ÁGORA FILOSÓFICA Argumento cinético para a existência de Deus em São Tomás de Aquino Prof. Dr. Witold Skwara1 Resumo Doutor “angélico” prova a existência do “Primeiro Motor” no caminho físico: “omne autem quod movetur ab alio movetur”, e também argumenta no caminho metafísico: “movere enim nihil aliud est quam educere aliquod de potentia in actum”, entendendo o movimento no sentido muito amplo, a saber: o trânsito da potência para o ato. Ora, na seqüência dos que movem, ao longo do vir-a-ser, não se pode retroceder até ao infinito. Logo, é necessário chegar ao “Primum Movens”, inextenso e eterno, simples e absoluto, único e inteligente, cujos atributos, por excelência, acenam ao Ser Pessoal: Deus. Esse argumento, considerado por São Tomás como “manifestior via”, sempre encontrava os pensadores e os cientistas que questionavam a sua validade. Assim sendo, por um lado, o “Primum Movens” constituía, durante vários séculos, o fundamento inseparável da “mecânica galileana e newtoniana”; por outro lado, hoje em dia, face às descobertas da “física quântica”, suscitam, ao mesmo tempo, os adversários e os adeptos, já que é difícil aceitar e comprovar a “auto-kinesia” da “substância cósmica”, em ordem da “macro e micro”, sujeita inexoravelmente ao fenômeno da “entropia”. Palavras-chave: movimento – “Primeiro Motor” – Física moderna Abstract “ANGELICUS” Doctor finds up confirmation for “Primum Movens” – Prime Motor’s – existence, in physical field, path “Omne Autem Quod Movetur Ab Alio Movetur”, i. e. evething, however, that moves, by itself, is moved by another one and also, he argues, in metaphysical field, path “Movere Enim Nihil Aliud Est Quam Educere Aliquod De Potentia In Actum” – so to say moving is not anything but bringing out something from “potentia in actum” i. e. from potence into act understanding movement, in a broader sense, meaning, so to say: transit, passage, from potence into act. Hence in all moving ones sequence, thoughout “fiery”, i. e. the becoming movement, one cannot retrograde, to go back until infinite. Therefore, one needs reaching “Primum Movens” which is unextensive and eternal, simple and absolute, unique and intelligent whose attributes, par excellence, beckon toward the Personal Being – God. This argument, this assertion, considered by St. Thomas as “Manifestior Via” – more manifest way or path, always, faced thinkers and scientists who called in question, refused its validity. In this perspective, by one hand, “Primum Movens” constituted, for several centuries, the inseparable foundation regarding to “Galilean and Newtonian mechanics”, by other hand, nowadays, on account of “Quantic Ano 1 • n. 1 • jul./dez. 2007 - 1 CURSO DE FILOSOFIA Physics” discoveries, makes appear, stirs up, at the same time, adversaries, opponents and adepts, followers, since it is very difficult accepting, acknowledging and verifying “Cosmic Substance” “Auto-kinesia”, regarding to “Micro One and Macro One”, subjected, inexorably, to “Entropia” – Entropy – phenomenon. Key words: Movement, Prime, Motor, Modern Physics. O argumento cinético (do grego: kinesis – movimento acidental) provém de Aristóteles. A sua teoria do “Primeiro Motor Imóvel” é uma tentativa científica para justificar a existência de Deus. O Imóvel, mas que move, foi para o Estagirita a causa final, ou seja, capaz de sempre animar o Mundo, suscitando nele o interesse e o desejo voltado para a própria perfeição. Mesmo que seja grandiosa, a teoria do “Primeiro Motor” contém em si as fragilidades, visto que é vinculada à astronomia e à física antigas, e não é totalmente liberta das influências politeístas. Aristóteles aceitava o geocentrismo situando a Terra no meio de todos os astros, cada qual possuía o próprio motor, ou a própria alma2, mas existia também, acima desses, o supremo motor externo, em relação às esferas celestes sobrepostas de forma concêntrica. O movimento perpassava de fora até a Terra, chegando, obviamente, do Primeiro Motor. O ponto de partida nessa argumentação foi o movimento local 3. Distante, há quase 17 séculos, Tomás de Aquino utiliza a doutrina emprestada de Aristóteles, sobre o “Primeiro Motor”, mas introduz nela a correção própria e original, por considerá-la como a causa eficiente e não como a causa final4, numa sintonia com as cosmologias escolásticas. Eis o texto do argumento, tirado da Suma Teológica,Vol.I, Que.II, Art.III: Esta é a ‘primeira via, que é a mais manifesta’. É certo, e verificado pelos sentidos, que algo é movido neste mundo. Ora, tudo o que é movido é movido por outro; porque nada é movido senão enquanto está em potência relativamente àquilo a que é movido. Pois mover outra coisa não é senão levar alguma coisa da potência ao ato. Ora, só uma coisa real pode 2 • UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO ÁGORA FILOSÓFICA levar algo da potência ao ato; assim, o calor realmente existente, ou o fogo, torna a madeira de cálido potencial em cálido atual, e dessa maneira a move e transforma. Pois bem: é impossível estar em ato e em potência ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista, mas só sob pontos de vista diversos. Pois o cálido atual não pode simultaneamente ser cálido potencial, mas é frio em potência. Logo, e pela mesma razão, é impossível uma coisa ser motora e movida do mesmo ponto de vista e do mesmo modo, ou seja, é-lhe impossível mover-se a si mesma. Por conseguinte, tudo o que é movido há de sê-lo por outro. Se, portanto, o motor é por sua vez movido, também ele deve ser movido por outro, e este por outro. Ora, não se pode proceder assim ao infinito, pois não haveria nenhum primeiro motor, e, por conseguinte, não haveria absolutamente nenhum motor; pois os motores segundos (ou subordinados) não movem senão enquanto são movidos pelo primeiro motor: como não move o báculo sem ser movido pela mão. Logo, é necessário chegar a um primeiro motor que não seja movido por nenhum outro ao qual todos dão o nome de Deus5. A estrutura do argumento acima citado contém dois elementos básicos; um é existencial, que constata empiricamente a evidência da mobilidade de todas as coisas; outro é metafísico, que afirma: “tudo o que se move é movido pelo outro”, ou seja, pelos fatores externos, e que nenhuma seqüência das coisas em movimento se explica de maneira imanente, por si e em si mesma. Em virtude do Mundo sujeito à constante transmutação, a intuição intelectual e a análise filosófica, o princípio de não-contradição e a razão suficiente insinuam ao Ser Humano, a existência do “Primeiro Motor”, - Aquele que move tudo, sem ser movido por ninguém – DEUS6. O ponto de partida para o argumento cinético é o fenômeno do movimento; o fato indubitável na vida habitual de qualquer pessoa, informada pelo conhecimento sensitivo. Assim sendo, percebemos as Ano 1 • n. 1 • jul./dez. 2007 - 3 CURSO DE FILOSOFIA diversas formas do movimento, por exemplo: as mudanças climáticas, os ciclos biogeoquímicos, o curso dos astros, a vida biológica dos animais que correm ou das plantas que se semeiam, etc. Ao seguir a cosmologia de Aristóteles, São Tomás distingue as quatro espécies do vir-a-ser, as mudanças substanciais (gênesis), pela geração ou corrupção e as mudanças acidentais (kinesis), que podem ser quantitativas pelo aumento ou diminuição, qualitativas pela alteração e locais pela transladação. O argumento cinético, como já foi dito, toma exatamente a sua origem dos movimentos acidentais, materiais e físicos. “Omne autem quod movetur ab alio movetur”, isso quer dizer, qualquer transformação e realização acontece por “algo” de fora, sob a influência do outro ser. Tal princípio do movimento exclui a existência de uma possível “autokinesia”, isto é, de um movimento por si mesmo, auto-suficiente. Cabe observar que, no sentido mais amplo, a autokinesia é possível, quando o todo de um organismo é movido por seu elemento que o integra, ou também, quando um elemento impulsiona o outro componente, por exemplo: o coração transporta o sangue, o sistema nervoso aciona os músculos7. Entretanto, no sentido mais restrito, a auto-kinesia é impossível, ou seja, que o movimento de um sistema provenha do mesmo sistema, ou, que um elemento mova a si mesmo. Nem sequer as ciências físicas conhecem um caso da autokinesia, no sentido próprio. O sonho de construir um “Perpetuum Mobile”, há muito tempo foi “abandonado”8. A vitalidade frenética no interior do átomo enquadra-se perfeitamente no âmbito do princípio: “o que se move é movido pelo outro”. Em função disso, a descida de um elétron para a órbita inferior libera um fóton, e a sua subida para a órbita superior deve ser provocada pela absorção de uma energia9. Também o fato de que a matéria possui as forças adormecidas não anula o princípio do movimento, já que a ativação dessas forças exige um determinado estímulo. A parte mais importante do argumento cinético tem o caráter metafísico, desenvolvido por Aquinata em sua teoria do ato e da potência, de acordo com o princípio de não-contradição. Ali, a mudança constitui o fato inegável e consiste na sucessiva realização de uma determinada propriedade que passa do estado potencial ao estado atual 4 • UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO ÁGORA FILOSÓFICA do ser. Qualquer mutação encerra em si, pelo menos, duas fases distintas, uma inicial e outra final; na primeira, “a quo”, existe a possibilidade real de adquirir ou aceitar “algo”, e, na segunda, “ad quem”, o ser obtém a perfeição já realizada, por exemplo: a semente do carvalho contém a virtualidade de tornar-se progressivamente uma imponente árvore, no tempo longo e no espaço adequado10. Nesta altura convém perguntar: qual é a causa da transmutação e o que faz com que as suas fases se integrem numa totalidade orgânica? Teoricamente, há três eventualidades: 1ª A coisa muda exclusivamente por si mesma. 2ª O nada ocasiona a mudança. 3ª A causa da mudança é o fator externo. Será possível que a coisa mude por si mesma, sem a coparticipação e interação dos outro eventos? Tal hipótese é inadmissível a quem reconhece o valor dos princípios ontológicos. Pois bem, o início e o fim de qualquer mudança permanecem entre si, numa relação estreita, da potência ao ato, do não-ser ao ser, do não-ter ao ter. O não-ser é incapaz de dar “algo” a si mesmo, porque seria idêntico ao ser, ou seja, a si mesmo. E se, porventura, ocoresse uma “autokinesia”, nesse caso, precisaria aceitar a existência do princípio de contradição: a coisa, simultaneamente, possui e não possui “algo”; possui, porque ela dá a si mesma, e não possui, porque ela dá para possuir. Em virtude dos mesmos motivos, não se pode também aceitar a segunda eventualidade, a saber: como que o não-ser fosse uma causa da mudança; pois, o não-ser é incapaz de dar o ser a si mesmo, visto que a tal possibilidade não é ainda o ato. A recusa das duas hipóteses referidas ordena reconhecer a co-participação e a inter-ação das causas externas no curso das mutações. Essa conclusão é um juízo metafísico e transcendental em relação às teorias físicas11. Doutor Angélico argumenta a teoria do movimento de modo filosófico, apoiando-a no princípio de não-contradição, que diz: é impossível que, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, “algo” fosse capaz de mover e ser movido, já que o ser não Ano 1 • n. 1 • jul./dez. 2007 - 5 CURSO DE FILOSOFIA pode ser, simultaneamente, em potência e em ato, ou seja, num estado de não-ter e de ter. A realização de qualquer possibilidade acontece sempre numa participação do “ser atual”, que já existe. Numa série das coisas que se movem, não se pode retroceder ao infinito, pois cada alteração é previamente condicionada pela co-ação do fator externo, o qual depende do outro adjacente, e aquele, por sua vez, recebe ainda um impulso de fora. É impossível recuar assim nesta cadeia de elos interligados, sem fim, pois a eliminação do “Primeiro Motor” priva a lógica na existência dos “segundos motores”. Se não há uma “protofonte” da energia e do dinamismo, então não haverá também os fatores transmissores, numa prefiguração: não haverá o leito do rio, nem os seus afluentes, nem os seus córregos12. Já que existem os fatores que movem os elos na corrente do Real inteiro, de maneira acidental e contingente, por isso, deve existir também o “Primum Movens”. Sem ele, a pressuposta seqüência infinita dos seres apresenta-se intrinsecamente contraditória, pois todos aqueles que movem e são movidos constituem os seus “transmissores” das energias e das perfeições, já recebidas com antecedência. Mesmo que a soma dos seres possíveis retroceda ao infinito, jamais irá transformar-se num “Ato Puro”, pois a soma daqueles que recebem, nunca vai substituir “Aquele” que dispensa. Tal co-relação ontológica e metafísica pode ser ilustrada, de forma analógica, pelos exemplos da vida cotidiana: os fios elétricos, as lâmpadas e outros artefatos conectados não produzirão a energia; os vagões do trem não substituirão a locomotiva; as aortas, as veias e os vasos capilares do sistema circulatório não funcionarão sem o coração; as abelhas do cortiço perdem o sentido sem a abelha-rainha; e assim por diante... O argumento cinético é uma análise filosófica, por isso, o princípio, a saber: “na sucessão dos que movem e são movidos, não se pode recuar ao infinito”, não se deve entendê-lo no sentido temporal e espacial, isto é, em categorias naturais. São Tomás não se importava tanto com a seqüência cronológica e horizontal, mas, por excelência, com a interdependência hierárquica e vertical, num ordenamento ontológico. O “Primeiro Motor”, portanto, não é o primeiro numa sucessão, mas é unicamente o primeiro de tudo quanto existe e de tudo quanto não se explica pelo 6 • UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO ÁGORA FILOSÓFICA movimento, significando que Ele mantém com tudo a sua afinidade metafísica e não a sua identificação física. Como a última causa do movimento -“Primum Movens”- não é “algo”, mas “Alguém”, não é uma força, mas uma Pessoa, que tem o nome próprio - DEUS. Todavia, de maneira alguma, convém simplificar e primitivizar toda argumentação exposta. Deus não é a primeira esfera supralunar de Aristóteles, a mover direta e fisicamente o cosmo inteiro; também, Deus não é o primeiro elo da cadeia fenomênica situada no tempo e no espaço, mas fica acima dela; Deus é ultima e indireta causa de qualquer mutabilidade no Mundo, dotando e revestindo todos os seres materiais de natureza dinâmica13. Se, por acaso, as ciências naturais demonstrassem que a vitalidade do Universo (actio) se traduz pelo fator imanente, então não conseguiriam ainda esclarecer a sua existência (esse). A ação dos seres num enovelamento insondável do labirinto cósmico, sem dúvida, resulta das suas naturezas delimitadas, contudo, sempre vem pergunta: de onde esses seres receberam tal natureza e em virtude de que existem? A resposta para isso sempre será atual: o impulso original Deus conferiu à Matéria, como absolutamente primeiro, que move, porém sem ser movido. O argumento cinético não só indica “Primum Movens”, mas também informa sobre os atributos dEle. Antes de tudo é um Ser necessário e absoluto, inextenso e eterno, a única fonte das realizações contingentes. A causa de todas as causas é o Ato puro. O Ser que dispensa as perfeições à multiplicidade dos seres, não pode conter nem deficiências, nem limitações. De acordo com o axioma ”operari sequitur esse”, tal Ser é o Ato Sublime em cuja natureza não há nenhuma potencialidade; é infinitamente perfeito14. Ninguém é capaz de dar aos outros o que ele mesmo não possui. Visto que a suprema causa atualiza todos os seres, então, ela mesma deve conter, formalmente e virtualmente, a plenitude da perfeição. O “Primeiro Motor” é simples e imaterial, sem as partes e sem a composição. Qualquer elemento físico permanece limitado no tempo e no espaço. Os corpos concretos são vulneráveis, desenvolvem-se ou degradam, numa palavra, são mortais. Tudo isso não conAno 1 • n. 1 • jul./dez. 2007 - 7 CURSO DE FILOSOFIA corda com a natureza do Ato Puro, o qual não pode encerrar em si nada que fosse mutável, inconsistente ou incompleto15. O “Primeiro Motor” é a perfeita inteligência. Evidentemente, o pensamento é a mais alta qualidade no mundo das coisas visíveis. E, se a inesgotável “protofonte” da energia e do dinamismo, influi na arquitetura do Universo ordenado e legível, de modo auto-reflexivo, isso só é possível, quando ela se exibe como a suma inteligência16. O “Primeiro Motor” é imutável e eterno que não tem um “antes”, nem um depois”, sendo, portanto, um “agora”, “nunc stans” que não passa, sem o início e sem o fim; é um presente absoluto e perpétuo, pleno e inacessível, sempre igual, muito diferente do “agora” fugitivo no vir-a-ser, “nunc transiens” que passa e deixa as suas marcas efêmeras nas coisas e nos eventos17. Tal qualidade do “Primeiro Motor”, com a sua natureza e com os seus atributos, só pode ser associada, por excelência, ao Ser Pessoal – DEUS. Neste momento, precisa-se interrogar, qual é o valor do argumento cinético aqui apresentado, perante a física moderna? Muitos autores sustentam que ele perdeu a sua força persuasiva, devido às descobertas da mecânica quântica, a indicar o caráter dinâmico da matéria; em seguida, alegam que ele é vinculado inseparavelmente à cosmovisão galileana e newtoniana, estática. Os êxitos da física nuclear destronaram a tese, como que a matéria, por sua natureza, permanecesse numa inércia; provando que a fonte da energia se encontra no interior do átomo e, com isso, a busca das causas transcendentais do movimento torna-se inútil. Ao ver dos marxistas, “o movimento é a característica fundamental da matéria, o atributo interior dela, a forma da sua existência, capaz de envolver todas as transformações e todos os processos no universo, a partir das deslocações mecânicas até às mais sublimes e mais complexas mutações que constituem o fenômeno da Vida”18. A maior parte dos tomistas julga as objeções acima referidas, sem a justificação satisfatória; uns polemizam contra elas, procurando o apoio na física clássica, outros recorrem à física quântica, entretanto, em geral, acentuam, como origem deste conflito, a diferença metodológica entre a filosofia e a física. 8 • UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO ÁGORA FILOSÓFICA O pensador W. Pietkun19, mediante as consultas dos cientistas poloneses Bialobrzeski, Soltan e Staszewski chega à conclusão seguinte: “o físico constata a existência da energia dentro do átomo, mas não fala sobre a origem dela20. Aqui, plenamente, verifica-se o princípio: “omne autem quod movetur ab alio movetur”. Se não fosse assim, o próton e o elétron permaneceriam no átomo como as causas iguais, de recíproca interação, ou seja, cada elemento teria o mesmo alcance do efeito em relação a seus correlatos21. A respeito, os físicos se pronunciam com cautela. Será que, perante as suas incertezas, é possível insistir sobre um auto-movimento no coração do átomo, sobre a falta permanente do equilíbrio nele? A pressuposta construção dos argumentos sobre os eventos assim descritos e interpretados é privada do rigor científico. Conforme a física atual, o estado do desequilíbrio no macrocosmo é provocado pelo impulso externo – “ab alio”, mas também, no microcosmo, a onda no interior do átomo, não exclui uma alteração proveniente da interferência, consistindo nisso que os nêutrons sempre se desintegram, para dar origem aos prótons e elétrons22. O olhar do físico percebe essas mutações pelo prisma das causas material e formal, porém a penetração mais profunda no âmago das alterações, ele deixa à reflexão filosófica, a qual é capaz de interpretá-las à luz das relações metafísicas23. O autor Pietkun, com razão sublinha o fato de que a física atual não está abolindo o princípio: “omne autem quod movetur ab alio movetur”, pois o movimento dentro do átomo não é “autokinesia”, no sentido restrito. Ao mesmo tempo precisa reconhecer que, no caso abordado, recorrer às causas transcendentais é desnecessário (evidentemente, no plano empírico). Em tal aspecto, o autor citado não dá a resposta completa para as objeções anteriormente levantadas. O valor do argumento cinético pode ser defendido no âmbito da física clássica, galileana e newtoniana, na “Zona Média” dos corpos grandes, acessíveis aos nossos sentidos, onde reinam as leis contínuas, o determinismo e a previsibilidade, no entanto, o argumento cinético suscita algumas dúvidas na realidade ínfima do átomo, onde dominam as leis descontínuas, o indeterminismo e a incerteza, sem exigir necessariamente a interferência externa24. Ano 1 • n. 1 • jul./dez. 2007 - 9 CURSO DE FILOSOFIA A pretensão de salvar a “autokinesia” - o movimento eterno , sem começo e sem fim, “Perpetuum Móbile”, parece ser insustentável face ao fenômeno de entropia25: involução e ao decaimento 26contínuo do próton, a partir do Big Bang (Grande Explosão)27, há 15 bilhões de anos, até o hipotético Big Crunch (Grande Esmagamento)28. Em outras palavras, por um lado, a “substância” cósmica perde e esgota irrecuperavelmente o seu potencial energético, pela dispersão e desintegração, sob a forma de calor, caminhando para a inércia total e a morte térmica, quando chegar ao zero “O” absoluto, ou seja, 273º C29; por outro lado, se é verdade que o próton decai “pulverizando” o núcleo do átomo, então essa teoria significa que a “substância”cósmica lentamente agoniza, como que sofrendo de um cancro, o qual afeta e consome a própria matéria. Tais constatações insinuam que, nem a matéria, nem a energia, nem o movimento são eternos, e, se terão fim, certamente tiveram o começo, e, se ainda permanecem, é porque são contingentes. A solução correta das dificuldades apresentadas pela física moderna é viável, quando se admite a diferença metodológica das ciências filosóficas e das ciências naturais. O argumento cinético de São Tomás, “manifestior via”, não se alicerça nem sobre o geocentrismo, nem sobre a física antiga, que afirmava: o movimento é o fator vindo de “fora” para a matéria. Em virtude disso, a “via cinética” de São Tomás conserva a sua validade em relação à física moderna, a qual considera o movimento como o atributo essencial e imanente da matéria. Tal tese profere somente o físico, contudo, o metafísico, que reflete sobre as causas de tudo, mediante essa prova empírica, chega à conclusão de que a matéria não deve a si mesma, mas a Deus, o privilegio de ter o movimento dentro da sua estrutura. Qualquer tipo de movimento, inclusive local, em ordem “macro”, ou atômico, em ordem “micro”, qualquer dinamismo da “substância” cósmica, sem dificuldade, expressa-se e traduz-se confortavelmente em categorias do ato e da potência. Qualquer ser em potência não se explica de maneira imanente, em si mesmo, e, por isso, indica a presença do Ato Puro – transcendental, perante a realidade visível. A física “quântica” e a 10 • UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO ÁGORA FILOSÓFICA metafísica não se contradizem, mas utilizam a linguagem diferente e têm as perspectivas distintas, eu diria, convergentes e complementares. É correto quando o físico afirma que a essência da matéria consiste no movimento do átomo e que ele se explica pela natureza intrínseca da matéria; não obstante, é correto, também, quando o metafísico afirma que cada alteração, entendida como a atualização da potência, isto é, a aquisição de sempre “algo” novo, exige necessariamente de uma Razão Transcendental – Deus. Notas 1 2 3 4 5 Doutorado pela Universidade Católica Portuguesa - UCP, em BRAGA, Portugal. Professor do Departamento de Filosofia da UFPE – Recife. Não é tão claro se Aristóteles escreveu sobre o único Primeiro Motor ou sobre os diversos, visto que na Física (VII e VIII) menciona apenas um, enquanto na Metafísica (XII, 8) parece afirmar a existência de muitos. Talvez, essa insinuação constitua um certo enxerto posterior, ou ainda, uma momentânea mudança de posição. Também, é possível que o Estagirita considerasse tais Primeiros Motores como as almas, - cada uma diferente -, das esferas celestes, ou as “entidades” correspondentes aos números ideais de Platão; em todo caso, reconhecia a existência exclusiva do “Primum Movens” como um Absoluto. Cf. Aristóteles. Phys. , VII, 2,243 a 11 (Fizyka, Trad. de K. Lesniak. Warszawa 1968, p. 222); VIII, 7,260 b 5 (p. 277) O argumento cinético é aborado nos seguintes escritos do Aquinate: In quattuor libros sententiarum (d. 3 e 8), Summa contra Gentiles (I, c.13), Summa Theologica (I, q. 2, a. 3), Compendium Theologiae (c. 3) e também, em Comentários Filosóficos para Física e Metafísica de Aristóteles. Aqui, convém observar que nas obras de São Tomás não há uma expressa evolução da interpretação do argumento cinético, entretanto, é possível encontrar nelas as duas maneiras, cronologicamente simultâneas, da explicação física e metafísica. “Prima autem et manifestior via est, quae sumitur ex parte motus. Certum est enim, et sensu constat, aliqua moveri in hoc mundo. Omne autem quod movetur, ab alio movetur. Nihil enim movetur, nisi secundum quod est in potentia ad illud ad quod movetur: movet autem aliquid secundum quod est actu. Movere enim nihil aliud est quam educere aliquod de potentia in actum: de potentia autem non potest aliquid reduci in actum, nisi per aliquod ens in actu, sicut calidum in actu, ut ignis, facit lignum, quod est calidum in potentia, esse actu calidum, et per hoc movet et alterat ipsum. Ano 1 • n. 1 • jul./dez. 2007 - 11 CURSO DE FILOSOFIA 6 7 8 9 10 11 Non autem est possibile ut idem sit simul in actu et potentia secundum idem, sed solum secundum diversa: quod enim est calidum in actu, non potest simul esse calidum in potentia, sed simul est frigidum in potentia. Impossibile est ergo quod, secundum idem et eodem modo, aliquid sit movens et motum, vel quod moveat seipsum. Omne ergo quod movetur, oportet ab alio moveri. Si ergo id a quo movetur, moveatur, oportet et ipsum ab alio moveri, et illud ab alio. Hic autem non est procedere in infinitum, quia sic non esset aliquod primum movens, et per consequens nec aliquod aliud movens, quia moventia secunda non movent nisi per hoc quod aliud movens, quia moventia secunda non movent nisi per hoc quod sunt mota a primo movente, sicut baculus non movet nisi per hoc quod est motus a manu. Ergo necesse est devenire ad aliquod primum movens, quod a nullo movetur, et hoc omnes intelligunt Deum” – Summa Theologica. V. I, Q.2, A.3. O argumento cinético, “manifestior via” de São Tomás, foi questionado freqüentemente na Idade Média pelos diversos pensadores, a saber: Henrique de Gand, Duns Scot, Caetano de Thiena, Domínico de Banez, Francisco Suares. Entre os autores posteriores, sobretudo, do século XIX e XX, há notável divisão em relação à validade desta prova para a existência de Deus; de um lado surgem os opositores, como: A. Gratry, P. Duhem, P. Descogs, J. Hontheim, V. Remer, R. Hugon, F. Van Steenberghen; de outro lado, aparecem os defensores, como: G. M. Manser, I. Gredt, R. Garrigou-Lagrange, E. Gilson, J. Maritain, K. Klosak, M. A. Krapiec. KLOSAK, K. W poszukiwaniu Pierwszej Przyczyny. Warszawa: [s.n], 1957, Tom II, p. 245-252. O “engenho” do movimento perpétuo (em latim: perpetuum mobile) é uma máquina hipotética, a qual seria capaz de funcionar eternamente, a partir de um impulso inicial, sem necessidade de receber a energia externa adicional. Porém, sua existência é totalmente impossível, de acordo com os princípios da física, já que violaria a primeira e segunda lei da termodinâmica clássica. As tentativas de construir o “Perpetuum Mobile” foram feitas já no século XIII, mas o maior interesse com tal concepção ocorre nos séculos XVI e XVII; em seguida, os empreendimentos semelhantes foram tomados antes do século XIX, entretanto, acabaram sem nenhum êxito. Quanto aos esforços recentes, neste sentido, a física atual considera-os como impossíveis e pseudocientíficos, meramente hipotéticos, isto é, muito distantes de qualquer comprovação. Cf. FILIPPO SELVAGGI. La estructura de la materia. Barcelona: Editorial Herder, 1970. p. 102-107. Ver também: COLIN A. RONAN. História natural do universo. Trad. de Raul de Souza Machado. Lisboa: Verbo, 1991. p. 22. Cf. KLOSAK, K. Zagadnienie punktu wyjscia kinetycznej argumentacji za istnieniem Boga. Studia Philosophiae Christianae, v. 4, n. 2, 1968, p. 93-97 Quem questionou a validade do argumento cinético em função da física 12 • UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO ÁGORA FILOSÓFICA 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 quântica foi KLOSAK, K. Kinetyczny dowod istnienia Boga wobec nowych zarzutow. Znak, v. 4, 1949, p. 392-401. WILLIAMS, C. Hic autem non est procedere in infinitum ... Mind, v. 69, 1960, p. 403-405. Ver, KLOSAK, 1957, p. 280-283. E também WEISHEIPL, J. A. The Celestial Movers in Medieval Physic. Tomist, v. 24, 1961, p. 286-326. Cf. Summa contra Gentiles I, 17. Summa Teologica. Vol. I. De Unitate Divina – Q. XI, A. 3 e 4. Cf. Summa Teológica. Vol. I. De Simplicitate Dei – Q. III, A. 1, 2, 3, 4 e 7. Cf. Ibid., An Deus Sit – Q. II, A. 3 (Quinta via). De Perfectione Dei – Q. IV, A. 1 e 2. De Scientia Dei – Q. XIV, A. 1, 5, 8 e 12. Cf. Ibid., De Dei Immutabilitate – Q. IX, A.1 e 2. De Dei Eternitate – Q. X, A. 1 e 4. KOZLOWSKI, W. O dowodach istnienia Boga. Warszawa 1960, p. 61. PIETKUN, W. Dowod kinetyczny wobec teorii kwantow. Ateneum Kaplanskie, v. 52, 1950, p. 185-197. Ibid., p. 191. Ibid., p. 193. Ibid., p. 194. Cf. BEJZE, B. W kierunku Boga. Warszawa 1982, p. 204 e 219. FILIPPO SELVAGGI. Filosofia do mundo. São Paulo: Edições Loyola, 1988. p. 70-74. E também, COLLIN A. RONAN, 1991, p.195. A entropia (do grego: entropê = involução). É um termo vinculado à noção de degradação da matéria. Trata-se de um valor quantitativo correspondente ao segundo princípio da termodinâmica de Carnot e de Clausius, conforme o qual, a evolução de um sistema fechado procede necessariamente de tal maneira que sua entropia permanece estacionária ou vai crescendo e, em conseqüência disso, assinala a uma grandeza que é função da degradação irreversível da energia. Ver, LUIS BARRAL. Fundamentos científicos de Teilhard de Chardin. Lisboa: Livraria Morais Editora, 1965. p. 173-187. Cf. HEINZ R. PAGELS. O código cósmico. Lisboa : Gradiva, 1982. p. 365. Ver, STEPHEN W. HAWKING. Breve história do tempo: do Big Bang aos buracos negros. 4. ed. Lisboa: Gradiva, 1996. p. 110. Cf. DAVID FILKIN. O univrso de Stephen Hawking. Lisboa: Publicaçoes Alfa, 1998. p. 80-84. George Lemaître (1894-1966), um padre católico e o mais famoso astrônomo belga, o principal cosmólogo teórico a trabalhar no observatório do Vaticano, advogava a tese do estado inicial de alta densidade, a que chamou “átomo primevo”. Foi ordenado sacerdote em 1927, no mesmo ano em que obteve o grau de doutor (PHD) e publicou o seu trabalho sobre a origem do universo. Era uma figura popular na Academia de Ciências Pontíficias. Porém, os astrofísicos daquele tempo demoravam muito a levar em consideração a sua teoria pioneira do “Átomo Primevo”. Ano 1 • n. 1 • jul./dez. 2007 - 13 CURSO DE FILOSOFIA 28 29 Cf. STEPHEN W. HAWKING, 1996, p. 74. COLLIN A. RONAN, 1991, p. 32. “No século XIX, o físico britânico Lord Kelvin defendeu que aos 273ºC negativos a energia do movimento das moléculas devia ser igual a zero”, entrando no estado da inércia total. Endereço para contato: e-mail: [email protected] 14 • UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO