A TRAJETÓRIA ACADÊMICA DE DOIS GRUPOS DE ALUNOS: RESERVA DE VAGAS E AMPLA CONCORRÊNCIA NO CEFETMG UNIDADE CONTAGEM Maria Adélia da Costa1 Camila Marçal Cavalcante2 Wellington Júnio Guimarães Costa3 Eduardo Henrique Lacerda Coutinho4 RESUMO: Este artigo resulta de um projeto em desenvolvimento do Programa de Bolsas de Iniciação Científica (BIC-Jr) e tem como finalidade refletir sobre a implantação da política obrigatória de reserva de vagas para os alunos dos cursos técnicos de nível médio, ingressantes em instituições federais, regulamentado pela Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012. Trata-se de uma pesquisa comparativa entre a trajetória acadêmica de dois grupos de alunos da Educação Profissional Técnica de Nível Médio (EPTNM). Um grupo com entrada por meio da reserva de vagas - sociais e raciais – sendo o outro grupo de ingressantes pela ampla concorrência. Possui como objetivo apreender as percepções e as representações que estes alunos (re) constroem sobre a escola, bem como investigar o desempenho acadêmico e as relações interpessoais desencadeadas no processo ensino-aprendizagem, considerando a relação professor x aluno, aluno x aluno, aluno x gestores. O percurso metodológico funda-se nos princípios da pesquisa qualitativa e tem inspiração na etnografia, apesar de se ter a clareza de não se tratar de uma pesquisa etnográfica, mas por considerar a relevância da sua dimensão sociocultural e, sobretudo, porque segundo André (1995, p. 38) a pesquisa etnográfica “proporciona um contato direto e prolongado do pesquisador com a problemática a ser investigada, o que inclui os sujeitos e a realidade física a ser investigada”. Além disso, se sustenta pela existência de um esquema aberto e artesanal de trabalho que permite transitar entre a observação e a análise, entre teoria e empiria, utilizando diferentes técnicas de coleta de dados, sobretudo, a conjugação de observações e entrevistas com outros materiais coletados como, por exemplo, registros documentais e fotografias. Desse modo, a pesquisa contará com a técnica de Grupo focal (que visa à revelação das percepções dos participantes sobre os tópicos em discussão) e com a análise de documentos. Assim sendo, atentar-se-á para as possibilidades e estratégias de inclusão socioeducacional desenvolvidas pela instituição de ensino no sentido de acolher e promover ações objetivando a integração social e acadêmica dos alunos. Diante destes fatos, o escopo deste projeto é acompanhar a trajetória acadêmica dos alunos ingressantes no 1º semestre de 2013 nos 03 cursos técnicos do CEFET-MG Unidade de Contagem, com intuito de refletir e compreender 1 Doutora em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia. Pedagoga no CEFET-MG. Orientadora no programa BIC-Jr. 2 Aluna do Curso Técnico em Controle Ambiental no CEFET-MG Unidade Contagem. Bolsista do Programa BIC-Jr, orientanda de Maria Adélia da Costa. 3 Doutorando em História UFOP. Professor substituto na EBTT no CEFET-MG. 4 Doutorando em Ciências Sociais PUC-SP. Professor EBTT no CEFET-MG. como esses sujeitos constroem suas representações sociais5 nesta instituição, bem como verificar o desempenho acadêmico dos mesmos, estabelecendo uma análise relacional entre os dois grupos de alunos: reserva de vagas e ampla concorrência. A princípio, por se tratar de uma pesquisa em desenvolvimento, não serão apresentadas conclusões, embora se possa relatar que tanto os alunos contemplados pela reserva de vagas quanto os alunos da ampla concorrência consideram essa política relevante para a inclusão socioeducacional dos alunos oriundos de escolas públicas (municipais e estaduais). Palavras-Chave: inclusão socioeducacional; profissional técnica de nível médio relações interpessoais; educação 1. A Política Inclusiva de Ações Afirmativas (AAs) No Brasil, desde 2002 as ações afirmativas (AAs) para promoção do acesso à educação superior vêm protagonizando inúmeros debates, sobretudo na comunidade acadêmica. Sob diferentes olhares, os discursos possibilitam compreender que tais ações promovem uma divisão ideológica entre dois grupos: os que argumentam contrariamente e os que se manifestam favoráveis à inclusão das AAs nos processos seletivos das instituições públicas federais. No entanto, em 2012 por meio do projeto de lei 180/08 e pela promulgação da Lei 12.711/2012 a reserva de 50% das vagas torna-se obrigatória nas universidades públicas e nas instituições federais de educação profissional e tecnológica. Essa lei ao normatizar as políticas inclusivas, através da reserva de vagas, tenta reparar a desigualdade do acesso das diferentes camadas sociais, sobretudo das oriundas de classes populares, ao ensino público, gratuito e de qualidade, seja ele de nível superior ou médio. Compete ressaltar que anteriormente a promulgação da referida lei algumas universidades federais, por decisão interna, já adotavam ações afirmativas visando à possibilidade de acesso dos grupos sociais que circunscrevem na periferia da sociedade brasileira. Sociedade esta que é historicamente marcada por divisões de classe. Apesar de o Brasil ser considerado líder na América Latina em percentagem do PIB investido em programas sociais, uma medida importante para 5 Entende-se por representações sociais uma forma de conhecimento, socialmente elaborado e compartilhado, constituído de informações, de crenças, de opiniões e de atributos concernentes a um determinado objeto, que permite ao indivíduo situar-se no grupo ao qual pertence, compreender e explicar a realidade, guiar seus comportamentos e práticas e justificar, a posteriori, as tomadas de posição e condutas adotadas (AMORIM; SOARES, 2009, p.54). reverter desigualdades históricas de raça e gênero6, ele aparece em quarto lugar com a maior desigualdade de renda, perdendo apenas para Honduras, Bolívia e Colômbia7. Considera-se que as políticas inclusivas de reserva de vagas é o reconhecimento de uma dívida histórica do Brasil com os sujeitos sociais excluídos, vitimados por uma sociedade classista, elitista e preconceituosa, bem como uma importante conquista do processo de democratização do acesso às instituições federais de ensino. No entanto, entende-se que apenas garantir o acesso dessa população - historicamente excluída e marcada por preconceitos sociais e raciais - por meio de leis não será suficiente para que esse(a) cidadão(ã) possa permanecer nessas instituições de ensino. Fazem-se necessárias ações mais agressivas por meio de políticas institucionais de acolhimento e de acompanhamento da trajetória formativa destes estudantes na escola. Caso contrário, corre-se o risco de que as intenções de inclusão educacional possam falsear a realidade proporcionando a esses alunos uma inclusão excludente8. Entretanto, compreende-se que a educação tem por função social a mediação entre os estudantes e o mundo físico, social e cultural, podendo o processo ensino-aprendizagem tornar-se um dos fatores favoráveis à inclusão socioeducacional. Segundo assevera Moura (2009), as políticas inspiradas pela ideologia neoliberal vêm se consolidando no país com a destinação de ofertas educacionais diferenciadas aos grupos sociais. Assim, para os mais miseráveis direciona-se um tipo de educação cujo fim é avaliar essa condição por meio de alguma melhoria (mínima) das condições de empregabilidade, gerando a possibilidade de inserção, mesmo que precária no mercado de trabalho. Para os ainda miseráveis (...) proporciona-se um tipo de educação (...) que lhes permita alcançar condições um pouco melhores de empregabilidade (MOURA, 2009, p.260). Concorda-se com o autor quando o mesmo faz a crítica ao sistema educacional brasileiro no sentido de direcionar a educação formal aos imperativos postos pelo capital, por meio da segregação da educação de qualidade a todo cidadão, independentemente da classe social, econômica, cultural. Na contramão dos princípios da isonomia, a educação formal no país se consolidou sob o prisma da dualidade 6 British Bradcast Corporation http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/07/130726_inclusao_social_indice_pu.shtml 7 http://www.cartacapital.com.br/sociedade/brasil-e-4o-pais-mais-desigual-da-america-latina-3068.html 8 A respeito ver Kuenzer (s/a), “Exclusão includente e inclusão excludente: a nova forma de dualidade estrutural que objetiva as novas relações entre educação e trabalho”. Disponível em: http://www.gestaoescolar.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/sem_pedagogica/fev_2009/exclusao_includente_acacia_kue nzer.pdf. Acesso em?16/12/2013 visando atender favoravelmente a uma minoria elitizada. Goodson (2001) critica o sistema educacional que se organiza por meio de um currículo diferenciado: um para o cérebro e outro para as mãos. No Brasil, o currículo para o cérebro (acadêmico/propedêutico) foi destinado para as classes sociais econômicas, culturais e sociais melhores favorecidas dando-lhes condições para a verticalização dos estudos e priorizando uma formação acadêmica para a elite dominante. Por outro lado, para as classes populares, constituiu-se um currículo para as mãos (formação profissional/força de trabalho especializada) visando a formação de trabalhadores para os sistemas produtivos9. Frente a isso, esta pesquisa tem como objetivo conhecer a trajetória acadêmica dos dois grupos de alunos visando apreender, no ambiente acadêmico, as condições favoráveis para sua permanência, aprendizado e sucesso. De acordo com o documento10 divulgado sobre os dez anos de ações afirmativas no Brasil, na época do Seminário Nacional realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em novembro de 2012, “não se pode correr o risco de que recaia sobre os estudantes que conquistaram esse direito a responsabilidade exclusiva quanto ao seu desempenho acadêmico, como se a inclusão pudesse ser resolvida somente na ponta do acesso. É preciso que as Instituições assumam conjuntamente suas responsabilidades e garantam as condições necessárias para que todos possam desenvolver suas habilidades e concluir os cursos para os quais foram selecionados”. 2. O Processo Seletivo do CEFET-MG após a lei 12.711/2012 Com a promulgação da lei 12.711/2012, as instituições federais de ensino incorporam em seus processos seletivos os critérios para a reserva de 50% das vagas para: i) alunos que estudaram o ensino fundamental ou médio exclusivamente em escolas públicas; ii) alunos com renda familiar igual ou inferior a 1,5 salários-mínimos per capita e; iii) candidatos que se autodeclararem pretos, pardos e indígenas. Apresenta-se na Figura 01 os critérios para distribuição das vagas reservadas. 9 Sobre a dualidade educacional brasileira ver: Moura (2007); Kuenzer(1997); Frigotto (2011); http://www.forgrad.com.br/documentos/divulgacoes/10anos_acoes_afirmativas_ensino_superior.pdf 10 Figura 01: Cálculo do número mínimo das vagas reservadas para ingresso nas instituições federais de ensino Fonte: MEC/201311. Adaptado. Entende-se que a partir dessas indicações legais a instituição federal de ensino pesquisada, a partir de 2012, adere aos critérios de vagas. Os alunos pesquisados são ingressantes em 03 cursos técnicos de nível médio, inseridos nos eixos tecnológicos: ambiente, saúde e segurança (Eixo 01); controle e processos industriais (Eixo 02) e; informação e comunicação (Eixo 03). Analisando o relatório da Comissão Permanente de Avaliação (COPEVE) da instituição investigada, pode-se constatar que no processo seletivo para o 1º semestre de 2012 houve 229 candidatos para o eixo 1; 193 para o eixo 02 e; 251 para o eixo 03, distribuídos conforme apresentado no Gráfico 01. Gráfico 01: Número de candidatos – reserva de vagas e ampla concorrência – para o processo seletivo 2013-1 136 119 110 115 98 95 Ambiente, Saúde e Segurança Controle e Processos Industriais Reserva de Vagas Informação e Comunicação Ampla Concorrência Fonte: COPEVE/2013. Adaptado. Observa-se que há um equilíbrio na porcentagem de candidatos, nos 03 cursos, no que se refere ao número de inscritos pelos critérios de reserva de vagas e pela ampla concorrência. Sabe-se que pela determinação da lei o acesso será nivelado em 50% de 11 http://portal.mec.gov.br/cotas/perguntas-frequentes.html ingressantes cotistas e 50% de não cotistas. No entanto, no processo de inscrição no vestibular, poderia ter ocorrido um disparate entre um grupo ou outro, posto que não há limites determinados para se candidatar a vaga, mas sim para ofertar e ingressar na instituição. Os Gráficos 02 e 03 mostram o perfil dos candidatos inscritos sob o critério de reserva de vagas. Gráfico 02: Reserva de vagas – critério renda Gráfico 03: Reserva de vagas – critério escola pública 42 25 37 36 24 19 7 10 15 22 17 6 8 Pardo Indígena 4 1 0 0 0 Preto Outro Ambiente, Saúde e Segurança Controle e Processos Industriais Informação e Comunicação 21 20 18 Preto 0 0 0 Pardo Indígena Outro Ambiente, Saúde e Segurança Controle e Processos Industriais Informação e Comunicação Percebe-se que quando o critério é de renda per capita o número de candidatos pardos é mais relevante que os outros, no entanto, quando o critério é escola pública nota-se um equilíbrio entre o autodeclarado pardo e os outros. 3. Os percursos metodológicos A metodologia utilizada foi referente à pesquisa qualitativa com inspiração na etnografia. Apesar de se ter a clareza de não se tratar de uma pesquisa etnográfica, mas por considerar a relevância da sua dimensão sociocultural e, sobretudo, porque segundo André (1995, p. 38) “proporciona um contato direto e prolongado do pesquisador com a problemática a ser investigada, o que inclui os sujeitos e a realidade física a ser investigada”. Além disso, se sustenta pela existência de um esquema aberto e artesanal de trabalho que permite transitar entre a observação e análise, entre teoria e empiria, utilizando diferentes técnicas de coleta de dados, sobretudo, a conjugação de observações e entrevistas com outros materiais coletados como, por exemplo, registros documentais e fotografias. Desse modo, “a etnografia impõe um olhar investigativo para os símbolos, as interpretações, as crenças e valores que integram a vertente sociocultural das dinâmicas de ação que ocorrem nos contextos escolares” (SARMENTO, 2003 p.152). Esta opção metodologia exige a presença do pesquisador no cotidiano da escola, registrando as observações e as falas coletadas de forma informal e formal. Portanto, contou com diferentes etapas, sendo elas: entrevistas semiestruturada, questionários e análise de documentos. Utilizou-se também a técnica de Grupo focal que visa a revelação das percepções dos participantes sobre os tópicos em discussão. 4. O Processo Seletivo dos Ingressantes nos Cursos Técnicos A disciplina de matemática foi apontada pelos alunos entrevistados como a de maior nível de dificuldade para a aprendizagem deles. Deste modo, com o fito de analisar o desempenho dos dois grupos de alunos nesta disciplina, no processo seletivo, elaborou-se os Gráficos subsequentes estabelecendo uma comparação por grupo e por curso técnico. Importa registrar que a prova do processo seletivo constou de 60 questões, sendo 15 questões de matemática. O número total de ingressantes por curso foi de 30 alunos. Gráfico 02: Desempenho dos alunos na disciplina de matemática – 2013/1 Processo Seletivo 2013-1 MATEMÁTICA Curso Técnico Eixo 1 Reserva de Vagas 66,67 60 53,33 46,67 40 33,33 26,67 20 13,33 1 3 1 3 3 1 Alunos 1 1 1 Questões Corretas (%) Ampla Concorrência 66,67 60,00 53,33 46,67 40,00 33,33 26,67 20 1 1 2 4 Alunos 3 1 1 2 Questões Corretas (%) Fonte: Dados de Pesquisa/2013 O Gráfico 02 refere-se ao grupo de alunos que ingressaram no Curso Técnico do Eixo 1. Observa-se que entre os 05 melhores classificados 02 são da reserva de vagas. Apenas 07 (o que representa 23% do total de alunos) acertaram mais de 50% das questões de matemática, sendo 03 alunos do grupo de reserva de vagas e 04 do grupo da ampla concorrência. Percebe-se neste curso que houve um equilíbrio no perfil de desempenho dos alunos nesta disciplina. Não se pode constatar pontos de níveis muitos desconexos ou distantes uns dos outros. Nota-se que dos 23 alunos que obtiveram o desempenho inferior a 50% das questões acertadas, 12 eram da Reserva de Vagas e 11 da ampla concorrência. Neste sentido, considera-se que houve um empate técnico, uma equivalência entre os grupos. Ou seja, neste caso específico, sem ter o intuito da generalização, entende-se que tanto para os alunos cotistas quanto para os não cotistas a matemática é uma disciplina em que eles apresentam ter um nível de conhecimento que precisa ser melhorado. Tal assertiva é balizada pela fala dos alunos na entrevista quando, afirmam que a disciplina que mais tiveram dificuldade de aprendizagem foi a matemática, seguida da física e da química. Gráfico 03: Desempenho dos alunos na disciplina de matemática – 2013/1 Processo Seletivo 2013-1 MATEMÁTICA Curso Técnico Eixo 2 Reserva de Vagas 73,33 53,33 46,67 40,00 33,33 26,67 20,00 4 1 4 3 Alunos 1 1 1 Questões Corretas (%) Ampla Concorrência 80,00 53,33 46,67 40,00 66,67 60,00 26,67 1 2 3 1 Alunos 3 4 1 Questões Corretas (%) Fonte: Dados de Pesquisa/2013 O perfil de desempenho dos dois grupos de alunos no Curso Técnico do Eixo 2 tem algumas especificidades. O grupo da ampla concorrência se destaca no melhor desempenho na disciplina de matemática. Conforme descrito no Gráfico 02, enquanto apenas 02 alunos da reserva de vagas conseguiram acertar mais de 50% das questões, 11 alunos do grupo da ampla concorrência acertaram mais de 50% das questões. Este desempenho desdobrará na média de aprovação dos alunos neste curso, conforme será apresentado mais adiante. Gráfico 04: Desempenho dos alunos na disciplina de matemática – 2013/1 Processo Seletivo 2013-1 MATEMÁTICA Curso Técnico Eixo 3 Reserva de Vagas 64,29 57,14 50,00 42,86 35,71 28,57 5 3 2 1 Alunos 2 1 Questões Corretas (%) Ampla Concorrência 78,57 50,00 42,86 1 6 1 Alunos 64,29 57,14 2 4 Questões Corretas (%) Fonte: Dados de Pesquisa/2013 O Curso Técnico do Eixo 3 tem um desempenho similar ao curso do eixo 2. Neste caso especifico, foram 12 acertos acima de 50% na ampla concorrência e 05 acertos nesta proporção da reserva de vagas. O ponto de equilíbrio entre os dois grupos fica mais desnivelado. Vale ressaltar que esses desníveis entre os grupos foram percebidos durante o ano letivo de 2013 por diferentes grupos de professores. Contudo, apesar dessa aparente desconexão, o grupo de alunos da reserva de vagas, segundo os professores, se mostrou mais disciplinado, interessado e esforçado em buscar o conhecimento novo. Na perspectiva dos alunos entrevistados as dificuldades encontradas na matemática foram decorrentes da “falta de base nas outras escolas (nesta escola aprendemos mais matemática em um ano do que nos 8 das outras escolas públicas)”. Nas outras escolas não conseguíamos terminar um livro completo, pois os alunos conversavam, aqui não existe isso, pois a ‘’porta está aberta’’. Há também uma minoria que entende que o professor com sua prática dificulta a aprendizagem, para eles os professores “cobram o que eu deveria ter aprendido no ensino fundamental, mas eu não sei, pois minha escola era ruim. Temos pouco tempo para fazer tudo bem feito”. 5. As impressões e percepções a partir do olhar do educando sobre a materialidade das políticas educacionais, sobretudo no que tange a reserva de vagas Diante de todo cenário apresentado, tem-se neste item, o intento de descortinar as impressões e as percepções dos alunos cotistas e não cotistas sobre a sua trajetória acadêmica formativa em uma instituição federal de ensino técnico. Entende-se que a relação dialógica com o aluno é relevante à medida que se considera fundamental conhecer a materialização das políticas inclusivas no sentido de compreender se essas ações governamentais superam medidas paliativas e emergenciais para o acesso de alunos das camadas sociais menos favorecidas ou se é apenas mais uma forma de mascarar a exclusão maquiando e propagando a inclusão. Dos 50 alunos entrevistados, 25 eram do grupo de reserva de vagas, 11 deles as escolas de origem eram públicas municipais e 14 de escolas públicas estaduais. Para o ingresso na rede federal, apesar da lei de cotas 21 alunos se submeteram a cursinhos pré-vestibulares. 06 alunos optaram por repetir a 1ª série sob a justificativa que “pela qualidade da escola valeria a pena repetir”; ou porque “o técnico é bom”; ou ainda porque “aqui o ensino é muito bom e o da minha escola era muito ruim. Aprendi bem mais aqui no primeiro ano do que na minha escola”. Dos 25 alunos da ampla concorrência, 23 fizeram cursinhos pré-vestibulares. Os motivos pelos quais escolheram a escola técnica se assemelham aos relatados pelos alunos da reserva de vagas. Ao questionar os alunos da reserva de vagas sobre a possibilidade da Lei de reservas de vagas ter favorecido o acesso à Instituição, todos disseram que sim. Os argumentos favoráveis circundam nos seguintes prismas: “não teria chances como as de alguém que estudou todo ensino fundamental com bons professores em uma boa escola particular”; “com certeza, minha nota foi menor que as dos alunos que entraram por ampla concorrência”; “a base de um aluno de escola pública é horrível, os de escolas particulares tiveram uma ótima base e fazem a prova tranquilamente”; “sem a reserva de vagas provavelmente teriam bem menos alunos de escolas públicas nesta escola”. Na questão de escolas públicas e renda sim, mas na questão de cotas raciais não, não acho que por alguém ser mais ‘escura’ que eu, significa que ela vai aprender menos. “alguns não, pois tiraram nota melhor que os que entraram por ampla concorrência”. Percebe-se que os alunos tem um entendimento que toda escola particular tem bom ensino, bons professores e boa base e por outro lado, toda escola pública é de má qualidade. Talvez tal discurso seja decorrente de suas experiências, alimentado por outras influências midiáticas. No entanto, a pesquisa tem demonstrado que nem sempre os melhores desempenhos acadêmicos são dos alunos oriundos de escolas privadas. Além do que, via de regra, tanto os alunos das escolas públicas quanto os das escolas privadas se submetem a cursinhos pré-vestibulares para ingressarem nesta escola pertencente à rede federal de ensino. Por outro lado, ao questionar os alunos que ingressaram pela ampla concorrência se eles se sentiram de alguma forma prejudicada pela reserva de vagas, todos foram unanimes em dizer que não, mas fizeram a sua crítica. Segundo eles “muita gente critica, mas eu acho que pelo fato do ensino público no Brasil ser tão defasado tem de ter isso”. “Eu tenho um pouco de divergência com a cota quando fala de raça, aí não sei muito bem se é certo”. “Eu acho que é valida a cota pra escola pública, sim, mas só até o ensino fundamental ser equivalente ao ensino da escola particular. Porque eu acho que é uma desculpa para eles (Estado) continuarem deixando a escola publica defasada”. “Criam cotas pra não investirem mais em escolas públicas”. 6. Refletindo Desempenho Acadêmico O Gráfico 05 retrata o desempenho acadêmico dos estudantes no final de seu primeiro ano no CEFET-MG, Unidade Contagem. Gráfico 05: Desempenho acadêmico dos estudantes/2013 100% 67% 45% 55% 33% 0% Eixo 1 REPROVADOS R.V Eixo 2 Eixo 3 REPROVADOS A.C A partir da análise do Gráfico 05, pode-se dizer que os alunos que ingressaram por reserva de vagas alcançaram parcialmente o nível de aprendizado dos que ingressaram em ampla concorrência. Atenta-se para o fato de ser necessário considerá-la parcial, uma vez que não são apenas os índices de reprovação que indicam o nível de aprendizado do aluno. Porém, retomando os dados de acertos nas questões do processo seletivo para o ingresso destes grupos de alunos, nota-se que houve maior dificuldade dos alunos da reserva de vagas, visto que suas notas no processo seletivo foram inferiores em comparação com as notas de alunos ingressantes por ampla concorrência. Uma das argumentações dos alunos pesquisados provindos de escolas públicas se relaciona ao fato de terem que estudar por conta própria (ou em cursos pré-vestibular) o conteúdo da prova do processo seletivo, já que esse não é ministrado em suas escolas de origem. Este estudo, paralelo ao da escola de ensino fundamental, nem sempre é eficaz, o que reduz a chance de um aluno do ensino público ingressar no CEFET-MG. Alguns estudantes complementam dizendo que muitas vezes nem mesmo o conteúdo previsto em suas escolas é completamente lecionado, os próprios livros didáticos não são estudados de forma plena. Além disso, também se pode inferir, a partir dos dados numéricos apresentados no relatório da COPEVE e ilustrado nos Gráficos 02, 03 e 04, que há grande dificuldade dos alunos provenientes de escolas públicas em matérias na área de exatas, como a matemática. Em pesquisas e entrevistas com os estudantes, percebe-se que grande parte da dificuldade do jovem em lidar com essa disciplina, dentre outras no ensino médio, se dá pelo ensino desqualificado das escolas públicas na qual cursaram o ensino fundamental, que não buscam por métodos interativos de ensino, que têm em sua maioria professores desmotivados e que não possibilita ao aluno certas liberdades de escolha que esses pensam ser capazes de possuir, fazendo com que o aprendizado tornese algo enfadonho. Grande parte dos estudantes concorda que a política obrigatória de reserva de vagas contribuiu para que o aluno de escola pública ou com uma baixa renda tivesse as mesmas chances de ingressar em instituições de ensino qualificadas que um aluno fora dessas condições. Porém, há discordância de alguns estudantes em relação à reserva de vagas para autodeclarados negros, pardos ou indígenas, pois declaram que não há justificativas para que jovens assim declarados tenham chances inferiores de conseguir uma boa colocação na prova do processo seletivo. Visando refletir e compreender como esses sujeitos constroem suas representações sociais12 nesta instituição, apreende-se que o grupo de reserva de vagas, via de regra, no início do ano letivo é mais tímido, menos questionador do que o grupo da ampla concorrência. No entanto, é um grupo que cumpre melhor suas obrigações 12 Entende-se por representações sociais uma forma de conhecimento, socialmente elaborado e compartilhado, constituído de informações, de crenças, de opiniões e de atributos concernentes a um determinado objeto, que permite ao indivíduo situar-se no grupo ao qual pertence compreender e explicar a realidade, guiar seus comportamentos e práticas e justificar, a posteriori, as tomadas de posição e condutas adotadas (RIBEIRO, 2005, p.3). cotidianas da escola, como por exemplo, não faltar à aula, fazer o trabalho extraclasse, usar a sala de estudos periodicamente, etc.. Em registros no diário de bordo de observações e conversas informais com os estudantes pesquisados, pode-se perceber que alguns alunos da reserva de vagas, inicialmente, sentiam vergonha de usar o uniforme do CEFET-MG porque achava que era demais pra ele. Não se sentia capaz de prosseguir os estudos na instituição. No entanto, a partir de um acompanhamento da coordenação de curso e da coordenação pedagógica, este aluno conseguiu trabalhar a sua autoestima tornando-se inclusive referência e tutor de outros colegas. Considerações Finais Por se tratar de um projeto em desenvolvimento, não teceremos considerações finais. No entanto, pode-se constatar que, para o sucesso acadêmico de ambos os grupos de alunos, é de fundamental importância, por parte dos professores , pedagogos e família, o acompanhamento da trajetória escolar dos alunos. Além disso, é notória a existência de uma equivalência no desempenho da aprendizagem de ambos os grupos. Referências AMORIM, Ivonete Barreto de; SOARES, Sandra Regina. O trabalho docente nas representações de professores do ensino superior privado. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 18, n. 32, p. 49-60, jul./dez. 2009. ANDRÉ, M. E. D. A. de. Etnografia da prática escolar. Campinas: Papirus, 1995. FIGOTTO, G. 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