REDAÇÃO Goiânia, ____ de ___________ de 2015 Série: 9º ano Turma: _____ Aluno(a):______________________________________________________________ Disciplina: Int. de Texto Professora: Bruna e-mail: [email protected] Amor Luiz Vilela Ela apontou para vitrine: - Olha ali que amor de sapato! Chegaram mais perto. Ele viu seu rosto refletido difusamente no vidro: um rosto cansado, encardido, barba crescida. - Não é um amor? - É. - Qual você está pensando? Estou falando é aquele ali, aquele branco ali, ó. - Eu sei. - Aquele branco de lá. Ele olhava fixo para o vidro, aproximando e afastando a cabeça, tentando apanhar a imagem completa do seu rosto, que parecia fugir-lhe, numa brincadeira diabólica. - Você acha mesmo? - Acha o quê? - Bonito esse sapato, o que... - Acho; não falei que acho? - Então qual é ele? - Aquele ali – arriscou. - Não. - Estou falando daquele segundo, de lá pra cá. - Na fila de cima? - É. - Também não. - Então é aquele furadinho ali. - Furadinho? Ah, também não. - Então não sei. Pronto. Começou a andar de cara fechada. Ela o acompanhou. Era fim de tarde, avenida movimentada, pessoas voltado com embrulhos, rapazes na beirada do passeio, colegiais em grupos, lojas fechando, filas, rostos cansados, gastos, suados, barulho dos lotações, estalo dos elétricos. - Estava só querendo puxar conversa - ela falou. - Não era o caso de você ficar assim. - Assim? - Com essa cara. - O que é que tem a minha cara? - Nada, não tem nada. Ele olhou para ela: ela não olhou para ele. - Está bem, olha aqui minha cara, ó – fez uma careta alegre. - Está boa assim? - Não foi pra chatear que eu estava perguntando; queria Só puxar conversa; voce anda tão calado... - Eu sei, bem, eu sei – ele falou sem raiva, sem magoa, sem irritação, pensando como seria bom estar naquela hora no alto daquele serra, calma, longe, azulada, que aparecia no fim da avenida por trás dos edifícios. - Mas se você não quiser conversar, não conversamos, como você quiser. - Eu quero – quero o quê? Pensou, sem se importar com a resposta, olhando para o lotação que passou soltando fumaça. - Você anda tão diferente... - calado, distraído... ríspido... - Estou cansado - Você sempre diz isso. - E o que você queria que eu dissesse? - A verdade. - E essa não é a verdade? - Não. - Então qual é a verdade? Ela não respondeu. - Hein, qual é a verdade? Você não vai me dizer? Ela não respondeu. - Bem, então não diga. - Você não é mais como era antes, quando nos conhecemos... - E você, você acha que é a mesma? Ninguém é sempre o mesmo. - Você era alegre, brincalhão... - Bem, eu estou cansado, você não vê? Não vê que eu estou cansado? Olha a minha cara: não vê? - Não é cansaço. - Então me diga o que é que é. - Você sabe. - Não sei. - Sabe sim - Juro que não sei. - Você não gosta mais de mim. - É? Escuta: por que você diz isso, se sabe que eu gosto, hein? - Se você gostasse, você não estaria assim. - Assim como? - Como está agora. - Ai meu Deus – ele passou a mão pelo rosto sofregamente. - Aí, não estou dizendo? Não pode falar nada que você explode. - Isso é explodir? - Você está uma pilha. - Tá bom: então não vou falar mais nada; não posso dizer mais nada, que você diz que eu estou explodindo, ríspido, uma pilha e não sei mais o quê. - Não fale, a boca é sua. - Sua é que não é. Ainda bem. O silêncio ia inteirar um quarteirão, quando ele falou: - Por que não podemos passar sem brigas? Por que a gente tem que estar sempre brigando? - Não é minha culpa. - Eu sei: é minha. - Hoje, por exemplo: estava só puxando conversa, e você... - Foi ríspido, já sei; não precisa começar tudo de novo - Quer saber duma coisa? O melhor é nós terminarmos. - Terminarmos? Ele sentiu um frio. - Não combinamos mais mesmo. De repente tudo perdido, não há mais palavras nem gestos, só um espaço escuro sufocando a garganta. -Acho que não é o caso disso... Não é o caso da gente terminar... Eu sei, reconheço que estou mesmo do jeito que você falou; mas não é minha culpa – falou de cabeça baixa como quem pede perdão. - Não é por que eu quero que eu estou assim. Haviam chegado ao ponto de ônibus. O ônibus já estava para sair. - Vou tomar esse ainda – disse ela. - Tenho que chegar mais cedo hoje em casa. Ele olhou para ela e não sabendo o que dizer, voltou o olhar para o chão. - Até logo – ela disse. - Amanhã te telefono? - Se você quiser. - E você? Ela já havia entrado no ônibus. Da janelinha olhou para ele, mas não sorriu, nem lhe abanou a mão. Ele ficou vendo o ônibus se distanciar pela avenida, o rosto abatido, pensando por que o amor era tão difícil. -1-