O AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE E SUA ATUAÇÃO FRENTE À
SAÚDE DOS IDOSOS
RESUMO
O ACS inserido no PSF exerce um papel fundamental frente ao atendimento
das necessidades dos idosos. O presente estudo objetivou avaliar a atuação e a
capacitação dos ACS no atendimento aos idosos. Trata-se de uma pesquisa
exploratório-descritiva, com abordagem qualitativa. Foi realizada entrevista semiestruturada, com 5 ACS da Equipe do PSF Jardim Dom Bosco - Guaiçara (SP). Foi
possível constatar que os entrevistados possuem uma visão dos idosos como sendo
pessoas carentes, solitárias e abandonadas, não estando preparados técnica,
política e socialmente para executarem suas ações referentes a esse grupo
populacional. Observou-se também, grande afinidade dos ACS em atuar com esta
população, favorecendo o vinculo entre eles. Desta forma, conclui-se que há
necessidade de adequação das ações realizadas pelos ACS frente à saúde do
idoso, fazendo-se necessária a implantação de políticas de capacitação em saúde,
que visem à habilitação específica do ACS frente a essa temática.
PALAVRAS CHAVES: Idosos. Agente Comunitário de Saúde. Programa Saúde da
Família.
2
1
INTRODUÇÃO
O envelhecimento da população mundial é um fenômeno ao qual mesmo os
países mais ricos e poderosos ainda estão tentando se adaptar. O que era no
passado privilégio de alguns poucos passou a ser uma experiência de um número
crescente de pessoas em todo o mundo (KALACHE, et al., 1987).
O século XX foi marcado por grandes avanços nas ciências do
envelhecimento graças aos estudos dos pioneiros Metchnikoff e Nascher que
estabeleceram os fundamentos da Gerontologia e da Geriatria (FREITAS et al.,
2002).
Segundo Meireles, (2007), envelhecer deixou de ser característica de países
desenvolvidos, pois cerca da metade dos idosos do mundo vive em países em
desenvolvimento.
Os avanços tecnológicos nas diversas áreas do conhecimento humano são
evidentes nos dias atuais, destacando-se os avanços que leva a um prolongamento
da expectativa de vida da população mundial (COLOMÉ, et al. 2003). Segundo os
mesmos autores, o constante aumento que ocorre nos recursos médicotecnológicos, como descobertas de novos métodos diagnósticos e terapêuticos,
medidas preventivas, melhor condição de vida, entre outros associados à diminuição
nos índices de natalidade, fecundidade e mortalidade, faz com que os indivíduos
tenham um prolongamento de vida, atingindo idades mais avançada, o que
determina o envelhecimento da população.
Entretanto os problemas resultantes destas mudanças são graves e
preocupantes, principalmente em países em desenvolvimento, pois envolve fatores
conflitantes nos aspectos relacionados à saúde, política econômica e social do país.
(CASTRO; VARGAS, 2005).
Por este motivo é importante ressaltar que o aumento deste segmento da
população, os idosos, vem ocorrendo em meio a graves crises econômicas, carência
de recursos e programas efetivos para esta clientela (MARIN et al., 2008).
Essa mudança na formação da população idosa nos traz um grande desafio,
principalmente no setor de saúde, já que o idoso apresenta necessidades
especificas e diferenciadas a ser atendidas, onde muitas vezes sua independência
pode estar comprometida em decorrência de doenças crônico-degenerativas,
comuns na velhice (ROACH, 2003).
3
Dessa forma, fica evidente que o perfil dos profissionais de saúde deve se
adaptar as necessidades desta nova clientela, sendo necessário que o sistema
saúde redefina de suas prioridades, incluindo a estas, a capacitação e criação de
programas específicos à saúde do idoso (MARIN et al., 2008).
Considerando esta realidade, os profissionais de saúde devem estar aptos a
atender a demanda e os serviços de atenção à saúde do idoso, como também ser
capazes de criar e adequar estratégias para contribuir com uma vida funcional ativa
para os idosos, tratando, prevenindo doenças e suas complicações (ARAÚJO et al.,
2003).
A lei Nº. 8.842, promulgada em 04 de janeiro de 1994 pelo governo federal,
dispõe sobre as diretrizes da Política Nacional do Idoso, é uma comprovação das
mudanças pertinentes a este grupo populacional (IBGE, 2000).
Colomé, Jahn e Beck (2003) ressaltam que de acordo com a referida lei, a
Política Nacional do Idoso tem por objetivo assegurar os direitos sociais do idoso,
criando condições para promover sua autonomia, integração e participação efetiva
na sociedade. Esta lei representa um princípio de reconhecimento da importância
desta população e vem sendo considerada como um avanço para a sociedade.
Neste contexto o Programa Saúde da Família (PSF) visando suprir as
necessidades do idoso, vem contribuir na melhoria das condições de saúde deste
grupo, tendo a figura do Agente Comunitário de Saúde (ACS) como apoio para uma
assistência efetiva, na prevenção de doenças, promoção da saúde através de ações
educativas individuais e coletivas (BEZERRA; ESPÍRITO SANTO; BATISTA, 2005).
Para Rodrigues (2008) o PSF foge à concepção usual dos demais programas
concebidos no Ministério da Saúde, já que não é uma intervenção vertical e paralela
às atividades dos serviços de saúde. Pelo contrário, caracteriza-se como uma
estratégia que possibilita a integração e promove a organização das atividades em
um território definido com o propósito de proporcionar o enfrentamento e resolução
dos problemas identificados. Assim, destaca-se o trabalho do ACS, com o propósito
de atuar como elo entre a população e a equipe de saúde.
Bezerra, Espírito Santo e Batista (2005) destacam que os ACS vêm se
constituindo, no PSF, como segmento efetivo do trabalho em saúde, representando
novos atores nos cenários da assistência. É um segmento efetivo da produção dos
serviços, que se apresenta não apenas como suporte para gerar determinadas
4
ações em saúde, mas, também, como peça essencial na organização da
assistência.
Com relação à atuação dos ACS frente às necessidades dos idosos,
encontramos vários estudos realizados por diversos autores, como exemplos,
Bezerra; Espírito Santo; Batista (2005), Colomé; Jahn; Beck, (2003), Silvestre;
Costa Neto (2003), Pacheco; Santos (2004), entre outros.
Estes autores buscam identificar o conhecimento dos ACS frente à saúde dos
idosos, qual sua inserção, a percepção e práticas desses profissionais.
Neste sentido, Silvestre e Costa Neto (2003) ressaltam em seu trabalho que o
grande desafio para o ACS é construir uma imagem positiva sobre o ser idoso.
Segundo os mesmos autores, o cuidado do idoso deve basear-se principalmente na
família e na atenção básica de saúde, através das Unidades Básicas de Saúde, em
especial nas unidades de PSF, pela possibilidade de maior reconhecimento dos
problemas da população, e o desenvolvimento de vínculo com o idoso atendido.
Os profissionais devem estar atentos à importância da inserção do idoso na
família e na vida da comunidade, para manter seu equilíbrio físico, emocional e
mental (BRASIL, 1999).
A equipe de saúde precisa estar sempre atenta à pessoa idosa, na
constante atenção ao seu bem-estar, à sua rotina funcional e a sua inserção
familiar e social, jamais a deixando à margem de seu contexto, mantendo-a
mais independente possível no desempenho de suas atividades rotineiras
(BRASIL, 1999, p.11).
Para Colomé, Jahn e Beck (2003), o ACS vem contribuir de forma positiva na
melhoria das condições de saúde do idoso, exercendo o trabalho sob a supervisão
do Enfermeiro da unidade, desenvolvendo atividades de prevenção e promoção da
saúde, através de ações educativas de forma coletiva e individual.
As necessidades dos idosos ultrapassam as necessidades físicas, devendo
ser considerado os aspectos ambientais, culturais, sociais, familiares, psicológicos e
espirituais em que ele está inserido. Neste sentido, o ACS inserido no PSF é um
facilitador do trabalho das ações, sendo um elo entre a equipe e o usuário. Sendo
necessária assim, capacitação específica para se atender à demanda deste novo
modelo de usuário.
Em geral, o trabalho realizado pelo ACS busca uma resolutividade, uma vez
que as ações desenvolvidas por este profissional é pautada na sua identificação
5
com a comunidade, mas Silvestre e Costa Neto (2003) ressaltam a necessidade dos
profissionais receberem capacitação e formação para atuarem com idosos.
Os ACS têm se mostrado despreparados para atuar na saúde dos idosos,
conforme destacam Bezerra, Espírito Santo e Batista (2005). Os autores relatam que
é necessário prover condições e preparo para que o ACS disponha de instrumento
adequado ao lidar com as necessidades e problemas dos idosos, desta forma
estarão contribuindo com os demais profissionais, e juntos promoverem um
envelhecimento saudável. “Para atuar nesta perspectiva, é necessário que o poder
público invista na formação de indivíduos capazes de lidar com os múltiplos
aspectos que revestem o envelhecimento humano (BEZERRA; ESPÍRITO SANTO;
BATISTA, 2005, p.814)”.
Assim o presente estudo teve como objetivo, avaliar a atuação e a
capacitação dos Agentes Comunitários de Saúde no atendimento aos Idosos.
Trata-se de uma pesquisa exploratório-descritiva, com abordagem qualitativa,
sendo realizada com ACS do PSF do Jardim Dom Bosco Guaiçara-sp. A coleta de
dados foi realizada com 05 ACS, realizadas através de um roteiro com questões que
compreendiam dados de identificação, como idade, sexo, estado civil, escolaridade,
ocupação anterior, tempo na atual função, tempo que mora no bairro, e perguntas
abertas como: Qual a concepção do ACS sobre idoso e o processo de envelhecer?
Qual sua visão do ser idoso? Como você se sente trabalhando com idosos? Você
recebeu capacitação para atuar como ACS? Você acha que é necessária uma
capacitação específica para atuar com idosos? De que tipo?
A pesquisa ocorreu no mês de julho de 2009 após o projeto ter sido
submetido à aprovação do Comitê de Ética e os ACS terem assinado o Termo de
Consentimento Livre Esclarecido.
2
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Durante a pesquisa foi analisado qual o foco de atenção que os ACS
dispensavam aos idosos, observando se os profissionais visavam à melhoria na
qualidade de vida dos mesmos, a percepção e orientação quanto aos fatores de
risco aos quais os idosos estão expostos e a interação dos profissionais com os
idosos.
6
Para melhor compreensão dos resultados, foi elaborado um quadro
explicativo com os dados de identificação e para análise dos discursos optou-se em
evidenciá-los através dos temas: a visão do ACS sobre as necessidades dos idosos,
as dificuldades dos ACS para atuarem com idosos e o estabelecimento de vínculo
com o idoso.
2.1
Identificação dos Sujeitos da Pesquisa
O quadro abaixo demonstra os dados de identificação dos ACS que
participaram da pesquisa.
ACS
Sexo
Idade
Escolaridade
1
Feminino
33
2
Feminino
46
Ensino
Fundamental
Ensino Médio
3
Feminino
43
4
5
Feminino
Feminino
30
42
Tempo
de Tempo
residência
atuação
no bairro
na
instituição
7 anos
5 meses
8 anos
Ensino Médio 12 anos
e
cursando
Técnico
de
Enfermagem
Ensino Médio 16 anos
Ensino médio 9 anos
Experiência
anterior
Operária
3 anos e 7 Técnico
em
meses
Contabilidade
3 anos e 7 Cuidadora
de
meses
idoso.
3 anos
1 ano
seis
meses
Vendedora
e Doméstica
Fonte: Silva; Zamian, 2009.
Quadro 1 – Dados de Identificação
De acordo com os dados apresentados, observa-se que 100% dos ACS que
atuam no PSF do Jardim Dom Bosco são do sexo feminino, característica que
também foi encontrada na pesquisa dos autores Bezerra et. al. (2005) que ressaltam
sobre a resistência por parte da comunidade em aceitar o ACS do sexo masculino.
Segundo os autores, essa resistência justifica-se pelo fato de que as famílias por
uma questão cultural podem sentir certo constrangimento em aceitar que um ACS
do sexo masculino adentre em suas residências e compartilhe de sua intimidade. Já
um ACS do sexo feminino torna mais fácil o diálogo com a comunidade e o acesso
ao domicílio, tendo em vista a proposta do PSF que busca uma relação mais
pessoal dos profissionais com os usuários, proporcionando maior resolutividade.
A faixa etária dos ACS encontra-se entre 30 e 42 anos, o que demonstra maturidade
para desenvolver a função proposta.
7
A Lei que cria a profissão de ACS - 10.507 de 10 de julho de 2002 descrevem
em seu Artigo 3º, os requisitos que o ACS deve preencher para exercer a profissão
sendo os seguintes:
I - residir na área da comunidade em que atuar;
II - haver concluído com aproveitamento curso de qualificação básica para a
formação de Agente Comunitário de Saúde;
III - Haver concluído o ensino fundamental.
Em relação á escolaridade apenas 1 ACS possui Ensino Fundamental completo,
sendo que 4 possuem Ensino Médio completo. Estes dados também foram
evidenciados na pesquisa de Bezerra et. al. (2005), ressaltando-se o alto percentual
de ACS com Ensino Médio completo. Este fato é bastante positivo porque
demonstra que o nível de escolaridade está acima do que é exigido para exercer a
profissão de ACS.
Residir no bairro também é um dos quesitos necessários para ser ACS.
Todas as ACS que participaram desta pesquisa residem no bairro entre sete e
dezesseis anos. Este fato é de grande importância, pois sugere maior conhecimento
da realidade e dos problemas do bairro. De acordo com Bezerra (2005), o ACS por
morar na comunidade é conhecedor dos problemas daquela população, sendo este
um importante fator que contribui para a produção do cuidado.
Foi possível constatar que as participantes, na sua maioria, atuam a mais de
dois anos como ACS, o que sugere uma continuidade do cuidado, permitido que o
cuidado seja efetivo e comprometido, favorecendo assim um vínculo com o idoso.
Chamou a atenção o fato de nenhuma das ACS possuir experiência anterior
em trabalhar com a comunidade, sendo que em relação ao idoso, apenas uma
relatou trabalhar como cuidadora, e mesmo assim o trabalho desenvolvido como
ACS pelas entrevistadas, tem sido realizado com dedicação e qualidade,
principalmente pelo fato de conhecerem a sua clientela.
2.2
A visão dos ACS sobre as necessidades dos Idosos
Ao analisar os resultados, tomando por base o discurso dos profissionais
entrevistados e sua interação durante as visitas, foi possível constatar que os ACS
possuem uma visão dos idosos como sendo pessoas carentes, solitárias e
abandonadas, sendo também relatado pelos profissionais os mesmos fatores como
8
de maior necessidade por parte dos idosos. Pode-se comprovar este resultado a
partir dos depoimentos descritos abaixo.
“... eles já estão mais carentes, não trabalham mais, estão aposentados e às
vezes levam uma vida sedentária. Necessitam de atenção em todos os sentidos
(saúde, família). Ele tem muita sabedoria. Precisa muito da gente. Ele é muito
dependente de carinho, é frágil, encontra muitos obstáculos para tudo. É importante
que nesta fase da vida o familiar esteja o mais presente possível. Visão de
abandono”. (ACS 01)
“O idoso em geral tem saído de uma comunidade pobre ou mesmo quando
rico, geralmente ele é carente de amor familiar porque se ele se depara uma
alteração da sua realidade [...]”. (ACS 02)
De acordo com os relatos, fica evidenciado que o ACS possui uma concepção
de que os idosos possuem grande carência afetiva, sendo pouco mencionado por
eles, outros tipos de alterações que causam necessidades específicas. Entretanto,
conforme evidenciado em outros estudos, o idoso tem necessidades complexas e
especificas da velhice, que ultrapassam o aspecto emocional.
Também foi ressaltada a carência em relação aos recursos econômicos que o
idoso encontra neste determinado momento da vida, deixando-o suscetível a
diversos problemas, como podemos observar no discurso:
“Eu vejo o idoso como uma carga de experiência para passar para nós mais
jovens, eu o vejo meio que desprotegido, existe pouco respeito para com o idoso
nos dias de hoje até mesmo pela família, eu vejo o idoso acuado financeiramente e
em todos os ângulos”. (ACS 03)
“O primeiro impacto quando a gente fala com eles é de pessoas carentes, os
jovens não querem mais falar com eles, pessoas doentes, mas é complicado
explicar, eles têm mais necessidades em relação á tudo”. (ACS 05)
Outro aspecto importante que foi evidenciado nos discursos, refere-se à
concepção do idoso como um ser limitado. A velhice, em geral é vista pelas pessoas
como uma fase de incapacidade ou limitação para aprender. Esses preconceitos
rotulam e dificultam qualquer atividade desenvolvida que beneficiem essa clientela.
O discurso abaixo demonstra uma visão limitada sobre a velhice:
“Eu vejo que os idosos têm realmente limitações, cada um tem suas
limitações [...]”. (ACS 4)
9
Alguns estudos sobre os sentimentos de solidão na velhice,
buscam
identificar as causas que levam à solidão, como sendo um processo acelerador para
a depressão nos idosos. A pessoa idosa em decorrência das perdas sofridas ao
longo dos anos acaba sentindo solidão e isolamento. A solidão é citada como um
fator que leva o idoso a adoecer com maior facilidade, como é relatado no
depoimento abaixo:
“[...] E a gente aprende a conhecer o humor deles, como estão naquele dia.
Uns mais tristinhos, outros mais contentinhos e aí eu chego brincando ‘ ta tristinho,
credo que carinha mais feia’ quando eu percebo que eles não estão muito bem falo
primeiro qualquer coisa que não seja relacionado à saúde [...]”. (ACS 02)
“[...] os filhos os netos trabalham, não ficam muito em casa. , quando eles são
dois ainda não é tanto, mas quando ele já está sozinho é mais. Eu acho que se a
gente trabalhar estar parte já melhora, porque a própria solidão da pessoa adoece
mais [...].” (ACS 04)
Segundo Pedrozo e Portella (2003), a velhice pode vir acompanhada de
perdas ou, em função de todas as transformações que acontecem ao longo da vida,
o que causa impacto sobre a pessoa, o que leva com que a solidão se instala como
sofrimento intenso na vida do idoso.
Neste sentido Colomé e Beck (2003) ressaltam que as necessidades dos
idosos vão além do aspecto físico, devendo ser considerado os aspectos
ambientais, culturais, sociais, familiares, psicológicos e espirituais, dentre outros,
para que os profissionais prestem um cuidado integral, promovendo uma melhora na
qualidade de vida desta população.
Deste modo, foi evidenciado que o ACS apresenta uma grande preocupação
com o indivíduo idoso e sua inserção no âmbito familiar e social, e sente-se
responsável e comprometido em minimizar suas necessidades frente aos aspectos
emocionais e afetivos. Assim, pode-ser atribuir este comportamento humanitário e
acolhedor do ACS em relação à clientela idosa, o fato de o mesmo ser um ente da
comunidade e certamente, um conhecedor das mazelas existentes neste contexto.
2.3
As dificuldades dos ACS para atuar com Idosos
A maioria dos entrevistados relata encontrar dificuldade para lidar com os
idosos, em especial para estar falando, orientando e informando-os no dia-dia. Eles
também referem que o idoso é muitas vezes teimoso ou resistente a medicação, o
10
que leva o ACS a ser criativo ou abrir mão de suas experiências pessoais para estar
resolvendo problemas que surgem em seu dia dia. Essa falta de conhecimento
dificulta a atuação do ACS, e compromete a resolutividade de seu trabalho com o
idoso.
“[...} eles são mais teimosos, alguns são mais até, tem mais medo, tem alguns
que você tem que falar diferente, mais sério [...]”.(ACS 04)
“[...] quando fica de idade tem mudança de humor, ficam “ranzinza”, eles não
querem muito ouvir a gente falar, acham que a gente ta brigando. Tem que ter jogo
de cintura p/ falar com eles, explicar o medicamento que está tomando, sempre
marcando como tem que tomar. Assim, se toma à noite coloco a lua, se é para tomar
de dia, coloco solzinho”. (ACS 01)
“[...] desenhava no medicamento uma luinha para noite, um solzinho para o
dia, assim ela tomava sem errar. Às vezes por em pacotinhos diferentes, tem que
ser muito criativa, tem alguns que você tem que passar e lembrar se já tomou ai
você chega e fala e o remédio já tomou ai ele fala esquece vou tomar. Têm alguns
que não quer tomar e você tem que ser mais severo vai de cada um”. (ACS 04)
Em consonância com o que foi observado, Bezerra et. al., (2005) ressalta ser
necessário que o poder público invista na formação de indivíduos capazes de lidar
com os múltiplos aspectos que revestem o envelhecimento humano.
[...] Deve prover condições para apropriação do instrumental adequado e
necessário para o ACS lidar com os problemas de saúde dos idosos e,
assim contribuir com os demais membros da equipe para o envelhecer
saudável (BEZERRA et al., 2005 p.814)
Os ACS também relatam como fator dificultador para o trabalho, a ausência
de capacitação específica para atuar frente à saúde do idoso. Os depoimentos a
seguir ilustram as dificuldades que os ACS encontram para estar atuando com a
população idosa, pela falta de conhecimentos específicos, e reforça a necessidade
dos profissionais estarem qualificados para atender os idosos.
“Eu gostaria que tivesse palestras, capacitação mesmo, 1 vez por mês ou a
cada 2 meses. Reuniões, palestras explicando tudo. Psicólogos que nos
explicassem como falar com o paciente porque tem casos que a gente fica muito
abalado. Então esses profissionais ensinariam a gente a lidar com eles . Quanto
mais capacitado a gente for, melhor”. (ACS 01)
“A gente teve uma capacitação que foi geral e não específica para o idoso. Eu
acho que para nós que temos trabalhado muito com idosos, principalmente do grupo
11
de risco (hipertensos, diabéticos) é importante uma capacitação específica sim. Esta
seria voltada mais para o psicológico dele. O idoso por mais que ele fala, converse,
ele sempre está assim mais tristinho, pois tem coisas que ele não consegue aceitar”.
(ACS 02)
“Sim, além do que já recebi, eu tenho o direito de cobrar isso dos meus
superiores [...] A gente convive com eles, então tem ter assim muito cuidado, até
porque a gente se familiariza muito com eles e a gente não pode confundir muito as
coisas se não acaba estragando o trabalho. Gostaria de receber capacitação na
parte de alimentação [...]”. (ACS 03)
O agente comunitário de saúde é uma figura bem conhecida da população e
acessível à comunidade, sendo reconhecido como fonte importante de informações
relacionadas a doenças, aos medicamentos e ao funcionamento dos postos. O ACS
em suas visitas enfatiza orientações sobre a prevenção de doenças, o
funcionamento dos postos, o uso de medicação, o encaminhamento ao posto em
caso de doenças, entre outras orientações.
Neste sentido se faz necessário que os ACS estejam qualificados para tanto.
Com relação à atuação dos ACS frente às necessidades dos idosos, encontramos
diversos autores que buscam identificar o conhecimento dos ACS frente à saúde dos
idosos, entre eles citamos Silvestre; Costa Neto (2003), os autores relatam à
importância da capacitação do ACS, pois é um trabalhador integrante da equipe de
saúde, e não apenas um membro da comunidade informante dos problemas.
Os profissionais devem ter de modo claro a importância da manutenção do
idoso na família e na comunidade e ser capazes de lidar com os múltiplos aspectos
que revestem o envelhecimento.
Caminhar na direção da construção de um modelo de assistência tendo em
vista o envelhecimento da população, é necessário profissionais de saúde
preparados, pois a atenção à saúde do idoso reveste-se de grande complexidade.
Nesta trajetória, no entanto, é preciso considerar a necessidade de
contínuos investimentos na capacitação dos profissionais, visando à
abordagem multidimensional e interdisciplinar da pessoa idosa e tendo
como eixos norteadores para a integralidade de ações: o enfrentamento de
fragilidades da pessoa idosa, [...], em todos os níveis de atenção, conforme
proposto no pacto pela saúde do idoso. (MARIN, 2008, p.11).
Os ACS têm se mostrado despreparados para atuar na saúde dos idosos,
conforme destaca Bezerra; Espírito Santo; Batista (2005). Os autores relatam que é
necessário prover condições e preparo para que o ACS disponha de instrumento
12
adequado ao lidar com as necessidades e problemas dos idosos, desta forma
estarão contribuindo com os demais profissionais, e juntos promoverem um
envelhecimento saudável.
2.3
O estabelecimento de vínculo com o Idoso
Percebeu-se também que os entrevistados gostam de atuar com idoso, têm
muita afinidade com esta população, referem que são carinhosos e fácil de lidar.
Todos os entrevistados demonstram preocupação com os idosos, eles têm a
consciência de que a população idosa necessita de maior atenção. Além de
demonstrar grande afinidade em trabalhar com idoso, o que fica claro é o vinculo
que se cria por parte destes profissionais com esta população em especial. Esta
constatação vem de encontro com o que se é preconizado hoje no modelo de
atenção a saúde.
Para Freitas (2006) vínculo pressupõe equilíbrio obrigatório entre duas
partes. Sendo assim, quando a vida necessita de equilíbrio, temos que pensar na
qualidade dessa vinculação.
“Eu gosto muito. Adoro trabalhar com ele. Eu não sei se é qualidade ou
defeito, mas eu acabo me apegando muito. Procuro fazer o melhor para eles, ficar
bem pertinho e fazer o melhor para eles” [...]. (ACS 01)
“Eu me sinto muito bem trabalhando com idoso. Eu prefiro até trabalhar com
idoso do que com gestante ou adolescente, por causa dessa carência deles a gente
sente amor e se apega. Eu pelo menos gosta bastante de trabalhar com o idoso. O
idoso é educado para falar com você [...]”. (ACS 02)
Desta forma, podemos destacar que por atuarem a mais de dois anos, terem
predileção pela população idosa só vem fortalecer a formação de um vinculo, o que
favorece o cuidado, pois o ACS vai estar em contato direto com o idoso e suas
necessidades, podendo assim ter uma intervenção imediata e com maior
resolutividade.
Neste sentido Silvestre, Costa Neto (2003), ressalta em seu trabalho que
deve ser valorizado as relações com a pessoa idosa para a criação de vinculo e
confiança, de afeto e respeito, prestando atenção de forma integral á pessoa idosa.
Para o estabelecimento do vínculo, os ACS devem conquistar a confiança do
idoso, que surge com o reconhecimento do profissional como participante de seu
13
tratamento, passando o paciente a tê-lo como referência, fazendo até confidências
depois de compreender o seu trabalho.
Segundo Baralhas, (2008), a palavra vínculo é originária do latim, vinculu,
estando ligada a “[...] tudo o que ata liga ou aperta nó; liame; ligação moral [...]”. A
autora recorda a importância da implantação nos serviços de saúde, de práticas
relacionadas ao acolhimento, vínculo e humanização, praticas estas que está em
consonância com a Política Nacional de Humanização (PNH) de 2003, cuja principal
proposta coincide com os próprios princípios do SUS.
O vínculo é conseqüência de uma relação mais próxima do paciente com o
ACS, por conseqüência das visitas domiciliares, que facilita a aproximação do idoso
a unidade de saúde. O idoso se compromete com as atividades propostas e permite
que o vínculo seja estabelecido quando se sente satisfeito com o serviço prestado
pelo ACS. Esses fatores contribuem para a promoção da saúde do idoso e melhor
qualidade de vida.
3
CONCLUSÃO
A atenção à saúde do idoso é um assunto de grande complexidade, mas cabe
aos profissionais de saúde ampliar seus conhecimentos para atuar com esta
população visando à melhoria da qualidade de vida dos mesmos.
Ao analisar a fala dos ACS, ficou elucidada a concepção que este profissional
tem acerca do ser idoso, um indivíduo carente, solitário. Porem, através deste
estudo evidenciou-se que o ACS deve compreender que as necessidades dos
idosos ultrapassam o aspecto emocional, envolve físico, ambiental, social, cultural
familiar, psicológico entre outros. Em contrapartida, o carinho que os profissionais
dispensam a esta população é muito grande, ficando evidenciado a empatia que
existe por parte dos ACS em estar atuando com idosos.
Entretanto, observou-se escassez no entendimento que o ACS tem do idoso
acerca de suas necessidades, se compararmos com toda complexidade que envolve
o envelhecer, atualmente dentro do PSF, acredita-se que o ACS vem como um
facilitador do cuidado, ele compartilha valores, costumes, com a comunidade, neste
sentido ele é essencial ao cuidado com idosos, mas para tanto acredita-se ser
necessário que ele esteja apto ao desempenho da função.
14
A questão do idoso no país deve merecer cada vez mais o interesse dos
órgãos públicos, dos formuladores de políticas sociais e da sociedade em geral,
dado o volume crescente deste segmento populacional, seu ritmo de crescimento e
de suas características demográficas, econômicas e sociais.
Nesse sentido, justifica-se o investimento na formação dos ACS, estes
profissionais devem ser capazes de lidar com os múltiplos aspectos que revestem o
envelhecimento humano, de forma integrada com a comunidade e assim, contribuir
para a melhor qualidade de vida do idoso,
Os ACS em seus depoimentos reproduzem uma necessidade de adquirir tal
conhecimento sobre a população idosa, para poder atende - lá de forma plena. No
seu cotidiano ficam claras as barreiras que são encontradas por falta de
conhecimentos científicos. Ao relatarem os obstáculos que vivenciam por falta de
conhecimento, demonstram as dificuldades de resolutividade no desempenho de
suas funções.
Desta forma, evidencia-se que os ACS vivem em seu cotidiano uma relação
de grandes dificuldades com os idosos, acerca de conhecimentos, apoio técnico
específico, auxilio de outros setores entre outros, problemas estes que impedem ou
dificultam a resolutividade das queixas.
Assim, acreditamos que o conteúdo deste estudo é de grande importância
para os profissionais de saúde, pois permite uma reflexão sobre o redirecionamento
de suas ações junto à população idosa e seus familiares, deixando evidenciada a
necessidade de programas que visem à qualificação profissional para atender a
demanda desta clientela. Enfim, deseja-se que futuramente este estudo contribua de
alguma forma para a melhoria na saúde dos idosos e para o exercício profissional
dos ACS, ou então que levante discussões sobre o assunto, permitindo assim que
busquem melhorias e uma atenção à saúde mais humanizada.
15
PERFORMANCE OF THE COMMUNITARIAN AGENT OF HEALT OF FRONT TO
THE HEALTH OF THE AGED ONES IN THE PSF OF GARDEN DOM BOSCO
GUAIÇARA-SP
ABSTRACT
The ACS inserted in the PSF has a role opposite to meet the needs of the elderly.
This study aimed to evaluate the performance and training of ACS in the care of the
elderly. One is about an exploratory-descriptive research, with qualitative approach.
There was realized a semi-structured interview, with 5 ACS of the PSF “Jardim Dom
Bosco” Team’s – Guaiçara (SP). It was possible to evidence that interviewed ones
possess a vision of the elderly as being devoid, solitary and abandoned, no prepared
technical, political and social to do their shares for this population. It was also
observed a great affinity of ACS in action with population, encouraging the bond
between them. In such a way, it’s concluded that it has necessity of adequacy of the
action carried throught for the ACS in front to the health of the elderly, making
necessary the implantation of the politics qualification in health, that aim to the
specific qualification of the ACS in front this thematic one.
WORDS KEYS: Aged. Agent Communitarian of Health. It programs Health of
the Family.
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REFERÊNCIA
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AUTORES:
Maria José Elias dos Santos Silva – Graduanda em Enfermagem
[email protected] – fone: (14) 3547.2734
Patrícia Aparecida Inácio Zamian – Graduanda em Enfermagem
[email protected] – fone: (14) 3547.2267
Orientadores:
Profª. Msc Marilisa Baralhas – Mestre em Enfermagem pela Universidade Estadual
Paulista, Faculdade de Medicina de Botucatu, 2008.
[email protected] - fone (14) 3522.6453
Profª.Esp. Jovira Maria Sarreceni.
Especializada em Gestão de Negócios – Instituto Toledo de Ensino, Araçatuba, 2005
Jô@unisalesiano.edu.br – fone (14) 3523.8157
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o agente comunitário de saúde e sua atuação frente