Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 EVOLUÇÃO BIOLÓGICA NO VESTIBULAR: ANÁLISE DOS CONTEÚDOS E NÍVEIS DE COMPLEXIDADE ENCONTRADOS NOS EXAMES DA UERJ E FUVEST Autores: Adrian Evelyn Lima Henriques¹, Luís Fernando Marques Dorvillé¹ Instituição: ¹UERJ / FFP - Faculdade de Formação de Professores da UERJ (Rua Francisco Portela, 1470 - Patronato, São Gonçalo - RJ) Resumo: Este trabalho realizou uma análise dos conteúdos evolutivos encontrados em questões dos vestibulares da Fundação Universitária para o Vestibular (FUVEST) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), de 2000 a 2013. Procurou-se então descobrir respostas para as três perguntas norteadoras da pesquisa: 1.Qual o papel ocupado pela evolução biológica nos vestibulares analisados? 2.Que tipo de conhecimento sobre o tema é esperado dos candidatos? 3.Que tipo de processos cognitivos espera-se que dominem? Os dados permitiram traçar um perfil de cada um dos exames, destacando o caráter mais seletivo da FUVEST, que baseia sua abordagem em questionamentos sobre as evidências evolutivas, enquanto a UERJ prioriza abordagens mais generalistas com questões relacionadas aos mecanismos evolutivos. Palavras-chaves: Evolução Biológica; Ensino de Biologia; Avaliação; Vestibular. Introdução A evolução biológica figura na Biologia como um eixo central que estrutura as diversas áreas de conhecimento dessa Ciência, uma vez que a compreensão de seus conceitos e mecanismos leva a um entendimento mais aprofundado e à articulação de seções tão diversas quanto a Ecologia, Anatomia, Paleontologia, Genética Molecular e Bioquímica, dentre outras (FUTUYMA, 2009; RIDLEY, 2006). Por esse motivo a evolução é apontada por diversos documentos norteadores de currículo como a base para o processo ensinoaprendizagem dos conteúdos biológicos ministrados em sala de aula, tais como os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio – PCN-EM (BRASIL, 2000) e as Orientações Curriculares para o Ensino Médio – OCNs (BRASIL, 2008). Além disso, a temática evolutiva discute não apenas a diversidade de vida no planeta, mas também contribui para a construção de um espírito crítico e analítico daqueles que a estudam (EL-HANI & MEYER, 2005; CARLETTI & MASSARANI, 2011). Sendo assim, 31 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 “o aprendizado da Biologia deve propiciar, em síntese, que o estudante desenvolva uma nova perspectiva de olhar: observe a realidade (próxima ou mais distante), compreenda suas características e seus condicionantes e, o principal, que enxergue, nessa realidade, as possibilidades de mudança. Dessa forma, estaremos colaborando para a construção de personalidades críticas e criativas. Estaremos, assim, construindo cidadãos” (BRASIL, 2001, pág. 53). Embora orientações gerais como essas procurem normatizar um processo de ensino que na prática enfrenta muitas realidades distintas, sofrendo múltiplas influências em sua implementação, a centralidade do conceito de evolução biológica e seu potencial articulador, por si só, justificam a orientação fornecida por esses documentos oficiais. Entretanto, diversas pesquisas apontam problemas no ensino do conceito evolutivo na escola básica, identificando como causas dessas dificuldades a falta de preparo dos professores de Ciências e Biologia, falhas nos materiais didáticos, carga horária insuficiente, afastamento do tema em relação à realidade dos alunos, implicações religiosas e preconceitos relacionados à disciplina (BIZZO, 1991; DANIEL, 2003; CARNEIRO, 2004; BONZANNI & BASTOS, 2007; MARTINS et al., 2009; AMORIM & LEYSER, 2009). Diante da importância desse tema para ensino de Ciências e Biologia, esta pesquisa se propõe a analisar os conteúdos relacionados à evolução e os níveis de complexidade com que estes foram abordados em dois exames de acesso ao ensino superior nos anos 2000 a 2013: Fundação Universitária para o vestibular (FUVEST) e Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). A análise procurou investigar as três questões centrais que nortearam essa pesquisa: 1. Qual o papel ocupado pela evolução biológica nos exames de vestibular analisados? 2. Que conhecimento sobre o tema é priorizado? 3. Em que nível de exigência eles aparecem? Uma consequência imediata é a construção de perfis diferentes de modelos de seleção, apontando para seus pontos positivos e limitações, a partir da análise dos conteúdos evolutivos. A escolha da análise de questões de vestibular se justifica diante da importância assumida por esse exame, uma vez que atualmente os conteúdos e procedimentos exigidos pelas avaliações que têm como objetivo o ingresso em universidades públicas podem vir a exercer grande influência sobre processo de ensino-aprendizagem e sua dinâmica nas salas de aulas de muitas instituições (AMAURO, 2004; BARBOSA, 2012). Vestibular no Brasil: Meritocracia e Selecionismo Educacional A Lei de Diretrizes e Bases nº 9.394 – LDB (BRASIL, 1996) tem como objetivo para o Ensino Médio a consolidação e o aprofundamento de conceitos e conteúdos adquiridos no Ensino Fundamental, preparando assim o estudante para o mercado de trabalho, o convívio 32 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 social, exercício de sua cidadania e o prosseguimento dos estudos em níveis superiores de ensino. No entanto, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010) afirmam que apenas 45,8% dos jovens brasileiros entre 20 e 24 anos possuem ensino médio completo e apenas 11,3% jovens acima de 25 anos têm ensino superior. O vestibular brasileiro foi criado no começo do século XX, tendo sua trajetória marcada por eventos que extrapolam o âmbito educacional, como interesses políticos, econômicos e sociais. Em sua primeira conformação tinha caráter de habilitação, onde se avaliava os conhecimentos adquiridos pelos candidatos ao longo do ensino médio através de um conjunto de provas, e aqueles que fossem aprovados poderiam dar prosseguimento aos estudos. Em 1925 o modelo de habilitação dá origem ao caráter classificatório, no qual os candidatos deveriam competir pelo número de vagas disponíveis. Em 1931 o exame passou a ser direcionado por área de curso e certas disciplinas adquiriram status de pré-requisitos. Nesse contexto a entrada na universidade passou a exercer uma enorme influência sobre o currículo ministrado em muitas das salas da educação básica (AMAURO, 2004). Provas objetivas, também chamadas de prova de múltipla escolha, foram introduzidas ao exame em 1965 com o objetivo de verificar comportamentos cognitivos e conteúdos gerais, passando a conferir ao mesmo a imagem de um “teste de memória”. O número reduzido de vagas em relação ao de candidatos levou o vestibular ao caráter que ainda hoje apresenta: provas com alto grau de dificuldade e que privilegiam as camadas populacionais com maior poder aquisitivo. Segundo Ribeiro-Neto (1987), os cursos de maior prestígio social passaram a ser ocupados por candidatos oriundos de classes sociais mais elevadas, enquanto aqueles menos prestigiados iam sendo preenchidos por alunos de classes mais baixas. Dessa maneira fica valendo a meritocracia, pois apenas os melhores colocados são selecionados (MELLO, 2000). Segundo Borges e Carnielli (2005) este mecanismo servia muito bem aos interesses da elite detentora de privilégios sociais, pois o sistema educacional não apenas se ocuparia da transmissão de conteúdos sistematizados, como traria subjacente um modelo cultural e ideológico no qual se perpetua a reprodução e manutenção da hierarquia e estratificação social estabelecida. Na mesma direção Akkari (2001) apresenta a dualidade público/privado como a melhor forma de se avaliar o sistema educacional brasileiro. Nele a rede particular recebe e prepara os filhos das classes dominantes durante toda a educação básica, preparando-os para o ingresso em níveis mais elevados de ensino, enquanto que a rede pública acolhe os filhos das classes dominadas, os quais, se não o abandonarem por diversos motivos, ao término dos estudos irão integrar o mercado de trabalho. 33 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Atualmente o exame adota como forma de seleção o modelo de competências e habilidades. Perrenoud (2000) define competência, dentro da área de educação, como “capacidade de mobilizar diversos recursos cognitivos para enfrentar um tipo de situação”. Esse conceito aparece em documentos oficiais de orientação da educação brasileira, como a LDB (1996) e o PCN+ (2000) indicando um caminho de apropriação de conhecimentos teóricos e formas de empregá-los na interpretação de fenômenos e situações propostas pelas disciplinas estudadas. A estas formas denominam-se habilidades, que de acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP – configura uma competência de ordem particular e especifica (INEP, 2005. p.20). Essa conformação, segundo seus defensores, romperia com a visão de que o vestibular não passa de um teste de memória mais elaborado. Segundo Amauro (2004), apesar das muitas mudanças ocorridas na conformação do exame de vestibular, a essência do processo se manteve constante: classificar e selecionar um alunado que domine determinados conteúdos de ensino. De acordo com Ribeiro-Neto (1987) a relação entre a Educação Básica e o exame de vestibular se torna complexa quando ela passa a considerar essa forma de avaliação não apenas como uma maneira de selecionar alunos para o ensino superior, mas também como um instrumento de normatização e orientação do sistema de educação brasileiro. Essa postura transforma muitas vezes o currículo empregado na sala de aula em um “esqueleto” sem significação própria, descontextualizado da realidade do alunado e preocupado em formar não para a vida social, mas sim para a realização de provas e exames de vestibular (AMAURO, 2004). Metodologia O estudo se pautou por uma perspectiva quantitativa, cujo desenvolvimento se deu em três etapas: leitura preliminar de todas as questões de Biologia dos vestibulares analisados, a fim de identificar aquelas relacionadas à evolução biológica; classificação das questões a partir do modelo de divisão e classificação de conteúdos evolutivos encontrados no PCN+ (BRASIL, 2000); categorização das questões segundo os procedimentos da Taxonomia de Bloom revisada por Anderson et al. (2001). O emprego da classificação dos conteúdos segundo as orientações encontradas no PCN+ (BRASIL, 2000) nos permite avaliar com mais detalhe o conteúdo evolutivo, uma vez que ele pode ser tratado a partir de diferentes enfoques em vez de tratado como uma totalidade (Quadro 1). Quadro 1: Estrutura de Classificação dos Conteúdos Evolutivos segundo o PCN+. Paradigma Evolucionista Mecanismos de Ação Evidências Evolutivas 34 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Seleção Natural Genética de Significado Histórico Lamarckismo Darwinismo Populações Formação de Novas Espécies Filogenia e História da Vida Convergência Evolutiva Bioquímica Básica Anatomia Comparada Biogeografia Paleontologia Para a investigação dos níveis de complexidade encontrados nas questões analisadas utilizamos a Taxonomia de Objetivos Educacionais: Domínio Cognitivo, proposta por Bloom e modificada por Anderson et al. (2001), encontrada no Quadro 2. Esta forma de utilização da Taxonomia de Bloom permite a visualização dos níveis de dificuldade em que as questões examinadas podem ser classificadas, pois aloca os processos cognitivos empregados para a execução e resolução das tarefas em quatro níveis crescentes de abstração e complexidade, permitindo assim a identificação dos níveis de pensamento necessários à resolução de questões. Quadro 2: Estrutura da Taxonomia de Bloom modificada por Anderson et al. (2001). Complexidade e Abstração Quarto Nível Terceiro Nível Segundo Nível Primeiro Nível Processo Cognitivo Criatividade: Produzir / Criar Julgamento: Avaliar / Criticar Compreensão: Analisar/Aplicar/Entender Memorização: Reconhecer/Identificar/Lembrar Análise e Interpretação dos Resultados Foram analisadas 69 questões sobre evolução nos dois exames (49 na FUVEST e 20 na UERJ), sendo 31 questões de múltipla escolha na FUVEST e seis na UERJ (Tabela 1), enquanto o número de discursivas somou 18 na FUVEST e 14 na UERJ (Tabela 2). Enquanto na FUVEST o tema Evolução Biológica apareceu em quase todos os anos, exceto em 2005, com um número de questões de um a cinco por ano, na UERJ a abordagem foi bem menos frequente e constante, tendo normalmente uma questão por ano, quando o tema apareceu, exceto em 2003, que teve duas questões. Tabela 1: Distribuição de questões de múltipla escolha que abordam evolução nos exames de vestibular da FUVEST e UERJ entre os anos 2000 e 2013. ANO 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 FUVEST 3 1 2 1 1 - 1 2 4 3 5 5 1 2 EVOLUÇÃO 35 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 UERJ 1 - - 2 1 V Enebio e II Erebio Regional 1 - - - 1 - - - - 1 EVOLUÇÃO O mesmo se repetiu na fase discursiva, com uma a três perguntas por ano na FUVEST, exceto em 2004 e 2008, quando o tema não foi cobrado. A UERJ abordou mais o tema do que na primeira fase, apresentando de uma a duas questões por ano, quando o tema se fez presente. Entretanto, assim como na primeira fase, o tema foi menos frequente e constante do que na FUVEST. Tabela 2: Distribuição de questões discursivas que abordam evolução nos exames de vestibular da FUVEST e UERJ, entre os anos 2000 e 2013. ANO 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 FUVEST EVOLUÇÃO 1 2 1 1 - 2 1 1 - 3 2 1 1 2 UERJ EVOLUÇÃO - 1 - 1 1 - 2 1 1 1 2 3 - 1 Em relação aos conteúdos evolutivos a prova da FUVEST centra seus questionamentos em Evidências (64%), seguida de Mecanismos (21%), enquanto que perguntas sobre história do pensamento evolutivo e significado da evolução, alocadas na categoria Paradigma, correspondem ao menor índice de cobrança (15%). Um quadro diferente é encontrado para o exame da UERJ, em que predominam questões sobre Mecanismos (60%), seguidas da categoria Paradigma (30%), enquanto aquelas que se ocupam de Evidências somam apenas 10% do montante final. A análise das questões da FUVEST pela Taxonomia de Bloom modificada (Fig. 1) revela a prevalência dos processos cognitivos alocados nas categorias Compreensão (72%) e Memorização (22%), seguidos de Criatividade (4%) e Avaliação (2%). Observa-se assim que nele a maioria das questões se situou no nível 2 de complexidade. Para a UERJ (Fig. 2) observa-se uma distribuição bem mais equilibrada entre as categorias Compreensão (50%) e Memorização (45%). A categoria Criatividade está representada por 5% das questões, enquanto não ocorre nenhuma questão referente à Avaliação. Dessa forma observa-se que há prevalência dos níveis 1 e 2 de complexidade de suas questões. 36 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Figura 1. Distribuição percentual dos processos cognitivos correspondentes aos níveis de complexidade propostos pela Taxonomia de Bloom modificada (Andersonet al., 2001) para a prova da UERJ entre os anos 2000 e 2013. . A partir destes resultados, podemos perceber que o vestibular da FUVEST procura selecionar alunos capazes de realizar operações mais complexas e sofisticadas do que a simples memorização. Assim sendo, há a clara preocupação em selecionar candidatos que consigam não apenas reconhecer e identificar conteúdos e conceitos, mas que possam também entender e interpretar as informações dos enunciados das questões, além de possuírem a capacidade de julgar essas informações, realizar inferências e produzirem uma nova mensagem a partir do que foi proposto pelas perguntas. Figura 2: Distribuição percentual dos processos cognitivos correspondentes aos níveis de complexidade propostos pela Taxonomia de Boom modificada (Anderson et al., 2001) para a prova da UERJ entre os anos 2000 e 2013. Cantileno & Trivelato (2001) afirmam que entre 1996 e 2000 mais de 50% da clientela do vestibular da FUVEST consistia de jovens oriundos de níveis sociais mais elevados, egressos da rede particular de ensino e que não contribuem com dinheiro para as despesas da casa, aonde um ou mesmo os dois pais possuem nível superior completo. Assumindo que esses dados não tenham sofrido relevante mudança e aliando a essa análise a alta relação candidato/vaga média desse exame, infere-se que a clara preocupação com o domínio da 37 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 capacidade de compreensão dos conteúdos por parte do aluno está relacionada ao publico alvo do exame, situado entre os setores mais intelectualizados das camadas mais abastadas. No que se referem à UERJ nossos dados mostram que o exame se porta de maneira bem mais generalista que o da FUVEST, uma vez que os níveis de complexidade de suas questões se distribuem de maneira mais equitativa entre os níveis 1 e 2 da Taxonomia de Bloom. Tal fato revela uma preocupação em selecionar alunos que evocam e recuperam terminologias de seu acervo pessoal quase que na mesma proporção daqueles que interpretam e analisam conteúdos e informações, sendo mais capazes de realizar operações mais complexas. Infere-se que o caráter mais generalista adotado pelo exame advém de uma política de maior acessibilidade ao ensino superior, sendo importante lembrar que instituição foi a primeira no país a adotar uma lei de reserva de vagas para minorias que histórica e socialmente sofreram e sofrem desvantagens e marginalizações (Mendes & Souza, 2011). Considerações Finais Sabendo-se, como já enfatizado, do impacto que os exames de vestibular apresentam na educação básica do país, particularmente no Ensino Médio, entende-se que se esses processos seletivos dão um destaque maior ao tema, há grandes chances do mesmo encontrar mais espaço no conteúdo das disciplinas de Ciências e Biologia. Entretanto, se a sua presença nesses exames for pequena, é provável que o tema, por si só já bastante difícil de ser trabalhado, tenha pouco destaque durante o ensino básico. Alunos e professores muitas vezes direcionam seus esforços para os temas e procedimentos mais recorrentes, minimizando a dedicação àqueles menos abordados, o que pode gerar falhas significativas na formação dos alunos, especialmente quando afeta conceitos centrais como os relacionados à evolução. Nesse sentido, a análise geral dos dados revela que o exame da FUVEST disponibiliza um espaço maior para conteúdos evolutivos do que a UERJ, tanto em um número maior de questões sobre em cada ano analisado, quanto em uma presença mais constante. Tal fato pode ter como uma de suas consequências uma menor ênfase sobre o tema no ensino de Ciências e Biologia nas instituições de ensino básico no Estado do Rio de Janeiro, de onde provém a maior parte dos candidatos da UERJ. Nossa análise também revela que o vestibular da FUVEST apresenta um caráter mais seletivo, mostrando que o exame se preocupa em selecionar candidatos capazes de realizar operações mentais mais complexas durante a resolução das questões e que o enfoque destas centra-se na avaliação do conhecimento dos mesmos sobre evidências e provas do processo evolutivo. O exame da UERJ, por outro lado, apresenta predileção por conteúdos envolvendo 38 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 mecanismos e formas pelas quais a evolução acontece, a partir de uma abordagem mais generalista, com questões com um nível de complexidade menor. Desse modo, embora com um espaço maior para questões de memorização do que a FUVEST, a UERJ é capaz de explorar questionamentos mais sofisticados de um modo mais inclusivo, uma vez que questões sobre as evidências do processo evolutivo se mostram potencialmente mais fáceis de serem compreendidas e executadas do que aquelas que exigem a correta compreensão dos mecanismos evolutivos. Referências AKKARI, A.J. Desigualdades educativas estruturais no Brasil: entre Estado, privatização e descentralização. Educação & Sociedade, 22: pp.163-189. 2001. AMAURO, N. Q. Caracterização do nível de conhecimento químico dos alunos egressos do ensino médio brasileiro. 2004. Dissertação de Mestrado. Instituto de Química de São Carlos, Universidade de São Paulo: São Paulo, 2004. AMORIM, M. C. & LEYSER, V. Ensino de Evolução Biológica: Implicações Éticas da Abordagem de Conflitos de Natureza Religiosa em Sala de Aula. 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