1
Anais da XVII Reunião de
Jardins Botânicos Brasileiros
Conservação in situ em jardins botânicos
2
Anais da XVII Reunião de
Jardins Botânicos Brasileiros
Conservação in situ em jardins botânicos
22 a 26 de setembro de 2008
Rio de Janeiro - RJ
Faltam os logos
Organização
Rede Brasileira de Jardins Botânicos
Rio de Janeiro
2008
3
COMITÊ EXECUTIVO DA REDE BRASILEIRA DE JARDINS
BOTÂNICOS
Dácio Roberto Matheus – Presidente
Fundação para conservação e produção Florestal do Estado de São Paulo
Tânia Sampaio Pereira -Vice-Presidente
Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Maria Lúcia Moreira Nova da Costa – Secretária Geral
Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Renato Ferraz de Arruda Veiga – Tesoureiro
Jardim Botânico do Instituto Agronômico de Campinas
COMISSÃO DE PUBLICAÇÕES
Antonio Fernando Caetano Tombolatto
Jardim Botânico do Instituto Agronômico de Campinas
Lilian Beatriz Penteado Zaidan
Jardim Botânico de São Paulo
Maria Nazaré do Carmo Bastos
Museu Paraense Emilio Goeldi
Marília Vazquez Aun
Jardim Botânico de São Paulo
CAPA /EDITORAÇÃO
Mary Paz Guillén
Carla Pereira Gomes
FICHA CATALOGRÁFICA
4
Sumário
The Role of Botanical Gardens In Integrated Biodiversity Conservation –
Examples From South Africa
Brian J Huntley - South African National Biodiversity Institute
14
Para que serve a história das ciências? Reflexões sobre as relações entre
presente e passado
Brian J Huntley - South African National Biodiversity Institute
21
Jardim Botânico do Rio de Janeiro: 200 Anos de História, Beleza e
Pesquisa Científica
Begonha Bediaga - Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro
25
Diretrizes para Conservação e Restauração do Estado de São Paulo: onde
e como conservar e restaurar a biodiversidade
Maria Cecília Wey de Brito / Carlos A. Joly / Ricardo R. Rodrigues - Programa
BIOTA/FAPESP
30
Áreas Protegidas na Mata Atlântica
Clayton Ferreira Lino - Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata
Atlântica
34
Gestão de áreas protegidas no Brasil
Rozely F. Santos - Universidade Estadual de Campinas
39
Aplicação de métodos de conservação in situ na Mata dos Oitis, o
remanescente de Mata Atlântica do Jardim Botânico de Salvador
Erivaldo Pereira Queiroz - Jardim Botânico de Salvador
42
A Mata do Buraquinho – Reserva de Mata atlântica do Jardim Botânico
de João Pessoa – Paraíba
Marcia Aquino - Jardim Botânico de João Pessoa
48
Ecoturismo em Unidades de Conservação: O potencial educativo do
contato com a natureza
Zysman Neiman - Universidade Federal de São Carlos
55
Plano de Manejo para a Estação Ecológica do Jardim Botânico de Brasília
Jeanitto Gentilini Filho / Danielle Abud / Isaac Nuno C. de Azevedo / Alex Alves
Amorim - Jardim Botânico de Brasília
61
Diagnóstico preliminar para a área de conservação in situ do Instituto de
Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Vicente Moreira Conti - Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de
Janeiro
66
5
Zona primitiva protegida pelo Jardim Botânico da Fundação Zoobotânica
do Rio Grande do Sul
Andréia Maranhão Carneiro - Jardim Botânico da Fundação Zoobotânica do
Rio Grande do Sul
74
O Ensino e Extensão no Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio
de Janeiro
Gilberto M. Amado Filho - Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de
Janeiro
78
Ciclo de Palestras proferidas por Brian Huntley
Brian Huntley - South African National Biodiversity Institute
83
A reserva de Cerrado da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte
Juliana Ordones Rego / Maria Guadalupe Carvalho Fernandes / Inês Ribeiro de
Andrade - Jardim Botânico da Zoo-Botânica de Belo Horizonte
86
Jardim Botânico do Instituto de Biociências da Unesp – Botucatu/SP
Luiz Roberto Hernandes Bicudo - Jardim Botânico da UNESP-Botucatu
92
A Estação Científica Ferreira Pena, complexo florestal na Amazônia
Ocidental do MPEG, Belém-PA.
Maria de Nazaré do Carmo Bastos - Museu Paraense Emílio Goeldi
João Ubiratan Moreira dos Santos - Universidade Federal Rural da Amazônia
98
A visão a conservação a partir do público de um jardim botânico
Carmen Silvia Lemos Menezes Machado - Jardim Botânico do Rio de Janeiro
104
Uso Público no Jardim Botânico – A Interpretação Ambiental Visando a
Conservação
Olga Camisão de Souza / Marcia Lobianco Faraco - Instituto de Pesquisas
Jardim Botânico do Rio de Janeiro
112
Coleções Científicas do Jardim Botânico da Fundação Zoo-Botânica de
Belo Horizonte (FZB-BH).
Miriam Pimentel Mendonça / Juliana Ordones Rego / Inês Ribeiro de Andrade
/ Albina Carvalho de Oliveira Nogueira - Jardim Botânico da Zoo-Botânica de
Belo Horizonte
116
Conservação In Situ das Áreas Nativas Remanescentes do Jardim
Botânico IAC
José Eduardo de Arruda Bertoni / Wilson Barbora /Renato Ferraz de
Arruda Veiga / Eliseu Alves Teixeira Neto / Lilian Renata Sikorski - Instituto
Agronômico
118
Plano de Manejo para a Reserva de Cerrado do Jardim Botânico de
Brasília
Jeanitto Gentilini Filho / Danielle Abud / Isaac Nuno C. de Azevedo - Jardim
Botânico de Brasília
122
6
O Jardim Botânico da Univille: Uma Realidade desde 2007
Karin Esemann-Quadros / Cynthia Hering-Rinnert / Elzira Maria Bagatin
Munhoz / João Carlos de Melo Júnior / Júlia Meirelles - Jardim Botânico da
Univille
125
Mapa Digital da Reserva do Museu de História Natural e Jardim
Botânico da UFMG: status de conservação
Thaísa Santos Faria / Flávia Santos Faria - Museu de História Natural e Jardim
Botânico da Universidade de Minas Gerais
Sérgio Donizete Faria - Universidade de Minas Gerais
128
7
Programa
Dia 22/09 (segunda-feira)
Manhã
9:00 - Cerimônia de abertura
Izabela Teixeira– Secretária Executiva do Ministério do Meio Ambiente
Dácio Roberto Matheus - Presidente da Rede Brasileira de Jardins Botânicos
Lizst Benjamin Vieira - Presidente do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Conferência de abertura
O papel dos jardins botânicos na conservação integrada da biodiversidade – os exemplos da África do Sul
Brian Huntley – South African National Biodiversity Institute
Intervalo
Palestra
A História da ciência e os jardins botânicos
Lorelai Kury - Fiocruz
Palestra
JBRJ - 200 anos de história, beleza e pesquisa científica
Begonha Bediaga –Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Almoço
Tarde
14:00 - Palestra
Diretrizes para conservação da biodiversidade do Estado de São Paulo
Ricardo Rodrigues -BIOTA/FAPESP- ESALQ/USP
Mesa-redonda
Impactos sobre componentes da biodiversidade em áreas protegidas
Ricardo Rodrigues - BIOTA/FAPESP- ESALQ/USP
Claudio Valladares Pádua – Instituto IPÊ
Fabio Rubio Scarano – JB do Rio de Janeiro
8
Intervalo
Mesa-Redonda
A conservação da biodiversidade nas áreas protegidas –
problemas e soluções
José Augusto Drummond – Universidade de Brasília
Rômulo Mello – Instituto Chico Mendes/MMA
Clayton Ferreira Lino - UNESCO / Rede de Reservas da Biosfera da Mata Atlântica
Rozely Ferreira dos Santos – UNICAMP
Palestra
Áreas naturais protegidas no Brasil, com foco na Mata Atlântica – desafios e perspectivas
Clayton Ferreira Lino - Comissão Nacional das Reservas da Biosfera - UNESCO / Rede de Reservas da Biosfera da Mata Atlântica
Coquetel de Abertura
Dia 23/09 (terça-feira)
Manhã
9:00 Palestra
Gestão de áreas protegidas no Brasil
Rosely Ferreira dos Santos -UNICAMP
Palestra
Pesquisa e conservação de espécies ameaçadas em algumas
áreas protegidas no Brasil
Claudio Valladares Pádua – Instituto IPÊ
Palestra
A Mata do Buraquinho – reserva de mata atlântica do Jardim
Botânico de João Pessoa
Márcia Toscano de Brito Aquino – JB de João Pessoa
Intervalo
Palestra
Ecoturismo em unidades de conservação como estratégia para a educação ambiental
Zysman Neiman – Universidade Federal de São Carlos
9
Palestra
Plano de manejo para a reserva de cerrado do Jardim Botânico
de Brasília
Jeanitto Gentilini– JB de Brasília
Palestra
Diagnóstico preliminar para a área de conservação in situ do
Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Vicente Moreira Conti – JB do Rio de Janeiro
Almoço
Tarde
14:00 Mesa redonda
Questões fundiárias e áreas protegidas em áreas urbanas –
conflitos e medidas mitigatórias
Dácio Matheus- JB de São Paulo
Vicente Moreira Conti - JB do Rio de Janeiro
Norma Crud Maciel - FEEMA/RJ
Intervalo
Palestra
Aplicação de métodos de conservação in situ na Mata dos Oitis,
o remanescente de Mata Atlântica do Jardim Botânico de
Salvador
Erivaldo Queiroz – JB de Salvador
Palestra
Zona primitiva protegida pelo Jardim Botânico da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul
Andréia Maranhão Carneiro – JB de Porto Alegre
Dia 24/09 (quarta-feira)
Manhã
9:00 - Assembléia
Assembléia Ordinária da Rede Brasileira de Jardins Botânicos
Sessão de painéis dos jardins botânicos
Plantão Comissão Banco de Dados para treinamento do banco
de dados - BGR Brasil
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12:00 - Almoço
Tarde
13:00 - Visita técnica
Visita guiada ao JBRJ
Reunião das Comissões Técnicas:
Educação Ambiental / Coleções/ Banco de Dados
Dia 25/09 (quinta-feira)
Manhã
09:00 Palestra
O ensino e extensão no Instituto de Pesquisas Jardim Botânico
do Rio de Janeiro
Gilberto Amado Filho - JB do Rio de Janeiro
Palestra *
Biomas e ecossistemas da África do Sul (Biomes and ecosystems
of southern Africa)
Brian Huntley – NBI – Kirstenbosch National Botanic Garden
Palestra *
Jardins botânicos africanos (National Botanical Gardens of
Africa)
Brian Huntley – NBI – Kirstenbosch National Botanic Garden
Palestra *
As conexões África/ América do Sul em termos de espécies
invasoras (The Africa/South America connections in invasive
species)
Brian Huntley – NBI – Kirstenbosch National Botanic Garden
Almoço
Intervalo
Tarde
14:00 - Palestra *
Mudanças climáticas na Africa do Sul (Climate change in
southern África)
Brian Huntley – NBI – Kirstenbosch National Botanic Garden
11
Palestra
A reserva de Cerrado do Jardim Botânico de Belo Belo Horizonte
Juliana Ordones Rego – JB de Belo Horizonte
Palestra
As reservas de Cerrado e Floresta mesófila semi-decidual do
Jardim Botânico da UNESP – Botucatu
Luiz Roberto Hernandes Bicudo – JB da UNESP-Botucatu
Intervalo
Palestra
A Estação Científica Ferreira Pena, complexo florestal na
Amazônia Ocidental do MPEG, Belém-PA
Maria de Nazaré do Carmo Bastos – Museu Goeldi
Palestra
O Parque Estadual das Fontes do Ipiranga e o Jardim Botânico
de São Paulo como reservas de mata atlântica na cidade de São Paulo
Dácio Roberto Matheus – JB de São Paulo
Palestra
A visão da conservação a partir do público de um jardim botânico
Carmem Silvia Lemos Menezes Machado – JB do Rio de Janeiro
* palestras proferidas em inglês
Dia 26/09 (sexta-feira)
Manhã
Apresentação das Comissões Técnicas da Rede Brasileira de Jardins Botânicos
Miriam Pimentel Mendonça – Comissão de Coleções
Tânia Maria Cerati – Comissão de Educação Ambiental
Maria Lucia M.N.da Costa – Comissão de Banco de Dados
Intervalo
Recomendações sobre a conservação in situ nos jardins botânicos brasileiros
Coordenação: Tânia Sampaio Pereira e Dácio Roberto Matheus
Encerramento
12
Endereço:
Escola Nacional de Botânica Tropical - Rua Pacheco Leão 2040 /
Horto - Tel: 21.38756203
Informações sobre a reunião: [email protected]; [email protected]
13
The Role of Botanical Gardens In Integrated
Biodiversity Conservation – Examples From
South Africa
Brian J Huntley
South African National Biodiversity Institute
14
Abstract
This paper describes the progress of biodiversity conservation made
in South Africa since the dawn of the country’s democracy in 1994. The new
programme started with the release of political prisoners in February 1990,
and was stimulated by the outcomes of the United Nations Conference on
Environment and Development held in Rio de Janeiro in January 1992. Indeed,
the impact of Rio has been the key driver in the biodiversity agenda of South
Africa – as it has in most countries.
A brief background on South African/Brazilian comparisons provides
an introduction to the similarities of these two ‘southern’, mega-diverse nations
of the ancient Gondwanaland.
The progress from Rio to the World Summit on Sustainable Development
in Johannesburg, September 2002, and its agreement on Global 2010 Goals for
biodiversity conservation, provide the policy context against which to measure
the role of botanical gardens in their achievement.
The paper will use the recent experience of post-Rio activities in South
Africa, in particular those based at Kirstenbosch and the other eight National
Botanical Gardens of South Africa, as a model of how to move institutions from
poverty to prosperity.
The paper will conclude with a summary of the key principles which, if
followed, offer opportunities for success.
1. Introduction
South Africa is a relatively small country at the southern tip of Africa
– 1,2 million square km in extent, with a population of 46 million, a GDP of
US$213 billion, and, like Brazil, an exceptionally rich endemic biodiversity. A total
of 19 581 species of indigenous plants occur in 435 distinct, mapped vegetation
units, with some 850 bird, 258 mammal, 363 reptile and 111 frog species forming
part of its biodiversity. Habitats range from temperate and sub-tropical forest,
through grasslands, savanna, woodlands and thickets, to arid shrublands and
desert. It is the only country in the world with an entire Floral Kingdom within
its borders, and also includes three globally significant biodiversity ‘hotspots’. The
custodianship of this biodiversity heritage has been accorded high priority by the
post-Apartheid government, with significant increases in legislative and financial
commitments towards reaching the goals of the CBD.
2. Context – it all started in Rio!
The United Nations Conference on Environment and Development
convened in Rio de Janeiro in January 1992 was a distinct watershed for biodiversity
15
conservation around the world. The major outcomes of Rio – the Convention
on Biological Diversity, the Framework Convention on Climate Change, the
Convention to Combat Desertification, and the establishment of the Global
Environmental Facility, presented a totally new playing field for conservation and
sustainable development. But the new paradigm had not penetrated the realm
of botanists and botanical gardens with any force until the XVI International
Botanical Congress in St Louis, Missouri, in 1999. In a powerful address, Peter
Raven challenged his colleagues to action through a new programme “This proposal is to urge the formation of a comprehensive scheme by
which we will save all species – a priceless gift to future generations
there is
no step more important for the conservation of plants … than the building of
capacity in developing countries everywhere”
The botanical gardens fraternity responded with the Global Strategy for
Plant Conservation (GSPC), which aligned with the WSSD goal announced in
Johannesburg in September 2002 “To halt the current and continuing loss of biodiversity by 2010”
3. A framework for achieving 2010 goals
The GSPC presented a detailed programme of work, but did not
provide a logical framework for reaching the goal. It needed, and still needs, a
conceptual framework through which countries can approach the challenge in a
systematic way. This paper examines such a framework and uses examples from
South Africa’s network of botanical gardens to illustrate the process.
The framework comprises three legs - or drivers – prerequisites, stimuli
and mechanisms which together contribute to the resultant outcomes.
For any successful intervention, prerequisites include awareness and
knowledge; organisational and institutional capacity; and democratic and
accountable governance.
Stimuli include international and regional initiatives; socio-political
change; and the leadership of ‘keystone personalities’. The process is then
implemented through mechanisms including enabling legislation; the support of
injections of donor funding such as that from the GEF; and through the resultant
strengthened institutions. Outcomes are the desired conservation results.
We will examine the importance of prerequisites –demonstrated by the
strong foundations of South African botany; a knowledge base established from
the time of Carolus Linnaeus; and now documented in massive Floras; herbaria,
a network of botanical gardens and other protected areas, and stored in and
accessible through electronic databases.
16
A dynamic stimulus in South Africa was that given by the radical change
from a racist autocracy to a multi-party democracy. The release of Nelson Mandela
and other political prisoners on 11 February 1990 led to a long process of law
reform, building inter-alia on the outcomes of Rio, and leading to a new National
Biodiversity Act, and the creation of new institutions such as SANBI. Other
changes were also driving the agenda, such as the impact of invasive species; and
of climate change. The principle of avoiding the unmanageable, and of managing
the unavoidable, underpins the country’s conservation philosophy.
The framework leads to implementation through mechanisms of which
mainstreaming biodiversity actions across all production sectors and through
diverse political opportunities is fundamental. A simple formula - of protect,
connect, sustain, and restore – is followed.National priorities identified through
an information-rich Systematic Conservation Planning process, led, for example,
to a desired outcome – the recent creation of the country’s ninth National Botanical
Garden in the ‘bulb capital of the World’ – Hantam – which Linnaeus’s apostle
Thunberg first explored in 1776.
4.The Kirstenbosch story – from poverty to prosperity
Perhaps the best way to illustrate the ideas outlined above is to look at
the experience of South Africa’s equivalent of the Jardim Botanico de Rio de
Janeiro – Kirstenbosch. This garden, established in 1913, on the eastern slopes of
Table Mountain, is dedicated to the indigenous flora of South Africa – with living
collections of 5 500 species in its 560 ha.
Kirstenbosch is, of course, much younger than Rio – a mere 95 years
– less than half Rio’s impressive 200 years. But perhaps there might be some
similarities in our histories, and our experience in dealing with the challenges all
botanical gardens face.
A question that often arises is ‘Why are so many gardens financially
stressed, or even bankrupt?’ Kirstenbosch’s Annual Reports from its establishment
in 1913, until the 1990s, describe a continuing saga of financial problems. In
1915 – “the government grant reduced”; 1932 – “ owing to financial stringency,
personnel reduced, wages and salaries cut”; 1946 – “staff and labour difficulties
increased”; 1951 –“financial situation remains uncertain”; 1979 – “a critical
financial situation” etc, etc.
Looking back, one can identify several common factors that contributed
to the struggle experienced by gardens in the 20th century, perhaps even today.
First, many gardens were products of a colonial agenda; some remaining trapped
in a 19th century, Victorian, time warp. Second, most gardens were established
by botanists for botanists – not for the general public. Third, many gardens are
isolated from the local or regional economy – and do not contribute to it. Finally,
17
many gardens – such as Kirstenbosch, developed in a culture of dependence on
central government funding – perhaps even a culture of ‘entitlement’.
So what are the solutions to the poverty of botanical gardens?
For the administrators of large botanical gardens, there is no simple
formula. There is no MBA available to guide a garden director from poverty
to prosperity. But some lessons have emerged from experience in Kirstenbosch
which I would like to share with you.
The approach that we have used is best called ‘strategic opportunism’.
This is a mix of a good, broad strategy, and the effective use of opportunities
when they appear – or when they are deliberately created. Gardens need an active
future, not a passive future. Learning by doing is the best solution in the absence
of alternatives. The framework previously referred to – prerequisites, stimuli,
and mechanisms – has been central to transforming Kirstenbosch from near
bankruptcy to profit. And at the heart of the process is mainstreaming the garden
into local, regional and national socio-economic agendas.
‘Mainstreaming’ is a relatively new term in conservation literature – but
is a concept that our political masters seem to understand – at least in Anglophone
countries. Basically, it involves aligning garden strategic plans with those of
governments, the private sector and donor agencies - ie, becoming relevant to
present and future ‘stakeholders’.
This might appear more easily said than done – but it has been
surprisingly effective in South Africa. In Kirstenbosch, we decided to turn things
around through a ‘Kirstenbosch Development Campaign 1990 - 2000’ - aiming
to raise US$7 million by 2000. At the time, the garden had 350 000 visitors per
annum, each spending less than a dollar per visit, and with the garden dependent
on the national government for 95% of its budget By 2000, over US$20 million
had been raised, and by 2008, with 750 000 visitors per annum, the garden was
running its operations at a healthy profit.
Perhaps it was Kirstenbosch’s good fortune that the key elements for
success – described above as prerequisites, stimuli and mechanisms, were in place
in the 1990s - a unique combination of elements that led to success. But I would
argue that at any point in a garden’s history, giving attention to the principles of
mainstreaming and ‘strategic opportunism’ can bring great rewards.
The process at Kirstenbosch started with ‘changing the destination’.
For over 70 years, the garden had provided a beautiful display of South Arica’s
flora in a magnificent setting. But it lacked the three key essentials of a botanical
garden – safe, comfortable parking; a happy, friendly face at the entrance gate;
and adequate tearoom and bathroom facilities for the thousands of visitors who
would make the garden a destination of choice.
18
So the recent history of Kirstenbosch has been one of developing master
plans, designing new facilities, raising funds and implementing the new developments.
The new projects included a large Conservatory; three new entrances,
a Visitors’ Centre; a Research Centre; two new Restaurants; a Centre for Home
Gardening and a Centre for Biodiversity Conservation – plus new parking,
horticultural facilities, garden administration offices, workshops, etc.
The next step – happening simultaneously, was ‘growing the business’.
Despite their lofty ideals, large botanical gardens have to become business
operations. Without a serious business plan, gardens will most surely fail – unless
they have a massive private endowment or a very generous government.
‘Growing the business’ means getting more people into the garden, and
having them spend more money. Pretty flowers and big trees are not enough. The
garden must become a desired, preferred, ‘destination’.
While the garden landscape, living plant displays, and a quiet, peaceful
and safe atmosphere are essential, and the physical infrastructure critical to visitor
services – the growth of visitor numbers and of financial return, is dependent on
innovation and marketing.
At Kirstenbosch, it was important to use the garden as an ‘embassy
of cultural and natural diversity’. For most of its history, the garden had been
inaccessible to poorer communities, especially the youth of the city’s extensive
‘favelas’. Thus an early innovation was to raise funds for a school bus, and develop
an ‘outreach greening’ project which now brings over 20 000 school children to
the garden each year, and has developed indigenous food and medicinal plant
gardens at over 100 township schools.
As visitor facilities improved, and shops, concerts, sculpture and
art exhibitions, weddings, social functions and conferences grew in number
and diversity, it became clear that the carrying capacity of a successful garden
is determined not by the garden’s size, but by available parking; that spending
capacity is determined more by the range and quality of products, than by the
wealth of clients; and finally, that expanding visitor numbers requires constant
innovation – changing the attractions for visitors, and monitoring the quality of
service delivery.
5. Conclusions – what makes things work
The Kirstenbosch experience confirms the view that one must ‘think
globally, act locally’. It also demonstrates the importance of thinking big, but
starting small. The 1990 – 2000 development campaign was initiated with a tiny
gift of less than US$10 000, which rapidly grew, over the decade, to over $20
19
million. Another important lesson learned was the often slow, but always critical
process of ‘learning by doing’.
We have come a long way from the brave ideas of Rio, 1992. Peter
Raven’s challenge of 1999, the formulation of the GSPC, the WSSD Johannesburg
Implementation Plan, and the victory of democracy over repression – all these
things have helped move us closer to the 2010 goals – but we still have a long way
to go before we can call the job done.
20
Para que serve a história das ciências?
Reflexões sobre as relações entre presente
e passado
Lorelai Kury
Fundação Oswaldo Cruz
21
Para que serve a história? Esta pergunta não é fácil de responder,
mesmo para os profissionais da área. Uma resposta “fácil” é dizer que o tempo
é uma das dimensões dos homens em sociedade. Se não estudamos o passado,
fica faltando uma parte de nós mesmos. Não é difícil concordar com isso. Falta,
porém, complicar um pouco mais as coisas e se perguntar sobre a historiografia
atual e seus métodos de trabalho. Por que os historiadores profissionais são tão
ciosos quanto ao respeito pela especificidade do passado? Lucien Febvre, um
dos fundadores da historiografia contemporânea, alertava sobre os perigos do
anacronismo. Este “pecado” é muito comumente cometido por aqueles que
gostam de história, mas que se inserem profissionalmente em outras áreas. O
anacronismo consiste basicamente em tomar os acontecimentos do passado como
semelhantes aos do presente, como um filme de Hollywood, onde os diálogos e
as situações são inteiramente atuais; só mudam o cenário e as roupas. Não ser
anacrônico é perceber que existe entre o presente e o passado um estranhamento
que não pode ser superado inteiramente.
A postura de Febvre, que é majoritária nos dias de hoje nem sempre foi
ou é seguida e nada indica que continuará dominante nos próximos cinqüenta anos.
Alguns vêem no passado os caminhos necessariamente trilhados pelos homens
até chegarem a um presente que já se gestava tal qual, desde o início. Para esses, a
história é narrada em termos de “aindas” e “jás”: “Os homens ainda não tinham
descoberto o papel dos vetores na transmissão das doenças” ou “Os cientistas
já começavam a perceber a necessidade de padronizar internacionalmente a
nomenclatura botânica”. Essa história anacrônica também “cobra” dos agentes
do passado atitudes que eles não poderiam ter, do tipo “d. João VI não gostava
de tomar banhos”, ou então critica sua atitudes à luz de parâmetros atuais, como,
por exemplo, considerar mentirosos os navegantes renascentistas que acreditavam
ter visto sereias.
Em outro campo de compreensão, numa atitude que poderia ser
qualificada de “pós-moderna”, alguns estudiosos acreditam que não faz a menor
diferença saber se o Jardim Botânico foi criado em 1808 ou em 1811. O passado
deve apenas servir como material estético a ser usado nas intervenções políticas
do presente. Assim, o cuidado com a “veracidade” daquilo que aconteceu seria
apenas algum tipo de resquício de vontade de coerência da parte dos saudosos do
dito “positivismo”.
Retomando a questão “Para que serve a história?”, creio que é possível
complexificar a resposta inicial que vê o passado como uma das dimensões
humanas. O estudo do passado de forma a respeitar as diferenças e a conservar
toda a estranheza das sociedades passadas parte do princípio de que a história
pode, pela relativização do tempo, perceber aspectos da realidade que nós vivemos
como se fossem inteiramente naturais e nem nos damos conta de que são uma
construção social.
22
O historiador italiano Carlo Ginzburg desenvolveu suas reflexões sobre
o Estranhamento como procedimento historiográfico em um texto publicado
inicialmente em 1998, intitulado Estranhamento. Pré-história de um procedimento literário.
O historiador que olha a sociedade com estranhamento busca ver as coisas como se as
tivesse vendo pela primeira vez. Olhar com estranhamento pode mesmo questionar
a legitimidade de certas práticas. Ginzburg mostra como esse procedimento é
usado por muitos literatos, como é o caso de Tolstoi. Em um conto desse autor,
a história é narrada por um cavalo, o que permite ao leitor dar-se conta de que
o direito de propriedade não é um dado da natureza: “Muitos homens que me
definiam como ‘seu’ cavalo não cavalgavam; era outra gente que me cavalgava.
[...] Não me fizeram bem os que me chamavam de ‘meu cavalo’, e sim cocheiros,
veterinários ou outras pessoas estranhas. Quando, mais tarde, ampliei o horizonte
das minhas observações, convenci-me de que o termo ‘meu’ não se refere apenas
a nós, cavalos, mas, em geral, vem unicamente de um instinto baixo, animalesco,
dos homens instinto que eles chamam de sentimento de propriedade ou direito
de propriedade.” Assim como essa passagem de Tolstoi, o olhar do historiador
No que diz respeito à história das ciências, o estranhamento permite
identificar a existência de novas práticas e a reinvenção de outras, bem como o
término e resignificação de outras mais. Para que minhas reflexões fiquem mais
claras, vou analisar algumas dessas transformações, a partir de alguns exemplos
que se relacionam com a história das ciências.
1 – Para que serve a botânica?
Um dos textos lineanos de grande circulação no século XVIII intitulavase Cui Bono?, ou seja, Para que serve? Foi escrito como tese do aluno Christopher
Gedner, em 1752. Esse texto é um dos primeiros de uma linhagem que discutirá
a importância do estudo dos “três reinos” da natureza, no século XVIII e início
do século XIX. A botânica, alvo maior de codificação e ramo de estudos que mais
se desenvolveu na época foi objeto de polêmicas que defendiam sua utilidade
para a sociedade. Dois argumentos tornam-se verdadeiros topoi dos textos
que argumentavam em favor dos estudos sistemáticos das plantas: o primeiro
afirmava que a botânica era um estudo “filosófico” e não apenas um exercício
de memorização de nomes; o segundo declarava que conhecer o reino vegetal
não era uma atividade diletante, ligada a uma “mera curiosidade”, mas sim uma
atividade útil, pois tudo o que nos serve para viver vem sempre dos “três reinos”
da natureza, principalmente das plantas.
2 – Coleções, ordem e caos
O escritor Louis-Sébastien Mercier escreveu, em 1770 uma utopia
chamada O ano 2440: sonho do que seria. Nesta obra, o autor descreve o que seria o
perfeito gabinete de história natural do futuro, em Paris, no qual as espécies animais
seriam dispostas de acordo com a “cadeia dos seres”. O gabinete de história
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natural real, que ficava no Jardim das Plantas foi descrito por ele no livro Tableau
de Paris, de 1784, como um grande caos: “Nada me parece mais desordenado
que esse sábio amontoado, feito para estar disperso sobre a superfície da Terra.
Todas essas diferentes espécies que se tocam e que não foram criadas para se
tocarem, reunidas em um só ponto, formam uma dissonância em meu cérebro,
e me dão uma sensação desagradável. Essa ordem simétrica, obra momentânea
da mão do homem tem qualquer coisa de factício e de bizarro que fere meu
senso moral e íntimo.” Neste exemplo, é interessante perceber que os critérios
de ordenação morfológicos desagradam ao autor, que acha artificial juntar seres
de continentes diferentes, apenas por que se parecem. No gabinete utópico reina
a ordem “natural”, que , apesar de ser morfológica, mostra a harmonia existente
entre todos os seres, que se transformam imperceptivelmente uns nos outros. Nas
décadas posteriores, o grande incremento da história natural virá justamente pela
ruptura com a idéia de continuidade, cara a Mercier.
3 – Agricultura e cultura
Outro exemplo de relativização dos nossos hábitos e crenças vem de
algo bem próximo: o açúcar. Até o século XVii, o açúcar era uma mercadoria cara,
usada como medicamento e presente em boticas de médicos. No século XIX o
açúcar transformou-se em um dos principais energéticos consumidos pelas classes
trabalhadoras no mundo inteiro. A necessidade do açúcar já existia e simplesmente
ele não estava disponível? O historiador Sidney Mintz em um belo livro intitulado
Sweetness and Power: The Place of Sugar in Modern History, de 1985, demonstra a
articulação entre a formação da classe trabalhadora moderna, a emergência
de novos hábitos alimentares, a criação de novas esferas de sociabilidade, o
colonialismo e a cultura de produtos tropicais. O açúcar, originário da Ásia e
plantado em larga escala no Brasil e nas Antilhas paas ou a ser item básico de
consumo, também associado a outros produtos tropicais, como o cacau, o chá e
o café.
Esses poucos exemplos de como as ciências e as técnicas estiveram
presentes passado mostram também que há continuidades entre muitas coisas
que vivemos e as crenças e práticas de séculos atrás. Mas, como é possível dizer
que se trata das mesmas coisas, se a configuração de práticas, saberes, e as próprias
condições materiais eram tão diferentes? Os historiadores não têm resposta para
tudo, mas, do ponto de vista do método, continuamos a trabalhar com a idéia
de que existem diferentes durações temporais e diferentes ritmos que regem as
muitas camadas que envolvem nossa existência.
24
Jardim Botânico do Rio de Janeiro:
200 Anos de História, Beleza e Pesquisa
Científica
Begonha Bediaga
Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro
25
A configuração atual do arboreto do Jardim Botânico do Rio de Janeiro
é a sobreposição de histórias, intervenções, propósitos distintos, os quais contam
a trajetória da bicentenária instituição que teve o mérito de manter ininterruptas
suas atividades, sempre localizadas no mesmo espaço físico.
A beleza de suas aléias, formadas por imponentes árvores e acrescidas
de obras de arte, revela a construção daquela paisagem. O entorno formado pela
silhueta das montanhas vizinhas, como o Corcovado adornado com o Cristo
Redentor, e a imponência da Mata Atlântica completa o deleite dos visitantes em
seu contato com a natureza. Diante de tantos atributos, como se explica que a
escolha do local não foi feita em razão do que se pode deslumbrar?
A história do JBRJ inicia em 1808, com a mudança da Família Real e da
Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro, em fuga das tropas de Napoleão. Os tempos
eram belicosos, d. João havia declarado guerra ao temível exército de Napoleão e
urgia tomar providências, também, quanto à segurança do território e da Família
Real, diante de um possível ataque francês. Entre tais medidas, a criação de uma
fábrica de pólvora e de uma fundição para suprir a artilharia era premente.
A Fazenda da Lagoa Rodrigo de Freitas pareceu o local ideal para a
instalação da fábrica. As explosões que ocorreriam durante o manejo dos
componentes da pólvora não afetariam o centro da cidade, distante dali, e o local
era provido de água abundante, necessária para o funcionamento das máquinas.
Assim, em maio de 1808 instalou-se, no terreno da fazenda desapropriada, a
Fábrica de Pólvora e Fundição de Artilharia.
No mesmo terreno iniciaram-se as atividades de um Jardim de
Aclimatação com as especiarias do Oriente. A escassez de registros documentais
sobre essa operação leva a crer que ela foi realizada, de certa forma, sigilosamente.
Pode-se pressupor que se tratava de uma estratégia de ocultamento de propósitos,
uma espécie de precaução de encobrir decisões e ações que pudessem interessar
ao inimigo.
Por que a decisão de instalar um jardim de aclimatação nos arrabaldes
da cidade, no mesmo terreno de uma fábrica de pólvora? Por que não implantá-lo
em um local de fácil acesso, onde a Família Real e a Corte pudessem dele usufruir,
como por exemplo o Palácio de São Cristóvão, residência do príncipe regente?
Parte da historiografia afirma que, em visita à Fábrica de Pólvora, d. João ficara
encantado com a beleza do local e resolvera fundar um Jardim Botânico. Mas essa
pode ser uma interpretação dos acontecimentos com base na situação atual da
região, integrada que está à zona nobre da cidade e totalmente povoada.
Por que a decisão de instalar um jardim de aclimatação nos arrabaldes
da cidade, no mesmo terreno de uma fábrica de pólvora? Por que não implantálo em um local de fácil acesso, onde a Família Real e a Corte pudessem dele
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usufruir, como por exemplo o Palácio de São Cristóvão, residência do príncipe
regente? Parte da historiografia afirma que, em visita à Fábrica de Pólvora, d. João
ficara encantado com a beleza do local e resolvera fundar ali um jardim botânico.
Porém, se nos reportamos ao contexto de 1808 – quando o cultivo de espécies
de plantas nas colônias tropicais era um bom negócio para as nações européias, a
ponto de essas espécies se tornarem alvo de pirataria –, parece plausível supor que
a distância do núcleo urbano tenha sido justamente uma das condições decisivas
para criar-se ali um jardim de aclimatação de plantas, com o sigilo e a segurança
necessárias. Note-se que o próprio governo português ao invadir e dominar a
Guiana Francesa, em janeiro de 1809, revelou não apenas a intenção de retaliação
de Portugal em relação à França, como também o interesse no acesso irrestrito
ao famoso Jardim Botânico de Caiena, La Gabrielle, onde se cultivavam espécies
trazidas de colônias francesas – cujos exemplares tratou de enviar imediatamente
ao jardim de aclimatação brasileiro.
De todo modo, uma situação sui generis e talvez única no mundo acabou
ocorrendo no Brasil: ao mesmo tempo e no mesmo local em que se instalava
uma fábrica de pólvora, iniciavam-se as atividades de um jardim botânico sob o
significativo comando do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Guerra.
Quando a paz foi novamente instaurada na Europa, diversas espécies já
haviam sido aclimatadas no Jardim e vislumbrava-se a possibilidade de estabelecer
pesquisas, com intuito de implantar novas culturas com potencial econômico. Foi
então que, em 1824, o renomado botânico frei Leandro do Sacramento assumiu a
direção da instituição.
No período em que esteve à frente do Jardim Botânico do Rio de
Janeiro, frei Leandro pesquisou e incentivou a cultura do chá (Camellia sinenses,
nomeada anteriormente Tea viridis), possivelmente a primeira produção em escala
comercial no Jardim. A instituição passou a experimentar culturas e distribuir suas
sementes a fazendeiros de todo o país, com o propósito de apresentar alternativas
à produção agrícola.
Até a segunda metade do século XIX, botânica e agricultura eram
atividades atreladas. Enquanto a botânica era voltada principalmente para a
identificação de espécies, a agricultura era sua ‘arte’, ou seja, a técnica utilizada
com intuito de obter mudas, transportar vegetais ─ muitas vezes de um continente
a outro, durante meses ─ e pesquisar espécies e variedades com objetivos de
aclimatação a outros climas e solos. Essas foram as principais atividades do Jardim
Botânico em seus primórdios.
A escassez de verbas para implementar novos projetos acarretava
muitas dificuldades para a instituição. Foram inúmeros e infrutíferos os pedidos,
ao governo, de aumento da dotação orçamentária. Em 1861 o Estado tentou
solucionar os problemas com a cessão do JBRJ ─ na época chamado de Jardim
27
Botânico da Lagoa Rodrigo de Freitas ─ a uma organização de caráter privado:
o Imperial Instituto Fluminense de Agricultura. A partir de então, a pesquisa da
instituição concentrou-se nas ciências agrárias, porém o arboreto seguiu aberto
ao público como área de lazer e contemplação e iniciou-se o ensino de atividades
rurais, com a criação do Asilo Agrícola.
As experimentações agrícolas se davam na chamada Fazenda Normal,
localizada acima do arboreto, e ali foram plantadas diversas espécies de cana-deaçúcar, café, fumo, mandioca, quina, milho, melão, lúpulo, batatas, feijão, algodão,
inúmeras forrageiras, bombonaça e muitos outros.
Criou-se também um Laboratório Químico dedicado à análise de plantas
e solos e à identificação de pragas agrícolas, em consonância com os estudos de
nutrição vegetal e química agrícola que despontavam na Europa.
Os viveiros do JBRJ eram de grande escala. Em 1870, por exemplo, a
instituição distribuiu a fazendeiros cerca de 350 mil sementes e mudas, além de ter
guarnecido de árvores a Floresta da Tijuca, praças e ruas públicas, não só do Rio
de Janeiro como também de outras províncias.
A agronomia, na segunda metade do século XIX, firmava-se como
disciplina distinta da botânica e começava a interagir mais intensamente com a
química agrícola, a meteorologia, a pedologia e outros saberes orientados para
as atividades rurais. A botânica, por sua vez, continuava com as pesquisas na
área da sistemática, porém voltadas cada vez mais para o conhecimento das
plantas nativas. A gestão de João Barbosa Rodrigues, presidente do Jardim de
1890 a 1910, parece ter acompanhado essa tendência: a pesquisa botânica foi
incrementada, com a instalação de um herbário, uma biblioteca e estufas; criou-se
o cargo de naturalista viajante, cuja função era coletar pelo Brasil plantas vivas e
secas e enviar ao JBRJ com propósito de ampliar as coleções.
Sob a direção de Antonio Pacheco Leão (1915-1931), a instituição
obteve incentivos que a levaram a liderar os estudos sobre a flora brasileira,
principalmente graças às grandes expedições. A criação do periódico Archivos do
Jardim Botânico, primeira revista científica do país exclusivamente voltada para a
botânica, e, mais tarde a Rodriguésia demonstram o compromisso assumido desde
então com a divulgação científica.
Em que pesem diferentes conjunturas, o ensino esteve atrelado quase que
constantemente às atividades da instituição. Se o Asilo Agrícola foi uma longeva
experiência no século XIX, mais tarde a formação de jardineiros e mateiros seguiu
sendo uma tarefa constante, porém de forma informal e geralmente instruída por
antigos servidores, alguns anônimos e outros mais célebres como Orlando Pereira
da Silva ─ conhecido como Folha Seca ─ e Ricardo Matheus, responsáveis no
embelezamento e preservação do arboreto e na coleta de sementes, flores, frutos.
28
Na área científica, diversos pesquisadores tornaram-se mestres de
gerações como Fernando R. Milanez, João G. Kulhmann, Liberato J. Barroso,
Alexandre C. Brade, Carlos T. Rizzini, e Graziela M. Barroso, apenas para citar
alguns. As atividades de ensino no JBRJ voltaram a ser formalizadas em 2001
com a criação da Escola Nacional de Botânica Tropical e os cursos de extensão
e a pós-graduação.
Desde 1985, o JBRJ incorporou a educação ambiental como atividade
permanente, aproximando o público da biodiversidade por meio de vários
projetos. O Centro Socioambiental atua no ensino de técnicas de jardinagem para
jovens de 14 a 21 anos e busca ampliar o escopo de sua atuação estimulando
os jovens no que concerne a responsabilidade e auto-estima, o que aumenta as
possibilidades de inserção dos alunos no mercado de trabalho.
Desde a década de 1980, o JBRJ tem ampliado suas pesquisas para além
do conhecimento dos vegetais, com ações voltadas para a criação de um Museu do
Meio Ambiente, a história das ciências naturais e a preservação do patrimônio e da
paisagem. O exercício da interdisciplinaridade tornou-se uma realidade, fundamental
que é para integrar os diferentes propósitos da instituição bicentenária.
29
Diretrizes para Conservação e Restauração do
Estado de São Paulo: onde e como conservar
e restaurar a biodiversidade
Maria Cecília Wey de Brito
Carlos A. Joly
Ricardo R. Rodrigues
Programa BIOTA/FAPESP
30
Pode-se dizer que hoje já é de conhecimento público um dos mais
significativos resultados do desenvolvimento social e econômico no estado de São
Paulo: uma profunda alteração da paisagem. Essa paisagem está quase totalmente
sob algum regime de produção ou ocupação, mas dela ainda despontam, aqui e ali,
maiores ou menores áreas com remanescentes de ecossistemas naturais.
Esses remanescentes, especialmente os maiores, estão geralmente
associados a relevos mais acidentados. É o caso dos remanescentes ocorrendo nas
serras do Mar e Mantiqueira. Ainda assim, algumas áreas declivosas já têm suas
encostas degradadas historicamente por ocupação agrícola. Onde o relevo é menos
acidentado são encontrados muitos pequenos fragmentos de remanescentes de
ecossistemas naturais, mais ou menos interligados entre si, sob maior ou menor
grau de ameaça. Nos remanescentes, maiores ou menores estão as amostras da
biodiversidade paulista.
A biodiversidade pode ser traduzida como a variedade de espécies de
todas as origens e de todas as localizações, assim como a de suas associações
– as comunidades, os ecossistemas e sua estrutura genética . O conhecimento
acumulado demonstra que o Brasil é um dos países com maior biodiversidade,
abrigando entre 15% e 20% das espécies do planeta.
No Brasil, o estado de São Paulo, em função de seu relevo e de sua
posição geográfica, apresenta rica biodiversidade, mesmo que mantenha apenas
13% de sua vegetação original, dentre os quais cerca de 4% que estão protegidos
dentro de unidades de conservação. Em São Paulo ocorrem remanescentes de
dois dos hotspots mundiais – o Cerrado e a Mata Atlântica, assim considerados por
serem muito ricos em biodiversidade e estarem bastante ameaçados.
Com a finalidade de conservar essas últimas áreas com remanescentes
de ecossistemas naturais, e sua biodiversidade, em 1995 o então secretário
estadual do Meio Ambiente, Fabio Feldmann, criou o Programa Estadual para
a Conservação da Biodiversidade (Probio/SP), voltado a traduzir em normas,
resoluções, decretos e leis as informações científicas disponíveis no Estado e
promover a articulação da secretaria com a comunidade científica. O objetivo era
suprir, por meio da pesquisa, as lacunas de conhecimento existentes e subsidiar as
políticas públicas para o tema.
Desse programa resultaram políticas públicas importantes, como o
workshop “Bases para Conservação e Uso Sustentável das Áreas de Cerrado do
Estado de São Paulo” e a “Lista das Espécies da Fauna Silvestre Ameaçadas
de Extinção” (Resolução SMA nº 55/95 e Decreto Estadual nº 42.838/98,
respectivamente). Entretanto, o sucesso obtido nestas iniciativas não se repetiu
posteriormente na articulação do poder executivo com a comunidade científica.
O maior problema para que os formuladores de políticas públicas
utilizem as informações científicas disponíveis sobre a biodiversidade continua
31
a ser o fato de que estas estão sempre dispersas e fragmentadas em centenas de
trabalhos e publicações, muitas vezes em fontes de difícil acesso e em formato
que praticamente inviabiliza a sua aplicação direta.
Uma das estratégias para superar essa dificuldade no estado de
São Paulo foi a implantação do Programa Biota da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado São Paulo (Fapesp). O Biota já tem 9 anos de existência e
representa uma nova concepção entre a imprescindível etapa dos inventários
da biodiversidade paulista e um programa de pesquisas em conservação e uso
sustentável dessa biodiversidade.
Nos últimos dois anos, cerca de 160 pesquisadores do Biota/FAPESP,
em parceria com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (que inclui Fundação
Florestal, Instituto Florestal e Instituto de Botânica) e as ONGs Conservação
Internacional e CRIA (Centro de Referência em Informação Ambiental)
discutiram as bases metodológicas e organizaram os workshops “Áreas Continentais
Prioritárias para Conservação e Restauração da Biodiversidade do Estado de São
Paulo” e “Diretrizes para Conservação e Restauração da Biodiversidade do Estado
de São Paulo”.
Este esforço conjunto resultou na produção de três mapas-síntese e vinte
e quatro mapas temáticos (mapas de três escalas para oito temas), que indicam
os remanescentes de ecossistemas naturais a serem protegidos, restaurados, ou
melhor pesquisados. Esses resultados podem se constituir na base do planejamento
ambiental do estado. Para esse trabalho foram usados, entre outras informações, os
dados de distribuição de 3.236 espécies de plantas e animais consideradas estratégicas
para as ações de conservação e uso sustentável dessa biodiversidade remanescente.
É uma demonstração clara e concreta de que o banco de dados do
Biota/FAPESP, gerado com fins científicos, pode e deve sustentar a adequação
das políticas públicas estaduais para conservação, restauração e uso sustentável da
biodiversidade do Estado.
Mas para que os objetivos de conservação e uso sustentável da biodiversidade
sejam atingidos, ainda falta um passo importante, que é a transformação desses
resultados construídos com base científica, em documento legal do Estado, na
forma de uma resolução ou de um decreto estadual.
Em âmbito federal a perspectiva de transformar dados científicos em
políticas públicas já tem exemplos, em particular no tratamento do tema de áreas
prioritárias para a conservação e uso sustentável da biodiversidade.
Desde que o Brasil ratificou a Convenção sobre a Diversidade Biológica
(CDB), em 1994, o governo federal criou e reforçou estruturas institucionais,
desenvolveu programas, levantou recursos e aplicou diretrizes e conceitos
32
importantes. Neste sentido criou a Comissão Nacional de Biodiversidade
(Conabio), estabeleceu a Política Nacional da Biodiversidade, o Plano de Ação
para Implantação da Política Nacional de Biodiversidade (PANBio), editou a Lei
do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), o Plano Estratégico
Nacional de áreas Protegidas (PNAP), dentre outras ações.
Exemplos para legalização dos resultados de iniciativas como essa já
existem. Cabe aos estados que já têm resultados consensuados para conservação
e restauração da biodiversidade remanescente, traduzi-los em em documento
legal, garantindo a perpetuação dessas ações. Dessa forma, ficará mais claro
para a sociedade que os investimentos públicos na área ambiental, sejam aqueles
aplicados na gestão pública do território paulista, sejam aqueles aplicados à
pesquisa científica podem e devem caminhar juntos. Com essa diretriz será
possível indicar um melhor planejamento para a paisagem paulista, em benefício
de toda a sua sociedade.
33
Áreas Protegidas na Mata Atlântica
Clayton Ferreira Lino
Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da
Mata Atlântica
34
1 – A Mata Atlântica
A Mata Atlântica é uma das mais belas, biodiversas e ameaçadas
florestas tropicais do mundo. É também a de maior extensão latitudinal e a que
apresenta a maior diversidade de formações florestais e ecossistemas associados
em todo o Neotrópico.
Neste bioma ocorreram a maior parte dos fatos sociais políticos
econômicos que marcam a historia e formaram a identidade cultural do Brasil. Nele
concentram-se dois terços da população brasileira e atividades que respondem
por cerca de 70% do PIB nacional. São mais de 3400 municípios em 17 estados,
120 milhões de habitantes, e a maioria das cidades, portos, industrias, centros
turísticos, agropecuários e petrolíferos do país.
A exploração predatória de recursos, começada há 500 anos com o
Pau – Brasil, seguida pela agricultura da cana e do café entre outras, a pecuária
extensiva, a silvicultura de pinus e eucalipto, a produção de carvão, a mineração
irregular, as obras de infra estrutura como estradas e barragens; as cidades e a
especulação imobiliária, destruíram 93% dessa floresta e fragmentaram grande
parte dos remanescentes florestais. Perdemos paisagem, biodiversidade, água e
solo e um indispensável conjunto de serviços ambientais fundamentais para os
cidadãos brasileiros e para a Humanidade em geral.
A partir das décadas de 1970 e 80, a sociedade brasileira reagiu e criouse na Mata Atlântica um dos mais expressivos movimentos de cidadania sócio
ambiental do Planeta.
Desde então cresceram e se diversificaram as ações de governos
e sociedade em prol da proteção, uso sustentável e restauração da floresta.
Criaram-se novas instituições de meio ambiente tanto governamentais quanto
ONGs, novas legislações ambientais, fundos de apoio a projetos, inventários de
remanescentes florestais, pesquisas sobre os diversos ecossistemas do Bioma,
identificação de áreas prioritárias para conservação , campanhas e educação
ambiental. A Mata Atlântica foi declarada Patrimônio Nacional pela Constituição
de 1988, reconhecida pela UNESCO como Reserva da Biosfera em 1991, ganhou
uma Lei especifica, “a Lei da Mata Atlântica” (Lei 11.428) em 2006
Em síntese, a Mata Atlântica deixou de ser uma quase desconhecida, e
passou a ocupar um lugar de destaque nas prioridades da sociedade brasileira e na
comunidade internacional. Ainda, continua em estado crítico, com menos de 2%
de sua área original abrigada em Unidades de Conservação de Proteção Integral e
com 380 espécies ameaçadas de extinção, o que representa 60% das 627 espécies
listadas no Brasil nesta situação.
Atualmente os esforços de conservação tem corretamente se ampliado,
integrando políticas e projetos nos campos da criação de Áreas Protegidas, no uso
35
sustentável dos recursos naturais e na restauração de áreas florestais. Surgiram novas
questões e perspectivas para a conservação associadas às mudanças climáticas, ao
desenvolvimento da biotecnologia, à organização das comunidades tradicionais,
à adequação de mercados, à novos padrões de sustentabilidade, ao crescente
reconhecimento dos serviços ambientais fornecidos pelos ecossistemas, ao maior
grau de conhecimento científico e à maior consciência e mobilização da sociedade
em defesa das florestas . É nessa perspectiva que o conceito e o papel das Unidades
de Conservação da Natureza se alterou , especialmente na Mata Atlântica.
2 – Áreas Protegidas na Mata Atlântica – Revendo Conceitos
As primeiras áreas protegidas do Brasil se concentraram na Mata
Atlântica. Várias delas criada ainda no século XIX, tinham como objetivo central
preservar e água para abastecimento das cidades, à exemplo das atuais Parques da
Tijuca, no Rio de Janeiro e da Cantareira , na cidade de São Paulo. Ambos foram
desapropriados pelo poder público e em grande parte reflorestado, pois estavam
ocupadas por fazendas de café/cana e outras culturas.
Outras áreas foram protegidas para abrigar Hortos Florestais e Jardins
Botânicos, voltados à pesquisa de espécies nativas e principalmente aclimatação
de espécies exóticas . O Jardim Botânico do Rio de Janeiro é o melhor exemplo
dentre elas .
Também o primeiro parque nacional, o de Itatiaia, foi criado na Mata
Atlântica em 1937, seguindo o modelo de áreas protegidas americanas surgido
com a criação, em 1872, do Parque de Yellowstone.
Inicialmente os parques eram planejados como “ilhas naturais”, sem
ocupação humana , de propriedade governamental , com prioridade para a
preservação de paisagens excepcionais, ecossistemas primitivos e algumas
espécies ameaçadas. Seu uso seria voltado, em graus variados, para a pesquisa
científica, a recreação e turismo e para fins educacionais. Partia-se do princípio de
uma incompatibilidade intrínseca entre desenvolvimento humano e conservação
da Natureza . Considerando-se os modelos de desenvolvimento então vigentes,
esse princípio era facilmente demonstrável.
Nas últimas décadas, no entanto , este instrumento de proteção passou
por uma verdadeira revolução em sua base conceitual ganhando uma nova feição.
Isso se deu porque tomou-se consciência de que tal modelo
preservacionista, se tomado de forma isolada, com raras e importantes exceções,
era praticamente inaplicável em países pobres, pouco estruturados política e
administrativamente , onde a legislação restritiva , base desse modelo , mostravase frágil e, freqüentemente, injusta do ponto de vista social. Também nos países
mais desenvolvidos, o modelo de “áreas excluídas” se mostrava pouco eficiente,
36
pois não permita assegurar a dinâmica e a conservação da biodiversidade nacional
apenas em unidades territoriais de dimensões relativamente reduzidas.
Em decorrência dessa percepção, surgiram novas estratégias visando a
ampliação da eficácia das Áreas Protegidas, dentre as quais podemos destacar: a
criação de Sistemas Nacionais de Áreas Protegidas, com vistas a ampliar o número,
a representatividade de ecossistemas protegidos, a distribuição territorial dessas
unidades e a maior eficiência em sua administração e controle; o estabelecimento
de corredores de fauna/corredores biológicos conectando áreas protegidas com o
objetivo de assegurar o fluxo gênico entre elas; a implantação de mosaicos ecológicos,
com a criação e integração entre áreas protegidas contíguas, ainda que de distintas
categorias de manejo e diferentes graus de proteção. Também ganhou destaque
a implementação do conceito de “buffer zone”, ou zonas de amortecimento e
transição no entorno de áreas protegidas visando criar um gradiente de proteção
entre um núcleo primitivo e áreas externas intensamente ocupadas, modelo esse
especialmente difundido por intermédio das Reservas da Biosfera.
Nas décadas de 70 e principalmente 80, novas estratégias de conservação
“in situ” ganharam importância à medida em que a responsabilidade da conservação
(e sua efetividade) deixaram de ser vistas como exclusivas do Poder Público,
estendendo-se também aos vários segmentos da sociedade organizada. Assim,
criaram-se no Brasil as áreas protegidas por iniciativa dos particulares, como
por exemplo, os Refúgios Particulares de Vida Silvestre (que, posteriormente
deram lugar às RPPNs – Reservas Particulares do Patrimônio Natural), sob
responsabilidade de pessoas físicas ou jurídicas.
Atualmente a Mata Atlântica conta com 712 unidades de conservação de
Proteção Integral, das quais 246 são áreas públicas e 466 são RPPNs. Estas ultimas,
embora sejam muito mais numerosas recobrem apenas 103.336ha, enquanto as
UCs governamentais protegem 2.566.620ha. No total, apenas 1,7% do Bioma
está protegida por essas categorias mais restritas, muito aquém do mínimo de
10% da área original recomendada internacionalmente.
Cabe ainda destacar que estas UCs estão mal distribuídas no Bioma,
tanto do ponto de vista regional, quanto da diversidade dos ecossistemas
representados em seus territórios. São especialmente preocupantes as lacunas de
proteção na região nordeste e nas regiões mais interioranas da Mata Atlântica
onde predominam as Florestas Caducifólias. Também é crítica a proteção de
remanescentes da Floresta Ombrófila Mista ( Araucárias) e das restingas costeiras,
altamente pressionadas pela especulação imobiliária.
Também causa preocupação o fato de que mais de 50% das UCs de
Proteção Integral da Mata Atlântica terem menos de 1.000hectares de superfície
reforçando os riscos da fragmentação ecológica. Segundo levantamentos de 2007,
das espécies de vertebrados da Mata Atlântica ameaçados de extinção apenas
37
15% estão protegidos nessas UCs, outros 63% estão parcialmente protegidos e
22% das espécies simplesmente não contam com UCs proteção integral para a
conservação de seus habitats.
A partir do início da década de 90, com a difusão do conceito de
desenvolvimento sustentável, fortaleceu-se a noção de que as “Áreas Protegidas”
devem ser pensadas, criadas e geridas de forma participativa e integrada ao
contexto regional, onde a biodiversidade e a sociodiversidade são patrimônios
igualmente relevantes e que, por conta disso, podem e devem ser protegidos
através de estratégias articuladas.
Nessa Perspectiva vem sendo criadas muitas áreas protegidas de uso
sustentável, onde se busca compatibilizar a presença humana e a conservação
ambiental. Tais Unidades se agrupam em 2 blocos distintos:
1) Áreas particulares sob regime especial de uso do solo e exploração de
recursos naturais, como as APAs – Áreas de Proteção Ambiental e os Monumentos
Naturais e 2) Áreas de comunidades tradicionais também criadas com normas
sócio ambientais diferenciadas, a exemplo das RESEX- Reservas Extrativistas e
as RDS- Reservas de Desenvolvimento Sustentável.
Embora não tenham o mesmo grau de restrição de uso , essas áreas
cumprem importante papel na conservação da biodiversidade, especialmente
quando tem grandes extensões e situam-se no entorno ou promovem a
conectividade de UCs de Proteção Integral na Mata Atlântica .
Além dessas categorias e integrando-as no campo e na gestão territorial
cada vez mais ganham força Áreas Protegidas Especiais como os Corredores
Ecológicos, os Mosaicos de Áreas Protegidas e as Reservas da Biosfera .
É através dessas que, cada vez mais as Áreas Protegidas deixam de
ser isoladas e se integram ao território e ao desenvolvimento das regiões onde
estão situadas.
Integrar as Áreas Protegidas nas regiões, na economia e na cultura do
país é a única forma de assegurar-lhes importância política e a prioridade que
necessitam no nível governamental e da sociedade nacional.
38
Gestão de áreas protegidas no Brasil
Rozely F. Santos
Universidade Estadual de Campinas
39
O desejo de preservar sistemas naturais, manter a diversidade biológica
e os recursos genéticos, conforme define o artigo 4o. da Lei SNUC, assegurou
a existência de muitas Unidades de Conservação que, sem dúvida, necessitam de
uma gestão que garanta seus objetivos. Gerenciar uma área protegida significa
muito mais do que garantir a integridade dos processos naturais. A gestão é um
processo que exige atuação e tomada de decisão a partir de uma cadeia de funções,
que envolvem desde o planejamento da área e a organização dos trabalhos até
a liderança de grupos, a divisão compartilhada de responsabilidades e recursos,
a execução das atividades dentro de condições previstas, o monitoramento, o
controle e o manejo. É imprescindível que se verifique a eficiência e eficácia das
atividades em execução e indicar alterações. Para tanto, são necessárias estratégias
e instrumentos que permitem realizar cada fase da gestão e solucionar pressões,
impactos, conflitos e demandas. O gestor deve, portanto, ter diversas habilidades
que permitam conduzir esse processo, garantir os objetivos de sua unidade, respeitar
os atos legais ambientais, fomentar a formação de redes conectivas, proteger e
melhorar a qualidade do meio e de vida do homem. Não é uma tarefa simples e, no
Brasil, existem fatores que dificultam ainda mais o trabalho do gestor.
O primeiro fator refere-se à administração das terras e o controle de
impactos. Na maior parte das vezes, o planejamento e o gerenciamento se dão
sobre terrenos de terceiros, de antigas posses ou invasões. Assim, a ação do gestor
torna-se muito limitada. O envolvimento público através de audiências, oficinas
ou conselhos é comumente realizado, mas muitas vezes o alvo é desvirtuado, pois
ao invés de discutir os caminhos para obtenção dos objetivos da área protegida
prepondera-se a discussão sobre os problemas de posse da terra, do direito de uso
e da responsabilidade sobre o impacto. Essa e outras questões de base ocorrem,
primariamente, porque não existe uma proposta gerencial global, do próprio
Estado, que integra as unidades brasileiras e garantem dentro de um cronograma
físico-financeiro, por exemplo, a propriedade das terras e recursos de implantação
de planos de manejo. Gestão de áreas protegidas deveria significar uma aliança
de colaboração entre Estado, sociedade civil, economia e mercado. Não pode ser
visto como um sistema particular de administração, de planejamento setorial ou
de regulamentação legal formal.
O segundo fator de grande importância é o reconhecimento dos limites
territoriais da unidade e os limites da própria gestão, que envolvem decisões
internas (área protegida) e externas (zona de influência), resultando em decisões
que ocorrem em dois planos espaços-temporais. Embora os planos de manejo
considerem essa questão, as orientações são essencialmente de cunho técnico,
raramente respondendo as outras funções da cadeia de gestão, muito em virtude
da dificuldade de compatibilizarem planos e poderes locais, já que não há um plano
de gestão global, orientado pelo Estado e reconhecido pelas diversas instâncias de
governo e pelos diversos níveis da administração pública.
40
Outro fator importante está ligado a difícil tarefa do gestor em trabalhar
com valores, culturas e éticas, que envolvem paradigmas, princípios de valor e
expectativas de um amplo espectro de atores como comunidade local, tradicional
e visitantes.
Não existe, por exemplo, um procedimento técnico usual, que possa
ser aplicado nas diversas áreas protegidas de forma a garantir a conservação
biológica concomitantemente à conservação do patrimônio histórico, construído
e ambiental.
Caso o gestor brasileiro consiga superar as questões técnicas, legais e
de relacionamento com os diversos níveis de administração política e pública,
provavelmente ele não terá uma estrutura organizacional que permita uma
eficiente operacionalização, numa situação de mínima adequação de assessoria,
capacitação, recursos humanos e financeiros entre outros.
Estas são algumas considerações que objetiva evidenciar os caminhos
e a complexidade da tomada de decisão em um sistema de gestão de unidades
legalmente protegidas e defender a proposta de que somente um sistema forte e
integrado de gestão permitirá a melhoria da qualidade das áreas existentes.
41
Aplicação de métodos de conservação in situ
na Mata dos Oitis, o remanescente de Mata
Atlântica do Jardim Botânico de Salvador
Erivaldo Pereira Queiroz
Jardim Botânico de Salvador
42
Introdução
O Jardim Botânico de Salvador cuja missão é a conservação da
biodiversidade, pesquisa e educação ambiental, possui 17 ha remanescentes da
Floresta Atlântica, a Mata dos Oitis. Essa denominação é decorrente da existência
de uma imponente árvore endêmica, a Licania salzmannii (Hook. f.) Fritsch (oiti-dabahia). Localizado no centro-norte da Cidade, Bairro de São Marcos (12o55`37,5``
e 12°56`15´´ S e 38°25`37,5`` e 38°26`15`` W), está situado a cerca de 5 km da
orla marítima e uma altitude entre 40 e 70 m.
Apesar do primeiro registro da vegetação da Bahia ter surgido através
da carta de Pero Vaz de Caminha (Andrade-Lima, 1984), ressaltando a riqueza de
nossas matas, de Darwin em 28/02/1832 relatar as florestas pluviais de Salvador,
destacando a sua exuberância, de ter sido a primeira capital do Brasil e ocupar
a terceira colocação em tamanho, inexistem trabalhos botânicos significativos
publicados para a cidade. Segundo a Secretaria do Meio Ambiente SEMEA (1995),
as áreas que apresentam massa vegetal significativa, tais como os fragmentos
florestais do Parque Metropolitano de Pirajá, Avenida Paralela, Ipitanga, Parque
Zoobotânico, Parque da Cidade e as ilhas do Município não apresentam nenhum
estudo florístico ou faunístico importante, apenas resultados de coletas pontuais.
Como se trata de um fragmento tende por natureza a perda da
biodiversidade. O isolamento de uma área reduz a transmissão do fluxo gênico,
pois as interações intra e inter-específicas ficam limitadas por falta de espaço.
Muitas vezes a sobrevivência de determinada espécie fica ameaçada pelo pequeno
número de representantes, o que pode levar a extinção local. Muitas espécies de
animais e vegetais necessitam de grandes áreas para garantir sua sobrevivência, não
coexistindo em pequenos espaços e podem ainda levar muitas vezes dezenas de
anos para atingir a fase reprodutiva e longo tempo entre os períodos de floração e
frutificação. A diminuição da fauna também interfere na germinação e polinização,
conseqüentemente na perpetuação das espécies. Os animais são dependentes
diretos dos vegetais, pois recebendo em troca alimento e abrigo contribuem
com a diáspora de frutos e sementes. Espécies vegetais também interagem entre
si, no JBSSA, trepadeiras agressivas heliófitas, por exemplo, são beneficiadas
pelo efeito de borda, disseminando-se sem controle no sentido da periferia em
direção ao centro da mata. O crescimento acelerado dessas trepadeiras provoca
mortandade de árvores e arbustos, interferindo no processo de regeneração, pois
afeta primeiramente os indivíduos jovens arbóreos e arbustivos. A competição
por luz e espaço e o excesso de peso sobre os indivíduos arborescentes faz com
que as zonas de mata afetada necessitem de intervenção, já que esse efeito danoso
é em decorrente do crescimento das cidades sobre o meio natural. A facilidade
de propagação das espécies ruderais e invasoras, que são de rápido crescimento,
é outro fator que provoca perda da diversidade por competição. As espécies
exóticas também corroboram nesse processo, muitas vezes falta um controle
natural, facilitando a dispersão e concorrendo com as espécies nativas, além de
43
também poder transmitir doenças e pragas para as espécies autóctones. Erradicar,
tornar lenta ou controlar a disseminação de trepadeiras agressivas, exóticas,
ruderais e invasoras, aliado a produção de mudas nativas para enriquecimento,
estabelecimento do equilíbrio natural e manutenção da diversidade são os
principais objetivos a serem alcançados. O resultado de tudo isso gera uma grande
quantidade de informações ecológicas, tornando necessário disponibilizar esse
conhecimento através da Educação Ambiental (EA).
Metodologia
Realizaram-se coletas sistemáticas de setembro de 2003 a agosto de 2008
em toda a área segundo as técnicas usuais de taxonomia Mori et al. (1985). O
material coletado encontra-se depositado no Herbário do Radambrasil (IBGE)
que atualmente possui convenio com a Prefeitura Municipal de Salvador através
da Secretaria de Parques e Jardins, sendo as duplicatas distribuídas aos herbários
que este mantém intercâmbio. Para a identificação do material botânico foram
utilizadas chaves taxonômicas usuais e específicas, comparação com exsicatas
pertencentes a diversos herbários brasileiros e consulta a especialistas. Para coleta
em árvores de grande porte utilizou-se a técnicas de escalada e de rappel.
Uma lista organizada acompanhada de registros fotográficos em ordem
alfabética por família de acordo com o Sistema de Cronquist (1981), gênero e
espécie, além do nome vernacular e hábito tem sido elaborada. A grafia correta
dos epípetos específicos e autores através do W3 Tropicos.
Foi realizado um levantamento topográfico com localização e marcação
dos espécimes arbóreos com diâmetro igual ou acima de 15 cm e plotados em
mapa georreferenciado.
Para a conservação da diversidade do JBSSA estão sendo aplicadas
metodologias específicas de manejo obtidos por meio de estudos preliminares
fitossociológicos, perfis e fenológicos entre áreas mais e menos preservadas.
Primeiramente foram duas áreas pilotos com acompanhamento por três anos.
Posteriormente em seis áreas com cerca de 500 m2 para contenção do efeito de
borda e mais oito áreas com enriquecimento, de acordo com os seguintes passos:
mapa de vegetação das feições com as zonas mais e menos preservadas; avaliação
da condição fitossanitária dos espécimes; seleção de matrizes; estudos básicos
de germinação e desenvolvimento das espécies selecionadas; catalogação e
substituição gradual de espécimes exóticos por espécimes autóctones; identificação
e controle de crescimento das espécies trepadeiras agressivas, invasoras e ruderais
com suas áreas de ocorrência; revegetação das áreas com efeito de borda e clareira;
retirada de lixo e entulhos e sensibilização da população do entorno.
44
Resultados A vegetação do JBSSA é densa com estratos bem definidos e
diversificados. São encontradas centenas de árvores pertencentes a mais de 100
espécies, muitas das quais, com cerca de 30 m de altura. Algumas delas, entretanto,
podem alcançar até alturas superiores a 40 m e DAP (Diâmetro a Altura do Peito)
acima de 1,5 m. Em sua parte mais preservada é primária ou em estágio avançado
de regeneração, porém nas áreas próximas as moradias, o efeito de borda com
excesso de trepadeiras interfere no desenvolvimento dos vegetais e reprodução,
inclusive com a queda e mortandade de alguns deles.
Diversas espécies existentes têm relevante papel ecológico: Annona
soteropolitana H. Rainer, sp. nv. ined.; Bahiella infundibuliflora J. F. Morales, gênero e
espécie recentemente descritos, Faramea sp, recentemente descrita; Mitostemma sp,
registrada pela primeira vez para a Bahia; Caesalpinia echinata Lam., Dalbergia nigra
(Vell.) Alemão ex Benth. e Hirtella insigns Briq ex Prance, ameaçadas de extinção e
as endêmicas; Attalea burretiana, Licaria bahiana Kurz e Macrolobium latifolium Vog.
Mori, l981, considera que 53,5% das espécies encontradas na Mata Atlântica são
endêmicas. A Mata Atlântica abriga uma grande diversidade biológica, possuindo
aproximadamente 7% das espécies do mundo, muitas das quais endêmicas e
ameaçadas de extinção Cullen Jr. et al. (2003). A Mata Atlântica apresenta uma
fisionomia exuberante e possui plantas de alto valor ecológico e econômico. O
sudeste da Bahia é considerado como um dos centros de endemismo da floresta
atlântica, e este conceito está baseado nos estudos com diversos grupos de animais
e plantas Giullieti et al. (2006).
A Mata Atlântica é muito biodiversa. Tanto que faz parte do programa
mundial de hotsposts da biodiversidade mundial. Em apenas um hectare, na região
de Serra Grande – Itacaré na Bahia podem ocorrer 454 espécies de árvores,
número que é quase a metade da flora de angiospermas (plantas com flor) da
Alemanha inteira. Isso sem contar as espécies de arbustos, ervas e trepadeiras
Backes & Irgang (2004).
Além de ocorrer à presença de Lecythidaceae no JBSSA: Lecythis pisonis
(Cambess.) Miers e Lecythis lurida (Miers) S. A. Mori, são encontradas um grande
número de espécies climácicas, indicadoras de ambiente preservado e com elevada
importância ecológica e comercial, algumas das quais sem registro para a Bahia
ou com registro apenas para o sul da Bahia, tais como: Aspidosperma discolor A.
DC., Aspidosperma spruceanum Benth. ex Müll. Arg., Brosimum rubescens, Carpotroche
brasiliensis (Raddi) A. Gray, Copaifera langsdorfii F., Dimorphandra jorgei, Diplotropis
incexis Rizzini & Mattos, Emmotum nitens (Benth.) Miers., Heisteria brasiliensis
Engl., Helicostylis tomentosa (Poepp. & Endl.) Rusby, Heteropsis oblongifolia Kunth,
Licania salzmanii, Moldenhawera blanchetiana Tul., Ocotea spp, Parkia pendula, Pouteria
bangii, Pterocarpus violaceus Vogel, Sloanea monosperma Vell., Terminalia argentea Mart.,
Tovomita choizyana Pl. Tr., Vatairea sp e Virola bichuyba (Schott ex Spreng.) Warb.
45
A ocorrência de espécies de Lecythidaceae e do gênero de Aspidosperma
indica um bom estado de preservação. Segundo Mori (1981), as Lecythidaceae são
espécies indicadoras de áreas preservadas.
Devido ao pequeno tamanho do local, algumas dessas espécies estão
representadas com apenas um, dois ou três indivíduos adultos, como Dimorphandra
jorgei, Lecythis lurida, L. pisonis, Pouteria sp, Pterocarpus violaceus e Terminalia argentea.
Até o presente momento, o estudo catalogou cerca de 326 em 231
gêneros e 90 famílias. As famílias com maior riqueza foram Fabaceae, Rubiaceae,
Myrtaceae, Sapotaceae e Lauraceae.
Diante desses dados, foi verificada a necessidade de conservação da
diversidade local, para isso foi elaborado um Programa de Manejo que resultou em
melhoria significativa de algumas áreas, proporcionando crescimento significativo
em tamanho e número de indivíduos.
Considerações finais
A baixa freqüência e importância de algumas espécies, a riqueza florística
e a avançada estrutura fisionômica da vegetação foram às justificativas necessárias
para intervir na conservação do local. Essa é uma competência relacionada a uma
das missões prioritárias do JBSSA, que é assegurar o patrimônio genético das
espécies, aprimorando a conservação in situ e servindo de base para recuperação
de áreas degradadas com reserva de matrizes e aplicação dos conhecimentos
adquiridos na prática da educação ambiental. A compreensão do local tem
fundamental importância no entendimento de como era a vegetação da cidade
no passado e pode servir como referência por comparação como indicadora
para estágios de regeneração. São informações que podem ser utilizadas por
pesquisadores, curiosos e órgãos ambientais. Vale ressaltar que o JBSSA está
localizado na bacia de Pituaçu e possui duas nascentes que “alimentam” o rio e a
lagoa de mesmo nome.
Referências Bibliográficas
Andrade-Lima, D. de. 1984. A Botânica da carta de Pero Vaz de Caminha.
Rodriguésia. 36 (58) 5-8.
Backes, P. & Iranig, B. 2004. Mata Atlântica. As Árvores e a Paisagem. Instituto
Souza Cruz. Editora Paisagem do Sul.
Cronquist, A. 1981. Na Integrated system of classification of flowering plants.
New York. Columbia University Press.
46
Giullietti, A. M.; Queiroz, L. P. de; Santos-Silva, T. R. dos; França, F.; Guedes, M
L.; Amorim, A. M. 2006. Flora da Bahia. Sitientibus 6 (3) 169-173.
Mori, S. A.; Boom, B.M.; Prance G.T. l981. Distribution pat terms and
Conservation of eastern brazilian coastal Forest tree species. New York
Botanical Garden, Broux, Brittania, 33(2)233-245.
Mori, S. 1990. Diversificação e Conservação das Lecythidaceae Neotropicais.
Acta Botanica Brasilica. 4(1).
47
A Mata do Buraquinho – Reserva de Mata
atlântica do Jardim Botânico de João Pessoa –
Paraíba
Marcia Aquino
Jardim Botânico de João Pessoa
48
Na Paraíba, os remanescentes de Mata Atlântica, são poucos e isolados,
somando menos de 0,4% em todo o Estado.
Em sua Capital, João Pessoa, a Mata do Buraquinho foi considerada área
prioritária de extrema importância biológica, segundo o documento “Avaliação e
ações prioritárias para a conservação da biodiversidade da Mata Atlântica”, do
Ministério do Meio Ambiente (2000).
O Jardim Botânico de João Pessoa “Benjamim Maranhão” encontra-se
localizado nesta Mata, a 7º 6’ de latitude Sul e a 34º 52’de longitude, a uma altitude
média de 45m, na formação geológica do Baixo Planalto Costeiro, Grande Grupo
Barreiras. Encontra-se a sudoeste do centro da cidade, próximo ao campus da
Universidade Federal da Paraíba e a vários bairros, cercado de comunidades
de baixa renda, concorrendo, por esta circunstância, para uma elevada pressão
antrópica, além de problemas ambientais como caça, desmatamento, queimadas,
lixo, culminando com a utilização da área para abrigo de marginais.
Com 343,79ha, o Jardim Botânico é o maior remanescente contínuo
existente no Estado da Paraíba, representativo da Mata Atlântica Nordestina,
situado no coração urbano da cidade de João Pessoa. Do alto, a reserva parece
um imenso coração verde pulsando no meio da cidade. É cortado pelo Rio
Jaguaribe, que represado forma o Açude do Buraquinho, de valor estratégico para
o suprimento de água da cidade. Salienta-se que no início do século passado, foi
responsável pela canalização de água para atender ao município, através da Cia.
Parahyba Water Company, cujas caldeiras eram alimentadas com lenha oriunda da
própria mata. Na ocasião, foram construídos 33 poços amazonas, existentes até
hoje, de onde a água, por gravitação, era conduzida a um poço principal. Poço este,
que ainda abastece parte da cidade (cerca de 11%). (Almeida & Carvalho, 2001).
A missão do Jardim Botânico de João Pessoa é promover a conservação
da mata atlântica do Nordeste, coordenando e conduzindo ações e programas
de pesquisa e educação ambiental, desenvolver e manter coleções documentadas
de plantas da mata atlântica e outros espécimes botânicos apropriados à zona
climática do Nordeste.
O Plano Diretor, concluído em 2003, estabeleceu três zonas prioritárias:
área de reserva, área de recuperação e área de uso público.
Atualmente, o Jardim Botânico de João Pessoa, que em 2004 recebeu da
UNESCO, o título de “Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica”,
conta com um prédio que abriga a Administração, um Centro de Visitantes,
um Auditório para 100 pessoas, um Salão de exposições; uma edificação onde
funcionam: laboratório de botânica, núcleo de educação ambiental e biblioteca;
além de oficinas destinadas ao “Projeto Arte no Jardim”.
49
Existem na área de reserva 12 trilhas abertas, das quais cinco são
interpretadas e mais utilizadas para a visitação pública e as demais reservadas aos
pesquisadores e botânicos; um viveiro, construído através do Projeto Investing in
Nature, para produção de mudas de espécies nativas da Mata Atlântica e destinadas
às áreas de reflorestamento; um bromeliário e um orquidário.
Em 1856 a Mata do Buraquinho, hoje Jardim Botânico, era chamada
de Sítio Jaguaricumbe. O primeiro registro, como terra possuída, tinha como
limites do poente até o Palácio da Redenção (atual sede do Governo do Estado),
atingindo os arredores da Lagoa do Parque Sólon de Lucena.
A área original sofreu grande redução devido a vendas e desapropriações
até 1907, quando foi adquirida pelo Estado, para iniciar os estudos de canalização
d´água feitos pela Companhia Parahyba Water Company.
O serviço de abastecimento d’água da cidade foi inaugurado em 1912 com
caldeiras alimentadas pela lenha oriunda Mata do Buraquinho. Em 1939, devido
à necessidade de ampliação do fornecimento d´água, foi adquirida e anexada à
área a Propriedade Paredes, localizada na margem direita do rio Jaguaribe. Em
1940 foi inaugurada a Barragem do Buraquinho. A área original ficou reduzida à
cerca de 50%, devido à implantação do projeto de saneamento e abastecimento e
a abertura de avenidas e estradas.
Em 1951 foi executado o Acordo Florestal da Paraíba entre o Serviço
Florestal e o Governo da Paraíba, onde estava previsto a criação de um Jardim
Botânico, cujo objetivo principal era a produção de mudas e essências florestais.
A inauguração ocorreu apenas em 1953. Em 1957, o Estado doou à União 166
hectares da área da Mata do Buraquinho para a implantação de um horto florestal.
Na década de 70, parte dos 565 hectares que formavam a Mata do
Buraquinho foi desmembrada para a construção do Campus I da Universidade
Federal da Paraíba (UFPB). Em 1989, através do Decreto Federal nº 98.181, os
471 hectares restantes foram declarados Área de Preservação Permanente, ficando
sob a responsabilidade do IBAMA. Todavia, 305 hectares, permaneceram sob a
jurisdição da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (CAGEPA).
Em 1996, o IBAMA apresentou mais uma proposta para transformação
da Mata do Buraquinho em Jardim Botânico, com o objetivo de preservação da
área e garantia do seu estudo.
Em 2000, o Governo do Estado da Paraíba, chamou para si a
responsabilidade de criação e implantação do Jardim Botânico de João Pessoa.
Assim, em 28 de agosto de 2000, foi assinado o Decreto nº 21.264 de criação do
referido Jardim Botânico, abrangendo uma área total de 343, 79 hectares.
50
A vegetação da Mata do Buraquinho caracteriza-se por ser uma Floresta
Estacional Semidecidual de terras baixas (Veloso 1992) ou ainda, segundo Andrade
Lima & Rocha (1971) como típica floresta pluvial costeira nordestino brasileira,
possuindo trechos fechados e exuberantes.
Sua composição fitológica está formada por um complexo florístico,
em que há participação de elementos não só da Mata Atlântica como também
espécies da flora Amazônica e da Hiléia Baiana (Barbosa 1996).
O levantamento da vegetação da Mata do Buraquinho foi realizado
inicialmente com consultas às exsicatas registradas na coleção do Herbário Prof.
Lauro Pires Xavier (JPB), resultantes de coletas anteriores realizadas na área.
Como complemento, estão sendo realizadas, coletas em caminhadas aleatórias,
percorrendo-se trilhas pré-existentes, bordas da mata, bem como, áreas amostrais
naturais, coletando-se todo material encontrado em estágio reprodutivo.
O material coletado está sendo herborizado conforme os procedimentos
usuais citado por Mori et al. (1989) e incorporado ao herbário JPB, do Departamento
de Sistemática e Ecologia da Universidade Federal da Paraíba.
Estão documentadas até o momento um total de 467 espécies
pertencentes a 324 gêneros integrantes de 106 famílias, números estes que tendem
a aumentar significativamente com a continuidade dos trabalhos.
Desse total de espécies, 57 ficaram indeterminadas ao nível específico,
indicando a necessidade de encaminhamento de parte deste material a especialistas.
A distribuição do número de espécies por família mostra que 9
famílias (Fabaceae, Rubiaceae, Asteraceae, Cyperaceae, Euphorbiaceae, Poaceae,
Caesalpiniaceae, Mimosaceae, Myrtaceae) possuem 36% do total de espécies
documentadas. As outras famílias dividem entre si os 64% restante.
A família Fabaceae é a que apresenta a maior riqueza de espécies, 6%
do total levantado, seguido de Rubiaceae com 5%, Asteraceae, Cyperaceae,
Euphorbiaceae e Poaceae com 4% (cada) e Caesalpiniaceae, Mimosaceae e
Myrtaceae com 3% (cada).
Das 467 espécies identificadas, 141 são arbóreas, 52 arbustivas, 13
subarbustivas e 182 herbáceas. Dentre as ervas 71 são trepadeiras, 4 epífitas e
4 Hemiparasitas. (Barbosa, M. R. V. & Gadelha Neto, P. C.2006)
51
FAMÍLIAS COM MAIOR NÚMERO DE ESPÉCIES
6%
5%
4%
4%
4%
4%
3%
3%
64%
3%
Fabaceae
Rubiaceae
Asteraceae
Cyperaceae
Euphorbiaceae
Poaceae
Caesalpiniaceae
Mimosaceae
Myrtaceae
Outras
A Mata do Buraquinho, embora sendo um pequeno resquício de Mata
Atlântica, localizado em área urbana, ainda é local de ocorrência de alguns
grupos da fauna brasileira, sendo que a avifauna (aves) e o grupo dos insetos
(principalmente lepidópteras) apresentam rica diversidade. Destacamos pois, do
grupo das aves: Celeus flavescens (pica-pau); Columba cayennensis (galega); Columba
picazuro (trocaz); Crotophaga ani (anum preto); Forpus passerinos vividus (tuim); Leptotila
rufaxilla (juriti); Nictibius griseus (urutau); Nyctidromus albicolis (curiango); Ortalis
aracuan (araquã); Penelope superciliares (jacu); Pipile jacutinga (jacutinga); Propyrrhura
maracana (maracanã); Turdus rufiventris (sábia).
Entre os mamíferos de pequeno a médio porte, destacam-se Bradypus
tridactylus (preguiça); Canis thous (raposa); Cavia aperea (preá); Dasiprocta azarae
(cutia); Marmosa cinerea (cuíca); Sciuruss aesteus (caxinguelê); Tamanduá tetradactylus
(tamanduá mirim) e algumas espécies de morcegos Artibeus sp.; Carollia perspicillata;
Glossophaga soricina; Lasiurus borealis; Micronycteris sp.; Rhinophylla sp.
No grupo dos répteis, as cobras e os lagartos apresentam considerável
variedade, haja vista, a localização da área e dimensões como, por exemplo:
Lachesis muta rhonbeata (Surucucu-pico-de-jaca) e Caiman latirostriis (Jacaré de
papo amarelo).
Ações e programas de pesquisa vem sendo conduzidos através de um
convênio de cooperação técnico-científica com o Departamento de Sistemática
e Ecologia do Centro de Ciências Exatas e da Natureza da Universidade Federal
da Paraíba, realizando-se a catalogação da flora e a manutenção de coleções das
espécies vegetais da mata atlântica bem como de espécimes botânicas apropriadas
à zona climática do Nordeste.
52
O Jardim Botânico prioriza as seguintes linhas de pesquisa: Fenologia;
Biologia Floral; Taxonomia/Sistemática; Florística; Fitossociologia; Etnobotânica.
Dentre as pesquisas realizadas e/ou em andamento destacamos:
Inventário das Coleções Fanerogâmicas do Jardim Botânico de João Pessoa-PB; Levantamento
das Bromeliaceae da Mata do Buraquinho, Jardim Botânico de João Pessoa, Paraíba, Brasil;
Identificação das Espécies Vegetais Arbóreas das Trilhas Ambientais do Jardim Botânico
de João Pessoa-PB e Plantas Medicinais que Ocorrem na “Mata do Buraquinho”, Jardim
Botânico de João Pessoa, PB.
A Educação Ambiental vem sendo desenvolvida na área do Jardim
Botânico através de palestras educativas e da interpretação de trilhas.
Existem na área de reserva 12 trilhas abertas, das quais cinco são mais utilizadas
para a visitação pública e as demais reservadas aos pesquisadores e botânicos.
As trilhas ambientais interpretativas vigentes no Jardim Botânico,
enquadram-se em duas distintas categorias: Trilhas circulares ou semi-circulares e
trilhas lineares.
Desta forma, o esboço do grau de dificuldade direcionado para as 12
trilhas interpretativas vigentes no Jardim Botânico, encontra-se resumido na
tabela abaixo.
Trilha
Rio
Comp.(Metros)
294
Forma
Linear
Grau De Dificuldade
Fácil
Preguiça
Buriti
Ilha
Bambuzal
Jibóia
Vigia
Macaco
Abraço
Munguba
Dendezeiro
Nascente
335
1533
162
1527
340
728
318
255
161
595
1037
Linear
Linear
Linear
Linear
Semi-circular
Linear
Linear
Linear
Linear
Linear
Semi-circular
Moderado
Moderado
Moderado
Moderado
Moderado
Moderado
Moderado
Moderado
Moderado
Moderado
Difícil
(Gadelha Neto, 2006)
Em Agosto/2008 foi inaugurada a Pista Permanente de Orientação
“Vidal de Negreiros” destinada à pratica da atividade desportiva da Orientação
como mais uma ferramenta de educação ambiental para a área de reserva.
53
Além disso, outros projetos vem sendo desenvolvidos com o objetivo
envolver as comunidades do entorno no processo de gestão do Jardim Botânico,
a saber: Projeto Educação para a Conservação: Envolve as comunidades São
Geraldo, Paulo Afonso e São Rafael, através da participação, na conservação e
preservação do mesmo, tendo como possibilidade a geração de emprego, renda
e melhoria da qualidade de vida, capacitando jovens, homens e mulheres em
atividades de jardinagem, guias e produção de artesanato; Projeto Arte no Jardim:
cujo objetivo é o envolvimento de jovens das comunidades circunvizinhas, no
processo de gestão do Jardim, tendo como possibilidade a geração de emprego,
renda e melhoria da qualidade de vida, através da produção de material em papel
reciclado. Projeto O Jardim Botânico vai à escola: Visando estabelecer um
processo educativo com a comunidade escolar por meio de ações de educação
ambiental, de forma a divulgar o papel dos jardins botânicos na conservação da
biodiversidade e na promoção da sustentabilidade sócio-ambiental.
54
Ecoturismo em Unidades de Conservação:
O potencial educativo do contato com a
natureza
Zysman Neiman
Universidade Federal de São Carlos
55
Algumas pesquisas realizadas nas últimas décadas vêm apontando o
potencial educativo das visitas a áreas naturais, pois essas atividades otimizam a
assimilação e permanência de conteúdos conceituais e estimulam a curiosidade
dos participantes.
Práticas educativas em ambientes ricos em estímulos sensoriais, como
as trilhas, criam a oportunidade para seus participantes utilizarem seu corpo
encarnado para perceberem o meio ambiente, elaborarem-no e recriarem-no, pelo
encadeamento das experiências perceptivas, interagirem e dialogarem com ele,
numa relação de troca entre o ambiente e os sujeitos abertos e dados ao mundo.
Os ambientes menos estruturados, como é o caso das áreas abertas, por
favorecerem o contato direto com o ambiente natural, afetam especialmente o
domínio afetivo das pessoas, desde que o trabalho seja direcionado ao aprendizado
e à sensibilização. Unindo o domínio afetivo e o cognitivo, as experiências de
contato com áreas naturais facilitam mudanças de comportamento nas pessoas
e se constituem em importantes instrumentos educativos, sem os quais qualquer
iniciativa de proteção e conservação ambiental está fadada ao fracasso.
As pesquisas sobre a relação entre lazer em áreas naturais e Educação
Ambiental são relativamente recentes e vêm crescendo e assumindo uma
relevância cada vez maior nas duas últimas décadas. Isso decorre do fato de que
há muito tempo o ser humano já se distanciou da natureza, tornando-se necessário
e premente um reencontro, no sentido de informá-lo da dinâmica dos processos
ecológicos, bem como, conscientizá-lo para que use sua inteligência na guarda dos
recursos não renováveis, pois deles depende sua vida. Deve haver uma simbiose
do ser humano com a natureza, uma convivência em comum, que permitiria a
ele desenvolver suas aptidões materiais e, mormente as espirituais, ao máximo de
suas capacidades.
A educação acontece em todos os espaços da vida social, de diferentes
formas e em diferentes instâncias, a todo o momento, e, sem que se perceba,
apreendem-se as relações cotidianas. Considerando essa realidade, o que pensar
sobre educação que acontece no tempo livre? Para atingir as finalidades da EA,
é preciso haver sempre a consciência de que este é um trabalho educacional
completo e que, portanto, devem-se cumprir todas as fases do processo, no qual
o lazer (sendo o turismo uma de suas manifestações) tem um caráter primordial.
Nos dias atuais, o lazer e a necessidade de viajar são, sobretudo, criados
pela sociedade marcada pelo cotidiano. As pessoas viajam porque já não se sentem à
vontade onde se encontram, seja nos locais de trabalho, seja onde moram. Sentem
necessidade urgente de se desfazer temporariamente do fardo das condições
normais de trabalho, de moradia e de transporte, a fim de estar em condições de
retomá-las quando regressarem. O lazer, como instrumento pedagógico, deveria
se melhor considerado pelos meios formais de educação. A educação deve
56
incluir a demonstração da importância do lazer e o aprendizado como estímulo
na diversificação de atividades praticadas. Precisamos valorizar o lazer, conhecer
as diferentes atividades para variarmos aquelas em que participaremos no nosso
tempo liberado das obrigações.
Na atualidade, as atividades realizadas na natureza vêm de encontro
à necessidade do homem moderno de vivenciar momentos de lazer, buscando
uma reaproximação com a mesma, na medida em que o crescimento das cidades
causou um rompimento desta ligação.
Muitos educadores, por acreditarem que experiências positivas junto à
natureza influenciam a postura do educando frente a ela e ao ambiente, apontam
atividades realizadas em áreas verdes como eficientes ferramentas para a EA, pois
acrescentam um conjunto de experiências que, gradativa e simultaneamente, vão
construindo a formação, a história de vida e os valores dos participantes. As
idéias de EA exigem tomadas de posicionamento, e isso não pode ser completado
apenas com a aquisição de conhecimentos. Para que ela seja efetivada há que
existir a reaproximação do ser humano com o meio natural visando a preservação
e o estabelecimento de laços entre ambos.
As evidências da relação entre conhecimento e comportamentos ainda
são inconclusivas. Enquanto alguns estudos parecem sugerir que um maior nível
de conhecimento resulta em comportamentos pró-ambiente efetivos, outros
autores notam que esta relação é fraca.
Apesar de haver alguma evidência empírica que a relação entre
comportamentos e conhecimentos, ou mesmo conhecimentos e intenções
seja inconclusiva, há uma convicção generalizada de que estas dimensões estão
correlacionadas positivamente. Isto é, quanto mais os indivíduos souberem acerca
dos efeitos provocados no ambiente pelos seus hábitos de consumo e sobre
as atuações nos ambientes naturais, maior será a probabilidade de assumirem
comportamentos pró-ambiente. De fato, a maioria dos trabalhos de Educação
Ambiental é baseada neste pressuposto aparentemente simples que: quanto mais
os cidadãos souberem, mais conscientes serão os seus comportamentos. A relação
entre conhecimento e comportamento é, assim, extremamente importante.
A afinidade emocional para com a natureza pode ser distinta do interesse
cognitivo sobre as suas partes, ou do de interesse em como funciona a flora, a fauna,
e a variedade de seus fenômenos e processos naturais. Alguns indivíduos podem
ter interesse científico pela natureza sem sentir nenhuma afinidade emocional
com ela. A afinidade emocional é motivada pelo contato e experiências sensoriais.
Os laços emocionais e interesses cognitivos proporcionados por atividades de
lazer junto à natureza fazem aumentar o comportamento pró-ambiente. Essas
atividades, planejadas para despertar o re-encantamento do ser humano pelo meio
ambiente, podem promover uma mudança de paradigma social para que critique
57
a ordem econômica, política e cultural, indispensável para uma transformação da
consciência e dos comportamentos das pessoas. Só assim a EA se converterá em
um processo estratégico com o propósito de formar valores, capazes de uma reorientação e uma transição para a sustentabilidade.
A educação ao ar livre é uma prática que utiliza como recursos educativos
os desafios encontrados em ambientes naturais e objetiva o desenvolvimento
de valores e atitudes do ser humano. Para tanto, dimensões educativas têm sido
incorporadas a atividades em ambientes naturais como passeios ecológicos,
montanhismo, escotismo, entre outras tantas modalidades de lazer junto à natureza,
principalmente por intermédio de trilhas de interpretação da natureza em parques
naturais. A sensação de “aventura”, implícita na maioria dessas práticas, serve de
argumento para quebrar a rotina e o tradicional, a fim de transferir valores como:
assumir riscos, adaptar ao novo, tomar iniciativa para vida cotidiana
A mudança de paradigmas, de uma visão androcêntrica (o homem no
centro) e antropocêntrica (o ser humano dominando o meio ambiente) para
a adoção de uma ética “ecosófica”1 em todas as esferas da vida, é urgente e
depende de reflexões e ações humanas sobre suas práticas, e da adoção de uma
relação dialética entre reflexão – por intermédio de pesquisas – e ação – através
de suas práticas diárias. O meio ambiente deve ser interpretado como o resultado
das inter-relações entre natureza e sociedade, valorizando-se a sua relação com a
qualidade de vida (social, e não apenas natural) numa esfera de amplitude sistêmica.
Só assim será possível um grau de compreensão e valorização, que oriente uma
definição do modelo de desenvolvimento sustentável e seu nível de envolvimento
e compromisso com as atividades realizadas na natureza, com a cultura das
populações locais e com uma lógica de lazer crítico e criativo no meio ambiente.
Não é o simples caminhar por trilhas ou cavernas que fará a EA se
concretizar, pois para tal é necessário que se desenvolva uma nova percepção
da natureza. Os mecanismos que favorecem a formação de posturas críticas,
a predisposição para mudanças e o comprometimento com o universo das
questões ambientais a partir das experiências positivas decorrentes de relações
afetivo-emocionais vivenciadas no contato com a natureza são discutíveis e
exigem muita reflexão.
Uma vez que o modo de organização da sociedade contemporânea,
que afasta o cidadão urbano dos seus semelhantes (somos sós, entre milhões)
e da natureza, todas as possibilidades de contato, bem como a possibilidade
do repensar os hábitos culturalmente adquiridos pelo indivíduo da sociedade
brasileira, podem servir como agentes de re-Educação Ambiental. Envolvem o
que os especialistas insistem em chamar de reconstrução de “valores”, incitando,
naturalmente o estabelecimento de procedimentos e atitudes mais equilibradas na
relação com o meio natural e sócio-cultural.
A ética ecosófica busca uma solução num compromisso de equilíbrio entre as três vertentes
ecológicas: o meio ambiente, as relações sociais e a subjetividade humana.
1
58
Pelas suas características (contato com áreas naturais, colaboração
entre membros de pequenos grupos no sentido de superarem adversidades
comuns, contato físico, companheirismo) o chamado Ecoturismo, dentre
outras oportunidades de promoção do contato dirigido, tem se mostrado um
poderoso instrumento de resgate dos vínculos do ser humano com a natureza.
Além disso, oferece possibilidades de uma discussão sobre os comportamentos
culturalmente arraigados e a necessidade de sua transformação sob uma ótica
de sustentabilidade. Nas atividades de Ecoturismo pode-se vivenciar a natureza
tanto a partir do paradigma que supõe que o ser humano faz parte dela (respirar,
alimentar-se e deslocar-se pelo mundo nos confirma essa afirmação), como o
que considera todas as diferenças existentes entre os seres humanos e os não
humanos (reconhecemos em nós diversas características que nos distinguem dos
outros animais). Vivenciar ao mesmo tempo esses dois paradigmas supostamente
opostos pode ser uma instigante experiência de aprofundamento da compreensão
da realidade.
Defenderemos, na palestra, que o desenvolvimento de atividades
especiais, que intensifiquem o contato do ser humano com a natureza, pode
contribuir para o afloramento de motivações intrínsecas ao ser humano e uma
mudança dos hábitos culturais que, canalizadas corretamente, podem formar
cidadãos mais conscientes e atuantes na conservação ambiental além de tornaremse meios eficazes para os educadores ambientais que trabalham em instâncias
formais ou informais.
Apesar de o Ecoturismo ser definido como um promissor campo de
atuação para os educadores ambientais, a sua prática no Brasil ainda está longe
de atingir este objetivo. As Diretrizes para uma Política Nacional de Ecoturismo
prevêem, entre seus objetivos, a promoção e “o aproveitamento do Ecoturismo como
veículo de Educação Ambiental para turistas, comunidades locais e empreendedores do setor”,
mas ainda são raros os profissionais que compreendem esse pressuposto e
realizam-no a contento.
O Ecoturismo se apresenta como uma alternativa de se contrapor à
lógica do turismo de massa (estandardizado e predatório), e procura cada vez
mais defender a proposição de roteiros personalizados, preocupados com o
mínimo impacto e com grande interesse paisagístico-ecológico. No entanto,
trata-se de um fenômeno complexo e multidisciplinar, onde muitos aspectos
devem ser levados em conta a fim de que ele seja um empreendimento bem
sucedido para todos os envolvidos.
As divergências filosóficas, ideológicas e conceituais sobre o
Ecoturismo talvez representem o tópico central a ser equacionado e trabalhado
metodologicamente como ponto de partida para o desenho estratégico de
programas efetivos de Educação Ambiental.
59
Embora os princípios e diretrizes estejam claramente estabelecidos e
pareçam conceitualmente compreendidos pelos profissionais da área, na prática,
o trabalho de EA carece ainda de uma visão estratégica, que promova seu
desenvolvimento em nível nacional. Esta afirmação é especialmente verdadeira
quando são analisados os projetos de desenvolvimento em implementação no
Brasil e as dificuldades no planejamento e obtenção de resultados referentes
aos compromissos de EA. Este problema se torna ainda mais relevante quando
o desenvolvimento da atividade turística, discussão emergencial em um país
com o potencial do Brasil, exige um novo conceito em ação pragmática em
Educação Ambiental.
60
Plano de Manejo para a Estação Ecológica do
Jardim Botânico de Brasília
Jeanitto Gentilini Filho
Danielle Abud
Isaac Nuno C. de Azevedo
Alex Alves Amorim
Jardim Botânico de Brasília
61
Introdução
O Jardim Botânico de Brasília, criado em 08 de março de 1985, está
vinculado a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente do Governo
do Distrito Federal. Tem como missão promover a preservação e a conservação
in situ e ex situ do bioma Cerrado, por meio do desenvolvimento de pesquisas
científicas e da educação ambiental.
O Jardim Botânico de Brasília diferencia-se dos demais jardins botânicos
por agregar em sua área de visitação pública uma unidade de conservação, a
Estação Ecológica Jardim Botânico de Brasília; ao todo são cinco mil hectares de
área de vegetação nativa em meio ao processo de urbanização da capital federal.
A Estação Ecológica Jardim Botânico de Brasília – EEJBB, está incluída
na categoria de unidade de conservação de proteção integral e destina-se a
preservação da natureza e a realização de pesquisas, conforme o Sistema Nacional
de Unidades de Conservação – SNUC, lei n.° 9.985 de 2000.
Criada pelo decreto n° 14.422 de 1992, a EEJBB integra a área nuclear
da Reserva da Biosfera do Cerrado1 e a Área de Proteção Ambiental Gama e
Cabeça de Veado, que contém uma variedade de fitofisionomias vegetais do
bioma Cerrado, uma flora vascular representativa do Brasil Central e o local
onde se concentra o maior volume de pesquisas sobre biodiversidade, ecologia,
conservação e manejo do cerrado. (Felfili, 2004).
Para garantir o que dispõe no art. 27 do SNUC, “as unidades de conservação
devem dispor de um Plano de Manejo”. O Jardim Botânico de Brasília vem ao longo
de sua nova gestão administrativa, consolidando de forma participativa, este
importante instrumento legal, que possibilitará a incorporação de aspectos teóricos
e práticos para o manejo da diversidade biológica dentro da Estação Ecológica do
Jardim Botânico, e no seu entorno, além de legitimar o planejamento e a gestão
desta Unidade de Conservação.
O Plano de Manejo encontra-se em fase de conclusão, mas a iniciativa
já reflete o esforço de toda a equipe que participou deste desafio e consolida uma
nova etapa neste processo de construção de ações para a Estação Ecológica do
Jardim Botânico.
Mosaico e Unidades de Conservação
A consolidação e o fortalecimento de unidades de conservação são
fundamentais para o desenvolvimento sustentável do país. A articulação de planos
Reserva da Biosfera: modelo adotado internacionalmente, de gestão integrada, participativa e
sustentável dos recursos naturais, com os objetivos básicos de preservação da diversidade biológica,
desenvolvimento de atividades de pesquisa, monitoramento ambiental, educação ambiental, desenvolvimento sustentável e melhoria da qualidade de vida das populações, SNUC, lei n°998, 2000
1
62
de conservação e seu manejo integrado são um avanço conceitual extremamente
importante no contexto atual nacional e internacional.
No Distrito Federal, as unidades de conservação integram um mosaico de
tipologias de conservação que precisam ser revistas, para compatibilizar o uso, suas
poligonais e definir, de maneira mais realista, a sua zona de amortecimento2 , hoje,
totalmente invadidas por atividades incompatíveis sobre as unidades constituídas.
O termo de referência para a elaboração do Plano de Manejo da
Estação Ecológica do Jardim Botânico de Brasília busca implementar ações
de monitoramento, proteção e recuperação do patrimônio natural da Estação
e de seu entorno, desenvolvendo um modelo de sensibilização e mobilização
de comunidades vizinhas na gestão, proteção e recuperação de Unidades de
Conservação para o Distrito Federal.
Este tem como objetivo principal dotar a Estação Ecológica de
diretrizes atualizadas para o gerenciamento e manejo, possibilitando, assim, que
esta venha a atingir os objetivos para os quais foi criada: manter e/ou ordenar os
usos apresentados até o momento, sempre que não se verifiquem conseqüências
negativas advindas destes; ordenar atividades de uso público, de forma que fique
garantida a conservação dos recursos naturais da EEJBB, a sensibilização dos
visitantes em relação à natureza e o retorno de benefícios para as populações locais;
compatibilizar a preservação da UC com as atividades das populações vizinhas;
identificar fontes de recursos financeiros e orientar a aplicação destes na Estação;
fortalecer a proteção da Unidade e ampliar o conhecimento sobre esta área.
Os objetivos específicos do Plano de Manejo são: (a) elaborar os mapas
territoriais e temáticos para a EEJBB; (b) elaborar o Programa de Proteção e
Fiscalização para a EEJBB; (c) elaborar o Programa de Educação Ambiental para a
EEJBB, e respectivos entornos; (d) elaborar o Programa de Manejo e Recuperação
das Áreas Degradadas da EEJBB; (e) elaborar o Programa de Pesquisa para a
EEJBB; (f) elaborar o Programa de Administração e Gestão para a EEJBB; (g)
elaborar o Zoneamento Ambiental da EEJBB; (h) elaborar o Plano de Manejo da
Estação Ecológica Jardim Botânico de Brasília, conforme Termo de Referência;
(i) elaborar sistema de sinalização para a EEJBB; (j) promover Treinamento dos
Servidores que atuam na conservação.
Metodologia
O Levantamento de subsídios ao Plano de Manejo da Estação Ecológica
do JBB adotou algumas metodologias de planejamento disponíveis no Roteiro
Metodológico de Planejamento de Parque Nacional, Reserva Biológica e Estação
Ecológica (IBAMA, 2002) como ponto de partida para a organização dos dados
e no termo de Referência específico.
Zona de Amortecimento: área de amortecimento que deverá ter, no mínimo, 3km antes dos limites das
áreas de expansão urbana.
2
63
A elaboração do Plano de Manejo foi divida em nove etapas, conforme
especificadas e descritas abaixo:
1ª etapa: Organização do Planejamento
2ª etapa: Diagnostico socio-econômico e ambiental do entorno e produção de
Mapas
3ª etapa: Estruturação dos programas de manejo e projetos específicos;
4ª etapa: Realização de oficinas de planejamento participativo;
5ª etapa: Elaboração e reunião de avaliação da contextualização da Unidade de
Conservação, da Análise Regional e da Análise da Unidade de Conservação;
6ª etapa: Realização da reunião técnica de estruturação do planejamento;
7ª etapa: Elaboração e análise do Planejamento;
8ª etapa: Elaboração, análise e entrega dos documentos legais, resumo executivo e
da proposta final do Plano de Manejo;
9ª etapa: Treinamento.
Resultados
O Plano de Manejo da Estação Ecológica Jardim Botânico de Brasília
está em fase de construção. O documento final será apresentado em outubro,
e será homologado pelo Instituto Brasília Ambiental, IBRAM, órgão ambiental
responsável por Unidades de Conservação no Distrito Federal.
Para a avaliação da eficiência na implantação do Plano de Manejo da
EEJBB, pretende-se utilizar índices de sustentabilidade ambiental, com base em
indicadores que comprovem a habilidade no avanço da qualidade ambiental local,
traduzindo-se em incremento dos padrões atuais nos meios bióticos, abióticos e
socioeconômico, tais índices deverão ser definidos e conceituados.
Considerações Finais
A necessidade do Plano de Manejo para as unidades de conservação
é o reflexo da alta influência das atividades antrópicas, que ameaçam os
remanescentes dos ecossistemas naturais. Portanto, torna-se um instrumento de
gestão ambiental dos mais importantes na busca da sustentabilidade frente às
realidades mais diversas.
O Plano de Manejo da Estação Ecológica Jardim Botânico de Brasília
tem se constituído um amplo processo de planejamento participativo, de caráter
consultivo e de importante direcionamento para esta gestão administrativa.
Caracteriza-se por ser o instrumento que define ações estratégicas e interligadas
com diversos setores, mas que no caso específico da Estação Ecológica Jardim
Botânico de Brasília, tem promovido, acima de tudo, a integração de pessoas
comprometidas com a preservação e conservação do nosso Cerrado.
64
Referências Bibliográficas
Felfili, J. M.; Santos, A. A. B., Sampaio, Julio C. 2004. Flora e diretrizes ao plano
de manejo da APA Gama e Cabeça de Veado – Brasília: Universidade de
Brasília, Departamento de Engenharia Florestal, p. 204, 2
PROGRAMA DE PROTEÇÃO, PLANEJAMENTO E GESTÃO PARA A
ESTAÇÃO ECOLÓGICA DE ÁGUAS EMENDADAS (ESEC-AE) E A
ESTAÇÃO ECOLÓGICA DO JARDIM BOTÂNICO (ESEC-JB),
conforme Contrato de Empréstimo Nº 1288/OC-BR – BID do Programa de
Saneamento Básico no Distrito Federal – SDP Nº 002/2007 – SO/DF
IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis. 2002. Roteiro Metodológico de planejamento. Parque Nacional,
Reserva Biológica e Estação Ecológica. Brasília: Del Rey, p.112,.
SNUC - Sistema Nacional de Unidades de Conservação LEI No 9.985, DE 18
DE JULHO DE 2000.
65
Diagnóstico preliminar para a área de conservação
in situ do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico
do Rio de Janeiro
Vicente Moreira Conti
Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro
66
1- Introdução
O presente resumo tem por base os resultados da dissertação de mestrado
do autor, e que tinha como objetivo elaborar um diagnóstico preliminar para auxiliar
a tomada de decisões da Administração do Instituto de Pesquisas jardim Botânico
do Rio de Janeiro - JBRJ, compilando em um documento sintético, uma coletânea
de dados e informações, com vistas a gestão da área de conservação in-situ.
Importante realçar que, os jardins botânicos não estão voltados apenas
para as áreas de conservação ex-situ, tanto que em 1985, em Las Palmas de Gran
Canaria, Espanha, a World Conservation Union – IUCN1 e a World Wildlife Fund –
WWF2 , convocaram uma conferência sobre “Jardins Botânicos e a Estratégia de
Conservação Mundial” com o objetivo de explorar os seus múltiplos papéis, em
nível mundial, na conservação de plantas. Foi criado neste evento o Botanic Gardens
Conservation Secretariat (BGCS)3 , que veio a iniciar os seus trabalhos em 1987.
Uma parte das estratégias então propostas contemplam a conservação
in-situ por apresentar um papel importante na conservação da biodiversidade e por
permitir e propiciar uma associação da diversidade biológica com o ecossistema
no qual se encontra inserida. Cerca de 400 Jardins Botânicos no mundo praticam
este tipo de conservação, mantendo áreas naturais dentro de seus limites ou
administrando reservas naturais, sendo o JBRJ um deles .
O estudo em questão vem de encontro às estratégias internacionais para
as áreas de conservação ex-situ, que indicam ações que visam proteger os recursos
naturais, expressos pelas mesmas.
2- Contexto
Fundado em 13 de junho de 1808, através de decreto do Rei D. João VI
(RODRIGUES, 1894), está localizado no bairro do Jardim Botânico, na cidade
do Rio de Janeiro, apresentando ainda grande relevância para o Estado do Rio
de Janeiro, não só como pólo turístico, cultural e científico, mas também como
ambiental, já que preserva importante área do agredido bioma da Mata Atlântica,
em área recuperada por um reflorestamento no passado, e que influencia na
qualidade de vida do entorno, principalmente, no clima da região, notadamente
mais ameno nas épocas de calor.
1
IUCN - União Internacional para a Conservação da Natureza, é a maior organização voltada para
a natureza, tendo sido criada em 1948 (FUNIBER, 2002b, p. 72, Vol. I, As Áreas Naturais no Contexto das
Sociedades).
2
WWF - Fundo Mundial da Natureza, organização internacional independente, criada em 1961,
que desenvolve diversos programas, de acordo com a área de atuação (FUNIBER, 2002b, p. 74, Vol. I, As Áreas
Naturais no Contexto das Sociedades).
3
Atualmente tem a denominação de Botanic Gardens Conservation International (BGCI).
67
Apresenta uma área de conservação ex-situ, representada pelo Arboreto,
onde está a coleção viva, e outra de conservação in-situ, com uma mata secundária,
oriunda de reflorestamento (ação promovida pelo Major Archer, no Maciço da
Tijuca, que teve início em 04 de janeiro de 1862 e durou 13 anos) e de mata
regenerada, na época do Brasil Império.
Situa-se entre os paralelos de 22° 57’ e 22° 59’ latitude S e os meridianos
de 43° 13’ e 43° 15’ longitude W, tendo sua maior parte localizada no bairro do
Jardim Botânico e outra menor no bairro da Gávea. Faz limite ao Norte com
a Rua Pacheco Leão, a sudeste com a Rua Jardim Botânico, ao sul com a Rua
Major Rubens Vaz, a sudoeste com propriedades particulares da Gávea e com
o Parque da Cidade, cuja administração é da responsabilidade da Prefeitura da
Cidade do Rio de Janeiro e a Oeste e Noroeste com o Parque Nacional da Tijuca
(PARNA/TIJUCA), cuja subordinação administrativa é do Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), na localidade
do Horto Florestal.
Em 1997 passou a ser vinculado diretamente ao Ministério do Meio
Ambiente (MMA), através da Medida Provisória nº 1.549-35, de 09 de outubro
de 1997, e não mais ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis (IBAMA), recebendo então a sua atual denominação de
Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro - JBRJ.
Em 2001, o Instituto passou a ser uma autarquia do MMA, como
disposto na Lei Federal nº 10.316, de 06 de dezembro de 2001, adquirindo
autonomia administrativa, jurídica e financeira.
Por ser considerado um dos melhores exemplos de sítio natural e cultural
brasileiro, o que justifica o título de patrimônio cultural brasileiro, concedido em
1938 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)4 ,
o JBRJ em 1992 é também reconhecido como um patrimônio mundial, como
Reserva da Biosfera, por estar definido pela Organização das Nações Unidas para
a Educação, Ciência e a Cultura (UNESCO)5 .
O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), implantado
pela Lei Federal nº 9.985, de 18 de julho de 2000, não contemplou as unidades exsitu, se voltando apenas para as unidades in-situ, entretanto, o Conselho Nacional
do Meio Ambiente (CONAMA) baixou a Resolução nº 339, de 25 de setembro
de 2003, que teve como finalidade estabelecer diretrizes para criar, normatizar o
funcionamento e definir os objetivos dos jardins botânicos nacionais.
4
IPHAN - órgão atualmente vinculado ao Ministério da Cultura, foi criado pela Lei Federal nº 378, em 13 de janeiro de 1937, e tem por finalidade pesquisar, promover, fiscalizar e proteger
o patrimônio cultural, nos termos da Constituição Federal, redação dada pelo Decreto Federal nº
2.907, de 21 de outubro de 1998.
5
UNESCO - Seu principal objetivo é contribuir para a paz e para a segurança mundial,
promovendo a colaboração entre nações através da educação, da ciência, da cultura e da comunicação, não se dedicando ao meio ambiente. Sua constituição foi adotada em 1943, entrando em efeito
em 1946 (FUNIBER, 2002b, p. 80, Vol. I, As Áreas Naturais no Contexto das Sociedades).
68
Segundo a Convenção da Diversidade Biológica - CDB, os jardins
botânicos têm um papel importante para alcançar os objetivos propostos na
Convenção, e no caso particular do estudo, relativo as áreas de conservação
in-situ, para contribuir através da indicação, desenvolvimento, manutenção e
administração de áreas protegidas, além dos listados acima
A área total do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de
Janeiro é de 143,9842 ha, dos quais 87,29% estão sob o domínio da Instituição,
3,14% encontram-se oficialmente cedidos e 9,57% irregularmente ocupados.
O Arboreto ocupa 37,0556 ha (25,74%) e a Mata Atlântica 85,1777 ha (59,16%)
da área da instituição.
A instituição ocupa 87,26% de sua área total, sendo que mais da metade
é ocupada com Mata Atlântica, e as áreas oficialmente cedidas ou ocupadas
irregularmente somam 12,74% . As áreas cedidas a outros órgãos por instrumentos
legais totalizam 4,5232 ha, e as áreas ocupadas irregularmente com casas e
edificações, além de estradas e áreas gramadas no entorno totalizam 13,7792 há
(vide Tabelas 1 e 2).
Tabela 1 – Áreas ocupadas pelo JBRJ
LOCAL
Arboreto (conservação ex-situ)
ÁREA (ha)
37,0556
Área Florestada (conservação in-situ)
85,1777
Horto (viveiros e ENBT)
DIRAD
Pousada do Pesquisador
Novo estacionamento próximo a EMJK.
Centro de Compostagem
Nova área do Bicano (Aqüeduto da Levada)* (Figura 4)
Nova área do Jardim das Crianças*
TOTAL
1,5600
0,3930
0,0656
0,2800
0,3400
0,4097
0,4002
125,6818
Legenda: ENBT – Escola Nacional de Botânica Tropical; DIRAD – Diretoria de Administração e Finanças; EMJK
– Escola Municipal Juscelino Kubitschek. * - novas áreas incorporadas para visitação.
69
Tabela 2 – Áreas do JBRJ cedidas oficialmente a outros Órgãos públicos.
LOCAL
ÁREA (ha)
2,0047
1,1644
0,2420
0,9544
SERPRO
LIGHT
TRE
EMBRAPA
Escola Municipal Juscelino Kubitschek
0,1577
TOTAL
4,5232
Legenda: SERPRO – Serviço Federal de Processamento de Dados; LIGHT – Empresa de fornecimento de energia
elétrica; TRE – Tribunal Regional Eleitoral; EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.
3- Importância Histórica
Desde o século XVII, vinha sofrendo a cidade do Rio de Janeiro com
o desmatamento da exuberante Mata Atlântica que recobria o maciço da Tijuca,
para obtenção de lenha e carvão, além de se abrirem áreas para implantação de
atividades agrícolas, que coexistiram até fins do século XIX.
Estas ocupações das fronteiras agrícolas trouxeram também uma grande
preocupação as autoridades da época, que era o abastecimento de água potável
para a zona urbana, já que a população da cidade do Rio de Janeiro se concentrava
na parte baixa, pantanosa e mal drenada, sendo que a escassa água obtida no local
ainda era salobra.
Com a vinda de D. João e sua corte para o Brasil, a cidade sofreu um
crescimento rápido, tornando mais crítico ainda o abastecimento de água. Assim,
Sua Majestade decretou que se proibissem o corte das árvores no entorno de
nascentes, primeiramente nas do Rio Carioca, que nascia no Silvestre e corria
pelo Vale das Laranjeiras, até desaguar na Praia do Flamengo, isto em Decreto de
1817, e depois nos mananciais da área da Tijuca, em Decreto de 1818, a fim de se
ampliar o volume d’água disponível para consumo.
Mas estas ações foram insuficientes, já que a cidade crescia rapidamente,
e a água captada não supria a demanda, voltando-se a atenção do governo para as
áreas montanhosas e em especial o Maciço da Tijuca, pela sua proximidade com a
área urbana, embora sua outrora exuberante mata estivesse muito danificada pela
exploração de sua madeira e pelo plantio do café.
70
Com o agravamento da falta de água, deliberou o Governo Mas os
problemas de falta de água para consumo da população se agravava, ainda mais
depois de uma seca ocorrida em 1844. Foi quando o Ministro do Império Almeida
Torres solicitou medidas urgentes de conservação e restauração de matas nas
bacias dos rios Carioca e Maracanã.
O major Manuel Gomes Archer foi nomeado para administrar e
supervisionar o replantio na área do Maciço da Tijuca, e com apenas seis
escravos iniciou a sua missão em 04 de janeiro de 1862, em um árduo trabalho de
reflorestamento que durou 13 anos, com o plantio de mais de 60.000 árvores de
várias espécies, em uma área de cerca de 16 ha. Não foram apenas mudas nativas
da região, retiradas principalmente de um remanescente de floresta trazidas das
Paineiras e da localidade denominada Cabuçu em Guaratiba, que foram plantadas,
pois espécies exóticas produzidas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e doadas
pelo Visconde do Bom Retiro, também o foram. O resultado alcançado foi a
mescla de espécies reflorestadas com a capoeira crescida espontaneamente, sendo
que apenas nos grotões e nos vales mais inacessíveis é que a mata evoluiu com
espécies possivelmente pertencentes à vegetação primária.
Apesar do major Archer não ter conhecimento de noções de silvicultura,
este seu grandioso trabalho se reveste de uma importância, por ser ímpar no
Brasil, e talvez o primeiro na América do Sul, a ser feito com espécies mistas,
configurando o mais belo exemplo, único na época em sua heterogeneidade, que
se conhece para uma área recuperada pelo reflorestamento artificial.
Em 1941, através de um decreto-lei federal, toda esta área florestada, que
passaram a chamar-se “Florestas Protetoras da União”, vinculou-se a jurisdição
do Serviço de Proteção das Florestas, do Ministério da Agricultura. Uma destas
áreas, denominada “Horto Florestal da Gávea”, veio ter sua administração passada
ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro, em 1971, e que se somou à floresta que
compunha o Arboreto.
4- Situação da Área de Conservação in-situ
Apesar dos esforços iniciados por Archer, a conservação da Mata
Atlântica ainda enfrenta grande desafio, uma vez que este bioma apresenta altos
índices de biodiversidade e de endemismos, sendo ainda considerado como
dos mais importantes e ameaçados do mundo, e que vem sofrendo com a sua
devastação, reflexo de sua ocupação e exploração desordenada.
O JBRJ convive com problemas diversos, resultantes da ocupação
de seus espaços. Existem desde entidades públicas e privadas, até famílias que
ocupam irregularmente diversas áreas.
71
Citamos assim os principais agentes que promovem uma forte pressão
para a área:
1-Furnas - Centrais Elétricas S/A – empresa estatal, subordinada ao
Governo Federal, responsável pela geração e transmissão de energia, que com
suas torres que sustentam as linhas de alta tensão, as quais fornecem energia
elétrica a essa subestação da LIGHT;
2-Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO) - empresa de
processamento de dados vinculada ao Ministério da Fazenda, que presta serviços
ao Governo Federal, e que teve autorizada a sua instalação por meio de um
decreto federal;
3-Companhia Estadual de Água e Esgoto (CEDAE) - empresa estatal
ligada ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, concessionária dos serviços de
abastecimento d’água e esgoto, que tem linhas de transmissão de água passando
através do JBRJ, além de ocupar um espaço próximo ao Solar da Imperatriz, com
um clube para os seus funcionários (Clube dos Macacos), local este em que ficou
claro não existir um consenso na Instituição, se está mesmo dentro dos limites,
embora seja certo que era uma das Florestas Protetoras da União;
4-LIGHT S/A – empresa privada LIGHT S/A, que é concessionária
atuando na distribuição de energia, foi privatizada em 1996 no governo do
presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), tem implantado em uma
área mais próxima ao rio dos Macacos, uma subestação, que distribui energia
elétrica para o bairro do Horto e imediações;
5-Ocupações irregulares - diversos administradores da Instituição, ao
longo do tempo, e de forma não oficial, autorizaram servidores do órgão ou de
entidades com ingerência ou não na área (como o extinto IBDF, a CEDAE e até
do Jockey Clube Brasileiro) a construírem moradias, uma vez que em passado bem
remoto era uma dificuldade a mais os meios de transporte que chegassem ao JBRJ.
De acordo com o crescimento dessas famílias, seus descendentes diretos e outros
aparentados começaram a ocupar novos espaços, pressionando mais ainda a área
de mata e o seu entorno, ocorrendo sem nenhum planejamento e promovendo
séria degradação ao meio ambiente por essa ação antrópica. Segundo o trabalho
realizado pelo JBRJ e o Instituto Brasileiro de Administração Municipal - IBAM
(2003) relativo ao Plano Diretor, existem em torno de 680 famílias residindo em
várias áreas do Instituto, em moradias que vão de humildes até grandes mansões.
Não são precisas as datas de ocupação com moradias que fazem pressão a esta
área florestada, mas as ocupações desordenadas em áreas pertencentes ao JBRJ,
promovem um grande impacto ambiental, por conta de: efeito de borda; ilhas
de calor que afetam o microclima local; caça; coleta de frutos; comércio; coleta/
venda de plantas; coleta de sementes; poluição, entre outros fatores
72
5- Bibliografia
Conti, V. M. 2004. Diagnóstico preliminar para a gestão da área de conservação
in-situ do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro. 2004. 113
fls. Dissertação de Mestrado, UPC/FUNIBER, Espanha.
73
Zona primitiva protegida pelo Jardim
Botânico da Fundação Zoobotânica do Rio
Grande do Sul
Andréia Maranhão Carneiro
Jardim Botânico da Fundação Zoobotânica do Rio
Grande do Sul
74
O Jardim Botânico de Porto Alegre/FZB localiza-se na região central da
cidade em uma área de 40 hectares sobre uma colina de até 45 metros de altitude.
Desta área, uma pequena parte é um encrave de vegetação nativa preservada
característica dos morros graníticos da região onde se localiza o Município de
Porto Alegre, um mosaico de campo seco, vassoural e matinha baixa.
A fisionomia dessa região – que faz parte do bioma Pampa - é resultado
da composição de diferentes paisagens. É um complexo de morros, restingas,
lagoas e banhados. Configura-se como um ecótono, pois é influenciada por sete
ecorregiões do Cone Sul da América: Mata Atlântica, Mata do Planalto Meridional
com araucária, mata de restinga, Savana Meridional, Chaco, Pampa e Patagônia. É
o limite oriental das coxilhas vegetadas por savanas pertencentes ao Escudo SulRio-Grandense (Menegat, Fernandes, Porto, Carraro, 1998).
A vegetação que se desenvolve sobre as coxilhas e morros do Escudo
é particularmente influenciada pela sua geomorfologia. Nessa região ocorre
expressiva presença de núcleos cristalinos de conformação dômica, formações
antigas que remontam ao pré-cambriano, de modo que as formas atuais de relevos
foram produzidas por desgastes erosivos durante mais de 500 milhões de anos
resultando em uma altitude média atual de 200 metros (Ross, 2000).
A diversidade de ambientes se projeta em uma grande diversidade de espécies.
De acordo com Boldrini (1997) existem 3.000 espécies campestres no Estado do
Rio Grande do Sul – considerando em conjunto os campos dos biomas Pampa e
Mata Atlântica.
As formações vegetais nessa área variam entre campestres e florestais de
pequeno porte e, freqüentemente, ocorrem intercaladas.
As formações campestres são caracterizadas por espécies de Poaceae,
Asteraceae (principalmente Eupatorium, Vernonia e Baccharis), Fabaceae, Cyperaceae,
Bromeliaceae (Dyckia, Vriesea e Bromelia), Iridaceae e Apiaceae (Eryngium). Os vassourais
por Dodonaea viscosa Jacq., algumas espécies de Baccharis e duas espécies de
Heterothalamus. Nas matinhas encontramos Lithraea brasiliensis Marchand, Schinus
molle L., S terebinthifolius Raddi, Myrsine umbellata Mart. e Butia capitata (Mart.) Becc..
(Lindman, 1906; Rambo, 1956; Porto, 1990; Boldrini, 2006).
Segundo Nabinger (2006) até 1996 o desaparecimento dos campos vinha
ocorrendo em uma taxa de 130 mil ha por ano e, a partir daí assumiu proporções
maiores. Isso ocorre pela substituição da atividade pecuária por outras atividades
e pelo avanço das áreas urbanas. Isso seria contraditório na medida em que essa
paisagem é fundamental para a cultura do gaúcho e a atividade pecuária que é
associada às tradições.
Desde 1979 três hectares de vegetação original do Jardim Botânico de
Porto Alegre são preservados com a finalidade de conservação e pesquisa, sendo
75
que a área de vegetação campestre é a mais interessante pela riqueza e raridade de
espécies.
A partir da comunicação de um estudante da UFRGS – no final da década
de 70 - da ocorrência de uma Dyckia (D. choristaminea Mez. com ocorrência restrita
a Porto Alegre e Viamão), muito rara, começaram as primeiras experiências de
manejo para tentar conter a propagação de pinus, agaves e de outras espécies
invasoras e manter o ambiente o mais semelhante ao original para favorecer a
sobrevivência das espécies nativas.
Durante um trabalho de levantamento florístico da vegetação
espontânea do Jardim Botânico (Bueno & Martins, 1986) descobriu-se
a existência de outras espécies raras e endêmicas: D. leptostackia Baker, com
ocorrência no centro-oeste e sul do Brasil; Schlechtendalia luzulaefolia Less.
endêmica do norte da Argentina, Uruguai e metade sul do Rio Grande do Sul.
Com o conhecimento da existência dessas espécies aumentou a percepção da
importância da conservação dessa área e, no mesmo ano da publicação do
trabalho, foi providenciado o cercamento da área.
Os táxons anteriormente citados como característicos da vegetação dos
morros graníticos estão quase todos presentes na área de preservação do JBPA,
com a exceção de dois gêneros de Bromeliaceae: Vriesea e Bromelia, e uma espécie de
Heterothalamus, pois apenas uma espécie - H. psiadioides Less. - ocorre até a região
de Porto Alegre.
Outras espécies endêmicas que ocorrem na área são Eryngium ciliatum
Cham. & Schleht. presente apenas no Uruguai e Rio Grande do Sul; E. horridum
Malme, endêmica do sul do Brasil, Uruguai e Norte da Argentina; E pristis Cham.
& Schleht. e E. elegans Cham. & Schleht endêmicas da metade sul da América do
Sul (Reitz, 1972; Irgang, 1974); Macrosiphonia longiflora (Desf.) Mull. Arg. e Isostigma
peucedanifolium Less. do Sul do Brasil, Paraguai e Argentina.
Motivo importante para a preservação dessa área é a presença de
várias espécies encontradas na lista oficial das espécies ameaçadas de extinção
do Estado do Rio Grande do Sul, publicada pelo Decreto no. 42.099, em 31
de dezembro de 2002. Na categoria “Vulnerável” encontramos Gomphrena
graminea Moq., Stenachaenium macrocephalum (DC.)Benth. ex Benth. & Hook. f. e
Waltheria douradinha St. Hil., na categoria “Em Perigo” Butia capitata (Mart.) Becc.,
Schlechtendahlia luzulifolia Less. e Dyckia choristaminea Mez.. Um táxon que consta na
lista como “Provavelmente Extinto” e que já foi encontrado na área é Mikania
dusenii B.L. Rob. e merece empenho a tentativa de encontrá-lo novamente.
76
Referências bibliográficas:
Boldrini, I.I. 1997. Campos do Rio Grande do Sul: caracterização fisionômica e
problemática ocupacional. Boletim do Instituto de Biociências/UFRGS.
Porto Alegre, p. 1-39.
_____. 2006. Diversidade florística nos campos do Rio Grande do Sul. In: Anais
do Congresso Nacional de Botânica, 57, 2006, Porto Alegre. p: 321-324.
Bueno, O.L.; Martins, S.M.A. 1986. A flora e vegetação espontânea do Jardim
Botânico de Porto Alegre, RS. Brasil. Fanerógamas herbáceas e arbustivas.
Iheringia. Séria Botânica, Porto Alegre n.35, p.5-23.
Irgang, B.E. 1974. Flora Ilustrada do Rio Grande do Sul: Umbelliferae II,
Gênero Eryngium L. Boletim do Instituto Central de Biociências, Porto
Alegre, n. 32, p.1-86.
Lindman, C.A.M. 1906. A vegetação no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Livr.
Universal. 356p.
Mathias, M.E.; Constance, L.; Araujo, D. 1972. Umbelíferas. Flora Ilustrada
Catarinense. Itajaí, n.UMBE, p. 1-205.
Menegat, R.; Fernandes, L.A.D.; Porto, M.L.; Carraro, C.C. 1998. Porto Alegre:
o encontro das paisagens do Cone Sul. In: Menegat, R.; Porto, M.L.; Carraro,
C.C. Fernandes, L.A.D. (Ed.) 1998. Atlas Ambiental de Porto Alegre, Porto
Alegre, Ed. UFRGS. p.7-9.
NABINGER, C. 2006. Manejo, uma estratégia para a conservação dos campos.
In: Anais do Congresso Nacional de Botânica, 57, 2006, Porto Alegre. p: 325330.
PORTO, M.L. 1990. Os campos sulinos, sustentabilidade e manejo. Ciência e
Ambiente, Santa Maria, n24, p.119-138.
RAMBO, B., 1956. A Fisionomia do Rio Grande do Sul: ensaio de monografia
natural, 2. ed. Porto Alegre: Selbach. 456p.
ROSS, J.L.S. 2000. Os fundamentos da geografia da natureza. In: ROSS, J.L.S.
Geografia do Brasil, São Paulo: Ed. Da USP. 549p.
77
O Ensino e Extensão no Instituto de
Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Gilberto M. Amado Filho
Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro
78
A partir de sua criação em 2001, a Escola Nacional de Botânica Tropical
(ENBT) passa a ser a instância formal do ensino e extensão no Instituto de
Pesquisas Jardim Botânico (JBRJ). No âmbito da nova estrutura regimental, é
competência da Escola Nacional de Botânica Tropical: planejar, coordenar,
supervisionar, promover e avaliar as atividades de ensino para a formação e
capacitação de recursos humanos em botânica, ecologia, meio ambiente, gestão
de jardins botânicos e áreas correlatas, em articulação com os demais órgãos
do JBRJ. Além da ENBT, o Núcleo de Educação Ambiental (NEA) e o Centro
Sócio-Ambiental do JBRJ atuam também efetivamente em atividades formais
e institucionais de extensão. A seguir são apresentadas as principais atividades
desenvolvidas pelo JBRJ no que concerne ao ensino e a extensão.
A coordenação de Extensão nasceu com a própria ENBT, com o
oferecimento em junho de 2001 do “Curso Internacional para Jardins Botânicos”,
uma proposta executada em conjunto com a Rede Brasileira de Jardins Botânicos
com o objetivo de capacitar recursos humanos para a criação e a gestão de jardins
botânicos. Paralelamente, o corpo técnico do Jardim Botânico se empenhou na
realização do curso “Flora e Conservação”, que significou o primeiro curso da
ENBT concebido pela equipe de pesquisadores do Jardim Botânico. Outros onze
cursos - sobre temas que iam do manejo e cultivo massivo de algas de interesse
comercial a técnicas em anatomia vegetal - seriam oferecidos até o final de 2002,
e que marcaram a consolidação da Coordenação de Extensão e exemplificam
a ampla diversificação de enfoques e público-alvo que se pretende atingir. A
Coordenação de Extensão foi concebida no sentido de uma administração
focada em potencialidades e resultados para o mercado de trabalho. Foram
estabelecidas parcerias e intercâmbios entre especialistas do Brasil e do exterior
para oferecimento de cursos voltados para questões bem delimitadas. Cursos de
Ilustração Botânica oferecidos em parceria com a Fundação Botânica Margaret
Mee se tornaram exemplo de sucesso, já que respondem à crescente demanda
para registro iconográfico das espécies brasileiras, tanto para pesquisa científica
como para atividades de divulgação artística, científica e cultural. A formação de
profissionais nessa área ocorre através do Programa de Ilustração Botânica, com
três cursos oferecidos anualmente, além de atividades complementares (estágios
supervisionados, palestras e organização de exposições e concursos). Podemos
citar também como exemplos de sucesso os cursos “O nome das plantas:
princípios e regras” e “Identificação de Madeiras Comerciais Brasileiras”.
Outra vertente da Coordenação de Extensão é a realização de cursos
de especialização (pós-graduação lato sensu) capacitando profissionais já inseridos
no mercado de trabalho, contribuindo para o melhor desempenho de suas
atividades, especialmente aquelas voltadas à conservação da biodiversidade e ao
desenvolvimento sustentável. Para tanto, os cursos propostos são organizados em
módulos, ministrados por diferentes docentes, conectados em conteúdo e com os
alunos ao final do curso tendo que apresentar uma monografia. Dois convênios
foram estabelecidos para este fim. O curso de especialização em “Educação
79
Ambiental” é realizado em parceria com a Universidade Cândido Mendes (UCAM)
e conta em seu corpo docente com a participação de professores do Núcleo
de Educação Ambiental do Jardim Botânico. O outro curso de especialização
oferecido pela Coordenação de Extensão é o de “Gestão da Biodiversidade”
realizado em parceria com o Núcleo de Ciências Ambientais, do Instituto de
Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e com a Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
Foram atendidos pela coordenação de Extensão da ENBT no ano
de 2007, 188 alunos sendo 128 pelos cursos de curta duração e 60 pelos
cursos de especialização.
A Coordenação de Pós-Graduação (PG) da ENBT é responsável pelos
cursos de Mestrado e Doutorado em Botânica (credenciado pela CAPES/MEC)
e que tem como meta principal capacitar pessoal qualificado para compor quadros
em órgãos públicos e privados, voltados para o ensino, pesquisa e políticas públicas,
com vistas ao conhecimento e conservação da diversidade vegetal. O alinhamento
de objetivos da PG com a Diretoria de Pesquisas do JBRJ é hoje meta principal
da ENBT através da vinculação de dissertações e teses aos objetivos do Centro
de Conservação da Flora e do PPBIO Mata Atlântica que permitirão uma atuação
mais integrada e direcionada das linhas de pesquisa ora em desenvolvimento
tanto na Diretoria de Pesquisas quanto pelos alunos e docentes da ENBT. A
concessão de bolsas de estudo via Centro e PPBIO para trabalhos vinculados a
espécies ameaçadas de extinção, áreas prioritárias para conservação e informação
biológica é um dos mecanismos a serem implementados para que se possa atingir
o alinhamento desejado.
Visando permitir que os temas mais relevantes para a formação e futura
prática profissional de aluno sejam abordados com profundidade adequada, o
programa de pós-graduação está voltado para três áreas de concentração e
cada uma delas com linhas de pesquisa especificas 1 - Diversidade Vegetal em
Ecossistemas Neotropicais: linhas de pesquisa, Anatomia e ultra-estrutura de
Angiospermas, Morfologia e Sistemática de Angiospermas, Sistemática e Ecologia
de Criptógamas; 2 - Conservação Vegetal em Ecossistemas Neotropicais: linhas
de pesquisa, Biologia da Conservação, Botânica Aplicada e Etnobotânica e
Coleções Científicas em Botânica e Jardins Botânicos; 3 - Paisagem, Estrutura
e Funcionamento de Biomas e Ecossistemas: linhas de pesquisa, Florística e
Fitossociologia em Ambientes Tropicais e Fitogeografia, Ecologia de Ecossistemas
Marinhos. Foram oferecidas em 2007, 18 disciplinas por docentes do quadro de
pesquisadores do JBRJ e 6 disciplinas foram oferecidas por docentes externos.
Desde sua criação, em março de 2003 até o início de 2008, foram
concluídas na ENBT, 54 dissertações de mestrado e 7 teses de doutorado. Estão,
atualmente, matriculados 52 alunos, sendo 30 de doutorado e 22 de mestrado. A
capacidade de suporte estimada, com o quadro docente atual, é de 70 discentes.
80
Portanto, projeta-se o potencial de crescimento de cerca de 25% para o quadro
discente. A Pós-Graduação em Botânica da ENBT conta, atualmente, com 15
docentes do núcleo permanente e 6 docentes colaboradores.
O Núcleo de Educação Ambiental do JBRJ foi criado em 1992. Conta
com uma equipe multidisciplinar e tem como pressupostos teóricos a educação
em museus e educação ambiental crítica e tem como pressupostos metodológicos
a atuação construtivista, interdisciplinar e participativa.
As principais linhas de ação do NEA são: a divulgação científica, a
formação de multiplicadores, a formação de educadores ambientais, a educação
para gestão ambiental, a extensão e a pesquisa em Educação Ambiental. Dentre as
atividades principais do NEA estão:1 -Laboratório Didático - Desenvolvimento
de temáticas ambientais e vivências de práticas educativas que utilizam elementos
e situações existentes no JB como ponto de partida para o público escolar; 3Um olhar educativo sobre nossas plantas - Programa voltado às coleções vivas
encontradas no arboreto do JB como o Projeto Coleção de Plantas Medicinais e a
exposição “O homem e as plantas medicinais – uma história em construção” voltado
para o público visitante; 4 - Tecendo Redes Por Um Planeta Terra Saudável - Ação
colaborativa de Educação Ambiental construída entre instituições científicas e
escolas municipais promovendo a popularização da ciência; 4 - Conhecendo Nosso
Jardim - Atividade didática em roteiros monitorados no sentido de incentivar o uso
pedagógico do Jardim Botânico em atividades de educação ambiental voltado para
professores, estudantes de licenciaturas, pedagogia e normal superior e técnicos;
5 - Coral Vivo - Ações de conservação de recifes de coral brasileiros - supervisão
das ações de mobilização social e de educação ambiental; 6 - Jardim Botânico vai
à Escola - atividades de junto ao público escolar voltada para a conservação da
flora brasileira, utilizando como instrumento de educação as suas coleções vivas e
o espaço escolar; 7 - Pesquisa em Educação Ambiental - Educação Ambiental e
formação de futuros professores, que tem como objetivo analisar como espaços
de educação não formal nas áreas de meio ambiente e ciências, podem em parceria
com as universidades colaborar com a formação inicial de professores ampliando
a percepção da realidade e propondo novas ações educativas capazes de refletir
em suas práticas docentes; 8 – Uso Racional dos Nossos Recursos – projeto de
sensibilização e ação direcionada à economia e à utilização de recursos ambientais,
vinculados aos princípios da Agenda Ambiental (A3P).
O Centro Sócioambiental começou a ser estruturado em 1989 com o
objetivo inicial de atender a demanda do mercado por mão-de-obra especializada
em manutenção de áreas verdes e também inserir as comunidades do entorno
nas atividades do JBRJ. O trabalho evoluiu rapidamente para a execução de
projetos como o “Projeto Educação e Trabalho”, voltados ao atendimento
de adolescentes entre 17 a 24 anos, de áreas periféricas da cidade e com baixa
escolaridade. Através do aprendizado das técnicas de jardinagem e acompanhados
por um trabalho educativo, o aluno passa a ter visão crítica do mundo e podem
81
então, transformar a própria realidade. Logo o Centro Socioambiental passou a
receber o apoio de instituições públicas e privadas e assim ampliar sua atuação.
O programa pedagógico do Centro Socioambiental do JBRJ auxilia estes jovens
na formação de habilidades, capacidades e virtudes e principalmente na formação
do cidadão. É oferecido aos adolescentes também a oportunidade de acesso a
recursos tecnológicos e acadêmicos disponíveis, no âmbito do conceito moderno
de responsabilidade social. Desde 2006, o Centro Socioambiental atende também
jovens entre 12 e 16 anos e busca inseri-los na sociedade direcionando-os para
uma vida participativa e valorizando seus talentos. As principais oficinas oferecidas
são: Arborização e Jardinagem, Meio-Ambiente e Cidadania, Arranjos Florais,
Relações Inter-pessoais, Reforço Escolar, Arte Educação, Esporte Educação e
Incentivo a Leitura. Deve-se destacar que dos cerca de 2 mil jovens que passaram
pelas salas de aula do Centro Socioambiental nesses quase 20 anos de atuação,
mais de 90 % deles estão empregados ou voltaram ao ensino formal.
82
Ciclo de Palestras proferidas por
Brian Huntley
Brian Huntley
South African National Biodiversity Institute
83
Biomes and ecosystems of southern Africa
Southern Africa, comprising ten countries (Angola, Botswana, Lesotho,
Malawi, Mocambique, Namibia, South Africa, Swaziland, Zambia, Zimbabwe)
occupies an area of 6 000 000 km2, with a flora of over 30 000 species, and including
four global biodiversity hotspots as categorised by Conservation International.
The region includes 17 centres of plant diversity identified by IUCN/WWF; - the
whole of the Karoo/Kalahari/Namib arid zone - including 46% of the worlds
succulent flora; the whole of the Mediterranean type ecosystem of the “Cape
Floral Kingdom” - with 9500 species in only 90 000 km2; large wetland ecosystems
- such as the Okavango delta, the saline Etosha pan; the Zambesi wetlands; forest
ecosystems from lowland rainforest of Cabinda, montane temperate forests of
the highlands of Angola, South Africa, Malawi, Mocambique; and savannas and
woodlands with high wild animal diversity. Many similarities between southern
African and Brazilian ecosystems are evident. This paper will describe the key
elements of these ecosystems a provide illustrations of typical examples.
Botanical Gardens in Africa
The history of botanical gardens of Africa south of the Sahara parallels
that of colonial settlement in the 19th century. Each of the colonial powers
established gardens in their main cities for the purpose of testing plants of possible
economic value - for agriculture, forestry, medicine, and recreation. Many of the
species introduced have become key components of the economies of Africa,
but many also have become major problems as they invade natural ecosystems
and interfere with the provision of ecosystem services such as water production,
pollination and community stability. While many of the oldest gardens have been
neglected since independence, new initiatives by the global network of botanical
gardens - such as BGCI - are assisting in the rehabilitation of these centres of
knowledge and eco-tourism potential. The results of a recent regional capacity
building project - SABONET - will illustrate these positive new ventures.
The African/South American connections in invasive plants
From the time of the earliest Portuguese navigators, and the establishment
of trading bases in the Americas and Africa, the introduction of ‘alien’ plants has had
major impacts on the economies and ecosystem dynamics of the continents on both
sides of the Atlantic. The ‘Columbian Encounter’ and the results of the voyages of
Bartholomeu Diaz, Da Gama, Magellan and many others can be interpreted both
positively and negatively. The Atlantic slave trade moved over 12 million Africans
across the Atlantic to the sugar and cotton plantations of the Americas. At the same
time, the transfer of plant genetic resources - principally cassava, maize and potatoes
- from the Americas to Africa provided the basic food crops for Africa from the
17th century onwards. With the food crops came plants that today constitute major
economic problems as they invade natural ecosystems and agricultural lands. The
impact of the African/American connection will be described.
84
Climate change in southern Africa
The phenomenon of rapid human induced climate change is now
universally recognised as one of the greatest challenges to the planet’s future. For
the past 20 years, South African scientists have actively participated in international
programmes such as the International Geosphere/Biosphere Project (IGBP) and
similar initiatives to identify and monitor current, and predict future impacts of
climatic change on the region’s ecosystems, biodiversity, agriculture, health, water
and infrastructure. This paper will present results from this research and highlight
current thinking on future scenarios.
85
A reserva de Cerrado da Fundação
Zoo-Botânica de Belo Horizonte
Juliana Ordones Rego
Maria Guadalupe Carvalho Fernandes
Inês Ribeiro de Andrade
Jardim Botânico da Zoo-Botânica de Belo Horizonte
86
A flora do Cerrado está entre as mais ricas dentre as savanas do mundo, com
uma estimativa superior a 6.000 espécies vasculares (Mendonça et al. 1998) e em função
da sua elevada diversidade biológica, o Cerrado foi reconhecido internacionalmente
como um dos 25 hotspots para conservação (Mittermeier et al. 1999).
A região de domínio do bioma Cerrado compreende uma extensa área
contínua em Goiás, Bahia, Minas Gerais e Mato Grosso e algumas penínsulas e
áreas disjuntas que se estendem por outros Estados (Eiten, 1972).
Em Minas Gerais, encontram-se áreas de Cerrado nas regiões do Alto e
Médio Jequitinhonha, Alto e Médio São Francisco, Campo das Vertentes, Zona
Metalúrgica, Triângulo e Alto Paranaíba (Brandão, 2000).
Os biomas que ocorrem em Minas Gerais vêm sofrendo uma intensa
perda de biodiversidade. Esta perda foi expressa em números quando da elaboração
da lista da flora ameaçada de extinção. Nesse estudo, 1127 espécies de plantas
foram consideradas ameaçadas de extinção, sendo aproximadamente 60% destas
espécies com ocorrência no bioma Cerrado (Fundação Biodiversitas, 2007).
Belo Horizonte está inserida na Zona Metalúrgica e localiza-se no ecótone
de duas formações vegetais: o Cerrado e a Floresta Estacional Semidecídua. O
município apresenta uma intensa degradação dos cursos d’água que, aliada à
rápida urbanização, causou o desaparecimento da maior parte da sua cobertura
vegetal natural.
A criação de unidades de conservação tem sido considerada a melhor
estratégia a ser adotada por todos os países para assegurar a diversidade de seres
vivos e a proteção de habitats ameaçados (IUCN, 1994).
Nesse sentido, a reserva da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte
(FZB-BH) cumpre um importante papel na conservação de um fragmento de
vegetação nativa em uma área urbana com intensa pressão antrópica.
A FZB-BH compreende uma área total de 1.450.000 m2, sendo que
600 mil m2 estão representados por uma Reserva de transição entre Cerrado e
Floresta Estacional Semidecídua. A reserva da FZB-BH (44º 01’ 00’’ W e 19º 51’
50’’ S) localiza-se à 850 metros de altitude. O clima pertence ao tipo Cwb pelo
sistema de Köppen e a precipitação média anual de 1.400 mm (Antunes, 1986).
O levantamento florístico é um dos estudos iniciais para o conhecimento
da flora de uma determinada área e implica na produção de uma lista das espécies ali
instaladas, sendo de fundamental importância a correta identificação taxonômica
dos espécimes e a manutenção de exsicatas em herbário, que poderão contribuir
para o estudo dos demais atributos da comunidade. Estudos fitossociológicos são
importantes para uma avaliação da ação antrópica nas comunidades vegetais e
para indicação de ações de manejo para conservação das biocenoses.
87
Alguns trabalhos já foram realizados na reserva, entre eles podemos
citar dois levantamentos fitossociológicos em áreas distintas, por Ordones et al.,
2004 e por Attala et al., 2000. Atualmente, estão em andamento um levantamento
fitossociológico em uma nova área e um levantamento florístico sistemático
abrangendo toda a reserva.
A vegetação da reserva apresenta áreas onde o ambiente, mais úmido,
comporta árvores de maior porte como Anadenanthera macrocarpa (Benth.)
Brenan, Copaifera langsdorffii Desf., Platypodium elegans Vog., Hymenaea stigoncarpa
Mart. ex Hayne, Plathymenia reticulata Benth., características de Floresta Estacional
Semidecídua. Em outros locais pode-se observar uma vegetação característica
de Cerrado, com espécies como Qualea grandiflora Mart. e Caryocar brasiliense
Camb, Tabebuia ochracea A.H. Gentry, Kielmeyera coriacea Mart.& Zucc., Dalbergia
miscolobium Benth..
O dossel pode atingir alturas que chegam a 20 m. Algumas áreas
apresentam pouca estratificação, pois a mata se encontra em estado avançado de
regeneração. Em outras, até três estratos são distintos e a luminosidade no interior
da mata é intensa, o que possibilita o desenvolvimento de muitos cipós. Algumas
clareiras ocorrem e nestas o estrato rasteiro é abundante. Espécies invasoras como
capim-gordura (Melinis minutiflora Beauv.) e capim-colonião (Panicum maximum
Jacq.) ocorrem em áreas que sofreram interferências antrópicas mais recentes.
Outras espécies exóticas foram cultivadas tais como eucalipto (Eucalyptus sp.).
Beijinho (Impatiens walleriana Hook.f.), trapoeraba (Tradescantia zebrina Hort. ex
Bosse), espada-de-são-jorge (Sansevieria spp.) e guapuruvu (Schizolobium parayba
Vell.Blake), ocorre na área como conseqüência do seu cultivo no paisagismo e na
arborização da FZB-BH.
No estudo fitossociológico realizado em 2004, o método empregado
foi o de parcelas (Mueller-Dombois & Ellenberg, 1974), para o cálculo dos
parâmetros e índices utilizou-se o software Fitopac 1 (Shepherd, 2001), e a
identificação taxonômica das espécies foi efetuada mediante consulta a herbários,
consulta a especialistas e por meio de literatura especializada. Foram instaladas
25 parcelas de 200 m2 (10 x 20 m) na área amostral. A distribuição das parcelas
foi feita sistematicamente ao longo de trilhas, distanciadas 10 m entre si. Foram
amostradas todas as plantas lenhosas eretas com circunferência do caule à altura
do solo (CAS) maior ou igual a 10 cm.
Neste estudo foram relacionadas 130 espécies de 42 famílias botânicas.
As famílias com maior número de espécies foram Myrtaceae (16 espécies), Rubiaceae
(12 espécies), Fabaceae-Papilionoideae (9 espécies), Melastomataceae (6 espécies),
seguidas por Annonaceae, Flacourtiaceae, Fabaceae-Mimosoideae, Erythroxylaceae e
Fabaceae-Caesalpinoideae (5 espécies).
88
Foram amostrados 3.070 indivíduos em 0,5 ha, correspondendo a uma
densidade total (DT) de 6.140 ind./ha e a área basal total de 12,79 m2/ha. O
diâmetro médio das plantas amostradas foi de 6,10 cm. Para as espécies, o Índice
de Diversidade (H’) foi de 3,815 e o Índice de Uniformidade (J’) 0,784. Tais
índices são semelhantes àqueles encontrados em outras áreas de Cerrado sentido
restrito (Costa & Araújo, 2001; Balduino et al., 2005; Saporetti Jr. et al., 2003; Felfili
et al., 1993; Fonseca & Silva Junior, 2004).
A espécie que apresentou a maior densidade relativa (DR) foi Miconia
albicans com 14,89%, seguida de Xylopia aromatica (7,13%), Myrsine guianensis
(4,66%), Alibertia elliptica (4,50%), Qualea grandiflora (3,97%), Bowdichia virgilioides
(2,74%), Pera glabrata (2,67%), Myrcia fallax (2,48%), Rudgea virbunoides (3,36%) e
Chrysophyllum marginatum (3,09%). As espécies que apresentaram maior dominância
relativa (DoR) foram Qualea grandiflora (12,70%), Xylopia aromatica (7,41%), Pera
glabrata (6,84%), Miconia albicans (5,96%), Plathymenia reticulata (4,05%), Bowdichia
virgilioides (4,27%), Myrsine guianensis (3,59%), Dalbergia nigra (2,99%) e Alibertia
elliptica (2,84%). As espécies que apresentaram o maior valor de importância
(VI) foram Miconia albicans (23,45%), Qualea grandiflora (18,96%), Xylopia aromatica
(17,26%), Pera glabrata (12,01%), Myrsine guianensis (10,75%), Bowdichia virgilioides
(9,51%), Alibertia elliptica (9,30%), Rudgea virbunoides (7,53%), Plathymenia reticulata
(7,49%) e Chrysophyllum marginatum (7,19%).
Os maiores valores de importância de Qualea grandiflora, Pera glabrata,
Bowdichia virgilioides e Plathymenia reticulata ocorreram devido aos elevados
percentuais de dominância. Estas espécies são árvores cujas copas, em geral,
ocupam o dossel superior e os seus diâmetros médios do tronco são relativamente
maiores que as demais. As demais espécies mais importantes ocupam o estrato
intermediário e inferior e tiveram maiores valores de importância devido à
densidade e freqüência.
Considerando todos os trabalhos realizados na Reserva, temos 835
registros no Herbário do Jardim Botânico da FZB-BH, onde foram identificadas
158 espécies distribuídas em 85 famílias.
Dentre essas, algumas espécies estão incluídas na lista da flora ameaçada
de extinção do estado de Minas Gerais de 2007 como Alstroemeria plantaginea Mart.
ex Schult. & Schult.f. na categoria “em perigo”, e, Melanoxylon brauna Schott e
Dalbergia nigra Vell na categoria “vulnerável”.
Muitas espécies vegetais encontradas na reserva da FZB-BH podem ser
usadas como alimento para a fauna. Entre elas podemos citar Acrocomia aculeata
(Jacq) Lodd, Alibertia sessilis Schumann, Allophyllus edulis (St. Hil.) Hadlk, Amaioa
guianensis Aublet, Casearia sylvestris Sw, Chrysophyllum marginatum (Hook. & Arn.)
Radlk, Copaifera langsdorffii Desf, Coussarea hydrangeafolia Benth. & Hook, Cupania
vernalis Camb, Diospyros hispida A. DC., Guettarda virbunoides Cham. Et Schltr.,
89
Hymenaea stigonocarpa Mart. Ex Hayne, Inga uruguensis Hooker at Arnott, Myrcia rostrata
DC, Rollinia sylvatica (St. Hill.) Mart, Syagrus flexuosa (Mart.) Becc, Trichilia pallida Swart,
Vismia brasiliensis Choisy, Vitex polygama Cham e Zanthoxylum rhoifolium Lam.
Assim, deve-se considerar a importância desse fragmento de vegetação
nativa, uma vez que formações florestais, além de habitats adequados para
forrageamento, são também imprescindíveis à nidificação e abrigo da fauna
remanescente de um ambiente urbano.
Alguns trabalhos de Educação Ambiental são realizados na área de
Cerrado da FZB-BH. Trata-se de uma trilha interpretativa, com cerca de 180
metros, que visa contribuir para aproximar as pessoas da natureza e sensibilizá-las
sobre a vida das espécies vegetais e animais do Cerrado. A Trilha é uma atividade
guiada, tendo a presença de um guia que acompanha grupos de dez pessoas com
duração média de 30 minutos por grupo.
A manutenção de áreas protegidas em ambientes urbanos sem quaisquer
ações de monitoramento, dadas as condições gerais de interferências que estas
áreas podem apresentar, pode trazer resultados negativos à conservação biológica,
sendo necessário o estabelecimento de um plano de manejo para a atenuação
dos seus efeitos. Acreditamos que os trabalhos aqui realizados irão contribuir
para a construção e implantação de um plano de manejo para a conservação da
diversidade biológica da reserva da FZB-BH.
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91
Jardim Botânico do Instituto de Biociências
da Unesp – Botucatu/SP
Luiz Roberto Hernandes Bicudo
Jardim Botânico da UNESP-Botucatu
92
O Jardim Botânico do Instituto de Biociências da UNESP, Campus de
Botucatu-SP, localiza-se na zona geomorfológica denominada Topo da Cuesta,
região centro sul do estado de São Paulo (23º02’55’’S 48º31’26’’W), caracterizado
pelo verão chuvoso e inverno seco. Iniciou suas atividades após a implantação do
Departamento de Botânica, na antiga Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas
de Botucatu (FCMBB). O espaço criado para esta finalidade foi inicialmente
denominado“Horto Experimental do Departamento de Botânica”, e atendia às
necessidades didáticas da Profa Dra Irina Delanova Gemtchújnicov, vinda do
Instituto de Botânica de São Paulo, para ensinar disciplinas da área de Botânica
na nova Escola. A primeira realização do Jardim Botânico foi um pomar numa
área de aproximadamente 2ha, situada na parte mais alta do Campus de Botucatu,
onde já existiam jabuticabeiras, mangueiras, abacateiros e araucárias, circundadas
por bosque de eucaliptos.
Na década de 70, devido ao crescimento do Campus Universitário uma
nova área de aproximadamente 110.000 m2 foi destinada para a instalação do
Jardim Botânico. Após a definição das vias de acesso, das áreas para construções e
locais para as coleções específicas tais como orquidário e delimitação da vegetação
nativa para preservação, as plantas do antigo Horto Florestal, que haviam sido
temporariamente levadas para a Fazenda Experimental de São Manuel, foram
transplantadas no atual JB.
Atualmente o Jardim Botânico possui coleções de gimnospermas, árvores
floríferas brasileiras, orquídeas, bromélias e cactáceas da região de Botucatu, como
também, remanescentes da vegetação natural (floresta mesófila semidecidual e
floresta ripária).
No ano de 2000, foi agregado ao Jardim Botânico, o novo prédio do
Herbário “Irina D. Gemtchujnicov”, registrado sob a sigla BOTU, pertencente
ao Departamento de Botânica, contando com uma coleção de aproximadamente
20.000 espécimes vegetais. No mesmo ano, foi concluída a construção de um lago
para cultivo de plantas aquáticas.
O Herbário e o Jardim Botânico constituem-se em fontes de material
didático e científico, promovendo o desenvolvimento de monografias, dissertações
e teses, além de outras pesquisas de docentes e estagiários principalmente do IBB, e
também de atividades de extensão previstas no Programa de Educação Ambiental.
O Jardim Botânico se localiza em uma região privilegiada do estado de
São Paulo no tocante a vegetação, pois em seu redor existiam e ainda existem
remanescentes de mata semi-decídua, floresta ripária e diversas pequenas áreas
de cerradão, cerrado e campo cerrado. O primeiro trabalho de levantamento
florístico realizado nas áreas de vegetação nativa presentes no Jardim Botânico foi
o de Grombone-Guaratini & Maimoni-Rodella (1995), tendo sido identificadas,
na área de floresta estacional semidecidual, 89 espécies, pertencentes a 78 gêneros
93
e 37 famílias, e na área de brejo e vegetação adjacente, 28 espécies, pertencentes
a 27 gêneros e 14 famílias. Nessa e em outras áreas foram e estão sendo
desenvolvidos inúmeros trabalhos de pesquisa em botânica, principalmente em
estudos morfológicos, anatômicos, histoquímicos e ultra-estruturais em plantas de
cerrado do estado de São Paulo desenvolvido no período de dezembro de 2001 a
setembro de 2006, com financiamento FAPESP – BIOTA, onde se pode destacar
a Formação de Recursos Humanos, Publicações, Participação em Congressos e
Reuniões Científicas e Divulgação do Projeto e do Bioma Cerrado. A equipe total
do projeto foi de 108 pessoas, incluindo a coordenadora (1), pesquisador principal
(1), pesquisadores responsáveis (4), pesquisadores colaboradores (18), estudantes
de diferentes níveis (76) e pessoal de apoio técnico (18).
Quanto à formação de recursos humanos, foram orientados 09 bolsistas
de Capacitação Técnica, 30 estudantes de Iniciação Científica, 04 Monografias
de Conclusão de Curso, 25 Dissertações de Mestrado, 31 Teses de Doutorado
e 02 Projetos de Pós-Doutorado, sendo que muitos trabalhos ainda não foram
concluídos em associação com o Herbário BOTU.
Quanto à produção científica no período, foram publicados 05 livros e
um capítulo de livro, sendo que três livros estão em fase de elaboração. Foram
publicados 37 artigos em revista indexada, 10 artigos encontram-se no prelo, 15
foram submetidos e 10 estão em fase final de redação, totalizando 72 artigos até o
presente. A divulgação das pesquisas em congressos e reuniões científicas na área
da Botânica foi intensa, com participação em 30 congressos e apresentação de
165 trabalhos na forma de resumos simples ou expandidos, publicados na forma
impressa ou em CD-ROM.
A divulgação do projeto de pesquisa e do Bioma Cerrado deu-se na
forma de 18 palestras para diferentes públicos e 8 cursos de extensão sobre
diferentes temas abordados no projeto. Houve intensa participação em encontros
e eventos (9) relacionados ao meio ambiente. Ênfase foi dada à produção de
diferentes materiais de divulgação e apoio didático (textos ilustrados, CD-ROM,
pôsteres, folders, cartões postais, marcadores de livros, cartazes, etc), que foram
expostos e distribuídos gratuitamente em colégios, parques, feiras, museus, jardins
botânicos e outros espaços públicos no país e no exterior. No período, foram
estudadas sob diferentes aspectos cerca de 300 espécies agrupadas em 50 famílias
de Angiospermas, além de muitas espécies de Liquens e Mixomicetos, que ainda
se encontram em fase de identificação por especialistas nestes grupos.
Durante o desenvolvimento do projeto temático, foram criadas cinco
coleções, sendo quatro biológicas e uma de Pintura Botânica, citadas a seguir:
a) Carpoteca do Herbário BOTU, que agrupa frutos e sementes de espécies do
cerrado; b) Xiloteca, sediada no Departamento de Ciências Florestais, FCA,
UNESP, Campus de Botucatu, contando com 1600 amostras de madeiras
catalogadas, sendo que cerca de 150 amostras pertencem ao cerrado; c) Coleção
94
BIOTA, formada pelas plantas coletadas durante o desenvolvimento das pesquisas
e incorporadas no Herbário BOTU; d) Liquens do Cerrado, incorporadas ao
Herbário BOTU e na coleção de liquens do Instituto de Botânica -SP, sob a
responsabilidade do Dr. Marcelo Marcelli; e) Aquarelas do Cerrado, composta
por cerca de 100 quadros.
Pretende-se dar continuidade a estas coleções visando a aumentar o
número de amostras, as quais têm sido consultadas por estudantes dos diferentes
níveis de ensino e profissionais da área. Essas coleções e as informações geradas
neste projeto têm servido de referência para os interessados no Cerrado da região
centro-oeste do estado de São Paulo e estimulado o desenvolvimento de trabalhos
multidisciplinares e multi-institucionais. Atualmente, a seguinte pesquisa sobre o
cerrado regional encontra-se em desenvolvimento: “Implementação e consolidação
de um banco de dados sobre plantas tóxicas e medicinais de cerrados da região
Centro-Oeste do estado de São Paulo”, financiado pela parceria Banco Real/
UNESP. Este projeto tem por objetivo implementar e consolidar um banco de dados
sobre as plantas potencialmente tóxicas e medicinais que ocorrem em cerrados
da região centro-oeste do estado de São Paulo, visando caracterizar aspectos da
morfologia e da reprodução, com informações bibliográficas sobre o uso dessas
plantas, tendo em vista a história e o atual estado de conservação do cerrado. Uma
das razões para escolha deste tema como objeto de trabalho é dar continuidade
aos estudos sobre a diversidade morfológica de plantas do cerrado do estado de
São Paulo, iniciados durante um projeto temático. Outra razão é o fato deste tipo
de vegetação, juntamente com fragmentos de Floresta Estacional Semidecidual
ter sido predominante na região, encontrando-se atualmente, reduzido a pequenas
áreas-fragmentos de cerrado com grande diversidade de espécies importantes
que carecem ainda de serem estudadas. Dados preliminares por nós obtidos em
um fragmento de cerrado com cerca de 170 hectares localizado no município de
Pratânia, SP, revelaram a ocorrência de inúmeras espécies com potencial tóxico
e medicinal. Em trabalho inédito realizado por nossa equipe em áreas de cerrado
do município de Botucatu (SP), foram listadas 72 espécies de plantas medicinais
das quais 15% estão incluídas na Lista Brasileira da Flora Ameaçada de Extinção,
lançada pelo Ibama em 2005. Com este projeto pretende-se: a) oferecer subsídios
científicos e técnicos para a utilização sustentável da diversidade biológica,
visando a redução dos efeitos nocivos da coleta predatória dessas plantas; b)
contribuir para a formação de recursos humanos nos diferentes níveis de ensino;
c) construir e divulgar conhecimentos sobre a biodiversidade do cerrado, e sua
importância, desenvolvendo atividades de pesquisa-ação em educação ambiental
formal e não-formal na região; d) selecionar, adequar e produzir material didático
sobre a biodiversidade do Cerrado, especialmente com relação às plantas tóxicas
e medicinais. Além disso, este projeto irá implementar e consolidar a coleção
científica de plantas tóxicas e medicinais do Herbário BOTU, iniciada na década de
60 pela Profa. Dra. Irina Delanova Gemtchunicov e incrementada por diferentes
pesquisadores, o que evidencia a relevância de sua implantação. Acredita-se,
ainda, que este projeto poderá fomentar trabalhos de educação ambiental efetivo
95
e sistemático, visando o crescimento da consciência pública sobre a importância
do uso racional e da conservação das plantas nativas do cerrado, no momento em
que se pode contar com a participação de estudantes e professores dos diferentes
níveis de ensino. O trabalho será desenvolvido no Departamento de Botânica,
Instituto de Biociências, UNESP, Campus de Botucatu. Inicialmente, constará
no levantamento das espécies vegetais com potencial tóxico e/ou medicinal
ocorrentes na região por meio de consulta a coleções do Herbário Irina Delanova
Gemtchunicov (BOTU), incluindo a revisão e atualização das informações sobre
as espécies catalogadas e documentação fotográfica das exsicatas. Serão feitas
também excursões periódicas para áreas-fragmentos de cerrado (s.l.), para a coleta
de plantas pelo método de caminhamento aleatório. Todo o material coletado
será fotografado, herborizado, identificado, catalogado e depositado no Herbário
BOTU. Frutos e sementes também serão processados para integrar a Carpoteca
do Herbário BOTU. Além disso, será feito um estudo da bibliografia disponível
para obtenção de informações sobre métodos de propagação dessas. Todas as
informações obtidas serão processadas e disponibilizadas nas mídias impressa
e eletrônica tais como: folders, catálogos ilustrados, organização de exposições
didático-científicas e CD-ROM versando sobre plantas tóxicas e medicinais do
cerrado do Centro-Oeste do estado de São Paulo.
O orquidário do Jardim Botânico está em processo de reestruturação
com o objetivo da melhoria das condições de cultivo e a recuperação das plantas
ali presentes, para uma posterior abertura a visitação. As plantas da coleção são
provenientes de coletas realizadas nas décadas de 70 e 80, assim como de coletas
realizadas atualmente.
O trabalho que está sendo realizado consiste na troca do substrato que
se encontra deteriorado; esterilização dos vasos para serem reutilizados; limpeza
das plantas para o replantio; controle de pragas tais como pulgões, cochonilhas e
caracóis, com a aplicação de inseticidas de baixa toxicidade ou naturais, como por
exemplo calda de fumo e óleo de neem. Ocorre também a produção de mudas
através de propagação vegetativa para proporcionar um aumento quantitativo
da coleção. Uma das estratégias recentemente desenvolvidas é a capacitação de
alunos de graduação em Ciências Biológicas e Engenharia Florestal para o cultivo
e reconhecimento dos principais gêneros nativos e exóticos de interesse comercial.
A identificação do material é feita através de consultas a exsicatas, bibliografia
especializada e taxonomistas, contando sempre com a colaboração do Prof. Dr.
Fábio de Barros, do Instituto de Botânica de São Paulo. Está sendo também
elaborado um arquivo fotográfico, para ser utilizado na identificação visual do
material em fase reprodutiva, para a confecção de um folder ilustrado, contendo
as principais dicas de cultivo para iniciantes e dados sobre a conservação de
espécies ameaçadas. Este folder será distribuído aos visitantes do Jardim Botânico
e também utilizado em aulas de educação ambiental para alunos do ensino
fundamental e médio.
96
Paralelamente ao projeto de recuperação do orquidário, está sendo
realizada uma avaliação de diferentes tipos de substratos alternativos ao uso do
xaxim, tais como: fibra de côco, casca de Pinus, Sphagnum. O plantio direto em
pequenos galhos ou troncos de árvores e a observação e coleta de informações
sobre as condições de luminosidade, umidade relativa e temperatura favoráveis a
cada tipo de espécie em cultivo, também estão sendo avaliados.
Atualmente participam do projeto 3 alunos de graduação em Ciências
Biológicas e 1 aluno da pós graduação em Ciências Biológicas - Botânica do
nosso instituto. Outro projeto em fase de execução é a implantação do Jardim
Sensorial para atender a deficientes físicos. A implantação deste Jardim faz parte
do trabalho de conclusão de curso de um servidor técnico-adminstrativo, lotado
no JB, que atualmente freqüenta o último ano do Curso de Ciências Biológicas
nas Faculdades Regionais e Integradas de Avaré, SP.
No Jardim Botânico tem também ocorrido o plantio de mudas de
árvores nativas, patrocinados por ONGs e empresas regionais, como parte do
encerramento de eventos realizados pelas mesmas.
Encontra-se também em desenvolvimento o projeto “O Jardim Botânico
vai à Escola”, que conta atualmente com 9 estagiários de extensão universitária,
bolsistas ou voluntários, que atendem as escolas do município de Botucatu e região.
Este trabalho esbarra na dificuldade em relação à constante troca dos alunos,
por se tratarem em sua maioria de alunos de primeiro ano, que depois trocam
essa atividade por atividades de pesquisa. Outro projeto de extensão permite a
abertura do JB durante os finais de semana e feriados, com a colaboração de
um aluno bolsista que fica de plantão para orientar os visitantes em relação a
cuidados e deveres durante a visita. O JB também é palco para realizações de
eventos culturais e artísticos com apresentações de grupos musicais, teatro e da
Orquestra Municipal da Prefeitura de Botucatu/SP.
Por meio destas inúmeras atividades e dados apresentados consideramos
que o Jardim Botânico do IBB / UNESP tem desempenhado suas funções e
por meio dos dados científicos acumulados, pode contribuir para o estudo e
conservação da flora da região de Botucatu/SP.
97
A Estação Científica Ferreira Pena, complexo
florestal na Amazônia Ocidental do MPEG,
Belém-PA
Maria de Nazaré do Carmo Bastos
Museu Paraense Emílio Goeldi
João Ubiratan Moreira dos Santos
Universidade Federal Rural da Amazônia
98
Introdução
Possuir uma área conservada para pesquisas em longo prazo, que
possibilitasse compreender a dinâmica do equilíbrio da flora e da fauna em
diversos ambientes amazônicos, sempre foi um dos desejos de pesquisadores
do Museu Paraense Emílio Goeldi, que se dedicam à busca de subsídios para a
conservação e preservação da diversidade destes ecossistemas, tanto que no final
do século XIX, o então diretor desta Instituição, o naturalista Emílio Goeldi,
pleiteou ao Governo do Pará uma área conservada para pesquisas, não tendo,
porém, seu pleito atendido. A partir da década de 70, o botânico João Murça Pires
empenhou-se na obtenção de tal área e, em 1979, depois de seguidos esforços,
conseguiu que o governo do Pará cedesse ao Museu Goeldi uma área de 10.000ha,
no município do Acará-PA, que sequer foi ocupada pela Instituição devido a
problemas com madeireiros. (Lisboa, 1997).
Em 1990, o Museu Goeldi retomou a questão e procurou um local que
fosse ideal aos seus objetivos e confiando na área escolhida pelos botânicos João
Murça Pires, Ima Vieira e Rafael Salomão, nasceu a Estação Científica Ferreira
Penna/ ECFPn. (Lisboa, 1997). Uma área quase intacta, situada em uma das maiores
Flonas da região, possuindo alguns dos ecossistemas naturais mais representativos
da região Amazônica, destinada a estudos científicos de longo prazo, visando
contribuir para um melhor conhecimento dos ecossistemas tropicais e de seu uso
pelas populações regionais e à formação de recursos humanos.
Hoje se têm conhecimento de que as áreas protegidas representam um
dos meios mais importantes para conservar a biodiversidade, tendo um efeito forte
na inibição do desmatamento, tanto em unidades de conservação como parques
nacionais, reservas biológicas e terras indígenas (Ferreira et al., 2005). Estas áreas
permitem estudos de longo prazo para entendimento da dinâmica biológica e dos
efeitos das mudanças climáticas, visando a manutenção a integridade biológica.
A Estação Científica Ferreira Penna.
A Estação Científica Ferreira Penna (ECFPn) é uma das bases de
pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), situada no interior da
Floresta Nacional de Caxiuanã (1º42’30”S e 51º31’45”W), no município de
Melgaço, Estado do Pará, 400 km a oeste de sua capital, Belém, resultado de
um convênio celebrado com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), que cedeu por 30 anos uma área isolada
e conservada, que serve de base avançada para pesquisadores que desenvolvem
estudos sobre florestas tropicais, gerando subsídios para o uso sustentável da
mesma. O seu nome é uma homenagem ao fundador da Sociedade Philomática,
entidade que deu origem ao Museu Paraense Emílio Goeldi, em 1866. É uma área
de 33.000ha, cuja multiplicidade de ecossistemas é uma das características naturais
mais interessantes sendo constituída por ambientes com alta biodiversidade local
e baixa densidade demográfica, sendo está uma das razões de sua escolha.
99
Para atender os objetivos de seus visitantes, cientistas, bolsistas,
estudantes, técnicos, de diversas instituições brasileiras e estrangeiras, a ECFPn
conta com apoio logístico tanto em sua base física em Melgaço, como na cidade
de Breves, local de passagem, estratégico para quem vai à Caxiuanã. A base de
apoio em Breves é uma residência com boa infra-estrutura, equipada com veículo
tipo caminhonete, tele fax e rádio de comunicação. A de Melgaço, construída às
margens do rio Curuá, no interflúvio que este rio forma com o rio Puraquequara,
em Caxiuanã, possui uma área urbanizada de 6.000m2 e 1.700m2 de área
construída que inclui, entre outros, laboratórios, alojamentos (apartamentos e
redário, onde se armam redes para dormir), auditórios, biblioteca, sala de leitura,
refeitório, embarcações para excursões fluviais (barco e lanchas voadeiras).
O abastecimento energético da ECFPn é executado por sistema híbrido
diesel–solar; possui aparelhos para comunicação, TV, computadores, estufas, entre
outros e conta ainda com uma torre de observação de 54 m de altura a 3 Km da
base física, bem como uma pequena estação climatológica.
Esta infra-estrutura, resultado de um acordo de Cooperação Técnica
firmado entre o Brasil e a Grã-Bretanha/Irlanda do Norte, através do Conselho
Nacional de Desenvolvimento de Pesquisas Científicas-CNPq/Museu Goeldi
e Overseas Development Administration (ODA), garante o atendimento de 50
pessoas simultaneamente. (Lisboa 1977)
A Estação Científica é uma área de conservação in situ composta
predominantemente de floresta densa de terra firme, florestas de inundação
(igapó e várzea), vegetação secundária (desde capoeira recente até com mais de 50
anos), uma pequena porção de vegetação savanóide (campo hidromórfico), além
de vegetação aquática distribuída ao longo das margens dos cursos d’água.
A Floresta de terra firme, do ponto de vista da flora, é uma das áreas
com maior riqueza de espécies da região de planície da Amazônia oriental (até
200m de altitude) (Almeida et al. 1993). Na ECFPn, representa 85% da área,
consequentemente, tem sido até o momento, objeto de maior atenção por parte
dos botânicos. (Lisboa et al.,1997). A sua diversidade as vezes surpreende, nela
foram encontradas, por exemplo, as espécies Pithecellobium unifoliolatum Benth. e
Martiodendron parviflorum (Amshoff) R. Koeppen, consideradas raras para toda
a Amazônia e Phoebe cinnamomifolia (Kunth) Nees (Lauraceae), cuja ocorrência
estava restrita à Colômbia e ao Equador. (Lisboa et al., 1997). Apresenta a média
de 189 espécies arbóreas, com 557 árvores por hectare, numa amostragem de 13
hectares. A família com maior diversidade é Sapotaceae com 63 espécies, seguindose Chrysobalanaceae com 54 e Lauraceae com 47. O sub-bosque tem composição
muito variada, às vezes com presença significativa de cipós e palmeiras. Entre as
espécies mais importantes do ponto de vista econômico, destacam-se: Dinizia
excelsa Ducke (angelim); Manilkara surinamensis Miq. (maçaranduba); Vouacapoua
americana Aubl. (acapu), Virola surinamensis Aubl. (Ucuuba) e Bertholletia excelsa
Bonpl. (Castanha do Pará).
100
A Foresta de Várzea , rica em nutrientes por crescer sobre solos de
aluvião, apresenta espécies bem características deste ambiente, como: Pachira
aquatica (Aubl.) K. Schum. (mamorana) e Symphonia globulifera L.f. (anani); Euterpe
oleraceae Mart. (açaí). Esta última considerada principal produto de complemento
alimentar, serve ao consumo doméstico e como produto de comercialização para
as comunidades (Santana, & Lisboa, 2002) tendo um grande valor no mercado
regional e nacional.
A Foresta de Igapó possui estrutura relativamente mais baixa em
comparação a floresta de terra firme e apresenta as famílias Fabaceae e Clusiaceae
como predominantes.
O Museu Goeldi, como Jardim Botânico, busca atuar como centro de
recursos para conservação, pesquisa, desenvolvimento e educação, cumprindo
seu papel na interface entre a conservação in situ e ex situ. No parque zoobotânico
cultiva espécies provenientes da flora amazônica, como a Aniba rosaeodora Ducke,
o pau rosa, que se encontra na lista de plantas ameaçadas de extinção, na categoria
em perigo. Na base física de Caixuanã, exerce a conservação in situ ao mesmo
tempo em que se realizam pesquisas de processos físicos e biológicos necessários
a compreensão da diversidade biológica, vital para a conservação de espécies,
como: taxonomia, estrutura, composição e dinâmica da biodiversidade, dinâmica
de população de plantas e animais; epidemiologia de doenças transmissíveis;
organização e reprodução social das populações do entorno; Arqueológicos,
geológicos, geomorfológicos, pedológicos, climatológicos e hidrológicos.
Prioriza também educação e treinamento, que são atividades inseparáveis
de um programa consistente de pesquisa, promovendo cursos para a formação
de profissionais das comunidades locais. Portanto, uma das principais metas da
ECFP é incentivar a formação de técnicos na região Amazônica, além de apoiar
os Programas de Pós-Graduação do MPEG, viabilizando o desenvolvimento
de dissertações de mestrado e teses de doutorado para os estudantes. No que
tange a formação científica a nível médio e fundamental, desenvolve programas e
atividades com as escolas das comunidades localizadas no entorno da Estação.
Através de editais do Ministério de Ciência e Tecnologia(MCT), a ECFPn
tornou-se local de realização de importantes Pro gamas de pesquisa visando a
conservação de florestas tropicais, onde atualmente, destacam-se o Programa de
Pesquisa em Biodiversiades - PPBio; Programa de Grande Escala da BiosferaAtmosfera (Large Scale Biosphere- Atmosphere Experiment in Amazônia-LBA)
e o Projeto Ecologia, Avaliação e Monitoramento das Florestas da Estação
Científica Ferreira Penna, parte do projeto Tropical Ecology, Assessement and
Monitoring - TEAM.
O Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera (LBA), na
Amazônia, uma iniciativa internacional de pesquisa liderada pelo Brasil. O LBA
101
está centrado em torno de duas questões principais abordadas através de pesquisa
multidisciplinar, integrando estudos de Ciências Físicas, Químicas, Biológicas e
Humanas e planejado para gerar novos conhecimentos, necessários à compreensão
do funcionamento climatológico, ecológico, biogeoquímico e hidrológico da
Amazônia, do impacto das mudanças do uso da terra nesse funcionamento, e das
interações entre a Amazônia e o sistema biogeofísico global da Terra.
O Projeto Tropical Ecology, Assessement and Monitoring-TEAM.
visa monitorar os ecossistemas tropicais ao longo de toda faixa tropical da terra,
apoiando cerca de 50 pontos de estudo estruturados de modo a garantir que
os vários tipos de habitats de floresta tropical sejam monitorados, e que eles
representem os diferentes uso da terra que ameaçam a biodiversidade. O Projeto
TEAM em Caixuanã- “Ecologia, Avaliação e Monitoramento das Florestas da
Estação Científica Ferreira Penna”, foi implantado em 2002, numa parceria
entre o Museu Goeldi e a Conservação Internacional do Brasil e através dele,
monitoram-se em longo prazo diversos grupos da fauna, flora, clima, solo e
variáveis ambientais em seis parcelas de terra firme. As pesquisas são acessíveis a
todas as equipes através de um banco de dados sobre florestas tropicais.
O Programa de Pesquisa em Biodiversidade – PPBio é um
programa gerado no âmbito da Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa
e Desenvolvimento – SEPED, do Ministério de Ciência e Tecnologia, a partir de
demandas concretas vindas da comunidade científica e da sociedade brasileira.
Foi desenvolvido em consonância com os princípios da Convenção sobre
Diversidade Biológica, com as diretrizes da Política Nacional de Biodiversidade
(Decreto 4.339, de 22/08/2002) e com as prioridades apontadas pela Conferência
Nacional de Ciência e Tecnologia de 2002. Criado em 2004, tem a missão de
desenvolver uma estratégia de investimento em C & T que priorize e integre
competências em pesquisa e transferência de conhecimento em biodiversidade.
No Bioma Amazônia, visa à criação de um sistema integrado de informação
sobre biodiversidade para facilitar a gestão do patrimônio natural, assim como
fortalecer ações de pesquisas para o desenvolvimento sustentável da Amazônia.
O programa está apoiado em três componentes: Coleções; Inventários, e Projetos
temáticos que focam o uso da biodiversidade. (http://marte.museu-goeldi.br/
ppbio/)
O Programa de Apoio à Pesquisa promove o conhecimento científico
da região de Caxiuanã nas diversas áreas do conhecimento, com o objetivo
expandir o número de pesquisas na ECFP e de apoiar a formação de recursos
humanos altamente qualificados para o estudo da diversidade social e biológica
do Bioma Amazônico, viabilizando o desenvolvimento de teses e dissertações.
Além disso, o Programa visa atender a uma vocação de Laboratório Nacional
atribuída à Estação Científica Ferreira Penna, possibilitando a vinda de membros
de outras instituições brasileiras que não possuem muitas oportunidades de atuar
no Bioma Amazônico e assim contribuir para a investigação e a conservação da
biodiversidade amazônica.
102
Programa Floresta Modelo de Caixuanã, uma interface entre
a pesquisa científica e os moradores da região, há 11 anos, contribui para a
conservação e o manejo sustentado da floresta Nacional de Caxiuanã, constituindo
um modelo aplicável a outras comunidades amazônicas. A área de educação do
Programa agrega as demais atividades e é voltada à prevenção e superação dos
problemas ambientais buscando resgatar também a valorização da memória
social e do patrimônio cultural das comunidades, produzindo materiais didáticos
de temáticas locais e a capacitação de professores. Já é tradicional a realização
anual de uma Gincana, durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que
congrega a população dos municípios vizinhos de Portel e Melgaço em momentos
de lazer, prática esportiva, cultural e ações de cidadania. Nesta gincana promovemse várias oficinas nas diversas áreas de atuação do Goeldi e programa de auditório
interativo com apresentação de teatro, brincadeiras, hora do conto, vídeos, jogos
e informações sobre a fauna, a flora e homem da região amazônica.
O Museu Paraense Emílio Goeldi, como Instituição de Pesquisa e
Jardim botânico, tem cumprido sua missão de produzir e difundir conhecimentos
sobre os sistemas naturais e sócio-culturais da Região Amazônica, desenvolvendo
modelos de pesquisas que viabilizam o desenvolvimento sustentável, a formação
de recursos humanos, a educação científica e a inclusão social. A Estação Científica
Ferreira Penna, é um dos instrumentos usados para cumprir esta missão, gerando
conhecimentos que já resultaram em mais de 500 publicações especializadas e de
divulgação, além de dezenas de dissertações de pós-graduação. Um grande legado
para a conservação das florestas tropicais, para deter a extinção de espécies e
utilização sustentável do patrimônio genético de plantas.
Referências Bibliográficas
Almeida,S.S.; Lisboa, P.L.B. & Silva, A.S.L. 1993. Diversidade florística de uma
comunidade arbórea da Estação Científica Ferreira Penna em Caxiuanã
(Pará). Bol Mus. Para. Emílio Goeldi. sér. Bot., Belém. 9(1):93-188.
Ferreira. L.V.; Venticinique, E.& Almeida, S.S. 2005. O desmatamento da
Amazônia e a importância das áreas protegidas. Estudos Avançados. Museu
Goeldi.19(53):1-10
Lisboa,P.L.B.; Silva, A.S.L. & Almeida, S.S. 1997. Florística e estrutura dos
ambientes. In: LISBOA,P.L.B (ed.) Caxiuanã. Belém, Museu Paraense Emílio
Goeldi.p. 163-183.
Santana, M.R.;Lisboa, P.L.B. 2002. Estratégias de sobrevivência. In: LISBOA,
P.L.B (ed.) Caxiuanã: populações tradicionais, meio físico e diversidade
biológica. Belém, Museu Paraense Emílio Goeldi. p. 95-126.
103
A visão a conservação a partir do público de
um jardim botânico
Carmen Silvia Lemos Menezes Machado
Jardim Botânico do Rio de Janeiro
104
Jardins Botânicos são áreas protegidas por legislação específica –
Resolução CONAMA nº 339, de 25.09.20031 , na qual estão discriminados
critérios e categorias de classificação para essas instituições.
Em seus objetivos, a Resolução destaca no Inciso I, dois importantes
pontos para os quais chamamos a atenção quando falamos em público2 . São eles:
“a conservação3 e a preservação4 (grifo nosso) das plantas (...) com a finalidade
de difundir seu valor multicultural e sua utilização sustentável”.
Preservação e conservação são conceitos básicos e importantes, muito
utilizados em áreas protegidas. Suas diferenças evidenciam critérios de gestão
e manejo desses espaços, especialmente nas unidades de conservação descritas
pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação - SNUC5 . Estes conceitos
também estão descritos nesta Lei e, a fim de manter uma correlação de termos,
nos basearemos nas especificidades do conceito de conservação, melhor
detalhado nas Normas Internacionais de Conservação para Jardins Botânicos
(2001), específicas para estas instituições.
Os jardins botânicos, de acordo com as Normas Internacionais,
desempenham importante papel no que se relaciona a conservação e uso
sustentável da biodiversidade. Constituem pólos de pesquisas direcionadas ao
tema e, por terem grande acesso de público, tornam-se agentes de ligação entre
a conservação, uso e importância desses recursos para a vida dos indivíduos.
A conservação da diversidade biológica é, portanto, um ponto importante no
gerenciamento dos recursos da natureza e está desta forma, vinculada aos jardins
botânicos, especialmente quando falamos nas formas de conservação (in situ, ex
situ e integrada), detalhadas mais adiante.
Um marco na trajetória dos Jardins Botânicos foi a Conferência das
Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento – CNUMAD, mais
1
“Área protegida, constituída no seu todo ou em parte, por coleções de plantas vivas
cientificamente reconhecidas, organizadas, documentadas e identificadas, com a finalidade de estudo,
pesquisa e documentação do patrimônio florístico do País, acessível ao público, no todo ou em parte,
servindo à educação, à cultura, ao lazer e à conservação do meio ambiente.”
2
Para fins deste trabalho adotamos a definição de público conforme Teixeira Coelho
(2004), “o conjunto de pessoas que não apenas praticam uma atividade determinada, mas diante
dela assumem um mesmo tipo de comportamento, sobre ela expressam opiniões e juízos de valor
consideravelmente convergentes e dela extraem sensações e sentimentos análogos...” (p. 323).
3
Conservação da natureza – “o manejo do uso humano da natureza, compreendendo a
preservação, a manutenção, a utilização sustentavel, a restauração e a recuperação do ambiente natural... garantindo a sobrevivência dos seres vivos em geral” e; - Conservação in situ – “conservação de
ecossistemas e habitats naturais e a manutenção e recuperação de populações viáveis em seus meios
naturais (...) http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985.htm.
4
Preservação – “proteção em longo prazo das espécies, habitats e ecossistemas, além da
manutenção dos processos ecológicos, prevenindo a simplificação dos sistemas naturais” (LEI 9.985
de 18 de julho de 2000). http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985.htm.
5
SNUC – Lei º 9985 de 18.07.2000, que “estabelece critérios e normas para a criação, implantação e gestão das unidades de conservação” http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985.
htm.
105
conhecida como Rio 92, onde importantes documentos foram gerados, entre eles,
a Convenção sobre Diversidade Biológica – CDB e a Agenda 21, que evidenciaram
a “urgência em promover uma aproximação real entre a sociedade e os problemas
ambientais” (NORMAS, 2004, p.72). A CDB tem grande influência nas ações dos
jardins botânicos, especialmente aquelas voltadas à conservação da biodiversidade,
conhecimento tradicional, valor intrinseco e econômico das espécies vegetais.
Trata-se de um dos mais “importantes instrumentos internacionais relacionados
ao meio-ambiente e funciona como um guarda-chuva legal/político para diversas
convenções e acordos ambientais mais específicos. A CDB é o principal fórum
mundial na definição do marco legal e político para temas e questões relacionados
à biodiversidade” (http://www.cdb.gov.br/CDB acesso em 05.07.2008).
Assim, a partir das determinações da CDB com relação às diretrizes
de conservação das plantas, e a importância de se aproximar a sociedade das
questões ambietais, os jardins botânicos destacaram-se como agentes desta
aproximação, uma vez que têm por tradição, facilidade em atrair grande e variado
público para suas dependências e, através das atividades desenvolvidas em sua
área de visitação, tem a posssibilidade de explorar temas relacionados aos grandes
problemas ambientais.
Esta visão foi reforçada pela necessidade de tornar a sociedade capaz
de enxergar o impacto de suas vidas no ambiente, a fim de torná-la capaz de
formular juízo de valor acerca das reais necessidades do indivíduo em termos
de seu consumo, uso dos bens da natureza e seu uso sustentável. Para este
fim, os jardins botânicos mostram-se perfeitamente preparados, uma vez que
desenvolvem pesquisas voltadas para o estudo da biodiversidade das plantas,
seus usos e benefícios, assim como, trabalham a perspectiva ambiental e suas
influências no cotidiano da sociedade.
Assim, é importante que os jardins trabalhem conceitos essenciais ao
desenvolvimento de suas atividades visando engajar seu público transformandoos em co-participes de suas ações. O conceito de conservação está estreitamente
relacionado aos jardins botânicos, o que nos leva a considerá-lo sob os três
aspectos abordados nas Normas Internacionais de Conservação para Jardins
Botânicos, quais sejam:
1) conservação ex situ – “conservação e manutenção de amostras de organismos
fora de seu habitat natural (...)
2) conservação in situ – “conservação da biodiversidade no local de origem do
recurso biológico e;
3) conservação integrada – combinação das abordagens complementares
da conservação in situ e ex situ para a proteção e administração da diversidade
biológica (...) (NORMAS, 2004, p. 105).
106
É importante que o significado e a abrangência desses termos estejam
claros para o público de um jardim, principalmente quando uma das metas
descritas nas missões destes “espaços de natureza6 ” são a educação e a informação
da sociedade.
Visando obter uma análise das percepções do público quanto ao conceito
de conservação, desenvolvemos um questionário com 6 perguntas objetivas e uma
pergunta aberta, que foram aplicados à 50 pessoas escolhidas aleatoriamente no
arboreto do Jardim Botânico do Rio de Janeiro – JBRJ, a fim de analisar até que
ponto e de que forma acontece a absorção e compreensão deste conceito pelo
público que visita o Parque.
O método utilizado neste trabalho foi o qualitativo, visando buscar
as especificidades contextuais do momento da pesquisa. Segue-se, portanto,
a orientação de Howard Becker (1997), onde são trabalhadas as descrições,
comparações e interpretações do público selecionado, tornando a pesquisa mais
participativa e interativa. Embora, nos resultados apresentemos alguns números
percentuais, não estamos nos utilizando da metodologia estatística por dois
motivos: 1. Por não estarmos trabalhando com um universo representativo do
total de visitantes do JBRJ e; 2. Por estarmos levando em consideração aspectos
subjetivos das interpretações dos entrevistados. As perguntas foram:
1. Conservar significa:
( )manter, cuidar;
( )usar com critério (sem esgotar recurso);
( ) proteger (preservar)
2. Você acha que existem diferenças entre a área de visitação o Jardim e as áreas
remanescentes de mata atlântica (encosta) que envolve o Jardim? Cite três.
3. Você acha importante que existam áreas como a da Floresta da Tijuca. Por
quê?
( )pela presença de diferentes tipos de plantas;
( )porque são representativas das plantas características do Estado e auxiliam no
estudo das plantas no seu local de origem;
( )para ensino e pesquisa.
4. E as áreas de jardins, ou de visitação porque são importantes para você?
( ) porque aprendo sobre plantas;
6
“espaços de natureza” é uma adaptação a expressão utilizada por Diegues (2002) –
“espaços de natureza selvagem”, para se referir a áreas com características de natureza intocada tais
como as unidades de conservação (MACHADO, 2005, p. 45).
Esta questão foi baseada no projeto final de especialização (questões 9 e 10, p. 41) de Pedro Jorge
Pereira no Curso de Especialização em Gestão da Biodiversidade, na Escola Nacional de Botânica
Tropical e Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2007.
107
( ) porque é um lugar bonito, bom para passear e seguro para estar no Rio;
( ) porque tem muitas plantas diferentes e aprendo sobre elas.
5. Você costuma prestar atenção nas placas de identificação das plantas? Porque
você acha que existem plantas de tantos lugares diferentes no JB?
( ) para ensino;
( ) porque ajudam a mostrar ao visitante o valor das plantas de outros lugares;
( ) porque mostram a grande variedade, diversidade de plantas existentes no
Brasil e no mundo.
6.
Você acha que, de modo geral, os objetivos das pesquisas do Jardim
Botânico são destinados a:
( )controlar/minimizar a perda em diversidade de plantas;
( ) contribuir para assegurar o uso sustentável dos recursos da natureza,
sensibilizando os usuários do jardim para a diversidade de plantas;
( ) identificar as semelhanças e diferenças entre as plantas do mundo, mostrando
a importância da diversidade.
7. Você acha que o JBRJ tem um papel importante na conservação das plantas?
S/N Por quê?
( ) porque conhece e participa das atividades oferecidas pelo JBRJ;
( ) porque já ouviu falar;
( ) porque conhece sua missão institucional.
A análise dos questionários foi baseada na interpretação7 do indivíduo
em relação ao conceito de conservação, com o objetivo de avaliar a percepção
dos visitantes quanto a esse conceito, tão importante para os jardins botânicos,
e, através dela, verificar-se até que ponto os visitantes de um jardim, absorvem a
informação disponibilizada em seu arboreto.
Guimarães (2002) afirma que a interpretação ambiental é a decodificação
da linguagem científica em informação de fácil compreensão, desperta a atenção
do público, levando-o a descobrir as influências que o meio pode exercer sobre
suas vidas. Assim, a compreensão por parte do público torna-o um agente ativo
e participativo, capaz de perceber a inter-relação entre a conservação das plantas
e a melhoria da qualidade de vida. “A interpretação ambiental é a viabilização
da comunicação entre o visitante e esses recursos naturais da área visitada”
(SHARPE, 1982, p.3).
Dessa forma, é importante que o público entenda e se interesse pelas
especificidades de um jardim botânico, para que os temas abordadados por estas
7
De acordo com a National Association for Interpretation – NAI, “interpretação é um
processo de comunicação que faz a conexão emocional e intelectual entre o interesse do público e os
objetivos da área com relação a seus recursos naturais” (tradução do autor) http://www.interpnet.
com.
108
instituições sejam instigantes, divertidos e capazes de atrair cada vez mais pessoas
para suas dependências.
De maneira geral as pessoas se prontificaram a responder o questionário,
a maior parte delas 66% de mulheres e 34% homens; a faixa etária com maior
representatividade esteve entre os 41 e 50 anos. O público foi selecionado
aleatoriamente, abordado no arboreto da instituição como explicado anteriormente.
Analisando as 7 respostas do questionário podemos inferir que a
compreensão do termo conservação ainda não está bem entendido uma vez que
as respostas ficaram entre: 46% proteger (no sentido de preservar) e; 30% manter,
cuidar (usado no sentido de zelo), demonstrando que tanto um quanto o outro,
têm significados próximos.
Quando perguntados sobre a importância de áreas como a floresta da
tijuca, o entendimento é de que essas áreas são importantes pela representatividade
de espécies da mata atlântica, que possibilitam o estudo e a pesquisa para 82%
dos entrevistados, 46% que optaram pela presença de diferentes espécies em
um mesmo lugar e que, por isso, auxiliam no estudo das plantas em seu local de
origem e, 36% que acham que esses lugares são propícios ao ensino e a pesquisa
como um todo.
As áreas de visitação dos jardins botânicos são importantes para 56%
dos entrevistados por serem lugares agradáveis para se passear, bonitos e seguros;
24% acham importantes porque mostram diferentes espécies de plantas e
oferecem informações sobre elas, e 20% porque aprendem sobre plantas quando
visitam essas áreas.
As placas de identificação das espécies para a maioria 94%, quase que
todos os entrevistados, acham que as placas mostram a grande variedade/diversidade
de plantas existentes no Brasil e no mundo; 4% acham que as placas ajudam a
mostrar ao visitante o valor das plantas de outros lugares e, 2% acham que as placas
auxiliam no ensino. Os comentários feitos acerca dessa questão eram em torno da
curiosidade sobre a origem dos espécimes e que essa informação era bastante visível
e distribuída por todo o jardim, porém, em algumas espécies, essa informação não
existia. As placas na verdade são vistas mais como uma curiosidade.
Sobre o conhecimento acerca dos objetivos das pesquisas do Jardim
obtivemos: 48% das respostas apontaram a identificação das semelhanças e
diferenças entre as plantas do mundo, destacando a importância da diversidade
das espécies; 36% acreditam que as pesquisas contribuem para assegurar o
uso sustentável dos recursos da natureza, sensibilizando os usuários do jardim
para a diversidade de plantas e, 16% acham que as pesquisas contribuem com
o controle/minimização da perda da diversidade das plantas. Esta questão foi
muito interessante a medida em que os entrevistados, muitas vezes, alegavam que
109
essas pesquisas não eram divulgadas para o público e isso dificultava um pouco
“acertar” a resposta.
Na última pergunta, sobre a importância do jardim botânico na
conservação das plantas, 58% dos entrevistados associaram esta importância à
missão institucional do jardim, 30% acham importante porque já ouviram falar e
apenas 10% acham importante porque já participaram ou conhecem as atividades
oferecidas pela instituição; uma pessoa deixou de responder alegando não
conhecer a missão institucional do Jardim. É importante salientar nesta questão
que, embora o público, em alguns momentos se encontre confuso em relação à
alguns ítens, o Jardim Botânico do Rio de Janerio vem conseguindo difundir sua
missão institucional, um importante passo na aproximação entre a instituição e seu
público, um elo importante na questão ambiental que vem procurando inserir a
sociedade como um todo nas tomadas de decisão relacionadas ao uso sustentável,
responsabilidade e conservação do meio ambiente.
A única questão aberta foi respondida por 56% dos entrevistados, sendo
que um deles não citou diferenças entre a área de visitação e a de encosta (ou
floresta) do JBRJ. A maioria citou questões de segurança, limpeza e ordenação
como diferenças básicas para a área de visitação. Esta questão foi levantada visando
obter do público, seu entendimento relacionando as duas áreas em relação à suas
especificidades; 46% acham que não há diferenças. A maior parte das respostas
consideraram o jardim como área de lazer, um lugar seguro para passear. O fato
de ser um instituto de pesquisas só foi levantado por 12% dos entrevistados, isto
é, 88% do universo pesquisado não associa a área de visitação como um campo
de pesquisas.
Os jardins botânicos são espaços ideais para o desenvolvimento de
atividades direcionadas à seus visitantes, visando o engajamento e a participação
destes nas atividades desenvolvidas em seu arboreto. Por ser um “espaço
de natureza” e por seu grande afluxo de visitantes, tem condições, através
de exposições, trilhas, etc, de inserir informações direcionadas e propiciar
oportunidades de interação entre o público e os recursos naturais disponíveis em
sua área de abrangência. A maioria das respostas no entanto, demonstram que o
público (entrevistados) tem o Jardim como uma área para estudo das plantas, mas
o que realmente aparece é que o Jardim existe como área de laser, suas pesquisas
parecem estar descoladas da área de visitação.
Referências Bibliográficas
Becker, H. S. 1997. Métodos de Pesquisa em Ciências Sociais. Editora
HUCITEC. 3ª ed. São Paulo.178p.
CNMA, RBJB, JBRJ, BGCI. 2001. Normas Internacionais de Conservação para
Jardins Botânicos. Rio de Janeiro. EMC. 109p.
110
Diegues, A. C. 2002. O Mito Moderno da Natureza Intocada. 4º ed. São Paulo.
Annablume: HUCITEC: Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Populações
Humanas e Áreas Húmidas Brasileiras. USP. 176p.
Machado, C. S. De L. M. 2005. Ver, sentir, perceber: o Instituto de Pesquisas
Jardim Botânico do Rio de Janeiro na visão de seu associado. Dissertação.
UFRJ/EICOS/Programa de pós-graduação em Psicossociologia de
Comunidades e Ecologia Social, Rio de Janeiro. 139p.
Pereira, P. J. C. R. 2007. O que os visitantes pensam sobre o Instituto de
Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro: Pesquisa de opinião.
Monografia do Curso de Especialização em Gestão da Biodiversidade. Escola
Nacional de Botânica Tropical & Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio
de Janeiro. 43p
Sharpe, G. W. 1982. An Overview of Interpretation. In: Interpreting the
environmental. Macmillian Publishing Company. 2º ed. 693p.
Teixeira Coelho. 2004. Dicionário Crítico de Política Cultural: Cultura e
Imaginário. 3º ed. São Paulo. FAPESP/ILUMINURAS LTDA. 383p.
Consultas Internet
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985.htm.
http://www.cdb.gov.br/CDB
http://www.interpnet.com
Agradecimento:
Agradeço a Ana Rosa de Oliveira - paisagista do JBRJ pelas sugestões no
questionário desta pesquisa.
111
Uso Público no Jardim Botânico
– A Interpretação Ambiental
Visando a Conservação
Olga Camisão de Souza
Marcia Lobianco Faraco
Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro
112
Fundado em 13 de junho de 1808 por d. João, Príncipe Regente na
época, mais tarde d. João VI, o Jardim Botânico em seus 137 hectares, 55 abertos
à visitação pública, abriga um acervo botânico da flora brasileira e exótica e um
acervo histórico-cultural.
Foi intenção de d. João VI aclimatar, na área que desapropriara para a
instalação de uma fábrica de pólvora, especiarias trazidas das Índias Orientais.
De Jardim de Aclimação e Real Horto, após a coroação de d. João VI
como rei do Reino Unido de Portugal e Brasil, passou a chamar-se Real Jardim
Botânico. Somente no Reinado de Pedro I foi aberto à visitação pública, já com o
nome de Jardim Botânico.
Iniciou-se, nesse período, o compromisso socioambiental e cultural da
Instituição – o que, hoje, denominamos de Uso Público -, com a preservação
daquele patrimônio nacional.
Em 1838, no período de d. Pedro II, o Jardim tornou-se o local favorito
de passeios, encontros e estudos botânicos, e aproximou naturalistas de diversas
nacionalidades – estudiosos, técnicos, pintores, ilustradores e cientistas, entre
outros –, que documentaram e divulgaram para o mundo sua beleza e importância,
sob diversos enfoques. Marcaram sua passagem com admiração pelos encantos
das aléias e recantos do Jardim, ilustres visitantes – Einstein, a Rainha Elisabeth II
do Reino Unido, os Reis da Suécia e a Princesa Sayako do Japão.
Em 1890, a visitação ao Jardim foi franqueada ao público, diariamente,
e sem a necessidade de acompanhamento. Os resultados dessa medida foram
excelentes: entre abril de 1890 e julho de 1894, cerca de 180 mil pessoas visitaram o
Jardim e puderam usufruir de momentos de plena convivência com o ambiente.
A partir desse marco, as responsabilidades e ações da Instituição
tornaram-se imprescindíveis no sentido de sensibilizar o público para a
necessidade da conservação de seu patrimônio ambiental e cultural - ações que
ultrapassaram também seus limites, pois o saber ambiental gera um comportamento
conservacionista que se vai perpetuando nas gerações atuais e futuras.
Como conseqüência de uma demanda crescente e necessária da visitação
de público cada vez mais diversificado, elaborou-se o Plano de Uso Público,
que trouxe ordenação para a dinâmica relação entre o público e o Jardim. Essa
nova política de atendimento ao público consolidou-se com o Programa de
Interpretação Ambiental, que, em jardins botânicos, proporciona ao visitante uma
maior interatividade entre Homem e Natureza, porque é fundamental conhecer
para preservar, respeitar e conservar o Meio Ambiente. O Plano de Uso Público
focou ações voltadas, primordialmente, para as áreas: Conservacionista, Educação,
Turismo e Lazer.
113
Este Programa, desdobrado em vários Projetos – explicados a seguir
–, possibilitou dinamizar a comunicação entre os recursos naturais e culturais
do arboreto e seu público; enriquecer a qualidade da visitação, aumentar a
compreensão sobre a importante missão e o inestimável acervo do Jardim
Botânico e, conseqüentemente, a conservação do meio ambiente em geral.
Projeto Centro de Visitantes
O Centro de Visitantes é o ponto de referência da visitação ao Jardim
Botânico. Sua função básica é a de propiciar ao visitante um atendimento ágil e
abrangente, ressaltar a importância de seus recursos naturais e culturais, disponíveis
no arboreto, e fornecer informações gerais para dinamizar a visitação e estreitar a
relação do público com o Jardim Botânico.
Visitas guiadas, em carro elétrico, assim como workshops, palestras
e cursos, com temática ligada ao Ecoturismo e Interpretação Ambiental, estão
disponíveis aos interessados.
Projeto Visitação Guiada
O Projeto Visitação Guiada foi concebido a fim de oferecer ao visitante
orientação e informação mais aprofundadas dos recursos naturais e culturais do
arboreto, por meio de trilhas selecionadas. Estudantes universitários – das áreas
de Turismo e Meio Ambiente – assumem o papel de guias para essas visitas,
quando solicitados.
Projeto Trilhas Interpretativas
O Projeto Trilhas Interpretativas orienta o público na visitação com
temas e percursos pré-estabelecidos. O visitante tem condição de se auto guiar, ao
utilizar folhetos que contêm mapa, com o percurso traçado, e texto, que interpreta
os pontos de seu interesse e de acordo com cada tema selecionado. Os folhetos
são fornecidos no Centro de Visitantes e os temas oferecidos, atualmente, são,
entre outras, Trilha Histórica e Plantas Medicinais.
Projeto Placas Interpretativas
O Projeto de Placas Interpretativas propõe auxiliar o visitante a
identificar e conhecer os recursos naturais e culturais de relevância existentes no
arboreto, e que ocorrem em diferentes momentos, durante as quatro estações
do ano. Os visitantes contam com, aproximadamente, 60 placas interpretativas,
disponíveis em locais acessíveis, para propiciar conhecimento mais aprofundado
desse acervo.
114
Projeto Banco de Dados Interpretativos
O Projeto Banco de Dados Interpretativos identifica e descreve, em
linguagem compatível com os vários perfis de público do Jardim, elementos de
relevante interesse natural e cultural de seu acervo. Os dados estão disponíveis no
próprio Centro de Visitantes, e contêm, aproximadamente, 180 textos.
Projeto Pesquisa de Opinião
Uma Pesquisa de Opinião realiza-se de dois em dois anos, para coletar
dados sobre o perfil do público visitante, seus interesses e opiniões em relação às
atividades e aos serviços oferecidos pelo Jardim Botânico. Com os resultados dessa
Pesquisa, são implementadas ações, visando à melhoria contínua da qualidade do
atendimento e da visitação.
Ao longo destes 200 anos, a preocupação com o uso público do
Jardim Botânico permeia todas as atividades da instituição, e resulta da missão
e do compromisso de todos que aqui deixaram e deixam sua contribuição, sua
experiência e seu saber para a guarda e o cuidado com este patrimônio e com o
meio ambiente.
O uso público do Jardim Botânico tem dinâmica muito própria,
porque aponta caminhos para implementar, melhorar e alimentar o diálogo e o
interesse entre público e instituição. Diferentes demandas, mudanças pessoais
e profissionais, momentos da própria instituição, disseminação acelerada das
informações, entre outros itens, fazem do uso público um dos pilares e base
para acompanhar as transformações que ocorrem com a evolução sistemática do
mundo, com destaque para o campo do meio ambiente, e tornar a relação entre
visitantes e Jardim Botânico um passo para o aprimoramento humano, a partir
da ética de sua convivência com os recursos naturais, históricos, arquitetônicos e
culturais, representados pelos acervos do Jardim Botânico.
115
Coleções Científicas do Jardim Botânico da
Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte
(FZB-BH)
Miriam Pimentel Mendonça
Juliana Ordones Rego
Inês Ribeiro de Andrade
Albina Carvalho de Oliveira Nogueira
Jardim Botânico da Zoo-Botânica de Belo Horizonte
116
O Jardim Botânico da FZB-BH foi criado em 1991 tendo como um
dos principais objetivos tornar-se uma referência em coleções botânicas ex
situ. Procurando atender as diretrizes das redes nacionais e mundiais de Jardins
Botânicos, fundamentadas na CBD, as coleções têm como meta priorizar as
espécies nativas de Minas Gerais.
Os Jardins Botânicos desempenham papel fundamental nos esforços
para deter a extinção de espécies e promover a conservação, classificação,
avaliação e utilização do patrimônio genético vegetal. No Brasil, os 34 jardins
botânicos executam inúmeras atividades, que vão desde a aclimatação de espécies,
seu papel historicamente original, até sua educação e sensibilização do público
para a preservação do ambiente. Constituem o maior instrumento para o cultivo
e conservação de plantas e possuem várias frentes de atuação para colaborar com
os objetivos da CBD. Uma delas é atuar na conservação da biodiversidade de
forma integrada promovendo, combinando e utilizando técnicas ex situ e in situ.
As coleções ex situ são reconhecidas como uma das mais importantes
ferramentas para a conservação da biodiversidade disponíveis aos jardins botânicos
e tem diferentes propósitos: resgatar e manter germoplasma ameaçado de extinção;
viabilizar estudos em taxonomia, ecologia, etnobotânica e horticultura; produzir
material para reduzir a pressão das coletas; produzir material educacional para
conservação e exibição.
O JB-FZB possui em suas coleções ex situ espécies nativas das famílias
botânicas Araceae (138 taxa), Cactaceae (87), Orchidaceae (77), Bromeliaceae (61),
Pteridophyta (42 taxa), Coleção de Mata Atlântica (187) e Coleção de Campos
Rupestres (34). Destes, 37 taxa estão ameaçadas de extinção. Temos ainda coleções
de referência: Coleção Carpológica (1533 registros), Herbário (6825), Ervanário
(230) e Etnobotânica (80). Aliar as técnicas de conservação ex situ com as de
conservação in situ e interagir com diferentes segmentos da sociedade, é o nosso
maior desafio.
117
Conservação In Situ das Áreas Nativas
Remanescentes do Jardim Botânico IAC
José Eduardo de Arruda Bertoni
Wilson Barbora
Renato Ferraz de Arruda Veiga
Eliseu Alves Teixeira Neto
Lilian Renata Sikorski
Instituto Agronômico
118
Introdução
O JBIAC é um Jardim Botânico do Instituto Agronômico (IAC) que
tem sua sede em Campinas-SP. No organograma institucional é um Núcleo
subordinado ao Centro Experimental Central (CEC). O CEC possui 700ha,
sendo que 60% de suas terras são utilizadas para experimentação agrícola e 40%
delas por vegetação nativa, bosques, gramados, nascentes formando córregos,
várzeas, represas e construções.
O município de Campinas está inserido no domínio da Mata Atlântica,
onde a cobertura vegetal era originalmente constituída por florestas, campos e
cerrados. Segundo o Atlas dos Remanescentes Florestais, elaborado pela Fundação
SOS Mata Atlântica, em parceria com o Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE),
em cinco anos a Região Metropolitana de Campinas (RMC), composta por 19
municípios, perdeu 28% de Mata Atlântica. Dos 12,5 mil hectares da vegetação
natural existentes em 2000, restaram apenas 8,9 mil em 2005. Ressalte-se que
Campinas possui, apenas, 1,96% de sua área coberta com remanescentes florestais.
Os remanescentes de vegetação nativa existentes no CEC/JBIAC são
constituídos por duas áreas distintas, sendo uma de floresta e outra de cerrado,
totalizando 94ha. Para a efetiva proteção e conservação in situ dessa vegetação
nativa, elaborou-se proposta de criação de uma Unidade de Conservação.
Importante ressaltar que esta proposta vem ao encontro às atribuições do JBIAC
(categoria “B” - CONAMA 001B/2002 - DOU 23/08/02), que é o estudo da
biodiversidade regional, visando à conservação in situ, o manejo, a recuperação de
áreas naturais e o seu uso sustentável (http://www.iac.sp.gov.br/Centros/Cec/
JNB/Index.htm).
Caracterização da área
O município de Campinas situa-se na porção centro oeste do estado de
São Paulo, a 674 metros de altitude, entre as latitudes 22°46´10´´S a 23°03´11´´S
e as longitudes 46°50´19´´W a 47°13´05´´ W, ocupando uma área de 795,70
quilômetros quadrados.
A distribuição pluvial segue o regime típico das zonas tropicais de baixa
altitude, ou seja, verão chuvoso e inverno seco. Os dados dos valores médios
de temperatura do ar e da precipitação pluvial encontrados permitem identificar
o clima, segundo o sistema de Köppen, como do tipo Cwa, ou seja, clima
mesotérmico de inverno seco e precipitação média anual de 1.371mm e déficit
hídrico anual na ordem de 50 mm.
O CEC está localizado na bacia hidrográfica do Quilombo, em que os
recursos hídricos naturais estão distribuídos de maneira bem uniforme, podendo
constituir áreas de várzea, de cursos d´água e de nascentes. Foram construídos
119
poços artesianos e represas que pudessem auxiliar tanto às atividades científicas
quanto a produção agrícola do Centro. Atualmente, 12 % da área do CEC (84,50
hectares) são representadas por recursos hídricos, os quais são muito importantes
para a fauna local. Quanto aos solos, o cerrado está sobre Latossolos Vermelho
Amarelos, a floresta em Latossolo Vermelho e nos cursos d’água e várzea
encontram-se os Gleissolos (solos hidromórficos).
O município de Campinas situa-se em uma área de transição entre o
Planalto Atlântico e a Depressão Periférica Paulista (Instituto Geológico, 1993).
Segundo o mapeamento geomorfológico de Campinas, realizado na escala 1:50.000
pelo IPT (1991) a região do CEC está localizada numa área onde predominam as
colinas amplas, formas amplas e suaves, com vales acumulativos e abertos.
Proposta de criação de Unidade de Conservação
Devido à importância da vegetação remanescente em áreas do IAC,
optou-se pela sua conservação através da criação de uma Unidade de Conservação
(UC), na categoria de Estação Ecológica segundo o Sistema Nacional de Unidades
de Conservação (SNUC). As Estações Ecológicas são áreas que possuem
amostras representativas dos principais ecossistemas brasileiros, onde é permitida
a investigação cientifica e o desenvolvimento de educação conservacionista com
alteração do ambiente em até 10% do seu total como prevê a Lei Federal no 6.902,
de 27 de abril de 1981 (Brasil, 1986) quando houve a instituição das Estações
Ecológicas como categoria de manejo de Unidades de Conservação da Natureza
e definidas na seguinte conformidade:
Art. 1º - Estações Ecológicas são áreas representativas de ecossistemas
brasileiros, destinadas à realização de pesquisas básicas e aplicadas de
Ecologia, à proteção do ambiente natural e ao desenvolvimento da educação
conservacionista.
§ 1º - 90% (noventa por cento) ou mais da área de cada Estação Ecológica
será destinada, em caráter permanente, e definida em ato do Poder Executivo, à
preservação integral da biota.
§ 2º - Na área restante, desde que haja um plano de zoneamento aprovado,
segundo se dispuser em regulamento, poderá ser autorizada a realização de
pesquisas ecológicas que venham a acarretar modificações no ambiente natural.
Na proposta está prevista a interligação das áreas de cerrado e de
floresta por meio de um Corredor Ecológico que seguirá um curso d’água, onde a
recomposição da vegetação ciliar já vem sendo realizada. Corredores Ecológicos
são porções de ecossistemas naturais ou seminaturais, ligando fragmentos florestais
que possibilitem entre elas o fluxo de genes e movimento da biota, facilitando
a dispersão de espécies e a recolonização de áreas degradadas, bem como a
manutenção de populações que demandam, para sua sobrevivência, áreas com
extensão maior do que aquelas das unidades individuais (Brasil, 2000). Com isso,
120
a área do CEC/JBIAC será ampliada, tornando-se local propicio como abrigo da
fauna, principalmente a avifauna silvestre. O JBIAC já vem realizando educação
ambiental e agrícola, com a consolidação das áreas de preservação, terá um espaço
mais adequado para sua atuação na conservação in situ. Estudos do meio biofísico
já foram realizados (clima, recursos hídricos, geologia, geomorfologia, solos,
vegetação e fauna), os quais tiveram como objetivos: assegurar a conservação da
biodiversidade local, recuperar áreas degradadas, planejar a implantação de infraestrutura e apoio logístico para atividades de pesquisas cientificas e educacionais.
A referida proposta de criação da UC encontra-se sob análise na Secretaria do
Meio Ambiente do Estado de São Paulo.
Referências Bibliográficas
BRASIL. Lei no 6.902, de 27 de abril de 1981. Dispõe sobre a criação de
Estações Ecológicas, áreas de Proteção Ambiental e dá outras providências
In: CAMARA, I.G. (Coord); STRANG, H. E. (Colab.). 1986. Legislação de
conservação da natureza. 4. ed. São Paulo: Fundação Brasileira para a
Conservação da Natureza – FBCN.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. 2000. Sistema Nacional de Unidades
de Conservação – SNUC: Lei no 9.985 de 18 de julho de 2000. Brasília, DF:
Secretaria de Biodiversidade e Florestas.
INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS DO ESTADO DE SÃO
PAULO – IPT. 1991. Manual de Ocupação de Encostas. São Paulo.
INSTITUTO GEOLÓGICO. 1993. Subsídios do meio físico-geológico ao
planejamento do município de Campinas (SP). São Paulo: Secretaria do Meio
Ambiente do Estado de São Paulo.
121
Plano de Manejo para a Reserva de Cerrado
do Jardim Botânico de Brasília
Jeanitto Gentilini Filho
Danielle Abud
Isaac Nuno C. de Azevedo
Jardim Botânico de Brasília
122
Introdução
O Jardim Botânico de Brasília (JBB) foi criado em 08 de março de 1985 com
status de Departamento da Fundação Zoobotânica do Distrito Federal (FZDF).
Desde sua inauguração o JBB teve como filosofia ser um jardim botânico
voltado para preservação do Cerrado.
O modelo adotado pelo Governo do Distrito Federal para o Jardim
Botânico de Brasília foi pautado nas discussões mundiais da época, que afirmavam
a importância dos novos Jardins Botânicos adotarem uma filosofia que incluísse a
conservação in situ priorizando a conservação da flora regional.
Visando abranger fisionomias deste bioma, ausentes na área original,
foram incorporados 3.991,59ha ao JBB, que a partir de 26 de novembro de 1992,
por meio do Decreto nº 14.422, passou a constituir a Estação Ecológica do
Jardim Botânico de Brasília - EEJBB. A Estação Ecológica criada integrou-se
ao Jardim Botânico de Brasília, abrangendo todo o conjunto, uma área total de
aproximadamente 5.000 hectares.
A Estação Ecológica JBB
O JBB e sua EEJBB fazem parte da APA Gama Cabeça de Veado
criada em 1986 e da Área Nuclear da Reserva da Biosfera do Cerrado, título dado
pela UNESCO, a áreas internacionalmente reconhecidas que possuem gestão
integrada, participativa e sustentável dos recursos naturais e, mais recentemente,
da APA do Planalto Central.
Em função da complexidade dos instrumentos legais que recaem sobre
as unidades de conservação é fundamental a elaboração de um Plano de Manejo
para compatibilizar os objetivos previstos no Sistema Nacional de Conservação.
Plano de Manejo
O Plano de Manejo está sendo elaborado com base no Roteiro
Metodológico do IBAMA que propõe detalhar a estratégia de planejamento para
as áreas de proteção integral, assegurando assim o cumprimento dos objetivos
previstos no Sistema Nacional de Unidade de Conservação - SNUC.
De acordo com o SNUC, o Plano de Manejo é um “documento técnico
mediante o qual, com fundamento nos objetivos gerais de uma Unidade de
Conservação, se estabelece o seu zoneamento e as normas que devem presidir
o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das
estruturas físicas necessárias à gestão da Unidade”.
123
O trabalho proposto se refere ao desenvolvimento de ações que resultem
no planejamento da EEJBB e sua efetiva gestão. O objetivo geral é garantir a
proteção e recuperação do patrimônio natural da UC.
Serão empenhados esforços para que, de posse do documento do Plano
de Manejo, o JBB possa organizar e disciplinar as atividades existentes, de acordo
com a legislação ambiental em vigor, além de desenvolver modelos e programas
para manejo adequado, com o envolvimento da comunidade vizinha em prol da
conservação desta importante Unidade de Conservação do bioma Cerrado na
Capital Federal.
124
O Jardim Botânico da Univille: Uma
Realidade desde 2007
Karin Esemann-Quadros
Cynthia Hering-Rinnert
Elzira Maria Bagatin Munhoz
João Carlos de Melo Júnior
Júlia Meirelles
Jardim Botânico da Univille
125
O Jardim Botânico da UNIVILLE - Universidade da Região de JoinvilleSC - foi criado em 19 de abril de 2007, em área de 19.000 m2 da instituição, coberta
parcialmente com Floresta Ombrófila Densa de Terras Baixas, em estado avançado
de regeneração, que abriga diversas espécies da flora e fauna da região. Pretende
ser um espaço de proteção da flora local, abrigo de espécies raras e ameaçadas de
extinção e aberto à visitação pública, onde possam ser desenvolvidas atividades
de ensino, pesquisa e extensão. Seus objetivos estão focados na conservação da
biodiversidade, na classificação/identificação das espécies originárias da vegetação
nativa, na preservação do patrimônio genético das plantas e nas atividades da
educação ambiental. A espécie escolhida como símbolo do Jardim Botânico é o
palmiteiro juçara (Euterpe edulis Martius), nativo da Floresta Ombrófila Densa,
descrita pelo alemão Karl Friedrich Philipp von Martius, no século XIX. Ele
é natural de Erlangen – Nürnberg – Alemanha, onde está a FAU - Friedrich
Alexander Universität, instituição parceira da UNIVILLE desde 2000. A FAU
mantém o Jardim Botânico da cidade, com 178 anos, cujos gerentes têm apoiado
as ações locais. Embora recém criado, O Jardim Botânico da UNIVILLE já conta
com portal de entrada e trilha de cerca de 300 m de extensão, topografada e
com pontos de interesse interpretativo identificados. Também conta com o
Herbário Joinvillea, indexado com o acrônimo JOI no Index Herbariorum desde
outubro de 2007, que conta atualmente com 7.600 plantas tombadas. Previstas
para 2008 estão as seguintes metas: 1 – 100 m2 de um viveiro para produção
de mudas de espécies nativas da Mata Atlântica, que serão plantadas no próprio
Jardim Botânico e também distribuídas para a comunidade, através das escolas,
associações de classe e entidades que desenvolvam atividades de recuperação de
áreas degradadas e educação ambiental. Produto: um viveiro para produção inicial
de 1.000 mudas/ ano. 2 – 100 m2 de uma estufa para produção e abrigo de
pteridófitas, bromélias, orquídeas entre outras plantas de pequeno porte nativas da
Mata Atlântica, resgatadas de áreas desmatadas no entorno da cidade de Joinville,
visando a sua reintrodução na floresta do Jardim Botânico, em parques da cidade
e em outras áreas destinadas à recuperação ambiental na região. Produto: uma
estufa com capacidade para abrigar 500 plantas até fevereiro/2009. 3 – 200m
de passarelas suspensas, com 1 m de largura, em eucalipto autoclavado e 170
placas informativas (de identificação de plantas, direcionamento de visitantes e
informações gerais e técnicas) para equipar a trilha já existente na área do Jardim
Botânico da UNIVILLE, tornando-a mais segura e confortável para os visitantes,
bem como a construção de caminhos pelo Jardim. Produto: Passarela suspensa,
com 200 m de extensão, devidamente sinalizada e 100m de caminhos. Públicoalvo: atender 500 pessoas/mês. 4 – 83 m2 de quiosque, em eucalipto autoclavado,
coberto com palha e piso de pedra britada ou similar, para recepção dos visitantes e
exposição de painéis explicativos. Produto: um quiosque de 83 m2 com capacidade
para abrigar um mínimo de 50 (cinqüenta) pessoas. 5 – 10.000 unidades de um
folder explicativo, publicado em papel reciclado, tamanho A4, dobrado, 4x4 cores,
com informações sobre o Jardim Botânico e orientações para os visitantes que
percorrerem a trilha. Produto: Um folder publicado e sua distribuição para os
visitantes do Jardim Botânico. Público-alvo: alunos da UNIVILLE, alunos de
126
escolas do ensino fundamental, médio e superior de Joinville e região, professores,
pesquisadores e comunidade em geral. 6 – Aquisição de ferramentas necessárias
aos diversos trabalhos a serem desenvolvidos no Jardim pela equipe de jardineiro
e auxiliares. 7 – Ampliação do Herbário Joinvillea em cerca de 75% da sua área,
aumentando a capacidade do seu acervo para abrigar coletas das plantas do Jardim
Botânico. 8 - Participação em eventos como o Congresso Nacional de Botânica,
em Natal-RN e a 17ª Reunião Anual dos Jardins Botânicos Brasileiros, no Rio de
Janeiro-RJ, além de visita à Jardins Botânicos do estado da Baviera, na Alemanha,
por conta do termo de cooperação com a FAU - Friedrich Alexander Universität,
de Erlangen – Nürnberg. (PROEX/UNIVILLE)
127
Mapa Digital da Reserva do Museu de
História Natural e Jardim Botânico da
UFMG: status de conservação
Thaísa Santos Faria
Flávia Santos Faria
Museu de História Natural e Jardim Botânico
da Universidade de Minas Gerais
Sérgio Donizete Faria
Universidade de Minas Gerais
128
O MHNJB/UFMG abrange uma área equivalente a 60 hectares, a 3ª
maior área verde de Belo Horizonte. Situa-se numa região originalmente ocupada
por Mata Atlântica apresentando diferenças fisionômicas devido aos diferentes
usos do solo ao longo do tempo. Não existe nenhum mapa digital que aponte
a diversidade e vulnerabilidades da reserva. Foi realizado um levantamento de
informações sobre a área do MHNJB, tais como fotos aéreas, imagens de satélite,
levantamentos aerofotogramétricos e bases cartográficas. Todas as imagens e fotos
levantadas foram georreferenciadas e sobrepostas à foto aérea de Belo Horizonte
do ano de 1999 e aferidas através de trabalhos de campo no local com o auxílio de
GPS. Elaborou-se um mapa correspondente ao status de conservação com base
na sobreposição de informações sobre o estágio sucessional e espécies ocorrentes
(nativas exóticas e frutíferas). Para classificar o estágio sucessional utilizou-se a
Deliberação Normativa n.º3, de 8 de setembro de 2004 (caracterização da Mata
Atlântica no Estado de Minas Gerais e as normas de utilização da vegetação nos
seus domínios), o SNUC (Lei no 9.985, de 18 de julho de 2000) e conhecimentos
botânicos sobre a área. Identificou-se áreas em estágio inicial de regeneração
((altura média de até 5m, camada fina de serrapilheira; sem sub-bosque, predomínio
de espécies pioneiras como Schizolobium parahyba – guapuruvu e Piptadenia sp. – pau
jacaré), estágio avançado de regeneração (altura média de até 12m, serrapilheira,
com sub-bosque), áreas recuperadas (plantio misto de espécies exóticas e nativas)
e áreas em restauração (plantio com espécies nativas da região) e com relação à
composição de espécies foram encontradas áreas com predomínio de espécies
nativas, áreas com ocorrência de espécies exóticas (eucalipto, café, cará-do-ar), áreas
com ocorrência de espécies frutíferas (manga, jaca, jabuticaba, pitanga, goiaba),
arboreto (ocorrência de espécies brasileiras, exóticas ao estado de MG, como
Ceiba pentandra - sumaúma e Cavanillesia arborea - barriguda) e ornamentais (área
administrativa, exposições e jardins com plantas ornamentais e arbóreas, nativas e
exóticas). Além das áreas acima, alguns pontos merecem atenção devido ao estado
de degradação, tais como o manancial, ocupada por gramínias e lírio-do-brejo e
a área de lazer. Todas essas características foram representadas no mapa digital.
A espacialização dessas informações permitiu identificar a diversidade vegetal e o
status de conservação da reserva do MHNJB, o que permitirá estabelecer medidas
de manejo mais adequadas para a sua conservação, bem como ações voltadas para
educação ambiental da comunidade do entorno. Foi possível também levantar
algumas vulnerabilidades da reserva, entre elas, trilhas muito largas, ocorrência de
espécies exóticas invasoras e degradação do manancial. Este mapa é a ferramenta
básica fundamental para o próximo passo deste projeto que será o zoneamento
ambiental da reserva do MHNJB/UFMG
129
Download

Jardim Botânico do Rio de Janeiro