1 Anais da XVII Reunião de Jardins Botânicos Brasileiros Conservação in situ em jardins botânicos 2 Anais da XVII Reunião de Jardins Botânicos Brasileiros Conservação in situ em jardins botânicos 22 a 26 de setembro de 2008 Rio de Janeiro - RJ Faltam os logos Organização Rede Brasileira de Jardins Botânicos Rio de Janeiro 2008 3 COMITÊ EXECUTIVO DA REDE BRASILEIRA DE JARDINS BOTÂNICOS Dácio Roberto Matheus – Presidente Fundação para conservação e produção Florestal do Estado de São Paulo Tânia Sampaio Pereira -Vice-Presidente Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro Maria Lúcia Moreira Nova da Costa – Secretária Geral Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro Renato Ferraz de Arruda Veiga – Tesoureiro Jardim Botânico do Instituto Agronômico de Campinas COMISSÃO DE PUBLICAÇÕES Antonio Fernando Caetano Tombolatto Jardim Botânico do Instituto Agronômico de Campinas Lilian Beatriz Penteado Zaidan Jardim Botânico de São Paulo Maria Nazaré do Carmo Bastos Museu Paraense Emilio Goeldi Marília Vazquez Aun Jardim Botânico de São Paulo CAPA /EDITORAÇÃO Mary Paz Guillén Carla Pereira Gomes FICHA CATALOGRÁFICA 4 Sumário The Role of Botanical Gardens In Integrated Biodiversity Conservation – Examples From South Africa Brian J Huntley - South African National Biodiversity Institute 14 Para que serve a história das ciências? Reflexões sobre as relações entre presente e passado Brian J Huntley - South African National Biodiversity Institute 21 Jardim Botânico do Rio de Janeiro: 200 Anos de História, Beleza e Pesquisa Científica Begonha Bediaga - Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro 25 Diretrizes para Conservação e Restauração do Estado de São Paulo: onde e como conservar e restaurar a biodiversidade Maria Cecília Wey de Brito / Carlos A. Joly / Ricardo R. Rodrigues - Programa BIOTA/FAPESP 30 Áreas Protegidas na Mata Atlântica Clayton Ferreira Lino - Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica 34 Gestão de áreas protegidas no Brasil Rozely F. Santos - Universidade Estadual de Campinas 39 Aplicação de métodos de conservação in situ na Mata dos Oitis, o remanescente de Mata Atlântica do Jardim Botânico de Salvador Erivaldo Pereira Queiroz - Jardim Botânico de Salvador 42 A Mata do Buraquinho – Reserva de Mata atlântica do Jardim Botânico de João Pessoa – Paraíba Marcia Aquino - Jardim Botânico de João Pessoa 48 Ecoturismo em Unidades de Conservação: O potencial educativo do contato com a natureza Zysman Neiman - Universidade Federal de São Carlos 55 Plano de Manejo para a Estação Ecológica do Jardim Botânico de Brasília Jeanitto Gentilini Filho / Danielle Abud / Isaac Nuno C. de Azevedo / Alex Alves Amorim - Jardim Botânico de Brasília 61 Diagnóstico preliminar para a área de conservação in situ do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro Vicente Moreira Conti - Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro 66 5 Zona primitiva protegida pelo Jardim Botânico da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul Andréia Maranhão Carneiro - Jardim Botânico da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul 74 O Ensino e Extensão no Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro Gilberto M. Amado Filho - Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro 78 Ciclo de Palestras proferidas por Brian Huntley Brian Huntley - South African National Biodiversity Institute 83 A reserva de Cerrado da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte Juliana Ordones Rego / Maria Guadalupe Carvalho Fernandes / Inês Ribeiro de Andrade - Jardim Botânico da Zoo-Botânica de Belo Horizonte 86 Jardim Botânico do Instituto de Biociências da Unesp – Botucatu/SP Luiz Roberto Hernandes Bicudo - Jardim Botânico da UNESP-Botucatu 92 A Estação Científica Ferreira Pena, complexo florestal na Amazônia Ocidental do MPEG, Belém-PA. Maria de Nazaré do Carmo Bastos - Museu Paraense Emílio Goeldi João Ubiratan Moreira dos Santos - Universidade Federal Rural da Amazônia 98 A visão a conservação a partir do público de um jardim botânico Carmen Silvia Lemos Menezes Machado - Jardim Botânico do Rio de Janeiro 104 Uso Público no Jardim Botânico – A Interpretação Ambiental Visando a Conservação Olga Camisão de Souza / Marcia Lobianco Faraco - Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro 112 Coleções Científicas do Jardim Botânico da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte (FZB-BH). Miriam Pimentel Mendonça / Juliana Ordones Rego / Inês Ribeiro de Andrade / Albina Carvalho de Oliveira Nogueira - Jardim Botânico da Zoo-Botânica de Belo Horizonte 116 Conservação In Situ das Áreas Nativas Remanescentes do Jardim Botânico IAC José Eduardo de Arruda Bertoni / Wilson Barbora /Renato Ferraz de Arruda Veiga / Eliseu Alves Teixeira Neto / Lilian Renata Sikorski - Instituto Agronômico 118 Plano de Manejo para a Reserva de Cerrado do Jardim Botânico de Brasília Jeanitto Gentilini Filho / Danielle Abud / Isaac Nuno C. de Azevedo - Jardim Botânico de Brasília 122 6 O Jardim Botânico da Univille: Uma Realidade desde 2007 Karin Esemann-Quadros / Cynthia Hering-Rinnert / Elzira Maria Bagatin Munhoz / João Carlos de Melo Júnior / Júlia Meirelles - Jardim Botânico da Univille 125 Mapa Digital da Reserva do Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG: status de conservação Thaísa Santos Faria / Flávia Santos Faria - Museu de História Natural e Jardim Botânico da Universidade de Minas Gerais Sérgio Donizete Faria - Universidade de Minas Gerais 128 7 Programa Dia 22/09 (segunda-feira) Manhã 9:00 - Cerimônia de abertura Izabela Teixeira– Secretária Executiva do Ministério do Meio Ambiente Dácio Roberto Matheus - Presidente da Rede Brasileira de Jardins Botânicos Lizst Benjamin Vieira - Presidente do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro Conferência de abertura O papel dos jardins botânicos na conservação integrada da biodiversidade – os exemplos da África do Sul Brian Huntley – South African National Biodiversity Institute Intervalo Palestra A História da ciência e os jardins botânicos Lorelai Kury - Fiocruz Palestra JBRJ - 200 anos de história, beleza e pesquisa científica Begonha Bediaga –Jardim Botânico do Rio de Janeiro Almoço Tarde 14:00 - Palestra Diretrizes para conservação da biodiversidade do Estado de São Paulo Ricardo Rodrigues -BIOTA/FAPESP- ESALQ/USP Mesa-redonda Impactos sobre componentes da biodiversidade em áreas protegidas Ricardo Rodrigues - BIOTA/FAPESP- ESALQ/USP Claudio Valladares Pádua – Instituto IPÊ Fabio Rubio Scarano – JB do Rio de Janeiro 8 Intervalo Mesa-Redonda A conservação da biodiversidade nas áreas protegidas – problemas e soluções José Augusto Drummond – Universidade de Brasília Rômulo Mello – Instituto Chico Mendes/MMA Clayton Ferreira Lino - UNESCO / Rede de Reservas da Biosfera da Mata Atlântica Rozely Ferreira dos Santos – UNICAMP Palestra Áreas naturais protegidas no Brasil, com foco na Mata Atlântica – desafios e perspectivas Clayton Ferreira Lino - Comissão Nacional das Reservas da Biosfera - UNESCO / Rede de Reservas da Biosfera da Mata Atlântica Coquetel de Abertura Dia 23/09 (terça-feira) Manhã 9:00 Palestra Gestão de áreas protegidas no Brasil Rosely Ferreira dos Santos -UNICAMP Palestra Pesquisa e conservação de espécies ameaçadas em algumas áreas protegidas no Brasil Claudio Valladares Pádua – Instituto IPÊ Palestra A Mata do Buraquinho – reserva de mata atlântica do Jardim Botânico de João Pessoa Márcia Toscano de Brito Aquino – JB de João Pessoa Intervalo Palestra Ecoturismo em unidades de conservação como estratégia para a educação ambiental Zysman Neiman – Universidade Federal de São Carlos 9 Palestra Plano de manejo para a reserva de cerrado do Jardim Botânico de Brasília Jeanitto Gentilini– JB de Brasília Palestra Diagnóstico preliminar para a área de conservação in situ do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro Vicente Moreira Conti – JB do Rio de Janeiro Almoço Tarde 14:00 Mesa redonda Questões fundiárias e áreas protegidas em áreas urbanas – conflitos e medidas mitigatórias Dácio Matheus- JB de São Paulo Vicente Moreira Conti - JB do Rio de Janeiro Norma Crud Maciel - FEEMA/RJ Intervalo Palestra Aplicação de métodos de conservação in situ na Mata dos Oitis, o remanescente de Mata Atlântica do Jardim Botânico de Salvador Erivaldo Queiroz – JB de Salvador Palestra Zona primitiva protegida pelo Jardim Botânico da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul Andréia Maranhão Carneiro – JB de Porto Alegre Dia 24/09 (quarta-feira) Manhã 9:00 - Assembléia Assembléia Ordinária da Rede Brasileira de Jardins Botânicos Sessão de painéis dos jardins botânicos Plantão Comissão Banco de Dados para treinamento do banco de dados - BGR Brasil 10 12:00 - Almoço Tarde 13:00 - Visita técnica Visita guiada ao JBRJ Reunião das Comissões Técnicas: Educação Ambiental / Coleções/ Banco de Dados Dia 25/09 (quinta-feira) Manhã 09:00 Palestra O ensino e extensão no Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro Gilberto Amado Filho - JB do Rio de Janeiro Palestra * Biomas e ecossistemas da África do Sul (Biomes and ecosystems of southern Africa) Brian Huntley – NBI – Kirstenbosch National Botanic Garden Palestra * Jardins botânicos africanos (National Botanical Gardens of Africa) Brian Huntley – NBI – Kirstenbosch National Botanic Garden Palestra * As conexões África/ América do Sul em termos de espécies invasoras (The Africa/South America connections in invasive species) Brian Huntley – NBI – Kirstenbosch National Botanic Garden Almoço Intervalo Tarde 14:00 - Palestra * Mudanças climáticas na Africa do Sul (Climate change in southern África) Brian Huntley – NBI – Kirstenbosch National Botanic Garden 11 Palestra A reserva de Cerrado do Jardim Botânico de Belo Belo Horizonte Juliana Ordones Rego – JB de Belo Horizonte Palestra As reservas de Cerrado e Floresta mesófila semi-decidual do Jardim Botânico da UNESP – Botucatu Luiz Roberto Hernandes Bicudo – JB da UNESP-Botucatu Intervalo Palestra A Estação Científica Ferreira Pena, complexo florestal na Amazônia Ocidental do MPEG, Belém-PA Maria de Nazaré do Carmo Bastos – Museu Goeldi Palestra O Parque Estadual das Fontes do Ipiranga e o Jardim Botânico de São Paulo como reservas de mata atlântica na cidade de São Paulo Dácio Roberto Matheus – JB de São Paulo Palestra A visão da conservação a partir do público de um jardim botânico Carmem Silvia Lemos Menezes Machado – JB do Rio de Janeiro * palestras proferidas em inglês Dia 26/09 (sexta-feira) Manhã Apresentação das Comissões Técnicas da Rede Brasileira de Jardins Botânicos Miriam Pimentel Mendonça – Comissão de Coleções Tânia Maria Cerati – Comissão de Educação Ambiental Maria Lucia M.N.da Costa – Comissão de Banco de Dados Intervalo Recomendações sobre a conservação in situ nos jardins botânicos brasileiros Coordenação: Tânia Sampaio Pereira e Dácio Roberto Matheus Encerramento 12 Endereço: Escola Nacional de Botânica Tropical - Rua Pacheco Leão 2040 / Horto - Tel: 21.38756203 Informações sobre a reunião: [email protected]; [email protected] 13 The Role of Botanical Gardens In Integrated Biodiversity Conservation – Examples From South Africa Brian J Huntley South African National Biodiversity Institute 14 Abstract This paper describes the progress of biodiversity conservation made in South Africa since the dawn of the country’s democracy in 1994. The new programme started with the release of political prisoners in February 1990, and was stimulated by the outcomes of the United Nations Conference on Environment and Development held in Rio de Janeiro in January 1992. Indeed, the impact of Rio has been the key driver in the biodiversity agenda of South Africa – as it has in most countries. A brief background on South African/Brazilian comparisons provides an introduction to the similarities of these two ‘southern’, mega-diverse nations of the ancient Gondwanaland. The progress from Rio to the World Summit on Sustainable Development in Johannesburg, September 2002, and its agreement on Global 2010 Goals for biodiversity conservation, provide the policy context against which to measure the role of botanical gardens in their achievement. The paper will use the recent experience of post-Rio activities in South Africa, in particular those based at Kirstenbosch and the other eight National Botanical Gardens of South Africa, as a model of how to move institutions from poverty to prosperity. The paper will conclude with a summary of the key principles which, if followed, offer opportunities for success. 1. Introduction South Africa is a relatively small country at the southern tip of Africa – 1,2 million square km in extent, with a population of 46 million, a GDP of US$213 billion, and, like Brazil, an exceptionally rich endemic biodiversity. A total of 19 581 species of indigenous plants occur in 435 distinct, mapped vegetation units, with some 850 bird, 258 mammal, 363 reptile and 111 frog species forming part of its biodiversity. Habitats range from temperate and sub-tropical forest, through grasslands, savanna, woodlands and thickets, to arid shrublands and desert. It is the only country in the world with an entire Floral Kingdom within its borders, and also includes three globally significant biodiversity ‘hotspots’. The custodianship of this biodiversity heritage has been accorded high priority by the post-Apartheid government, with significant increases in legislative and financial commitments towards reaching the goals of the CBD. 2. Context – it all started in Rio! The United Nations Conference on Environment and Development convened in Rio de Janeiro in January 1992 was a distinct watershed for biodiversity 15 conservation around the world. The major outcomes of Rio – the Convention on Biological Diversity, the Framework Convention on Climate Change, the Convention to Combat Desertification, and the establishment of the Global Environmental Facility, presented a totally new playing field for conservation and sustainable development. But the new paradigm had not penetrated the realm of botanists and botanical gardens with any force until the XVI International Botanical Congress in St Louis, Missouri, in 1999. In a powerful address, Peter Raven challenged his colleagues to action through a new programme “This proposal is to urge the formation of a comprehensive scheme by which we will save all species – a priceless gift to future generations there is no step more important for the conservation of plants … than the building of capacity in developing countries everywhere” The botanical gardens fraternity responded with the Global Strategy for Plant Conservation (GSPC), which aligned with the WSSD goal announced in Johannesburg in September 2002 “To halt the current and continuing loss of biodiversity by 2010” 3. A framework for achieving 2010 goals The GSPC presented a detailed programme of work, but did not provide a logical framework for reaching the goal. It needed, and still needs, a conceptual framework through which countries can approach the challenge in a systematic way. This paper examines such a framework and uses examples from South Africa’s network of botanical gardens to illustrate the process. The framework comprises three legs - or drivers – prerequisites, stimuli and mechanisms which together contribute to the resultant outcomes. For any successful intervention, prerequisites include awareness and knowledge; organisational and institutional capacity; and democratic and accountable governance. Stimuli include international and regional initiatives; socio-political change; and the leadership of ‘keystone personalities’. The process is then implemented through mechanisms including enabling legislation; the support of injections of donor funding such as that from the GEF; and through the resultant strengthened institutions. Outcomes are the desired conservation results. We will examine the importance of prerequisites –demonstrated by the strong foundations of South African botany; a knowledge base established from the time of Carolus Linnaeus; and now documented in massive Floras; herbaria, a network of botanical gardens and other protected areas, and stored in and accessible through electronic databases. 16 A dynamic stimulus in South Africa was that given by the radical change from a racist autocracy to a multi-party democracy. The release of Nelson Mandela and other political prisoners on 11 February 1990 led to a long process of law reform, building inter-alia on the outcomes of Rio, and leading to a new National Biodiversity Act, and the creation of new institutions such as SANBI. Other changes were also driving the agenda, such as the impact of invasive species; and of climate change. The principle of avoiding the unmanageable, and of managing the unavoidable, underpins the country’s conservation philosophy. The framework leads to implementation through mechanisms of which mainstreaming biodiversity actions across all production sectors and through diverse political opportunities is fundamental. A simple formula - of protect, connect, sustain, and restore – is followed.National priorities identified through an information-rich Systematic Conservation Planning process, led, for example, to a desired outcome – the recent creation of the country’s ninth National Botanical Garden in the ‘bulb capital of the World’ – Hantam – which Linnaeus’s apostle Thunberg first explored in 1776. 4.The Kirstenbosch story – from poverty to prosperity Perhaps the best way to illustrate the ideas outlined above is to look at the experience of South Africa’s equivalent of the Jardim Botanico de Rio de Janeiro – Kirstenbosch. This garden, established in 1913, on the eastern slopes of Table Mountain, is dedicated to the indigenous flora of South Africa – with living collections of 5 500 species in its 560 ha. Kirstenbosch is, of course, much younger than Rio – a mere 95 years – less than half Rio’s impressive 200 years. But perhaps there might be some similarities in our histories, and our experience in dealing with the challenges all botanical gardens face. A question that often arises is ‘Why are so many gardens financially stressed, or even bankrupt?’ Kirstenbosch’s Annual Reports from its establishment in 1913, until the 1990s, describe a continuing saga of financial problems. In 1915 – “the government grant reduced”; 1932 – “ owing to financial stringency, personnel reduced, wages and salaries cut”; 1946 – “staff and labour difficulties increased”; 1951 –“financial situation remains uncertain”; 1979 – “a critical financial situation” etc, etc. Looking back, one can identify several common factors that contributed to the struggle experienced by gardens in the 20th century, perhaps even today. First, many gardens were products of a colonial agenda; some remaining trapped in a 19th century, Victorian, time warp. Second, most gardens were established by botanists for botanists – not for the general public. Third, many gardens are isolated from the local or regional economy – and do not contribute to it. Finally, 17 many gardens – such as Kirstenbosch, developed in a culture of dependence on central government funding – perhaps even a culture of ‘entitlement’. So what are the solutions to the poverty of botanical gardens? For the administrators of large botanical gardens, there is no simple formula. There is no MBA available to guide a garden director from poverty to prosperity. But some lessons have emerged from experience in Kirstenbosch which I would like to share with you. The approach that we have used is best called ‘strategic opportunism’. This is a mix of a good, broad strategy, and the effective use of opportunities when they appear – or when they are deliberately created. Gardens need an active future, not a passive future. Learning by doing is the best solution in the absence of alternatives. The framework previously referred to – prerequisites, stimuli, and mechanisms – has been central to transforming Kirstenbosch from near bankruptcy to profit. And at the heart of the process is mainstreaming the garden into local, regional and national socio-economic agendas. ‘Mainstreaming’ is a relatively new term in conservation literature – but is a concept that our political masters seem to understand – at least in Anglophone countries. Basically, it involves aligning garden strategic plans with those of governments, the private sector and donor agencies - ie, becoming relevant to present and future ‘stakeholders’. This might appear more easily said than done – but it has been surprisingly effective in South Africa. In Kirstenbosch, we decided to turn things around through a ‘Kirstenbosch Development Campaign 1990 - 2000’ - aiming to raise US$7 million by 2000. At the time, the garden had 350 000 visitors per annum, each spending less than a dollar per visit, and with the garden dependent on the national government for 95% of its budget By 2000, over US$20 million had been raised, and by 2008, with 750 000 visitors per annum, the garden was running its operations at a healthy profit. Perhaps it was Kirstenbosch’s good fortune that the key elements for success – described above as prerequisites, stimuli and mechanisms, were in place in the 1990s - a unique combination of elements that led to success. But I would argue that at any point in a garden’s history, giving attention to the principles of mainstreaming and ‘strategic opportunism’ can bring great rewards. The process at Kirstenbosch started with ‘changing the destination’. For over 70 years, the garden had provided a beautiful display of South Arica’s flora in a magnificent setting. But it lacked the three key essentials of a botanical garden – safe, comfortable parking; a happy, friendly face at the entrance gate; and adequate tearoom and bathroom facilities for the thousands of visitors who would make the garden a destination of choice. 18 So the recent history of Kirstenbosch has been one of developing master plans, designing new facilities, raising funds and implementing the new developments. The new projects included a large Conservatory; three new entrances, a Visitors’ Centre; a Research Centre; two new Restaurants; a Centre for Home Gardening and a Centre for Biodiversity Conservation – plus new parking, horticultural facilities, garden administration offices, workshops, etc. The next step – happening simultaneously, was ‘growing the business’. Despite their lofty ideals, large botanical gardens have to become business operations. Without a serious business plan, gardens will most surely fail – unless they have a massive private endowment or a very generous government. ‘Growing the business’ means getting more people into the garden, and having them spend more money. Pretty flowers and big trees are not enough. The garden must become a desired, preferred, ‘destination’. While the garden landscape, living plant displays, and a quiet, peaceful and safe atmosphere are essential, and the physical infrastructure critical to visitor services – the growth of visitor numbers and of financial return, is dependent on innovation and marketing. At Kirstenbosch, it was important to use the garden as an ‘embassy of cultural and natural diversity’. For most of its history, the garden had been inaccessible to poorer communities, especially the youth of the city’s extensive ‘favelas’. Thus an early innovation was to raise funds for a school bus, and develop an ‘outreach greening’ project which now brings over 20 000 school children to the garden each year, and has developed indigenous food and medicinal plant gardens at over 100 township schools. As visitor facilities improved, and shops, concerts, sculpture and art exhibitions, weddings, social functions and conferences grew in number and diversity, it became clear that the carrying capacity of a successful garden is determined not by the garden’s size, but by available parking; that spending capacity is determined more by the range and quality of products, than by the wealth of clients; and finally, that expanding visitor numbers requires constant innovation – changing the attractions for visitors, and monitoring the quality of service delivery. 5. Conclusions – what makes things work The Kirstenbosch experience confirms the view that one must ‘think globally, act locally’. It also demonstrates the importance of thinking big, but starting small. The 1990 – 2000 development campaign was initiated with a tiny gift of less than US$10 000, which rapidly grew, over the decade, to over $20 19 million. Another important lesson learned was the often slow, but always critical process of ‘learning by doing’. We have come a long way from the brave ideas of Rio, 1992. Peter Raven’s challenge of 1999, the formulation of the GSPC, the WSSD Johannesburg Implementation Plan, and the victory of democracy over repression – all these things have helped move us closer to the 2010 goals – but we still have a long way to go before we can call the job done. 20 Para que serve a história das ciências? Reflexões sobre as relações entre presente e passado Lorelai Kury Fundação Oswaldo Cruz 21 Para que serve a história? Esta pergunta não é fácil de responder, mesmo para os profissionais da área. Uma resposta “fácil” é dizer que o tempo é uma das dimensões dos homens em sociedade. Se não estudamos o passado, fica faltando uma parte de nós mesmos. Não é difícil concordar com isso. Falta, porém, complicar um pouco mais as coisas e se perguntar sobre a historiografia atual e seus métodos de trabalho. Por que os historiadores profissionais são tão ciosos quanto ao respeito pela especificidade do passado? Lucien Febvre, um dos fundadores da historiografia contemporânea, alertava sobre os perigos do anacronismo. Este “pecado” é muito comumente cometido por aqueles que gostam de história, mas que se inserem profissionalmente em outras áreas. O anacronismo consiste basicamente em tomar os acontecimentos do passado como semelhantes aos do presente, como um filme de Hollywood, onde os diálogos e as situações são inteiramente atuais; só mudam o cenário e as roupas. Não ser anacrônico é perceber que existe entre o presente e o passado um estranhamento que não pode ser superado inteiramente. A postura de Febvre, que é majoritária nos dias de hoje nem sempre foi ou é seguida e nada indica que continuará dominante nos próximos cinqüenta anos. Alguns vêem no passado os caminhos necessariamente trilhados pelos homens até chegarem a um presente que já se gestava tal qual, desde o início. Para esses, a história é narrada em termos de “aindas” e “jás”: “Os homens ainda não tinham descoberto o papel dos vetores na transmissão das doenças” ou “Os cientistas já começavam a perceber a necessidade de padronizar internacionalmente a nomenclatura botânica”. Essa história anacrônica também “cobra” dos agentes do passado atitudes que eles não poderiam ter, do tipo “d. João VI não gostava de tomar banhos”, ou então critica sua atitudes à luz de parâmetros atuais, como, por exemplo, considerar mentirosos os navegantes renascentistas que acreditavam ter visto sereias. Em outro campo de compreensão, numa atitude que poderia ser qualificada de “pós-moderna”, alguns estudiosos acreditam que não faz a menor diferença saber se o Jardim Botânico foi criado em 1808 ou em 1811. O passado deve apenas servir como material estético a ser usado nas intervenções políticas do presente. Assim, o cuidado com a “veracidade” daquilo que aconteceu seria apenas algum tipo de resquício de vontade de coerência da parte dos saudosos do dito “positivismo”. Retomando a questão “Para que serve a história?”, creio que é possível complexificar a resposta inicial que vê o passado como uma das dimensões humanas. O estudo do passado de forma a respeitar as diferenças e a conservar toda a estranheza das sociedades passadas parte do princípio de que a história pode, pela relativização do tempo, perceber aspectos da realidade que nós vivemos como se fossem inteiramente naturais e nem nos damos conta de que são uma construção social. 22 O historiador italiano Carlo Ginzburg desenvolveu suas reflexões sobre o Estranhamento como procedimento historiográfico em um texto publicado inicialmente em 1998, intitulado Estranhamento. Pré-história de um procedimento literário. O historiador que olha a sociedade com estranhamento busca ver as coisas como se as tivesse vendo pela primeira vez. Olhar com estranhamento pode mesmo questionar a legitimidade de certas práticas. Ginzburg mostra como esse procedimento é usado por muitos literatos, como é o caso de Tolstoi. Em um conto desse autor, a história é narrada por um cavalo, o que permite ao leitor dar-se conta de que o direito de propriedade não é um dado da natureza: “Muitos homens que me definiam como ‘seu’ cavalo não cavalgavam; era outra gente que me cavalgava. [...] Não me fizeram bem os que me chamavam de ‘meu cavalo’, e sim cocheiros, veterinários ou outras pessoas estranhas. Quando, mais tarde, ampliei o horizonte das minhas observações, convenci-me de que o termo ‘meu’ não se refere apenas a nós, cavalos, mas, em geral, vem unicamente de um instinto baixo, animalesco, dos homens instinto que eles chamam de sentimento de propriedade ou direito de propriedade.” Assim como essa passagem de Tolstoi, o olhar do historiador No que diz respeito à história das ciências, o estranhamento permite identificar a existência de novas práticas e a reinvenção de outras, bem como o término e resignificação de outras mais. Para que minhas reflexões fiquem mais claras, vou analisar algumas dessas transformações, a partir de alguns exemplos que se relacionam com a história das ciências. 1 – Para que serve a botânica? Um dos textos lineanos de grande circulação no século XVIII intitulavase Cui Bono?, ou seja, Para que serve? Foi escrito como tese do aluno Christopher Gedner, em 1752. Esse texto é um dos primeiros de uma linhagem que discutirá a importância do estudo dos “três reinos” da natureza, no século XVIII e início do século XIX. A botânica, alvo maior de codificação e ramo de estudos que mais se desenvolveu na época foi objeto de polêmicas que defendiam sua utilidade para a sociedade. Dois argumentos tornam-se verdadeiros topoi dos textos que argumentavam em favor dos estudos sistemáticos das plantas: o primeiro afirmava que a botânica era um estudo “filosófico” e não apenas um exercício de memorização de nomes; o segundo declarava que conhecer o reino vegetal não era uma atividade diletante, ligada a uma “mera curiosidade”, mas sim uma atividade útil, pois tudo o que nos serve para viver vem sempre dos “três reinos” da natureza, principalmente das plantas. 2 – Coleções, ordem e caos O escritor Louis-Sébastien Mercier escreveu, em 1770 uma utopia chamada O ano 2440: sonho do que seria. Nesta obra, o autor descreve o que seria o perfeito gabinete de história natural do futuro, em Paris, no qual as espécies animais seriam dispostas de acordo com a “cadeia dos seres”. O gabinete de história 23 natural real, que ficava no Jardim das Plantas foi descrito por ele no livro Tableau de Paris, de 1784, como um grande caos: “Nada me parece mais desordenado que esse sábio amontoado, feito para estar disperso sobre a superfície da Terra. Todas essas diferentes espécies que se tocam e que não foram criadas para se tocarem, reunidas em um só ponto, formam uma dissonância em meu cérebro, e me dão uma sensação desagradável. Essa ordem simétrica, obra momentânea da mão do homem tem qualquer coisa de factício e de bizarro que fere meu senso moral e íntimo.” Neste exemplo, é interessante perceber que os critérios de ordenação morfológicos desagradam ao autor, que acha artificial juntar seres de continentes diferentes, apenas por que se parecem. No gabinete utópico reina a ordem “natural”, que , apesar de ser morfológica, mostra a harmonia existente entre todos os seres, que se transformam imperceptivelmente uns nos outros. Nas décadas posteriores, o grande incremento da história natural virá justamente pela ruptura com a idéia de continuidade, cara a Mercier. 3 – Agricultura e cultura Outro exemplo de relativização dos nossos hábitos e crenças vem de algo bem próximo: o açúcar. Até o século XVii, o açúcar era uma mercadoria cara, usada como medicamento e presente em boticas de médicos. No século XIX o açúcar transformou-se em um dos principais energéticos consumidos pelas classes trabalhadoras no mundo inteiro. A necessidade do açúcar já existia e simplesmente ele não estava disponível? O historiador Sidney Mintz em um belo livro intitulado Sweetness and Power: The Place of Sugar in Modern History, de 1985, demonstra a articulação entre a formação da classe trabalhadora moderna, a emergência de novos hábitos alimentares, a criação de novas esferas de sociabilidade, o colonialismo e a cultura de produtos tropicais. O açúcar, originário da Ásia e plantado em larga escala no Brasil e nas Antilhas paas ou a ser item básico de consumo, também associado a outros produtos tropicais, como o cacau, o chá e o café. Esses poucos exemplos de como as ciências e as técnicas estiveram presentes passado mostram também que há continuidades entre muitas coisas que vivemos e as crenças e práticas de séculos atrás. Mas, como é possível dizer que se trata das mesmas coisas, se a configuração de práticas, saberes, e as próprias condições materiais eram tão diferentes? Os historiadores não têm resposta para tudo, mas, do ponto de vista do método, continuamos a trabalhar com a idéia de que existem diferentes durações temporais e diferentes ritmos que regem as muitas camadas que envolvem nossa existência. 24 Jardim Botânico do Rio de Janeiro: 200 Anos de História, Beleza e Pesquisa Científica Begonha Bediaga Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro 25 A configuração atual do arboreto do Jardim Botânico do Rio de Janeiro é a sobreposição de histórias, intervenções, propósitos distintos, os quais contam a trajetória da bicentenária instituição que teve o mérito de manter ininterruptas suas atividades, sempre localizadas no mesmo espaço físico. A beleza de suas aléias, formadas por imponentes árvores e acrescidas de obras de arte, revela a construção daquela paisagem. O entorno formado pela silhueta das montanhas vizinhas, como o Corcovado adornado com o Cristo Redentor, e a imponência da Mata Atlântica completa o deleite dos visitantes em seu contato com a natureza. Diante de tantos atributos, como se explica que a escolha do local não foi feita em razão do que se pode deslumbrar? A história do JBRJ inicia em 1808, com a mudança da Família Real e da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro, em fuga das tropas de Napoleão. Os tempos eram belicosos, d. João havia declarado guerra ao temível exército de Napoleão e urgia tomar providências, também, quanto à segurança do território e da Família Real, diante de um possível ataque francês. Entre tais medidas, a criação de uma fábrica de pólvora e de uma fundição para suprir a artilharia era premente. A Fazenda da Lagoa Rodrigo de Freitas pareceu o local ideal para a instalação da fábrica. As explosões que ocorreriam durante o manejo dos componentes da pólvora não afetariam o centro da cidade, distante dali, e o local era provido de água abundante, necessária para o funcionamento das máquinas. Assim, em maio de 1808 instalou-se, no terreno da fazenda desapropriada, a Fábrica de Pólvora e Fundição de Artilharia. No mesmo terreno iniciaram-se as atividades de um Jardim de Aclimatação com as especiarias do Oriente. A escassez de registros documentais sobre essa operação leva a crer que ela foi realizada, de certa forma, sigilosamente. Pode-se pressupor que se tratava de uma estratégia de ocultamento de propósitos, uma espécie de precaução de encobrir decisões e ações que pudessem interessar ao inimigo. Por que a decisão de instalar um jardim de aclimatação nos arrabaldes da cidade, no mesmo terreno de uma fábrica de pólvora? Por que não implantá-lo em um local de fácil acesso, onde a Família Real e a Corte pudessem dele usufruir, como por exemplo o Palácio de São Cristóvão, residência do príncipe regente? Parte da historiografia afirma que, em visita à Fábrica de Pólvora, d. João ficara encantado com a beleza do local e resolvera fundar um Jardim Botânico. Mas essa pode ser uma interpretação dos acontecimentos com base na situação atual da região, integrada que está à zona nobre da cidade e totalmente povoada. Por que a decisão de instalar um jardim de aclimatação nos arrabaldes da cidade, no mesmo terreno de uma fábrica de pólvora? Por que não implantálo em um local de fácil acesso, onde a Família Real e a Corte pudessem dele 26 usufruir, como por exemplo o Palácio de São Cristóvão, residência do príncipe regente? Parte da historiografia afirma que, em visita à Fábrica de Pólvora, d. João ficara encantado com a beleza do local e resolvera fundar ali um jardim botânico. Porém, se nos reportamos ao contexto de 1808 – quando o cultivo de espécies de plantas nas colônias tropicais era um bom negócio para as nações européias, a ponto de essas espécies se tornarem alvo de pirataria –, parece plausível supor que a distância do núcleo urbano tenha sido justamente uma das condições decisivas para criar-se ali um jardim de aclimatação de plantas, com o sigilo e a segurança necessárias. Note-se que o próprio governo português ao invadir e dominar a Guiana Francesa, em janeiro de 1809, revelou não apenas a intenção de retaliação de Portugal em relação à França, como também o interesse no acesso irrestrito ao famoso Jardim Botânico de Caiena, La Gabrielle, onde se cultivavam espécies trazidas de colônias francesas – cujos exemplares tratou de enviar imediatamente ao jardim de aclimatação brasileiro. De todo modo, uma situação sui generis e talvez única no mundo acabou ocorrendo no Brasil: ao mesmo tempo e no mesmo local em que se instalava uma fábrica de pólvora, iniciavam-se as atividades de um jardim botânico sob o significativo comando do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Quando a paz foi novamente instaurada na Europa, diversas espécies já haviam sido aclimatadas no Jardim e vislumbrava-se a possibilidade de estabelecer pesquisas, com intuito de implantar novas culturas com potencial econômico. Foi então que, em 1824, o renomado botânico frei Leandro do Sacramento assumiu a direção da instituição. No período em que esteve à frente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, frei Leandro pesquisou e incentivou a cultura do chá (Camellia sinenses, nomeada anteriormente Tea viridis), possivelmente a primeira produção em escala comercial no Jardim. A instituição passou a experimentar culturas e distribuir suas sementes a fazendeiros de todo o país, com o propósito de apresentar alternativas à produção agrícola. Até a segunda metade do século XIX, botânica e agricultura eram atividades atreladas. Enquanto a botânica era voltada principalmente para a identificação de espécies, a agricultura era sua ‘arte’, ou seja, a técnica utilizada com intuito de obter mudas, transportar vegetais ─ muitas vezes de um continente a outro, durante meses ─ e pesquisar espécies e variedades com objetivos de aclimatação a outros climas e solos. Essas foram as principais atividades do Jardim Botânico em seus primórdios. A escassez de verbas para implementar novos projetos acarretava muitas dificuldades para a instituição. Foram inúmeros e infrutíferos os pedidos, ao governo, de aumento da dotação orçamentária. Em 1861 o Estado tentou solucionar os problemas com a cessão do JBRJ ─ na época chamado de Jardim 27 Botânico da Lagoa Rodrigo de Freitas ─ a uma organização de caráter privado: o Imperial Instituto Fluminense de Agricultura. A partir de então, a pesquisa da instituição concentrou-se nas ciências agrárias, porém o arboreto seguiu aberto ao público como área de lazer e contemplação e iniciou-se o ensino de atividades rurais, com a criação do Asilo Agrícola. As experimentações agrícolas se davam na chamada Fazenda Normal, localizada acima do arboreto, e ali foram plantadas diversas espécies de cana-deaçúcar, café, fumo, mandioca, quina, milho, melão, lúpulo, batatas, feijão, algodão, inúmeras forrageiras, bombonaça e muitos outros. Criou-se também um Laboratório Químico dedicado à análise de plantas e solos e à identificação de pragas agrícolas, em consonância com os estudos de nutrição vegetal e química agrícola que despontavam na Europa. Os viveiros do JBRJ eram de grande escala. Em 1870, por exemplo, a instituição distribuiu a fazendeiros cerca de 350 mil sementes e mudas, além de ter guarnecido de árvores a Floresta da Tijuca, praças e ruas públicas, não só do Rio de Janeiro como também de outras províncias. A agronomia, na segunda metade do século XIX, firmava-se como disciplina distinta da botânica e começava a interagir mais intensamente com a química agrícola, a meteorologia, a pedologia e outros saberes orientados para as atividades rurais. A botânica, por sua vez, continuava com as pesquisas na área da sistemática, porém voltadas cada vez mais para o conhecimento das plantas nativas. A gestão de João Barbosa Rodrigues, presidente do Jardim de 1890 a 1910, parece ter acompanhado essa tendência: a pesquisa botânica foi incrementada, com a instalação de um herbário, uma biblioteca e estufas; criou-se o cargo de naturalista viajante, cuja função era coletar pelo Brasil plantas vivas e secas e enviar ao JBRJ com propósito de ampliar as coleções. Sob a direção de Antonio Pacheco Leão (1915-1931), a instituição obteve incentivos que a levaram a liderar os estudos sobre a flora brasileira, principalmente graças às grandes expedições. A criação do periódico Archivos do Jardim Botânico, primeira revista científica do país exclusivamente voltada para a botânica, e, mais tarde a Rodriguésia demonstram o compromisso assumido desde então com a divulgação científica. Em que pesem diferentes conjunturas, o ensino esteve atrelado quase que constantemente às atividades da instituição. Se o Asilo Agrícola foi uma longeva experiência no século XIX, mais tarde a formação de jardineiros e mateiros seguiu sendo uma tarefa constante, porém de forma informal e geralmente instruída por antigos servidores, alguns anônimos e outros mais célebres como Orlando Pereira da Silva ─ conhecido como Folha Seca ─ e Ricardo Matheus, responsáveis no embelezamento e preservação do arboreto e na coleta de sementes, flores, frutos. 28 Na área científica, diversos pesquisadores tornaram-se mestres de gerações como Fernando R. Milanez, João G. Kulhmann, Liberato J. Barroso, Alexandre C. Brade, Carlos T. Rizzini, e Graziela M. Barroso, apenas para citar alguns. As atividades de ensino no JBRJ voltaram a ser formalizadas em 2001 com a criação da Escola Nacional de Botânica Tropical e os cursos de extensão e a pós-graduação. Desde 1985, o JBRJ incorporou a educação ambiental como atividade permanente, aproximando o público da biodiversidade por meio de vários projetos. O Centro Socioambiental atua no ensino de técnicas de jardinagem para jovens de 14 a 21 anos e busca ampliar o escopo de sua atuação estimulando os jovens no que concerne a responsabilidade e auto-estima, o que aumenta as possibilidades de inserção dos alunos no mercado de trabalho. Desde a década de 1980, o JBRJ tem ampliado suas pesquisas para além do conhecimento dos vegetais, com ações voltadas para a criação de um Museu do Meio Ambiente, a história das ciências naturais e a preservação do patrimônio e da paisagem. O exercício da interdisciplinaridade tornou-se uma realidade, fundamental que é para integrar os diferentes propósitos da instituição bicentenária. 29 Diretrizes para Conservação e Restauração do Estado de São Paulo: onde e como conservar e restaurar a biodiversidade Maria Cecília Wey de Brito Carlos A. Joly Ricardo R. Rodrigues Programa BIOTA/FAPESP 30 Pode-se dizer que hoje já é de conhecimento público um dos mais significativos resultados do desenvolvimento social e econômico no estado de São Paulo: uma profunda alteração da paisagem. Essa paisagem está quase totalmente sob algum regime de produção ou ocupação, mas dela ainda despontam, aqui e ali, maiores ou menores áreas com remanescentes de ecossistemas naturais. Esses remanescentes, especialmente os maiores, estão geralmente associados a relevos mais acidentados. É o caso dos remanescentes ocorrendo nas serras do Mar e Mantiqueira. Ainda assim, algumas áreas declivosas já têm suas encostas degradadas historicamente por ocupação agrícola. Onde o relevo é menos acidentado são encontrados muitos pequenos fragmentos de remanescentes de ecossistemas naturais, mais ou menos interligados entre si, sob maior ou menor grau de ameaça. Nos remanescentes, maiores ou menores estão as amostras da biodiversidade paulista. A biodiversidade pode ser traduzida como a variedade de espécies de todas as origens e de todas as localizações, assim como a de suas associações – as comunidades, os ecossistemas e sua estrutura genética . O conhecimento acumulado demonstra que o Brasil é um dos países com maior biodiversidade, abrigando entre 15% e 20% das espécies do planeta. No Brasil, o estado de São Paulo, em função de seu relevo e de sua posição geográfica, apresenta rica biodiversidade, mesmo que mantenha apenas 13% de sua vegetação original, dentre os quais cerca de 4% que estão protegidos dentro de unidades de conservação. Em São Paulo ocorrem remanescentes de dois dos hotspots mundiais – o Cerrado e a Mata Atlântica, assim considerados por serem muito ricos em biodiversidade e estarem bastante ameaçados. Com a finalidade de conservar essas últimas áreas com remanescentes de ecossistemas naturais, e sua biodiversidade, em 1995 o então secretário estadual do Meio Ambiente, Fabio Feldmann, criou o Programa Estadual para a Conservação da Biodiversidade (Probio/SP), voltado a traduzir em normas, resoluções, decretos e leis as informações científicas disponíveis no Estado e promover a articulação da secretaria com a comunidade científica. O objetivo era suprir, por meio da pesquisa, as lacunas de conhecimento existentes e subsidiar as políticas públicas para o tema. Desse programa resultaram políticas públicas importantes, como o workshop “Bases para Conservação e Uso Sustentável das Áreas de Cerrado do Estado de São Paulo” e a “Lista das Espécies da Fauna Silvestre Ameaçadas de Extinção” (Resolução SMA nº 55/95 e Decreto Estadual nº 42.838/98, respectivamente). Entretanto, o sucesso obtido nestas iniciativas não se repetiu posteriormente na articulação do poder executivo com a comunidade científica. O maior problema para que os formuladores de políticas públicas utilizem as informações científicas disponíveis sobre a biodiversidade continua 31 a ser o fato de que estas estão sempre dispersas e fragmentadas em centenas de trabalhos e publicações, muitas vezes em fontes de difícil acesso e em formato que praticamente inviabiliza a sua aplicação direta. Uma das estratégias para superar essa dificuldade no estado de São Paulo foi a implantação do Programa Biota da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado São Paulo (Fapesp). O Biota já tem 9 anos de existência e representa uma nova concepção entre a imprescindível etapa dos inventários da biodiversidade paulista e um programa de pesquisas em conservação e uso sustentável dessa biodiversidade. Nos últimos dois anos, cerca de 160 pesquisadores do Biota/FAPESP, em parceria com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (que inclui Fundação Florestal, Instituto Florestal e Instituto de Botânica) e as ONGs Conservação Internacional e CRIA (Centro de Referência em Informação Ambiental) discutiram as bases metodológicas e organizaram os workshops “Áreas Continentais Prioritárias para Conservação e Restauração da Biodiversidade do Estado de São Paulo” e “Diretrizes para Conservação e Restauração da Biodiversidade do Estado de São Paulo”. Este esforço conjunto resultou na produção de três mapas-síntese e vinte e quatro mapas temáticos (mapas de três escalas para oito temas), que indicam os remanescentes de ecossistemas naturais a serem protegidos, restaurados, ou melhor pesquisados. Esses resultados podem se constituir na base do planejamento ambiental do estado. Para esse trabalho foram usados, entre outras informações, os dados de distribuição de 3.236 espécies de plantas e animais consideradas estratégicas para as ações de conservação e uso sustentável dessa biodiversidade remanescente. É uma demonstração clara e concreta de que o banco de dados do Biota/FAPESP, gerado com fins científicos, pode e deve sustentar a adequação das políticas públicas estaduais para conservação, restauração e uso sustentável da biodiversidade do Estado. Mas para que os objetivos de conservação e uso sustentável da biodiversidade sejam atingidos, ainda falta um passo importante, que é a transformação desses resultados construídos com base científica, em documento legal do Estado, na forma de uma resolução ou de um decreto estadual. Em âmbito federal a perspectiva de transformar dados científicos em políticas públicas já tem exemplos, em particular no tratamento do tema de áreas prioritárias para a conservação e uso sustentável da biodiversidade. Desde que o Brasil ratificou a Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB), em 1994, o governo federal criou e reforçou estruturas institucionais, desenvolveu programas, levantou recursos e aplicou diretrizes e conceitos 32 importantes. Neste sentido criou a Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio), estabeleceu a Política Nacional da Biodiversidade, o Plano de Ação para Implantação da Política Nacional de Biodiversidade (PANBio), editou a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), o Plano Estratégico Nacional de áreas Protegidas (PNAP), dentre outras ações. Exemplos para legalização dos resultados de iniciativas como essa já existem. Cabe aos estados que já têm resultados consensuados para conservação e restauração da biodiversidade remanescente, traduzi-los em em documento legal, garantindo a perpetuação dessas ações. Dessa forma, ficará mais claro para a sociedade que os investimentos públicos na área ambiental, sejam aqueles aplicados na gestão pública do território paulista, sejam aqueles aplicados à pesquisa científica podem e devem caminhar juntos. Com essa diretriz será possível indicar um melhor planejamento para a paisagem paulista, em benefício de toda a sua sociedade. 33 Áreas Protegidas na Mata Atlântica Clayton Ferreira Lino Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica 34 1 – A Mata Atlântica A Mata Atlântica é uma das mais belas, biodiversas e ameaçadas florestas tropicais do mundo. É também a de maior extensão latitudinal e a que apresenta a maior diversidade de formações florestais e ecossistemas associados em todo o Neotrópico. Neste bioma ocorreram a maior parte dos fatos sociais políticos econômicos que marcam a historia e formaram a identidade cultural do Brasil. Nele concentram-se dois terços da população brasileira e atividades que respondem por cerca de 70% do PIB nacional. São mais de 3400 municípios em 17 estados, 120 milhões de habitantes, e a maioria das cidades, portos, industrias, centros turísticos, agropecuários e petrolíferos do país. A exploração predatória de recursos, começada há 500 anos com o Pau – Brasil, seguida pela agricultura da cana e do café entre outras, a pecuária extensiva, a silvicultura de pinus e eucalipto, a produção de carvão, a mineração irregular, as obras de infra estrutura como estradas e barragens; as cidades e a especulação imobiliária, destruíram 93% dessa floresta e fragmentaram grande parte dos remanescentes florestais. Perdemos paisagem, biodiversidade, água e solo e um indispensável conjunto de serviços ambientais fundamentais para os cidadãos brasileiros e para a Humanidade em geral. A partir das décadas de 1970 e 80, a sociedade brasileira reagiu e criouse na Mata Atlântica um dos mais expressivos movimentos de cidadania sócio ambiental do Planeta. Desde então cresceram e se diversificaram as ações de governos e sociedade em prol da proteção, uso sustentável e restauração da floresta. Criaram-se novas instituições de meio ambiente tanto governamentais quanto ONGs, novas legislações ambientais, fundos de apoio a projetos, inventários de remanescentes florestais, pesquisas sobre os diversos ecossistemas do Bioma, identificação de áreas prioritárias para conservação , campanhas e educação ambiental. A Mata Atlântica foi declarada Patrimônio Nacional pela Constituição de 1988, reconhecida pela UNESCO como Reserva da Biosfera em 1991, ganhou uma Lei especifica, “a Lei da Mata Atlântica” (Lei 11.428) em 2006 Em síntese, a Mata Atlântica deixou de ser uma quase desconhecida, e passou a ocupar um lugar de destaque nas prioridades da sociedade brasileira e na comunidade internacional. Ainda, continua em estado crítico, com menos de 2% de sua área original abrigada em Unidades de Conservação de Proteção Integral e com 380 espécies ameaçadas de extinção, o que representa 60% das 627 espécies listadas no Brasil nesta situação. Atualmente os esforços de conservação tem corretamente se ampliado, integrando políticas e projetos nos campos da criação de Áreas Protegidas, no uso 35 sustentável dos recursos naturais e na restauração de áreas florestais. Surgiram novas questões e perspectivas para a conservação associadas às mudanças climáticas, ao desenvolvimento da biotecnologia, à organização das comunidades tradicionais, à adequação de mercados, à novos padrões de sustentabilidade, ao crescente reconhecimento dos serviços ambientais fornecidos pelos ecossistemas, ao maior grau de conhecimento científico e à maior consciência e mobilização da sociedade em defesa das florestas . É nessa perspectiva que o conceito e o papel das Unidades de Conservação da Natureza se alterou , especialmente na Mata Atlântica. 2 – Áreas Protegidas na Mata Atlântica – Revendo Conceitos As primeiras áreas protegidas do Brasil se concentraram na Mata Atlântica. Várias delas criada ainda no século XIX, tinham como objetivo central preservar e água para abastecimento das cidades, à exemplo das atuais Parques da Tijuca, no Rio de Janeiro e da Cantareira , na cidade de São Paulo. Ambos foram desapropriados pelo poder público e em grande parte reflorestado, pois estavam ocupadas por fazendas de café/cana e outras culturas. Outras áreas foram protegidas para abrigar Hortos Florestais e Jardins Botânicos, voltados à pesquisa de espécies nativas e principalmente aclimatação de espécies exóticas . O Jardim Botânico do Rio de Janeiro é o melhor exemplo dentre elas . Também o primeiro parque nacional, o de Itatiaia, foi criado na Mata Atlântica em 1937, seguindo o modelo de áreas protegidas americanas surgido com a criação, em 1872, do Parque de Yellowstone. Inicialmente os parques eram planejados como “ilhas naturais”, sem ocupação humana , de propriedade governamental , com prioridade para a preservação de paisagens excepcionais, ecossistemas primitivos e algumas espécies ameaçadas. Seu uso seria voltado, em graus variados, para a pesquisa científica, a recreação e turismo e para fins educacionais. Partia-se do princípio de uma incompatibilidade intrínseca entre desenvolvimento humano e conservação da Natureza . Considerando-se os modelos de desenvolvimento então vigentes, esse princípio era facilmente demonstrável. Nas últimas décadas, no entanto , este instrumento de proteção passou por uma verdadeira revolução em sua base conceitual ganhando uma nova feição. Isso se deu porque tomou-se consciência de que tal modelo preservacionista, se tomado de forma isolada, com raras e importantes exceções, era praticamente inaplicável em países pobres, pouco estruturados política e administrativamente , onde a legislação restritiva , base desse modelo , mostravase frágil e, freqüentemente, injusta do ponto de vista social. Também nos países mais desenvolvidos, o modelo de “áreas excluídas” se mostrava pouco eficiente, 36 pois não permita assegurar a dinâmica e a conservação da biodiversidade nacional apenas em unidades territoriais de dimensões relativamente reduzidas. Em decorrência dessa percepção, surgiram novas estratégias visando a ampliação da eficácia das Áreas Protegidas, dentre as quais podemos destacar: a criação de Sistemas Nacionais de Áreas Protegidas, com vistas a ampliar o número, a representatividade de ecossistemas protegidos, a distribuição territorial dessas unidades e a maior eficiência em sua administração e controle; o estabelecimento de corredores de fauna/corredores biológicos conectando áreas protegidas com o objetivo de assegurar o fluxo gênico entre elas; a implantação de mosaicos ecológicos, com a criação e integração entre áreas protegidas contíguas, ainda que de distintas categorias de manejo e diferentes graus de proteção. Também ganhou destaque a implementação do conceito de “buffer zone”, ou zonas de amortecimento e transição no entorno de áreas protegidas visando criar um gradiente de proteção entre um núcleo primitivo e áreas externas intensamente ocupadas, modelo esse especialmente difundido por intermédio das Reservas da Biosfera. Nas décadas de 70 e principalmente 80, novas estratégias de conservação “in situ” ganharam importância à medida em que a responsabilidade da conservação (e sua efetividade) deixaram de ser vistas como exclusivas do Poder Público, estendendo-se também aos vários segmentos da sociedade organizada. Assim, criaram-se no Brasil as áreas protegidas por iniciativa dos particulares, como por exemplo, os Refúgios Particulares de Vida Silvestre (que, posteriormente deram lugar às RPPNs – Reservas Particulares do Patrimônio Natural), sob responsabilidade de pessoas físicas ou jurídicas. Atualmente a Mata Atlântica conta com 712 unidades de conservação de Proteção Integral, das quais 246 são áreas públicas e 466 são RPPNs. Estas ultimas, embora sejam muito mais numerosas recobrem apenas 103.336ha, enquanto as UCs governamentais protegem 2.566.620ha. No total, apenas 1,7% do Bioma está protegida por essas categorias mais restritas, muito aquém do mínimo de 10% da área original recomendada internacionalmente. Cabe ainda destacar que estas UCs estão mal distribuídas no Bioma, tanto do ponto de vista regional, quanto da diversidade dos ecossistemas representados em seus territórios. São especialmente preocupantes as lacunas de proteção na região nordeste e nas regiões mais interioranas da Mata Atlântica onde predominam as Florestas Caducifólias. Também é crítica a proteção de remanescentes da Floresta Ombrófila Mista ( Araucárias) e das restingas costeiras, altamente pressionadas pela especulação imobiliária. Também causa preocupação o fato de que mais de 50% das UCs de Proteção Integral da Mata Atlântica terem menos de 1.000hectares de superfície reforçando os riscos da fragmentação ecológica. Segundo levantamentos de 2007, das espécies de vertebrados da Mata Atlântica ameaçados de extinção apenas 37 15% estão protegidos nessas UCs, outros 63% estão parcialmente protegidos e 22% das espécies simplesmente não contam com UCs proteção integral para a conservação de seus habitats. A partir do início da década de 90, com a difusão do conceito de desenvolvimento sustentável, fortaleceu-se a noção de que as “Áreas Protegidas” devem ser pensadas, criadas e geridas de forma participativa e integrada ao contexto regional, onde a biodiversidade e a sociodiversidade são patrimônios igualmente relevantes e que, por conta disso, podem e devem ser protegidos através de estratégias articuladas. Nessa Perspectiva vem sendo criadas muitas áreas protegidas de uso sustentável, onde se busca compatibilizar a presença humana e a conservação ambiental. Tais Unidades se agrupam em 2 blocos distintos: 1) Áreas particulares sob regime especial de uso do solo e exploração de recursos naturais, como as APAs – Áreas de Proteção Ambiental e os Monumentos Naturais e 2) Áreas de comunidades tradicionais também criadas com normas sócio ambientais diferenciadas, a exemplo das RESEX- Reservas Extrativistas e as RDS- Reservas de Desenvolvimento Sustentável. Embora não tenham o mesmo grau de restrição de uso , essas áreas cumprem importante papel na conservação da biodiversidade, especialmente quando tem grandes extensões e situam-se no entorno ou promovem a conectividade de UCs de Proteção Integral na Mata Atlântica . Além dessas categorias e integrando-as no campo e na gestão territorial cada vez mais ganham força Áreas Protegidas Especiais como os Corredores Ecológicos, os Mosaicos de Áreas Protegidas e as Reservas da Biosfera . É através dessas que, cada vez mais as Áreas Protegidas deixam de ser isoladas e se integram ao território e ao desenvolvimento das regiões onde estão situadas. Integrar as Áreas Protegidas nas regiões, na economia e na cultura do país é a única forma de assegurar-lhes importância política e a prioridade que necessitam no nível governamental e da sociedade nacional. 38 Gestão de áreas protegidas no Brasil Rozely F. Santos Universidade Estadual de Campinas 39 O desejo de preservar sistemas naturais, manter a diversidade biológica e os recursos genéticos, conforme define o artigo 4o. da Lei SNUC, assegurou a existência de muitas Unidades de Conservação que, sem dúvida, necessitam de uma gestão que garanta seus objetivos. Gerenciar uma área protegida significa muito mais do que garantir a integridade dos processos naturais. A gestão é um processo que exige atuação e tomada de decisão a partir de uma cadeia de funções, que envolvem desde o planejamento da área e a organização dos trabalhos até a liderança de grupos, a divisão compartilhada de responsabilidades e recursos, a execução das atividades dentro de condições previstas, o monitoramento, o controle e o manejo. É imprescindível que se verifique a eficiência e eficácia das atividades em execução e indicar alterações. Para tanto, são necessárias estratégias e instrumentos que permitem realizar cada fase da gestão e solucionar pressões, impactos, conflitos e demandas. O gestor deve, portanto, ter diversas habilidades que permitam conduzir esse processo, garantir os objetivos de sua unidade, respeitar os atos legais ambientais, fomentar a formação de redes conectivas, proteger e melhorar a qualidade do meio e de vida do homem. Não é uma tarefa simples e, no Brasil, existem fatores que dificultam ainda mais o trabalho do gestor. O primeiro fator refere-se à administração das terras e o controle de impactos. Na maior parte das vezes, o planejamento e o gerenciamento se dão sobre terrenos de terceiros, de antigas posses ou invasões. Assim, a ação do gestor torna-se muito limitada. O envolvimento público através de audiências, oficinas ou conselhos é comumente realizado, mas muitas vezes o alvo é desvirtuado, pois ao invés de discutir os caminhos para obtenção dos objetivos da área protegida prepondera-se a discussão sobre os problemas de posse da terra, do direito de uso e da responsabilidade sobre o impacto. Essa e outras questões de base ocorrem, primariamente, porque não existe uma proposta gerencial global, do próprio Estado, que integra as unidades brasileiras e garantem dentro de um cronograma físico-financeiro, por exemplo, a propriedade das terras e recursos de implantação de planos de manejo. Gestão de áreas protegidas deveria significar uma aliança de colaboração entre Estado, sociedade civil, economia e mercado. Não pode ser visto como um sistema particular de administração, de planejamento setorial ou de regulamentação legal formal. O segundo fator de grande importância é o reconhecimento dos limites territoriais da unidade e os limites da própria gestão, que envolvem decisões internas (área protegida) e externas (zona de influência), resultando em decisões que ocorrem em dois planos espaços-temporais. Embora os planos de manejo considerem essa questão, as orientações são essencialmente de cunho técnico, raramente respondendo as outras funções da cadeia de gestão, muito em virtude da dificuldade de compatibilizarem planos e poderes locais, já que não há um plano de gestão global, orientado pelo Estado e reconhecido pelas diversas instâncias de governo e pelos diversos níveis da administração pública. 40 Outro fator importante está ligado a difícil tarefa do gestor em trabalhar com valores, culturas e éticas, que envolvem paradigmas, princípios de valor e expectativas de um amplo espectro de atores como comunidade local, tradicional e visitantes. Não existe, por exemplo, um procedimento técnico usual, que possa ser aplicado nas diversas áreas protegidas de forma a garantir a conservação biológica concomitantemente à conservação do patrimônio histórico, construído e ambiental. Caso o gestor brasileiro consiga superar as questões técnicas, legais e de relacionamento com os diversos níveis de administração política e pública, provavelmente ele não terá uma estrutura organizacional que permita uma eficiente operacionalização, numa situação de mínima adequação de assessoria, capacitação, recursos humanos e financeiros entre outros. Estas são algumas considerações que objetiva evidenciar os caminhos e a complexidade da tomada de decisão em um sistema de gestão de unidades legalmente protegidas e defender a proposta de que somente um sistema forte e integrado de gestão permitirá a melhoria da qualidade das áreas existentes. 41 Aplicação de métodos de conservação in situ na Mata dos Oitis, o remanescente de Mata Atlântica do Jardim Botânico de Salvador Erivaldo Pereira Queiroz Jardim Botânico de Salvador 42 Introdução O Jardim Botânico de Salvador cuja missão é a conservação da biodiversidade, pesquisa e educação ambiental, possui 17 ha remanescentes da Floresta Atlântica, a Mata dos Oitis. Essa denominação é decorrente da existência de uma imponente árvore endêmica, a Licania salzmannii (Hook. f.) Fritsch (oiti-dabahia). Localizado no centro-norte da Cidade, Bairro de São Marcos (12o55`37,5`` e 12°56`15´´ S e 38°25`37,5`` e 38°26`15`` W), está situado a cerca de 5 km da orla marítima e uma altitude entre 40 e 70 m. Apesar do primeiro registro da vegetação da Bahia ter surgido através da carta de Pero Vaz de Caminha (Andrade-Lima, 1984), ressaltando a riqueza de nossas matas, de Darwin em 28/02/1832 relatar as florestas pluviais de Salvador, destacando a sua exuberância, de ter sido a primeira capital do Brasil e ocupar a terceira colocação em tamanho, inexistem trabalhos botânicos significativos publicados para a cidade. Segundo a Secretaria do Meio Ambiente SEMEA (1995), as áreas que apresentam massa vegetal significativa, tais como os fragmentos florestais do Parque Metropolitano de Pirajá, Avenida Paralela, Ipitanga, Parque Zoobotânico, Parque da Cidade e as ilhas do Município não apresentam nenhum estudo florístico ou faunístico importante, apenas resultados de coletas pontuais. Como se trata de um fragmento tende por natureza a perda da biodiversidade. O isolamento de uma área reduz a transmissão do fluxo gênico, pois as interações intra e inter-específicas ficam limitadas por falta de espaço. Muitas vezes a sobrevivência de determinada espécie fica ameaçada pelo pequeno número de representantes, o que pode levar a extinção local. Muitas espécies de animais e vegetais necessitam de grandes áreas para garantir sua sobrevivência, não coexistindo em pequenos espaços e podem ainda levar muitas vezes dezenas de anos para atingir a fase reprodutiva e longo tempo entre os períodos de floração e frutificação. A diminuição da fauna também interfere na germinação e polinização, conseqüentemente na perpetuação das espécies. Os animais são dependentes diretos dos vegetais, pois recebendo em troca alimento e abrigo contribuem com a diáspora de frutos e sementes. Espécies vegetais também interagem entre si, no JBSSA, trepadeiras agressivas heliófitas, por exemplo, são beneficiadas pelo efeito de borda, disseminando-se sem controle no sentido da periferia em direção ao centro da mata. O crescimento acelerado dessas trepadeiras provoca mortandade de árvores e arbustos, interferindo no processo de regeneração, pois afeta primeiramente os indivíduos jovens arbóreos e arbustivos. A competição por luz e espaço e o excesso de peso sobre os indivíduos arborescentes faz com que as zonas de mata afetada necessitem de intervenção, já que esse efeito danoso é em decorrente do crescimento das cidades sobre o meio natural. A facilidade de propagação das espécies ruderais e invasoras, que são de rápido crescimento, é outro fator que provoca perda da diversidade por competição. As espécies exóticas também corroboram nesse processo, muitas vezes falta um controle natural, facilitando a dispersão e concorrendo com as espécies nativas, além de 43 também poder transmitir doenças e pragas para as espécies autóctones. Erradicar, tornar lenta ou controlar a disseminação de trepadeiras agressivas, exóticas, ruderais e invasoras, aliado a produção de mudas nativas para enriquecimento, estabelecimento do equilíbrio natural e manutenção da diversidade são os principais objetivos a serem alcançados. O resultado de tudo isso gera uma grande quantidade de informações ecológicas, tornando necessário disponibilizar esse conhecimento através da Educação Ambiental (EA). Metodologia Realizaram-se coletas sistemáticas de setembro de 2003 a agosto de 2008 em toda a área segundo as técnicas usuais de taxonomia Mori et al. (1985). O material coletado encontra-se depositado no Herbário do Radambrasil (IBGE) que atualmente possui convenio com a Prefeitura Municipal de Salvador através da Secretaria de Parques e Jardins, sendo as duplicatas distribuídas aos herbários que este mantém intercâmbio. Para a identificação do material botânico foram utilizadas chaves taxonômicas usuais e específicas, comparação com exsicatas pertencentes a diversos herbários brasileiros e consulta a especialistas. Para coleta em árvores de grande porte utilizou-se a técnicas de escalada e de rappel. Uma lista organizada acompanhada de registros fotográficos em ordem alfabética por família de acordo com o Sistema de Cronquist (1981), gênero e espécie, além do nome vernacular e hábito tem sido elaborada. A grafia correta dos epípetos específicos e autores através do W3 Tropicos. Foi realizado um levantamento topográfico com localização e marcação dos espécimes arbóreos com diâmetro igual ou acima de 15 cm e plotados em mapa georreferenciado. Para a conservação da diversidade do JBSSA estão sendo aplicadas metodologias específicas de manejo obtidos por meio de estudos preliminares fitossociológicos, perfis e fenológicos entre áreas mais e menos preservadas. Primeiramente foram duas áreas pilotos com acompanhamento por três anos. Posteriormente em seis áreas com cerca de 500 m2 para contenção do efeito de borda e mais oito áreas com enriquecimento, de acordo com os seguintes passos: mapa de vegetação das feições com as zonas mais e menos preservadas; avaliação da condição fitossanitária dos espécimes; seleção de matrizes; estudos básicos de germinação e desenvolvimento das espécies selecionadas; catalogação e substituição gradual de espécimes exóticos por espécimes autóctones; identificação e controle de crescimento das espécies trepadeiras agressivas, invasoras e ruderais com suas áreas de ocorrência; revegetação das áreas com efeito de borda e clareira; retirada de lixo e entulhos e sensibilização da população do entorno. 44 Resultados A vegetação do JBSSA é densa com estratos bem definidos e diversificados. São encontradas centenas de árvores pertencentes a mais de 100 espécies, muitas das quais, com cerca de 30 m de altura. Algumas delas, entretanto, podem alcançar até alturas superiores a 40 m e DAP (Diâmetro a Altura do Peito) acima de 1,5 m. Em sua parte mais preservada é primária ou em estágio avançado de regeneração, porém nas áreas próximas as moradias, o efeito de borda com excesso de trepadeiras interfere no desenvolvimento dos vegetais e reprodução, inclusive com a queda e mortandade de alguns deles. Diversas espécies existentes têm relevante papel ecológico: Annona soteropolitana H. Rainer, sp. nv. ined.; Bahiella infundibuliflora J. F. Morales, gênero e espécie recentemente descritos, Faramea sp, recentemente descrita; Mitostemma sp, registrada pela primeira vez para a Bahia; Caesalpinia echinata Lam., Dalbergia nigra (Vell.) Alemão ex Benth. e Hirtella insigns Briq ex Prance, ameaçadas de extinção e as endêmicas; Attalea burretiana, Licaria bahiana Kurz e Macrolobium latifolium Vog. Mori, l981, considera que 53,5% das espécies encontradas na Mata Atlântica são endêmicas. A Mata Atlântica abriga uma grande diversidade biológica, possuindo aproximadamente 7% das espécies do mundo, muitas das quais endêmicas e ameaçadas de extinção Cullen Jr. et al. (2003). A Mata Atlântica apresenta uma fisionomia exuberante e possui plantas de alto valor ecológico e econômico. O sudeste da Bahia é considerado como um dos centros de endemismo da floresta atlântica, e este conceito está baseado nos estudos com diversos grupos de animais e plantas Giullieti et al. (2006). A Mata Atlântica é muito biodiversa. Tanto que faz parte do programa mundial de hotsposts da biodiversidade mundial. Em apenas um hectare, na região de Serra Grande – Itacaré na Bahia podem ocorrer 454 espécies de árvores, número que é quase a metade da flora de angiospermas (plantas com flor) da Alemanha inteira. Isso sem contar as espécies de arbustos, ervas e trepadeiras Backes & Irgang (2004). Além de ocorrer à presença de Lecythidaceae no JBSSA: Lecythis pisonis (Cambess.) Miers e Lecythis lurida (Miers) S. A. Mori, são encontradas um grande número de espécies climácicas, indicadoras de ambiente preservado e com elevada importância ecológica e comercial, algumas das quais sem registro para a Bahia ou com registro apenas para o sul da Bahia, tais como: Aspidosperma discolor A. DC., Aspidosperma spruceanum Benth. ex Müll. Arg., Brosimum rubescens, Carpotroche brasiliensis (Raddi) A. Gray, Copaifera langsdorfii F., Dimorphandra jorgei, Diplotropis incexis Rizzini & Mattos, Emmotum nitens (Benth.) Miers., Heisteria brasiliensis Engl., Helicostylis tomentosa (Poepp. & Endl.) Rusby, Heteropsis oblongifolia Kunth, Licania salzmanii, Moldenhawera blanchetiana Tul., Ocotea spp, Parkia pendula, Pouteria bangii, Pterocarpus violaceus Vogel, Sloanea monosperma Vell., Terminalia argentea Mart., Tovomita choizyana Pl. Tr., Vatairea sp e Virola bichuyba (Schott ex Spreng.) Warb. 45 A ocorrência de espécies de Lecythidaceae e do gênero de Aspidosperma indica um bom estado de preservação. Segundo Mori (1981), as Lecythidaceae são espécies indicadoras de áreas preservadas. Devido ao pequeno tamanho do local, algumas dessas espécies estão representadas com apenas um, dois ou três indivíduos adultos, como Dimorphandra jorgei, Lecythis lurida, L. pisonis, Pouteria sp, Pterocarpus violaceus e Terminalia argentea. Até o presente momento, o estudo catalogou cerca de 326 em 231 gêneros e 90 famílias. As famílias com maior riqueza foram Fabaceae, Rubiaceae, Myrtaceae, Sapotaceae e Lauraceae. Diante desses dados, foi verificada a necessidade de conservação da diversidade local, para isso foi elaborado um Programa de Manejo que resultou em melhoria significativa de algumas áreas, proporcionando crescimento significativo em tamanho e número de indivíduos. Considerações finais A baixa freqüência e importância de algumas espécies, a riqueza florística e a avançada estrutura fisionômica da vegetação foram às justificativas necessárias para intervir na conservação do local. Essa é uma competência relacionada a uma das missões prioritárias do JBSSA, que é assegurar o patrimônio genético das espécies, aprimorando a conservação in situ e servindo de base para recuperação de áreas degradadas com reserva de matrizes e aplicação dos conhecimentos adquiridos na prática da educação ambiental. A compreensão do local tem fundamental importância no entendimento de como era a vegetação da cidade no passado e pode servir como referência por comparação como indicadora para estágios de regeneração. São informações que podem ser utilizadas por pesquisadores, curiosos e órgãos ambientais. Vale ressaltar que o JBSSA está localizado na bacia de Pituaçu e possui duas nascentes que “alimentam” o rio e a lagoa de mesmo nome. Referências Bibliográficas Andrade-Lima, D. de. 1984. A Botânica da carta de Pero Vaz de Caminha. Rodriguésia. 36 (58) 5-8. Backes, P. & Iranig, B. 2004. Mata Atlântica. As Árvores e a Paisagem. Instituto Souza Cruz. Editora Paisagem do Sul. Cronquist, A. 1981. Na Integrated system of classification of flowering plants. New York. Columbia University Press. 46 Giullietti, A. M.; Queiroz, L. P. de; Santos-Silva, T. R. dos; França, F.; Guedes, M L.; Amorim, A. M. 2006. Flora da Bahia. Sitientibus 6 (3) 169-173. Mori, S. A.; Boom, B.M.; Prance G.T. l981. Distribution pat terms and Conservation of eastern brazilian coastal Forest tree species. New York Botanical Garden, Broux, Brittania, 33(2)233-245. Mori, S. 1990. Diversificação e Conservação das Lecythidaceae Neotropicais. Acta Botanica Brasilica. 4(1). 47 A Mata do Buraquinho – Reserva de Mata atlântica do Jardim Botânico de João Pessoa – Paraíba Marcia Aquino Jardim Botânico de João Pessoa 48 Na Paraíba, os remanescentes de Mata Atlântica, são poucos e isolados, somando menos de 0,4% em todo o Estado. Em sua Capital, João Pessoa, a Mata do Buraquinho foi considerada área prioritária de extrema importância biológica, segundo o documento “Avaliação e ações prioritárias para a conservação da biodiversidade da Mata Atlântica”, do Ministério do Meio Ambiente (2000). O Jardim Botânico de João Pessoa “Benjamim Maranhão” encontra-se localizado nesta Mata, a 7º 6’ de latitude Sul e a 34º 52’de longitude, a uma altitude média de 45m, na formação geológica do Baixo Planalto Costeiro, Grande Grupo Barreiras. Encontra-se a sudoeste do centro da cidade, próximo ao campus da Universidade Federal da Paraíba e a vários bairros, cercado de comunidades de baixa renda, concorrendo, por esta circunstância, para uma elevada pressão antrópica, além de problemas ambientais como caça, desmatamento, queimadas, lixo, culminando com a utilização da área para abrigo de marginais. Com 343,79ha, o Jardim Botânico é o maior remanescente contínuo existente no Estado da Paraíba, representativo da Mata Atlântica Nordestina, situado no coração urbano da cidade de João Pessoa. Do alto, a reserva parece um imenso coração verde pulsando no meio da cidade. É cortado pelo Rio Jaguaribe, que represado forma o Açude do Buraquinho, de valor estratégico para o suprimento de água da cidade. Salienta-se que no início do século passado, foi responsável pela canalização de água para atender ao município, através da Cia. Parahyba Water Company, cujas caldeiras eram alimentadas com lenha oriunda da própria mata. Na ocasião, foram construídos 33 poços amazonas, existentes até hoje, de onde a água, por gravitação, era conduzida a um poço principal. Poço este, que ainda abastece parte da cidade (cerca de 11%). (Almeida & Carvalho, 2001). A missão do Jardim Botânico de João Pessoa é promover a conservação da mata atlântica do Nordeste, coordenando e conduzindo ações e programas de pesquisa e educação ambiental, desenvolver e manter coleções documentadas de plantas da mata atlântica e outros espécimes botânicos apropriados à zona climática do Nordeste. O Plano Diretor, concluído em 2003, estabeleceu três zonas prioritárias: área de reserva, área de recuperação e área de uso público. Atualmente, o Jardim Botânico de João Pessoa, que em 2004 recebeu da UNESCO, o título de “Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica”, conta com um prédio que abriga a Administração, um Centro de Visitantes, um Auditório para 100 pessoas, um Salão de exposições; uma edificação onde funcionam: laboratório de botânica, núcleo de educação ambiental e biblioteca; além de oficinas destinadas ao “Projeto Arte no Jardim”. 49 Existem na área de reserva 12 trilhas abertas, das quais cinco são interpretadas e mais utilizadas para a visitação pública e as demais reservadas aos pesquisadores e botânicos; um viveiro, construído através do Projeto Investing in Nature, para produção de mudas de espécies nativas da Mata Atlântica e destinadas às áreas de reflorestamento; um bromeliário e um orquidário. Em 1856 a Mata do Buraquinho, hoje Jardim Botânico, era chamada de Sítio Jaguaricumbe. O primeiro registro, como terra possuída, tinha como limites do poente até o Palácio da Redenção (atual sede do Governo do Estado), atingindo os arredores da Lagoa do Parque Sólon de Lucena. A área original sofreu grande redução devido a vendas e desapropriações até 1907, quando foi adquirida pelo Estado, para iniciar os estudos de canalização d´água feitos pela Companhia Parahyba Water Company. O serviço de abastecimento d’água da cidade foi inaugurado em 1912 com caldeiras alimentadas pela lenha oriunda Mata do Buraquinho. Em 1939, devido à necessidade de ampliação do fornecimento d´água, foi adquirida e anexada à área a Propriedade Paredes, localizada na margem direita do rio Jaguaribe. Em 1940 foi inaugurada a Barragem do Buraquinho. A área original ficou reduzida à cerca de 50%, devido à implantação do projeto de saneamento e abastecimento e a abertura de avenidas e estradas. Em 1951 foi executado o Acordo Florestal da Paraíba entre o Serviço Florestal e o Governo da Paraíba, onde estava previsto a criação de um Jardim Botânico, cujo objetivo principal era a produção de mudas e essências florestais. A inauguração ocorreu apenas em 1953. Em 1957, o Estado doou à União 166 hectares da área da Mata do Buraquinho para a implantação de um horto florestal. Na década de 70, parte dos 565 hectares que formavam a Mata do Buraquinho foi desmembrada para a construção do Campus I da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Em 1989, através do Decreto Federal nº 98.181, os 471 hectares restantes foram declarados Área de Preservação Permanente, ficando sob a responsabilidade do IBAMA. Todavia, 305 hectares, permaneceram sob a jurisdição da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (CAGEPA). Em 1996, o IBAMA apresentou mais uma proposta para transformação da Mata do Buraquinho em Jardim Botânico, com o objetivo de preservação da área e garantia do seu estudo. Em 2000, o Governo do Estado da Paraíba, chamou para si a responsabilidade de criação e implantação do Jardim Botânico de João Pessoa. Assim, em 28 de agosto de 2000, foi assinado o Decreto nº 21.264 de criação do referido Jardim Botânico, abrangendo uma área total de 343, 79 hectares. 50 A vegetação da Mata do Buraquinho caracteriza-se por ser uma Floresta Estacional Semidecidual de terras baixas (Veloso 1992) ou ainda, segundo Andrade Lima & Rocha (1971) como típica floresta pluvial costeira nordestino brasileira, possuindo trechos fechados e exuberantes. Sua composição fitológica está formada por um complexo florístico, em que há participação de elementos não só da Mata Atlântica como também espécies da flora Amazônica e da Hiléia Baiana (Barbosa 1996). O levantamento da vegetação da Mata do Buraquinho foi realizado inicialmente com consultas às exsicatas registradas na coleção do Herbário Prof. Lauro Pires Xavier (JPB), resultantes de coletas anteriores realizadas na área. Como complemento, estão sendo realizadas, coletas em caminhadas aleatórias, percorrendo-se trilhas pré-existentes, bordas da mata, bem como, áreas amostrais naturais, coletando-se todo material encontrado em estágio reprodutivo. O material coletado está sendo herborizado conforme os procedimentos usuais citado por Mori et al. (1989) e incorporado ao herbário JPB, do Departamento de Sistemática e Ecologia da Universidade Federal da Paraíba. Estão documentadas até o momento um total de 467 espécies pertencentes a 324 gêneros integrantes de 106 famílias, números estes que tendem a aumentar significativamente com a continuidade dos trabalhos. Desse total de espécies, 57 ficaram indeterminadas ao nível específico, indicando a necessidade de encaminhamento de parte deste material a especialistas. A distribuição do número de espécies por família mostra que 9 famílias (Fabaceae, Rubiaceae, Asteraceae, Cyperaceae, Euphorbiaceae, Poaceae, Caesalpiniaceae, Mimosaceae, Myrtaceae) possuem 36% do total de espécies documentadas. As outras famílias dividem entre si os 64% restante. A família Fabaceae é a que apresenta a maior riqueza de espécies, 6% do total levantado, seguido de Rubiaceae com 5%, Asteraceae, Cyperaceae, Euphorbiaceae e Poaceae com 4% (cada) e Caesalpiniaceae, Mimosaceae e Myrtaceae com 3% (cada). Das 467 espécies identificadas, 141 são arbóreas, 52 arbustivas, 13 subarbustivas e 182 herbáceas. Dentre as ervas 71 são trepadeiras, 4 epífitas e 4 Hemiparasitas. (Barbosa, M. R. V. & Gadelha Neto, P. C.2006) 51 FAMÍLIAS COM MAIOR NÚMERO DE ESPÉCIES 6% 5% 4% 4% 4% 4% 3% 3% 64% 3% Fabaceae Rubiaceae Asteraceae Cyperaceae Euphorbiaceae Poaceae Caesalpiniaceae Mimosaceae Myrtaceae Outras A Mata do Buraquinho, embora sendo um pequeno resquício de Mata Atlântica, localizado em área urbana, ainda é local de ocorrência de alguns grupos da fauna brasileira, sendo que a avifauna (aves) e o grupo dos insetos (principalmente lepidópteras) apresentam rica diversidade. Destacamos pois, do grupo das aves: Celeus flavescens (pica-pau); Columba cayennensis (galega); Columba picazuro (trocaz); Crotophaga ani (anum preto); Forpus passerinos vividus (tuim); Leptotila rufaxilla (juriti); Nictibius griseus (urutau); Nyctidromus albicolis (curiango); Ortalis aracuan (araquã); Penelope superciliares (jacu); Pipile jacutinga (jacutinga); Propyrrhura maracana (maracanã); Turdus rufiventris (sábia). Entre os mamíferos de pequeno a médio porte, destacam-se Bradypus tridactylus (preguiça); Canis thous (raposa); Cavia aperea (preá); Dasiprocta azarae (cutia); Marmosa cinerea (cuíca); Sciuruss aesteus (caxinguelê); Tamanduá tetradactylus (tamanduá mirim) e algumas espécies de morcegos Artibeus sp.; Carollia perspicillata; Glossophaga soricina; Lasiurus borealis; Micronycteris sp.; Rhinophylla sp. No grupo dos répteis, as cobras e os lagartos apresentam considerável variedade, haja vista, a localização da área e dimensões como, por exemplo: Lachesis muta rhonbeata (Surucucu-pico-de-jaca) e Caiman latirostriis (Jacaré de papo amarelo). Ações e programas de pesquisa vem sendo conduzidos através de um convênio de cooperação técnico-científica com o Departamento de Sistemática e Ecologia do Centro de Ciências Exatas e da Natureza da Universidade Federal da Paraíba, realizando-se a catalogação da flora e a manutenção de coleções das espécies vegetais da mata atlântica bem como de espécimes botânicas apropriadas à zona climática do Nordeste. 52 O Jardim Botânico prioriza as seguintes linhas de pesquisa: Fenologia; Biologia Floral; Taxonomia/Sistemática; Florística; Fitossociologia; Etnobotânica. Dentre as pesquisas realizadas e/ou em andamento destacamos: Inventário das Coleções Fanerogâmicas do Jardim Botânico de João Pessoa-PB; Levantamento das Bromeliaceae da Mata do Buraquinho, Jardim Botânico de João Pessoa, Paraíba, Brasil; Identificação das Espécies Vegetais Arbóreas das Trilhas Ambientais do Jardim Botânico de João Pessoa-PB e Plantas Medicinais que Ocorrem na “Mata do Buraquinho”, Jardim Botânico de João Pessoa, PB. A Educação Ambiental vem sendo desenvolvida na área do Jardim Botânico através de palestras educativas e da interpretação de trilhas. Existem na área de reserva 12 trilhas abertas, das quais cinco são mais utilizadas para a visitação pública e as demais reservadas aos pesquisadores e botânicos. As trilhas ambientais interpretativas vigentes no Jardim Botânico, enquadram-se em duas distintas categorias: Trilhas circulares ou semi-circulares e trilhas lineares. Desta forma, o esboço do grau de dificuldade direcionado para as 12 trilhas interpretativas vigentes no Jardim Botânico, encontra-se resumido na tabela abaixo. Trilha Rio Comp.(Metros) 294 Forma Linear Grau De Dificuldade Fácil Preguiça Buriti Ilha Bambuzal Jibóia Vigia Macaco Abraço Munguba Dendezeiro Nascente 335 1533 162 1527 340 728 318 255 161 595 1037 Linear Linear Linear Linear Semi-circular Linear Linear Linear Linear Linear Semi-circular Moderado Moderado Moderado Moderado Moderado Moderado Moderado Moderado Moderado Moderado Difícil (Gadelha Neto, 2006) Em Agosto/2008 foi inaugurada a Pista Permanente de Orientação “Vidal de Negreiros” destinada à pratica da atividade desportiva da Orientação como mais uma ferramenta de educação ambiental para a área de reserva. 53 Além disso, outros projetos vem sendo desenvolvidos com o objetivo envolver as comunidades do entorno no processo de gestão do Jardim Botânico, a saber: Projeto Educação para a Conservação: Envolve as comunidades São Geraldo, Paulo Afonso e São Rafael, através da participação, na conservação e preservação do mesmo, tendo como possibilidade a geração de emprego, renda e melhoria da qualidade de vida, capacitando jovens, homens e mulheres em atividades de jardinagem, guias e produção de artesanato; Projeto Arte no Jardim: cujo objetivo é o envolvimento de jovens das comunidades circunvizinhas, no processo de gestão do Jardim, tendo como possibilidade a geração de emprego, renda e melhoria da qualidade de vida, através da produção de material em papel reciclado. Projeto O Jardim Botânico vai à escola: Visando estabelecer um processo educativo com a comunidade escolar por meio de ações de educação ambiental, de forma a divulgar o papel dos jardins botânicos na conservação da biodiversidade e na promoção da sustentabilidade sócio-ambiental. 54 Ecoturismo em Unidades de Conservação: O potencial educativo do contato com a natureza Zysman Neiman Universidade Federal de São Carlos 55 Algumas pesquisas realizadas nas últimas décadas vêm apontando o potencial educativo das visitas a áreas naturais, pois essas atividades otimizam a assimilação e permanência de conteúdos conceituais e estimulam a curiosidade dos participantes. Práticas educativas em ambientes ricos em estímulos sensoriais, como as trilhas, criam a oportunidade para seus participantes utilizarem seu corpo encarnado para perceberem o meio ambiente, elaborarem-no e recriarem-no, pelo encadeamento das experiências perceptivas, interagirem e dialogarem com ele, numa relação de troca entre o ambiente e os sujeitos abertos e dados ao mundo. Os ambientes menos estruturados, como é o caso das áreas abertas, por favorecerem o contato direto com o ambiente natural, afetam especialmente o domínio afetivo das pessoas, desde que o trabalho seja direcionado ao aprendizado e à sensibilização. Unindo o domínio afetivo e o cognitivo, as experiências de contato com áreas naturais facilitam mudanças de comportamento nas pessoas e se constituem em importantes instrumentos educativos, sem os quais qualquer iniciativa de proteção e conservação ambiental está fadada ao fracasso. As pesquisas sobre a relação entre lazer em áreas naturais e Educação Ambiental são relativamente recentes e vêm crescendo e assumindo uma relevância cada vez maior nas duas últimas décadas. Isso decorre do fato de que há muito tempo o ser humano já se distanciou da natureza, tornando-se necessário e premente um reencontro, no sentido de informá-lo da dinâmica dos processos ecológicos, bem como, conscientizá-lo para que use sua inteligência na guarda dos recursos não renováveis, pois deles depende sua vida. Deve haver uma simbiose do ser humano com a natureza, uma convivência em comum, que permitiria a ele desenvolver suas aptidões materiais e, mormente as espirituais, ao máximo de suas capacidades. A educação acontece em todos os espaços da vida social, de diferentes formas e em diferentes instâncias, a todo o momento, e, sem que se perceba, apreendem-se as relações cotidianas. Considerando essa realidade, o que pensar sobre educação que acontece no tempo livre? Para atingir as finalidades da EA, é preciso haver sempre a consciência de que este é um trabalho educacional completo e que, portanto, devem-se cumprir todas as fases do processo, no qual o lazer (sendo o turismo uma de suas manifestações) tem um caráter primordial. Nos dias atuais, o lazer e a necessidade de viajar são, sobretudo, criados pela sociedade marcada pelo cotidiano. As pessoas viajam porque já não se sentem à vontade onde se encontram, seja nos locais de trabalho, seja onde moram. Sentem necessidade urgente de se desfazer temporariamente do fardo das condições normais de trabalho, de moradia e de transporte, a fim de estar em condições de retomá-las quando regressarem. O lazer, como instrumento pedagógico, deveria se melhor considerado pelos meios formais de educação. A educação deve 56 incluir a demonstração da importância do lazer e o aprendizado como estímulo na diversificação de atividades praticadas. Precisamos valorizar o lazer, conhecer as diferentes atividades para variarmos aquelas em que participaremos no nosso tempo liberado das obrigações. Na atualidade, as atividades realizadas na natureza vêm de encontro à necessidade do homem moderno de vivenciar momentos de lazer, buscando uma reaproximação com a mesma, na medida em que o crescimento das cidades causou um rompimento desta ligação. Muitos educadores, por acreditarem que experiências positivas junto à natureza influenciam a postura do educando frente a ela e ao ambiente, apontam atividades realizadas em áreas verdes como eficientes ferramentas para a EA, pois acrescentam um conjunto de experiências que, gradativa e simultaneamente, vão construindo a formação, a história de vida e os valores dos participantes. As idéias de EA exigem tomadas de posicionamento, e isso não pode ser completado apenas com a aquisição de conhecimentos. Para que ela seja efetivada há que existir a reaproximação do ser humano com o meio natural visando a preservação e o estabelecimento de laços entre ambos. As evidências da relação entre conhecimento e comportamentos ainda são inconclusivas. Enquanto alguns estudos parecem sugerir que um maior nível de conhecimento resulta em comportamentos pró-ambiente efetivos, outros autores notam que esta relação é fraca. Apesar de haver alguma evidência empírica que a relação entre comportamentos e conhecimentos, ou mesmo conhecimentos e intenções seja inconclusiva, há uma convicção generalizada de que estas dimensões estão correlacionadas positivamente. Isto é, quanto mais os indivíduos souberem acerca dos efeitos provocados no ambiente pelos seus hábitos de consumo e sobre as atuações nos ambientes naturais, maior será a probabilidade de assumirem comportamentos pró-ambiente. De fato, a maioria dos trabalhos de Educação Ambiental é baseada neste pressuposto aparentemente simples que: quanto mais os cidadãos souberem, mais conscientes serão os seus comportamentos. A relação entre conhecimento e comportamento é, assim, extremamente importante. A afinidade emocional para com a natureza pode ser distinta do interesse cognitivo sobre as suas partes, ou do de interesse em como funciona a flora, a fauna, e a variedade de seus fenômenos e processos naturais. Alguns indivíduos podem ter interesse científico pela natureza sem sentir nenhuma afinidade emocional com ela. A afinidade emocional é motivada pelo contato e experiências sensoriais. Os laços emocionais e interesses cognitivos proporcionados por atividades de lazer junto à natureza fazem aumentar o comportamento pró-ambiente. Essas atividades, planejadas para despertar o re-encantamento do ser humano pelo meio ambiente, podem promover uma mudança de paradigma social para que critique 57 a ordem econômica, política e cultural, indispensável para uma transformação da consciência e dos comportamentos das pessoas. Só assim a EA se converterá em um processo estratégico com o propósito de formar valores, capazes de uma reorientação e uma transição para a sustentabilidade. A educação ao ar livre é uma prática que utiliza como recursos educativos os desafios encontrados em ambientes naturais e objetiva o desenvolvimento de valores e atitudes do ser humano. Para tanto, dimensões educativas têm sido incorporadas a atividades em ambientes naturais como passeios ecológicos, montanhismo, escotismo, entre outras tantas modalidades de lazer junto à natureza, principalmente por intermédio de trilhas de interpretação da natureza em parques naturais. A sensação de “aventura”, implícita na maioria dessas práticas, serve de argumento para quebrar a rotina e o tradicional, a fim de transferir valores como: assumir riscos, adaptar ao novo, tomar iniciativa para vida cotidiana A mudança de paradigmas, de uma visão androcêntrica (o homem no centro) e antropocêntrica (o ser humano dominando o meio ambiente) para a adoção de uma ética “ecosófica”1 em todas as esferas da vida, é urgente e depende de reflexões e ações humanas sobre suas práticas, e da adoção de uma relação dialética entre reflexão – por intermédio de pesquisas – e ação – através de suas práticas diárias. O meio ambiente deve ser interpretado como o resultado das inter-relações entre natureza e sociedade, valorizando-se a sua relação com a qualidade de vida (social, e não apenas natural) numa esfera de amplitude sistêmica. Só assim será possível um grau de compreensão e valorização, que oriente uma definição do modelo de desenvolvimento sustentável e seu nível de envolvimento e compromisso com as atividades realizadas na natureza, com a cultura das populações locais e com uma lógica de lazer crítico e criativo no meio ambiente. Não é o simples caminhar por trilhas ou cavernas que fará a EA se concretizar, pois para tal é necessário que se desenvolva uma nova percepção da natureza. Os mecanismos que favorecem a formação de posturas críticas, a predisposição para mudanças e o comprometimento com o universo das questões ambientais a partir das experiências positivas decorrentes de relações afetivo-emocionais vivenciadas no contato com a natureza são discutíveis e exigem muita reflexão. Uma vez que o modo de organização da sociedade contemporânea, que afasta o cidadão urbano dos seus semelhantes (somos sós, entre milhões) e da natureza, todas as possibilidades de contato, bem como a possibilidade do repensar os hábitos culturalmente adquiridos pelo indivíduo da sociedade brasileira, podem servir como agentes de re-Educação Ambiental. Envolvem o que os especialistas insistem em chamar de reconstrução de “valores”, incitando, naturalmente o estabelecimento de procedimentos e atitudes mais equilibradas na relação com o meio natural e sócio-cultural. A ética ecosófica busca uma solução num compromisso de equilíbrio entre as três vertentes ecológicas: o meio ambiente, as relações sociais e a subjetividade humana. 1 58 Pelas suas características (contato com áreas naturais, colaboração entre membros de pequenos grupos no sentido de superarem adversidades comuns, contato físico, companheirismo) o chamado Ecoturismo, dentre outras oportunidades de promoção do contato dirigido, tem se mostrado um poderoso instrumento de resgate dos vínculos do ser humano com a natureza. Além disso, oferece possibilidades de uma discussão sobre os comportamentos culturalmente arraigados e a necessidade de sua transformação sob uma ótica de sustentabilidade. Nas atividades de Ecoturismo pode-se vivenciar a natureza tanto a partir do paradigma que supõe que o ser humano faz parte dela (respirar, alimentar-se e deslocar-se pelo mundo nos confirma essa afirmação), como o que considera todas as diferenças existentes entre os seres humanos e os não humanos (reconhecemos em nós diversas características que nos distinguem dos outros animais). Vivenciar ao mesmo tempo esses dois paradigmas supostamente opostos pode ser uma instigante experiência de aprofundamento da compreensão da realidade. Defenderemos, na palestra, que o desenvolvimento de atividades especiais, que intensifiquem o contato do ser humano com a natureza, pode contribuir para o afloramento de motivações intrínsecas ao ser humano e uma mudança dos hábitos culturais que, canalizadas corretamente, podem formar cidadãos mais conscientes e atuantes na conservação ambiental além de tornaremse meios eficazes para os educadores ambientais que trabalham em instâncias formais ou informais. Apesar de o Ecoturismo ser definido como um promissor campo de atuação para os educadores ambientais, a sua prática no Brasil ainda está longe de atingir este objetivo. As Diretrizes para uma Política Nacional de Ecoturismo prevêem, entre seus objetivos, a promoção e “o aproveitamento do Ecoturismo como veículo de Educação Ambiental para turistas, comunidades locais e empreendedores do setor”, mas ainda são raros os profissionais que compreendem esse pressuposto e realizam-no a contento. O Ecoturismo se apresenta como uma alternativa de se contrapor à lógica do turismo de massa (estandardizado e predatório), e procura cada vez mais defender a proposição de roteiros personalizados, preocupados com o mínimo impacto e com grande interesse paisagístico-ecológico. No entanto, trata-se de um fenômeno complexo e multidisciplinar, onde muitos aspectos devem ser levados em conta a fim de que ele seja um empreendimento bem sucedido para todos os envolvidos. As divergências filosóficas, ideológicas e conceituais sobre o Ecoturismo talvez representem o tópico central a ser equacionado e trabalhado metodologicamente como ponto de partida para o desenho estratégico de programas efetivos de Educação Ambiental. 59 Embora os princípios e diretrizes estejam claramente estabelecidos e pareçam conceitualmente compreendidos pelos profissionais da área, na prática, o trabalho de EA carece ainda de uma visão estratégica, que promova seu desenvolvimento em nível nacional. Esta afirmação é especialmente verdadeira quando são analisados os projetos de desenvolvimento em implementação no Brasil e as dificuldades no planejamento e obtenção de resultados referentes aos compromissos de EA. Este problema se torna ainda mais relevante quando o desenvolvimento da atividade turística, discussão emergencial em um país com o potencial do Brasil, exige um novo conceito em ação pragmática em Educação Ambiental. 60 Plano de Manejo para a Estação Ecológica do Jardim Botânico de Brasília Jeanitto Gentilini Filho Danielle Abud Isaac Nuno C. de Azevedo Alex Alves Amorim Jardim Botânico de Brasília 61 Introdução O Jardim Botânico de Brasília, criado em 08 de março de 1985, está vinculado a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente do Governo do Distrito Federal. Tem como missão promover a preservação e a conservação in situ e ex situ do bioma Cerrado, por meio do desenvolvimento de pesquisas científicas e da educação ambiental. O Jardim Botânico de Brasília diferencia-se dos demais jardins botânicos por agregar em sua área de visitação pública uma unidade de conservação, a Estação Ecológica Jardim Botânico de Brasília; ao todo são cinco mil hectares de área de vegetação nativa em meio ao processo de urbanização da capital federal. A Estação Ecológica Jardim Botânico de Brasília – EEJBB, está incluída na categoria de unidade de conservação de proteção integral e destina-se a preservação da natureza e a realização de pesquisas, conforme o Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC, lei n.° 9.985 de 2000. Criada pelo decreto n° 14.422 de 1992, a EEJBB integra a área nuclear da Reserva da Biosfera do Cerrado1 e a Área de Proteção Ambiental Gama e Cabeça de Veado, que contém uma variedade de fitofisionomias vegetais do bioma Cerrado, uma flora vascular representativa do Brasil Central e o local onde se concentra o maior volume de pesquisas sobre biodiversidade, ecologia, conservação e manejo do cerrado. (Felfili, 2004). Para garantir o que dispõe no art. 27 do SNUC, “as unidades de conservação devem dispor de um Plano de Manejo”. O Jardim Botânico de Brasília vem ao longo de sua nova gestão administrativa, consolidando de forma participativa, este importante instrumento legal, que possibilitará a incorporação de aspectos teóricos e práticos para o manejo da diversidade biológica dentro da Estação Ecológica do Jardim Botânico, e no seu entorno, além de legitimar o planejamento e a gestão desta Unidade de Conservação. O Plano de Manejo encontra-se em fase de conclusão, mas a iniciativa já reflete o esforço de toda a equipe que participou deste desafio e consolida uma nova etapa neste processo de construção de ações para a Estação Ecológica do Jardim Botânico. Mosaico e Unidades de Conservação A consolidação e o fortalecimento de unidades de conservação são fundamentais para o desenvolvimento sustentável do país. A articulação de planos Reserva da Biosfera: modelo adotado internacionalmente, de gestão integrada, participativa e sustentável dos recursos naturais, com os objetivos básicos de preservação da diversidade biológica, desenvolvimento de atividades de pesquisa, monitoramento ambiental, educação ambiental, desenvolvimento sustentável e melhoria da qualidade de vida das populações, SNUC, lei n°998, 2000 1 62 de conservação e seu manejo integrado são um avanço conceitual extremamente importante no contexto atual nacional e internacional. No Distrito Federal, as unidades de conservação integram um mosaico de tipologias de conservação que precisam ser revistas, para compatibilizar o uso, suas poligonais e definir, de maneira mais realista, a sua zona de amortecimento2 , hoje, totalmente invadidas por atividades incompatíveis sobre as unidades constituídas. O termo de referência para a elaboração do Plano de Manejo da Estação Ecológica do Jardim Botânico de Brasília busca implementar ações de monitoramento, proteção e recuperação do patrimônio natural da Estação e de seu entorno, desenvolvendo um modelo de sensibilização e mobilização de comunidades vizinhas na gestão, proteção e recuperação de Unidades de Conservação para o Distrito Federal. Este tem como objetivo principal dotar a Estação Ecológica de diretrizes atualizadas para o gerenciamento e manejo, possibilitando, assim, que esta venha a atingir os objetivos para os quais foi criada: manter e/ou ordenar os usos apresentados até o momento, sempre que não se verifiquem conseqüências negativas advindas destes; ordenar atividades de uso público, de forma que fique garantida a conservação dos recursos naturais da EEJBB, a sensibilização dos visitantes em relação à natureza e o retorno de benefícios para as populações locais; compatibilizar a preservação da UC com as atividades das populações vizinhas; identificar fontes de recursos financeiros e orientar a aplicação destes na Estação; fortalecer a proteção da Unidade e ampliar o conhecimento sobre esta área. Os objetivos específicos do Plano de Manejo são: (a) elaborar os mapas territoriais e temáticos para a EEJBB; (b) elaborar o Programa de Proteção e Fiscalização para a EEJBB; (c) elaborar o Programa de Educação Ambiental para a EEJBB, e respectivos entornos; (d) elaborar o Programa de Manejo e Recuperação das Áreas Degradadas da EEJBB; (e) elaborar o Programa de Pesquisa para a EEJBB; (f) elaborar o Programa de Administração e Gestão para a EEJBB; (g) elaborar o Zoneamento Ambiental da EEJBB; (h) elaborar o Plano de Manejo da Estação Ecológica Jardim Botânico de Brasília, conforme Termo de Referência; (i) elaborar sistema de sinalização para a EEJBB; (j) promover Treinamento dos Servidores que atuam na conservação. Metodologia O Levantamento de subsídios ao Plano de Manejo da Estação Ecológica do JBB adotou algumas metodologias de planejamento disponíveis no Roteiro Metodológico de Planejamento de Parque Nacional, Reserva Biológica e Estação Ecológica (IBAMA, 2002) como ponto de partida para a organização dos dados e no termo de Referência específico. Zona de Amortecimento: área de amortecimento que deverá ter, no mínimo, 3km antes dos limites das áreas de expansão urbana. 2 63 A elaboração do Plano de Manejo foi divida em nove etapas, conforme especificadas e descritas abaixo: 1ª etapa: Organização do Planejamento 2ª etapa: Diagnostico socio-econômico e ambiental do entorno e produção de Mapas 3ª etapa: Estruturação dos programas de manejo e projetos específicos; 4ª etapa: Realização de oficinas de planejamento participativo; 5ª etapa: Elaboração e reunião de avaliação da contextualização da Unidade de Conservação, da Análise Regional e da Análise da Unidade de Conservação; 6ª etapa: Realização da reunião técnica de estruturação do planejamento; 7ª etapa: Elaboração e análise do Planejamento; 8ª etapa: Elaboração, análise e entrega dos documentos legais, resumo executivo e da proposta final do Plano de Manejo; 9ª etapa: Treinamento. Resultados O Plano de Manejo da Estação Ecológica Jardim Botânico de Brasília está em fase de construção. O documento final será apresentado em outubro, e será homologado pelo Instituto Brasília Ambiental, IBRAM, órgão ambiental responsável por Unidades de Conservação no Distrito Federal. Para a avaliação da eficiência na implantação do Plano de Manejo da EEJBB, pretende-se utilizar índices de sustentabilidade ambiental, com base em indicadores que comprovem a habilidade no avanço da qualidade ambiental local, traduzindo-se em incremento dos padrões atuais nos meios bióticos, abióticos e socioeconômico, tais índices deverão ser definidos e conceituados. Considerações Finais A necessidade do Plano de Manejo para as unidades de conservação é o reflexo da alta influência das atividades antrópicas, que ameaçam os remanescentes dos ecossistemas naturais. Portanto, torna-se um instrumento de gestão ambiental dos mais importantes na busca da sustentabilidade frente às realidades mais diversas. O Plano de Manejo da Estação Ecológica Jardim Botânico de Brasília tem se constituído um amplo processo de planejamento participativo, de caráter consultivo e de importante direcionamento para esta gestão administrativa. Caracteriza-se por ser o instrumento que define ações estratégicas e interligadas com diversos setores, mas que no caso específico da Estação Ecológica Jardim Botânico de Brasília, tem promovido, acima de tudo, a integração de pessoas comprometidas com a preservação e conservação do nosso Cerrado. 64 Referências Bibliográficas Felfili, J. M.; Santos, A. A. B., Sampaio, Julio C. 2004. Flora e diretrizes ao plano de manejo da APA Gama e Cabeça de Veado – Brasília: Universidade de Brasília, Departamento de Engenharia Florestal, p. 204, 2 PROGRAMA DE PROTEÇÃO, PLANEJAMENTO E GESTÃO PARA A ESTAÇÃO ECOLÓGICA DE ÁGUAS EMENDADAS (ESEC-AE) E A ESTAÇÃO ECOLÓGICA DO JARDIM BOTÂNICO (ESEC-JB), conforme Contrato de Empréstimo Nº 1288/OC-BR – BID do Programa de Saneamento Básico no Distrito Federal – SDP Nº 002/2007 – SO/DF IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. 2002. Roteiro Metodológico de planejamento. Parque Nacional, Reserva Biológica e Estação Ecológica. Brasília: Del Rey, p.112,. SNUC - Sistema Nacional de Unidades de Conservação LEI No 9.985, DE 18 DE JULHO DE 2000. 65 Diagnóstico preliminar para a área de conservação in situ do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro Vicente Moreira Conti Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro 66 1- Introdução O presente resumo tem por base os resultados da dissertação de mestrado do autor, e que tinha como objetivo elaborar um diagnóstico preliminar para auxiliar a tomada de decisões da Administração do Instituto de Pesquisas jardim Botânico do Rio de Janeiro - JBRJ, compilando em um documento sintético, uma coletânea de dados e informações, com vistas a gestão da área de conservação in-situ. Importante realçar que, os jardins botânicos não estão voltados apenas para as áreas de conservação ex-situ, tanto que em 1985, em Las Palmas de Gran Canaria, Espanha, a World Conservation Union – IUCN1 e a World Wildlife Fund – WWF2 , convocaram uma conferência sobre “Jardins Botânicos e a Estratégia de Conservação Mundial” com o objetivo de explorar os seus múltiplos papéis, em nível mundial, na conservação de plantas. Foi criado neste evento o Botanic Gardens Conservation Secretariat (BGCS)3 , que veio a iniciar os seus trabalhos em 1987. Uma parte das estratégias então propostas contemplam a conservação in-situ por apresentar um papel importante na conservação da biodiversidade e por permitir e propiciar uma associação da diversidade biológica com o ecossistema no qual se encontra inserida. Cerca de 400 Jardins Botânicos no mundo praticam este tipo de conservação, mantendo áreas naturais dentro de seus limites ou administrando reservas naturais, sendo o JBRJ um deles . O estudo em questão vem de encontro às estratégias internacionais para as áreas de conservação ex-situ, que indicam ações que visam proteger os recursos naturais, expressos pelas mesmas. 2- Contexto Fundado em 13 de junho de 1808, através de decreto do Rei D. João VI (RODRIGUES, 1894), está localizado no bairro do Jardim Botânico, na cidade do Rio de Janeiro, apresentando ainda grande relevância para o Estado do Rio de Janeiro, não só como pólo turístico, cultural e científico, mas também como ambiental, já que preserva importante área do agredido bioma da Mata Atlântica, em área recuperada por um reflorestamento no passado, e que influencia na qualidade de vida do entorno, principalmente, no clima da região, notadamente mais ameno nas épocas de calor. 1 IUCN - União Internacional para a Conservação da Natureza, é a maior organização voltada para a natureza, tendo sido criada em 1948 (FUNIBER, 2002b, p. 72, Vol. I, As Áreas Naturais no Contexto das Sociedades). 2 WWF - Fundo Mundial da Natureza, organização internacional independente, criada em 1961, que desenvolve diversos programas, de acordo com a área de atuação (FUNIBER, 2002b, p. 74, Vol. I, As Áreas Naturais no Contexto das Sociedades). 3 Atualmente tem a denominação de Botanic Gardens Conservation International (BGCI). 67 Apresenta uma área de conservação ex-situ, representada pelo Arboreto, onde está a coleção viva, e outra de conservação in-situ, com uma mata secundária, oriunda de reflorestamento (ação promovida pelo Major Archer, no Maciço da Tijuca, que teve início em 04 de janeiro de 1862 e durou 13 anos) e de mata regenerada, na época do Brasil Império. Situa-se entre os paralelos de 22° 57’ e 22° 59’ latitude S e os meridianos de 43° 13’ e 43° 15’ longitude W, tendo sua maior parte localizada no bairro do Jardim Botânico e outra menor no bairro da Gávea. Faz limite ao Norte com a Rua Pacheco Leão, a sudeste com a Rua Jardim Botânico, ao sul com a Rua Major Rubens Vaz, a sudoeste com propriedades particulares da Gávea e com o Parque da Cidade, cuja administração é da responsabilidade da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e a Oeste e Noroeste com o Parque Nacional da Tijuca (PARNA/TIJUCA), cuja subordinação administrativa é do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), na localidade do Horto Florestal. Em 1997 passou a ser vinculado diretamente ao Ministério do Meio Ambiente (MMA), através da Medida Provisória nº 1.549-35, de 09 de outubro de 1997, e não mais ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), recebendo então a sua atual denominação de Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro - JBRJ. Em 2001, o Instituto passou a ser uma autarquia do MMA, como disposto na Lei Federal nº 10.316, de 06 de dezembro de 2001, adquirindo autonomia administrativa, jurídica e financeira. Por ser considerado um dos melhores exemplos de sítio natural e cultural brasileiro, o que justifica o título de patrimônio cultural brasileiro, concedido em 1938 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)4 , o JBRJ em 1992 é também reconhecido como um patrimônio mundial, como Reserva da Biosfera, por estar definido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura (UNESCO)5 . O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), implantado pela Lei Federal nº 9.985, de 18 de julho de 2000, não contemplou as unidades exsitu, se voltando apenas para as unidades in-situ, entretanto, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) baixou a Resolução nº 339, de 25 de setembro de 2003, que teve como finalidade estabelecer diretrizes para criar, normatizar o funcionamento e definir os objetivos dos jardins botânicos nacionais. 4 IPHAN - órgão atualmente vinculado ao Ministério da Cultura, foi criado pela Lei Federal nº 378, em 13 de janeiro de 1937, e tem por finalidade pesquisar, promover, fiscalizar e proteger o patrimônio cultural, nos termos da Constituição Federal, redação dada pelo Decreto Federal nº 2.907, de 21 de outubro de 1998. 5 UNESCO - Seu principal objetivo é contribuir para a paz e para a segurança mundial, promovendo a colaboração entre nações através da educação, da ciência, da cultura e da comunicação, não se dedicando ao meio ambiente. Sua constituição foi adotada em 1943, entrando em efeito em 1946 (FUNIBER, 2002b, p. 80, Vol. I, As Áreas Naturais no Contexto das Sociedades). 68 Segundo a Convenção da Diversidade Biológica - CDB, os jardins botânicos têm um papel importante para alcançar os objetivos propostos na Convenção, e no caso particular do estudo, relativo as áreas de conservação in-situ, para contribuir através da indicação, desenvolvimento, manutenção e administração de áreas protegidas, além dos listados acima A área total do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro é de 143,9842 ha, dos quais 87,29% estão sob o domínio da Instituição, 3,14% encontram-se oficialmente cedidos e 9,57% irregularmente ocupados. O Arboreto ocupa 37,0556 ha (25,74%) e a Mata Atlântica 85,1777 ha (59,16%) da área da instituição. A instituição ocupa 87,26% de sua área total, sendo que mais da metade é ocupada com Mata Atlântica, e as áreas oficialmente cedidas ou ocupadas irregularmente somam 12,74% . As áreas cedidas a outros órgãos por instrumentos legais totalizam 4,5232 ha, e as áreas ocupadas irregularmente com casas e edificações, além de estradas e áreas gramadas no entorno totalizam 13,7792 há (vide Tabelas 1 e 2). Tabela 1 – Áreas ocupadas pelo JBRJ LOCAL Arboreto (conservação ex-situ) ÁREA (ha) 37,0556 Área Florestada (conservação in-situ) 85,1777 Horto (viveiros e ENBT) DIRAD Pousada do Pesquisador Novo estacionamento próximo a EMJK. Centro de Compostagem Nova área do Bicano (Aqüeduto da Levada)* (Figura 4) Nova área do Jardim das Crianças* TOTAL 1,5600 0,3930 0,0656 0,2800 0,3400 0,4097 0,4002 125,6818 Legenda: ENBT – Escola Nacional de Botânica Tropical; DIRAD – Diretoria de Administração e Finanças; EMJK – Escola Municipal Juscelino Kubitschek. * - novas áreas incorporadas para visitação. 69 Tabela 2 – Áreas do JBRJ cedidas oficialmente a outros Órgãos públicos. LOCAL ÁREA (ha) 2,0047 1,1644 0,2420 0,9544 SERPRO LIGHT TRE EMBRAPA Escola Municipal Juscelino Kubitschek 0,1577 TOTAL 4,5232 Legenda: SERPRO – Serviço Federal de Processamento de Dados; LIGHT – Empresa de fornecimento de energia elétrica; TRE – Tribunal Regional Eleitoral; EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. 3- Importância Histórica Desde o século XVII, vinha sofrendo a cidade do Rio de Janeiro com o desmatamento da exuberante Mata Atlântica que recobria o maciço da Tijuca, para obtenção de lenha e carvão, além de se abrirem áreas para implantação de atividades agrícolas, que coexistiram até fins do século XIX. Estas ocupações das fronteiras agrícolas trouxeram também uma grande preocupação as autoridades da época, que era o abastecimento de água potável para a zona urbana, já que a população da cidade do Rio de Janeiro se concentrava na parte baixa, pantanosa e mal drenada, sendo que a escassa água obtida no local ainda era salobra. Com a vinda de D. João e sua corte para o Brasil, a cidade sofreu um crescimento rápido, tornando mais crítico ainda o abastecimento de água. Assim, Sua Majestade decretou que se proibissem o corte das árvores no entorno de nascentes, primeiramente nas do Rio Carioca, que nascia no Silvestre e corria pelo Vale das Laranjeiras, até desaguar na Praia do Flamengo, isto em Decreto de 1817, e depois nos mananciais da área da Tijuca, em Decreto de 1818, a fim de se ampliar o volume d’água disponível para consumo. Mas estas ações foram insuficientes, já que a cidade crescia rapidamente, e a água captada não supria a demanda, voltando-se a atenção do governo para as áreas montanhosas e em especial o Maciço da Tijuca, pela sua proximidade com a área urbana, embora sua outrora exuberante mata estivesse muito danificada pela exploração de sua madeira e pelo plantio do café. 70 Com o agravamento da falta de água, deliberou o Governo Mas os problemas de falta de água para consumo da população se agravava, ainda mais depois de uma seca ocorrida em 1844. Foi quando o Ministro do Império Almeida Torres solicitou medidas urgentes de conservação e restauração de matas nas bacias dos rios Carioca e Maracanã. O major Manuel Gomes Archer foi nomeado para administrar e supervisionar o replantio na área do Maciço da Tijuca, e com apenas seis escravos iniciou a sua missão em 04 de janeiro de 1862, em um árduo trabalho de reflorestamento que durou 13 anos, com o plantio de mais de 60.000 árvores de várias espécies, em uma área de cerca de 16 ha. Não foram apenas mudas nativas da região, retiradas principalmente de um remanescente de floresta trazidas das Paineiras e da localidade denominada Cabuçu em Guaratiba, que foram plantadas, pois espécies exóticas produzidas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e doadas pelo Visconde do Bom Retiro, também o foram. O resultado alcançado foi a mescla de espécies reflorestadas com a capoeira crescida espontaneamente, sendo que apenas nos grotões e nos vales mais inacessíveis é que a mata evoluiu com espécies possivelmente pertencentes à vegetação primária. Apesar do major Archer não ter conhecimento de noções de silvicultura, este seu grandioso trabalho se reveste de uma importância, por ser ímpar no Brasil, e talvez o primeiro na América do Sul, a ser feito com espécies mistas, configurando o mais belo exemplo, único na época em sua heterogeneidade, que se conhece para uma área recuperada pelo reflorestamento artificial. Em 1941, através de um decreto-lei federal, toda esta área florestada, que passaram a chamar-se “Florestas Protetoras da União”, vinculou-se a jurisdição do Serviço de Proteção das Florestas, do Ministério da Agricultura. Uma destas áreas, denominada “Horto Florestal da Gávea”, veio ter sua administração passada ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro, em 1971, e que se somou à floresta que compunha o Arboreto. 4- Situação da Área de Conservação in-situ Apesar dos esforços iniciados por Archer, a conservação da Mata Atlântica ainda enfrenta grande desafio, uma vez que este bioma apresenta altos índices de biodiversidade e de endemismos, sendo ainda considerado como dos mais importantes e ameaçados do mundo, e que vem sofrendo com a sua devastação, reflexo de sua ocupação e exploração desordenada. O JBRJ convive com problemas diversos, resultantes da ocupação de seus espaços. Existem desde entidades públicas e privadas, até famílias que ocupam irregularmente diversas áreas. 71 Citamos assim os principais agentes que promovem uma forte pressão para a área: 1-Furnas - Centrais Elétricas S/A – empresa estatal, subordinada ao Governo Federal, responsável pela geração e transmissão de energia, que com suas torres que sustentam as linhas de alta tensão, as quais fornecem energia elétrica a essa subestação da LIGHT; 2-Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO) - empresa de processamento de dados vinculada ao Ministério da Fazenda, que presta serviços ao Governo Federal, e que teve autorizada a sua instalação por meio de um decreto federal; 3-Companhia Estadual de Água e Esgoto (CEDAE) - empresa estatal ligada ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, concessionária dos serviços de abastecimento d’água e esgoto, que tem linhas de transmissão de água passando através do JBRJ, além de ocupar um espaço próximo ao Solar da Imperatriz, com um clube para os seus funcionários (Clube dos Macacos), local este em que ficou claro não existir um consenso na Instituição, se está mesmo dentro dos limites, embora seja certo que era uma das Florestas Protetoras da União; 4-LIGHT S/A – empresa privada LIGHT S/A, que é concessionária atuando na distribuição de energia, foi privatizada em 1996 no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), tem implantado em uma área mais próxima ao rio dos Macacos, uma subestação, que distribui energia elétrica para o bairro do Horto e imediações; 5-Ocupações irregulares - diversos administradores da Instituição, ao longo do tempo, e de forma não oficial, autorizaram servidores do órgão ou de entidades com ingerência ou não na área (como o extinto IBDF, a CEDAE e até do Jockey Clube Brasileiro) a construírem moradias, uma vez que em passado bem remoto era uma dificuldade a mais os meios de transporte que chegassem ao JBRJ. De acordo com o crescimento dessas famílias, seus descendentes diretos e outros aparentados começaram a ocupar novos espaços, pressionando mais ainda a área de mata e o seu entorno, ocorrendo sem nenhum planejamento e promovendo séria degradação ao meio ambiente por essa ação antrópica. Segundo o trabalho realizado pelo JBRJ e o Instituto Brasileiro de Administração Municipal - IBAM (2003) relativo ao Plano Diretor, existem em torno de 680 famílias residindo em várias áreas do Instituto, em moradias que vão de humildes até grandes mansões. Não são precisas as datas de ocupação com moradias que fazem pressão a esta área florestada, mas as ocupações desordenadas em áreas pertencentes ao JBRJ, promovem um grande impacto ambiental, por conta de: efeito de borda; ilhas de calor que afetam o microclima local; caça; coleta de frutos; comércio; coleta/ venda de plantas; coleta de sementes; poluição, entre outros fatores 72 5- Bibliografia Conti, V. M. 2004. Diagnóstico preliminar para a gestão da área de conservação in-situ do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro. 2004. 113 fls. Dissertação de Mestrado, UPC/FUNIBER, Espanha. 73 Zona primitiva protegida pelo Jardim Botânico da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul Andréia Maranhão Carneiro Jardim Botânico da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul 74 O Jardim Botânico de Porto Alegre/FZB localiza-se na região central da cidade em uma área de 40 hectares sobre uma colina de até 45 metros de altitude. Desta área, uma pequena parte é um encrave de vegetação nativa preservada característica dos morros graníticos da região onde se localiza o Município de Porto Alegre, um mosaico de campo seco, vassoural e matinha baixa. A fisionomia dessa região – que faz parte do bioma Pampa - é resultado da composição de diferentes paisagens. É um complexo de morros, restingas, lagoas e banhados. Configura-se como um ecótono, pois é influenciada por sete ecorregiões do Cone Sul da América: Mata Atlântica, Mata do Planalto Meridional com araucária, mata de restinga, Savana Meridional, Chaco, Pampa e Patagônia. É o limite oriental das coxilhas vegetadas por savanas pertencentes ao Escudo SulRio-Grandense (Menegat, Fernandes, Porto, Carraro, 1998). A vegetação que se desenvolve sobre as coxilhas e morros do Escudo é particularmente influenciada pela sua geomorfologia. Nessa região ocorre expressiva presença de núcleos cristalinos de conformação dômica, formações antigas que remontam ao pré-cambriano, de modo que as formas atuais de relevos foram produzidas por desgastes erosivos durante mais de 500 milhões de anos resultando em uma altitude média atual de 200 metros (Ross, 2000). A diversidade de ambientes se projeta em uma grande diversidade de espécies. De acordo com Boldrini (1997) existem 3.000 espécies campestres no Estado do Rio Grande do Sul – considerando em conjunto os campos dos biomas Pampa e Mata Atlântica. As formações vegetais nessa área variam entre campestres e florestais de pequeno porte e, freqüentemente, ocorrem intercaladas. As formações campestres são caracterizadas por espécies de Poaceae, Asteraceae (principalmente Eupatorium, Vernonia e Baccharis), Fabaceae, Cyperaceae, Bromeliaceae (Dyckia, Vriesea e Bromelia), Iridaceae e Apiaceae (Eryngium). Os vassourais por Dodonaea viscosa Jacq., algumas espécies de Baccharis e duas espécies de Heterothalamus. Nas matinhas encontramos Lithraea brasiliensis Marchand, Schinus molle L., S terebinthifolius Raddi, Myrsine umbellata Mart. e Butia capitata (Mart.) Becc.. (Lindman, 1906; Rambo, 1956; Porto, 1990; Boldrini, 2006). Segundo Nabinger (2006) até 1996 o desaparecimento dos campos vinha ocorrendo em uma taxa de 130 mil ha por ano e, a partir daí assumiu proporções maiores. Isso ocorre pela substituição da atividade pecuária por outras atividades e pelo avanço das áreas urbanas. Isso seria contraditório na medida em que essa paisagem é fundamental para a cultura do gaúcho e a atividade pecuária que é associada às tradições. Desde 1979 três hectares de vegetação original do Jardim Botânico de Porto Alegre são preservados com a finalidade de conservação e pesquisa, sendo 75 que a área de vegetação campestre é a mais interessante pela riqueza e raridade de espécies. A partir da comunicação de um estudante da UFRGS – no final da década de 70 - da ocorrência de uma Dyckia (D. choristaminea Mez. com ocorrência restrita a Porto Alegre e Viamão), muito rara, começaram as primeiras experiências de manejo para tentar conter a propagação de pinus, agaves e de outras espécies invasoras e manter o ambiente o mais semelhante ao original para favorecer a sobrevivência das espécies nativas. Durante um trabalho de levantamento florístico da vegetação espontânea do Jardim Botânico (Bueno & Martins, 1986) descobriu-se a existência de outras espécies raras e endêmicas: D. leptostackia Baker, com ocorrência no centro-oeste e sul do Brasil; Schlechtendalia luzulaefolia Less. endêmica do norte da Argentina, Uruguai e metade sul do Rio Grande do Sul. Com o conhecimento da existência dessas espécies aumentou a percepção da importância da conservação dessa área e, no mesmo ano da publicação do trabalho, foi providenciado o cercamento da área. Os táxons anteriormente citados como característicos da vegetação dos morros graníticos estão quase todos presentes na área de preservação do JBPA, com a exceção de dois gêneros de Bromeliaceae: Vriesea e Bromelia, e uma espécie de Heterothalamus, pois apenas uma espécie - H. psiadioides Less. - ocorre até a região de Porto Alegre. Outras espécies endêmicas que ocorrem na área são Eryngium ciliatum Cham. & Schleht. presente apenas no Uruguai e Rio Grande do Sul; E. horridum Malme, endêmica do sul do Brasil, Uruguai e Norte da Argentina; E pristis Cham. & Schleht. e E. elegans Cham. & Schleht endêmicas da metade sul da América do Sul (Reitz, 1972; Irgang, 1974); Macrosiphonia longiflora (Desf.) Mull. Arg. e Isostigma peucedanifolium Less. do Sul do Brasil, Paraguai e Argentina. Motivo importante para a preservação dessa área é a presença de várias espécies encontradas na lista oficial das espécies ameaçadas de extinção do Estado do Rio Grande do Sul, publicada pelo Decreto no. 42.099, em 31 de dezembro de 2002. Na categoria “Vulnerável” encontramos Gomphrena graminea Moq., Stenachaenium macrocephalum (DC.)Benth. ex Benth. & Hook. f. e Waltheria douradinha St. Hil., na categoria “Em Perigo” Butia capitata (Mart.) Becc., Schlechtendahlia luzulifolia Less. e Dyckia choristaminea Mez.. Um táxon que consta na lista como “Provavelmente Extinto” e que já foi encontrado na área é Mikania dusenii B.L. Rob. e merece empenho a tentativa de encontrá-lo novamente. 76 Referências bibliográficas: Boldrini, I.I. 1997. Campos do Rio Grande do Sul: caracterização fisionômica e problemática ocupacional. Boletim do Instituto de Biociências/UFRGS. Porto Alegre, p. 1-39. _____. 2006. Diversidade florística nos campos do Rio Grande do Sul. In: Anais do Congresso Nacional de Botânica, 57, 2006, Porto Alegre. p: 321-324. Bueno, O.L.; Martins, S.M.A. 1986. A flora e vegetação espontânea do Jardim Botânico de Porto Alegre, RS. Brasil. Fanerógamas herbáceas e arbustivas. Iheringia. Séria Botânica, Porto Alegre n.35, p.5-23. Irgang, B.E. 1974. Flora Ilustrada do Rio Grande do Sul: Umbelliferae II, Gênero Eryngium L. Boletim do Instituto Central de Biociências, Porto Alegre, n. 32, p.1-86. Lindman, C.A.M. 1906. A vegetação no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Livr. Universal. 356p. Mathias, M.E.; Constance, L.; Araujo, D. 1972. Umbelíferas. Flora Ilustrada Catarinense. Itajaí, n.UMBE, p. 1-205. Menegat, R.; Fernandes, L.A.D.; Porto, M.L.; Carraro, C.C. 1998. Porto Alegre: o encontro das paisagens do Cone Sul. In: Menegat, R.; Porto, M.L.; Carraro, C.C. Fernandes, L.A.D. (Ed.) 1998. Atlas Ambiental de Porto Alegre, Porto Alegre, Ed. UFRGS. p.7-9. NABINGER, C. 2006. Manejo, uma estratégia para a conservação dos campos. 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No âmbito da nova estrutura regimental, é competência da Escola Nacional de Botânica Tropical: planejar, coordenar, supervisionar, promover e avaliar as atividades de ensino para a formação e capacitação de recursos humanos em botânica, ecologia, meio ambiente, gestão de jardins botânicos e áreas correlatas, em articulação com os demais órgãos do JBRJ. Além da ENBT, o Núcleo de Educação Ambiental (NEA) e o Centro Sócio-Ambiental do JBRJ atuam também efetivamente em atividades formais e institucionais de extensão. A seguir são apresentadas as principais atividades desenvolvidas pelo JBRJ no que concerne ao ensino e a extensão. A coordenação de Extensão nasceu com a própria ENBT, com o oferecimento em junho de 2001 do “Curso Internacional para Jardins Botânicos”, uma proposta executada em conjunto com a Rede Brasileira de Jardins Botânicos com o objetivo de capacitar recursos humanos para a criação e a gestão de jardins botânicos. Paralelamente, o corpo técnico do Jardim Botânico se empenhou na realização do curso “Flora e Conservação”, que significou o primeiro curso da ENBT concebido pela equipe de pesquisadores do Jardim Botânico. Outros onze cursos - sobre temas que iam do manejo e cultivo massivo de algas de interesse comercial a técnicas em anatomia vegetal - seriam oferecidos até o final de 2002, e que marcaram a consolidação da Coordenação de Extensão e exemplificam a ampla diversificação de enfoques e público-alvo que se pretende atingir. A Coordenação de Extensão foi concebida no sentido de uma administração focada em potencialidades e resultados para o mercado de trabalho. Foram estabelecidas parcerias e intercâmbios entre especialistas do Brasil e do exterior para oferecimento de cursos voltados para questões bem delimitadas. Cursos de Ilustração Botânica oferecidos em parceria com a Fundação Botânica Margaret Mee se tornaram exemplo de sucesso, já que respondem à crescente demanda para registro iconográfico das espécies brasileiras, tanto para pesquisa científica como para atividades de divulgação artística, científica e cultural. A formação de profissionais nessa área ocorre através do Programa de Ilustração Botânica, com três cursos oferecidos anualmente, além de atividades complementares (estágios supervisionados, palestras e organização de exposições e concursos). Podemos citar também como exemplos de sucesso os cursos “O nome das plantas: princípios e regras” e “Identificação de Madeiras Comerciais Brasileiras”. Outra vertente da Coordenação de Extensão é a realização de cursos de especialização (pós-graduação lato sensu) capacitando profissionais já inseridos no mercado de trabalho, contribuindo para o melhor desempenho de suas atividades, especialmente aquelas voltadas à conservação da biodiversidade e ao desenvolvimento sustentável. Para tanto, os cursos propostos são organizados em módulos, ministrados por diferentes docentes, conectados em conteúdo e com os alunos ao final do curso tendo que apresentar uma monografia. Dois convênios foram estabelecidos para este fim. O curso de especialização em “Educação 79 Ambiental” é realizado em parceria com a Universidade Cândido Mendes (UCAM) e conta em seu corpo docente com a participação de professores do Núcleo de Educação Ambiental do Jardim Botânico. O outro curso de especialização oferecido pela Coordenação de Extensão é o de “Gestão da Biodiversidade” realizado em parceria com o Núcleo de Ciências Ambientais, do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Foram atendidos pela coordenação de Extensão da ENBT no ano de 2007, 188 alunos sendo 128 pelos cursos de curta duração e 60 pelos cursos de especialização. A Coordenação de Pós-Graduação (PG) da ENBT é responsável pelos cursos de Mestrado e Doutorado em Botânica (credenciado pela CAPES/MEC) e que tem como meta principal capacitar pessoal qualificado para compor quadros em órgãos públicos e privados, voltados para o ensino, pesquisa e políticas públicas, com vistas ao conhecimento e conservação da diversidade vegetal. O alinhamento de objetivos da PG com a Diretoria de Pesquisas do JBRJ é hoje meta principal da ENBT através da vinculação de dissertações e teses aos objetivos do Centro de Conservação da Flora e do PPBIO Mata Atlântica que permitirão uma atuação mais integrada e direcionada das linhas de pesquisa ora em desenvolvimento tanto na Diretoria de Pesquisas quanto pelos alunos e docentes da ENBT. A concessão de bolsas de estudo via Centro e PPBIO para trabalhos vinculados a espécies ameaçadas de extinção, áreas prioritárias para conservação e informação biológica é um dos mecanismos a serem implementados para que se possa atingir o alinhamento desejado. Visando permitir que os temas mais relevantes para a formação e futura prática profissional de aluno sejam abordados com profundidade adequada, o programa de pós-graduação está voltado para três áreas de concentração e cada uma delas com linhas de pesquisa especificas 1 - Diversidade Vegetal em Ecossistemas Neotropicais: linhas de pesquisa, Anatomia e ultra-estrutura de Angiospermas, Morfologia e Sistemática de Angiospermas, Sistemática e Ecologia de Criptógamas; 2 - Conservação Vegetal em Ecossistemas Neotropicais: linhas de pesquisa, Biologia da Conservação, Botânica Aplicada e Etnobotânica e Coleções Científicas em Botânica e Jardins Botânicos; 3 - Paisagem, Estrutura e Funcionamento de Biomas e Ecossistemas: linhas de pesquisa, Florística e Fitossociologia em Ambientes Tropicais e Fitogeografia, Ecologia de Ecossistemas Marinhos. Foram oferecidas em 2007, 18 disciplinas por docentes do quadro de pesquisadores do JBRJ e 6 disciplinas foram oferecidas por docentes externos. Desde sua criação, em março de 2003 até o início de 2008, foram concluídas na ENBT, 54 dissertações de mestrado e 7 teses de doutorado. Estão, atualmente, matriculados 52 alunos, sendo 30 de doutorado e 22 de mestrado. A capacidade de suporte estimada, com o quadro docente atual, é de 70 discentes. 80 Portanto, projeta-se o potencial de crescimento de cerca de 25% para o quadro discente. A Pós-Graduação em Botânica da ENBT conta, atualmente, com 15 docentes do núcleo permanente e 6 docentes colaboradores. O Núcleo de Educação Ambiental do JBRJ foi criado em 1992. Conta com uma equipe multidisciplinar e tem como pressupostos teóricos a educação em museus e educação ambiental crítica e tem como pressupostos metodológicos a atuação construtivista, interdisciplinar e participativa. As principais linhas de ação do NEA são: a divulgação científica, a formação de multiplicadores, a formação de educadores ambientais, a educação para gestão ambiental, a extensão e a pesquisa em Educação Ambiental. Dentre as atividades principais do NEA estão:1 -Laboratório Didático - Desenvolvimento de temáticas ambientais e vivências de práticas educativas que utilizam elementos e situações existentes no JB como ponto de partida para o público escolar; 3Um olhar educativo sobre nossas plantas - Programa voltado às coleções vivas encontradas no arboreto do JB como o Projeto Coleção de Plantas Medicinais e a exposição “O homem e as plantas medicinais – uma história em construção” voltado para o público visitante; 4 - Tecendo Redes Por Um Planeta Terra Saudável - Ação colaborativa de Educação Ambiental construída entre instituições científicas e escolas municipais promovendo a popularização da ciência; 4 - Conhecendo Nosso Jardim - Atividade didática em roteiros monitorados no sentido de incentivar o uso pedagógico do Jardim Botânico em atividades de educação ambiental voltado para professores, estudantes de licenciaturas, pedagogia e normal superior e técnicos; 5 - Coral Vivo - Ações de conservação de recifes de coral brasileiros - supervisão das ações de mobilização social e de educação ambiental; 6 - Jardim Botânico vai à Escola - atividades de junto ao público escolar voltada para a conservação da flora brasileira, utilizando como instrumento de educação as suas coleções vivas e o espaço escolar; 7 - Pesquisa em Educação Ambiental - Educação Ambiental e formação de futuros professores, que tem como objetivo analisar como espaços de educação não formal nas áreas de meio ambiente e ciências, podem em parceria com as universidades colaborar com a formação inicial de professores ampliando a percepção da realidade e propondo novas ações educativas capazes de refletir em suas práticas docentes; 8 – Uso Racional dos Nossos Recursos – projeto de sensibilização e ação direcionada à economia e à utilização de recursos ambientais, vinculados aos princípios da Agenda Ambiental (A3P). O Centro Sócioambiental começou a ser estruturado em 1989 com o objetivo inicial de atender a demanda do mercado por mão-de-obra especializada em manutenção de áreas verdes e também inserir as comunidades do entorno nas atividades do JBRJ. O trabalho evoluiu rapidamente para a execução de projetos como o “Projeto Educação e Trabalho”, voltados ao atendimento de adolescentes entre 17 a 24 anos, de áreas periféricas da cidade e com baixa escolaridade. Através do aprendizado das técnicas de jardinagem e acompanhados por um trabalho educativo, o aluno passa a ter visão crítica do mundo e podem 81 então, transformar a própria realidade. Logo o Centro Socioambiental passou a receber o apoio de instituições públicas e privadas e assim ampliar sua atuação. O programa pedagógico do Centro Socioambiental do JBRJ auxilia estes jovens na formação de habilidades, capacidades e virtudes e principalmente na formação do cidadão. É oferecido aos adolescentes também a oportunidade de acesso a recursos tecnológicos e acadêmicos disponíveis, no âmbito do conceito moderno de responsabilidade social. Desde 2006, o Centro Socioambiental atende também jovens entre 12 e 16 anos e busca inseri-los na sociedade direcionando-os para uma vida participativa e valorizando seus talentos. As principais oficinas oferecidas são: Arborização e Jardinagem, Meio-Ambiente e Cidadania, Arranjos Florais, Relações Inter-pessoais, Reforço Escolar, Arte Educação, Esporte Educação e Incentivo a Leitura. Deve-se destacar que dos cerca de 2 mil jovens que passaram pelas salas de aula do Centro Socioambiental nesses quase 20 anos de atuação, mais de 90 % deles estão empregados ou voltaram ao ensino formal. 82 Ciclo de Palestras proferidas por Brian Huntley Brian Huntley South African National Biodiversity Institute 83 Biomes and ecosystems of southern Africa Southern Africa, comprising ten countries (Angola, Botswana, Lesotho, Malawi, Mocambique, Namibia, South Africa, Swaziland, Zambia, Zimbabwe) occupies an area of 6 000 000 km2, with a flora of over 30 000 species, and including four global biodiversity hotspots as categorised by Conservation International. The region includes 17 centres of plant diversity identified by IUCN/WWF; - the whole of the Karoo/Kalahari/Namib arid zone - including 46% of the worlds succulent flora; the whole of the Mediterranean type ecosystem of the “Cape Floral Kingdom” - with 9500 species in only 90 000 km2; large wetland ecosystems - such as the Okavango delta, the saline Etosha pan; the Zambesi wetlands; forest ecosystems from lowland rainforest of Cabinda, montane temperate forests of the highlands of Angola, South Africa, Malawi, Mocambique; and savannas and woodlands with high wild animal diversity. Many similarities between southern African and Brazilian ecosystems are evident. This paper will describe the key elements of these ecosystems a provide illustrations of typical examples. Botanical Gardens in Africa The history of botanical gardens of Africa south of the Sahara parallels that of colonial settlement in the 19th century. Each of the colonial powers established gardens in their main cities for the purpose of testing plants of possible economic value - for agriculture, forestry, medicine, and recreation. Many of the species introduced have become key components of the economies of Africa, but many also have become major problems as they invade natural ecosystems and interfere with the provision of ecosystem services such as water production, pollination and community stability. While many of the oldest gardens have been neglected since independence, new initiatives by the global network of botanical gardens - such as BGCI - are assisting in the rehabilitation of these centres of knowledge and eco-tourism potential. The results of a recent regional capacity building project - SABONET - will illustrate these positive new ventures. The African/South American connections in invasive plants From the time of the earliest Portuguese navigators, and the establishment of trading bases in the Americas and Africa, the introduction of ‘alien’ plants has had major impacts on the economies and ecosystem dynamics of the continents on both sides of the Atlantic. The ‘Columbian Encounter’ and the results of the voyages of Bartholomeu Diaz, Da Gama, Magellan and many others can be interpreted both positively and negatively. The Atlantic slave trade moved over 12 million Africans across the Atlantic to the sugar and cotton plantations of the Americas. At the same time, the transfer of plant genetic resources - principally cassava, maize and potatoes - from the Americas to Africa provided the basic food crops for Africa from the 17th century onwards. With the food crops came plants that today constitute major economic problems as they invade natural ecosystems and agricultural lands. The impact of the African/American connection will be described. 84 Climate change in southern Africa The phenomenon of rapid human induced climate change is now universally recognised as one of the greatest challenges to the planet’s future. For the past 20 years, South African scientists have actively participated in international programmes such as the International Geosphere/Biosphere Project (IGBP) and similar initiatives to identify and monitor current, and predict future impacts of climatic change on the region’s ecosystems, biodiversity, agriculture, health, water and infrastructure. This paper will present results from this research and highlight current thinking on future scenarios. 85 A reserva de Cerrado da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte Juliana Ordones Rego Maria Guadalupe Carvalho Fernandes Inês Ribeiro de Andrade Jardim Botânico da Zoo-Botânica de Belo Horizonte 86 A flora do Cerrado está entre as mais ricas dentre as savanas do mundo, com uma estimativa superior a 6.000 espécies vasculares (Mendonça et al. 1998) e em função da sua elevada diversidade biológica, o Cerrado foi reconhecido internacionalmente como um dos 25 hotspots para conservação (Mittermeier et al. 1999). A região de domínio do bioma Cerrado compreende uma extensa área contínua em Goiás, Bahia, Minas Gerais e Mato Grosso e algumas penínsulas e áreas disjuntas que se estendem por outros Estados (Eiten, 1972). Em Minas Gerais, encontram-se áreas de Cerrado nas regiões do Alto e Médio Jequitinhonha, Alto e Médio São Francisco, Campo das Vertentes, Zona Metalúrgica, Triângulo e Alto Paranaíba (Brandão, 2000). Os biomas que ocorrem em Minas Gerais vêm sofrendo uma intensa perda de biodiversidade. Esta perda foi expressa em números quando da elaboração da lista da flora ameaçada de extinção. Nesse estudo, 1127 espécies de plantas foram consideradas ameaçadas de extinção, sendo aproximadamente 60% destas espécies com ocorrência no bioma Cerrado (Fundação Biodiversitas, 2007). Belo Horizonte está inserida na Zona Metalúrgica e localiza-se no ecótone de duas formações vegetais: o Cerrado e a Floresta Estacional Semidecídua. O município apresenta uma intensa degradação dos cursos d’água que, aliada à rápida urbanização, causou o desaparecimento da maior parte da sua cobertura vegetal natural. A criação de unidades de conservação tem sido considerada a melhor estratégia a ser adotada por todos os países para assegurar a diversidade de seres vivos e a proteção de habitats ameaçados (IUCN, 1994). Nesse sentido, a reserva da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte (FZB-BH) cumpre um importante papel na conservação de um fragmento de vegetação nativa em uma área urbana com intensa pressão antrópica. A FZB-BH compreende uma área total de 1.450.000 m2, sendo que 600 mil m2 estão representados por uma Reserva de transição entre Cerrado e Floresta Estacional Semidecídua. A reserva da FZB-BH (44º 01’ 00’’ W e 19º 51’ 50’’ S) localiza-se à 850 metros de altitude. O clima pertence ao tipo Cwb pelo sistema de Köppen e a precipitação média anual de 1.400 mm (Antunes, 1986). O levantamento florístico é um dos estudos iniciais para o conhecimento da flora de uma determinada área e implica na produção de uma lista das espécies ali instaladas, sendo de fundamental importância a correta identificação taxonômica dos espécimes e a manutenção de exsicatas em herbário, que poderão contribuir para o estudo dos demais atributos da comunidade. Estudos fitossociológicos são importantes para uma avaliação da ação antrópica nas comunidades vegetais e para indicação de ações de manejo para conservação das biocenoses. 87 Alguns trabalhos já foram realizados na reserva, entre eles podemos citar dois levantamentos fitossociológicos em áreas distintas, por Ordones et al., 2004 e por Attala et al., 2000. Atualmente, estão em andamento um levantamento fitossociológico em uma nova área e um levantamento florístico sistemático abrangendo toda a reserva. A vegetação da reserva apresenta áreas onde o ambiente, mais úmido, comporta árvores de maior porte como Anadenanthera macrocarpa (Benth.) Brenan, Copaifera langsdorffii Desf., Platypodium elegans Vog., Hymenaea stigoncarpa Mart. ex Hayne, Plathymenia reticulata Benth., características de Floresta Estacional Semidecídua. Em outros locais pode-se observar uma vegetação característica de Cerrado, com espécies como Qualea grandiflora Mart. e Caryocar brasiliense Camb, Tabebuia ochracea A.H. Gentry, Kielmeyera coriacea Mart.& Zucc., Dalbergia miscolobium Benth.. O dossel pode atingir alturas que chegam a 20 m. Algumas áreas apresentam pouca estratificação, pois a mata se encontra em estado avançado de regeneração. Em outras, até três estratos são distintos e a luminosidade no interior da mata é intensa, o que possibilita o desenvolvimento de muitos cipós. Algumas clareiras ocorrem e nestas o estrato rasteiro é abundante. Espécies invasoras como capim-gordura (Melinis minutiflora Beauv.) e capim-colonião (Panicum maximum Jacq.) ocorrem em áreas que sofreram interferências antrópicas mais recentes. Outras espécies exóticas foram cultivadas tais como eucalipto (Eucalyptus sp.). Beijinho (Impatiens walleriana Hook.f.), trapoeraba (Tradescantia zebrina Hort. ex Bosse), espada-de-são-jorge (Sansevieria spp.) e guapuruvu (Schizolobium parayba Vell.Blake), ocorre na área como conseqüência do seu cultivo no paisagismo e na arborização da FZB-BH. No estudo fitossociológico realizado em 2004, o método empregado foi o de parcelas (Mueller-Dombois & Ellenberg, 1974), para o cálculo dos parâmetros e índices utilizou-se o software Fitopac 1 (Shepherd, 2001), e a identificação taxonômica das espécies foi efetuada mediante consulta a herbários, consulta a especialistas e por meio de literatura especializada. Foram instaladas 25 parcelas de 200 m2 (10 x 20 m) na área amostral. A distribuição das parcelas foi feita sistematicamente ao longo de trilhas, distanciadas 10 m entre si. Foram amostradas todas as plantas lenhosas eretas com circunferência do caule à altura do solo (CAS) maior ou igual a 10 cm. Neste estudo foram relacionadas 130 espécies de 42 famílias botânicas. As famílias com maior número de espécies foram Myrtaceae (16 espécies), Rubiaceae (12 espécies), Fabaceae-Papilionoideae (9 espécies), Melastomataceae (6 espécies), seguidas por Annonaceae, Flacourtiaceae, Fabaceae-Mimosoideae, Erythroxylaceae e Fabaceae-Caesalpinoideae (5 espécies). 88 Foram amostrados 3.070 indivíduos em 0,5 ha, correspondendo a uma densidade total (DT) de 6.140 ind./ha e a área basal total de 12,79 m2/ha. O diâmetro médio das plantas amostradas foi de 6,10 cm. Para as espécies, o Índice de Diversidade (H’) foi de 3,815 e o Índice de Uniformidade (J’) 0,784. Tais índices são semelhantes àqueles encontrados em outras áreas de Cerrado sentido restrito (Costa & Araújo, 2001; Balduino et al., 2005; Saporetti Jr. et al., 2003; Felfili et al., 1993; Fonseca & Silva Junior, 2004). A espécie que apresentou a maior densidade relativa (DR) foi Miconia albicans com 14,89%, seguida de Xylopia aromatica (7,13%), Myrsine guianensis (4,66%), Alibertia elliptica (4,50%), Qualea grandiflora (3,97%), Bowdichia virgilioides (2,74%), Pera glabrata (2,67%), Myrcia fallax (2,48%), Rudgea virbunoides (3,36%) e Chrysophyllum marginatum (3,09%). As espécies que apresentaram maior dominância relativa (DoR) foram Qualea grandiflora (12,70%), Xylopia aromatica (7,41%), Pera glabrata (6,84%), Miconia albicans (5,96%), Plathymenia reticulata (4,05%), Bowdichia virgilioides (4,27%), Myrsine guianensis (3,59%), Dalbergia nigra (2,99%) e Alibertia elliptica (2,84%). As espécies que apresentaram o maior valor de importância (VI) foram Miconia albicans (23,45%), Qualea grandiflora (18,96%), Xylopia aromatica (17,26%), Pera glabrata (12,01%), Myrsine guianensis (10,75%), Bowdichia virgilioides (9,51%), Alibertia elliptica (9,30%), Rudgea virbunoides (7,53%), Plathymenia reticulata (7,49%) e Chrysophyllum marginatum (7,19%). Os maiores valores de importância de Qualea grandiflora, Pera glabrata, Bowdichia virgilioides e Plathymenia reticulata ocorreram devido aos elevados percentuais de dominância. Estas espécies são árvores cujas copas, em geral, ocupam o dossel superior e os seus diâmetros médios do tronco são relativamente maiores que as demais. As demais espécies mais importantes ocupam o estrato intermediário e inferior e tiveram maiores valores de importância devido à densidade e freqüência. Considerando todos os trabalhos realizados na Reserva, temos 835 registros no Herbário do Jardim Botânico da FZB-BH, onde foram identificadas 158 espécies distribuídas em 85 famílias. Dentre essas, algumas espécies estão incluídas na lista da flora ameaçada de extinção do estado de Minas Gerais de 2007 como Alstroemeria plantaginea Mart. ex Schult. & Schult.f. na categoria “em perigo”, e, Melanoxylon brauna Schott e Dalbergia nigra Vell na categoria “vulnerável”. Muitas espécies vegetais encontradas na reserva da FZB-BH podem ser usadas como alimento para a fauna. Entre elas podemos citar Acrocomia aculeata (Jacq) Lodd, Alibertia sessilis Schumann, Allophyllus edulis (St. Hil.) Hadlk, Amaioa guianensis Aublet, Casearia sylvestris Sw, Chrysophyllum marginatum (Hook. & Arn.) Radlk, Copaifera langsdorffii Desf, Coussarea hydrangeafolia Benth. & Hook, Cupania vernalis Camb, Diospyros hispida A. DC., Guettarda virbunoides Cham. Et Schltr., 89 Hymenaea stigonocarpa Mart. Ex Hayne, Inga uruguensis Hooker at Arnott, Myrcia rostrata DC, Rollinia sylvatica (St. Hill.) Mart, Syagrus flexuosa (Mart.) Becc, Trichilia pallida Swart, Vismia brasiliensis Choisy, Vitex polygama Cham e Zanthoxylum rhoifolium Lam. Assim, deve-se considerar a importância desse fragmento de vegetação nativa, uma vez que formações florestais, além de habitats adequados para forrageamento, são também imprescindíveis à nidificação e abrigo da fauna remanescente de um ambiente urbano. Alguns trabalhos de Educação Ambiental são realizados na área de Cerrado da FZB-BH. Trata-se de uma trilha interpretativa, com cerca de 180 metros, que visa contribuir para aproximar as pessoas da natureza e sensibilizá-las sobre a vida das espécies vegetais e animais do Cerrado. A Trilha é uma atividade guiada, tendo a presença de um guia que acompanha grupos de dez pessoas com duração média de 30 minutos por grupo. A manutenção de áreas protegidas em ambientes urbanos sem quaisquer ações de monitoramento, dadas as condições gerais de interferências que estas áreas podem apresentar, pode trazer resultados negativos à conservação biológica, sendo necessário o estabelecimento de um plano de manejo para a atenuação dos seus efeitos. Acreditamos que os trabalhos aqui realizados irão contribuir para a construção e implantação de um plano de manejo para a conservação da diversidade biológica da reserva da FZB-BH. Referências Bibliográficas Antunes, F.Z. 1986. Caracterização climática do estado de Minas Gerais. Informe Agropecuário 12(138):09-13. Attala, N. C. ; Ordones, J.R. ; Fernandes, M. G. C. ; Gonçalves, A. P. M. . Levantamento fitossociológico de uma área da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte - MG - Brasil. In: 51º Congresso Nacional de Botânica, 2000, Brasília - DF. Anais do 51º Congresso Nacional de Botânica, 2000. Balduino, A. P. do C.; Souza, A. L. de, Merira-Neto, J. A. A.; Silva, A. 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Ordones, J.R. ; Meira Neto, J. A. A. ; Saporetti Junior, A. W. ; Faria, F. S. Levantamento fitossociológico de uma área de Cerrado da Reserva da FZBBH. In: Congresso Nacional de Botânica, 2004, Viçosa. Anais do 55º Congresso Nacional de Botânica, 2004. Saporetti Jr., A. W.; Meira Neto, J. A. A.; Almado, R. P. 2003. Fitossociologia de Cerrado sensu stricto no município de Abaeté-MG. Revista Árvore 27(3):413419. Shepherd, G. J. 2001. Fitopac 1. Manual do usuário. Campinas: UNICAMP. 93 p. 91 Jardim Botânico do Instituto de Biociências da Unesp – Botucatu/SP Luiz Roberto Hernandes Bicudo Jardim Botânico da UNESP-Botucatu 92 O Jardim Botânico do Instituto de Biociências da UNESP, Campus de Botucatu-SP, localiza-se na zona geomorfológica denominada Topo da Cuesta, região centro sul do estado de São Paulo (23º02’55’’S 48º31’26’’W), caracterizado pelo verão chuvoso e inverno seco. Iniciou suas atividades após a implantação do Departamento de Botânica, na antiga Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu (FCMBB). O espaço criado para esta finalidade foi inicialmente denominado“Horto Experimental do Departamento de Botânica”, e atendia às necessidades didáticas da Profa Dra Irina Delanova Gemtchújnicov, vinda do Instituto de Botânica de São Paulo, para ensinar disciplinas da área de Botânica na nova Escola. A primeira realização do Jardim Botânico foi um pomar numa área de aproximadamente 2ha, situada na parte mais alta do Campus de Botucatu, onde já existiam jabuticabeiras, mangueiras, abacateiros e araucárias, circundadas por bosque de eucaliptos. Na década de 70, devido ao crescimento do Campus Universitário uma nova área de aproximadamente 110.000 m2 foi destinada para a instalação do Jardim Botânico. Após a definição das vias de acesso, das áreas para construções e locais para as coleções específicas tais como orquidário e delimitação da vegetação nativa para preservação, as plantas do antigo Horto Florestal, que haviam sido temporariamente levadas para a Fazenda Experimental de São Manuel, foram transplantadas no atual JB. Atualmente o Jardim Botânico possui coleções de gimnospermas, árvores floríferas brasileiras, orquídeas, bromélias e cactáceas da região de Botucatu, como também, remanescentes da vegetação natural (floresta mesófila semidecidual e floresta ripária). No ano de 2000, foi agregado ao Jardim Botânico, o novo prédio do Herbário “Irina D. Gemtchujnicov”, registrado sob a sigla BOTU, pertencente ao Departamento de Botânica, contando com uma coleção de aproximadamente 20.000 espécimes vegetais. No mesmo ano, foi concluída a construção de um lago para cultivo de plantas aquáticas. O Herbário e o Jardim Botânico constituem-se em fontes de material didático e científico, promovendo o desenvolvimento de monografias, dissertações e teses, além de outras pesquisas de docentes e estagiários principalmente do IBB, e também de atividades de extensão previstas no Programa de Educação Ambiental. O Jardim Botânico se localiza em uma região privilegiada do estado de São Paulo no tocante a vegetação, pois em seu redor existiam e ainda existem remanescentes de mata semi-decídua, floresta ripária e diversas pequenas áreas de cerradão, cerrado e campo cerrado. O primeiro trabalho de levantamento florístico realizado nas áreas de vegetação nativa presentes no Jardim Botânico foi o de Grombone-Guaratini & Maimoni-Rodella (1995), tendo sido identificadas, na área de floresta estacional semidecidual, 89 espécies, pertencentes a 78 gêneros 93 e 37 famílias, e na área de brejo e vegetação adjacente, 28 espécies, pertencentes a 27 gêneros e 14 famílias. Nessa e em outras áreas foram e estão sendo desenvolvidos inúmeros trabalhos de pesquisa em botânica, principalmente em estudos morfológicos, anatômicos, histoquímicos e ultra-estruturais em plantas de cerrado do estado de São Paulo desenvolvido no período de dezembro de 2001 a setembro de 2006, com financiamento FAPESP – BIOTA, onde se pode destacar a Formação de Recursos Humanos, Publicações, Participação em Congressos e Reuniões Científicas e Divulgação do Projeto e do Bioma Cerrado. A equipe total do projeto foi de 108 pessoas, incluindo a coordenadora (1), pesquisador principal (1), pesquisadores responsáveis (4), pesquisadores colaboradores (18), estudantes de diferentes níveis (76) e pessoal de apoio técnico (18). Quanto à formação de recursos humanos, foram orientados 09 bolsistas de Capacitação Técnica, 30 estudantes de Iniciação Científica, 04 Monografias de Conclusão de Curso, 25 Dissertações de Mestrado, 31 Teses de Doutorado e 02 Projetos de Pós-Doutorado, sendo que muitos trabalhos ainda não foram concluídos em associação com o Herbário BOTU. Quanto à produção científica no período, foram publicados 05 livros e um capítulo de livro, sendo que três livros estão em fase de elaboração. Foram publicados 37 artigos em revista indexada, 10 artigos encontram-se no prelo, 15 foram submetidos e 10 estão em fase final de redação, totalizando 72 artigos até o presente. A divulgação das pesquisas em congressos e reuniões científicas na área da Botânica foi intensa, com participação em 30 congressos e apresentação de 165 trabalhos na forma de resumos simples ou expandidos, publicados na forma impressa ou em CD-ROM. A divulgação do projeto de pesquisa e do Bioma Cerrado deu-se na forma de 18 palestras para diferentes públicos e 8 cursos de extensão sobre diferentes temas abordados no projeto. Houve intensa participação em encontros e eventos (9) relacionados ao meio ambiente. Ênfase foi dada à produção de diferentes materiais de divulgação e apoio didático (textos ilustrados, CD-ROM, pôsteres, folders, cartões postais, marcadores de livros, cartazes, etc), que foram expostos e distribuídos gratuitamente em colégios, parques, feiras, museus, jardins botânicos e outros espaços públicos no país e no exterior. No período, foram estudadas sob diferentes aspectos cerca de 300 espécies agrupadas em 50 famílias de Angiospermas, além de muitas espécies de Liquens e Mixomicetos, que ainda se encontram em fase de identificação por especialistas nestes grupos. Durante o desenvolvimento do projeto temático, foram criadas cinco coleções, sendo quatro biológicas e uma de Pintura Botânica, citadas a seguir: a) Carpoteca do Herbário BOTU, que agrupa frutos e sementes de espécies do cerrado; b) Xiloteca, sediada no Departamento de Ciências Florestais, FCA, UNESP, Campus de Botucatu, contando com 1600 amostras de madeiras catalogadas, sendo que cerca de 150 amostras pertencem ao cerrado; c) Coleção 94 BIOTA, formada pelas plantas coletadas durante o desenvolvimento das pesquisas e incorporadas no Herbário BOTU; d) Liquens do Cerrado, incorporadas ao Herbário BOTU e na coleção de liquens do Instituto de Botânica -SP, sob a responsabilidade do Dr. Marcelo Marcelli; e) Aquarelas do Cerrado, composta por cerca de 100 quadros. Pretende-se dar continuidade a estas coleções visando a aumentar o número de amostras, as quais têm sido consultadas por estudantes dos diferentes níveis de ensino e profissionais da área. Essas coleções e as informações geradas neste projeto têm servido de referência para os interessados no Cerrado da região centro-oeste do estado de São Paulo e estimulado o desenvolvimento de trabalhos multidisciplinares e multi-institucionais. Atualmente, a seguinte pesquisa sobre o cerrado regional encontra-se em desenvolvimento: “Implementação e consolidação de um banco de dados sobre plantas tóxicas e medicinais de cerrados da região Centro-Oeste do estado de São Paulo”, financiado pela parceria Banco Real/ UNESP. Este projeto tem por objetivo implementar e consolidar um banco de dados sobre as plantas potencialmente tóxicas e medicinais que ocorrem em cerrados da região centro-oeste do estado de São Paulo, visando caracterizar aspectos da morfologia e da reprodução, com informações bibliográficas sobre o uso dessas plantas, tendo em vista a história e o atual estado de conservação do cerrado. Uma das razões para escolha deste tema como objeto de trabalho é dar continuidade aos estudos sobre a diversidade morfológica de plantas do cerrado do estado de São Paulo, iniciados durante um projeto temático. Outra razão é o fato deste tipo de vegetação, juntamente com fragmentos de Floresta Estacional Semidecidual ter sido predominante na região, encontrando-se atualmente, reduzido a pequenas áreas-fragmentos de cerrado com grande diversidade de espécies importantes que carecem ainda de serem estudadas. Dados preliminares por nós obtidos em um fragmento de cerrado com cerca de 170 hectares localizado no município de Pratânia, SP, revelaram a ocorrência de inúmeras espécies com potencial tóxico e medicinal. Em trabalho inédito realizado por nossa equipe em áreas de cerrado do município de Botucatu (SP), foram listadas 72 espécies de plantas medicinais das quais 15% estão incluídas na Lista Brasileira da Flora Ameaçada de Extinção, lançada pelo Ibama em 2005. Com este projeto pretende-se: a) oferecer subsídios científicos e técnicos para a utilização sustentável da diversidade biológica, visando a redução dos efeitos nocivos da coleta predatória dessas plantas; b) contribuir para a formação de recursos humanos nos diferentes níveis de ensino; c) construir e divulgar conhecimentos sobre a biodiversidade do cerrado, e sua importância, desenvolvendo atividades de pesquisa-ação em educação ambiental formal e não-formal na região; d) selecionar, adequar e produzir material didático sobre a biodiversidade do Cerrado, especialmente com relação às plantas tóxicas e medicinais. Além disso, este projeto irá implementar e consolidar a coleção científica de plantas tóxicas e medicinais do Herbário BOTU, iniciada na década de 60 pela Profa. Dra. Irina Delanova Gemtchunicov e incrementada por diferentes pesquisadores, o que evidencia a relevância de sua implantação. Acredita-se, ainda, que este projeto poderá fomentar trabalhos de educação ambiental efetivo 95 e sistemático, visando o crescimento da consciência pública sobre a importância do uso racional e da conservação das plantas nativas do cerrado, no momento em que se pode contar com a participação de estudantes e professores dos diferentes níveis de ensino. O trabalho será desenvolvido no Departamento de Botânica, Instituto de Biociências, UNESP, Campus de Botucatu. Inicialmente, constará no levantamento das espécies vegetais com potencial tóxico e/ou medicinal ocorrentes na região por meio de consulta a coleções do Herbário Irina Delanova Gemtchunicov (BOTU), incluindo a revisão e atualização das informações sobre as espécies catalogadas e documentação fotográfica das exsicatas. Serão feitas também excursões periódicas para áreas-fragmentos de cerrado (s.l.), para a coleta de plantas pelo método de caminhamento aleatório. Todo o material coletado será fotografado, herborizado, identificado, catalogado e depositado no Herbário BOTU. Frutos e sementes também serão processados para integrar a Carpoteca do Herbário BOTU. Além disso, será feito um estudo da bibliografia disponível para obtenção de informações sobre métodos de propagação dessas. Todas as informações obtidas serão processadas e disponibilizadas nas mídias impressa e eletrônica tais como: folders, catálogos ilustrados, organização de exposições didático-científicas e CD-ROM versando sobre plantas tóxicas e medicinais do cerrado do Centro-Oeste do estado de São Paulo. O orquidário do Jardim Botânico está em processo de reestruturação com o objetivo da melhoria das condições de cultivo e a recuperação das plantas ali presentes, para uma posterior abertura a visitação. As plantas da coleção são provenientes de coletas realizadas nas décadas de 70 e 80, assim como de coletas realizadas atualmente. O trabalho que está sendo realizado consiste na troca do substrato que se encontra deteriorado; esterilização dos vasos para serem reutilizados; limpeza das plantas para o replantio; controle de pragas tais como pulgões, cochonilhas e caracóis, com a aplicação de inseticidas de baixa toxicidade ou naturais, como por exemplo calda de fumo e óleo de neem. Ocorre também a produção de mudas através de propagação vegetativa para proporcionar um aumento quantitativo da coleção. Uma das estratégias recentemente desenvolvidas é a capacitação de alunos de graduação em Ciências Biológicas e Engenharia Florestal para o cultivo e reconhecimento dos principais gêneros nativos e exóticos de interesse comercial. A identificação do material é feita através de consultas a exsicatas, bibliografia especializada e taxonomistas, contando sempre com a colaboração do Prof. Dr. Fábio de Barros, do Instituto de Botânica de São Paulo. Está sendo também elaborado um arquivo fotográfico, para ser utilizado na identificação visual do material em fase reprodutiva, para a confecção de um folder ilustrado, contendo as principais dicas de cultivo para iniciantes e dados sobre a conservação de espécies ameaçadas. Este folder será distribuído aos visitantes do Jardim Botânico e também utilizado em aulas de educação ambiental para alunos do ensino fundamental e médio. 96 Paralelamente ao projeto de recuperação do orquidário, está sendo realizada uma avaliação de diferentes tipos de substratos alternativos ao uso do xaxim, tais como: fibra de côco, casca de Pinus, Sphagnum. O plantio direto em pequenos galhos ou troncos de árvores e a observação e coleta de informações sobre as condições de luminosidade, umidade relativa e temperatura favoráveis a cada tipo de espécie em cultivo, também estão sendo avaliados. Atualmente participam do projeto 3 alunos de graduação em Ciências Biológicas e 1 aluno da pós graduação em Ciências Biológicas - Botânica do nosso instituto. Outro projeto em fase de execução é a implantação do Jardim Sensorial para atender a deficientes físicos. A implantação deste Jardim faz parte do trabalho de conclusão de curso de um servidor técnico-adminstrativo, lotado no JB, que atualmente freqüenta o último ano do Curso de Ciências Biológicas nas Faculdades Regionais e Integradas de Avaré, SP. No Jardim Botânico tem também ocorrido o plantio de mudas de árvores nativas, patrocinados por ONGs e empresas regionais, como parte do encerramento de eventos realizados pelas mesmas. Encontra-se também em desenvolvimento o projeto “O Jardim Botânico vai à Escola”, que conta atualmente com 9 estagiários de extensão universitária, bolsistas ou voluntários, que atendem as escolas do município de Botucatu e região. Este trabalho esbarra na dificuldade em relação à constante troca dos alunos, por se tratarem em sua maioria de alunos de primeiro ano, que depois trocam essa atividade por atividades de pesquisa. Outro projeto de extensão permite a abertura do JB durante os finais de semana e feriados, com a colaboração de um aluno bolsista que fica de plantão para orientar os visitantes em relação a cuidados e deveres durante a visita. O JB também é palco para realizações de eventos culturais e artísticos com apresentações de grupos musicais, teatro e da Orquestra Municipal da Prefeitura de Botucatu/SP. Por meio destas inúmeras atividades e dados apresentados consideramos que o Jardim Botânico do IBB / UNESP tem desempenhado suas funções e por meio dos dados científicos acumulados, pode contribuir para o estudo e conservação da flora da região de Botucatu/SP. 97 A Estação Científica Ferreira Pena, complexo florestal na Amazônia Ocidental do MPEG, Belém-PA Maria de Nazaré do Carmo Bastos Museu Paraense Emílio Goeldi João Ubiratan Moreira dos Santos Universidade Federal Rural da Amazônia 98 Introdução Possuir uma área conservada para pesquisas em longo prazo, que possibilitasse compreender a dinâmica do equilíbrio da flora e da fauna em diversos ambientes amazônicos, sempre foi um dos desejos de pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi, que se dedicam à busca de subsídios para a conservação e preservação da diversidade destes ecossistemas, tanto que no final do século XIX, o então diretor desta Instituição, o naturalista Emílio Goeldi, pleiteou ao Governo do Pará uma área conservada para pesquisas, não tendo, porém, seu pleito atendido. A partir da década de 70, o botânico João Murça Pires empenhou-se na obtenção de tal área e, em 1979, depois de seguidos esforços, conseguiu que o governo do Pará cedesse ao Museu Goeldi uma área de 10.000ha, no município do Acará-PA, que sequer foi ocupada pela Instituição devido a problemas com madeireiros. (Lisboa, 1997). Em 1990, o Museu Goeldi retomou a questão e procurou um local que fosse ideal aos seus objetivos e confiando na área escolhida pelos botânicos João Murça Pires, Ima Vieira e Rafael Salomão, nasceu a Estação Científica Ferreira Penna/ ECFPn. (Lisboa, 1997). Uma área quase intacta, situada em uma das maiores Flonas da região, possuindo alguns dos ecossistemas naturais mais representativos da região Amazônica, destinada a estudos científicos de longo prazo, visando contribuir para um melhor conhecimento dos ecossistemas tropicais e de seu uso pelas populações regionais e à formação de recursos humanos. Hoje se têm conhecimento de que as áreas protegidas representam um dos meios mais importantes para conservar a biodiversidade, tendo um efeito forte na inibição do desmatamento, tanto em unidades de conservação como parques nacionais, reservas biológicas e terras indígenas (Ferreira et al., 2005). Estas áreas permitem estudos de longo prazo para entendimento da dinâmica biológica e dos efeitos das mudanças climáticas, visando a manutenção a integridade biológica. A Estação Científica Ferreira Penna. A Estação Científica Ferreira Penna (ECFPn) é uma das bases de pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), situada no interior da Floresta Nacional de Caxiuanã (1º42’30”S e 51º31’45”W), no município de Melgaço, Estado do Pará, 400 km a oeste de sua capital, Belém, resultado de um convênio celebrado com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), que cedeu por 30 anos uma área isolada e conservada, que serve de base avançada para pesquisadores que desenvolvem estudos sobre florestas tropicais, gerando subsídios para o uso sustentável da mesma. O seu nome é uma homenagem ao fundador da Sociedade Philomática, entidade que deu origem ao Museu Paraense Emílio Goeldi, em 1866. É uma área de 33.000ha, cuja multiplicidade de ecossistemas é uma das características naturais mais interessantes sendo constituída por ambientes com alta biodiversidade local e baixa densidade demográfica, sendo está uma das razões de sua escolha. 99 Para atender os objetivos de seus visitantes, cientistas, bolsistas, estudantes, técnicos, de diversas instituições brasileiras e estrangeiras, a ECFPn conta com apoio logístico tanto em sua base física em Melgaço, como na cidade de Breves, local de passagem, estratégico para quem vai à Caxiuanã. A base de apoio em Breves é uma residência com boa infra-estrutura, equipada com veículo tipo caminhonete, tele fax e rádio de comunicação. A de Melgaço, construída às margens do rio Curuá, no interflúvio que este rio forma com o rio Puraquequara, em Caxiuanã, possui uma área urbanizada de 6.000m2 e 1.700m2 de área construída que inclui, entre outros, laboratórios, alojamentos (apartamentos e redário, onde se armam redes para dormir), auditórios, biblioteca, sala de leitura, refeitório, embarcações para excursões fluviais (barco e lanchas voadeiras). O abastecimento energético da ECFPn é executado por sistema híbrido diesel–solar; possui aparelhos para comunicação, TV, computadores, estufas, entre outros e conta ainda com uma torre de observação de 54 m de altura a 3 Km da base física, bem como uma pequena estação climatológica. Esta infra-estrutura, resultado de um acordo de Cooperação Técnica firmado entre o Brasil e a Grã-Bretanha/Irlanda do Norte, através do Conselho Nacional de Desenvolvimento de Pesquisas Científicas-CNPq/Museu Goeldi e Overseas Development Administration (ODA), garante o atendimento de 50 pessoas simultaneamente. (Lisboa 1977) A Estação Científica é uma área de conservação in situ composta predominantemente de floresta densa de terra firme, florestas de inundação (igapó e várzea), vegetação secundária (desde capoeira recente até com mais de 50 anos), uma pequena porção de vegetação savanóide (campo hidromórfico), além de vegetação aquática distribuída ao longo das margens dos cursos d’água. A Floresta de terra firme, do ponto de vista da flora, é uma das áreas com maior riqueza de espécies da região de planície da Amazônia oriental (até 200m de altitude) (Almeida et al. 1993). Na ECFPn, representa 85% da área, consequentemente, tem sido até o momento, objeto de maior atenção por parte dos botânicos. (Lisboa et al.,1997). A sua diversidade as vezes surpreende, nela foram encontradas, por exemplo, as espécies Pithecellobium unifoliolatum Benth. e Martiodendron parviflorum (Amshoff) R. Koeppen, consideradas raras para toda a Amazônia e Phoebe cinnamomifolia (Kunth) Nees (Lauraceae), cuja ocorrência estava restrita à Colômbia e ao Equador. (Lisboa et al., 1997). Apresenta a média de 189 espécies arbóreas, com 557 árvores por hectare, numa amostragem de 13 hectares. A família com maior diversidade é Sapotaceae com 63 espécies, seguindose Chrysobalanaceae com 54 e Lauraceae com 47. O sub-bosque tem composição muito variada, às vezes com presença significativa de cipós e palmeiras. Entre as espécies mais importantes do ponto de vista econômico, destacam-se: Dinizia excelsa Ducke (angelim); Manilkara surinamensis Miq. (maçaranduba); Vouacapoua americana Aubl. (acapu), Virola surinamensis Aubl. (Ucuuba) e Bertholletia excelsa Bonpl. (Castanha do Pará). 100 A Foresta de Várzea , rica em nutrientes por crescer sobre solos de aluvião, apresenta espécies bem características deste ambiente, como: Pachira aquatica (Aubl.) K. Schum. (mamorana) e Symphonia globulifera L.f. (anani); Euterpe oleraceae Mart. (açaí). Esta última considerada principal produto de complemento alimentar, serve ao consumo doméstico e como produto de comercialização para as comunidades (Santana, & Lisboa, 2002) tendo um grande valor no mercado regional e nacional. A Foresta de Igapó possui estrutura relativamente mais baixa em comparação a floresta de terra firme e apresenta as famílias Fabaceae e Clusiaceae como predominantes. O Museu Goeldi, como Jardim Botânico, busca atuar como centro de recursos para conservação, pesquisa, desenvolvimento e educação, cumprindo seu papel na interface entre a conservação in situ e ex situ. No parque zoobotânico cultiva espécies provenientes da flora amazônica, como a Aniba rosaeodora Ducke, o pau rosa, que se encontra na lista de plantas ameaçadas de extinção, na categoria em perigo. Na base física de Caixuanã, exerce a conservação in situ ao mesmo tempo em que se realizam pesquisas de processos físicos e biológicos necessários a compreensão da diversidade biológica, vital para a conservação de espécies, como: taxonomia, estrutura, composição e dinâmica da biodiversidade, dinâmica de população de plantas e animais; epidemiologia de doenças transmissíveis; organização e reprodução social das populações do entorno; Arqueológicos, geológicos, geomorfológicos, pedológicos, climatológicos e hidrológicos. Prioriza também educação e treinamento, que são atividades inseparáveis de um programa consistente de pesquisa, promovendo cursos para a formação de profissionais das comunidades locais. Portanto, uma das principais metas da ECFP é incentivar a formação de técnicos na região Amazônica, além de apoiar os Programas de Pós-Graduação do MPEG, viabilizando o desenvolvimento de dissertações de mestrado e teses de doutorado para os estudantes. No que tange a formação científica a nível médio e fundamental, desenvolve programas e atividades com as escolas das comunidades localizadas no entorno da Estação. Através de editais do Ministério de Ciência e Tecnologia(MCT), a ECFPn tornou-se local de realização de importantes Pro gamas de pesquisa visando a conservação de florestas tropicais, onde atualmente, destacam-se o Programa de Pesquisa em Biodiversiades - PPBio; Programa de Grande Escala da BiosferaAtmosfera (Large Scale Biosphere- Atmosphere Experiment in Amazônia-LBA) e o Projeto Ecologia, Avaliação e Monitoramento das Florestas da Estação Científica Ferreira Penna, parte do projeto Tropical Ecology, Assessement and Monitoring - TEAM. O Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera (LBA), na Amazônia, uma iniciativa internacional de pesquisa liderada pelo Brasil. O LBA 101 está centrado em torno de duas questões principais abordadas através de pesquisa multidisciplinar, integrando estudos de Ciências Físicas, Químicas, Biológicas e Humanas e planejado para gerar novos conhecimentos, necessários à compreensão do funcionamento climatológico, ecológico, biogeoquímico e hidrológico da Amazônia, do impacto das mudanças do uso da terra nesse funcionamento, e das interações entre a Amazônia e o sistema biogeofísico global da Terra. O Projeto Tropical Ecology, Assessement and Monitoring-TEAM. visa monitorar os ecossistemas tropicais ao longo de toda faixa tropical da terra, apoiando cerca de 50 pontos de estudo estruturados de modo a garantir que os vários tipos de habitats de floresta tropical sejam monitorados, e que eles representem os diferentes uso da terra que ameaçam a biodiversidade. O Projeto TEAM em Caixuanã- “Ecologia, Avaliação e Monitoramento das Florestas da Estação Científica Ferreira Penna”, foi implantado em 2002, numa parceria entre o Museu Goeldi e a Conservação Internacional do Brasil e através dele, monitoram-se em longo prazo diversos grupos da fauna, flora, clima, solo e variáveis ambientais em seis parcelas de terra firme. As pesquisas são acessíveis a todas as equipes através de um banco de dados sobre florestas tropicais. O Programa de Pesquisa em Biodiversidade – PPBio é um programa gerado no âmbito da Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento – SEPED, do Ministério de Ciência e Tecnologia, a partir de demandas concretas vindas da comunidade científica e da sociedade brasileira. Foi desenvolvido em consonância com os princípios da Convenção sobre Diversidade Biológica, com as diretrizes da Política Nacional de Biodiversidade (Decreto 4.339, de 22/08/2002) e com as prioridades apontadas pela Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia de 2002. Criado em 2004, tem a missão de desenvolver uma estratégia de investimento em C & T que priorize e integre competências em pesquisa e transferência de conhecimento em biodiversidade. No Bioma Amazônia, visa à criação de um sistema integrado de informação sobre biodiversidade para facilitar a gestão do patrimônio natural, assim como fortalecer ações de pesquisas para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. O programa está apoiado em três componentes: Coleções; Inventários, e Projetos temáticos que focam o uso da biodiversidade. (http://marte.museu-goeldi.br/ ppbio/) O Programa de Apoio à Pesquisa promove o conhecimento científico da região de Caxiuanã nas diversas áreas do conhecimento, com o objetivo expandir o número de pesquisas na ECFP e de apoiar a formação de recursos humanos altamente qualificados para o estudo da diversidade social e biológica do Bioma Amazônico, viabilizando o desenvolvimento de teses e dissertações. Além disso, o Programa visa atender a uma vocação de Laboratório Nacional atribuída à Estação Científica Ferreira Penna, possibilitando a vinda de membros de outras instituições brasileiras que não possuem muitas oportunidades de atuar no Bioma Amazônico e assim contribuir para a investigação e a conservação da biodiversidade amazônica. 102 Programa Floresta Modelo de Caixuanã, uma interface entre a pesquisa científica e os moradores da região, há 11 anos, contribui para a conservação e o manejo sustentado da floresta Nacional de Caxiuanã, constituindo um modelo aplicável a outras comunidades amazônicas. A área de educação do Programa agrega as demais atividades e é voltada à prevenção e superação dos problemas ambientais buscando resgatar também a valorização da memória social e do patrimônio cultural das comunidades, produzindo materiais didáticos de temáticas locais e a capacitação de professores. Já é tradicional a realização anual de uma Gincana, durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que congrega a população dos municípios vizinhos de Portel e Melgaço em momentos de lazer, prática esportiva, cultural e ações de cidadania. Nesta gincana promovemse várias oficinas nas diversas áreas de atuação do Goeldi e programa de auditório interativo com apresentação de teatro, brincadeiras, hora do conto, vídeos, jogos e informações sobre a fauna, a flora e homem da região amazônica. O Museu Paraense Emílio Goeldi, como Instituição de Pesquisa e Jardim botânico, tem cumprido sua missão de produzir e difundir conhecimentos sobre os sistemas naturais e sócio-culturais da Região Amazônica, desenvolvendo modelos de pesquisas que viabilizam o desenvolvimento sustentável, a formação de recursos humanos, a educação científica e a inclusão social. A Estação Científica Ferreira Penna, é um dos instrumentos usados para cumprir esta missão, gerando conhecimentos que já resultaram em mais de 500 publicações especializadas e de divulgação, além de dezenas de dissertações de pós-graduação. Um grande legado para a conservação das florestas tropicais, para deter a extinção de espécies e utilização sustentável do patrimônio genético de plantas. Referências Bibliográficas Almeida,S.S.; Lisboa, P.L.B. & Silva, A.S.L. 1993. Diversidade florística de uma comunidade arbórea da Estação Científica Ferreira Penna em Caxiuanã (Pará). Bol Mus. Para. Emílio Goeldi. sér. Bot., Belém. 9(1):93-188. Ferreira. L.V.; Venticinique, E.& Almeida, S.S. 2005. O desmatamento da Amazônia e a importância das áreas protegidas. Estudos Avançados. Museu Goeldi.19(53):1-10 Lisboa,P.L.B.; Silva, A.S.L. & Almeida, S.S. 1997. Florística e estrutura dos ambientes. In: LISBOA,P.L.B (ed.) Caxiuanã. Belém, Museu Paraense Emílio Goeldi.p. 163-183. Santana, M.R.;Lisboa, P.L.B. 2002. Estratégias de sobrevivência. In: LISBOA, P.L.B (ed.) Caxiuanã: populações tradicionais, meio físico e diversidade biológica. Belém, Museu Paraense Emílio Goeldi. p. 95-126. 103 A visão a conservação a partir do público de um jardim botânico Carmen Silvia Lemos Menezes Machado Jardim Botânico do Rio de Janeiro 104 Jardins Botânicos são áreas protegidas por legislação específica – Resolução CONAMA nº 339, de 25.09.20031 , na qual estão discriminados critérios e categorias de classificação para essas instituições. Em seus objetivos, a Resolução destaca no Inciso I, dois importantes pontos para os quais chamamos a atenção quando falamos em público2 . São eles: “a conservação3 e a preservação4 (grifo nosso) das plantas (...) com a finalidade de difundir seu valor multicultural e sua utilização sustentável”. Preservação e conservação são conceitos básicos e importantes, muito utilizados em áreas protegidas. Suas diferenças evidenciam critérios de gestão e manejo desses espaços, especialmente nas unidades de conservação descritas pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação - SNUC5 . Estes conceitos também estão descritos nesta Lei e, a fim de manter uma correlação de termos, nos basearemos nas especificidades do conceito de conservação, melhor detalhado nas Normas Internacionais de Conservação para Jardins Botânicos (2001), específicas para estas instituições. Os jardins botânicos, de acordo com as Normas Internacionais, desempenham importante papel no que se relaciona a conservação e uso sustentável da biodiversidade. Constituem pólos de pesquisas direcionadas ao tema e, por terem grande acesso de público, tornam-se agentes de ligação entre a conservação, uso e importância desses recursos para a vida dos indivíduos. A conservação da diversidade biológica é, portanto, um ponto importante no gerenciamento dos recursos da natureza e está desta forma, vinculada aos jardins botânicos, especialmente quando falamos nas formas de conservação (in situ, ex situ e integrada), detalhadas mais adiante. Um marco na trajetória dos Jardins Botânicos foi a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento – CNUMAD, mais 1 “Área protegida, constituída no seu todo ou em parte, por coleções de plantas vivas cientificamente reconhecidas, organizadas, documentadas e identificadas, com a finalidade de estudo, pesquisa e documentação do patrimônio florístico do País, acessível ao público, no todo ou em parte, servindo à educação, à cultura, ao lazer e à conservação do meio ambiente.” 2 Para fins deste trabalho adotamos a definição de público conforme Teixeira Coelho (2004), “o conjunto de pessoas que não apenas praticam uma atividade determinada, mas diante dela assumem um mesmo tipo de comportamento, sobre ela expressam opiniões e juízos de valor consideravelmente convergentes e dela extraem sensações e sentimentos análogos...” (p. 323). 3 Conservação da natureza – “o manejo do uso humano da natureza, compreendendo a preservação, a manutenção, a utilização sustentavel, a restauração e a recuperação do ambiente natural... garantindo a sobrevivência dos seres vivos em geral” e; - Conservação in situ – “conservação de ecossistemas e habitats naturais e a manutenção e recuperação de populações viáveis em seus meios naturais (...) http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985.htm. 4 Preservação – “proteção em longo prazo das espécies, habitats e ecossistemas, além da manutenção dos processos ecológicos, prevenindo a simplificação dos sistemas naturais” (LEI 9.985 de 18 de julho de 2000). http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985.htm. 5 SNUC – Lei º 9985 de 18.07.2000, que “estabelece critérios e normas para a criação, implantação e gestão das unidades de conservação” http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985. htm. 105 conhecida como Rio 92, onde importantes documentos foram gerados, entre eles, a Convenção sobre Diversidade Biológica – CDB e a Agenda 21, que evidenciaram a “urgência em promover uma aproximação real entre a sociedade e os problemas ambientais” (NORMAS, 2004, p.72). A CDB tem grande influência nas ações dos jardins botânicos, especialmente aquelas voltadas à conservação da biodiversidade, conhecimento tradicional, valor intrinseco e econômico das espécies vegetais. Trata-se de um dos mais “importantes instrumentos internacionais relacionados ao meio-ambiente e funciona como um guarda-chuva legal/político para diversas convenções e acordos ambientais mais específicos. A CDB é o principal fórum mundial na definição do marco legal e político para temas e questões relacionados à biodiversidade” (http://www.cdb.gov.br/CDB acesso em 05.07.2008). Assim, a partir das determinações da CDB com relação às diretrizes de conservação das plantas, e a importância de se aproximar a sociedade das questões ambietais, os jardins botânicos destacaram-se como agentes desta aproximação, uma vez que têm por tradição, facilidade em atrair grande e variado público para suas dependências e, através das atividades desenvolvidas em sua área de visitação, tem a posssibilidade de explorar temas relacionados aos grandes problemas ambientais. Esta visão foi reforçada pela necessidade de tornar a sociedade capaz de enxergar o impacto de suas vidas no ambiente, a fim de torná-la capaz de formular juízo de valor acerca das reais necessidades do indivíduo em termos de seu consumo, uso dos bens da natureza e seu uso sustentável. Para este fim, os jardins botânicos mostram-se perfeitamente preparados, uma vez que desenvolvem pesquisas voltadas para o estudo da biodiversidade das plantas, seus usos e benefícios, assim como, trabalham a perspectiva ambiental e suas influências no cotidiano da sociedade. Assim, é importante que os jardins trabalhem conceitos essenciais ao desenvolvimento de suas atividades visando engajar seu público transformandoos em co-participes de suas ações. O conceito de conservação está estreitamente relacionado aos jardins botânicos, o que nos leva a considerá-lo sob os três aspectos abordados nas Normas Internacionais de Conservação para Jardins Botânicos, quais sejam: 1) conservação ex situ – “conservação e manutenção de amostras de organismos fora de seu habitat natural (...) 2) conservação in situ – “conservação da biodiversidade no local de origem do recurso biológico e; 3) conservação integrada – combinação das abordagens complementares da conservação in situ e ex situ para a proteção e administração da diversidade biológica (...) (NORMAS, 2004, p. 105). 106 É importante que o significado e a abrangência desses termos estejam claros para o público de um jardim, principalmente quando uma das metas descritas nas missões destes “espaços de natureza6 ” são a educação e a informação da sociedade. Visando obter uma análise das percepções do público quanto ao conceito de conservação, desenvolvemos um questionário com 6 perguntas objetivas e uma pergunta aberta, que foram aplicados à 50 pessoas escolhidas aleatoriamente no arboreto do Jardim Botânico do Rio de Janeiro – JBRJ, a fim de analisar até que ponto e de que forma acontece a absorção e compreensão deste conceito pelo público que visita o Parque. O método utilizado neste trabalho foi o qualitativo, visando buscar as especificidades contextuais do momento da pesquisa. Segue-se, portanto, a orientação de Howard Becker (1997), onde são trabalhadas as descrições, comparações e interpretações do público selecionado, tornando a pesquisa mais participativa e interativa. Embora, nos resultados apresentemos alguns números percentuais, não estamos nos utilizando da metodologia estatística por dois motivos: 1. Por não estarmos trabalhando com um universo representativo do total de visitantes do JBRJ e; 2. Por estarmos levando em consideração aspectos subjetivos das interpretações dos entrevistados. As perguntas foram: 1. Conservar significa: ( )manter, cuidar; ( )usar com critério (sem esgotar recurso); ( ) proteger (preservar) 2. Você acha que existem diferenças entre a área de visitação o Jardim e as áreas remanescentes de mata atlântica (encosta) que envolve o Jardim? Cite três. 3. Você acha importante que existam áreas como a da Floresta da Tijuca. Por quê? ( )pela presença de diferentes tipos de plantas; ( )porque são representativas das plantas características do Estado e auxiliam no estudo das plantas no seu local de origem; ( )para ensino e pesquisa. 4. E as áreas de jardins, ou de visitação porque são importantes para você? ( ) porque aprendo sobre plantas; 6 “espaços de natureza” é uma adaptação a expressão utilizada por Diegues (2002) – “espaços de natureza selvagem”, para se referir a áreas com características de natureza intocada tais como as unidades de conservação (MACHADO, 2005, p. 45). Esta questão foi baseada no projeto final de especialização (questões 9 e 10, p. 41) de Pedro Jorge Pereira no Curso de Especialização em Gestão da Biodiversidade, na Escola Nacional de Botânica Tropical e Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2007. 107 ( ) porque é um lugar bonito, bom para passear e seguro para estar no Rio; ( ) porque tem muitas plantas diferentes e aprendo sobre elas. 5. Você costuma prestar atenção nas placas de identificação das plantas? Porque você acha que existem plantas de tantos lugares diferentes no JB? ( ) para ensino; ( ) porque ajudam a mostrar ao visitante o valor das plantas de outros lugares; ( ) porque mostram a grande variedade, diversidade de plantas existentes no Brasil e no mundo. 6. Você acha que, de modo geral, os objetivos das pesquisas do Jardim Botânico são destinados a: ( )controlar/minimizar a perda em diversidade de plantas; ( ) contribuir para assegurar o uso sustentável dos recursos da natureza, sensibilizando os usuários do jardim para a diversidade de plantas; ( ) identificar as semelhanças e diferenças entre as plantas do mundo, mostrando a importância da diversidade. 7. Você acha que o JBRJ tem um papel importante na conservação das plantas? S/N Por quê? ( ) porque conhece e participa das atividades oferecidas pelo JBRJ; ( ) porque já ouviu falar; ( ) porque conhece sua missão institucional. A análise dos questionários foi baseada na interpretação7 do indivíduo em relação ao conceito de conservação, com o objetivo de avaliar a percepção dos visitantes quanto a esse conceito, tão importante para os jardins botânicos, e, através dela, verificar-se até que ponto os visitantes de um jardim, absorvem a informação disponibilizada em seu arboreto. Guimarães (2002) afirma que a interpretação ambiental é a decodificação da linguagem científica em informação de fácil compreensão, desperta a atenção do público, levando-o a descobrir as influências que o meio pode exercer sobre suas vidas. Assim, a compreensão por parte do público torna-o um agente ativo e participativo, capaz de perceber a inter-relação entre a conservação das plantas e a melhoria da qualidade de vida. “A interpretação ambiental é a viabilização da comunicação entre o visitante e esses recursos naturais da área visitada” (SHARPE, 1982, p.3). Dessa forma, é importante que o público entenda e se interesse pelas especificidades de um jardim botânico, para que os temas abordadados por estas 7 De acordo com a National Association for Interpretation – NAI, “interpretação é um processo de comunicação que faz a conexão emocional e intelectual entre o interesse do público e os objetivos da área com relação a seus recursos naturais” (tradução do autor) http://www.interpnet. com. 108 instituições sejam instigantes, divertidos e capazes de atrair cada vez mais pessoas para suas dependências. De maneira geral as pessoas se prontificaram a responder o questionário, a maior parte delas 66% de mulheres e 34% homens; a faixa etária com maior representatividade esteve entre os 41 e 50 anos. O público foi selecionado aleatoriamente, abordado no arboreto da instituição como explicado anteriormente. Analisando as 7 respostas do questionário podemos inferir que a compreensão do termo conservação ainda não está bem entendido uma vez que as respostas ficaram entre: 46% proteger (no sentido de preservar) e; 30% manter, cuidar (usado no sentido de zelo), demonstrando que tanto um quanto o outro, têm significados próximos. Quando perguntados sobre a importância de áreas como a floresta da tijuca, o entendimento é de que essas áreas são importantes pela representatividade de espécies da mata atlântica, que possibilitam o estudo e a pesquisa para 82% dos entrevistados, 46% que optaram pela presença de diferentes espécies em um mesmo lugar e que, por isso, auxiliam no estudo das plantas em seu local de origem e, 36% que acham que esses lugares são propícios ao ensino e a pesquisa como um todo. As áreas de visitação dos jardins botânicos são importantes para 56% dos entrevistados por serem lugares agradáveis para se passear, bonitos e seguros; 24% acham importantes porque mostram diferentes espécies de plantas e oferecem informações sobre elas, e 20% porque aprendem sobre plantas quando visitam essas áreas. As placas de identificação das espécies para a maioria 94%, quase que todos os entrevistados, acham que as placas mostram a grande variedade/diversidade de plantas existentes no Brasil e no mundo; 4% acham que as placas ajudam a mostrar ao visitante o valor das plantas de outros lugares e, 2% acham que as placas auxiliam no ensino. Os comentários feitos acerca dessa questão eram em torno da curiosidade sobre a origem dos espécimes e que essa informação era bastante visível e distribuída por todo o jardim, porém, em algumas espécies, essa informação não existia. As placas na verdade são vistas mais como uma curiosidade. Sobre o conhecimento acerca dos objetivos das pesquisas do Jardim obtivemos: 48% das respostas apontaram a identificação das semelhanças e diferenças entre as plantas do mundo, destacando a importância da diversidade das espécies; 36% acreditam que as pesquisas contribuem para assegurar o uso sustentável dos recursos da natureza, sensibilizando os usuários do jardim para a diversidade de plantas e, 16% acham que as pesquisas contribuem com o controle/minimização da perda da diversidade das plantas. Esta questão foi muito interessante a medida em que os entrevistados, muitas vezes, alegavam que 109 essas pesquisas não eram divulgadas para o público e isso dificultava um pouco “acertar” a resposta. Na última pergunta, sobre a importância do jardim botânico na conservação das plantas, 58% dos entrevistados associaram esta importância à missão institucional do jardim, 30% acham importante porque já ouviram falar e apenas 10% acham importante porque já participaram ou conhecem as atividades oferecidas pela instituição; uma pessoa deixou de responder alegando não conhecer a missão institucional do Jardim. É importante salientar nesta questão que, embora o público, em alguns momentos se encontre confuso em relação à alguns ítens, o Jardim Botânico do Rio de Janerio vem conseguindo difundir sua missão institucional, um importante passo na aproximação entre a instituição e seu público, um elo importante na questão ambiental que vem procurando inserir a sociedade como um todo nas tomadas de decisão relacionadas ao uso sustentável, responsabilidade e conservação do meio ambiente. A única questão aberta foi respondida por 56% dos entrevistados, sendo que um deles não citou diferenças entre a área de visitação e a de encosta (ou floresta) do JBRJ. A maioria citou questões de segurança, limpeza e ordenação como diferenças básicas para a área de visitação. Esta questão foi levantada visando obter do público, seu entendimento relacionando as duas áreas em relação à suas especificidades; 46% acham que não há diferenças. A maior parte das respostas consideraram o jardim como área de lazer, um lugar seguro para passear. O fato de ser um instituto de pesquisas só foi levantado por 12% dos entrevistados, isto é, 88% do universo pesquisado não associa a área de visitação como um campo de pesquisas. Os jardins botânicos são espaços ideais para o desenvolvimento de atividades direcionadas à seus visitantes, visando o engajamento e a participação destes nas atividades desenvolvidas em seu arboreto. Por ser um “espaço de natureza” e por seu grande afluxo de visitantes, tem condições, através de exposições, trilhas, etc, de inserir informações direcionadas e propiciar oportunidades de interação entre o público e os recursos naturais disponíveis em sua área de abrangência. A maioria das respostas no entanto, demonstram que o público (entrevistados) tem o Jardim como uma área para estudo das plantas, mas o que realmente aparece é que o Jardim existe como área de laser, suas pesquisas parecem estar descoladas da área de visitação. Referências Bibliográficas Becker, H. S. 1997. Métodos de Pesquisa em Ciências Sociais. Editora HUCITEC. 3ª ed. São Paulo.178p. CNMA, RBJB, JBRJ, BGCI. 2001. Normas Internacionais de Conservação para Jardins Botânicos. Rio de Janeiro. EMC. 109p. 110 Diegues, A. C. 2002. O Mito Moderno da Natureza Intocada. 4º ed. São Paulo. Annablume: HUCITEC: Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Populações Humanas e Áreas Húmidas Brasileiras. USP. 176p. Machado, C. S. De L. M. 2005. Ver, sentir, perceber: o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro na visão de seu associado. Dissertação. UFRJ/EICOS/Programa de pós-graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social, Rio de Janeiro. 139p. Pereira, P. J. C. R. 2007. O que os visitantes pensam sobre o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro: Pesquisa de opinião. Monografia do Curso de Especialização em Gestão da Biodiversidade. Escola Nacional de Botânica Tropical & Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. 43p Sharpe, G. W. 1982. An Overview of Interpretation. In: Interpreting the environmental. Macmillian Publishing Company. 2º ed. 693p. Teixeira Coelho. 2004. Dicionário Crítico de Política Cultural: Cultura e Imaginário. 3º ed. São Paulo. FAPESP/ILUMINURAS LTDA. 383p. Consultas Internet http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985.htm. http://www.cdb.gov.br/CDB http://www.interpnet.com Agradecimento: Agradeço a Ana Rosa de Oliveira - paisagista do JBRJ pelas sugestões no questionário desta pesquisa. 111 Uso Público no Jardim Botânico – A Interpretação Ambiental Visando a Conservação Olga Camisão de Souza Marcia Lobianco Faraco Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro 112 Fundado em 13 de junho de 1808 por d. João, Príncipe Regente na época, mais tarde d. João VI, o Jardim Botânico em seus 137 hectares, 55 abertos à visitação pública, abriga um acervo botânico da flora brasileira e exótica e um acervo histórico-cultural. Foi intenção de d. João VI aclimatar, na área que desapropriara para a instalação de uma fábrica de pólvora, especiarias trazidas das Índias Orientais. De Jardim de Aclimação e Real Horto, após a coroação de d. João VI como rei do Reino Unido de Portugal e Brasil, passou a chamar-se Real Jardim Botânico. Somente no Reinado de Pedro I foi aberto à visitação pública, já com o nome de Jardim Botânico. Iniciou-se, nesse período, o compromisso socioambiental e cultural da Instituição – o que, hoje, denominamos de Uso Público -, com a preservação daquele patrimônio nacional. Em 1838, no período de d. Pedro II, o Jardim tornou-se o local favorito de passeios, encontros e estudos botânicos, e aproximou naturalistas de diversas nacionalidades – estudiosos, técnicos, pintores, ilustradores e cientistas, entre outros –, que documentaram e divulgaram para o mundo sua beleza e importância, sob diversos enfoques. Marcaram sua passagem com admiração pelos encantos das aléias e recantos do Jardim, ilustres visitantes – Einstein, a Rainha Elisabeth II do Reino Unido, os Reis da Suécia e a Princesa Sayako do Japão. Em 1890, a visitação ao Jardim foi franqueada ao público, diariamente, e sem a necessidade de acompanhamento. Os resultados dessa medida foram excelentes: entre abril de 1890 e julho de 1894, cerca de 180 mil pessoas visitaram o Jardim e puderam usufruir de momentos de plena convivência com o ambiente. A partir desse marco, as responsabilidades e ações da Instituição tornaram-se imprescindíveis no sentido de sensibilizar o público para a necessidade da conservação de seu patrimônio ambiental e cultural - ações que ultrapassaram também seus limites, pois o saber ambiental gera um comportamento conservacionista que se vai perpetuando nas gerações atuais e futuras. Como conseqüência de uma demanda crescente e necessária da visitação de público cada vez mais diversificado, elaborou-se o Plano de Uso Público, que trouxe ordenação para a dinâmica relação entre o público e o Jardim. Essa nova política de atendimento ao público consolidou-se com o Programa de Interpretação Ambiental, que, em jardins botânicos, proporciona ao visitante uma maior interatividade entre Homem e Natureza, porque é fundamental conhecer para preservar, respeitar e conservar o Meio Ambiente. O Plano de Uso Público focou ações voltadas, primordialmente, para as áreas: Conservacionista, Educação, Turismo e Lazer. 113 Este Programa, desdobrado em vários Projetos – explicados a seguir –, possibilitou dinamizar a comunicação entre os recursos naturais e culturais do arboreto e seu público; enriquecer a qualidade da visitação, aumentar a compreensão sobre a importante missão e o inestimável acervo do Jardim Botânico e, conseqüentemente, a conservação do meio ambiente em geral. Projeto Centro de Visitantes O Centro de Visitantes é o ponto de referência da visitação ao Jardim Botânico. Sua função básica é a de propiciar ao visitante um atendimento ágil e abrangente, ressaltar a importância de seus recursos naturais e culturais, disponíveis no arboreto, e fornecer informações gerais para dinamizar a visitação e estreitar a relação do público com o Jardim Botânico. Visitas guiadas, em carro elétrico, assim como workshops, palestras e cursos, com temática ligada ao Ecoturismo e Interpretação Ambiental, estão disponíveis aos interessados. Projeto Visitação Guiada O Projeto Visitação Guiada foi concebido a fim de oferecer ao visitante orientação e informação mais aprofundadas dos recursos naturais e culturais do arboreto, por meio de trilhas selecionadas. Estudantes universitários – das áreas de Turismo e Meio Ambiente – assumem o papel de guias para essas visitas, quando solicitados. Projeto Trilhas Interpretativas O Projeto Trilhas Interpretativas orienta o público na visitação com temas e percursos pré-estabelecidos. O visitante tem condição de se auto guiar, ao utilizar folhetos que contêm mapa, com o percurso traçado, e texto, que interpreta os pontos de seu interesse e de acordo com cada tema selecionado. Os folhetos são fornecidos no Centro de Visitantes e os temas oferecidos, atualmente, são, entre outras, Trilha Histórica e Plantas Medicinais. Projeto Placas Interpretativas O Projeto de Placas Interpretativas propõe auxiliar o visitante a identificar e conhecer os recursos naturais e culturais de relevância existentes no arboreto, e que ocorrem em diferentes momentos, durante as quatro estações do ano. Os visitantes contam com, aproximadamente, 60 placas interpretativas, disponíveis em locais acessíveis, para propiciar conhecimento mais aprofundado desse acervo. 114 Projeto Banco de Dados Interpretativos O Projeto Banco de Dados Interpretativos identifica e descreve, em linguagem compatível com os vários perfis de público do Jardim, elementos de relevante interesse natural e cultural de seu acervo. Os dados estão disponíveis no próprio Centro de Visitantes, e contêm, aproximadamente, 180 textos. Projeto Pesquisa de Opinião Uma Pesquisa de Opinião realiza-se de dois em dois anos, para coletar dados sobre o perfil do público visitante, seus interesses e opiniões em relação às atividades e aos serviços oferecidos pelo Jardim Botânico. Com os resultados dessa Pesquisa, são implementadas ações, visando à melhoria contínua da qualidade do atendimento e da visitação. Ao longo destes 200 anos, a preocupação com o uso público do Jardim Botânico permeia todas as atividades da instituição, e resulta da missão e do compromisso de todos que aqui deixaram e deixam sua contribuição, sua experiência e seu saber para a guarda e o cuidado com este patrimônio e com o meio ambiente. O uso público do Jardim Botânico tem dinâmica muito própria, porque aponta caminhos para implementar, melhorar e alimentar o diálogo e o interesse entre público e instituição. Diferentes demandas, mudanças pessoais e profissionais, momentos da própria instituição, disseminação acelerada das informações, entre outros itens, fazem do uso público um dos pilares e base para acompanhar as transformações que ocorrem com a evolução sistemática do mundo, com destaque para o campo do meio ambiente, e tornar a relação entre visitantes e Jardim Botânico um passo para o aprimoramento humano, a partir da ética de sua convivência com os recursos naturais, históricos, arquitetônicos e culturais, representados pelos acervos do Jardim Botânico. 115 Coleções Científicas do Jardim Botânico da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte (FZB-BH) Miriam Pimentel Mendonça Juliana Ordones Rego Inês Ribeiro de Andrade Albina Carvalho de Oliveira Nogueira Jardim Botânico da Zoo-Botânica de Belo Horizonte 116 O Jardim Botânico da FZB-BH foi criado em 1991 tendo como um dos principais objetivos tornar-se uma referência em coleções botânicas ex situ. Procurando atender as diretrizes das redes nacionais e mundiais de Jardins Botânicos, fundamentadas na CBD, as coleções têm como meta priorizar as espécies nativas de Minas Gerais. Os Jardins Botânicos desempenham papel fundamental nos esforços para deter a extinção de espécies e promover a conservação, classificação, avaliação e utilização do patrimônio genético vegetal. No Brasil, os 34 jardins botânicos executam inúmeras atividades, que vão desde a aclimatação de espécies, seu papel historicamente original, até sua educação e sensibilização do público para a preservação do ambiente. Constituem o maior instrumento para o cultivo e conservação de plantas e possuem várias frentes de atuação para colaborar com os objetivos da CBD. Uma delas é atuar na conservação da biodiversidade de forma integrada promovendo, combinando e utilizando técnicas ex situ e in situ. As coleções ex situ são reconhecidas como uma das mais importantes ferramentas para a conservação da biodiversidade disponíveis aos jardins botânicos e tem diferentes propósitos: resgatar e manter germoplasma ameaçado de extinção; viabilizar estudos em taxonomia, ecologia, etnobotânica e horticultura; produzir material para reduzir a pressão das coletas; produzir material educacional para conservação e exibição. O JB-FZB possui em suas coleções ex situ espécies nativas das famílias botânicas Araceae (138 taxa), Cactaceae (87), Orchidaceae (77), Bromeliaceae (61), Pteridophyta (42 taxa), Coleção de Mata Atlântica (187) e Coleção de Campos Rupestres (34). Destes, 37 taxa estão ameaçadas de extinção. Temos ainda coleções de referência: Coleção Carpológica (1533 registros), Herbário (6825), Ervanário (230) e Etnobotânica (80). Aliar as técnicas de conservação ex situ com as de conservação in situ e interagir com diferentes segmentos da sociedade, é o nosso maior desafio. 117 Conservação In Situ das Áreas Nativas Remanescentes do Jardim Botânico IAC José Eduardo de Arruda Bertoni Wilson Barbora Renato Ferraz de Arruda Veiga Eliseu Alves Teixeira Neto Lilian Renata Sikorski Instituto Agronômico 118 Introdução O JBIAC é um Jardim Botânico do Instituto Agronômico (IAC) que tem sua sede em Campinas-SP. No organograma institucional é um Núcleo subordinado ao Centro Experimental Central (CEC). O CEC possui 700ha, sendo que 60% de suas terras são utilizadas para experimentação agrícola e 40% delas por vegetação nativa, bosques, gramados, nascentes formando córregos, várzeas, represas e construções. O município de Campinas está inserido no domínio da Mata Atlântica, onde a cobertura vegetal era originalmente constituída por florestas, campos e cerrados. Segundo o Atlas dos Remanescentes Florestais, elaborado pela Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com o Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), em cinco anos a Região Metropolitana de Campinas (RMC), composta por 19 municípios, perdeu 28% de Mata Atlântica. Dos 12,5 mil hectares da vegetação natural existentes em 2000, restaram apenas 8,9 mil em 2005. Ressalte-se que Campinas possui, apenas, 1,96% de sua área coberta com remanescentes florestais. Os remanescentes de vegetação nativa existentes no CEC/JBIAC são constituídos por duas áreas distintas, sendo uma de floresta e outra de cerrado, totalizando 94ha. Para a efetiva proteção e conservação in situ dessa vegetação nativa, elaborou-se proposta de criação de uma Unidade de Conservação. Importante ressaltar que esta proposta vem ao encontro às atribuições do JBIAC (categoria “B” - CONAMA 001B/2002 - DOU 23/08/02), que é o estudo da biodiversidade regional, visando à conservação in situ, o manejo, a recuperação de áreas naturais e o seu uso sustentável (http://www.iac.sp.gov.br/Centros/Cec/ JNB/Index.htm). Caracterização da área O município de Campinas situa-se na porção centro oeste do estado de São Paulo, a 674 metros de altitude, entre as latitudes 22°46´10´´S a 23°03´11´´S e as longitudes 46°50´19´´W a 47°13´05´´ W, ocupando uma área de 795,70 quilômetros quadrados. A distribuição pluvial segue o regime típico das zonas tropicais de baixa altitude, ou seja, verão chuvoso e inverno seco. Os dados dos valores médios de temperatura do ar e da precipitação pluvial encontrados permitem identificar o clima, segundo o sistema de Köppen, como do tipo Cwa, ou seja, clima mesotérmico de inverno seco e precipitação média anual de 1.371mm e déficit hídrico anual na ordem de 50 mm. O CEC está localizado na bacia hidrográfica do Quilombo, em que os recursos hídricos naturais estão distribuídos de maneira bem uniforme, podendo constituir áreas de várzea, de cursos d´água e de nascentes. Foram construídos 119 poços artesianos e represas que pudessem auxiliar tanto às atividades científicas quanto a produção agrícola do Centro. Atualmente, 12 % da área do CEC (84,50 hectares) são representadas por recursos hídricos, os quais são muito importantes para a fauna local. Quanto aos solos, o cerrado está sobre Latossolos Vermelho Amarelos, a floresta em Latossolo Vermelho e nos cursos d’água e várzea encontram-se os Gleissolos (solos hidromórficos). O município de Campinas situa-se em uma área de transição entre o Planalto Atlântico e a Depressão Periférica Paulista (Instituto Geológico, 1993). Segundo o mapeamento geomorfológico de Campinas, realizado na escala 1:50.000 pelo IPT (1991) a região do CEC está localizada numa área onde predominam as colinas amplas, formas amplas e suaves, com vales acumulativos e abertos. Proposta de criação de Unidade de Conservação Devido à importância da vegetação remanescente em áreas do IAC, optou-se pela sua conservação através da criação de uma Unidade de Conservação (UC), na categoria de Estação Ecológica segundo o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). As Estações Ecológicas são áreas que possuem amostras representativas dos principais ecossistemas brasileiros, onde é permitida a investigação cientifica e o desenvolvimento de educação conservacionista com alteração do ambiente em até 10% do seu total como prevê a Lei Federal no 6.902, de 27 de abril de 1981 (Brasil, 1986) quando houve a instituição das Estações Ecológicas como categoria de manejo de Unidades de Conservação da Natureza e definidas na seguinte conformidade: Art. 1º - Estações Ecológicas são áreas representativas de ecossistemas brasileiros, destinadas à realização de pesquisas básicas e aplicadas de Ecologia, à proteção do ambiente natural e ao desenvolvimento da educação conservacionista. § 1º - 90% (noventa por cento) ou mais da área de cada Estação Ecológica será destinada, em caráter permanente, e definida em ato do Poder Executivo, à preservação integral da biota. § 2º - Na área restante, desde que haja um plano de zoneamento aprovado, segundo se dispuser em regulamento, poderá ser autorizada a realização de pesquisas ecológicas que venham a acarretar modificações no ambiente natural. Na proposta está prevista a interligação das áreas de cerrado e de floresta por meio de um Corredor Ecológico que seguirá um curso d’água, onde a recomposição da vegetação ciliar já vem sendo realizada. Corredores Ecológicos são porções de ecossistemas naturais ou seminaturais, ligando fragmentos florestais que possibilitem entre elas o fluxo de genes e movimento da biota, facilitando a dispersão de espécies e a recolonização de áreas degradadas, bem como a manutenção de populações que demandam, para sua sobrevivência, áreas com extensão maior do que aquelas das unidades individuais (Brasil, 2000). Com isso, 120 a área do CEC/JBIAC será ampliada, tornando-se local propicio como abrigo da fauna, principalmente a avifauna silvestre. O JBIAC já vem realizando educação ambiental e agrícola, com a consolidação das áreas de preservação, terá um espaço mais adequado para sua atuação na conservação in situ. Estudos do meio biofísico já foram realizados (clima, recursos hídricos, geologia, geomorfologia, solos, vegetação e fauna), os quais tiveram como objetivos: assegurar a conservação da biodiversidade local, recuperar áreas degradadas, planejar a implantação de infraestrutura e apoio logístico para atividades de pesquisas cientificas e educacionais. A referida proposta de criação da UC encontra-se sob análise na Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Referências Bibliográficas BRASIL. Lei no 6.902, de 27 de abril de 1981. Dispõe sobre a criação de Estações Ecológicas, áreas de Proteção Ambiental e dá outras providências In: CAMARA, I.G. (Coord); STRANG, H. E. (Colab.). 1986. Legislação de conservação da natureza. 4. ed. São Paulo: Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza – FBCN. BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. 2000. Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC: Lei no 9.985 de 18 de julho de 2000. Brasília, DF: Secretaria de Biodiversidade e Florestas. INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS DO ESTADO DE SÃO PAULO – IPT. 1991. Manual de Ocupação de Encostas. São Paulo. INSTITUTO GEOLÓGICO. 1993. Subsídios do meio físico-geológico ao planejamento do município de Campinas (SP). São Paulo: Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. 121 Plano de Manejo para a Reserva de Cerrado do Jardim Botânico de Brasília Jeanitto Gentilini Filho Danielle Abud Isaac Nuno C. de Azevedo Jardim Botânico de Brasília 122 Introdução O Jardim Botânico de Brasília (JBB) foi criado em 08 de março de 1985 com status de Departamento da Fundação Zoobotânica do Distrito Federal (FZDF). Desde sua inauguração o JBB teve como filosofia ser um jardim botânico voltado para preservação do Cerrado. O modelo adotado pelo Governo do Distrito Federal para o Jardim Botânico de Brasília foi pautado nas discussões mundiais da época, que afirmavam a importância dos novos Jardins Botânicos adotarem uma filosofia que incluísse a conservação in situ priorizando a conservação da flora regional. Visando abranger fisionomias deste bioma, ausentes na área original, foram incorporados 3.991,59ha ao JBB, que a partir de 26 de novembro de 1992, por meio do Decreto nº 14.422, passou a constituir a Estação Ecológica do Jardim Botânico de Brasília - EEJBB. A Estação Ecológica criada integrou-se ao Jardim Botânico de Brasília, abrangendo todo o conjunto, uma área total de aproximadamente 5.000 hectares. A Estação Ecológica JBB O JBB e sua EEJBB fazem parte da APA Gama Cabeça de Veado criada em 1986 e da Área Nuclear da Reserva da Biosfera do Cerrado, título dado pela UNESCO, a áreas internacionalmente reconhecidas que possuem gestão integrada, participativa e sustentável dos recursos naturais e, mais recentemente, da APA do Planalto Central. Em função da complexidade dos instrumentos legais que recaem sobre as unidades de conservação é fundamental a elaboração de um Plano de Manejo para compatibilizar os objetivos previstos no Sistema Nacional de Conservação. Plano de Manejo O Plano de Manejo está sendo elaborado com base no Roteiro Metodológico do IBAMA que propõe detalhar a estratégia de planejamento para as áreas de proteção integral, assegurando assim o cumprimento dos objetivos previstos no Sistema Nacional de Unidade de Conservação - SNUC. De acordo com o SNUC, o Plano de Manejo é um “documento técnico mediante o qual, com fundamento nos objetivos gerais de uma Unidade de Conservação, se estabelece o seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da Unidade”. 123 O trabalho proposto se refere ao desenvolvimento de ações que resultem no planejamento da EEJBB e sua efetiva gestão. O objetivo geral é garantir a proteção e recuperação do patrimônio natural da UC. Serão empenhados esforços para que, de posse do documento do Plano de Manejo, o JBB possa organizar e disciplinar as atividades existentes, de acordo com a legislação ambiental em vigor, além de desenvolver modelos e programas para manejo adequado, com o envolvimento da comunidade vizinha em prol da conservação desta importante Unidade de Conservação do bioma Cerrado na Capital Federal. 124 O Jardim Botânico da Univille: Uma Realidade desde 2007 Karin Esemann-Quadros Cynthia Hering-Rinnert Elzira Maria Bagatin Munhoz João Carlos de Melo Júnior Júlia Meirelles Jardim Botânico da Univille 125 O Jardim Botânico da UNIVILLE - Universidade da Região de JoinvilleSC - foi criado em 19 de abril de 2007, em área de 19.000 m2 da instituição, coberta parcialmente com Floresta Ombrófila Densa de Terras Baixas, em estado avançado de regeneração, que abriga diversas espécies da flora e fauna da região. Pretende ser um espaço de proteção da flora local, abrigo de espécies raras e ameaçadas de extinção e aberto à visitação pública, onde possam ser desenvolvidas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Seus objetivos estão focados na conservação da biodiversidade, na classificação/identificação das espécies originárias da vegetação nativa, na preservação do patrimônio genético das plantas e nas atividades da educação ambiental. A espécie escolhida como símbolo do Jardim Botânico é o palmiteiro juçara (Euterpe edulis Martius), nativo da Floresta Ombrófila Densa, descrita pelo alemão Karl Friedrich Philipp von Martius, no século XIX. Ele é natural de Erlangen – Nürnberg – Alemanha, onde está a FAU - Friedrich Alexander Universität, instituição parceira da UNIVILLE desde 2000. A FAU mantém o Jardim Botânico da cidade, com 178 anos, cujos gerentes têm apoiado as ações locais. Embora recém criado, O Jardim Botânico da UNIVILLE já conta com portal de entrada e trilha de cerca de 300 m de extensão, topografada e com pontos de interesse interpretativo identificados. Também conta com o Herbário Joinvillea, indexado com o acrônimo JOI no Index Herbariorum desde outubro de 2007, que conta atualmente com 7.600 plantas tombadas. Previstas para 2008 estão as seguintes metas: 1 – 100 m2 de um viveiro para produção de mudas de espécies nativas da Mata Atlântica, que serão plantadas no próprio Jardim Botânico e também distribuídas para a comunidade, através das escolas, associações de classe e entidades que desenvolvam atividades de recuperação de áreas degradadas e educação ambiental. Produto: um viveiro para produção inicial de 1.000 mudas/ ano. 2 – 100 m2 de uma estufa para produção e abrigo de pteridófitas, bromélias, orquídeas entre outras plantas de pequeno porte nativas da Mata Atlântica, resgatadas de áreas desmatadas no entorno da cidade de Joinville, visando a sua reintrodução na floresta do Jardim Botânico, em parques da cidade e em outras áreas destinadas à recuperação ambiental na região. Produto: uma estufa com capacidade para abrigar 500 plantas até fevereiro/2009. 3 – 200m de passarelas suspensas, com 1 m de largura, em eucalipto autoclavado e 170 placas informativas (de identificação de plantas, direcionamento de visitantes e informações gerais e técnicas) para equipar a trilha já existente na área do Jardim Botânico da UNIVILLE, tornando-a mais segura e confortável para os visitantes, bem como a construção de caminhos pelo Jardim. Produto: Passarela suspensa, com 200 m de extensão, devidamente sinalizada e 100m de caminhos. Públicoalvo: atender 500 pessoas/mês. 4 – 83 m2 de quiosque, em eucalipto autoclavado, coberto com palha e piso de pedra britada ou similar, para recepção dos visitantes e exposição de painéis explicativos. Produto: um quiosque de 83 m2 com capacidade para abrigar um mínimo de 50 (cinqüenta) pessoas. 5 – 10.000 unidades de um folder explicativo, publicado em papel reciclado, tamanho A4, dobrado, 4x4 cores, com informações sobre o Jardim Botânico e orientações para os visitantes que percorrerem a trilha. Produto: Um folder publicado e sua distribuição para os visitantes do Jardim Botânico. Público-alvo: alunos da UNIVILLE, alunos de 126 escolas do ensino fundamental, médio e superior de Joinville e região, professores, pesquisadores e comunidade em geral. 6 – Aquisição de ferramentas necessárias aos diversos trabalhos a serem desenvolvidos no Jardim pela equipe de jardineiro e auxiliares. 7 – Ampliação do Herbário Joinvillea em cerca de 75% da sua área, aumentando a capacidade do seu acervo para abrigar coletas das plantas do Jardim Botânico. 8 - Participação em eventos como o Congresso Nacional de Botânica, em Natal-RN e a 17ª Reunião Anual dos Jardins Botânicos Brasileiros, no Rio de Janeiro-RJ, além de visita à Jardins Botânicos do estado da Baviera, na Alemanha, por conta do termo de cooperação com a FAU - Friedrich Alexander Universität, de Erlangen – Nürnberg. (PROEX/UNIVILLE) 127 Mapa Digital da Reserva do Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG: status de conservação Thaísa Santos Faria Flávia Santos Faria Museu de História Natural e Jardim Botânico da Universidade de Minas Gerais Sérgio Donizete Faria Universidade de Minas Gerais 128 O MHNJB/UFMG abrange uma área equivalente a 60 hectares, a 3ª maior área verde de Belo Horizonte. Situa-se numa região originalmente ocupada por Mata Atlântica apresentando diferenças fisionômicas devido aos diferentes usos do solo ao longo do tempo. Não existe nenhum mapa digital que aponte a diversidade e vulnerabilidades da reserva. Foi realizado um levantamento de informações sobre a área do MHNJB, tais como fotos aéreas, imagens de satélite, levantamentos aerofotogramétricos e bases cartográficas. Todas as imagens e fotos levantadas foram georreferenciadas e sobrepostas à foto aérea de Belo Horizonte do ano de 1999 e aferidas através de trabalhos de campo no local com o auxílio de GPS. Elaborou-se um mapa correspondente ao status de conservação com base na sobreposição de informações sobre o estágio sucessional e espécies ocorrentes (nativas exóticas e frutíferas). Para classificar o estágio sucessional utilizou-se a Deliberação Normativa n.º3, de 8 de setembro de 2004 (caracterização da Mata Atlântica no Estado de Minas Gerais e as normas de utilização da vegetação nos seus domínios), o SNUC (Lei no 9.985, de 18 de julho de 2000) e conhecimentos botânicos sobre a área. Identificou-se áreas em estágio inicial de regeneração ((altura média de até 5m, camada fina de serrapilheira; sem sub-bosque, predomínio de espécies pioneiras como Schizolobium parahyba – guapuruvu e Piptadenia sp. – pau jacaré), estágio avançado de regeneração (altura média de até 12m, serrapilheira, com sub-bosque), áreas recuperadas (plantio misto de espécies exóticas e nativas) e áreas em restauração (plantio com espécies nativas da região) e com relação à composição de espécies foram encontradas áreas com predomínio de espécies nativas, áreas com ocorrência de espécies exóticas (eucalipto, café, cará-do-ar), áreas com ocorrência de espécies frutíferas (manga, jaca, jabuticaba, pitanga, goiaba), arboreto (ocorrência de espécies brasileiras, exóticas ao estado de MG, como Ceiba pentandra - sumaúma e Cavanillesia arborea - barriguda) e ornamentais (área administrativa, exposições e jardins com plantas ornamentais e arbóreas, nativas e exóticas). Além das áreas acima, alguns pontos merecem atenção devido ao estado de degradação, tais como o manancial, ocupada por gramínias e lírio-do-brejo e a área de lazer. Todas essas características foram representadas no mapa digital. A espacialização dessas informações permitiu identificar a diversidade vegetal e o status de conservação da reserva do MHNJB, o que permitirá estabelecer medidas de manejo mais adequadas para a sua conservação, bem como ações voltadas para educação ambiental da comunidade do entorno. Foi possível também levantar algumas vulnerabilidades da reserva, entre elas, trilhas muito largas, ocorrência de espécies exóticas invasoras e degradação do manancial. Este mapa é a ferramenta básica fundamental para o próximo passo deste projeto que será o zoneamento ambiental da reserva do MHNJB/UFMG 129