O COTIDIANO DAS MARISQUEIRAS DO POVOADO CRASTOSANTA LUZIA DO ITANHY/SE Alessandra Santos da Graça Universidade Federal de Sergipe-UFS [email protected] PALAVRAS CHAVES: Cotidiano, Gênero, Pesca, Tempo e Espaço O Crasto é um povoado cercado pelos rio Piauitinga e por uma vasta área preservada como vegetação nativa. Possui uma exuberante mata atlântica formando um micro habitat, que se destaca na paisagem da região como uma área com variedades da flora e fauna silvestre. Está localizado no município de Santa Luzia de Itanhy1, região litoral sul-sudeste do estado de Sergipe, distante 86 km da capital, Aracaju. Este município é margeado pelo estuário dos rios Indiaroba, Piauí e Piauitinga, tendo como municípios limítrofes Indiaroba ao sul, Umbaúba a sudoeste, Arauá a noroeste, ao norte Estância e a oeste Itabaianinha. Na atualidade este município permanece com a maioria de sua população sobrevivendo de recursos naturais e políticas públicas do governo, sendo classificadas pelo IBGE como uma população predominantemente rural. Apesar de ser próximo a pontos turísticos como Mangue Seco e a Ilha da Sogra, percebe-se que o povoado não recebe muitas visitações turísticas. Esta região é de difícil acesso, feito por meio de barcos ou por uma estrada de terra. O povoado possui um restaurante e uma pousada que dão suporte aos poucos visitantes, que aparecem geralmente em tempo de festas ou com interesses de pesquisa da região2. 1 Inicialmente denominada de Aldeia de São Tomé, Santa Luzia do Itanhy foi elevada à freguesia por ato da Arquidiocese da Bahia, em 05.07.1680, sendo que em 1698 adquiriu foros de Vila com o nome de Vila Real de Santa Luzia do Itanhy, ou Vila Real do Piaguy. Em 1831, perde a autonomia para a povoação de Estância. Restaurada por Lei de 16.02.1835 e em 1943, por Decreto Estadual, havia mudado o nome para Inajaroba. O Decreto-Lei nº 88, de 25.11.1948, deu-lhe o atual topônimo.(Fonte:IBGE) 2 Relato de seu Edica(dono do restaurante). É importante frisar que a maior parte do povoado faz parte da fazenda CAISA(Crasto Agro Industrial S/A), sendo que toda sua extensão inclusive parte do rio é cercada, impossibilitando o livre acesso dos moradores. A fazenda possui 2.666 ha, considerada uma das maiores propriedades do Estado de Sergipe.(FONTE:INCRA) Foi justamente nesses espaços territoriais litorâneos, de mata tropical úmida, habitados por essas populações tradicionais que se implantaram grande parte das chamadas áreas naturais protegidas, a partir dos anos 30 no Brasil. Essas áreas, em grande parte ecologicamente bem conservadas pelo modo de vida dessas culturas e de nenhum modo eram desabitadas.(DIEGUES, 2008, p. 19) A área preservada ocupa 40% da área da fazenda (conforme DOU, pg.13802 que publica a portaria de 10/08/1989 do IBAMA-Instituto Brasileiro Do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis). Estudiosos e pesquisadores tem visitado com frequência o local segundo relatos dos moradores. O objetivo da proteção dessas áreas são atributos ecológicos importantes, frisando sua riqueza estética e natural e excluindo a moradia de pessoas em seu interior (DIEGUES,2008).Na atualidade há uma grande preocupação com modelos de conservação de áreas preservadas que respeitem as populações que vivem tradicionalmente nestas áreas. Esses territórios são importantes para essas populações tanto para reprodução material quanto para reprodução cultural. Este trabalho faz parte da pesquisa que realizo nesta comunidade. Aqui buscarei apresentar uma discussão referente ao cotidiano das marisqueiras do povoado Crasto- Santa Luzia do Itanhy/SE. A partir das narrativas referentes às suas praticas cotidianas, elas provavelmente revelaram a maneira como percebem sua existência e sua organização social, e como se relacionam com a reprodução socioambiental expressa em seus saberes e fazeres da pesca. Ou seja, a maneira como elas imaginam o tempo e espaço pesqueiro estão relacionadas com suas representações da realidade. OO MODO DE VIDA DAS COMUNIDADES RIBEIRINHAS A publicação de vários estudos sobre comunidades pesqueiras no Brasil culminou com o recente surgimento da Antropologia Marítima. Antes eram utilizados os mesmos conceitos e metodologias para analisar as comunidades rurais e pesqueiras, hoje os cientistas têm tido a preocupação de considerar as peculiaridades desses grupos. (DIEGUES, 2001). A antropologia marítima estuda a variedade e complexidade dos sistemas técnicos, sociais e simbólicos elaborados pelas populações litorâneas no processo de apropriação do espaço marinho que dai retiram sua sobrevivência. (GEISTDOERFER apud DIEGUES, 2001,p.158) A Antropologia Marítima, portanto, estuda diversos aspectos da relação homem/pesca, considerando assim as complexidades e variedades possíveis dessa temática. A “gente do mar” possuem particularidades provenientes de seu ambiente e do contexto econômico e cultural que vive além do que esses grupos possuem práticas simbolicamente diferente da “gente da terra”, pois são ricos em mitos, estórias e rituais que, à sua maneira, explicam a realidade local dessas comunidades. Segundo a União Internacional para Conservação da Natureza em 1983 o Brasil apresentava a área mais extensa em manguezais3 do mundo. Essa área se estende do Amapá, extremo norte do Brasil, até Santa Catarina, ao sul do Brasil(DIEGUES,2001). Atualmente esse habitat continua sendo o principal meio de sobrevivência para as populações que vivem próximas a eles. Essas pessoas retiram do manguezal, seus alimentos, madeira para construção de suas casas entre outros meios para sobrevivência. No entanto, esse uso em algumas localidades é realizado de maneira desordenada, por interesses, muitas vezes, externos ao grupo, prejudicando o ciclo natural do manguezal. Isto ocorre mesmo que exista um entendimento referente à inviabilização de outras atividades, com o corte indiscriminado das árvores. (DIEGUES, 2001) Quando os manguezais são utilizados somente por comunidades ribeirinhas para sua sobrevivência, essa degradação é amenizada naturalmente, já que há uma reconstituição do que é retirado da natureza. A utilização desmedida da área física do manguezal, além de representar o sumiço de varias espécies naturais deste habitat, representa também o enfraquecimento do patrimônio cultural próprio desses grupos. Com a saída das comunidades ribeirinhas para outras áreas, elas perdem sua identidade cultural abandonando práticas simbólicas essenciais á sobrevivência. (DIEGUES, 2001). Manguezal: é uma interface entre o mar e o continente. Esse ecossistema é habitado por crustáceos, peixes, moluscos, aves. Utilizado como subsistência por algumas populações, geralmente chamadas de comunidades ribeirinhas. Ou seja, a reprodução social e simbólica desses grupos depende também do ambiente natural que vive. Suas práticas, seus conhecimentos, sua memória, estão interligados ao território, esses saberes também representam um patrimônio cultural. No entanto, é importante considerar a dinamicidade do grupo e da cultura local, tal qual a sociedades como um todo esses grupos também se transformaram e modificam suas práticas. Deve-se considerar o modo de vida das comunidades ribeirinhas, seu cotidiano, e não considerar suas características como sendo imutáveis, rígidas. Podemos então considerar a cultura como a relação entre prática social e o sentido atribuído a ela(HALL, 2003). As águas que banham o povoado Crasto em Santa Luzia do Itanhy-SE são confidentes de historias, lembranças, alegrias e tristezas do povo que ali habita. A pesquisa que apresento, terá seu foco nas percepções das mulheres sobre o tempo e espaço relacionado à pesca. Estas não só sobrevivem das águas do Crasto como também se apropriam simbolicamente deste espaço. As percepções relacionadas aos astros, ao mar, a terra e ao cotidiano estão organizadas e imbricadas numa teia cheia de significados e simbolismos. As falas, as conversas e os desabafos dos povos que vivem direta ou indiretamente do mangue e do rio revelam suas lembranças em torno de suas tristezas e alegrias experimentadas ao longo de sua existência. Estes sentimentos e experiências delineiam o modo de vida desse povo. Os conhecimentos do povo das águas, fruto da necessidade diária de reprodução socioambiental, são revelados, em certa medida, a partir das suas representações relacionadas ao tempo e espaço vivido por eles. Thompson(1998) num estudo sobre o tempo do relógio e o tempo natural percebe as mudanças e interações sentidas pelos povos agricultores e pescadores na sociedade inglesa pré-industrial. Discute as mudanças da “nova disciplina puritana e exatidão burguesa” na vigente sociedade. Percebe que entre povos primitivos, comunidades de pequenos agricultores e pescadores a percepção do tempo é orientada a partir das tarefas necessárias a reprodução social. Entre as mulheres dos grupos de povos primitivos, comunidades de pequenos agricultores e pescadores ele ainda nota que o trabalho mais árduo e prolongado era o das esposas dos trabalhadores na economia rural. Esse ritmo só era tolerável porque parte do trabalho, com as crianças e em casa, se revelava necessário e inevitável, e não imposição externa. Isto continua a ser verdade até os dias de hoje, e, apesar do tempo da escola e do tempo da televisão, o ritmo do trabalho feminino em casa não se afina totalmente com a medição do relógio. A mãe de crianças pequenas tem uma percepção imperfeita do tempo e segue outros ritmos humanos. Ela ainda não abandonou de todos as convenções da sociedade “préindustrial”.(THOMPSON, 1998, p.288) A orientação do tempo também foi uma preocupação de Evans Prithard(1978) quando estudou a estrutura social dos Nuers. Este povo organizavam sua rotina a partir da relação entre as necessidades das tarefas diárias relacionada ao gado e as contingencias naturais. Percebeu dois tipos de percepção do tempo: o tempo ecológico (influenciado pela natureza) e o tempo estrutural(influenciado pelas relações dentro da estrutura social). O povoado Crasto é uma comunidade ribeirinha. A pesca é uma atividade central nesta região. Não é demais frisar que há, hoje, no mundo há de 25 a 34 milhões de homens e mulheres no trabalho da pesca 4 . Deste contingente, 75% são pescadores artesãos. Já no Brasil, a pesca artesanal representa uma importante modalidade de trabalho. Dados oficiais de 2006 indicam existir 390.761 pescadores artesanais, estando 47% concentrada nos estados do Nordeste5; Segundo dados do Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP), do MPA, até 31/12/2010 estavam registrados e ativos 853.231 pescadores profissionais, distribuídos nas 27 Unidades da Federação. Por sua vez, o Nordeste concentra o maior número de pescadores, com 372.787 registros, representando 43,7% do total do país, seguida pela Região Norte, com 330.749 registros (38,8%), juntas, essas regiões, respondem por 72,4% do universo de pescadores profissionais do Brasil. Deste contingente 59,15% homens e 40,85% mulheres, sendo que no nordeste 53,77% homens e 46,23% mulheres; e os últimos dados do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), de 2012, apontam a existência de mais de 1 milhão de pescadores(as) artesanais no País. Em Sergipe, há 20.086 pescadores profissionais cadastrados. Dentre estes 45,01% (9.041) são homens e 11.0455 (54,99%) mulheres. Diferente da maior proporção de homens na pesca em todo o Brasil e no Nordeste, em Sergipe este contingente é diferenciado pela maior quantidade de mulheres no universo da pesca. Organização Internacional do Trabalho-OIT. Dados coletados no artigo: “Trabalho artesanal, cadências infernais e lesões por esforços repetitivos: estudo de caso em uma comunidade de mariscadeiras na Ilha de Maré, Bahia”(2011) 4 5 O cotidiano desta comunidade é delineado pelas águas dos rios e mangues que “ditam” parte de suas decisões diárias. O ritmo que a comunidade organiza suas tarefas diárias é influenciado pela natureza, numa dança das águas que influenciam também as relações sociais e os costumes dos ribeirinhos. SER MULHER E MARISQUEIRA Em vista da necessidade de se refletir sobre as teorias a partir de um contexto, de uma relação, de um processo, podendo ser modificável a partir das contingências políticas e sócio-histórico a que o grupo ou agente social tiver acesso, refletirei a posição social das mulheres que tem a pesca como sua principal fonte de reprodução simbólica e econômica. Para isto, utilizarei dissertações e trabalhos sobre populações tradicionais, populações haliêuticas e gênero. É necessário ter em mente que estas mulheres possuem motivações socioeconômicas e culturais, além de compreender como se deu historicamente a posição social ocupada por elas. A intenção é compreender adiante a perspectiva das mulheres marisqueiras em torno das relações que estas construíram com o ambiente e como esta relação interfere em suas percepções sobre o tempo e espaço pesqueiro. Antes nos estudos sobre comunidades pesqueiras, era considerado, primordialmente, o discurso masculino, já que a função da pesca é atribuída socialmente ao homem. Apesar disto a presença da força do trabalho feminino sempre esteve presente neste âmbito social, mesmo sendo considerado como trabalho complementador desta prática, e de ter sido por muito tempo colocada em segundo plano pela maioria das pesquisas nesta área. O próprio discurso acadêmico, pois, relega ao silêncio o ponto de vista feminino, mesmo quando as atividades das mulheres são cruciais para a reprodução social do grupo como um todo. Em muitos grupos ditos de"pescadores" a produção agrícola das mulheres é tão ou mais importante quanto a pesca, ainda que não seja publicamente reconhecida como tal, e central para a constituição da identidade de gênero da mulher. Se a identidade é um processo político, a identificação entre identidade de grupo e identidade masculina é uma política de gênero, frequentemente legitimada pelo discurso acadêmico (WOORTMAN,1991, p.2). Como afirma Woortman(1991), o discurso acadêmico é também significativamente responsável pela legitimação das posições sociais e políticas dos agentes sociais. As funções executadas por mulheres são geralmente invisibilidades pelas pesquisas, apesar de serem significativas para reprodução social e econômica do grupo. Uma situação análoga acontece com o trabalho doméstico que ainda hoje é tratado de forma diferenciada pela legislação brasileira e pelos patrões; com a justificativa de certa afetividade nesta relação à precarização foi estendida historicamente. As funções atribuídas às mulheres nas comunidades tradicionais são relacionadas como atividades complementares as atividades domésticas, como, por exemplo, as atividades executadas pelas marisqueiras, pelas mangabeiras e pelas roceiras. No caso da pesca, significativamente, a maior parte dos estudos afirmam que enquanto o homem vai para o mar, a mulher fica na terra assumindo as outras funções do grupo, como cuidar dos filhos, plantar roça e pescar no mangue, a fim de complementar a renda e auxiliar na reprodução social da comunidade por meio da captura de alimentos para a dieta da família. Com o maior tempo dedicado as funções reprodutivas, possivelmente estas mulheres seriam responsáveis também pelas principais representações sociais do grupo. No entanto, é imprescindível salientar que compreendo as funções sociais como atribuídas historicamente e não como uma característica natural. As peculiaridades de cada situação e de cada meio social devem ser consideradas particularmente, relacionando-as ao todo social, afim de não generalizar as práticas sociais como teorias absolutas e deterministas. No entanto, sei que de uma forma ou outra, nós sempre pensamos em nós mesmo como homens ou mulheres, e essas identidades sociais emergem exatamente a medida que internalizamos representações de gênero (DUVEEN,2008,p.268). Cabe salientar a dificuldade em encontrar trabalhos que discutam as posições sociais e as relações sociais entre mulheres e homens nestas comunidades. A maior parte dos trabalhos assumem uma postura mais técnica, já que a maioria também são de áreas das ciências naturais onde a curiosidade cientifica é diferenciada das ciências humanas. No entanto, o fato da revisão bibliográfica ter ampliado o foco sobre as populações halieuticas me fez, enquanto pesquisadora, enxergar outros âmbitos e preocupações sobre estas comunidades. Observando e investigando as práticas cotidianas do povoado Crasto, poderei perceber o quanto a pesca é importante para sua organização social, já que esta atividade delineia, em alguma medida, as esferas sociais e institucionais da comunidade. A família, a religião, a política, como também os mitos, o folclore e as atividades lúdicas, têm relação - ao menos é o que pude perceber até o momento - com a prática da pesca, que também é a principal atividade econômica, propiciando a sobrevivência física e cultural dos habitantes desta comunidade. Diante disto, podemos supor que há uma relação da pratica pesqueira e das representações sociais com os diversos âmbitos sociais e simbólicos do grupo, sendo que a mulher seria a principal responsável pela maneira que este grupo interpreta e reinterpreta a realidade social, pois, além de passar um tempo significativo na comunidade, ocuparia os espaços de intersecção do grupo (entre o mar e a terra, entre o privado e o público, entre casa e a rua), detendo também a função de primeiras educadoras daqueles e daquelas que se tornaram (ou um dia tornar-se-ão) pescadores ou pescadoras. Como constatou Cavalcanti(2010), tanto as populações das comunidades como os acadêmicos que estudam esta temática não dão a devida importância ao trabalho reprodutivo realizado pelas mulheres, mesmo este sendo imprescindível para que o homem realize atividades laborais como a pesca. Desmistifica a ideia de que a mulher não pesca devido à realização das funções domesticas e da sua condição biologizante. Estas, na maioria das vezes, realizam as funções domesticas juntamente com a atividade da pesca, apesar que a realização a atividade da pesca e o serviço doméstico realizados por essas mulheres não são considerados trabalho. Em seu estudo percebeu que este discurso é reproduzido tanto pelos acadêmicos(mesmo alguns não notando) como pelas próprias mulheres destas comunidades. Num determinado grupo todos tende a pensar como homens ou como mulheres, reproduzindo as práticas que define um ou outro socialmente. Overing (1999) salienta que no ocidente há a recorrente tendência de associar a mulher aos valores comunitários enquanto ao homem é associado à liberdade. É possível que a maneira como seja organizada a realização das atividades diárias dos grupos tradicionais, estejam relacionadas com o senso de confiança existente entre o grupo e o agente social, como notou Overing (1999) em relação aos Piaroa (povos amazônicos) que possuem a confiança, e não a competição como marca dos relacionamentos cotidianos. Para esta autora, Há uma série de fatores, atos e eventos que contribuem para a criação ou transformações constante das forças vitais de uma pessoa. Por exemplo, o ato de transmitir conhecimento é um ato reprodutivo: é um trabalho que dá vida. Assim a aquisição da vida não é um processo meramente físico, estabelecido de uma vez por todas através do intercurso sexual (OVERING, Idem, p.96). Na maior parte das comunidades pesqueiras, a pesca não é a única atividade, visto que, em muitas situações, há outras atividades, como por exemplo, a prática da agricultura, a construção de instrumentos necessários para realização do trabalho pesqueiro e o comércio de pescados. Essas atividades vistas como “complementadoras” são realizadas predominantemente por mulheres. Em algumas localidades pesca e agricultura, homem e mulher, podem ser pensados como complementares, mas numa relação de complementaridade desigual em face de um todo. As respectivas atividades ocupam posições não apenas distintas mas hierárquicas, se vistas na relação com esse todo.(WOORTMANN,1991,p.31) Como revelou a autora, as atividades realizadas pelas mulheres nas comunidades pesqueiras são consideradas “complementares”, mesmo que estas sejam principais na comunidade. Além do trabalho realizado no âmbito da pesca, a mulher interfere e exerce primordial influencia em outros campos societários como a religião, a organização familiar e a transmissão de saberes e mitos. Woortmann(1991) ainda constatou que as atividades ditas domésticas e familiares realizada por mulheres são menos valorizadas e por sua vez invisibilizadas por conta do desprestígio que acarreta esse tipo de atividade. As relações de gênero na comunidade refletem a totalidade societária em que elas estão incluídas, mas são expressas peculiarmente a cada grupo estudado. É interessante destacar que os grupos sociais são formados por diversas teias interagindo entre si e entre a sociedade. As comunidades tradicionais possuem relações complexas tais quais as relações de outros grupos sociais, refletindo e reproduzindo as formas de conceber a realidade social. Para Woortman (1991), a história das mulheres das comunidades pesqueiras estão interligadas às relações sociais e espaciais que estas ocupam, sendo que a desarticulação destes espaços, geralmente causado pelo fato da modernização destas localidades não trazem consigo a emancipação da mulher. Segundo a autora, essa situação acentuou a dependência delas e a desvalorização das atividades atribuída ao sexo feminino. Sendo assim, Ao longo desse processo, as relações entre homens e mulheres se alteraram como foi visto. De uma relação de complementariedade passou-se a uma relação de dependência das mulheres para com os homens. Se antigamente as mulheres eram corresponsáveis pela fartura, hoje elas “comem da mão do marido (WOORTMAN, 1991, p.29). Assim, o trabalho realizado pela mulher mesmo já sendo desvalorizado e invisibilizado, essa situação é acentuada a partir da modernização na comunidade do Rio Grande do Norte estudada pela autora. As posições sociais ocupadas pelas mulheres nas comunidades pesqueiras precarizou-se mais ainda, pois estas foram perdendo os espaços antes ocupados por elas. Motta-Maués(1999) realizou um estudo dos trabalhos produzidos nas décadas de 70 e 80 sobre gênero e comunidades pesqueiras. Sua escolha por estas décadas se deu pela importância relacionada à mudança do enfoque nas temáticas de gênero e pesca neste momento. Neste estudo salientou para a invisibilidade dos trabalhos sobre mulheres, mas também particularmente os trabalhos de mulheres das comunidades de pescadores. As relações sociais entre homens e mulheres na sociedade em geral era reproduzida de maneira peculiar por essas comunidades, sendo que o universo da pesca reproduziria as posições sociais desses agentes perceptível a partir dos costumes e da cultura comunitária. Além do que isto refletia nas terminologias utilizadas para identificar uma determinada posição social, como é o caso das mulheres que eram responsáveis pelas atividades relacionadas à pesca era identificada (e também se auto identificava) como pescadeira e marisqueira. Para a externalidade da comunidade a terminologia pescadora se aproximava de um status profissional e com os diretos garantidos pelo estado. Segundo esta autora: Ainda estamos vivendo uma espécie de tensão constitutiva do próprio debate, entre invisibilização/visibilização no que concerne a questão da mulher e/ou de gênero, a qual no limite poderia ser pensada como uma oposição entre invisibilização/ideologização. Isto significa que, tal como ocorreu na sujeição (das mulheres) versus dominação (dos homens), no contexto do feminismo dos anos 70, vivemos agora sobre o prisma de outra ênfase, na identificação e valorização de uma correspondência complementar entre mulheres e homens. Como este também é um processo histórico de que participamos e que, ao mesmo tempo, interpretamos, (pelo menos tentamos), sociologicamente, resta-nos, talvez, somente participar dele na forma que nos é possível faze-lo .(MOTTA-MAUÉS,1999,p.396) Mesmo com a recente “visibilidade” dos estudos feministas, percebe-se ainda uma significativa vitimização ou heroicização 6 da mulher, as vezes separando as reflexões da realidade peculiar vivenciada por estas mulheres. O cuidado neste aspecto referente a este tipo de pesquisa é necessário para que se evitem reflexões relacionadas a uma exagerada autonomia da mulher ou a uma exagerada indisposição em relação ao todo social. A partir das reivindicações de movimentos feministas com denuncias de um androcentrismo por parte da produção cientifica, esta situação vem tomando outro rumo. Percebe-se na contemporaneidade, um avanço no debate sobre as desigualdades sociais entre homens e mulheres, mas ainda podemos considerar como insuficientes os estudos que possuem este tipo de debate. Entendo que há uma necessidade de ampliá-lo como também de refletir sobre a posição social da mulher marisqueira (que é o grupo que estudo). O interesse deste trabalho é perceber a apropriação simbólica das mulheres que sobrevivem das águas do povoado Crasto relacionada ao tempo e ao espaço, em especial as suas representações ligadas à atividade da pesca. Sabe-se que as populações tradicionais e pesqueiras possuem uma maneira peculiar de lidar com o meio natural que os rodeiam, já que é dele que retiram os subsídios para sua reprodução social, física e simbólica. As práticas cotidianas das populações tradicionais são influenciadas diretamente pela natureza e pelas suas necessidades, no entanto, essas relações são diferenciadas quando se trata de comunidades litorâneas. Segundo Diegues(1999) há a necessidade de pesquisar as comunidades de pescadores distintas das rurais que praticam a agricultura, pois estas vivem cosmologicamente dependente do ritmo do mar, das marés, da lua, do clima, em fim da natureza. As populações tradicionais, estão fortemente relacionadas a um modo de vida diversificado (catadoras de mangaba, quilombolas, pescadores, povos da floresta). O modelo patriarcal ainda vigente na nossa sociedade - e em várias comunidades tradicionais - é fruto do processo socio-histórico vivenciado por homens e mulheres. Este modelo considera a posição do homem e da mulher, sendo que um e outro teriam suas obrigações naturais, relegando a mulher a inferioridade hierarquicamente neste sistema de relações. 6 Termos utilizados por trabalhos feministas a exemplo das autoras Michelle Perrot, Joan Scott Historicamente a opressão do sexo feminino está vinculada a opressão de classes. Ou seja, o particular está vinculado ao todo interagindo dialeticamente. Esta reflexão foi feita por Engels no livro “A origem da família, da propriedade privada e do estado” onde relata que o primeiro antagonismo de classes que apareceu na historia coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino(ENGELS,2010). As análises em torno das posições ocupadas pelos agentes sociais deve ser analisada de forma relacional, a partir do contexto cultural e econômico em que este está inserido, mas também considerar o processo histórico em que essas posições foram construídas . A posição da mulher na sociedade atual deve ser analisada a partir de hoje, mas este hoje sendo parte do que foi o ontem e, portanto considerando o provável amanhã. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A partir das discussões acima nota-se que na atualidade, apesar da mulher ter conquistado espaços de poder e ocupado o setor produtivo da sociedade ainda não conseguiu valorizar os espaços atribuídos socialmente a elas. As funções reprodutivas são atribuídas ao sexo feminino e por sua vez são funções desprestigiadas socialmente. O trabalho realizado pelas marisqueiras possuem algumas peculiaridades tal qual o trabalho doméstico, como já salientado. A marisqueira, além de pescar, muitas vezes junto com os filhos menores, ainda realizam as funções da casa que não são contabilizadas como trabalho, nem pela sociedade e nem pelo grupo. Faz-se necessário que o poder público considere o trabalho produtivo e o reprodutivo dentro das relações sociais. A forma dicotômica de considerar estas relações às fortalece ainda mais, como notou Maneschy(2012) em seu estudo sobre gênero e pesca. Não obstante as investigações, políticas setoriais, tem sido incipientes na incorporação da dimensão de gênero.Por sua vez ao se tratar de comunidades pesqueiras artesanais- também referidas como “de pescadoras de pequena escala”- é preciso considerar que se trata de comunidades onde permanece a articulação das varias dimensões da vida(trabalho, lúdico, religião), enquanto o foco maior das políticas reside nos objetivos de produção em si e de qualidades de vida entendida como geração de renda. Além disso, ainda é baixo o interesse em evidenciar as atividades das mulheres na pesca, o que se reflete na falta de estatísticas.(MANESCHY,2012,p.714) Como já foi dito anteriormente, apesar da reprodução das práticas sociais advinda do todo social, as comunidades pesqueiras possuem formas particulares de lidarem com o meio ambiente, com o trabalho e com o cotidiano. Interagindo com a família, com o trabalho, com a casa, ela produzem e reproduzem saberes que de certa forma influenciam na forma peculiar de lidar com o ambiente local. Há uma produção de conhecimento simbólico, de um sentimento de pertencimento ao local e ao comunitário. No entanto não considerar a dinamicidade das relações da mulher com a família e com o meio ambiente é uma maneira de naturalizar e relacionar os espaços ocupados pelos homens e pelas mulheres ao seu condicionamento biológico. Os diversos estudos nesta área têm demonstrado que a mulher marisqueira executa múltiplas funções dentro da comunidade, sendo que estas práticas são tidas socialmente e economicamente como complementadoras e não como atividades principais, apesar da importância crucial destas atividades para a dinâmica e economia da comunidade. É sabido que a mulher sempre teve uma particular proximidade com a natureza. No entanto, os padrões estabelecidos nesta relação foram construídos socialmente, como também as posições ocupadas pelo homem e pela mulher, ou seja não são atribuições ecológicas naturais de um e de outro sexo. Há de se considerar as relações entre os sexos, numa coletividade social, numa rede de relações onde há conflitos, tensões e interações sociais. Quando os estudos acadêmicos não enxergam a dinamicidade dos espaços nas comunidades pesqueiras reproduzem o mito determinista de que o mar seria o domínio do homem e a terra o domínio das mulheres, fortalecendo as desigualdades entre os sexos. Estes são temas que devem ser percebidos como parte de um contexto e de uma relação com “o outro”, ou com os “outros”. Demandam uma gama de fatores subjetivos e objetivos, influenciando as inúmeras perspectivas e ângulos dos diferentes olhares, em vista de não essencializa-los. São compreendidos sob a perspectiva de uma negociação constante, numa relação dialógica e contextual. Como notamos ao longo do texto, somente as noções bínarias de se compreender as sociedades e os grupos não mais respondem a demanda atual, hoje essas noções são entendidas com uma maior dinamicidade, como também as noções relacionadas a posição social da mulher e do homem, da terra e do mar, da casa e da rua. No entanto, continuam mais fortes como nunca, as diferenças, as desigualdades, as contradições, como também as relações de poder no campo de negociação cultural, social e econômico. Joan W. Scott(2005) entende que: não existem soluções simples para as questões, debatidas calorosamente, da igualdade e da diferença, dos direitos individuais e das identidades de grupo; de que posicioná-los como conceitos opostos significa perder o ponto de suas interconexões. Pelo contrário, reconhecer e manter uma tensão necessária entre igualdade e diferença, entre direitos individuais e identidades grupais, é o que possibilita encontrarmos resultados melhores e mais democráticos.(SCOTT, 2005,p.12) Os grupos como as comunidades de pescadores e as organizações de mulheres, gritam e negociam o processo de identificação com intuitos atuais e contextuais, mas também relacionado à demanda que o outro constrói sobre eles(O caso da reivindicação de direitos para as marisqueiras e pescadeiras). As reflexões em torno do gênero são percebidas por inúmeras pesquisas como um fenômeno social com as objetividades e subjetividades que este dispõe. Sendo assim, a maneira de se conceber gênero e pesca, assim como suas praticas cotidianas devem ser problematizadas e não devem seguir uma gama de regras e predestinações conceituais rígidas. REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO ARAUJO, Marivânia Conceição de. A teoria das representações sociais e a pesquisa antropológica. 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