O TEATRO E A HISTÓRIA DA MATEMÁTICA COMO ESTRATÉGIAS
PEDAGÓGICAS DE ATENDIMENTO EM UM MUSEU DE CIÊNCIAS
Rotini, Ednilson – PNFM/SEED
[email protected]
Eixo Temático: Comunicação e Tecnologia
Agência Financiadora: não contou com financiamento
Resumo
Esta comunicação apresenta uma experiência organizada e desenvolvida pela equipe de
Matemática do Parque da Ciência Newton Freire Maia (PNFM), instituição voltada à
divulgação e popularização da ciência e da tecnologia, mantida pela Secretaria de Estado da
Educação do Paraná (SEED). A referida experiência aborda uma visita temática ao acervo do
PNFM intitulada “Pescando Soluções”, que utiliza como estratégias pedagógicas a História da
Matemática e o Teatro Pedagógico na abordagem de alguns conceitos matemáticos. O
objetivo desta visita temática é despertar o interesse do participante para questões relativas à
Matemática utilizando-se recursos interdisciplinares que envolvem o acervo do PNFM, Arte e
História. No desenvolvimento é apresentada e discutida, enquanto tendência metodológica da
Educação Matemática, a importância da História da Matemática na prática docente. Também
são abordadas as contribuições do Teatro Pedagógico no processo de ensino e aprendizagem e
algumas aplicações no ensino de Matemática. Além disso, é dado espaço aos aspectos
referentes aos Museus de Ciências e suas justificativas como ambientes de educação nãoformal1. Considera-se, ao final do trabalho, que os resultados atingidos por essa visita
temática foram satisfatórios, a nível qualitativo, incentivando os estudantes/participantes a
minimizarem o preconceito pela Matemática. Percebe-se, também, na quantidade de
questionamentos, diálogos e discussões de conceitos matemáticos, uma interação, entre esses
estudantes e os monitores envolvidos na visita. A partir da fundamentação teórica e da
descrição da visita temática foi possível perceber que existe a possibilidade de desenvolver
atividades de ensino em Matemática em consonância com a realidade dos estudantes e de
maneira interativa e contextualizada, em uma parceria entre a escola (educação formal) e o
museu (educação não-formal).
Palavras-chave: História da Matemática. Teatro Pedagógico. Museu de Ciências.
1
Educação não-formal: qualquer atividade organizada fora do sistema formal de educação, operando
separadamente ou como parte de uma atividade mais ampla, que pretende servir a clientes previamente
identificados, como aprendizes e que possui objetivos de aprendizagem. (MARANDINO, 2008, p.13)
1434
Introdução
A Matemática assume um papel central na sociedade desde os tempos mais remotos da
história humana. Possibilita resolver problemas da vida diária, possui inúmeras aplicações no
mundo do trabalho e, além disso, funciona como um instrumento fundamental para a
construção do conhecimento. Do mesmo modo, o pensamento e o raciocínio lógico
contribuem no desenvolvimento das estruturas cognitivas do estudante no decorrer de sua
aprendizagem (VYGOTSKY, 1991).
O ensino e a aprendizagem em Matemática têm provocado inúmeros debates e
discussões na busca por adequar o trabalho escolar a uma nova realidade, onde o
desenvolvimento científico e tecnológico alcança níveis nunca antes observados
(SEVCENKO, 2004). Muitos são os desafios enfrentados por aqueles que se propõem a
ensinar essa disciplina, a começar pela insatisfação e pela falta de interesse dos estudantes, em
contraposição às exigências cada vez mais significativas atreladas ao desenvolvimento
tecnológico e ao mundo do trabalho.
Assim, é importante que os conteúdos das disciplinas escolares, em particular da
Matemática, tenham uma abordagem que valorize o trabalho pedagógico colaborativo e
propicie a comunicação, em detrimento a formas de ensino que fragmentam o conhecimento e
atuam sob uma lógica de simples transmissão – recepção. Desta maneira, o trabalho
pedagógico, no entendimento de Diniz (1995), deve tornar-se fator de experiência viva, na
qual os estudantes não sejam apenas inteirados por meio de informações sobre conhecimentos
que foram acumulados pelos cientistas ao longo dos tempos, mas de fato, que tenham também
aprendido algo valioso que é o conhecimento íntimo e ativo, o crescimento pessoal.
Nesse contexto, atividades que desenvolvam conteúdos e conceitos matemáticos numa
dinâmica que possa canalizar o potencial dos estudantes para práticas condizentes com o seu
universo, aliando a isso metodologias e conhecimentos de ensino, podem transformar as aulas
em momentos de verdadeira aprendizagem e prazer.
Em consideração a estas reflexões, apresenta-se nesta comunicação um exemplo de
atividade em forma de visita temática cujo título é Pescando Soluções, desenvolvida por uma
equipe de Matemática que atua no Parque da Ciência Newton Freire Maia (PNFM), situado
no município de Pinhais, estado do Paraná, envolvendo a História da Matemática e o Teatro
Pedagógico.
1435
O objetivo primordial desse relato é apresentar tal experiência, buscando contribuir
com novas perspectivas no ensino de Matemática.
Visando atingir esse objetivo, foram traçados alguns objetivos específicos, os quais
estão elencados a seguir:
a) discutir sobre a contribuição da História da Matemática no processo de ensino e
aprendizagem em Matemática;
b) identificar como o Teatro pode ser uma alternativa a ser usada como estratégia de
ensino em Matemática;
c) analisar o Museu de Ciências como um espaço de educação não-formal e possível
facilitador da aprendizagem quando em parceria com a escola.
Desenvolvimento
A Matemática está presente em diversas e variadas situações do nosso cotidiano, o que
torna necessária uma maior compreensão dos aspectos que estão presentes neste ramo da
ciência. D’Ambrósio (1999) afirma que um dos maiores erros que se pratica na Educação
Matemática é desvincular a Matemática das outras atividades exercidas pelo ser humano.
Pesquisas a respeito do trabalho pedagógico, como em Lopes (1999), apontam que o
ensino e a aprendizagem de conceitos científicos escolares necessitam de uma pluralidade
metodológica. Assim, segundo a autora, não existe uma única e melhor metodologia a ser
seguida e, de acordo com o documento Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de
Matemática (1998), é fundamental que os professores conheçam diversas possibilidades de
trabalho em sala de aula para auxiliá-los em sua prática. Também, segundo as Diretrizes
Curriculares da Educação Básica (DCE) do Paraná, de Ciências (2008), a Ciência vive o
método do seu tempo.
Por sua vez, nas DCE de Matemática (2006), também são apresentadas considerações
a respeito das tendências2 metodológicas da Educação Matemática. Desta maneira, nesse
documento, assim como nos PCN de Matemática (1998), destacam-se a História da
Matemática, as Tecnologias da Informação, os Jogos, a Resolução de Problemas, Modelagem
Matemática e a Etnomatemática.
2
Chamadas de recursos pelos PCN.
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A História da Matemática Como Estratégia Pedagógica
A História da Matemática pode fornecer ao professor subsídios a fim de promover,
junto aos estudantes, o desenvolvimento de análises, discussões, conjecturas, apropriação de
conceitos e formulação de idéias a respeito do conhecimento matemático.
Para Ferreira, “o aluno percebe quando estabelece relações e comparações entre o
passado e o presente das diferentes culturas em determinados momentos históricos”
(FERREIRA, 2005, p. 9). Ainda segundo a autora, o estudante é capaz de esclarecer idéias
matemáticas durante a sua construção histórica, uma vez que encontra respostas a alguns
“porquês”, desenvolvendo assim um olhar mais crítico sobre os conceitos matemáticos. Por
meio da História da Matemática, os estudantes também podem compreender a natureza desta
disciplina e sua importância na humanidade (DCE, 2006). Além disso, conceitos relacionados
com sua trajetória histórica, constituem-se veículos de informação cultural, sociológica e
antropológica de grande valor formativo (PCN, 1998).
Na Ciência, em especial na Matemática, os conceitos, as teorias, os resultados e as
pesquisas, são realizados pelo homem, o que demonstra um caráter humano nas atividades
científicas. Chassot (2003) afirma que a ciência é uma das mais extraordinárias criações do
homem e que lhe proporciona, ao mesmo tempo, poderes e satisfação intelectual, até pela
estética que suas explicações lhe conferem. Do mesmo modo, de acordo com Kneller (1980),
para se entender o que é ciência, deve-se considerá-la prioritariamente uma sucessão de
movimentos dentro do movimento histórico mais amplo da própria civilização.
Segundo D’Ambrósio (1999), a Matemática tem raízes que se confundem com a
história da própria humanidade e, este caráter humano caracterizou o desenvolvimento da
Matemática modificando-a de acordo com as necessidades do próprio homem ao longo do
tempo. Sendo assim, é impossível dissociar os conteúdos e conceitos matemáticos de seus
processos históricos de elaboração.
Neste sentido, Pais (2002) reafirma que quando se pretende ensinar um determinado
conteúdo de Matemática, é fundamental indagar qual foi o contexto de sua origem e quais são
os valores que justificam sua presença atual no ensino.
De acordo com Miguel e Miorim (2004), alguns professores e autores defendem que o
caráter histórico pode despertar nos estudantes um maior interesse por determinado conteúdo
1437
matemático que lhe seja ensinado. Desta maneira, a história apresenta um papel motivador no
processo de ensino-aprendizagem da Matemática.
Mas, a História da Matemática não tem apenas o aspecto motivador; vai além. Muitos
autores, ainda segundo Miguel e Miorim (2004), acreditam que a forma tradicional em que
um conteúdo matemático é exposto ao estudante, “lógica e emplumada”, não reflete o modo
como esse conhecimento foi historicamente produzido. Sendo assim, outra importância do
aspecto histórico no processo de ensino-aprendizagem da Matemática reside na possibilidade
de sua desmistificação e não-alienação de seu ensino.
O recurso à História da Matemática no ensino de Matemática pode auxiliar na busca
por respostas aos questionamentos levantados pelos estudantes, além de sugerir caminhos
alternativos de abordagem. Como exemplo, fica mais claro quando se percebe que a
ampliação dos conjuntos numéricos está historicamente associada à resolução de diversas
situações-problema que envolvem medidas.
Sendo assim, a utilização da História da Matemática com bom senso e articulada com
outras variáveis do processo de ensino-aprendizagem, pode contribuir para uma
transformação qualitativa da cultura matemática e para uma educação matemática de
qualidade nas instituições escolares. Porém, Vianna (1995) alerta que o uso da História da
Matemática deve ser relacionado com o conteúdo matemático, isto é, deve-se dar preferência
à utilização da História da Matemática como estratégia didática em oposição às formas
predominantes de simples motivação e/ou informação.
Além disso, os PCN afirmam que os conceitos abordados por meio de uma visão
histórica constituem veículos de informação cultural, sociológica e antropológica de grande
valor formativo. “A História da Matemática é, nesse sentido, um instrumento de resgate da
própria identidade cultural” (PCN, 1998, p. 42).
O Teatro Como Estratégia Pedagógica
Na perspectiva de apresentar estratégias que possam auxiliar no processo de ensinoaprendizagem em Matemática destaca-se, neste momento, o Teatro Pedagógico. Também
denominado de Teatro Educativo ou de Teatro/Educação, este recurso, segundo Araújo
1438
(2004), era utilizado desde a época colonial pelos jesuítas no exercício escolar, com resultados
satisfatórios.
O Teatro Pedagógico consiste em levar para as instituições que trabalham com
educação formal e/ou não-formal as técnicas do teatro e aplicá-las na comunicação do
conhecimento. Na escola, onde os estudantes podem ser os espectadores ou os figurantes, o
teatro pode ajudar no entendimento de conteúdos escolares e, por meio de um estímulo
emocional, facilitar a reflexão a respeito de variados conteúdos e conhecimentos científicos
escolares.
Para Diniz (1995) o Teatro/Educação propõe-se a atingir as necessidades do educando
numa integração entre conhecimento adquirido e experiência vivida. Assim, o
Teatro/Educação apresenta-se numa proposta de teatro espontâneo, envolvendo o grupo, e
vivenciado numa atmosfera de liberdade.
O teatro como estratégia pedagógica pode auxiliar a reflexão e o pensamento, pois
estimula o raciocínio contextualizando o que está sendo encenado (CARTAXO, 2001). Além
disso, Araújo (2004) afirma que o teatro desenvolve a oralidade, os gestos, a linguagem
musical e linguagem corporal. Desta maneira, “o processo de aprendizagem de um conteúdo,
por meio de uma encenação teatral, é acelerado porque o aluno trabalha com todos os seus
sentidos, inclusive tendo a oportunidade e liberdade para pensar, criar e vivenciar”
(CARTAXO, 2001, p. 65).
O teatro apresenta também uma característica muito peculiar: consegue reunir emoção
e razão. Assim, ao mesmo tempo em que emociona pode também ensinar. Neste sentido,
Cartaxo (2001) mais uma vez contribui afirmando que o teatro tem a capacidade de abrir
horizontes reflexivos, de dar alegria e tristeza, de desinibir o tímido e dinamizar o apático.
Desse modo, ele afirma que o teatro é forte pois explica o mundo que está em nossa volta por
meio da análise, da crítica e do divertimento.
E o divertimento? Será que é possível aprender se divertindo? Bertold Brecht,
importante estudioso e divulgador do Teatro Pedagógico, comenta que, segundo o consenso
geral, existe uma grande diferença entre o aprendizado e a diversão. O aprendizado pode ser
útil, mas somente a diversão é agradável. Ao contrário, Brecht (1967) afirma que o Teatro
Pedagógico é capaz sim de provocar ao mesmo tempo contentamento e aprendizado. “A este
1439
respeito, podemos apenas dizer que a contradição entre aprender e divertir-se nada tem de
necessidade natural, jamais foi isso e nada obriga a que venha ser.” (BRECHT, 1967, p. 87).
Analisando agora a relação entre a Arte e a Matemática, ou mais especificamente,
entre o Teatro Pedagógico e o ensino de Matemática, é importante nesse momento a seguinte
indagação: seria possível alguma aproximação? Segundo Diniz (1995), a aproximação entre
as ciências e o rompimento de esquemas pré-concebidos que as mantinham separadas é um
fenômeno muito interessante. Com a unificação das ciências é possível que os seres humanos
aumentem seus conhecimentos e melhorem a compreensão de suas dificuldades. A autora vai
além quando ressalta que, em se tratando de conteúdos curriculares, o aprendizado pode ser
efetivamente auxiliado pelo teatro.
João Batista Nascimento, professor e pesquisador de Matemática Pura e Metodologias
de Ensino Matemático da Universidade Federal do Pará (UFPA), afirma que utilizando os
recursos da linguagem teatral, os quais possuem alto poder de entendimento de conceitos e
grande teor lúdico, pode-se atrair o interesse e a curiosidade dos estudantes, criando também
um ambiente favorável à aprendizagem, e superando aquele receio comum que as operações
matemáticas costumam apresentar nas histórias escolares (LEITÃO, 2004).
Destaca-se, ainda, outro importante nome do ensino de Matemática, o engenheiro e
professor Júlio César de Mello e Souza, o famoso Malba Tahan, que escreveu entre mais de
200 livros o célebre O Homem que Calculava. Esta obra reúne diversos contos relacionando
cultura árabe e Matemática e, de um modo muito criativo, envolve histórias de aventuras com
desafios matemáticos.
Segundo Ferrari (2005) as histórias que Malba Tahan escreveu ao longo de sua
carreira são ótimas opções para se trabalhar o Teatro Pedagógico e ensinar Matemática. Um
exemplo, apresentado pelo autor, é o de uma escola em São Paulo que utiliza a obra de Malba
Tahan numa integração entre Língua Portuguesa, Matemática e Arte. Nessa atividade, os
contos do livro O Homem Que Calculava são divididos e sorteados entre os grupos de
estudantes. Inicialmente, é realizada uma pesquisa sobre quem foi o autor e em seguida a
leitura dos capítulos com o intuito de adaptá-los para a forma teatral. O interessante é que “ao
mesmo tempo que o conto se torna uma pequena peça de teatro, o desafio correspondente
1440
deve ser solucionado e representado por esquemas e desenhos, em transparências que depois
são mostradas a toda classe e discutidas” (FERRARI, 2005, p. 2).
Educação em Museus de Ciências
É notório que na atualidade, segundo Falcão et al. (2003), os avanços da ciência e da
tecnologia tem incentivado uma maior preocupação por parte dos sistemas educacionais, em
uma escala mundial, para com os conhecimentos científicos e tecnológicos.
Corroborando com essa afirmação, Cazelli et al. (2003) destacam que esse
desenvolvimento científico e tecnológico, juntamente com a modernização da sociedade e a
redefinição do tempo e do espaço social operada pela globalização, impõem novas exigências
educacionais com conseqüências tanto na interface da educação com o trabalho, quanto na
educação para o exercício da cidadania.
Ao exigir-se da educação novas perspectivas percebe-se que, segundo Rocha (2007),
os museus e centros de divulgação científica apresentam-se como ambientes que, ao buscarem
interatividade entre público e conhecimento científico, configuram-se como instituições
capazes de disponibilizar os avanços e as questões relacionadas com a ciência e a tecnologia a
um público cada vez mais heterogêneo.
Na educação formal, o ensino é baseado em um currículo fragmentado e, geralmente,
“apresenta um caráter teórico, livresco, memorístico, estimulando a passividade.”
(KRASILCHIK, 1987, p.7). Pouca ênfase é dada ao processo de construção de conhecimentos
e com relação às avaliações efetuadas, estas focalizam mais a habilidade de memorização do
que a constituição de hábitos de estudos, de pesquisa, de estudos cooperativos ou de projetos
diversos e atuais. Assim, as avaliações tornam-se incapazes de preparar os estudantes para
uma nova sociedade, cujo valor básico está centrado no conhecimento e na solução de
problemas, enfim, nos constantes desafios presentes nesta sociedade rica e complexa do ponto
de vista científico-tecnológico no mundo globalizado em que estamos inseridos.
(COSTANTIN, 2001).
É nesse contexto que os museus e centros de ciências apresentam-se como importantes
opções de educação não-formal, onde as pessoas podem aprender conceitos científicos ou
sobre a natureza da ciência como uma atividade intelectual e onde seja possível a
1441
alfabetização científica, uma vez que estas instituições apresentam meios peculiares para
ampliar o conhecimento de assuntos relativos à ciência e tecnologia. (COSTANTIN, 2001).
Outro ponto a ser considerado é que de acordo com a teoria sócio-interacionista, a
aprendizagem de um novo conceito é um processo de desenvolvimento cognitivo longo, onde
a construção apenas começa na ocasião em que ele é ensinado (VYGOSTKY, 1991a). Desta
maneira, de acordo com Gaspar, “quanto mais rica a vivência sociocultural proporcionada a
uma criança, maior será a capacidade lingüística, verbal e simbólica que ela será capaz de
adquirir e maior o acervo cognitivo de percepções sensoriais que ela poderá acumular.”
(GASPAR, 2002, p.181). E essa vivência pode ocorrer dentro da escola ou fora dela, em
variados espaços como em casa, nas ruas, nos parques e também em museus e centros de
ciências.
Costantin (2001) afirma ainda que o principal recurso utilizado no desenvolvimento de
práticas educativas nos museus e centros de ciências contemporâneos são as exibições
interativas/participativas que envolvem tanto emocionalmente quanto ativamente o visitante
no descobrimento da informação, por meio de sua própria participação no processo de
interação. O objetivo com isso é passar ao visitante um sentimento do que seja um fenômeno
específico por meio de uma experiência manipulativa e individual.
Visita Temática “Pescando Soluções”
Atividades que desenvolvam conteúdos de Matemática numa dinâmica mais interativa
entre os estudantes e professores, que valorizem o aspecto humano e histórico na criação dos
conceitos matemáticos, que utilizem técnicas de ensino que atendam as expectativas dos
estudantes, e que se apliquem a espaços de educação formal e não-formal, podem contribuir
muito para o processo de ensino-aprendizagem em Matemática.
Um exemplo deste tipo de atividade é a visita temática intitulada Pescando Soluções,
organizada e implantada, desde o ano de 2004, pela equipe de Matemática do Parque da
Ciência Newton Freire Maia (PNFM), instituição mantida pela Secretaria de Educação do
Estado do Paraná – SEED e que recebe estudantes provenientes de escolas públicas e
privadas, além de visitantes da comunidade.
1442
De acordo com Rocha (2005a), pode-se classificar o PNFM como um museu de
ciências que utiliza o modelo interativo de relação entre o público e o seu acervo, onde esta
relação visa a superação de simples ações que desencadeiam resultados sem a devida análise
em relação à aprendizagem, à conscientização e ao debate.
O aspecto interdisciplinar ocorrido na elaboração das visitas temáticas do PNFM, pode
ser observado na visita temática de Matemática Pescando Soluções que tem o objetivo de
despertar o interesse dos participantes para questões relativas à Matemática, utilizando-se de
recursos interdisciplinares que envolvem o acervo do PNFM, a História da Matemática e o
Teatro Pedagógico. A questão interdisciplinar envolvida, segundo Rocha (2005b), favorece
uma maior aproximação no diálogo monitor-estudante.
A visita temática retrata a vida de três grandes nomes da Matemática, Euclides,
Pitágoras e Descartes, usando a estratégia do Teatro Pedagógico, por meio de uma sátira
descontraída, buscando envolver o público (estudantes) de maneira lúdica. A representação
destes expoentes é obtida pela incorporação de personagens, nomeados “Eurrives”,
“Pitângoras” e “Desastres”.
Para a montagem destes personagens, foi necessário, por parte dos monitores, uma
pesquisa aprofundada na História da Matemática, sobre aspectos da vida e da obra dos três
matemáticos. Assim, as suas principais obras e contribuições são apresentadas, procurando
mostrar ao público o caráter humano presente no processo de construção deste conhecimento.
Na peça teatral busca-se uma aproximação dos expectadores/participantes para com a
visão de que Euclides, Pitágoras e Descartes tiveram uma vida por detrás de suas obras,
tentando desfazer o “senso comum [que] vê o homem de ciência como um personagem
mágico e a ciência desligada da história de seu desenvolvimento” (ROCHA, 2005b, p. 2).
Durante a encenação diversos conceitos de Matemática são trabalhados, bem como são
resolvidos alguns problemas práticos. Para isso, a obra de Malba Tahan, “O Homem que
Calculava”, forneceu muitas idéias, como por exemplo, o problema da divisão dos camelos, o
qual foi adaptado para o problema da divisão dos peixes que é um dos momentos principais
da peça e que também sugere o nome Pescando Soluções. Interações entre a Matemática e a
Arte, a Geografia, a História e a Música também são elementos marcantes colocados em
prática na visita temática, onde os participantes podem atuar de maneira ativa.
1443
A peça é um pouco diferente, sob o aspecto teatral, pois não acontece em um espaço
fixo, como um palco, e onde o público fica sentado. Os participantes acompanham os atores
que percorrem durante a encenação os pavilhões do PNFM, fazendo algumas paradas em
locais específicos, de acordo com o roteiro. O espaço do PNFM, devido aos recursos de seu
acervo, muito favorece a realização desta atividade, tornando a visita mais interativa.
Outro momento importante da visita temática Pescando Soluções acontece no final,
onde os monitores/atores abrem espaço para uma conversa onde dúvidas relativas à vivência
presenciada e aos conceitos apresentados são esclarecidas e onde há um fechamento visando
atingir os objetivos previstos.
O Teatro Pedagógico foi escolhido como estratégia, pois, conforme descrito na
fundamentação teórica é capaz de reunir emoção e razão, alavancando desta maneira, o
interesse dos participantes, disseminando informações e popularizando, de modo divertido e
lúdico, conhecimentos científicos de diversas áreas, neste caso, da Matemática.
Com a escolha de apresentar a Matemática deste modo, obtiveram-se alguns resultados
muito interessantes. Durante a peça, percebeu-se que os estudantes deixam de lado o
preconceito e o medo pela Matemática, não mais pensando que tudo na Matemática é chato,
difícil e sem aplicação alguma. Após a peça, durante o momento de diálogo, notou-se também
que os participantes fazem diversas perguntas, interagem entre si e com os monitores, tiram
dúvidas e dialogam a respeito dos conceitos vistos durante a encenação, sinalizando deste
modo, uma possível melhora no aprendizado do tema. Os professores também consideraram a
vivência muito produtiva, no sentido de ser mais uma alternativa para o ensino de
Matemática.
Considerações Finais
Esse trabalho buscou apresentar não uma maneira diferenciada de ensinar Matemática,
mas sim, apresentar uma proposta de discussão que nos leve a refletir a respeito de encarar a
Matemática a partir de uma ótica mais próxima da realidade.
Na busca de estratégias que possam auxiliar a prática docente em Matemática,
percebeu-se a grande importância do uso da História da Matemática como estratégia
pedagógica. É claro que se deve tomar um cuidado no sentido de não ficar apenas na
1444
superficialidade, apresentando curiosidades históricas, afinal o objetivo é entender como se dá
o processo de construção de determinado conceito em Matemática e o caráter humano
envolvido nesse processo. Neste sentido, Vianna destaca que “o estudo da História é
relevante, sim, para a compreensão da natureza da matemática e do seu aspecto cultural (...)”
(VIANNA, 1995, p. 73).
Assim, se um professor conseguir por meio da História da Matemática mostrar as
preocupações e necessidades de diferentes culturas em diferentes momentos históricos e, além
disso, estabelecer comparações entre os conceitos e processos matemáticos de ontem e hoje,
esse professor conseguirá criar condições favoráveis para que seus estudantes desenvolvam
um melhor aprendizado e, por que não, um gosto pela Matemática.
O conhecimento a respeito do Teatro Pedagógico também veio contribuir no sentido
de ser uma alternativa mais “viva”, mais dinâmica no processo de ensinar. A capacidade de
reunir razão e emoção, conforme visto na fundamentação teórica é muito válida levando em
consideração a pouca integração social atualmente no sistema de ensino.
Além disso, o teatro pelas suas características próprias pode instigar, surpreender e
chamar a atenção do público. E no momento em que é combinado a temas científicos, o
Teatro Pedagógico faz o estudante/expectador perguntar, discordar, dialogar, querer saber
mais.
Ao lado desses dois aspectos vistos, temos os Museus de Ciências como espaços
propícios para uma educação não-formal, que procuram popularizar a ciência por meio de
exibições interativas e atividades capazes de envolver os visitantes na construção e/ou no
entendimento de algum conhecimento.
Neste contexto, foi apresentado o relato da experiência que aborda uma visita temática
de Matemática realizada num Museu de Ciências e na qual foram utilizados o Teatro
Pedagógico e a História da Matemática como estratégias pedagógicas. Ficou evidente que é
possível realizar atividades criativas e que tragam resultados satisfatórios no ensino de
Matemática.
Na realização da visita temática Pescando Soluções percebeu-se não apenas um ganho
por parte daqueles estudantes e professores que participaram da vivência como expectadores,
1445
mas também da equipe de Matemática do PNFM ao pensar, elaborar e desenvolver a referida
visita temática.
Talvez tenha surgido uma dúvida: Seria possível a realização de uma atividade como
esta na escola? Pela fundamentação teórica sim, e não apenas na escola, mas também em
outros espaços. Contudo, são poucas as experiências divulgadas nesse sentido. Desta maneira,
incentiva-se que outras experiências sejam colocadas em prática, assim como sejam
realizados mais estudos, buscando avaliar as suas contribuições num ensino de Matemática
com mais qualidade.
Entretanto, cabe aqui uma ressalva citando Romaña (1992) que afirma que nenhuma
técnica, nem mesmo a mais sofisticada, faz o educador, se ele não estiver disposto a realizar
mudanças e inovações em seu método de ensinar. Agora, se o educador se propuser a aplicar
técnicas mais dinâmicas em suas aulas, não somente os estudantes se beneficiarão, mas
também ele mesmo será favorecido, devido à produtividade e qualidade que tais técnicas têm.
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o teatro e a história da matemática como estratégias pedagógicas