18 Trabalhos Técnicos Métodos para Superação de Dormência em Sementes de Tabaco1 Janice Regina Gmach2, Gizele Ingrid Gadotti3*, Orlando Antonio Lucca Filho3, Francisco Amaral Villela3 RESUMO - A crescente modernização na produção agrícola, assim como a utilização de sementes pequenas e de alto custo, geralmente com desperdícios na semeadura e no descarte de mudas, recomendam o uso de técnicas como a peletização de sementes. No entanto, o uso de sementes peletizadas pode apresentar também alguns problemas, pois o pélete formado ao redor da semente pode afetar seu desempenho durante a germinação. O cultivo do tabaco (Nicotiana tabacum L.) constitui-se em uma das principais atividades agrícolas da região Sul do Brasil, devido ao sistema de produção que possibilita o cultivo em pequenas áreas, com boa remuneração para os pequenos agricultores, o que lhe confere relevante papel sócio-econômico, além de se constituir em matéria prima para um importante complexo industrial. O presente trabalho teve por objetivo verificar a eficiência do uso de AG3 e KNO3 como métodos de superação de dormência em sementes peletizadas de tabaco, bem como a utilização de duas metodologias para avaliação de germinação de sementes peletizadas de tabaco. Os resultados demonstram que o nitrato de potássio apresentou maiores porcentuais de germinação em sementes peletizadas em ambas as cultivares e que a metodologia do UC (Umedecimento Contínuo) é mais sensível às respostas de sementes de tabaco peletizadas. Termos para indexação: Nicotiana tabacum L., qualidade fisiológica, peletização. Introdução A fumicultura é uma das atividades agroindustriais de maior importância econômica e social na região Sul do Brasil. Desenvolvida em 640 municípios do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, a produção de tabaco alcançou 706 mil toneladas na safra 2012/2013. A área cultivada nessa safra (2012/2013) foi de aproximadamente 332 mil hectares, envolvendo 160 mil famílias de agricultores partícipes desse ciclo produtivo, as quais constituíram um universo de mais de 640 mil pessoas no meio rural (SINDITABACO, 2014). Atualmente os avanços obtidos com o emprego de novas cultivares e técnicas de manejo do solo e cultivo, contribuem para o crescimento da produtividade no setor da fumicultura brasileira. Entre estes avanços, inclui-se o uso de cultivares resistentes às pragas e doenças, adaptadas às condições de solo e clima da região em que são cultivados, bem como a utilização de sementes de qualidade. O menor consumo de 1 Artigo recebido em 27/11/2013. Aceito para publicação em 06/06/2014. Mestre em Ciência e Tecnologia de Sementes – UFPel. Pelotas – RS. Caixa Postal 354 CEP 96010-900 2 Informativo ABRATES sementes pode viabilizar a utilização de semente de melhor qualidade genética, especialmente as sementes híbridas. O uso de sementes peletizadas, dentro dos altos padrões de qualidade é uma das alternativas buscadas para reduzir custos com insumos e mão de obra na produção de tabaco. Estudos realizados comprovam que a qualidade das sementes peletizadas não é afetada simplesmente pela peletização, porém existem ainda muitas controvérsias em relação à dificuldade ou não de germinação das sementes peletizadas, no entanto, vários fatores podem afetar o desempenho das sementes. A peletização de sementes de tabaco traz benefícios e algumas dificuldades, como a maior ocorrência de dormência, fato que se acredita ocorrer devido à camada do pélete além de ser uma barreira física, reduzir a intensidade luminosa que chega a semente durante a fase de germinação. Regimes de temperatura, luz e tratamentos químicos, entre os quais a aplicação de nitrato de potássio, são fatores que afetam a germinação de sementes (Popinigis, 1985; Carvalho Professor(a) Dr., Universidade Federal de Pelotas. Pelotas – RS. Caixa Postal 354 CEP 96010 -900. 3 *Autor para correspondência <[email protected]> vol.24, nº.1, 2014 19 e Nakagawa, 1988); além disso, podem revelar diversos mecanismos de dormência, exigindo técnicas específicas para sua superação (Khan, 1977). Em sementes de diversas espécies, a dormência é ocasionada por um balanço hormonal desfavorável entre promotores, como as giberelinas (GAs), e inibidores da germinação, como o ácido abscísico (ABA) (Bewley e Black, 1994). Para sementes em geral, vários são os tratamentos citados na literatura para superação da dormência, como aumento da tensão de oxigênio; rompimento do tegumento; temperaturas alternadas; pré-friagem; exposição à luz; tratamento com KNO3; e tratamento com promotores de germinação, tais como giberelinas e citocininas. Algumas espécies requerem tratamentos com produtos químicos para superar a dormência como nitrato de potássio (KNO3), ácido giberélico (AG3), entre outros. A ausência de métodos adequados de avaliação da qualidade fisiológica das sementes peletizadas de tabaco, bem como as discordâncias nos resultados de pesquisas, tornam necessários mais estudos, que possibilitem verificar a influência da peletização das sementes na germinação e até que ponto esta afeta o estabelecimento e desenvolvimento inicial das plântulas no campo. Assim o presente trabalho tem por objetivo verificar a eficiência do uso de AG3 e KNO3 como método de superação de dormência em sementes de tabaco, bem como a utilização de duas metodologias para condução do teste de germinação das sementes. Material e Métodos O experimento foi conduzido no Laboratório de Analises de Sementes, do Centro de Melhoramento de Fumo – CMF da empresa Souza Cruz S.A., localizada na cidade de Rio Negro – PR. Foram utilizadas sementes de fumo tipo Virgínia (cultivar CSC 463) e do tipo Burley (cultivar CSC 231). Os frutos contendo as sementes foram colhidos aproximadamente 30 dias após a polinização. Estes frutos foram secos a uma temperatura variável, porém, não ultrapassando 35 ºC, em secador de sementes tipo estacionário, na Unidade de Produção de Sementes da Souza Cruz em Rio Negro – PR. Esses frutos, após secos, foram trilhados, separando-se as sementes, as quais foram limpas em peneiras de 30 mesh. Após a limpeza as sementes foram submetidas ao teste de germinação. Depois de caracterizada a qualidade inicial, parte do volume total de sementes foi peletizado, para composição dos diferentes tratamentos. Para cada tipo de tabaco Virginia e Burley, foram utilizadas sementes nuas e peletizadas, tratadas com três doses de AG3, três doses de KNO3 e uma testemunha, as quais foram avaliadas por duas diferentes metodologias do teste de germinação, conforme descrito a seguir. Informativo ABRATES Nos tratamentos com AG3 foram utilizadas doses de 200, 350 e 500 mg.L-1. Para as sementes nuas, estas dosagens foram aplicadas juntamente com a água utilizada para umedecer o substrato de germinação, na proporção de 2,5 vezes o peso do papel substrato. Para as sementes peletizadas as dosagens do produto foram aplicadas juntamente com a água utilizada no processo de peletização. Para os tratamentos com KNO3, foi preparada uma solução a 0,2%, a qual foi aplicada nas proporções de 2,5 – 3,0 e 3,5 vezes o peso do papel substrato utilizado no teste de germinação. Para as sementes nuas essa solução foi aplicada diretamente no papel substrato, enquanto que para as sementes peletizadas essa solução foi veiculada no processo de peletização, utilizando-as como aglomerante dos materiais constituintes do pélete. As análises realizadas foram: teste de germinação, conduzido por duas metodologias distintas, uma de acordo com as prescrições das Regras para Análise de Sementes – RAS (Brasil, 2009) e uma segunda metodologia que é utilizada pelo Laboratório de Análise de Sementes da empresa Souza Cruz S.A., aqui denominado neste trabalho como Umedecimento Contínuo – UC. Na avaliação conduzida de acordo com a RAS foram avaliadas quatro repetições de 100 sementes para cada tratamento, sendo as sementes distribuídas sobre uma folha de papel (tipo mata-borrão) umedecido com quantidade de água equivalente a dosagem (tratamento), no interior de caixas plásticas tipo gerbox (11,0 x 11,0 x 3,5cm). Para a avaliação da germinação por meio da metodologia UC também foram utilizadas quatro repetições de 100 sementes para cada tratamento, distribuídas em gerbox sobre uma folha de papel (tipo mata-borrão) umedecido previamente com água conforme a dosagem de cada um dos tratamentos e a água excedente ficou na lâmina de água no fundo do gerbox. O teste de germinação denominado UC é semelhante ao método sobre papel indicado nas RAS, no entanto o gerbox utilizado possuia suportes fixados em suas extremidades que permitem que uma placa de acrílico contendo um furo central com 10 mm de diâmetro, ficasse localizada a um centímetro acima do fundo da caixa gerbox. Por este orifício passouse uma tira de papel mata-borrão, o qual tinha uma de suas pontas mantidas em contato com o fundo do gerbox e a outra colocada abaixo do papel substrato. No fundo do gerbox foi colocada a quantidade de água equivalente a três vezes o peso do papel substrato, pelo princípio da capilaridade, sendo que a tira de papel mata-borrão umedeceu todo o papel substrato. Ambos os testes foram conduzidos com temperatura alternada de 20 – 30 °C (20 ºC durante 16 horas sem luz e 30 ºC durante 8 horas com luz), sendo as avaliações realizadas no sétimo e décimo sexto dia após a semeadura, segundo os critérios estabelecidos pelas RAS. Os resultados foram expressos em vol.24, nº.2, 2014 20 porcentagem média de plântulas normais, para cada tratamento (Brasil, 2009). O delineamento experimental foi em arranjo fatorial 7 (Testemunha, AG3: 200, 350 e 500 mg.L-1; e KNO3 0,2% 2,5, 3,0 e 3,5 vezes o peso do papel) x 2 (métodos de avaliação da germinação) x 2 (nuas e peletizadas) com quatro repetições. Os dados foram analisados pelo Sistema de Análise Estatística – Sisvar, comparando-se as médias pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade. modo geral, as mais altas porcentagens de germinação foram observadas nas sementes tratadas com KNO3, particularmente quando avaliadas através da metodologia do UC. Nas sementes nuas não houve efeito benéfico dos tratamentos com AG3 em ambas as metodologias. Para sementes peletizadas, avaliadas pela metodologia UC, houve efeito da maior e da menor dose de AG3, confirmando o comentado por (Leite e Hebling, 2007). Resultados e Discussão Tabela 1.Primeira contagem do teste de germinação de sementes nuas e peletizadas de tabaco do híbrido CSC 463 tratadas com diferentes doses de ácido giberélico e de nitrato de potássio, avaliadas por diferentes metodologias. Os resultados apresentados na Tabela 1 mostram que os efeitos positivos dos tratamentos sobre a primeira contagem do teste de germinação das sementes de tabaco da cultivar CSC 463 foram observados somente em sementes nuas avaliadas pela metodologia da RAS, onde foi realizada a aplicação da maior dosagem de KNO3. Em sementes peletizadas não houve diferença estatística entre os tratamentos. Destaca se que os valores obtidos na primeira contagem do teste de germinação das sementes peletizadas foram muito baixos, indicando que a peletização causa redução da velocidade de germinação, pois sementes nuas, independente do método de analise e do tratamento, germinaram muito melhor do que as peletizadas. Conforme Leubner-Metzger (2003) a ruptura da testa (tegumento) e a ruptura do endosperma são eventos distintos na germinação das sementes do tabaco e há fortes indícios de que ambos são os fatores limitantes na germinação das mesmas. Assim sendo, a deposição de mais uma camada sobre o tegumento das sementes pode fazer com que a sua germinação demore um pouco mais para acontecer. Os resultados da Tabela 2 indicam que para a germinação das sementes nuas não houve efeito das diferentes doses de KNO3, para ambas as metodologias utilizadas na avaliação da qualidade das sementes de tabaco, sendo que os tratamento onde se utilizou o KNO3 apresentaram valor semelhante aos da testemunha. No tratamento com AG3 foram observados valores inferiores aos da testemunha. Leite e Hebling (2007) comentam que concentrações supraótimas desse biorregulador podem ter um efeito deletério como foi verificado por outros autores em sementes de Hancornia speciosa submetidas a concentrações de GA3 iguais ou superiores a 0,3 mg.L1 adicionadas ao meio de cultura, que provocaram uma diminuição na porcentagem de sementes germinadas. Para sementes peletizadas houve efeito dos tratamentos com KNO3 em ambas as metodologias, sendo os valores desse tratamento superiores aos da testemunha. Para a metodologia UC não houve diferença entre as doses de KNO3, ao passo que quando se utilizou a metodologia das RAS, a maior dose de KNO3 obteve a mais alta porcentagem de germinação. De um Informativo ABRATES Sementes Nuas Tratamento -1 AG3 200 mg.L AG3 350 mg.L-1 AG3 500 mg.L-1 KNO3 2,5 KNO3 3,0 KNO3 3,5 Testemunha Média CV(%) UC* 83 Ba 28 Ca 35 Cb 93 ABa 92 ABa 97 Aa 94 ABa 75 9,20 RAS** 61 Cb 9 Db 60 Ca 79 Bb 79 Bb 96 Aa 82 Bb 66 10,9 Sementes Peletizadas UC* 0 Ac 8 Ab 1 Ac 7 Ac 11 Ac 3 Ab 11 Ac 6 83,4 RAS** 2 Ac 6 Ab 3 Ac 1 Ac 2 Ac 3 Ab 4 Ac 3 77,8 Médias seguidas por mesmas letras maiúsculas na coluna e minúsculas na linha, não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade. *UC: Umedecimento Contínuo. ** RAS: Regras para Análises de Sementes. Tabela 2.Porcentagem de germinação de sementes nuas e peletizadas de tabaco do híbrido CSC 463 tratadas com diferentes doses de ácido giberélico e de nitrato de potássio, avaliadas por diferentes metodologias. Tratamento AG3 200 mg.L-1 AG3 350 mg.L-1 AG3 500 mg.L-1 KNO3 2,5 KNO3 3,0 KNO3 3,5 Testemunha Média CV(%) Sementes Nuas UC* 89 Aa 69 Ba 64 Bc 98 Aa 97 Aa 97 Aa 98 Aa 88 4,61 RAS** 61 Cb 19 Db 75 Bb 94 Aa 94 Aa 98 Aa 94 Aa 76 9,46 Sementes Peletizadas UC* 91 Aa 68 Ba 85 Aa 96 Aa 95 Aa 93Aa 71 Bb 84 14,1 RAS** 37 Dc 69 BCa 79 Bab 70 BCb 64 Cb 96 Aa 34 Dc 64 6,78 Médias seguidas por mesmas letras maiúsculas na coluna e minúsculas na linha, não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade. *UC: Umedecimento Contínuo. ** RAS: Regras para Análises de Sementes. vol.24, nº.2, 2014 21 Para as sementes avaliadas pela metodologia das RAS, não houve efeito dos tratamentos, destacando-se apenas que a dose de 500 mg.L-1 de AG3 proporcionou porcentagem de germinação próxima ao padrão de comercialização (Tabela 2). Analisando os resultados de germinação das sementes nuas e peletizadas avaliadas pela metodologia UC, observa se que em todos os tratamentos o desempenho de ambas foi semelhante, com exceção da dose de 500 mg.L-1 de AG3, onde as sementes peletizadas tiveram germinação superior às sementes nuas. Comparando a porcentagem de germinação das sementes avaliadas por meio da metodologia das RAS (Tabela 2), observa-se que as melhores respostas foram obtidas para as sementes nuas, exceção das sementes peletizadas tratadas com AG3 350 mg.L-1. Ao se comparar o resultado da metodologia UC com o da metodologia das RAS, observa se que nas sementes nuas houve diferenças significativas de germinação na metodologia UC no tratamento com a maior dose de AG3, e na metodologia das RAS nos tratamentos com as menores doses de AG3, os quais foram inferiores aos da testemunha. Ao se analisar a porcentagem de germinação das sementes peletizadas, observa-se que, de um modo geral, as melhores respostas foram obtidas com o método UC. O mesmo foi observado em relação à primeira contagem para as sementes nuas, onde UC com KNO3 e testemunha foram superiores aos métodos das RAS. As análises das respostas da germinação das sementes de tabaco ao tratamento com ácido indicam que não houve resposta positiva ao AG3. Os dados obtidos estão de acordo com as observações de Chacko e Singh (1966), que, ao trabalharem com giberelina nas doses de 50, 100, 250, 500 e 1000 mg.L-1, concluíram que estas não aumentam a porcentagem de germinação, embora a concentração de 500 mg.L-1 tenha aumentado a velocidade de germinação. Resultados semelhantes foram obtidos por (Paz e VazquezYanes,1988; Andreoli e Khan, 1993; Bertocci et al., 1997; Salomão e Mundin, 2000; Bhattacharya e Khuspe, 2001). No entanto, dados obtidos por Debaujon e Koornmeef (2000), indicam que a dormência e a germinação são o resultado líquido de um balanço entre uma variedade de fatores promotores e inibidores, incluindo ácido abscísico e ácido giberélico, os quais têm o embrião e a testa como alvo, e, portanto têm efeito sobra a germinação das sementes. Um estudo realizado por Leubner-Metzger (2003) no qual a testa de sementes de tabaco foi removida mecanicamente demonstrou que havia crescimento da radícula mesmo na ausência de luz. Esse fato demonstrou que em sementes de tabaco a dormência induzida pelo tegumento é mais importante do que a dormência do embrião, devido à resistência ou à presença de inibidores químicos. Informativo ABRATES Para Cardoso (2004) a expressão “dormência relativa” descreve a variação na sensibilidade da semente a fatores ambientais. Outro exemplo de dormência relativa acontece quando uma semente precisa da luz para germinar em uma dada temperatura, mas é indiferente ao estimulo luminoso sob outra temperatura, as sementes da cultivar CSC 463 nuas, se forem analisadas sob este conceito, se encaixariam na expressão de “dormência relativa”, pois sem a camada de pélete a dormência é superada. As condições ambientais que são desfavoráveis para a germinação e podem induzir a dormência secundária são anoxia, temperatura e iluminação inapropriadas, conforme relatado por Bewley (1997), fato que descreve bem a condição das sementes após a peletização. Como a peletização é uma camada porosa, mas que prejudica a incidência de luz, e sendo as sementes de tabaco conhecidamente fotoblásticas positivas, podemos concluir como o fez Floss (2006), que o fitocromo ativo ou inativo está sendo expresso, neste caso como não há germinação (sem luz não há expressão do fitocromo ativo), ou o fitocromo inativo está superexpresso ou o ativo está com menor expressão. Os resultados obtidos na primeira contagem do teste de germinação do hibrido CSC 231 apresentados na Tabela 3 indicam que houve efeito positivo dos tratamentos em sementes nuas, onde foram observadas significativas diferenças, particularmente para as sementes tratadas com a maior dose de AG3 avaliadas pela metodologia RAS e maior dose de KNO3 avaliadas pela metodologia UC. Esses resultados estão de acordo com os obtidos por Chacko e Singh (1966), Paz e Vazquez-Yanes (1988), Andreoli e Khan (1993), Bertocci et al. (1997), Salomão e Mundin (2000) e Bhattacharya e Khuspe (2001), segundo os quais doses de 500 mg.L-1 de AG3, tem efeito sobre a germinação de sementes de tabaco, particularmente na sua velocidade de germinação. Trabalho realizado por Yahiro e Oryoji, (1980) em sementes com sarcotesta semeadas logo após a sua extração do fruto exigiram elevadas concentrações de GA (1000 mg.L-1) para alcançar 60% de germinação aos 30 dias, no entanto, para sementes sem sarcotesta submetidas às concentrações de 100 e 500 mg.L-1 de AG3 obteve-se germinação de 80%, contrastando com a germinação nula obtida na testemunha. Trabalho realizado por Leubner-Metzger (2003) indica que a germinação de sementes de Nicotiana tabacum L. cv. Havana 425 foi determinada pelo equilíbrio de forças entre o potencial de crescimento do embrião e da retenção mecânica do endosperma micropilar. Para as diferentes metodologias utilizadas, nas sementes nuas e peletizadas a metodologia UC apresentou resultados superiores aos das RAS em todos os tratamentos. Franzin e Menezes (2002) observaram que o vigor das sementes e o material utilizado durante a peletização exercem influência no desempenho das sementes durante a germinação, vol.24, nº.2, 2014 22 assim, pode haver redução na velocidade de germinação com o decorrer do tempo, como observaram em sementes de alface. Estes fatos podem explicar o baixo desempenho das sementes peletizadas observados. Os mesmos autores obtiveram atrasos, de até 48 horas, na emergência das plântulas provenientes de sementes peletizadas de alface, quando comparadas às sementes nuas da mesma espécie. Tabela 3.Primeira contagem do teste de germinação de sementes nuas e peletizadas de tabaco do híbrido CSC 231 tratadas com diferentes doses de ácido giberélico e de nitrato de potássio, avaliadas por diferentes metodologias. Sementes Nuas Tratamento -1 AG3 200 mg.L AG3 350 mg.L-1 AG3 500 mg.L-1 KNO3 2,5 KNO3 3,0 KNO3 3,5 Testemunha Média CV(%) UC* 72 CDa 80 ABCa 87 ABa 77 BCDa 85 ABa 88 Aa 70 Da 80 7,07 RAS** 13 Db 16 Db 74 Ab 16 Db 38 Cb 55 Bb 23 Db 34 21,1 Sementes Peletizadas UC* 1 Ac 2 Ac 3 Ac 3 Ac 1 Ac 2 Ac 1 Ac 2 89,3 RAS** 0 Ac 0 Ac 0 Ac 0 Ac 0 Ac 2 Ac 0 Ac 0 101,8 Médias seguidas por mesmas letras maiúsculas na coluna e minúsculas na linha, não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade. *UC: Umedecimento Contínuo. ** RAS: Regras para Análises de Sementes. A resistência mecânica exercida em forma combinada pela testa e o endosperma, a qual é maior do que a força do potencial de crescimento do embrião aparece como a principal causa da dormência fisiológica não profunda em sementes de A. thaliana e espécies de Solanáceas (Hilhorst, 1995; Bewley, 1997). Pode se esperar que o mesmo ocorra em sementes de tabaco peletizadas, devido à maior resistência mecânica imposta pelo pélete. Os dados relativos às sementes nuas contidos na Tabela 4 indicam que diferenças significativamente maiores que a testemunha somente foram observadas nos tratamentos com KNO3 e no tratamento com a maior dosagem de AG3, quando avaliadas pela metodologia das RAS. Os tratamentos aplicados às sementes nuas quando analisados pela metodologia UC, não evidenciaram efeitos significativamente superiores à testemunha. Analisando os dados obtidos para sementes peletizadas observa-se efeito significativo de todos os tratamentos, quando analisados pela metodologia das RAS, especialmente nas sementes tratadas com KNO3. O mesmo efeito benéfico do KNO3 pode ser observado nas sementes peletizadas quando analisadas pelo método UC. Cabe destacar que a mais Informativo ABRATES alta dose de KNO3 permitiu a obtenção de porcentagem de germinação próxima ao padrão mínimo de qualidade exigido para a semente de tabaco. Tabela 4.Porcentagem de germinação em sementes nuas e peletizadas de tabaco do híbrido CSC 231 tratadas com diferentes doses de ácido giberélico e de nitrato de potássio, avaliadas por diferentes metodologias. Tratamento AG3 200 mg.L-1 AG3 350 mg.L-1 AG3 500 mg.L-1 KNO3 2,5 KNO3 3,0 KNO3 3,5 Testemunha Média CV(%) Sementes Nuas UC* 84 Ba 88 Ba 93 ABa 99 Aa 97 Aa 98 Aa 98 Aa 94 3,05 RAS** 52 Db 81 Ca 92 ABa 91 ABa 98 Aa 98 Aa 88 BCb 86 4,72 Sementes Peletizadas UC* 34 Dc 46 Cb 32 Db 56 Bc 73 Ab 50 BCc 32 Dc 46 21,6 RAS** 30 Bc 36 Bc 28 Bb 75 Ab 13 Cc 80 Ab 0 Dd 37 13,2 Médias seguidas por mesmas letras maiúsculas na coluna e minúsculas na linha, não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade. *UC: Umedecimento Contínuo. ** RAS: Regras para Análises de Sementes. Comparando as diferenças na porcentagem de germinação entre sementes nuas e peletizadas, se observa que os resultados obtidos para as nuas foram superiores aos das peletizadas em todos os tratamentos. Esses resultados demonstram um típico caso de dormência, decorrente da camada feita sobre o tegumento pela peletização. Este fato está de acordo com o relatado por Leubner-Metzger, (2003), que, estudando a maturação de sementes de tabaco (N. tabacum), constatou que o embrião é cercado por três a cinco camadas de células de endosperma e uma fina testa (tegumento), que consiste em uma camada exterior de células mortas cutinizadas e lignificadas e uma camada de células vivas da testa no interior. Parece existir um mecanismo de recuperação do poder germinativo das sementes, no período compreendido entre as duas contagens, pois especialmente nas sementes tratadas com KNO3 estas diferenças superam a casa dos 70%. Este tipo de comportamento também foi observado por Silva et al. (2002), os quais afirmam que essas diferenças, no entanto, já não são perceptíveis na massa das mudas após 20 dias de cultivo. Efeitos benéficos de nitrato também foram observados por Roberts (1972), o qual afirmou que o efeito isolado do íon nitrato pode ser pouco significativo; no entanto, em interação com luz e, mais ainda, com temperaturas alternadas, o efeito estimulador aumenta fortemente, chegando a mencionar casos em que o nitrato pode até substituir a necessidade de luz. vol.24, nº.2, 2014 23 Conclusão Os dados obtidos na execução do presente trabalho permitem concluir que: a peletização reduz a velocidade de germinação de sementes de tabaco; a germinação das sementes peletizadas de tabaco deve ser conduzida em substrato umedecido com nitrato de potássio; a capacidade de germinação das sementes de tabaco peletizadas é melhor avaliada com a utilização da metodologia que preconiza o umedecimento continuo do papel substrato, e a peletização pode se constituir em um fator de inibição da germinação das sementes de tabaco. Referências ANDREOLI, C.; KHAN, A.A. 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