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02
DEZEMBRO
2007
CENÁCULO
Boletim on line do
Museu de Évora
E d i t or : J o a q u i m O l i v e i r a C a e t a n o
per i od i c i dade : s e m e s t r a l
M useu de É v ora
artigos
Largo Conde de Vila Flor
7000-804 Évora
O oratório indo-português do Museu de Évora.
Estudo, conservação e restauro
Conceição Ribeiro
O oratório indo-português do Museu de Évora.
Análise dos materiais e técnicas
Ana Pereira
TLF 266 702 604
E-mail: [email protected]
Sombras e alguma luz sobre o bispo D. Afonso
de Portugal
Joaquim Oliveira Caetano
Os artigos são da responsabilidade
dos autores e não expressam
necessariamente a opinião do Museu
de Évora.
Francisco Machado e a oficina de retábulos do
Arcebispo de Évora
Celso Mangucci
A utilização integral ou parcial dos
textos do boletim deve ser sempre
Museus, comunidade e desenvolvimento:
o caso do Museu de Évora
Maria João Lança
acompanhada pela citação do nome
dos autores, título dos textos e a
referência à essa publicação on-line.
projectos
Os militares da Reconquista Cristã. Dados
antropológicos sobre o passado Medieval e
muçulmano de Évora.
Ana Luísa Santos e Cláudia Umbelino
O retábulo flamengo do Museu de Évora.
Algumas reflexões sobre um processo de
investigação em curso
Joaquim Oliveira Caetano
notícias
As estelas funerárias do Museu de Évora
António Alegria
francisco machado e a oficina de
retábulos do arcebispo de évora
Celso Mangucci
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Francisco Machado e a oficina de retábulos do
arcebispo de Évora
Celso Mangucci
Exceptuando-se a autoridade régia, o poder de acção do arcebispo em Évora era verdadeiramente inigualável, apoiado por fecundas e constantes rendas da mais vasta diocese de
Portugal1. O cume da hierarquia religiosa e uma grande tradição de exemplos históricos o
faziam actor principal na afirmação cultural e política da cidade de Évora. Da sua autoridade
e magnanimidade - e do seu juízo intelectual e artístico - esperava-se a firme liderança de
uma das mais importantes cidades do reino ou, para nos atermos ao espírito da época, a
eleição do arcebispo, e nomeadamente de D. Frei Luís da Silva Teles, suscitava na população
a esperança de “grandes fortunas e o remédio de todas as suas necessidades”2.
O longo e sinuoso processo de afirmação da independência política, na segunda metade do
século XVII, demanda um projecto de reconstrução da identidade nacional e de justificação política da monarquia que tendeu a reforçar Lisboa como capital política e cultural. O
Arcebispo D. Frei Luís da Silva Teles, primo de Manuel Teles da Silva, primeiro Marquês de
Alegrete, encontrava apoio na facção liderada pelo Duque de Cadaval. Irmão da Santíssima
Trindade, ordem em que professou, foi nomeado, em 1671, por D. Pedro II, então príncipe
regente, Bispo de Ticiópolis e Deão da Capela Real, construindo uma carreira brilhante,
sucessivamente ocupando as cátedras dos bispados de Lamego e Guarda e, finalmente, o
arcebispado de Évora.
Do seu governo em Évora, conhece-se uma biografia escrita por um dos seus “familiares”,
provavelmente um seu secretário, com uma demonstração rigorosa do dispêndio das verbas
na correcção e adorno dos conventos e igrejas do arcebispado. Na sua laudatória contabilidade, o manuscrito, publicado por Túlio Espanca3, relata o comprometimento pessoal do
Arcebispo e o furor renovador de um infindável número de projectos – a porta principal da
Sé de Évora, a jóia-relicário do Santo Lenho, a reforma da Igreja de São Pedro, a construção
do Colégio dos Meninos Órfãos da Sé, dos dormitórios do Convento de São João, em Évora,
e a fundação do Convento de Nossa Senhora da Conceição, da Congregação do Oratório, em
Estremoz, etc. Desde as obras mais pequenas às mais importantes, sempre identificadas
com as suas armas.
CENÁCULO Boletim on line do Museu de Évora | n.º 2 | Dezembro 2007 | página Celso mangucci francisco machado e a oficina de retábulos do arcebispo de évora
É a partir de Lisboa, de uma perfeita sintonia
com a corte e com o discurso artístico da
capital do reino, que D. Frei Luís da Silva
Teles estabelece a confiança nos artistas, ao
mesmo tempo em que articula uma relação
de complementaridade entre as diversas
artes. O exemplo mais conhecido compromete-o com o pintor régio Bento Coelho da
Silveira4. Foi ao tão afamado quanto idoso
pincel que o Arcebispo recorreu para as
telas dos retábulos da capela-mor da Igreja
de Nossa Senhora do Bispo, em Montemor,
e para a de Santo Antão, em Évora. Na igreja
de São Pedro, num caso que demonstra a
sua forma pessoal de identificação com as
obras dos artistas escolhidos, ainda foi convencido a experimentar um pintor eborense,
para depois desencantar-se com o resultado
e voltar a solicitar os préstimos do seu
preferido, doando as primeiras telas para o
convento dos padres terceiros no Vimieiro5.
Uma relação clientelar semelhante existia
com um mestre de Lisboa que forneceu os
azulejos para a Igreja de São Pedro e para
as escadas da tribuna da Igreja de Santo
Antão, e a quem, pessoalmente, como se
conta na sua biografia6, o Arcebispo solicitou
os azulejos para a decoração das pilastras
do Convento de Santa Helena do Monte
Calvário. É provável tratar-se de Domingos
Antunes7, um importante mestre azulejador
que, em 1702, fornece os azulejos de padrão
para os corredores e paredes do claustro do
Convento do Oratório de Estremoz, um dos
projectos que o arcebispo, falecido no ano
seguinte, não pode ver concluído.
A obra e a importância do mestre entalhador lisboeta Francisco Machado foi sendo
reconhecida através das primeiras notas de
Túlio Espanca (1978) e Vítor Serrão8 (19841985 e 2003) e, de forma mais extensa, pelas
investigações de Miguel Ángel Vallecillo
Teodoro (1996), a quem se deve a identificação dos contratos notariais para as mais
importantes obras do mestre entalhador e
uma primeira visão de conjunto da sua obra.
Em monografia recente, dedicada a talha
dourada da Companhia de Jesus, Francisco
Lameira (2006), quanto a nós com pouca justificação, atribuiu uma série de retábulos da
Igreja do Espiríto Santo ao mestre Francisco
Machado.
Pelo que sabemos, foram os jesuítas os
primeiros a patrocinarem o talento de
Francisco Machado. Das suas dez obras
identificadas, as primeiras quatro, o retábulo
de São Sebastião para a capela da Quinta dos
Apóstolos, o de São Francisco Xavier para a
igreja do Espírito Santo, e os dois retábulos
para a actual igreja de São Bartolomeu, em
Vila Viçosa, foram realizadas para os padres
da Companhia de Jesus. Essa frutuosa relação valeu-lhe ainda a encomenda, em 1703,
do retábulo de Nossa Senhora da Boa Morte,
a última obra documentada do mestre entalhador. Mas é com o apoio do Arcebispo de
Évora que Machado vai ter a oportunidade de
executar os seus principais trabalhos, onde
se destacam o retábulo da Nossa Senhora do
Anjo, na Sé, o majestoso retábulo da capelamor da Igreja de Santo Antão, e o desaparecido retábulo da Igreja de São Pedro.
Essas três obras, realizadas num fôlego
contínuo, estabeleceram uma forma inusitada de cooperação, já que D. F. Luís da Silva
1. Retábulo de
Nossa Senhora
da Anunciada da
Igreja do Colégio
do Espírito Santo.
Foto do autor.
CENÁCULO Boletim on line do Museu de Évora | n.º 2 | Dezembro 2007 | página
Celso mangucci francisco machado e a oficina de retábulos do arcebispo de évora
Teles vai obrigar a instalação da oficina de
marcenaria de Francisco Machado no próprio Paço Episcopal, assumindo também os
pagamentos semanais aos seus oficiais. Se
por um lado, essa obrigação contratual era
um constrangimento à liberdade de acção
do mestre entalhador, assim colocado sob a
supervisão e vigilância constante dos cónegos e criados do arcebispo, foi um suporte
essencial para que Machado actuasse como
um verdadeiro arquitecto de retábulos,
realizando os desenhos, dirigindo os oficiais
entalhadores e responsabilizando-se pela
montagem final de estruturas cada vez mais
complexas em prazos exíguos e rigorosos.
No que não é de certeza uma coincidência,
depois de trabalhar para os jesuítas em Évora,
Francisco Machado desloca-se à Vila Viçosa
para trabalhar novamente para os jesuítas e
para a igreja de um colégio (actual Igreja de
São Bartolomeu). Foi nesta cidade, entre os
anos de 1687 e 1689 que, em colaboração com
o mestre carpinteiro calipolense Bartolomeu
Dias, realizou os dois retábulos para as capelas colaterais, um pelo modelo do outro.
O primeiro, dedicado a Nossa Senhora da
Conceição12, era capela privativa de D. Luís
de Noronha e de sua mulher e, o segundo,
dedicado a São Francisco Xavier, foi patrocinado por Manuel Lopes, almoxarife do Paço
2. Antiga Capela
de São Francisco
Xavier na actual
Igreja de São
Bartolomeu (Vila
Viçosa).
Foto dos Arquivos
da DGEMN.
NA COMPANHIA DE JESUS
A primeira obra conhecida de Machado data
de 1684, ano em que realiza o retábulo para a
irmandade de São Francisco Xavier na igreja
do colégio jesuíta do Espírito Santo de Évora9.
Nessa data, o mestre encontra-se em Lisboa,
nomeando o entalhador Pedro Silva, de Évora,
como seu procurador10. No contrato se faz
referência a dois “rascunhos” apresentados
para que os irmãos de São Francisco Xavier
façam a sua opção. Seduzidos por valores
plásticos contemporâneos, o padre juiz da
irmandade, o tesoureiro e demais irmãos indicam uma obra anterior de Machado, um dos
retábulos realizados para a capela da Quinta
dos Apóstolos, “de talha mais vista e mais
miúda”. O retábulo de São Francisco Xavier
que não podemos identificar com nenhuma
das estruturas retabulares actualmente
presentes na Igreja do Espírito Santo, deveria
assemelhar-se ao actual retábulo de Nossa
Senhora da Anunciada onde se estabelece
um compromisso entre a continuidade e a
renovação, seguindo na sua estrutura as linhas maneiristas do retábulo da capela-mor,
com três tramos de largura, mas utilizando
as novas colunas torças barrocas. Toda a
superfície é trabalhada com uma profusão
de ornatos, mas em baixo relevo. Percebese o cuidado, é apenas o início da renovação
barroca que vai expandir-se, nas próximas
décadas, nas capelas da Igreja do Espírito
Santo11.
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Celso mangucci francisco machado e a oficina de retábulos do arcebispo de évora
Ducal de Vila Viçosa. Sem o peso institucional
e formal do templo eborense, os padres jesuítas – os reais supervisores da obra – podem,
sem constrangimentos, optar pelo moderno,
e as colunas torças, decoradas com folhas de
vide e anjos, prolongam-se em arquivoltas
concêntricas, também torças13. A talha dourada, assumindo um discurso arquitectónico,
extravasa para o exterior, criando um frontispício para a capela, e o relevo das pilastras
e do arco decorados com enrolamentos de
folhas de acanto, oscila delicadamente entre
o baixo e o meio relevo, enquanto as volutas do frontão submergem sob o peso das
folhagens. É o primeiro retábulo, em estilo
nacional, do mestre entalhador de Lisboa.
dos retábulos preexistentes na nave central,
com uma moldura coroada por um frontão
de volutas. Como de costume, as armas do
arcebispo estão pintadas no intradorso do
arco, em meio às pujantes decorações vegetalistas de brutesco.
SEDE VACANTE
Alguns anos depois, de volta à Sé de Évora,
Francisco Machado poderá realizar, com
outros meios e outra ambição, o novo retábulo para a Virgem do Anjo. O programa de
renovação barroca deveria inevitavelmente
incluir a reconstrução da capela-mor, para
o qual se tem notícia de um desenho do
Pelo contrário, a primeira obra realizada
por Francisco Machado14, na Sé de Évora,
os nove retábulos das capelas das naves
laterais, ressente-se da falta desse impulso
renovador. A construção havia sido iniciada
ainda no ministério do Arcebispo D. José
de Melo (1611-1633) com o objectivo de remover os altares adossados às colunas da
nave central. Continuadas com paragens
constantes, em período da Sede Vacante, os
retábulos só foram contratados15 em 1690,
para serem desmantelados durante as obras
de ”restauro” promovidas pela Direcção
Geral dos Monumentos Nacionais16, em
1939. Marcando o fim de um ciclo, encerrados no fundo dos arcos capelas, são uma
estreia tímida das colunas espiraladas e do
vocabulário ornamental barroco no principal
templo da diocese.
A encomenda antecede a escolha de D. Frei
Luís da Silva Teles, eleito Arcebispo de Évora
somente em princípios de 1691, mas a proposta do desenho, de autoria de Francisco
Machado17, e as verbas envolvidas foram
aceites e pagas pela magnanimidade do novo
prelado, evitando-se os conflitos devidos aos
gastos exagerados normalmente atribuídos
ao deão e aos cónegos administradores da
Sé.
3. Capela lateral
da Sé de Évora,
c. 1940. Foto
do Arquivo da
DGEMN.
Tanto quanto podemos observar pelos registos fotográficos da DGEMN, os retábulos
possuem o mesmo desenho, definindo uma
unidade de conjunto e hierarquizando o discurso das imagens devocionais, dominado
pelo retábulo da capela-mor. A planta, linear, dispõe as pequenas colunas em pares
alinhados como nos retábulos maneiristas
e na primeira obra de Machado no Colégio
do Espírito Santo. A parte central, preponderante em termos de escala, é ocupada
por uma pintura ou imagem, recuperadas
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de talha, não só pela mão-de-obra envolvida,
mas também pelos significativos custos da
madeira importada. O retábulo, que desapareceu com a degradação do imóvel a partir
da nacionalização dos bens eclesiásticos,
seria dourado pelos pintores eborenses
Santos Marques e Francisco de Sousa, que
se encarregaram também da decoração de
brutesco dos tectos e paredes entre o arco
e a capela20, uma opção decorativa sempre
presente nas obras do arcebispo.
arquitecto João Nunes Tinoco, solicitado em
tempo dos cónegos administradores, e para
o qual D. Luís da Silva Teles deixou vultosas
verbas em testamento, mas que, como se
sabe, seria executada segundo projecto de
Federico Ludovice.
A PRIMEIRA CAPELA-MOR
Segundo o elogioso secretário, “quando o
Arcebispo esteve em Montemor, viu que a
Igreja de Nossa Senhora do Bispo, Matriz da
mesma Vila e de que os Arcebispos são priores, estava tão arruinada e com indecência
para ser casa de Deus, que logo a mandou
reparar e fazer na capela-mor um formoso
retábulo de bela talha, com sua tribuna e
dentro um trono magnifico para se expor o
Santíssimo, e na boca da mesma tribuna um
admirável painel, obra do grande pintor de
Lisboa, Bento Coelho…”18.
A memória do retábulo perdido é confirmada
por um contrato19, celebrado em 1692, que
estipula as cláusulas onde se ensaiam as linhas de colaboração que, nos próximos anos,
unem o arcebispo ao mestre entalhador.
A primeira particularidade é que Silva Teles
compromete-se a pagar as férias semanais
dos oficiais de Machado. Com o progressivo
desenvolvimento das grandes máquinas de
retábulos barrocas, os custos mais importantes passam a ser adstritos aos projectos
Entre Montemor e a nova encomenda para a
Sé de Évora, existe um hiato de cinco ou seis
anos do qual desconhecemos a actividade de
Francisco Machado, e é possível que tenha
voltado a trabalhar para o Colégio do Espírito
Santo. Em 1697, o arcebispo participou na
reunião das cortes na capital e, em 1699,
preparou a recepção à rainha D. Catarina de
Bragança. Ao que parece esteve envolvido
amorosamente com uma encantadora freira
de Beja, num episódio novelesco que reúne
decretos reais desobedecidos, uma família
nobre arruinada, um irmão em litígio com
a sua ordem religiosa e deportado para as
Índias, uma amante insubmissa e uma janela
indiscreta21.
A MONTANHA DE OURO
Dando continuidade ao plano dos seus predecessores, o novo arcebispo propõe a renovação do retábulo da Nossa Senhora do Anjo
que envolvia uma das colunas da nave central
da Sé de Évora. Contratado em 1699, o altar
manteria a sua primitiva orientação tardo
gótica, afrontando a imagem da Virgem com
o anjo na coluna. Para o crente, um primeiro
plano de ouro, logo a entrada, faria, à época,
um contraponto com o majestoso retábulo
flamengo da capela-mor, encomendado pelo
bispo D. Afonso de Portugal.
Segundo as palavras do seu biógrafo-contabilista22, a capela causava admiração “porque sendo o altar encostado a uma coluna
ou poste, ou como outros chamam gigante
da Sé, de tal sorte ficou a coluna ornada que
forma um monte de ouro, ficando a soberana
imagem da Senhora em uma linda tribuna”.
4. Retrato de
D. Frei Luís da
Silva Teles. Sé
de Évora, Galeria
dos Retratos
dos Bispos e
Arcebispos.
Foto do Autor.
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A “admirável arquitectura” era uma caixa de
ouro, visível de todos os lados, que envolvia a
coluna e dava suporte ao retábulo. Para dotar a caixa-capela de um discurso coerente,
Francisco Machado optou por acrescentar,
sobre o fecho das arquivoltas espiraladas
do retábulo, um segundo entablamento
mais recuado e coroado por um frontão.
Diversificando os pontos de observação, as
laterais da capela são oblíquas e direccionadas para os fiéis da nave, e recebem dois
pequenos nichos com as imagens relicário
de São Felipe Néri e São Francisco Xavier,
esculpidas e estofadas em Lisboa.
Num esforço de renovação do discurso
barroco, pela primeira vez nas estruturas de
Machado, as figuras escultóricas tornam-se
independentes e nos apoios laterais dois
arcanjos apoiam-se sobre a abóbada da
capela. As colunas torças, decoradas com
videiras, anjos e fénixes, uma metáfora óbvia
de sentido eucarístico, enriquecia-se com os
meios relevos dispostos nas mísulas das colunas e ao redor do retábulo, representando
os emblemas associados às virtudes de
Maria – o sol, a lua, a torre, etc - num reforço
da componente simbólica da arquitectura do
retábulo.
formado por uma edícula maneirista com
uma tela representando a “As Tentações de
Santo Antão” rodeada por um surpreendente
grupo escultórico. Como homenagem ao seu
patrono, na parte superior das colunas, sentam-se duas esculturas douradas em vulto,
representando a Fortaleza e a Prudência,
virtudes cardeais que personificam as
qualidades da acção política do Arcebispo.
Anunciando a fama póstuma, num plano mais
recuado arcanjos trombeteiros e turiferários
ladeiam as armas do prelado.
É também Santo Antão o único conjunto que
conserva uma indicação repetidamente imposta por D. F. Luís da Silva Teles para aos
desenhos das tribunas dos retábulos maiores
de Francisco Machado24. Preocupado com
a funcionalidade litúrgica das máquinas, o
arcebispo exigia que, para a exposição do
Santíssimo Sacramento, nomeadamente
durante as cerimónias do Lausperene, o
interior da casa da tribuna também fosse
lavrado e dourado e sobre o trono houvesse
um baldaquino formado por uma coroa imperial sustentada por dois anjos.
Mal Francisco tinha dado início ao retábulo
HERÓICAS VIRTUDES E HOMENAGENS
PÓSTUMAS
Em 1701, o septuagenário arcebispo, com
a saúde debilitada, reúne forças para a
encomenda do monumental retábulo da
capela-mor da Igreja de Santo Antão23, pela
exorbitante soma de 5 mil cruzados, um dos
mais caros projectos de talha dourada em
Évora, no século XVIII.
Fazendo mais uma vez prova da capacidade
de interpretação das intenções dos comandatários e da capacidade de diálogo com
os valores da arquitectura preexistente,
Francisco Machado propõe, para as elevadas
naves do templo mandado erguer pelo cardeal-infante, um retábulo-pórtico ladeado
por duas colunas colossais, com o grande
arco da tribuna recoberto por uma tela do
omnipresente Bento Coelho. De forma inovadora, para o ático, criou um segundo registo
5. Emblema
Mariano. Mísula do
retábulo da Nossa
Senhora do Anjo.
Sé de Évora
Foto do Autor.
6. (página
seguinte) Retábulo
da Nossa Senhora
do Anjo. Sé de
Évora
Foto do Autor.
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Celso mangucci francisco machado e a oficina de retábulos do arcebispo de évora
de Santo Antão, e já D. Luís da Silva Teles solicitava-lhe o retábulo para a capela-mor da
Igreja de São Pedro, uma das mais antigas
freguesias da cidade, que o arcebispo, entre
os achaques da doença, miraculosamente
aplacados pelas procissões piedosos dos
cidadãos eborenses, queria ver reformada
antes da sua morte.
As vicissitudes do edifício no século XIX,
com a profanação da sede da freguesia,
e sucessivas ocupações destruíram por
completo o espaço de culto. A biografia de
D. Luís da Silva Teles é, novamente, uma
das poucas memórias do projecto, que unificou o espaço ocupado pelas antigas três
naves medievais do templo: “Mandou pintar
o tecto da igreja, que se fez de estuque, e
o do novo coro, como também de singular
brutesco verde e ouro o tecto da capelamor, e só o risco para a pintura dos tectos
lhe custou ao Arcebispo quatro moedas de
ouro. Na capela-mor mandou fazer um retábulo de primorosa talha com sua tribuna,
e trono dentro tudo dourado, como também
dois retábulos da mesma talha para os dois
altares colaterais”25.
Com a conjugação da conclusão das obras
de São Pedro e o falecimento do seu
mecenas, Francisco Machado pode voltar
para os jesuítas, realizando um projecto
para o transepto a Igreja do Espírito Santo.
Dedicado à Nossa Senhora da Boa Morte,
foi contratado em 1703, e ao contrário dos
documentos firmados com o Arcebispo,
em que o desenho do mestre entalhador
apresenta já o resultado de discussões preliminares do projecto, este descreve com
minúcia a obra: “o dito reta/bulo há de ser
de talha de cardo, levantada ao menos como
a do retábulo de Santo Ignacio/ e bem assim
nos três claros do tecto para os Emblemas
que o Reverendo Padre Protector/ lhe assinar; E bem assim que no claro da tarja abrirá
a Coroação da Senhora como está/ pintada
no retábulo velho; e bem assim que o quadro
da Senhora há de sair/ para fora, sustentado
de quatro anjos de escultura; e bem assim
o túmulo da Senhora deve/ ser lavrado por
dentro; e bem assim que os quatro anjos dos
nichos hão de ter escudos para/ empresas
que lhe assinar o padre protector e do
mesmo modo os dois anjos que sustentão/
o túmulo; E bem assim que o retábulo deve
encostar imediatamente na parede/ que fica
atrás do retábulo para deixar mais de dois
palmos para o altar26.
Com um espaço restrito, Francisco Machado
opta por uma planta linear, que adequa à
escala delicada do arco central da galeria
clássica. Actualmente, a colocação do painel
quinhentista e a substituição do túmulo de
Nossa Senhora por uma mesa de altar, alteram em parte a leitura do conjunto, que vive,
seguindo as sugestões jesuítas, dos preciosos trabalhos de meio-relevo de Machado.
FRANCISCO MACHADO E O ARCEBISPO
O conjunto que conhecemos da obra de
Francisco Machado põe em relevo a importância da relação de continuidade articulada
entre um mestre-artífice e os seus mecenas.
No conjunto da sua obra, o mestre entalhador
realizou cinco retábulos para a Companhia
de Jesus e outros quatro sob a supervisão
directa do Arcebispo de Évora. Para D. Luís
da Silva Teles essas obras, cuidadosamente
escolhidas para edifícios emblemáticos da
cidade e das vilas do arcebispado – Igreja de
Nossa Senhora do Bispo, em Montemor, Sé
de Évora, Igreja Paroquial de Santo Antão,
Igreja Paroquial de São Pedro -, possuem
uma amplitude significante mais vasta, representando também a dignidade episcopal
e a própria qualidade do seu governo pastoral. Os retábulos são uma demonstração
pública da magnificência do arcebispo, da
sua força moral e do seu zelo católico. Com
esse objectivo, justifica-se o dispêndio de
consideráveis verbas, o empenho na escolha
cuidadosa dos mestres artífices, e mesmo a
criação de condições especiais para perfeita
execução da obra.
Os dois comitentes conhecidos, os Padres da
Companhia de Jesus e o Arcebispo de Évora,
têm exigências muito precisas, seja ao nível
da estrutura do retábulo, seja na forma e
da qualidade de representação plástica dos
7. Retábulo
da capela-mor
de Santo Antão
(Évora)
Foto do autor.
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Celso mangucci francisco machado e a oficina de retábulos do arcebispo de évora
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Celso mangucci francisco machado e a oficina de retábulos do arcebispo de évora
elementos ornamentais e simbólicos, seja
nas adaptações específicas para as celebrações litúrgicas. A ideia de actualização e
de modernidade da linguagem artística está
sempre presente, embora a especificidade
de cada projecto, marcados pela história
arquitectónica do edifício, possa justificar
processos de continuidade e de compromisso.
Uma das fontes perenes para os arquitectosentalhadores, nos séculos XVII e XVIII, foi o
sistema de proporções do Tratado de Regla
de las cinco ordenes de architectura de
Jacome de Vignola27, que ao estipular um
sistema de dimensões para as ordens clássicas (incluindo as colunas torças), permitiu
uma abordagem estrutural da linguagem
arquitectónica, isto é, das ordens clássicas,
fosse qual fosse as dimensões das capelas.
Foi essa ideia de proporção sistémica um auxílio fundamental para a manutenção de uma
ordem de representação entre os diversos
elementos, como um fio condutor, mesmo
sob a avalanche dos ornamentos.
Com um pé na tradição maneirista e outro na
inovação barroca, mas sempre fazendo prova de uma invulgar cultura arquitectónica,
Francisco Machado, trabalhando na maior
parte das vezes em edifícios com memória e
tradição, organiza a estrutura dos retábulos
de maneira a articular-se com os valores
arquitectónicos prevalentes. Foi assim que,
para as capelas laterais da Sé de Évora, interpretou uma estrutura maneirista essencial,
que teimosamente informava as obras sem
fim da Sede Vacante. Para a Senhora do Anjo,
já sob os desejos do Arcebispo, apoiou-se no
“Estilo Nacional” enquanto que para Santo
Antão gizou as monumentais colunas torças
como equivalentes das do interior da nave,
e prescindiu das arquivoltas espiraladas no
fecho do arco para incluir uma homenagem
póstuma às virtudes do arcebispo.
arquivoltas espiraladas e pela independência
das figuras aladas, criando no ático uma
continuidade espacial e perspéctica coma
decoração dos tectos.
Foi sem dúvida a recusa de soluções padronizadas que marcam tantos artífices do
período, a razão da influência da sua obra,
marcante por exemplo no retábulo para a
Misericórdia de Évora, do mestre entalhador
Francisco da Silva28, que para vencer o desafio e a monumentalidade do edifício de nave
única de estilo chão, retoma as propostas de
Santo Antão.
Como pudemos seguir através da sua biografia, D. Frei Luís da Silva Teles entrelaçou, de
maneira indissociável, a sua personalidade
voluntariosa e a dignidade episcopal com os
seus ideais artísticos. Com seu autoritarismo
e paternalismo atávicos, impôs a Francisco
Machado a realização das obras de talha
dourada da forma que mais lhe convinha:
no Paço Episcopal, sob a sua supervisão, em
prazos rigorosos, com um verdadeiro contrato de exclusividade.
8. Anjo
cavalgando uma
fênix. Retábulo
da capela-mor
de Santo Antão
(Évora)
Foto do autor.
É com facilidade que Francisco Machado
desenha retábulos de modernização dos protótipos maneiristas e que ensaia novas soluções que transcendem o figurino mais estrito
do Estilo Nacional. Nas suas últimas obras,
nota-se uma opção clara pelo abandono das
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Celso mangucci francisco machado e a oficina de retábulos do arcebispo de évora
NOTAS
1966: 81-88.
1] Para uma ideia comparativa dos rendimentos
das dioceses portuguesas e da forma de administração económica veja-se o artigo de José Pedro
Paiva sobre a gestão de D. Frei Luís da Silva Teles
no bispado de Lamego.
12] Foi dourado, em 1697, pelo mestre João de
Touro Freitas Alfange, pela importância de 265
mil réis, na mesma forma que fora dourado o retábulo de São Francisco Xavier (ESPANCA, 1978:
674).
2] “Memória da vida e morte do 10º Arcebispo de
Évora, D. Frei Luís da Silva Teles” publicado por
Túlio Espanca (1986-1987) na revista A Cidade de
Évora.
13] ESPANCA, 1978: 674 e VALLECILLO TEODORO,
1996: 244-246.
3] Obra citada na nota anterior.
4] Das obras mencionadas, apenas chegaram até
nós as telas do retábulo de Santo Antão. O arcebispo de Évora pode ter estado também na origem
da encomenda da série de Bento Coelho para o
Convento de Santa Helena do Monte Calvário.
5] “Para melhor compostura da capela-mor,
mandou fazer pelo famoso pintor Bento Coelho
um grande painel para a boca da tribuna, no qual
se vê São Pedro recebendo, de joelhos, da mão de
Cristo, as chaves da Igreja. Este painel com duas
roldanas se desse e sobe por detrás do sacrário
para ficar na boca da tribuna. Custou 40$000 réis.
E porque em Évora se havia feito outro painel que
não agradou ao arcebispo, o mandou pagar, dando
20$000 ao pintor, e deu de esmola aos padres terceiros do Vimieiro, que lho pedirão para a tribuna
da sua igreja”. (ESPANCA, 1986-1987: 156)
6] “Achava-se nessa ocasião, em Évora, o mestre
azulejador que tinha vindo de Lisboa assentar o
azulejo da Igreja de São Pedro e escada da tribuna de Santo Antão. Mandou o Arcebispo chamar
tal mestre, e lhe ordenou fosse logo à Igreja do
Calvário, e tomasse as medidas às pilastras para
se revestirem na forma que o mesmo arcebispo
lhe explicou, recomendando lhe muito a brevidade
com que havia de fazer aquela obra” (ESPANCA,
1986-1987: 169).
7] Mangucci, 2003:136.
8] Na revista A Cidade de Évora, em 1984-1985,
Túlio Espanca publicou na sua “Nova Miscelânea”,
os extractos das notas dos tabeliães notariais
investigadas por Vítor Serrão.
14] O nome do mestre entalhador encontra-se
identificado nas notas da reunião de 26 de
Setembro de 1691: “Em Cabido ordinário de 26 de
Setem/bro de 1691, sendo Presidente o Senhor/
Deão, se assentou fossem dando a/o Mestre de
entalhador Francisco Ma/chado, digo que o Padre
Sebastião Ferreira fará os pagamentos, e o senhor Agos/tinho Caldeira Pimentel protestou/ não
pagar da sua Prebenda couza/ alguma por quanto
a escritura que se/ fez com o dito entalhador
dispõem o con/trario” (Arquivo da Sé de Évora
Registos do Cabido, CEC 14 V 33, fl. 23).
15] Pelas actas das reuniões do Cabido, sabe-se
que primeiro foi encomendado um retábulo e,
posteriormente, mais oito. A primeira reunião
data de 22 de agosto de 1690: “Neste Cabbido se
assentou, que se falasse com/ o frade dos órgãos,
se queria concertar o ou/tro, e fazer o piqueno
[...]/ outro si q o entalhador fizesse hum re/tabolo
por preço de sincoenta mil rs., descontandolhe os
vinte mil rs. que lhe deu o senhor/ Rui de Moura
para os Bordos” . A segunda, de 18 de Novembro
de 1690 : “Assentouse mais ajustandosse/ com
official dos retabolos, que fizesse/ os outo por
preço de sessenta mil/ e quinhentos rs., e que
se faça escritura/ dando o homem fiança de 150U
de/ fazendas como disse tinha, com clausu/las de
athe certo tempo dar os re/rabolos feitos, e não os
dando perde/ria alguma couza do preço por que/
se ajustou fazer-los, e que se lhe podi/ão dar logo
120 mil rs. para ir comprar/ madeiras, e depois
como fosse fazendo os retabolos se lhe hirião
dan/do alguns tostoins conforme os me/reçesse.”
(Arquivo da Se de Évora, Registos do Cabido, CEC
14 V 33, fl. 52 v.)
10] ADE. CNE. Livro 945, fol. 124. São também
procuradores António Rodrigues, mestre sapateiro, Nicolau Nunes, mestre carpinteiro, e
testemunhas o marceneiro Valentim Correia e o
entalhador Tomé da Silva.
16] No processo de obras, no ano de 1939, descreve-se de maneira sumária das obras realizadas:
“Demolição de construções e escadas, apeamento de altares em talha e retábulos das capelas
laterais e de uma porta gradeada do vestíbulo,
reparo de pavimentos e assentamento de escadaria, reparo de frestas e rosáceas” (Arquivo da
DGEMN, Évora, Processo de obras da Sé Catedral
de Évora).
11] Para uma história da evolução das invocações
das capelas da igreja do Colégio do Espírito Santo
e das campanhas decorativas, veja-se ESPANCA,
17] “Porque estando os retabolos de talha das
nove capellas do corpo da Igreja muito no seo
princípio, mandou chamar ao Mestre Entalhador
9] VALLECILLO TEODORO, 1996: 151.
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Celso mangucci francisco machado e a oficina de retábulos do arcebispo de évora
9.Azulejos com
a obra, lhe ordenou a findasse segundo o risco
que havia feyto, e fora aprovado pello Cabido Sede
Vacante, o que com efeyto se fes, e lhe mandou
dar, o que lhe restava a dever, que erão 111$880
rs.” (ESPANCA 1986-87: 150).
as armas do
Arcebispo D. F.
Luís da Silva Teles
Foto do autor.
18] ESPANCA, 1986-1987: 145
19] VALLECILLO TEODORO, 1996: 151.
20] ADE, CN, Livro 1024, 4v.º.
21] ESPANCA, 1986-1987: 142-143.
22] ESPANCA, 1986-1987: 157-158.
23] VALLECILLO TEODORO, 1996: 151
24] Mencionadas também nos contratos das
capelas-mores de Nossa Senhora do Bispo e de
São Pedro. Veja-se a transcrição, no fim do texto,
dos respectivos contratos.
25] ESPANCA, 1986-1987: 165.
26] ESPANCA, 1984-1985: 113-114. ADE, CNE,
Tabelião José Henriques de Vilhena, Livro 1037,
fol. 111 vº - 112 vº.
27] É o único caso de um tratado de arquitectura
que se sabe ter pertencido a um mestre entalhador, de nome João Amado, na edição madrilena
de 1693 (LAMEIRA, 2000: 237).
LAMEIRA (2006), Francisco Ildefonso, O retábulo
da Companhia de Jesus em Portugal: 1619-1759.
Faro: Departamento de História, Arqueologia e
Património da Universidade do Algarve.
Mangucci (2003), António Celso, Talha, azulejos
e pintura: a iconografia da Misericórdia em
Évora, comunicação apresentada ao encontro “As
Misericórdias como fonte de Cultura”. Câmara
Municipal de Penafiel.
MANGUCCI (2003), Celso, “A Estratégia de
Bartolomeu Antunes: mestre ladrilhador do Paço
(1688-1753)”. Al-Madan, IIª série, n.º 12, Dezembro
2003, pp. 135-148.
28] Mangucci, 2003
BIBLIOGRAFIA
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ESPANCA (1978), Túlio, Inventário Artístico
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Alandroal, Borba, Mourão, Portel, Redondo,
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Belas Artes.
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PAIVA (s/d), José Pedro, “D. Fr. Luís da Silva e a
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VALLECILLO TEODORO (1996), Miguel Ángel,
Retablística Alto Alentejana (Elvas, Villaviciosa
y Olivenza) en los siglos XVII-XVIII. Mérida:
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Centro Regional de Extremadura.
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morte do 10º Arcebispo de Évora, D. Frei Luís da
Silva Teles” in A Cidade de Évora, nºs 69-70, pp.
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LAMEIRA (2000), Francisco Ildefonso, A Talha no
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Municipal de Faro.
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Celso mangucci francisco machado e a oficina de retábulos do arcebispo de évora
ANEXOS
ADE - Cartórios Notariais Tabelião Livro 959, fl. 45 v.º, 5 de Novembro de 1692
Contrato que fez Francisco Machado, en/talhador, com o Senhor Arcebispo/ para fazer hum
retabolo em Nossa/ Senhora do Bispo da Vila de Montemor,
[fol. 45 v.º] Saibam q.tos este instrom.to de contrato e obrigação/ virem q. no anno do nascim.
to de nosso snor jessus/ xp.o de mil e seiscentos e noventa e dois annos, aos cinco dias do
mes de novembro do d.o anno, nes/ta cid.e de Evora, nos paços pontificiais do illm.o/ s.or
D. frei Luis da Sylva, arcebispo des ta cidade/ e todo o seu arcebispado donde eu t.am ao
diante/ nomeado fui, estando elle ahi presente e estando/ mais presente Fr.co Machado,
mestre entalhador/ t.em assistente nesta cid.e E logo por ele foi/ ditto em minha presença
e das t.as ao diante nomea/das e assinadas que assim hera verdade e nella pa/sava q. elle
estava contratado, havindo e consertado como o d. ill.mo S.nor Arcebispo para effeito de/
[fol. 46] de elle d. Francisco Machado fazer hum retabolo p.a a igreija de Nossa Senhora do
Bispo, matriz da Vila de Montemor-o-novo, conforme o risco que vai assi/nado pello d.o S.or
Arcebispo, e por elle dito mestre/ entalhador q. he p.a a cappela mor da d.a igreiia por/ preço
e quantia de seiscentos e trinta mil rs./ E o Risco cons/ta de tribuna e casa entalhada e a
mais obra que mostra o dito risco. E o arquo de d.a cappela lavrado confor/me outro risco q.
também será assinado na forma assi/ma o qual obra de arquo ha de ser toda de talha/ por
dentro, e por fora e toda esta obra se obriga elle di/to Francisco Machado a fazer de madeira
de bordo m.to bem/ lavrada e limpa conforme a arte o pedir. E todo o corpo/ desta obra
assim de madeira como carreto/ e ferragens/ e tudo o mais pertensente a d.a obra e corpo
dela será/ por conta delle d.o Fran.co Machado. E som.te será obrigado/ a dar lhe o d.o S.nr
Arcebispo pella tal obra acabada,/ os dittos seiscentos e trinta mil reis q. será e fará com
toda a perfeição. E o d.o d.ro se lhe dará ás ferias/ todas as semanas p.a pagar aos officiaiis,
e o q. Receber/ pellas ferias lhe será descontado no preço dos dit.os seiscentos e trinta mil
r.s q. são o preço (?) q. se obriga/ a fazer a d.a obra e dalla acabada com toda a per/feissão
dentro do mes de julho q. embora vier de seis/centos e noventa e tres, com declaraçam q.
onde q. os riscos da obra mostrão algu.a obra de escul/tura o d.o S.nor Arcebiso a não quer.
Serão som.e dous/ meninos q. vão pegados na coroa imperial q. vai em/ssima do trono. E
com tal condição q. se obriga elle fr.co Machado the (?) ao fim do d.o mes de julho conforme/
se tem obrigado a dar lhe nelle d. obra/ q. quinhentos e setenta mil reis, e a d. perda dos
dittos/ [fl. 46 v.º] dos dittos sincoenta mil reis será por penna delle/ não acabar a d. obra
dentro no tempo declarado. E nesta forma disse elle Fr.co machado/ estava contratado com
o d.o ill.mo S.nor Arcebispo (...)
ADE, CN, Tabelião Álvaro da Fonseca Coutinho, livro 1021, fl. 47 v.º-49, 24 de Dezembro de
1699
Contrato que fez o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Arcebispo com Francisco Machado,
entalhador/
Em nome de D.s Amem. Saibam quantos este instrom.to de contrato/ e obrigação virem
que no anno do nascimento de nosso S.or/ Jesus Christo de mil e seiscentos e noventa
e nove annos, aos 24 dias do mes de Dezembro do d.o anno nesta cidade/ de Evora, nos
Passos Pontificiais do Illm.o e Excelent.mo S.or D. Frei Luís da Silva, Arcebispo desta cidade
de Évora, e todo o seu arcebispado, onde eu, tabelião adiante nomeado, fui, estando ahi
prezente o d.o S.or e bem assi Francisco Machado entalhador m.or/ nesta cidade pessoas
de mim bem reconhecidas e logo em mi/nha presença e das tês.tas ao diante nomeadas e
assignadas, por elle d.º Francisco Machado foi ditto p. era verd.e e nella passava q. elle/
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Celso mangucci francisco machado e a oficina de retábulos do arcebispo de évora
estava contratado, havido e comsertado com o d.º S.or Arcebis/po, pêra effeito de lhe haver
elle ditto Francisco Machado de fazer um retabolo p.a o altar de Nossa Senhora do Anjo cita
na See desta/ d.a Cidade de Evora conforme o Risco que elle dito M.e havia aprezen/tado
ao d.o Illm.o Sor Arcebispo hora como em effeito logo por/ este publico instromento disse
se obrigava, e obrigou a fazer/ o ditto retábolo p.a o ditto altar de Nossa Senhora do Anjo,
na forma/ do ditto risco, sem falta nem diminuissão alguma, o qual/ retabolo se obrigava a
fazer todo de pao de bordo desde os princi/pios the o remate tudo por sua conta delle d.º m.e
assy da d.a ma/deira, como ferraje, como tudo o mais que for necessário para a segurança/
da d.a obra, o qual se obrigou a fazer dentro em caza do d.º/ Illm.º S.or Arcebispo, e dentro
do tempo de seis meses, os quaes/ comessarão do dia da chegada da d.a mad.ra a esta d.a
cidade/ em diante, sob pena de q. não fazendo dentro do d.o tempo de/ seis meses perder
trinta mil reis, dando-se lhe somente quatrocentos e vinte e cinco mil reis por toda a d.a
obra do d.o retabolo q. ficara tudo/ acabado na forma do dito risco. Também se lhe tirará e
perderá digo/ E bem asy também se lhe tirará e perderá tudo aquillo de q. o ditto/ Ilm.o S.or
Arcebispo lhe faz mercê durante a d.a obra, cujas /(fl. 48) Penas senão emterão no caso em
q. por falta/ de saúde do d.o mestre tenha/ para não poder fazer a ditta obra/ mais sy quando
por sua umissão a deixe de fazer […]
ADE, CN, Livro 1026, fl. 32-33, 1º de Abril de 1701
Comtrato que fez o illustríssimo Senhor Arcibispo Dom Frei Luiz/ da Sylva com Francisco
Machado entalhador para lhe fazer/ o retabolo do altar mor da igreiia de Santo Antão desta
cidade
Saibão q.tos este Instrom.to de contrato e obrigasão virem q. no anno do nasim.to de n.o
s.or Jsus xp.o de mil e setecentos e hum annos,/ em o p.ro dia do mes de abril do d.o anno,
nesta cid.e de Evora, nos passos po/ntificiais do illm.o e exm.o S.or D. Frei Luis da Sylva,
Arcibispo desta/ d.a cid.e de Evora, e todo seo Arcibispado, e do conselho de el Rey N.o Sor,/
q. Deus guarde, onde eu tabelião, ao diante nomeado, fui, estando ahi prezente o d.o/ S.or,
pessoa que eu t.ão reconhesso e bem assim estando mais prezente Francisco/ Machado
entalhador e m.or nesta Cidade, na Rua do Raimundo, pessoa q eu t.ão Re/conheço. E logo
por elle d.o Francisco Machado, emtalhador, foi d.o, em minha prezenssa e das tes.tas ao
diante nomeadas e assignadas, q. era verd.e e nella passava/ q. elle estava ajustado, avindo
e contratado com o d.o Illm.º S.r Arcibispo p.a e/ffeito de lhe aver de fazer, elle, d.o Francisco
Machado, emtalhador, hum retabolo p.a/ o altar mor, digo p.a a cappela mor da igreiia de
S.to Antão com sua tribuna e/ trono e a caza da d.a tribuna forrada toda de emtalhado e na
mesma tribuna ha/ de fazer uma coroa Empereal com seos Anjos e isto ha de fazer tudo
comfor/me o Risco que elle d.o Francisco Machado havia aprezentado ao dito Illustrissimo
Senhor Arcebispo. E no d.o Risco há de acrescentar a d.a coroa empereal e os Anjos e a de
fazer/ huas portas na d.a tribuna e assim mais fara o acrescentam.to que o d.o S.or/ Arcibispo
mandou fazer e tudo por conta do d.o Francisco Machado emtalhador./ E hora como effeito
logo por este pub.o instrom.to disse elle d.o Francisco Machado/ emtalhador se obrigava
como em effeito obrigou a fazer a d.o Retabolo p.a/ a d.a cappela mor da d.a Igreiia de Santo
Antão comforme elle d.o S.or tem ajustado/ e isto sem falta nem diminuissão alguma o qual
Retabolo e tribuna e trono/ e o forro da d.a caza emtalhado se obrigava fazer todo de pao
de bordo desde/ o prencipio/ the o remate e fim da dita obra tudo por sua comta delle dito
Francisco Ma/chado assim de mad.ra como de ferraie que for nessessaria para a seguransa
da d.a ob/ra como tudo o mais que nessessario for para a mesma o qual se obrigou a fazer
de/mtro em caza do d.o ilm.o S.or Arcibispo e dentro do tempo de hum anno o qu/al comesava
do dia da chegada da d.a mad.ra a esta d.a cid.e em diante. E se obriga/elle d.o S.or Arcibispo
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Celso mangucci francisco machado e a oficina de retábulos do arcebispo de évora
q. fazendo o d.o Francisco Machado emtalhador a d.a obra no d.o/ anno, a lhe dar e bem pagar
sinco mil cruzados sob pena de q. não fazen/do a d.a obra elle d.o Francisco Machado demtro
do tempo de hum anno perder/ duzentos e sincoenta mil reis, a dando acabada no d.o tempo
q. ficara findo e acabado na forma do d.o risco e tambem com o acrescemtam.to q. o d.o S.or
mandou fazer e tudo o mais asima declarado. E isto senão entendendo/
(fol. 32 v.º)
no cazo em q. por falta de saude ou falta de mad.ra q. o d.o Francisco Machado te/nha p.a não
fazer a d.a obra mas sendo por sua umissão o dixar de fazer a d.a obra e não a dando acabada
no d.o tempo de hum ano cahirá na d.a penna de per/der os d.os duzentos e sincoenta mil reis
a qual obra se obrigava fa/zer na forma q. d.o he pondo de todo corrente tudo por sua conta
por pre/sso e quantia de sinco mil cruzados em d.ro de contado os quais disse/ se lhe darião e
pagarião comforme se lhe derão e fizeram os pagam.tos da obra do retabolo de Nossa Senhora
do Bispo da Vila de Montemor-o-Novo que elle Francisco Machado entalhador fez por conta do
d.o Illm.o S.or Arcibispo (...)
ADE, CN, Tabelião Domingos Nunes Moreno, Livro 1026, fl. 126-127
Comtrato que fez o illustrissimo Senhor Arcibispo desta cidade/ com Francisco Machado emtalhador para lhe fazer o reta/bolo do altar-mor da Igreija de São Pedro desta cidade [11 de Agosto
de 1701].
Saibão quantos este instromento de contrato e obrigasão virem que no a/nno do nassimento de
nosso Senhor Jesus Christo de mil setecentos e hum annos/ aos honze dias do mês de agosto do
dito anno nesta cidade de Évora nos/ pasos pontificais do Ilustríssimo e excelentíssimo Senhor
D. Frei Luís da Sylva, Arcebispo desta cidade de Évora e todo seo arcebispado e do conselho
de El Rey nosso senhor/ que Deus guarde onde eu, tabelião, ao diante nomeado fui, estando
ahi prezente o dito/ Senhor, pessoa que eu, tabelião, reconhesso, e bem assim estando mais
prezente Francisco/ Machado entalhador e morador nesta cidade, na Rua do Reimondo, pessoa/ que eu tabelião reconhesso. E Logo por elle, dito Francisco Machado, entalhador, foi dito,
em minha/ prezença e das testemunhas ao diante nomeadas e assinadas, que hera verdade e
nella/ passava, que elle estava ajustado, havido, e contratado com o dito Ilustríssimo Senhor
Arci/bispo para lhe haver de fazer, elle, dito Francisco Machado, hum retabolo para a capella
mor/ da Igreja de São Pedro, com sua tribuna e trono e a caza forr/ada toda de emtalhado e na
mesma tribuna ha de fazer hua coroa empe/real com seos anjos e isto hade fazer tudo conforme o Risco q. elle d.o Francisco Machado havia aprezentado ao d.o illm.o S.or Arcibispo. E ha
de fazer hum/as portas na d.ª tribuna. E hora como em effeito logo por este pubb.o instrom.
to/ disse elle d.o Francisco Machado emtalhador se obrigara como em effeito se/ obrigou a
fazer o d.o retaolo p.a a d.a capella mor da d.a igreja de São Pe/dro comforme elle d.o S.or tem
ajsutado e isto sem falta nem diminuissam algu.a o qual retabolo e tribuna e trono e forro da
d.a caza emta/lhado se obrigava a fazer toda de pao de bordo deste o principio the assi/ma e
fim da d.a obra tudo por conta delle d.o Francisco Machado assim de/ mad.ra como de ferraie q.
for necessária p.a a seguransa da d.a obra com tudo/ o mais q. neces.o for p.a a mesma o qual
se obrigou fazer dentro da mês/ma caza aonde faz o retabolo da capela mor da Igreja de Santo
Antão./ E isto se obrigou a fazer e a da-lo acabado the q.ta f.ra S.ta do anno de mil e/ setecentos
e dois. E se obriga elle d.o S.or Arcibispo q. fazendo o d.o Francisco / Machado a d.a obra no
d.o tempo declarado a lhe dar e bem pagar du/zentos e sessenta mil reis sob penna de q. não
fazendo a d.a obra elle/ d.o Francisco Machado na forma do d.o risco como asima declarado
(…)
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