já no primeiro ano após a cimentação34. Portanto, porcelana alumina com infiltrado de vidro não pode ser usadas de forma confiável para pontes fixas posteriores como aconselhado pelo fabricante. As áreas de conector de pontes fixas são geralmente limitadas na região posterior, sendo que o contato oclusal e o tecido gengival definem os limites das dimensões do conector, dificultando o tamanho idealizado para eles.29 Neste sentido, os conectores para armação oclusogengival devem ser de 4 mm e o ideal seria de 5 mm, se substituindo o 1o molar.20 As dimensões bucolinguais do conector devem ser 4 mm na região de molar e 3 mm na região de pré-molar, para dar uma margem à força adequada. O espaço gengival das PPFs são os locais mais sensíveis para qualquer tipo de falha e que o maior estresse tensional dentro dos conectores de PPF de 3 unidades totalmente cerâmica está neste local.23 Devido o núcleo cerâmico ser significantemente mais forte que a cobertura de porcelana, algumas vezes é recomendado que porcelanas pequenas ou sem cobertura sejam aplicadas para o lado do tecido do conector, pois isso aumentará a resistência conferida pelo núcleo do material.16,35 A média de carga para falha das pontes fixas investigadas foi, significativamente, diferente. Pontes fixas, totalmente cerâmica feitas de zircônia, parcialmente estabilizada, revelaram alta carga de falha de todas as pontes fixas testadas na investigação. Em comparação com pontes fixas constando de material cerâmico convencional, a média da carga para falha foi quase três vezes maior.29 A escolha do material provou ter influência significativa na capacidade de suportar cargas das PPF. Contudo, a capacidade superior exibida por PPF que foram fabricadas de zircônia expostas ao tratamento HIP (pressão isoestática quente), a princípio, não poderia ser esperada.23 Por um lado, a zircônia tratada com HIP tem mostrado possuir maior resistência de adesão comparada com uma zircônia pré-sinterizada, esculpida e mais tarde sinterizada densamente. Entretanto, o dióxido de zircônia processado por pressão isoestática quente e completamente sinterizado ou pré-sinterizados, é um material promissor para a fabricação de PPF totalmente cerâmicas de 4 unidades na região posterior, combinando uma qualidade ótima de estética e biocompatibilidade com alta resistência o que, até hoje, poderia ser obtido apenas com restaurações de porcelana fundida com metal. No mesmo sentindo, as diferenças na taxa de redução da resistência a fratura podem ser explicadas pelas técnicas de produção diferentes para cada sistema, bem como a trituração da estrutura fora da lacuna de zircônia tetragonal poli - cristalina estabilizada por ítrio (Y-TZP) pré-sinterizada e subseqüente da pós-sinterizada, provavelmente produzirá falhas de superfície e diferentes estresses residual, compressão daqueles produzidos em uma estrutura Y-TZP triturada fora de uma lacuna completamente sinterizada. Isto provocará diferenças na resistência dos limitados materiais entre sistemas diferentes.11 Uma das maiores preocupações está correlacionada ao processo de adaptação da prótese parcial fixa. Estudo realizado com PPF completamente cerâmicas de 3 unidades, geradas por 3 diferentes sistemas CAD/ CAM, demonstrou que é possível usar o CAD/CAM dentro dos limites discutidos para obter a boa adaptação clínica com as vantagens de materiais homogêneos padronizados.24. Dentro de vários estudos clínicos, têm revelado profundidades médias de fendas marginais de 160 µm e 172 µm nas coroas convencionais. Baseado em tais dados, fendas de profundidade até de 200 µm são considerados como, clinicamente realistas e aceitáveis. Nestes termos, os sistemas completamente cerâmicos considerados em sua pesquisa ofereceram adaptação marginal satisfatória e pode muito bem competir com restaurações convencionais. O estudo sobre a eficácia das PPF cerâmicas com base de óxido de zircônia posterior de 3 unidades utilizando o sistema Lava, teve avaliação clínica das restaurações usando os critérios modificados de Ryge; embora estudos sobre a adaptação marginal das restaurações de óxido de zircônia sejam limitados, os resultados deste estudo demonstraram uma excelente integridade marginal com todas as restaurações avaliadas como Alpha do sistema Lava® (3M ESPE, St Paul, Minn, EUA), e com nenhuma descoloração marginal.21 Freqüentemente, a maioria dos casos de falhas relatada para PPF foi perda de retenção e lesões de cárie.7 Os resultados de alguns estudos cegos que PPF posteriores devem ser fortes o suficiente para suportar uma carga e a corrosão por estresse causado pelo Arquivo Brasileiro de Odontologia 101 meio oral.29 Considerando este fato, o clínico que é confrontado com a indicação de uma ponte fixa totalmente cerâmica deve também verificar a mobilidade dos dentes pilares no planejamento. A resistência à fratura e a resistência flexural do zircônia são significativamente maiores que aquelas de alumina ou outras cerâmicas estéticas atualmente disponíveis. Estes sistemas cerâmicos de zircônia apresentam-se como alternativa viável às ligas metálicas em situações clínicas bem indicadas de PPF de três elementos com preparos totais, inclusive nas regiões de molares. É importante salientar que o diagnóstico apropriado, seleção do material e concepção dos requerimentos do desenho da subestrutura cerâmica são cruciais para o sucesso destas restaurações. Conclusão De acordo com a literatura estudada, observouse que a diferença de vários sistemas de cerâmica pura são relevantes nas várias modalidades clínicas do dia a dia. As propriedades físicas, mecânicas e estéticas da cerâmica de zircônia parece ser a alternativa adequada para restaurações posteriores, tanto de coroa posterior como da PPF de 3 unidades. Devido às melhoras em relação aos de óxidos de alumina, observa-se a tendência do uso de zircônia nas PPF, onde há a necessidade de materiais mais resistentes. Com relação ao sistema Empress 2®, as PPF ficam limitadas realmente para região anterior. Sendo assim, as características tecnológicas destes sistemas certamente melhorarão ainda mais e mostrando maiores facilidades técnicas, o que contribuirá para definitivamente incorporá-lo à rotina de trabalho, oferecendo aos pacientes trabalhos estéticos, mecanicamente seguros e garantidos. Para isso, são necessários estudos longitudinais para verificar sua eficiência a longo prazo. Abstract The dental ceramics have been developed in the intention of assisting the patients’ demand for more aesthetic and resistant materials (metal free). The aim of this revision is to expose the several current ceramic systems free from metal, mainly those based on zirconia oxides, emphasizing your indications, contraindications, advantages and disadvantages. It was verified that the ceramic of oxides of zirconium possess aesthetic properties, physics and interesting mechanics and that, therefore, they can substitute the restorations metal-ceramic with some cares, respecting the limitations of the system. 102 Arquivo Brasileiro de Odontologia Descriptors Fixed Partial Dentures, Ceramic, Zircônia, Ceramic Systems. Referências 1. Sailer I, Fehér A, Filser F, Luthy H, Gaucker LJ, Scharer P, Franz Mammerle CH. Prospective clinical study of zirconia posterior fixed partial dentures: 3-year follow-up. Quintess Int 2006;37:685-93. 2. Rosa JCM, Gressler AEN. Prótese fixa em porcelana livre de metal: Sistema In-Ceram com reforço de Zircônia. Rev Ass Paul Cir Dent. 2001;55:291-5. 3. Bottino MA, Quintas AF, Miyashita E, Giannini V. 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Alberto Gomes, 348 31.920-280 - Belo Horizonte – MG Arquivo Brasileiro de Odontologia 103 Arq bras odontol 2008;4(2):104 - 112 ISSN 1808-2998 Protocolo de atendimento odontológico para paciente com anemia falciforme Dental treatment protocol for sickle cell anemia patient Jamile Santos Hosni1, Mário Sérgio Fonseca2, Luis Cândido Pinto da Silva2, Roberval de Almeida Cruz3 Trabalho desenvolvido no Curso de Especialização em Atendimento Odontológico de Pacientes com Necessidades Especiais, da Faculdade de Odontologia da PUC Minas Resumo - A anemia falciforme é um tipo hereditário de anemia hemolítica, caracterizada pela mutação no gene da hemoglobina, gerando uma molécula anormal, a hemoglobina S. Os pacientes que apresentam tal desordem, em sua maioria de cor morena ou negra, são mais susceptíveis à infecções, devido a alterações imunológicas, além de múltiplos sistemas orgânicos poderem apresentar manifestações ou complicações, inclusive a cavidade bucal. A doença evolui de forma crônica e com crises isquemicas periódicas Os achados bucais mais freqüentes são: palidez da mucosa, hipoplasia de esmalte, maloclusões e alterações radiográficas; e entre as principais complicações bucais estão necrose pulpar assintomática, neuropatia do nervo mentoniano e osteomielite mandibular. Para o tratamento odontológico adequado dos pacientes, o cirurgião-dentista deve compreender os aspectos mais importantes relacionados à doença, assim como suas implicações odontológicas. O tratamento deve ser iniciado com o conhecimento da história médica e odontológica do paciente, sendo a prevenção a forma ideal de abordagem. Os objetivos principais são promover e manter a saúde bucal adequada, além de tratar efetivamente qualquer tipo de infecção local existente, minimizando o risco de infecções sistêmicas correlatas, utilizando-se o regime profilático e preventivo. Descritores - Aanemia falciforme, Hemoglobina, Infecções, Tratamento odontológico. Introdução As doenças falciformes são decorrentes de desordens genéticas que induzem a produção de hemoglobina anômala, com estabilidade modificada e características físico-químicas diferentes da molécula normal. Nestes casos, há mutação na posição 6 do gene da beta-globina, no cromossomo 11, onde ocorre a substituição do aminoácido valina pelo ácido glutâmico, caracterizando a variante denominada hemoglobina S (Hb S). A anemia falciforme é o estado homozigótico da doença falciforme (o estado heterozigótico é chamado traço falciforme). Isto quer dizer que um gene de cada um dos pais contribuiu para a formação da molécula responsável pela doença, transmitida como herança autossômica recessiva, não ligada ao sexo. A alteração estrutural da molécula de hemoglobina modifica sua carga elétrica, fazendo com que, em determinadas situações de alteração do nível de oxigênio, temperatura, pH, força iônica, 2-3 DPF (difosfoglicerato), monóxido de carbono e desidratação, haja alteração da forma 1 das hemácias, de discóide para falciforme, sofrendo agregação e polimerização, passando do estado líquido fluido para gel viscoso. O afoiçamento das hemácias é inicialmente reversível, mas as constantes modificações lesam a membrana celular, tornando-a permanentemente alterada. Consequentemente ficam com menor capacidade transportadora de oxigênio para os tecidos, pois sua passagem é dificultada na microcirculação, quando há obstrução dos pequenos vasos, provocando hipóxia e necrose do tecido adjacente, principalmente em tecidos com pouca circulação colateral e vasos com circulação terminal. Diante disto, praticamente todos os órgãos podem ser afetados pela oclusão vascular. Por sua vez, a destruição precoce das hemácias acarreta alteração das funções orgânicas, induzindo o quadro de anemia hemolítica crônica e criando a necessidade de produção constante de eritrócitos, pois sua vida útil passa de 120 dias para aproximadamente 20 dias, quando são retiradas da circulação pelas células retículo-endoteliais, principalmente do baço e do fígado. Especialista em Atendimento Odontológico de Pacientes com Necessidades Especiais pela Faculdade de Odontologia da PUC Minas Professor Assistente do Curso de Especialização em Atendimento Odontológico de Pacientes com Necessidades Especiais da Faculdade de Odontologia da PUC Minas 3 Professor Adjunto da Disciplina de Odontopediatria da Faculdade de Odontologia da PUC Minas 2 104 Arquivo Brasileiro de Odontologia Por isto esta anemia é considerada a forma mais grave das síndromes falciformes.1-8 Manifestaçõies sistêmicas da anemia falciforme A anemia falciforme tem períodos de agudização conhecidos como crises vaso-oclusivas ou crises dolorosas. Cada surto dura de 3 a 10 dias e vários agentes desencadeadores foram descritos, destacandose as infecções, desidratação, acidose, hipertermia, estresse emocional e exercícios físicos rigorosos. A dor decorrente da insuficiência vascular é irradiada e os locais mais comumente comprometidos são nos ossos, pulmões, regiões abdominal e dorsal, fígado, cérebro, baço e pênis. A evolução da doença pode gerar complicações em qualquer parte do organismo, principalmente, nas áreas mais comprometidas pela hipóxia e pelo infarto4. Entre os sinais e sintomas mais freqüentes estão icterícia; palidez da pele e das mucosas; úlceras nas pernas; organomegalia; alterações cardíacas em decorrência da hipóxia miocárdica; complicações do sistema nervoso central, principalmente na forma de cefaléias, convulsões, hemiplegia e acidentes vasculares cerebrais. É possível encontrar alterações ósseas, hepatomegalia, hematúria, insuficiência pulmonar e renal, e cálculos pigmentares na vesícula produzidos pela hiperbilirrubinemia. Ocasionalmente, ocorrem alterações oculares, caracterizadas por infartos retinianos, retinite proliferante e deslocamento de retina2. Os distúrbios hereditários das hemoglobinas são as doenças genéticas mais freqüentes do homem e mais difundidas no mundo. Em relação à anemia falciforme é a doença hereditária mais prevalente no Brasil e, em termos mundiais, é a forma mais comum de anemia hemolítica congênita9,10. Segundo o Ministério da Saúde do Brasil, a triagem neonatal nos estados de Minas Gerais e do Rio de Janeiro mostra a incidência de traço falciforme de 1:21 nascidos vivos e de doença falciforme de 1:1.200 nascimentos. Na Bahia são 1:650 para a doença e 1:17 para o traço. Com base nesses dados, acredita-se que nasçam no país, anualmente, cerca de 3.500 crianças com a doença falciforme e 200.000 portadores de traço11. A condição é mais comum em indivíduos da raça negra. No continente africano existem países em que mais de 20% dos portadores são assintomáticos. Representam cerca de 8% dos negros, mas nos países em que existe grande miscigenação racial, pode ser observada também em pessoas da raça branca ou parda12. Apesar de ter sido considerado tipo de doença essencialmente da infância e atingir a mortalidade de até 20%, antes dos três anos de idade, o diagnóstico feito logo após o nascimento e os avanços das pesquisas clínicas têm aumentado a expectativa de vida dos indivíduos acometidos. Fator importante para tal melhora é que as complicações agudas, especialmente durante a infância, passaram a ser reconhecidas mais precocemente e tratadas de forma mais objetiva. Entre estes pacientes, as mulheres apresentam a sobrevida pouco maior que os homens. A idade média de morte é de 42 anos para homens e 48 anos para as mulheres13,14. A porcentagem de mortalidade entre crianças menores de 5 anos de idade é cerca de 25 a 30% e a maioria das mortes neste grupo é secundária a infecções fatais, seqüestro esplênico ou crises aplásticas1. A relação entre infecções bacterianas e doença falciforme foi reconhecida há várias décadas, sendo que, nos últimos 20 anos, tem sido enfatizado o seu papel como causa freqüente de mortes, especialmente em crianças13. As infecções acompanhadas de acidose, hipóxia e desidratação podem desencadear e/ou intensificar as crises de falcização, que pode ser letal para o paciente. Se não for tratado adequadamente, qualquer infecção tem grande potencial de evoluir para septicemia1. A base fisiopatológica para maior susceptibilidade à infecção na doença falciforme é complexa e ainda não totalmente conhecida. Dentro deste contexto, a hipofunção esplênica constitui o componente principal, sendo acompanhada de anormalidades de opsonização, da via alternativa do complemento, da produção de anticorpos, da função leucocitária e imunidade celular4. Manifestações bucais do paciente com anemia falciforme A cada dia aumenta o número de portadores de anemia falciforme que procuram tratamento odontológico de rotina, muitas vezes por recomendação médica. Isto é reflexo direto da maior expectativa de vida dos pacientes15. A realização da anamnese é importantíssima. O conhecimento da história clínica não é apenas forma de proporcionar segurança ao cirurgiãodentista, mas também a certeza de que o tratamento instituído não prejudicará o estado geral de saúde e bem-estar do paciente. Para isto, o profissional deve ter conhecimento da extensão da doença e estar apto a detectar seus sinais e sintomas, a fim de determinar se haverá risco para o tratamento. É sugerida a realização de exames laboratoriais para avaliar o real estado de saúde e também a consulta ao médico do paciente, caso o estado clínico não esteja definido16. Através da análise das informações e do conhecimento das características e peculiaridades da anemia falciforme, Arquivo Brasileiro de Odontologia 105 constata-se que os pacientes merecem cuidado especial no consultório odontológico. Eles correrão grande perigo, caso a desordem não seja detectada antes do início do tratamento2. Conforme foi mencionado, a anemia falciforme apresenta manifestações clínicas bastante variadas, com diferentes intensidades, que dependem do grau da anemia, a idade do paciente, a ocorrência de internações, a necessidade de transfusões sanguíneas, etc. Isto deixa claro que, além do conhecimento das alterações bucais, o cirurgião-dentista deve conhecer com detalhes a história médica pregressa e as peculiaridades da abordagem clínica do paciente17-19. As manifestações bucais não são patognomônicas da doença, mas podem sugerir a condição. Os principais sinais são: palidez da mucosa, coloração amarelada dos tecidos, alterações radiográficas, atraso na erupção dos dentes, transtornos da mineralização do esmalte e da dentina, alterações das células superficiais da língua, maloclusões, hipercementose e um grau de periodontite incomum em crianças20-22. A palidez da mucosa e a coloração amarelada da gengiva são resultantes da deposição dos pigmentos sanguíneos, secundária à hiperbilirrubinemia causada pela grande destruição dos eritrócitos16,20. Contudo, as condições mais comuns associadas são alguns achados radiográficos, que afetam tanto a maxila quanto a mandíbula, em aproximadamente 79 a 100% dos pacientes20,21. Pode ser observada a perda do padrão trabecular normal com o aumento da radioluscência, devida à diminuição do número de trabéculas e o aumento dos espaços medulares resultantes da hiperplasia compensatória; afinamento do bordo inferior da mandíbula; padrão trabecular grosseiro; distintas áreas radiopacas causadas pela reparação de infartos ósseos; trabeculado em forma de “escada”, presente principalmente no osso interproximal, criado pelas trabéculas que formam fileiras horizontais; presença de projeções semelhantes a “fios de cabelo”, devidas à formação secundária de osso, compensatórias à reabsorção óssea ocorrente durante a expansão da medula óssea; espessamento da lâmina dura; perda da altura do osso alveolar, assim como osteoporose generalizada causada por infecção por Salmonella2,6,10,18,21,23. As manifestações bucais não são tão comuns quantas outras complicações da doença. Entre as mais comuns estão: necrose pulpar assintomática, neuropatia do nervo mentoniano e osteomielite mandibular8. O órgão pulpar é passível de ser comprometido por microtrombos de células falciformes durante as crises, causando o bloqueio dos vasos. Se o suprimento sanguíneo for interrompido, pode ocorrer a necrose as- 106 Arquivo Brasileiro de Odontologia séptica da polpa, com possível envolvimento periapical posterior10. Geralmente este quadro é assintomático, raramente acompanhado de dor pulpar24. Deve ser realizada a diferenciação entre a radioluscência da lesão periapical secundária à necrose pulpar, das demais alterações ósseas que ocorrem nos pacientes que têm a polpa íntegra, porque normalmente as alterações radiográficas associadas à anemia podem mascarar as alterações comumente associadas à polpa não vital8. Desta forma, o diagnóstico de necrose pulpar não deve se basear apenas em achados radiográficos. Este deve ser estabelecido após a realização de testes térmico, elétrico e mecânico. O diagnóstico definitivo é feito frente à resposta negativa ao teste de vitalidade pulpar19 e à terapia endodôntica sem o uso de anestésicos24. Confirmado o diagnóstico, o dente deve ser submetido ao tratamento endodôntico convencional, de forma bastante criteriosa, para evitar resposta inflamatória à terapia, que pode desencadear a crise de falcização25. Se não tratada, a necrose pulpar pode desencadear o processo infeccioso agudo8. A necrose pulpar pode, freqüentemente, ocorrer sem sintomatologia e conhecimento do paciente. Radiografias dentárias devem ser realizadas periodicamente, assim como o teste de vitalidade pulpar em dentes que apresentarem alguma radioluscência periapical24. A neuropatia do nervo mentoniano é, na maioria dos casos, precedida de dor mandibular e esta por crises dolorosas generalizadas. Horas ou dias após, é relatada a perda de sensibilidade unilateral do lábio inferior, assim como do tecido gengival subjacente e dos dentes pré-molares, canino e incisivos inferiores da hemiarcada inferior afetada6,8. Ao exame clínico é constatada profunda parestesia nas áreas da inervação mentoniana26. Acredita-se que a perda de sensibilidade é causada por infartos ósseos na microcirculação do suprimento sanguíneo do nervo e suas ramificações. Em contraste com os demais nervos periféricos, o nervo mentoniano é particularmente vulnerável e susceptível a essa complicação, por localizar-se em canal ósseo muito estreito, similarmente à polpa dental, na ocorrência de inflamação local25. A recuperação da sensibilidade é lenta e a parestesia pode persistir por até 2 anos6,8. A osteomielite é freqüente entre os pacientes com anemia falciforme. Apesar de ser mais comum nos ossos longos, também pode afetar os ossos da face, principalmente, a mandíbula27. A osteomielite mandibular é a mais comum das complicações orais e raramente manifesta-se ao mesmo tempo com outras complicações, o que facilita seu diagnóstico e tratamento25. A mandíbula é afetada, por apresentar suprimento sanguíneo relativamente reduzido6,8. O bordo inferior é irrigado essencialmente pelo periósteo, em contraste com o restante do osso, como os processos coronóides, ramos ascendentes e ângulos, que são adequadamente irrigados por artérias adjacentes. A artéria alveolar inferior faz a irrigação sanguínea dos dentes e processos alveolares, e também de parte da mandíbula. Isto é mais crítico nas regiões dos molares do que nas regiões anteriores, já que estas também recebem o suprimento sanguíneo de ramificações mentonianas da artéria alveolar inferior, tanto do lado direito quanto esquerdo, assim como de ramificações da artéria facial. Desta forma, infartos, necrose e osteomielite irão ocorrer com maior freqüência na região posterior da mandíbula21. A osteomielite mandibular não é necessariamente de origem dentária. O comprometimento vascular pode levar ao infarto isquêmico e à osteonecrose, criando ambiente favorável à bacteremia, com potencial elevado de evolução para a septicemia, podendo infectar áreas necróticas infartadas de qualquer osso6,11. Os sintomas iniciais do quadro de osteomielite, dor local e edema, podem também, em algumas situações, serem acompanhados de trismo e febre. Eventualmente ela pode estar associada à pericoronarites de dentes semiinclusos ou impactados e/ou periodontites, e também às crises de falcização que ocorrem, normalmente, dias antes do início da complicação mandibular27,28. Geralmente o tratamento da osteomielite mandibular deve ser feito em ambiente hospitalar, para administração endovenosa de fluidos e medicamentos. Este é realizado com analgésicos para alívio da dor e altas doses de antibióticos, que podem ser prescritos isoladamente ou em associação, após a identificação dos microorganismos infectantes através de cultura e antibiograma. Freqüentemente, a intervenção cirúrgica também é necessária para promover drenagem de secreções purulentas, remoção de dentes impactados, remoção de tecidos necrosados e infectados, e remoção de seqüestros ósseos27. Em decorrência das complicações da anemia falciforme, a maioria dos pacientes é submetida, em média uma vez ao ano, à transfusão de sangue, expondo-se ao risco de contaminação pelo HIV e outras patologias hemotransmissíveis, como as hepatites virais. Essa condição não contra-indica o tratamento odontológico, mas reafirma a necessidade do controle da infecção cruzada em ambiente clínico6. Tratamento odontológico do paciente com anemia falciforme O tratamento odontológico deve ser realizado durante a fase crônica da doença e quando não houver evidências de início de uma crise. Na fase aguda da doença, nenhum tipo de tratamento deve ser iniciado, a não ser procedimentos emergenciais e paliativos, visando diminuir o risco de infecção e dor2. A sintomatologia dolorosa durante as crises deve ser tratada, preferentemente, com analgésicos adequados11. Para o tratamento odontológico ambulatorial são recomendados consultas e procedimentos de curta duração, de preferência pela manhã, quando, normalmente, o paciente encontra-se mais descansado. Tudo isso deve ser feito no intuito de evitar o estresse e a tensão emocional6. O uso de benzodiazepínicos em doses individualizadas para adultos ou crianças, também é indicado como medicação pré-anestésica, como forma adicional de se evitar o estresse21. Os pacientes são classificados como ASA III quanto ao risco anestésico (distúrbio sistêmico importante, de difícil controle, com comprometimento da atividade normal e com impacto sobre a anestesia e cirurgia)29. Neste caso, a anestesia local é preferível à anestesia geral, quando possível, uma vez que não provoca diminuição da oxigenação do sangue. Já o uso de vasoconstritor ainda é bastante controverso2,6. Ele pode ou não comprometer a circulação e iniciar um infarto local, devido ao prejuízo da oxigenação dos tecidos21. Então, a escolha do tipo de anestésico será de acordo com o procedimento a ser realizado19. Procedimentos mais rápidos e rotineiros e/ou em pacientes com seqüelas importantes da anemia falciforme devem ser realizados, de preferência, com anestésico local sem vasoconstritor, reservando o uso de anestésico local com vasoconstritor para procedimentos mais invasivos, que requerem anestesia mais profunda e melhor hemostasia6. Nestes casos, o anestésico de escolha é a lidocaína a 2% com adrenalina 1:100.00019. Nas situações mais duvidosas, a decisão de usar ou não anestésico local com vasoconstritor deve ser tomada de comum acordo com a equipe médica que assiste o paciente, levandose em consideração seu comprometimento sistêmico e o tipo de intervenção odontológica6. Entretanto, em casos de procedimentos dentários mais extensos e estressantes para o paciente, opta-se muitas vezes por realizá-lo sob anestesia geral, o que é benéfico em tais circunstâncias. Para isto, todos os pacientes devem ser avaliados, tanto pelo hematologista responsável, quanto pelo anestesista21. Por outro lado, a sedação endovenosa não é contra-indicada, porém devendo ser realizada com muita precaução.2,20. Normalmente, o uso das drogas sedativas pode provocar depressão respiratória e cardiovascular. Então, a precaução está principalmente associada à oxigenação e termorregulação. A hipoxemia Arquivo Brasileiro de Odontologia 107 aumenta a possibilidade de infarto e de infecção pulmonar, elevando o risco de síndrome toráxica aguda, que é a principal causa de morte dos adultos jovens que apresentam esta doença. Por isso, recomenda-se especial atenção à oxigenação durante o procedimento e no período pós-operatório. A monitorização da oximetria é fundamental. Diminuição da saturação de oxigênio a níveis abaixo de 85% deve ser prontamente avaliada, tendo-se presente a possibilidade da ocorrência de embolia pulmonar e síndrome toráxica aguda. A temperatura corporal também deve ser cuidadosamente monitorada durante o procedimento, pois a hipotermia pode ocasionar vasoconstrição, falcização celular e conseqüente vaso-oclusão. Durante o período perioperatório o paciente deverá permanecer aquecido, visando a normotermia30. Os barbitúricos, principalmente o tionembutal sódico, quando utilizados como sedativos, principalmente no processo de sedação endovenosa, devem ser evitados, porque estas drogas provocam depressão do centro respiratório, com a diminuição do metabolismo cerebral, do consumo de oxigênio, do fluxo cerebral, levando a hipóxia e acidose que, por sua vez, podem precipitar a crise aguda de falcização. Seus efeitos cardiorrespiratórios são dose-dependentes, podendo levar a apnéia e diminuição do débito cardíaco31. No entanto este grupo farmacológico atualmente não é utilizado em sedações endovenosas, sendo hoje de uso corrente, o propofol, sedativo hipnótico de ação ultra curta, em administração contínua. O uso da técnica do óxido-nitroso é bastante controverso. Porém, seu uso para sedação não é contra-indicado, desde que, realizada sob parâmetros satisfatórios de oxigenação e ventilação2,21. Para que seja realizada com adequada margem de segurança, a concentração de oxigênio de 50% deve ser mantida durante todo o tempo. Assim, como em qualquer forma de sedação, a contínua monitorização da saturação de oxigênio deve ser realizada. A susceptibilidade às infecções que a anemia falciforme causa nos pacientes é outro fator importante e relevante para o atendimento odontológico6. Estes são considerados imunodeprimidos, principalmente devido à asplenia funcional30. É sabido que infecções bucais podem gerar infecções em outros órgãos do organismo, as chamadas infecções metastáticas de origem bucal. Elas podem ocorrer, principalmente, devido à possibilidade de bactérias presentes na placa bacteriana e nas lesões infecciosas se aprofundarem nos tecidos e/ou terem acesso à circulação linfática e sanguínea, causando bacteremias e, assim, serem veiculadas para outros órgãos onde podem se instalar, colonizar e causar 108 Arquivo Brasileiro de Odontologia lesões32. As bacteremias de origem bucal são transitórias, durando no máximo 10 a 20 minutos, porque as defesas encontradas no sangue, normalmente, são suficientes para anulá-las rapidamente. O maior risco da ocorrência de bacteremias está nos indivíduos que apresentam severas quedas de resistência orgânica, quando as defesas são sensivelmente reduzidas, como no caso da anemia falciforme. Assim, a bacteremia pode persistir às vezes durante algumas horas, possibilitando a ocorrência de septicemia, processo em que os microorganismos passam a se multiplicar no sangue, com a possibilidade de causarem infecções generalizadas em diversos órgãos vitais, acarretando sério risco de morte32. Desta forma, justifica-se realizar profilaxia antibiótica, exceto nas crianças que fazem uso diário de antibiótico, o que é bastante freqüente até aproximadamente os 5 anos de idade, frente a procedimentos invasivos que possam gerar sangramento e promover bacteremia2,6. Não há uma conduta particularizada na doença falciforme quanto à antibioticoprofilaxia, sendo que esta deve ser realizada conforme o protocolo de rotina adotado para a população em geral30. Também, por causa da susceptibilidade às infecções dos doentes falciformes com risco iminente de septicemia e precipitação de uma crise falciforme, é que os processos infecciosos devem ser evitados. Desta forma, recomenda-se a terapia dental preventiva, desde a mais tenra idade, para assim, evitar a instalação de doenças bucais. Quando for detectado o processo infeccioso, este deve ser prontamente tratado com antibiótico terapêutico e monitorado, visando prevenir o aparecimento de celulite facial. Caso este quadro se desenvolva, recomenda-se a hospitalização do paciente para a administração endovenosa de antibióticos e hidratação. Para qualquer infecção aguda deve ser realizada antibioticoterapia e, em muitos casos, torna-se preferível a administração intramuscular ou endovenosa à administração oral, posto que as duas primeiras irão alcançar níveis sanguíneos maiores e mais satisfatórios em menos tempo2,20,21. A clorexidina a 0,12%, duas vezes ao dia, é o anti-séptico indicado para uso, por possuir ampla ação antimicrobiana, sem provocar resistência e superinfecção. É indicada antes de qualquer procedimento odontológico, em pós-operatórios, como coadjuvante da terapia periodontal e diante de quadros de úlceras bucais que possam ocasionar infecções secundárias6. Pacientes que serão submetidos a procedimentos anestésicos e cirúrgicos demandam cuidados específicos. A complicação aguda e a queda adicional da hemoglobina podem promover a descompensação cárdio-respiratória, colocando em risco a vida do pa- ciente. Assim é fundamental a transfusão de sangue, que se torna recurso terapêutico de grande importância.9. Há maior risco de morbimortalidade relacionada á cirurgia e anestesia, o que se deve principalmente à anemia crônica, à falcização das hemácias, à presença de lesões crônicas de órgãos e aos efeitos de imunossupressão associada a esta doença. Condições comumente relacionadas a estes procedimentos, como hipóxia, acidose, hipotermia, infecções e hipovolemia, podem ter conseqüências deletérias especialmente graves. Há tendência ao aumento da falcização celular e dos fenômenos vaso-oclusivos, o que pode levar a complicações diretamente relacionadas à anemia falciforme. Para minimizar o risco destas complicações, recomenda-se a avaliação pré-operatória multidisciplinar do paciente, atenção à hidratação e oxigenação, escolha de procedimentos cirúrgicos menos invasivos e cuidados pósoperatórios intensivos. Mesmo com a adoção destes cuidados, a incidência de complicações cirúrgicas é especialmente alta, estimada em 20% a 30%30. Assim, cirurgias eletivas como as extrações de dentes inclusos assintomáticos devem ser evitadas. Porém, nos casos em que houver necessidade cirúrgica, o procedimento deve ser bem planejado e sua realização deve ser em momento adequado, tomando-se os devidos cuidados (hemograma completo, reposição sanguínea em casos específicos, etc), de acordo com o estado geral de saúde do paciente6. Desta forma, após criteriosa avaliação médica, recomenda-se a execução da cirurgia empenhando-se em realizá-la com técnica menos traumática possível, minimização do estresse e do risco de infecção. Na existência prévia de infecção, esta deve ser tratada anteriormente ao procedimento cirúrgico, quando possível. Profilaxia antibiótica deve ser realizada e uma terapêutica antibiótica posterior deve ser instituída caso o cirurgião-dentista julgue necessário frente ao procedimento realizado20,21. Nos casos de cirurgias mais extensas, para a prevenção de um quadro de desidratação durante a cirurgia, deve-se administrar soluções por via endovenosa que irão auxiliar na manutenção do nível de fluidos corporais. Após o procedimento cirúrgico, o paciente deve ficar em observação, para que possam ser detectadas facilmente quaisquer complicações associadas à doença, caso eventualmente ocorram. A administração endovenosa de fluidos deve ser mantida e o paciente freqüentemente monitorado para se prevenir um quadro de desidratação e maiores problemas20. Como já citado anteriormente, a prevenção de infecções é primordial, já que as infecções orais podem precipitar a ocorrência de crises agudas de falcização. Por esse motivo, a terapia dental preventiva deve ser instituída com profilaxia freqüente e fluorterapia, no intuito de se evitar a cárie e a doença periodontal. O paciente e a família devem ser instruídos quanto a importância da manutenção da saúde bucal, para que assim, o programa preventivo seja bem sucedido18. Protocolo para o atendimento odontológico Para que o atendimento odontológico dos pacientes seja bem sucedido, sem qualquer prejuízo à sua saúde e à segurança do profissional, algumas regras devem ser seguidas: 1. Anamnese criteriosa; 2. Avaliação médica para confirmação do real estado de saúde do paciente; 3. Realização do tratamento odontológico durante as fases crônicas da doença, reservando às fases agudas apenas procedimentos paliativos; 4. Realização de consultas curtas; 5. Evitar procedimentos longos e complicados (evitar estresse); 6. Manter níveis adequados de oxigenação e temperatura corporal; 7. Administração de benzodiazepínicos como medicação pré-anestésica, a pacientes mais ansiosos; 8. Instituir uma terapia preventiva agressiva: • Instruções de higiene oral; • Dieta controlada; • Escovação e uso de fio dental; • Fluorterapia; • Visitas periódicas ao dentista; 9. Evitar infecções orais, e tratamento agressivo na ocorrência das mesmas; 10. Uso de anestésico local sem vasoconstritor para procedimentos dentais de rotina, e no caso de procedimentos cirúrgicos uso de anestésico local com vasoconstritor, de preferência, lidocaína a 2% com adrenalina 1:100.000. 11. Evitar realização de cirurgias eletivas (por exemplo, exodontia de sisos inclusos) em casos assintomáticos; 12. A sintomatologia dolorosa deve ser tratada com paracetamol, dipirona ou codeína, já que o ácido acetilsalisílico é contra-indicado; 13. Evitar a prescrição de barbitúricos; 14. Realização de profilaxia antibiótica frente a procedimentos em que haja expectativa de sangramento e conseqüente bacteremia; Arquivo Brasileiro de Odontologia 109 15. Uso da técnica de óxido-nitroso com nível adequado de oxigenação (50% de oxigênio) e adequada ventilação; 16. Realização de sedação endovenosa e anestesia geral com muita precaução e acompanhamento médico (anestesista e hematologista). Discussão É importante conhecer com detalhes a história pregressa dos pacientes portadores de anemia falciforme, para o sucesso da realização do atendimento odontológico, uma vez que a doença pode comprometer órgãos vitais6,18. O tratamento odontológico deve ser realizado durante a fase crônica da doença. Na fase aguda devem ser realizados apenas procedimentos emergenciais e paliativos2. É recomendada a realização de consultas com procedimentos de curta duração, no intuito de evitar estresse, tensão emocional e manter níveis adequados de oxigenação e temperatura corpórea.6 O uso de benzodiazepínicos em pequenas doses também é indicado como medicação pré-anestésica21. Para o atendimento dos pacientes a anestesia local é preferível à anestesia geral2. Porém, o uso de vasoconstritor é bastante controverso. Apesar de se afirmar que ele pode comprometer a circulação local, há quem acredite que não promove qualquer prejuízo na oxigenação dos tecidos.2,6 Procedimentos rotineiros e em pacientes sem seqüelas importantes devem ser realizados com anestésico local sem vasoconstritor, enquanto que anestésicos com vasoconstritor devem ser usados em intervenções mais invasivas6. Na realização de procedimentos dentários mais extensos e estressantes, pode ser usada a anestesia geral, desde que tomadas as devidas precauções21. O uso das técnicas de óxido-nitroso e sedação endovenosa pode ser recomendado, desde que sob parâmetros satisfatórios de oxigenação e ventilação20. Deve ser realizada com muita precaução, sempre considerando a saúde geral do paciente2, embora os procedimentos tenham sofrido restrições16. As infecções bucais podem se estender às outras partes do organismo e os indivíduos portadores de anemia falciforme merecem atenção especial, já que esta desordem os tornam mais susceptíveis à septicemia e precipitação de crises de falcização30,32. Desta forma, é salientada a necessidade da terapia dentária preventiva, para ser evitada a instalação de infecções bucais2,20,21. Ocorrendo qualquer processo infeccioso, ele deve ser tratado agressivamente com terapia anti- 110 Arquivo Brasileiro de Odontologia biótica, evitando conseqüências piores2,20,21. Assim, é recomendada a realização de profilaxia antibiótica em qualquer procedimento odontológico2,6,30. Conclusões O indivíduo portador de anemia falciforme merece cuidado especial durante o tratamento. A doença pode trazer comprometimento para órgãos vitais e o próprio atendimento odontológico, se mal conduzido, pode criar condições favoráveis para desencadear uma crise aguda. Essa desordem apresenta manifestações e complicações bucais que devem ser reconhecidas pelo cirurgião-dentista. As principais manifestações bucais são: palidez da mucosa, coloração amarelada dos tecidos, atraso na erupção dos dentes, transtornos da mineralização do esmalte e da dentina, alterações das células da superfície da língua, maloclusões, alterações radiográficas e hipercementose. As principais complicações são necrose pulpar assintomática, neuropatia do nervo mentoniano e osteomielite mandibular. Além da realização da anamnese bastante criteriosa é recomendada a interação direta com a equipe médica do paciente. Os procedimentos realizados devem ser de curta duração, visando a minimização do estresse, mantendo-se adequada a oxigenação do paciente. Todos os procedimentos considerados invasivos devem ser realizados durante a fase crônica da doença, reservando para a fase aguda apenas intervenções de urgência, que visem minimizar quadros infecciosos ou dolorosos. A profilaxia antibiótica é de suma importância, uma vez que, os pacientes são particularmente susceptíveis a infecções e estas podem desencadear quadros agudos, colocando em risco a vida do indivíduo. Sendo assim, a saúde bucal dos portadores de anemia falciforme deve ser mantida através de práticas preventivas, para minimizar o risco da instalação de infecções bucais e para que intervenções curativas sejam cada vez menos freqüentes. Abstract Sickle cell anemia is a hereditary hemolytic anemia characterized by a mutation in the hemoglobin chain, producing an abnormal molecule, the hemoglobin S. The patients with this disorder are prone to serious infections because of immunological alterations. Besides, multiple organs can show manifestations or complications, including the oral cavity. The most frequent oral findings are: mucosal pallor, dental hypoplasia, malocclusion and radiographic changes. Principal oral complications are: asymptomatic pulpal necrosis, anesthesia of the mandibular nerve and mandibular osteomielitys. To the adequate dental treatment of these patients, the dentist should know the most important aspects related to the sickle cell anemia, and also the oral findings associated with this disorder. The treatment should be initiated by having the knowledge of the patient’s medical and dental story in mind. Prevention is the ideal way to approach these patients. The main objectives are institute, maintain oral health and treat aggressively all infections that could exist, decreasing the risk of susceptible infections, making use of prophylactic methods. Descriptors Sickle cell anemia, hemoglobin, infections, oral findings and dental treatment. Referências 1. Di Nuzzo VP, Fonseca SF. Anemia falciforme e infecções. J Pediat. 2004;80:347-54. 2004. 2. Little JW, Falace DA, Millers CS, Rhodus NL. Dental Management of the Medically Compromised Patient. 6th ed. 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Aceita trabalhos científicos sobre temas relevantes para a Odontologia nas seguintes línguas: português, espanhol e inglês. As matérias para publicação devem ser inéditas, na forma de artigos originais, artigos de atualização, relatos de caso, resumos de tese e opinião, este último a convite do editor. Os conceitos e informações emitidos nos trabalhos, bem como a exatidão e procedência das citações bibliográficas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo obrigatoriamente a opinião do conselho editorial. Os artigos que não estiverem dentro das normas não serão apreciados. Os textos devem vir acompanhados de carta assinada pelo autor principal nos seguintes termos: Transfiro para a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, pela Pró-reitoria de Extensão, e para a Fundação Mariana Resende Costa (Fumarc), isolada ou solidariamente, todos os direitos sobre a publicação (citar o título), caso seja aceita para publicação no Arquivo Brasileiro de Odontologia, publicação da Faculdade de Odontologia da PUC Minas. Declaro que esta publicação é original e que seus direitos autorais não foram anteriormente cedidos a outra pessoa física ou jurídica. Os trabalhos devem ser enviados para: Conselho Editorial Arquivo Brasileiro de Odontologia Faculdade de Odontologia da PUC Minas Av. Dom José Gaspar, 500 – Prédio 46 - Coração Eucarístico 30.535-901 - Belo Horizonte – MG II. APRESENTAÇÃO DOS TRABALHOS Os trabalhos devem ser enviados em 2 vias, digitados em espaço duplo, com páginas separadas e numeradas, em papel formato A4, margens laterais de 2,5 cm x 2,5 cm, perfazendo um total de, no máximo, 20 páginas (não incluindo as referências). Deve ser enviada, também, cópia em disquete com o arquivo nos padrões “Microsoft Word 6.0” ou superior, fonte Times New Roman, tamanho 12. Primeira página Título do Artigo Nome(s) do(s) Autor(es) Nome do Serviço onde foi executado o trabalho Endereço, número de telefone, fax e e-mail do autor principal. Se o trabalho for subvencionado, o tipo de auxílio, nome da agência financiadora e o número do processo. Segunda página Resumo de, no máximo, 250 palavras e indicação de até 5 palavras-chave (conforme a lista de descritores elaborada pela BIREME no site http://decs.bvs.br). Arquivo Brasileiro de Odontologia 113 Terceira página Título em inglês Abstract Descriptors Texto 1 - Artigos originais devem obedecer à seqüência: Introdução, Revisão da Literatura, Material e Métodos, Resultados, Discussão, Conclusões e Referências Bibliográficas. 2 - Artigos de atualização poderão ter o número de referências reduzido. 3 - Relatos de casos devem obedecer a seguinte seqüência: Introdução, Descrição do caso, Discussão, Referências e Autores (5, no máximo). III. REFERÊNCIAS O estilo dos Requisitos Uniformes para Originais submetidos a Periódicos Biomédicos, conhecido como Estilo de Vancouver, foi elaborado pelo Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas – ICMJE (http://www.icmje.org) e baseia-se, em grande parte, no padrão ANSI, adaptado pela U.S. National Library of Medicine (NLM). Estes dados foram retirados e adaptados, em sua maioria, do documento original que pode ser acessado através do endereço: http://www.nlm.nih.gov/bsd/uniform_requirements.html NORMAS GERAIS DE AUTORIA Referencia-se o(s) autor(es) através de número sobrescrito por ordem de aparecimento no texto. Na lista de referências, as referências deverão ser numeradas consecutivamente, conforme a ordem em que forem mencionadas pela primeira vez no texto. Autor(es) (pessoa física) - de um até seis autores - Quando o documento possui de um até seis autores, citar todos os autores, separados por vírgula. Exemplo: Halpern SD, Ubel PA, Caplan AL. Solid-organ transplantation in HIV-infected patients. N Engl J Med. 2002 Jul 25;347(4):284-7. Autor(es) (pessoa física) – mais de seis autores - Quando o documento possui mais de seis autores, citar todos os seis primeiros autores seguidos da expressão latina et al. EXEMPLOS DE REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARTIGOS DE PERIÓDICOS • Somente a 1ª letra do título do artigo do periódico ou do livro deve estar em maiúscula; • Os títulos dos periódicos devem ser abreviados pela lista de abreviaturas de periódicos do Index Medicus (base de dados Medline), que pode ser consultado no endereço: http:// www.ncbi.nlm.nih.gov/ entrez/query.fcgi?db=journals sendo que coloca-se um ponto após o título para separá-lo do ano. Exemplos: N Engl J Med., Neurology. • Para abreviatura dos títulos de periódicos nacionais e latino-americanos, consulte o site: http://portal.revistas.bvs.br eliminando os pontos da abreviatura, com exceção do último ponto para separar do ano. Exemplos: Femina., Rev Bras Reumatol., Rev Bras Hipertens. • Quando as páginas do artigo consultado apresentarem números coincidentes, eliminar os dígitos iguais. Ex: p.320-329; usar 320-9 114 Arquivo Brasileiro de Odontologia • • Denomina-se número (fascículo) a identificação da seqüência do volume, sendo que o algarismo fica entre parênteses. Ex.: 347(4). Periódico com paginação contínua em um volume: mês e número podem ser omitidos (opcional). Ex.: Halpern SD, Ubel PA, Caplan AL. Solid-organ transplantation in HIVinfected patients. N Engl J Med. 2002;347:284-7. LIVROS E MONOGRAFIAS • Na identificação da cidade da publicação, a sigla do estado ou província pode ser também acrescentada entre parênteses. Ex.: Berkeley (CA); e quando se tratar de país pode ser acrescentado por extenso. Ex.: Adelaide (Austrália); • Quando for a primeira edição do livro, não há necessidade de identificá-la; • A indicação do número da edição será de acordo com a abreviatura em língua portuguesa. Ex.: 4ª ed. • “Editor” é um termo em inglês que se refere ao editor literário. Autor(es) do livro. Título do livro. Edição. Cidade de publicação: Editora; Ano de publicação. Ex., Murray PR, Rosenthal KS, Kobayashi GS, Pfaller MA. Medical microbiology. 4ª ed. St. Louis: Mosby; 2002. Capítulo de livro Autor(es) do capítulo. Título do capítulo. “In”: nome(s) do(s) autor(es) ou editor(es). Título do livro. Edição. Cidade de publicação: Editora; Ano de publicação. página inicial-final do capítulo. Meltzer PS, Kallioniemi A, Trent JM. Chromosome alterations in human solid tumors. In: Vogelstein B, Kinzler KW, editores. The genetic basis of human cancer. New York: McGraw-Hill; 2002. p. 93-113. IV. ILUSTRAÇÕES As tabelas, figuras, fotografias e gráficos devem ser enviados em folhas separadas, numeradas em algarismos romanos e com legendas individualizadas. As fotografias devem ter o formato mínimo de 9 x 12 cm. Eventuais despesas para scanner de cromos/slides devem ser discutidas. As fotografias escaneadas deverão ser gravadas em formato TIFF com tamanho máximo de 500kb. Arquivo Brasileiro de Odontologia 115