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Trabalhos Técnicos
Métodos para Superação de Dormência em Sementes de Tabaco1
Janice Regina Gmach2, Gizele Ingrid Gadotti3*, Orlando Antonio Lucca Filho3, Francisco Amaral Villela3
RESUMO - A crescente modernização na produção agrícola, assim como a utilização de sementes
pequenas e de alto custo, geralmente com desperdícios na semeadura e no descarte de mudas,
recomendam o uso de técnicas como a peletização de sementes. No entanto, o uso de sementes
peletizadas pode apresentar também alguns problemas, pois o pélete formado ao redor da semente pode
afetar seu desempenho durante a germinação. O cultivo do tabaco (Nicotiana tabacum L.) constitui-se
em uma das principais atividades agrícolas da região Sul do Brasil, devido ao sistema de produção que
possibilita o cultivo em pequenas áreas, com boa remuneração para os pequenos agricultores, o que lhe
confere relevante papel sócio-econômico, além de se constituir em matéria prima para um importante
complexo industrial. O presente trabalho teve por objetivo verificar a eficiência do uso de AG3 e KNO3
como métodos de superação de dormência em sementes peletizadas de tabaco, bem como a utilização
de duas metodologias para avaliação de germinação de sementes peletizadas de tabaco. Os resultados
demonstram que o nitrato de potássio apresentou maiores porcentuais de germinação em sementes
peletizadas em ambas as cultivares e que a metodologia do UC (Umedecimento Contínuo) é mais
sensível às respostas de sementes de tabaco peletizadas.
Termos para indexação: Nicotiana tabacum L., qualidade fisiológica, peletização.
Introdução
A fumicultura é uma das atividades agroindustriais
de maior importância econômica e social na região Sul do
Brasil. Desenvolvida em 640 municípios do Rio Grande do
Sul, Santa Catarina e Paraná, a produção de tabaco alcançou
706 mil toneladas na safra 2012/2013. A área cultivada nessa
safra (2012/2013) foi de aproximadamente 332 mil hectares,
envolvendo 160 mil famílias de agricultores partícipes desse
ciclo produtivo, as quais constituíram um universo de mais de
640 mil pessoas no meio rural (SINDITABACO, 2014).
Atualmente os avanços obtidos com o emprego de novas
cultivares e técnicas de manejo do solo e cultivo, contribuem
para o crescimento da produtividade no setor da fumicultura
brasileira. Entre estes avanços, inclui-se o uso de cultivares
resistentes às pragas e doenças, adaptadas às condições de
solo e clima da região em que são cultivados, bem como a
utilização de sementes de qualidade. O menor consumo de
1
Artigo recebido em 27/11/2013. Aceito para publicação em 06/06/2014.
Mestre em Ciência e Tecnologia de Sementes – UFPel. Pelotas – RS. Caixa
Postal 354 CEP 96010-900
2
Informativo
ABRATES
sementes pode viabilizar a utilização de semente de melhor
qualidade genética, especialmente as sementes híbridas. O
uso de sementes peletizadas, dentro dos altos padrões de
qualidade é uma das alternativas buscadas para reduzir custos
com insumos e mão de obra na produção de tabaco.
Estudos realizados comprovam que a qualidade das sementes
peletizadas não é afetada simplesmente pela peletização, porém
existem ainda muitas controvérsias em relação à dificuldade
ou não de germinação das sementes peletizadas, no entanto,
vários fatores podem afetar o desempenho das sementes. A
peletização de sementes de tabaco traz benefícios e algumas
dificuldades, como a maior ocorrência de dormência, fato que
se acredita ocorrer devido à camada do pélete além de ser uma
barreira física, reduzir a intensidade luminosa que chega a
semente durante a fase de germinação.
Regimes de temperatura, luz e tratamentos químicos, entre
os quais a aplicação de nitrato de potássio, são fatores que
afetam a germinação de sementes (Popinigis, 1985; Carvalho
Professor(a) Dr., Universidade Federal de Pelotas. Pelotas – RS. Caixa
Postal 354 CEP 96010 -900.
3
*Autor para correspondência <[email protected]>
vol.24, nº.1, 2014
19
e Nakagawa, 1988); além disso, podem revelar diversos
mecanismos de dormência, exigindo técnicas específicas para
sua superação (Khan, 1977).
Em sementes de diversas espécies, a dormência é ocasionada
por um balanço hormonal desfavorável entre promotores, como
as giberelinas (GAs), e inibidores da germinação, como o ácido
abscísico (ABA) (Bewley e Black, 1994).
Para sementes em geral, vários são os tratamentos citados
na literatura para superação da dormência, como aumento da
tensão de oxigênio; rompimento do tegumento; temperaturas
alternadas; pré-friagem; exposição à luz; tratamento com
KNO3; e tratamento com promotores de germinação, tais como
giberelinas e citocininas. Algumas espécies requerem tratamentos
com produtos químicos para superar a dormência como nitrato
de potássio (KNO3), ácido giberélico (AG3), entre outros.
A ausência de métodos adequados de avaliação da
qualidade fisiológica das sementes peletizadas de tabaco,
bem como as discordâncias nos resultados de pesquisas,
tornam necessários mais estudos, que possibilitem verificar
a influência da peletização das sementes na germinação e até
que ponto esta afeta o estabelecimento e desenvolvimento
inicial das plântulas no campo. Assim o presente trabalho tem
por objetivo verificar a eficiência do uso de AG3 e KNO3 como
método de superação de dormência em sementes de tabaco,
bem como a utilização de duas metodologias para condução
do teste de germinação das sementes.
Material e Métodos
O experimento foi conduzido no Laboratório de Analises
de Sementes, do Centro de Melhoramento de Fumo – CMF
da empresa Souza Cruz S.A., localizada na cidade de Rio
Negro – PR. Foram utilizadas sementes de fumo tipo Virgínia
(cultivar CSC 463) e do tipo Burley (cultivar CSC 231). Os
frutos contendo as sementes foram colhidos aproximadamente
30 dias após a polinização. Estes frutos foram secos a uma
temperatura variável, porém, não ultrapassando 35 ºC,
em secador de sementes tipo estacionário, na Unidade de
Produção de Sementes da Souza Cruz em Rio Negro – PR.
Esses frutos, após secos, foram trilhados, separando-se as
sementes, as quais foram limpas em peneiras de 30 mesh.
Após a limpeza as sementes foram submetidas ao teste de
germinação. Depois de caracterizada a qualidade inicial, parte
do volume total de sementes foi peletizado, para composição
dos diferentes tratamentos. Para cada tipo de tabaco Virginia e
Burley, foram utilizadas sementes nuas e peletizadas, tratadas
com três doses de AG3, três doses de KNO3 e uma testemunha,
as quais foram avaliadas por duas diferentes metodologias do
teste de germinação, conforme descrito a seguir.
Informativo
ABRATES
Nos tratamentos com AG3 foram utilizadas doses de 200,
350 e 500 mg.L-1. Para as sementes nuas, estas dosagens foram
aplicadas juntamente com a água utilizada para umedecer o
substrato de germinação, na proporção de 2,5 vezes o peso
do papel substrato. Para as sementes peletizadas as dosagens
do produto foram aplicadas juntamente com a água utilizada
no processo de peletização. Para os tratamentos com KNO3,
foi preparada uma solução a 0,2%, a qual foi aplicada nas
proporções de 2,5 – 3,0 e 3,5 vezes o peso do papel substrato
utilizado no teste de germinação. Para as sementes nuas essa
solução foi aplicada diretamente no papel substrato, enquanto
que para as sementes peletizadas essa solução foi veiculada
no processo de peletização, utilizando-as como aglomerante
dos materiais constituintes do pélete.
As análises realizadas foram: teste de germinação, conduzido
por duas metodologias distintas, uma de acordo com as prescrições
das Regras para Análise de Sementes – RAS (Brasil, 2009) e uma
segunda metodologia que é utilizada pelo Laboratório de Análise
de Sementes da empresa Souza Cruz S.A., aqui denominado
neste trabalho como Umedecimento Contínuo – UC.
Na avaliação conduzida de acordo com a RAS foram
avaliadas quatro repetições de 100 sementes para cada
tratamento, sendo as sementes distribuídas sobre uma folha
de papel (tipo mata-borrão) umedecido com quantidade
de água equivalente a dosagem (tratamento), no interior
de caixas plásticas tipo gerbox (11,0 x 11,0 x 3,5cm). Para
a avaliação da germinação por meio da metodologia UC
também foram utilizadas quatro repetições de 100 sementes
para cada tratamento, distribuídas em gerbox sobre uma folha
de papel (tipo mata-borrão) umedecido previamente com
água conforme a dosagem de cada um dos tratamentos e a
água excedente ficou na lâmina de água no fundo do gerbox.
O teste de germinação denominado UC é semelhante ao
método sobre papel indicado nas RAS, no entanto o gerbox
utilizado possuia suportes fixados em suas extremidades que
permitem que uma placa de acrílico contendo um furo central
com 10 mm de diâmetro, ficasse localizada a um centímetro
acima do fundo da caixa gerbox. Por este orifício passouse uma tira de papel mata-borrão, o qual tinha uma de suas
pontas mantidas em contato com o fundo do gerbox e a outra
colocada abaixo do papel substrato. No fundo do gerbox foi
colocada a quantidade de água equivalente a três vezes o peso
do papel substrato, pelo princípio da capilaridade, sendo que
a tira de papel mata-borrão umedeceu todo o papel substrato.
Ambos os testes foram conduzidos com temperatura alternada
de 20 – 30 °C (20 ºC durante 16 horas sem luz e 30 ºC durante
8 horas com luz), sendo as avaliações realizadas no sétimo
e décimo sexto dia após a semeadura, segundo os critérios
estabelecidos pelas RAS. Os resultados foram expressos em
vol.24, nº.2, 2014
20
porcentagem média de plântulas normais, para cada tratamento
(Brasil, 2009). O delineamento experimental foi em arranjo
fatorial 7 (Testemunha, AG3: 200, 350 e 500 mg.L-1; e KNO3
0,2% 2,5, 3,0 e 3,5 vezes o peso do papel) x 2 (métodos
de avaliação da germinação) x 2 (nuas e peletizadas) com
quatro repetições. Os dados foram analisados pelo Sistema
de Análise Estatística – Sisvar, comparando-se as médias pelo
teste de Tukey a 5% de probabilidade.
modo geral, as mais altas porcentagens de germinação foram
observadas nas sementes tratadas com KNO3, particularmente
quando avaliadas através da metodologia do UC. Nas sementes
nuas não houve efeito benéfico dos tratamentos com AG3 em
ambas as metodologias. Para sementes peletizadas, avaliadas
pela metodologia UC, houve efeito da maior e da menor dose
de AG3, confirmando o comentado por (Leite e Hebling, 2007).
Resultados e Discussão
Tabela 1.Primeira contagem do teste de germinação de
sementes nuas e peletizadas de tabaco do híbrido
CSC 463 tratadas com diferentes doses de ácido
giberélico e de nitrato de potássio, avaliadas por
diferentes metodologias.
Os resultados apresentados na Tabela 1 mostram que os
efeitos positivos dos tratamentos sobre a primeira contagem
do teste de germinação das sementes de tabaco da cultivar CSC
463 foram observados somente em sementes nuas avaliadas
pela metodologia da RAS, onde foi realizada a aplicação
da maior dosagem de KNO3. Em sementes peletizadas não
houve diferença estatística entre os tratamentos. Destaca
se que os valores obtidos na primeira contagem do teste de
germinação das sementes peletizadas foram muito baixos,
indicando que a peletização causa redução da velocidade de
germinação, pois sementes nuas, independente do método de
analise e do tratamento, germinaram muito melhor do que
as peletizadas. Conforme Leubner-Metzger (2003) a ruptura
da testa (tegumento) e a ruptura do endosperma são eventos
distintos na germinação das sementes do tabaco e há fortes
indícios de que ambos são os fatores limitantes na germinação
das mesmas. Assim sendo, a deposição de mais uma camada
sobre o tegumento das sementes pode fazer com que a sua
germinação demore um pouco mais para acontecer.
Os resultados da Tabela 2 indicam que para a germinação
das sementes nuas não houve efeito das diferentes doses de
KNO3, para ambas as metodologias utilizadas na avaliação da
qualidade das sementes de tabaco, sendo que os tratamento
onde se utilizou o KNO3 apresentaram valor semelhante aos
da testemunha. No tratamento com AG3 foram observados
valores inferiores aos da testemunha. Leite e Hebling (2007)
comentam que concentrações supraótimas desse biorregulador
podem ter um efeito deletério como foi verificado por outros
autores em sementes de Hancornia speciosa submetidas
a concentrações de GA3 iguais ou superiores a 0,3 mg.L1
adicionadas ao meio de cultura, que provocaram uma
diminuição na porcentagem de sementes germinadas.
Para sementes peletizadas houve efeito dos tratamentos
com KNO3 em ambas as metodologias, sendo os valores desse
tratamento superiores aos da testemunha. Para a metodologia
UC não houve diferença entre as doses de KNO3, ao passo que
quando se utilizou a metodologia das RAS, a maior dose de
KNO3 obteve a mais alta porcentagem de germinação. De um
Informativo
ABRATES
Sementes Nuas
Tratamento
-1
AG3 200 mg.L
AG3 350 mg.L-1
AG3 500 mg.L-1
KNO3 2,5
KNO3 3,0
KNO3 3,5
Testemunha
Média
CV(%)
UC*
83 Ba
28 Ca
35 Cb
93 ABa
92 ABa
97 Aa
94 ABa
75
9,20
RAS**
61 Cb
9 Db
60 Ca
79 Bb
79 Bb
96 Aa
82 Bb
66
10,9
Sementes Peletizadas
UC*
0 Ac
8 Ab
1 Ac
7 Ac
11 Ac
3 Ab
11 Ac
6
83,4
RAS**
2 Ac
6 Ab
3 Ac
1 Ac
2 Ac
3 Ab
4 Ac
3
77,8
Médias seguidas por mesmas letras maiúsculas na coluna e minúsculas na
linha, não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.
*UC: Umedecimento Contínuo.
** RAS: Regras para Análises de Sementes.
Tabela 2.Porcentagem de germinação de sementes nuas e
peletizadas de tabaco do híbrido CSC 463 tratadas
com diferentes doses de ácido giberélico e de nitrato
de potássio, avaliadas por diferentes metodologias.
Tratamento
AG3 200 mg.L-1
AG3 350 mg.L-1
AG3 500 mg.L-1
KNO3 2,5
KNO3 3,0
KNO3 3,5
Testemunha
Média
CV(%)
Sementes Nuas
UC*
89 Aa
69 Ba
64 Bc
98 Aa
97 Aa
97 Aa
98 Aa
88
4,61
RAS**
61 Cb
19 Db
75 Bb
94 Aa
94 Aa
98 Aa
94 Aa
76
9,46
Sementes Peletizadas
UC*
91 Aa
68 Ba
85 Aa
96 Aa
95 Aa
93Aa
71 Bb
84
14,1
RAS**
37 Dc
69 BCa
79 Bab
70 BCb
64 Cb
96 Aa
34 Dc
64
6,78
Médias seguidas por mesmas letras maiúsculas na coluna e minúsculas na
linha, não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.
*UC: Umedecimento Contínuo.
** RAS: Regras para Análises de Sementes.
vol.24, nº.2, 2014
21
Para as sementes avaliadas pela metodologia das RAS,
não houve efeito dos tratamentos, destacando-se apenas que
a dose de 500 mg.L-1 de AG3 proporcionou porcentagem de
germinação próxima ao padrão de comercialização (Tabela 2).
Analisando os resultados de germinação das sementes nuas e
peletizadas avaliadas pela metodologia UC, observa se que em
todos os tratamentos o desempenho de ambas foi semelhante,
com exceção da dose de 500 mg.L-1 de AG3, onde as sementes
peletizadas tiveram germinação superior às sementes nuas.
Comparando a porcentagem de germinação das sementes
avaliadas por meio da metodologia das RAS (Tabela 2),
observa-se que as melhores respostas foram obtidas para as
sementes nuas, exceção das sementes peletizadas tratadas com
AG3 350 mg.L-1. Ao se comparar o resultado da metodologia
UC com o da metodologia das RAS, observa se que nas
sementes nuas houve diferenças significativas de germinação
na metodologia UC no tratamento com a maior dose de AG3,
e na metodologia das RAS nos tratamentos com as menores
doses de AG3, os quais foram inferiores aos da testemunha.
Ao se analisar a porcentagem de germinação das sementes
peletizadas, observa-se que, de um modo geral, as melhores
respostas foram obtidas com o método UC. O mesmo foi
observado em relação à primeira contagem para as sementes
nuas, onde UC com KNO3 e testemunha foram superiores aos
métodos das RAS.
As análises das respostas da germinação das sementes
de tabaco ao tratamento com ácido indicam que não houve
resposta positiva ao AG3. Os dados obtidos estão de acordo
com as observações de Chacko e Singh (1966), que, ao
trabalharem com giberelina nas doses de 50, 100, 250,
500 e 1000 mg.L-1, concluíram que estas não aumentam
a porcentagem de germinação, embora a concentração de
500 mg.L-1 tenha aumentado a velocidade de germinação.
Resultados semelhantes foram obtidos por (Paz e VazquezYanes,1988; Andreoli e Khan, 1993; Bertocci et al., 1997;
Salomão e Mundin, 2000; Bhattacharya e Khuspe, 2001). No
entanto, dados obtidos por Debaujon e Koornmeef (2000),
indicam que a dormência e a germinação são o resultado
líquido de um balanço entre uma variedade de fatores
promotores e inibidores, incluindo ácido abscísico e ácido
giberélico, os quais têm o embrião e a testa como alvo, e,
portanto têm efeito sobra a germinação das sementes.
Um estudo realizado por Leubner-Metzger (2003) no qual
a testa de sementes de tabaco foi removida mecanicamente
demonstrou que havia crescimento da radícula mesmo na
ausência de luz. Esse fato demonstrou que em sementes de
tabaco a dormência induzida pelo tegumento é mais importante
do que a dormência do embrião, devido à resistência ou à
presença de inibidores químicos.
Informativo
ABRATES
Para Cardoso (2004) a expressão “dormência relativa”
descreve a variação na sensibilidade da semente a fatores
ambientais. Outro exemplo de dormência relativa acontece
quando uma semente precisa da luz para germinar em uma
dada temperatura, mas é indiferente ao estimulo luminoso
sob outra temperatura, as sementes da cultivar CSC 463
nuas, se forem analisadas sob este conceito, se encaixariam
na expressão de “dormência relativa”, pois sem a camada
de pélete a dormência é superada. As condições ambientais
que são desfavoráveis para a germinação e podem induzir a
dormência secundária são anoxia, temperatura e iluminação
inapropriadas, conforme relatado por Bewley (1997), fato que
descreve bem a condição das sementes após a peletização.
Como a peletização é uma camada porosa, mas que
prejudica a incidência de luz, e sendo as sementes de tabaco
conhecidamente fotoblásticas positivas, podemos concluir
como o fez Floss (2006), que o fitocromo ativo ou inativo está
sendo expresso, neste caso como não há germinação (sem luz
não há expressão do fitocromo ativo), ou o fitocromo inativo
está superexpresso ou o ativo está com menor expressão.
Os resultados obtidos na primeira contagem do teste de
germinação do hibrido CSC 231 apresentados na Tabela 3 indicam
que houve efeito positivo dos tratamentos em sementes nuas,
onde foram observadas significativas diferenças, particularmente
para as sementes tratadas com a maior dose de AG3 avaliadas
pela metodologia RAS e maior dose de KNO3 avaliadas pela
metodologia UC. Esses resultados estão de acordo com os obtidos
por Chacko e Singh (1966), Paz e Vazquez-Yanes (1988), Andreoli
e Khan (1993), Bertocci et al. (1997), Salomão e Mundin (2000)
e Bhattacharya e Khuspe (2001), segundo os quais doses de 500
mg.L-1 de AG3, tem efeito sobre a germinação de sementes de
tabaco, particularmente na sua velocidade de germinação.
Trabalho realizado por Yahiro e Oryoji, (1980) em sementes
com sarcotesta semeadas logo após a sua extração do fruto
exigiram elevadas concentrações de GA (1000 mg.L-1) para
alcançar 60% de germinação aos 30 dias, no entanto, para
sementes sem sarcotesta submetidas às concentrações de 100 e
500 mg.L-1 de AG3 obteve-se germinação de 80%, contrastando
com a germinação nula obtida na testemunha. Trabalho realizado
por Leubner-Metzger (2003) indica que a germinação de sementes
de Nicotiana tabacum L. cv. Havana 425 foi determinada pelo
equilíbrio de forças entre o potencial de crescimento do embrião
e da retenção mecânica do endosperma micropilar.
Para as diferentes metodologias utilizadas, nas sementes
nuas e peletizadas a metodologia UC apresentou resultados
superiores aos das RAS em todos os tratamentos.
Franzin e Menezes (2002) observaram que o vigor das
sementes e o material utilizado durante a peletização exercem
influência no desempenho das sementes durante a germinação,
vol.24, nº.2, 2014
22
assim, pode haver redução na velocidade de germinação com
o decorrer do tempo, como observaram em sementes de alface.
Estes fatos podem explicar o baixo desempenho das sementes
peletizadas observados. Os mesmos autores obtiveram atrasos,
de até 48 horas, na emergência das plântulas provenientes
de sementes peletizadas de alface, quando comparadas às
sementes nuas da mesma espécie.
Tabela 3.Primeira contagem do teste de germinação de
sementes nuas e peletizadas de tabaco do híbrido
CSC 231 tratadas com diferentes doses de ácido
giberélico e de nitrato de potássio, avaliadas por
diferentes metodologias.
Sementes Nuas
Tratamento
-1
AG3 200 mg.L
AG3 350 mg.L-1
AG3 500 mg.L-1
KNO3 2,5
KNO3 3,0
KNO3 3,5
Testemunha
Média
CV(%)
UC*
72 CDa
80 ABCa
87 ABa
77 BCDa
85 ABa
88 Aa
70 Da
80
7,07
RAS**
13 Db
16 Db
74 Ab
16 Db
38 Cb
55 Bb
23 Db
34
21,1
Sementes Peletizadas
UC*
1 Ac
2 Ac
3 Ac
3 Ac
1 Ac
2 Ac
1 Ac
2
89,3
RAS**
0 Ac
0 Ac
0 Ac
0 Ac
0 Ac
2 Ac
0 Ac
0
101,8
Médias seguidas por mesmas letras maiúsculas na coluna e minúsculas na
linha, não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.
*UC: Umedecimento Contínuo.
** RAS: Regras para Análises de Sementes.
A resistência mecânica exercida em forma combinada pela
testa e o endosperma, a qual é maior do que a força do potencial
de crescimento do embrião aparece como a principal causa da
dormência fisiológica não profunda em sementes de A. thaliana
e espécies de Solanáceas (Hilhorst, 1995; Bewley, 1997). Pode se
esperar que o mesmo ocorra em sementes de tabaco peletizadas,
devido à maior resistência mecânica imposta pelo pélete.
Os dados relativos às sementes nuas contidos na Tabela
4 indicam que diferenças significativamente maiores que a
testemunha somente foram observadas nos tratamentos com
KNO3 e no tratamento com a maior dosagem de AG3, quando
avaliadas pela metodologia das RAS. Os tratamentos aplicados
às sementes nuas quando analisados pela metodologia UC, não
evidenciaram efeitos significativamente superiores à testemunha.
Analisando os dados obtidos para sementes peletizadas
observa-se efeito significativo de todos os tratamentos,
quando analisados pela metodologia das RAS, especialmente
nas sementes tratadas com KNO3. O mesmo efeito benéfico
do KNO3 pode ser observado nas sementes peletizadas
quando analisadas pelo método UC. Cabe destacar que a mais
Informativo
ABRATES
alta dose de KNO3 permitiu a obtenção de porcentagem de
germinação próxima ao padrão mínimo de qualidade exigido
para a semente de tabaco.
Tabela 4.Porcentagem de germinação em sementes nuas e
peletizadas de tabaco do híbrido CSC 231 tratadas
com diferentes doses de ácido giberélico e de nitrato
de potássio, avaliadas por diferentes metodologias.
Tratamento
AG3 200 mg.L-1
AG3 350 mg.L-1
AG3 500 mg.L-1
KNO3 2,5
KNO3 3,0
KNO3 3,5
Testemunha
Média
CV(%)
Sementes Nuas
UC*
84 Ba
88 Ba
93 ABa
99 Aa
97 Aa
98 Aa
98 Aa
94
3,05
RAS**
52 Db
81 Ca
92 ABa
91 ABa
98 Aa
98 Aa
88 BCb
86
4,72
Sementes Peletizadas
UC*
34 Dc
46 Cb
32 Db
56 Bc
73 Ab
50 BCc
32 Dc
46
21,6
RAS**
30 Bc
36 Bc
28 Bb
75 Ab
13 Cc
80 Ab
0 Dd
37
13,2
Médias seguidas por mesmas letras maiúsculas na coluna e minúsculas na
linha, não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.
*UC: Umedecimento Contínuo.
** RAS: Regras para Análises de Sementes.
Comparando as diferenças na porcentagem de germinação
entre sementes nuas e peletizadas, se observa que os resultados
obtidos para as nuas foram superiores aos das peletizadas
em todos os tratamentos. Esses resultados demonstram um
típico caso de dormência, decorrente da camada feita sobre
o tegumento pela peletização. Este fato está de acordo com
o relatado por Leubner-Metzger, (2003), que, estudando a
maturação de sementes de tabaco (N. tabacum), constatou
que o embrião é cercado por três a cinco camadas de células
de endosperma e uma fina testa (tegumento), que consiste
em uma camada exterior de células mortas cutinizadas e
lignificadas e uma camada de células vivas da testa no interior.
Parece existir um mecanismo de recuperação do poder
germinativo das sementes, no período compreendido entre as
duas contagens, pois especialmente nas sementes tratadas com
KNO3 estas diferenças superam a casa dos 70%. Este tipo de
comportamento também foi observado por Silva et al. (2002),
os quais afirmam que essas diferenças, no entanto, já não são
perceptíveis na massa das mudas após 20 dias de cultivo.
Efeitos benéficos de nitrato também foram observados
por Roberts (1972), o qual afirmou que o efeito isolado do íon
nitrato pode ser pouco significativo; no entanto, em interação
com luz e, mais ainda, com temperaturas alternadas, o efeito
estimulador aumenta fortemente, chegando a mencionar casos
em que o nitrato pode até substituir a necessidade de luz.
vol.24, nº.2, 2014
23
Conclusão
Os dados obtidos na execução do presente trabalho
permitem concluir que: a peletização reduz a velocidade
de germinação de sementes de tabaco; a germinação das
sementes peletizadas de tabaco deve ser conduzida em
substrato umedecido com nitrato de potássio; a capacidade
de germinação das sementes de tabaco peletizadas é melhor
avaliada com a utilização da metodologia que preconiza o
umedecimento continuo do papel substrato, e a peletização
pode se constituir em um fator de inibição da germinação das
sementes de tabaco.
Referências
ANDREOLI, C.; KHAN, A.A. Improving papaya seedling emergence
by matriconditioning and gibberellin treatment. HortScience, v.28, n.7,
p.708-709, 1993. Disponível em: http://hortsci.ashspublications.org/
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vol.24, nº.2, 2014
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