CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO CEARÁ FACULDADE CEARENSE CURSO DE SERVIÇO SOCIAL ALADY NASCIMENTO DA SILVA FEIRA DA MADRUGADA NO CENTRO DE FORTALEZA: UM ESTUDO SOBRE O TRABALHO INFORMAL FORTALEZA 2014 ALADY NASCIMENTO DA SILVA FEIRA DA MADRUGADA NO CENTRO DE FORTALEZA: UM ESTUDO SOBRE O TRABALHO INFORMAL Monografia submetida á aprovação da Coordenação do Curso de Serviço Social do Centro Superior do Ceará, como requisito parcial para a obtenção do grau de Graduação, sob orientação do Prof. Dr. Mário Henrique Castro Benevides. FORTALEZA 2014 S586f Silva, Alady Nascimento da Feira da madrugada no Centro de Fortaleza: Um estudo sobre o trabalho informal / Alady Nascimento da Silva. Fortaleza – 2014. 134f. Il. Orientador: Profº. Dr. Mário Henrique Castro Benevides. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) – Faculdade Cearense, Curso de Serviço Social, 2014. 1. Trabalho. 2. Processos produtivos. 3. Trabalho informal Precarização. I. Benevides, Mário Henrique Castro. II. Título CDU 376 Bibliotecário Marksuel Mariz de Lima CRB-3/1274 ALADY NASCIMENTO DA SILVA FEIRA DA MADRUGADA NO CENTRO DE FORTALEZA: UM ESTUDO SOBRE O TRABALHO INFORMAL Monografia como pré-requisito para obtenção do título de Bacharelado em Serviço Social, outorgado pela Faculdade Cearense- FAC, tendo sido aprovada pela banca examinadora composta pelos professores. Data de aprovação ____/____/____ BANCA EXAMINADORA Prof. Ms. Daniel Rogers de Souza Ferreira – Presidente da banca Prof. Dr. Emanuel Bruno Lopes de Sousa - Examinador Profª Ms Ivna de Oliveira Nunes - Examinadora A Deus, por seu amor e bondade. A família pelo apoio e compreensão. AGRADECIMENTOS Sou grata a Deus pelo fôlego que me deu vida, por ter resgatado minha alma, por seu amor, por confortar meu coração nas horas de angústia, por ter sido o meu socorro bem presente, por me alegrar com sua bondade, sua presença e sua palavra, por ser paciente comigo, não levando em conta minhas falhas, pela fé que tenho alcançado e, por esta vitória e realização. Aos meus pais, pelo amor, educação, apoio moral e financeiro e, principalmente, porque desde pequena, ensinaram-me o caminho para a casa de Deus. Aos meus parentes, que de longe se preocupam, oram e torcem por mim. Aos meus amados sobrinhos Lucas Lima, Laís Lima, Lemuel Lima, Ana Kelly, Eric Gabriel, Isac Micael e Isabela Beatriz, obrigado pelas alegrias e por seu amor. Aos meus irmãos Alacir Silva, Abner Silva e minhas cunhadas Siméia Lima e Márcia Chaves pelas muitas orações que fizeram por mim. A minha amada sobrinha Laís Lima por sua ajuda em editar as fotos que são utilizadas nesta pesquisa. A minha cunhada Siméia Lima por ter dado o seu olhar e parecer sobre a coesão textual. A minha irmã Rakel Silva, por suas orações, por seu apoio, dispensa do trabalho quando solicitado, empréstimo do carro quando precisei para a minha pesquisa e outros muitos momentos, como sair com minhas amigas da faculdade. A minha irmã Alene por seu incentivo e apoio na busca pelo conhecimento e por, mesmo estando distante, alegrar meus dias com as fotos e vídeos dos meus sobrinhos. Acredito que a amizade é uma das relações que mais fortalecem o ser humano. Acredito na sua força e, neste momento, sou grata a Deus por ter colocado em meu caminho, na igreja e na faculdade, pessoas sinceras, carinhosas, compreensivas, pacientes, que me fazem sorrir, que me emprestam o ombro para o desabafo, enfim... Amo todas e todos: Michelle Lima; Alexsandra Martins; Alfredo Gilvan; Adriana Mendonça; Aparecida Lopes; Ana Valéria; Aline Gomes; Aritana Kelly; Fátima Evilene; Jaqueline Freitas; Larissa França; Marcelo Michiles; José Roberto; Rosivalda Assunção; Dirlan e Hiran Savir. Ao bordão que deu força até o fim ao grupo das amigas da faculdade: “vai dar certo”! Ao corpo docente da Faculdade Cearense, pelo incentivo a leitura e a busca constante pelo conhecimento. A minha supervisora de estágio, profa. Ms. Flaubênia Girão, pelo apoio, ensinamentos e por me fazer acreditar, na minha capacidade. Meu sincero agradecimento a banca examinadora, por aceitar o convite em participar, mesmo estando de férias, estando presente em um dos dias mais importantes da minha vida, Prof. Dr. Emanuel Bruno Lopes de Sousa e Profª Ms. Ivna de Oliveira Nunes. Ao professor Dr. Mário Henrique Castro Benevides, por sua paciência, palavras de incentivo, momentos de reflexão, por sua orientação acadêmica e por acreditar em mim, mesmo percebendo minhas muitas dificuldades, seu carinho e dedicação foram especiais. Não pôde presidir a banca no dia da defesa porque assumiu a vaga do concurso em que havia sido aprovado – parabéns, você merece! A professora Dra. Claudiana Nogueira de Alencar, sou grata por seu carinho, disponibilidade, orientação acadêmica e por, mesmo no último instante, assumir esta responsabilidade. Meus sinceros agradecimentos, por ter aceitado este trabalho, sua ajuda foi fundamental. Deus a abençoe e lhe recompense. Ao professor Ms. Daniel Rogers de Souza Ferreira por ter aceitado presidir a banca no dia da minha defesa, representando meu orientador, que não pôde comparecer por motivos de trabalho. Sem a sua presença não haveria defendido, sou sinceramente grata por sua disponibilidade, compromisso ético, carinho e compreensão em um momento tão importante para a minha vida. “Façamos da interrupção um caminho novo. Da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sonho uma ponte, da procura um encontro!” (Fernando Sabino). RESUMO O trabalho sofreu ao longo de seu processo evolutivo, desde o surgimento do modo de produção capitalista, diversas modificações em seu modo de ser e na sua configuração entre os homens e a sociedade. No cenário atual, o século XXI, o trabalho encontra-se precarizado, desestruturado e fragmentado, desmobilizando a classe trabalhadora. A relação de trabalho passa a ser flexibilizada, aumentando a informalidade nas contratações trabalhistas, deixando hoje uma grande parcela de pessoas destituída de seus direitos e vivendo na pobreza. A pesquisadora deste estudo encontra-se hoje no mercado informal de trabalho, na Feira da Madrugada no Centro de Fortaleza. Este espaço compreende o local de trabalho e de pesquisa, possuindo, portanto, caráter etnográfico e também, abordagem qualitativa. Para a coleta de dados foi utilizada a observação participante e a entrevista semiestruturada gravada. A pesquisa foi realizada no primeiro semestre de 2014, contando com a participação de dez sujeitos que concederam entrevista. O objetivo geral desta pesquisa é descobrir os motivos que levaram os sujeitos pesquisados a se inserirem no mercado informal de trabalho. Dentro do cenário estudado, os sujeitos da pesquisa revelam que a queda do estatuto salarial é um dos motivos para a sua inserção no trabalho informal, porém, a precarização que os mesmos buscam superar, acaba sendo reproduzida aos sujeitos que trabalham para eles. Palavras Chave: Trabalho. Processos produtivos. Precarização. Trabalho informal. ABSTRACT The work suffered along its evolutionary process, from the emergence of the capitalist mode of production, several changes in their way of being and its setting among men and society. In the present scenario, the XXI century, the work has been precarious, unstructured and fragmented, demobilizing the working class. The employment relationship shall be relaxed by increasing informality in labor contracts leaving today, a large portion of people deprived of their rights, and living in poverty. The researcher of this study is now in the informal labor market, the Feira da Madrugada Center in Fortaleza. This space comprises the workplace and research, thus also having ethnographic and qualitative approach. To collect data to participant observation and semi-structured taped interview was used. The survey was conducted in the first half of 2014, with the participation of ten subjects who granted an interview. The overall objective of this research is to discover the reasons why the subjects surveyed fall within the informal labor market. Within the scenario studied, the research subjects show that the fall in wage status is one of the reasons for their inclusion in informal work, however precarious that they seek to overcome, just playing the guys that work for them. Keywords: Work. Production processes. Precariousness. Informal work. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Quadro 1 – Sujeitos da pesquisa ............................................................................. 84 Figura 1 – Rua José Avelino antes da feira ............................................................ 126 Figura 2 – Rua José Avelino durante a feira .......................................................... 126 Figura 3 – Rua Alberto Nepomuceno durante a feira ............................................. 127 Figura 4 – Rua Alberto Nepomuceno durante a feira ............................................. 127 Figura 5 – Rua Pessoa Anta (ônibus de excursão com cliente de outra cidade) .... 128 Figura 6 – Rua Pessoa Anta (venda no carro) (estacionamento do galpão) ........... 128 Figura 7 – Bancas “baú” sem exposição de mercadorias ....................................... 129 Figura 8 – Uma das formas de guardar os manequins ........................................... 129 Figura 9 – Bancas com mercadorias expostas e corredor do galpão ..................... 130 Figura 10 – Loja dentro de um galpão (com ar condicionado) ................................ 130 Figura 11 – Estacionamento dentro do galpão ....................................................... 131 Figura 12 – Fardos e sacolas de clientes das excursões ....................................... 131 Figura 13 – Lanchonete onde tomo café da manhã ............................................... 132 Figura 14 – Local onde compro sanduíche natural ................................................. 132 Figura 15 – Galpão onde trabalho – entrada pela Rua Pessoa Anta ...................... 133 Figura 16 – Galpão onde trabalho – entrada pela Rua José Avelino ...................... 133 Figura 17 – Banca onde trabalho ........................................................................... 134 Figura 18 – Banca onde trabalho ........................................................................... 134 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 12 1.1 Percurso metodológico....................................................................................... 14 1.1.1 Traçando o perfil dos sujeitos da pesquisa ...................................................... 19 1.2 Pensando o cotidiano produtivo na Feira da Madrugada.................................... 21 1.3 A Feira da Madrugada (o que significa a feira) ................................................... 22 1.3.1 Os espaços (localização; espaços físicos e aluguel das bancas) .................... 23 1.3.2 A rotina de trabalho na Feira da Madrugada ................................................... 26 1.3.3 Personagens (trabalhadores em geral; clientes e administrador) .................... 30 2 TRABALHO: PRINCÍPIOS TEÓRICOS ................................................................ 35 2.1 Ontologia do trabalho ......................................................................................... 36 2.2 Dimensão teleológica e a sociabilidade humana ................................................ 38 2.3 O trabalho na formação da sociedade capitalista ............................................... 41 2.4 As mudanças ocorridas na estrutura do sistema capitalista ............................... 53 3 PROCESSOS PRODUTIVOS CONTEMPORÂNEOS E ECONOMIA INFORMAL NA REALIDADE DA FEIRA DA MADRUGADA ...................................................... 58 3.1 Processo produtivo fordista/taylorista e a política keynesiana: “anos dourados” do capital ...................................................................................................................... 59 3.2 Contextos das crises e a reestruturação produtiva ............................................. 66 3.3 Produção flexível e processo de produção dos sujeitos da pesquisa ................. 71 4 PESQUISA DE CAMPO: FEIRA DA MADRUGADA DE FORTALEZA ................ 82 4.1 Análise das entrevistas ...................................................................................... 82 4.1.1 Perfil dos entrevistados ................................................................................... 84 4.2 Primeira seção: a história de vida dos sujeitos da pesquisa ............................... 86 4.2.1 A história de como cada entrevistado conheceu os seus cônjuges ................. 88 4.2.2 Quais os sonhos de criança e os planos quando jovens dos entrevistados .... 89 4.3 Segunda seção: o percurso de trabalho dos entrevistados ................................ 94 4.4 Terceira seção: o trabalho na Feira da Madrugada .......................................... 101 4.5 Quarta seção: conceitos e representações ...................................................... 112 4.5.1 Percepções sobre o trabalho na feira e tempo livre....................................... 112 4.5.2 Percepção sobre as estratégias para melhorar a condição de trabalho na feira por parte dos administradores locais e pelo Governo............................................. 117 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................ 121 REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 124 ANEXOS – FEIRA DA MADRUGADA EM FOTOS – ACERVO PRÓPRIO ........... 126 12 1 INTRODUÇÃO Muitas pesquisas sociais contemporâneas estão relacionadas à natureza e às consequências das mudanças do capitalismo e seus efeitos no mundo do trabalho. E sendo uma categoria fundamente, por tornar-se constitutivo do ser social, diferenciando o humano do animal, o trabalho diz respeito às sociabilidades, à organização dos grupos e movimentos e à reprodução social. Através da temática do trabalho, podemos entender porque as mudanças ocasionadas pelo novo contexto do capitalismo atual não se reduzem aos assuntos econômicos. Tais transformações do capitalismo trazem desdobramentos para toda a vida social, repercutindo na política, na educação, na produção artística e em muitas outras áreas da vida social. Afetados por essas transformações, os trabalhadores se veem situados em uma nova ordem mundial a partir da qual o desemprego e a precariedade no trabalho se tornam estruturais, causando o avanço da chamada economia informal. Nesses circuitos de economia informal, a urbanização das metrópoles é desenhada pela presença das feiras livres voltadas para atender as classes populares e as demandas prementes do novo modo de produção capitalista pósfordismo. Tendo em vista que a formação do assistente social solicita uma compreensão crítica das questões sociais, necessitamos investigar o impacto social dessa informalidade na vida dos trabalhadores de um importante circuito de movimentação da economia informal: a Feira da Madrugada no Centro de Fortaleza. Nesse sentido, este estudo tem como objetivo principal descobrir os motivos que levaram os sujeitos pesquisados a se inserirem no mercado informal de trabalho. A pesquisa, que contemplou um universo de dez participantes envolvidos com o trabalho na referida feira, foi de natureza qualitativa. Foram realizadas abordagens através do método etnográfico, utilizando a técnica de observação participante e entrevistas embasadas em pesquisas teóricas sobre o trabalho no sistema capitalista e as mudanças sofridas por essa categoria fundante que estão relacionadas com os significados sobre informalidade pelos trabalhadores/feirantes entrevistados. 13 Inicialmente é demonstrado o percurso metodológico que proporcionou a construção deste estudo e balizou as etapas que compõem esta pesquisa. Após esta exposição encontra-se uma descrição sobre o campo de pesquisa que é a Feira da Madrugada, como também, do cotidiano de um dia de trabalho na Feira da Madrugada, descrevendo detalhes da infraestrutura, dos clientes, dos feirantes, da heterogeneidade nas ocupações na feira, etc. Em seguida três capítulos dão contextualização histórica, teórica e empírica sobre este estudo, finalizado com a conclusão da pesquisa. O primeiro capítulo deste estudo faz uma explanação histórica, buscando resgatar o conceito de trabalho. Faz-se uma relação com o trabalho que transforma o homem, tornando-o um ser social e o trabalho na sociedade capitalista, que destrói a humanização construída pelo conjunto de homens em sociedade. Também são descritas as transformações ocorridas no interior do sistema capitalista, fazendo um breve passeio por suas transformações, ao longo do período histórico de sua constituição até o século XXI. Os autores que embasam este percurso histórico são José Paulo Netto e Marcelo Braz, Ricardo Antunes, Sergio Lessa, Carlos Montaño e Maria Lúcia Duriguetto, e Maria Lucia Lopes Silva. No segundo capítulo, retrata-se o período em que objetivou-se instaurar uma social democracia dentro do sistema capitalista. Houve um período de êxito, ao levar-se em conta um acelerado crescimento econômico dos países centrais, de forma relativamente generalizada nestes países, e uma melhora nas condições de vida e de trabalho, no período denominado anos dourados do capital. Após alguns anos, esta fase de crescimento econômico entra em crise e o sistema capitalista cria estratégias para elevar as taxas de lucro, porém, todas as formas de superação da crise aumentam a precarização da classe trabalhadora, incluindo o aumento do trabalho informal, objeto de pesquisa deste estudo. A explanação deste conteúdo é demonstrada por alguns dos autores relacionados acima e por Elaine Rossetti Behring; Ivanete Boschetti, Marilda Villela Iamamoto, José Dari Krein, Marcelo Weishaupt Proni, Guilherme Issamu Hirata, e Ana Flávia Machado. O terceiro capítulo contém a análise das entrevistas, realizadas com dez trabalhadores da Feira da Madrugada. Neste capítulo, são expostos os perfis dos entrevistados e busca-se analisar e compreender o objetivo geral e os específicos 14 que guiam esta pesquisa. A análise dos dados coletados são demonstrados a luz do referencial teórico que embasa este estudo. A partir de uma temática de estudo tão relevante para a compreensão do desenho contemporâneo da sociedade e da nova divisão internacional do trabalho, como é o tema do trabalho informal, esperamos que com o estudo do cotidiano dos trabalhadores da Feira da Madrugada como uma prática social contemporânea, a partir da analise da significação de suas vivências, possa contribuir para que práticas conservadoras sejam transformadas por meio do pensamento crítico e da ação consequente. 1.1 Percurso Metodológico O trabalho de campo permite a aproximação do pesquisador com a realidade e estabelece uma interação com os atores sociais, ajudando a construir um conhecimento empírico para quem faz pesquisa social (MINAYO, 1994). Na pesquisa que deu origem a este ensaio monográfico, o trabalho de campo se deu na Feira da Madrugada, localizada no centro de Fortaleza e foi realizada no primeiro semestre de 2014 e tem como objetivo geral, analisar o cotidiano dos seus trabalhadores, para compreender as representações da informalidade ou os seus modos de significar o seu próprio trabalho e a sua vida a partir das experiências na Feira. Em nossa pesquisa, realizamos o papel de pesquisadora participante e de participante pesquisadora, uma vez que a feira é também o nosso local de trabalho. Desse modo, não encontramos dificuldades em adentrar no campo, uma vez que a vivência de trabalho na Feira da Madrugada não é algo recente. Entre idas e vindas, a ocupação como feirante teve início no ano de 2007, perfazendo um total de sete anos de vivência no campo, embora à época, não tivéssemos formação suficiente para elaborar uma produção sobre aquele conhecimento empírico. Agora, no decorrer deste estudo, voltamo-nos para a feira com um novo olhar: o da pesquisadora. 15 Desse modo, os dias de trabalho da pesquisadora na feira, domingos e quintas-feiras, foram aproveitados durante o decorrer do semestre, para uma análise do cotidiano dos feirantes, com esse novo olhar, buscando identificar características, que a naturalização do ambiente por ser também local de trabalho, porventura, pudesse ter sido encobertas. Como se trata de um estudo realizado no cenário de vivência e experiência empírica, deve-se ter o cuidado de não deixar a naturalização do ambiente e relações que ali se inscrevem, interferir na pesquisa acadêmica (Gondim 1998). Nesta perspectiva a pesquisa tem uma abordagem qualitativa e caráter antropológico. Inicialmente foi realizada uma pesquisa bibliográfica na busca pelo referencial teórico que embasaria a pesquisa, buscando elementos que caracterizam o trabalho informal, suas causas e consequências. A pesquisa bibliográfica produz um conhecimento antecipado da realidade que se pretende estudar, mesmo que de forma ampla, torna-se a base para a produção da pesquisa científica. É um conhecimento provisório porque antecipado da realidade empírica, que em conjunto, trará uma melhor reflexão e produção teórica sobre o tema (Gondim 1998). A pesquisa etnográfica consiste em um envolvimento por parte do pesquisador com os sujeitos pesquisados. Através da comunicação e do compartilhamento com sua forma de viver por um período prolongado, o pesquisador etnógrafo deve experimentar a cultura que está analisando, procurando perceber seus ideais, suas angústias, integrando-se com o campo e os sujeitos da pesquisa (Laplantine 2004). O período de sete anos de trabalho na Feira da Madrugada contribuiu para o caráter de vivência com o campo pesquisado e desde 2011, interagindo em um mesmo ambiente, com um mesmo grupo de feirantes, possibilitou uma maior facilidade de participação dos sujeitos na pesquisa. Oliveira (2000) refere-se à importância do olhar, do ouvir e do escrever como etapas que auxiliam nos estudos voltados para a compreensão da realidade social, e que devem ser levadas a sério essas funções cognitivas na pesquisa etnográfica. A importância desses fatores é que, através do olhar e do ouvir, podemos captar a realidade empírica, e o desenvolvimento dos resultados, através da escrita, torna-se fundamental por ser uma forma de contextualizar e sistematizar o conhecimento adquirido. A escuta e o olhar sobre os sujeitos pesquisados passa a ter nesse 16 momento de pesquisa etnográfica na Feira da Madrugada, uma apreciação crítica e uma visão com embasamento teórico, transformando a percepção comum desta realidade, para a percepção voltada para a análise empírica aliada à teoria. Os textos de Martinelli (1999) e Queiroz (2008) tratam da pesquisa qualitativa, trazendo uma reflexão sobre a diferença desta com a pesquisa quantitativa. As autoras relatam a importância da abordagem quantitativa para a pesquisa científica e ambas discorrem que esta metodologia é essencial para representar a quantidade e ou intensidade do fenômeno estudado, porém, a qualitativa é fundamental para o estudo da realidade social. De acordo com Queiroz (2008), a abordagem quantitativa é subordinada à qualitativa, pois, após a quantificação do fenômeno estudado, é necessário retornar a abordagem qualitativa para compreender o significado do resultado de sua pesquisa. Levando em conta o contexto geral deste estudo, que trata do cotidiano dos trabalhadores informais na Feira da Madrugada no centro de Fortaleza, percebemos que o viés a ser adotado será a pesquisa qualitativa, no intuito de desvendar o cotidiano desses trabalhadores. A pesquisa poderia ser realizada com abordagem quantitativa se fosse para fazer um estudo do número de trabalhadores informais que atuam na referida feira, porém, ao analisar o cotidiano dos mesmos, se fez necessário a abordagem qualitativa. [...] Embora a ordem introduzida pelo pesquisador no universo dos dados em estudo por meio da quantificação possa parecer a melhor maneira de se chegar ao conhecimento dos mesmos, ela somente narra o que se encontrou; não desvenda por que motivos ou razões a coleção de indivíduos assim analisada age conscientemente ou inconscientemente; nada diz respeito dos interesses que a coletividade manifesta; nada exprime que constitua uma explicação. (QUEIROZ, 2008, p. 27) Martinelli (1999) discorre sobre as abordagens qualitativas e quantitativas e afirma que ambas são articuláveis e complementares. Para uma pesquisa no contexto social, é fundamental a abordagem qualitativa. A autora disserta sobre a importância da pesquisa qualitativa para o Serviço Social, não diminuindo a importância da pesquisa quantitativa que nos fundamenta, ao demonstrar a dimensão dos problemas sociais. Contudo, a relevância da pesquisa qualitativa refere-se ao fato desta ser realizada através do contato direto com os sujeitos 17 pesquisados e, portanto, também possui relevância social, devendo o resultado da pesquisa retornar aos sujeitos que dela participaram. Para conhecer o cotidiano dos sujeitos pesquisados, precisamos estar inseridos no contexto de seu cotidiano, na sua vida, ter conhecimento na própria realidade social em que os sujeitos atuam. Daí decorre a escolha da metodologia que será empregada para realizar a pesquisa, e a percepção, que no caso desta pesquisa, com os sujeitos que trabalham na feira, terá uma abordagem qualitativa. Qualquer pesquisa para ser efetivada necessita estar amparada por métodos e técnicas que possibilitem alcançar os objetivos almejados. Cervo (2007) discorre que na pesquisa científica, o método é conhecido como um conjunto de procedimentos utilizados para investigar e demonstrar a verdade. As técnicas – arremata o autor – são procedimentos que ajudam para a concretização da pesquisa, adequando-se ao tipo de pesquisa realizada. Dentre as técnicas utilizadas em pesquisas científicas, as que serão utilizadas neste estudo, são as de observação participante, descrição, coleta de dados. Cervo (2007) explica que a observação requer a aplicação dos sentidos físicos para poder conhecer com clareza e precisão o objeto estudado, e é considerada como de suma importância para a ciência, porque sem ela não seria possível extrair os contextos a serem estudados diretamente da realidade. Seria como adivinhar a realidade e não comprová-la. A observação participante é a técnica utilizada quando o pesquisador decide fazer parte do contexto estudado, envolvendo-se com o objeto da pesquisa. Neste contexto, a observação participante, é fundamental para a pesquisa que aqui se inscreve, porque foi realizada no próprio espaço onde os sujeitos trabalham. Esta técnica é utilizada através do caráter etnográfico da pesquisa, através do olhar e da escuta e, posteriormente da escrita, como exposto anteriormente. A descrição é indispensável para que o resultado da observação seja minuciosamente escrito, para que o leitor visualize mentalmente aquilo que o pesquisador descreveu. Sem a descrição, a pesquisa não seria contextualizada e, portanto, não poderia expor seus resultados e demonstração do objeto pesquisado, 18 que é o objetivo principal de uma pesquisa. Através da descrição, a pesquisa promove material para a construção do conhecimento sobre o tema (Cervo 2007). Uma pesquisa, para obter resultados utilizáveis e confiáveis, deve ter planejamento, e uma das etapas envolve a escolha a técnica de coleta de dados, que podem ser através de entrevistas, questionários, formulários, etc. Dentre estas técnicas, a entrevista será a utilizada nesta pesquisa. Cervo (2007) expõe que a entrevista não significa o simples ato de conversar, seu desenvolvimento é voltado para alcançar um objetivo, que é adquirir por meio de questionamentos ao entrevistado, dados que serão úteis para a pesquisa, além de possibilitar a observação de comportamentos como, atitudes e a aparência dos sujeitos da pesquisa, contribuindo para a análise da realidade estudada. A coleta de dados não se resume a escolha da técnica que melhor se adequa ao objeto de estudo. Sua importância prevê outros passos, como a delimitação dos sujeitos pesquisados, a produção do instrumento de coleta, de forma que o resultado seja elucidativo, o tipo de técnica da coleta de dados – neste caso, a entrevista semiestruturada, caracterizada por perguntas abertas, para melhor captar o objetivo a ser desvendado – realizando um guia de questões, focalizando as de maior importância, programar a entrevista com os sujeitos pesquisados quanto ao local e a hora, de preferência em um local que proporcione um mínimo de privacidade, e delimitar o quantitativo de sujeitos que participarão da pesquisa (Cervo 2007). Para Martinelli (1999), na pesquisa qualitativa pode-se utilizar de diferentes técnicas para poder alcançar o resultado desejado, agregando ao máximo, dados sobre o tema estudado, como por exemplo, utilizar-se do recurso da imagem, como fotografias. Durante o percurso da pesquisa, utilizando-se de momentos oportunos em meio a ocupação laboral na Feira da Madrugada, foi utilizado o recurso de fotografias para validar e proporcionar uma melhor visualização sobre a descrição da feira. Após estas explanações sobre o referencial que embasa o percurso metodológico desta pesquisa, explanaremos como foi traçado o perfil dos sujeitos participantes deste estudo. 19 1.1.1 Traçando o perfil dos sujeitos da pesquisa Ao definir o local e objeto de estudo, que são os feirantes que trabalham na Feira da Madrugada, no Centro de Fortaleza, situada na Rua José Avelino, definiuse o perfil e quantidade dos sujeitos da pesquisa. Primeiramente, foram analisados quais os sujeitos a serem entrevistados devido a grande diversidade de inserções no trabalho na feira e dos produtos comercializados no local. A heterogeneidade de produtos neste setor informal da economia é muito grande. Em sua grande maioria abrange o comércio de artigos do vestuário para todas as faixas etárias e ambos os gêneros, subdivididos em moda praia, moda íntima e roupas em geral, como também calçados, em especial para o público feminino e infantil, artigos de cama, mesa e banho e alimentos e bebidas em geral. Ainda são comercializados outros artigos que não possuem tanta inserção na feira, mas que estão presente no dia a dia do comércio local, como adesivos de parede, chaveiros, cartões de memória para celular, pufes, travesseiros, produtos de higiene pessoal e remédios, dentre outros. Além da heterogeneidade de produtos comercializados, a forma de inserção do trabalho na Feira da Madrugada também é muito heterogênea. A grande maioria possui um ponto fixo de trabalho, ou seja, uma banca, box ou loja de pequeno porte. Os demais trabalhadores podem fixar-se em um local para realizar suas vendas, porém, ficam espalhados pelas ruas ou nas calçadas das Ruas José Avelino e Alberto Nepomuceno. Outros, porém, oferecem seus produtos, andando por estas ruas, ou aos feirantes em seus pontos fixos de trabalho. Os trabalhadores em muitos casos são produtores das mercadorias que comercializam e também trabalham na feira; outros produzem sua mercadoria, mas colocam trabalhadores para vendê-la. Outra parte não produz nada, apenas compra a mercadoria de fabricantes e comercializam na feira. Uma pequena parte trabalha como carregador de mercadorias, e atendem tanto os feirantes como os compradores. Há os que fazem a segurança dos empreendimentos ou limpeza, etc. Levando em conta a heterogeneidade de produtos comercializados e formas de inserção laboral na Feira da Madrugada, foram definidos, como sujeitos da 20 pesquisa, aqueles que são produtores das mercadorias (artigos do vestuário) que comercializam e também trabalham na feira. Definido o perfil dos sujeitos, foi elaborado um roteiro de questões a serem utilizadas nas entrevistas, com o total de dez entrevistados. Inicialmente foram realizados contatos com os vizinhos de trabalho da pesquisadora, ao todo, cinco bancas que rodeiam o seu local de trabalho, que se situa em um galpão, denominado de Galpão da Felicidade. Apesar do tempo em que os sujeitos a serem entrevistados e a pesquisadora se conhecem, desde 2011, a aceitação para participar das entrevistas não ocorreu sem certa resistência. Os motivos da pesquisa, seu conteúdo e propósito foram sumariamente explanados, facilitando a aceitação dos mesmos e sua posterior participação. Também foi exposto que suas identidades seriam preservadas, e explicado que a ética em pesquisas, prevê o respeito aos sujeitos pesquisados, não sendo necessário revelar suas verdadeiras identidades. Neste momento, foi esclarecido que seriam criados nomes fictícios para a preservação de suas identidades e que havia um documento para validar o compromisso ético da pesquisadora, que é o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Barroco & Terra 2012). Todos os dez participantes da pesquisa, apesar da relutância inicial em aceitar o convite, recusaram-se a receber o termo assinado pela pesquisadora, dizendo não ser necessário para a concessão da entrevista. Alguns inclusive, disseram não necessitar da preservação de suas identidades, podendo utilizar seus nomes verdadeiros. Foram criados, durante a análise dos dados coletados, nomes fictícios para os dez entrevistados, preservando apenas a inicial de seus nomes, em respeito à subjetividade de cada um. Foi solicitada a permissão dos sujeitos para que o áudio da entrevista fosse gravado, no sentido de obter um melhor aproveitamento de suas falas. Não houve objeções a este respeito e todas as entrevistas, exceto uma, foram gravadas. No ato do contato e esclarecimento sobre a pesquisa, foi solicitado ao entrevistado que a pesquisa fosse realizada em outro ambiente que não a feira, alegando-se dois motivos: um, devido a amplitude da estrutura do galpão, que certamente não proporcionaria um áudio de qualidade. Também por causa do barulho e devido a 21 movimentação dos clientes, que acabaria gerando interrupções e falta de concentração para as respostas. Houve relutância quanto a abertura de suas residências por parte de alguns. Assim, foi oferecido o espaço da casa da pesquisadora. As entrevistas foram realizadas nos seguintes locais: três na Feira da Madrugada, nos respectivos locais de trabalho dos sujeitos; duas foram na casa da pesquisadora; uma só foi possível por e-mail e quatro foram realizadas nas respectivas residências dos sujeitos. As entrevistas gravadas na feira foram interrompidas pelo menos três vezes, para que os entrevistados atendessem seus clientes. A pessoa que respondeu por e-mail, inicialmente disse que poderia conceder a entrevista na própria residência, porém, depois disse que achava melhor por e-mail, alegando falta de tempo e se dispondo a responder a qualquer dúvida que surgisse após a leitura de suas respostas, mas não houve necessidade. Após as entrevistas, o áudio das mesmas, foi transcrito para em seguida ser realizada a análise dos dados coletados. Este exercício de análise foi realizado tendo como base o referencial teórico utilizado para esta pesquisa, buscando perceber o que difere e o que é demonstrado pela teoria, sobre o trabalho informal, na realidade da Feira da Madrugada. A análise encontra-se no último capítulo desta pesquisa. 1.2 Pensando o cotidiano produtivo na Feira da Madrugada Será explanada a seguir uma descrição do cotidiano na Feira da Madrugada, trazendo elementos que permitam uma compreensão do seu espaço e funcionamento, as relações que são construídas no seu interior e os personagens que compõem a feira. Neste primeiro momento, será colocada a fala da pesquisadora em primeira pessoa, em virtude de que os dados sobre a descrição do cotidiano da Feira da Madrugada e sua contextualização, são de conteúdo, experiência empírica de pesquisa e também, de trabalho da pesquisadora. 22 1.3 A Feira da Madrugada (o que significa a feira) Quando ouvia falar sobre uma feira, logo imaginava um local cheio de bancas onde os trabalhadores vendiam frutas, legumes e verduras. Grande foi a surpresa quando soube da Feira da Madrugada na Praça da Sé, tanto pelo fato das mercadorias serem comercializadas no chão, como também, por ser uma feira de roupas, calçados e artigos de cama, mesa e banho. Até então, não havia conhecido uma feira nesses termos. Ao conhecê-la, pensei que era um empreendimento recente, por isso perguntei sobre o tempo de seu funcionamento, já que havia nascido em Fortaleza e nunca tinha ouvido falar sobre ela. Disseram que a feira é muito antiga, sendo difícil, precisar a sua gênese, mas que havia começado timidamente, com fabricantes de produtos para cama, mesa e banho bordados a mão ou á máquina, provenientes do interior do Ceará, que vendiam seus produtos para comerciantes do Mercado Central de Fortaleza, que fica situado próximo a Praça da Sé. Com o passar dos anos, foram diversificando os clientes e também os fornecedores, chegando a uma grande dimensão em 2014. Antigamente, quando a feira funcionava na Praça da Sé, era carinhosamente e também ironicamente apelidada pelos feirantes como “shopchão”. Entre 2008 e 2009 iniciou-se o processo de transição da feira para a Rua José Avelino, rua situada ao lado do Mercado Central de Fortaleza, acomodando os feirantes em galpões. Três desses galpões possuem entradas tanto pela Rua José Avelino como pela Rua Pessoa Anta: o Galpão do Pequeno empreendedor, Galeria Dragão do Mar e Galpão da Felicidade. O funcionamento da Feira da Madrugada nos galpões proporcionou uma melhor qualidade de trabalho, comparado ao período de trabalho na Praça da Sé, no que diz respeito a acomodação das mercadorias em cima de bancas e, por ser um local coberto, abrigados do sol e da chuva. Houve também uma relativa melhora quanto ao acesso a lanchonetes e banheiros, que anteriormente era muito limitado. 23 1.3.1 Os espaços (localização; espaços físicos e aluguel das bancas) A Feira da Madrugada é conhecida atualmente pela Rua José Avelino (ver figuras 1 e 2), esquina com a Rua Alberto Nepomuceno (ver figuras 3 e 4), que se situa ao lado do Mercado Central de Fortaleza. Porém, o acesso à feira pode ser feito também pela Rua Pessoa Anta (ver figuras 5 e 6). Na Rua José Avelino, a feira abrange o espaço de um quarteirão (no quarteirão seguinte encontra-se o Centro Cultural Dragão do Mar). O quarteirão é subdividido em galpões, galerias e mini shoppings. Ao me referir sobre os mini shoppings, quero diferenciar a estrutura desses locais, visto que, ocupam a mesma rua, mas não possuem bancas como a maioria dos galpões. Sua estrutura é formada por lojinhas de alvenaria, tornando o local visivelmente mais organizado e melhor estruturado. Nos galpões o espaço é preenchido por bancas (ver figura 9), algumas com estrutura de ferro e um estrado de madeira para colocar a mercadoria em cima. Neste caso, no término da feira a mercadoria que sobrou deve ser levada para casa. Outras bancas, que chamamos de “baú” (ver figura 7), são feitas todas de ferro, com um compartimento embaixo onde guardamos a mercadoria para não ter que levar para casa. Geralmente o baú possui duas portas de correr, para facilitar a retirada e a colocação da mercadoria que são trancadas com cadeados. O Galpão do Pequeno Empreendedor, no lugar de bancas foram construídas minilojinhas de alvenaria e, possui algumas situadas na extremidade do galpão que tiveram seu tamanho expandido, onde colocaram prateleiras de madeira e ar-condicionado (ver figura 10). Semanalmente, mais precisamente aos domingos, os feirantes pagam uma taxa de manutenção no valor de cinquenta reais (a partir do mês de Junho de 2014), pagos a administração do galpão. O valor pago pelo pequeno espaço que cada banca ocupa não é revertido em muitos benefícios para os feirantes. Como será exposto na análise das entrevistas, há muitas queixas dos sujeitos da pesquisa quanto à infraestrutura, limpeza, dentre outros aspectos. Também é visível, na figura 16, que não há segurança efetiva nos galpões no horário de funcionamento e muito menos quando está fechado. Como mostra a figura, a grade de ferro que fecha o 24 galpão não evita a entrada de ladrões, que podem facilmente transpô-la, deixando os feirantes que guardam suas mercadorias dentro das bancas, inseguros. A exposição das peças de roupas, na grande maioria é feita em manequins, algumas pessoas expõem em cabides. Os manequins são utilizados de acordo com os produtos vendidos, alguns utilizam o de corpo inteiro (vendas de vestidos ou roupas completas). Os demais utilizam o manequim de meio corpo, pode ser o tronco ou as pernas, de forma que exponha as blusas ou calças, saias e shorts. Alguns feirantes fazem buracos nos manequins para poder passar uma corrente, para quando acabar a feira, prendê-los na própria banca (ver figura 8) e, outros colocam os manequins guardados dentro do baú junto com a mercadoria. Cada feirante procura expor o máximo possível sua mercadoria, ocupando não só o espaço em cima da banca, como também, ao redor dela quando possível. Alguns feirantes colocam manequins de corpo inteiro em pé, amarrados nas laterais de suas bancas, diminuindo o espaço dos corredores que já é pequeno, gerando desconforto para os clientes que circulam que sacolas grandes e pesadas, e reclamações de outros feirantes que não possuem espaço para expor sua mercadoria da mesma forma que seu concorrente. Além disto, o espaço para colocar cadeiras ou banquinhos para os feirantes sentarem (cada um leva o seu acento) é diminuído e alguns, quando cansados, sentam na própria banca, em cima de suas mercadorias. As bancas são dispostas de uma maneira que formam corredores para a circulação de clientes. Os corredores são estreitos, dificultando a passagem que é disputada com os trabalhadores fixos, com os que passam com isopor e organizadores vendendo lanches, água e refrigerantes e com os clientes com sacolas de compras, além dos manequins que expõem os produtos e as cadeiras que os feirantes utilizam para descansar. Quando o movimento na feira está muito intenso, a dificuldade de circulação aumenta, gerando um empurra-empurra de clientes, vendedores ambulantes, carregadores (homens que fazem o carrego de mercadorias), onde todos passam apressados, batendo suas sacolas nas pessoas. A ventilação é natural, exceto raras exceções, não tem ventiladores nos galpões. Por conta disso, no movimento intenso, faz bastante calor. 25 Cada galpão possui um nome, o que trabalho chama-se de Galpão da Felicidade (ver figuras 15 e 16). Todos os galpões possuem banheiros e lanchonetes próprias facilitando a utilização para os trabalhadores e clientes. Uma senhora faz a limpeza dos banheiros e coloca um saco plástico com um rolo de papel higiênico dentro pendurado na parede na entrada do corredor de acesso aos banheiros. Cada pessoa tira o seu pedaço, o que não é nada higiênico porque o mesmo rolo de papel passa por diversas mãos. A limpeza e retirada do lixo dos banheiros é realizada mais de uma vez por dia, porém, a intensa movimentação não permite uma higiene adequada. Após inúmeras reclamações de feirantes e clientes, o administrador do galpão que trabalho colocou cerâmica nos banheiros, melhorando o aspecto, mas a quantidade ainda é insuficiente para atender toda a demanda. As lanchonetes e restaurantes vendem de tudo: café da manhã, almoço, lanches em geral, vitaminas e até açaí. Percebe-se que a higiene não é o forte das lanchonetes, em parte porque a própria infraestrutura não é adequada, como também, devido o intenso movimento e porque cada local dispõe de poucos, ou apenas um atendente. Com efeito, acaba não sobrando muito tempo para a limpeza. Esta é uma das reclamações recorrentes no cotidiano da feira, a precária estrutura das lanchonetes, pois, com a taxa de manutenção que é recolhida dos feirantes, deveria haver uma melhor estruturação desses locais. Os feirantes não reclamam da precariedade das lanchonetes pensando apenas em seu conforto, mas também, como forma de atrair mais clientes para o galpão. Além dos galpões, galerias, lojas e mini shoppings, a Rua José Avelino fica preenchida com bancas em quase todo o quarteirão. A precariedade na rua é ainda maior que nos outros locais. As bancas da rua são cobertas com lona (ver figura 2) e, como já trabalhei em feiras na cidade de Cascavel/CE, sei que a arrumação das bancas é no mesmo estilo, e posso afirmar que o calor é grande, às vezes, insuportável. O preenchimento da Rua José Avelino com bancas deu-se após a ocupação dos galpões pelos feirantes, demonstrando que houve um acréscimo de sujeitos neste espaço informal da economia, apesar de que alguns feirantes relatam que algumas pessoas que possuem banca dentro dos galpões, também colocaram bancas na rua, para ter mais de um ponto de venda. Também aumentou o número 26 de pessoas vendendo nas calçadas, expondo suas mercadorias no chão e na Rua Alberto Nepomuceno, ocupando uma das vias de trânsito automotivo, dificultando o tráfego no local, assim como os carros e ônibus estacionados na Rua Pessoa Anta. Em alguns casos os vendedores não possuem um local dentro dos galpões, galerias ou mini shoppings porque não têm capital para comprar um ponto, cujo preço pode variar entre três mil reais e trinta mil reais, dentro de um galpão ou ainda mais, em outros estabelecimentos. A precariedade no trabalho de quem fica na rua é muito grande. Desabrigados do sol e da chuva, correndo perigo de sofrer acidentes por ocuparem uma via pública e, perseguidos algumas vezes, pelos fiscais da Prefeitura, que ameaçam apreender suas mercadorias. O trânsito fica lento no entorno da feira devido os vendedores que ali se instalam, bem como os clientes e os carros e ônibus que estacionam no entorno. O trânsito é intenso de madrugada não só pelos feirantes que vão chegando para trabalhar, como também por turistas e moradores locais por ser acesso a hotel, bares, boates e restaurantes situados próximos à feira. Alguns estabelecimentos na Feira da Madrugada funcionam todos os dias da semana, é o caso do Galpão que trabalho. As feiras de maior movimento de compradores acontecem na quinta e no domingo de madrugada, os estabelecimentos começam a abrir por volta da meia noite, trabalho apenas nesses dois dias. A feira que ocorre na rua funciona apenas na quinta e no domingo. Os referidos dias lotam a feira de compradores e feirantes, por conta do intenso movimento de compradores advindos de outros Estados, do interior de Fortaleza e da própria capital. Os ônibus de excursão com clientes, estes denominados “sacoleiros”, ficam em estacionamentos dentro dos galpões e espalhados no entorno da feira (ver figura 7 e 11). 1.3.2 A rotina de trabalho na Feira da Madrugada Trabalho na Feira da Madrugada, entre idas e vindas, desde 2007. A partir de dezembro de 2011, até o momento do presente estudo, junho de 2014, trabalho para 27 minha irmã em banca de sua propriedade, como vendedora de acessórios femininos, juntamente com outro funcionário. Os artigos que comercializo na feira são cintos e colares. No outro ponto comercial, onde minha irmã trabalha com mais duas funcionárias, são vendidos além desses artigos, brincos, pulseiras, anéis, e peças variadas para uso no cabelo. Saímos de casa às 4h no domingo e 4h30min na quinta. Pegamos nossa sobrinha que mora na mesma rua e depois, pegamos mais dois funcionários que também moram em nosso bairro. São parentes e residem na mesma casa. Levamos duas garrafas térmicas com água, porque comprar na feira sai mais caro. Às vezes levamos algum lanche de casa, mas geralmente, toda a alimentação é feita na feira. Minha irmã além de pagar-nos um valor superior a que outros contratantes pagam aos trabalhadores na feira, proporciona toda a alimentação por sua conta, também diferente de muitos contratantes da feira, que além de pagarem mal, deixam a alimentação por conta dos contratados. Ao chegarmos à feira, vamos dando bom dia aos nossos vizinhos de trabalho. Em seguida, começamos a retirar a mercadoria para exposição. O modelo da nossa banca é chamado de baú, uma estrutura metálica com portas fechadas a cadeados para guardar a mercadoria, não nos obrigando levá-la pra casa no final do dia, como acontecia inicialmente quando a banca ainda era de madeira. Apesar de ser pequena, é impressionante como cabe bastante coisa. Levamos cerca de quarenta e cinco minutos para expor tudo. Cada espaço é aproveitado, inclusive uma das laterais, onde expomos os colares e cintos femininos que vendemos. Há uma prateleira na banca onde colocamos cinco manequins de busto, cheios de cintos e colares, buscando uma maior exposição para os clientes e também, no alto da banca tem uma barra de ferro, aonde são colocados cinco manequins pendurados. Esses manequins possuem um gancho imitando um cabide, possibilitando pendurá-los, estes também ficam cheios de modelos para exposição. Minha irmã trabalha no ponto que fica na Galeria 185, na Rua José Avelino. Além de cintos e colares, são vendidas bijuterias em geral e acessórios para o cabelo. Todos os produtos que vendemos são importados da China, comprados em São Paulo, diretamente dos chineses. Quase 100% (cem por cento) das 28 mercadorias são compradas com nota fiscal e enviadas por transportadora via terrestre por possuir um custo mais baixo que o transporte aéreo. Uma pequena parte da mercadoria ela traz na bagagem para uma reposição rápida do que está faltando. Quando terminamos de arrumar a banca (ver figuras 17 e 18) já são quase cinco e meia da manhã, geralmente logo em seguida, o rapaz que trabalha comigo na banca, vai tomar o café da manhã em uma das precárias lanchonetes (ver figuras 13 e 14) que funcionam dentro do galpão, quanto ele retorna do lanche é a minha vez. Contudo, às vezes o movimento está intenso, com muitos compradores. Nesse caso, ele compra o meu café e o dele e traz para a banca, tomamos então ao mesmo tempo em que atendemos os clientes que chegam, às vezes em pé e às vezes sentados, dependendo da quantidade de pessoas que estão passando pelos corredores. Geralmente, comemos sempre o mesmo lanche com receio de passar mal, que são café com leite e sanduiche de ovo ou sanduiche de carne moída com queijo, ou sanduíche natural, sempre das mesmas pessoas. Alguns feirantes, incluindo meus vizinhos mais próximos, costumam comprar lanche de pessoas que trazem a comida dentro de isopor, em caixas térmicas ou organizadores de plástico. Não me sinto muito a vontade em comprar dessas pessoas, principalmente depois do dia que vimos, quando vínhamos para a feira, dois homens virando uma caixa térmica no chão de onde saíram diversas baratas, que eles tentavam aos pulos matá-las. No espaço-tempo em que arrumamos a banca começamos a vender alguma coisa, e devemos prontamente atender os clientes (a maioria advindos de outro Estado) porque eles sempre andam com pressa. Fazer todo o percurso da feira leva tempo e o ônibus tem hora marcada para sair, desta forma, se demorar em atender o cliente, ele vai embora e não volta mais. Como os clientes estão sempre apressados, percebemos que nem sempre eles olham para todas as bancas, assim, algumas pessoas costumam ficar oferecendo os produtos e chamando a atenção desses clientes para aumentar as vendas. 29 A mercadoria da banca onde trabalho é colocada dentro de cestos que separa os produtos por tipo e preço, na hora de “montar a banca” ou guardar a mercadoria para ir embora, fica mais prático porque colocamos os cestos já com a mercadoria dentro do baú. No decorrer do dia de trabalho, ficamos repondo a mercadoria com o estoque que está dentro do baú para manter os cestos e os ganchos que penduramos os cintos e colares sempre cheios, pois atrai a clientela. Quando atendemos diversos clientes de uma única vez, a mercadoria da banca fica toda revirada e misturada umas com as outras. Precisamos estar constantemente arrumando para a próxima leva de clientes e também é uma forma de sempre identificar o que precisa repor no baú ou trazer do pequeno estoque que temos em casa para o próximo dia de feira. Compramos a mercadoria pronta para a venda, mais não falta o que fazer durante as várias horas de trabalho, que no domingo podem se estender por até quinze horas de trabalho no final do ano, especificamente, em Dezembro. Nesse período do primeiro semestre do ano, as vendas são mais fracas e não necessitamos passar tanto tempo. Trabalhamos entre dez e onze horas por domingo, das quatro da manhã (hora que chegamos à feira) até no máximo três horas da tarde (hora que chegamos em casa). No final do ano, costumamos ir mais cedo, por volta de uma hora da manhã e, portanto, quase não conseguimos dormir de um dia para o outro, o que torna o trabalho mais cansativo, porém, devido ao intenso movimento, que mal nos permite sentar, conversar ou interagir com nossos vizinhos, não dá tempo de sentir muito sono. Alguns dias há um intenso movimento de idas e vindas da nossa banca para a lojinha de minha irmã na Galeria 185. A banca tem uma maior variedade e quantidade de cintos que a lojinha e lá possui uma variedade maior de colares, além das bijuterias que não vendemos na banca por falta de espaço. Ficamos levando e buscando mercadoria ou acompanhando os clientes de um ponto ao outro para aumentar as vendas. Neste caso, alguns clientes, ao visualizarem que vendemos cintos, perguntam se temos bijuterias, ou nós mesmos oferecemos o produto, assim, acabamos tendo que levar clientes para a lojinha e vice versa. Essa caminhada ajuda a passar o sono e a fadiga, pois, aos poucos vamos conhecendo algumas pessoas diferentes, conversando assuntos relacionados a feira 30 e isso ajuda a distrair. Neste contexto, conheci uma senhora que, fabrica e vende roupas no corredor que dá acesso a Galeria 185 e passou a vender os Brownies para ajudar uma sobrinha que fabrica. Passamos a conversar casualmente e no decorrer desta pesquisa, foi uma das pessoas que me concedeu entrevista. No domingo, almoçamos na feira por que ficamos trabalhando mais tempo devido ao maior movimento de clientes de outros Estados, neste dia, geralmente vamos para casa depois das quatorze horas. Na quinta feira, almoçamos em casa, é um dia que vem poucos ônibus de fora diminuindo consequentemente o movimento. Neste dia, vamos para casa as onze horas. Após todos almoçarmos entre doze e meia e uma hora da tarde, é o momento em que os compradores começam a se preparar para viajar, nesse momento já começamos a escutar o motor de alguns ônibus funcionando e os compradores vêm dos banheiros de banho tomado e de roupa trocada. É o momento em que fazemos as últimas vendas, alguns querendo gastar todo o dinheiro que trouxeram ou porque faltou comprar alguma coisa. As treze e trinta ou quatorze horas, começamos a arrumar a mercadoria nos cestos que é o preparatório para guardá-las no baú e em seguida guardamos tudo para ir embora. Alguns feirantes vão embora mais cedo, outros mais tarde. Na saída, todos se cumprimentam e seguem para seus lares satisfeitos ou não com o montante apurado. O movimento de carregadores nesse horário é muito intenso, levando fardos das mercadorias para os carros daqueles feirantes que retornam com as mercadoras que sobraram para casa. 1.3.3 Personagens (trabalhadores em geral; clientes e administrador) O que movimenta mais a feira, no que diz respeito às vendas, são os clientes que vêm nos ônibus do interior do Ceará e principalmente de outros estados como: Piauí, Maranhão, Belém e Rio Grande do Norte. Geralmente, a rota de compras não se resume à Fortaleza, algumas dessas excursões chegam até a Feira da Madrugada de Caruaru, em Pernambuco, para depois retornarem as suas cidades. 31 Os clientes, como já citado anteriormente, estão sempre apressados e com a experiência do tempo de trabalho na feira aprendemos que muitos deles não veem literalmente a mercadoria, vão passando apressados e só param para comprar quando oferecemos o produto. Ao ouvirem o preço convidativo, param para olhar o que é e, muitos acabam comprando alguma coisa. Para aumentar a venda, vamos mostrando toda a mercadoria com seus respectivos preços e alguns acabam comprando mais do que previam, por exemplo, tem cliente que só compra cintos, mas com um pouco de insistência, leva também colares e vice e versa. Os clientes variam entre as modalidades de varejo e atacado. Os de varejo, não agradam muito os feirantes, se forem aqueles que passam uma hora na banca, bagunçam tudo e levam uma peça, às vezes, nenhuma. Enquanto os compradores de atacado, muitas das vezes, demoram dez minutos e compram em grande quantidade. Outra característica dos compradores seja varejo ou atacado, é que em muitos casos, ambos andam acompanhados. Os varejistas geralmente são acompanhados por alguém da família ou amigos, e os atacadistas, andam às vezes em grupos, com outros compradores, em qualquer dos casos, o acompanhante pode ajudar na hora da venda incentivando a compra, como também, podem desmotivar, evitando a realização da venda. Alguns clientes compram um grande montante de mercadorias e, utilizam um sacolão jeans para colocar as compras. Outros utilizam fardos, que são transportados pelos carregadores. Os carregadores são homens cadastrados no galpão que recebem uma blusa com o nome “carregador” pintado nas costas e na frente, que passam, em alguns casos, visivelmente cambaleantes por causa do álcool ou com os olhos visivelmente “ligados” ou avermelhados devido à droga. O peso que alguns deles levam nos fardos é impressionante. Alguns feirantes fabricam os próprios produtos, mesmo terceirizando parte da produção, mas na hora da venda, sempre estão presentes. Alguns contratam funcionários para auxiliá-los ou os próprios familiares, outros vêm trabalhar sozinhos e se ficarem doentes, não tem quem fique no lugar. O fato de minha irmã comprar os produtos prontos, não nos exime de trabalhos que, apesar de não estarem ligados á produção, estão ligados á exposição e conserto dos produtos. Quando a mercadoria chega, parte dela precisa ser embalada, marcada com seus respectivos preços e 32 constantemente é necessário trocar as frágeis embalagens dos produtos por outras mais resistentes, serviço este realizado na própria feira. A mercadoria da banca não é marcada preço, principalmente porque trabalhamos apenas com duas variedades, como já explanamos cintos e colares, porém, quando o movimento está parado, ajudamos a marcar os preços das mercadorias da lojinha. Sempre que possível, consertamos alguns produtos com um alicate de bijuteria ou colando alguma peça que se descolou. Os feirantes que trabalham próximos a banca costumam a todo o momento ou sempre que possível, interagir uns com os outros. A interação com os meus vizinhos de trabalho se dá de diversas formas. Dentre elas, duas cadeiras são colocadas na lateral da banca de um dos meus vizinhos e fazemos um rodízio para sentar nelas. Os vizinhos aos quais me refiro, trabalham em cinco bancas próximas a minha, dentre estas, duas delas. É possível sentar-se em cima da banca porque o estoque não é colocado em cestos e acaba sobrando espaço para sentar, mas como são muitas pessoas, temos que dividir as cadeiras. Estes momentos são utilizados para conversar sobre diversos assuntos, seja sobre a feira ou sobre algo do nosso cotidiano. Não é possível também, que cada um leve uma cadeira para si porque atrapalharia a passagem dos clientes, tornando-a inviável. Existem momentos de grande movimento e trabalho intenso, mas também, tem os momentos de calmaria, onde às vezes ficamos todos juntos conversando, às vezes ficam apenas os homens e outras vezes só as mulheres numa roda de conversa. Dos cinco vizinhos, apenas um trabalha sozinho, os demais vão com esposas, filhos e cunhados. As conversas geralmente giram em torno da feira, como está o movimento, sobre os tipos de cliente, o trabalho de produzir a mercadoria, o cansaço e o sono, o preço da matéria prima, o trabalho que dá para terceirizar a produção ou falamos sobre alguma viagem que fizemos, dentre outros. Raras vezes tratamos de algum assunto pessoal como, por exemplo, as esposas reclamando de seus maridos, ou o relato de alguma vivência da infância, estreitando os laços pessoais. Os laços não se limitam ao âmbito da feira. Em alguns casos e, dentre os cinco vizinhos de trabalho, três possuem vida social fora da feira. Dois encontram-se na igreja e em suas casas e o terceiro, joga futebol com os outros dois e também já 33 esteve na casa deles. Além disso, durante o decorrer desta pesquisa, o feirante que joga futebol com os demais e, está fazendo Jiu Jitsu, me contou que os outros foram assistir a sua troca de faixa para um nível superior. Além disso, alguns levam fotos de passeios, viagens e até mesmo da infância, socializando-se com todos. Os laços criados com a convivência na feira não são totalmente livres de impasses. A concorrência é um fator que gera intrigas entre os feirantes, como exemplo, vivenciei o período em que dois dos meus trocavam farpas porque um deles passou a vender o mesmo produto que o outro. Os feirantes também desconfiam de seus colegas de trabalho que vem olhar uma peça na sua banca detalhadamente, porque é um sinal de que seu vizinho quer copiar o modelo. No entanto, no dia a dia, nunca presenciei brigas ou discussões acaloradas na feira. Costumamos dizer no nosso círculo de companheiros de trabalho, que nos momentos que não estamos vendendo, pelo menos estamos nos divertindo. Tudo é motivo de piada podendo se estender por muitos dias, por exemplo: algumas pessoas que trabalham na feira recebem apelidos e fica como uma “piada interna” do grupo, como uma senhora que recebeu o apelido de “Jack Sparrow,” personagem do filme Piratas do Caribe, porque ela usa um lenço na cabeça igual ao pirata e, um vendedor ambulante que é chamado de Lima Duarte, devido a sua barba. Também ficam imitando alguns vendedores ambulantes por causa de características engraçadas como, por exemplo, assobiar quando pronuncia palavras com a letra “s”. É o caso de um vendedor de alimentos que passa falando alto: “olha o lanche!” “Temos salgados, sucos, sanduiche e sucos das frutas”, ele passa assobiando cada palavra pronunciada. Por volta de oito e meia às nove horas da manhã é o momento em que fazemos o lanche, pois, tomamos café antes das seis da manhã. Percebo que as mulheres fazem lanches mais leves como sanduiche natural, salada de frutas, uma fatia de bolo, salgadinho, barra de cereal, dentre outros. Porém, os homens se alimentam nesse horário com comida mais pesada como, cuscuz com carne de carneiro, carne de sol ou linguiça, sarrabulho, buchada, panelada, etc. Todos os meus vizinhos compram alguma coisa na feira para si ou para casa quando necessário. Aproveitamos os momentos de calmaria para sairmos às 34 compras de roupas, calçados e acessórios ou compramos utensílios para o lar com os vendedores ambulantes que passam oferecendo sabonetes, pasta de dente, sabão em pó, chocolates, entre outros produtos, que muitas das vezes está com o valor abaixo do supermercado. A afinidade com os vizinhos de trabalho permitiu uma maior facilidade no processo de entrevistas, que faz parte desta pesquisa. Foi determinado que ao todo, seriam realizadas dez entrevistas, com os sujeitos que trabalham na Feira da Madrugada e que são fabricantes dos produtos que comercializam. Meus cinco vizinhos participaram da pesquisa, outros cinco, foram escolhidos entre pessoas que conheço desde a época de trabalho na Praça da Sé, ou são conhecidos de minha irmã. A descrição do cenário da Feira da Madrugada e seus personagens busca esclarecer sobre a sua dinâmica em vários aspectos. Este setor da economia informal tão heterogêneo é uma realidade do trabalho informal na contemporaneidade. Para o estudo sobre o trabalho informal na Feira da Madrugada, nosso tema de pesquisa, é necessário entender as mudanças no capitalismo contemporâneo e o seu impacto em muitas áreas da vida social, especialmente no que diz respeito a uma das categorias centrais do sistema no mundo capitalista, que é o trabalho. Tais mudanças vêm marcar a conjuntura atual com características específicas, como a perda de direitos relativos ao trabalho formal, a precarização das relações e contratações trabalhistas que foram flexibilizadas, transformando os postos de trabalho e as formas de ocupação dos trabalhadores, como também, a informalização das relações de trabalho. Trataremos dessas mudanças porque as questões referentes ao cotidiano dos trabalhadores informais da feira da madrugada estão relacionadas à natureza e às consequências dessas mudanças. As transformações as quais passou o capitalismo têm uma grande importância para entendermos as várias transformações no mundo do trabalho dentre elas, o crescimento do trabalho informal. Antes disso, será necessário, contudo, compreendermos o conceito de trabalho, no que diz respeito a sua dimensão ontológica e histórica. 35 2 TRABALHO: PRINCÍPIOS TEÓRICOS A pesquisa sobre o trabalho informal na Feira da Madrugada, tema escolhido em 2013.2, tem em seu referencial teórico, já assimilado em parte pela pesquisa bibliográfica realizada neste período, e pelo conhecimento adquirido no decorrer do percurso acadêmico, aspectos como a perda de direitos relativos ao trabalho formal, a precarização das relações e contratações trabalhistas que foram flexibilizadas, transformando os postos de trabalho e as formas de ocupação dos trabalhadores, como também, a informalização das relações de trabalho. A busca pelo referencial teórico que embasaria esta pesquisa foi pensada inicialmente, tendo relação direta com as características citadas acima, buscando retratar, como se inscreve o trabalho precarizado e informal na atualidade, que consta em diversas literaturas sobre o tema. No decorrer do semestre, enquanto exercia a atividade laboral na Feira da Madrugada, já com um olhar crítico sobre as ações e falas dos sujeitos, vizinhos de trabalho, buscava perceber na realidade, pelo menos uma parte daquilo que já havia lido sobre a categoria trabalho. A literatura que aborda esse referencial teórico relativo ao trabalho, geralmente trata de como os homens tem vivido em nossa sociedade de forma alienada, desapropriado dos meios para produzir sua subsistência e de sua própria condição de ser humano, de ser social, sendo utilizado e tratado tal como aquilo que produz uma mercadoria, um produto, perdendo a dimensão de humanização, de sociabilização, de pertencimento. Em dezembro de 2013, um fato despertou os sentidos e, na ocasião, foi inevitável a associação direta com a teoria. Um feirante chamou a atenção para um determinado modelo de blusa, que uma transeunte estava usando e, literalmente, com um brilho no olhar e sorriso nos lábios, disse que havia produzido uma blusa no mesmo modelo, porque estava na moda. Neste momento, surge a relação com a questão do trabalho criativo, teleológico, pois, mesmo copiando um modelo para vender porque está na moda, ele declarou como recriou aquele modelo, buscando um diferencial para conquistar seus clientes. 36 Os fatores, brilho nos olhos e sorriso nos lábios, trouxe a frente o sentido nato do trabalho: o homem como produtor não alienado, sentindo-se proprietário e se reconhecendo naquilo que produziu. Recriar uma peça levou-o ao sentimento de orgulho, demonstrado por sua ação e expressão, caracterizando que, se sentia pertencente a algo, fazendo parte da construção de uma blusa e seu aperfeiçoamento. É como o trabalho propriamente dito, no sentido ontológico, o trabalho que sociabiliza e humaniza, que pertence ao homem e ele se reconhece nele, é sua produção, é seu. Esta é uma característica presente no cotidiano de trabalho na feira, pelo menos entre os vizinhos, percebo esta demonstração de orgulho, por produzir algo e se sentir parte desta produção. Neste contexto, surge a necessidade, na construção deste estudo, de descrever esta perspectiva ontológica do trabalho, em que o homem em algumas atividades hoje, ainda consegue sentir o aspecto do trabalho que originalmente o formou como ser social. Quando se fala no trabalho que degrada a condição humana, que o transforma em uma mercadoria, em uma coisa, faz-se necessário retratar a diferença entre o antes e o agora. É disto que se trata este capítulo, uma explanação e conceituação teórica a respeito do trabalho, mostrando a diferença entre o trabalho enquanto constitutivo do ser social e sua gradativa mudança para o trabalho assalariado, alienado, precarizado e informal. 2.1 Ontologia do trabalho O trabalho é uma categoria que perpassa a vida dos seres humanos, fazendo parte, portanto, do cotidiano dos mesmos. Seja trabalho braçal ou intelectual, com maior ou menor grau de dificuldade, é através dele que buscamos os meios para a nossa subsistência. É através do trabalho que adquirimos a remuneração ou salário para obter objetos e bens essenciais e ou vitais para a nossa sobrevivência, como alimentos, artigos do vestuário, moradia, meio de transporte, etc. 37 O presente capítulo pretende de forma breve e sucinta, esclarecer a diferença entre o trabalho em sua forma primitiva, numa perspectiva ontológica 1 (o estudo do ser) e o trabalho no sistema capitalista. O texto trará, quando for plausível, elementos da realidade empírica – que é o trabalho na Feira da Madrugada – que coadunem com o referencial teórico que aqui é explanado. Mas afinal, o que é o trabalho? Antunes (2013) aborda este tema, do trabalho enquanto atividade transformadora, ação do homem sobre a natureza e consequentemente sobre si mesmo, através de escritos de Karl Marx, onde está expressa a compreensão deste autor sobre a categoria trabalho. O que significa o ato de trabalhar? Antes de tudo, o trabalho é um processo entre homem e a natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a natureza. [...] Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a natureza externa a ele e ao modificá-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza (MARX, apud ANTUNES, 2013, pp. 31, 32). O trabalho enquanto tal, porém, não é praticado apenas pelos homens. No reino animal conhecemos alguns que realizam determinada forma de atividades, também utilizando recursos da natureza para concretizar o seu trabalho e como meio de sobrevivência. Para exemplificar temos animais como o castor, que represa rios com galhos e areia para proteger sua moradia, que é construída com uma parte submersa e outra na superfície, à margem do rio 2. As formigas são tidas como insetos que vivem em sociedade, devido à estrutura complexa do formigueiro e pela divisão de tarefas, passam o dia trabalhando, seja levando comida para o formigueiro ou tomando conta do mesmo3. As abelhas, assim como as formigas, vivem numa complexa rede 1 “O aspecto ontológico é sumariado pela questão: o que distingue o ser social da natureza e, portanto, qual o conteúdo substancial do salto para além da natureza que constituiu a gênese do mundo dos homens? Esse é um aspecto que apenas pode ser resolvido ontologicamente, pois diz respeito à distinção essencial dos homens para com a natureza” (LESSA 2011, p. 139). Para uma maior compreensão da ontologia do ser social consultar além do autor citado, NETO & BRAZ (2012). 2 < http://sotaodaines.chrome.pt/sotao/castores_3.html> - acesso em 05/05/2014 3 <http://educacao.uol.com.br/disciplinas/biologia/formigas-divisao-de-tarefas-e-cooperacao-fazemparte-da-vida-de-insetos.htm> - acesso em 05/05/2014. 38 social, com divisões de tarefas que incluem a limpeza da colmeia, a produção de cera, etc4. Apesar de todos – homens e animais – possuirmos a capacidade para o trabalho, o homem difere dos animais pelo fato destes realizarem atividades puramente instintivas e aqueles, realizarem o trabalho de forma teleológica. Netto e Braz (2012, p.42) expõem que as atividades realizadas pelos animais ocorrem de forma hereditária, “determinada geneticamente, [...] numa relação imediata entre o animal e o seu meio ambiente [...] e satisfazem, sob formas em geral fixas, necessidades biologicamente estabelecidas”. Ao citar exemplos de animais, os autores lembram-se das abelhas e afirmam que elas já nascem programadas para a construção das colmeias e para recolher o pólen. Do que se trata então o trabalho teleológico que diferencia os homens dos animais e o que constitui a sociabilidade do homem através da atividade denominada trabalho? 2.2 Dimensão teleológica e a sociabilidade humana O trabalho teleológico realizado pelo homem, por sua vez, é caracterizado por uma prévia antecipação na mente, antevendo o que se pretende realizar, produzir ou construir, para um determinado fim. Enquanto os animais agem, executam suas atividades de forma geneticamente programada e hereditariamente herdadas, o homem consegue ter consciência e projetar o que deseja, Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. No fim do processo de trabalho obtém-se um resultado que já no início deste existiu na imaginação do trabalhador, e portanto idealmente (MARX, apud ANTUNES, 2013, p. 32). Acresce ainda à categoria trabalho, a dimensão da sociabilidade entre os homens, pois, ao transformar a natureza para suprir suas necessidades, o homem transforma a si mesmo e sua relação com os outros homens, tornando-se um ser social. De acordo com Lessa (2011), o trabalho é, 4 < http://educacao.uol.com.br/disciplinas/ciencias/abelhas-2-na-sociedade-da-colmeia-ha-rainhaoperarias-e-zangoes.htm> acesso em 05/05/2014. 39 [...] um tipo de atividade na qual o indivíduo humano primeiro elabora na consciência (como ideia, como ideação) para depois transformar a natureza naquilo que necessita. [...] É por este modo de transformação do mundo natural que o ser humano, ao transformar a natureza, transforma a sua “própria natureza” social (LESSA, 2011, p. 142). Lessa (2011, p. 141) explana que em se tratando do surgimento da vida orgânica dos seres vivos de forma mais geral, incluindo os mais primitivos, sempre houve a necessidade dessa interação com a natureza, como meio de subsistência e de reprodução. Porém, com o ser humano “desenvolve-se um novo tipo de ser, uma nova materialidade, até então inexistente, e cujas peculiaridades não se devem à herança biológica nem à programação genética – um tipo de ser radicalmente inédito, o ser social”. O ser social é fundado através do trabalho, que diferencia os homens dos demais animais, e essa nova existência propiciou o aparecimento de uma nova categoria, que é a reprodução social e, que tem sua gênese no trabalho. Segundo Lessa (2011), o trabalho é considerado como, [...] a categoria fundante do mundo dos homens porque, em primeiro lugar, atende à necessidade primeira de toda a sociabilidade: a produção dos meios de produção e de subsistência, sem os quais nenhuma vida social poderia existir. Em segundo lugar, porque o faz de tal modo que já apresenta, desde o seu primeiro momento, aquela que será a determinação ontológica decisiva do ser social, qual seja, a de que, ao transformar o mundo natural, os seres humanos também transformam a sua própria natureza, o que resulta na criação incessante de novas possibilidades e necessidades históricas, tanto sociais como individuais, tanto objetivas quanto subjetivas (LESSA, 2011, p. 142). Netto e Braz (2012, p. 46) discutem este tema retratando que o trabalho sociabiliza o homem porque é um processo realizado necessariamente em relação com outros homens, é uma atividade coletiva e, reitera que, “esse caráter coletivo da atividade do trabalho é, substantivamente, aquilo que se denominará de social”. “Estamos afirmando que foi através do trabalho que a humanidade se constituiu como tal” (Idem, grifo do autor). O trabalho enquanto categoria que sociabiliza o homem também é possuidor de outra característica que é o valor de uso, pois, produz aquilo que lhe será útil, para atender determinadas necessidades, ou seja, o homem produz com o trabalho o necessário para satisfazer suas necessidades vitais, para reproduzir sua existência. O trabalho é, portanto, “atividade orientada a um fim para produzir 40 valores de uso, apropriação do natural para satisfazer a necessidades humanas, condição universal do metabolismo entre o homem e a natureza” (MARX, 1983, 153, apud LESSA, 2011, p. 146). Netto & Braz (2012, p. 67) demarcam o primeiro ajuntamento coletivo de seres humanos como surgindo “acerca de uns quarenta mil anos [...] quando os primeiros grupos propriamente humanos surgiram sobre a Terra”. Nesse ajuntamento, denominado de comunidade primitiva por Netto & Braz (2012), a produção dos meios de subsistência eram distribuídos entre os membros da comunidade, ou seja, o produto do trabalho de todos era repartido para a comunidade, porque neste período todos eram donos – proprietários - dos meios que garantiam a sobrevivência de todos os membros que compunham a comunidade. Nesse contexto, [...] Se a propriedade dos meios de produção fundamentais é coletiva (como na comunidade primitiva), tais relações são de cooperação e ajuda mútua, porque os produtos do trabalho são desfrutados coletivamente e nenhum membro do grupo humano se apropria do fruto do trabalho alheio; se tal propriedade é privada, particular (de um membro do grupo, de um conjunto de membros), as relações decorrentes são de antagonismo, posto que os proprietários dos meios de produção fundamentais apropriam-se dos frutos do trabalho dos produtores diretos, ou seja, estes são explorados por aqueles, [...] em síntese, na propriedade privada está a raiz das classes sociais (NETTO & BRAZ 2012, p. 71-72). A comunidade primitiva é superada por outros modos de produção 5, mais evoluídos enquanto relações sociais e processos produtivos, mas não necessariamente, em questões de igualdade, como expressam Netto & Braz (2012), ao relatar o surgimento das classes sociais, no modo de produção capitalista, A existência dessas duas categorias de homens (e já sabemos que se trata de duas classes sociais) não é produto de um acidente qualquer ou de uma lei da natureza – ela resulta de um processo histórico que se operou do final do século XV até meados do século XVIII, constituindo a acumulação primitiva ou originária, num ciclo que Marx chamou de “pré-história do capital e do modo de produção que lhe é próprio”. [...] Com essa polarização do mercado estão dadas as condições fundamentais da produção capitalista. [... Tratase do] processo de separação do trabalhador da propriedade das condições de seu trabalho, um processo que transforma, por um lado, 5 A comunidade primitiva é superada pelo escravismo, posteriormente pelo feudalismo e por fim, pelo capitalismo (este por sua vez, sofre diversas superações dentro do próprio sistema). Para uma melhor compreensão sobre esses modos de produção, consultar (Netto e Braz 2012, capítulo 2).”[...] cada modo de produção apresenta leis que lhe são peculiares, [...] cada época histórica, marcada pelo modo de produção nela dominante, tem suas próprias leis de desenvolvimento (Idem, p. 73)”. 41 os meios sociais de subsistência e de produção em capital, por outro os produtores diretos em trabalhadores assalariados (MARX, 1984, I, 2, p. 262, apud, Netto & Braz 2012, p. 99) O estudo do trabalho enquanto categoria que é imprescindível na constituição do homem como ser social, que aprende a viver em sociedade, que utiliza a natureza de forma útil para atender suas necessidades, revela a diferença entre esta categoria do trabalho, para aquela exercida na sociedade capitalista. Os sujeitos entrevistados para esta pesquisa, também são produtores e proprietários dos meios de produção de suas mercadorias e como tal, imprimem aos trabalhadores que participam dos seus processos produtivos, o caráter de separação do trabalhador dos próprios meios para promover sua sobrevivência e da condição de sociabilidade. Além disso, esses pequenos produtores, reproduzem a mesma degradação do trabalho que os grandes capitalistas, como veremos no próximo capítulo. Dentro do exposto até agora, quais os aspectos principais que diferem o trabalho em seu sentido ontológico do trabalho no modo de produção capitalista? 2.3 O trabalho na formação da sociedade capitalista A sociedade capitalista ou o modo de produção6 capitalista surge no Ocidente de acordo com Netto & Braz (2012), em substituição ao sistema feudal, no decurso entre os séculos XVIII e XIX. O sistema capitalista é predominante até os dias de hoje e em escala mundial. Sua conjuntura ocorreu através de muitas evoluções e transformações desde o seu início até o século em que vivemos – século XXI. 6 Modo de produção é a articulação entre forças produtivas e relações de produção. As forças produtivas são formadas pelo conjunto de: meios de trabalho (tudo aquilo de que se vale o homem para trabalhar, instrumentos, ferramentas, instalações, etc., bem como a terra, que é um meio universal de trabalho); objetos de trabalho (tudo aquilo - matérias naturais brutas ou matérias naturais já modificadas pela ação do trabalho - sobre que incide o trabalho humano) e a força de trabalho (trata-se da energia humana que, no processo de trabalho é utilizada para, valendo-se dos meios de trabalho, transformas os objetos de trabalho em bens úteis à satisfação de necessidades). As relações de produção fazem parte do modo de produção porque o trabalho é, por sua própria condição, um processo social, ainda quando realizado individualmente; as forças produtivas operam dentro de relações determinadas entre os homens e a natureza e entre os próprios homens Netto & Braz (2012, p.70-71-72). 42 Para uma melhor compreensão sobre a diferença do trabalho exercido anterior a produção capitalista e no seu modo de produção constitutivo, explanaremos sobre as características principais 7 da produção mercantil simples (PMS) e da produção mercantil capitalista (PMC). Basicamente, de acordo com Netto & Braz (2012, p. 109), a diferença entre os dois modos de produção reside nos seguintes aspectos, a PMS “tem no dinheiro um mero meio de troca e cujo objetivo é a aquisição das mercadorias de que carece e que, portanto, vende para comprar”. Já na PMC, “o capitalista compra para vender, isto é, o que ele visa com a produção de mercadorias é obter mais dinheiro”, portanto, “o lucro constitui seu objetivo, a motivação e a razão de ser do seu protagonismo social” (Idem, 109). A produção de bens como valores de uso anterior a sociedade capitalista é caracterizada como produção mercantil simples por Netto & Braz (2012). A PMS era realizada através de “dois pilares: o trabalho pessoal e o fato de artesãos e camponeses nela envolvidos serem os proprietários dos meios de produção que empregavam. [...] esse tipo de produção não implicava relações de exploração”, havia uma divisão de tarefas, uma divisão social do trabalho executado, porém a relação entre os trabalhadores era de ajuda e cooperação, “o camponês trabalhava solidariamente com membros da sua família e o mestre-artesão compartilhava as condições de trabalho e de vida de seus aprendizes e jornaleiros” (NETTO & BRAZ, 2012, p.94). O maior interesse na PMS era adquirir os meios para a subsistência, o comércio era basicamente realizado através da troca, e o dinheiro não tinha centralidade para os produtores, pois, “o dinheiro lhe servia exclusivamente como meio de troca – o dinheiro funciona aqui como simples intermediação entre mercadorias diferentes” (Idem, p. 95). 7 Não se pretende aqui esgotar o histórico de características e particularidades que envolvem a constituição do modo de produção capitalista, não com a pretensão de diminuir a suma importância da discussão, porém, o foco deste estudo é o trabalho informal e, também, porque o tempo que permeia este estudo não me permite tão grande discussão. A explanação de algumas características do modo de produção capitalista vem promover uma maior compreensão da crítica feita a constituição da classe trabalhadora hoje. 43 O processo produtivo dos feirantes entrevistados para esta pesquisa tem em comum com a produção mercantil simples, o trabalho pessoal dos feirantes em solidariedade com membros de sua família, no caso dos sujeitos da pesquisa, com seus cônjuges. A divisão do trabalho é pautada na cooperação, em que um ajuda o outo, nas funções que lhe cabem, inclusive indo trabalhar na feira juntos de madrugada, já que o lucro do trabalho será usufruído por ambos. Mas diferencia-se porque seus interesses estão centralizados no dinheiro, tendo em vista que desejam conquistar um maior rendimento e uma melhor qualidade de vida, de acordo com suas falas. Geralmente, os homens fazem a compra do material e o corte do tecido, além de levar e trazer as peças para as costureiras. As mulheres providenciam a modelagem das roupas e levam inicialmente até as costureiras, para explicar como querem a peça pronta. A administração dos pequenos empreendimentos em alguns dos casos é exercida pelos homens, às vezes pelas mulheres e, a embalagem e etiquetagem da mercadoria geralmente são feitas pelo casal. No cotidiano de trabalho na feira, muitas vezes, surgem conversas entre os cônjuges sobre o que podem gastar ou não naquele dia, para compras pessoais de algum produto na feira, falam das contas a pagar e outras despesas, mostrando que ambos interagem sobre a parte administrativa e que muitas das decisões são feitas em comum acordo. Netto & Braz (2012, p.96) continuam sua explanação diferenciando os dois modos de produção em questão, enquanto a PMS é voltada para o autoconsumo, a PMC é voltada para o lucro, seu processo é adquirir mais dinheiro, acumular capital. Há uma divisão de tarefas, divisão social do trabalho, porém, na PMC o produtor é destituído dos meios de produção, que agora pertencem ao capitalista, o único bem que o produtor possui é a sua força de trabalho, que é vendida por um valor denominado de salário, apesar de os meios de produção pertencer ao capitalista, “não é ele quem trabalha – ele compra a força de trabalho que, com os meios de produção que lhe pertencem, vai produzir mercadorias”. A produção de mercadorias dos sujeitos pesquisados, como já explanado acima, tem características da produção mercantil simples e da capitalista. Assim, a heterogeneidade na constituição do processo produtivo dos feirantes pesquisados possui características dos dois modos de produção aqui estudados. Diferencia-se da 44 produção mercantil capitalista, porque os feirantes trabalham não apenas na administração, mas também, fazem parte do processo produtivo de suas mercadorias e são eles que vão vender de madrugada na feira. Ao trabalharem em parte do processo de produção e na venda de suas mercadorias, os feirantes colocam seu trabalho pessoal e sua relação familiar de trabalho com seus cônjuges, também é característica da produção mercantil simples. A produção de mercadorias dos feirantes se iguala a produção mercantil capitalista por que eles são proprietários de parte dos meios de produção, já que dentre os dez sujeitos da pesquisa, apenas um possui o maquinário, os trabalhadores assalariados e contratados formalmente e a matéria prima para produzir suas roupas. Os demais sujeitos entrevistados possuem como propriedade dos meios de produção parte da matéria prima, como o tecido e alguns acessórios que são colocados nas roupas, por exemplo, os botões, dentre outros. Porém, o maquinário e os trabalhadores são terceirizados, não são assalariados e trabalham informalmente, caracterizando a exploração do trabalhador, própria da produção mercantil capitalista. A PMC tem ainda três características que lhe é intrínseca e que a diferencia da PMS, de acordo com Netto & Braz (2012), são a relação de exploração do trabalhador, fundada no modo de produção capitalista, as crises do sistema capitalista, que lhe são inerentes e cíclicas, e também, a alienação dos trabalhadores promovida pelo sistema. Como explanado anteriormente, o capital compra a força de trabalho através do salário, e o “valor da força de trabalho é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para produzir os bens que permitem a sua manutenção (ou reprodução)” (NETTO & BRAZ, p. 113), ou seja, o trabalhador deveria receber o salário que equivale à determinada quantidade de produtos/mercadorias a serem produzidas na jornada de trabalho. Porém, durante a jornada, o trabalhador produz além do equivalente ao seu salário, ele gera mais valor que o que ele recebe para produzir. Esse valor a mais é 45 denominado de mais valia8, é um valor excedente, sobre o qual, o trabalhador não recebe o proporcional pelo trabalho investido na produção, a “relação capitalista/proletário, consiste, pois, na expropriação (ou extração, ou extorsão) do excedente devido ao produtor direto (o trabalhador): é nessa relação de exploração que se funda o MPC” (NETTO & BRAZ, p. 114, grifo do autor). [...] aquilo que importa ao capitalista é o tempo de trabalho excedente – se é nesta parte da jornada que se produz o excedente de que ele vai apropriar-se, interessa-lhe a ampliação desta parte da jornada. Um modo de ampliar o tempo de trabalho excedente consiste na extensão da jornada de trabalho sem alteração do salário: aumentando-se a duração da jornada (dez, doze, catorze horas, etc.), conserva-se a mesma duração do tempo de trabalho necessário e se acresce o tempo de trabalho excedente (NETTO & BRAZ, p. 121, grifo do autor). O modo de produção capitalista procura cada vez mais aumentar o seu lucro, acumular capital e isto é possível quanto mais se apropria e extrai trabalho excedente. A extensão da jornada de trabalho possui segundo Netto & Braz (2012, p. 121) dois obstáculos à sua real concretização, um refere-se a questões biológicas, ou seja, da própria capacidade física da realização do trabalho pelo homem, que pode se extenuar devido o excesso de trabalho e, “é isso o que explica, entre outras razões, o fato de o Estado burguês limitar legalmente a jornada, para preservar a reprodução da força de trabalho em benefício dos interesses gerais do capital”. O segundo obstáculo está relacionado com a natureza política que envolve esta relação de exploração, que “é a resistência e as lutas dos trabalhadores contra jornadas estendidas, protagonizadas pelo movimento operário” (Idem, p. 121) que proporcionou a limitação legal da jornada do trabalho pelo Estado. Neste contexto, com a necessidade constante de extrair mais valia dos trabalhadores para aumentar o seu lucro e, impossibilitados de estender de forma exponencial a jornada de trabalho, o capitalista promove sempre estratégias para acumular mais e mais capital. As possibilidades vão surgir por meio do aumento do ritmo do trabalho, que se dá, segundo Netto & Braz (2012, p. 122), Através de uma série de controles impostos aos operários – que incluem vigilância a todos os seus atos na unidade produtiva até a cronometragem e determinação dos movimentos necessários à realização das suas tarefas -, o capitalista os obriga a trabalhar a um 8 Mais valia: o lucro do capitalista [...] se concretiza a forma típica que o excedente econômico adquire no MPC – excedente apropriado pelo capitalista, fonte de seu lucro e que se denomina de maisvalia. Neto & Braz (2012, p. 110-111) 46 ritmo tal que, sem alterar a duração da jornada, produzem mais mercadorias e mais valor que sem esses controles. Realmente, “se o empregador puder levar seus operários a fazer, sem pagamento extra, numa hora o mesmo que antes faziam em duas [...], terá as mesmas vantagens que se tivesse duplicado o dia de trabalho” (EATON, 1965, p. 101, apud, NETTO & BRAZ 2012, p. 122). A feirante desta pesquisa, que tem em seus moldes as características do modo de produção capitalista, foi entrevistada em sua residência que também é a sua fábrica. O horário da entrevista deu-se no horário de trabalho das costureiras e foi conduzida no escritório. De lá era possível visualizar em uma tela as imagens das câmeras voltadas para as trabalhadoras e pela própria fala da entrevistada, o controle visual ajuda no controle da produção. Como o seu processo produtivo não envolve grandes tecnologias para aumentar a produção das peças, a estratégia criada para o aumento da produção foi o sistema de vigilância. De seu escritório, que fica no espaço onde as costureiras trabalham, ela observa e fala com suas funcionárias através de um microfone, solicitando alguma atividade. Os demais feirantes que se utilizam de mão de obra terceirizada procuram aumentar o lucro procurando as costureiras que oferecem menores preços e boa qualidade ao mesmo tempo. A exigência para estas trabalhadoras, além da qualidade do serviço é na pressa para entrega da mercadoria pronta. Levando em conta que a maioria dos entrevistados trabalha na quinta-feira e no domingo, as costureiras tem entre três e quatro dias entre cada feira para produzir os lotes de roupas. As costureiras que não se adequam as necessidades de qualidade e preço, são facilmente substituídas por outras, por não trabalharem com carteira assinada. As crises por sua vez, além de inerente ao modo de produção capitalista perpassam todo o seu desenvolvimento até a contemporaneidade. Netto & Braz (2012, p. 169) relatam que inicialmente as crises ocorriam de forma localizada, à primeira crise - 1825 - afetou basicamente a Inglaterra, país onde se deu início o processo do modo de produção capitalista, porém, “desde 1847-1848, elas passaram a ganhar dimensão mundial”, assim, A história, real e concreta, do desenvolvimento do capitalismo, a partir da consolidação do comando da produção pelo capital, é a história de uma sucessão de crises econômicas – de 1825 até às vésperas da Segunda Guerra Mundial, as fases de prosperidade econômica foram catorze vezes acompanhadas por crises; a última explodiu em 1937/1938, mas foi interrompida pela guerra. Em pouco mais de um século, como se constata, a dinâmica capitalista revelou-se 47 profundamente instável, com períodos de expansão e crescimento da produção sendo bruscamente cortados por depressões, caracterizadas por falências, quebradeiras e, no que toca aos trabalhadores, desemprego e miséria. [...] No século XX, a crise que se abriu em 1929 teve consequências catastróficas (NETTO & BRAZ, 2012, p. 169). Não há, no entanto, um fator único que culmine em crise no sistema capitalista, mas sim, diversos fatores resultantes do próprio movimento do capital, como explicam Netto & Braz (2012, p. 173), da própria “dinâmica contraditória” do modo de produção capitalista. As crises como já explicado acima ocorrem em certos espaços de tempo, não de forma programada, mas dentro do que Netto & Braz (2012, p. 172) denominam de “ciclo econômico” que é contínuo, constituído de quatro estágios, “a crise, a depressão, a retomada e o auge” (Idem). Netto & Braz (2012, p. 172) explanam resumidamente cada estágio. A crise pode explodir a qualquer momento por um “incidente econômico ou político qualquer”. Neste processo ocorre que, Bruscamente, as operações comerciais se reduzem de forma dramática, as mercadorias não se vendem, a produção é enormemente diminuída ou até paralisada, preços e salários caem, empresas entram em quebra, o desemprego se generaliza e as camadas trabalhadoras padecem a pauperização absoluta (NETTO & BRAZ, 2012, p. 172). Após o início da crise, ocorre o estágio seguinte que é denominado de depressão, de acordo com Netto & Braz (2012), com as seguintes características, [...] o desemprego e os salários mantêm-se no nível da fase anterior, a produção permanece estagnada, as mercadorias estocadas ou são destruídas ou parcialmente vendidas a baixo preço. As empresas que sobrevivem procuram soluções tecnológicas para continuar com alguma escala de produção, mesmo com preços baixos para as suas mercadorias; buscam, sobretudo, apoderar-se de mercados e fontes de matérias-primas – quando esse movimento, mais a concorrência entre elas, sinaliza a possibilidade de recuperação, criam-se estímulos para fomentar a produção (NETTO & BRAZ, 2012, p 172173). Dando continuidade ao ciclo econômico que envolve as crises periódicas do sistema capitalista, Netto & Braz (2012), descrevem sobre o terceiro estágio deste ciclo, Este é o quadro da retomada (ou reanimação): as empresas que sobrevivem absorvem algumas das que quebraram, incorporam seus equipamentos e instalações, renovam seus próprios equipamentos e começam a produzir mais. O comércio se reanima, as mercadorias escoam, os preços se elevam e pouco a pouco diminui o 48 desemprego. A produção se restaura nos níveis anteriores à crise e se transita para a fase seguinte, e última do ciclo (NETTO & BRAZ, 2012, p. 173). O quarto e último estágio das crises capitalistas, trata-se segundo os autores, [...] do auge (boom): a concorrência leva os capitalistas a investir nas suas empresas, a abrir novas linhas e frentes de produção e esta é largamente ampliada, lançando no mercado quantidades cada vez maiores de mercadorias. O crescimento da produção é impetuoso e a euforia toma conta da vida econômica: a prosperidade está ao alcance da mão. Até que... um detonador qualquer evidencia de repente que o mercado está abarrotado de mercadorias que não se vendem, os preços caem e sobrevém nova crise – e todo o ciclo recomeça (NETTO & BRAZ, 2012, p. 173). Apesar dos sujeitos da pesquisa serem pequenos empreendedores, as crises também podem afetá-los externamente e internamente. Externamente porque a elevação dos preços da matéria prima afeta diretamente o custo da mercadoria. Este é um dos motivos que levam, por exemplo, esses pequenos produtores a mudarem às vezes de tipo de tecido, utilizando um com o custo mais baixo. A crise geral da economia eleva o desemprego afetando esses pequenos produtores, porque cai o volume de vendas, que é a fonte de seus rendimentos. Internamente, a falta de preparo técnico para uma competente administração, mesmo que o movimento financeiro seja pequeno, pode acarretar em grandes prejuízos, porque o pouco que possuem, afinal, é tudo o que eles têm. Veremos o exemplo na análise das entrevistas, de uma feirante que devido a uma crise administrativa seguida de um assalto em que perdeu uma quantia alta de dinheiro, está há dois anos tentando sair de uma crise. A terceira característica inerente ao modo de produção capitalista que será abordada agora é a alienação. Esta se processa no interior da sociedade capitalista, de acordo com Netto & Braz (2012, p. 57), é uma característica própria de sociedades que possuem a “divisão social do trabalho e a propriedade dos meios de produção”, portanto, própria da sociedade capitalista, e neste processo, a alienação ocorre em “sociedades nas quais o produto da atividade do trabalhador não lhe pertence, nas quais o trabalhador é expropriado – quer dizer, sociedades nas quais existem formas determinadas de exploração do homem pelo homem” (Idem). O modo de produção capitalista permite que as relações sociais, que envolvem a produção material da sociedade, através do trabalho e suas relações, 49 expropriam do trabalhador não apenas os meios de produção, como também, o seu pertencimento naquilo que produz, a sua relação enquanto ser produtivo, enquanto ser humanizado pelo trabalho e, a alienação não se extingue no processo de exploração, mas sim, se estende a toda a sociedade (NETTO & BRAZ 2012). Desta forma a alienação, Com seus fundamentos na organização econômico-social da sociedade, na exploração, a alienação penetra o conjunto das relações sociais. Manifestando-se primariamente nas relações de trabalho (entre o trabalhador, seus instrumentos de trabalho e seus produtos), a alienação marca as expressões materiais e ideais de toda a sociedade – esta e seus membros movem-se numa cultura alienada que envolve a todos e a tudo: as objetivações humanas, alienadas, deixam de promover a humanização do homem e passam a estimular regressões sociais (NETTO & BRAZ 2012, p.57). Montaño & Duriguetto (2011, p. 102) fazem uma crítica aos autores que reduzem a dimensão e importância da alienação na sociedade capitalista, avaliando a alienação apenas como fator econômico, no sentido da exploração do trabalho, da “separação entre produtor e seu produto, assim como a alienação da atividade mesma da produção”. Os autores expõem as três dimensões que constituem a alienação na sociedade capitalista. A primeira é sobre a relação que o trabalhador possui com o produto de seu trabalho, que caracteriza como “exploração de parte do valor por ele criado, apropriado pelo capital mediante a relação salarial (de compra/venda de força de trabalho) [...] implicando „a perda do objeto, do seu produto‟”. A relação entre o trabalhador com o produto que ele fabrica é de estranhamento, de não pertencimento do trabalhador com aquilo que produz (MONTAÑO & DURIGUETTO, 2011, p. 102). A segunda dimensão é a “relação do trabalhador com o ato da produção dentro do trabalho: alienação, no processo produtivo, do controle e determinação do próprio processo de produzir objetos”. Neste contexto, o trabalhador não é expropriado apenas dos meios de produção, como também, das etapas que compõem a produção total do objeto, devido à divisão social do trabalho. Caracteriza-se, portanto, a perda do sentido ontológico do trabalho, em que o trabalhador não cria mais aquilo que produz, ele passa a realizar e conhecer apenas uma parte do processo de produção, com ações mecanizadas, controladas e 50 desumanizadas, intensificadas a partir da instauração do processo de produção taylorista e fordista e, mais ainda, no processo produtivo toyotista, que será explanado no próximo capítulo (MONTAÑO & DURIGUETTO, 2011, p. 102). A terceira e última dimensão, termina de compor as características que formam a consciência alienada dos trabalhadores. Os sujeitos vivem sem uma percepção crítica de sua condição social, impedindo de se colocar como sujeito da história, para transformar esta realidade que o cerca, Montaño & Duriguetto (2011) refletem que esta dimensão é a, [...] relação do trabalhador com o ser social: alienação, na compreensão de si próprio, da natureza e da realidade social, sem compreender os fundamentos da sociedade capitalista ou dos fenômenos que o rodeiam; aqui o sujeito não se reconhece como produtor das coisas, como sujeito da história. Neste caso, observa Marx, quatro aspectos constitutivos (ver Marx, 2001, p. 115-118): a) a alienação do homem em relação à natureza; b) alienação de si mesmo assim como da sua espécie (do ser humano-genérico); c) alienação do próprio corpo (transformado em mercadoria, que vende ao capital) da sua vida intelectual, da sua vida humana; e d) alienação do homem em relação ao homem MONTAÑO & DURIGUETTO, 2011, p, 102-103). A alienação, portanto, perpassa todo o processo produtivo no modo de produção capitalista, desde o trabalho e seus processos, como também, o campo das ideias, do intelecto. Neste contexto, a alienação também afeta os sujeitos da pesquisa que, em busca de superar, como será exposta em detalhes na análise das entrevistas, a precarização das condições de vida e de trabalho em que viviam, acabam por reproduzir, aos sujeitos que compõem o processo produtivo de suas mercadorias, o mesmo caráter desumano, alienado e explorador do sistema capitalista. Vê-se que eles não percebem que imprimem aos demais, as mesmas condições degradantes que alguns deles procuraram se desvincular. Lessa (2011) coloca que o homem não exerce mais o trabalho como forma de sociabilidade, de forma livre, em uma sociedade onde não havia exploração do homem pelo homem e que, o mesmo tinha o controle de sua vida, e do processo de produção por inteiro, unia o trabalho intelectual e criativo com o trabalho manual, braçal. O homem aproveitava o trabalho com toda a sua potencialidade, utilizando sua criatividade e sua força física. Na sociedade capitalista, [...] O trabalho deixa de ser a manifestação das forças vitais do próprio trabalhador para se converter na potência da classe 51 dominante sobre o trabalho explorado. Agora, com a luta de classes permeando o cerne do processo produtivo, a “subordinação” do corpo e da “vontade” do trabalhador indispensável à produção se torna muito mais intensa, muito mais dura, já que passa a ser a mediação pela qual se afirma a alienação do próprio trabalhador. É para exercer este controle que ocorre a separação do trabalho intelectual do trabalho manual. O trabalho intelectual passa a ser a direção e o controle que se impõe do exterior do trabalho sobre os trabalhadores. É por isso que o trabalho intelectual e o trabalho manual “separam-se até se oporem como inimigos” (MARX, 1985, apud LESSA, 2011, p. 156). De acordo com Netto & Braz (2012) a divisão entre trabalho manual e intelectual foi utilizada desde o início do desenvolvimento do modo de produção capitalista, sendo consolidado pela divisão do trabalho e pela especialização das atividades, afastando cada vez mais, o trabalhador do conhecimento que envolve todo o processo produtivo. O trabalhador que antes do modo de produção capitalista realizava o processo de produção de determinado produto do começo até o fim, passa a produzir apenas uma atividade referente a produção deste produto. O trabalho passa a ser fragmentado e o trabalhador passa a desconhecer o processo produtivo daquilo que produz. Netto & Braz (2012) afirmam que este processo de separação do trabalho manual do intelectual gera duas especializações do trabalho, primeiramente promove, [...] à destruição dos saberes de ofício que permitiam ao trabalhador o conhecimento técnico do conjunto das operações necessárias à produção de certo bem; alocado a uma única e determinada tarefa, que repetirá ao longo de todas as jornadas de trabalho, o trabalhador será despojado dos seus conhecimentos e perderá o controle de suas tarefas (e, portanto, perderá muito do seu poder de barganha em face do capitalista) (NETTO & BRAZ, 2012, p. 125). Após essa especialização inicial do trabalho, em conformidade com o desenvolvimento do processo produtivo, Netto & Braz (2012) colocam que passa a surgir uma distinção na força de trabalho, gerando outra especialização, possibilitada ainda pela Revolução Industrial no último terço do século XVIII, [...] de um lado, criará uma pequena parcela de trabalhadores altamente especializados, que disporá de condições de negociar em posição de força com capitalista; mas, de outro, desqualificará a maioria das atividades produtivas, na medida em que a divisão do trabalho multiplica atividades simples [...]. É então que se instaura a produção especificamente capitalista, implementada através de máquinas [...] e típica da grande indústria. Nesta, o capital subordina por inteiro (formal e realmente) o trabalho pelo controle do processo de trabalho: o trabalhador passa a ser um apêndice das máquinas, a 52 sua desqualificação se acentua e igualmente aprofunda a divisão do trabalho (grifos do autor) (NETTO & BRAZ, 2012, p. 125-126). Ligado à alienação, o fetichismo vem aprofundar e desregular as relações sociais no modo de produção capitalista, que degrada a relação homem e trabalho, homem e sociedade. Em suma, as relações sociais, transformando-as em uma relação entre coisas, entre mercadorias. Netto & Braz (2012, p. 105) discursam sobre esta função do fetichismo na sociedade capitalista, como o “fetichismo da mercadoria”. Nesse tipo de sociedade, “os homens não são valorizados (e nem se valoram a si mesmos) pelo que são, mas sim pelo que têm – nessas sociedades, o ter subordina o ser” (Idem). Antunes (2013) na apresentação do livro A dialética do trabalho I, que reúne trechos e textos de Karl Marx e Friedrich Engels, retrata de forma resumida, a diferença do trabalho ontológico para o trabalho na sociedade capitalista. [...] se, por um lado, podemos considerar o trabalho como um momento fundante da vida humana, ponto de partida do processo de humanização, por outro, a sociedade capitalista o transforma em trabalho assalariado, alienado, fetichizado. O que era uma finalidade central do ser social converte-se em meio de subsistência. A “força de trabalho” (conceito-chave em Marx) torna-se uma mercadoria, ainda que especial, cuja finalidade é criar novas mercadorias e valorizar o capital. Converte-se em meio, e não primeira necessidade de realização humana (ANTUNES, 2013, p. 8). O exposto até agora sobre o trabalho e sua diferença entre atividade que sociabiliza e constitui o homem como ser social e, o trabalho no modo de produção capitalista que desregula essas relações e degrada o processo de humanização do homem, tem relevância para este estudo, visto que o modo de produção capitalista é o modo de produção e reprodução social instituído e utilizado até os dias atuais. Também como explanado anteriormente, o processo produtivo dos sujeitos da pesquisa possui algumas características dos modos de produção aqui estudados e, essa heterogeneidade, o hibridismo entre os dois modos de produção, é justamente uma das marcas do capitalismo pós-fordista em uma nova fase do capitalismo, marcado pela fragmentação e por uma nova divisão/organização do trabalho, que será explanado no próximo capítulo. Houve muitas modificações no processo constitutivo, evolutivo e de desenvolvimento do modo de produção capitalista desde o período de sua implementação até o atual século, mas as modificações não alteraram suas bases 53 fundamentais que são a propriedade privada dos meios de produção e a exploração dos trabalhadores (NETTO & BRAZ 2012). De acordo com os autores, A história do capitalismo – a sua evolução - portanto, é produto da interação, da imbricação, da intercorrência do desenvolvimento de forças produtivas, de alterações nas atividades estritamente econômicas, de inovações tecnológicas e organizacionais e de processos sociopolíticos e culturais que envolvem as classes sociais em presença numa dada quadra histórica. E todos esses vetores não só transformam eles mesmos: as suas interações também se alteram no curso do desenvolvimento do MPC (NETTO & BRAZ 2012, p. 182183). As modificações que perpassam o desenvolvimento do sistema capitalista envolvem, portanto, não só o processo produtivo, cada vez mais incrementado na obtenção de lucros e na exploração dos trabalhadores, como também, alteram-se as formas de ser do sistema capitalista, as suas estruturas, caracterizando sua dinâmica e, constituindo as diversas fases que ao longo da história culminou com a fase imperialista do capital, que vivenciamos nos séculos XX e XXI. 2.4 As mudanças ocorridas na estrutura do sistema capitalista Uma proposta de elencar a evolução estrutural do sistema capitalista é realizada por Netto & Braz (2012, p. 183), tendo como a primeira estrutura do capital o estágio denominado de “capitalismo comercial (ou mercantil)”, período em que o “papel do grupo social dos comerciantes/mercadores foi decisivo” (Idem). Para situar este estágio no período histórico que lhe é próprio, Netto & Braz (2012, p. 183) propõem realizar uma explanação a partir da “acumulação primitiva [...] e vai até os primeiros passos do capital para controlar a produção de mercadorias e, nela, comandar o trabalho, mediante o estabelecimento da manufatura [...], cobrindo do século XVI a meados do século XVIII”. Neste período histórico que constitui o início do modo de produção capitalista, a burguesia era tida como uma classe revolucionária, segundo Netto & Braz (2012, p 183). Seus interesses eram aliados aos da população, “temos, à época, uma burguesia de caráter audacioso, uma burguesia empreendedora, heroica mesmo, 54 como se verifica dos seus inícios à sua marcha triunfal rumo à construção da nova sociedade” (Idem). Um novo estágio tem início na segunda metade do século XVIII, segundo Netto & Braz (2012, p 184), neste processo ocorrem alterações ligadas a, [...] mudanças políticas (está a completar-se a Revolução Burguesa, com a tomada do poder de Estado) e técnicas (vai irromper a Revolução Industrial); nesse estágio, o capital – organizando a produção através da nascente grande indústria – dará curso ao processo que culminará na subsunção real do trabalho [...]. Aproximadamente a partir da oitava década do século XVIII, configura-se esse segundo estágio do capitalismo, o capitalismo concorrencial9 [...], que perdurará até o último terço do século XIX (NETTO & BRAZ, 2012, p. 184). É no capitalismo concorrencial que surgirá o mercado mundial, de acordo com Netto & Braz (2012), [...] os países mais avançados (e, nesse período, a liderança estará com a Inglaterra) buscarão matérias brutas e primas nos rincões mais afastados do globo e inundarão todas as latitudes com as suas mercadorias produzidas em larga escala – estabelecem-se vínculos econômicos (e culturais) entre grupos humanos separados por milhares e milhares de quilômetros. Povos, nações e Estados situados fora da Europa, que se mantinham isolados resistindo com recursos de força, são agora integrados mais pela via da invasão comercial que pela invasão militar (NETTO & BRAZ, 2012, p. 185). O estágio do capitalismo concorrencial promove também uma maior conscientização dos trabalhadores quanto à sua condição de exploração. O Estado atua nesse estágio em consonância com os interesses capitalistas em detrimento da classe trabalhadora, Netto & Braz (2012, p. 187) colocam que o Estado tinha suas ações voltadas para “assegurar as condições externas para a acumulação capitalista, o Estado intervinha no exclusivo interesse do capital”. Porém, com a organização politizada dos trabalhadores, através das lutas, houve nesse período, algumas conquistas como “a limitação legal da jornada de trabalho” e a “regulamentação do trabalho feminino” (Idem, p. 188). 9 “A caracterização desse estágio como concorrencial explica-se em função das relativamente amplas possibilidades de negócios que se abriam aos pequenos e médios capitalistas: na escala em que as dimensões das empresas não demandavam grandes massas de capitais para a sua constituição, a “livre iniciativa” (“iniciativa privada”) tinha muitas chances de se consolidar em meio a uma concorrência desenfreada e generalizada – embora as quebras e falências durante as crises afetassem especialmente os pequenos e médios capitais, estes dispunham de oportunidades de investimento lucrativo que, no futuro, seriam cada vez menores, já que, à medida que se desenvolvia o capitalismo, mais se faziam sentir os efeitos da concentração e da centralização (Netto e Braz 2012, p. 185-186)”. 55 O capitalismo concorrencial finda seu estágio com uma mudança importante na luta de classes, de acordo com Netto & Braz (2012, p. 188), a classe capitalista de revolucionária, “converteu-se em classe conservadora: seu objetivo passou a ser a manutenção das relações sociais assentadas na propriedade privada dos meios fundamentais de produção, suportes da acumulação capitalista”. A classe trabalhadora por sua vez, transforma-se no “sujeito revolucionário potencialmente capaz para promover a transformação da ordem burguesa numa sociedade sem exploração” (Idem, p. 187-188). Em consonância com seu caráter dinâmico, seu movimento enquanto capital em busca de mais acumulação de capitais, um novo estágio surge e é denominado por Netto & Braz (2012) de estágio imperialista, assim, Essa fusão dos capitais monopolistas industriais com os bancários constitui o capital financeiro, que ganhará centralidade no terceiro estágio evolutivo do capitalismo – o estágio imperialista, que se gestou nas últimas três décadas do século XIX e, experimentando transformações significativas, percorreu todo o século XX e se prolonga na entrada do século XXI (NETTO & BRAZ, 2012, p. 192). Netto & Braz (2012, p. 193-194) colocam que o capitalismo imperialista mantém algumas características do estágio anterior, porém, de forma mais intensificada. Permanecem os monopólios e surgem os oligopólios 10, permanece o processo de desenvolvimento do capitalismo mundial, contudo, a exportação não se dá apenas através de bens de consumo, exporta-se capital, ou seja, dinheiro. A exportação de capitais como explanam Netto & Braz (2012, p. 195) gera uma relação de “domínio e exploração entre credor e devedor, que se expressa claramente nos vínculos entre monopólios (e os governos de seus países) e os países (e seus governos) devedores”. Todo o processo evolutivo do capitalismo até a sua mundialização gerou um crescimento de forma diferenciada entre os países que se utilizam do sistema capitalista, conforme Netto & Braz (2012, p. 199), foi um desenvolvimento desigual e combinado. O desenvolvimento desigual se opera tanto no sentido de alguns países 10 No capitalismo imperialista há o incremento da oligarquia financeira com grande concentração de capitais e com uma organização política antidemocrática, em que “um número reduzido de grandes capitalistas (industriais e banqueiros) concentra nas suas mãos a vida econômica do país – e, claro, não só dos seus países, mas ainda daqueles em que seus grupos econômicos atuam. Na medida em que detêm o poder econômico, esses poucos monopolistas dispõem de enorme influência política – em escala nacional e internacional” (NETTO & BRAZ, 2012, p. 194). 56 terem se desenvolvido de forma muito superior em detrimento de outros, como a própria permanência no poder torna-se inconstante, “a liderança entre países desenvolvidos revelou-se mutável (pense na sucessão histórica desses países líderes: Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra, Estados Unidos) e, ainda, países atrasados puderam tornar-se países desenvolvidos e vice-versa” (Idem, p. 200). O desenvolvimento combinado ocorre nos países atrasados por imposição dos países desenvolvidos, de acordo com Netto & Braz (2012, p. 200), o que caracteriza o desenvolvimento combinado é o fato de os países “atrasados progridem aos saltos, combinando a assimilação de técnicas as mais modernas com relações sociais e econômicas arcaicas – e esse progresso não lhes retira a condição de economias dependentes e exploradas”. Dependente e explorada também permanece a classe trabalhadora que, segundo Netto e Braz (2012, p. 230), no sistema capitalista, todas as mudanças, “todas as transformações implementadas pelo capital têm como objetivo reverter a queda da taxa de lucro e criar condições renovadas para a exploração da força de trabalho” (grifo do autor). Apesar de o sistema capitalista ter enfrentado ao longo dos séculos diversas transformações e crises, permanece como sistema econômico no século XXI e, [...] não se confronta com nenhum desafio externo à sua própria dinâmica: impera na economia das sociedades mais desenvolvidas (centrais) e vigora na economia das sociedades menos desenvolvidas (periféricas). [...] Para dizê-lo em poucas palavras, na entrada do século XXI, o MPC11 é dominante em todos os quadrantes do mundo, configurando-se como um sistema planetário (NETTO & BRAZ, 2012, p. 108-109). As bases que fundam o movimento constitutivo da sociedade capitalista chegam ao século XXI, na cena contemporânea, com suas características principais (exploração do trabalho, crises econômicas, alienação) cada vez mais aprofundadas. O trabalho na contemporaneidade e suas relações vêm ao longo dos anos, sofrendo diversas modificações no que diz respeito à forma de produção, de relações e contratações trabalhistas. Essas modificações acarretam sempre em 11 MPC: Modo de produção capitalista. 57 novas formas de precarização e de desconstrução da legalidade do trabalho e dos direitos sociais, em detrimento de diversas conquistas adquiridas pela luta de trabalhadores, na busca por melhoria na qualidade de vida e das condições de trabalho. Neste contexto, o capitalismo na contemporaneidade, tem provocado a elevação dos níveis de desigualdade social e do desemprego, como também, tem exacerbado a desregulação e a informalização das relações de contratação trabalhistas, aumentando o número de sujeitos vivendo sem os direitos relevantes ao trabalho. O Estado cada vez mais promove ações que possibilitam a reprodução do sistema capitalista, em detrimento da classe trabalhadora e da proteção social. A cena contemporânea será marcada por retrações significativas no âmbito do trabalho, aumentando a quantidade de sujeitos que passam a compor o mercado informal, que será retratado através dos trabalhadores na Feira da Madrugada (SILVA, 2012, p. 30). Diante do exposto até agora sobre o trabalho na sociedade capitalista e suas diferentes fazes de desenvolvimento, como se processa na contemporaneidade, as relações entre a classe trabalhadora e a classe capitalista dominante? Quais as estratégias do capitalismo na contemporaneidade para continuar com a exploração dos trabalhadores? O que é e o que representa a reestruturação produtiva na contemporaneidade? 58 3 PROCESSOS PRODUTIVOS CONTEMPORÂNEOS E ECONOMIA INFORMAL NA REALIDADE DA FEIRA DA MADRUGADA O período do capitalismo contemporâneo inicia-se a partir da década de 1970 do século XX. A passagem da década de 1960 a 1970 foi acompanhada de uma crise no sistema capitalista, que levou ao declínio uma fase denominada de “anos dourados”. Foi um período em que ocorreram diversas mudanças em escala mundial nos âmbitos social, econômico, político e cultural. A intensidade e rapidez dessas mudanças têm incidido de forma significativa sobre Estados e nações (NETTO & BRAZ, 2012). Neste processo o trabalho no sistema capitalista contemporâneo passou também por diversas mudanças, relativas aos seus processos de produção; as suas relações entre classes e estas com o Estado e, a sua configuração no que diz respeito as formas de inserção dos sujeitos no campo de trabalho. As medidas para amortecer os efeitos da crise que marca a cena contemporânea mundial são movidas pela busca incessante do capital por superlucros e se sustentam na superexploração da classe trabalhadora mediante a extração do trabalho excedente. Tais medidas estão conectadas à reestruturação produtiva, à financeirização do capital e à redefinição das funções do Estado, que compõem a estratégia de enfrentamento da onda longa recessiva (Mandel, 1982), que se tornou evidente no início da década de 1970 (SILVA, 2012, p. 29-30) Estas medidas acarretam ao mundo do trabalho na contemporaneidade segundo Antunes (2012), uma “heterogeneização, fragmentação e complexificação da classe trabalhadora”, que em consonância com a própria dinâmica do capital e suas contradições, ocorre basicamente em três vias. Ao passo em que decresceu o quantitativo da classe operária industrial tradicional, houve um aumento dos trabalhadores assalariados principalmente no setor de serviços; a heterogeneização se dá em parte pela inclusão do gênero feminino como operárias e a subproletarização que caracteriza a precarização do trabalho. Todos os processos que modificam o mundo do trabalho elevam em nível mundial o desemprego. As mudanças no mundo do trabalho, segundo Antunes, (2012) ainda promovem uma dupla dimensão que são a qualificação de pequena parcela de 59 trabalhadores e a desqualificação da grande massa da classe trabalhadora. Por um lado encontram-se aqueles que têm relativa segurança no trabalho e formam o trabalho intelectualizado, em que os cargos ocupados requerem maior qualificação e responsabilidade. Por outro se encontram os trabalhadores que têm suas funções desqualificadas e ocupam cargos mais simples e diversos, tendo o agravante de serem facilmente substituídos por outros trabalhadores. Pode-se constatar, portanto, de um lado, um efetivo processo de intelectualização do trabalho manual. De outro, e em sentido radicalmente inverso, uma desqualificação e mesmo subproletarização intensificadas, presentes no trabalho precário, informal, temporário, parcial, sobcontratado etc. (ANTUNES, 2006, p. 62) O trabalho informal é à base deste estudo, que foi realizado na Feira da Madrugada em Fortaleza. No decorrer do capítulo este tema será aludido, assim como, serão explanados alguns elementos para que se compreenda como se inscreve o trabalho na contemporaneidade, relacionado aos processos produtivos instaurados neste período. Como também, os traços que se assemelham e se diferenciam com o processo produtivo e a dinâmica do trabalho informal que é exercido na Feira da Madrugada. Neste contexto, como se inscreve os processos de trabalho na contemporaneidade? O que propiciou a crise entre as décadas de sessenta e setenta? Como se constitui o trabalho antes e após a crise que se instaurou na passagem entre as décadas de 1960 e 1970? 3.1 Processo produtivo fordista/taylorista e a política keynesiana: “anos dourados” do capital A década de sessenta inicia-se, conforme Netto & Braz (2012), com intenso desenvolvimento econômico e taxas de lucro satisfatórias para o acúmulo de capital, e mesmo sofrendo indagações e julgamentos negativos, a década de sessenta configurava-se da seguinte forma, [...] nos países capitalistas centrais, apesar das enormes desigualdades sociais, prometia-se aos trabalhadores a “sociedade 60 afluente” – ademais da proteção social assegurada pelo welfare state, apontava-se para a possibilidade de um consumo de massa, cujo símbolo maior era o automóvel; nos países periféricos, projetos industrializantes apareciam como a via para superar o subdesenvolvimento. Nos centros, chegou-se a apregoar a “integração da classe operária”; nas periferias, o “desenvolvimentismo” era a receita para curar os males do atraso econômico (NETTO & BRAZ, 2012, p. 224). O Welfare State ou Estado de Bem-Estar Social designa-se ao período em que ocorreu um forte incremento de políticas sociais, como também, o seu alcance teve maior amplitude, através de um aparato institucional que promoveria os meios para viabilizar essas políticas. Além dessas instituições outro aspecto contribuiu para que se concretizasse o Estado de Bem-Estar Social. Tendo peso decisivo, o intenso movimento sindical aliado aos partidos políticos e ao enorme quantitativo de trabalhadores que agora preenchiam significativos postos de trabalho nas fábricas e se associavam aos sindicatos, proporcionaram intenso fomento de políticas sociais, mesmo que, apenas em alguns países capitalistas centrais. As políticas sociais implementadas no Welfare State, tinham em seu viés, o modelo keynesiano, aliado ao processo de produção taylorista-fordista, compreendendo o já citado, “anos dourados” do capitalismo (NETTO & BRAZ 2012). Esta fase é denominada como “capitalismo democrático”, proporcionado pelo taylorismo-fordismo e o keynesianismo, época em que “anunciava-se um capitalismo sem contradições, apenas conflitivo – mas no quadro de conflitos que seriam resolvidos à base do consenso, capaz de ser construído mediante os mecanismos da democracia representativa” (NETTO E BRAZ 2012, p. 224). Behring (2009, p. 45-46) em seu estudo sobre a acumulação capitalista, o fundo público e a política social no capitalismo contemporâneo, remete o leitor ao período em que, na perspectiva de instaurar a social democracia no âmbito do sistema capitalista, objetivou-se tornar realidade, uma forma de “compatibilizar acumulação e equidade, cidadania e desigualdade de classes”. Para exemplificar esta perspectiva, Behring (2009, p. 45-46) cita a importância que a política social teve no período histórico em que foi implementado o modelo keynesiano. O termo “keynesiano” se refere a uma corrente de pensamento que surgiu durante a crise capitalista que teve início em 1929. 61 A crise de 1929 se prolongou por quase toda a década de 1930. De acordo com Montaño & Duriguetto (2011, p. 151) esta crise ocorreu em um período entre a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), gerando uma recessão econômica, com as seguintes características, [...] queda abrupta da taxa de lucros, desvalorização de ações nas bolsas de valores, inflação, diminuição do PIB, quebradeira de indústrias e altíssimas taxas de desemprego. A isso se soma, no meio da Primeira Guerra, a Revolução Russa12 (em 1917) e a consequente “Guerra Fria13” no segundo pós-guerra, dividindo o mundo (econômica, ideológica e militarmente) em dois grandes blocos de influência (MONTAÑO & DURIGUETTO, 2011, p. 151). John Maynard Keynes14 elaborou algumas estratégias para o Estado gerir a economia e a sociedade. Conforme Behring & Boschetti (2011, p. 83) ele “defendeu a intervenção estatal com vistas a reativar a produção”, tendo o Estado como regulador da economia. Sua proposta compunha também “um programa fundado em dois pilares: pleno emprego e maior igualdade social” (idem, p. 86), portanto, o Estado também exerceria o papel de regulador das relações sociais. A proposta de Keynes (que escreveu um livro contento seus pensamentos, intitulado de “A teoria geral do emprego, do juro e da moeda”, publicado primeiramente em 1936), de acordo com Montaño e Duriguetto (2011, p. 57), orientava o Estado como regulador do mercado, que com sua ação interventiva na economia, iria “desencorajar o capitalista a poupar (guardando seu dinheiro improdutivamente), enquanto o incentiva a investir na atividade produtiva, gerando mais empregos e maior renda, e impulsionando o consumo”. 12 Em 1917, na Revolução Russa dá-se início “a criação do primeiro Estado proletário, simbolizando um conjunto de promessas há muito inscrito no imaginário dos trabalhadores, atraiu a simpatia e a adesão das vanguardas operárias, além de significar um duro golpe contra o imperialismo. Mais do que o efeito econômico da Revolução Russa [...], o que produziu um temor real na burguesia do Ocidente foi a possibilidade de “contágio”: para ela, tratava-se de isolar a experiência socialista e impedir que “seus” trabalhadores seguisses o exemplo que vinha do Leste – e, finalizada a Primeira Guerra Mundial, eram muitos os sinais que apontavam nessa direção”, como exemplo, o surgimento de Partidos Comunistas (Netto & Braz, 2012, p. 206). 13 “A “Guerra Fria” designa a tensão, desde o segundo pós-guerra (1945) até a extinção da União Soviética (1991), entre [...] Estados Unidos (capitalista-imperialista, ou leste) e União Soviética (socialista-soviético, ou oeste). Marcou essa tensão a não agressão e confronto diretos entre as duas superpotências (a partir da certeza, num eventual conflito direto, da “destruição mútua assegurada”), substituídas por uma disputa “fria” que se travava na corrida armamentista [...] e no apoio aos diferentes lados nos diversos conflitos locais” (Montaño e Duriguetto, 2011, p. 154). 14 John Maynard Keynes (Inglaterra, 1883-1946) nasceu no final do período de auge do império britânico e da expansão capitalista (no estágio concorrencial), e conviveu com as fortes crises e as duas guerras mundiais. Todo isso influenciou seu pensamento e sua prática política, que se orientaram para o enfrentamento e a superação da crise capitalista (Montaño e Duriguetto, 2011, p. 55). 62 Behring & Boschetti (2011, p. 86-87) analisam o desenvolvimento dessas novas técnicas de produção, denominadas de fordismo e de taylorista/Fayol, que associadas, alavancaram a produção de mercadorias. A primeira criou um modo de produção que combinava a eletricidade com a linha de montagem, seus princípios eram “a produção em massa para o consumo de massa” e, a segunda, intensificou a produção através da “decomposição do processo de trabalho” aliado ao “controle do tempo” e, “novas estratégias de gestão, monitorando o fluxo de informações e da autoridade”. A novidade do fordismo não era pautada apenas na produção e consumo em massa, mas também, de “uma nova política de controle e gerência do trabalho, uma nova estética e uma nova psicologia, em suma, um novo tipo de sociedade democrática, racionalizada, modernista e populista (HARVEY, 1993: 121, apud, BEHRING & BOSCHETTI, 2011, p. 87)”. Utilizando-se também de estudos de Harvey (1993), Montaño e Duriguetto (2011, p. 138) colocam que o referido autor apresenta este período como o “Regime de Acumulação Fordista/Keynesiano”, desenvolvido através de um, [...] conjunto de práticas no processo de produção (taylorismo e fordismo), de controle do trabalho (gerência científica), de novas tecnologias (2ª Revolução Tecnológica), de hábitos de consumo (em massa) e das configurações de poder político-econômico (keynesianismo, Estado Providência, ou de “Bem-Estar Social”) (MONTAÑO & DURIGUETTO, 2011, p. 138). Netto & Braz (2012, p. 122) denominam essas novas estratégias e técnicas produtivas de “„Organização (ou gerência) científica do trabalho‟ que teve no taylorismo o modelo que mais se difundiu”. Esses processos passam a utilizar a ampliação do ritmo do trabalho, explorando mais o trabalhador, mediante uma sucessão de processos de controle e vigilância sobre os operários. Behring & Boschetti (2011) colocam que a junção desses modelos de produção com o avanço tecnológico adquirido no período da Segunda Guerra Mundial15 e, também, com o modelo de gestão keynesiano, se constituíram como, 15 [...] a inovação científico-técnica – que é decisiva na produção bélica – permite testar processos produtivos e componentes que depois serão transladados para a indústria civil (são os chamados “subprodutos” da indústria bélica, que ulteriormente constituem elementos comuns a outros ramos da produção) (Netto & Braz, 2012, p. 197). 63 [...] os pilares do processo de acumulação acelerada de capital no pós-1945, com forte expansão da demanda efetiva, altas taxas de lucros, elevação do padrão de vida das massas no capitalismo central, e um alto grau de internacionalização do capital [...] (BEHRING & BOSCHETTI, 2011, p. 88). Nesta perspectiva, Behring & Boschetti (2011, p. 88-89) relatam que esta fase de acumulação capitalista se concretizou devido as condições econômicas, políticas e culturais, em que as partes envolvidas, ou seja, a burguesia e os trabalhadores, tiveram que se ajustar a esta nova realidade, através de concessões e acordos, não sem perda para a classe trabalhadora, porém, com todas as implicações que essas perdas possam ter causado. Houve, naquele momento, uma melhoria efetiva das condições de vida dos trabalhadores fora da fábrica, com acessos ao consumo e ao lazer que não existiam no período anterior, bem como uma sensação de estabilidade no emprego, em contexto de pleno emprego keynesiano, diluindo a radicalidade das lutas e levando a crer na possibilidade de combinar acumulação e certos níveis de desigualdade (BEHERING & BOSCHETTI, 2011, p. 89). O sucesso inicial dessa acumulação capitalista é denominada por Behring & Boschetti (2011, p. 89) de “onda longa expansiva” ou “anos de ouro”, porém, esse processo se manifestou em poucos países e, teve seu declínio no final da década de 1960, devido às contradições internas do movimento capitalista. Dentre os motivos que contribuíram para a sustentação da “onda longa expansiva” do capital, conforme Behring & Boschetti (2011, p. 89), encontram-se a “revolução tecnológica, com a introdução da microeletrônica, e sobretudo, a derrota histórica do movimento operário”. A revolução tecnológica aumentou exponencialmente a produção de mercadorias e, a derrota do movimento operário, que teve as lideranças operárias aliadas aos ditames do novo processo de produção, conforme Behring & Boschetti (2011, p. 90), diminuiu a força de reivindicação da classe trabalhadora, que aceitou passivamente a exploração do trabalho intensificado no período. A abordagem sobre as contradições internas do movimento capitalista citadas acima, que constituem os limites próprios das estratégias do capital, é retratada por Behring & Boschetti (2011, p. 90), utilizando-se da perspectiva do autor E. Mandel, com suas respectivas consequências para a sociedade e em especial, para os trabalhadores. 64 Behring & Boschetti (2011, p. 90) explanam que a revolução tecnológica, que no período de expansão dos “anos de ouro” serviu ao capital para a sua exponente acumulação, acarretou na “mudança do papel da força de trabalho no processo de constituição do valor, [...] numa dura luta entre capital e trabalho” que gerou um aumento do desemprego de forma estrutural. Para Netto & Braz (2012) é importante frisar que o incremento da tecnologia nos processos produtivos, constitutivo da incessante busca por acumulação pelo capital, tem como consequência uma menor necessidade de mão de obra humana, porém, [...] é preciso atentar para uma questão central. [...] o permanente desemprego sob o capitalismo não significa que ele seja o produto do progresso tecnológico. [...] Como assinalaram Salama e Valier (1975, p. 86-89), a demanda de força de trabalho pelos capitalistas aumenta ou diminui conforme o nível de acumulação; o que se pode afirmar é que, sendo a taxa de acumulação inferior a taxa de crescimento da produtividade do trabalho, a demanda de força de trabalho cairá. Numa palavra, o desemprego em massa não resulta do desenvolvimento das forças produtivas, mas sim do desenvolvimento das forças produtivas sob as relações sociais de produção capitalistas (NETTO & BRAZ 2012, P. 146-147, grifos do autor). A derrota do movimento operário segundo Behring & Boschetti (2011, p. 87), que primeiramente, haviam engendrado “fortes resistências” ao “trabalho rotinizado” promovido pelos processos de produção fordista, ocorre através de acordos feitos com a classe capitalista, caracterizando a derrota do movimento operário. A classe trabalhadora acaba “contentando-se com os acordos coletivos em torno dos ganhos de produtividade e da expansão das políticas sociais, por via dos salários indiretos assegurados pelo fundo público” (Idem, p. 88). Montaño e Duriguetto (2011) colocam que é através do Estado que se geram as estratégias para criar o consenso entre as classes trabalhadora e capitalista, incluindo algumas demandas requeridas pela classe trabalhadora, porém, tais medidas visam apenas reforçar a dominação do capital, para que isto ocorra, [...] a classe hegemônica aciona o Estado para realizar reformas “aceitáveis”, criando a ilusão de verdadeiras transformações [...], ou levando as classes subalternas a se resignarem e preferirem manter as “concessões” do que arriscá-las insistindo nas lutas pela ampliação dos seus direitos. [...] Ao incorporar certas demandas sociais nas respostas estatais, devolve-se a legitimidade ao sistema; é por isso que o regime de acumulação/regulação fordista-keynesiano está acompanhado, nos países centrais, do desenvolvimento da 65 democracia [...] e da intervenção do Estado na área social [...] (MONTAÑO & DURIGUETTO, 2011, p. 147-148). Desde o início deste tópico expomos como se processa o trabalho na contemporaneidade, que têm na produção fordista/taylorista e na política keynesiana os fundamentos da acumulação capitalista neste período, caracterizando o período dos “anos dourados” do capital. Todos os processos ocorridos neste período, como já exposto, foi uma resposta do capital à crise de 1929, porém, de acordo com Montaño e Duriguetto (2011), [...] se a política keynesiana serviu para tirar o capitalismo da crise (no segundo pós-guerra), aumentando a demanda e o emprego, e estimulando o crescimento do investimento produtivo, ela resulta, no longo prazo, fortemente inflacionária, e gera elevado déficit fiscal (o “investimento estatal” gera endividamento público e a emissão de dinheiro para além do respaldo em ouro resulta fortemente inflacionário), derivando assim, após um período de crescimento econômico, numa nova fase de crise e recessão (MONTAÑO & DURIGUETTO, 2011, p. 59-60). A crise e a recessão que se abrem caracteriza a decadência da “longa onda expansiva” do capital no período do keynesianismo/fordismo, e tem início no final da década de 1960, conforme Behring & Boschetti (2011), deixam os países que experimentaram esse processo de crescimento econômico, com as seguintes sequelas, [...] As taxas de crescimento, a capacidade do Estado de exercer suas funções mediadoras civilizadoras cada vez mais amplas, a absorção das novas gerações no mercado de trabalho, restrito já naquele momento pelas tecnologias poupadoras de mão-de-obra, não são as mesmas, contrariando as expectativas de pleno emprego, base fundamental daquela experiência. As dívidas públicas e privadas crescem perigosamente... A explosão da juventude em 1968, em todo o mundo, e a primeira grande recessão – catalisada pela alta dos preços do petróleo em 1973-1974 – foram os sinais contundentes de que o sonho do pleno emprego e da cidadania relacionada à política social havia terminado no capitalismo central e estava comprometido na periferia do capital, onde nunca se realizou efetivamente (BEHRING & BOSCHETTI, 2011, p. 103). Netto e Braz (2012, p. 225) ao retratar o declínio dos “anos dourados” observam diversos fatores que culminaram com a queda do padrão relativo à onda longa de expansão, que compreendem os fatores econômicos, sociopolíticos e culturais. 66 Os fatores econômicos englobam a queda da taxa de lucro, a redução do crescimento econômico, o colapso do ordenamento financeiro mundial (decisão norte-americana de desvincular o dólar do ouro) e o choque do petróleo com a alta dos preços. Os fatores políticos abrangem a “pressão organizada dos trabalhadores” e o “peso do movimento sindical [...] demandando não somente melhorias salariais, mas ainda contestando a organização da produção nos moldes taylorista-fordistas”. Os fatores culturais envolvem “a contracultura, revolução dos costumes, revolta estudantil, movimento feminista e a mobilização dos negros norte-americanos em defesa dos direitos civis” (NETTO & BRAZ, 2012, p. 225-226). Montaño & Duriguetto (2011) explicam que as propostas de Keynes ajudaram a superar a crise que havia se instaurado, porém, A resposta Keynesiana para enfrentar a crise no curto prazo, e para promover produção e consumo massivos, promovendo pela via da intervenção estatal a demanda efetiva e o emprego, desenvolvendo serviços estatais e direitos sociais e trabalhistas, tornou-se inviável e insustentável para o capital no longo prazo, derivando numa nova fase de crise capitalista, a partir de 1973 (MONTAÑO & DURIGUETTO, 2011, p.60). Com o fim dos anos dourados e o início desta nova crise, como se configura as relações de classe? Quais as respostas do capital para superar esta nova crise. Como se encontra o trabalho nesse novo contexto? 3.2 Contextos das crises e a reestruturação produtiva Para Netto e Braz (2012, p. 226) o fim dos anos dourados encerra-se em 1974-1975, instaurando uma “recessão generalizada”, que “envolve simultaneamente todas as grandes potências imperialistas” e em seguida a este período, segue-se outro, em 1980-1982, com mais um decréscimo das taxas de lucro, superior ao período 1974-1975, assim, [...] a onda longa expansiva é substituída por uma onda longa recessiva: a partir daí e até os dias atuais, inverte-se o diagrama da dinâmica capitalista: agora, as crises voltam a ser dominantes, tornando-se episódicas as retomadas (NETTO & BRAZ, 2012, p. 226) 67 A partir de então, o capital promove estratégias simultâneas para superar a crise instaurada, caracterizando um movimento de reestruturação produtiva, que envolvem diversos fatores, que incide especialmente sobre os trabalhadores. Conforme Netto e Braz (2012, p. 228-229) a primeira estratégia é enfraquecer o movimento sindical; em seguida instaura-se a acumulação flexível, que engloba vários fatores, como a mudança do padrão taylorista-fordista pelo novo modelo toyotista. Dentro deste percurso de mudança do processo produtivo, opera-se a desterritorialização da produção (unidades produtivas deslocadas para outros territórios, geralmente em áreas subdesenvolvidas), e a substituição dos sistemas de produção eletromecânicos para os sistemas eletroeletrônicos, transformando o campo de trabalho, segundo os autores, imprimindo aos trabalhadores três implicações, [...] A primeira diz respeito ao trabalhador coletivo (cf. capítulo 4, item 4.6, p. 113 – conjunto de envolvidos na produção, desempenhem eles atividades manuais ou não); [...] a segunda implicação [...] requer uma qualificação mais alta e, ao mesmo tempo, a capacidade para participar de atividades múltiplas, ou seja, essa força de trabalho deve ser qualificada e polivalente. A terceira relaciona-se à gestão da força de trabalho [...] apelando à participação e ao envolvimento dos trabalhadores, valorizando a comunicação e a redução das hierarquias mediante a utilização de equipes de trabalho; [...] inclusive com o forte estímulo ao sindicalismo de empresa (NETTO & BRAZ, 2012, p. 228-229). Nesta perspectiva Netto e Braz (2012, p. 230) relatam que estas transformações “implementadas pelo capital têm como objetivo reverter a queda da taxa de lucro e criar condições renovadas para a exploração da força de trabalho”. Este período ocorre entre os anos 1973 a 1974, configura-se como uma “onda longa” de estagnação, é caracterizada como Regime de Acumulação Flexível (por HARVEY, 1993 apud MONTAÑO & DURIGUETTO 2011, p. 138), firmado até os dias atuais, em resposta a crise que se instaurou neste período e que, [...] se apoia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos contratos e direitos trabalhistas (com precarização das condições de trabalho e retração dos salários), das fronteiras nacionais para a circulação de capital e de mercadorias (contra o protecionismo fundamentalmente dos países periféricos), dos produtos e padrões de consumo (mercados desregulados e não controlados pelo Estado), e das formas de regulação e de intervenção 68 social estatal, mediante DURIGUETTO, 2011, p.138). políticas sociais (MONTAÑO & No contexto da exploração dos trabalhadores, temos a retórica do capital que elenca como necessária a flexibilização ou desregulamentação das relações de trabalho, para ampliação das vagas de emprego, mas que, de acordo com Netto & Braz (2012, p. 230) acabam se convertendo em transformações negativas para o campo do trabalho, gerando a “redução salarial”; “precarização do emprego” (sem garantias sociais); “emprego em tempo parcial” (o trabalhador têm várias ocupações para conseguir a sua sobrevivência). O discurso da expansão do mercado de trabalho através da flexibilização das relações de trabalho, mostra-se uma farsa, Netto & Braz (2012, p. 231) expõem que é “uma argumentação largamente desmentida pelos fatos: também em todos os países onde o trabalho foi “flexibilizado”, isso ocorreu juntamente com o crescimento do desemprego”, que para os autores, o desemprego maciço torna-se “permanente” e “irreversível” (Idem, p. 232). As transformações ocorridas na sociedade capitalista contemporânea, em especial no campo do trabalho, como citado anteriormente, tem seu início na década de 1970, devido a essa crise recessiva do capital e, que, segundo Iamamoto (2012, p. 142) promoveu “profundas alterações nas formas de produção e de gestão do trabalho perante as exigências do mercado mundial sob o comando do capital financeiro, que alteram profundamente as relações entre o Estado e a sociedade”. A autora explica que houve um aumento das desigualdades entre territórios e, também, “entre as rendas de trabalho e do capital e entre os rendimentos dos trabalhadores qualificados e não qualificados” (Idem). Iamamoto (2012) retrata que a redução dos custos com o trabalho “tem peso decisivo, envolvendo o embate contra a organização e as lutas sindicais, os cortes de salário e direitos conquistados”. Neste contexto, A reestruturação produtiva afeta radicalmente a organização dos processos de trabalho: o consumo e gestão da força de trabalho, as condições e relações de trabalho, assim como o conteúdo do próprio trabalho. Envolve a intensificação do trabalho e a ampliação da jornada, a redução dos postos de trabalho e a precarização das condições e dos direitos do trabalho. Reduz-se a demanda de trabalho vivo ante o trabalho passado incorporado nos meios de 69 produção, com elevação da composição técnica e de valor do capital, ampliando o desemprego estrutural (IAMAMOTO, 2012, p. 143-144). BEHRING (2008, p. 197) no seu livro, Brasil em contrarreforma, retrata essas mudanças ocorridas como um “ciclo depressivo aberto no início dos anos 1970 [...] que pressiona por uma refuncionalização do Estado, a qual corresponde a transformações no mundo do trabalho e da produção, da circulação e da regulação”. As autoras relatam que o movimento de retomada da acumulação capitalista, continua em andamento atualmente, e que no contexto histórico atual, [...] ocorrem hoje por três eixos que se articulam visceralmente [...]: a reestruturação produtiva – que fragiliza a resistência dos trabalhadores ao aviltamento de suas condições de trabalho e de vida, facilitando a realização de superlucros; a mundialização – uma rearticulação do mercado mundial, com redefinição da especialização dos países e forte presença do capital financeiro; e o neoliberalismo, este último representando as reformas liberalizantes, orientadas para o mercado (Behring, 1998), o que se combina a uma forte ofensiva intelectual e moral, com o objetivo de criar o ambiente propício à implementação dessas proposições, diluindo as possíveis resistências (BEHRING & BOSCHETTI, 2008, p. 197-198). Iamamoto (2012) expõe que o capital financeiro caracteriza-se pela junção do capital bancário e industrial, facilitados pela monopolização de grandes indústrias. Os monopólios surgem como resultado da expansão industrial e pela concentração da produção, neste processo, há uma concentração e centralização bancária. O capital bancário concentrado e centralizado passa a subordinar as operações comerciais e industriais de toda a sociedade. A estreita relação entre os bancos e as empresas industriais e comerciais consolida-se, estimulando sua fusão mediante a posse de ações e a participação de diretores bancários nos conselhos de administração das empresas e vice-versa [...] (IAMAMOTO, 2012, p. 101). As estratégias a partir de então, são efetivadas com a forte incidência da ideologia neoliberal que teve como consequência, uma alteração nas relações e na dinâmica do capital na contemporaneidade (Silva, 2012, p. 30). A ideologia neoliberal foi expressamente disseminada, promovida e estimulada pelo sistema capitalista a partir da década de 1980. O foco principal tem relação com as ações do Estado, que devem ocorrer de forma que priorizem principalmente a economia e, consequentemente, diminuindo os gastos públicos, configurando o denominado Estado mínimo. Esta ideologia pretende extinguir os impedimentos sociopolíticos que entravam diretamente a livre dinâmica do sistema, derruindo as ações democráticas do Estado. Dentre os impedimentos encontram-se 70 a “regulamentação das relações de trabalho”, que esta nova ideologia vai promover a sua “flexibilização” e, irá “reduzir, mutilar e privatizar os sistemas de seguridade social” (NETO & BRAZ, 2012, p. 240). Antunes (2012) expõe que a flexibilização que se inicia na década de 1980 é incorporada ao processo produtivo e também nas relações e contratações trabalhistas. Neste processo, os contratos de trabalho são flexibilizados e muitos trabalhadores são destituídos dos seus direitos. A flexibilização do processo de produção segue uma tendência que foi instaurada na década de 1980, segundo Antunes (2012) na “Terceira Itália”, em que eram empregados um certo nível de tecnologias e uma descentralização da produção através de empreendimentos de médio e pequeno porte que tinham um caráter artesanal de produção. O processo de produção que tem início neste período não elimina os traços da produção em série e em massa do fordismo e, surge como uma necessidade do capital em controlar as crises de superprodução através de processos produtivos mais flexíveis e voltados para a necessidade do mercado. Assim, parte da produção das grandes indústrias é descentralizada para os pequenos e médios empreendimentos que surgem no período. Neto & Braz (2012) designam a descentralização produtiva como a desterritorialização da produção, e explicam que este processo, deslocam indústrias inteiras ou parte delas para áreas periféricas e subdesenvolvidas, com o interesse de obter maior lucro através da possibilidade de maior exploração dos trabalhadores. Esta produção mais flexível é produto da reestruturação produtiva e pretende realinhar o mercado e o processo produtivo, que permanece em larga escala como na produção fordista, porém, designa-se agora a comércios distintos, atendendo a necessidades culturais e regionais. O trabalho informal na Feira da Madrugada, que é objeto deste estudo, foi realizado com pequenas empresas que produzem artigos do vestuário em diversos segmentos – feminino, masculino, adulto e infantil – e que se assemelham a experiência da “Terceira Itália” e, refletem, mesmo em sua pequena estrutura, a flexibilização e descentralização do seu processo produtivo. 71 Os sujeitos pesquisados produzem de forma descentralizada e flexibilizam as relações de trabalho nos seus processo produtivos. Parte da confecção dos produtos é realizado em suas residências e parte é terceirizada. Dentro da precarização em que esses produtores se inscrevem, precarizam outros segmentos de trabalhadores. Netto & Braz (2012) expressam que o mercado de trabalho na reestruturação produtiva passa por modificações que colocam apenas um pequeno contingente de trabalhadores na condição de formalização do trabalho e consequentemente, na garantia dos direitos trabalhistas. As maiorias dos trabalhadores muitas das vezes estão atrelados a outras empresas através da terceirização das atividades ou serviços. Neste caso, o trabalhador é “submetido a condições de trabalho muito diferentes da oferecidas naquele núcleo – alta rotatividade, salários baixos, garantias diminuídas ou inexistentes etc” (Netto & Braz 2012, p. 231). Como esses novos processos de produção incidem sobre a classe trabalhadora na década de 1980? Como se configura o Estado na relação entre as classes trabalhadora e capitalista? 3.3 Produção flexível e processo de produção dos sujeitos da pesquisa Tendo em vista as mudanças ocorridas no modo de produção descritas até então, a década de 1980, segundo Antunes (2006, p. 23), se inicia com modificações ocorridas no campo do trabalho, que foram tão profundas que o autor intitula como sendo a “mais aguda crise deste século” e que as transformações ocorridas no campo do trabalho “atingiu não só a sua materialidade, mas teve profundas repercussões na sua subjetividade e, no íntimo inter-relacionamento destes níveis, afetou a sua forma de ser” (Idem). A transformação, ocorrida no modo de produção contemporâneo, está relacionada, com as novas tendências tecnológicas, que foram incorporadas ao processo de trabalho nas indústrias, “inserindo-se e desenvolvendo-se nas relações 72 de trabalho e de produção do capital” (Antunes, 2006, p. 23). São os sistemas de automação, da robótica e da microeletrônica. Neste processo, alteraram-se concomitantemente, os processos de produção denominados de fordismo e taylorismo, que associados, eram utilizados mundialmente até então. Antunes (2006) descreve sobre estes modos de produção e a forma como os compreende, [...] o fordismo fundamentalmente como a forma pela qual a indústria e o processo de trabalho consolidaram-se ao longo deste século, cujos elementos constitutivos básicos eram dados pela produção em massa, através da linha de montagem e de produtos mais homogêneos; através do controle dos tempos e movimentos pelo cronômetro taylorista e da produção em série fordista; pela existência do trabalho parcelar e pela fragmentação das funções; pela separação entre elaboração e execução no processo de trabalho; pela existência de unidades fabris concentradas e verticalizadas e pela constituição/ consolidação do operário-massa, do trabalhador coletivo fabril, entre outras dimensões (ANTUNES, 2006, p. 25). A produção de mercadorias dos sujeitos pesquisados tem semelhança na produção fordista e taylorista nos seguintes aspectos: assim como no fordismo, o trabalho é parcelar e suas funções são fragmentadas. A pessoa que faz o corte do tecido não realiza a costura e assim por diante. Ou seja, o trabalho é distribuído de forma que cada um realize uma parte do processo de produção da roupa, seja o corte, o bordado, a pintura, a costura, a embalagem etc., até que no final, o produto esteja acabado, finalizado e pronto para venda. A produção não é realizada em série e em massa como no fordismo, portanto, a produção é ínfima se considerarmos as grandes indústrias. Porém, os produtores pressionam seus funcionários internos e terceirizados para agilizar a produção, caracterizando o controle dos tempos e movimentos do cronômetro taylorista. Como a produção é pequena, é necessário que os produtos estejam prontos para a venda na feira, que acontece duas vezes por semana – quinta e domingo – por isso que se intensifica a dinâmica da produção. Como o tempo entre as feiras é de dois a três dias, o produto deve estar pronto para comercialização no dia que antecede a feira. O sistema de produção fordista/taylorista sofre alterações devido a incorporação do novo modelo de produção, que agora se espalha pelo mundo. Criado na indústria de automóvel japonesa Toyota, é denominado de toyotismo e, 73 segundo Antunes (2006, p. 24), “penetra, mescla-se ou mesmo substitui o padrão fordista dominante, em várias partes do capitalismo globalizado”, instaurando-se da seguinte forma, [...] ao contrário do fordismo, a produção sob o toyotismo é voltada e conduzida diretamente pela demanda. A produção é variada, diversificada e pronta para suprir o consumo. É este quem determina o que será produzido, e não o contrário, como se procede na produção em série e de massa do fordismo. Desse modo, a produção sustenta-se na existência do estoque mínimo. O melhor aproveitamento possível do tempo de produção (incluindo-se também o transporte, o controle de qualidade e o estoque), é garantido pelo just in time. O kanban, placas que são utilizadas para a reposição das peças, é fundamental, à medida que se inverte o processo: é no final, após a venda, que se inicia a reposição dos estoques, e o kanban é a senha utilizada que alude à necessidade de reposição das peças/produtos. (GOUNET, 1992: 40 e CORIAT, 1992b: 43-45; apud ANTUNES, 2006, p. 34). O caráter homogêneo do processo produtivo fordista está relacionado à homogeneidade do segmento que a maioria dos fabricantes da Feira da Madrugada produz. Geralmente apenas um tipo de confecção é produzido, ou seja, aquele que fabrica feminino, não produz masculino, aquele que fabrica infantil, não fabrica adulto, porém, em poucos casos, se percebe que os produtores mesclam os tipos de mercadorias que fabricam, como veremos no próximo capítulo. Embora o segmento seja o mesmo, existe uma flexibilização dentro do próprio segmento fabricado, caracterizando o processo produtivo toyotista, onde a produção é variada, diversificada e pronta para suprir o consumo e é o consumidor, ao final, que acaba por determinar o que será produzido. Exemplificando esta semelhança com o processo de produção toyotista temos os fabricantes que utilizam diversos tipos de tecido para produzir suas mercadorias. Outros, produzem estilos diferentes dentro do mesmo segmento. Um produtor fabrica blusas femininas em tecidos variados, caracterizando estilos mais casuais ou mais formais. Outro produz vestidos infantis, uma parte é vendida como vestido de daminha para casamento e outra, mais casual para o dia a dia. Muitas das vezes, o produtor confecciona algum modelo que está sendo utilizado em uma novela, o que importa para o feirante, é atender a diversos clientes, em suma, o cliente é que designa muitas das vezes o que será produzido, que é uma das características da produção flexível. 74 O toyotismo acaba por gerar um aumento exponencial do desemprego, devido ao incremento das inovações tecnológicas que este modelo de produção utiliza, reduzindo consequentemente, cada vez menos a mão de obra humana. Antunes (2006) descreve que o desemprego estrutural, [...] é o resultado dessas transformações no processo produtivo, e que encontra, no modelo japonês, no toyotismo, aquele que tem causado maior impacto, na ordem mundializada e globalizada do capital. Por isso não temos dúvida em enfatizar que a ocidentalização do toyotismo (eliminados os traços singulares da história, cultura, tradições que caracterizam o Oriente japonês) conformaria em verdade uma decisiva aquisição do capital contra o trabalho (ANTUNES, 2006, p. 40). O estudo sobre o mundo do trabalho passa a ter certo grau de complexidade, devido as variáveis que remetem as novas formas de produção que criam novas relações no campo do trabalho. As mudanças ocorridas tem inclusive possibilitado, de acordo com Antunes (2009, p. 101) alguns estudiosos visualizarem “o fim das classes sociais, o fim da classe trabalhadora, ou até mesmo o fim do trabalho”. Para o autor, o importante é compreender na contemporaneidade a “sua efetividade sua processualidade e concretude”. Antunes (2009, p. 102) ao abordar este tema, retrata os trabalhadores contemporâneos como “a classe-que-vive-do-trabalho” ou simplesmente “classe trabalhadora”. O trabalhador segundo o autor pode ser produtivo e improdutivo (trabalhadores em serviços). O primeiro é “aquele que produz diretamente mais-valia e participa diretamente do processo de valorização do capital” e, o segundo engloba, [...] aqueles cujas formas de seja para uso público ou para como elemento diretamente processo de valorização do (ANTUNES, 2009, p. 102). trabalho são utilizadas como serviço, o capitalista, e que não se constituem produtivo, como elemento vivo do capital e de criação de mais-valia Identificar os rumos que a classe-que-vive-do-trabalho ou classe trabalhadora adquiriu na atualidade, para Antunes (2009 p. 103), faz-se necessário identificar aqueles que compõem ou não essa classe. A classe trabalhadora “engloba tanto o proletariado industrial, como o conjunto de assalariados que vendem a sua força de trabalho (e, naturalmente, os que estão desempregados, pela vigência lógica destrutiva do capital)” e os que estão fora da classificação de classe trabalhadora são “os gestores do capital”, “seus altos funcionários”, os que “vivem da especulação 75 e dos juros”, “os pequenos empresários”, “a pequena burguesia urbana e rural proprietária” (Idem, p. 104). Conclui que, Uma noção ampliada de classe trabalhadora inclui, então, todos aqueles e aquelas que vendem sua força de trabalho em troca de salário, incorporando além do proletário industrial, dos assalariados do setor de serviços, também o proletário rural, que vende sua força de trabalho para o capital. Essa noção incorpora o proletariado precarizado, o subproletariado moderno, part time, [...] os trabalhadores assalariados da chamada “economia informal” (ANTUNES, 2009, p. 104). O termo “economia informal” é utilizado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), que tem colocado estudiosos para realizar pesquisas relativas a este tema desde a década de 1970. O estudo da OIT de nome “Economia informal: aspectos conceituais e teóricos” que compõe a Série – Trabalho Decente no Brasil, foi publicado em 2010 e, tem como autores o economista social e do trabalho José Dari Krein e o economista Marcelo Weishaupt Proni. Os estudos visam propor políticas públicas para o enfrentamento as formas de precarização do trabalho e políticas econômicas de combate a pobreza. O trabalho informal nesse período é caracterizado principalmente pelos trabalhadores que se inserem no mercado de trabalho sem ser legalizado, ou seja, sem carteira assinada, sem os privilégios assegurados aos trabalhadores pela Constituição Federal Brasileira de 1988. As pessoas que se inserem no trabalho informal são tidas como o excedente de mão de obra que o sistema econômico não consegue absorver. De acordo com Krein & Prone (2010), a Organização Mundial do Trabalho (OIT) realizou estudos pioneiros sobre o setor informal na década de 1970 e, nesse período, caracterizou o setor informal como: [...] um fenômeno típico de países subdesenvolvidos, nos quais o avanço das relações mercantis modernas não havia sido capaz de incorporar expressiva parcela da população trabalhadora no padrão do emprego capitalista, possibilitando o aparecimento de outras estratégias de sobrevivência (KREIN & PRONI 2010, p. 8). Inicialmente o termo setor informal utilizado no estudo da OIT na década de 1970 não possuía uma perspectiva teórica que investisse no âmbito social da questão e esclarecesse o que realmente instituía a informalidade no mercado de trabalho, nesse processo, “as atividades informais foram pensadas como formando um setor, que engloba tanto empresas como indivíduos envolvidos na produção de 76 bens, na prestação de serviços pessoais ou no pequeno comércio” (Salas, 2003, apud KREIN & PRONI 2010, p. 9). Krein & Proni (2010) retratam que a discussão sobre a economia informal foi intensificada na década de 1990 devido às profundas mudanças econômicas e no mercado de trabalho contemporâneo e que mesmo tendo havido uma, [...] recuperação do emprego com vínculo formalizado na última década, permanece uma enorme heterogeneidade no mercado de trabalho. Fenômenos tais como a contratação ilegal de trabalhadores sem registro em carteira, os contratos atípicos de trabalho, as falsas cooperativas de trabalho, o trabalho em domicílio, os autônomos sem inscrição na previdência social, a evasão fiscal das microempresas, o comércio ambulante e a economia subterrânea, podem ser evocados como exemplos da diversidade de situações que podem caracterizar o que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) denomina “economia informal” (KREIN & PRONI 2010, p. 7). Entre as décadas de 1970 e 1990, houve um intenso debate na academia sobre a conceituação da informalidade, suas características e heterogeneidade de formas de inserção no mercado de trabalho. A partir da 90ª Conferência Internacional do Trabalho realizada em 2002, passou-se a adotar o termo economia informal pela OIT, buscando assim, incorporar a heterogeneidade que compõe o mercado de trabalho informal, incluindo de forma mais abrangente, categorias que seriam identificadas como parte deste tipo de economia, que são: a) Trabalhadores independentes típicos (microempresa familiar, trabalhador em cooperativa, trabalhador autônomo em domicílio); b) “falsos autônomos” (trabalhador terceirizado subcontratado, trabalho em domicílio, trabalhador em falsa cooperativa, falsos voluntários do terceiro setor); c) trabalhadores dependentes “flexíveis” e/ou “atípicos” (assalariados de microempresas, trabalhador em tempo parcial, emprego temporário ou por tempo determinado, trabalhador doméstico, “teletrabalhadores”); d) microempregadores; e) produtores para o auto consumo; e f) trabalhadores voluntários do “terceiro setor” e da economia solidária (KREIN & PRONI , 2010, p. 12). Independente da área acadêmica que estuda o trabalho informal, seja da área social ou econômica, uma premissa é consensual: as modificações que levaram ao aumento da informalidade no mercado de trabalho são as respostas do capital para a crise que se instaura na década de 1970 e que perdura até o século atual, o século XXI. O trabalho é o campo mais atingido por essas transformações e a precarização dos trabalhos e suas relações estão cada vez mais degradantes. 77 Para Antunes (2009, p. 205), a abordagem sobre a informalidade e a economia informal está relacionada a flexibilização das relações de trabalho que ele relaciona como uma “subproletarização do trabalho, decorrência das formas diversas de trabalho parcial, precário, terceirizado, subcontratado, vinculado à economia informal, aos setor de serviços etc”. As transformações que o mundo do trabalho sofreu na contemporaneidade para o autor, levou a classe trabalhadora uma constituição heterogeneizada, complexificada e fragmentada. Percebe-se que nos estudos relativos ao processo produtivo que adentra o século XXI, segundo a visão acadêmica da área social, as abordagens são mais qualitativas, no sentido de desvendar o mundo do trabalho, analisando a realidade social e econômica que envolve a vida dos trabalhadores e que reflete drasticamente na qualidade de vida e de trabalho na sociedade. A informalidade é retratada por alguns estudiosos como a falta de proteção social, ou seja, envolve os trabalhadores que estão destituídos dos direitos trabalhistas conquistados pelas lutas sociais e assegurados constitucionalmente. Não há muitos levantamentos sobre os segmentos e atividades que compõem a economia informal, porque a característica geral do trabalhador informal é a falta de legalidade em seu trabalho ou atividade laboral. Antunes (2009) inicialmente trata a informalidade sobre este prisma e que no Brasil, no século XXI, mais da metade da classe trabalhadora está na informalidade. Essa parcela da classe trabalhadora é abordada segundo o autor, em seu sentido mais abrangente, [...] desprovida de direitos, fora da rede de proteção social e sem carteira de trabalho. Desemprego ampliado, precarização exacerbada, rebaixamento salarial acentuado, perda crescente de direitos, esse é o desenho mais frequente da nossa classe trabalhadora (ANTUNES 2009, p. 252). A classe trabalhadora vivencia atualmente, em sua configuração heterogeneizada, complexificada e fragmentada uma visível separação entre o trabalho manual e intelectual, em que aquele padece cada vez mais à desqualificação e, enquanto este apresenta mais e mais condições de trabalho especiais e melhores qualificações. Os estudos na área social relativos ao trabalho remetem muitas das vezes à emancipação humana, a uma sociedade sem 78 dominação do homem pelo homem. É da classe-que-vive-do-trabalho que deve sair os agentes transformadores dessa realidade em busca da superação desse sistema opressor que degrada e descaracteriza o homem e suas relações sociais (Antunes, 2009). No estudo dos economistas Krein & Proni (2010) realizado para a OIT está exposta a preocupação em quantificar, conceituar e fazer um levantamento das categorias que compõem a economia informal. Nesse contexto, seus levantamentos, apesar de colocarem expresso que tem o intuito de promover políticas públicas voltadas para o setor, não colocam a questão da emancipação humana, do enfrentamento real a degradação do trabalho. No corpo do texto vê-se o constante discurso de proporcionar aos trabalhadores informais que estão destituídos da proteção social que os mesmos possam ser inseridos pelo menos em um nível básico de direitos e proteção social, não levando em conta a igualdade de direitos para todos os sujeitos que trabalham. A Feira da Madrugada em Fortaleza é um setor informal porque agregam em sua constituição diversas formas de inserção de trabalhadores. Há aqueles que trabalham sem registro em carteira (é o caso da pesquisadora deste estudo, dentre muitos), outros que trabalham por conta própria (vendendo água, alimentos, etc.), outros que são microempreendedores sem formalização de sua empresa (é o caso de alguns sujeitos participantes da pesquisa) e microempreendedores que formalizaram o registro de suas pequenas empresas (é o caso também de alguns sujeitos da pesquisa, os motivos serão expostos no próximo capítulo). A pergunta de partida que levou a realização deste estudo quer desvendar qual a relevância que o trabalho informal exerce na vida das famílias dos trabalhadores da Feira da Madrugada em Fortaleza. Como a heterogeneidade de atividades e formas de inserção dos trabalhadores na feira é muito extensa, a escolha dos sujeitos a serem pesquisados foi definida para aqueles que produzem suas mercadorias e ao mesmo tempo trabalham na feira. Nesse contexto, se eles produzem a própria mercadoria a ser comercializada, são então capitalistas, detentores dos meios de produção. Porém, o fato de eles mesmos comercializarem na feira os produtos que fabricou, os torna trabalhadores 79 do setor informal. A ambiguidade e contradição é tão característica da sociedade capitalista, quanto da própria heterogeneidade e complexidade que envolve a economia informal. Dentro do referencial teórico que embasa esta pesquisa, encontram-se classificações que abrange não a totalidade, mas parte da heterogeneidade que configura o trabalho informal na Feira da Madrugada. Seja pela destituição de direitos ou pela classificação dos segmentos que compõem a economia informal. Encontram-se os trabalhadores desprovidos da proteção social como exposto acima por Antunes (2009) e os proprietários de pequenos negócios como colocado por Krein & Proni (2010). Para Antunes (2009) os pequenos proprietários não podem ser considerados constitutivos da economia informal, pois os mesmos são proprietários dos meios de produção, devendo ser considerados, portanto, como capitalistas. Em outro estudo, Antunes (2011) busca elencar os diversos segmentos que abrangem a economia informal, tendo a perspectiva da dificuldade em se descrever um quadro efetivo das atividades que compõem o setor informal, caracterizado pela múltipla heterogeneidade, processualidade da informalização e da precarização dos trabalhadores. Explana três modalidades de ocupações informais que exemplifica uma pequena parcela da heterogeneidade que compõe o setor da economia informal. A primeira, é descrita como sendo composta pelos trabalhadores informais tradicionais. São aqueles que estão inseridos em atividades que não necessitam de grande acúmulo de capital e seus rendimentos vão ser utilizados para o consumo individual e familiar, em alguns casos, realizado com ajudantes temporários ou trabalho familiar (ANTUNES 2011). As ocupações que compõem esta modalidade são, [...] as costureiras, pedreiros, jardineiros, vendedor ambulante de artigos de consumo mais imediato como alimentos, vestuário, calçados e bens de consumo pessoal, camelôs, empregado doméstico, sapateiros e oficinas de reparos (ANTUNES, 2011, p. 409) Nesta modalidade encontramos algumas dessas ocupações que envolvem o trabalho na Feira da madrugada como os ambulantes vendedores de artigos para consumo imediato como alimentos e algumas bebidas. As costureiras que fazem 80 parte do processo produtivo da feira da madrugada são em grande maioria, terceirizadas. Neste contexto, os feirantes participantes da pesquisa, como proprietários dos meios de produção, tendo seus empreendimentos formalizados ou não, imprimem aos sujeitos que participam do processo produtivo de suas mercadorias, a mesma informalização e precarização ou até mais acentuada, aos contratados de suas empresas. A segunda modalidade são os trabalhadores informais assalariados sem registro. Aqui, encontram-se trabalhadores da indústria têxtil e de calçados, dentre outros (ANTUNES 2011). A informalidade na contratação de trabalhadores na Feira da Madrugada é uma realidade, da qual a pesquisadora deste estudo faz parte, embora a remuneração na feira seja geralmente um rendimento por dia de trabalho, encontram-se alguns casos que o valor de um salário mínimo é pago ao trabalhador. A terceira modalidade é a de trabalhadores por conta própria, que inclui uma variedade de produtores simples de mercadorias, que se utilizam da própria força de trabalho e ou de familiares, podendo em alguns casos, subcontratar trabalhadores assalariados. Estima-se o aumento de pequenos negócios atrelados as grandes empresas, na área de produção, comércio e prestação de serviços (ANTUNES 2011). Novamente aqui é retratado o auxílio de familiares e a própria força de trabalho na produção, característica dos processos de produção dos feirantes entrevistados para esta pesquisa e é um fato encontrado dentro do universo pesquisado. O século XXI com a flexibilização do trabalho provoca em maior grau a desconstrução dos direitos sociais do trabalho, ampliando os diversos modos de ser da informalidade. O desemprego nesse processo acaba por rebaixar o estatuto salarial daqueles que se encontram empregados, devido o imenso contingente de desempregados. Em qualquer das modalidades, a informalidade é caracterizada pela falta da legalidade do trabalho e, “se a informalidade não é sinônimo direto de precariedade, sua vigência expressa formas de trabalho desprovido de direitos, e por isso, encontra clara similitude com a precarização” (ANTUNES, 2011, p. 418). O trabalho formal não absorve todo o contingente de trabalhadores disponíveis no mercado de trabalho e, muitos se inserem no setor informal por que é 81 a única forma de buscar sua sobrevivência. Porém, de acordo com Machado (2008) estudos mostram que muitos trabalhadores buscam o trabalho informal devido à “liberdade de ação, jornada de trabalho flexível e controle do seu próprio negócio”. A controvérsia acerca da definição do setor pode estar refletindo a presença de indivíduos que ingressam na informalidade por “opção”, ou, em outros termos, a denominada estratégia de “ciclo de vida”. O histórico familiar e a preocupação com a qualidade de vida podem levar o trabalhador a procurar essa forma de inserção em busca de liberdade de ação, jornada de trabalho flexível e controle de seu próprio negócio. Assim, no setor informal, também se encontram trabalhadores com boas condições de trabalho e remuneração, que não ingressaram nesse setor por conta de dificuldades causadas pelo desempenho econômico do país ou por certo desajuste entre capital humano e os pré-requisitos das ocupações existentes” (MACHADO et al., 2005, apud MACHADO 2008, p. 130) Estas características como trabalhar por opção, em busca da liberdade e independência financeira, serão encontradas nas falas dos sujeitos da pesquisa, na descrição da análise das entrevistas. Também será exposto que a decisão desta escolha está relacionada com a redução salarial de alguns ou o pequeno rendimento que não permitia uma melhor qualidade de vida para ambos os casos. 82 4 PESQUISA DE CAMPO: FEIRA DA MADRUGADA DE FORTALEZA Este estudo demonstrou até agora como as transformações do capitalismo trazem desdobramentos para toda a vida social. Afetados por essas transformações, os trabalhadores se veem situados em uma nova ordem mundial a partir da qual o desemprego e a precariedade no trabalho se tornam estrutural, causando o avanço da chamada economia informal. No início deste estudo foi realizada uma descrição do cenário estudado, retratando como se dá as relações no espaço da Feira da Madrugada. A análise das entrevistas irá trazer a realidade de forma mais aprofundada, através dos relatos dos sujeitos da pesquisa, sobre suas trajetórias de vida e o trabalho na feira. 4.1 Análise das entrevistas As entrevistas foram realizadas entre Maio e Junho de 2014. Algumas realizadas nas residências dos sujeitos pesquisados, outras realizadas na residência da pesquisadora e também, na Feira da Madrugada. O questionário foi elaborado e subdividido em quatro seções além das perguntas introdutórias básicas, totalizando dezenove perguntas. As entrevistas foram gravadas com o consentimento dos sujeitos e foi dispensado por opção dos mesmos, o Termo de consentimento livre e esclarecido, em que o pesquisador e o entrevistado concordam em preservar a identidade de cada um. Foram realizadas três entrevistas na Feira da Madrugada, nos respectivos locais de trabalho dos sujeitos. Duas foram na casa da pesquisadora, uma só foi possível por e-mail e quatro foram realizadas nas respectivas residências dos sujeitos. A diferença de locais onde foram realizadas as entrevistas, tem relação direta com a percepção dos sujeitos relacionada à pesquisa. Tendo em vista que nunca haviam realizado uma entrevista de pesquisa acadêmica, mostraram-se em alguns 83 casos, constrangidos ou desconfiados com os tipos de informações que seriam coletadas. Inicialmente foi esclarecido o motivo da pesquisa e sua relação com curso de Serviço Social. Em seguida foi explicado sobre o Termo de consentimento livre e esclarecido, bem como o conteúdo das informações que seriam coletadas. Independente do receio e resistência em conceder a entrevista, foi possível realizala com dez sujeitos. A Feira da Madrugada em Fortaleza agrega uma heterogeneidade de trabalhadores em diversas atividades que tem um objetivo único que é a venda, seja de produtos ou serviços. A pesquisa realizada com os trabalhadores requer antecipadamente uma definição de qual perfil dos sujeitos será definido para esta pesquisa e consequentemente, a sua delimitação, devido à heterogeneidade das funções. Nesse contexto os sujeitos da pesquisa foram pensados tendo uma relação direta com o referencial teórico que embasa esta monografia, como também, com a pergunta de partida que impulsionou esta pesquisa, que é a relevância do trabalho no setor informal (que caracteriza a Feira da Madrugada) para os trabalhadores e suas respectivas famílias, e com o objetivo geral deste estudo, que é analisar o cotidiano dos trabalhadores informais na Feira da Madrugada no Centro de Fortaleza. Foi definido como perfil para a escolha dos entrevistados que todos fossem produtores dos artigos que comercializam. Para a pesquisa foram escolhidos os sujeitos que produzem artigos do vestuário e que ao mesmo tempo trabalhem na feira. Um nome fictício será designado para cada sujeito da pesquisa validando o direito de anonimato que eles possuem, porém, suas idades e os demais dados coletados permanecem os verdadeiros. Cada nome fictício conterá a letra inicial de seus nomes verdadeiros mantidos, em respeito à subjetividade de cada um e para facilitar a análise dos 84 dados coletados, já que as iniciais dos nomes femininos não se repetem e o mesmo ocorre com os nomes masculinos. 4.1.1 Perfil dos entrevistados As perguntas introdutórias perfazem o total de quatro questões. A primeira possibilita que o sujeito escolha o nome fictício que será utilizado no corpo deste estudo; a segunda refere-se a idade; a terceira relata a formação de cada entrevistado e a quarta, identifica há quantos anos exerce o trabalho na Feira da Madrugada. Foram entrevistadas dez pessoas de gêneros e faixa etárias diferentes, dentre elas, seis mulheres e quatro homens, com idades entre 27 e 55 anos. Os nomes escolhidos para os sujeitos da pesquisa; suas respectivas idades; escolaridade; o tempo que trabalham na Feira da Madrugada e sua naturalidade encontram-se no quadro abaixo, para uma melhor visualização desses dados preliminares da pesquisa. Quadro 1 – Sujeitos da pesquisa Nome Idade Escolaridade Tempo de feira Naturalidade Sara 27 Médio completo 1 ano Fortaleza - CE Ana 31 Médio completo 6 anos Orós - CE Vera 33 Superior completo - Contabilista 9 anos Fortaleza – CE Lia 37 Médio incompleto 5 anos Fortaleza – CE Ester 43 Médio completo 6 anos Fortaleza – CE Raquel 55 Superior completo - Filósofa 4 anos Fortaleza – CE Vitor 43 Ensino Fundamental 7 anos Belém – PA Pedro 45 Ensino Fundamental 5 anos Canindé – CE Raul 53 Ensino Fundamental 8 anos Buriti dos Lopes - PI Caio 53 Médio completo 10 anos Itapagé - CE 85 Dentro do exposto nesse quadro, percebe-se que a escolarização das seis mulheres é superior a dos homens, tendo em vista que nenhuma possui escolaridade em nível fundamental, e apenas uma tem o nível médio incompleto. O nível superior de escolarização encontra-se apenas nas mulheres, uma é formada em Contabilidade e a outra é formada em Licenciatura Plena em Filosofia. Entre os quatro homens entrevistados, um tem o nível médio completo e três o ensino fundamental. Essa característica abordada tem importância no sentido de que o setor informal não agrega apenas pessoas de baixo grau de instrução. No espaço da Feira da Madrugada encontram-se pessoas de vários níveis de escolaridade, mas que exercem a mesma função que é a de vendedor e possuem as mesmas características, levando em conta o perfil dos sujeitos pesquisados, em que todos são produtores daquilo que comercializam, independente de uma maior ou menor escala produtiva e dos tipos de produto que fabricam. Estudos sobre a economia informal abordavam inicialmente e, atrelado às pessoas migrantes do campo, que os sujeitos que tinham sua inserção laboral no setor informal da economia eram pobres, com baixo nível de escolaridade e que incluíam pessoas jovens e idosas (KREIN & PRONI 2010). Como demonstrado na tabela anterior, os homens da pesquisa tem baixa escolaridade e em suas respectivas trajetórias viveram situações de pobreza e baixa qualidade de vida, mas, como veremos a seguir, estes nãos foram os fatores que os levaram ao mercado informal. Mesmo com baixa escolaridade, todos trilharam percursos em setores formais da economia, trabalhando de forma legalizada e, portanto, cobertos pelos direitos da seguridade social, inerente a todo trabalhador que exerce sua função com carteira assinada. O questionário foi subdividido em quatro seções, que serão expostas a seguir, buscando desvendar, de acordo com as falas dos sujeitos da pesquisa, sua trajetória de vida e de trabalho, como também, suas percepções sobre o trabalho na Feira da Madrugada. O resultado da análise da coleta de dados foi relevante para compreensão do universo pesquisado e para alcançar os objetivos deste estudo. 86 4.2 Primeira seção: A história de vida dos sujeitos da pesquisa A primeira seção resgata parte da vida dos sujeitos e os significados que permeavam suas vidas na infância e juventude. A seção possui quatro questões que resgatam a naturalidade dos sujeitos e um pouco sobre a história de suas vidas, assim como a de seus pais. Retrata ainda os sonhos de criança de cada sujeito, seu estado civil e como conheceu seu cônjuge e, os planos que cada sujeito tinha quando jovem. Os sujeitos participantes da pesquisa em sua maioria são naturais do Estado do Ceará, sendo cinco deles nascidos em Fortaleza e três do interior do Estado, oriundos das cidades de Orós, Canindé e Itapajé. Dois dos entrevistados são de Estados diferentes, um é natural de Belém, no Pará e o outro de um povoado próximo a cidade de Buriti dos Lopes, no Piauí. Os níveis socioeconômicos de vida de cada entrevistado variavam assim como as ocupações que seus pais exerciam. O trabalho dos pais dos sujeitos da pesquisa era bem diversificado, e apesar das diferenças, alguns traços são semelhantes. Quatro dos sujeitos pesquisados são naturais de cidades do interior, dentre eles, a agricultura era o meio de vida de três, das quatro famílias, a saber, do Caio (53 anos, Itapajé - CE); do Raul (53 anos, Buriti dos Lopes – PI) e do Pedro (45 anos, Canindé – CE), sendo que em uma delas, apenas o pai era agricultor e mãe era professora e, na quarta família, a da Ana (31 anos, Orós – CE) os pais eram proprietários de um frigorífico. O trabalho dos sujeitos que são naturais de capitais possuem também alguns traços semelhantes. Exceto uma das entrevistadas que não definiu nenhuma ocupação para seus pais, e que, procurou apenas e repetidamente, expor que sua família era totalmente desestruturada. Os demais entrevistados tiveram uma diversidade de inserção dos seus pais no mercado de trabalho. Dentre estes três o meio de vida era sustentado através comércio e em um dos casos, comércios variados ao longo da vida. 87 A família da Ester (43 anos, Fortaleza/CE) é a que mais teve em sua trajetória de vida, ocupações diferenciadas ao longo da jornada. Seu pai trabalhou nos bombeiros, depois como taxista, motorista de ônibus, motorista da prefeitura nos caminhões de coleta de lixo até se aposentar e, por fim, foi corretor de confecção. Sua mãe sempre trabalhou por conta própria, primeiramente, segundo a Ester, ela abriu um pequeno comércio que vendia comida e bebida. Após o seu fechamento, passou a fabricar confecção e vendia nas feiras de Pacajus e por último, ela montou uma sorveteria em casa, com o tempo, esse comércio também fechou e hoje, ambos encontram-se aposentados. A Vera (33 anos, Fortaleza/CE) relatou que sua família (mãe, irmãs e esposo) está dando continuidade ao trabalho de seu pai, que é o comércio de confecção de vestuário, e que sempre trabalharam com o mesmo segmento que é roupa íntima, especificamente, roupa de dormir. A Raquel (55 anos, Fortaleza/CE) expôs que seu pai era fabricante de calçados e sua mãe de confecção e que ela cresceu vendo a dinâmica do trabalho de seus pais. O Vitor (43 anos, Belém/PA) explicou que seu pai era comerciante, possuía uma mercearia e sua mãe era dona de casa. A Lia (37 anos, Fortaleza/CE) comentou que seu pai é marceneiro e sua mãe lavadeira de roupas. Dos dez entrevistados, portanto, temos a Sara (27 anos, Fortaleza/CE), que não identificou o trabalho de seus pais. Os pais do Raul eram agricultores. O Caio relatou que seus pais tinham a sua renda advinda da agricultura. Já o pai da Lia é marceneiro e sua mãe lavadeira de roupa. Apesar de inicialmente o pai do Pedro trabalhar com agricultura e sua mãe como professora, nesse período eles residiam próximo a Canindé, depois eles mudaram para a cidade e passaram a trabalhar no comércio, como feirantes. Os demais entrevistados tiveram contato com o perfil empreendedor dos seus pais através do comércio. Assim, temos seis famílias que tinham por meio de vida o comércio. Entre os dez entrevistados, apenas a Vera deu continuidade ao comércio do pai. Os demais seguiram carreiras ou atividades ao longo da vida, diferentes de seus pais que eram em sua grande maioria, agricultores e comerciantes, mas hoje, trabalham no comércio e são pequenos empreendedores. 88 4.2.1 A história de como cada entrevistado conheceu os seus cônjuges Cada entrevistado relatou como conheceu seu cônjuge. Este fator tem relevância para a pesquisa, porque a relação entre os casais se entrecruzam posteriormente no trabalho na Feira da madrugada. Dos dez entrevistados, sete trabalham com seus cônjuges na feira e na produção da mercadoria. Três mulheres ficam fora desta perspectiva do trabalho em conjunto: a Raquel porque não é casada, Ana e a Sara não trabalham como os seus esposos, porém, eles foram de grande importância, com apoio moral e financeiro, para que se tornasse realidade o início de seus negócios. Entre os sujeitos da pesquisa, apenas a Raquel não é casada, mas está noiva e casará ainda este ano. A Raquel expôs que conheceu seu noivo em uma viagem a Recife, quando foi com sua mãe visitar uns parentes, ele é seu primo legítimo e ela o conheceu nesta viagem, ele estava divorciado e a afinidade foi instantânea, ficaram se comunicando e decidiram casar. A Lia e a Sara estão no segundo casamento e, os demais, permanecem com os seus respectivos primeiros cônjuges. Vera foi morar com sua família por um período no Maranhão e lá, ela conheceu o homem que hoje é seu esposo, depois todos retornaram para Fortaleza novamente. O esposo da Sara faleceu quando a filha deles tinha um ano e oito meses. Após um ano ela foi trabalhar em uma madeireira e lá conheceu o seu atual esposo. A Lia estava separada de seu esposo e conheceu o seu atual (que na época também estava separado) em uma festa. Depois desse encontro, não se separaram mais e se casaram. A Ester contratou um fabricante de sorvete para trabalhar na sorveteria de sua mãe, na qual ela trabalhava também, ele foi contratado em Junho e em outubro do mesmo ano (1997) eles se casaram. O Pedro foi morar em SP quando jovem e ficou por lá durante quinze anos, nesse período conheceu a mulher que hoje é sua esposa. Após um tempo, vieram morar em Fortaleza. O Raul morava em um pequeno povoado no interior do Piauí e disse que todos os moradores se conheciam, assim como ele e a mulher que hoje é sua esposa, cresceram juntos, estudaram na mesma escola e casaram-se. O Caio disse 89 que sua esposa residia em um interior próximo a Itapajé, sua cidade natal, ela é sua prima legítima, mas eles só vieram se encontrar quando ele já residia em Fortaleza e ela veio morar aqui com os pais, conheceram-se e casaram. O Vitor relatou que ambos moravam próximos e constituiu família ainda muito jovem, ele tinha então 16 anos e ela 15 anos. A Ana conheceu o seu cônjuge na igreja evangélica da qual faz parte. 4.2.2 Quais os sonhos de criança e os planos quando jovens dos entrevistados A Vera disse que quando criança sonhava em ser advogada, estudou e acabou se formando em Contabilidade. Relatou que começou a trabalhar com dez anos ajudando seus pais, em suas palavras, “sua juventude foi de muita responsabilidade, não por pressão dos pais, mas sim, por vontade própria, pois qualquer ajuda era bem vinda”. Ser professora era o sonho da Lia, mas não chegou a concluir o ensino médio. Segundo ela, depois que seus pais se separaram, na época ela tinha 13 anos, ela teve que trabalhar para ajudar a sua mãe e seus irmãos menores, estudar e trabalhar nesse período era muito difícil. Relatou que não tinha planos quando mais jovem. Em seu discurso, relata que “só queria trabalhar pra ter meu dinheiro e ajudar a minha mãe”. O sonho da Ester era ser costureira, trabalha costurando hoje porque gosta. Conseguiu terminar o ensino médio e prestou vestibular para o curso de Serviço Social, não obtendo êxito, acabou não tentando novamente. Quando jovem não pensava no futuro, não planejava nada. Com o seguro desemprego, comprou máquinas de costura e trabalhou costurando para terceiros, ganhava em torno de três a quatro salários mínimos por semana. Pouco ajudava em casa porque não precisava, o dinheiro usou para investir no trabalho e o resto gastava com roupas, sapatos e passeava. De acordo com ela, a responsabilidade veio com o casamento, porque quando jovem, “quando eu casei e nasceram os filhos começou as dificuldades, aí a gente já tinha que trabalhar com responsabilidade, tinha que ter aquilo pra manter a família, pra não tá pedindo nada pra ninguém e não pesar nas costas de ninguém”. 90 O Pedro quando criança sonhava em ser jogador de futebol, mas não havia oportunidade para realizar o seu sonho. Na juventude, Pedro explica que pensava, segundo ele, como todo mundo na época com 18 anos, tentar a vida no Estado de São Paulo. Relata que não enfrentou muitas dificuldades em São Paulo, porque tinha parentes residindo lá, mesmo assim, não era bem o que esperava. Em suas palavras, “eu achava que indo pra São Paulo as coisas seriam menos difícil, mas não, é mais complicado, você chega lá e vê que não é nada daquilo, é só simplesmente um sonho, pra certas pessoas acaba se tornando um pesadelo”. Para Raul, o que alimentou o seu sonho de criança foi um programa televisivo que passava na época chamado de “Carga Pesada”, tinha uns personagens caminhoneiros no programa e ele achava bonito, passando a sonhar em ser caminhoneiro. O que ele planejou quando jovem era ir para São Paulo quando completasse 18 anos, assim faziam na época, quase todos os jovens do local onde morava, em busca de melhores condições de salário e vida. Afirma que ainda hoje, no povoado em que ele nasceu essa cultura ainda persiste. Em São Paulo conseguiu um trabalho em poucos dias e o salário que recebia, pretendia reservar uma parte para o futuro, “eu recebia meu salário e sempre depositava uma parte para o meu pai, uma parte eu tirava pras despesas e guardava o resto na poupança. Eu via muitos gastando todo o dinheiro, com mulheres e bebida, e fiquei prestando atenção, daí eu comecei a juntar”. Médico era a profissão dos sonhos para o Caio quando criança. Apesar de ter concluído o ensino médio, não seguiu carreira acadêmica. Na sua juventude ouvia as pessoas falando que o Estado de São Paulo era muito bom para trabalhar e, com 14 anos, foi pra São Paulo morar com sua irmã e procurar emprego. Apesar de começar trabalhando com o seu cunhado fazendo frete, transportando barracas de feirantes em um caminhão, logo juntou uma boa quantia de dinheiro e comprou em sociedade com seu cunhado outro caminhão. Sonhava em voltar para o Ceará, e vendeu o caminhão para com o dinheiro, comprar um carro e montar um negócio próprio em sua cidade natal, porém, o comprador não pagou tudo e o dinheiro que lhe sobrou só deu para comprar o carro, passando a fazer fretes em Itapajé. O Vitor expos que não tinha grandes sonhos. Pensava mesmo era em ser motorista. Não chegou a fazer planos quando jovem, pois, aos 16 anos juntou-se 91 com a namorada de 15 anos, e declara, “sabe como é adolescente, não quer saber, pensa que está certo e pronto, que tudo é fácil e vamos ficar junto e se não der, vamos fugir, tudo se resolve”. Geógrafa era a carreira que a Ana sonhava em seguir. Concluiu o ensino médio, mas, quando seus pais mudaram da cidade de Orós/CE para Fortaleza, em seguida se separaram. Não tendo apoio do pai desde então, teve que trabalhar para ajudar sua mãe e seus irmãos menores, não podendo realizar seu sonho. Quando jovem, foi trabalhar em uma confecção perto de casa, inicialmente no estoque e depois como vendedora da loja de fábrica. Ana assim relata, “eu comecei a sonhar em ter uma confecção e ser bem sucedida, comprar uma casa, trabalhar pra mim mesma, que mesmo sendo pouco é meu”. Seu sonho está relacionado com a superação das dificuldades que enfrentava com sua família, em que muitas vezes, não tinham o que comer durante o dia. A mãe de Ana trabalhava de doméstica para uma cunhada, numa confecção de peças íntimas, as funcionárias almoçavam no local e o que sobrava da comida, sua mãe levava para casa, sendo às vezes, a única alimentação do dia. Ana relata que antes de ir trabalhar na confecção, esperava por uma oportunidade de trabalho e sobre o fato de passar, às vezes, o dia sem se alimentar, expõe que, “era muita gente pra comer, então a minha mãe não queria abusar, achava que ela já estava dando muita coisa, que era o trabalho e o resto da comida. Mas realmente era muita coisa, porque nós não tinha nada”. A Sara também passou por diversas dificuldades e apesar de não ter pais separados, segundo seu relato, sua família era desestruturada. Seu sonho de criança era apenas ter dinheiro. Sonhava em sair da favela onde vivia, a favela do Lagamar. Com suas palavras, descreve seus pensamentos que tinha quando criança: “o que eu vou ter pra comer amanhã e o que vai ter na favela hoje? Vai ter forró? Vai ter bala? A criança de periferia ela pensa nisso, o foco dela é aquele mundo que ela vive, não tem perspectiva, ela vive um dia após o outro, ela vive daquilo ali”. Na juventude, Sara continuava com o sonho de sair da favela. Assim, começou a trabalhar com 15 anos, buscava superar a vida que levava e, relata, “Eu sou de Fortaleza, eu sou da periferia certo, eu venho de uma favela no Bairro Pio XII, a favela do Lagamar. Venho de uma família totalmente desestruturada, mas eu sempre tive objetivos desde pequena. Apesar de não ter pai e mãe presente, mas eu sempre fui a focada sabe, eu sempre fui a diferente, eu não corria com todo 92 mundo, eu sempre era a crente, eu sempre fui diferente. Então é por isso que hoje eu tenho uma vida totalmente diferente da deles, mas coisas da vida mesmo, que tem coisas que a gente não sabe nem explicar, como acontece né? Você tem pais totalmente desestruturados, que bebe, que fuma, mora numa periferia, tem tudo pra ser ruim, tudo pra fazer o que não presta, e por acaso, coisa de Deus mesmo, você acaba seguindo outro caminho”. A Raquel sonhava em ser odontóloga, tentou o vestibular, mas não passou. Em seguida, surgiu uma oportunidade de emprego na aviação, deixando assim, os estudos de lado nesse período. Passou sua juventude vendo seus pais engajados no comércio e começou a fazer reservas já no seu primeiro emprego para um dia ser comerciante também. Fez licenciatura em Filosofia por questões culturais, servindolhe depois para trabalhar como professora. A busca por oportunidades de emprego por alguns, ocorreu com a tentativa de melhorar a qualidade de vida, em Estados que não são os seus. Nesse contexto, três dos quatro homens que compõem os sujeitos da pesquisa saíram do Ceará para tentar a vida em São Paulo, Pedro e Raul foram com 19 (1988) e 18 (1979) anos respectivamente, e Caio viajou ainda adolescente, com 14 anos (1975). Levando em conta o período entre as décadas de 1975 a 1988 em que esses sujeitos ainda jovens seguiram para São Paulo, percebe-se a relação com o período de acumulação fordista, que apesar de não ter se concretizado no Brasil nos parâmetros europeus de seguridade, houve nas regiões centrais brasileiras, certa estabilidade e crescimento do emprego no período fordista. Grande parcela da população não pode se inserir no mercado de trabalho, mesmo com o crescimento da economia, permanecendo fora da seguridade social e do padrão de vida melhorado, que só foi possível para poucos (CONSERVA & ARAÚJO 2008). A ida desses sujeitos da pesquisa para o Estado de São Paulo tem relação com o discurso proclamado na época no Ceará, que havia muitas oportunidades de trabalho e ascensão econômica em São Paulo. Dois deles já tinham família morando no Estado, facilitando sua acomodação pelo período em que lá residiram. Em suas declarações durante a pesquisa, os três entrevistados expuseram que foi este discurso que os impulsionou a realizarem esta viagem. Mesmo que os anos que compreendem suas experiências de trabalho em São Paulo, 1975, 1979 e 1988, período em que o padrão de acumulação já estava 93 em crise, Caio e Raul, declaram que não só conseguiram trabalho fácil, como puderam trazer uma quantia em dinheiro que permitiu a Caio comprar um carro e a Raul, comprar uma casa na periferia de Fortaleza. Pedro enfrentou uma situação totalmente diferente, porque em 1988, a crise que se iniciara no final da década de 1960, teve um aprofundamento de todas as suas consequências na década de 1970 e maiormente em 1980 (CONSERVA & ARAÚJO 2008). Portanto, para Pedro, mesmo tendo conseguido trabalho formalizado em certo período que estava em São Paulo, como veremos em seu discurso adiante, sua experiência não foi exitosa. A década de 1980, apesar das lutas sociais que possibilitou a conquista de direitos e da seguridade social, foi de intensa crise econômica. A dificuldade em promover políticas econômicas que promovessem uma melhor redistribuição de renda na América Latina, que consequentemente, inclui o Brasil, dentre outras características, gerou o aumento da dívida externa do país e da inflação que em 1981 estava em 91,2% e saltou em 1985 para 217,9%. A dificuldade de recuperação da economia provocou uma diminuição dos gastos públicos pelo Estado, aumento do desemprego e da informalidade da economia (BEHRING & BOSCHETTI 2011). Somam-se a estas dificuldades que os trabalhadores enfrentaram na busca por uma melhoria na qualidade de vida e condições de trabalho, uma acentuada desestruturação e desqualificação do trabalho á partir da década de 1980. Em se tratando da maioria dos sujeitos entrevistados e levando em conta as ocupações em que trabalharam ao longo da vida, como vigia, porteiro, ajudante de manutenção, costureira, camareira, motorista, agricultor, servente de pedreiro etc. Percebemos que suas qualificações são aquelas denominadas facilmente encontradas no mercado de trabalho. Neste contexto, encontra-se a questão do trabalho intelectualizado e a desqualificação de grande parte das demais categorias e ocupações laborais. O trabalho passa a conter, em especial, uma pequena parcela de mão de obra intelectualizada que possui em elevado grau de segurança no trabalho quanto a sua estabilidade e com remunerações muito mais elevadas que a grande maioria daqueles considerados desqualificados. Estes por sua vez, são subdivididos entre aqueles que trabalham em tempo integral, mas que suas ocupações são espontaneamente encontradas no mercado de trabalho e por isso são cargos que 94 tem alta rotatividade de contratações e o outro grupo que, são trabalhadores contratados tendo por base a flexibilização das relações de trabalho e suas ocupações são em tempo parcial, podendo ser temporários, subcontratados, terceirizados e possuem total insegurança no emprego, podendo ser substituído a qualquer momento (ANTUNES 2006). Vitor, residente em Belém do Pará, veio tentar a vida em Fortaleza, onde já tinha parentes residindo. Chegou aqui com 24 anos em 1996. Mesmo exercendo a mesma função que exercia em sua cidade natal, Vitor ganhava melhor que no seu emprego anterior. O deslocamento para outro Estado retrata a questão do crescimento desigual dentro do país e que reflete também, a nível mundial, o crescimento desigual entre países. O crescimento desigual e combinado é resultado do processo de expansão capitalista entre empresas, ramos produtivos, indústrias e países. Aumenta-se a expansão de territórios para o aumento da acumulação em que os países mais ricos e centrais, buscam o excedente lucrativo nos países menos desenvolvidos e onde encontram mão de obra com valor mais baixo e custo da terra também, matérias primas em abundância e a baixo custo e nível de acumulação também mais baixo (IAMAMOTO 2009). No Brasil, o crescimento desigual entre regiões expressa a exclusão dos sujeitos nos postos de trabalho, consequentemente tem níveis econômicos diferenciados e muito desiguais. As regiões Norte e Nordeste possuem uma maior dimensão desta exclusão se comparadas às regiões Centro-sul, de acordo com os dados, “41,6% das cidades brasileiras apresentam os piores resultados, sendo a maioria delas situada nas regiões Norte e Nordeste” (CONSERVA & ARAÚJO, 2008, p. 84). 4.3 Segunda seção: o percurso de trabalho dos entrevistados A segunda seção é voltada para o percurso que cada sujeito trilhou no campo do trabalho antes de ingressar na Feira da Madrugada. Aqui são realizadas três perguntas, uma indica os trabalhos que os sujeitos exerceram anterior à inserção na 95 feira, quais desses trabalhos tinham a carteira de trabalho assinada e se sentem falta de algum deles, e por último, indagamos qual a percepção dos sujeitos sobre esses trabalhos. Entre os dez sujeitos pesquisados, apenas uma não mudou de ramo no trabalho, que é a Vera. Mudaram os locais onde os produtos fabricados eram vendidos, mas, sempre foi a confecção e o comércio de artigos do vestuário. Vera relata que como trabalhava com a família, nunca assinou sua carteira, mas contribui com a previdência. Para ela o engajamento no trabalho, desde criança, foi um processo natural e tem orgulho de dar continuidade ao trabalho do pai. A Lia começou a trabalhar com 13 anos para ajudar sua mãe e os irmãos caçulas após a separação dos pais. Inicialmente sua ocupação era de doméstica, depois assumiu uma vaga de serviços gerais em um hotel, tendo sua função deslocada para a de camareira. Quando saiu do hotel, trabalhou como recepcionista em um motel, assumindo depois o cargo de gerência. Passou um breve período com depressão e, um dia, indo fazer compras no Beco da Poeira, foi chamada para trabalhar como vendedora. Seu último trabalho antes de tornar-se uma pequena empresária, foi em uma confecção, como vendedora na loja de fábrica. Na época, namorava seu atual marido e, através dele, conseguiu este emprego. Em comum acordo, o casal decidiu iniciar o próprio negócio, produzindo confecção para vender, permanecendo nele até hoje. De todos os seus trabalhos, apenas o de doméstica e o de vendedora no Beco da Poeira não eram com carteira assinada. Gostava de todos os trabalhos que já teve porque em todos conseguiu melhorar sua função para melhor. Sempre teve ajudas dos patrões nesta parte, segundo ela, porque não tinha nem o ensino médio completo. Com 15 anos, Sara começou a trabalhar numa loja como atendente de balcão, como era menor, tinha que se esconder no banheiro quando havia fiscalização. Trabalhou nesta loja por alguns anos, tendo sua carteira assinada quando completou a idade. Quando engravidou parou de trabalhar, mas com a filha ainda pequena ficou viúva e conseguiu um emprego em um mercantil. Depois em uma madeireira que foi onde conheceu seu atual esposo. Teve sua carteira assinada na loja e na madeireira. 96 Para Sara, trabalhar nesses empregos na época havia uma enorme diferença entre eles. Guarda com carinho o seu primeiro emprego, mas o do mercantil, em que ela trabalhava de seis da manhã até as vinte e duas horas, era bem desgastante e a remuneração não compensava. Na madeireira o negócio melhorou, não apenas pelo salário e a carteira assinada, mas também porque agora ela tinha mais tempo para si e para a filha. Quando saiu da madeireira, seu esposo e cunhados montaram uma loja para suas respectivas esposas trabalharem, porém, a sociedade não deu certo. Sara explica que ficou encantada com o comércio de confecção e quando fecharam a loja decidiu começar a fabricar, dando início ao seu próprio negócio. Nessa nova empreitada, seu esposo ajudou financeiramente a concretizar esse sonho. Ana também começou a trabalhar cedo. Inicialmente vendeu coco nos bares, depois fez sabonete de glicerina pra vender em motéis e vendeu roupas que pegava em consignação com uma mulher. Também trabalhou fazendo bordados e depois limpando pontas de linha de roupas em jeans para uma fábrica. Aos 16 anos, Ana criou coragem e falou com a proprietária da fábrica para trabalhar como funcionária e receber um salário fixo. Obtendo sucesso, iniciou seu trabalho no estoque e quando chegou a idade, a proprietária colocou-a para trabalhar como vendedora na loja da fábrica. Dentre os trabalhos que teve, apenas o da fábrica foi com carteira assinada. Para Ana, independente das condições de trabalho entre as ocupações que exerceu, não havia diferenças. No fim, em todos eles, a base era a venda. Tomou a decisão de montar o próprio negócio e pediu as contas da fábrica para começar a produzir. Seu esposo a presenteou com a banca na qual ela trabalha hoje na feira. O primeiro trabalho da Rejane foi como aeroviária, trabalhando em lojas da companhia aérea Transbrasil. Nesse período formou-se em Filosofia e fez um curso de inglês, essencial para o trabalho como professora do nível médio, lecionou inglês, sociologia, filosofia e história. Depois passou a fabricar confecção feminina tornando-se pequena empresária. Ester relata que começou a trabalhar com nove anos, costurando a mão roupas de bonecas que eram vendidas para as meninas da rua. Aprendeu a fazer crochê e passou a fazer artesanato para vender e, juntamente com seus irmãos, também fazia tranças para rede em casa. Aos 10 anos começou a pegar serviço de 97 uma fábrica para fazer em casa, costurava a mão a bainha das peças e, aos 13 foi trabalhar diretamente na fábrica como costureira. Quando saiu deste trabalho conseguiu vaga em outras duas fábricas e, quando completou 18 anos foi trabalhar numa fábrica de confecção que sua irmã acabara de abrir, por aproximadamente quatro anos. Neste trabalho costurava biquíni. Decidiu trabalhar por conta própria e sua irmã assinou sua carteira para que ela recebesse o seguro desemprego e com este dinheiro, iniciar o seu negócio. Começou a trabalhar como costureira e colocou um anúncio no jornal dizendo que costurava malha. Começaram a aparecer clientes e teve que colocar uma costureira para lhe ajudar, neste período seu pai se aposentou e começou a trabalhar como corretor de confecção. A casa em que moravam ainda era de taipa, foi um período muito próspero que todos. A casa foi demolida e construído um duplex de alvenaria. Quando as coisas melhoraram, sua mãe montou uma sorveteria no andar de baixo da casa, no mesmo período, dois de seus irmãos passaram por uma crise financeira, como a sorveteria havia prosperado (chegavam a distribuir cinco mil picolés em um dia), Ester se desfez de tudo que tinha para ajudar seus irmãos e passou a ajudar sua mãe na sorveteria, administrando o negócio. As idas e vindas na vida de Ester não pararam por aí. Casou-se e no período das três gestações que teve sua vida passou por altos e baixos. Em cada gestação Ester tinha severas crises de enjoos por no mínimo quatro meses, na primeira gestação, não conseguiu mais trabalhar na sorveteria e, antes da criança nascer, o negócio foi a ruína sem a sua administração. Desta mesma forma, ocorreu cada vez que ficava gestante, passou da bonança a pobreza. Após a segunda gestação, no segundo mês de resguardo, começou novamente a costurar e seu esposo conseguiu um emprego de vigia em um prédio. Quando tudo estava prosperando e Ester já tinha sete costureiras trabalhando para ela, veio a terceira gestação e ela desfez-se de tudo novamente. Após esse período, voltou a fabricar para si e não parou mais. Sua carteira foi assinada por sua irmã e quando administrava a sorveteria. Pedro relata que até os 18 anos trabalhou na roça com o seu pai. Em seguida, foi para São Paulo e inicialmente trabalhou de servente de pedreiro. Depois trabalhou em uma siderúrgica, assumindo primeiramente a função de ajudante de 98 manutenção e depois de porteiro na mesma empresa. Pediu demissão da empresa pra montar o negócio próprio, que na época foi uma mistura de bar com mercearia, onde vendia cereais, alimentos e bebidas. Em 2004 vendeu o ponto e veio para Fortaleza, onde trabalhou como porteiro em um condomínio e depois passou para uma empresa de manutenção. Depois destes empregos, começou a trabalhar na feira vendendo as mercadorias que sua esposa já fabricava, que eram cuecas. Todos os seus trabalhos foram com carteira assinada. A agricultura também foi o primeiro trabalho de Raul, depois trabalhou em uma mercearia por três anos. Com 18 anos foi para São Paulo e trabalhou na construção civil também pelo período de três anos, em seguida, veio morar em Fortaleza e começou a trabalhar em uma metalúrgica, onde permaneceu por dezessete anos. Saiu da metalúrgica por iniciativa própria, para ajudar sua esposa, na venda dos produtos que ela fabricava, inicia-se a consolidação do pequeno empreendimento na Feira da Madrugada. Exceto o emprego na mercearia, os demais foram com carteira assinada. Caio aos 14 anos começou a trabalhar em uma feira em São Paulo com sua irmã e cunhado, fazendo fretes. Quando retornou para Itapajé, comprou um carro com o dinheiro que havia ganhado e passou a fazer fretes em sua cidade natal. Sua irmã e cunhado vieram morar em Fortaleza e Caio veio tentar a vida na capital. Trabalhou inicialmente em um depósito de bebidas. Em seguida, em uma construtora e por fim na prefeitura como motorista. Caio é o único dos entrevistados que possui duas ocupações, ainda trabalha na prefeitura e também na Feira da Madrugada. Seu incentivo junto à sua esposa para aumentar a renda da casa proporcionou que hoje eles sejam pequenos empreendedores. Exceto seu trabalho na feira em São Paulo, os demais foram de carteira assinada. A primeira ocupação de Vitor foi de feirante na SEASA em Belém/PA, aonde vendia frutas. Com 18 anos começou a trabalhar como cobrador de ônibus, função que exerceu por cinco anos e em seguida três anos de motorista na mesma empresa. Veio para Fortaleza em 1996 e, trabalhou por doze anos na mesma empresa como motorista de ônibus. Decidiu sair assim como Raul para ajudar a esposa na confecção que já prosperava, o trabalho na feira foi uma consequência. Seus trabalhos foram com carteira assinada, exceto o de feirante em Belém. 99 Uma das características dos sujeitos entrevistados de ambos os gêneros é que todos iniciaram suas ocupações laborais ainda na infância ou adolescência, dentro da produção familiar como, por exemplo, a Vera com dez anos, ou fora do âmbito familiar, como a Ester com treze anos que trabalhou como costureira e a Lia, também com treze anos, começou a trabalhar como doméstica. Caio começou aos quatorze anos em São Paulo e, apesar de Raul e Pedro começarem a trabalhar já adultos, com dezoito e dezenove anos respectivamente, na adolescência, trabalharam na agricultura com os seus pais. Vitor começou a trabalhar com dezesseis anos como feirante e, com esta mesma idade, Ana começou a trabalhar em uma fábrica de confecções. Sara iniciou seu trabalho em uma loja como balconista, na época tinha quinze anos. A Raquel, dentre os dez entrevistados, foi a única que iniciou seu percurso laboral já adulta, com dezoito anos. A análise desses dados está relacionada com a condição que a sociedade vive desde o final do século XX até o ano 2014, em que se inscreve o período desta pesquisa. As estratégias que o capitalismo tem instaurado para o aumento da acumulação e sua constante reprodução, sempre acarretaram a degradação humana e, do século XX para o XXI, seu caráter destrutivo, tem potencializado, todas as formas de exploração do trabalhador, como também, a pobreza. A modernidade dos setores econômicos e financeiros anda em paralelo, com constituições de relações de trabalho exploratórias, arcaicas e precárias, como o trabalho infantil, feminino e de imigrantes, que “pareciam relíquias da história”, mas são “reatualizadas” (Netto & Braz, 2012, p.256). O trabalho infantil é uma realidade na Feira da Madrugada, a todo o momento vemos adultos, pais e mães, comercializando algo com seus filhos ainda criança. É o caso de uma mulher que vende água e refrigerante, ela e seu filho de aproximadamente doze anos, passeiam pela feira, cada um com seu isopor oferecendo e vendendo seus produtos. Também é o caso do homem que eu compro lanche toda feira, até o final do ano ele e sua esposa levavam o filho de dez anos para ajudar nas vendas, quando perguntei ao garoto porque ele estava acordado de madrugada na feira, disse-me que não havia com quem fica em casa e por isso seus pais o levavam. Sua mãe estava gestante e trabalhou na feira até o nascimento do 100 bebê e, como ela teve que ficar em casa cuidando do bebê, seu filho pôde ficar com ela em casa e não vai mais para a feira. Outros casos são visíveis no cotidiano de trabalho na Feira da Madrugada, de crianças ou comercializando com seus pais, ou simplesmente ficando na feira por não ter outro local para ficar. A pobreza vivenciada e relatada por alguns dos sujeitos da pesquisa é uma das causas do trabalho infantil, onde as crianças trabalham para ajudar o rendimento familiar. Esta realidade não é comum apenas na feira, em 10 de Junho de 2014, o Jornal O Povo publicou uma matéria relatando que foram identificados 400 casos de trabalho infantil no Ceará em 2013. O número, porém é inferior a realidade devido ao pequeno quantitativo de profissionais para realizar o estudo em todo o Estado, que ocorreu na capital e região metropolitana de Fortaleza. Apesar dos avanços no que diz respeito a promulgação da Constituição Federal Brasileira em 1988 e suas leis complementares na década de 1990, relativas aos direitos sociais e trabalhistas, o Brasil vivenciava um período com baixo crescimento econômico. Sob a ideologia neoliberal de retração da intervenção do Estado social, juntamente com as diretrizes dos organismos internacionais como o Banco Mundial, o país vivencia desde então e até hoje, no século XXI, contenção com os gastos sociais; privatização das empresas estatais; redução salarial, desemprego; pobreza e miséria (SANTOS 2012). O percurso de trabalhos/empregos que os participantes da pesquisa trilharam, demonstra outra dimensão que ocorre na classe trabalhadora que é a instabilidade e a rotatividade no emprego. Esta característica é acentuada a partir da década de 1980, juntamente com a flexibilização das relações de trabalho e consequentemente o aumento do trabalho informal (SANTOS 2012). A informalização é inclusive enaltecida por aqueles que coadunam com a política neoliberal, como sendo uma criatividade do povo brasileiro e uma saída para a pobreza. Neste contexto temos o seguinte relato do, [...] ministro do Trabalho, Edward Amadeo, por exemplo, em um de seus textos, diz o seguinte: “uma pessoa desempregada [...] pode engraxar sapatos em uma estação de trens ou vender maçãs em uma esquina. Se ela não está fazendo nenhuma das duas coisas, está escolhendo não fazer”. Não é um primor de liberalismo? Se existem 101 metalúrgicos desempregados, é porque eles se recusam a vender chicletes no sinal de trânsito (SALM, 1998, p. 20 apud SANTOS, 2012, p. 191). A pobreza fez parte do cotidiano de alguns dos sujeitos participantes desta pesquisa, motivo pelo qual, eles buscaram alguma atividade lucrativa para aumentar o rendimento da família e, mesmo, para não passar fome. A outra característica que é a redução salarial, que levou a maioria dos entrevistados a deixarem seus trabalhos formais para tentar um maior rendimento mensal, sendo um dos motivos de seus ingressos na feira, como também, percebe-se que alguns naturalizam a pobreza em que viviam, como será retratado na fala do Raul mais a frente, e que faz parte do discurso neoliberal citado acima, em que os sujeitos são responsáveis pela situação em que vivem. Estes contextos serão retratados a seguir, de acordo com as falas dos entrevistados. 4.4 Terceira seção: O trabalho na Feira da Madrugada A Feira da Madrugada é o assunto da terceira seção do questionário e possui cinco perguntas. Inicialmente busca-se compreender os motivos que levaram os sujeitos a ingressar na Feira da Madrugada. Depois apreendemos quais os tipos de mercadoria que os sujeitos já comercializaram na feira e se, inicialmente, eram comprados produtos prontos ou já eram fabricados por eles. Em seguida perguntamos sobre as dificuldades encontradas para realizar o trabalho na feira, incluindo a produção das mercadorias e a conquista da clientela. As duas últimas perguntas desta seção informam se possuem empresas registradas e os motivos para o registro ou não de seus empreendimentos e se contribuem para a previdência. A inserção na Feira da Madrugada em Fortaleza para Vera foi um acontecimento natural. Segundo ela, sua família já fazia viagens para outros Estados para vender os produtos fabricados. Com o passar dos anos, o movimento de clientes advindos de outros Estados começou a aumentar em Fortaleza, e a família decidiu parar com as viagens. Vera explica que “com o crescimento de clientes interestaduais as viagens foram ficando desnecessárias, a nossa produção 102 foi crescendo gradativamente, com isso fomos fixando raízes na Feira da madrugada”. O motivo para Vera e seu esposo permanecer trabalhando na feira, apesar de formados em contabilidade, é porque, segundo ela, “trabalhar como contabilista não compensa, o rendimento é muito, muito menor”. Como já explanado anteriormente, sua família sempre produziu o mesmo segmento que é roupa íntima. Vera afirma que não encontra dificuldades para produzir sua mercadoria, é necessário que haja um equilíbrio financeiro, já alcançado por sua família. A clientela foi tornando-se fiel com o passar dos anos, porque é um processo, segundo ela, “não é da noite para o dia, é um pouco demorado, pois temos que trabalhar com qualidade e preço baixo”. Há muito tempo registraram a empresa devido às viagens e clientes em outros Estados, devido à necessidade de emissão de nota fiscal. Apesar de nunca ter assinado sua carteira de trabalho, não se descuidou de sua aposentadoria, hoje, toda a família contribui com a previdência privada. A Vera é a única dos sujeitos entrevistados que produz para dois públicosalvo: masculino e feminino. Sua produção é voltada principalmente para camisolas e babydolls, adulto e infantil e tem uma menor escala produtiva para os pijamas masculinos infantis. Explica que a produção de pijamas masculinos infantis veio com o passar dos anos para atender ao pedido de clientes e permanece na linha de produção. A Lia trabalhava com seu namorado (atual esposo) em uma confecção; ela como vendedora da loja de fábrica e ele, como motorista. Devido as insatisfações no trabalho por parte de seu companheiro, decidiram sair da empresa e começar a fabricar roupas femininas, montando o próprio negócio. Souberam da existência da feira e quando começaram a produzir já foram procurar uma banca para comprar. Fizeram um empréstimo de dois mil reais, que ajudou a iniciar a produção. Ele saiu primeiro para dar início ao processo e ela permaneceu na empresa para ter um salário certo, eles estavam ainda iniciando o negócio e o rendimento era incerto. Os motivos que levaram Lia e seu companheiro a sair do emprego formal para o informal, segundo ela, “seria criar o próprio horário de trabalho, na verdade eu busquei a feira para ter nossa independência”. 103 Inicialmente a produção era realizada toda terceirizada, eles compraram o tecido e encomendaram a modelagem, o corte do tecido e a costura era tudo por fora. Com o tempo ele começou a cortar e achamos melhor colocar as costureiras em casa porque acharam mais econômico do que a terceirização. A legalização da empresa ocorreu quando contratou as costureiras para trabalhar em casa, evitando problemas futuros. O registro serviu para outras coisas como abertura de crédito como pessoa jurídica, facilidade em realizar compras por ter um CNPJ e poder emitir notas fiscais, agora que possuem clientes de outros Estados. A firma é aberta no nome dele e a carteira da Lia foi assinada por sugestão do contador. Lia produz blusas femininas em modelos e tecidos variados, que acabam por ter preços diferenciados, tentando segundo ela, atrair vários tipos de clientes. Sara ingressou na Feira da madrugada após uma sociedade numa loja de confecção com suas cunhadas não ter dado certo. A loja situava-se em frente ao Iguatemi e era muito sofisticada. Seu esposo, juntamente com seus cunhados, montaram a loja para as esposas. Segundo ela, trabalhar com roupas tornou-se sua paixão. Sara explica que mesmo seu esposo tendo perdido muito dinheiro com a sociedade, ajudou-a comprando dela, o consórcio de uma moto que ela havia pago, o rendimento foi a quantia de cinco mil reais. Deste valor, guardou dois mil reais e com o restante, comprou tecido e começou a produzir roupas femininas, sua produção era terceirizada. Em um ano de produção, Sara afirma que só de lucro juntou mais de dez mil reais, fora o dinheiro investido em mercadorias. Montar uma loja para Sara foi uma consequência natural. Inicialmente ela vendia de porta em porta, mas com o aumento do investimento e da produção, tornou-se necessário abrir a loja. A primeira loja não foi na feira e o ponto não prosperou, foi quando soube da Feira da Madrugada. Com a economia que ela havia feito, deu entrada num box e parcelou o restante para pagar com o lucro das vendas. Hoje após um ano de seu ingresso na feira, o ponto está quitado e uma vendedora toma conta e, já começou a pagar outro, onde a Sara fica trabalhando. Como não sabe costurar, a dificuldade que encontra para produzir suas peças, é conseguir costureiras que confeccionem com qualidade, mas já possui um grupo que atende suas expectativas. Registrou sua empresa especialmente para facilitar as compras, para Sara, quem tem CNPJ tem mais facilidade de acesso, 104 principalmente para compras em outro Estado, como ela realiza. Contribui com a previdência através da sua empresa. A Sara produz para o público feminino adulto e, diferentemente dos demais sujeitos da pesquisa, sua produção de modelos é bem diversificada. De acordo com o discurso dela, desde que começou a fabricar, já foi produzindo mercadorias diversificadas, porque incialmente sua produção era vendida de porta em porta. Assim, para ela, a cliente que lhe comprasse poderia adquirir o look completo de uma só vez. Mantendo essa característica inicial, hoje produz saias, blusas, calças e shorts femininos. Os motivos explanados por Sara para o seu ingresso na Feira da Madrugada é que ela queria ter o próprio negócio e dar uma vida melhor para a filha. Apesar de não precisar ajudar em casa porque seu esposo cobre todas as despesas, ela queria ter um bom rendimento próprio para dar a filha uma vida melhor que a sua, da infância sofrida na favela e para ajudar a sua mãe. A realização do sonho de Ana, de colocar o próprio negócio, teve início quando pediu demissão da fábrica de jeans onde trabalhava. Com o dinheiro da rescisão e a ajuda de sua ex-patroa, comprou jeans para começar seu pequeno empreendimento. Sua produção foi toda terceirizada, ficando com a parte do acabamento, embalagem e etiquetagem da mercadoria. Porém, o investimento tinha que ser muito alto para confeccionar em jeans, acabou mudando para a confecção de camisetas femininas. Ficou sabendo da Feira da Madrugada e alugou uma banca para trabalhar. Com o tempo, o dono da banca voltou a trabalhar na feira e ela teve que sair. Seu esposo é funcionário público e possui uma equilibrada situação financeira, comprou e deu de presente, uma banca para Ana na feira. Ana produz para o segmento adulto e infantil, seu público alvo é o gênero feminino. De acordo com ela, sua produção inicialmente era de camisetas regatas feminina. Com o passar do tempo ela percebeu que estava perdendo dinheiro com as sobras de tecido e passou a fabricar roupas infantis femininas, em menor escala que as camisetas. Decidiu registrar a firma quando precisou enviar mercadoria para outro Estado, necessitando emitir nota fiscal. Ana explicou que seu sofrimento na juventude por falta de dinheiro e comida a motivou para ter seu próprio negócio, buscando uma melhor qualidade de vida. Trabalhar inicialmente na informalidade 105 não era problema para ela, mas agora, está satisfeita por ter a firma registrada e contribuir para a sua aposentadoria. Raquel afirma que não queria ter que chegar a sua idade batendo ponto em uma empresa. Esse é o principal motivo para seu ingresso na Feira da Madrugada, principalmente porque, já havia ao longo de sua vida laboral, economizado e investido o suficiente para não precisar trabalhar hoje, mas continua na feira porque não gosta de ficar parada, e mesmo a feira funcionando na quinta e domingo, ela só trabalha aos domingos. Raquel não sabe costurar e sua produção é toda terceirizada: compra os tecidos, faz o corte e envia para as facções. As costureiras, para ela, são o maior problema para quem fabrica. Encontrar pessoas que confeccionem com qualidade e entreguem em tempo hábil são dificuldades bem presentes. A Raquel já produziu outros tipos de confecção, mas há alguns anos se deteve na produção de blusas femininas para o público adulto e segue o mesmo estilo de produção da Lia: modelos, tecidos e preços variados, buscando atender a uma clientela mais diversificada. Há um tempo, Raquel registrou uma firma que atualmente está inativa, não pretende mais registrar outra ou abrir a que está fechada. Continua com a sua contribuição mensal para a previdência. Antes de trabalhar na Feira da Madrugada, Raquel trabalhou novamente na aviação, porém, os ganhos foram satisfatórios, as condições de trabalho e remuneração não se repetiram como outrora. Nesse contexto, além da liberdade, outro motivo para seu ingresso na feira foi o rendimento que o trabalho informal lhe proporcionaria, que foi e está sendo maior que o anterior trabalho formal. Ester trabalhou um período por conta própria como faccionista e em diversas empresas e na sorveteria de sua mãe. Só após a terceira gestação foi que ela passou a produzir as peças para ela mesma vender e não apenas costurar para os outros, não parou desde então. Empreendedorismo segundo Ester, é a sua principal característica, e ter o próprio negócio sempre foi o seu desejo. Inicialmente, vendia a sua produção na feira da Praça José de Alencar no horário de meio dia às quatorze horas e no Beco da Poeira. Nesse período, sua produção era vendida quase toda para pessoas que trabalhavam nesses locais revenderem, ou seja, para atravessadores, diminuindo bastante o seu lucro. O motivo principal, que a levou a 106 trabalhar na Feira da Madrugada, foi para vender seus produtos diretamente aos sacoleiros, aumentando o seu lucro, também pesaram a liberdade e o rendimento possibilitado pelo negócio próprio, assim, resolveu fazer um teste. Foi conquistando os clientes e em pouco tempo não dava conta de produzir sozinha, suas vendas aumentaram bastante, tendo que terceirizar sua produção. De acordo com Ester, “pra quem trabalhava para os outros, trabalhava numa confecção de costureira, aquilo ali, no dia em que eu ganhei mil reais numa feira, aí eu disse, esse negócio aqui é bom, depois então, comecei a vender muito mais”. Ester começou produzindo de acordo com a moda de cada período, primeiro foram os shorts em cetim, macaquinhos de malha, vestidinhos em malha modal e hoje, produz vestidos em modelos variados e sempre em um mesmo tipo de tecido que é uma malha chamada de Liganete. Decidiu fabricar apenas os vestidos porque é uma mercadoria que sempre vende, independente da moda. Nunca teve problemas para produzir suas mercadorias. Ester sabe cortar e costurar, facilitando todo o processo, inclusive para ensinar, quando necessário, as faccionistas na produção. Houve um tempo em que Ester, que possui empresa registrada, tinha costureiras trabalhando em casa, todas com carteira assinada, porém, em 2012 ela passou dois meses doente sem poder administrar o negócio. Seu esposo tomou a frente e, associando a má administração e um roubo no valor de dez mil reais, Ester viu seu mundo ruir. Perdeu o crédito nos bancos, desfez-se de bancas de sua propriedade no interior para pagar dívidas, demitiu suas costureiras e trabalha no vermelho até hoje. Registrou a empresa inicialmente para conseguir linha de crédito em bancos, trabalhar com talão de cheques e a facilidade de compras através do CNPJ, serviu posteriormente para contribuição na previdência e para registrar suas funcionárias, motivo de orgulho para Ester. Relata que voltar a dimensão de produção que vinha tendo, dará um trabalho e demandará tempo, mas que assim como em outras ocasiões, dará a volta por cima. Em suas palavras Ester expressa sua esperança no futuro, “Está com dois anos que aconteceu isso, foi um choque para aquele padrão que eu estava. Hoje estou com o nome sujo no SPC, no SERASA, fiz acordo de até trinta e seis meses, estou dizendo que o meu volume era grande aqui, mas estou pagando tudinho aos poucos, ainda este ano vou quitar muitas dívidas. Até hoje estou passando dificuldade, por causa da crise e do dinheiro que o ladrão 107 levou, a diferença hoje? O capital de giro que eu não tenho mais e nem crédito, porque se eu tiver mercadoria eu vendo, aqui ou no interior, eu pego essa mercadoria e em pouco tempo estou com tudo em pé de novo”. Raul explica que gostava muito do trabalho na metalúrgica, na qual ficou por dezessete anos, diz não ter se sofrido pressões no trabalho, fazia cursos de aperfeiçoamento, recebia em dia e tinha benefícios, dentre eles o plano de saúde. O motivo para pedir demissão e trabalhar na Feira da Madrugada ajudando sua esposa, é que no seu trabalho, a produção havia diminuído e consequentemente alguns benefícios e, como a produção e venda das mercadorias de sua esposa estavam crescendo, optou por sair do emprego formal. Nesse período de discussão sobre o que seria melhor para o casal, souberam da Feira da Madrugada e resolveram fazer um teste, as vendas e o lucro foram bons, tirando as dúvidas que restavam. Acabaram registrando a empresa porque a SEFAZ fazia rondas na Praça da Sé e quem não tivesse nota fiscal a mercadoria era apreendida. O registro também traria benefícios como crédito, facilidade de compras e a contribuição para a previdência. Não tiveram problemas para a produção porque sua esposa sabe cortar, fazer modelagem e costurar, uma parte da produção é feita em casa e outra terceirizada. Raul ajuda a vender na feira, comprar o material, embalar as mercadorias e colocar as etiquetas. Raul produz exclusivamente para o público alvo feminino infantil. Sua produção se detém em modelos variados de vestidos e possui dois tipos específicos. Alguns modelos fabricados se destinam aos vestidos de festas, utilizados geralmente em aniversários e ou para daminhas de honra em casamentos, Os outros tipos de vestidos são para ocasiões casuais, também em modelos diversificados. O discurso do Raul é de que eles procuraram produzir um tipo de mercadoria pouco fabricada na feira, e que acabou dando certo os tipos de vestidos que eles fabricam. O Vitor foi outro entrevistado que pediu demissão da empresa de transporte urbano onde ele trabalhava, de motorista de ônibus, para ajudar a esposa na confecção. Os motivos que ele coloca para sair do emprego formal e ir para o informal, tem haver com as condições de trabalho, segundo suas palavras, 108 “A gente era obrigado a barrar um velho, barrar uma criança que passava da catraca, a gente era obrigado se tivesse um fiscal, eu saí mais por isso. Eu não tinha capacidade de tá discutindo com uma pessoa idosa por, tá barrando ela, um deficiente, eles queriam que a gente barrasse um deficiente, aí eu não tinha coragem. Aí eles começaram a colocar câmeras nos carros, tudo eles viam né? Esse foi o motivo principal para eu sair e eu já estava fabricando né, ajudou muito, porque se eu não tivesse outra renda eu ia ter que continuar lá, eu era obrigado, tinha família para sustentar. Como eu já tinha falado a minha esposa começou a fabricar e deu certo né, e consequentemente eu ajudei ela. Não pensei em salário fixo, essas coisas de direitos, eu arrisquei, eu era novo, podia fazer outra coisa se esse não desse certo. Outro motivo e não menos importante foi a queda do rendimento salarial, de acordo com Vitor, desde quando ele começou a trabalhar em 1996 no transporte urbano como motorista. Relata que hoje, “é o rico cada vez mais rico e o pobre cada vez mais pobre. A defasagem foi grande demais. A gente ganhava cinco salários mínimos e quando eu saí, recebia dois e meio, defasagem em mais da metade. E o motorista tem muita responsabilidade, a gente passa por cada uma que só quem já trabalhou e trabalha é que sabe, as situações que a gente vive”. Vitor produz gola polo adulto. Apesar de ser um único tipo de mercadoria, diversifica as cores e alguns detalhes. Inicialmente sua esposa já fabricava blusas femininas, mas a rotatividade da moda exigia uma rotatividade de modelos e tecidos diferentes, por isso, optaram por fabricar gola polo porque não há muitas alterações. Registrou a empresa devido a facilidade de compras de tecido em outros Estados, como Santa Catarina e São Paulo, que às vezes tem um melhor preço e, uma empresa grande em Fortaleza, só vende para pessoa jurídica. Registrou também a sua marca, Corte Fino, com receio que alguém falsificasse seus produtos que já são comercializados em outros Estados e em várias cidades do Ceará. Está sem contribuir com a previdência desde 2008, mas pretende retomar as contribuições. Para Caio, não houve a necessidade de sair de seu emprego de motorista na prefeitura, principalmente porque é um emprego em que ele terá condição de se aposentar, faltam poucos anos e porque não trabalha o dia inteiro, podendo ajudar a esposa na produção da mercadoria e inclusive, vendendo na feira. Quinta-feira, antes de ir para a prefeitura, ele vai com a esposa, arruma a mercadoria na banca e ajuda a vender até a hora de ir para o trabalho. Seu salário de motorista não é suficiente para manter a família e, sempre, sua esposa ajudou vendendo alguma 109 coisa, ou costurando para fora, até que souberam da Feira da Madrugada e, incentivada por ele, sua esposa começou o negócio próprio. O motivo para o seu trabalho na Feira da Madrugada é para aumentar o rendimento, porque anteriormente à feira, eles vendiam seus produtos para revendedores no Beco da Poeira e o lucro era pequeno, pois eles não vendiam à vista. Na feira o lucro é maior, as peças são vendidas em dinheiro e para os clientes revenderem em suas lojas ou em suas cidades. Decidiram não registrar a empresa porque pensavam em colocar o negócio em outro local, mas acabaram se fixando na feira e não deram continuidade a ideia do registro. Caio faz as compras de material, prepara o tecido para o corte, administra as contas e leva o corte para as facções. Não tiveram dificuldades para produzir porque sua esposa sabia modelar, cortar e costurar. Hoje, segundo Caio, dividem a produção com as facções. O segmento infantil feminino foi uma tendência natural por causa de suas filhas pequenas. Eles produzem hoje conjuntos de camisetas com shorts e saias. Este ano incluíram na produção arranjos de cabelo e essa ideia está fazendo sucesso. Pedro relata que ficou desempregado no mesmo período em que seu cunhado, que trabalhava na Feira da Madrugada, desistiu do negócio. Sua esposa e sogra já fabricavam cuecas para o seu cunhado vender e enquanto Pedro recebia o seguro-desemprego, ficou trabalhando na feira vendendo as cuecas. Inicialmente pensava em procurar emprego novamente quando terminassem as parcelas do seguro, mas as vendas estavam equiparando o rendimento dele no trabalho e por isso, acabou acomodando-se na feira. Sua inserção nela não foi planejada, porém, acabou participando do processo de produção e hoje, compra o material, prepara o tecido e realiza o corte e trabalha na feira. Pedro produz cuecas adulto e infantil em dois modelos, cueca box e cueca comum. Diz que não houve dificuldades para a esposa modelar e produzir as peças, que hoje são costuradas por ela, sua sogra e uma cunhada. Não possui empresa registrada e não contribui com a previdência, e relata que o lucro é tão pequeno que não dá para ter outras despesas. Pretende ainda pagar a previdência, lembrando que no futuro, na época de se aposentar, vai fazer falta. 110 Os discursos dos sujeitos da pesquisa revelam que a maioria saiu de seus empregos formais e migraram por iniciativa própria para o mercado informal de trabalho, como pequenos produtores de confecção. Entre os motivos principais estão a liberdade, a redução salarial que sofreram em seus empregos formais e a possibilidade do aumento de suas rendas mensais. Alguns dos sujeitos formalizaram suas pequenas empresas e outros permanecem na informalidade. De acordo com as necessidades como compras de tecido e envio de mercadorias para clientes em outros Estados, houve a necessidade de formalizar suas empresas para emitir nota fiscal ou devido à facilidade de compras para aqueles que possuem o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ). Este cadastro também possibilita uma maior abertura de crédito em bancos, como também, retirada de talões de cheque e facilidade de cadastros nas empresas locais para realizar compras. Alguns aproveitam para pagar a previdência neste contexto e, para assinar a carteira de suas costureiras, no caso da Lia, como já foi citado. A redução salarial demonstrada no discurso de alguns sujeitos é uma das consequências da ideologia neoliberal que exige a contenção dos salários, precarizando a classe trabalhadora. O aumento do desemprego, a flexibilidade nas condições e relações de trabalho são outras características da política neoliberal. Agravando este processo de precarização temos a dívida pública, que aliada à redistribuição de renda desigual e uma pequena tributação das rendas mais altas, ação promovida no campo da política, o percentual maior da carga tributária é cobrada dos trabalhadores (IAMAMOTO 2009). Somam-se a estas características neoliberais contra o trabalho, novas formas de gestão que acarretam na diminuição da mão-de-obra, aumento da produção e da intensidade do trabalho sem acréscimo salarial e a flexibilização do trabalho, aumentando os contratos temporários, subcontratados, precários, como também, o trabalho informal. As ofensivas neoliberais acarretam no aumento da pobreza, do desemprego e da rotatividade da mão-de-obra, assim como, a expansão do trabalho desregulado, destituído dos direitos trabalhistas (IAMAMOTO 2009). O quesito liberdade é colocado sob dois aspectos pelos feirantes: independência financeira com maior rendimento advindo do negócio próprio, 111 caracterizando a não dependência de outrem e, a liberdade de horário no sentido de não bater ponto e de não receber ordens. Todos são conscientes de suas responsabilidades como a qualidade dos produtos que comercializam, tais como contas a pagar, pagamento de funcionários ou facção, acordar de madrugada para trabalhar, incerteza do rendimento mensal devido a oscilação do comércio. O domingo, que é dia de feira, mostra-se um problema para alguns como veremos no próximo tópico, etc. Com exceção do feirante Pedro, os demais, independente das dificuldades e problemas enfrentados ao longo do trabalho na Feira da Madrugada, não cogitam a possibilidade de retornar a um emprego formal. Os dados levantados no Brasil pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) entre 1995 e 2003 revelam que o desemprego, de acordo com os parâmetros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), teve um aumento neste período de 6,2% para 10%. Neste período o trabalho informal teve um decréscimo de 47,2% em 2002 para 45,5% em 2003, totalizando aproximadamente 40,6 milhões de trabalhadores no mercado informal de trabalho. Neste contexto, uma média de 58 a cada 100 trabalhadores não contribui com a previdência social, e 20,4 milhões não possuem rendimentos ou o mesmo é menor que um salário mínimo (BEHRING & BOSCHETTI 2011). O Brasil encontra-se na seguinte situação até 2003, [...] 1,7 milhão de brasileiros ricos, ou seja, 1% da população, se apropria da mesma soma de rendimentos familiares distribuída entre outros 86,5 milhões de pessoas (50% da população); 53,9 milhões de brasileiros (31,7% da população) sobrevivem com menos de R$ 160,00 mensais e são considerados pobres; e 21,9 milhões de brasileiros (12,9% da população) são indigentes, ou seja, possuem uma renda familiar per capita inferior a ¼ do salário mínimo (BEHRING & BOSCHETTI, 2011, p. 185). Os dados comprovam que a pobreza, o desemprego e a informalização do mercado de trabalho são um fato. A redução salarial também é discutida por outros autores e é comprovada sua incidência não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Mesmo no período dos anos de ouro do capital, a pobreza absoluta e as desigualdades sociais nunca foram extintas, apenas atenuadas neste período. O resultado positivo dos anos dourados foi o surgimento e a implementação de políticas que possuem caráter redistributivo e universais, pois havia neste período a intencionalidade de estabelecer um padrão de igualdade, porém, sob o sistema capitalista não é viável (BEHRING & BOSCHETTI 2011). Assim, a classe 112 trabalhadora acaba tendo seus direitos retraídos, quando não destituídos deles, e uma multidão vive na miséria. Todo esse processo contra o trabalho é maiormente incidido em países tidos como periféricos, que é o caso do Brasil, onde a acumulação do período taylorista/fordista, o estatuto salarial, a segurança e pleno emprego, dentre outras características nunca se concretizou como nos países centrais (CONSERVA & ARAÚJO 2008). Apesar de tudo, os sujeitos da pesquisa em seus percursos de vida e trabalho, buscaram tornar realidade uma qualidade de vida que não encontraram nos postos de trabalho, inserindo-se no mercado informal da economia. 4.5 Quarta seção: Conceitos e representações A quarta e última seção busca a compreensão dos conceitos e representações que esses sujeitos possuem sobre o trabalho na Feira da Madrugada e sua condição enquanto trabalhador no setor informal da economia, perfazendo três questões. A percepção sobre o trabalho na feira, relacionando com os motivos que os levaram a esse campo de trabalho é a primeira pergunta desta seção. Esclarecido este fato, questiona-se o que mudou na vida dos sujeitos após o ingresso na feira, levando em conta o âmbito econômico e social. Por fim, buscamos compreender a percepção dos sujeitos, quanto às estratégias, que poderiam vir a melhorar as suas condições de trabalho como feirantes, advindas dos administradores dos locais de trabalho e pelo Governo. 4.5.1 Percepção sobre o trabalho na feira e tempo livre Entre os dez entrevistados, o único que não relatou uma melhora nas condições de vida e trabalho foi o Pedro. Entre as suas reclamações encontra-se, insatisfação com o rendimento, que não superou o valor que recebia em seu antigo emprego, somado ao rendimento da sua esposa, ou seja, seu salário anterior, 113 somado com o lucro que sua esposa tinha com a produção de cuecas, é o mesmo que eles conseguem hoje, vendendo sua produção na Feira da Madrugada, já que o lucro não é mais dividido com o seu cunhado como antigamente. Mas com relação a qualidade de vida, ele relata que não alterou quase nada. Pedro também é o único que fala em voltar ao trabalho formal. Como argumentos, ele cita o salário fixo, porque na feira o rendimento é incerto a cada mês, como também a questão relacionada aos direitos trabalhistas, tendo como foco a aposentadoria. Outra comparação que Pedro faz do trabalho formal com o informal e que, o faz pensar em voltar a trabalhar para uma empresa, é que, segundo suas palavras, “É uma coisa diferente do trabalho registrado, que todo mês você tem aquele salário fixo, na feira não, tem vez que dá mais, tem vez que dá menos, então eu não aconselho ninguém a fazer isso não, o melhor é arrumar trabalho registrado mesmo, é melhor do que feira. Eu sinto muito a falta de folga também, a gente trabalha em feira, a gente não tem final de semana. Final de semana é pra você ter lazer, ou mesmo ficar em casa, mas não, final de semana é enfiado na feira. Sexta e sábado você tem que preparar tudo, as peças pra trazer e na madrugada de sábado para o domingo tem que vir vender, aí o final de semana vai pro bebeléu. Eu já pensei muitas vezes nisso aí, também mais por causa disso, é desgastante. Nos outros empregos eu folgava sábado e domingo né, pegar um serviço em horário comercial, das sete as dezessete horas, sábado e domingo você tá livre, feriado, tudo, e aqui não tem isso não”. Além de Pedro, Caio, Raquel e Vitor reclamam do final de semana, da falta de tempo e das responsabilidades. A diferença é que os três últimos, não se arrependem do trabalho na Feira da Madrugada e não têm pretensão de saírem de lá. Caio explica que o domingo é o melhor dia para a vida social, encontrar-se com os amigos e família, inclusive para ir à igreja. Geralmente, ele e sua esposa desmarcam compromisso neste dia devido ao cansaço. Mesmo colocando algumas características ruins relacionadas ao trabalho na feira, como o fato de acordar de madrugada, o perigo maior de assalto por ser um horário propício a violência e a estrutura precária da feira, Caio não aborda em nenhum momento, sair dela. Muito pelo contrário, através do trabalho na feira foi que sua família melhorou a qualidade de vida. Ele expõe que, “Economicamente é claro que eu tenho o meu trabalho, mas esse da feira é uma grande ajuda, aquela parte que eu ganho com meu 114 emprego ela fica como se fosse uma base, por exemplo, pagar a faculdade da minha filha, uma prestação de um carro, porque é uma coisa segura né? A feira é um complemento de salário bem bom, que eu posso dividir, dando um salário para a minha esposa e o resto pra que a gente possa usufruir dele, no meu caso, estou construindo uma casa na Caucaia, se eu tivesse só com o meu salário, não daria pra construir. Então pra mim, pra minha esposa e família é muito importante. Compramos um carro novo, com ar-condicionado, isso não é luxo, é necessidade, sair de madrugada com um carro velho e com os vidros abertos? É uma questão de segurança. Tudo isso aí é o lado bom” (Caio). Para Raquel, o final de semana tem muita importância também devido a família e amigos. Ela afirma que possui condições financeiras para viver sem precisar trabalhar na Feira da Madrugada, e que faz o seu trabalho porque gosta. Indo apenas aos domingos para a feira, declara que, “como eu já havia construído uma vida econômica estável antes do trabalho na feira, o que mais mudou quando fui trabalhar lá, foi na vida social, do lazer, de eu ter a minha vida social, de sair, de dá mais atenção, porque o final de semana é tudo, pra você compartilhar com a família e com amigos, de você sair. O que me deixou mais balançando um pouquinho, foi a questão do final de semana, da vida social, da sociabilidade com as pessoas. Mas, quando eu chego da feira no domingo, eu não consigo dormir, então dá pra sair, vou pra casa da minha mãe, vou sair pra um restaurante pra comer alguma coisa com a minha família, meus irmãos e sobrinhos, vou fazer uma visita, ainda dá, porque eu não consigo dormir de jeito nenhum”. Quando Vitor começou a trabalhar na Praça da Sé, a Feira da Madrugada funcionava na madrugada na quinta e de segunda. Ele diz que era bom porque ficava com o domingo livre, porque ele não gostava, quando motorista de ônibus, de ter que trabalhar aos domingos às vezes. Mas a condição econômica compensa os demais problemas, como a falta de tempo e o trabalho que dá administrar e controlar o próprio negócio, com as contas para pagar e não deixar faltar mercadoria, e relata, “Lazer mesmo é complicado pra feirante, só se você mesmo tirar um sábado forçado, porque no domingo você não tem condição de ter um lazer, você tem que estar na feira trabalhando, é complicado. Mas é diferente sair de madrugada pra trabalhar, mas é pra você, você vai mais confiante do que trabalhar pros outros. Consequentemente o resto do dia você não tem aquele compromisso de estar cumprindo horário certinho. Você tem que trabalhar pra cumprir os compromissos, você não tem aquela obrigação, trabalha mais a vontade. Quando trabalhava de motorista, as condições eram muito menores, não existia a possibilidade de ir a um restaurante com a família, não tinha o hábito também, nem me lembro de ter ido a um restaurante com a família quando eu trabalhava de motorista. Hoje a coisa que a gente mais faz de lazer é ir para um restaurante à noite, quando tem tempo né? Sábado e domingo à noite, ou quando quer pegar uma lagoa assim, num sábado ou no meio da semana mesmo que está mais folgado, fecha a casa e vamos pro lazer”. 115 Vera afirma que não trabalha na feira por falta de opção de emprego, mas porque seu negócio é promissor. Sua formação em Ciências Contábeis não lhe trará um rendimento equivalente ao da feira e, portanto, não pensa em deixar esse trabalho. Economicamente sua família conquistou ao longo dos anos uma estabilidade, e completa, “financeiramente todos da minha família vivem bem, todos conquistaram realizações pessoais”. O lazer faz parte de sua vida, em momentos oportunos. Lia expõe que o trabalho na Feira da Madrugada significa muita coisa para sua vida, trouxe-lhe o que esperava, em se tratando de independência e liberdade, declara que, “Pra mim foi uma benção, eu me sinto totalmente independente, eu gosto muito da feira, se um dia eu sair dali é porque Deus quer, mas eu gosto. Conquistamos muita coisa através da feira, temos quatro bancas, compramos um carro, investimos em máquinas de costura, material. Pra mim significa muita coisa, porque eu construí, eu suei”. Raul ao falar da sua condição enquanto trabalhador na feira da madrugada, expressa que está ali por opção, e não se arrepende. Sua vida hoje melhorou muito se comparada com o período anterior a feira. Nesse sentido, relata que “Nossa casa era pequena, aumentamos e construímos em cima, arrumamos tudo, compramos máquinas novas. Um carro nosso foi roubado na feira, mas compramos outro. Passamos a viajar mais, antes a condição não dava pra ir os dois, podemos visitar nossas famílias que são da mesma cidade. Antes vivíamos só com o básico, até a alimentação era básica, mas agora melhorou bastante. Hoje tudo é mais fácil, se fosse depender só do trabalho, não teríamos construído esse novo padrão de vida. Também tem a realização de termos o próprio negócio e ter prosperado, fico pensando nas pessoas miseráveis, no lugar que morávamos, não tinham muita oportunidade e quando a pessoa quer, ela consegue. Não me sinto uma pessoa injustiçada, a pessoas é que tem que correr atrás, tem que se esforçar”. Para Ana, a liberdade e independência financeira são sonhos de quem já passou por dificuldades na vida. No caso, dela e de sua família. Lamenta não ter tido apoio para estudar, fazer uma faculdade e quem sabe, passar em um concurso, assim como o seu esposo. Está feliz hoje em dia, porque alcançou a liberdade e independência, mudando muitas coisas para melhor em sua vida. Ela expõe que “Você tendo o seu próprio negócio você faz os seus horários. As vezes tem um feriado que você quer viajar com a família e se você trabalhar numa empresa nem sempre você vai poder sair, aí o salário já é pouco e você ainda for perder um dia de trabalho, quando chegar 116 no final do mês... Não que eu ganhe muito dinheiro em uma confecção como a minha né, tem gente que ganha muito dinheiro, mas depende do produto. Dentro de casa eu não ajudo com nada, meu esposo banca tudo, eu trabalho hoje pra manter a vida da minha mãe, pagar o seu aluguel. Ela já teve câncer, tem que ter uma pessoa direto pra cuidar dela. Pra quem não tinha nem o que comer, ou o dinheiro para uma passagem de ônibus, eu estou muito bem, tenho meu carro, passeio com a minha filha, mantenho a vida da minha mãe desde o aluguel de sua casa e sou independente”. Para Sara, seu trabalho na feira tem importância em sua vida porque significa sua independência, lhe proporciona um novo nível social, totalmente diferente da favela em que cresceu, é a questão de ter o próprio negócio e ter uma qualidade de vida melhor através dele. Acrescenta ainda que “A minha filha hoje estuda num colégio melhor que quando ela começou a estudar, ela vai de transporte escolar, tem toda uma estrutura. Eu não podia sair pra passear como hoje eu levo ela pra passear, como hoje eu compro uma roupa melhor no shopping, eu não podia dar o que eu dou hoje pra ela. Mudou muita coisa, porque hoje eu sou uma pessoa totalmente independente, não dependo do meu marido, posso dar coisas melhores pra minha filha”. Liberdade e independência para Ester também são qualidades que ela encontra no seu empreendimento, ela diz que não gosta de ficar parada em um lugar, com uma pessoa dando ordens. Ela gosta de movimento e, ter o próprio negócio é o caminho. Desde quando passou a produzir as peças para comercializar para si e não mais para os outros, sua vida prosperou bastante. Hoje seu rendimento não é o mesmo em parte por causa da concorrência e de outra parte por causa da crise que vive já há dois anos, explicado anteriormente e reitera, “Eu tenho espírito empreendedor, eu não me entrego e eu sei que vou vencer, é porque agora eu estou no vermelho, o que eu tinha conquistado, bancas, maquinários, crédito no comércio e outras coisas, eu tive que vender pra limpar o meu nome, só não vendi o carro. Pra você ser feliz você tem que ter o mínimo de preocupação na cabeça, eu me sinto triste porque eu nunca fiquei devendo nada a ninguém, se hoje estou assim é porque estou passando uma crise. Eu quero deixar os meus filhos bem encaminhados, para eles não passarem o que eu passei de dificuldade. Morei em casa de taipa, com madeira e barro, eu não quero que eles passem por dificuldades. Quando nossa vida mudou para melhor, na época em que a gente vendia muito, o lazer era ir pra praia com meus filhos, sair pra comer, ainda hoje, quando dá vontade pego o carro, coloco eles dentro e vou passear, a gente precisa né”. Levando em conta que a exclusão e a miséria no Brasil têm entre suas causas o desemprego e os baixos níveis salariais, devemos ter cuidado ao estudar o trabalho informal como sendo uma “opção” de alguns dos sujeitos que neles se 117 inserem e com relação à liberdade que os mesmos apregoam, que na realidade é apenas relativa. Certamente também não se devem excluir os significados de liberdade e a busca por uma melhor qualidade de vida, que fizeram a maioria dos sujeitos da pesquisa ingressar no trabalho informal e, que estão impressos nas práticas sociais, singulares, heterogêneas e suas diferentes representações. É importante estudar este fenômeno em situações concretas, ou seja, dentro de um cotidiano histórico preciso, evitando generalizações (CONSERVA & ARAÚJO 2008). A liberdade e melhores condições de vida que a maioria dos sujeitos da pesquisa, em suas palavras, relatam terem alcançado, só é possível no seu cotidiano produtivo, ao reproduzir a exploração do sistema capitalista, aos trabalhadores que compõem seus respectivos processos produtivos, e que é a mesma exploração da qual eles buscaram superar em suas vidas. 4.5.2 Percepção sobre as estratégias para melhorar a condição de trabalho na feira por parte dos administradores locais e pelo Governo Quanto ao que poderia ser feito para melhorar a sua condição de feirante, Pedro explica que o ideal seria se os administradores do galpão em que trabalha abrissem o local todos os dias, e não só quinta e domingo, que são os dias que as excursões com compradores chegam, acreditando que se vendesse bem na semana, não precisaria trabalhar aos domingos. Pedro é o único entre os dez sujeitos pesquisados que tem esta perspectiva do trabalho formal e informal, e que dá como solução básica para os seus problemas, trabalhar de segunda a sábado para poder folgar aos domingos. O Governo para ele, não tem como fazer nada para melhorar sua vida de feirante. Pedro e Vera, dentre os dez entrevistados, são os únicos que parecem não se incomodar com a feira que acontece fora dos galpões, a feira da rua, que toma a extensão da Rua José Avelino e da Rua Alberto Nepomuceno até a praça da Sé. Para os demais sujeitos da pesquisa, a feira fora dos galpões atrapalha suas vendas. Algumas mercadorias, as vezes são vendidas com um valor inferior, com 118 tecidos e acabamentos de baixa qualidade, comparados aos que são vendidos dentro dos galpões, gerando uma concorrência desleal, segundo os entrevistados. Enquanto para Pedro, o governo não tem função administrativa sobre o trabalho dos feirantes, para Vera, a perspectiva é diferente. Sua reclamação contra a administração do Governo com relação ao pequeno empreendedor está relacionada ao nível produtivo de sua empresa, Vera expõe que “Melhorias nas condições de trabalho sempre são bem vindas em todos os segmentos, mas o Governo não faz nada para nos ajudar, hoje em minha empresa trabalham vinte e cinco pessoas diretas e oito pessoas indiretamente. Precisamos de recursos como financiamento de maquinários, com juros baixos e impostos mais baixos também. Mas aos olhos deles somos muito pequenos, quase que imperceptível”. A medidas diferenciadas que poderiam ser implementadas pelo Governo são destacadas também por Sara e Ester. Sara coloca que sente falta do apoio do Governo para quem está iniciando, e expõe que poderia haver um suporte, em suas palavras: “pelo Governo eu acho que se ele desse mais estrutura, pra quem tá começando, que não entende, digamos, quando eu comecei não entendia nada, se eles tivessem na retaguarda, me profissionalizasse, me ajudasse né, seria bom”. Ester declara que o Governo deveria ajeitar a infraestrutura do local, dando uma melhor condição de trabalho que inclui a exposição da mercadoria. Suas considerações não param por aí. Ela acredita que um grupo como o SEBRAE deveria realizar uma pesquisa, assim como a entrevista que está concedendo a pesquisadora deste estudo. Avaliar as condições de trabalho, analisar e fazer perguntas sobre o que poderia ser feito para melhorar a vida dos feirantes e empreendedores da Feira da Madrugada, além de dar um incentivo financeiro. Ester acrescenta ainda algumas sugestões, “Eu acho que devia ter um investimento para melhorar. Um órgão do Governo pra fazer curso, uma capacitação, ver como está o negócio de cada um, tirar o pessoal da rua, vou dizer assim com as minhas palavras, é urbanizar a feira, colocar o pessoal da rua pra que possa passar carro, porque antes, na Rua José Avelino ficavam os ônibus estacionados, agora está cheio de bancas. Claro que atrapalha nossas vendas de dentro do galpão, mas também fica feio, tinha que padronizar as bancas. Os banheiros são sujos e pequenos, o galpão nem parece ser varrido, tem estrutura péssima, tudo muito imundo e desorganizado”. 119 Relacionado as ações do Governo sobre a Feira da madrugada, os demais sujeitos da pesquisa, acreditam é que a prefeitura deveria retirar os feirantes que ficam na rua, colocando-os em outro lugar. Para Raquel, esta é uma tarefa muito difícil, porque os compradores já estão acostumados ao local. Mudar a feira de lugar, provavelmente irá comprometer avida de todos. Já Vitor, funcionário do Município e feirante, acredita que o ideal seria o engajamento de pessoas através de uma associação que representasse os feirantes e fosse criada uma parceira com a prefeitura. As ações que o entrevistado propõe é melhoria da infraestrutura, visando principalmente o conforto dos clientes e também, para colocar os feirantes da rua em algum espaço, dentro de algum galpão. Pedro e Vera entre os dez entrevistados, são os únicos que não fizeram nenhuma reclamação sobre a administração dos galpões, no que se refere a estrutura do local. Os demais entrevistados, reclamaram da falta de higiene, da má qualidade dos restaurantes e lanchonetes, e da sujeira e falta de higiene nos banheiros. Dentre os oito que reclamaram da infraestrutura, apenas dois relataram pontos diferentes além dos que expomos. Um dos sujeitos da pesquisa reclamou do piso desnivelado, que torna-se perigoso principalmente para os idosos e mulheres com crianças de colo que constantemente estão na feira, e o outro reclamou que quando chove com vento forte, que é uma constante por ser um local próximo ao mar, molha a sua mercadoria. As estratégias expostas pelos sujeitos da pesquisa estão longe da constituição do Estado democrático de direito. A relevância deste estudo decorre do compromisso ético do Serviço Social com a classe trabalhadora, devendo através do estudo da realidade, obter conhecimento para proporcionar a construção e a defesa dos direitos sociais, econômicos, políticos e culturais para toda a sociedade. O sistema capitalista e, políticas e direitos sociais são antagônicos, não é possível extinguir a desigualdade própria do sistema de classes, da propriedade privada dos meios de produção e da apropriação privada da riqueza produzida socialmente, contudo, O reconhecimento desses limites não invalida a luta pelo reconhecimento e a afirmação dos direitos nos marcos do capitalismo, mas sinaliza que a sua conquista integra uma agenda estratégica da luta democrática e popular, visando a construção de 120 uma sociedade justa e igualitária. Essa conquista no âmbito do capitalismo não pode ser vista como um fim, como um projeto em si, mas como via de ingresso, de entrada, ou de transição para um padrão de civilidade que começa pelo reconhecimento e garantia de direitos no capitalismo, mas que não se esgota nele (BEHRING & BOSCHETTI, 2011, p. 195). As ações devem ser pautadas para a construção de uma nova sociabilidade, sem dominação, extinguindo a exploração entre classes, etnia, ou orientação sexual, tendo a liberdade como valor central já no próprio projeto profissional do Serviço Social, que “assume, o compromisso com a autonomia, a emancipação e a plena expansão dos indivíduos sociais” (BEHRING & BOSCHETTI, 2011, p. 195). Antunes (2009) discorre que é imprescindível na configuração em que se inscreve o capitalismo atualmente, que os trabalhadores, lutem pelo direito ao emprego e redução do tempo de trabalho, sem alteração salarial, para que num primeiro momento, seja possível a diminuição da desigualdade e pobreza. Em seguida, lutando por uma nova forma societária, que esse tempo livre possa ser utilizado na busca por uma maior conscientização, livre da dominação capitalista e da alienação, tornando a vida cheia de sentidos dentro e fora do trabalho e, ainda, através da arte, poesia, música etc., a sociedade será humanizada e emancipada. 121 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Segundo dados do IBGE, no Brasil, mais da metade da classe trabalhadora está na informalidade. Essa realidade é consequência da nova configuração do capitalismo, que em seus moldes neoliberais promove a constituição de um exército de mão de obra barata. Como consequência, percebe-se que um crescente número perdeu suas fontes tradicionais de remuneração, precisando buscar alternativas. Essa parcela da classe trabalhadora acaba procurando as redes de trabalho informais, como a Feira da Madrugada, atraída pela complementação da renda, ou como único meio de sobrevivência que possuem. Nas representações dos trabalhadores entrevistados, percebemos que o trabalho informal como feirante está sempre incluído pelos significados dos sujeitos como um "marco" e, portanto, um "lugar de memória" importante para uma certa mudança em suas vidas a partir de determinados sonhos e interesses. A feira passa a ser apreendida como uma modalidade de trabalho “autônomo”, uma “invenção” do próprio trabalhador, uma “oportunidade” em meio às reconhecidas mudanças no mundo do trabalho responsável pelo encolhimento do número de empregos formais, como também, a redução do estatuto salarial. Em alguns relatos dos sujeitos pesquisados, percebemos que, mesmo o casal trabalhando formalmente, ou um trabalhando formalmente e o outro não, o rendimento nunca foi satisfatório, não foi capaz de melhorar a qualidade de vida dos sujeitos, levando-os a se inserirem no mercado informal de trabalho, como trabalhadores por conta própria, construindo seus pequenos negócios em busca de melhores rendimentos. Os discursos dos sujeitos nos mostram que o trabalho informal é representado como uma dimensão central na vida dos trabalhadores, subsidiando a sobrevivência não apenas material e social. Não apenas a dimensão ontológica do trabalho é vivenciada, mas também a dimensão teleológica. Entretanto, o trabalho na feira também foi descrito como precário, haja vista que a maioria dos sujeitos da pesquisa reconheceu a ausência do Estado na elaboração de políticas públicas que significassem uma melhoria nas condições de trabalho na feira. Assim, percebemos que os trabalhadores reconhecem a precarização do trabalho gerada pela inserção informal e apresentam, descrevem em suas falas, projetos de mudança. O que indica também um ethos de resistência às forças destrutivas do capitalismo. 122 No entanto, as contradições são latentes na própria constituição dos sujeitos pesquisados. Os dez entrevistados são proprietários de pequenos negócios e, inicialmente todos começaram na informalidade, porém, alguns foram formalmente regulamentados e outros não. Seja qual for sua configuração são considerados por alguns autores como sendo capitalistas. Mesmo sendo proprietários de pequenos negócios, a maioria não é proprietário de todos os meios de produção, em alguns casos, a única propriedade que possuem é o capital com o qual compram o tecido e pagam a mão de obra terceirizada. Nesse contexto, os sujeitos da pesquisa, ao entrarem no mercado informal da economia, na busca por liberdade, independência financeira, aumento da sua renda e uma melhor qualidade de vida, acaba na maioria dos casos, reproduzindo as mesmas desestruturações que o trabalho vem sofrendo, principalmente, desde o século XX e que estão no século XXI mais potencializadas. Desestruturação que os mesmos, em sua maioria, recusaram-se a continuar vivendo e em busca da autonomia, iniciaram seus próprios negócios. Ao mesmo tempo, esses ditos capitalistas são também, parte da mão-de-obra do processo produtivo de suas mercadorias. A configuração do capitalista que não trabalha no processo produtivo e que inclusive, coloca pessoas para administrar e gerenciar sua empresa, não se aplica a estes sujeitos. Eles trabalham em diversas etapas do processo de produção e também, administram e gerenciam seus negócios e ainda, trabalham de madrugada na feira. Não pretendo aqui atenuar os fatores como precarização do trabalho, a flexibilidade das relações e contratações trabalhistas levando ao aumento da informalização do trabalho, a perda de direitos, a pobreza e instabilidade social, subcontratação, o trabalho em tempo parcial e a terceirização, que são condições que esses pequenos proprietários, imprimem aos trabalhadores que fazem parte do processo produtivo de suas mercadorias e daqueles que são contratados informalmente para trabalhar como ajudante na feira, vendendo, auxiliando a expor e depois guardar a mercadoria ou carregando fardos ou sacolas com os produtos. Além desses ajudantes, os que trabalham terceirizados são as costureiras, que possuem as máquinas e a linha, às vezes elas têm alguém da família que 123 trabalham limpando as pontas de linha da roupa já acabada. Algumas pessoas mandam fazer uma pintura na blusa que chamam de silkscreen, em muitos casos, essas pessoas realizam esse trabalho em suas próprias residências com algum ajudante. As bordadeiras trabalham geralmente com o material do feirante, dentre outras categorias de terceirização. Importa salientar que o aumento da precariedade e desregulamentação do trabalho nas grandes empresas e indústrias gera o aumento do trabalho informal e este, gera outras modalidades de trabalhadores informais, em um movimento constante e sem fim, reproduzindo cada vez mais o sistema capitalista, ampliando ainda mais os níveis de desigualdade e pobreza. O pleno emprego com estatuto salarial que acompanhe o crescimento econômico, a maior tributação para os ricos e menor para os trabalhadores, as políticas sociais e trabalhistas acessíveis a todos com caráter universal e os demais direitos assegurados pela Constituição Federal Brasileira de 1988, como dever do Estado, como a saúde, educação, lazer, moradia, etc., devem estar na pauta de lutas dos trabalhadores e dos Assistentes Sociais. Para tanto, faz-se necessário criar estratégias para a superação do modo de produção capitalista, e instauração da social democracia. A luta por uma sociedade mais justa e igualitária que o Serviço Social coloca em seu Projeto Ético Político, tendo a liberdade como fundamento central, requer um melhor estudo desta realidade, buscando apreender, sua real configuração, porque o trabalho informal reflete a imensa desigualdade social em que vivemos, devido à apropriação privada dos meios de produção e da riqueza socialmente produzida. A heterogeneidade que se inscreve apenas no espaço da Feira da Madrugada, certamente não é capaz de elencar as diversas formas de trabalho informal neste setor da economia no Brasil, porque cada região tem suas particularidades, porém, podem ser reveladoras para buscar uma caracterização aproximada e uma melhor conceituação e definição dos segmentos que compõem a economia informal. A emancipação humana através de uma nova forma societária, sem dominação de uma classe sobre outra, com liberdade para que os sujeitos possam buscar uma maior conscientização política e humanitária, faz parte da luta do Serviço Social. 124 REFERÊNCIAS ANTUNES, Ricardo. I - A dialética do trabalho: escritos de Marx e Engels. São Paulo: Expressão Popular, 2013. ANTUNES, Ricardo. Adeus ao Trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 11. ed. São Paulo: Cortez, 2006. ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho. Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2009. ANTUNES, Ricardo. Os modos de ser da informalidade: rumo a uma nova era da precarização estrutural do trabalho? Serviço Social e Sociedade. São Paulo, n. 107. P. 405-419, jul./set.. 2011. BARROCO, Maria Lúcia Silva. Ética: fundamentos e história. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2011. BARROCO, Maria Lúcia Silva. TERRA, Sylvia Helena. Código de ética do/a assistente social comentado. São Paulo: Cortez, 2012. BEHRING, Elaine Rossetti. Acumulação capitalista, fundo público e política social. In: Política social no capitalismo: tendências contemporâneas (Org.). 2. ed. São Paulo: Cortez, 2009. BEHRING, Elaine Rossetti. Brasil em contra-reforma: desestruturação do Estado e perda de direitos. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2008. BEHRING, Elaine Rossetti. BOSCHETTI, Ivanete. Política social: fundamentos e história.9. ed. São Paulo: Cortez, 2011. CERVO, Amado Luiz. et. al. Metodologia científica.6. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007. CONSERVA, Marinalva de Sousa. ARAÚJO, Anísio José da Silva. Informalidade e precarização nos mundos do trabalho. In: Teoria política e social. V. 1, n. 1, p. 7591. Dez. 2008. GONDIM, Linda Maria de Pontes. O projeto de pesquisa no contexto do processo de construção do conhecimento. In: Pesquisa em ciências sociais: o projeto da dissertação de mestrado. Fortaleza: UFC Edições, 1998. GUERRA, Yolanda. A dimensão investigativa no exercício profissional. In: Serviço Social: Direitos Sociais e Competências Profissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS, 2009. IAMAMOTO, Marilda Villela. Estado, classes trabalhadoras e política social no Brasil. In: Política Social no capitalismo: tendências contemporâneas (Org.). 2. ed. São Paulo: Cortez, 2009. IAMAMOTO, Marilda Villela. Serviço social em tempo de capital fetiche: capital financeiro, trabalho e questão social. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2012. 125 KREIN, José Dari, PRONI, Marcelo Weishaupt. Economia informal: aspectos conceituais e teóricos. In: Série trabalho decente no Brasil – documento de trabalho. n. 4. Organização Mundial do trabalho, 2010. LAPLANTINE, François. A descrição etnográfica. São Paulo: Terceira Margem, 2004. LESSA, Sérgio. Trabalho e proletariado no capitalismo contemporâneo. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2011. MACHADO, Ana Flávia, HIRATA, Guilherme Issamu. Conceito de informalidade/formalidade e uma proposta de tipologia. In: Econômica, Rio de Janeiro, v. 10 n. 1 2008. MARTINELLI, Maria Lúcia. O uso de abordagens qualitativas na pesquisa em serviço social. In: Pesquisa qualitativa: um instigante desafio (org). São Paulo: Veras Editora, 1999. MONTAÑO, Carlos. DURIGUETTO, Maria Lúcia. Estado, classes e movimento social. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2011. NETTO, José Paulo, BRAZ, Marcelo. Economia política: uma introdução crítica. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2012. OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. O trabalho do antropólogo. 2. ed. Brasília: Paralelo 15, São Paulo Editora UNESP, 2000. PEREIRA, PotyaraAmazoneida P. Utopias desenvolvimentistas e política social no Brasil. In: Serviço Social e Sociedade. n. 112. São Paulo, 2012. QUEIROZ, Maria Isaura de. O pesquisador, o problema da pesquisa, a escolha de técnicas: algumas reflexões. In: LUCENA, Célia Toledo. et al. Pesquisa em ciências sociais: olhares de Maria Isaura Pereira de Queiroz. São Paulo: Editora Humanitas, 2008. SANTOS, Izequias Estevam dos. Manual de métodos e técnicas de pesquisa científica. 6. ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2009. SANTOS, Josiane Soares. “Questão social”: particularidades no Brasil. São Paulo: Cortez, 2012. SATO, Leny. Processos cotidianos de organização do trabalho na feira livre. Psicol. Soc., Porto Alegre , v. 19, n. spe, 2007 . SILVA, Maria Lúcia Lopes da. Previdência Social no Brasil: (des)estruturação do trabalho e condições para sua universalização.São Paulo: Cortez, 2012. 126 ANEXOS – FEIRA DA MADRUGADA EM FOTOS – ACERVO PRÓPRIO Figura 1 – Rua José Avelino antes da feira Figura 2 – Rua José Avelino durante a feira 127 Figura 3 – Rua Alberto Nepomuceno durante a feira Figura 4 – Rua Alberto Nepomuceno durante a feira 128 Figura 5 – Rua Pessoa Anta (ônibus de excursão com clientes de outra cidade) Figura 6 – Rua pessoa Anta (venda no carro) (estacionamento do galpão) 129 Figura 7 – Bancas “baú” sem exposição de mercadorias – mercadorias ficam dentro Figura 8 – Umas das formas de guardar os manequins 130 Figura 9 – Bancas com mercadorias expostas e corredor de um galpão Figura 10 – Loja dentro de um galpão (com ar condicionado) 131 Figura 11 – Estacionamento dentro do galpão Figura 12 – Fardos e sacolas de clientes das excursões 132 Figura 13 – Lanchonete onde tomo café da manhã Figura 14 – Local onde compro sanduíche natural 133 Figura 15 – Galpão onde trabalho entrada pela Rua Pessoa Anta Figura 16 – Galpão onde trabalho entrada pela Rua José Avelino 134 Figura 17 – Banca onde trabalho Figura 18 – Banca onde trabalho com os cintos pendurados e os cestos azuis