0 UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO DE ARTES VISUAIS A ESTÉTICA DA GRAFIA NAS OBRAS DE MIRA SCHENDEL E ALEX FLEMMING RAQUEL ELISANDRA BURTET BRANCO Ijuí, setembro de 2011 1 RAQUEL ELISANDRA BURTET BRANCO A ESTÉTICA DA GRAFIA NAS OBRAS DE MIRA SCHENDEL E ALEX FLEMMING Monografia apresentada ao Curso de Artes Visuais da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, como requisito parcial para a obtenção do título de Licenciada em Artes Visuais. Profª Orientadora: Rosana Berwanger Silva Ijuí, setembro de 2011 2 “À minha mãe Vera por estar ao meu lado nos momentos difíceis desta estrada. À professora Rosana que me ajudou e tranquilizou nos momentos de angústia e pânico. E aos colegas e amigos que apoiaram e deram forças para vencer mais esta etapa da minha vida. Muito obrigada a todos!”. 3 LISTA DE IMAGENS Imagem 1: Pablo Picasso, Ma Jolie (Mulher com Citara ou Violão) 1911-1912. Óleo sobre Tela, 100 x 65,4. The Museum of Modern Art, Nova York ..................... 12 Imagem 2: Pablo Picasso, Copo e Garrafa de Suze, 1912. Papéis Colados, Guache e Carvão, 65,4 x 50,2. Washington University Gallery of Art, St. Louis. Aquisição da Universidade, Kende Sale Fund, 1946 ............................................... 13 Imagem 3: Giacomo Balla – Desenho sobre Cartolina do Movimento Futurista, [s.d.]. Fonte da Imagem: Ministero Per I Beni Culturali e Ambientali. Marinetti e il Futurismo. Roma: Edizioni de Luca, 1994 ................................................................ 14 Imagem 4: Filippo Tommaso Marinetti Parole in Libertá .......................................... 15 Imagem 5: Theo van Doesburg. January 1923. Print. 62 x 85 cm ............................ 16 Imagem 6: Marcel Duchamp: L.H.O.O.Q., 1919/1930. Lápis sobre Reprodução de Mona Lisa, 19,7 x 12,4. Coleção Particular .............................................................. 17 Imagem 7: Salvador Dali, “O Enigma do Desejo – Minha Mãe, Minha Mãe, Minha Mãe” e (Detalhe). Óleo sobre Tela, 110 x 150 cm, Munique, Pinakothek der Moderne, 1929 ......................................................................................................... 18 Imagem 8: René Magritte, “A Chave dos Sonhos”. Óleo sobre Tela, 38 x 53 cm, 1927. Munique, Pinakothek der Moderne ................................................................. 18 Imagem 9: Lazar Markovich Lissitzky, “Com a Cunha Vermelha, Golpeie os Brancos”, um Cartaz da Revolução Russa, 1919 ..................................................... 19 Imagem 10: Alexander Rodchenko, [s.d.] ................................................................ 20 Imagem 11: Richard Hamilton, “O que Exatamente Torna os Lares de Hoje tão Diferentes, tão Atraentes?”, 1956. Colagem, 26 x 25 cm ......................................... 21 Imagem 12: Roy Lichteinstein, M-Maybe he Became ill and Couldn’t Leave the Studio! (1965) ........................................................................................................... 22 Imagem 13: Andy Warhol, Cinco Garrafas de Coca, 1962. Tinta Polimerizada Sintética e Tinta de Serigrafia sobre Tela, 40,6 x 50,8 cm. Coleção Particular ........ 22 Imagem 14: Joseph Kosuth, Intitulado (Arte como Ideia como Ideia), 1967. Cópia de Fotostática sobre Papel Apoiada em Madeira, 119,4 x 119,4 cm ....................... 23 4 Imagem 15: Joseph Kosuth, Relógio (Um e Cinco). Versão Inglês/Latim, 1965 (Versão da Exposição 1997). Relógio, Fotografias e Texto Impresso sobre Papel. Tate .......................................................................................................................... 24 Imagem 16: José Leonilson, Leo Não Consegue Mudar o Mundo, 1989. Acrílica sobre Lona, Imagem: Rubens Chiri .......................................................................... 25 Imagem 17: José Rufino, Trabalho Recente do Artista sem Maiores Informações .. 25 Imagem 18: Waltércio Caldas, Safo (Fragmentos), Livro Realizado em 2002, Utilizando Fragmentos da Poesia de Safo. Tiragem de Três Exemplares Numerados e Assinados pelo Artista ....................................................................... 26 Imagem 19: Sem Título, 1954. Têmpera, Gesso e Madeira sobre Madeira, 51 x 66 x 3,7 cm .................................................................................................................... 28 Imagem 20: Sem Título, 1965. Monotipia (Óleo sobre Papel-Arroz), 45,5 x 22,9 cm ............................................................................................................................ 29 Imagem 21: Sem Título (“Objetos Gráficos”) 1973, Letraset sobre Papel-Arroz, entre Placas de Acrílico Transparente, 55,9 x 55,9 x 1 cm ...................................... 30 Imagem 22: Sem Título (“Toquinhos”) 1973. Letraset sobre Blocos de Acrílico Montados sobre Placa de Acrílico, 50 x 56,5 x 1,4 cm ............................................. 31 Imagem 23: Detalhe de Sem Título (Datiloscritos) 1975. Datilografia e Caneta com Ponta de Feltro e Tipos Transferíveis sobre Papel, 51 x 37 cm ............................... 32 Imagem 24: Sem Título, 1985. Têmpera Acrílica, Gesso e Bastão de Óleo sobre Madeira, 90 x 180 cm ............................................................................................... 33 Imagem 25: Sem Título (“Sarrafo”), 1987. Sarrafo, Têmpera Acrílica e Gesso sobre Madeira, 190 x 180 x 7 cm ............................................................................. 35 Imagem 26: “O Aprendiz de Feiticeiro ou o meu Amigo Tcheco ou Homenagem a Alex Vallauri”, Acrílica e Spray sobre Canvasboard, 137 x 243 cm, 1982 ................ 36 Imagem 27: “Mar Xadrez”, Acrílica sobre Tecido Colado em Madeira, 175 x 220 cm, 1984. À Direita Detalhe da Obra ........................................................................ 37 Imagem 28: “Sem Título” (Série Alturas) – Eliane Prolik, Pablo di Giulio, Cacá Rosseti, Junito de Souza Brandão, Avani Stein, Sante Scaldaferri, Décio Pignatari. Acrílica sobre Tela, 210 x 140 cm, 1991 .................................................................. 39 Imagem 29: Animal Pertencente à Instalação “Living Room: the Ringh to Memory”, 1996. Compenhagen. Acrílica sobre Animal Empalhado ......................................... 40 Imagem 30: Foto do Artista em seu Estúdio Presente no Livro. Alex Flemming, de Ana Mae Barbosa, 2002. Detalhes da Fotografia do Artista com seus Trabalhos, não foi Possível Identificar Título das Obras e Dimensão ........................................ 41 Imagem 31: São Paulo, Acrílica sobre Sofá, 1997 ................................................... 42 Imagem 32: Sem Título (Vinícius de Moraes), Acrílica sobre Mala Samsonyte, 66 x 73 x 24 cm, 2001 ................................................................................................... 43 Imagem 33: Estação Sumaré do Metropolitano de São Paulo, (“Série Sumaré”), Tinta Cerâmica sobre Vidro, 1998 ............................................................................ 44 5 Imagem 34: Continue, Acrílica sobre Tela, 1992 ...................................................... 45 Imagem 35: Israel (Série Body-Builders), Acrílica sobre Fotografia Impressa sobre PVC, 1998 ................................................................................................................ 46 Imagem 36: Índia x Paquistão (Série Body-Builders), Acrílica sobre Fotografia Impressa sobre PVC, 2001 ...................................................................................... 47 Imagem 37: Êxodo, Acrílica sobre Camisa, 78 x 70 cm, 1997 ................................. 48 Imagem 38: 44, Acrílica sobre Cueca, 22,5 x 30 cm, 1998 ...................................... 48 Imagem 39: Projeto Arte na Escola .......................................................................... 56 Imagem 40: Materiais do Projeto Pedagógico da 8ª Bienal do Mercosul ................. 57 6 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 8 CAPÍTULO 1 ............................................................................................................ 1.1 Cubismo ........................................................................................................... 1.2 Futurismo ......................................................................................................... 1.3 Dadaísmo ........................................................................................................ 1.4 Surrealismo ...................................................................................................... 1.5 Construtivismo ................................................................................................. 1.6 Pop Arte ........................................................................................................... 1.7 Arte Conceitual ................................................................................................ 1.8 Arte Contemporânea ........................................................................................ 11 11 13 15 17 19 20 23 24 CAPÍTULO 2 ............................................................................................................ 2.1 Mira Schendel Gráfica-Poética ........................................................................ 2.1.1 Primeira Fase: “Pintura Matérica” ........................................................... 2.1.2 Monotipias ............................................................................................... 2.1.3 Objeto Gráfico ......................................................................................... 2.1.4 Toquinhos ............................................................................................... 2.1.5 Datiloscritos ............................................................................................ 2.1.6 Têmperas Brancas .................................................................................. 2.1.7 Sarrafos .................................................................................................. 2.2 Alex Flemming e o Corpo Gráfico .................................................................... 2.2.1 Corpo Desconstruído (Gravuras) ............................................................ 2.2.2 Santos, Anjos e Arcanjos ........................................................................ 2.2.3 Arqueologia ............................................................................................. 2.2.4 Morte e Vida: Animais Empalhados ........................................................ 2.2.5 O Espaço das Coisas e dos Objetos: Série de Poltronas e Objetos do Cotidiano ................................................................................................ 2.2.6 Pessoas Comuns: Objetos da Arte (Sumaré) ......................................... 2.2.7 O Mundo como Corpo Geográfico (Série Continue e Body-Builders) ..... 2.2.8 O Corpo do Artista: Autobiografia com Roupas ...................................... 2.3 Comparativo entre Mira Schendel e Alex Flemming ........................................ 27 27 27 28 29 31 32 33 34 35 36 37 38 39 41 43 45 47 49 CAPÍTULO 3 ............................................................................................................ 50 7 3.1 A Estética da Grafia nas Obras de Mira Schendel e Alex Flemming e suas Potencialidades no Ensino das Artes ............................................................... 3.2 O Espaço da Escola e do Ensino das Artes .................................................... 3.3 Possibilidades de Aplicação do Estudo da Grafia nas Aulas de Artes ............. 3.4 Desenvolvimento de Conhecimentos Específicos em Relação à Proposta ..... 3.5 Relação com Outras Disciplinas ...................................................................... 3.6 Projetos Pedagógicos que Auxiliam no Desenvolvimento Teórico e Prático em Sala de Aula .............................................................................................. 50 50 51 53 54 55 CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................... 58 BIBLIOGRAFIA ....................................................................................................... 60 8 INTRODUÇÃO Em meio a uma gama de processos e poéticas encontrados na arte contemporânea, descobrimos artistas que usam da grafia em seus trabalhos plásticos, e é justamente este o foco desta pesquisa. Segundo o Dicionário Aurélio a definição de grafia é: GRAFIA. [De graf(o)- + -ia¹; fr. graphie.] s.f. 1. Ortografia (3). 2. E. ling. sistema de escrita para representação de uma língua; escrita. El. comp. = ‘ação de escrever’; ‘maneira de escrever ou representar’; ‘escrita’; ‘descrição, tratado ou estudo’; ‘reprodução gráfica’; ‘registro’. Para Gerheim “A imagem acolhe as mensagens linguísticas e cria, combinando-as ao olho, esse produto misturado que é a escrita. Imagem e língua, cada qual ao seu modo, agem em conjunto nesse meio híbrido” (2008, p. 46). E é neste contexto que a escrita se incorpora aos trabalhos plásticos de arte e se torna assim, de algum modo um objeto estético. Na sequência o autor afirma que “Se a língua tem por função estruturar uma sociedade e transmitir de uma geração à outra a tradição, a imagem dá a essa mesma sociedade acesso ao mundo invisível em que a língua não está em curso” (2008, p. 46), sendo assim, a imagem desempenha um papel de transmissora de ideias e se mostra passível de leitura em qualquer sociedade devido ao seu caráter universal. A palavra (como grafia) vem sendo agregada na arte há muitos anos, a partir do modernismo percebemos que esta ganha um destaque e um olhar diferenciado, uma nova função, que talvez possamos denominar de estética. Desde o início do século passado encontramos a grafia presente em algumas obras, porém a partir de 9 1950 muitos experimentos com a palavra dão destaque a mesma, Gerheim escreve a respeito desta mistura entre palavra e objetos refletindo que: O modo como a palavra se mistura aos objetos e se irradia no espaço aspira ao grande labirinto sensorial e ambiental, pertencendo a um contexto de experimentação bem diverso daquele da poesia-objeto surrealista. Hélio Oiticica afirma que enquanto a poesia-objeto surrealista misturava palavra e imagem mantendo o objeto intacto, os poemas neoconcretos eram como inscrições no material em que lhes davam a completa significação. (2008, p. 54) Deste modo a grafia na arte se torna passível de estudo e aprofundamento já que há décadas este é um recurso que vem sendo utilizado e agregado pelos artistas nas artes. Portanto, tendo como ponto de partida a estética da grafia presente na arte contemporânea, este projeto de pesquisa monográfica procura analisar de que forma e como surgiu a utilização dos ícones gráficos na arte. Vários artistas já utilizaram este recurso em seus trabalhos, mas nos detemos em aprofundar as poéticas de Mira Schendel e Alex Flemming. Consideramos também que se a grafia já foi tão utilizada por artistas, então devemos nos propor a incorporar e investigar esta temática como um conteúdo possível de ser trabalhado em sala de aula. No primeiro capítulo buscamos analisar a presença da grafia na arte, passando por obras de diversos artistas e movimentos desde o início do século XX até chegarmos à contemporaneidade. Por meio de trabalhos que de alguma forma tem presentes a grafia, analisamos como esta está inserida e colocada como elemento plástico nas composições. No segundo capítulo, investigamos dois artistas que, mesmo em tempos diferentes, tem a grafia como elemento importante nas suas poéticas, são eles Mira Schendel e Alex Flemming, estes se apropriam dos ícones gráficos como um elemento plástico em suas pesquisas, e cada um em sua subjetividade faz uso dos mesmos de diferentes formas. Assim é possível traçar um comparativo entre a obra destes artistas e ver como as letras, palavras e símbolos gráficos são empregados por eles em seus trabalhos. O capítulo três se detém em buscar formas de aplicar este conteúdo das artes na escola de educação básica, analisando sua importância e viabilidade na educação. Se este recurso é utilizado por artistas porque não possibilitar que os 10 alunos entrem em contato com eles, assim possibilitando que tenham acesso a arte contemporânea e suas linguagens. Buscamos também as possibilidades de ampliar o conhecimento deste conteúdo junto a outras áreas de conhecimento presentes na escola. 11 CAPÍTULO 1 1.1 Cubismo Ao longo da história, a arte já se apresentou das mais diversas formas e os artistas como produtores da mesma utilizam dos mais inúmeros recursos e linguagens para desenvolvê-la. Durante muito tempo a arte se manteve clássica, o academicismo figurativo perdurou aproximadamente até o início do século 20, mas com a virada do século e a modernização da vida, a arte começa a sofrer transformações em sua estética. Com o surgimento das vanguardas artísticas a arte nunca mais foi a mesma, passando por transformações cada vez maiores até chegar a atual arte contemporânea. Muitos mitos foram quebrados ao longo do século passado e novas portas se abriram a uma nova estética e um novo modo de ver a arte. Neste capítulo vamos abordar em específico o uso da grafia na arte partindo do modernismo do início do século 20 na Europa e logo após se difundiu por todo o mundo. O primeiro movimento a utilizar palavras como um potencial estético foi o cubismo europeu, movimento este em que: O propósito da arte cubista era promover a decomposição, a fragmentação e a geometrização das formas. Os artistas apostaram na simultaneidade de visualizações permitidas a partir da análise de um objeto, isto é, o mesmo poderia ser visto sob vários ângulos, embora sua totalidade pudesse ser inteiramente preservada.¹ Em várias obras deste movimento os artistas se apropriam da palavra de recortes de revistas, e também por vezes as pintam em suas composições. A colagem em si já é uma grande inovação nos procedimentos da arte daquele período trazida pelos artistas cubistas. Picasso utiliza a grafia das duas formas já citadas, em 1911 em um de seus quadros do período analítico o artista pinta as palavras Ma Jolie que do francês significa minha bela. Funcionando não só como um título dentro do próprio quadro – um reconhecimento irônico do quão pouco lisonjeira era aquela pintura quase 12 ilegível –, as palavras eram também as primeiras da letra de uma canção 1 popular muito em voga na época. (COTTINGTON, 2001, p. 69) Imagem 1: Pablo Picasso, Ma Jolie (Mulher com Citara ou Violão) 1911-1912. Óleo sobre Tela, 100 x 65,4. The Museum of Modern Art, Nova York Outra obra do mesmo artista que também traz em si o uso da grafia é Copo e garrafa de Suze, onde usando da estética do cubismo sintético Picasso se apropria de recortes de revistas e os cola em seu trabalho, procedimento este inovador para a época, além da palavra Suze que está em destaque no centro da obra também podemos perceber inúmeras folhas com escritos ao fundo, utilizadas nesse contexto não como texto a ser lido e sim como elemento plástico. A combinação de signos visuais e verbais se lê, portanto, como uma justaposição – na verdade, um deslocamento – desse discurso de acontecimentos públicos e o mundo privado do jogo criativo e da experiência afetiva; um deslocamento que simbolizava o que existia de mais genericamente, como já se observou aqui, entre a política da vanguarda artística e da classe operária. (COTTINGTON, 2001, p. 71) 1 http://www.brasilescola.com/literatura/cubismo.htm. Acesso em: 15/06/2011. 13 Imagem 2: Pablo Picasso, Copo e Garrafa de Suze, 1912. Papéis Colados, Guache e Carvão, 65,4 x 50,2. Washington University Gallery of Art, St. Louis. Aquisição da Universidade, Kende Sale Fund, 1946 1.2 Futurismo O futurismo tem seu início concomitante a outras vanguardas do início do século 20 na Europa e segundo Gullar: [...] o futurismo, em que pese ao número reduzido de obras plásticas que logrou realmente criar, levou a um ponto extremo a rebeldia contra os cânones clássicos e com isso impôs a revisão total de valores e critérios em que se assentava o pensamento artístico de sua época. Se o futurismo é filho do cubismo, eis um problema ocioso. Há entre eles diferenças profundas que se devem apontar, para a compreensão de ambos. Na verdade são duas tendências opostas dentro de um mesmo contexto cultural, cabendo ao futurismo um teor de “rebeldia” bem maior; ele prenuncia o quebra-quebra implacável que os dadaístas iniciariam logo depois. (1999, p. 95) Esta vanguarda tinha como foco principal representar a dinâmica do movimento de um mundo moderno onde a velocidade das máquinas e das transformações aconteciam. Encontramos nas obras de alguns artistas futuristas composições onde a grafia não só tem destaque como ocupa completamente os trabalhos. Exemplo disto encontramos no desenho de Balla, na obra há uma 14 sobreposição de palavras e nomes que com o contraste das cores parecem estar em planos diferentes. Depois de ter alimentado um clima comum de entusiasmo, e de ter alcançado uma convergência de temas entre a poesia e a pintura na pregação do futurismo, e também na estrutura da linguagem, Marinetti se aproxima dos amigos pintores, promovendo o uso do valor figurativo das 2 letras em seus quadros e desenhos. Ao utilizar em seus trabalhos a estética da grafia os artistas futuristas realizavam composições que podem ser chamadas de arte verbal, por agregar a arte elementos gráficos e assim proporcionar um encontro entre as duas linguagens. Imagem 3: Giacomo Balla – Desenho sobre Cartolina do Movimento Futurista, [s.d.]. Fonte da Imagem: Ministero Per I Beni Culturali e Ambientali. Marinetti e il Futurismo. Roma: Edizioni de Luca, 1994 Assim como Balla, Marinetti também fez o uso da grafia em seus trabalhos, em Parole in libertá o artista evidencia algumas palavras e deixa algumas letras e sílabas soltas, acredito que soltas é realmente o mais coerente, pois percebemos uma estrutura fixa nas partes superior e inferior e em meio a elas há um grande movimento e mistura de signos. Miranda em seu site coloca que: A proposta tipográfica de Marinetti, pregando a “palavra em liberdade” era uma completa desconstrução dos conceitos gráficos da época, na medida em que rompia com a linearidade, as simetrias e todas as formas 2 http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_visual/futurismo_marinetti.html. Acesso em: 15/06/2011. 15 convencionais das 3 revolucionária. artes tipográficas vigentes. Uma arte verbal Imagem 4: Filippo Tommaso Marinetti Parole in Libertá 1.3 Dadaísmo O dadaísmo foi um movimento crítico e contestador, surge em várias partes do mundo por volta de 1915-16. Rompe com todas as barreiras da arte brincando e ironizando com tudo o que já havia existido e mesmo com suas próprias produções. A grande regra era não ter regras, o caos é o que guiava os trabalhos e manifestações dos artistas deste movimento. Ao contrário de outras correntes artísticas, o dadaísmo apresenta-se como um movimento de crítica cultural mais ampla, que interpela não somente as artes, mas modelos culturais, passados e presentes. Trata-se de um movimento radical de contestação de valores que utilizou variados canais de expressão: revistas, manifestos, exposições, entre outros. As manifestações dos grupos dadaístas são intencionalmente desordenadas e pautadas pelo desejo do choque e do escândalo, procedimentos típicos das vanguardas 4 de um modo geral. 3 http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_visual/futurismo_marinetti.html. Acesso em: 15/06/2011. http://artmob.wordpress.com/movimentos%20artisticos/. Acesso em: 15/06/2011. 4 16 No trabalho do artista Theo Van Doesburg também encontramos a presença da grafia, seu formato lembra a estrutura de um anúncio ou mesmo um jornal, outra semelhança é com o trabalho Parole de libertá do futurista Marinetti, ambos criam e estruturam suas composições de modo muito similar, de certa forma o futurismo abre um caminho para que os dadaístas consigam instaurar o caos na arte. É interessante pensar em como os artistas modernos abandonam determinados procedimentos na arte e se aventuram no mundo dos tipos gráficos não só dando destaque aos mesmos, mas os tornando a matéria prima e o produto da obra. Imagem 5: Theo van Doesburg. January 1923. Print. 62 x 85 cm A Monalisa de Marcel Duchamp é um dos readymade mais conhecidos do dadaísmo, com esta obra o artista questiona e brinca com um dos maiores ícones da arte clássica, com caneta ele interfere em uma reprodução, acrescentando um bigode à imagem e escrevendo na parte inferior da obra as letras L.H.O.O.Q. que são um trocadilho francês para “ela tem fogo no cú”, de forma sutil Duchamp usa da grafia para ironizar e de certo modo blasfemar um dos maiores ícones de Da Vinci, assinado esta versão da obra o artista se apropria da imagem mais conhecida do mundo. 17 Imagem 6: Marcel Duchamp: L.H.O.O.Q., 1919/1930. Lápis sobre Reprodução de Mona Lisa, 19,7 x 12,4. Coleção Particular 1.4 Surrealismo O surrealismo surge por volta dos anos 20 do século passado, deriva do dadaísmo por ter como teoria o irracional, o inconsciente na arte. As obras são figurativas e de muito rigor técnico, as representações quase que saem das telas e entram na realidade. O foco são as ideias, os sonhos. Sobre esta vanguarda Argan escreve que: O “Manifesto” do Surrealismo é de 1924; em 1928, Breton pública Le Surréalisme et la peinture, uma verdadeira estética surrealista. O inconsciente não é apenas uma dimensão psíquica explorada com maior facilidade pela arte, devido à sua familiaridade com a imagem, mas é a dimensão da existência estática e, portanto, a própria dimensão da arte. Se a consciência é a região do distinto, o inconsciente é a região do indistinto: onde o ser humano não objetiva a realidade, mas constitui uma unidade com ela. A arte, pois, não é representação, e sim comunicação vital, biopsíquica, do indivíduo por meio dos símbolos. (1996, p. 360) Salvador Dali repete duas palavras inúmeras vezes em um de seus quadros “Mamere” que do francês quer dizer minha mãe, neste autoretrato, o artista não pinta a imagem da mãe mas faz referência a ela por meio das palavras, e assim mais uma vez a grafia está presente na arte. Leroy descreve que “O pintor é o prisioneiro deste corpo coberto de cavidades ovais onde, em todas elas, surgem as mesmas duas palavras – <<mamère>> (<<minha mãe>>). Elas são a chave para o significado da pintura” (2007, p. 36). 18 Imagem 7: Salvador Dali, “O Enigma do Desejo – Minha Mãe, Minha Mãe, Minha Mãe” e (Detalhe). Óleo sobre Tela, 110 x 150 cm, Munique, Pinakothek der Moderne, 1929 Magritte é outro surrealista que também usou da grafia em suas obras, ele faz um jogo entre imagem e palavras em “A chave dos sonhos” as palavras escritas desdizem as imagens, ou seja, a legenda não corresponde a imagem apresentada. Segundo Leroy: Para o expectador que se encontra perante a pintura, que evoca associações de caligrafia cuidadosamente formada num quadro-preto de escola, ou as meticulosas ilustrações numa enciclopédia, as legendas incorretas poderiam a princípio parecer um erro, se não fosse pelo nome correto da esponja, em que o nome e a imagem correspondem. Uma vez que este sistema de identificação está totalmente incorreto, nós procuramos instintivamente uma nova forma de ordenar as coisas. A fratura no sistema, a fina fenda no que vemos como normal e habitual, provoca o processo de pensamento que o pintor pretendia. (2007, p. 63) Imagem 8: René Magritte, “A Chave dos Sonhos”. Óleo sobre Tela, 38 x 53 cm, 1927. Munique, Pinakothek der Moderne 19 1.5 Construtivismo O construtivismo russo aconteceu também por volta dos anos 20 do século passado, foi um movimento político estético de composições geométricas, seu grande idealista é o pintor Vladimir Tatlin, que acreditava que toda obra de arte também é uma construção, daí o nome do movimento. Acreditavam que, segundo Argan: A arte deve estar a serviço da revolução, fabricar coisas para a vida do povo, como antes fabricava para o luxo dos ricos. Qualquer distinção entre as artes deve ser eliminada como resíduo de uma hierarquia de classes; a pintura e a escultura também são construções (e não representações) e devem, portanto, utilizar os mesmos materiais e os mesmos procedimentos técnicos da arquitetura, que, por sua vez, deve ser simultaneamente funcional e visual, isto é, visualizar a função. Não existem mais artes maiores e menores: como forma visual. (1996, p. 326) Lissitzky ao criar o cartaz “Com a cunha vermelha, golpeie os brancos” usa da grafia em sua composição evidenciando assim a sua funcionalidade, neste caso as palavras não estão ali somente como um símbolo estético, mas em sua função principal que é comunicar. É importante também destacar que no construtivismo a grafia possui uma estética própria. Imagem 9: Lazar Markovich Lissitzky, “Com a Cunha Vermelha, Golpeie os Brancos”, um Cartaz da Revolução Russa, 1919 20 Rodchenko, assim como Lissitzky, também incorporou aos seus trabalhos a grafia, nos dois casos podemos perceber que não se tratam de “obras de arte”, mas de trabalhos plásticos que possuem uma estrutura pré-determinada, que têm uma função ideológica de comunicar. Neste período os artistas não estão preocupados em fazer grandes obras, e sim engajados em movimentos sociais, e usam seus trabalhos para difundir suas ideias e convicções partidárias para o grande público. E nesse processo a escrita é bastante incorporada a fim de deixar explícita a mensagem empregada nas imagens e cartazes da época. Imagem 10: Alexander Rodchenko, [s.d.] 1.6 Pop Arte A Pop Arte surgiu no Reino Unido e Estados Unidos no final da década de 50, do século passado, possui uma estética marcante, e se espalhou por todo o mundo por consequência de sua popularidade. Este fenômeno ganhou as grandes massas por trabalhar com o gosto e a estética popular. Se apropriou de grandes ícones da TV, publicidade e dos quadrinhos, e aproveitou o aumento do consumismo do grande público para vender e popularizar seus trabalhos de arte. Com relação a estes novos processos e no modo de fazer arte McCarthy aponta que: 21 Essa nova sensibilidade, apesar de heterogênea, pode ser resumida através da atenção à forma e ao tema, assim como ao processo. A forma inclui com frequência cores saturadas, falta de pinceladas pictóricas, forma simples, contorno, e delineamento nítidos e supressão do espaço profundo. O tema frequentemente deriva de fontes preexistentes e manufaturadas para consumo de massa. Entre essas fontes estão fotografias de jornais, anúncios coloridos, letreiros comerciais, histórias em quadrinhos e filmes. (2002, p. 25) Richard Hamilton em sua obra “O que exatamente torna os lares de hoje tão diferentes, tão atraentes?” trabalha com a colagem, e nesta usa de recortes que juntos compõem uma sala de estar. A cena está repleta de palavras, grafias, frases e logotipos. O artista agrega estes ícones à imagem e assim potencializa as imagens da composição. E ao mesmo tempo evidencia os mesmos como elementos plásticos na obra. Imagem 11: Richard Hamilton, “O que Exatamente Torna os Lares de Hoje tão Diferentes, tão Atraentes?”, 1956. Colagem, 26 x 25 cm Usando da linguagem dos quadrinhos Roy Lichteinstein, se apropria dessa estética relacionando imagem e palavra. O artista redimensiona estas imagens dando a elas tamanhos enormes e deixa aparecer em seus trabalhos os pontos bem-day que são marcas do processo gráfico utilizado nos outdoors. 22 Imagem 12: Roy Lichteinstein, M-Maybe he Became ill and Couldn’t Leave the Studio! (1965) Quando Warhol se apropria da imagem e logotipo da marca Coca-Cola, ele também está se apropriando do ícone que esta marca representa. A grafia da escrita da mesma já não são apenas palavras, mas um símbolo que está carregado de estética, sendo assim não é utilizado apenas para comunicar, mas é um elemento estético, e na obra do artista também elemento plástico. Imagem 13: Andy Warhol, Cinco Garrafas de Coca, 1962. Tinta Polimerizada Sintética e Tinta de Serigrafia sobre Tela, 40,6 x 50,8 cm. Coleção Particular 23 1.7 Arte Conceitual A arte conceitual aconteceu entre meados da década de 60 e 70 do século passado, na Europa e Estados Unidos. Esta vanguarda questionou a arte enquanto arte, e como o nome já diz neste movimento o conceitual era o ponto central na arte, ou seja, os objetos e imagens não eram mais essenciais, o conceito sim era fundamental para que ela acontecesse. Em um ensaio critico “A arte depois da filosofia”, o artista conceitual Kosuth in Wood defende que: [...] a arte não mais requer a feitura de objetos, sendo, então, um assunto proposital: isto é, uma proposição com relação à consequência de que esta é uma obra de arte. Na prática a obra de arte seria uma proposição analítica, uma tautologia, análoga a “um triângulo tem três lados”. Como escreveu Kosuth, “A ‘mais pura’ definição de arte conceitual seria a de que ela é uma indagação dos fundamentos do conceito ‘arte’”. (2002, p. 43) De todos os movimentos citados até o momento sem dúvida a arte conceitual é o que mais usa da grafia em suas obras, nesta vanguarda percebemos que o texto/conceito é o ponto central e a matéria prima. Na série Arte como ideia como ideia Kosuth faz diversos trabalhos em que usa apenas um fundo preto e as palavras para compor. As palavras, neste caso, são janelas usadas para levar a uma imagem, a uma imagem mental. Imagem 14: Joseph Kosuth, Intitulado (Arte como Ideia como Ideia), 1967. Cópia de Fotostática sobre Papel Apoiada em Madeira, 119,4 x 119,4 cm 24 Já nas instalações cujo artista usa objetos, fotografias e textos, como o Relógio o artista propõe um jogo entre objeto, representação do mesmo e o conceito a respeito deste objeto. Nesta obra quando vemos o relógio, e da mesma forma, a reprodução fotográfica do mesmo, logo a imagem nos atinge e identificamos o que é. Já quando lemos o conceito de relógio podemos imaginar o relógio que quisermos. Neste caso as palavras proporcionam muito mais possibilidades de imagem do que a imagem em si. Imagem 15: Joseph Kosuth, Relógio (Um e Cinco). Versão Inglês/Latim, 1965 (Versão da Exposição 1997). Relógio, Fotografias e Texto Impresso sobre Papel. Tate 1.8 Arte Contemporânea A partir da década de 80, do século passado, a arte passou por muitas transformações, sendo assim difícil determinar movimentos, os processos e linguagens bem como os materiais utilizados pelos artistas para criar são inúmeros, por isso desde aquela época até os dias atuais a arte produzida é denominada arte contemporânea. Dentro desse período vários artistas incorporaram aos seus trabalhos o uso da grafia, aqui destacamos três obras que trazem presentes esta estética. José Leonilson em Leo Não Consegue Mudar o Mundo destaca frases em seu trabalho, podemos observar que estas são usadas como elemento plástico a fim de passar uma mensagem direta ao expectador. O artista emprega as palavras que no contexto da composição possuem a mesma importância que a imagem. 25 Imagem 16: José Leonilson, Leo Não Consegue Mudar o Mundo, 1989. Acrílica sobre Lona, Imagem: Rubens Chiri Já Rufino utiliza do texto como plano de fundo em sua composição, mas elas estão ali, e se estão ali é para transmitir alguma coisa. A estrutura é de cartas manuscritas, que são suporte e ao mesmo tempo matéria plástica. As figuras estão diretamente ligadas ao fundo, se encontram dentro do texto, é como se estivessem para o texto, assim como o texto está para as figuras. Imagem 17: José Rufino, Trabalho Recente do Artista sem Maiores Informações 26 Waltércio Caldas realizou inúmeros trabalhos cujo suporte são livros, dentre eles Safo onde o artista se apropria de um trecho de um dos poemas de Safo5 e interage plasticamente em seu livro-objeto, neste caso as palavras utilizadas são retiradas diretamente dos escritos de Safo e agregadas ao trabalho do artista, as frases são então ícones não apenas da escrita, mas também ícones plásticos que desempenham em papel estético na obra de Waltércio e portanto material plástico no conjunto da obra. Imagem 18: Waltércio Caldas, Safo (Fragmentos), Livro Realizado em 2002, Utilizando Fragmentos da Poesia de Safo. Tiragem de Três Exemplares Numerados e Assinados pelo Artista 5 Safo (em grego: Σαπφώ, transl. Sapphō) foi uma poetisa grega que viveu na cidade lésbia de Mitilene, ativo centro cultural no século VII a.C. Nascida algures entre 630 e 612 a.C., foi muito respeitada e apreciada durante a Antiguidade, sendo considerada “a décima musa”. No entanto, sua poesia, devido ao conteúdo erótico, sofreu censura na Idade Média por parte dos monges copistas, e o que restou de sua obra foram escassos fragmentos. 27 CAPÍTULO 2 2.1 Mira Schendel Gráfica-Poética A artista Mira Schendel veio para o Brasil em 1948 com trinta anos fugindo das perseguições e de uma Europa destruída pela guerra, natural de Zurique/Suíça, Schendel encontra refúgio em Porto Alegre onde inicia sua carreira como artista plástica. Mulher de personalidade marcante e com formação em filosofia e artes, realizada na década de 30 em Milão. No Brasil Schendel abandona o sonho de poetisa e inicia seu trabalho nas artes, porém o gosto pelas letras e palavras nunca é abandonado. Em sua pesquisa plástica, a linguagem textual aparece com grande ênfase. Sua trajetória é caracterizada e marcada pelo silêncio, desenvolve sua investigação a partir do estudo da representação de planos, da espacialidade, como também o uso da transparência e da grafia. 2.1.1 Primeira Fase: “Pintura Matérica” Na sua primeira fase de pinturas (também conhecidas como “pinturas matéricas6”) que se desenvolve a partir de 1949, onde sua produção começa a ganhar destaque no espaço das artes, a artista trabalha em obras que fazem referência a sua experiência anterior com a cerâmica. São trabalhos densos onde ela apresenta materiais como areia, gesso e pó de tijolo. Nesta fase suas composições são de ordem geométrica e planos de cores terrosas destacadas pelos materiais incorporados nas obras. Marques define que: As pinturas deste período apresentam certas distinções; algumas carregam uma dimensão corpórea menos densa, porém jamais lisa, em que as formas geométricas alcançam maior definição; outras, as chamadas “Pinturas 6 A pintura material da informalidade é uma tendência a ter lugar na Europa no final dos anos quarenta e início dos cinquenta do século XX. Características: - maior preocupação para a física e técnica; - criação de efeitos materiais e muito expressivo, com estratificação de cores misturadas com vários materiais como gesso, areia, serragem, vidro quebrado, etc.; - inserção na pintura de serapilheira, madeira, trapos, sucata, etc. http://bauhausinformalismo.wordpress.com/pintura-materica/. Acesso em: 13/09/2011. 28 matéricas”, se caracterizam pela textura compacta obtida pelo uso da massa, cimento ou areia. Esse primeiro ciclo de sua produção de pintura, apesar de intenso, estendeu-se apenas até a metade da década, quando a artista começou seus experimentos com o desenho. (2001, p. 19) Imagem 19: Sem Título, 1954. Têmpera, Gesso e Madeira sobre Madeira, 51 x 66 x 3,7 cm Na obra acima a artista trabalha com inúmeros planos compostos por textura e pequenos blocos de madeira, a profundidade é dada pelos tons terrosos em degradê e também pelos pequenos cubos de madeira agregados a obra, nesta composição geométrica Mira Schendel parece se ocupar com a espacialidade destacando seus diferentes planos em um fundo trabalhado em gesso, mesmo com a presença de elementos geométricos e textura tátil, a obra não deixa de apresentar um sentido de silêncio, onde as formas estão estatizadas pelo mesmo, a textura não é agressiva, os elementos são harmônicos. 2.1.2 Monotipias Nesta fase desenvolvida por volta de 1964 Schendel se apropria do papelarroz e de sua transparência para produzir uma série de mais de duas mil monotipias onde a grafia de letras e palavras ocupam o espaço compositivo. Com sua caligrafia ela dá sentido a produção e eterniza as palavras com seu gesto, deixando para o expectador o desafio de não necessariamente identificar o sentido do texto presente, mas sim de entendê-lo como forma, como elemento compositivo. Segundo Marques: 29 Há nas “Monotipias” uma convocação ao léxico, à verbalidade. O uso de elementos textuais, como letras e alfabetos, tangencia os domínios da linguística e da plástica, uma questão também posta pela poesia concreta, que por sua vez solicita a materialidade, o aspecto plástico do poema. (2001, p. 31) Imagem 20: Sem Título, 1965. Monotipia (Óleo sobre Papel-Arroz), 45,5 x 22,9 cm Na monotipia acima, assim como em todos os trabalhos dessa série a artista utiliza o papel-arroz, também conhecido como papel japonês, como suporte para sua composição, mas não apenas como uma simples base e sim como o todo da obra, a escrita é posta de modo a penetrar no papel. A escrita em diversos idiomas soam como um grito a atingir o maior número possível de expectadores, a gestualidade da artista está presente marcando sua presença na composição. No momento em que Schendel se apropria da grafia ela torna sua obra universal e passível de leitura não apenas estética, mas também textual. 2.1.3 Objeto Gráfico A partir de 1967 a artista começa a produzir os chamados “Objetos Gráficos” nestes trabalhos ela prensa suas composições de papel-arroz em placas de acrílico, tornando assim possível a visualização de dois lados, suas obras ganham maior autonomia e aos poucos as palavras vão se decompondo em letras. A gestualidade da artista também vai se dissipando e aos poucos dá lugar a grafias industriais com 30 o uso de letraset7. A leitura dos textos já não é tão fácil, não existe uma ordem compositiva. Marques aponta que: [...] os “Objetos Gráficos” são trabalhos em papel-arroz, em grandes dimensões (até de 1,20 m), com letras manuscritas, impressas ou aplicadas. O traço e o gesto da artista são abolidos. As linhas dão lugar a letras e palavras datilografadas. O papel é prensado entre duas placas de acrílico, suspensas por fios de nylon, tornando visível a outra face do plano. Não há direito ou avesso. O plano deixa de ser plano. É vedada qualquer possibilidade de leitura textual, já que o inverso do texto é legível. A hierarquia do olhar é quebrada, conduzindo a uma leitura circular e virtual. O texto fica imóvel, obrigando o expectador a mover-se. (2001, p. 37) Imagem 21: Sem Título (“Objetos Gráficos”) 1973, Letraset sobre Papel-Arroz, entre Placas de Acrílico Transparente, 55,9 x 55,9 x 1 cm No trabalho da imagem acima Mira Schendel continua usando o papel-arroz na composição, porém ele já não é mais apenas o suporte, agora ele ocupa um lugar de material estético ao lado das letras que se encontram soltas na obra, não conseguimos perceber quais são os planos em que as letras se encontram, apenas percebemos que assim como o papel-arroz as letras também se emancipam e ganham uma singularidade própria, a comunicação já não é mais textual, pois os símbolos gráficos ganham conotação estética. 7 Letraset-CARD são letras auto-adesivas de fácil aplicação, cuja procura nas lojas onde já está presente, vem aumentando a cada dia. Letraset-CARD é utilizado para as mais diversas finalidades nas indústrias, escolas, comércio, escritórios, nos veículos, barcos e até no lar, para identificar, sinalizar e organizar. São letras em material auto-adesivo, resistente ao calor e à umidade, laváveis, aplicáveis em qualquer superfície limpa e lisa, são duráveis e com acabamento profissional. www.letraset.com.br/letrasetcard.html. Acesso em: 12/09/2011. 31 2.1.4 Toquinhos A partir de 1968 a artista produz as composições conhecidas como “Toquinhos”, nesta série a caligrafia é totalmente abandonada, Mira Schendel acaba por adotar o uso da grafia impressa com as letraset. Existem dois tipos diferentes de Toquinhos, em um deles as letraset são utilizadas sobre cartolina branca e pequenos quadrados pretos ou coloridos estão presentes na composição. Na segunda versão para “Toquinhos” Schendel utiliza o acrílico como suporte e assim como na versão em papel os retângulos e quadrados também são propostos, agora em acrílico transparente prensando as letraset. Sobre o uso deste material Marques escreve: Na década de 70, Mira passa a utilizar a letraset, recurso a um elemento banal e industrializado, que se mistura às linhas e a outros elementos criados pela artista. Quando começa o uso da letraset, as palavras passam a ser menos frequentes. As letras se tornam elementos gráficos no espaço. A incorporação ao desenho de elementos do uso cotidiano, como a letraset, adquire certa conotação pop. (2001, p. 33) Imagem 22: Sem Título (“Toquinhos”) 1973. Letraset sobre Blocos de Acrílico Montados sobre Placa de Acrílico, 50 x 56,5 x 1,4 cm Na imagem de “Toquinhos” escolhida, a artista compõe sobre o acrílico transparente com as já conhecidas letraset, a composição é organizada, diferente dos “Objetos Gráficos”, onde as letras são colocadas de modo aleatório e sobrepostas quase que formando um grande alfabeto caótico. Neste trabalho, como 32 em outros em acrílico da série, as letras estão ordenadas e em menor quantidade, os tamanhos das mesmas também variam, as fontes utilizadas vão das minúsculas e quase inelegíveis às maiores. Embora não seja um texto articulado, compreensível, a disposição de cada toquinho remete a sequência de organização de frases, palavras. Que de certo modo seguem uma organização textual. 2.1.5 Datiloscritos Mira Schendel desenvolve esta série de trabalhos após inúmeros experimentos como diferentes materiais e procedimentos. Foi a partir de 1974 que os Datiloscritos começam a aparecer, são composições em papel onde letras, números e linhas são organizados quase que em um formato de diagramação de livros. Blocos de ícones gráficos ganham forma por meio da datilografia, em alguns dos trabalhos a artista também interfere com caneta. Esta série se apresenta com grande rigor formal, os ícones aglomerados formam obras quase que geométricas. Sobre este período Marques aponta que: O sentido de signo das letras também está presente na série dos chamados “Datiloscritos”, realizada em 1974, onde predominam os tipos da máquina de escrever. Alguns trabalhos, em meio aos tipos datilográficos, mostram traços caligráficos. Os “Datiloscritos” apresentam uma busca de ordem compositiva, como se submetessem à composição da diagramação da máquina de escrever. São inúmeros elementos compondo uma grande estruturada, em que as palavras e os textos perdem seus nexos semânticos. A artista consegue imprimir uma ordem construtiva na repetição de elementos e palavras. (2001, p. 41) Imagem 23: Detalhe de Sem Título (Datiloscritos) 1975. Datilografia e Caneta com Ponta de Feltro e Tipos Transferíveis sobre Papel, 51 x 37 cm 33 Nesta obra de Datiloscritos, as letras datilografadas são a matéria prima utilizada pela artista, ela compõe blocos de ícones gráficos cuja repetição das letras formam quadrados, retângulos e triângulos. Linhas e letraset também são incorporadas à obra. Schendel interfere com sua caligrafia seguindo a mesma lógica construtiva do resto da composição, e agregando assim, sua personalidade, como nos livros que manuseamos e que deixamos nossas marcas com anotações e sinais. A estrutura destes trabalhos, assim como outros da mesma série, nos remete a páginas de livros científicos pela sua estética. 2.1.6 Têmperas Brancas A partir de 1985 a artista abandona o uso da grafia em seus trabalhos, as composições apresentadas nesta fase demonstram uma preocupação em representar planos espaciais, o geométrico retorna com grande força em seus trabalhos. Em uma primeira investigação com as têmperas Schendel utiliza cores fortes em grandes áreas e em pequenos triângulos, ou quadrados, onde trabalha com pigmento de ouro. Sobre esta nova fase das têmperas Marques coloca que: O plano torna-se monocromático, mais vazio, com pequenos desníveis na superfície, formando linhas virtuais. A fatura é lisa. Não há rastro do gesso da artista. O ouro, que ilumina a têmpera fosca, é usado livremente, seja em superfícies maiores ou em pequenos triângulos. Essas obras trazem uma cosmovisão do Extremo Oriente, tendendo à placidez, à reflexão e a contemplação. (2001, p. 45) Aos poucos as cores fortes vão dando lugar ao vazio do branco, a sutileza do gesto ocupa seu lugar na composição. Os trabalhos demonstram uma força vital e ganham dimensões maiores. Imagem 24: Sem Título, 1985. Têmpera Acrílica, Gesso e Bastão de Óleo sobre Madeira, 90 x 180 cm 34 Na obra acima a artista compõem sobre madeira e apresenta-nos por meio da sutileza uma composição onde a representação dos planos é o foco da obra, com gesso ela produz um relevo que se une a um traço a fim de formar diferentes planos na imagem. Apesar da grafia não estar presente nesta obra, podemos relacioná-la aos seus trabalhos anteriores com papel-arroz onde a artista também investiga a transparência e o uso do preto e branco. Há nesta série uma forte preocupação espacial da artista em representar o espaço, Naves in Pérez-Oramas nos conta que: O artista Fernando Bento, um de seus auxiliares, conta que ela costumava apontar os traços brancos deixados no céu pelos aviões, na tentativa de mostrar-lhe mais claramente o tipo de relação que procurava estabelecer entre as duas superfícies e as duas espécies de linha que corriam por elas. (2010, p. 57) Com estas obras a artista responde ao registro mental de uma experiência estética. Onde apresenta composições fortes marcadas pelo silêncio. 2.1.7 Sarrafos É por volta de 1986/87 que Mira Schendel produz a série denominada “Sarrafos”, cuja produção é considerada por alguns críticos como o ápice de sua produção artística. A artista apresenta grande maturidade neste período que, consequência da experiência com a pesquisa das têmperas brancas, as linhas antes desenhadas agora ganham volume e extrapolam os limites do suporte. Marques observa que: A angulação rigorosa da madeira pintada em preto sobre a placidez da têmpera branca fosca confere à obra uma ética plástica, um sentido afirmativo e transgressor do espaço real. A trajetória do sarrafo negro, libertando-se do suporte, tem a rapidez do gesto da artista, superando os limites das categorias tradicionais de pintura, relevo e escultura. (2001, p. 47) 35 Imagem 25: Sem Título (“Sarrafo”), 1987. Sarrafo, Têmpera Acrílica e Gesso sobre Madeira, 190 x 180 x 7 cm Na composição de “Sarrafo”, a artista elabora uma composição onde não apenas retrata a espacialidade, mas demonstra fisicamente por meio do sarrafo de madeira pintado em preto, o grande suporte branco dá destaque a forma que extrapola os limites da base, esta composição já não pode ser classificada apenas como pintura, também não é um objeto, Mira Schendel produz um trabalho cujas características não encontram uma classificação nas artes visuais. Com esta obra, assim como as demais da mesma série a artista consegue materializar/concretizar a essência da forma no espaço. 2.2 Alex Flemming e o Corpo Gráfico Alex Flemming é artista nascido no Brasil em 1954, natural da cidade de São Paulo e viajado pelo mundo, hoje vive entre São Paulo e Berlim. Artista de renome internacional fez faculdade de economia, estudou arquitetura e curso livre de cinema, até optar pelas artes. Entre 1981 e 1983 recebe bolsa da Fundação Fullbright para em Nova Iorque desenvolver o projeto “Male and Female nudity in na photo-abstract way”. Artista multimeios trabalha com inúmeras linguagens como gravura, infogravura, xerografia, pintura, interferência digital, instalação, objeto arte e fotografia. Em sua pesquisa poética investiga o corpo físico, espiritual e geográfico, um artista com preocupações políticas e sociais reflete em suas obras estas inquietações. Em seus trabalhos encontramos cores fortes e vibrantes, uma 36 linguagem multicolorida que nos remete a Pop Arte. Na maioria de suas obras encontramos o uso da grafia de forma marcante, elemento este incorporado pelo artista como um elemento estético e visual, e é para estes elementos que voltamos nosso olhar nesta pesquisa. 2.2.1 Corpo Desconstruído (Gravuras) Esta série da fase inicial do artista, as obras são datadas do começo da década de 80. Desta fase surgem seus primeiros trabalhos, e já nestes, o artista apresenta a representação do corpo. Temática esta, que será o foco de Flemming ao longo de sua carreira. A grafia também já está presente, nesta fase em forma de frase/título na obra. Sobre como o artista representa o corpo Barbosa coloca que: A figura humana de Alex Flemming não é representação do corpo, mas representação por meio do corpo. Não é um corpo construído para o olhar contemplativo, mas o corpo que se dissolve em autodefinição, em conflitos e em linguagem cultural e, ao se dissolver, torna-se coletivo. (2002, p. 19) Neste trabalho do artista já percebemos o uso das cores puras e a desconstrução do corpo. Flemming ao desconstruir o corpo humano também quebra uma lógica compositiva, e interfere assim no olhar do expectador. O uso da grafia também já está presente neste início de sua carreira artística, porém de forma sutil, quando ele grava o título da obra na mesma. Imagem 26: “O Aprendiz de Feiticeiro ou o meu Amigo Tcheco ou Homenagem a Alex Vallauri”, Acrílica e Spray sobre Canvasboard, 137 x 243 cm, 1982 37 Detalhe da Obra 2.2.2 Santos, Anjos e Arcanjos Nestes trabalhos Alex Flemming busca nos mitos e símbolos religiosos populares a mística e espiritualidade de um povo. A espiritualidade, como parte integrante do ser humano, é retratada em suas diversidades e crenças. Com relação a esta produção do artista, Barbosa define que ela é: [...] interpretativa de mitos e iconografia da cultura popular que se revela também política, pois discute a hibridização e o sincretismo cultural e, consequentemente, questiona, em linguagem erudita, a hegemonia dos cânones europeus e norte-americanos brancos. Contudo os Anjos, Sereias e Yemanjá Negra (Mar Xadrez) de Flemming afirmam principalmente a longevidade do mito do corpo invencível. (2002, p. 19) Na obra acima, assim como na imagem anterior, encontramos a presença dos elementos gráficos, porém sua ênfase ainda não é a palavra em si, por enquanto, ela apenas é apresentada como título da composição. O trabalho traz uma iemanjá figurada por traços marcantes em uma gravura de cores densas. As desconstruções do corpo e da imagem compositiva se firmam cada vez mais como uma característica dos trabalhos de Flemming. Imagem 27: “Mar Xadrez”, Acrílica sobre Tecido Colado em Madeira, 175 x 220 cm, 1984. À Direita Detalhe da Obra 38 2.2.3 Arqueologia Nas obras da Série Alturas o artista já não traz o corpo de maneira explícita. A grafia ocupa um lugar de destaque e os corpos estão disfarçados em meio às letras e cores fortes, é quase que um trabalho de arqueologia onde temos que procurar os pedaços com cuidado para descobrir o total da obra, são resquícios de corpos escavados de séries anteriores, onde Flemming trabalha com múmias e imagens da antiguidade clássica. Sobre as obras desta série Peixoto8 aponta que: O procedimento nestas telas é o acúmulo de imagens apropriadas da mídia. O uso de máscaras – um molde – leva a uma reiteração das mesmas imagens. Seguidamente sobrepostas, elas formam verdadeiras camadas, 9 um espesso palimpsesto que serve de paradigma ao mundo imagético contemporâneo. Estas figuras vão sendo carimbadas às vezes invertidas ou apenas em fragmentos, até se confundirem com o fundo. Elas formam o fundo, a paisagem saturada do nosso universo de signos. As imagens, destacadas pelo contraste formado entre tintas metálicas e opacas, parecem então emergir de um túnel do tempo, da indistinção geral dos escombros. Na Série Alturas as letras deixam de estar em segundo plano para invadir e tomar conta do trabalho de Flemming. Sobre um fundo todo carimbado de figuras repetidas, escavadas de trabalhos anteriores, surgem linhas verticais de alturas diferentes onde nomes de pessoas estão escritos lateralmente, com grande espaçamento entre cada letra e pelas palavras deitadas o olhar do apreciador é dificultado, o corpo é presente na obra pelos nomes gravados de forma indireta. 8 in Barbosa (2002, p. 45). Palimpsesto (do grego antigo παλίµψηστος/palimpsestos, ou seja, “riscar de novo”; πάλιν, “de novo” e ψάω, “riscar”) designa um pergaminho (ou papiro) cujo texto foi eliminado para permitir a reutilização. Esta prática foi adotada na Idade Média, sobretudo entre os séculos VII e XII, devido ao elevado custo do pergaminho. A eliminação do texto era feita através de lavagem ou, mais tarde, de raspagem com pedra-pomes. A reutilização do suporte de escrita conduziu à perda de inúmeros textos antigos, desde normas jurídicas em desuso a obras de pensadores gregos pré-cristãos. A recuperação dos textos eliminados tem sido possível em muitos casos, através do recurso a tecnologias modernas. pt.wikipedia.org/wiki/Palimpsesto. Acesso em: 03/08/2011. 9 39 Imagem 28: “Sem Título” (Série Alturas) – Eliane Prolik, Pablo di Giulio, Cacá Rosseti, Junito de Souza Brandão, Avani Stein, Sante Scaldaferri, Décio Pignatari. Acrílica sobre Tela, 210 x 140 cm, 1991 2.2.4 Morte e Vida: Animais Empalhados Quando trabalha com os animais empalhados Flemming amplia seu repertório e expõe suas angústias, morte e vida se fazem presentes, não de uma forma sutil ou simbólica, mas de modo direto com a presença dos cadáveres de animais. Estes retratam a vida como um todo nos levando a refletir sobre nós mesmos e sobre a sociedade em que estamos inseridos. Traz também presente um engajamento político e espírito de denúncia por parte do artista, uma postura de muitos artistas contemporâneos. Conforme Tannert10: Alex Flemming encontra a inércia e o descompromisso estéticos, nos quais ele coloca emoções e conteúdos, sem atravancar o contexto de seus trabalhos com iconografias pessoais. Ele escapa do perigo de produzir palavras demais (quando se concebe palavras e imagens como opostos) pela criação de um potencial de sensibilidade sempre constante. Esse potencial está, antes de tudo, vinculado à série de animais empalhados e se liga, na lembrança do observador, a experiência de dor e sofrimento. 10 in Barbosa (2002, p. 93). 40 Acrescentando sobre a presença de texto nessa série dos animais empalhados, Cocchiarale11 coloca que: A aplicação de texto tem sido uma constante na obra de Alex Flemming. Ao utilizar-se de novos suportes para sua expressão plástica, como roupas, animais empalhados, móveis, o artista aplica textos retirados de anúncios de jornais. Nesta série o artista trabalha sobre animais empalhados interferindo neles com letras distribuídas de forma aleatória impossibilitando qualquer leitura textual. No animal de cor verde pertencente à instalação “Living room: the ringh to memory” identificamos letras vermelhas, cuja estética é uma marca registrada do artista, que se destacam sobre o pêlo do animal achatado pela tinta metálica verde. Imagem 29: Animal Pertencente à Instalação “Living Room: the Ringh to Memory”, 1996. Compenhagen. Acrílica sobre Animal Empalhado Na fotografia do artista em seu estúdio encontramos mais alguns trabalhos desta série não muito conhecida, nos pássaros empalhados Flemming segue a mesma técnica empregada no lobo verde, tinta acrílica metálica sobre o animal e as letras gravadas em cores contrastantes sobre os mesmos, os ícones gráficos tornam-se elementos estéticos nas obras, uma vez que não conseguimos decifrálos, e também pelo destaque dados a eles. 11 in Barbosa (2002, p. 110). 41 Imagem 30: Foto do Artista em seu Estúdio Presente no Livro. Alex Flemming, de Ana Mae Barbosa, 2002. Detalhes da Fotografia do Artista com seus Trabalhos, não foi Possível Identificar Título das Obras e Dimensão s.t. Detalhes da Foto Acima 2.2.5 O Espaço das Coisas e dos Objetos: Série de Poltronas e Objetos do Cotidiano Quando o artista traz para seu trabalho objetos de uso cotidiano e interfere sobre eles com letras e texto reflete também questões da natureza humana, são objetos inanimados que, porém estão carregados de vida. Os textos por vezes trazem tragédias e também amor. São mistos de sentimentos humanos, comum a todas as pessoas, assim como os objetos industrializados e produzidos em séries presentes em muitos lares. Sobre a série das poltronas Herold12 escreve que: 12 in Barbosa (2002, p. 95). 42 Teoricamente, todas as palavras sobre o móvel de Alex Flemming têm um sentido. Dito em termos modernos, eram citações em tempo real; elas são genuínas. Tudo ao pé da letra, garantindo, fidedigno, autêntico. Textos de contratos, comunicações, relatos anedóticos, notícias. De todo o mundo. Elas significam algo (mas só digo isso porque logo em seguida a gente esquece). Praticamente, elas são nada menos que desenhos sobre quadros tridimensionais. Suas letras são ornamentos, e nos sentamos em cima. Nos objetos pertencentes a esta série destacamos dois, uma poltrona onde o corpo não está presente fisicamente, mas ocupa um lugar na obra de forma indireta. O artista, de certo modo, nos convida a sentar sobre uma notícia da cidade de São Paulo retirada de um jornal, são manchetes que tratam da vida de cidadãos comuns, que trazem tragédias ou acontecimentos. Flemming cria um objeto que questiona, interferindo sobre ele com tinta e com frases gravadas com suas já tradicionais letras estas, que são de diversas cores e que não deixam espaço entre si. No segundo objeto Alex Flemming é mais romântico e grava sobre uma mala, usando o mesmo procedimento plástico da poltrona, o trecho de um poema da autoria de Vinícius de Moraes. Em uma mala carregamos tantas coisas, e também nossa subjetividade, mais uma vez o humano se faz presente. Pintada de amarelo o artista organiza as frases em linhas mas dificulta a leitura pelas letras deitadas e sem o espaçamento formal de um texto. Imagem 31: São Paulo, Acrílica sobre Sofá, 1997 43 Imagem 32: Sem Título (Vinícius de Moraes), Acrílica sobre Mala Samsonyte, 66 x 73 x 24 cm, 2001 2.2.6 Pessoas Comuns: Objetos da Arte (Sumaré) Em uma estação de metrô vidas e corpos se cruzam constantemente, são pessoas comuns que apesar de muitas, às vezes parecem invisíveis em meio a tanta correria e preocupações. Na Série Sumaré, realizada em São Paulo, o artista interfere na estação de metrô com imagens de pessoas comuns, destas que se perdem em meio à multidão. Os textos são de poetas e escritores brasileiros, sendo poemas, formas de escritos que nos tocam a alma, de certo modo o artista, ao imprimir sobre pessoas comuns estes textos expressa a singularidade e sentimentos que envolvem cada pessoa. Pessoas comuns se transformam em arte, esta que dificilmente é encontrada em lugares comuns. Sobre o processo utilizado pelo artista, Cocchiarale13 descreve que: Sobrepondo-se a estes retratos, o artista gravou letras utilizando cores, com grafia deliberadamente borrada, como nas velhas máquinas de escrever. Aplicou-as sem respeitar as sílabas que compõem as palavras, mas manteve a sequência que nos permite, com certa dificuldade, decifrar seu significado. Ao descrever a instalação realizada pelo artista, Magalhães14 coloca que: 13 in Barbosa (2002, p. 110). in Barbosa (2002, p. 107). 14 44 O artista utilizou duas séries de vinte e duas imagens, colocadas enfileiradas nas plataformas e ordenadas uma no sentido inverso da outra, com vinte e dois poemas, um para cada imagem. São retratos anônimos de tipos raciais diferentes, brancos, pretos e asiáticos, fotografados frontalmente como nos passaportes, nas carteiras de identidade, ampliados e gravados sobre vidros. Imagem 33: Estação Sumaré do Metropolitano de São Paulo, (“Série Sumaré”), Tinta Cerâmica sobre Vidro, 1998 Detalhes Nesta instalação Flemming manipula imagens de pessoas comuns, pessoas como as que passam diariamente pela estação de metrô. As figuras são ampliadas em preto e branco e aplicadas sobre o vidro das paredes da estação, sobre elas o artista insere suas letras usando textos conhecidos de poetas brasileiros, as 45 palavras são quase indecifráveis, devido a sua distribuição sobre as imagens, de cores vibrantes as letras trazem a marca do artista e ganham destaque sobre as composições. 2.2.7 O Mundo como Corpo Geográfico (Série Continue e Body-Builders) O corpo humano é uma temática recorrente no trabalho de Alex Flemming, com o corpo surge o corpo geográfico, que é ocupado pelos humanos. Sendo o homem capaz de fazer o bem e o mal, o artista traz em “Continue” as angústias humanas em palavras que sobrepõem alguns mapas continentais – corpos geográficos. Sobre o tríptico “Continue”, Laudanna15 descreve que: [...] composto por mapas e frases construídas com moldes de letras. Na primeira tela estão sobrepostos o mapa da América e o da Europa; na segunda, o da África e o da América; na terceira, o da África e o da Europa. Um adágio em português, sobre os justos protegidos em qualquer parte do mundo, começa na primeira tela e prossegue até a última. No tríptico “Continue” Flemming trabalha textos em diversas letras sobre mapas sobrepostos, as cores usadas nas composições são diferentes em cada tela, nesta obra as palavras tomam conta do trabalho e além de elementos estéticos as palavras comunicam e passam a mensagem do artista. Imagem 34: Continue, Acrílica sobre Tela, 1992 15 in Barbosa (2002, p. 150). 46 Em “Body-Builders” são os mapas que sobrepõem a figura – corpo humano. As zonas de conflito estão gravadas sobre a pele humana, fazendo parte de seu corpo, quando não deveria fazer. As cores vibrantes disfarçam o tom dramático das imagens (conflitos). Sobre o trabalho Israel desta série Arruda16 coloca que: A região da barriga é a trabalhada em computador, com o qual o artista insere mapas como se fossem tatuagens, que representam países ou regiões em conflito como a Bósnia, Israel, Chiapas etc. esta série eróticopolítica vem ainda acompanhada de citações bíblicas pintadas com máscaras ou até canções do repertório internacional. A obra soa como um grito contra a guerra e contra a manipulação de pessoas inocentes no jogo de poder das grandes potências e dos pequenos ditadores. Nestes trabalhos o artista trabalha com manipulação digital das imagens unindo o corpo humano ao corpo geográfico com mapas empregados sobre os corpos. Os mapas de zonas de conflito questionam o ser humano e suas razões, assim Flemming aborda mais uma vez a corporeidade e subjetividade humana que se mostra capaz de produzir grandes tragédias. As cores são berrantes e as letras novamente se fazem presentes, seja pelo nome dos lugares localizados nos mapas ou pelas frases inseridas pelo artista. Imagem 35: Israel (Série Body-Builders), Acrílica sobre Fotografia Impressa sobre PVC, 1998 16 in Barbosa (2002, p. 138). 47 Imagem 36: Índia x Paquistão (Série Body-Builders), Acrílica sobre Fotografia Impressa sobre PVC, 2001 Detalhe 2.2.8 O Corpo do Artista: Autobiografia com Roupas Ao usar suas roupas como suporte o artista realiza uma série autobiográfica, nelas estão contidas suas ideias, formas e seu retrato de forma indireta, e apesar de sua fisionomia não aparecer como nos autoretratos tradicionais suas características estão presentes ali. Arruda17 destaca que: Paralelamente a outras séries. Flemming desenvolveu um novo trabalho de caráter autobiográfico: pintura sobre tecido industrializado, mais especificamente sobre suas próprias roupas usadas, marcadas e desgastadas por seu corpo. Suas calças, camisas, paletós e cuecas assumem uma postura estática semelhante a uma couraça, pelo tratamento que o artista aplica sobre elas com pigmentos acrílicos puros. Colorindo-as com as tintas as mais berrantes, elas são afixadas diretamente na parede como que crucificadas, pois os vários pregos perfuram o tecido deixando sua marca indelével. 17 in Barbosa (2002, p. 133). 48 Ao pegar como suporte suas próprias roupas usadas Alex Flemming traz para esta série seus aspectos pessoais, este autoretrato mais do que a imagem do artista carrega seus moldes e personalidade. Com uma poética consistente, os trabalhos apresentam também a maturidade plástica do artista que expõe seus pertences pessoais e suas marcas poéticas, usando as já tradicionais cores vibrantes e unidas a elas, a grafia de letras em caixa alta, que tomou como suas, como se fossem sua própria caligrafia, tornando-as sua marca pessoal. Imagem 37: Êxodo, Acrílica sobre Camisa, 78 x 70 cm, 1997 Imagem 38: 44, Acrílica sobre Cueca, 22,5 x 30 cm, 1998 49 2.3 Comparativo entre Mira Schendel e Alex Flemming Neste capítulo, apresentamos alguns aspectos/etapas da poética de Mira Schendel e Alex Flemming, e por meio destes dois artistas, podemos analisar e questionar o uso da grafia na arte como elemento estético e plástico. No quadro abaixo traçamos um comparativo entre a poética destes dois artistas, tentando mostrar como cada um, em sua subjetividade, trabalha e utiliza a grafia em suas composições. Produção Obra Fases Momento histórico Procedimentos A grafia MIRA SCHENDEL De c. 1950 à c. 1988 Produção fechada, artista já falecida Definidas, transição clara entre um período e outro De transição do modernismo para o contemporâneo Desenho pintura, colagem Predomínio da abstração Utiliza a grafia com tipos industrializados de diferentes tamanhos, cores e fontes Idiomas da grafia Relação espacial Universaliza seus trabalhos utilizando frase e palavras em inúmeros idiomas Seus trabalhos remetem a imagem de uma constelação por meio da aglomeração de letras criando assim um espaço quase geográfico que nos remete ao céu O olhar do expectador Dificulta o olhar embaralhando letras, e utilizando palavras em idiomas diferentes. O sentido nem sempre é a compreensão textual, e sim a composição com elementos textuais Quebra da hierarquia do olhar Cores Fisicamente, exigindo que o expectador se movimente em torno da obra Claras, predomínio do silêncio, reflexão ALEX FLEMMING De c. 1980 aos dias atuais Em processo, artista vivo Sem sequência cronológica, o artista revisita obras de diferentes momentos Arte contemporânea, atualidade Infogravura, pintura, objeto Predomínio da figuração Imprime suas letras em diferentes cores, estas vibrantes, com uma estética própria, tornando-se um padrão em sua plasticidade Também incorpora vários idiomas em suas obras Trabalha com o conceito de corpo e inclui em sua poética o corpo geográfico por meio de mapas, ou seja, à geografia física discutindo também a geografia política nos remetendo à terra Também dificulta o olhar, abolindo, e por vezes aumentando, os espaços entre as letras e sílabas. Aparentemente predomina o sentido de compreensão textual, mesmo que por vezes organizado de forma a dificultar essa compreensão Cria obstáculos intelectuais para a decodificação dos códigos linguísticos, exigindo um movimento mental Vibrantes, perturbadoras, por vezes as obras gritam 50 CAPÍTULO 3 3.1 A Estética da Grafia nas Obras de Mira Schendel e Alex Flemming e suas Potencialidades no Ensino das Artes Tendo como ponto de partida a escola de educação básica e o espaço do componente de artes na mesma, com esta pesquisa buscamos uma nova possibilidade para desenvolver planos de ensino que ajudem a ampliar os conhecimentos dos alunos a cerca da arte contemporânea. Propomos pensar possíveis aplicabilidades da temática desta pesquisa monográfica em sala de aula, que tem como objetivo desenvolver os potenciais da arte contemporânea na escola de educação básica por meio da análise das obras dos artistas Mira Schendel e Alex Flemming, com enfoque em suas poéticas que tem como base no uso da grafia. 3.2 O Espaço da Escola e do Ensino das Artes A arte na escola de ensino básico está presente como componente curricular obrigatório no currículo escolar, mas sua amplitude vai além dos horizontes da escola e se lança pelo mundo e pela história da arte e da humanidade, fazendo contribuições e ampliando o conhecimento cultural e intelectual do indivíduo. E é neste espaço em que as ideias encontram as imagens que podemos atuar enquanto arte-educadores no desenvolvimento de aulas que contribuam para a formação dos alunos enquanto pessoa e ser pensante e questionador da sociedade em que estão inseridos. Sobre o papel da arte no ensino escolar Iavelberg aponta que: A arte constitui uma forma ancestral de manifestação, e sua apreciação pode ser cultivada por intermédio de oportunidades educativas. Quem conhece arte amplia sua participação como cidadão, pois pode compartilhar de um modo de interação único no meio cultural. Privar o aluno em formação desse conhecimento é negar-lhe o que lhe é de direito. A participação na vida cultural depende da capacidade de desfrutar das criações artísticas e estéticas, cabendo à escola garantir a educação em arte para que seu estudo não fique reduzido apenas à experiência cotidiana. (2003, p. 9) 51 Sabendo da importância dos conhecimentos em arte para a formação dos alunos se faz necessária a promoção de conteúdos que estimulem e instiguem a criatividade e o aprofundamento teórico a cerca da arte. Uma das possibilidades ainda pouco exploradas nas escolas é o ensino de arte contemporânea. Talvez por falta de formação ou por medo, o fato é que os professores acabam deixando de lado este conteúdo tão atual e tão amplo do universo das artes visuais. Sobre o ensino de arte contemporânea e suas linguagens, como conteúdo em sala de aula Medeiros coloca que: [...] quanto à arte-educação, é imprescindível dar aos alunos as possibilidades de trabalhar com estas linguagens contemporâneas da arte que são as suas, com as quais nasceram e que mitificam, por desconhecêlas; e que mitificam como deseja a mídia. O espaço das aulas de artes nas escolas tem um papel fundamental na formação do aluno enquanto indivíduo, pois neste espaço é possível além de aprender sobre artes desenvolver a sensibilidade em si mesmo e com as coisas que nos cercam. Vasconcelos destaca que: [...] o estímulo ao aprender a ver, a perscrutar, a pensar, raspando o verniz e a superficialidade do aparente, questionando sua aparência e visibilidade. Estar na escola faz uma diferença, pois nesse espaço se realiza uma educação intencional, propositada. É nosso dever enquanto educadores possibilitar que o aluno vivencie novas experiências, que tenha um olhar aberto, que saiba articular e questionar a arte e o meio em que vive. E que acima de tudo tenha um olhar investigador, que possa ver no acaso, na sutileza e em seu dia a dia possibilidades de criação. Assim são formados artistas do cotidiano, aqueles que têm um olhar sensível e que se deixam tocar pelas experiências simples do dia a dia. 3.3 Possibilidades de Aplicação do Estudo da Grafia nas Aulas de Artes O estudo da estética da grafia possibilita a abordagem de conteúdos da arte e de sua história, abrindo caminho para uma explanação pelos mais diversos movimentos e artistas do século XX. É possível assim traçar um estudo por meio de 52 comparações entre obras diferentes entre si, mas que possuem um ponto em comum, a presença de ícones gráficos. Passando pela história da arte chegamos aos dias atuais e então o mesmo tema pode ser ampliado com o auxílio da poética de artistas que tem na grafia a principal base para suas pesquisas poéticas. Neste trabalho de pesquisa monográfica abordamos os artistas Mira Schendel e Alex Flemming, mas na escola também é possível fazermos relações com outros artistas contemporâneos que também pesquisam a estética da grafia. Ao aprofundar o estudo sobre a poética de cada artista também podemos destacar a subjetividade de cada um nesse processo e como são possíveis posturas e resultados diferentes a partir de um mesmo recurso, por exemplo, os ícones gráficos. Outra possibilidade de abordagem é relacionar os conteúdos do tema central com elementos da cultura visual e escrita fazendo relações entre elementos de peças publicitárias, jornais, revistas, vídeos entre muitas outras possibilidades. Também nestas inter-relações é possível um estudo entre grafias de diferentes culturas e tempos. Além do estudo teórico sobre o uso da grafia como elemento estético é possível aliar o mesmo a exercícios práticos onde a plasticidade de cada aluno pode ser explorada por meio da pintura, desenho, gravura, objeto arte, manipulação digital, entre muitas outras possibilidades de procedimentos artísticos. Auxiliando o aluno no desenvolvimento de sua capacidade de relacionar e aplicar conteúdos e conhecimentos estudados. Aliado a abordagem teórica e prática é possível, e necessário, o uso de leituras de imagens no processo de formação e fixação dos conteúdos abordados. Por meio dela conseguimos fazer associações com outras imagens e linguagens, bem como ampliar o repertório visual de cada aluno, buscando também formar leitores (de imagens), com olhares mais atentos e investigativos. Esta talvez seja uma das grandes funções da arte, tornar as pessoas mais sensíveis e críticas ao que vêem, no mundo em que vivemos hoje tudo nos é dado pronto, inclusive o modo de pensar, estamos enquadrados em uma sociedade que é receptora de fatos, notícias e imagens. A velocidade com que nos chegam as informações nos impedem de absorvê-las e de refletirmos sobre aquilo que está sendo apresentado. 53 A arte faz o caminho inverso e nos faz parar e pensar, não adianta querer que uma obra de arte, por exemplo, se entregue a nós em um primeiro olhar, é preciso parar e mergulhar dentro do trabalho para desvendar o que está implícito, é um exercício de paciência e reflexão. E é por isso que por meio da arte somos capazes de transformar o olhar das pessoas, aqui não me refiro apenas aos alunos, mas o olhar de todas as pessoas que se abrem para a arte e que se deixam tocar por ela. Conjuntamente com a ampliação dos conhecimentos teórico-práticos, ampliam-se também aspectos subjetivos de cada aluno que mechem com sua sensibilidade e com o modo de encarar o mundo e a sociedade em que vive. Ampliando assim também seu repertório cultural e sua capacidade de análise e de fazer inter-relações. Contribuindo inclusive para o desenvolvimento de aptidões e facilitando, muitas vezes, o aprendizado em outras áreas do conhecimento. Sendo assim podemos pensar que o estudo a cerca do uso da grafia como elemento estético e plástico é de grande valia nas aulas de artes, pois para onde olharmos encontramos a presença ou o vestígio da grafia. Ela está presente em nosso cotidiano e também nas artes visuais, e assim temos a possibilidade de explorar não apenas valores visuais e estéticos, mas também sociais e culturais promovendo discussões mais amplas que vão além do universo das artes. 3.4 Desenvolvimento de Conhecimentos Específicos em Relação à Proposta No ambiente da escola formal uma das preocupações encontradas pelos professores é em desenvolver temas e projetos que despertem o interesse dos alunos e também em trabalhar com conteúdos que possibilitem o desenvolvimento de inúmeros saberes tais como conceitos, procedimentos e atitudes. Ao pensar esta pesquisa monográfica e sua aplicabilidade em sala de aula é preciso também pensar quais suas potencialidades enquanto conteúdo e abordagens possíveis de conhecimentos. Nos conteúdos conceituais encontramos: - a possibilidade de estudo da arte contemporânea; e de inúmeras vanguardas e movimentos do século XX; - a apropriação do uso da grafia nas artes visuais; - o estudo e exploração dos elementos visuais usuais nas artes visuais e da cultura visual; 54 - análise e diferenciação entre bidimensional e tridimensional; - estudo de termos e conceitos encontrados na arte contemporânea; - abordagens a cerca das novas tecnologias incorporadas na arte; - conhecimento do que é a poética e pesquisa dos artistas e aprofundamento na obra de Mira Schendel e Alex Flemming; - observação, análise e interpretação de imagens. Nos conteúdos procedimentais as possibilidades são inúmeras e podem ser variadas no ensino fundamental e no médio, algumas das possibilidades são: - desenho, impressão, monotipia/gravura, pintura; - objeto-arte, instalação; interferência no espaço; - materialidades, procedimentos e meios de criação artística; - apropriação, ressignificação, citação, interferência; - criação artística com objetos do cotidiano, etc. Os conteúdos atitudinais também podem variar de acordo com a faixa etária de cada grupo de alunos: - relacionar e reconhecer conceitos e técnicas em seu trabalho, bem como no trabalho de colegas e artistas e valorizando os mesmos; - ampliar a dimensão do sensível; - promover a capacidade de trabalho coletivo; - propiciar análise e avaliação pessoal e em grupo; - valorizar as diferentes formas de manifestações artísticas; - explorar as potencialidades artísticas do aluno; - refletir e discutir assuntos relacionados ao tema trabalhado. 3.5 Relação com Outras Disciplinas A investigação proposta a cerca da grafia também se mostra com potencial inter e transdisciplinar podendo ser relacionado a inúmeras áreas do conhecimento podendo ser usado como uma estratégia de fixação e ampliação de saberes. Hoje em dia as escolas buscam cada vez mais explorar este potencial interdisciplinar, pois além de ser um recurso pedagógico eficiente também é uma demanda dos tempos atuais e da sociedade. É importante que se amplie o conteúdo e que este se relacione com outras áreas. Em um mundo globalizado não podemos nos fechar ao que nos cerca, 55 devemos nos apropriar do que nos é oferecido e usar isso para um melhor aproveitamento e também como um modo de mostrar que o que estudamos está presente a nossa volta de forma direta ou indireta em nosso dia a dia. Conseguimos assim alcançar uma maior abrangência do que estudamos. Portela escreve que: O processo de ensino da Arte permite também novas relações entre outras disciplinas do currículo. Entre inúmeras funções cumpridas pelo trabalho com arte, poderíamos citar a possibilidade de acesso a valores de outras culturas e consequente análise de sua realidade cotidiana, a dimensão social adquirida pelas manifestações artísticas, a compreensão da Arte determinando perfis profissionais e as novas leituras do fazer artístico à luz dos códigos visuais da modernidade. (2008, p. 125) Para uma formação de indivíduos críticos e pensantes devemos ir para além dos limites da arte, pois é possível entrelaçar aos conteúdos de arte discussões e debates sobre outros assuntos e mesmo fazer um elo interdisciplinar a fim de abrir os horizontes e mesmo o olhar do aluno para o mundo em que está inserido. Sobre o espaço de arte na escola Vasconcelos afirma que: Hoje, luta-se para que a arte seja reconhecida como área de conhecimento, com especificidades próprias, mas não é abarrotando as aulas com textos históricos, com exercícios de fixação e de apreensão de conteúdos que alcançaremos alguma vitória. A arte é expressão/linguagem/sensação/conhecimento. As práticas educativas em arte precisam nutrir-se de suposições, relações, conceitos, hipóteses, estranhamentos e mediações que produzam significados e conhecimentos próprios para o aluno. É destas relações com o mundo e com as diferentes áreas de formação que nasce o conhecimento verdadeiro, aquele que está fixado no inconsciente e que é fruto do aprendizado real, este se relaciona com outros saberes e por não ser apenas superficial ou fruto de decorebas. Talvez seja por isso que os projetos interdisciplinares e transdisciplinares venham ganhando maior destaque e incentivo nas escolas. 3.6 Projetos Pedagógicos que Auxiliam no Desenvolvimento Teórico e Prático em Sala de Aula O estudo da estética da grafia nas artes pode ser abordado também em outras áreas do conhecimento, a interdisciplinaridade é uma das demandas das 56 escolas atuais e também o foco de projetos pedagógicos. O acesso a estas propostas facilitam a viabilização dos conteúdos. Hoje temos ao nosso alcance projetos pedagógicos que auxiliam professores em suas aulas com materiais didáticos e formação. Dois destes projetos pedagógicos são o Instituto Arte na Escola e o Projeto Pedagógico da Bienal do Mercosul. São disponibilizados cursos de formação e materiais que podem ser levados para a sala de aula. No projeto arte na escola encontramos livros de arte, DVD’s e lâminas de imagens com obras de artistas que ilustram os conteúdos estudados. Bem como possibilitam que se façam relações com outras áreas do conhecimento e com diferentes linguagens da arte e do cotidiano. Esse material propõe o rizoma como metodologia, podemos dizer que nesta metodologia tudo se entrelaça, ou seja, o conhecimento das artes pode ser expandido a outras áreas do conhecimento e fazer relações com músicas, poemas, filmes, peças publicitárias, livros, entre outros facilitando assim a compreensão e a capacidade de fazer inter-relações entre diferentes assuntos. Imagem 39: Projeto Arte na Escola No Projeto Pedagógico da Bienal do Mercosul também encontramos cursos de formação, lâminas e cadernos didáticos. Em especial na edição deste ano os cadernos trazem sugestões e obras de artistas que podem ser trabalhados de modo 57 inter e transdisciplinar, contemplando cinco áreas do conhecimento. Neste ano o projeto propõe pensarmos a relação das artes com os componentes de história, geografia e literatura, trazendo também cadernos para a pré-escola e artes. A estrutura dos cadernos é montada da seguinte forma, vários artistas fazem parte de um mesmo caderno, um pequeno texto explica quem é o artista e qual é sua proposta, em seguida questões são postas para pensar o trabalho do mesmo e possíveis relações com outros assuntos e artistas, por último há uma sugestão de atividade a ser realizada pelos alunos. Os materiais também contam com lâminas de todas as imagens apresentadas no caderno. Imagem 40: Materiais do Projeto Pedagógico da 8ª Bienal do Mercosul A partir das sugestões destes projetos também podemos propor relações entre os conteúdos abordados em nossa disciplina com outras áreas, o que torna o trabalho mais interativo e interessante. A grafia, por exemplo, pode ser trabalhado em conjunto com a literatura e português, mostrando aos educandos suas possibilidades enquanto elemento formal da composição textual, e enquanto objeto estético e plástico nas composições de artes, bem como agregar textos pesquisados ou conhecidos como uma possibilidade estética visual. 58 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao finalizar esta pesquisa podemos concluir que a grafia já está bastante presente na história da arte moderna e contemporânea e que diversos artistas já a utilizaram das mais diferentes formas. Sendo assim, os ícones gráficos podem ser analisados na arte também como um elemento estético, visual e plástico. Neste trabalho percorremos movimentos como o cubismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo, construtivismo, pop arte, arte conceitual e arte contemporânea onde identificamos que, mesmo que por vezes o foco principal não era a presença da grafia, esta se encontrava na obra, como elemento formal. Mira Schendel e Alex Flemming usam dos elementos gráficos, e dão bastante ênfase a eles em suas obras. Mesmo utilizando de diferentes formas letras e palavras, o que não podemos negar é que estes elementos tornam-se marcas pessoais dos dois artistas, e que são elementos plásticos nas composições. Schendel utiliza os ícones gráficos em diferentes idiomas e se apropria dos tipos industrializados em seus trabalhos, estes são de ordem geométrica e abstrata, as cores predominantes são claras e o silêncio é uma das características mais fortes. Flemming imprime suas próprias letras de estética própria e também utiliza diferentes idiomas nas obras, os trabalhos são de ordem figurativa e as cores presentes são berrantes. Percebendo a amplitude do uso da grafia, e de sua presença na arte, esta torna-se um conteúdo potencial nas escolas de educação básica, podendo ser trabalhada não apenas no componente de artes mas também se relaciona com outras áreas do conhecimento. Aponta, neste caso, como um conteúdo com grande potencial para desenvolver projetos inter e transdisciplinar no espaço da escola. 59 Identificamos também que existem diversos projetos e materiais que podem auxiliar no desenvolvimento desta temática em sala de aula, neste caso apresentamos sucintamente o projeto Arte na Escola desenvolvido pelo Instituto Arte na Escola e o projeto pedagógico desenvolvido na Bienal do Mercosul. Por fim, após revisitar a história da arte, analisar mais profundamente a poética de dois importantes artistas da arte moderna e contemporânea, e verificar que a grafia pode ser sim um conteúdo da área de artes visuais com grande potencial de pesquisa teórico-prática e de desenvolvimento em sala de aula. Concluo que além de um recurso gráfico textual, as letras, palavras e texto podem ser facilmente incorporados em processos e estudos artísticos como um elemento plástico e estético. 60 BIBLIOGRAFIA ARGAN, G. C. Arte moderna. 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