O TEATRO E A HISTÓRIA DA MATEMÁTICA COMO ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS DE ATENDIMENTO EM UM MUSEU DE CIÊNCIAS Rotini, Ednilson – PNFM/SEED [email protected] Eixo Temático: Comunicação e Tecnologia Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo Esta comunicação apresenta uma experiência organizada e desenvolvida pela equipe de Matemática do Parque da Ciência Newton Freire Maia (PNFM), instituição voltada à divulgação e popularização da ciência e da tecnologia, mantida pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED). A referida experiência aborda uma visita temática ao acervo do PNFM intitulada “Pescando Soluções”, que utiliza como estratégias pedagógicas a História da Matemática e o Teatro Pedagógico na abordagem de alguns conceitos matemáticos. O objetivo desta visita temática é despertar o interesse do participante para questões relativas à Matemática utilizando-se recursos interdisciplinares que envolvem o acervo do PNFM, Arte e História. No desenvolvimento é apresentada e discutida, enquanto tendência metodológica da Educação Matemática, a importância da História da Matemática na prática docente. Também são abordadas as contribuições do Teatro Pedagógico no processo de ensino e aprendizagem e algumas aplicações no ensino de Matemática. Além disso, é dado espaço aos aspectos referentes aos Museus de Ciências e suas justificativas como ambientes de educação nãoformal1. Considera-se, ao final do trabalho, que os resultados atingidos por essa visita temática foram satisfatórios, a nível qualitativo, incentivando os estudantes/participantes a minimizarem o preconceito pela Matemática. Percebe-se, também, na quantidade de questionamentos, diálogos e discussões de conceitos matemáticos, uma interação, entre esses estudantes e os monitores envolvidos na visita. A partir da fundamentação teórica e da descrição da visita temática foi possível perceber que existe a possibilidade de desenvolver atividades de ensino em Matemática em consonância com a realidade dos estudantes e de maneira interativa e contextualizada, em uma parceria entre a escola (educação formal) e o museu (educação não-formal). Palavras-chave: História da Matemática. Teatro Pedagógico. Museu de Ciências. 1 Educação não-formal: qualquer atividade organizada fora do sistema formal de educação, operando separadamente ou como parte de uma atividade mais ampla, que pretende servir a clientes previamente identificados, como aprendizes e que possui objetivos de aprendizagem. (MARANDINO, 2008, p.13) 1434 Introdução A Matemática assume um papel central na sociedade desde os tempos mais remotos da história humana. Possibilita resolver problemas da vida diária, possui inúmeras aplicações no mundo do trabalho e, além disso, funciona como um instrumento fundamental para a construção do conhecimento. Do mesmo modo, o pensamento e o raciocínio lógico contribuem no desenvolvimento das estruturas cognitivas do estudante no decorrer de sua aprendizagem (VYGOTSKY, 1991). O ensino e a aprendizagem em Matemática têm provocado inúmeros debates e discussões na busca por adequar o trabalho escolar a uma nova realidade, onde o desenvolvimento científico e tecnológico alcança níveis nunca antes observados (SEVCENKO, 2004). Muitos são os desafios enfrentados por aqueles que se propõem a ensinar essa disciplina, a começar pela insatisfação e pela falta de interesse dos estudantes, em contraposição às exigências cada vez mais significativas atreladas ao desenvolvimento tecnológico e ao mundo do trabalho. Assim, é importante que os conteúdos das disciplinas escolares, em particular da Matemática, tenham uma abordagem que valorize o trabalho pedagógico colaborativo e propicie a comunicação, em detrimento a formas de ensino que fragmentam o conhecimento e atuam sob uma lógica de simples transmissão – recepção. Desta maneira, o trabalho pedagógico, no entendimento de Diniz (1995), deve tornar-se fator de experiência viva, na qual os estudantes não sejam apenas inteirados por meio de informações sobre conhecimentos que foram acumulados pelos cientistas ao longo dos tempos, mas de fato, que tenham também aprendido algo valioso que é o conhecimento íntimo e ativo, o crescimento pessoal. Nesse contexto, atividades que desenvolvam conteúdos e conceitos matemáticos numa dinâmica que possa canalizar o potencial dos estudantes para práticas condizentes com o seu universo, aliando a isso metodologias e conhecimentos de ensino, podem transformar as aulas em momentos de verdadeira aprendizagem e prazer. Em consideração a estas reflexões, apresenta-se nesta comunicação um exemplo de atividade em forma de visita temática cujo título é Pescando Soluções, desenvolvida por uma equipe de Matemática que atua no Parque da Ciência Newton Freire Maia (PNFM), situado no município de Pinhais, estado do Paraná, envolvendo a História da Matemática e o Teatro Pedagógico. 1435 O objetivo primordial desse relato é apresentar tal experiência, buscando contribuir com novas perspectivas no ensino de Matemática. Visando atingir esse objetivo, foram traçados alguns objetivos específicos, os quais estão elencados a seguir: a) discutir sobre a contribuição da História da Matemática no processo de ensino e aprendizagem em Matemática; b) identificar como o Teatro pode ser uma alternativa a ser usada como estratégia de ensino em Matemática; c) analisar o Museu de Ciências como um espaço de educação não-formal e possível facilitador da aprendizagem quando em parceria com a escola. Desenvolvimento A Matemática está presente em diversas e variadas situações do nosso cotidiano, o que torna necessária uma maior compreensão dos aspectos que estão presentes neste ramo da ciência. D’Ambrósio (1999) afirma que um dos maiores erros que se pratica na Educação Matemática é desvincular a Matemática das outras atividades exercidas pelo ser humano. Pesquisas a respeito do trabalho pedagógico, como em Lopes (1999), apontam que o ensino e a aprendizagem de conceitos científicos escolares necessitam de uma pluralidade metodológica. Assim, segundo a autora, não existe uma única e melhor metodologia a ser seguida e, de acordo com o documento Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de Matemática (1998), é fundamental que os professores conheçam diversas possibilidades de trabalho em sala de aula para auxiliá-los em sua prática. Também, segundo as Diretrizes Curriculares da Educação Básica (DCE) do Paraná, de Ciências (2008), a Ciência vive o método do seu tempo. Por sua vez, nas DCE de Matemática (2006), também são apresentadas considerações a respeito das tendências2 metodológicas da Educação Matemática. Desta maneira, nesse documento, assim como nos PCN de Matemática (1998), destacam-se a História da Matemática, as Tecnologias da Informação, os Jogos, a Resolução de Problemas, Modelagem Matemática e a Etnomatemática. 2 Chamadas de recursos pelos PCN. 1436 A História da Matemática Como Estratégia Pedagógica A História da Matemática pode fornecer ao professor subsídios a fim de promover, junto aos estudantes, o desenvolvimento de análises, discussões, conjecturas, apropriação de conceitos e formulação de idéias a respeito do conhecimento matemático. Para Ferreira, “o aluno percebe quando estabelece relações e comparações entre o passado e o presente das diferentes culturas em determinados momentos históricos” (FERREIRA, 2005, p. 9). Ainda segundo a autora, o estudante é capaz de esclarecer idéias matemáticas durante a sua construção histórica, uma vez que encontra respostas a alguns “porquês”, desenvolvendo assim um olhar mais crítico sobre os conceitos matemáticos. Por meio da História da Matemática, os estudantes também podem compreender a natureza desta disciplina e sua importância na humanidade (DCE, 2006). Além disso, conceitos relacionados com sua trajetória histórica, constituem-se veículos de informação cultural, sociológica e antropológica de grande valor formativo (PCN, 1998). Na Ciência, em especial na Matemática, os conceitos, as teorias, os resultados e as pesquisas, são realizados pelo homem, o que demonstra um caráter humano nas atividades científicas. Chassot (2003) afirma que a ciência é uma das mais extraordinárias criações do homem e que lhe proporciona, ao mesmo tempo, poderes e satisfação intelectual, até pela estética que suas explicações lhe conferem. Do mesmo modo, de acordo com Kneller (1980), para se entender o que é ciência, deve-se considerá-la prioritariamente uma sucessão de movimentos dentro do movimento histórico mais amplo da própria civilização. Segundo D’Ambrósio (1999), a Matemática tem raízes que se confundem com a história da própria humanidade e, este caráter humano caracterizou o desenvolvimento da Matemática modificando-a de acordo com as necessidades do próprio homem ao longo do tempo. Sendo assim, é impossível dissociar os conteúdos e conceitos matemáticos de seus processos históricos de elaboração. Neste sentido, Pais (2002) reafirma que quando se pretende ensinar um determinado conteúdo de Matemática, é fundamental indagar qual foi o contexto de sua origem e quais são os valores que justificam sua presença atual no ensino. De acordo com Miguel e Miorim (2004), alguns professores e autores defendem que o caráter histórico pode despertar nos estudantes um maior interesse por determinado conteúdo 1437 matemático que lhe seja ensinado. Desta maneira, a história apresenta um papel motivador no processo de ensino-aprendizagem da Matemática. Mas, a História da Matemática não tem apenas o aspecto motivador; vai além. Muitos autores, ainda segundo Miguel e Miorim (2004), acreditam que a forma tradicional em que um conteúdo matemático é exposto ao estudante, “lógica e emplumada”, não reflete o modo como esse conhecimento foi historicamente produzido. Sendo assim, outra importância do aspecto histórico no processo de ensino-aprendizagem da Matemática reside na possibilidade de sua desmistificação e não-alienação de seu ensino. O recurso à História da Matemática no ensino de Matemática pode auxiliar na busca por respostas aos questionamentos levantados pelos estudantes, além de sugerir caminhos alternativos de abordagem. Como exemplo, fica mais claro quando se percebe que a ampliação dos conjuntos numéricos está historicamente associada à resolução de diversas situações-problema que envolvem medidas. Sendo assim, a utilização da História da Matemática com bom senso e articulada com outras variáveis do processo de ensino-aprendizagem, pode contribuir para uma transformação qualitativa da cultura matemática e para uma educação matemática de qualidade nas instituições escolares. Porém, Vianna (1995) alerta que o uso da História da Matemática deve ser relacionado com o conteúdo matemático, isto é, deve-se dar preferência à utilização da História da Matemática como estratégia didática em oposição às formas predominantes de simples motivação e/ou informação. Além disso, os PCN afirmam que os conceitos abordados por meio de uma visão histórica constituem veículos de informação cultural, sociológica e antropológica de grande valor formativo. “A História da Matemática é, nesse sentido, um instrumento de resgate da própria identidade cultural” (PCN, 1998, p. 42). O Teatro Como Estratégia Pedagógica Na perspectiva de apresentar estratégias que possam auxiliar no processo de ensinoaprendizagem em Matemática destaca-se, neste momento, o Teatro Pedagógico. Também denominado de Teatro Educativo ou de Teatro/Educação, este recurso, segundo Araújo 1438 (2004), era utilizado desde a época colonial pelos jesuítas no exercício escolar, com resultados satisfatórios. O Teatro Pedagógico consiste em levar para as instituições que trabalham com educação formal e/ou não-formal as técnicas do teatro e aplicá-las na comunicação do conhecimento. Na escola, onde os estudantes podem ser os espectadores ou os figurantes, o teatro pode ajudar no entendimento de conteúdos escolares e, por meio de um estímulo emocional, facilitar a reflexão a respeito de variados conteúdos e conhecimentos científicos escolares. Para Diniz (1995) o Teatro/Educação propõe-se a atingir as necessidades do educando numa integração entre conhecimento adquirido e experiência vivida. Assim, o Teatro/Educação apresenta-se numa proposta de teatro espontâneo, envolvendo o grupo, e vivenciado numa atmosfera de liberdade. O teatro como estratégia pedagógica pode auxiliar a reflexão e o pensamento, pois estimula o raciocínio contextualizando o que está sendo encenado (CARTAXO, 2001). Além disso, Araújo (2004) afirma que o teatro desenvolve a oralidade, os gestos, a linguagem musical e linguagem corporal. Desta maneira, “o processo de aprendizagem de um conteúdo, por meio de uma encenação teatral, é acelerado porque o aluno trabalha com todos os seus sentidos, inclusive tendo a oportunidade e liberdade para pensar, criar e vivenciar” (CARTAXO, 2001, p. 65). O teatro apresenta também uma característica muito peculiar: consegue reunir emoção e razão. Assim, ao mesmo tempo em que emociona pode também ensinar. Neste sentido, Cartaxo (2001) mais uma vez contribui afirmando que o teatro tem a capacidade de abrir horizontes reflexivos, de dar alegria e tristeza, de desinibir o tímido e dinamizar o apático. Desse modo, ele afirma que o teatro é forte pois explica o mundo que está em nossa volta por meio da análise, da crítica e do divertimento. E o divertimento? Será que é possível aprender se divertindo? Bertold Brecht, importante estudioso e divulgador do Teatro Pedagógico, comenta que, segundo o consenso geral, existe uma grande diferença entre o aprendizado e a diversão. O aprendizado pode ser útil, mas somente a diversão é agradável. Ao contrário, Brecht (1967) afirma que o Teatro Pedagógico é capaz sim de provocar ao mesmo tempo contentamento e aprendizado. “A este 1439 respeito, podemos apenas dizer que a contradição entre aprender e divertir-se nada tem de necessidade natural, jamais foi isso e nada obriga a que venha ser.” (BRECHT, 1967, p. 87). Analisando agora a relação entre a Arte e a Matemática, ou mais especificamente, entre o Teatro Pedagógico e o ensino de Matemática, é importante nesse momento a seguinte indagação: seria possível alguma aproximação? Segundo Diniz (1995), a aproximação entre as ciências e o rompimento de esquemas pré-concebidos que as mantinham separadas é um fenômeno muito interessante. Com a unificação das ciências é possível que os seres humanos aumentem seus conhecimentos e melhorem a compreensão de suas dificuldades. A autora vai além quando ressalta que, em se tratando de conteúdos curriculares, o aprendizado pode ser efetivamente auxiliado pelo teatro. João Batista Nascimento, professor e pesquisador de Matemática Pura e Metodologias de Ensino Matemático da Universidade Federal do Pará (UFPA), afirma que utilizando os recursos da linguagem teatral, os quais possuem alto poder de entendimento de conceitos e grande teor lúdico, pode-se atrair o interesse e a curiosidade dos estudantes, criando também um ambiente favorável à aprendizagem, e superando aquele receio comum que as operações matemáticas costumam apresentar nas histórias escolares (LEITÃO, 2004). Destaca-se, ainda, outro importante nome do ensino de Matemática, o engenheiro e professor Júlio César de Mello e Souza, o famoso Malba Tahan, que escreveu entre mais de 200 livros o célebre O Homem que Calculava. Esta obra reúne diversos contos relacionando cultura árabe e Matemática e, de um modo muito criativo, envolve histórias de aventuras com desafios matemáticos. Segundo Ferrari (2005) as histórias que Malba Tahan escreveu ao longo de sua carreira são ótimas opções para se trabalhar o Teatro Pedagógico e ensinar Matemática. Um exemplo, apresentado pelo autor, é o de uma escola em São Paulo que utiliza a obra de Malba Tahan numa integração entre Língua Portuguesa, Matemática e Arte. Nessa atividade, os contos do livro O Homem Que Calculava são divididos e sorteados entre os grupos de estudantes. Inicialmente, é realizada uma pesquisa sobre quem foi o autor e em seguida a leitura dos capítulos com o intuito de adaptá-los para a forma teatral. O interessante é que “ao mesmo tempo que o conto se torna uma pequena peça de teatro, o desafio correspondente 1440 deve ser solucionado e representado por esquemas e desenhos, em transparências que depois são mostradas a toda classe e discutidas” (FERRARI, 2005, p. 2). Educação em Museus de Ciências É notório que na atualidade, segundo Falcão et al. (2003), os avanços da ciência e da tecnologia tem incentivado uma maior preocupação por parte dos sistemas educacionais, em uma escala mundial, para com os conhecimentos científicos e tecnológicos. Corroborando com essa afirmação, Cazelli et al. (2003) destacam que esse desenvolvimento científico e tecnológico, juntamente com a modernização da sociedade e a redefinição do tempo e do espaço social operada pela globalização, impõem novas exigências educacionais com conseqüências tanto na interface da educação com o trabalho, quanto na educação para o exercício da cidadania. Ao exigir-se da educação novas perspectivas percebe-se que, segundo Rocha (2007), os museus e centros de divulgação científica apresentam-se como ambientes que, ao buscarem interatividade entre público e conhecimento científico, configuram-se como instituições capazes de disponibilizar os avanços e as questões relacionadas com a ciência e a tecnologia a um público cada vez mais heterogêneo. Na educação formal, o ensino é baseado em um currículo fragmentado e, geralmente, “apresenta um caráter teórico, livresco, memorístico, estimulando a passividade.” (KRASILCHIK, 1987, p.7). Pouca ênfase é dada ao processo de construção de conhecimentos e com relação às avaliações efetuadas, estas focalizam mais a habilidade de memorização do que a constituição de hábitos de estudos, de pesquisa, de estudos cooperativos ou de projetos diversos e atuais. Assim, as avaliações tornam-se incapazes de preparar os estudantes para uma nova sociedade, cujo valor básico está centrado no conhecimento e na solução de problemas, enfim, nos constantes desafios presentes nesta sociedade rica e complexa do ponto de vista científico-tecnológico no mundo globalizado em que estamos inseridos. (COSTANTIN, 2001). É nesse contexto que os museus e centros de ciências apresentam-se como importantes opções de educação não-formal, onde as pessoas podem aprender conceitos científicos ou sobre a natureza da ciência como uma atividade intelectual e onde seja possível a 1441 alfabetização científica, uma vez que estas instituições apresentam meios peculiares para ampliar o conhecimento de assuntos relativos à ciência e tecnologia. (COSTANTIN, 2001). Outro ponto a ser considerado é que de acordo com a teoria sócio-interacionista, a aprendizagem de um novo conceito é um processo de desenvolvimento cognitivo longo, onde a construção apenas começa na ocasião em que ele é ensinado (VYGOSTKY, 1991a). Desta maneira, de acordo com Gaspar, “quanto mais rica a vivência sociocultural proporcionada a uma criança, maior será a capacidade lingüística, verbal e simbólica que ela será capaz de adquirir e maior o acervo cognitivo de percepções sensoriais que ela poderá acumular.” (GASPAR, 2002, p.181). E essa vivência pode ocorrer dentro da escola ou fora dela, em variados espaços como em casa, nas ruas, nos parques e também em museus e centros de ciências. Costantin (2001) afirma ainda que o principal recurso utilizado no desenvolvimento de práticas educativas nos museus e centros de ciências contemporâneos são as exibições interativas/participativas que envolvem tanto emocionalmente quanto ativamente o visitante no descobrimento da informação, por meio de sua própria participação no processo de interação. O objetivo com isso é passar ao visitante um sentimento do que seja um fenômeno específico por meio de uma experiência manipulativa e individual. Visita Temática “Pescando Soluções” Atividades que desenvolvam conteúdos de Matemática numa dinâmica mais interativa entre os estudantes e professores, que valorizem o aspecto humano e histórico na criação dos conceitos matemáticos, que utilizem técnicas de ensino que atendam as expectativas dos estudantes, e que se apliquem a espaços de educação formal e não-formal, podem contribuir muito para o processo de ensino-aprendizagem em Matemática. Um exemplo deste tipo de atividade é a visita temática intitulada Pescando Soluções, organizada e implantada, desde o ano de 2004, pela equipe de Matemática do Parque da Ciência Newton Freire Maia (PNFM), instituição mantida pela Secretaria de Educação do Estado do Paraná – SEED e que recebe estudantes provenientes de escolas públicas e privadas, além de visitantes da comunidade. 1442 De acordo com Rocha (2005a), pode-se classificar o PNFM como um museu de ciências que utiliza o modelo interativo de relação entre o público e o seu acervo, onde esta relação visa a superação de simples ações que desencadeiam resultados sem a devida análise em relação à aprendizagem, à conscientização e ao debate. O aspecto interdisciplinar ocorrido na elaboração das visitas temáticas do PNFM, pode ser observado na visita temática de Matemática Pescando Soluções que tem o objetivo de despertar o interesse dos participantes para questões relativas à Matemática, utilizando-se de recursos interdisciplinares que envolvem o acervo do PNFM, a História da Matemática e o Teatro Pedagógico. A questão interdisciplinar envolvida, segundo Rocha (2005b), favorece uma maior aproximação no diálogo monitor-estudante. A visita temática retrata a vida de três grandes nomes da Matemática, Euclides, Pitágoras e Descartes, usando a estratégia do Teatro Pedagógico, por meio de uma sátira descontraída, buscando envolver o público (estudantes) de maneira lúdica. A representação destes expoentes é obtida pela incorporação de personagens, nomeados “Eurrives”, “Pitângoras” e “Desastres”. Para a montagem destes personagens, foi necessário, por parte dos monitores, uma pesquisa aprofundada na História da Matemática, sobre aspectos da vida e da obra dos três matemáticos. Assim, as suas principais obras e contribuições são apresentadas, procurando mostrar ao público o caráter humano presente no processo de construção deste conhecimento. Na peça teatral busca-se uma aproximação dos expectadores/participantes para com a visão de que Euclides, Pitágoras e Descartes tiveram uma vida por detrás de suas obras, tentando desfazer o “senso comum [que] vê o homem de ciência como um personagem mágico e a ciência desligada da história de seu desenvolvimento” (ROCHA, 2005b, p. 2). Durante a encenação diversos conceitos de Matemática são trabalhados, bem como são resolvidos alguns problemas práticos. Para isso, a obra de Malba Tahan, “O Homem que Calculava”, forneceu muitas idéias, como por exemplo, o problema da divisão dos camelos, o qual foi adaptado para o problema da divisão dos peixes que é um dos momentos principais da peça e que também sugere o nome Pescando Soluções. Interações entre a Matemática e a Arte, a Geografia, a História e a Música também são elementos marcantes colocados em prática na visita temática, onde os participantes podem atuar de maneira ativa. 1443 A peça é um pouco diferente, sob o aspecto teatral, pois não acontece em um espaço fixo, como um palco, e onde o público fica sentado. Os participantes acompanham os atores que percorrem durante a encenação os pavilhões do PNFM, fazendo algumas paradas em locais específicos, de acordo com o roteiro. O espaço do PNFM, devido aos recursos de seu acervo, muito favorece a realização desta atividade, tornando a visita mais interativa. Outro momento importante da visita temática Pescando Soluções acontece no final, onde os monitores/atores abrem espaço para uma conversa onde dúvidas relativas à vivência presenciada e aos conceitos apresentados são esclarecidas e onde há um fechamento visando atingir os objetivos previstos. O Teatro Pedagógico foi escolhido como estratégia, pois, conforme descrito na fundamentação teórica é capaz de reunir emoção e razão, alavancando desta maneira, o interesse dos participantes, disseminando informações e popularizando, de modo divertido e lúdico, conhecimentos científicos de diversas áreas, neste caso, da Matemática. Com a escolha de apresentar a Matemática deste modo, obtiveram-se alguns resultados muito interessantes. Durante a peça, percebeu-se que os estudantes deixam de lado o preconceito e o medo pela Matemática, não mais pensando que tudo na Matemática é chato, difícil e sem aplicação alguma. Após a peça, durante o momento de diálogo, notou-se também que os participantes fazem diversas perguntas, interagem entre si e com os monitores, tiram dúvidas e dialogam a respeito dos conceitos vistos durante a encenação, sinalizando deste modo, uma possível melhora no aprendizado do tema. Os professores também consideraram a vivência muito produtiva, no sentido de ser mais uma alternativa para o ensino de Matemática. Considerações Finais Esse trabalho buscou apresentar não uma maneira diferenciada de ensinar Matemática, mas sim, apresentar uma proposta de discussão que nos leve a refletir a respeito de encarar a Matemática a partir de uma ótica mais próxima da realidade. Na busca de estratégias que possam auxiliar a prática docente em Matemática, percebeu-se a grande importância do uso da História da Matemática como estratégia pedagógica. É claro que se deve tomar um cuidado no sentido de não ficar apenas na 1444 superficialidade, apresentando curiosidades históricas, afinal o objetivo é entender como se dá o processo de construção de determinado conceito em Matemática e o caráter humano envolvido nesse processo. Neste sentido, Vianna destaca que “o estudo da História é relevante, sim, para a compreensão da natureza da matemática e do seu aspecto cultural (...)” (VIANNA, 1995, p. 73). Assim, se um professor conseguir por meio da História da Matemática mostrar as preocupações e necessidades de diferentes culturas em diferentes momentos históricos e, além disso, estabelecer comparações entre os conceitos e processos matemáticos de ontem e hoje, esse professor conseguirá criar condições favoráveis para que seus estudantes desenvolvam um melhor aprendizado e, por que não, um gosto pela Matemática. O conhecimento a respeito do Teatro Pedagógico também veio contribuir no sentido de ser uma alternativa mais “viva”, mais dinâmica no processo de ensinar. A capacidade de reunir razão e emoção, conforme visto na fundamentação teórica é muito válida levando em consideração a pouca integração social atualmente no sistema de ensino. Além disso, o teatro pelas suas características próprias pode instigar, surpreender e chamar a atenção do público. E no momento em que é combinado a temas científicos, o Teatro Pedagógico faz o estudante/expectador perguntar, discordar, dialogar, querer saber mais. Ao lado desses dois aspectos vistos, temos os Museus de Ciências como espaços propícios para uma educação não-formal, que procuram popularizar a ciência por meio de exibições interativas e atividades capazes de envolver os visitantes na construção e/ou no entendimento de algum conhecimento. Neste contexto, foi apresentado o relato da experiência que aborda uma visita temática de Matemática realizada num Museu de Ciências e na qual foram utilizados o Teatro Pedagógico e a História da Matemática como estratégias pedagógicas. Ficou evidente que é possível realizar atividades criativas e que tragam resultados satisfatórios no ensino de Matemática. Na realização da visita temática Pescando Soluções percebeu-se não apenas um ganho por parte daqueles estudantes e professores que participaram da vivência como expectadores, 1445 mas também da equipe de Matemática do PNFM ao pensar, elaborar e desenvolver a referida visita temática. Talvez tenha surgido uma dúvida: Seria possível a realização de uma atividade como esta na escola? Pela fundamentação teórica sim, e não apenas na escola, mas também em outros espaços. Contudo, são poucas as experiências divulgadas nesse sentido. Desta maneira, incentiva-se que outras experiências sejam colocadas em prática, assim como sejam realizados mais estudos, buscando avaliar as suas contribuições num ensino de Matemática com mais qualidade. Entretanto, cabe aqui uma ressalva citando Romaña (1992) que afirma que nenhuma técnica, nem mesmo a mais sofisticada, faz o educador, se ele não estiver disposto a realizar mudanças e inovações em seu método de ensinar. Agora, se o educador se propuser a aplicar técnicas mais dinâmicas em suas aulas, não somente os estudantes se beneficiarão, mas também ele mesmo será favorecido, devido à produtividade e qualidade que tais técnicas têm. REFERÊNCIAS ARAÚJO, P. O Teatro Ensina a Viver. São Paulo, SP, 2004. Disponível em: http://novaescola.abril.com.br/index.htm?ed/170_mar04/html/teatro. Acesso em 22 mar. 2007. BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Matemática. Brasília, DF:MEC/SEF, 1998. BRECHT, B. Teatro Dialético. 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